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A Interpretação das Escrituras • Cap. 11 • A. W. Pink

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Capítulo 11

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15. Linguagem Não-literal. Nós deixamos essa importante regra da exegese para esse momento, porque é necessária maturidade no julgamento para a sua correta aplicação. Há uma quantidade considerável de linguagem não-literal na Palavra de Deus e é muito necessário que o expositor a reconheça. Grande dano foi feito por não fazê-lo, e muitos erros graves foram ensinados como resultado de considerar como literal o que era figurado. De um modo geral, as palavras da Escritura devem ser entendidas em seu significado puro e simples; sim, a sua significação natural e óbvia deve sempre ser mantida a menos que alguma razão evidente e necessária exija o contrário; como, por exemplo, quando Cristo nos ordenou arrancar um olho direito e cortar a mão direita se os mesmos nos levassem a pecar, ou quando Ele acusou os escribas e fariseus de “devorar as casas das viúvas” (Mateus 23:14), pois manifestamente tal linguagem não deve ser considerada em seu sentido literal. Mas há muitos outros casos que não são tão evidentes como esses, como quando Cristo disse: “E, ocasionalmente [por acaso] descia pelo mesmo caminho certo sacerdote” (Lucas 10:31), o que significa que ele tomou esse caminho sem qualquer finalidade particular ou propósito específico, pois um entendimento literal das palavras negaria as ordenações da Providência.

É necessária uma discriminação minuciosa, tanto espiritual quanto mental, para distinguir entre o literal e o não-literal na Escritura. Isso se aplica em primeiro lugar ao tradutor, como algumas ilustrações mostrarão. Ele tem que determinar em cada ocorrência da palavra kelayoth se a traduzirá literalmente como “rins” ou figurativamente como “coração” e “mente”, palavras que nas Escrituras fazem referência à sede das afeições e sentimentos; a nossa Versão Autorizada se refere à primeira por dezoito vezes, e a última, treze vezes. Em passagens como Salmos 16:7; 26:2; 73:21, “rins” tem referência ao homem interior, especialmente à mente e à consciência; como os rins devem eliminar as impurezas do sangue, a mente e a consciência devem nos livrar do mal. A palavra hebraica ruach significa literalmente vento, e é assim traduzida noventa vezes na Versão Autorizada; no entanto, também é usada emblematicamente como espírito, muitas vezes, e como o Espírito Santo por mais de 200 vezes. Muita sabedoria e discernimento espiritual é exigido pelo tradutor para discriminar. Lachash é traduzido como “brincos” em Isaías 3:20, mas como “oração” em Isaías 26:16! A palavra grega presbuteros significa literalmente uma pessoa idosa, e é assim traduzido em Atos 2:17, e Filemom 9, mas na maioria dos casos se refere a “anciãos”[1] ou oficiais da igreja.

Agora, se um grande cuidado deve ser tomado pelo tradutor para distinguir entre coisas diferentes, é igualmente assim com o expositor. Que ele devidamente leve a sério as advertências fornecidas pela experiência dos apóstolos. Quantas vezes eles não conseguiram entender o significado da linguagem de seu Mestre! Quando Ele declarou: “O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem”, disseram-Lhe: “Explica-nos esta parábola”, e Ele respondeu: “Até vós mesmos estais ainda sem entender?” (Mateus 15:11,15,16). Quando Jesus lhes ordenou: “acautelai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus”, eles discorriam entre si e concluíram que era porque não tinham trazido pão (Mateus 16:6-7). Quando Ele lhes disse que tinha uma comida para comer, a qual eles não conheciam, imaginaram que alguém havia ministrado às Suas necessidades corporais durante a sua ausência (João 4:32-33). Quando disse: “Nosso amigo Lázaro dorme”, os apóstolos supuseram (como qualquer um de nós teria feito!) que Ele se referia ao sono natural. Muitas vezes é registrado que eles “não compreendiam” as palavras de Cristo (Marcos 9:32; Lucas 18:34; João 8:27, 12:16). Eles entenderam muito pouco do que Jesus intencionava quando perguntou: “Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti?” (João 21:22-23).

O elemento figurativo é muito proeminente nas Escrituras, especialmente no Antigo Testamento, onde as coisas naturais são comumente usadas e adaptadas para explicar as coisas espirituais, adequando suas instruções para o estado atual do homem, no qual ele não pode ver as coisas de Deus, exceto através das lentes da natureza. Cada palavra hebraica tem um sentido literal e se refere a algum objeto sensível, e, portanto, transmite uma ideia comparativa a algum objeto impalpável. Enquanto no corpo, nós recebemos informações através de nossos sentidos; não podemos formar a menor ideia de qualquer objeto divino ou celestial, senão conforme ele é comparado e ilustrado por algo terreno ou material. Realidades internas são explicadas por fenômenos externos, como “rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao Senhor, vosso Deus” (Joel 2:13), e: “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça”. Misericórdias espirituais são postas diante de nossos olhos sob suas figuras com as quais estamos familiarizados, mas expressivas na natureza, como em: “Porque derramarei água sobre o sedento, e rios sobre a terra seca; derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade, e a minha bênção sobre os teus descendentes” (Isaías 44:3), e: “destilai, ó céus, dessas alturas, e as nuvens chovam justiça; abra-se a terra, e produza a salvação” (Isaías 45:8).

Outros antes de nós têm apontado que há uma analogia divinamente projetada entre o mundo natural e o espiritual. Deus assim formou os reinos visíveis como a sombra do invisível, o temporal para simbolizar o eterno. Daí as similitudes muitas vezes empregadas por Cristo, extraídas por Ele do reino natural, não eram ilustrações arbitrárias, mas figuras pré-ordenadas de sobrenatural. Existe uma ligação muito íntima entre as esferas da criação e da graça, para que nós, assim, sejamos ensinados a olhar de uma para a outra. “Por meio de Suas parábolas inimitáveis, Cristo mostrou que quando a natureza era avaliada corretamente, falava uma só língua com o Espírito de Deus; e quanto mais completamente bem entendida, e isto mais variada e completamente, será encontrada a harmonia que subsiste entre os princípios da sua constituição e os de Seu reino espiritual” (Patrick Fairbairn). Quem pode deixar de perceber tanto a adequação quanto a sublimidade do paralelo entre essa alusão do reino natural e sua realização antitípica: “Até que refresque o dia, e fujam as sombras” (Cantares de Salomão 2:17), onde a referência é tanto à primeira (João 8:56) quanto à segunda vinda do Filho de Deus na carne (Filipenses 1:6-10)?

As palavras são usadas em sentido literal quando se referem ao seu significado simples e natural; e figurativamente, quando um termo se refere a um objeto ao qual ele não pertence natural ou normalmente. Assim, o termo “duro” é a qualidade de uma pedra, mas quando caracteriza o coração é empregado figurativamente. A figura de linguagem consiste em uma palavra ou palavras que estão sendo usadas fora de seu sentido e maneira comuns, para enfatizar algo e atrair a nossa atenção ao que é dito. Não que um significado diferente seja dado à palavra, mas uma nova aplicação dela é feita. O significado da palavra é sempre o mesmo quando usada corretamente e, assim, figuras têm o seu próprio sentido e explicam-se a si mesmas. Na grande maioria dos casos, não há dificuldade em distinguir entre o literal e o não-literal. Aqui também há uma estreita semelhança entre a Palavra de Deus e Suas obras na criação. A maioria dos objetos no mundo natural são evidentes e simples, facilmente distinguidos; todavia, alguns são obscuros e misteriosos. Há certas “leis” perceptíveis que regulam as ações da natureza; no entanto, há exceções notáveis na maioria delas. Assim, podemos ter certeza de que Deus não empregou linguagem que só poderia confundir e embaraçar os ignorantes, mas o significado de muitas coisas na Sua Palavra pode ser determinado apenas por trabalho diligente.

Se toda a Escritura tivesse sido redigida em linguagem altamente figurativa e misteriosos hieróglifos, que estivessem muito acima da capacidade do homem comum. Por outro lado, se tudo fosse tão simples como ABC não haveria necessidade de Deus prover mestres (Efésios 4:11). Mas como aquele que ensina determina quando a linguagem é literal e quando não-literal? Geralmente, clara indicação é dada, especialmente no emprego de metáfora, onde um objeto é usado para expor o outro, como em: “Judá é um leãozinho” (Gênesis 49:9). Mais particularmente: em primeiro lugar, quando uma interpretação literal manifestamente colidiria com a natureza essencial do assunto tratado, como quando membros físicos são atribuídos a Deus, ou quando o discípulo é ordenado a “tomar a sua cruz” (viver uma vida de autossacrifício) a fim de seguir a Cristo. Em segundo lugar, quando uma interpretação literal envolveria um absurdo ou impropriedade moral, como em: “Quando te assentares a comer com um governador, atenta bem para o que é posto diante de ti, e se és homem de grande apetite, põe uma faca à tua garganta” (Provérbios 23:1-2), isto é, não dê qualquer espaço aos desejos; outro exemplo é a metáfora que fala de amontoar brasas sobre a cabeça de um inimigo (Romanos 12:20). Em terceiro lugar, devemos consultar outras passagens, e interpretarmos tal passagem como Salmo 26:6, através de Gênesis 35:1-2 e Hebreus 10:22.

De tudo o que foi dito acima, é evidente que temos de evitar um literalismo rígido quando estivermos lidando com representações sensoriais ou materiais de coisas imateriais, e quando termos corporais são usados a respeito de não-corporais, como por exemplo: “A espada devorará” (Jeremias 46:10), pois devorar é propriedade de uma criatura viva e fazendo uso de seus dentes, mas aqui, por uma figura, isso é aplicado ao fio da espada. E ainda: “Esqueça-se a minha direita da sua destreza” (Salmos 137:5), aqui o “esquecimento”, que pertence à mente, é aplicado à mão, significando “perca o seu poder de direcioná-la corretamente”. Novamente: “Virei-me para ver a voz” (Apocalipse 1:12 — trad. lit.), ou seja, aquele que a proferiu. “Guarda o teu pé, quando entrares na casa de Deus” (Eclesiastes 5:1), isso pode ser considerado tanto em um sentido literal quanto figurado. No primeiro caso, significaria: “que o seu andar seja recatado, sem pressa e reverente enquanto se aproxima do lugar de adoração”; no segundo: “cuide dos movimentos de sua mente e das afeições de seu coração, pois eles são para a alma o que os pés são para o corpo”. É ao devido controle do nosso homem interior que nossa atenção deve ser principalmente dirigida.

Também é muito necessário que o expositor constantemente tenha em mente que muitas das coisas que pertencem ao Novo Pacto são estabelecidas de acordo com as figuras do Antigo. Assim, Cristo é mencionado como “nossa Páscoa” e como Sacerdote “segundo a ordem de Melquisedeque” (Hebreus 6:20). O paraíso é descrito como “seio de Abraão” (Lucas 16:22). Os santos do Novo Testamento são referidos como descendência de Abraão e “o Israel de Deus” (Gálatas 3:7, 6:16); como “a circuncisão” (Filipenses 3:3), e como “a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa” (1 Pedro 2:9); enquanto em Gálatas 4:26, eles são informados de que sobre “a Jerusalém que é de cima é livre; a qual é mãe de todos nós”. Mais uma vez, a expressão “pois não tendes chegado ao monte palpável” (Hebreus 12:18) não se refere a qualquer monte físico, mas à ordem das coisas que foram formalmente instituídas no Sinai, as características morais que foram adequadamente simbolizadas e surpreendentemente esboçadas pelos fenômenos físicos que acompanharam a entrega da Lei. Da mesma forma: “tendes chegado ao monte Sião” (12:22) não mais significa um monte físico do que “temos um altar” (13:10) significa que os Cristãos têm um altar tangível. É a antitípica, espiritual e celestial Sião que está em vista, isto é, aquele estado glorioso ao qual a graça divina trouxe todos aqueles que creem no Evangelho.

Outrossim, o expositor precisa estar atento para detectar a linguagem irônica, pois geralmente significa o oposto ao que é expresso, sendo uma forma de sátira para o propósito de expor um absurdo e evidenciar o ridículo. Essa linguagem foi usada por Deus quando Ele disse: “Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal” (Gênesis 3:22), e quando Ele ordenou a Israel: “Ide, e clamai aos deuses que escolhestes; que eles vos livrem no tempo do vosso aperto” (Juízes 10:14); por Elias, quando ele zombou dos profetas de Baal: “Clamai em altas vozes, porque ele é um deus; pode ser que esteja falando, ou que tenha alguma coisa que fazer, ou que intente alguma viagem; talvez esteja dormindo, e despertará” (1 Reis 18:27); por Micaías quando ele respondeu Jeosafá: “Sobe, e serás bem sucedido; porque o Senhor a entregará na mão do rei” (1 Reis 22:15); por Jó: “Na verdade, vós sois o povo, e convosco morrerá a sabedoria” (12:2); em Eclesiastes 11:9: “Alegra-te, jovem, na tua mocidade, e recreie-se o teu coração nos dias da tua mocidade, e anda pelos caminhos do teu coração, e pela vista dos teus olhos…”; por Cristo: quando Ele disse: “esse belo preço em que fui avaliado por eles” (Zacarias 11:13) e por Paulo: “Já estais fartos! já estais ricos! sem nós reinais!” (1 Coríntios 4:8).

Também não devemos considerar literalmente a linguagem da hipérbole ou exagero, quando mais é dito do que é realmente significado, como quando os dez espiões disseram de Canaã: “as cidades são grandes e fortificadas até aos céus” (Deuteronômio 1:28), e quando somos informados de que os seus exércitos eram “como a areia que está na praia do mar em multidão” (Josué 11:4). Assim também a descrição dada daqueles que surgiram contra Gideão: “como gafanhotos em multidão; e os seus camelos sem número” (Juízes 7:12), e “não houve nação nem reino aonde o meu senhor não mandasse em busca de ti” (1 Reis 18:10). Outros exemplos são encontrados em: “Eles sobem ao céu, descem ao abismo” (Salmos 107:26); “Rios de água correr dos meus olhos” (Salmos 119:136); “O menor virá a ser mil, e o mínimo uma nação forte; eu, o Senhor, ao seu tempo o farei prontamente” (Isaías 60:22); “As suas viúvas mais se multiplicaram do que a areia dos mares” (Jeremias 15:8), devemos ter em mente, ao lermos Apocalipse 7:9, que: “Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem” (João 21:25).

16. A elucidação dos tipos. Nenhum tratado sobre hermenêutica seria completo se ignorasse essa importante e interessante seção da exposição. No entanto, um vasto assunto como esse é impossível de tratar adequadamente em poucas frases. O Novo Testamento claramente ensina que muito no Antigo predizia e esboçava o que estava por vir. Desde os primeiros tempos aprouve a Deus preparar o caminho para a grande palavra da redenção por uma série de representações parabólicas, e o trabalho do intérprete é explicar o mesmo à luz da revelação mais ampla que Deus concedeu desde então. Os tipos pertencem àquela esfera que diz respeito à relação das dispensações divinas anteriores e posteriores e, portanto, um tipo pode ser definido como um modelo ou sinal de outro objeto ou evento que é retratado de antemão, sombreando algo que deve depois corresponder e prover a realidade do mesmo. Mas surge a pergunta: Como evitaremos o erro e o exagero em nossa seleção e desvelamento dos tipos? O espaço só nos permitirá oferecer as seguintes dicas e regras.

Em primeiro lugar, deve haver uma semelhança genuína na forma ou espírito entre qualquer pessoa, ato ou instituição, no âmbito do Antigo Testamento e o que corresponda a isso no Evangelho. Em segundo lugar, um tipo real deve ser algo que teve a sua ordenação a partir de Deus, sendo indicado por Ele que prefiguraria e prepararia o caminho para coisas melhores sob Cristo. Assim, a semelhança entre a sombra e a substância deve ser real e não-imaginária, e concebida como tal na instituição original da sombra. É essa intenção anterior e conexão preordenada entre eles que constitui a relação de tipo e antítipo. Em terceiro lugar, traçando a ligação entre um e outro, nós devemos perguntar: Qual era a importância inerente do símbolo original? O que simbolizava como uma parte da religião então em vigor? E, então, o expositor deve prosseguir e mostrar como ele foi adequado para servir como um guia e ponte para os eventos e questões benditos do reino do Messias. Por exemplo, por meio do tabernáculo e seus serviços, Deus manifestou ao Seu povo precisamente os mesmos princípios de governo, e exigiu deles substancialmente uma disposição e caráter idênticos, que Ele agora faz sob a mais sublime dispensação do Cristianismo. Em quarto lugar, devida consideração é necessária quanto à diferença essencial entre as naturezas reais do tipo e do antítipo: um sendo físico, temporário e externo; o outro espiritual, eterno e, muitas vezes, interno.

 


[1] Em Inglês: Elders.
 

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