Homens Em Seu Estado Caído, por John Newton

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Ouvimos falar muito nos dias de hoje sobre a dignidade da natureza humana. É bem verdade que o homem era uma excelente criatura quando ele saiu das mãos de Deus; mas se considerarmos esta questão, tendo em vista o homem caído, como depravado pelo pecado, como podemos nos juntar com o salmista, em nos admirarmos que o grande Deus possa lembrar-se dele?

 

Caído como o homem está de seu estado de original felicidade e santidade, suas faculdades e habilidades naturais constituem prova suficiente de que a mão que o fez é Divina. Ele é capaz de grandes coisas. Sua compreensão, vontade, afeições, imaginação e memória são faculdades nobres e surpreendentes. Mas ao vê-lo sob uma luz moral, como um ser inteligente, incessantemente dependente de Deus, responsável diante dEle, e designado por Ele para um estado de existência em um mundo imutável; considerando esta relação, o homem é um monstro, uma criatura vil, baixa, estúpida, obstinada e maliciosa; não há palavras para descrevê-lo por completo. O homem, com toda sua inteligência e realizações alardeadas, é um tolo; enquanto ele está destituído da graça salvadora de Deus, a sua conduta, como a suas preocupações mais importantes, são as mais absurdas e inconsistentes, então, que idiota mais cruel; com relação às suas afeições e objetivos, ele se degrada muito abaixo das bestas; e pela malignidade e maldade de sua vontade, não pode ser comparado a nada tão adequadamente quanto com o diabo.

 

A questão aqui não é sobre este ou aquele homem, um Nero ou um Heliogábalo1, mas sobre a natureza humana, toda a raça humana, com exceção dos poucos que nascem de Deus. Há de fato uma diferença entre os homens, mas é devida às restrições da Divina providência, sem a qual a terra seria a própria imagem do inferno. Um lobo ou um leão, enquanto acorrentados, não podem fazer muito mal, como se fossem soltos, mas a natureza é a mesma em toda a espécie.

 

A educação e a preocupação, o medo e a vergonha, as leis humanas, o poder secreto de Deus sobre a mente, se combinam para formar muitas personalidades que são externamente decentes e respeitáveis; e até mesmo os mais perdidos estão sob uma restrição que os impede de manifestar uma milésima parte da maldade que está em seus corações. Mas o próprio coração é universalmente enganoso e desesperadamente corrupto.

 

O homem é um tolo. Ele pode realmente medir a terra e quase contar as estrelas; ele é rico em artes e invenções da ciência e da política; e deverá então ele ser chamado de tolo? Os pagãos antigos, os habitantes do Egito, Grécia e Roma, foram eminentes neste tipo de sabedoria. Eles são até hoje estudados como modelos por aqueles que visam a excelência em história, poesia, pintura, arquitetura e outros esforços do gênio humano, que são adequados para polir as maneiras, sem melhorar o coração. Mas os seus filósofos mais admirados, os legisladores, os lógicos, oradores e artistas eram tão destituídos como loucos ou crianças daquele único conhecimento que merece o nome de verdadeira sabedoria. Dizendo-se sábios tornaram-se loucos (Romanos 1:22). Ignorantes a respeito de Deus, mas conscientes de sua própria fraqueza e da sua dependência de um poder acima dos seus próprios, e estimulados por um princípio interior de medo, do qual não conheciam nem a origem nem a aplicação correta, eles adoraram a criatura em vez do Criador, sim, colocaram a sua confiança em madeira e pedras, nas obras das mãos dos homens, em vaidades e quimeras. Uma familiaridade com a sua mitologia, ou fábulas religiosas se passa conosco, por um ramo considerável de aprendizagem, porque ele é desenhado a partir de livros antigos, escritos em línguas não conhecidas pelo vulgo; mas no ponto de certeza da verdade, podemos receber tanta satisfação de uma coleção de sonhos quanto a partir de dos delírios de lunáticos. Se, portanto, admitimos estes sábios admirando-os como uns espécimes toleráveis ??de humanidade, não devemos confessar que o homem, em sua melhor condição, porém estando inteiramente sem a instrução do Espírito de Deus, é um tolo? Mas será que somos mais sábios do que eles? Nem um pouco, até que a graça de Deus nos faça assim. Nossas vantagens superiores mostram apenas a nossa loucura de uma forma mais marcante. Por que todas as pessoas são contadas como ??tolos? Um tolo não tem bom senso; ele é regido totalmente pelas aparências, e prefere um casaco fino em relação às escrituras de uma grande propriedade. Ele não considera as consequências. Tolos às vezes ferem ou matam os seus melhores amigos, e pensam não terem feito mal nenhum. Um tolo não pode raciocinar, pois os argumentos são inúteis para ele. Ao mesmo tempo, se amarrado com uma palha, ele não ousa se mexer; em outro momento, talvez, ele dificilmente seja persuadido a se mover, embora a casa estivesse pegando fogo. São estas as características de um tolo? Então, não há tolo como o pecador, que prefere os brinquedos da terra à felicidade do Céu, que é mantido em cativeiro pelos costumes do mundo, e tem mais medo das ameaças do homem, do que da ira de Deus.

 

Mais uma vez, o homem em seu estado natural é uma besta, sim inferior aos animais que perecem. Em duas coisas ele se assemelha fortemente aos animais: em olhar para nada mais elevado do que a gratificação sensual, e o espírito de egoísmo o leva a considera a si mesmo e ao seu interesse próprio como seu adequado e mais alto fim; entretanto em muitos aspectos, ele afunda, infelizmente, abaixo deles. As paixões não naturais e a falta de afeição natural para com os seus descendentes são abominações não encontradas entre a criação irracional. Que diremos das mães destruindo seus filhos com suas próprias mãos, ou do ato horrível de suicídio!? Semelhantemente, homens são piores do que animais em sua obstinação; eles não tomarão advertência. Se um animal foge de uma armadilha ele será cauteloso para não se aproximar dela novamente, e em vão se estende a rede à vista de qualquer ave, porém o homem, embora seja muitas vezes repreendido, endurece a cerviz e corre em direção à sua própria ruína com os olhos abertos, e pode desafiar a Deus em sua face e expor-se à condenação.

 

Mais uma vez, vamos observar como o homem se assemelha ao Diabo. Há pecados espirituais e estes, em sua proeminência, a Escritura nos ensina a julgar o caráter de Satanás. Cada característica nesta descrição é um forte traço no homem; por isso, então o que o Senhor disse aos judeus é de aplicação geral: “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai” [João 8:44]. O homem se assemelha a Satanás em orgulho; esta criatura fraca e estúpida valoriza-se quanto à sua sabedoria, poder e virtude, e falará sobre ser salvo por suas boas obras; mas se ele pode, o próprio Satanás não precisa se desesperar. Ele se assemelha a ele em malícia, e desta disposição diabólica muitas vezes procede o assassinato, e isto aconteceria diariamente se o Senhor não o restringisse. Ele deriva de Satanás, o espírito de ódio e inveja. Ele é frequentemente atormentado além do que se pode expressar por contemplar a prosperidade de seus vizinhos; e proporcionalmente satisfeito com suas calamidades, embora ele não obtenha nenhuma outra vantagem com isso além da gratificação deste princípio rancoroso. Ele expressa a imagem de Satanás em sua crueldade. Esse mal está ligado, até mesmo ao coração de uma criança. A disposição para ter o prazer de provocar dor nos os outros aparece muito cedo. Crianças, se deixadas a si mesmas, desde cedo sentem prazer em torturar insetos e animais. Que miséria é que a crueldade gratuita de homens inflige a galos, cães, touros, ursos e outras criaturas, a ponto de aparentarem não terem sido formados para nenhum outro fim senão para deleitarem os seus espíritos selvagens com seus tormentos! Se formamos nosso julgamento dos homens quando eles parecem mais satisfeitos, e não tendo nem raiva nem ressentimento para pleitear sua desculpa, é demasiado evidente, mesmo na natureza de suas diversões, quem eles são e a quem servem; e eles são os piores inimigos uns dos outros. Pense nos horrores da guerra, na ira dos de duelistas, nos morticínios e assassinatos com que o mundo está cheio, e então diga: “Senhor, que é o homem?” [Salmo 144:3]. Além disso, se o engano e a traição pertencem ao caráter de Satanás, então certamente o homem se assemelha ele. Não é a observação universal, e queixa de todas as eras, um comentário feito a respeito das palavras do profeta: “Não creiais no amigo, nem confieis no vosso guia; daquela que repousa no teu seio, guarda as portas da tua boca, pois cada um caça a seu irmão com a rede” [Miquéias 7:5, 2]. Quantos neste momento têm motivos para dizer com Davi: “As palavras da sua boca eram mais macias do que a manteiga, mas havia guerra no seu coração: as suas palavras eram mais brandas do que o azeite; contudo, eram espadas desembainhadas” [Salmos 55:21]. Mais uma vez, como Satanás, os homens estão ansiosos em tentar outros a pecar; não contentes em condenar a si mesmos, eles empregam todas as suas artimanhas e influência para seduzir tantos quantos eles possam a lhes seguirem para a mesma destruição. Por fim, na oposição direta a Deus e à bondade, na inimizade e desprezo ao Evangelho de Sua graça, e em um espírito de perseguição e amarga para com aqueles que o professam, o próprio Satanás dificilmente pode excedê-los. Aqui, na verdade, eles são seus agentes e servos voluntários; e porque o próprio Deus bendito está fora de seu alcance, eles trabalham para mostrar o seu despeito por Ele na pessoa de Seu povo.

 

Eu desenharei mais alguns contornos da imagem do homem caído, pois oferecer uma cópia exata dele, que possuísse cada aspecto do seu pleno agravamento de horror, e pintá-lo como ele é, seria impossível. Muito já foi observado para ilustrar a propriedade da exclamação: “Senhor, que é o homem?”, talvez alguns dos meus leitores possam negar ou atenuar este peso, e podem pleitear que não tenho descrito a humanidade, mas somente alguns dos mais depravados que mal merecem o nome de “homens”. Mas eu já tenho me precavido contra essa exceção. É a natureza humana que descrevo; e os indivíduos mais vis e perdulários não podem pecar além dos poderes e limites desta natureza que eles possuem em comum com o mais benigno e moderado. Embora possa haver uma diferença na fecundidade das árvores, no entanto, a produção de uma maçã, determina a natureza da árvore que a gerou, tão certamente como se tivesse produzido mil maçãs, assim, no presente caso, se admitimos que estas extravagâncias não são encontradas em todas as pessoas, isso seria suficiente confirmação do que eu antecipei, porém elas podem ser encontrados em qualquer um; a menos que pudesse também ser provado, que os que pareceram mais perversos do que outros, são de uma espécie diferente do restante. Mas eu não preciso fazer esta concessão, devem ser verdadeiramente insensíveis aqueles que não sentem dentro de si algo tão contrário às nossas noções comuns de bondade, como se quisessem talvez, antes submeterem-se a ser banidos da sociedade humana, a serem compelidos a estarem de boa fé ao desvelar cada pensamento e desejo que surgem nos corações de seus companheiros criaturas.

 

A natureza do homem caído corresponde à descrição que o apóstolo nos deu de sua sabedoria orgulhosa: é terrena, animal e diabólica [Tiago 3:15]. Tentei esboçar alguns aspectos gerais disto nas palavras anteriores; mas o auge de sua maldade não pode ser adequadamente estimado, a menos que nós consideremos as suas atuações com relação à luz do Evangelho. Os judeus eram extremamente perversos no momento da aparição de nosso Senhor sobre a terra, mas ainda assim é dito deles: “Se eu não viera, nem lhes houvera falado” (João 15:22), isto é, a luz e a força do Seu ministério os privou de toda desculpa para continuar no pecado, esta foi a ocasião de mostrar a sua malícia, da maneira mais agravada; e todos os seus outros pecados eram apenas provas tênues do verdadeiro estado do seu coração, se comparado com a descoberta que fizeram de si mesmos, por sua oposição pertinaz a Ele. Neste sentido, o que o apóstolo tem observado em relação à lei de Moisés, pode ser aplicado ao Evangelho de Cristo: Ele foi introduzido para que o pecado abundasse [Romanos 5:20]. Se quisermos calcular toda a extensão da depravação humana e os efeitos mais fortes que ela é capaz de produzir, devemos selecionar nossos casos a partir da conduta daqueles a quem o Evangelho é conhecido. Os índios, que assam seus inimigos vivos, dão provas suficientes de que o homem é bárbaro em relação à sua própria espécie; o que pode também ser facilmente demonstrado, sem ir tão longe de casa; mas a pregação do Evangelho desvela a inimizade do coração contra Deus de modos e graus que selvagens ignorantes e pagãos não são capazes.

 

Por Evangelho, agora eu quero dizer não apenas a doutrina da salvação, uma vez que se encontra na Sagrada Escritura, mas a pregação pública e oficial desta doutrina que o Senhor Jesus Cristo tem comissionado aos Seus verdadeiros ministros; que, tendo sido eles mesmos, pelo poder da Sua graça, transportados das trevas para a maravilhosa luz, pelo seu Espírito Santo, são capacitados e enviados para declarar aos seus companheiros pecadores sobre o que viram, sentiram e provaram da palavra da vida. Sua comissão é exaltar o Senhor somente, e denegrir a soberba de toda a vanglória humana. Eles devem expor o mal e o demérito do pecado, o rigor, a espiritualidade e a sanção da Lei de Deus e a apostasia total da humanidade; e a partir dessas premissas demonstrar a absoluta impossibilidade de escapar da condenação do pecado por quaisquer obras ou empreendimentos de sua autoria; e, em seguida, proclamar a salvação plena e livre do pecado e da ira, pela fé no nome, sangue, obediência e mediação do Deus manifestado na carne; juntamente com uma denúncia da miséria eterna a todos os que finalmente rejeitarão o testemunho que Deus deu de Seu Filho. Embora estes vários aspectos da vontade de Deus em relação aos pecadores, e outras verdades em conexão com eles, sejam claramente revelados e repetidamente incutidos na Bíblia; e que a Bíblia é encontrada em quase todas as casas, no entanto vemos, de fato, que ela é um livro selado, pouco lido, pouco compreendido, e, portanto, ainda menos considerado, exceto nos lugares que o Senhor se agrada de favorecer ministros que podem confirmar essas pessoas a partir de sua própria experiência, e que, por um senso de Seu amor constrangedor e do valor das almas, estão motivados em fazer um fiel cumprimento de seu ministério e uma grande coisa pelas suas vidas; estes não visam adquirir riquezas, mas promover o bem-estar de seus ouvintes; são igualmente indiferentes às carrancas ou sorrisos do mundo; e não amam as suas vidas, contanto que possam ser sábios e bem sucedidos em ganhar almas para Cristo.

 

Quando o Evangelho, neste sentido da palavra, em primeiro lugar chega a algum lugar, embora as pessoas estejam vivendo em pecado, pode ser dito que elas pecam por ignorância; eles ainda não foram avisados ??do perigo. Alguns estão bebendo a iniquidade como a água; outros mais sobriamente enterrando-se vivos nos cuidados e negócios do mundo; outros encontram um pouco de tempo para o que eles chamam de deveres religiosos e perseveram nisto apesar de serem estranhos à natureza ou ao prazer da adoração espiritual; em parte, eles pensam em barganhar com Deus e compensar tais pecados visto que eles não optam por abrir mão destes; e em parte porque gratifica o seu orgulho, e lhes proporciona (como pensam) alguma base para dizer: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens” [Lucas 18:11]. A pregação do Evangelho declara a vaidade e o perigo desses caminhos nos quais os pecadores escolhem. Ele declara, demonstra que embora pareçam diferentes dos outros eles estão igualmente distantes do caminho da segurança e da paz, e todos tendem para o mesmo desfecho: a destruição daqueles que persistem neles. Ao mesmo tempo em que se acautelam contra esse desespero no qual os homens seriam de outra forma mergulhados quando são convencidos de seus pecados, revelando o imenso amor de Deus, a glória e a graça de Cristo, e convidando todos a virem a Ele, para que possam obter perdão, vida e felicidade. Em uma palavra, isso mostra o abismo do inferno sob os pés dos homens, e abre a porta, e aponta o caminho para o céu. Vamos agora observar brevemente os efeitos que o Evangelho produz em quem não o recebe como o poder de Deus para a salvação. Estes efeitos são diversos, assim como os temperamentos e circunstâncias variam; mas todos eles podem nos levar a adotar a exclamação do salmista: “Senhor, que é o homem?”.

 

Muitos dos que ouviram o Evangelho, uma ou algumas vezes, não irão mais ouvi-lo; ele desperta seu desprezo, o ódio e raiva. Eles derramam desprezo sobre a sabedoria de Deus, desprezam sua bondade, desafiam o seu poder; e eles próprios parecem expressar o espírito dos judeus rebeldes, que disseram ao profeta Jeremias em sua face: “Quanto à palavra que nos anunciaste em nome do Senhor, não obedeceremos a ti” [Jeremias 44:16]. Os ministros que pregam o Evangelho são contados como os homens que põem o mundo de cabeça para baixo; e as pessoas que o recebem, como tolos ou hipócritas. A palavra do Senhor é um fardo para eles, e eles a odeiam com um ódio perfeito. Quão fortemente a disposição do coração natural é manifestada pela confusão que muitas vezes ocorre nas famílias onde o Senhor se agrada em um ou dois daquela casa, enquanto o restante permanece em seus pecados! Professar, ou mesmo ser suspeito disso, ou aderir ao Evangelho de Cristo, é frequentemente considerado e tratado como o pior dos crimes, suficiente para anular os vínculos mais fortes de relação ou amizade. Os pais, após tal provocação, odiarão os seus filhos, e os filhos ridicularizarão seus pais; muitos concordam com a declaração de nosso Senhor, que a partir do momento em que um sentido do Seu amor tem envolvido seu coração para amá-lO mais uma vez, seus piores inimigos foram aqueles de sua própria casa; e que aqueles que expressaram o maior amor e carinho para com eles antes de sua conversão, agora dificilmente podem suportar vê-los.

 

A maior parte do povo, talvez continue a ouvir, pelo menos de vez em quando; e para aqueles que o fazem, o Espírito de Deus em geral, em um momento ou outro, é um testemunho para a verdade: as suas consciências são atingidas, e por algum tempo eles creem e tremem. Mas qual é a consequência? Nenhum homem que tomou veneno procura mais intensamente ou rapidamente um antídoto, do que estes buscam fazer alguma coisa para abafar e sufocar suas convicções. Eles buscam as companhias para beber ou para qualquer outra coisa, buscando alívio contra a intrusão indesejável de pensamentos graves; e quando eles conseguem recuperar sua antiga indiferença, eles se alegram, como se tivessem escapado de algum grande perigo. O próximo passo é ridicularizar as suas próprias convicções; e junto a isso, se percebem algum conhecido com as impressões que ele teve, usam todas as artimanhas e empregam todos os esforços para que possam torná-los tão obstinados como eles mesmos. Para este propósito, eles espreitam como um passarinheiro ao passarinho, lisonjeiam ou injuriam, tentam ou ameaçam; e se eles podem, prevalecem, e se são a ocasião de “endurecimento de qualquer um em seus pecados” eles se regozijam e triunfam como se considerassem isso como seu próprio interesse e a sua glória, a saber, ver a ruína das almas de seus semelhantes.

 

Por ouvirem frequentemente o Evangelho eles recebem mais luz, e são compelidos a saber, quer queiram que não, que a ira de Deus paira sobre os filhos da desobediência. Eles levam uma picada em suas consciências, e, por vezes, sentem-se os mais miseráveis, e não podem, mas gostariam que nunca tivessem nascido, ou que fossem cães ou sapos, ao invés de criaturas racionais. No entanto, eles se endurecem ainda mais. Eles se determinam a serem feliz e estarem sossegados, se obrigam a usar um sorriso enquanto a angústia está presa em seus corações. Eles blasfemam o caminho da verdade, por ver as falhas dos professos, e com uma alegria maliciosa publicam suas falhas e os ofendem. Eles veem, talvez, como o ímpio morre, mas não ficam alarmados; eles veem o justo morrer, mas não são comovidos. Nem providências, nem ordenanças, nem misericórdias, nem julgamentos podem pará-los, pois eles estão determinados a prosseguir e morrer com os olhos abertos, ao invés de se submeterem ao Evangelho.

 

Porém nem sempre eles rejeitam abertamente as verdades do Evangelho. Alguns que professam aprová-las e recebê-las, por este meio desvelam os males do coração do homem, se possível, em uma luz ainda mais forte. Eles fazem de Cristo um ministro do pecado, e transformam a Sua graça em libertinagem. Como Judas, eles dizem: “Eu te saúdo, Rabi!” E O traem. Este é o mais alto grau de iniquidade. Eles pervertem todas as doutrinas do Evangelho, da eleição eles tiram uma desculpa para continuarem em seus maus caminhos; e defendem a salvação sem as obras, porque não amam a obediência. Eles exaltam a justiça de Cristo, mas se opõem à santidade pessoal. Em uma palavra, porque eles ouvem que Deus é bom estão determinados a persistir no mal. “Senhor, que é o homem?”.

 

Assim os pecadores obstinados e impenitentes vão de mal a pior, enganando e sendo enganados. A palavra que eles desprezam torna-se para eles um cheiro de morte para morte. Eles tomam diferentes cursos, mas em todos estão viajando para descer à cova; e, a menos que a misericórdia soberana impeça, em breve eles cairão para não mais se levantarem. O evento final normalmente é duplo. Muitos, depois de terem sido mais ou menos comovidos pela Palavra, se acomodam às formalidades. Se a audição suprisse o lugar da fé, do amor e da obediência, eles iriam fazê-lo bem; mas aos poucos eles se tornam impassíveis ao sermão, as verdades que uma vez os atingiram, muitas vezes, perdem o seu poder ao serem ouvidas; e, assim, multidões vivem e morrem na escuridão, embora por muito tempo a luz tenha brilhado ao redor deles. Outros são mais abertamente entregues a um sentimento perverso. O desprezo do Evangelho produz infiéis, deístas e ateus. Eles estão cheios de um espírito de ilusão para acreditarem em uma mentira. Estes são escarnecedores, andando segundo as suas próprias concupiscências; pois onde os princípios da religião são abandonados, a conduta será vil e abominável. Tais pessoas zombam de si mesmas em suas dissimulações, e fortemente provam a verdade do Evangelho, enquanto elas disputam contra ele. Nós muitas vezes achamos que as pessoas deste tipo têm sido anteriormente objeto de fortes convicções; mas quando o espírito maligno pareceu se afastar por um tempo, e voltou novamente, o último estado desse homem é pior do que o primeiro.

 

Não é improvável que alguns dos meus leitores possam encontrar-se com seus próprios caráteres sob um ou outro dos vislumbres que dei da maldade desesperada do coração, em suas atuações contra a verdade. Que o Espírito de Deus possa compeli-los a ler com atenção, o seu caso é perigoso, mas eu espero que você não se desespere totalmente, pois Jesus é poderoso para salvar. Sua graça pode perdoar as ofensas mais graves, e sub-jugar os hábitos mais inveterados do pecado. O Evangelho que você até aqui desprezou, resistiu ou se opôs ainda é o poder de Deus para a salvação. O sangue de Jesus, sobre o qual até agora você tem pisoteado, fala melhor do que o sangue de Abel, e possui virtude para limpar aqueles cujos pecados são escarlate e carmesim, e para fazê-los brancos como a neve. Até agora você foi poupado; mas já é tempo de parar, baixar os braços da rebelião, e humilhar-se aos pés do Senhor Jesus Cristo. Se você fizer isso, você ainda pode escapar; mas se não, saiba com certeza que a ira vindoura cairá sobre você ao máximo; e você perceberá em breve, em sua consternação indizível, que terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo.

 

 

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[1] Heliogábalo (Emesa, na Síria, c. 203 — Roma, 11 de março 222) foi um imperador romano. Ao tornar-se imperador tomou o nome de Marcus Aurelius Antoninus Augustus, e só ficou conhecido como Heliogábalo muito tempo depois de sua morte. Seu reinado foi marcado pela polêmica, idolatria e depravação sexual.
 

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