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A Interpretação das Escrituras • Cap. 8 • A. W. Pink

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Capítulo 8

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8. É necessário reunir e comparar todas as passagens que tratam do mesmo assunto, onde os termos cognatos ou diferentes expressões são usadas. Isto é essencial se o expositor quiser ser preservado de concepções errôneas do mesmo, e para que ele intenda a mente do Espírito. Tome essas palavras bem conhecidas como um exemplo simples: “Pedi, e dar-se-vos-á” (Mateus 7:7). Poucos textos foram mais gravemente pervertidos do que esse. Muitos o têm considerado como uma espécie de cheque em branco, de modo que ninguém — não importa o seu estado de alma ou seu modo de vida — pode preencher exatamente com o que lhe agrada, e que, após fazer isto, ele tem apenas que apresentar o cheque preenchido diante do trono da graça e Deus fica obrigado a honrar isso. Tal caricatura da verdade não mereceria refutação se atualmente ela não estivesse sendo tão grandemente alardeada em alguns lugares. Tiago 4:3 declara expressamente sobre alguns: “Pedis e não recebeis, porque pedis mal”; há alguns que “pedem” e não recebem! E porquê? Porque a petição deles é carnal, “para o gastardes em vossos deleites”, e, portanto, um Deus santo lhes nega.

Pedir a Deus em oração é uma coisa; pedir apropriada, razoável, aceitável e efetivamente é outra coisa completamente diferente. Se queremos verificar como o último deve ser feito, as Escrituras devem ser examinadas para esse efeito. Assim, a fim de garantir que Deus nos ouça, devemos nos aproximar de Deus através do Mediador: “E tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá” (João 16:23). Mas, pedir ao Pai em Seu nome significa muito mais do que apenas proferir as palavras “Dê-me isto em o nome de Jesus”. Entre outras coisas, significa pedir na Pessoa de Cristo, como identificados com e unidos a Ele; pedindo o que é de acordo com Suas perfeições e será para Sua glória; pedindo o que Ele pediria se estivesse em nosso lugar. Novamente, devemos pedir com fé (Marcos 11:24), pois Deus não abençoará ninguém por sua incredulidade. Cristo disse aos Seus discípulos: “Se vós permanecerdes em mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito” (João 15:7), aqui mais duas condições são estipuladas. Para receber devemos pedir de acordo com a vontade de Deus (1 João 5:14), como revelado em Sua Palavra. Que deplorável e indevido uso tem sido feito de Mateus 7:7 pelo simples fato de não buscarem interpretar esta passagem à luz de passagens paralelas!

Outro exemplo de falha nesse ponto é o uso frequente feito de Gálatas 6:15: “Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura” (ou “nova criação”). É muito adequado e pertinente utilizar esse verso ao mostrar que nem as ordenanças cerimoniais do Judaísmo nem o Batismo e Ceia do Senhor do Cristianismo são de qualquer valor para adequar-nos para o recebimento de nossa herança com os santos na luz. Assim também, embora com muito menos frequência, somos lembrados de que: “Em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” (Gálatas 5:6), isto é, da fé que advém da gratidão a Deus pelo Seu dom inefável, e não por motivos legais, pois essa fé somente pode ser obtida pelo dom de Deus. Mas quão raramente é citado no púlpito que “a circuncisão é nada e a incircuncisão nada é, mas, sim, a observância dos mandamentos de Deus” (1 Coríntios 7:19). Isso diz respeito à nossa submissão à autoridade divina, a nossa caminhada em sujeição à vontade de Deus, e geralmente isto é omitido. É somente através da colocação desses três versos lado a lado que obtemos uma visão equilibrada. Não somos vitalmente unidos a Cristo a menos que tenhamos nascido de novo; não nascemos de novo, a menos que tenhamos uma fé que opera pelo amor; e nós não temos essa fé salvífica a menos que isso seja comprovado por uma observância dos mandamentos de Deus.

É dever do expositor reunir as várias descrições e exemplificações dadas nas Escrituras de qualquer coisa em particular, ao invés de formular uma definição formal de sua natureza, pois é desse modo que o Espírito Santo nos ensina a conceber isto. Tome o simples ato de fé salvífica, e observe as numerosas e mui diferentes expressões usadas para descrevê-la. Ela é citada como crer no Senhor Jesus Cristo (Atos 16:31), ou repousar com confiança a alma nEle. Como vir a Ele (Mateus 11:28), o que implica o abandono de tudo o que se opõe a Ele. Como recebê-lO (João 1:12), enquanto Ele é oferecido gratuitamente aos pecadores no Evangelho. Como uma fuga para buscar refúgio nEle (Hebreus 6:18), como o homicida que procura refúgio em uma das cidades previstas para esse propósito (Número 35:6). Como olhar para Ele (Isaías 45:22). Como o olhar dos israelitas feridos para a serpente na haste (Números 21:9). Como uma aceitação do testemunho de Deus, e assim confirmando que Ele é verdadeiro (João 3:33). Como a entrada em um caminho (Mateus 7:13) ou em uma porta (João 10:9). Como um ato de rendição completa ou entrega de nós mesmos ao Senhor (2 Coríntios 8:5), como uma mulher quando se casa com um homem.

O ato da fé salvífica também é apresentado como um chamado ao Senhor (Romanos 10:13), como fez Pedro ao afundar (Mateus 14:30) e o ladrão moribundo. Como confiar em Cristo (Efésios 1:13) como o grande Médico, confiando em Sua suficiência para curar as nossas doenças mortais. Como um descanso no Senhor (Salmos 37:7) como em um alicerce seguro (Isaías 28:16). Como um ato de apropriação ou de comer (João 6:51) para satisfazer um doloroso vazio interior. Como um compromisso (2 Timóteo 1:12): como um homem deposita o seu dinheiro em um banco seguro, assim devemos entregar as nossas almas nas mãos de Cristo, para o tempo e a eternidade (cf. Lucas 23:46). Como fé no Seu sangue (Romanos 3:25). Como uma crença na Verdade (2 Tessalonicenses 2:13). Como um ato de obediência ao santo mandamento de Deus (2 Pedro 2:21), em conformidade com os termos do Evangelho (Romanos 10:16). Como um amor ao Senhor Jesus Cristo (1 Coríntios 16:22). Como um converter-se ao Senhor (Atos 11:21), o que implica uma separação do mundo. Como o recebimento do testemunho de Deus (1 João 5:9-10) como um motivo todo-suficiente de segurança, sem a evidência de um sentimento ou qualquer outra coisa. Como um tomar da água da vida (Apocalipse 22:17). A maioria destas vinte expressões é figurativa e, portanto, melhor adequada do que qualquer definição formal para transmitir à nossa mente um conceito mais vivo do ato da fé salvífica e para preservar-nos de uma visão unilateral do mesmo.

Muito mal tem sido feito por “neófitos” incompetentes quando se trata do tema da regeneração, limitando-se a um único termo, “nascer de novo”. Esta é apenas uma das muitas figuras utilizadas nas Escrituras para descrever esse milagre da graça que é operado na alma quando essa passa da morte para a vida e é trazida das trevas para a maravilhosa luz de Deus. É denominado um novo nascimento porque uma vida divina é comunicada e há o início de uma nova experiência. Mas também é comparada a uma ressurreição espiritual, que apresenta uma linha muito diferente do pensamento, e a uma “renovação” (Colossenses 3:10), que indica uma mudança no indivíduo em relação ao que ele era originalmente. É a pessoa que é divinamente vivificada e não apenas uma “natureza” que é nascida de Deus: “Necessário vos é nascer de novo” (João 3:7), e não apenas algo em você deve nascer de novo; “Ele é nascido de Deus” (1 João 3:9). A mesma pessoa que era espiritualmente morta, estando todo o seu ser alienado de Deus, é então vivificada: todo o seu ser é reconciliado com Deus. Isto deve ser assim, de outro modo não haveria nenhuma preservação da identidade do indivíduo. É um novo nascimento do próprio indivíduo e não de algo nele. A natureza nunca é alterada, mas a pessoa é, relativamente e não absolutamente.

Se nos limitarmos à figura do novo nascimento quando consideramos a grande mudança operada em alguém a quem Deus salva, não somente obteremos um conceito muito inadequado do mesmo, mas um conceito completamente errado. Em outras passagens isso é citado como: uma iluminação da mente (Atos 26:13), um minucioso e convencimento da consciência (Romanos 7:9), a regeneração do coração (Ezequiel 11:19), uma subjugação da vontade (Salmos 110:3), um levar de nossos pensamentos à sujeição a Cristo (2 Coríntios 10:5), a lei de Deus escrita sobre o coração (Hebreus 8:10). Em algumas passagens algo é dito ser removido do indivíduo (Deuteronômio 30:6; Ezequiel 36:26), o amor ao pecado, inimizade contra Deus; enquanto em outras passagens, algo é comunicado (Romanos 5:5; 1 João 5:20). As figuras da criação (Efésios 2:10), regeneração (Tito 3:5) e ressurreição (1 João 3:14) também são empregadas. Em algumas passagens esse milagre parece ser uma coisa concluída (1 Coríntios 6:11; Colossenses 1:12), em outros, aparece como um processo ainda em curso (2 Coríntios 3:18; Filipenses 1:16). Embora a obra da graça seja uma, ainda assim é multifacetada. Seu objeto é uma criatura complexa e sua salvação afeta cada parte de seu complexo ser.

O nascimento físico é a entrada nesse mundo para uma criatura, uma personalidade completa, a qual antes da concepção não possuía qualquer existência. Mas alguém regenerado por Deus tinha uma personalidade completa antes dele nascer novamente. A regeneração não é a criação de um indivíduo que até então não existia, mas a espiritualização de alguém que já existe, a renovação e reformação de alguém a quem o pecado incapacitou para a comunhão com Deus, concedendo-lhe uma nova inclinação à todas as suas faculdades. Tome cuidado para não pensar que o Cristão é composto de duas personalidades distintas e diversas. A responsabilidade é atribuída ao indivíduo e não à sua “natureza” ou “naturezas”. Embora tanto o pecado quanto a graça, habitem no santo, Deus o considera responsável por resistir e subjugar a um e por submeter-se e ser regulado pela outra. O fato de que esse milagre da graça também é comparado a uma ressurreição (João 5:25) deve nos impedir de formarmos uma ideia parcial do que é intencionado por novo nascimento e por “nova criatura”, e de forçar algumas analogias em relação ao nascimento natural, que outras expressões figurativas não permitem. A grande mudança interior também é comparada a uma divina “geração” (1 Pedro 1:3), porque a imagem do Criador é então impressa sobre a alma. Como o primeiro Adão gerou um filho à sua imagem (Gênesis 5:3), assim também o último Adão tem uma “imagem” (Romanos 8:29) a transmitir aos Seus filhos (Efésios 4:24).

O que tem sido apontado acima aplica-se com igual força ao assunto da mortificação (Colossenses 3:5). Este dever Cristão essencial é estabelecido nas Escrituras através de uma grande variedade de expressões figurativas, e é muito necessário que nós tomemos o cuidado de reuni-las e compará-las se quisermos ser preservados de perspectivas defeituosas do que Deus requer de Seu povo nesta importante questão de resistir ao e vencer o mal. A mortificação é dita ser como uma circuncisão do coração (Deuteronômio 11:16) e como arrancar o olho direito e cortar a mão direita (Mateus 5:29-30), o que nos dá a ideia de ser uma coisa dolorosa. É uma negação de si mesmo e um tomar a cruz (Mateus 16:24). É um despojar-se das obras das trevas (Romanos 13:12), um despojar-se do velho homem (Efésios 4:22), um separar-se de toda imundícia e superfluidade da promiscuidade (Tiago 1:21), cada um dos quais é necessário antes que possamos nos revestir da armadura da luz ou do novo homem, ou receber com mansidão a Palavra enxertada, pois temos de deixar de fazer o mal antes que possamos fazer o bem (Isaías 1:16-17). É um não fazer nenhuma provisão para a carne (Romanos 13:14), um desfazer do corpo, ou seja, do pecado (Romanos 6:6; Colossenses 2:11) e trazê-lo em sujeição (1 Coríntios 9:27), um purificar-nos de toda a imundícia da carne e do espírito (2 Coríntios 7:1), é um abster-se de toda a aparência do mal (1 Tessalonicenses 5:22), a deixar de lado todo embaraço (Hebreus 12:1).

9. Igualmente necessário é não separar o que Deus uniu. Por natureza, todos nós somos propensos a ir para extremos, especialmente aqueles que possuem uma tendência filosófica em suas mentes, os quais, em busca de unidade de pensamento, estão em grande perigo de forçar uma unidade para que ela entre na esfera de seu conhecimento limitado. Para fazer isso, eles são muito propensos a sacrificar um lado ou elemento da verdade em detrimento a outro. Eu posso ser bastante claro e lógico à custa de ser superficial e não abrangente. Uma advertência muito solene contra esse perigo foi fornecida pelos judeus em relação à sua interpretação das profecias messiânicas, pois eles atentarem exclusivamente para aquelas que anunciavam as glórias de Cristo e negligenciaram aquelas que prediziam os Seus sofrimentos de modo que até mesmo os próprios apóstolos foram maldosamente afetados por isso, e foram repreendidos por Cristo em relação a tal loucura (Lucas 24:25-26). É nesse ponto que o povo de Deus, e em particular os Seus ministros, precisam ser muito vigilantes. A verdade é dupla (Hebreus 4:12): Cada doutrina tem o seu elemento correspondente e complementar, todos os privilégios têm a sua obrigação implícita. Esses dois lados da Verdade não se cruzam entre si, mas correm paralelos um ao outro: eles não são contraditórios, mas complementares, e ambos devem ser sustentados por nós, se quisermos ser impedidos de grave erro.

Assim, nunca devemos permitir que a grande verdade da soberania de Deus afaste o fato da responsabilidade humana. A vontade do Todo-Poderoso é realmente invencível, mas isso não significa que não somos nada mais do que bonecos inanimados. Não, nós somos agentes morais, bem como criaturas racionais, e em tudo somos tratados por Deus como tal. “É necessário que venham escândalos”, disse Cristo, mas Ele imediatamente acrescentou, “mas ai daquele homem por quem o escândalo vem” (Mateus 18:7). Aqui as duas coisas estão unidas: a certeza infalível dos decretos divinos, a culpabilidade e a criminalidade do agente humano. O mesmo conjunto inseparável aparece novamente na declaração relativa à morte de Cristo: “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” (Atos 2:23). Mais uma vez, o nosso zelo pela doutrina da eleição não deve fazer-nos ignorar a necessidade de utilizar os meios. Aqueles pensam: “se eu sou eleito, serei salvo, quer eu me arrependa e confie em Cristo ou não faça nada disso”, estão mortalmente enganando a si mesmos; prova disto é o que está escrito em 2 Tessalonicenses 2:13: “Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade”. Ninguém nunca será salvo até que creia (Lucas 8:12; Hebreus 10:39), e, portanto, todos devem ser exortados a fazê-lo.

A redenção particular (i.e., Cristo fez expiação somente pelos pecados de Seu próprio povo) não deve impedir os Seus servos de pregar o Evangelho a toda a criatura e anunciar que há um Salvador para todos os pecadores que se apegam a Ele, e que os que assim fazem são salvos do Inferno. Não divida as duas metades de João 6:37: todo aquele que o Pai dá a Cristo, virá a Ele, ainda assim, cada um deve buscá-lO (Isaías 55:6; Jeremias 29:13). A incapacidade do homem natural não anula sua prestação de contas, pois embora ninguém possa ir a Cristo, se o Pai não o atrair (João 6:44), sua recusa a vir é altamente censurável (Provérbios 1:24-31; João 5:40). Também um Cristo dividido não deve ser apresentado aos pecadores para a sua aceitação. É uma ilusão imaginar que o Seu sacrifício sacerdotal pode ser recebido enquanto o Seu governo real for recusado ou que Seu sangue me salvará embora eu despreze o Seu governo. Cristo é “Senhor e Salvador”, e nessa ordem inalterável (2 Pedro 1:11; 3:2,18), porque temos que abaixar as armas da nossa guerra contra Ele e tomar o Seu jugo sobre nós a fim de encontrarmos descanso para a nossa alma. Assim, o arrependimento e a fé são igualmente necessários (Marcos 1:15; Atos 20:21).

Se por um lado a justificação e a santificação devem ser claramente distinguidas, por outro, elas não devem ser dissociadas (1 Coríntios 1:30, 6:11). “Cristo nunca entra na alma sozinho. Ele traz o Espírito Santo com Ele, e o Espírito concede dons e graças. Cristo vem com uma bênção em cada mão: o perdão em uma e a santidade na outra” (Thomas Adams, 1650). No entanto, quão raramente Efésios 2:8-9 é completado pela citação do verso 10! Novamente, as verdades gêmeas da preservação divina e da perseverança Cristã não devem ser separadas, pois a primeira é realizada pela instrumentalidade da última e não sem ela. Somos de fato “guardados pelo poder de Deus”, assim como “pela fé” (1 Pedro 1:5), e se em 1 João 2:27 [na versão usada pelo autor], o apóstolo assegurou aos santos: “haveis de permanecer nele”, no verso seguinte ele os exortou a “permanecer nele”; como Paulo também os exortou aos Filipenses a operarem a sua própria salvação com temor e tremor, e depois acrescentou: “Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2:13). Balaão desejou morrer a morte dos justos, mas não estava disposto a viver a vida de um. Meios e fins não devem ser separados: nunca alcançaremos o Céu, a menos que nós continuemos no único caminho (o “estreito”) que leva a ele.
 

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