Cap. 2: Sobre Deus e a Santíssima Trindade | Série de Comentários Expositivos na CFB1689

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O que é mais surpreendente para os ouvidos cristãos modernos no segundo capítulo da Segunda Confissão de Fé de Londres é a declaração final no terceiro parágrafo desse artigo, que trata da doutrina da Trindade. Como declara o texto do século XVII, essa doutrina: “é o fundamento de toda a nossa comunhão com Deus e confortável dependência dele” (2.3). Essa declaração é extraída diretamente da declaração de fé dos congregacionais, a Declaração da Savoy (1658), a qual foi utilizada por aqueles que redigiram a Confissão Batista como fonte ao lado da Confissão Presbiteriana de Westminster (1646). Essa frase pode muito bem ter sido redigida pelo teólogo congregacional John Owen (1616-1683). Seja como for, ela deve ser uma declaração surpreendente para os ouvidos cristãos contemporâneos, pois, mesmo em muitas congregações nas quais as pessoas creem na Bíblia, pode-se passar de um ano para o outro e ouvir pouco (se é que se pode ouvir algo) ensino claro sobre a natureza da trindade. Mas aqui, afirma-se que essa verdade é a doutrina definitiva da qual depende nossa caminhada com Deus. Além disso, essa é a doutrina que proporciona força, prazer e conforto aos cristãos (a palavra “conforto” e seus cognatos carregavam em si todos esses significados no século XVII). Mas se isso for verdade, e aqueles que elaboraram esse documento e o confirmaram inicialmente possuíam um fundamento sólido na Bíblia para crer que era assim, então nossas igrejas cristãs nos dias de hoje estão em um estado lamentável.

Este é o parágrafo sobre a trindade, que conclui a declaração da Confissão sobre Deus:

Em seu ser divino e infinito há três subsistências, o Pai, a Palavra ou o Filho, e o Espírito Santo, de uma só substância, poder e eternidade, cada um possuindo completa essência divina e, ainda assim, a essência é indivisível: O Pai de ninguém é gerado nem procedente; o Filho é eternamente gerado do Pai; o Espírito Santo é procedente do Pai e do Filho; todos infinitos, sem princípio de existência. Portanto, um só Deus, que não deve ser divido em seu ser ou natureza, mas sim distinguido pelas diversas propriedades peculiares e relativas, e relações pessoais; essa doutrina da trindade é o fundamento de toda a nossa comunhão com Deus e confortável dependência dele.

Há três grandes afirmações feitas aqui sobre a compreensão bíblica da natureza da trindade. Primeiro, Deus é um ser trino, cujas “subsistências” ou pessoas — que foi o termo usado nos parágrafos paralelos da Confissão de Westminster e da Declaração de Savoy — compartilham um ser, possuem o mesmo poder e eternidade. Essa afirmação rejeita a posição herética que foi desenvolvida no quarto século e que ficou conhecida como arianismo, a qual negava a divindade plena do Filho e do Espírito Santo, e argumentava que ambos eram criaturas, embora perfeitas.

A segunda afirmação é que, embora cada um dos três membros da trindade seja plenamente Deus e compartilhem um ser, eles se distinguem um do outro: o Pai não é gerado, enquanto o Filho é “eternamente gerado do Pai” e o Espírito Santo procede eternamente do Pai e do Filho. Essa afirmação rejeita uma segunda heresia cristã primitiva conhecida como modalismo, a qual argumenta que não há distinções pessoais entre o Pai, o Filho e o Espírito. Todos eles são uma só pessoa. Mas isso cria sérios problemas para a compreensão do texto das Escrituras, as quais verdadeiramente afirmam a “trindade” das pessoas. Por exemplo, como seria possível o Filho se oferecer ao Pai como propiciação pelo pecado através do poder do Espírito eterno, como afirma Hebreus 9:14, se não houvesse distinções pessoais entre os três membros da trindade?

E, finalmente, há a afirmação com a qual começamos o nosso comentário sobre esse parágrafo — a doutrina da trindade não é um belo ensaio de especulação filosófica, ou um extra opcional ao evangelho. Se Deus não é um ser trino, nenhum de nós está salvo e permanecemos em nossos pecados. Se Deus não é um ser trino, não temos poder para viver a vida cristã e, de fato, não temos razão para fazê-lo.

A forma pela qual essas verdades são expressas está enraizada em uma linguagem extraída de três fontes principais, duas das quais identificamos como a Confissão de Westminster e a Declaração de Savoy. A afirmação sobre o modo como as pessoas devem ser distinguidas — “O Pai de ninguém é gerado nem procedente; o Filho é eternamente gerado do Pai; o Espírito Santo é procedente do Pai e do Filho” — é extraída do documento presbiteriano e é também encontrada na Declaração de Savoy. Em última análise, essas afirmações são extraídas das discussões patrísticas do quarto século, nas quais autores ortodoxos como Atanásio (ca. 299-373), Basílio de Cesaréia (ca. 329-379) e Gregório de Nissa (ca. 335-395) examinaram as Escrituras para descobrir como a Palavra de Deus apresentava a distinção das pessoas na Divindade. Alguns dos textos que eles usaram em seus argumentos são citados ao lado dessa afirmação na confissão batista: João 1:14 e 18, que afirmam a geração do Filho e João 15:26, que fala da procissão do Espírito.

A terceira fonte é a mais antiga confissão batista particular, a Primeira Confissão de Londres, que foi publicada em duas grandes edições, em 1644 e em 1646. A redação da última edição sobre a trindade é basicamente reproduzida na primeira declaração deste parágrafo: “Em seu ser divino e infinito há três subsistências, o Pai, a Palavra ou o Filho, e o Espírito Santo, de uma só substância, poder e eternidade, cada um possuindo completa essência divina e, ainda assim, a essência é indivisível”. Temos aqui, por um lado, uma afirmação enfática da divindade plena de cada uma das pessoas da Deidade e, por outro, uma rejeição de qualquer tipo de concepção triteística. As três pessoas são totalmente uma enquanto compartilham “uma só substância, poder e eternidade”. A confissão original citou estes textos bíblicos para apoiar esta afirmação: Mateus 28:19, a fórmula batismal; 2 Coríntios 13:14, que foi bem descrita como uma das declarações mais importantes do corpus paulino, pois neste pequeno versículo somos confrontados com a natureza do verdadeiro Deus e como ela afetou nossa salvação; e 1 João 5:7, que a maioria dos estudiosos bíblicos conservadores de hoje não reconhecem como parte do texto autógrafo de 1 João. Mas verdade seja dita, os autores dessa confissão poderiam ter citado uma quantidade enorme de textos para apoiar a afirmação de que Deus é um ser trino, tais como Tito 3:4-6, 1 Coríntios 12:4-6, Efésios 4:4-6, 1 Pedro 1:2, Judas 20-21 e Apocalipse 1:4-5, apenas para começar.

O Evangelho de João é particularmente rico em linguagem trinitária. No discurso de despedida (João 14-16), Jesus diz a seus discípulos que “o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito” (João 14:26). Outros versículos desta seção do Evangelho de João, no entanto, afirmam que Jesus é quem enviará o Espírito (João 15:26; 16:7). O Espírito está é enviado no lugar de Jesus como “outro Consolador” (João 14:16), mas é somente através da presença do Espírito na vida dos discípulos que Jesus, e o Pai, também estão presentes (João 14:23). Como os outros autores do Novo Testamento, João não usa a palavra “trindade” — essa palavra só foi cunhada no final do segundo século por Tertuliano, um teólogo do norte da África — entretanto todos os elementos da fé trinitariana já estavam presentes.

Começamos com a afirmação de que a doutrina da trindade é vital para toda a piedade cristã, ou “comunhão com Deus”. Concluamos com louvor. A Segunda Confissão de Fé de Londres caracterizou uma comunidade, a dos batistas particulares, de ambos os lados do Atlântico, por mais um século e meio, e é apenas na década de 1830 que encontramos afastamentos significativos da teologia dessa confissão por parte dessa comunidade. Um dos mais importantes compositores de hinos que surgiu entre o povo batista foi o pastor-teólogo Benjamin Beddome (1718-1795), que escreveu as seguintes palavras que captam melhor como devemos responder a essa grande verdade da Segunda Confissão de Fé de Londres 2.3:

Glória aos eternos três,
O grande e misterioso um,
Autor de toda a bem-aventurança se fez,
Sem cessar, seja honrado em comum.

Prof. Michael Haykin
1 de maio de 2021.

 

Título original: 1689 Blog Series: Chapter 2 – Of God and of the Holy Trinity — Via: Parresia Books • Traduzido e publicado com permissão • Tradução: William Teixeira.