Uma Análise do Batismo Infantil Reformado

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Eu amo muito os pedobatistas reformados. Esses irmãos e irmãs em Cristo são cooperadores na causa do Evangelho. Devemos muito a eles por suas contribuições vitais ao pensamento e à vida cristã. Alguns dos meus heróis na fé são pedobatistas. Eu tenho bons amigos pedobatistas e valorizo ​​as suas amizades. Não quero ofendê-los neste artigo, mas pretendo delinear o que considero serem erros fatais em sua doutrina sobre o batismo infantil (ou pedobatismo) e respondê-los.

1.  Pacto da Graça

A doutrina pedobatista reformada do “Pacto da Graça” é o fundamento teológica de sua doutrina do batismo infantil. Eles ensinam corretamente que depois da queda de Adão, toda a Bíblia é unificada por um pacto de graça. Porém, eles também ensinam que o Pacto da Graça tem a mesma substância (essência) com diferentes, mas semelhantes, administrações (formas) ao longo das Escrituras. É aqui que os batistas reformados discordam dos pedobatistas. Os termos “substância” e “administração” são fundamentais para entender a perspectiva deles. Os pedobatistas creem que os eleitos são redimidos pela “substância” salvífica do Pacto da Graça, enquanto a “administração” exterior e legal do Pacto da Graça é mista, e abrange os eleitos e os não eleitos, por meio do batismo infantil. Aqui estão o que eu acredito ser alguns erros fatais desse ensino.

Em primeiro, a doutrina pedobatista reformada do Pacto da Graça compromete a eficácia da mediação e da obra de Cristo na cruz. A teologia pedobatista ensina que Cristo é o mediador do Pacto da Graça. O livro de Hebreus declara que a mediação de Cristo significa que Ele reconcilia o Seu povo pactual com o Pai, que Ele é um testador que concede as Suas bênçãos livre e incondicionalmente, e um fiador que paga todas as dívidas deles. Os pedobatistas precisam explicar como Cristo pode ser o mediador do Pacto da Graça para pessoas não eleitas e não regeneradas (o que minará a eficácia de Sua mediação), ou eles devem explicar como Cristo pode ser o mediador de um pacto sem ser o mediador de todos que estão nessa aliança (o que também minará a eficácia de sua mediação). Se eles disserem que Cristo é um mediador para aqueles que estão na administração exterior do Pacto da Graça, precisam explicar como o sangue de Cristo, significado pelo batismo, cobre pessoas não regeneradas que estão no Pacto da Graça sem efetuar a sua salvação. Qualquer explicação que derem se aproximará das definições arminianas da expiação.

Em segundo lugar, a doutrina pedobatista reformada do Pacto da Graça confunde (mistura) os cabeças federais Adão e Cristo. Já que os pedobatistas incluem bebês não regenerados no Pacto da Graça, eles rebaixam a Cristo como cabeça federal de duas maneiras. Eles podem dizer que os bebês batizados não estão mais em Adão e sob a maldição do Pacto das Obras, mas estão sob Cristo como cabeça, contudo de um modo que ainda poderiam ser condenados ao inferno. Nesta perspectiva, é muito difícil ver como o pacto de Cristo é um “pacto de graça”. Antes, é um pacto de graça/justificação e ira/condenação, que dificilmente serve de conforto ou bênção para todos os que estão nele. Os pedobatistas podem ainda dizer que os bebês batizados não regenerados na administração do Pacto da Graça estão “em Adão” (o Pacto das Obras) e “em Cristo” (o Pacto da Graça) simultaneamente. Esses bebês estariam na “substância” interior do Pacto de Obras, mas na “administração” exterior do Pacto da Graça. Tal perspectiva enfraqueceria a eficácia da expiação de Cristo, porque coloca os filhos não regenerados dos crentes sob a mediação de Cristo e sob Seu sangue, enquanto afirma a condenação desses mesmos filhos em Adão.

Em terceiro lugar, a doutrina pedobatista reformada do Pacto da Graça atribui poder salvífico aos atos da promessa do Antigo Testamento. Mas isso é impossível, uma vez que os atos da promessa do Antigo Testamento, incluindo o pacto abraâmico, foram estabelecidos mediante o derramamento de sangue de animais e mediadores humanos imperfeitos. As alianças da promessa do Antigo Testamento ordenavam a seus membros que confiassem no Senhor, que amassem e obedecessem ao Senhor. Mas os pactos do Antigo Testamento não davam a seus membros o poder de obedecer aos seus mandamentos. O sangue derramado de animais e os mediadores humanos nunca deram a graça necessária para a regeneração, justificação, santificação e perseverança. Isso só vem pelo sangue derramado de Cristo e Sua mediação. A concepção pedobatista de uma “substância salvífica” nos pactos do Antigo Testamento é estranha à Bíblia.

OS BATISTAS REFORMADOS HISTÓRICOS TIVERAM UM MELHOR ENTEDIMENTO

Eles criam que há apenas um Pacto da Graça, que permanece o mesmo em sua substância salvífica ao longo de toda a Bíblia, mas criam que esse pacto salvífico é distinto dos pactos do Antigo Testamento.

Hebreus 9:15 diz: “E por isso é Mediador de um novo testamento, para que, intervindo a morte para remissão das transgressões que havia debaixo do primeiro testamento…”. Observe algumas coisas sobre esse texto.

Em primeiro lugar, a mediação de Cristo na Nova Aliança é o que redimiu pecadores sob a Antiga Aliança. Os batistas históricos ensinaram que o Pacto da Graça é idêntico à Nova Aliança. O Pacto da Graça, no entanto, foi “prometido” sob a Antiga Aliança, mas agora é cumprido na morte de Cristo. Foi progressivamente revelado sob a Antiga Aliança, mas agora está formalmente consumado e decretado através da morte de Cristo. Os santos do Antigo Testamento foram salvos em virtude da promessa da Nova Aliança “adentrando” a Antiga Aliança (Romanos 9:8; Gálatas 3:29; 4:23, 28). Os santos do Antigo Testamento não foram salvos em virtude da Antiga Aliança, mas em virtude da promessa da Nova Aliança. Assim, há apenas um Pacto da Graça, o mesmo em substância desde Gênesis até Apocalipse.

Em segundo lugar, a mediação de Cristo no Pacto da Graça salva todos os seus membros. Hebreus 9:15 diz: “Intervindo a morte para remissão das transgressões”. Apenas alguns versículos antes, em Hebreus 9:12, nos é dito que Cristo entrou no santuário como o Mediador da Nova Aliança, “por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção”. Em Hebreus 7:22 é dito: “De tanto melhor aliança Jesus foi feito fiador”. Um fiador é alguém que cumpre as obrigações legais de alguém que não as pode cumprir. A morte de Cristo efetua a salvação de todos os que estão nessa aliança. Quem está na aliança? O versículo 15 diz que “aqueles que são chamados” estão na Nova Aliança.

Em terceiro lugar, os incrédulos nunca estiveram no Pacto da Graça (por causa do que foi dito antes, em primeiro e segundo lugar). O Pacto da Graça foi feito somente com os eleitos em Cristo. Esse pacto efetivamente salva todos os seus membros porque eles estão sob a mediação eficaz de Cristo. Portanto, uma vez que os filhos incrédulos (e incrédulos de qualquer tipo) não faziam parte do Pacto da Graça sob a Antiga Aliança, assim também não fazem parte do Pacto da Graça sob a Nova Aliança.

Em conclusão, a doutrina batista reformada do Pacto da Graça evita os problemas da doutrina pedobatista enquanto preserva a unidade do Evangelho ao longo das Escrituras.

 

2. Hermenêutica

Os pedobatistas reformados afirmam sustentar a hermenêutica reformada da prioridade do Novo Testamento. Essa é a mesma hermenêutica articulada por Agostinho na frase: “O Novo Testamento está no Antigo velado; o Antigo Testemando está no Novo revelado”. Os exegetas reformados concordam que o Novo Testamento tem autoridade final sobre a interpretação das passagens do Antigo Testamento. Contudo, os batistas reformados não acreditam que os pedobatistas aplicam nossa hermenêutica reformada comum de modo consistente. Considere os seguintes exemplos de nossas respectivas aplicações hermenêuticas.

Primeiro, os pedobatistas reformados e os batistas reformados concordam em aplicar consistentemente a prioridade do Novo Testamento com respeito a algumas categorias de promessa e cumprimento.

  • A promessa de um templo reconstruído para Israel (Ezequiel 40-48) é cumprida em Cristo (João 2: 19-21) e na igreja (1 Pedro 2:4-5).
  • A promessa de terra física para os descendentes de Abraão (Gênesis 15:18-20) é cumprida para a descendência crente de Abraão na melhor pátria, os novos céus e a nova terra, com base na obra de Cristo (Hebreus 11:10, 13, 16).

Segundo, os pedobatistas reformados discordam entre si, enquanto os batistas reformados mantêm a prioridade do Novo Testamento em outras categorias de promessa e cumprimento.

  • Os batistas reformados creem que as leis civis de Israel com as suas penalidades (por exemplo: Êxodo 22) são cumpridas com a vinda de Cristo porque já cumpriram o seu propósito de proteger a linhagem física da promessa (Efésios 2:14-15). Os pedobatistas conflitam entre si quanto a se as leis civis de Israel deveriam ser aplicadas aos Estados Unidos, como o reconstrucionismo teonomista ensina.
  • Os batistas reformados creem que a páscoa do Antigo Testamento foi cumprida em Cristo (1 Coríntios 5:7), e que somente a revelação do Novo Testamento determina os participantes da Ceia do Senhor, uma ordenança da Nova Aliança (1 Coríntios 11: 27-29). Os pedobatistas conflitam sobre se os filhos dos crentes devem ser admitidos à Ceia do Senhor porque eram admitidos à páscoa (Êxodo 12:24).

Terceiro, os pedobatistas reformados rejeitam a prioridade do NT em certas categorias de promessa e realização, enquanto os batistas reformados o afirmam com consistência.

  • Os batistas reformados creem que a promessa feita a Abraão e à sua semente física (Gênesis 17:7) é cumprida em Cristo. Gálatas 3:16 diz: “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo”. Os batistas reformados também creem que essa promessa é cumprida nos crentes. Gálatas 3:7 afirma: “Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão”. Os pedobatistas, como os dispensacionalistas, acreditam que a promessa de uma semente física no Antigo Testamento deve reger a nossa exegese do Novo Testamento, em vez de o contrário. [1]
  • Os batistas reformados creem que o sinal da circuncisão (Gênesis 17:11) é cumprido na cruz de Cristo e na “circuncisão do coração”. Colossenses 2:11-12 afirma: “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, pela circuncisão de Cristo; sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos”. Os pedobatistas, por outro lado, sustentam que o significado do sinal da circuncisão é determinante para o significado do sinal do batismo, em vez de admitirem que o Novo Testamento determina o significado do batismo e o cumprimento da circuncisão.

Portanto, o modelo pedobatista reformado aplica de modo inconsistente a sua própria hermenêutica reformada. Em alguns casos, permite que o Novo Testamento determine o desdobramento progressivo da história redentora. Em outros, permite que o Antigo Testamento tenha prioridade sobre o Novo. Este modelo não apresenta fundamento hermenêutico governante para as suas escolhas divergentes.

 

3. O Princípio Regulador do Culto

Tanto as confissões de fé de pedobatistas reformados quanto as de batistas reformados afirmam o princípio regulador do culto, que ensina que o culto cristão público deve incluir apenas elementos ordenados sob a Nova Aliança. Quaisquer elementos de culto da Nova Aliança não instituídos pela revelação da Nova Aliança são proibidos.

Os batistas observam que não há qualquer mandamento nem um exemplo explícito de um batismo infantil na Bíblia. Os pedobatistas concordam. Alguns pedobatistas apelam aos batismos de casas como um exemplo, mas admitem que a Bíblia silencia sobre se esses lares incluíam alguma criança. Portanto, os batistas concluem que o batismo infantil é proibido como um elemento de culto público com base no princípio regulador do culto.

Como os pedobatistas buscam conciliar o princípio regulador com o batismo infantil? Eles utilizam duas abordagens. Uma abordagem é argumentar a partir da ordem para a circuncisão do Antigo Testamento, mas isso viola o princípio regulador, que ensina que apenas a revelação da Nova Aliança pode instituir as práticas de culto da Nova Aliança. Outra abordagem é argumentar que, embora o batismo seja um elemento de culto, o batismo de infantes é uma circunstância de culto, e não um elemento.

As circunstâncias estabelecidas pelo princípio regulador são coisas como “iluminação”, “bancos”, “linguagem”, “ar-condicionado”, etc. Parece ser uma depreciação do pedobatismo (ao ponto do absurdo) dizer que o “pedo” de “pedobatismo” é uma mera “circunstância” de culto e não um elemento.

Os pedobatistas também costumam dizer que ambos os grupos estão argumentando a partir do “silêncio” sobre esse ponto. Mas esses são dois tipos muito diferentes de argumentos com base no silêncio. Uma coisa é argumentar contra crer em uma doutrina com base no silêncio. Outra coisa é argumentar em favor da crença em uma doutrina baseada no silêncio.

Os batistas reformados, contudo, não têm esse problema. Eles observam que a Escritura exige apenas o batismo de discípulos (Mateus 28:19; Atos 8:12; etc.). Portanto, os batistas batizam somente os discípulos.

 

4. Inconsistências Internas Graves na Prática do Pedobatismo Reformado

O pedobatismo reformado tem várias inconsistências internas graves. Um dos testes da veracidade de qualquer sistema é examiná-lo por sua consistência interna. A consistência é uma marca da verdade, enquanto a inconsistência é uma marca do erro.

Os pedobatistas reformados afirmam que o batismo infantil é baseado no princípio “você e sua descendência” e na prática da circuncisão, ambas do Antigo Testamento. O problema sério disso, no entanto, é que eles não seguem os seus princípios, o que prejudica o seu argumento a partir desses princípios. O batismo infantil reformado não se assemelha à inclusão da descendência física ou da circuncisão do Antigo Testamento. Considere os seguintes exemplos:

  • Os pedobatistas excluem os cônjuges adultos descrentes do Pacto da Graça, mas sob a Antiga Aliança, todos os membros da família israelita, incluindo maridos e esposas, estavam na aliança, cressem ou não.
  • Os pedobatistas excluem os empregados domésticos das águas do batismo. Mas, na Atiga Aliança, todo homem entre os israelitas deveria ser circuncidado, inclusive servos, quer os empregados cressem quer não.
  • Os pedobatistas buscam uma profissão de fé dos pais antes de batizar os filhos deles. Ou seja, eles apenas batizarão os filhos de crentes professos. Porém essa exigência não é revelada nem no Antigo Testamento nem no Novo. Os pedobatistas não batizarão os filhos de membros da igreja batizados, se esses membros da igreja batizados forem membros não-comungantes (como às vezes acontece quando aqueles que não têm certeza de sua própria salvação têm filhos). Não há razão revelada para fazer isso.
  • Os pedobatistas exigem que os adultos façam uma profissão de fé antes de batizá-los, mas tal profissão não era exigida na Antiga Aliança. Na Antiga Aliança, os israelitas não exigiam uma profissão de fé dos adultos antes da sua circuncisão. Antes, todo homem entre os israelitas deveria ser circuncidado, independentemente de idade ou profissão de fé.

Tudo isso destrói o próprio fundamento no qual os pedobatistas reformados argumentam em favor do batismo de infantes. Os pedobatistas argumentam que os bebês devem ser incorporados ao Pacto da Graça com base na participação da Antiga Aliança. No entanto, se a Antiga Aliança continha membros que os pedobatistas excluem do Pacto da Graça, então o seu próprio argumento é minado. A Antiga Aliança incluía cônjuges, empregados, filhos adultos e continuava a incluir “vós e vossos filhos”, independentemente da crença. Os pedobatistas geralmente recusam a participação a todos esses. Portanto, o fundamento do seu argumento é destruído.

Em conclusão, o pedobatismo reformado compromete a suficiência da obra de Cristo em sua doutrina do Pacto da Graça, aplica de modo inconsistente a sua própria hermenêutica, viola o princípio regulador do culto e destrói o seu próprio argumento para a inclusão infantil devido a várias inconsistências.

 


[1] Para saber mais sobre isso leia Hermenêutica: A Prioridade do Novo Testamento – NdoR.


 

Tradução por Camila Rebeca Teixeira • Revisão por William Teixeira
Texto orignalmente postado no site Founders.org • Traduzido e publicado com permissão.