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A Interpretação das Escrituras • Cap. 6 • A. W. Pink

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Capítulo 6

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A palavra “interpretação” tem, nesse contexto, tanto um significado mais rigoroso (ou estrito) como mais amplo (ou livre). No primeiro sentido, significa extrair a força gramatical da passagem; no segundo, explicar seu significado espiritual. Se o expositor se limitar de forma rígida às regras técnicas de exegese, ainda que tenha serventia para o acadêmico, ele será de pouco proveito para o povo simples de Deus. Dissertar a respeito das propriedades químicas de um alimento não saciará a fome do homem faminto, nem tampouco traçar a raiz das palavras no grego e hebraico (algo necessário, mas precisa estar em seu devido lugar) deixará o cristão melhor habilitado a combater o bom combate da fé. Isso, por um lado, não quer dizer que desprezamos o conhecimento acadêmico, nem, por outro, que apoiamos aqueles que dão lugar à imaginação ao manusearem a Palavra de Deus. Em vez disso, queremos dizer que o principal objetivo do expositor deve ser o de unir a verdade aos corações de seus ouvintes ou leitores — ele deve demonstrar que o primeiro sentido pode ter um poder vivificante, transformador e edificante sobre o segundo.

Em artigos anteriores dessa série, tem-se explicado que a tarefa do intérprete é agir conforme Neemias 8:8, em que é dito: “E leram no livro, na lei de Deus; e declarando, e explicando o sentido, faziam que, lendo, se entendesse”; para tanto, o pregador precisa, semanalmente, investir horas em estudo particular. Cada palavra do texto — a menos que usá-la de forma contrária esteja claro na passagem analisada — deve receber seu significado exato e preciso, de acordo com seu uso em toda a Escritura. De outro modo, o expositor estaria sendo descompromissado, e exporia os oráculos de Deus não por seus próprios termos, mas com ideias vãs e imaginações criadas pelo homem. As leis da linguagem não devem ser violadas ou o significado das palavras alterado para atender nossos propósitos. Não iremos diminuir o verdadeiro poder e significado de quaisquer termos, mas explicá-los através de princípios íntegros, e não por construções forçadas ou evasões jesuíticas.

A tarefa do intérprete é determinar, por rigorosa investigação exegética, o sentido exato das palavras usadas pelo Espírito Santo e, na medida do possível, transmitir os pensamentos de Deus em Sua própria linguagem. É também verificar e determinar o significado exato dos termos utilizados na Sagrada Escritura e cuidadosamente evitar que opiniões pessoais interfiram em seu dever. O intérprete não pode inserir nada que é seu, mas ele deve, simplesmente, empenhar-se diligentemente para dar o verdadeiro sentido de cada passagem analisada. Por um lado, ele não deve ignorar, ocultar ou reter nada do texto; por outro, não deve acrescentar ou manipular algo para atender aos seus próprios caprichos. A Escritura deve ser exposta a fim de falar por si mesma, e isso ocorre somente à medida que o pregador anuncia seu real significado. Ele não deve somente explicar seus termos, mas também a natureza das ideias que eles expressam; caso contrário, ele seria capaz de fazer uso dos termos bíblicos e ainda assim dar-lhes um sentido antibíblico. Pode-se descobrir com precisão o significado de cada palavra em uma passagem e, no entanto, por algum erro contextual ou por qualquer inclinação do próprio autor, ter um entendimento errado a respeito do que a passagem realmente ensina.

Um descuido que não seria tolerado em qualquer outra circunstância, infelizmente, é livremente permitido quando cometido em relação à Bíblia. Artistas que são muito minuciosos na escolha de suas cores ao pintar um objeto natural são muitas vezes muito negligentes quando buscam fazer um retrato santo. Assim, a arca de Noé é representada como tendo uma série de janelas em seus lados, enquanto tinha apenas uma, e no topo! A pomba que veio a ele depois do dilúvio ter diminuído é retratada com um ramo de oliveira em seu bico, em vez de uma “folha” (Gênesis 8:11)! O bebê Moisés na arca de juncos é descrito com um sorriso encantador em seu rosto, em vez de lágrimas (Êxodo 2:6)! Que nenhum tal desrespeito criminoso pelos detalhes da Sagrada Escritura caracterizem o expositor. Em vez disso, deixe o máximo cuidado e dores serem tidos para garantir a precisão, por examinarem cada detalhe, pesando cada jota e til. A palavra usada em “examinai as escrituras” (João 5:39) significa diligentemente rastrear, como o caçador faz com o rastro dos animais. O trabalho do intérprete é anunciar o sentido e não apenas o som da Palavra.

Ao enumerar, descrever e ilustrar algumas das leis ou regras que devem reger o intérprete, nós já consideramos: Em primeiro lugar, a necessidade de reconhecer e ser regulado pela interrelação e interdependência entre o Antigo e o Novo Testamentos. Em segundo lugar, a importância e a utilidade de observar como as citações a partir do Antigo Testamento são feitas no Novo: a maneira pela qual e fins para os quais são citadas. Em terceiro lugar, a absoluta necessidade de conformar estritamente todas as nossas interpretações à analogia geral da fé, ou seja, cada verso deve ser explicado em plena harmonia com esse sistema da Verdade que Deus nos revelou e que qualquer exposição é inválida se se opõe o que é ensinado em outras partes da Bíblia. Em quarto lugar, a necessidade de prestar muita atenção a todo o contexto de qualquer passagem sob consideração. Em quinto lugar, a importância de determinação do escopo de cada passagem, e o aspecto particular da verdade aí apresentada.

Há muito no Sermão do Monte que ilustra a força dessa regra, pois muitas das suas demonstrações foram gravemente mal interpretadas pela falha em perceber o seu alcance ou propósito. Assim, quando o nosso Senhor declarou: “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela” (Mateus 5:27-28); tem sido suposto que Ele estava estabelecendo um padrão mais elevado de pureza moral que o enunciado no Sinai. Mas um tal conceito está em desacordo direto com seu propósito. Após solenemente afirmar (v. 17) que, longe de seu ser sua missão destruir a lei ou os profetas, Ele tinha vindo para cumpri-los (ou seja, aplicar e realizar as suas exigências), e por certo Ele não se colocaria imediatamente contra o seu ensino. Não, a partir do verso 21 em diante Ele estava empenhado em anunciar a justiça que Ele exigia dos cidadãos do Seu reino, que ultrapassava a justiça “dos escribas e fariseus”, que defendiam os dogmas dos rabinos, os quais tinham “invalidado o mandamento de Deus” por suas tradições (Mateus 15:6).

Cristo não disse: “Ouvistes que Deus disse dito no Sinai”, mas “Ouvistes que foi dito aos antigos”, o que torna inequivocamente claro que Ele estava se opondo ao ensinamento dos anciãos, que haviam restringido o Sétimo Mandamento do Decálogo ao ato de relações sexuais ilegais com uma mulher casada; insistindo que isso exigia conformidade das afeições internas, proibindo todos os pensamentos e desejos impuros do coração. Há muito em Mateus 5-7 que não pode ser corretamente entendido a menos que o principal objetivo e propósito do nosso Senhor nesse discurso sejam claramente percebidos; caso não seja assim, as suas demonstrações mais claras se tornam mais ou menos obscuras e suas ilustrações mais pertinentes parecem irrelevantes. Não era o ensino real da lei e dos profetas, que Cristo refutou aqui, mas as conclusões errôneas que os mestres religiosos tinham extraído e as falsas noções que foram formadas com base nelas, e que eram tão dogmaticamente anunciadas naquele tempo. O gume afiado da espada do Espírito tinha sido anulado pelo fato dos rabinos haverem rebaixado Seus preceitos, impondo sobre eles sua própria interpretação o que os tornava desagradáveis para os não-regenerados.

“Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (vv. 38-39) fornece outro exemplo da necessidade de determinar a abrangência de uma passagem antes de tentar explicá-la. Pela falha em fazer assim, muitos têm perdido a força desse contraste. Tem sido suposto que o nosso Senhor estava aqui ordenando uma norma de conduta mais misericordiosa do que era exigido sob a economia mosaica; no entanto, se o leitor voltar para Deuteronômio 19:17-21, encontrará que esses versos davam instruções aos “juízes” de Israel; essas instruções não deviam ser regidas pelo sentimento, mas para administrar a justiça estrita ao malfeitor: “olho por olho “, etc. Mas esse estatuto, que pertence apenas ao magistrado impor como penalidade judicial, havia sido pervertido pelos fariseus, dando-lhe um carácter geral, ensinando assim, que cada homem deveria fazer cumprir a lei com suas próprias mãos. Nosso Senhor aqui proibiu a prática da vingança pessoal, e ao fazê-lo manteve o claro ensino do Antigo Testamento (veja Êxodo 23:4-5; Levítico 19:18 e Provérbios 24:29, 25:21-22, que proibiam expressamente o exercício de malícia e retaliação pessoal).

“Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; e desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha” (Mateus 7:24-25). Quantos sermões foram lidos nesses versos, os quais não estavam lá, e falharam tristemente em anunciar o que está neles, por não compreenderem o seu escopo. Ali, Cristo não estava envolvido no anúncio do Evangelho da graça de Deus e revelando a Si mesmo como o único fundamento da aceitação do pecador, mas estava fazendo uma aplicação prática e perscrutadora do sermão que Ele estava aqui concluindo.

O “pois” no início indica que Ele estava extraindo uma conclusão de tudo o que havia dito anteriormente. Nos versos precedentes, Cristo não estava descrevendo negociantes de méritos ou falando contra aqueles que confiavam em boas obras e realizações religiosas para a sua salvação, mas estava exortando seus ouvintes a entrarem pela porta estreita (vv. 13-14), alertando contra os falsos profetas (vv. 15-20), denunciando uma profissão de fé vazia. No verso imediatamente anterior (v. 23), longe de se apresentar como o Redentor, ternamente atraindo os pecadores, Ele é visto como o Juiz, dizendo aos hipócritas: “Apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade”.

Em vista do que acaba de ser ressaltado, esse seria, no mínimo, um lugar estranho para Cristo introduzir o Evangelho e anunciar que Sua própria obra consumada era o único fundamento de salvação sobre o qual os pecadores deveriam descansar as suas almas. Isso não somente não daria nenhum significado ao “pois” introdutório, mas não seria coerente com o que se segue imediatamente, onde, em vez de apontar para a necessidade de confiar em Seu sangue expiatório, Cristo mostrou quão indispensável é que nós obedeçamos aos Seus preceitos. Verdadeiramente não há redenção para qualquer alma, senão por meio da “fé no seu sangue” (Romanos 3:25), mas isso não é sobre o que Ele estava aqui tratando. Antes, Ele estava insistindo que nem todos os que lhe dizem: “Senhor, Senhor”, entrarão em Seu reino, mas “aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (v. 21). Em outras palavras, Ele estava testando a profissão de fé, exigindo a realidade de que a fé genuína produzirá boas obras. Aqueles que se julgam estar confiando salvificamente no sangue do Cordeiro enquanto ignoram os Seus mandamentos estão fatalmente enganados sobre si mesmos. Aqui, Cristo não compara o que ouviu e creu em Sua palavra a um homem prudente que construiu a sua casa seguramente sobre uma rocha, mas sim aquele que “ouve e as cumpre” — como no verso 26, o que constrói sobre a areia é aquele que ouve suas palavras “e não as cumpre”.

“Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei” (Romanos 3:28); “Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé” (Tiago 2:24). A menos que o propósito de cada escritor seja claramente apreendido, essas duas declarações contradizem uma a outra. Romanos 3:28 é uma conclusão do que tinha sido anunciado nos versos 21-27, a saber, toda vanglória diante de Deus se torna impossível pelo método divino da salvação. Pela própria natureza do caso, se a justificação diante de Deus é pela fé, então deve ser somente pela fé, sem a mistura de qualquer mérito nosso. Tiago 2:24 como é claro a partir dos versos 17, 18 e 26, não está tratando de como o pecador obtém a aceitação diante de Deus, mas como tal pecado evidencia a sua aceitação. Paulo estava refutando aquela tendência legalista que leva os homens confiarem em e “estabelecerem a sua própria justiça” pelas obras; Tiago estava lutando contra esse espírito de Antinomianismo licencioso que faz com que outros pervertam o Evangelho e insistam que as boas obras não sejam essenciais para qualquer finalidade. Paulo estava refutando negociadores de méritos, que repudiavam a salvação somente pela graça; Tiago afirmou que a graça opera pela justiça e transforma as pessoas, mostrando a inutilidade de uma fé morta que nada produz além de uma profissão jactanciosa. O fiel servo de Deus sempre alternará em advertir os seus ouvintes contra o legalismo por um lado, e contra a licenciosidade, por outro.

6. A necessidade de interpretação da Escritura pela Escritura. O princípio geral é expresso nas palavras bem conhecidas: “comparando as coisas espirituais com as espirituais” (1 Coríntios 2:13), pois enquanto a afirmativa anterior se refere mais especificamente à inspiração divina pela qual o apóstolo ensinou, como o porta-voz autoritativo do Senhor, ainda assim, os dois versos 12 e 14 tratam da compreensão das coisas espirituais, e, portanto, nós consideramos que a última afirmativa do verso 13 tem uma força dupla. A palavra grega traduzida como “comparando” é usada na tradução da Septuaginta do Velho Testamento usualmente para expressar o ato de interpretar sonhos e enigmas, e C. Hodge parafraseia: “comparando as coisas espirituais com as espirituais” por “explicando as coisas do espírito nas palavras do espírito”, indicando que a palavra “espiritual” não tem substantivo relacionado com ela, e, portanto, mais naturalmente concorda com o termo “palavras” da frase anterior. Por estas razões, consideramos que 1 Coríntios 2:13 enuncia uma regra muito valiosa e importante para a compreensão e interpretação da Palavra de Deus, ou seja, que uma parte dela deve ser explicada por outra, pois a comparação das coisas espirituais serve para iluminar e ilustrar uma e outra, e, assim, a sua perfeita harmonia é demonstrada. Algo mais do que um conhecimento confuso ou vago das Escrituras deve ser buscado: a verificação de que uma parte da verdade está em pleno acordo com outras partes torna manifesta a sua unidade — como as cortinas do tabernáculo eram ligadas entre si por laçadas.

Muitíssimo mais do que qualquer livro não-inspirado, a Bíblia é um volume autoexplicativo, não só porque registra a realização de suas promessas e o cumprimento de suas profecias, não só porque seus tipos e antítipos mutuamente revelam uns aos outros, mas, porque todas as suas verdades fundamentais podem ser descobertas por meio dos seus próprios conteúdos, sem referência a qualquer coisa ab extra ou fora de si mesma. Quando uma dificuldade for experimentada em uma passagem, ela pode ser resolvida por uma comparação e análise das outras passagens, onde as mesmas palavras ou outras semelhantes ocorrem ou onde os mesmos assuntos, ou semelhantes, são tratados de forma muito detalhada ou explicada da forma mais clara. Por exemplo, aquela expressão de vital importância “a justiça de Deus” em Romanos 1:17 — todos os outros lugares onde ela ocorre nas epístolas de Paulo devem ser cuidadosamente ponderadas antes que possamos ter certeza de seu significado exato, e tendo feito isso, não há necessidade de consultar autores pagãos. Isso não deve ser feito somente por observar cada palavra, mas as suas partes e derivados, adjuntos e cognatos, devem ser examinados em todos os casos, pois, com frequência, assim uma luz será lançada sobre a mesma. Que Deus demanda que estudemos a Sua Palavra dessa forma, é evidente a partir fato de que nenhum sistema de classificação ou arranjo de informação foram fornecidos a nós sobre qualquer de seus temas.

Os principais temas tratados nas Escrituras são apresentados a nós mais ou menos fragmentados, sendo espalhados por suas páginas e revelados sob diversos aspectos, alguns clara e completamente, outros mais remota e laconicamente: em conexões diferentes e com diferentes adições nas diversas passagens onde elas ocorrem. Isto foi designado por Deus em Sua multiforme sabedoria para nos fazer examinar a Sua Palavra. É evidente que se quisermos apreender totalmente a Sua mente revelada sobre qualquer assunto particular, devemos coletar e reunir todas as passagens em que tal assunto é advertido, ou em que um pensamento ou sentimento similar é expresso; e por esse método, podemos ter a certeza de que se nós conduzirmos a nossa investigação num espírito reto, e com diligência e perseverança, chegaremos a um conhecimento claro da Sua vontade revelada. A Bíblia é um pouco como um mosaico, cujos fragmentos estão espalhados aqui e ali através da Palavra, e esses fragmentos devem ser reunidos por nós e cuidadosamente montados, se quisermos obter a imagem completa de qualquer um dos seus inúmeros temas. Há muitas passagens nas Escrituras que podem ser compreendidas apenas pelos esclarecimentos e amplificações fornecidas por outras passagens.
 

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