Como o Deus Justo Pode Justificar o Homem Injusto? Meditações sobre a Justificação, por Paul Washer

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[Excerto do Sermão O Verdadeiro Evangelho do Senhor Jesus Cristo • Paul David Washer]

 

A “Acrópole da Fé Cristã”

 

Vamos ao Livro de Romanos, capítulo 3, versículos 23-27:

 

23 Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; 24 Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus. 25 Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; 26 Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus. 27 Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé.

 

Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones e outros, chamam esse texto de “Acrópole da Fé Cristã”. A “Cidade Fortificada”, a “Cidade Edificada na Montanha”. Muitos teólogos têm dito que se perdessem toda a Bíblia e pudessem manter apenas um texto, seria esse, porque esse texto é uma porção, um fragmento, uma semente do Evangelho. Agora, apesar de existir aqui teologia suficiente para nos manter estudando por toda a eternidade, por que eu digo que é uma semente ou fragmento do Evangelho?

 

Deixe-me compartilhar uma coisa muito, muito importante, antes de iniciar o sermão. Muito do que é falado hoje sobre a segunda vinda [de Jesus]; todo mundo quer saber sobre a segunda vinda, mas você vai entender tudo sobre a segunda vinda no dia em que ela acontecer; “quando vai acontecer isso” e “quando Ele vai fazer isso”, e “quais serão exatamente os sinais que mostrarão Ele fazendo as coisas que Ele vai fazer na segunda vinda”. Mas, você levará uma eternidade de eternidades no Céu e ainda não começará a compreender o Evangelho de Jesus Cristo. Não é uma mensagem entre muitas, é a mensagem das Escrituras e a mensagem do Cristianismo. Mas, o triste é que não está sendo mais a mensagem da igreja na América e, eu posso provar a você. Vá até todas essas suas livrarias. Se pensarmos em duzentos ou 300 anos atrás, nós veríamos que, quando eles falavam de Cristianismo, era sobre o Evangelho. Os livros que foram escritos por Spurgeon, pelos Puritanos, por Jonathan Edwards, eram sobre “O que é o Evangelho”, “Como podemos compreender o Evangelho?”, “Como devemos pregar o Evangelho?”, “O que é a verdadeira conversão?”, “Como realmente podemos saber quando alguém verdadeiramente nasceu de novo?”. Vá a alguma de suas livrarias evangélicas de hoje e tente achar algum desses temas valiosos. Você não encontrará nada. Só há coisas como “Como fazer isso” e “10 passos para aquilo”.

 

Hoje, muito tem sido feito sobre discipulado, e eu acredito que devemos fazer discipulado, mas eu sempre escuto as pessoas dizendo: “Nós temos tantas pessoas entrando pela porta da frente da igreja, mas no momento que elas entram, elas saem pela porta de trás. E a razão pela qual elas não estão ficando é porque não estamos discipulando-as”. Isso não é verdade! A razão pela qual elas não ficam é porque nunca nasceram de novo. Nós as fazemos tomar uma decisão. Nós as fazemos levantar as mãos, mas suas vidas nunca mudam. Nós precisamos fazer discipulado pessoal? Claro que sim. Mas, se Deus salva um homem, Aquele que começou a boa obra nele, há de completá-la.

 

Por que há tão pouco poder hoje? Porque não conhecemos o Evangelho, porque não nos preocupamos com a verdadeira conversão, porque não nos importamos com as coisas importantes, mas nós as substituímos, com o próprio uso da mídia no culto, com certo tipo de canções para deixar todo mundo “no clima”, com pregações superficiais, que nos falam tudo o que queremos ouvir para que tenhamos a nossa “melhor vida agora”, porque na verdade é isso o que queremos, mais do que Deus. Não há poder porque o Evangelho está esquecido, traga o Evangelho de volta e você verá o poder de Deus se movendo sobre a vida de homens, mulheres e crianças. O Evangelho simples.

 

Agora, vamos ver o texto: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Nós não entendemos completamente o que isso significa, porque se você compreendesse, você estaria tremendo em terror, porque você sabe que não está condizente com você, ou você estaria se regozijando quase fora de controle, por entender do que Deus te salvou.

 

Todos pecaram! Por que isso não nos move? Porque não entendemos a repulsiva natureza do pecado. E, por que nós não entendemos a natureza repulsiva do pecado? Porque nós não sabemos quem Deus é. Nós não conhecemos a Deus.

 

Eu estou espantado, eu viajo por esse país e pelo mundo e falo com líderes em seminários e em institutos bíblicos, e fazem a pergunta: “Quantos semestres seus estudantes estudam a própria teologia, simplesmente a doutrina de Deus?”. “Bem, nós estudamos isso em um mês”. Quantos sermões hoje são sobre a doutrina de Deus? Se pudesse fazer um exame aqui nesta noite e desse a cada um de vocês um pedaço de papel e dissesse para vocês “Escreva para mim as doutrinas de Deus, clássicas, históricas e teológicas: Faça para mim uma lista das características e atributos de Deus e me dê uma explanação bíblica sobre Deus”. O povo de Deus padece por falta de conhecimento. Em todos esses ajuntamentos que têm sido feitos, em todo esse conhecimento, em todos esses livros, em todas essas livrarias, em todos esses vídeos, em todas essas conferências, há alguém falando simplesmente sobre Deus?!? Sobre quem Ele é?

 

Esta é a razão pela qual a manhã de domingo, na América, é o maior momento de idolatria de toda a semana. Por quê? Porque a maioria das pessoas que ao menos adoram a deus, adoram um deus que não conhecem. Adoram a um deus que se parece mais com Papai Noel do que o Deus das Escrituras. Eles adoram um deus que é uma invenção de suas próprias imaginações. Eles criaram um deus ao seu próprio gosto e adoram esse deus criado por eles mesmos. Por que isso? Novamente voltamos ao púlpito. No púlpito, não estamos fazendo o que deveríamos estar fazendo. E o que devíamos estar fazendo? Ensinando os homens sobre Deus, para que eles conheçam, sob a luz da Sua revelação, onde eles se firmam e do que eles precisam. Todos pecaram!

 

Westminster nos diz que pecado significa falta de conformidade à Lei de Deus. Um desvio da vontade de Deus. Um desvio das características manifestas de Deus. Imagine isso por um momento. Deus está lá de pé, na criação do universo, e Ele diz: “Estrelas, coloquem-se nos lugares que eu determinei para vocês”. E todas as estrelas da criação se curvam e dizem: “Amém”. “Planetas, se alinhem nos círculos que eu desenhei para vocês e permaneçam lá até que eu diga outra palavra. Movam-se exatamente como Eu lhes ordeno”. E eles se curvam e adoram. Ele disse às montanhas que se levantassem. Ele disse aos vales que se lançassem abaixo. E eles tremem diante dEle. Ele disse aos mares: “Venham até este ponto, mas daqui não passem”. E os mares O obedecem. Mas, Ele olha para o homem. Ele olha para você e diz: “Venha”. E você diz: “Não!”.

 

Em qualquer debate, em qualquer palestra em universidades, o problema com o inferno, na mente da maioria dos homens, é sobre a duração eterna: “Como pode haver punição para sempre?”, “Como pode ser uma punição eterna tão desprezível colocada sobre o homem?”. Porque eles têm pecado contra o Deus infinitamente digno! O crime é punido com tamanha severidade, porque é um crime severo, é um crime severo devido ao fato de contra quem eles têm se rebelado. Contra o Deus da glória! E se os homens não entendem a infinita excelência desse Deus, eles não conseguem entender a repulsiva natureza de seus pecados.

 

Ainda hoje ouvi um pastor dizer: “Nós não falamos sobre pecado em nossa igreja”. Então, eu posso dizer a ele que o Espírito Santo de Deus não está atuando nessa igreja, nem em seus ministérios. Por quê? Porque um dos principais ministérios do Espírito Santo é convencer o mundo do pecado, então se você não fala muito sobre o pecado, pode contar que o Espírito Santo não está “muito” no seu ministério.

 

Mas, o que significa dizer pecado? Não significa nada. Nós vivemos em um país que bebe iniquidade como se fosse água. Os peixes não sabem que estão molhados. Os homens também não sabem o que é pecar contra Deus, e por esta mesma razão — preste atenção, vocês que serão pregadores algum dia — nós não devemos ter o espírito mesquinho, buscando caprichosamente machucar as pessoas ou quebrantá-las, mas saiba isto: se você vai explicar corretamente a Palavra, você deve enfatizar o pecado. Você deve expor o pecado. Você deve definir o pecado, deve explicá-lo especificamente, para que a Palavra de Deus penetre no coração do homem. Eu posso provar meu ponto de vista sobre isso: nós não temos uma teologia sistemática nas Escrituras, mas o que chega mais perto disto é o livro de Romanos. E, se você for perceber nesse grande tratado do apóstolo Paulo, ele gasta os três primeiros capítulos trabalhando com toda sua mente para fazer uma coisa: condenar o mundo inteiro. Este é o trabalho dele.

 

Vamos ver Romanos 3:19: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus”. Os homens precisam ouvir uma pregação que fale sobre a realidade de seus problemas, em termos que eles possam entender e dos quais eles não possam escapar. Sempre uso esta ilustração: se eu balançar algumas chaves na frente do microfone nesta noite, provavelmente não deixará você feliz. Provavelmente não encherá seu coração de alegria e por que isso? Porque você não está preso em um calabouço, para ser executado. Mas, se você estivesse trancado em um calabouço, sabendo que a sentença de morte está sobre sua cabeça, então o som das chaves traria alegria ao seu coração.

 

Eu digo a você, o homem não pode apreciar o Evangelho, devido ao modo que pregamos. Deixe-me perguntar algo: Ao meio-dia de hoje, nessa tarde, para onde foram todas as estrelas? Será que alguém as colocou em uma cesta e as levou embora? Para onde elas foram? Elas estão lá. Por que você não pode vê-las? Devido a toda luz. Mas, as estrelas e sua respectiva beleza são mostradas na escuridão, não é mesmo? O mesmo pode ser dito sobre a graça de Deus e o Evangelho de Jesus Cristo. Você quer que a graça seja vista? Então, ajude a pintar uma noite negra e escura para que os homens possam ver o que eles são. E, vendo o que eles verdadeiramente são, tendo os seus corações expostos, eles verão sua necessidade de um Salvador. Mas, enquanto você brinca com eles, afaga-os, e protege a tão chamada “autoestima”, você está, ao mesmo tempo, condenando a alma deles ao inferno.

 

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Os homens não são apenas rebeldes. Eles são deslocados do que eles deveriam ser. Eles perverteram inteiramente seu ser e o curso de suas vidas. Por que nós fomos feitos? Por qual razão nosso coração bate? Por qual razão nosso peito se enche e se esvazia de ar? Existe apenas uma razão: é para Deus! Homens não foram feitos para o homem. Este mundo não foi feito para o homem. O homem foi feito para Deus. E sem Ele os homens estarão destituídos e desviados e sem esperança.

 

Não é incrível? Eu passei grande parte da minha vida no terceiro mundo, eu acabei de retornar da minha segunda casa: Peru. Eu estive lá por um mês pregando. A pobreza, às vezes, no terceiro mundo, é absolutamente estarrecedora. Irmãos e irmãs em Cristo sofrendo tanto. Mas, quando eu volto aos Estados Unidos, eu vejo algo. Vejo que nós, como americanos, os Cristãos mais ricos que já andaram sobre a terra, nós somos os Cristãos mais protegidos que já andaram sobre a terra e também os mais vazios que já andaram sobre a face da terra. Você vai a uma dessas chamadas “livrarias cristãs” de hoje, 75% dos livros que estão lá tratam de quão vazios nós somos. E por que nós somos vazios? Nós somos vazios pelo mesmo motivo que Jesus nunca foi vazio. Ele disse: “Tenho uma comida que vês não conheceis. A minha comida consiste em fazer a vontade do meu Pai” (ver João 4:34).

 

Mais e mais, as igrejas evangélicas têm se tornado humanistas. Tudo diz respeito ao homem! Nós apenas pronunciamos algumas palavras Cristãs, como que para batizar, para parecer Cristão, mas tudo diz respeito a você. Tudo diz respeito às necessidades que você sente. Tudo diz respeito a sua autoestima. Não! Isso é um abismo infinito que vai sugar cada grama de vida que há em você. Você não precisa de autoestima, você precisa de conhecimento de Deus. Na verdade, longe de Cristo você não deve ter nenhuma autoestima e nEle, você sabe, somente nEle, a sua vida está correta.

 

Os homens precisam de Deus. E precisam se voltar para Deus. E somente, então, suas vidas serão corrigidas. Tudo diz respeito a Ele. Seu coração bate por Ele. Você recebeu fôlego para Ele. Você recebeu força para Ele. Você recebeu uma mente para Ele. Você recebeu tudo que recebeu para Ele! E, é apenas vivendo para Ele, que você encontrará propósito ou significado. E, mesmo assim, você não encontrará propósito e significado se o seu objetivo for encontrar propósito e significado, pois seu objetivo deveria ser Sua glória, ainda que para alcançar essa glória, todo propósito seja destruído em sua vida. Tudo diz respeito a Ele. Não a nós. E esse é o problema fundamental da humanidade. O problema fundamental do cristianismo americano, pois agora é tudo a nosso respeito.

 

Em uma igreja que eu estava ouvindo recentemente, que havia crescido, sendo muito grande, alguém perguntou ao pastor: “O que você está fazendo?”. Ele respondeu: “Apenas suprindo todas as necessidades das pessoas”. Isso não é a igreja. O que acontece quando você não pode suprir todas as necessidades? O que acontece quando há soldados às portas, dizendo: “Se você confessar a Cristo, tirarei essa casa bonita que Jesus te deu, eu tirarei esses carros que Jesus te deu, eu tirarei essas roupas que Jesus te deu”? Se você edifica igrejas e edifica o “cristianismo” em torno disto — “Jesus suprirá todas as suas necessidades” — você não terá o Cristianismo! Você terá um humanismo exaltado e Jesus como um servo do homem.

 

Os pregadores antigos davam uma lição hipotética, gostando de dizer isso: Você deveria acreditar em Jesus Cristo. Você deveria se arrepender e servi-lO, mesmo que Ele o mandasse para o inferno, porque Ele é digno de arrependimento, Ele é digno de fé, Ele é digno de ser servido, mesmo que você não ganhe nada em troca.

 

Você entende este tipo de Cristianismo, onde tudo se refere a Ele e não aos homens?

 

 

Justificação

 

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Agora, falando dos verdadeiros crentes, ele disse: são justificados.

 

O que significa ser justificado? Significa o momento em que a pessoa coloca sua fé em Cristo Jesus e passa a ser justa? Não, pois se fosse assim, essa pessoa jamais pecaria novamente.

 

Justificação, ser justificado, é um termo legal ou forense, que significa o momento em que a pessoa coloca sua fé em Jesus Cristo, Deus legalmente declara essa pessoa reta diante dEle. É uma declaração legal vinda diretamente do trono de Deus: “Esse pecador está justificado. Ele está legalmente reto diante de mim”.

 

Agora, como somos justificados? Essa é a questão dos séculos: “Gratuitamente, pela Sua graça” (Romanos 3:24). Agora, quero que você saiba algo aqui, diz: “Sendo justificados gratuitamente”. A mesma palavra, a mesma frase, mesma palavra grega usada em outro texto que fala sobre o Messias: “Odiaram-me sem motivo” (João 15:25). Jesus Cristo deu algum motivo para ser odiado? Não! Eles O odiavam, mesmo sem nenhum motivo para isso. É a mesma coisa sendo ensinada aqui, que Deus declara o pecador reto diante dEle sem nenhum motivo. O pecador nunca deu nenhum motivo a Deus para justificá-lo ou declará-lo reto. Na verdade, a única coisa que um pecador poderia realmente mover um Deus santo a fazer, é condená-lo. Mas, Deus fez um grande trabalho para que o pecador possa ser feito reto diante dEle, independente de todas suas transgressões, independente de todos os seus pecados e crimes contra a Deidade, Deus tem justificado o homem, apesar de o homem nunca ter Lhe dado um motivo.

 

Se formos verificar nas três maiores religiões aqui essa noite e perguntarmos a um judeu ortodoxo: “Se você morrer agora para onde você vai?”. Ele responderá: “Vou para o Céu”. “Por qual motivo?”. “Porque eu amo a Lei de Deus, eu sou um servo de Deus, sou um homem justo”. Então, o repórter pergunta ao mulçumano: “Se você morresse agora para onde iria?”. “Eu iria para o Paraíso”. “Por quê?”. “Eu amo o Alcorão. Eu tenho feito as orações e as peregrinações. Eu dou esmola aos pobres. Eu sou um homem justo”. Ele perguntou ao Cristão, ao verdadeiro Cristão: “Se você morresse agora para onde iria?”. Ele respondeu: “Para o Céu”. “Qual a razão da esperança que há em você?”. E o Cristão respondeu: “Eu nasci em pecado, em pecado minha mãe me concebeu. Eu tenho quebrado toda a Lei de Deus. E eu mereço toda a extensão de Sua justa ira contra mim”. E o repórter interrompe-o dizendo: “Eu não entendo, os outros dois homens eu entendi. Eles são homens justos pelas suas próprias virtudes, seus próprios méritos e feitos. E eles acreditam que vão para o Céu por terem feito coisas boas, mas o senhor me deixou confuso. Você é um enigma. Você está me dizendo que vai para o Céu, mesmo merecendo justamente o oposto. Qual é a base da sua esperança?”. E aquele Cristão responde: “Eu estou confiando na virtude e mérito de outro: Jesus Cristo, meu Senhor! Tudo para Ele!

 

Nada em minhas mãos eu trago,
Simplesmente à Tua cruz me agarro.

 

Eu não preciso de outro argumento, eu não preciso de outro pretexto. É o suficiente que Jesus morreu, e Ele morreu por mim, declarando-me justo diante de Deus, mesmo sem dar a Ele um motivo. Nenhum motivo, para fazer qualquer coisa, a não ser nos condenar”.

 

Algumas vezes em meu ministério, isso costumava acontecer — Essa canção não é mais cantada, graças a Deus, mas parece que sempre que eu me levanto para pregar em uma reunião, alguém vai se levantar para cantar uma música que pergunta: “Oh, Deus, o que viste em mim para me salvar?”. E eu me sinto como uma criança na escola, levantando a mão: “Ei, me escolhe aqui, eu respondo!”. O que Deus viu em você? Ele viu um objeto de ira, Ele viu alguém que quebrou todas as leis que Ele já fez, e que viveu uma vida deslocada e pervertida. Foi isso que Ele viu. Por que Ele te salvou? Duas razões: Primeira, Deus é amor. Segunda, para demonstrar Sua glória, Sua misericórdia, Seus atributos não apenas ao mundo, mas até mesmo além deste mundo. Uma canção muito popular há alguns anos dizia: “Deus nunca desistiu de mim”. É porque Ele nunca colocou nenhuma esperança em você! “Ele nunca desistiu de você”. Quem lhe ensinou essas coisas? Ele nunca desistiu, porque Ele nunca pôs esperança em você. Ele colocou esperança em Sua própria promessa, em Seu próprio juramento, em Sua própria aliança. Ele colocou esperança onde ela pertence. Em Sua pessoa, Seus decretos e Suas obras. Então, Ele justifica os homens.

 

 

Redenção

 

Favor imerecido. Isso é o que direciona o homem de Deus. Isso é o que direciona a mulher de Deus. Graça! Graça! Graça! O favor imerecido de Deus! Através do sacrifício infinitamente valioso de Seu Filho Jesus Cristo, nos tornamos prisioneiros da graça, nos tornamos prisioneiros da esperança, nos tornamos prisioneiros do Evangelho. Eu devo viver para Ele! Por quê!? Pela graça manifestada a mim na pessoa de Cristo. Eu sou constrangido por esse amor. Ele disse que nós somos salvos pela graça e Ele continua e diz “pela redenção”.

 

Eu esqueço o nome dele — eu deveria lembrar —, mas eu ouvi um conto sobre um antigo Puritano, que dizia que algumas palavras que ele lia nas Escrituras e após lê-las, ele sentava silenciosamente, com os lábios trêmulos, porque existem algumas palavras que são quase sagradas demais para serem pronunciadas. Se nós seguirmos esta linha de raciocínio, eu diria que “redenção” é uma delas. Quão comum esta palavra se tornou! Lembro-me da primeira vez, cruzando as montanhas dos Andes com um missionário veterano, e eu imaginava como ele conseguia dormir no trem, em meio a tanta beleza que víamos pela janela. Então, anos depois, eu estava com um grupo de jovens, cruzando a montanha dos Andes, percebi que havia feito o mesmo, eu dormi. Algumas coisas são tão espetaculares e elas não mudam o caráter ou valor, mas nosso coração se torna frio e as coisas se tornam comuns que podemos até mesmo pensar na palavra redenção e não chorar. Seria suficiente se tivéssemos sido comprados, porque é isso o que a palavra significa. Comprar! Trazer alguém à liberdade, um escravo ou cativo, mediante o pagamento de um preço. Teria sido suficiente, se tivesse sido por prata ou ouro. Teria sido suficiente, se tivesse sido por alguma coisa valiosa do Céu, mas foi o sangue do próprio Filho de Deus e novamente, essa verdade é o que deveria nos controlar.

 

Eu apreciei o que o jovem disse aqui, Cristianismo não é sobre moralidade, existe um monte de pessoas morais que vão para o inferno. Cristianismo vai resultar em moralidade bíblica, mas Cristianismo não é sobre moralidade. É sobre Ele! Não diz respeito apenas a ser uma pessoa legal. Não é apenas sobre fazer coisas legais. Não é apenas sobre colocar pingos nos i’s e cortar todos os t’s. Diz respeito à paixão! Um coração pegando fogo, porque sabe que foi comprado pelo sangue do Filho de Deus. Nós fomos redimidos e, como diz aqui no texto, a redenção está em Cristo Jesus. Em Cristo Jesus. Possivelmente, a mais poderosa frase na Bíblia é: “Em Cristo”. Paulo ficou tão enamorado por esta frase que nós vemos no primeiro capítulo de Efésios, metade do capítulo é apenas uma longa sentença, sempre repetindo, novamente, nEle, em Cristo, no Amado. Você está aqui esta noite em um dos dois lados: você está em Adão e condenado, ou você está em Cristo e justificado.

 

Um jovem veio até mim, certa vez, e disse-me: “Você está certo, irmão Paul. Você está certo. Jesus é tudo que precisamos”. Eu disse-lhe: “Jovem, Jesus é tudo que temos. Ele não é apenas tudo o que precisamos”. Fora dEle não existe nada. Você precisa entender, o grande livro de Colossenses não ensina apenas que o mundo foi criado por Cristo e para Ele, mas que foi criado em Cristo. Tudo fora de Jesus não é realidade. Tudo fora de Jesus Cristo é absolutamente absurdo! Tudo fora de Jesus Cristo é morte! Não existe nada! Não há realidade! Não há lógica! Não há sentido! Não há razão! Não existe harmonia! Nada funciona! Tudo foi feito para estar em Cristo!

 

Pessoas aqui nesta noite com tantos problemas. Problemas no casamento, nas finanças, problemas aqui e ali. O seu maior problema é submeter-se a esta verdade: total rendição à pessoa e vontade de Jesus Cristo, para a glória de Jesus Cristo. Em Cristo, ao qual Deus propôs para propiciação.

 

 

Propiciação

 

Propiciação. Esta talvez, exceto os nomes de Deus, é a mais importante palavra em toda a Bíblia. Você sabe o que significa propiciação? Diz que Deus apresentou publicamente Seu Filho. Existe uma razão pela qual o Filho de Deus foi levantado no centro do universo reli-gioso. Fora das mais importantes cidades religiosas do mundo. Enquanto ele era levantado no madeiro, nos arredores desta grande cidade, Deus, através da cruz de Jesus Cristo, não está apenas salvando o homem, mas está revelando coisas sobre Si mesmo. Ele está se revelando ao mundo. Através desta cruz.

 

Assim foi necessário. Esta palavra pode também significar que Deus marcou o Seu Filho, fazendo uma apresentação pública de Seu Filho. Supondo que Deus poderia ter tirado o pecado secretamente, mas Ele não o fez. Ele fez uma apresentação pública do Seu Filho. Para todos, não apenas para o mundo, mas para toda a criação ver. Diz que ao qual Deus propôs publicamente como propiciação.

 

A palavra “propício”, a mesma palavra utilizada no antigo espanhol, na Bíblia Reina Valera, na antiga versão. Ser propício a mim, seja misericordioso para comigo. É um sacrifício que permite Deus demonstrar misericórdia para com o ímpio. Mais adiante iremos explicar isso, mas agora eu quero lhe mostrar algo, escute-me. Se você puder entender uma coisa que vou ensinar aqui esta noite, isto irá ajudá-lo. É sobre a cruz. Isso é a cruz. É a razão para isto. É a razão por trás dela. Por quê uma cruz? Por quê uma morte? O maior problema em toda a Bíblia é encontrado em um obscuro texto em Provérbios. Vamos até lá por um momento.

 

Provérbios 17:15, escutem o texto: “O que justifica o ímpio, e o que condena o justo, tanto um como o outro são abomináveis ao Senhor”. E você diz: “Bem, o que isso tem a ver com o Evangelho?”. Tudo bem, vamos colocar a primeira e a última parte, juntas: “Aquele que justifica o ímpio é abominação para o Senhor”. Qualquer um, especialmente uma autoridade, tal como um juiz ou um rei, qualquer um que justifica o perverso é uma abominação para Deus. O que é abominação? É provavelmente a mais dura palavra nas Escrituras. Alguma coisa que é repugnante, repulsiva, vil, abominável, indescritivelmente perversa. Então, qualquer um que justifica um homem perverso, qualquer um que declare legalmente um homem perverso como justo, é abominação diante de Deus.

 

Alguns de vocês conseguem ver o problema? Deus justifica o perverso, e ainda, as Escrituras não podem ser quebradas. Justificar o perverso é uma abominação para Deus. E isto é tudo sobre o que o Evangelho diz respeito e muitos de vocês jamais ouviram isso antes. O grande problema em toda a Escritura é este: Se Deus é justo, Ele não pode perdoar você! Você diz: “Por quê não?”. Com esta pergunta, você está demonstrando ser apenas uma criança de sua própria cultura, que não sabe nada sobre justiça. Deus é santo! Deus é justo! Deus não pode simplesmente virar as costas para o pecado. Ele não pode simplesmente deixar passar o seu pecado. Ele não pode simplesmente perdoar você. Se Deus é justo, Ele deve julgar você corretamente, e um julgamento correto significa a sua morte no inferno para sempre! A grande questão em toda a Bíblia é como Deus pode ser Justo e o justificador do ímpio.

 

 

Jesus Cristo: Justo e Justificador

 

Veja o que Paulo diz aqui, em Romanos 3:26: “Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus”. Este é o problema! Isto é o que a cruz significa! Este é o dilema Divino. Se Deus é justo, como Ele pode perdoar de forma justa o perverso e declará-lo legalmente reto diante dEle?

 

Deixem-me dar-lhes uma ilustração que tenho usado milhares de vezes. Vamos dizer que você estivesse indo, após esta pregação, para casa, nesta noite, e encontrasse sua família assassinada. E você vê o assassino diante do último deles, com um pouco de suspiro de vida em seu corpo, ele quebra-lhe o pescoço, larga-o no chão e dá gargalhadas. Ele corre por uma porta, você corre por outra porta, você o derruba ao chão, você o prende e chama a polícia. A polícia vem, leva este homem que assassinou toda a sua família e o prende. E, no devido tempo, eles o apresentam diante do juiz, o qual olha para o homem que assassinou toda a sua família e diz: “Eu sou um juiz muito amável. Eu perdoo você, vá em liberdade”. Qual vai ser sua resposta? Você vai exigir justiça! Você escreverá para os jornais, chamará as redes de TV, escreverá para os congressistas. Você dirá que há um juiz no tribunal que é pior do que todos os criminosos que ele perdoa. Há algo, mesmo em você, que clama por justiça. “Isso não pode ficar assim!”. Então, não deveria o juiz de toda a terra fazer o correto?

 

Eu tenho ouvido evangelistas dizerem isto, não sabendo que eles estavam falando blasfêmias e heresias contra Deus. Eu os tenho ouvido dizerem: “Ao invés de ser justo com você, Deus foi amável”. Você sabe o que eles estão dizendo? Que o amor de Deus é injusto. Que Deus pode ser injusto. Existe mesmo no meio de nossa raça de pessoas, o quê? Um amor injusto. Pessoas amam coisas injustamente. Eles demonstram afeto de forma pervertida. Você não pode dizer e ser bíblico que, ao contrário de ser justo, Deus foi amável. O amor de Deus deve ser justo! Deus deve satisfazer a justiça que clama contra você, por causa do seu pecado. Agora, não é como alguns supõem, algumas pessoas pensarão: “Você está dizendo que existe uma regra de justiça que até mesmo Deus tem que se submeter”. Não! Não foi isso que eu disse. O que estou dizendo é que Deus é justo em Si mesmo. E Deus é perfeito e consistente em todos os Seus atributos. Para perdoar o perverso, a justiça de Deus deve primeiro ser cumprida e a ira de Deus apaziguada. Alguma coisa deveria — Essa é uma palavra muito importante, você pode procurar no dicionário —, alguém deveria se interpor, alguém deveria intervir. Alguém deveria fazer algo. Sendo que há apenas dois lados: Deus e o homem. Nós não colocamos esperança no homem. Deus mesmo deve intervir para cumprir Sua justiça, apaziguar Sua ira e tornar possível expressar Seu amor e Sua salvação para com o homem perverso.