Resenha do Livro: Teologia Bíblica Batista Reformada

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Introdução[1]

O livro “Teologia Bíblica Batista Reformada: uma Introdução Baseada na Confissão de Fé de 1689” é um verdadeiro presente que o Senhor concede por meio do Pr. Fernando Angelim. Em uma época onde a confessionalidade reformada é totalmente relegada por muitos ou erroneamente generalizada por outros tantos, o resgate do pactualismo batista, ensinado e documentado pelos Pastores e Irmãos de muitas Congregações de Cristãos (batizados sobre profissão de sua fé), traz solidez e identidade aos batistas reformados dos nossos dias.

A proposta do Pr. Fernando Angelim é bem clara e didática: com base na Confissão de Fé Batista de 1689 (CFB1689), ele apresenta as implicações teológicas e práticas de uma teologia bíblica batista reformada, bem como os efeitos dela sobre a hermenêutica, nas questões de continuidade e descontinuidade entre Antigo e Novo Testamento e na diferença substancial entre a Antiga e a Nova Aliança.

Ao longo de dez capítulos, o Pr. Fernando Angelim traça, didaticamente, os contornos que ao mesmo tempo em que reafirmam a unidade do pactualismo batista com a teologia pactual reformada clássica, também expressam claramente as diferenças substanciais em relação ao estabelecimento do Pacto da Graça e, consequentemente, as diferenças no entendimento de quem são os membros dele.

Resumo dos Ensinamentos Dados

Os dois primeiros capítulos trazem os aspectos basilares relacionados à teologia bíblica e quem são os batistas. No capítulo 1 é apresentada a essência pactualista e representativa da teologia bíblica reformada e as características clássicas de sua hermenêutica. No capítulo 2 é feito um resgate histórico da origem dos batistas nos separatistas ingleses e a formação de dois grupos distintos de batistas: os gerais e os particulares. Além disso, ainda no capítulo 2 são listados nomes notáveis que fazem parte da história dos batistas.

A partir do capítulo 3, os fundamentos bíblicos da visão pactualista dos batistas são apresentados. Nesse capítulo temos uma visão panorâmica das Escrituras e podemos identificar o seu enredo centrado no planejamento (na eternidade), revelação (na Antiga Aliança) e estabelecimento (na Nova Aliança) do Pacto da Graça. Ainda nesse capítulo podemos constatar que o ensino da CFB1689 foi fielmente extraído das Sagradas Escrituras e expõe de maneira condensada esse seu enredo.

Os três capítulos seguintes abordam de forma mais detalhada a estrutura pactual da teologia batista, definindo e explicando os conceitos principais encontrados no Pacto de Obras, no Pacto da Graça e no Pacto da Redenção.

No capítulo 4, conceitos importantes como pacto, cabeça federal, tipo/antítipo, entre outros, são definidos. Além disso, a natureza condicional do Pacto de Obras que se manteve por toda a Antiga Aliança foi explicada, bem como a necessária representação federal para todo ser humano em Adão ou em Cristo (Aquele em quem o Pacto de Obras foi plenamente cumprido).

Nos capítulos 5 e 6 temos os Pactos da Graça e da Redenção, respectivamente. Eles são intimamente ligados e, enquanto o Pacto da Redenção é o acordo firmado na eternidade pelo Deus Triuno para a salvação dos eleitos, o Pacto da Graça é o desenvolvimento desse plano redentor na história, sendo progressivamente revelado na Antiga Aliança e finalmente estabelecido por meio do sangue do Cordeiro, na Nova Aliança.

Vale ressaltar o efeito retroativo do Pacto da Graça sobre os santos do Antigo Testamento, eles foram salvos pela graça, mediante a fé na promessa de um Redentor que viria. Ninguém pode ser salvo senão por meio de Jesus Cristo, em virtude da Nova Aliança.

No capítulo 7 é analisada a relação entre a Antiga e a Nova Aliança. A Antiga Aliança aponta tipologicamente para Cristo e cumpre seu papel de preservar a linhagem do Messias, de mostrar que todos estão debaixo da condenação do pecado e, que, por isso, precisam de um Salvador. Os aspectos físicos e condicionais da aliança com Abraão se desenvolvem na Antiga Aliança, mas é na Nova Aliança que os aspectos espirituais e incondicionais da aliança abraâmica se cumprem. Cristo é o Mediador desta última, ele cumpriu as exigências no lugar dos eleitos. Sendo assim, a Nova Aliança é eterna, inquebrável e essencialmente distinta da Antiga Aliança.

O capítulo 8 trata do uso da Lei de Deus na Nova Aliança. É apresentado o entendimento geral dos teólogos reformados sobre a tripartição da lei e como, diferente do que acontece com as leis civis e cerimoniais, a lei moral, agora gravada no coração do crente (e não mais em tábuas de pedras), deve ser observada como princípios que demonstram o caráter e vontade de Deus e conduzem a santificação. O crente não está sob a maldição da Lei e jamais pode ser salvo mediante ela, mas em gratidão e amor à Deus a observará, fugindo tanto do antinomianismo como do legalismo.

O capítulo 9 trata de um ponto interessante relacionado ao que foi tratado no capítulo anterior: o Dia do Senhor. É apresentado que o Quarto Mandamento tem um aspecto cerimonial (que fora cumprido) e um aspecto moral (estabelecido para o homem e não somente ao judeu): o dia do descanso para adorar a Deus.

Outro ponto interessante acerca do que é abordado no capítulo 9 é a mudança desse dia de descanso a ser guardado, para o primeiro dia da semana. Essa mudança não é defendida como mera conveniência ou costume, mas como algo que fora instituído por Deus, seja por meio dos apóstolos, seja pelo próprio Senhor Jesus (maior que o sábado; dia da ressureição; dia que volta a aparecer aos apóstolos, estando estes reunidos; e o dia de Pentecostes).

O capítulo 10 encerra essa maravilhosa obra comparando as teologias pedobatista e credobatista. Embora existam muitas semelhanças no modelo pactual de ambas, as diferenças relacionadas ao estabelecimento do Pacto da Graça geram distinções substanciais estre essas duas vertentes do pactualismo.

Enquanto os pedobatistas creem que o Pacto da Graça foi estabelecido já em Gênesis 3:15 e administrado de diferentes formas na Antiga e na Nova Aliança, os credobatistas creem que na Antiga Aliança o Pacto da Graça foi revelado e somente foi estabelecido na Nova Aliança, o que faz com que ela seja substancialmente diferente da Antiga. Assim, somente os regenerados podem crer e somente eles estão no Pacto da Graça e podem participar das ordenanças dele.

Aplicação dos Ensinamentos Obtidos

O livro “Teologia Bíblica Batista Reformada” do Pr. Fernando Angelim é um belo instrumento de expansão do conhecimento teológico e de como este afeta a vida cristã e a igreja. Fui extremamente abençoado por sua estrutura tão bíblica, clara e didática que permite meditar nas Escrituras de forma mais compreensível, ampla e interligada. O entendimento de como os pactos acontecem e suas implicações abrem a mente e coração para compreender a vontade do Senhor. Parece que as diversas peças de um enorme quebra-cabeças finalmente começam a se encaixar. Glória a Deus por isso.

Outro aspecto que precisa ser pontuado é a respeito da confessionalidade e identidade batista que esse livro traz. Ao ler no Capítulo 2 sobre a origem dos batistas, os batistas pactuais notáveis e como as doutrinas registradas na CFB1689 são tão atuais e necessárias à igreja, sinto como se observasse minha árvore genealógica, como se levasse comigo na CFB1689 os registros de uma linhagem que foi preservada. Como é importante e reconfortante saber que temos um lastro histórico, que pegamos um bonde andando, trazido por grandes homens, verdadeiras montanhas a serem admiradas.

Por fim, esse livro me confrontou diretamente a cerca de dois aspectos que outrora eram ainda um pouco abstratos para mim. O uso da Lei do Senhor para santificação e o dia do Senhor.

A submissão à lei moral escrita em nossos corações é uma marca de que ela realmente está lá. Como crentes, a lei não nos condena, mas nos aponta uma direção de como fazer a vontade daquele que nos resgatou. Como é maravilhosa a Lei de Deus para aqueles que estão em Cristo.

Quão maravilhoso também é desfrutar do dia do Senhor. Não é uma mera folga que recebemos em uma semana de trabalho. Não é um peso que precisamos carregar por sermos crentes. É o vislumbre de um anseio que temos. É uma alegria antecipada que recebemos do nosso Senhor. Não é aleatório, é intencional, é proposital, é santo.

Que o Senhor abençoe a muitos irmãos por meio desse livro, como me abençoou.


[1] Paper produzido por George Oliveira para a Igreja Batista Reformada em Russas-CE, como um dos requisitos dos estudos de Formação Ministerial da mesma.