Dispensacionalismo, o Camaleão │ Por William Teixeira

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Dias atrás, me propus a escrever sobre Dispensacionalismo. Como gosto de começar meus textos com definições, então, busquei uma definição e me dei conta de algo que já suspeitava: é praticamente impossível definir o Dispensacionalismo. Ele é como um camaleão, muda de cor constantemente de modo que é muito difícil definir sua verdadeira cor.

 

Quando olhamos para o cenário brasileiro encontramos Dispensacionalistas que vão desde Edir Macedo até Silas Malafaia, desde Mário Persona (o Disp. mais “puro sangue” que conheço) até Marcos Granconato, desde Hélio de Menezes Silva até Antonio Neto, desde Antônio Gilberto até Severino Pedro da Silva — só para citar alguns nomes. Esses oito nomes alistados servem para nos dar uma ideia de quão multicor o camaleão brasileiro é. Contudo, o Dispensacionalismo brasileiro não é somente multicor, suas cores são contrastantes, isto é, um Dispensacionalista frequentemente contradiz outro Dispensacionalista (mostrarei como isso acontece mais à frente).

 

O Problema dos “Três Estágios”: Clássico, Revisado e Progressivo

 

Essa diversidade de cores e crenças torna praticamente impossível definir no que crê alguém que se define como “Dispensacionalista” em nossos dias. Talvez, atualmente, o mais próximo e consensual que podemos chegar em relação ao início de uma definição do que é Dispensacionalismo seja dividi-lo em, como alguns chamam, “três estágios”: Clássico, Revisado e Progressivo, e delinear algumas crenças dos três estágios. Veja a tabela a seguir retirada de um site Dispensacionalista:

 

 

Apesar de a tabela acima ser bem didática, devemos nos perguntar se ela faz sentido para a maioria dos Dispensacionalistas atuais ou se eles concordam com ela. Mas tomemos a tabela como um bom parâmetro, disso surgem três problemas: Primeiro, fica claro que um grupo Dispensacionalista se opõe às crenças do outro que se opõe às crenças do outro; segundo, se os três grupos opõe-se mutuamente, então fica evidente logicamente que, pelo menos, somente um está certo e os outros dois estão errados, ou que todos os “três estágios” estão errados (é nisso que credito); terceiro, dividir o Dispensacionalismo em três estágios é algo que funciona da teoria, mas na prática é algo, no mínimo, confuso, por exemplo: Temos três Dispensacionalistas que se identificam como Progressivos, então temos três Dispensacionalistas com crenças iguais, certo? Não! Porque o primeiro é Progressivo Darbyano, o segundo, Progressivo Ryrieano e o terceiro é um Dispensacionalista Progressivo Não-Dispensacionalista! (Veja a primeira linha da tabela acima). E assim mesmo dentro do círculo dos próprios três estágios há muitas variações, de modo que alguém que se identifica como um Dispensacionalista Progressivo não necessariamente concorda em determinada crença com outro Dispensacionalista Progressivo e nem necessariamente discorda nessa mesma crença de um Revisado ou Clássico. “Nem sim nem não, muito pelo contrário”.

 

Além desses problemas com os “três estágios”, há o problema da indefinição objetiva pessoal. Muitos Dispensacionalistas não sabem no que eles mesmo creem objetivamente. Da próxima vez que encontrar um Dispensacionalista pergunte se ele é Clássico, Revisado e Progressivo e ele provavelmente não saberá responder objetivamente, se ele responder um dos três, peça para ele definir no que crê um Dispensacionalista como ele, em raros casos ele conseguirá responder coerentemente. Faço o teste, e comprove por si mesmo.

 

E um outro grande problema é que Dispensacionalismo é inerentemente não-confessional. Por isso quero dizer que o Dispensacionalismo não possui um documento de referência que podemos examinar e saber objetivamente quais as suas principais crenças. Não existe uma declaração ou confissão de fé Dispensacionalista, não uma que seja unanimidade. Talvez o mais próximo que cheguemos disso em um contexto brasileiro seja as “Bíblias de estudo” Dispensacionalistas. Mas provavelmente se você encontrar um Dispensacionalista por aí e dizer que aprendeu sobre Dispensacionalismo com a Bíblia de Referência do Scofield, ele provavelmente lhe dirá que você “está atrasado”, que “ninguém mais crê nesse Dispensacionalismo”, etc. Não há unidade ou consenso. É quase como se cada Dispensacionalista possuísse seu próprio Dispensacionalismo particular e subjetivo, e que contradiz o Dispensacionalismo dos tantos outros em determinadas crenças. Um exemplo pessoal: lembro que quando eu era Assembleiano e Dispensacionalista, o nosso pastor durante suas pregações frequentemente citava Amós 4:12: “Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus”, e aplicava isso à igreja e à vinda iminente de Cristo — eu concordava.

 

A Postura Tripla de Muitos Dispensacionalistas Atuais

 

Diante do problema dos três estágios, da indefinição objetiva pessoal e do não-confessionalismo, muitos — não todos — adotam a seguinte postura tripla ao falar sobre suas crenças Dispensacionalistas: Primeira, atacar as crenças contrárias; segunda, declarar em que não crê e, terceira, supor serem algo que não são realmente. Permita-me explicar com mais detalhes as três posturas:

 

Primeira postura: Atacar as crenças contrárias. Como alguns — não todos — Dispensacionalistas geralmente têm dificuldade para expor positivamente o que crê eles passam a tentar provar a beleza do Dispensacionalismo mostrando a feiura das crenças discordantes. Tomemos por exemplo as críticas ao Aliancismo Pedobatista Presbiteriano Amilenista, é fácil ver Dispensacionalistas criticando essas posições encontradas na Confissão de Fé de Westminster, e como eles geralmente procuram falar do que não creem mais do que creem dá a impressão de que aquilo que é atacado é tão ruim que qualquer outra crença é melhor, ou ainda mais sutil, o Dispensacionalismo é o melhor. Só para citar uma: Já vi até Dispensacionalista insinuando com que Aliancismo foi um dos responsáveis pelo antissemitismo Nazista (Argumentum ad Nazium, ad Hitlerum).

 

O mero ato de falar que algo é errado não significa que você sabe ou crê no que é certo. Dizer que o resultado de 2 + 2 não é 1, nem 3 e nem 7, não significa que você sabe que o resultado correto é 4.

 

Segunda postura: Declarar em que não crê. Como já foi mencionado antes, muitos Dispensacionalistas sabem muitos mais a respeito daquilo que não creem do que daquilo que creem. Isso é um dos motivos pelo que o Dispensacionalismo dos últimos tempos uma hora está atacando e em outra é um fervoroso adepto do vitimismo e do coitadismo. Talvez você já deve ter tido a infeliz experiência de tentar dizer a um Dispensacionalista por que você não é Dispensacionalista.[1] Eu já tive esse desprazer. O resultado quase sempre é que ele vai dizer que você “está falando de um Dispensacionalismo tão antigo que praticamente já nem existe”, que você “está criando um espantalho”, que você está sendo “desonesto”, que “já esperava essas distorções”, etc., etc. Dispensacionalismo é como o Marxismo, já nasceu deturpado.

 

Por exemplo: Se a tabela que eu citei acima não fosse criada por um Dispensacionalista e retirada de um site Dispensacionalista, muitos diriam que se trata meramente de uma “tabela-espantalho” (talvez alguns estejam pensando exatamente isto agora). Outro exemplo: Quando eu citei a princípio Edir Macedo (representando os Neopentecostais) e o Silas Malafaia (representando os Pentecostais da Prosperidade) como exemplos de Dispensacionalistas brasileiros, alguns Dispensacionalistas devem ter pensado: “Que desonesto! Cita os piores exemplos e cria um espantalho para atacar o Dispensacionalismo! Quem disse que Macedo e Malafaia sequer sabem o que é Dispensacionalismo? Já esperava essas distorções…”. Ele não se dá conta (ou se nega a perceber) que os Neopentecostais e Pentecostais da Prosperidade representam, no mínimo, a maioria dos que se declaram Dispensacionalistas no Brasil. Assim, quando eu digo que M&M são dois exemplos de grandes líderes do evangelicalismo brasileiro Dispensacionalistas estou somente retratando os fatos tais como eles são, embora alguns queiram negar a realidade. O Dispensacionalismo brasileiro possui como principais cores o Neopentecostalismo e o Pentecostalismo. Embora seja verdade que muitos distorcem o Dispensacionalismo (e isso é algo que definitivamente não concordo), é também verdade que em muitos outros casos o Dispensacionalista que se faz coitado e vítima ofendida somente não concorda ou não conhece o tipo de Dispensacionalismo que estamos citando e repudiando. E nem nós temos a obrigação de saber que tipo de Dispensacionalista ele é, na maioria das vezes, nem ele mesmo sabe objetivamente no que crê, como é que nós vamos saber? Temos que adivinhar? Se depender de muitos, não vamos saber nunca no que eles objetivamente creem, nunca vamos ver uma declaração de fé feita por eles, embora eles não cansem de criticar as nossas.

 

Por falar nisso, alguns Dispensacionalistas aqui da Internet, estão fortemente acometidos do que eu chamo de “Síndrome do Macaco”. Se não entendeu, não se preocupe, o Príncipe dos Pregadores e grande Batista Aliancista, C.H. Spurgeon vai explicar isso para você. Em um de seus sermões ele fala sobre os tais:

 

“Eles podem nos dizer o que eles não creem. Mas não nos dizem no que creem. Eles irão combater as doutrinas e os sentimentos de todos, mas ficariam perdidos se fossem convidados a sentar-se e a escrever suas próprias opiniões. Eles parecem não ir mais longe do que a inteligência de um macaco que pode fazer tudo em pedaços, porém não consegue consertar nada” (The Uses of the Law, Sermão Nº 128).

 

Muitos Dispensacionalistas (principalmente os de Internet) supõem fazer as “doutrinas” que lhe são contrárias “em pedaços”, mas “ficariam perdidos se fossem convidados a sentar-se e a escrever suas próprias opiniões”, eles podem falar do Aliancismo que não creem, nas não conseguem falar do tipo de Dispensacionalismo em que creem e de que modo ele está baseado na Bíblia. O camaleão não somente muda de cor, tem a língua bem grande. É a Síndrome do Macaco!

 

Terceira postura: Supor serem algo que não são realmente. Como em muitos casos há uma falta de objetividade quanto ao que realmente creem, muitos Dispensacionalistas Calvinistas acabam se identificando com a fé Reformada. Contudo, basta uma rápida olhada para ver que o Dispensacionalismo é uma contradição da fé Reformada em pontos essenciais tais como: hermenêutica Dispensacionalista, entendimento da relação Israel x Igreja, negação da lei moral de Deus resumida pelos Dez Mandamentos, pré-milenismo futurista Dispensacionalista e anticonfessionalismo.

 

Como Batista Reformado, eu sempre ouço Batistas se identificando como “Reformados” enquanto, ao mesmo tempo, também se identificam como Dispensacionalistas. Mas um Batista Reformado[2] crê em coisas bem diferentes do que crê um Batista Dispensacionalista, na verdade, faz parte da essência da verdadeira fé Batista Reformada negar o Dispensacionalismo!

 

Entretanto, quero deixar claro que não estou afirmando nos dois parágrafos acima que ser “Reformado” é mais bíblico do que ser “Dispensacionalista” (embora eu de fato creio que seja), o ponto que estou querendo enfatizar é simplesmente que essas duas posições diferem essencialmente uma da outra em pontos-chaves de modo que um Reformado é necessariamente um não-Dispensacionalista e um Dispensacionalista, não é um Reformado. O que percebo que é muitos confundem as duas posições por seguirem um raciocínio semelhante a este: Se não sou Pentecostal e nem Arminiano, então sou Calvinista e Reformado. Creio que um Dispensacionalista pode ser considerado um Calvinista (no sentido soteriológico popular atual), mas não pode ser considerado Reformado pelos motivos que já expus acima.

 

“Coisas piores verás”. Outro dia me deparei com um texto do site Batista Fundamentalista Dispensacionalista Sola Scriptura TT, em que logo na introdução li sobre um pequena genealogia dos “Batistas Legítimos e Originais” em seguida fui informado que “tais eram de linha fundamentalista” (e, portanto identificados com o Dispensacionalismo, presumi) e “os pais do movimento batista fundamentalista em geral”. Até aí tudo bem, nada de estranho para mim, pois já estou acostumado com suas “fábulas e genealogias intermináveis” (1 Timóteo 1:4). O problema é quando o texto inclui na genealogia dos Batistas Fundamentalista/Regulares homens como John Gill e C.H. Spurgeon! O quê!? John Gill e C.H. Spurgeon eram Reformados, e não Fundamentalistas! Aliancistas, e não Dispensacionalistas! Batistas Particulares, e não Regulares! Ambos eram grandes e convictos Calvinistas em sua soteriologia e não “nem Calvinista nem Arminiano” como Hélio de Menezes. Ambos rejeitavam o conceito Dispensacionalista da relação Israel x Igreja. Ambos, Gill e Spurgeon, criam na validade dos Dez Mandamentos/Lei Moral para os cristãos (inclusive criam no Quarto Mandamento, interpretando-o como o Dia do Senhor). Nem no pré-milenismo Gill e Spurgeon concordam com eles! Ambos eram pré-milenistas históricos, e não pré-milenistas futuristas Dispensacionalistas. Se Gill e Spurgeon estivessem vivos hoje sentiriam vergonha e combateriam muitas das crenças (entre elas o Dispensacionalismo) dos atuais Batistas Fundamentalistas/Regulares.

 

A Minha Tese

 

Diante de tudo que expus acima sobre a questão da multicoloridade, o problema dos três estágios e das três posturas. Cheguei à conclusão que mencionei à princípio:

 

É praticamente impossível definir o Dispensacionalismo. Nem os próprios Dispensacionalistas conseguem definir e declarar de modo objetivo e claro no que creem. O Dispensacionalismo é como um camaleão, muda de cor constantemente de modo que é muito difícil definir sua verdadeira cor, sua verdadeira definição.

 

Mesmo quando os Dispensacionalistas declaram sua fé formalmente através de um documento, sua fé Dispensacionalista permanece oculta e obscura, embora declarada. Por exemplo: A declaração de fé das Assembleias de Deus no Brasil. A Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil publicou (finalmente!), em novembro de 2016, a sua “Declaração de Fé”. Essa declaração é a maior confissão de fé Dispensacionalista do Brasil, ela esboça e define as principais crenças oficiais das ADs da CGADB em 24 capítulos, mais os credos ecumênicos. Embora seja notório que as ADs são Dispensacionalistas, não me espanta nem um pouco o fato de que tal declaração de fé não contenha nenhum capítulo intitulado “Sobre o Dispensacionalismo”, apesar de ver-se claramente posições Dispensacionalistas ao longo da declaração, principalmente no capítulo 22, “Sobre a Segunda Vinda de Cristo”. Você, que é Assembleiano e Dispensacionalista, concorda com o Dispensacionalismo oficial da AD? Você concorda com as crenças declaradas no Cap. 22 da “Declaração de Fé”? O Dispensacionalismo da AD é clássico, revisado ou progressivo? Você é Dispensacionalista clássico, revisado ou progressivo? Você sabe o que é Dispensacionalismo? Você é capaz de definir o que você ou sua igreja local mesmo creem sobre Dispensacionalismo? Assembleiano, você, pelo menos, já leu a declaração de fé de sua denominação?

 

Você percebe? A AD declarou sua fé e ao mesmo tempo não declarou claramente o que crê sobre Dispensacionalismo, embora “veladamente” todos saibam que essa denominação é Dispensacionalista! Vale ressaltar que a palavra “Dispensacionalismo” não aparece sequer uma única vez em toda a declaração![3] Que o leitor imparcial julgue se tenho razão quando digo que os Dispensacionalistas são completamente incapazes de fazer declarações claras, positivas, sistemáticas, consensuais e oficiais sobre sua crença dispensacional. A minha tese claramente é verdadeira em relação aos Dispensacionalistas da AD, e se não é em relação aos outros Dispensacionalistas é muito fácil provarem que estou errado: produzam sua própria declaração de fé Dispensacionalista e digam claramente no que creem e deem suas bases bíblicas.

 

Se a situação dos Dispensacionalistas Pentecostais não é tão boa, a situação de um Dispensacionalista anti-Pentecostal não é melhor. O assunto é escatologia. Em um vídeo no canal de sua igreja no YouTube, intitulado, “Cristo é onisciente?”, o Dispensacionalista Marcos Granconato afirmou baseado em Mateus 24:36 que Jesus não sabe o dia de Sua vinda, ou seja, existe um aspecto (que ele chama de relações intratrinitárias) em que Jesus não é onisciente, embora o seja em outro aspecto (que ele chama de relações extratrinitárias). Embora tenho usado palavras floreadas, ele nada mais fez do que negar a onisciência absoluta do Filho. Para ser ainda mais claro: ele cometeu uma heresia[4] no pleno sentido histórico e cristológico do termo, ao negar a total onisciência do Filho de Deus. O pr. Thiago Oliveira escreveu um texto corrigindo seu devaneio que foi uma verdadeira aula. Mas parece que ele foi ingrato e faltou à aula, o que é uma pena, ele teria aprendido muito e não continuaria apegado à heresia de negar a plena onisciência de Jesus Cristo.

 

Ainda sobre escatologia: Em outro vídeo no YouTube, o mesmo Dispensacionalista está falando sobre as Doutrinas da Graça, mais especificamente sobre a perseverança dos santos, e em certo momento (de 1:00:44 até 1:02:33) ele menciona uma situação que ocorria enquanto dava aula em um seminário da Assembleia de Deus, ele diz o seguinte:

 

“Uma pergunta que sempre caia nas aulas é a seguinte: 'Professor, a pessoa que cometeu adultério (Granconato faz digressão em tom jocoso: Na Assembleia de Deus adultério é um pecado do inferno, todos são, mas esse lá é imperdoável, é um pecado contra o Espírito [Santo] quase. Então…), [Volta à fala do aluno] a pessoa que caiu em adultério, essa pessoa perdeu a salvação? Se ela morreu… cometeu adultério, saiu, teve uma parada cardíaca, morreu na porta da casa da amante, foi pro céu esse crente?”.

 

A resposta dele é que sim, que tal pessoa foi salva, ela era um “crente”! Ele parece crer que é possível um adúltero ter uma “amante” — o que implica que esse adultério não foi um ato único e uma tentação súbita como o de Davi, mas sim uma prática contínua e impenitente — e ainda assim esse adúltero, que tinha uma amante e vivia em adultério, morre impenitente na porta da casa dela e é considerado pelo Granconato como um “crente” e alguém “salvo”.

 

No vídeo, ele continua e passa a interpretar 1 Coríntios 5:5 que fala sobre o caso de alguém da igreja de Corinto que abusou da mulher de seu pai. No minuto 1:12:36 em diante ele diz:

 

“Paulo fala: ‘Ele é um crente. Ele vai ser expulso. Vai ser colocado lá fora, para purificar a igreja. Vai ser punido por Deus lá fora. Mas este homem está salvo’. Incomoda isso, não incomoda? Por que? Gente, a nossa salvação está baseada no que Cristo fez e não no que nós fazemos. Uma vez salvo, salvo para sempre”.

 

No primeiro caso é afirmada a salvação de alguém que vivia em adultério, até tinha uma amante e morreu impenitente, e no segundo, temos a afirmada da salvação de um “crente” abusador da mulher de seu pai (onde Paulo disse que o abusador era “crente”? Isso não está no texto de 1 Coríntios 5, e, portanto, não deveria ser afirmado), que é excomungado da igreja e em momento algum ele menciona qualquer coisa sobre arrependimento para salvação e restauração à membresia da igreja.[5] Ambas as interpretações — que afirmam a salvação respectivamente do adúltero e do abusador, sem que estes de arrependam — contrariam claramente 1 Coríntios 6:9-10 e Apocalipse 22:15 que declaram que os adúlteros e impuros não herdarão o reino dos céus, contradizem diretamente também Hebreus 12:14 que diz que sem santificação ninguém verá o Senhor (creio que estamos de acordo que essa “santificação” sem a qual “ninguém não verá a Deus” não possui como um de seus componentes uma vida de adultério seguida de morte em impenitência). Granconato se considera um excelente exegeta. Eu acredito.

 

Mencionei esses dois casos pois em ambos parece haver um claro ensino que é comum entre muitos Dispensacionalistas, refiro-me ao ensino da “salvação sem senhorio”[6] (alguns chamam de “doutrina do crente carnal”), ou seja, Cristo pode ser o Salvador de alguém que não o tem como Senhor, que vive em pecado e em aberta rebelião contra Seus mandamentos (alguém que vive e morre impenitentemente em adultério ou imoralidade sexual, por exemplo). Para ser honesto, devo dizer que não tenho certeza se o Granconato crê na doutrina da “salvação sem senhorio” ou se foi descuidado com as palavras como de costume. Contudo é fato que existem muitos Dispensacionalistas[7] que creem nessa doutrina, talvez ele seja um deles.

 

Aqui mais uma vez, insisto com minha tese, um Dispensacionalista não consegue expressar claramente o que crê sobre Dispensacionalismo, é o caso de Granconato também. Na pequena declaração de fé da igreja em que é pastor, não é possível encontrar nenhum capítulo sobre o “Dispensacionalismo” entre os 15 capítulos (e olhe que tem capítulo até para falar de Satanás!). Mais uma vez, a palavra “Dispensacionalismo” sequer é mencionada ao longo de toda a declaração. Também gostaria de saber como ele faz para conciliar o cap. 2 de sua declaração de fé, “Jesus Cristo é o Filho de Deus”, em que afirma que Jesus é “totalmente Deus”, com a afirmação de que Ele não é totalmente onisciente em todos os casos. Jesus é totalmente Deus, mas não totalmente onisciente? Contraditório. Depois no cap. 15, “O plano de Deus”, é declarado que “ao fim da história, os justos viverão para sempre na presença de Deus”, mas como conciliar essa declaração com a afirmação de que um adúltero — alguém que vive em adultério, que tem uma amante e morre impenitente na porta da casa dela — é um salvo? Ele seria considerado um “adúltero justo”, um “adúltero crente”? Seria algo como: “Os justos [e os crentes que vivem em adultério com suas amantes e morrem impenitentes] viverão para sempre na presença de Deus”?

 

Agora pergunto somente para os Dispensacionalistas que estão lendo isso: Você concorda com Granconato que Cristo não sabe o dia de Sua volta, e, consequentemente, existe algo que Ele não sabe, e, portanto, não é totalmente onisciente? Você crê que é possível um adúltero, alguém que vive em adultério e morre impenitente, herdar o reino dos céus? Marcos Granconato é um Dispensacionalista clássico, revisado ou progressivo? Você concorda com esses pontos da escatologia dele? Você concorda com o Dispensacionalismo dele? Qual é o Dispensacionalismo dele?

 

Penso que mais uma vez minha tese está provada, só que agora as coisas foram um pouco além: não é só que os Dispensacionalistas não conseguem declarar o que creem sobre Dispensacionalismo, mas aqui está um caso de alguém que é considerado um dos maiores Dispensacionalistas da atualidade e tropeça feio em pontos básicos da escatologia (e da cristologia), e contradiz sua própria declaração de fé.

 

Meu Desafio aos Dispensacionalistas

 

A minha tese inicial ainda permanece:

 

É praticamente impossível definir o Dispensacionalismo. Nem os próprios Dispensacionalistas conseguem definir e declarar de modo objetivo e claro no que creem. O Dispensacionalismo é como um camaleão, muda de cor constantemente de modo que é muito difícil definir sua verdadeira cor, sua verdadeira definição.

 

Se você é Dispensacionalista e está indignado e convicto que minha tese é falsa, então não tome adote qualquer das três posturas expostas acima, se você acredita que minha tese é falsa é só provar, é só definir e declarar o seu credo Dispensacionalista, ou seja, o que você mesmo crê sobre Dispensacionalismo!

 

Como eu acredito que é muito difícil um Dispensacionalista compor um credo no qual define e declara suas crenças Dispensacionalistas, então eu desafio qualquer Dispensacionalista a fazê-lo. E como eu sei que o Dispensacionalismo em si é avesso aos credos e confissões até citarei mais uma vez o grande Batista Federalista de 1689 C.H. Spurgeon para animá-los a aceitarem meu desafio e comporem seu próprio credo Dispensacionalista:

 

“Os homens desta época se gloriam pelo fato deles não possuírem um sistema de teologia — eles lançaram os credos ao vento — eles não têm formas pelas quais se pode afirmar sistematicamente as verdades de Deus que eles creem. A razão disso ser assim é que eles não têm nada a declarar! Nenhum homem vai evitar ter um sistema quando ele tem certos princípios definidos. É impossível para um homem acreditar nas verdades da Palavra de Deus, sem sensatamente formar para si mesmo um credo de algum tipo ou outro” (Bênçãos do Pacto, Sermão Nº 2681).

 

Para ajudar aqueles que irão aceitar meu desafio e comporão seu próprio credo definindo e declarando o que creem sobre Dispensacionalismo (Então finalmente poderei — assim espero — saber de forma objetiva o que é Dispensacionalismo) eu formulei 10 pontos com perguntas a serem respondidas para que esses pontos sejam esclarecidos em sua declaração de fé.

 

1 – O que exatamente é a definição bíblica de “dispensação”? Em que livro, capítulo e versículo a Bíblia fala de 7 (ou 3 ou 4 ou 8) dispensações? Quantas vezes Jesus vai voltar: 1, 2, 3, 7, 10, 666 ou 144.000?

 

2 – Você concorda com o Dispensacionalista Marcos Granconato que afirma que Jesus não sabe o dia de Sua vinda. O Dispensacionalista Mário Persona não concorda com isso.[8] Você concorda com Granconato?

 

3 – O Dispensacionalista Charles C. Ryrie (1925-2016) ensina que a Nova Aliança não está em vigor hoje. Em sua opinião, a Nova Aliança não está inaugurada, contudo já foi garantida através do sacrifício de Jesus (Dispensationalism, Chicago: Moody, 1995, p. 172). Você concorda com Ryrie?

 

4 – O Dispensacionalista Thomas Tronco, afirma: “O termo Igreja não é usado nas Escrituras para designar todos os salvos da história”. Como conciliar essa declaração com Efésios 5:25[9] que diz que “Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela”, ou seja, Cristo morreu pela igreja (por toda a igreja e por ela somente), pois “se todos os salvos da história” não podem ser chamados de igreja e se o termo “igreja” em Efésios 5:25 não se a “todos os salvos da história”, então há a possibilidade de alguém ser um salvo e ainda assim não ser considerado parte da igreja pela qual Cristo morreu? É possível ser salvo sem ser pela morte de Cristo (visto que Ele morreu somente pela igreja, e se alguém não é igreja Cristo não morreu por ele)? Você concorda que o termo “igreja” Efésios 5:25 que se refere àquelas pessoas pelas quais Cristo morreu não inclui em nenhum sentido ou possibilidade os salvos do AT?

 

Outrossim, Dispensacionalistas dizem que Deus tem dois povos atualmente judeus incrédulos ou Israel e a Igreja formada por gentios e judeus crentes. Mas Paulo diz em Efésios 2:14 que Cristo de “ambos os povos” judeus e gentios “fez um” único povo. O Novo Testamento retrata a Deus como casado com seu povo (Efésios 5 e Apocalipse 20—21). Então pergunto novamente: Deus tem dois povos atualmente como dizem os Dispensacionalistas, e, consequentemente, duas noivas? Ou Ele tem somente um único povo e uma única noiva, a igreja (Efésios 2:14 e 5:25)?

 

5 – O mais popular Dispensacionalista, Scofield, no esforço de mostrar a diferença no modo de Deus tratar cada grupo de pessoas em cada diferente dispensação, acabou criando quatro formas diferentes de Evangelho. Elas estão descritas em sua “Bíblia Anotada” da seguinte forma: (1) O Evangelho do reino. (2) O Evangelho da graça de Deus. (3) O Evangelho eterno. (4) O que Paulo chama de “meu Evangelho” (Rm 2.16 e refs.). Você concorda com Scofield?

 

6 – Muitos Dispensacionalistas dizem que a promessa de Deus a Davi no Salmo 132:11: “O SENHOR jurou com verdade a Davi, e não se apartará dela: Do fruto do teu ventre porei sobre o teu trono”, somente se cumprirá no Milênio, só então é que Deus cumprirá essa Sua promessa e Cristo, descendente de Davi, reinará assentado sobre o trono de Davi. Mas Pedro diz em Atos 2:29-36 que Deus cumpriu Sua promessa do Salmo 132:11, de assentar a Cristo, o descendente de Davi, sobre o trono de Davi, quando ressuscitou a Cristo dentre os mortos: “Homens irmãos, seja-me lícito dizer-vos livremente acerca do patriarca Davi, que ele morreu e foi sepultado, e entre nós está até hoje a sua sepultura. Sendo, pois, ele profeta, e sabendo que Deus lhe havia prometido com juramento que do fruto de seus lombos, segundo a carne, LEVANTARIA O CRISTO, PARA O ASSENTAR SOBRE O SEU TRONO, nesta previsão, DISSE DA RESSURREIÇÃO DE CRISTO…”. Você crê que Deus já cumpriu Sua promessa do Salmo 132:11 ao ressuscitar Jesus dentre os mortos como diz Pedro, ou só cumprirá Sua promessa no Milênio como dizem muitos Dispensacionalistas?

 

7 – O ex-Dispensacionalista A. W. Pink diz: “[…] Em Hebreus 8:8-13 e 10:15-17… o apóstolo cita as promessas feitas em Jeremias 31:31-34. Os Dispensacionalistas se oporiam e diriam que essas promessas pertencem aos descendentes naturais de Abraão, e não são para nós. Mas Hebreus 10:15 prefacia a citação dessas promessas, afirmando expressamente, “E também o Espírito Santo no-lo testifica [não “testificou”]”. Essas promessas estendem-se aos gentios crentes também, pois elas são a garantia da graça fundada em Cristo, e nEle os crentes judeus e gentios são um (Gálatas 3:26). Antes que a parede de separação fosse derrubada, os gentios eram, em verdade, “estranhos às alianças da promessa” (Efésios 2:12), mas quando essa parede foi derrubada, os crentes gentios tornaram-se “coerdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho” (Efésios 3:6)! Como Romanos 11 expressa, eles participam da raiz e da seiva da oliveira (v. 17)! Essas promessas em Jeremias 31 são feitas não para a nação judaica como tal, mas para o “Israel de Deus” (Gálatas 6:16), que é toda a eleição da graça, e elas são feitas infalivelmente boas para todos eles no momento de sua regeneração pelo Espírito”. Você discorda de A.W. Pink? Em que discorda?

 

8 – Tom Hicks afirma: “Os Dispensacionalistas pensam que Gênesis 17:7 estabelece uma promessa eterna para o Israel nacional, e eles interpretam o Novo Testamento, convencidos que Deus tem planos futuros para o Israel nacional… Se, no entanto, permitimos que o Novo Testamento interprete Gênesis 17:7, então evitaremos o erro cometido pelo Dispensacionalismo e pelo Pedobatismo. Gálatas 3:16 diz: ‘Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo’. Note que Gálatas 3:16 nega explicitamente uma descendência plural. A promessa é apenas para um filho e não para muitos. ‘Não diz: E às descendências’ (Gálatas 3:16). Portanto, à luz do ensinamento claro do Novo Testamento, devemos concluir que tanto Dispensacionalistas como Pedobatistas interpretam mal o Antigo Testamento porque não conseguem permitir que o Novo Testamento tenha prioridade de interpretação. Ambos os sistemas concluem que a promessa à semente de Abraão é uma promessa aos descendentes físicos, e não a Cristo. Este erro leva os Pedobatistas a enfatizarem excessivamente uma igreja visível propagada por uma geração natural com sua leitura das Escrituras e leva os Dispensacionalistas a enfatizar excessivamente Israel, quando o Novo Testamento claramente nos ensina a enfatizar Cristo. A promessa da ‘descendência’ é uma promessa a Cristo, não aos homens. Esta não é uma negação de qualquer aspecto coletivo em relação à descendência; em vez disso, reconhece que a semente é Cristo e que, pela união salvífica com Ele, os eleitos também são descendência nEle (Gálatas 3:7, 14, 29). Assim, todas as promessas feitas a Abraão em Gênesis 17: 7 foram feitas a Cristo e a todos os que estão unidos salvificamente a Ele, judeus e gentios. A promessa é, portanto, centrada em Cristo, não centrada no homem, como os Batistas Históricos sempre ensinaram”. Você concorda com Tom Hicks?

 

9 – O [ultra]Dispensacionalista E. W. Bullinger (1837-1913) disse: “Para aqueles que viviam sob a Lei correta e verdadeiramente poderia ser dito: ‘será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o Senhor nosso Deus, como nos tem ordenado’ (Deuteronômio 6:25). Mas, para aqueles que vivem na presente Dispensação da Graça é tão verdadeiramente declarado: ‘Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei’ (Romanos 3:20). Mas isso é exatamente o oposto de Deuteronômio 6:25. O que, então, nós devemos dizer, ou fazer? Qual dessas duas afirmações é verdadeira e qual é falsa? A resposta é que nenhuma é falsa. Mas ambas são verdadeiras, se manejarmos bem a Palavra da Verdade, como a sua verdade dispensacional e ensino… Duas palavras distinguem as duas dispensações: ‘Faça’ distinguiu a primeira; ‘Feito’ a última. Então, a salvação dependia do que o homem devia fazer, agora depende do que Cristo fez”. Você concorda com Bullinger?

 

10 – O livro de Hebreus deixa claro, entre outras coisas, que o templo, o sacerdócio levítico e o sistema sacrifical eram tipos de Cristo os quais estão agora ab-rogados. De fato, na Nova Aliança, não pode haver nenhum templo terrestre (Hebreus 9),[10] pois a existência de um templo terrestre é uma característica do Antiga Aliança (9:1). O templo da Antiga Aliança servia como “exemplo e sombra das coisas celestiais, como Moisés divinamente foi avisado, estando já para acabar o tabernáculo; porque foi dito: Olha, faze tudo conforme o modelo que no monte se te mostrou” (8:5). O templo terreno (e tudo que estava ligado a ele: sacerdotes, sacrifícios, cerimônias, festas, etc.) era característico da Antiga Aliança, servia como uma “figura do verdadeiro” e apontava para o “santuário feito por mãos”, o Céu, no qual Cristo entrou “para agora comparecer por nós perante a face de Deus” (9:24). Assim concluímos que o templo terreno da Antiga Aliança cumpriu seu propósito e foi ab-rogado. Como conciliar a verdade de que não haverá mais templos, sacrifícios e sacerdotes os quais eras tipos e sombras já cumpridos e ab-rogados em Cristo com a interpretação futurista que os Dispensacionalistas dão a Ezequiel 40-48 e Zacarias 14, passagens que falam de templo terreno, sacrifícios, sacerdotes levíticos, festas judaicas, etc., coisas pertencentes exclusivamente à Antiga Aliança e ab-rogados em Cristo? Como você conciliaria seu Dispensacionalismo com essas verdades claras do livro de Hebreus?

 

Conclusão

 

Ainda teria outras perguntas para fazer, por exemplo: Como você, Dispensacionalista, interpreta Gálatas 6:15-16: “Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura. E a todos quantos andarem conforme esta regra, paz e misericórdia sobre eles e sobre o Israel de Deus”. Também gostaria de saber a interpretação Dispensacionalista de Romanos 9:6: “Nem todos os que são de Israel são israelitas” (Para uma interpretação bíblica recomendo esse texto do genial Brandom Adams). Ou como conciliam um arrebatamento secreto e uma volta secreta de Jesus com Apocalipse 1:7 que diz: “Eis que vem com as nuvens, e todo o olho o verá, até os mesmos que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele”, etc. Mas deixarei minhas perguntas e objeções para outra oportunidade. Esperarei pacientemente que aqueles Dispensacionalistas que aceitarem meu desafio apresentem suas declarações de fé contendo as definições de seu Dispensacionalismo.

 

Um esclarecimento: se você acha que eu deturpei o Dispensacionalismo nesse texto isso em nada anula minha tese, antes a confirma: ninguém é capaz de definir “o” Dispensacionalismo objetivamente. Mas vá em frente, simplesmente aceite o desafio e me mostre o que realmente é Dispensacionalismo.

 

Eu estou ansioso para saber as verdadeiras cores dos camaleões brasileiros.

 


[1] Eu fico imaginando a decepção que alguns tiveram quando eu abri este texto sem fazer nenhuma definição do Dispensacionalismo, eles devem ter pensado: “E agora!? Como vou dizer que ele criou um espantalho!? Que está deturpando o Dispensacionalismo que realmente creio… etc., etc.”.

[2] Em seu excelente artigo “O Que é Um Batista Reformado?”, Tom Hicks, lista como os 5 pontos distintivos de um Batista Reformado: 1. Princípio Regulador do Culto (Sola Scriptura!) 2. Teologia do Pacto 3. Calvinismo 4. A Lei de Deus 5. Confessional. Gravei um vídeo comentando esse artigo.

[3] Alguém pode argumentar que a palavra “Aliancismo” ou “Federalismo” não aparecem na CFB1689 ou CFW, a resposta é que isso em nada atrapalha a clareza das declarações dessas Confissões sobre esses assuntos visto que elas possuem capítulos específicos para tratarem destes temas, o cap. 7 (Leia: A Confissão de 1689 e a Teologia Pactual │ Por Jeff Johnson).

[4] Neste ponto tenho para parar, pois parece que ouço um Grancotiano rangendo os dentes e exclamando indignado: “Então você crê que Granconato é um herege? Que ele não é um cristão salvo!?”. Não me sinto competente ou autorizado para julgar com certeza a salvação de alguém que nega a total onisciência de Cristo, a salvação é por graça e só Deus conhece os Seus. O que estou afirmando com certeza é que negar a total onisciência de Cristo é heresia, ou negar a total onisciência de Cristo não é heresia? Desde quando deixou de ser? Eu recomendo que as pessoas que desejaram fazer essa pergunta façam também a si mesmos estas outras duas: Se Edir Macedo ou algum outro líder Neopentecostal negasse a total onisciência de Cristo, cometeria heresia? Por que alguém que negou a total onisciência de Cristo simplesmente não reconhece que errou e não se arrepende?”.

[5] Para uma interpretação correta e verdadeiramente Batista dessa passagem veja Mark Dever em sua obra magna, 9 Marcas de uma Igreja Saudável, ele fala: “1. A Disciplina da igreja chama um CRENTE PROFESSO a abandonar o seu pecado. Por exemplo, um homem na igreja de Corinto estava tendo um caso com a esposa de seu pai, e a igreja aprovou isso. Paulo ordenou à igreja que excluísse o homem para que o ele pudesse se arrepender, ser salvo e voltar para a igreja. (1 Cor. 5:5) [Ênfases acrescentadas]”. Mark Dever trata desse assunto, disciplina bíblica na igreja (a 7ª Marca), nas páginas 181-212 de seu excelente livro, 9 Marcas de uma Igreja Saudável (Fiel, 2007).

Para uma interpretação mais abrangente veja o comentário de John Gill sobre 1 Coríntios 5:5. Em certo trecho Gill diz: “[…] para que ele seja renovado no espírito de sua mente, seja restaurado pelo arrependimento e sua alma seja salva no dia de Cristo”.

Ambos, Mark Dever e John Gill, tratam a passagem como uma disciplina eclesiástica visando o arrependimento do transgressor e só então a salvação e restauração à membresia da igreja, pois certamente tal pessoa não era salva, mas alguém que falsamente afirmava ser crente.

 

[6] Para uma breve, mas breve, mas suficiente refutação da “Salvação sem Senhorio” veja o artigo de A. W. Pink, “Cristo é o seu Senhor?“ e também o artigo “Salvador, mas não Senhor?“, por Michael Horton. Para uma defesa da “Salvação sem Senhorio”, veja o artigo horrível encontrado no site igualmente horrível Sola Scriptura TT, “Salvação pelo Senhorio“, por Jack Hyles (1926-2001).

[7] Por exemplo: Charles C. Ryrie em sua Ryrie Study Bible (Chicaog Moody), na página 1950, False additions to faith. Citado por Peter Masters, in Médico de Almas, o Ministério do Evangelho (p. 47, nota de rodapé, Princípios Reais, 2016).

[8] Quem pode ser melhor para contradizer um Dispensacionalista do que outro Dispensacionalista?

[9] Veja também Atos 7:38 onde o espirito santo uso termo “ekklesia” (traduzido por congregação) para se referir ao povo de Deus no deserto. Este é exemplo bíblico do povo de Deus do Antigo Testamento, Israel, sendo chamado de igreja — o que grande parte dos Dispensacionalistas nega. Para saber a posição dos Batista Reformados (Federalismo de 1689) sobre a relação Israel Igreja que é diferente da posição Dispensacionalista e também da posição Presbiteriana da Confissão de Westminster, veja: Semelhanças e Diferenças Entre Israel e a Igreja | Por Brandom Adams.

[10] Em uma postagem em seu perfil no Facebook, Frank Brito explica de forma clara e bíblica a total impossibilidade da reconstrução de um templo sob o Novo Pacto e suas implicações. Como as postagens dele são restritas aos amigos, resolvi copiar algumas de suas falas na íntegra. Penso que leitura cuidadosa será útil para alguém realmente interessado na verdade bíblica.

POSTAGEM

Todos os esforços do povo para reconstruir o templo de Deus em Jerusalém serão frustrados. Não é possível reconstruir um templo de Deus em Jerusalém porque, sob o Novo Pacto, não pode haver nenhum templo terrestre (Hebreus 9). A existência de um templo terrestre é uma característica do Antigo Pacto, o Pacto Mosaico (Hebreus 9:1), que foi abrogado mediante a morte de Jesus Cristo (Hebreus 8:6-13). O templo do Novo Pacto é o Céu (Hebreus 9:24). Jesus profetizou a destruição do templo em Jerusalém (Mateus 24:1-3, 15-20) e sua profecia se cumpriu no ano de 70 AD, cerca de 40 anos depois de sua morte e ressurreição. Em 70 AD, a profecia de Jesus se cumpriu, quando o templo que havia em Jerusalém foi destruído pelos exércitos do Império Romano. Ou seja, o templo de Deus do Antigo Pacto foi destruído quase 2000 anos atrás e, sob o Novo Pacto, não é possível existir nenhum templo de Deus em Jerusalém, pois o templo de Deus sob o Novo Pacto é o Céu.

Portanto, todos os esforços do povo para reconstruir o templo de Deus em Jerusalém serão frustrados, nenhum edifício que eles conseguirem construir será de Deus.

 

COMENTÁRIO-PERGUNTA:

Ricardo Ribeiro Frank Brito, os dispensacionalistas e outros grupos costumam defender um terceiro Templo com base na visão detalhada de Ezequiel que, dizem, não poderia ser alegorizada sem violar o tipo de interpretação literal das Escrituras que defendem. O que você pensa desse argumento?

 

COMENTÁRIO-RESPOSTA: Frank Brito Ricardo Ribeiro, essa é uma questão importante nessa discussão.

Primeiro, Hebreus ensina que todo templo (físico) de Deus na Bíblia e todas as atividades ligadas a ele deveriam ser interpretados como uma “alegoria” (Hebreus 9:9) e “sombra” (Hebreus 10:1) do templo do Novo Pacto, que é o templo celestial (Hebreus 9:24).

No caso do templo de Ezequiel 40-48, não creio que deve ser entendido como uma predição de um templo físico que seria construído no futuro, mas como o modelo do templo que deveria ser construído. Veja que o Ezequiel teve a visão quando o povo de Istava estava sob o Cativeiro Babilônico:

“No ano vinte e cinco do nosso cativeiro, no princípio do ano, no décimo dia do mês, catorze anos depois que a cidade foi conquistada, naquele mesmo dia veio sobre mim a mão do SENHOR, e me levou para lá. Em visões de Deus me levou à terra de Israel, e me pós sobre um monte muito alto, sobre o qual havia como que um edifício de cidade para o lado sul” (Ezequiel 40:1-2)

Ou seja, o Templo de Deus já havia sido destruído pelos exércitos do Império da Babilônia. Curiosamente, isso ocorreu no dia 9 do mês de Av, que foi o mesmo dia em que o Templo foi depois destruído pelos exércitos do Império Romano. Então, em Ezequiel 40-48, ele teve uma VISÃO de um novo Templo. Se lermos esses capítulos atentamente, creio que podemos constatar que em nenhum momento é dito que a visão era uma previsão sobre o que necessariamente aconteceria no futuro. Mas se não é isso, o que é? Creio que era uma revelação de um modelo do Templo, de como o Templo deveria ser. Veja:

“E disse-me o homem: Filho do homem, vê com os teus olhos, e ouve com os teus ouvidos, e põe no teu coração tudo quanto eu te fizer ver; porque para to mostrar foste tu aqui trazido; anuncia, pois, à casa de Israel tudo quanto vires…” (Ezequiel 40:4)

“Tu, pois, ó filho do homem, mostra à casa de Israel esta casa, para que se envergonhe das suas maldades, e meça o modelo. E, envergonhando-se eles de tudo quanto fizeram, faze-lhes saber a forma desta casa, e a sua figura, e as suas saídas, e as suas entradas, e todas as suas formas, e todos os seus estatutos, todas as suas formas, e todas as suas leis; e escreve isto aos seus olhos, para que guardem toda a sua forma, e todos os seus estatutos, e os cumpram. Esta é a lei da casa: Sobre o cume do monte todo o seu contorno em redor será santíssimo; eis que esta é a lei da casa”. (Ezequiel 43:10-12)

Observe a linguagem que Deus usa para descrever o Templo que estava sendo mostrado naquela visão: “Tu, pois, ó filho do homem, mostra à casa de Israel esta casa… meça o modelo… faze-lhes saber a forma desta casa, e a sua figura, e as suas saídas, e as suas entradas, e todas as suas formas, e todos os seus estatutos, todas as suas formas, e todas as suas leis…” Veja que o Templo da visão é chamado de “modelo”. Essa é a mesma linguagem que encontramos em duas ocasiões anteriores:

“E me farão um santuário, e habitarei no meio deles. Conforme a tudo o que eu te mostrar para modelo do tabernáculo, e para modelo de todos os seus pertences, assim mesmo o fareis”. (Êxodo 25:8-9)

O mesmo é reafirmado no final do capítulo:

“Atenta, pois, que o faças conforme ao seu modelo, que te foi mostrado no monte”. (Êxodo 25:40)

Veja que Moisés recebeu um “modelo”, assim como Ezequiel recebeu um “modelo” (Ezequiel 43:10). Podemos ler sobre o modelo que Moisés recebeu em Êxodo 25-31, da mesma forma que podemos ler sobre o modelo que Ezequiel recebeu em Ezequiel 40-48. Nós vemos a mesma ideia depois em Davi:

“Olha, pois, agora, porque o SENHOR te escolheu para edificares uma casa para o santuário; esforça-te, e faze a obra. E deu Davi a Salomão, seu filho, a planta do alpendre com as suas casas, e as suas tesourarias, e os seus cenáculos, e as suas recâmaras interiores, como também da casa do propiciatório. E também a planta de tudo quanto tinha em mente…” (1 Crônicas 28:10-12)

Veja que essa planta que Davi tinha em mente fora revelada pelo próprio SENHOR Deus, da mesma forma que havia sido revelada a Moisés:

“Tudo isto, disse Davi, fez-me entender o SENHOR, por escrito da sua mão, a saber, todas as obras desta planta” (1 Crônicas 28:19)

Essa é a mesma ideia que encontramos em Ezequiel. Assim como Moisés recebeu o modelo para o Santuário Móvel e Davi recebeu o modelo para o Templo fixo, Ezequiel estava recebendo o modelo do Templo que os judeus deveriam construir depois que tinha sido destruído o templo pela Babilônia. Veja como Ezequiel está enfaticamente falando de uma construção que deveria ocorrer no contexto deles:

“Tu, pois, ó filho do homem, mostra à casa de Israel esta casa, para que se envergonhe das suas maldades, e meça o modelo. E, envergonhando-se eles de tudo quanto fizeram, faze-lhes saber a forma desta casa, e a sua figura, e as suas saídas, e as suas entradas, e todas as suas formas, e todos os seus estatutos, todas as suas formas, e todas as suas leis; e escreve isto aos seus olhos, para que guardem toda a sua forma, e todos os seus estatutos, e os cumpram”. (Ezequiel 43:10-11)

Neste contexto, ele não está falando da pecaminosidade do povo de forma geral. Ele está falando do contexto dos pecados que havia levado o povo ao Cativeiro. Ele está dizendo: “Se arrependam de tudo o que vocês fizeram e agora preste atenção nesse modelo porque o templo vocês devem reconstruir o templo de vocês assim”.

Veja que o texto fala também do sacerdócio levítico:

“E aos sacerdotes levitas, que são da descendência de Zadoque, que se chegam a mim (diz o Senhor DEUS) para me servirem, darás um bezerro, para oferta pelo pecado”. (Ezequiel 43:19)

E também:

“Mas os sacerdotes levíticos, os filhos de Zadoque, que guardaram a ordenança do meu santuário quando os filhos de Israel se extraviaram de mim, eles se chegarão a mim, para me servirem, e estarão diante de mim, para me oferecerem a gordura e o sangue, diz o Senhor DEUS”. (Ezequiel 44:15 )

Isso não pode se cumprir sob o Novo Pacto, depois da vinda de Cristo, pois o sacerdócio levítico já foi ab-rogado, como Hebreus 7 ensina claramente.

O Templo de Ezequiel, então, deve ser entendido como um modelo de templo que os judeus, ao se arrepender de seus pecados que os levou ao Cativeiro, deveriam construir. Todavia, quando lemos os livros de Esdras/Neemias, vemos que o retorno deles foi em muitos sentidos conturbado. Eles não tiveram todo o arrependimento que deveriam ter. Por causa disso, não se cumpriu Ezequiel 43:10-11 e o Templo não foi construído daquela maneira, segundo o modelo de Ezequiel 40-48. Foi construído com menor glória. Não creio que o Templo de Ezequiel deva ser compreendido como uma predição de um templo físico que seria construído no futuro, mas como o modelo do templo que deveria ser construído mediante um completo arrependimento. O povo, todavia, fracassou mais uma vez.

Agora, veja o que Hebreus diz sobre esses modelos/plantas/diretrizes para construção:

“Os quais servem de exemplo e sombra das coisas celestiais, como Moisés divinamente foi avisado, estando já para acabar o tabernáculo; porque foi dito: Olha, faze tudo conforme o modelo que no monte se te mostrou. Mas agora alcançou ele ministério tanto mais excelente, quanto é mediador de uma melhor aliança que está confirmada em melhores promessas”.(Hebreus 8:5-6)

Veja que Hebreus diz explicitamente diz que o modelo do tabernáculo terrestre era era baseado nas “coisas celestiais”, que no contexto é o Templo do Novo Pacto, que é o Céu (Hebreus 9:24). Sendo assim, embora o modelo de Ezequiel nunca tenha se realizado, por causa dos pecados do povo, aquele modelo continua tendo a função de todos os modelos de Templo físico do AT (Moisés e Davi): serve como uma sombra sobre a realidade espiritual do Novo Pacto, que temos em Cristo Jesus.

 

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