Informação adicional

Autor

2º Mandamento • Os Dez Mandamentos, por C. Van Til

REF: 2993b02cfb0a Categoria:

Descrição

1. Observações

O Primeiro Mandamento trata da religião adequada como o fundamento da moralidade. O Segundo Mandamento trata da expressão externa da religião. O Primeiro Mandamento nos ensina que devemos servir a Deus; o Segundo como podemos fazer isso corretamente, tanto quanto a expressão exterior da religião está em causa. Assim, estes dois Mandamentos se referem a questões completamente distintas. Isto é facilmente esquecido. Por vezes, ouve-se um sermão sobre o Primeiro Mandamento em que todos os tipos de materiais que servem para fabricar imagens de Deus são mencionados. No entanto, quando os homens usam imagens na adoração eles não estão necessariamente procurando substituir um deus falso pelo verdadeiro Deus. Pode ser uma adoração defeituosa ao verdadeiro Deus. É, de fato, uma transgressão do Segundo Mandamento leva muito facilmente a uma transgressão do Primeiro. Imagens muito facilmente atraem a atenção exclusiva a si mesmas e, portanto, tornam-se objetos em vez de meios de adoração. No entanto, isso não faz com que se identifique a adoração das imagens com a idolatria. Se, de algum modo, nós podemos fazer a comparação entre os vários mandamentos da lei, o Primeiro Mandamento é mais central do que qualquer outro objetivamente e, portanto, também mais central do que o Segundo. Uma vez que é feita uma substituição do único Deus verdadeiro, toda a verdadeira religião e a moralidade simultaneamente são reduzidas a nada.

2. O que é Comandado

Para saber qual é o conteúdo positivo do Segundo Mandamento é necessário antes de tudo que nós formemos uma concepção verdadeiramente bíblica do que se entende por “a imagem de Deus”. Agora podemos falar da imagem de Deus no sentido da ideia que Deus tem de Si mesmo. Só Deus conhece Seu próprio ser. Só Ele tem a imagem completa e verdadeira de Si próprio. Esta concepção da imagem de Deus é um dos fatores que se relacionam à religião e também à adoração. Nenhuma verdadeira religião ou verdadeira adoração são possíveis a menos que Deus revele ao homem, de acordo com a capacidade do homem, algo da Sua imagem de Si próprio. Todas as religiões e cultos não-teístas tornam-se vãs por serem desprovidas desta autorrevelação de Deus. Este Mandamento começa por analisar o homem. Agora é importante termos a certeza — a fim de formar uma verdadeira concepção de adoração — de sabermos o que o homem é. Entretanto, como se pode saber o que o homem é, a menos que se saiba o que Deus é? A natureza do homem e, portanto, a natureza da verdadeira religião e verdadeira adoração — na medida em que é determinada pela natureza do homem — é determinada pela natureza de Deus.

Portanto, quando falamos da imagem de Deus no segundo sentido do termo, a saber, a imagem de Deus no homem, temos o segundo e também secundário fator determinante da composição da religião e da adoração. Pela imagem de Deus no homem, não estou me referindo à ideia de Deus que o homem pode ter formado, por si mesmo. Não é a “minha ideia minha de Deus”, mas “a ideia de Deus a meu respeito” o que aqui é referido. Isto é, devemos saber a composição do homem, como ele foi formado de Deus. Como tal, podemos distinguir entre a imagem de Deus no homem, no mais amplo e no sentido estrito do termo. Por imagem de Deus no homem, no sentido mais amplo se entende que o homem, pelo fato de haver sido criado por Deus, o Espírito, tem um espírito como personalidade absoluta, uma autoconsciência e uma personalidade finita autodeterminando-se. Por imagem de Deus no sentido mais restrito pretende-se que originalmente o homem era eticamente perfeito, que ele possuía verdadeiro conhecimento, justiça e santidade (Colossenses 3:10; Efésios 4:24).

A partir destes dois fatores determinantes: Deus como um Espírito, imortal, invisível e o homem que como um espírito finito e eticamente perfeito expressa-se através de seu corpo, podemos verificar os princípios da verdadeira adoração.

A adoração deve ser espiritual. Isso decorre da espiritualidade de Deus. Qualquer adoração deve ser fixada em Deus como Espírito. Ele nunca pode ser pensado como representado por coisas materiais ou sensuais. Isso seria nivelar o Criador ao nível da criatura. Esta espiritualidade na adoração também está implícita na composição do homem. Este também é, antes de tudo, espiritual. Entretanto, verdade é que seu corpo é uma parte essencial de sua personalidade finita. Disto se segue que o homem pode e até deve dar expressão externa ao culto de seu espírito. Mas essa expressão externa não reduz a espiritualidade de culto se o que é externo é usado apenas como um meio para o interno. A adoração se torna não-espiritual ou sensual, se (a) Deus é pensado sensualmente e (b) se o homem usa o externo como um fim e não como um meio.

Em segundo lugar, a adoração deve ser regulada por Deus. Isto está implícito no fato de que Deus é o Espírito absoluto e o homem, a personalidade finita. A adoração naturalmente não pode deixar de ser baseada na revelação. Não estamos aqui falando da Bíblia. O homem original respirava na revelação de Deus e estava perfeitamente sem qualquer necessidade de revelação especial. Segue-se que se o homem privou-se a si mesmo desta verdadeira revelação, ele não pode mais saber como regular o seu culto a Deus, a menos que Deus mais uma vez venha a ele em revelação especial. Depois do advento do pecado, é imperativo sobre o homem ter seu culto direcionado de acordo com as instruções da revelação especial, sob qualquer forma que possa vir. A história de Mica no Antigo Testamento nos fornece uma ilustração interessante neste assunto. Mica pensou, em senso comum, que deveria se opor à regulação do Senhor, que todos os israelitas deviam vir ao lugar central de adoração em épocas determinadas. Assim sendo, ele fez o seu próprio pequeno santuário e estabeleceu seu próprio sacerdote, com o resultado disto ele fracassou por sua desobediência. O princípio envolvido deve ser enfatizado hoje, quando as pregações via rádio e nos automóveis, mais uma vez parecem usar o “senso comum” contra o regulamento de Deus de que não devemos negligenciar a nossa congregação. É claro que a questão da regulação do culto não se limita ao local de reunião, mas envolve muito mais.

Em terceiro lugar, o local de adoração de culto deve ser mediado. Como o primeiro princípio foi derivado, pelo menos em parte, a partir de considerações metafísicas, isto é, a partir da composição do homem como uma criatura, semelhantemente este terceiro princípio é derivado de considerações éticas, isto é, a perda do homem da imagem de Deus no sentido mais restrito. Quando o homem era eticamente perfeito, ele podia olhar imediatamente para Deus. Visto que o homem, em sentido estrito, perdeu a imagem de Deus, ele não pode mais vir a Deus a não ser através de um mediador. “Ninguém vem ao Pai, senão por mim” [João 14:6]. Em Cristo, Deus restaura a Sua imagem ao homem. “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” (Efésios 4:24). “E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” [Colossenses 3:10]. Agora, na medida em que somente em Cristo a imagem de Deus, no sentido mais restrito, é restaurada ao homem, ninguém pode realmente adorar a Deus exceto por meio de Cristo. Mesmo durante a dispensação do Antigo Testamento isso era verdade. Mesmo então, o culto teve que ser mediado através do sacerdote com suas vestes sacerdotais e o tabernáculo que em conjunto prefiguravam a Cristo. Mais diretamente, desde a encarnação, a adoração é em primeiro lugar a comunhão entre a Igreja, ou seja, o corpo de Cristo, e o próprio Cristo como Sua cabeça.

3. O que é proibido

O que é proibido é, naturalmente, qualquer forma de transgressão ou negligência de qualquer um ou de todos os princípios da verdadeira adoração enumerados. E se qualquer um destes princípios é ignorado, todos eles o são. Qualquer adoração carnal e sensual é diretamente uma violação do princípio da espiritualidade na adoração, torna-se imediatamente um culto de nossa própria vontade. Outrossim, qualquer forma de adoração baseada em nossa própria vontade tende, de forma evidente e imediata, a se tornar sensual. Finalmente qualquer adoração não-mediada é, ipso facto, baseada em nossa própria vontade e também tende a tornar-se sensual.

Pode ainda ser observado que o princípio da espiritualidade na adoração foi mais grosseiramente violado em épocas passadas do que acontece hoje em dia. Era natural que o homem, tendo uma vez se apartado de Deus, devesse ainda sentir a necessidade de um deus, e que em fases passadas da história ele viesse a tentar incorporar sua ideia de Deus em formas sensuais. Primeiramente, ele fez seu deus à imagem de animais, porque ele ainda não havia se atrevido a colocar-se como Deus. Israel estava em constante perigo de ceder a esta tendência pecaminosa. Consequentemente, quando Deus foi reestabelecer a verdadeira adoração de Deus no mundo, através de Israel, era necessário dar um aviso especial contra a adoração sensual. Em Deuteronômio 4:15ss Deus conecta a ideia da verdadeira adoração com Sua própria espiritualidade: “Guardai, pois, com diligência as vossas almas, pois nenhuma figura vistes no dia em que o Senhor, em Horebe, falou convosco do meio do fogo para que não vos corrompais, e vos façais alguma imagem esculpida na forma de qualquer figura, semelhança de homem ou mulher…”.

A imagem de Deus, pode a princípio, ter sido usada como um símbolo para representar a Deus, a fim de ajudar o homem a adorar a Deus. É assim que a Igreja Romana persiste em querer usar tais imagens. Todavia, a Escritura não pode tolerar tal sabedoria do homem. Deus sabe melhor do que o homem o melhor caminho para o homem adorá-lO. Além disso, a imagem como símbolo torna-se prontamente a imagem como fetiche pelo que Deus é identificado com a imagem e a imagem é substituída por Deus. Desta forma, uma transgressão do Segundo Mandamento leva prontamente a uma transgressão do Primeiro Mandamento.

A forma moderna de transgressão do primeiro princípio da verdadeira adoração, muitas vezes assume a forma de um hiper-espiritualismo. A ênfase do modernismo em “valores espirituais” é uma boa indicação da falta da verdadeira espiritualidade. Podemos ver este exemplo na visão que o modernismo tem a respeito dos sacramentos. Estes sacramentos têm sido tão vazios em sua acepção a ponto de significar não mais do que símbolos vagos de uma realidade ainda mais vaga. A ressurreição corporal de Cristo é sacrificada para sua “ressurreição espiritual” e, portanto, estamos procurando “comunhão espiritual” com o “espírito de Cristo”. Isto ataca a raiz do verdadeiro culto de adoração, uma vez que lida com a expressão externa da religião. O modernismo é tão não-espiritual em seu culto como o era a forma mais baixa de cultos a animais…
 

Informação adicional

Autor