Piedade Cristã: O Dever da Esposa

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(Capítulo 5 do livro “Piedade Cristã”, por John Bunyan)

A esposa está unida pela lei ao marido, enquanto o marido viver (Romanos 7:2). Portanto, ela também tem a sua obra e o seu papel na família, assim como os demais.

Existem aspectos importantes na conduta de uma esposa para com seu marido, o que ela deve observar de modo consciente.

Em primeiro lugar, ela deve ver seu marido como a sua cabeça e seu senhor. “A cabeça da mulher é o homem” (1 Coríntios 11:3). “Sara obedecia a Abraão, chamando-lhe senhor” (1 Pedro 3:6).

Em segundo lugar, a esposa deve estar sujeita ao marido, como ao Senhor. O apóstolo diz: “Que a esposa seja submissa ao marido, como ao Senhor”[1] (1 Pedro 3:1; Colossenses 3:18; Efésios 5:22). Eu já disse que se o marido se portar diante de sua esposa como deve, então ele será como uma ordenança de Deus para ela, de modo que além da relação de um marido, essa conduta pregará para ela sobre a maneira como Cristo trata a Sua igreja. E agora também digo que se esposa se portar diante marido como deve, ela pregará ao marido sobre a obediência da igreja. “De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos” (Efésios 5:24). Agora, para cumprir esse dever, você deve primeiro evitar esses males:

  1. O mal de um espírito desocupado e fofoqueiro. Esse mal não deve ser encontrado na igreja, e nem na esposa, que é a figura da igreja. Cristo ama ter a Sua esposa em casa; ou seja, que ela esteja junto dEle, na fé e na prática de Suas coisas, e não vagueando e se intrometendo nas coisas de Satanás. As esposas também não devem se entregar à fofoca e nem deve vaguear fora do seu lar. Você conhece o que Provérbios 7:11 diz: “Estava alvoroçada e irrequieta; não paravam em sua casa os seus pés”. As esposas devem cuidar dos próprios maridos, no lar, como diz o apóstolo: que elas sejam “moderadas, castas, boas donas de casa, sujeitas a seus maridos”. Por quê? Porque, caso contrário, “a Palavra de Deus será blasfemada” (Tito 2:5).
  2. Tome cuidado para não ter uma língua ociosa, tagarela ou dobre. É odioso, seja nas empregadas ou nas espo-sas, ser como papagaios que não refreiam as suas línguas, principalmente quando consideramos que a esposa deve saber, como eu disse anteriormente, que o seu marido é seu senhor e está sobre ela, como Cristo está sobre a igreja. Você acha que age semelhante à igreja ao tagarelar contra o seu marido? Ela não deveria ficar calada diante dele e observar suas leis, em vez de seguir suas próprias imaginações? Segundo o apóstolo, como a esposa deve se portar diante do marido? “A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição. Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio” (1 Timóteo 2:11-12). É uma coisa indecorosa ver uma mulher se exaltar sobre seu marido; pois, ela deve estar sujeita a ele em tudo, e agir sempre de acordo com a ordem, licença e autoridade dele. E, de fato, aqui está a sua glória: sujeitar-se a ele, como a igreja se sujeita a Cristo. “Abre a sua boca com sabedoria, e a lei da beneficência está na sua língua” (Provérbios 31:26).
  3. Tome cuidado para não usar roupas indecentes ou se portar de modo lascivo, pois isso será mau tanto fora quanto dentro de casa. Ao usar esse tipo de roupa fora de casa, isso não somente será um mau exemplo, mas também tentará os outros à luxúria e a lascívia; e em casa, ofenderá um marido piedoso e os filhos ímpios etc. Como diz Paulo: “Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto, com pudor e modéstia, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos preciosos, mas (como convém a mulheres que fazem profissão de servir a Deus) com boas obras” (1 Timóteo 2:9-10). E também como diz Pedro: “O enfeite delas não seja o exterior, no frisado dos cabelos, no uso de joias de ouro, na compostura dos vestidos; mas o homem encoberto no coração; no incorruptível traje de um espírito manso e quieto, que é precioso diante de Deus. Porque assim se adornavam também antigamente as santas mulheres que esperavam em Deus, e estavam sujeitas aos seus próprios maridos” (1 Pedro 3:3-5).

Contudo, não pense que, pela submissão que mencionei aqui, estou dizendo que as mulheres sejam escravas de seus maridos. As mulheres são companheiras de seus maridos, ossos de seus ossos e carne de sua carne. Um homem não deve odiar a sua própria carne, ou ser amargo contra ela (Efésios 5:29). Portanto, que todo homem “ame a sua própria mulher como a si mesmo, e a mulher reverencie o marido” (Efésios 5:33). A esposa é uma autoridade depois do marido e deve governar tudo quando ele estiver ausente;[2] e, na presença dele, ela deve governar a casa e criar os filhos, e isso deve ser assim para que o adversário não tenha ocasião para maldizer (1 Timóteo 5:10, 13). “Mulher virtuosa quem a achará? O seu valor muito excede ao de rubis”. “A mulher graciosa guarda a honra e conduz os seus negócios com discrição (Provérbios 31:10, 11:16, 12: 4).

Objeção

Porém, meu marido é um incrédulo; o que eu devo fazer?

Resposta

Nesse caso, o que eu disse antes se aplica ainda mais fortemente a você. Pois, (1.) Se essa é a condição do seu marido, ele estará atento às suas falhas e fraquezas, e as usará para atacar a Deus e ao seu Salvador; (2.) Ele estará apto a pensar o pior sobre todas as suas palavras, condutas e gestos; (3.) E tudo isso tende a fazer o seu coração ficar ainda mais duro, preconceituoso e contrário à sua própria salvação; portanto, como Pedro diz: “Semelhantemente, vós, mulheres, sede sujeitas aos vossos próprios maridos; para que também, se alguns não obedecem à palavra, pelo porte de suas mulheres sejam ganhos sem palavra; considerando a vossa vida casta, em temor” (1 Pedro 3:1-2). A salvação ou condenação do seu marido depende muito de sua conduta e comportamento para com ele; portanto, se houver em você algum temor de Deus ou amor ao seu marido, busque ser cheia de mansidão, modéstia e santidade, e se comporte de modo humilde diante dele, conquiste-o por amor à própria salvação dele; e, “de onde sabes, ó mulher, se salvarás teu marido?” (1 Coríntios 7:16).

Objeção

Mas meu marido não é apenas um incrédulo, é também tão perverso, implicante e irritado etc., que não sei como falar com ele ou como me comportar diante dele.

Resposta

De fato, existem algumas esposas que passam por grandes dificuldades por causa de seus maridos ímpios; e nós precisamos orar e sermos compassivos com tais mulheres, pois elas precisam ser muito mais vigilantes e cautelosas em todos os sentidos.

  1. Seja muito fiel a ele em todas as coisas desta vida.
  2. Tenha paciência quanto ao comportamento rude e ímpio dele. Você está viva, ele está morto; você age segundo um princípio de graça, ele age segundo o pecado. Agora, então, veja que a graça é mais forte que o pecado, e a virtude, do que o vício; não se deixe vencer pela impiedade dele, mas vence-a pelas suas virtudes (Romanos 12:21). É uma vergonha que aqueles que professam ser piedosos sejam tão imoderados em suas palavras como o fazem aqueles que não têm a graça. “O longânimo é grande em entendimento, mas o que é de espírito impaciente mostra a sua loucura” (Provérbios 14:29).
  3. Portanto, quando desejar falar com seu marido visando convencê-lo a respeito de algo, seja bom ou mau, você será sábia ao esperar para fazer isso em um momento que seja conveniente. Há “um tempo para ficar em silêncio, e tempo para falar” (Eclesiastes 3:7). Agora, no momento certo:

(1.) Considere o estado de humor dele; e fale quando ele estiver mais calmo, e distante daqueles momentos de irritação ou impiedade. Abigail não falou nem mesmo uma palavra ao marido rude até que os efeitos do vinho passassem e ele voltasse à sobriedade (1 Samuel 25:36-37). A falta dessa observação é a causa pela qual tanto se fala e tão pouco se consegue fazer.

(2.) Fale com ele naqueles momentos em que estiver mais amoroso, e quando mostrar sinais de afeição e prazer em você. Ester fez assim com o seu marido, um rei, e prevaleceu (Ester 5:3, 6; 7:1-2).

(3.) Observe quando suas palavras atingem suas consciências. Em seguida, cite passagens sérias e solenes das Escrituras. De certa forma, foi assim que a mulher de Manoá agiu com relação ao seu marido (Juízes 13:22-23). No entanto:

(a) Que as suas palavras sejam poucas.

(b) E em nenhuma delas busque dominar sobre ele; mas fale, considerando-o ainda como seu cabeça e senhor, por meio de pedidos e suplicas.

(c) E que, em tal espírito de empatia e íntima afeição pelo bem dele, que a maneira do seu falar e agir evidenciem para ele que você fala em amor, e que é sensível à miséria dele; que sua alma tenha um desejo intenso pela conversão de seu marido.

(d) E faça com que as suas palavras e comportamento sejam acompanhados com orações a Deus pela alma dele.

(e) Persevere em um comportamento santo, casto e modesto diante dele.

Objeção

Mas meu marido é um ignorante e insensato, e não tem inteligência suficiente para assumir um emprego fora de casa.

Resposta

  1. Embora tudo isso seja verdade, você deve saber que ele é a sua cabeça, o seu senhor e seu marido.
  2. Portanto, você deve vigiar a si mesma para não desejar usurpar a autoridade dele. Ele não foi feito para você; ou seja, de modo que você tenha domínio sobre ele, mas ele é seu marido e domina sobre você (1 Timóteo 2:12; 1 Coríntios 11:3, 8).
  3. Portanto, embora na verdade você possa ter mais habilidade do que ele, ainda assim deve saber que você mesma e tudo o que é seu deve estar em sujeição ao seu marido; sim “tudo” (Efésios 5:24). Portanto, cuide para que você aja não em seu próprio nome, mas no dele; não para a sua exaltação, mas para a dele; e suporte todas as coisas para que, por sua destreza e prudência, nenhuma das fraquezas do seu marido seja exposta aos outros: “Uma mulher virtuosa é uma coroa para seu marido; mas a que se envergonha, é como podridão em seus ossos”. Pois, como diz o sábio, “ela só lhe faz bem, e não mal, todos os dias da sua vida” (Provérbios 12:4, 31:12).
  4. Portanto, sempre aja como estando sob o poder e a autoridade do seu marido.

Agora, quanto aos seus filhos e empregados, você é mãe, e assim, você precisa se humilhar. Além disso, a mulher crente é uma figura da igreja, ela deve, como a igreja, nutrir e instruir os seus filhos e servos, e como a igreja, ela terá que responder por essa responsabilidade; e verdadeiramente, por estar sempre em casa, ela tem uma grande vantagem nesse empreendimento; portanto, faça isso e o Senhor prosperará o seu labor.

 


[1] “O apóstolo Pedro, a dar mandamentos solenes e precisos para pessoas casadas, começa com a esposa. Sobre isso, Fuller observa: “E certamente era apropriado que as mulheres recebessem sua lição primeiro, porque ela é mais difícil de ser aprendida e, portanto, elas precisam ter mais tempo para assimilá-la”. The Holy State and the Profane State, 1.

[2] “Na ausência do marido, ela é esposa e vice-marido, o que exige dela uma diligência em dobro. Quando o marido retorna, ele encontra todas as coisas tão bem que se sente como se nunca tivesse se ausentado de sua casa”. The Holy State and the Profane State, 2.