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A Interpretação das Escrituras • Cap. 4 • A. W. Pink

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Capítulo 4

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O pregador deve ser, acima de tudo, um homem do Livro, bem versado no conteúdo da Palavra de Deus, alguém que é capaz de extrair de seu tesouro “coisas novas e velhas” (Mateus 13:52). A Bíblia deve ser o seu único livro-texto e de suas águas vivas ele deve beber profunda e diariamente. Pessoalmente, não uso nada mais do que a King James Versão Autorizada Inglesa e a Concordância de Young, com uma referência ocasional à Interlinear de Grego e a King James Versão Americana Revisada. Consulto os Comentários apenas após fazer um inicial e exaustivo estudo de uma passagem. Recomendo fortemente aos jovens pregadores que sejam muito vigilantes para não permitirem que os comentários se tornem substitutos, em vez de um auxílio, ao seu próprio minucioso e pleno exame e ponderação das Sagradas Escrituras. Assim como há um meio termo entre imaginar ou que a Bíblia é tão clara e simples que qualquer um pode entendê-la ou tão difícil e profunda que seria um desperdício de tempo para a pessoa mediana lê-la, assim também há entre ser essencialmente dependente das obras dos outros e simplesmente ecoar as suas ideias, e depreciar totalmente a luz e a ajuda que podem ser obtidas a partir dos antigos servos de Deus.

É aos pés de Deus que o pregador deve posicionar-se, aprendendo com Ele o significado de Sua Palavra, na esperança de que Ele desvele os Seus mistérios, buscando nEle a sua mensagem. Em nenhum lugar, senão nas Escrituras ele pode discernir o que é agradável ou desagradável ao Senhor. Somente ali são revelados os segredos da sabedoria divina, sobre a qual o filósofo e o cientista não conhecem nada. Como o grande Puritano holandês justamente salientou: “Tudo o que não é retirado das mesmas, o que não é construído sobre elas, o que não está mui exatamente de acordo com elas, embora possa recomendar-se pela aparência da mais sublime sabedoria, ou apoiar-se na antiga tradição e no consenso dos homens eruditos, ou tenha o peso de argumentos plausíveis, é inútil, fútil e, em suma, uma mentira. ‘À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo essa palavra, é porque não há luz neles’. Que o teólogo se deleite nos oráculos sagrados; que ele se exercite neles de dia e de noite, e medite neles, e extraia toda a sua sabedoria deles. Que ele mantenha todos os seus pensamentos em torno deles, que, no que diz respeito à religião, ele não aceite nada não possa ser encontrado ali” (Herman Witsius).

1. Tratando agora daqueles princípios que devem orientar o estudante em seus esforços para interpretar a Palavra de Deus, colocamos em primeiro lugar, a necessidade de reconhecer a interrelação e interdependência entre o Antigo e o Novo Testamentos. Fazemos isso porque o erro nesse ponto, inevitavelmente resulta em um mal-entendido grave e em uma não pequena perversão nas últimas Escrituras. Não propomos introduzir uma refutação da heresia moderna do “dispensacionalismo”, mas tratar dessa seção de nosso assunto de forma construtiva. Após uma comparação longa e cuidadosa dos escritos da escola Dispensacionalista com as Institutas de Calvino, e após observarmos o tipo de fruto produzido por ambas, é nossa convicção que esse eminente reformador foi muito mais profundamente ensinado pelo Santo Espírito do que aqueles que reivindicaram receber uma grande “nova luz sobre a Palavra de Deus” há um século. Queremos, portanto, pedir que cada pregador que possui as Institutas de Calvino empreguem a sua melhor atenção aos seus dois capítulos sobre: “A Similaridade o Antigo e o Novo Testamento” e “A Diferença Entre os Dois Testamentos”.[1]

A semelhança entre os dois Testamentos é muito maior e mais importante do que a sua diferença. O mesmo Deus Triuno é revelado em cada um dos Testamentos, o mesmo caminho da salvação é estabelecido, o mesmo padrão de santidade é anunciado, os mesmos destinos eternos do justo e do ímpio são evidenciados. O Novo Testamento tem todas as suas raízes no Antigo, de modo que muito em um torna-se ininteligível à parte do outro. Não somente um conhecimento da história dos patriarcas e das instituições do judaísmo são indispensáveis ​​para a compreensão de muitos detalhes nos Evangelhos e nas Epístolas, mas seus termos e ideias são idênticos. Que é inteiramente insustentável para nós supormos que a mensagem proclamada pelo Senhor Jesus era algo novo ou radicalmente diferente das primeiras comunicações de Deus fica evidente a partir de Sua advertência enfática: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” (Mateus 5:17) — isto é, para vindicá-los e fundamentá-los, para livrá-los das perversões e deturpações humanas, e para fazer o bem que eles exigem e declaram. Assim, longe de haver qualquer antagonismo entre o ensinamento de Cristo e o ensino dos mensageiros de Deus que O precederam, quando anunciou a “regra de ouro” Ele afirmou, “porque esta é a lei e os profetas” (Mateus 7:12).

Certamente não havia conflito entre o testemunho dos apóstolos e o testemunho de seu Mestre, pois Ele expressamente ordenou-lhes a ensinarem os Seus convertidos “a guardar todas as coisas que eu tenho mandado [não o que mandarei!]” (Mateus 28:20). Nem o sistema doutrinário de Paulo difere de algum modo daquele anunciado no Antigo Testamento. No início da primeira epístola que leva seu nome, ele é específico em nos informar que o Evangelho, para o que Deus lhe tinha separado, não era outro senão o único “o qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras” (Romanos 1:1-2), e quando ele afirmou que a justiça de Deus foi revelada agora, sem lei, ele teve o cuidado de acrescentar: “tendo o testemunho da lei e dos profetas” (3:21). Quando ele vindicou a sua doutrina sobre a justificação pela fé sem as obras da lei, ele fez isso apelando para o caso de Abraão e o testemunho de Davi (Romanos 4). Quando ele advertiu os Coríntios contra se acomodarem com uma falsa sensação de segurança por causa dos dons espirituais que haviam sido concedidos a eles, ele lembrou-lhes os israelitas que tinham sido altamente favorecidos por Deus, ainda assim isso não os guardou de Seu desagrado quando pecaram, ainda que “beberam todos de uma mesma bebida espiritual” (1 Coríntios 10:1-5). E quando ilustrando importante verdade prática, ele cita a história dos dois filhos de Abraão (Gálatas 4:22-31).

Em muitos aspectos, o Novo Testamento é uma continuação e um complemento para o Antigo. A diferença entre a Antiga e Nova Alianças mencionadas em Hebreus é relativa e não absoluta. O contraste não é realmente entre dois opostos, mas sim entre uma gradação do mais baixo para o plano mais elevado; um preparando o outro. Embora alguns tenham errado muito em judaizar o Cristianismo, outros têm entretido uma concepção muito carnal do judaísmo, deixando de perceber os elementos espirituais nele, e que sob ele Deus tão verdadeiramente administrou as bênçãos do Pacto Eterno para aqueles que Ele tinha escolhido em Cristo assim como Ele o faz agora, sim, que Ele fez isso de Abel em diante. Justamente, então, Calvino repreendeu a loucura dos nossos Dispensacionalistas modernos — quando reprovando aqueles de seus precursores que apareceram em seus dias — ao dizer: “Agora, o que seria mais absurdo do que Abraão ser o pai de todos os fiéis, e ainda assim não possuir sequer o lugar mais baixo entre eles? Antes ele não pode ser excluído do número, nem mesmo da posição mais nobre, sem a destruição da Igreja”.

Quando Cristo ou um dos Seus apóstolos falaram, em quase todos os pontos vitais eles fundamentaram o seu argumento apelando às Escrituras do Antigo Testamento, a partir do qual são encontrados textos-prova em quase todas as páginas do Novo. Inúmeros exemplos podem ser apresentados para mostrar que ambas as ideias e a linguagem do Antigo deram a sua impressão no Novo Testamento; mais de seis centenas de expressões de um são repetidas no outro. Cada cláusula do “Magnificat” (Lucas 1:46-55) e até mesmo da Oração da Família (Mateus 6:9-13) é extraída do Antigo Testamento. Por conseguinte, cabe ao estudante dar igual atenção as duas principais as divisões da Bíblia, não somente para familiarizar-se completamente com a última, mas esforçando-se para beber profundamente do espírito da primeira, a fim de capacitar-se para compreender o Novo Testamento. A menos que ele faça isso, será impossível para ele apreender o corretamente o verdadeiro significado tanto dos Evangelhos quantos das Epístolas. Não basta somente ter um conhecimento dos tipos para compreender os antítipos, pois o que significaria que “Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós”, a um ignorante de Êxodo 12 (1 Coríntios 5:7); e quanto de Hebreus 9 e 10 é inteligível à parte de Levítico 16? Porém, muitas palavras importantes do Novo Testamento podem ser corretamente definidas apenas referindo-se à sua utilização no Antigo Testamento, como “primogênito, resgate, propiciação”, etc.

Que deve haver uma harmonia fundamental entre o Judaísmo e o Cristianismo fica evidente pelo fato de que o mesmo Deus é o autor de ambos, e é imutável em Suas perfeições e nos princípios de Seu governo. O primeiro foi de fato dirigido mais ao homem exterior, foi transacionado sob formas e relações visíveis, e dizia respeito principalmente a um santuário e herança terrena; no entanto, todos eles foram uma “sombra das coisas celestiais” (Hebreus 8:5, 10:1). “No Novo Testamento, temos uma maior, porém muito intimamente relacionada exposição da verdade e do dever do que no Antigo, que envolve tanto as similaridades quando as diferenças dos dois pactos. As similaridades são mais profundas e relacionam-se aos elementos mais essenciais das duas economias; as diferenças são de natureza mais circunstancial e formal” (Patrick Fairbairn). Pessoalmente, gostaria de dizer que as principais variações aparecem quando observamos que em um, nós temos a promessa e a previsão, no outro, a realização e o cumprimento; no primeiro temos os tipos e sombras (a “lâmina”), depois a realidade e substância ou o “grão cheio na espiga”. A dispensação Cristã supera a Mosaica por sua mais completa e mais clara manifestação das perfeições de Deus (1 João 2:8), em um derramamento mais abundante do Espírito (João 7:39; Atos 2:3), em seu mais amplo alcance (Mateus 28:19-20), e em maior medida de liberdade (Romanos 8:15; Gálatas 4:2-7).

2. O segundo princípio que o expositor deve estudar muito cuidadosamente é o da citação bíblica. É de não pequena ajuda afirmar que as leis da correta interpretação podem ser obtidas a partir da observação diligência da maneira como e o propósito para o qual o Antigo Testamento é citado no Novo. Deve haver pouca margem para dúvidas de que o registro que o Espírito Santo forneceu a respeito da maneira que o nosso Senhor e os Seus apóstolos entenderam e aplicaram do Antigo Testamento foi grandemente designada para lançar luz acerca de como, geralmente, o Antigo Testamento deve ser usado por nós, bem como fornecer instruções sobre os pontos específicos por meio daquelas passagens na Lei ou nos profetas que eram mais imediatamente citadas. Ao examinar atentamente as palavras mencionadas e o sentido dado a elas no Novo Testamento, não somente seremos libertos de um literalismo servil, mas também seremos melhor habilitados para perceber a plenitude da Palavra de Deus e a aplicação variada que pode ser legitimamente feita dela. Um campo amplo, mas geralmente negligenciado, está aberto para a exploração, mas em vez de nos esforçarmos aqui para fazer um exame profundo do mesmo, vamos simplesmente fornecer algumas ilustrações.

Em Mateus 8:16, somos informados de que em certa ocasião Cristo “curou todos os que estavam enfermos”, e, em seguida, sob a orientação do Espírito Santo, o evangelista adicionou: “para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías [a saber, em 53:4], dizendo: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e levou as nossas enfermidades”. Este uso daquela predição messiânica é muito esclarecedor, sugerindo que ela tinha um significado mais amplo do que fazer expiação pelos pecados de Seu povo; ou seja, durante os dias de Seu ministério público, Cristo compadeceu-se da condição dos doentes, e tomou sobre Seu espírito os sofrimentos e as dores daqueles a quem Ele ministrou, de modo que os Seus milagres de cura exigiram muito de Sua compaixão e resistência. Ele foi pessoalmente atingido pelas aflições deles. Cristo começou a Sua obra mediadora de remover o mal que o pecado tinha trazido ao mundo por curar aquelas doenças corporais, as quais eram os frutos do pecado, e assim fazendo, prefigurou a maior obra que Ele realizaria na cruz. A conexão entre o um e o outro foi mais claramente indicada quando Ele respectivamente disse ao paralítico: “Os teus pecados estão perdoados” e “levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa” (Mateus 9:2,6).

Considere a seguir, como Cristo usou o Antigo Testamento para refutar os materialistas dos seus dias. Os saduceus sustentavam a noção de que a alma e o corpo estão tão estreitamente unidos que se um morrer o outro morrerá também (Atos 23:8). Eles viam o corpo morrer, e daí concluíram que a alma também morria. Muito notável, na verdade, é ver a sabedoria encarnada arrazoando com eles em seu próprio terreno. Isso Ele fez citando Êxodo 3, em que o SENHOR disse a Moisés: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó”. Mas em que essas palavras correspondem à questão? O que havia nelas que expôs o erro dos saduceus? Nada explicitamente, mas muito implicitamente. A partir delas, Cristo chegou à conclusão de que “Deus não é o Deus dos mortos, mas dos vivos” (Mateus 22:32). Não é que Ele foi o Deus deles, mas que Ele permanecia sendo assim: “Eu sou o Deus deles”, portanto eles permanecem vivos. Havendo sido provado que os seus espíritos e almas ainda viviam, seus corpos seriam ressuscitados no momento oportuno, pois, por ser o “Deus” deles, isso garantia que Ele seria para eles e por eles tudo o que essa relação implica, e não deixaria parte de sua natureza ser detida pela corrupção. É nisso que Cristo estabeleceu o importante princípio da interpretação de que podemos tirar alguma inferência clara e necessária a partir de uma passagem, desde que não ela não se oponha a qualquer declaração definitiva das Sagradas Escrituras.

Em Romanos 4:11-18, temos um exemplo notável de raciocínio apostólico de duas curtas passagens de Gênesis, onde Deus fez a promessa a Abraão que ele seria o pai de muitas nações (17:5) e que, em sua descendência seriam benditas todas as nações da Terra (22:18). Uma vez que essas garantias foram dadas ao patriarca simplesmente como um crente, antes da nomeação divina da circuncisão, Paulo fez a conclusão lógica de que elas pertenciam a judeus e gentios igualmente, desde que cressem como Abraão e, assim, teriam imputada a eles a justiça de Cristo, de modo que o bem dessas promessas pertencia a todos os que “andam nas pisadas da sua fé”. É aí que somos claramente ensinados que a “semente” da bênção mencionada nessas antigas profecias era essencialmente de natureza espiritual (cf. Gálatas 3:7-9, 14:29), incluindo todos os membros da família da fé, onde quer que sejam encontrados. Como Stifler pertinentemente observou: “Abraão é chamado o pai não em um sentido físico, nem em sentido espiritual: ele é pai por ser o chefe do clã da fé, e assim o modelo da mesma”. Em Romanos 9:6-13, o apóstolo foi igualmente expresso em excluir dos benefícios dessas promessas os descendentes meramente naturais de Abraão.

Romanos 10:5-9, fornece uma ilustração impressionante deste princípio na maneira em que o apóstolo “abriu” Deuteronômio 30:11-14. Seu propósito era retirar dos judeus a noção de obediência à lei como necessária para a justificação (Romanos 10:2-3). Ele fez isso através de argumentar a partir dos escritos de Moisés, e, então, estabeleceu uma distinção entre a justiça da Lei e a justiça da fé. Os judeus haviam rejeitado a Cristo porque Ele não veio até eles de uma forma que atendesse as suas expectativas carnais, e, portanto, eles recusaram a graça oferecida por Ele. Eles consideravam que o Messias estava longe, quando na verdade Ele estava “perto” deles. Não havia necessidade, então, que eles subissem ao Céu, pois Cristo tinha descido dali; nem descessem ao abismo, pois Ele havia ressuscitado dos mortos. O apóstolo não estava apenas acomodando o seu propósito à linguagem de Deuteronômio 30, mas mostrando o seu significado Evangélico. Como disse Thomas Manton: “Todo esse capítulo é um sermão sobre arrependimento evangélico” (veja vv. 1-2). Obviamente, a passagem em questão apontava para um momento após a ascensão de Cristo, quando Israel seria disperso entre as nações, de modo que as palavras de Moisés não eram estritamente aplicáveis a essa dispensação do Evangelho. A substância dos versos 11 a 14 é que o conhecimento da vontade de Deus é livremente acessível, de modo que ninguém é obrigado a fazer o impossível para obtê-lo.

Em Romanos 10:18, é dado mais do que uma indicação das profundezas insondáveis da Palavra de Deus e da grande amplitude de sua aplicação. “Quem creu na nossa pregação? [Do Evangelho, pois eles não o obedeceram, v. 16]. “Mas digo: Porventura não ouviram? Sim, por certo, pois por toda a terra saiu a voz deles, e as suas palavras até aos confins do mundo”, citado a partir do Salmo 19:4. O anúncio do Evangelho não era restrito (Colossenses 1:5-6), mas era tão geral e livre quanto as declarações divinas desde os céus (Salmos 19:1). “A revelação universal de Deus na natureza era uma predição providencial da proclamação universal do Evangelho. Se a primeira não fosse gratuita, ainda que baseada na natureza de Deus, assim seria a última. A manifestação de Deus na natureza é para todas as Suas criaturas a quem é feita, em sinal de sua participação nas revelações mais claras e mais elevadas” (Hengstenberg). Não somente a profecia do Antigo Testamento anuncia que o Evangelho deve ser dado a todo o mundo, mas o céu misticamente declarou a mesma coisa. Os céus não falam a apenas uma nação, mas a toda a raça humana! Se os homens não creram não foi porque não ouviram. Outro exemplo da significação mística de certas Escrituras é encontrado em 1 Coríntios 9:9-10.

Em Gálatas 4:24, a pena inspirada de Paulo nos informa que certos acontecimentos domésticos na casa de Abraão “são uma alegoria”, de forma que Agar e Sara representavam “os dois pactos”, e que seus filhos prefiguravam os adoradores que esses pactos eram adequados para produzir. Assim, por meio dessa revelação divina por meio e através do apóstolo, nós soubemos Deus havia escondido um mistério profético nesses fatos da história; que essas ocorrências domésticas profeticamente prefiguravam transações de importância vital para o futuro; e que elas ilustravam grandes verdades doutrinárias e exemplificavam a diferença na conduta de homens espiritualmente escravos e homens espiritualmente livres. Esse foi o caso, segundo o que nos mostrou o apóstolo, ao declararmos o sentido oculto desses eventos. Eles eram uma parábola em ação: Deus moldou de tal forma as questões da família de Abraão a ponto de levar essas a tipificaram coisas de grande magnitude. Os dois filhos foram ordenados a prenunciar aqueles que seriam nascidos do alto e aqueles que nasceram da carne; que mesmo os descendentes naturais de Abraão, eram apenas ismaelitas em espírito, mas estranhos à promessa. Embora o exemplo de Paulo aqui certamente não abra nenhum precedente para o expositor dar livre curso à sua imaginação e distorcer acontecimentos do Antigo Testamento levando-os a ensinarem algo que lhe agrada; o apóstolo indica que Deus ordenou de tal modo as vidas dos patriarcas tendo em vista conceder-nos lições de grande valor espiritual.

Acima, nós propositalmente selecionamos uma variedade de exemplos, e a partir deles, o estudante aplicado (mas não o leitor apressado) descobrirá algumas valiosas indicações e auxílios divinos sobre como as Escrituras devem ser entendidas, e os princípios pelos quais elas devem ser interpretadas. Que os exemplos sejam relidos e cuidadosamente ponderados.

3. É necessário ser diligentemente e constante ao cuidar para que estritamente conformemos todas as nossas interpretações à analogia da fé, ou como Romanos 12:6 expressa: “profetizamos de acordo com a proporção da fé”. Charles Hodge — que por solidez doutrinária, erudição espiritual e capacidade crítica, é insuperável — afirma que o significado original e próprio da palavra “profeta” é intérprete, aquele que declara a vontade de Deus, que explica a Sua mente aos outros. Ele também diz que a palavra citada, “proporção”, pode significar tanto proporção quanto medida, regra e padrão. Desde que a “fé” nesse verso deve ser considerada objetivamente (pois, havia “profetas” como Balaão e Caifás que estavam desprovidos de qualquer fé interior ou salvífica), então essa importante expressão significa que o intérprete da mente de Deus deve ser mais específico e escrupuloso em cuidar para que ele sempre o faça segundo o padrão revelado que Deus nos deu. Assim, “fé” aqui é usada no mesmo sentido de passagens como “fé” em Gálatas 1:23; 1 Timóteo 4:1, etc.; ou seja — “uma só fé” de Efésios 4:5; “a fé que uma vez foi entregue aos santos” (Judas 3) — a Palavra de Deus escrita.

A exposição feita de qualquer verso nas Sagradas Escrituras deve ser inteiramente de acordo com a analogia da fé, ou, em outras palavras, aquele sistema da verdade que Deus deu a conhecer ao Seu povo. Isso, é claro, exige um conhecimento abrangente do conteúdo da Bíblia, esta é uma prova segura de que nenhum neófito é qualificado para pregar ou tentar ensinar aos outros. Tal conhecimento abrangente só pode ser obtido por uma leitura sistemática e constante da própria Palavra, e somente então qualquer homem é capacitado para avaliar os escritos de outras pessoas! Visto que toda a Escritura é inspirada por Deus, não há contradições na mesma; portanto, obviamente, segue-se que qualquer explicação dada de uma passagem que se choca com o claro ensino de outros versos é manifestamente errada. Para que qualquer interpretação seja válida, ela deve estar em perfeita harmonia com o esquema total da Verdade divina. Uma parte da Verdade é mutuamente relacionada e dependente das outras, e, portanto, há pleno acordo entre elas. Como Bengel disse a respeito dos livros da Escritura: “Eles formam juntos um belo, harmonioso e gloriosamente conectado sistema da Verdade”.

 


[1] Capítulos X e XI, Livro II – N.T.
 

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