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A Interpretação das Escrituras • Cap. 2 • A. W. Pink

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Capítulo 2

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No capítulo anterior procuramos mostrar a necessidade da interpretação, nesse buscaremos determinar a importância do que se entende por cada frase da Sagrada Escritura. O que Deus disse para nós é de inestimável importância e valor, contudo, que proveito podemos tirar disso, a menos que o seu significado seja claro para nós? O Espírito Santo nos deu mais do que uma sugestão disto quando Ele explicou o significado de certas palavras. Assim, no primeiro capítulo do Novo Testamento se diz de Cristo: “E chamá-lo-ão pelo nome de EMANUEL, que traduzido é: Deus conosco” (Mateus 1:23). E, novamente: “Achamos o Messias (que, traduzido, é o Cristo)” (João 1:41). Outrossim: “E levaram-no ao lugar do Gólgota, que se traduz por lugar da Caveira” (Marcos 15:22). Mais uma vez: “Porque este Melquisedeque, que era rei de Salém primeiramente é, por interpretação, rei de justiça, e depois também rei de Salém, que é rei de paz” (Hebreus 7:1-2). Essas expressões deixam claro que é essencial que devemos compreender o sentido de cada palavra usada nas Escrituras. A Palavra de Deus é composta de palavras, ainda que essas não transmitam nada para nós enquanto permanecem ininteligíveis. Assim, determinar precisamente a importância do que lemos deve ser a nossa primeira preocupação.

Antes de estabelecermos algumas das regras a serem observadas e os princípios a serem utilizados na interpretação da Escritura, gostaríamos de salientar várias coisas que necessitam ser encontradas naqueles que desejam ser intérpretes das Escrituras. Boas ferramentas são realmente indispensáveis para um bom trabalho, mas mesmo as melhores ferramentas possuem pouco proveito nas mãos de alguém que não é qualificado para usá-las. Métodos de estudo da Bíblia possuem apenas uma importância relativa; mas o espírito com que se estuda as Escrituras é totalmente importante. Não precisamos fazer nenhuma argumentação para provar que um livro espiritual exige um leitor de mente espiritual, pois “o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Coríntios 2:14). A Palavra de Deus é uma revelação de coisas que dizem respeito aos nossos mais altos interesses e bem-estar eterno, e ela exige uma aceitação implícita e cordial. Algo mais do que a formação intelectual é necessária: o coração e a cabeça devem ser retificados. Somente onde há honestidade de alma e espiritualidade de coração haverá clareza de visão para perceber a Verdade; só então a mente será capaz de discernir a importância completa do que é lido, e entender não somente o significado literal de suas palavras, mas também os sentimentos que elas foram projetadas para transmitir, e qual é a maneira adequada de reagir a essas percepções.

Vamos repetir aqui o que escrevi em Studies in the Scriptures há vinte anos atrás: “Há uma séria razão para acreditar que muito da leitura e do estudo da Bíblia dos últimos anos tem sido espiritualmente inútil para as pessoas envolvidas nele. Sim, nós vamos mais longe: tememos muito que, em muitos casos, isso tem se mostrado mais uma maldição do que uma bênção. Essa é uma linguagem forte, estamos bem conscientes disso, mas não é mais forte do que aquela que o caso exige. Os dons de Deus podem ser usados ​​indevidamente e misericórdias divinas podem ser abusadas. Que isto tem acontecido assim no presente caso é evidenciado pelos frutos produzidos. Mesmo o homem natural pode se dedicar (e muitas vezes se dedica) ao estudo das Escrituras com o mesmo entusiasmo e prazer com que se dedicaria a um estudo das ciências. Quando este for o caso, a quantidade de conhecimento que obtém é maior, e assim também é o seu orgulho. Como um químico envolvido na realização de experiências interessantes, o pesquisador intelectual da Palavra fica muito eufórico quando ele faz uma nova descoberta, mas a alegria deste último não é mais espiritual do que a do primeiro. Assim como o sucesso do químico geralmente aumenta seu senso de autoestima e faz com que ele menospreze aqueles que são mais ignorantes do que ele próprio, como, infelizmente, tem sido o caso daqueles que estudam os números, as tipologias e as profecias encontrados na Bíblia…”.

Uma vez que a imaginação do homem, como todas as outras faculdades do seu ser moral, é permeada e viciada pelo pecado, as ideias que ela sugere, mesmo quando ponderando sobre os oráculos divinos, são propensas a serem enganosas e corruptas. O fato de sermos incapazes, por nós mesmos, de interpretar a Palavra de Deus corretamente revela parte da enfermidade que nosso pecado trouxe sobre nós; mas é parte do ofício gracioso do Espírito Santo guiar os crentes à verdade, e lhes permitir apreender as Escrituras. Essa é uma operação distinta e especial do Espírito nas mentes do povo de Deus, na qual Ele comunica sabedoria espiritual e luz a eles, pois essas coisas são necessárias para um correto entendimento da mente de Deus em Sua Palavra, e também para que haja um apropriar-se das coisas celestiais que nela se encontram. Pela expressão “uma operação distinta”, queremos dizer algo ab extra ou para além de Seu trabalho inicial de vivificação; porquanto é um fato abençoado que na regeneração Ele “nos deu entendimento para que conheçamos ao Verdadeiro” (1 João 5:20), mas é preciso mais para que possamos “conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus” (1 Coríntios 2:12). Isto é evidente a partir do caso dos apóstolos, pois acompanharam e conversaram com Cristo pelo período de três anos, no entanto, somos informados que em uma data posterior: “Então abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras” (Lucas 24:45).

Como o que já foi aludido deve impressionar o Cristão a respeito da necessidade de santo cuidado ao ler a Palavra, para que ele não extraia conteúdos para o seu próprio prejuízo! Como isso deve humilhá-lo diante do autor das Escrituras e fazê-lo perceber sua total dependência dEle! Se o novo nascimento fosse suficiente por si só para capacitar o crente a compreender as coisas divinas, o apóstolo nunca pediria, em relação aos santos de Colossos, para que eles fossem “cheios do conhecimento da sua vontade [de Deus], em toda a sabedoria e inteligência espiritual” (1:9), nem que ele teria dito a seu filho na fé, “Considera o que digo, e o Senhor te dê entendimento em tudo” (2 Timóteo 2:7). Nunca houve uma noção mais tola nem uma ideia mais perniciosa foi entretida do que aquelas que sustentam que os santos mistérios do Evangelho de certo modo encontram-se dentro dos limites da razão humana e que podem ser conhecidos de forma proveitosa e prática sem a ajuda eficaz do bendito Espírito da Verdade. Não estou dizendo que o Espírito Santo nos instrui de qualquer outra forma que não por e através de nossa razão e compreensão, pois de outro modo seríamos reduzidos ao nível de criaturas irracionais; mas me refiro ao fato de que Ele deve iluminar as nossas mentes, elevar e guiar os nossos pensamentos, aquecer nossas afeições e mover as nossas vontades, a fim de, assim, capacitar os nossos entendimentos para apreendermos as coisas espirituais.

O Espírito Santo não ensina individualmente o Cristão e nem por qualquer meio o torna independente ou lhe impede de fazer uso diligente e consciente do ministério do púlpito, pois esse é um importante meio designado por Deus para a edificação de Seu povo. Existe um meio termo entre a atitude do eunuco etíope que, quando indagado: “Entendes tu o que lês?”, respondeu: “Como poderei entender, se alguém não me ensinar?” (Atos 8:30-31) e o uso errado feito de “não tendes necessidade de que alguém vos ensine” (1 João 2:27). Existe um meio termo entre uma dependência servil mediante instrumentos humanos e uma independência arrogante daqueles a quem Cristo chamou e qualificou para apascentar Suas ovelhas. “Não obstante, a sua compreensão da Verdade, a sua apreensão disto e a fé nela, não são coisas sobre as quais se deve descansar nem em que se deve atribuir sua autoridade, eles não são designados por Deus para seres ‘dominadores da vossa fé’, mas ‘cooperadores de vosso gozo’ (2 Coríntios 1:24). E é aí que depende todo o nosso interesse naquela grande promessa de que seremos 'todos ensinados por Deus', pois não somos assim, a menos que aprendemos com Ele as coisas que Ele revelou em Sua Palavra” (John Owen).

“E todos os teus filhos serão ensinados do Senhor” (Isaías 54:13, e cf. João 6:45). Essa é uma das grandes marcas que distinguem o regenerado. Há multidões de religiosos não-regenerados que são bem versados na letra da Escritura, e familiarizados com a história e as doutrinas do Cristianismo, mas seu conhecimento só veio a partir de meios humanos de informação — pais, professores de escola dominical, ou a sua leitura pessoal. Há dezenas de milhares de professos que não possuem a graça divina, embora possuam um conhecimento intelectual das coisas espirituais que é considerável, consistente e claro; contudo, eles não são divinamente ensinados, como fica evidente pela ausência dos frutos que sempre acompanham aqueles que são ensinados pelo Senhor. Da mesma forma, há um grande número de pregadores que abominam os erros do Modernismo e batalham pela Fé. Eles foram ensinados em institutos bíblicos ou treinados em seminários teológicos, mas temos grande temor de que eles são estranhos a uma obra sobrenatural da graça em suas almas, e que o seu conhecimento da verdade consiste meramente em noções desacompanhadas de qualquer unção divina, poder salvífico ou efeitos de transformação. Por aplicação diligente e esforço pessoal pode-se garantir uma vasta quantidade de informação bíblica, e se tornar um hábil expositor da Palavra; mas não é possível obter dessa mesma forma um conhecimento que afete e purifique seus próprios corações. Ninguém, senão o Espírito da Verdade pode escrever a Lei de Deus em meu coração, imprimir a Sua imagem na minha alma, e me santificar pela Verdade.

Em primeiro lugar, está a mais essencial qualificação para compreender e interpretar as Escrituras, a saber, uma mente iluminada pelo Espírito Santo. Essa necessidade é fundamental e universal. A respeito dos judeus nos é dito: “E até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles” (2 Coríntios 3:15). Embora o Antigo Testamento seja profundamente venerado e diligentemente estudado pelos “ortodoxos”, contudo seu significado espiritual permanece imperceptível para eles. Esse também é o caso com os gentios. Há um véu de má vontade sobre o coração do homem caído, pois “a inclinação da carne é inimizade contra Deus” (Romanos 8:7). Há um véu de ignorância sobre a mente deles. Como uma criança que soletra as letras e aprende a pronunciar palavras, contudo não entende o significado das palavras que pronuncia, assim também nós podemos conhecer o significado literal ou gramatical da Palavra e ainda não possuirmos nenhum conhecimento espiritual da mesma e, portanto, pertencer àquela geração a respeito da qual está escrito: “Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis, e, vendo, vereis, mas não percebereis” (Mateus 13:14). Há um véu de preconceito sobre nossas afeições. “Nossos corações estão envoltos por fortes afeições ao mundo, e por isso não podemos discernir claramente a verdade prática” (Thomas Manton). O que entra em conflito com os interesses naturais e requer a negação de nós mesmos não é bem-vindo. Há um véu de orgulho que efetivamente nos impede de vermos a nós mesmos no espelho da Palavra.

Entretanto, o véu não é completamente removido do coração na regeneração, por causa disso a nossa visão é ainda muito imperfeita e nossa capacidade de lidar com a verdade de forma espiritualmente proveitosa é pouco considerável. Em sua primeira epístola à igreja de Corinto, o apóstolo disse: “se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber” (8:2). É uma grande misericórdia quando o Cristão é levado a perceber esse fato. Enquanto ele permanece nesse mundo mal e o princípio corrupto da carne continua nele, o crente precisa ser conduzido e ensinado pelo Espírito. Isso é muito evidente a partir do caso de Davi, porquanto ele declarou: “Tenho mais entendimento do que todos os meus mestres”, mas antes vamos encontrá-lo orando a Deus: “Abre tu os meus olhos, para que veja as maravilhas da tua lei… Ensina-me, ó Senhor, o caminho dos teus estatutos… Dá-me entendimento” (Salmos 119:18,33,34,99). Observe que o Salmista não se queixou da obscuridade da lei de Deus, mas percebeu que a falha estava em si mesmo. Nem pediu novas revelações (por sonhos ou visões), mas, em vez disso, pediu uma visão mais clara daquilo que já havia sido revelado. Aqueles que são ensinados melhor e por mais tempo estão sempre mais prontos para se sentarem aos pés de Cristo e aprenderem com Ele (Lucas 10:39).

Deve ser devidamente observado que o verbo no Salmo 119:18, literalmente, significa “descobrir, desvendar os meus olhos”, o que confirma a nossa frase de abertura no último parágrafo. A Palavra de Deus é uma luz espiritual objetivamente, mas para discerni-la corretamente é necessário que haja visão ou luz subjetivamente, pois é apenas por e em Sua luz que “vemos a luz” (Salmos 36:9). A Bíblia é aqui denominada “Lei de Deus”, porque está revestida de autoridade divina, proferindo os mandatos da Sua vontade. Ela contém não somente bons conselhos, que somos livres para aceitar segundo bem nos agradem, mas éditos imperiosos que rejeitamos por nossa conta e risco. Nessa Palavra há “coisas maravilhosas”, as quais eu não posso atingir através da utilização da simples razão. Elas são as riquezas da sabedoria divina, que estão muito acima da bússola do intelecto do homem. Aquelas “coisas maravilhosas” o crente anseia para ser ou discernir claramente, mas ele é incapaz de fazê-lo sem a ajuda divina. Por isso, ele ora para que Deus assim desvende seus olhos que ele possa contemplá-las para uma boa finalidade, ou apreendê-las para a fé e obediência, isto é, entendê-las prática e experimentalmente no caminho do dever.

“Eis que Deus é excelso [eleva a alma acima do meramente natural] em seu poder: quem ensina como ele”? (Jó 36:22). Ninguém; quando Ele instrui, Ele o faz eficazmente. “Assim diz o Senhor, o teu Redentor, o Santo de Israel: Eu sou o Senhor teu Deus, que te ensina o que é útil, e te guia pelo caminho em que deves andar” (Isaías 48:17), isto acontece por que Seu “ensino” consiste naquilo que produz uma conduta piedosa. Não é meramente uma adição sendo feita à nossa capacidade mental, mas um mover da alma à atividade sagrada. A luz com que Ele aquece o coração, inflama os afetos. Assim, longe de ufanar seu destinatário, como acontece com o conhecimento natural, o ensino de Deus humilha. Revela-nos a nossa ignorância e estupidez, nos mostra nossa pecaminosidade e inutilidade, e faz com que o crente se considere pequeno aos seus próprios olhos. O ensino do Espírito também nos leva a ver claramente a vaidade absoluta das coisas altamente estimadas pelo não-regenerado, mostrando-nos a transitoriedade e a inutilidade comparativa das honras, riquezas e fama terrenas, levando a segurar todas as coisas temporais com uma mão frouxa. O conhecimento que Deus nos comunica é transformador, que nos leva a um esforço sincero para negarmos à impiedade e às paixões mundanas, e a viver sóbria, justa e piedosamente nesse mundo. Ao contemplarmos a glória do Senhor somos “transformados de glória em glória na mesma imagem” (2 Coríntios 3:18).

O próprio caráter do ensino divino demonstra quão urgente é a nossa necessidade do mesmo. Ele consiste em grande parte em superar a nossa antipatia natural e hostilidade às coisas divinas. Por natureza, nós temos amor ao pecado e ódio à santidade (João 3:19), e isto deve ser efetivamente subjugado pelo poder do Espírito antes que venhamos a desejar o leite puro da Palavra — observe o que tem de ser deixado antes que nós possamos receber com mansidão a Palavra enxertada (Tiago 1:21; 1 Pedro 2:1); ainda que isso seja nosso dever, somente Deus pode nos permitir realizá-lo. Por natureza, nós somos orgulhosos e independentes, autossuficientes e confiantes em nossos próprios poderes. Esse espírito maligno se agarra ao cristão até o fim da sua peregrinação, e só o Espírito de Deus pode operar nele aquela humildade e mansidão que são necessárias para que tomemos o lugar de uma criança diante da Palavra. O amor pela honra e pelo louvor entre os homens é outra afeição corrupta das nossas almas, um obstáculo insuperável para a admissão da verdade (João 5:44, 12:43), que tem de ser purgado para fora de nós. A oposição feroz e persistente feita por Satanás para impedir a nossa apreensão da Palavra (Mateus 13:19; 2 Coríntios 4:4) é demasiado poderosa para que nós a resistamos por nossa própria força; ninguém senão o Senhor pode nos libertar de suas sugestões malignas e expor seus sofismas mentirosos.

Em segundo lugar, um espírito imparcial é necessário se quisermos discernir e apreender o verdadeiro ensinamento da Sagrada Escritura. Nada mais obscurece o julgamento do que o preconceito — ninguém é tão cego quanto àqueles que não querem ver. Particularmente essa é o caso com todos os que vêm para a Bíblia com o objetivo de encontrar passagens que provam “nossas doutrinas”. Um coração honesto é a primeira qualidade com que o Senhor caracterizou os ouvintes representados pela “boa terra” (Lucas 8:15), e onde isto existe não só estamos dispostos, mas desejosos de ter os nossos próprios pontos de vista corrigidos. Não pode haver nenhum avanço feito pela nossa apreensão espiritual da Verdade até que estejamos prontos a submeter as nossas ideias e sentimentos ao ensino da Palavra de Deus. Enquanto nos agarramos às nossas opiniões preconcebidas e parcialidades sectárias, em vez de estarmos prontos a abandonar todas as crenças não claramente ensinadas nas Escrituras, nem nossas orações e nem nossos estudos poderão ser proveitosos para a nossa alma. Não há nada que Deus odeia mais do que a falta de sinceridade, e nós somos culpados disso, se enquanto Lhe pedimos para nos instruir, ao mesmo tempo nos recusamos a abandonar o que é errôneo. Sentir sede da própria Verdade, com uma determinação sincera de que ela molde todo o nosso pensamento e dirija a nossa prática, é indispensável se quisermos ser espiritualmente iluminados.

Em terceiro lugar, uma mente humilde. “Essa é uma lei eterna e inalterável designada por Deus, a saber, quem quiser conhecer Sua mente e vontade, como reveladas nas Escrituras, deve ser humilde e modesto, renunciando à toda confiança em si próprio. O conhecimento de um homem orgulhoso é o trono de Satanás em sua mente. Supor que as pessoas sob o domínio de orgulho, vaidade e autoconfiança podem entender a mente de Deus de uma forma correta é renunciar à Escritura, ou inúmeros testemunhos positivos em contrário” (John Owen). O Senhor Jesus declarou que mistérios celestes estão ocultos aos sábios e entendidos, mas revelou aos pequeninos (Mateus 11:25). Aqueles que assumem uma atitude de prepotência, e são sábios em sua própria estima, permanecem espiritualmente ignorantes e não esclarecidos. Qualquer conhecimento que pode ser adquirido pelo homem através de suas habilidades e competências naturais não é nada para glória de Deus, nem para o proveito eterno de suas almas, pois o Espírito recusa-se a instruir os soberbos. “Deus resiste aos soberbos” (Tiago 4:6). “Deus se põe contra ele, prepara-se, por assim dizer, com toda a Sua força para se opor ao seu progresso. Que expressão formidável! Se Deus apenas nos entregar a nós mesmos, caímos em ignorância e escuridão; sendo assim, qual deve ser o caso terrível daqueles contra quem Ele se opõe?” (John Newton). Mas, bendito seja Seu nome, Ele “dá graça aos…”, aos que possuem uma disposição como de criança.

Em quarto lugar, um coração dedicado à oração. Posto que a Bíblia é diferente de todos os outros livros, ela faz exigências sobre os seus leitores que nenhum outro livro faz. O que um homem tem escrito, outro homem pode dominar; mas apenas o inspirador da Palavra é competente para interpretá-la para nós. É nesse exato momento que muitos falham. Eles se aproximam da Bíblia como fariam com qualquer outro livro, confiando que uma cuidadosa atenção e diligência na leitura serão suficientes para compreender o seu conteúdo. Devemos, primeiramente, nos colocar de joelhos e clamar a Deus por entendimento: “Inclina o meu coração aos teus testemunhos… dá-me inteligência para entender os teus mandamentos… ordena os meus passos na tua palavra” (Salmos 119:36,73,133). Nenhum progresso real pode ser feito em nossa apreensão da Verdade até que percebamos nossa necessidade profunda e constante de termos os nossos olhos ungidos por Deus. “Se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente” (Tiago 1:5). É porque fazem uso dessa promessa que muitos simples lavradores e donas de casa Cristãos são ensinados pelo Espírito, enquanto estudiosos sem oração não conhecem o segredo do Senhor. Não só precisamos orar: “o que eu não vejo, ensina-me tu”, mas também pedir a Deus que escreva a Sua Palavra em nossos corações.

Em quinto lugar, um propósito santo. Muitos são enganados nesse assunto, confundindo uma ânsia de adquirir conhecimento bíblico com o amor pela própria Verdade. Alguns leem a Bíblia apenas por curiosidade para descobrir o que ela diz. Um sentimento de vergonha de ser incapaz de descobrir o seu ensino é o que compele outros. O desejo de estar familiarizado com o seu conteúdo de modo a sustentar sua própria argumentação é o que motiva outros. Se não houver nada melhor que nos motiva a ler a Bíblia além de um mero desejo de ser bem versado nos detalhes, é mais do que provável que o jardim de nossas almas permanecerá estéril. O motivo inspirador deve ser o exame honesto. Eu examino as Escrituras a fim de conhecer melhor o seu Autor e Sua vontade para mim? O meu propósito dominante e que me motiva é que eu possa crescer na graça e no conhecimento do Senhor? É que eu possa conhecer de forma mais clara e totalmente como eu deveria ordenar os detalhes da minha vida de um modo que será mais agradável e honroso para Ele? É meu proposito que eu possa ser levado a uma caminhada mais íntima com Deus e a gozar de comunhão mais ininterrupta com Ele? Nada menos do que isso é um objetivo digno para que seja conformado e transformado pelo seu ensino santo.

Nesse capítulo temos tratado apenas do lado elementar de nosso assunto, no entanto, algo que é de fundamental importância, e para o que poucos atentam. Mesmo nos dias prósperos dos Puritanos, Owen teve que queixar-se: “é muito pequeno o número daqueles que diligente, humilde e conscientemente se esforçam para conhecer a verdade da voz de Deus nas Escrituras, ou para se tornarem sábios nos mistérios do Evangelho se esforçando desse modo, por meio do que somente a sabedoria é atingível. E é de admirar se muitos, a maioria dos homens, vagarem após as imaginações vãs deles mesmos ou de outras pessoas?”. Que não seja mais assim com aqueles que leem esse capítulo.
 

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