Há Perdão Para Grandes e Miseráveis Pecadores

|

“Por amor do Teu nome, Senhor, perdoa minha iniquidade, pois é grande.” (Salmos 25:11)

É evidente por algumas passagens deste Salmo, que quando foi escrito, era um momento de aflição e perigo para Davi. Isto transparece particularmente até o 15º e seguintes versos: “Meus olhos estão sempre voltados para o Senhor; pois ele tirará os meus pés da rede”, e etc. Seu sofrimento o faz pensar em seus pecados, e leva-o a confessá-los e clamar a Deus por perdão, como é apropriado em um momento de aflição. Veja o verso 7: “Não te lembres dos pecados da minha mocidade, nem das minhas transgressões”; e verso 18: “Olha para a minha aflição, e minha dor, e perdoa todos os meus pecados”.

É observável no texto que argumentos o salmista usa ao implorar por perdão.

  1. Ele implora o perdão por causa do nome de Deus. Ele não tem nenhuma expectativa de perdão por causa de qualquer justiça ou merecimento dele por quaisquer boas ações que ele tenha feito, ou por qualquer compensação que havia feito por seus pecados; mesmo que se a justiça de um homem pudesse ser usada como argumento, Davi teria tido tantos argumentos quanto a maioria. Mas ele implora que Deus o perdoe por causa de Seu próprio nome, por Sua própria glória, pela honra da Sua própria livre graça e da Sua própria fidelidade.
  1. O salmista usa a grandeza de seus pecados como argumento para misericórdia. Ele não apenas não usa sua justiça própria como argumento, ou a insignificância de seu pecado; ele não apenas não diz: “Perdoa minha iniquidade, pois eu tenho feito tanto para compensá-las”; ou “Perdoa minha iniquidade, pois é pequena, e Tu não tens tanta razão para estar zangado comigo; minha iniquidade não é tão grande que Tu tenhas qualquer justa causa para usá-la contra mim; minha ofensa não é tal que não possas negligenciá-la”, mas ao contrário, ele diz: “Perdoe minha iniquidade, pois ela é grande”; ele argumenta a grandeza de seu pecado, não a pequenez dele; ele reforça sua oração com essa consideração, que seus pecados são muito hediondos.

Mas como ele podia fazer disso um pleito para perdão? Eu respondo: Porque quanto maior sua iniquidade, maior a necessidade tinha de perdão. É como se ele tivesse dito, “Perdoe minha iniquidade, pois ela é tão grande que eu não posso suportar a punição; meu caso será excessivamente miserável, a não ser que Te agrades em me perdoar”. Ele faz uso da grandeza do seu pecado, para reforçar seu apelo por perdão, como um homem usaria uma grande calamidade para implorar por alívio. Quando um mendigo implora por pão, ele argumentará sua grande pobreza e necessidade.

Quando um homem em perigo implora por piedade, que argumento mais adequado pode ser usado além da extremidade do seu caso? E Deus permite tal argumento como este, pois ele não é movido à misericórdia para conosco por nada em nós, além da grande miséria do nosso caso. Ele não se apieda de pecadores porque são dignos, mas por eles precisam de Sua compaixão.

DOUTRINA: Se nós realmente formos a Deus por misericórdia, a grandeza do nosso pecado não será impedimento para perdão. Se fosse um impedimento, Davi jamais teria usado isso como argumento, como vemos que ele faz neste texto.

As seguintes coisas são necessárias a fim de realmente irmos a Deus por misericórdia:

  1. Devemos ver a nossa miséria, e nos sensibilizarmos da nossa necessidade de misericórdia. Os que não estão conscientes de sua miséria não podem realmente olhar a Deus por misericórdia; pois é a própria noção da misericórdia Divina, que é a bondade e a graça de Deus para com o miserável. Sem miséria no objeto, não pode haver exercício da misericórdia. Supor misericórdia sem supor miséria, ou compaixão sem calamidade é uma contradição. Portanto os homens não podem olhar para si mesmos como apropriados objetos de misericórdia, a menos que eles primeiro conheçam a si mesmos como miseráveis; e então, a não ser que este seja o caso, é impossível que eles vão a Deus por misericórdia. Eles devem perceber que são filhos da ira; que a lei está contra eles, e que estão expostos à maldição dela: que a ira de Deus permanece sobre eles; e que Ele está irado com eles todos os dias enquanto estão debaixo da culpa do pecado. Eles precisam sensibilizarem-se de que a culpa do pecado faz deles criaturas miseráveis, não importando qual alegria temporal eles tenham; que eles não podem ser nada além de miseráveis, criaturas desfeitas, enquanto Deus está irado com eles; que eles estão sem força, e devem perecer, e isto eternamente, a não ser que Deus os ajude. Eles precisam ver que o caso deles é de completo desespero, por qualquer coisa ou qualquer um possa fazer por eles; que eles pairam sobre o abismo da miséria eterna; e que eles necessariamente devem cair nele, se Deus não tiver misericórdia deles.
  2. Eles devem ser sensíveis que não são dignos da misericórdia de Deus. Aqueles que realmente vêm a Deus por misericórdia, vêm como mendigos, e não como credores. Eles vêm por pura misericórdia, por graça soberana, e não por qualquer coisa que lhes é devido. Portanto, eles devem ver que a miséria sob a qual estão é justamente trazida a eles, e que a ira na qual estão expostos é ameaçado contra eles justamente também; e que eles têm merecido que Deus seja seu inimigo. Eles devem ser sensíveis que seria justo da parte de Deus fazer como Ele ameaçou em Sua santa Lei, isto é, fazer deles objetos da Sua ira e maldição no inferno por toda a eternidade. Aqueles que vêm a Deus por misericórdia de uma maneira correta não estão dispostos a achar falta em Sua severidade, mas eles vêm num senso de sua completa indignidade, como com cordas em seus pescoços, e deixados no pó aos pés da misericórdia.

Os pecadores devem vir a Deus por misericórdia em e através de Jesus Cristo somente. Toda sua esperança de misericórdia deve vir da consideração de quem Ele é, do que Ele fez e do que Ele sofreu; e que não há outro nome dado debaixo do céu, entre os homens, pelo qual possamos ser salvos, além do nome de Cristo; que Ele é o Filho de Deus, e o Salvador do mundo; que o Seu sangue limpa todo pecado, e que Ele é tão digno, que todos os pecadores que estão nEle podem ser perdoados e aceitos. É impossível que qualquer um venha a Deus por misericórdia, e ao mesmo tempo não tenha nenhuma esperança de misericór-dia. A vinda deles a Deus por misericórdia, implica que eles têm alguma esperança de obtê-la, de outro modo eles não pensariam valer a pena o tempo de vir. Mas aqueles que vêm de maneira correta têm toda sua esperança através de Cristo, ou da consideração de sua redenção e suficiência dela. Se pessoas assim vêm a Deus por misericórdia, a grandeza de seus pecados não será impedimento de perdão. Deixe que seus sejam tantos, e grandes, e graves isso não fará Deus nem um grau menos disposto a perdoá-los. Isso pode ser evidenciado pelas seguintes considerações:

  1. A misericórdia de Deus é tão suficiente para o perdão de grandes pecados quanto para os menores; e isso porque Sua misericórdia é infinita. O que é infinito está muito acima do que é grande, Ele está tão acima dos reis como ele está acima dos mendigos; Ele está tão acima do maior anjo, como está do pior verme. Uma medida finita não chega nem perto da extensão do que é infinito. Então a misericórdia de Deus sendo infinita, deve ser tão sufici-ente para o perdão de todo pecado quanto de um só. Se um dos menores pecados não está além da misericórdia de Deus, então também não está o maior, ou dez mil deles. No entanto, deve-se reconhecer que isso apenas não prova a doutrina. Pois apesar de que a misericórdia de Deus possa ser suficiente, e ainda sim os outros atributos podem se opor à dispensação de misericórdia em outros casos. Portanto eu observo,
  2. A satisfação do sacrifício de Cristo é tão suficiente para a remoção da maior culpa quanto da menor, 1 João 1:7: “O sangue de Cristo purifica de todo pecado”. Atos 14:39: “Por ele todo aquele que crê é justificado de todas as coisas que não pudestes ser justificados pela lei de Moisés”. Todos os pecados daqueles que verdadeiramente vêm a Deus por misericórdia, sejam o que forem, são propiciados, se Deus é verdadeiramente o que nos diz ser; e se eles são satisfeitos, certamente não é incrível que Deus estaria pronto para perdoá-los. Sendo o sacrifício de Cristo completamente satisfeito por todo pecado, ou tendo operado a satisfação que é suficiente por todos, não é, agora, nem um pouco inconsistente com a glória do atributo Divino perdoar os maiores pecados daqueles que vêm de uma maneira correta até Ele por perdão. Deus pode agora perdoar os maiores pecadores sem nenhum prejuízo à honra de Sua santidade. A santidade de Deus não O deixa mostrar uma menor severidade ao pecado, mas O inclina a dar testemunhos apropriados ao Seu ódio ao pecado. Mas Cristo tendo satisfeito por todo pecado, Deus pode agora amar o pecador, e não mostrar nenhuma severidade ao pecado, por mais terrível que o pecador tenha sido. Foi um suficiente testemunho da aversão de Deus ao pecado que Ele derramou Sua ira em Seu próprio Filho amado, quando Ele assumiu a culpa sobre Si. Nada pode demostrar melhor o ódio de Deus ao pecado do que isso. Se toda a humanidade tivesse sido eternamente condenada não teria sido tão grande testemunho quanto este.

Deus pode, através de Cristo, perdoar os grandes pecadores sem nenhum prejuízo à honra de Sua majestade. A honra da Divina majestade de fato requer satisfação; mas os sofrimen-tos de Cristo reparam completamente o dano. Que o desprezo seja sempre tão grande, ainda sim se tão honrável Pessoa como Cristo se compromete a ser um Mediador para o infrator, e sofre muito por ele, isso repara completamente o dano causado à Majestade do céu e da terra. Os sofrimentos de Cristo satisfazem completamente a justiça. A justiça de Deus, como supremo Governador e Juiz do mundo, requer punição para o pecado. O supremo Juiz deve julgar o mundo de acordo com uma regra de justiça. Deus não mostra misericórdia como um soberano, e Sua justiça como um Juiz deve ser feita de maneira con-sistente um com o outro; e isso é feito através dos sofrimentos de Cristo, no qual o pecado é completamente punido, e justiça é satisfeita. Romanos 3:25-26: “Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus”. A Lei não é impedimento no caminho do perdão dos grandes pecados, se os homens vierem verdadeiramente a Deus por misericórdia, pois Cristo cumpriu a Lei, Ele suportou a maldição dela em Seus sofrimentos, Gálatas 3:13: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazen-do-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro”.

  1. Cristo não se recusará a salvar grandes pecadores, que de maneira correta vierem a Deus por misericórdia; pois esta é Sua obra. É o Seu ofício ser um salvador de pecadores; é o trabalho para qual Ele veio ao mundo; e portanto, Ele não se negará a fazê-lo. Ele não veio para chamar os justos, mas pecadores ao arrependimento (Mateus 9:13). O pecado é o próprio mal que Ele veio ao mundo para remediar, portanto Ele não se oporá a nenhum homem por ele ser muito pecaminoso. Quanto mais pecaminoso ele for, mais há a necessidade de Cristo. A pecaminosidade do homem foi a razão da vinda de Cristo ao mundo; está é a mesma miséria da qual Ele veio libertar os homens. Quanto mais eles os têm, mais eles precisam ser libertos; “Os sãos não precisam de médico, apenas os que estão doentes” (Mateus 9:12). O médico não se oporá a curar o homem que o solicita, que está em grande necessidade de ajuda dele. Se um médico compassivo vai entre doentes e feridos, certamente ele não se recusará a curar aqueles que estão em maior necessidade de cura, se ele é capaz de curá-los.
  1. Aqui a glória da graça pela redenção de Cristo deve consistir em Sua suficiência para o perdão dos maiores pecadores. A totalidade da ideia do caminho da salvação é para este fim, para glorificar a graça gratuita de Deus. Deus tinha em Seu coração por toda a eternidade, glorificar este atributo; e, portanto, o dispositivo de salvar pecadores por Cristo foi concebido. A grandeza da Divina graça muito aparece nisso que Deus por Cristo salva grandes infratores. Quanto maior culpa de qualquer pecador, mais gloriosa e maravilhosa é a graça manifestada em seu perdão, Romanos 5:20: “onde o pecado abundou, supera-bundou a graça”. O apóstolo, ao contar quão grande pecador ele tinha sido, observa a graça abundante em seu perdão, na qual sua grande culpa era a ocasião: 1 Timóteo 1:13: “A mim, que dantes fui blasfemo, e perseguidor, e injurioso; mas alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade”. O Redentor é glorificado, no que Ele prova ser suficiente para a redenção daqueles que são excessivamente pecadores, no que Seu sangue prova suficiência para lavar a maior culpa, no que Ele é capaz de salvar homens até o fim, e no que Ele redime mesmo da maior miséria. Esta é a honra de Cristo por salvar grandes peca-dores: quando eles vêm até Ele, como é a honra de um médico que cura a mais deses-peradora doença ou ferida. Portanto, sem dúvida, Cristo estará disposto a salvar grandes pecadores, se eles vierem a Ele; pois Ele não se negará a glorificar a Si mesmo, e para recomendar o valor e a virtude de Seu próprio sangue. Vendo que Ele se dispôs a redimir pecadores, Ele não estará indisposto a redimir os pecadores, Ele não vai estar indisposto a mostrar que Ele é capaz de redimir até ao fim.
  1. Perdão é tão oferecido e prometido para os grandes pecadores como para qualquer outro, se eles vierem de maneira correta a Deus. Os convites do Evangelho estão sempre em termos universais: como, aquele que tem sede; venham a mim todos que estão cansados e oprimidos; e, quem quiser, venha. E a voz da Sabedoria é para os homens em geral: Provérbios. 8:4 “A vós, ó homens, clamo; e a minha voz se dirige aos filhos dos homens”. Não para homens moralistas, ou homens religiosos, mas para você, homem. Então Jesus promete em João 6:37: “O que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”. Está é a direção de Cristo para Seus apóstolos depois de Sua ressurreição, Marcos 16:15,16: “Ide e pregai o evangelho a toda criatura: quem crer e for batizado, será salvo”. O que está de acordo com o que o apóstolo disse, que “o evangelho tem sido proclamado a toda criatura que está debaixo céu” (Colossenses 1:23)

 

APLICAÇÃO

O uso apropriado desse assunto é encorajar pecadores cuja consciência está pesada com um senso de culpa, para imediatamente irem a Deus através de Cristo por misericórdia. Se vocês forem na maneira que descrevemos, os braços estão abertos para abraçá-los. Vocês não precisam de maneira alguma sentir mais medo de vir a Deus por causa de seus pecados, mesmo que sejam tão terríveis. Se vocês tivessem tanta culpa sobre cada uma de suas almas como todos os homens perversos do mundo e todas as almas condenadas no inferno; ainda sim se vocês vierem a Deus por misericórdia, sensíveis de sua própria vileza e buscando perdão apenas pela misericórdia graciosa de Deus através de Cristo, vocês não precisariam ter medo; a grandeza dos seus pecados não seria impedimento para perdão. Portanto, se suas almas estão pesadas e vocês estão angustiados por medo do inferno, vocês não precisam mais suportar esse peso e angústia. Se vocês estão apenas dispostos,  poderão gratuitamente vir e aliviarem a si mesmos, lançando todo o seu peso em Cristo e descansando nEle.

 

Trecho do Sermão Perdão para o Maior dos Pecadores, por Jonathan Edwards.