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A Interpretação das Escrituras • Cap. 9 • A. W. Pink

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Capítulo 9

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10. O simples negativo, muitas vezes implica, por outro lado, o positivo. Essa é uma regra muito simples de exegese, mas uma que demanda a atenção do jovem estudante. A declaração negativa é, naturalmente, aquela em que algo é negado ou onde a ausência de seu oposto é suposta. No discurso comum o inverso de um negativo geralmente é válido, como quando nós declaramos: “Eu espero que não chova hoje”, é o mesmo que dizer: “Eu confio que o tempo permanecerá firme”. Que essa regra ocorre na Escritura é claro a partir dos inúmeros casos em que a antítese é indicada. “Nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção” é explicado em: “Far-me-ás ver a vereda da vida” (Salmos 16:10-11). “Não escondi a tua justiça dentro do meu coração”, e depois o lado positivo segue, “apregoei a tua fidelidade e a tua salvação” (Salmos 40:9-10). “Por isso deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo… Aquele que furtava, não furte mais; antes trabalhe” (Efésios 4:25,28). Muitos outros exemplos poderiam ser dados, mas esses são suficientes para estabelecer a regra da qual estamos lidando.

Ora, o Espírito Santo nem sempre usa a antítese, contudo, a usa em muitos casos; vejamos alguns exemplos para que possamos exercitar as nossas mentes em Sua Palavra: “Não esmagará a cana quebrada, e não apagará o morrão que fumega” (Mateus 12:20), significa que Ele ternamente cuida dela e a nutre. “A Escritura não pode ser anulada” (João 10:35) isso equivalente a dizer que ela certamente será cumprida. “Sem mim nada podeis fazer” (João 15:5) implica que, em união e comunhão com Ele “podemos todas as coisas” (Filipenses 4:13). Aliás, observe como o primeiro serve para definir o último; não significa que sejamos, então, capazes de realizar milagres, mas, sim, capacitados para darmos fruto! “Não vos ponhais em jugo desigual com os infiéis” (2 Coríntios 6:14) tem a força de “Saí do meio deles e apartai-vos”, como o verso 17 mostra. “Não sejamos cobiçosos de vanglórias” (Gálatas 5:26) implica que sejamos humildes de espírito e consideremos os outros superiores a nós mesmos (Filipenses 2:3). “Estas coisas vos escrevo, para que não pequeis” (1 João 2:1) é igual a “meu propósito é inculcar e promover a prática da santidade”, como tudo o que se segue mostra claramente.

Mandamentos negativos recomendam o bem oposto: “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão” (Êxodo 20:7) implica que devemos ter o Seu nome em máxima reverência e santificá-lo em nossos corações. Ameaças negativas são afirmações tácitas: “O Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão”; antes Ele o condenará e punirá. Promessas negativas contêm garantias positivas: “Um coração quebrantado e contrito ó Deus, tu não desprezarás” (Salmos 51:17), isso significa que tal coração é aceitável a Ele. “Não retirará bem algum aos que andam na retidão” (Salmos 84:11) é o mesmo que dizer que tudo o que é verdadeiramente bom para os tais, certamente, lhes será dado. Conclusões negativas envolvem seus opostos: “O pai do insensato não tem alegria” (Provérbios 17:21), isso intenciona mostrar que ele sofrerá muita tristeza e angústia por causa do filho — oh, que as crianças desobedientes estejam conscientes do sofrimento que eles causarão aos seus pais. “Dar importância à aparência das pessoas não é bom” (Provérbios 28:21), mas é mal. Declarações negativas trazem consigo assertivas fortes: “Na verdade, Deus não procede impiamente; nem o Todo-Poderoso perverte o juízo” (Jó 34:12), antes Ele agirá de modo santo e governará com retidão.

11. Em nítido contraste com o supracitado, deve-se salientar que em muitos casos as declarações apresentadas sob a forma interrogativa têm a força de uma negativa enfática. Essa é outra regra simples que todos os expositores devem ter em mente. “Porventura alcançarás os caminhos de Deus, ou chegarás à perfeição do Todo-Poderoso?” (Jó 11:7), não, de fato. “E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?” (Mateus 6:27), ninguém pode fazê-lo por quaisquer meios. “Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma?” (Mateus 16:26), absolutamente nada, ou melhor, ele está incomensuravelmente em pior situação. “Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno?” (Mateus 23:33), eles não escaparão. “Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?” (João 5:44), isso é moralmente impossível. “Como crerão naquele de quem não ouviram falar?” (Romanos 10:14), eles não crerão. Por outro lado, a interrogação de Mateus 6:30[1] é uma afirmação forte; enquanto que a de Mateus 6:28[2] é uma proibição.

12. O uso correto da razão em relação às coisas de Deus. Essa é outra regra de exegese que é de importância considerável, ainda que deve ser usada com santo cuidado e cautela, por um julgamento maduro e por um conhecimento aprofundado da Palavra. Por essa razão, não deve ser usado pelo neófito ou inexperiente. O Cristão, como o não-Cristão, é dotado de racionalidade, e o exercício dela, se santificada, certamente tem um bom lugar na esfera do reino das coisas espirituais. Antes de considerar a aplicação da razão ao expor a Verdade, vamos pontuar seu domínio mais geral. Dois exemplos disso podem ser selecionados a partir dos ensinamentos do nosso Senhor. “Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, porventura, não vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?” (Mateus 6:30). Aqui encontramos Cristo demonstrando, por um processo simples de lógica, a irracionalidade absoluta da ansiedade desconfiada em relação ao suprimento de necessidades temporais. Seu argumento é extraído a partir da consideração da providência divina. Se Deus cuida do campo, muito mais Ele cuidará de Seu amado povo; Ele evidencia Seu cuidado por vestir a erva do campo, logo, muito mais Ele fornecerá roupas para nós.

“Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” (Mateus 7:11). Aqui, novamente, o Senhor nos mostra como essa faculdade deve ser usada por meio de um processo de raciocínio santo. Ele estava falando sobre o tema da oração, e apresentou um argumento para assegurar que os Seus discípulos serão ouvidos no trono da graça. O argumento é baseado em uma comparação entre desigualdades e a razão extraída do menor ao maior. Pode ser descrito assim: Se os pais terrenos, embora pecadores, são inclinados a ouvir os apelos de seus pequeninos, certamente nosso Pai celestial não fechará os ouvidos para os clamores de Seus filhos: pais naturais, de fato, respondem e concedem os pedidos de seus filhinhos, portanto, muito mais o nosso Pai graciosa e generosamente responderá nossas orações e concederá bens aos Seus. Diz-se de Abraão que ele raciocinava ou considerava assim consigo mesmo: Não há nada impossível para Deus. Da mesma forma o apóstolo: “Pois tenho para mim [estou convencido por raciocínio lógico] que os sofrimentos do tempo presente não são dignos de serem comparados com a glória a ser revelada em nós” (Romanos 8:18). Outras ilustrações do raciocínio inspirado de Paulo são encontradas em Romanos 5: 9-10 e 8:31-32. Em todos esses casos, somos ensinados sobre a legitimidade e uso correto do raciocínio.

O Senhor Jesus, muitas vezes argumentou, tanto com os discípulos quanto com os Seus adversários, como acontece com os homens racionais, de acordo com os princípios do raciocínio que Ele fez acerca da profecia e da conformidade do evento com a previsão (Lucas 24:25-26; João 5:39,46). Ele assim o fez a partir dos milagres que realizou (João 10:25,37,38; 14:10-11) como sendo provas incontestáveis de que Ele foi enviado de Deus, e reprovou os Seus desprezadores por não identificá-lO como o Messias: “Hipócritas, sabeis discernir a face da terra e do céu; como não sabeis então discernir este tempo? E por que não julgais também por vós mesmos o que é justo?” (Lucas 12:56-57), essa foi uma repreensão direta e contundente, porque em seu mais baixo fundamento eles falharam em usar adequadamente os seus poderes de raciocínio, como Nicodemos fez: “Rabi, bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele” (João 3:2). Assim, também, o apóstolo quando exortando os fiéis a fugirem da idolatria acrescentou: “Falo como a entendidos; julgai vós mesmos o que eu digo” (1 Coríntios 10:15).

Em sua exposição magistral de Hebreus 4:3, Owen apontou que o argumento do apóstolo repousou sobre a regra lógica de que “quando há em questão dois opostos entre si, aquele que afirma um, ao mesmo tempo nega o outro; e, o inverso também é verdadeiro, aquele que nega um, afirma o outro. Aquele que afirma ser dia, de fato, diz que não é noite, como se ele tivesse usado formalmente tais palavras”. Seu propósito completo em 4:1-11 foi demonstrar por vários testemunhos e exemplos que a incredulidade separa do repouso de Deus, ao passo que a fé concede entrada a esse descanso. No verso 3, ele afirma: “Porque nós, os que temos crido, entramos no repouso”, em comprovação disso, ele acrescenta: “tal como disse: Assim jurei na minha ira que não entrarão no meu repouso”. Ali o apóstolo novamente citou o Salmo 95 (veja Hebreus 3:7,11,15,18). A partir da triste experiência do fracasso de Israel ao entrar no repouso por causa da sua incredulidade e desobediência a Deus, Paulo chegou à conclusão óbvia e inevitável que os crentes “entram” no repouso.

Nós repetimos, é apenas por esse princípio de lógica que o argumento do apóstolo em Hebreus 4:3 pode ser entendido. Se algum dos nossos leitores estiver inclinado a ter problema com essa afirmação, então nós respeitosamente o exortamos a examinar e cuidadosamente ponderar nesse verso, e ver se ele percebe como o texto-prova citado supre qualquer confirmação da proposição de sua cláusula de abertura. A partir dessa exposição Owen apontou: “Deste modo podemos perceber o uso da razão ou de deduções lógicas na proposição, lidando e confirmando santas verdades sobrenaturais e artigos de fé. A validade da prova do apóstolo nessa passagem depende da certeza da sentença lógica antes mencionada, a consideração dessa remove toda a dificuldade. E negar essa liberdade da consequência dedutiva, de acordo com as corretas regras de raciocínio, é quase remover o uso da Escritura, e banir a razão daquelas coisas em que ela deve ser principalmente empregada”.

Em Hebreus 8:13, encontra-se outro e ainda assim muito mais simples exemplo de raciocínio sobre as Escrituras. “Dizendo Nova aliança, envelheceu a primeira. Ora, o que foi tornado velho, e se envelhece, perto está de acabar” (Hebreus 8:13). O propósito do apóstolo nessa epístola foi expor a superioridade imensurável do Cristianismo sobre o Judaísmo, e exortar os crentes hebreus a se apegarem firmemente a Cristo, a verdadeira luz e substância, e não se voltarem para as sombras e símbolos de um sistema que havia servido ao seu propósito. Entre outras razões, ele tinha apelado para a promessa de uma “nova aliança” feita por Yahwéh em Jeremias 31:31-34. Ele tinha citado isso em Hebreus 8:8-12, e então extraiu uma inferência lógica da palavra “nova”: Deus está chamando essa melhor economia de nova, sendo claramente implícito que a anterior havia se tornado obsoleta; assim como o Salmista (102:25-26), ao afirmar que a presente terra e céus pereceriam, adicionou como prova que eles “envelheceriam como uma roupa”. Assim, a declaração feita em Hebreus 8:13, é (a título de dedução lógica) apresentada como uma prova da proposição indicada em 8:7: “Porque, se aquela primeira fora irrepreensível, nunca se teria buscado lugar para a segunda”.

Em Efésios 4:8, Paulo cita o Salmo 68:18, em seguida, mostra-nos como devemos fazer um uso correto da razão ou exercer as faculdades intelectuais e morais: Por isso diz: “Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens”, a exaltação de Cristo pressupunha uma humilhação anterior. Mais uma vez: “Ou cuidais vós que em vão diz a Escritura: O Espírito que em nós habita tem ciúmes?” (Tiago 4:5). Mas, como Thomas Manton destacou em sua exposição desse verso, tal afirmação não é encontrada em nenhum lugar na Bíblia nesses termos específicos, e acrescenta: “A Escritura ‘diz’ o que pode ser inferido a partir do escopo dela própria por justa consequência. Inferências imediatas são tão válidas quanto palavras expressas. Cristo provou a ressurreição não pelo testemunho direto, mas pelo argumento (Mateus 22:32). Portanto, o que a Escritura indica por uma boa consequência, deve ser recebido como se fosse disto expressamente”. Ainda outro dos apóstolos recorreu ao raciocínio, quando disse: “Se recebemos o testemunho dos homens, o testemunho de Deus é maior” (1 João 5:9), e infinitamente mais confiável; daí, não há desculpas para aqueles que o rejeitam.

Aqueles que estão familiarizados com os escritos de Agostinho e Calvino observarão quão frequentemente eles inferiram que aquilo que for livremente concedido por Deus é algo de que o homem caído, considerado em si mesmo, é destituído. Essa é uma dedução óbvia da razão, e uma correta regra de exegese, sendo de aplicação simples e universal, a saber, que tudo o que é graciosamente oferecido em e por Cristo está faltando em nossa condição natural. Assim, cada verso que fala da vida eterna como um dom divino, ou que faz a promessa da vida eterna para aqueles que creem, pressupõe necessariamente que estamos sem ela, e, portanto, espiritualmente mortos. Assim, também, o recebimento do Espírito Santo pelo Cristão (Atos 2:38; Gálatas 3:2, 4:6) toma como certo que em sua condição não-regenerada ele estava sem o Espírito, depois de ter perdido Sua presença interior por causa do pecado; o mesmo sendo graciosamente restaurado a nós pela mediação de Cristo (João 7:39; Gálatas 3:14). Como resultado da Queda, o Espírito Santo foi, no exercício da justiça divina, retirado do coração humano e, consequentemente, foi deixado não só sem um habitante divino, mas se tornou uma presa de todas aquelas influências — naturais, mundanas e satânicas — que, na ausência do Espírito Santo, inevitavelmente atraem as afeições para longe de Deus; mas na regeneração o Espírito é novamente dado (Ezequiel 34:27).

Enquanto, por um lado, a faculdade da razão é muito superior aos nossos sentidos corporais (o que distingue o homem e o eleva acima dos animais), por outro lado, a razão é muito inferior à fé (o dom de Deus para o Seu povo), e esta, por sua vez, ao Espírito Santo, de Quem somos dependentes para a direção da razão e o fortalecimento da fé. Há muita confusão mental e não poucos pensamentos equivocados por parte dos santos sobre a posição e extensão que a razão pode e deve ter em relação às Escrituras. Certamente Deus não subordinou a Sua Palavra à nossa razão para que nós aceitemos apenas o que é aprovado por nosso julgamento. No entanto, Ele supriu o Seu povo com essa faculdade, e embora insuficiente, por si só, é uma valiosa ajuda na compreensão da Verdade. Embora a razão não deva ser feita o medidor de nossa crença, contudo ela deve ser usada como serva da fé, comparando Escritura com Escritura, deduzindo inferências e extraindo consequências de acordo com as leis legítimas da lógica. Nunca a faculdade da razão é tão dignamente usada como no esforço por compreender a Sagrada Escritura. Se por um lado somos proibidos de nos estribarmos em nosso próprio entendimento (Provérbios 3:5), por outro, somos exortados a aplicar nossos corações ao entendimento (Provérbios 2:2).

Deus tem nos fornecido com um padrão infalível pelo qual podemos testar cada exercício de nossa razão em Sua Palavra, ou seja, a analogia da fé. E é aí que temos uma salvaguarda segura contra o mau uso dessa faculdade. Embora seja verdade que, muitas vezes, mais está implícito nas palavras das Escrituras do que é realmente expresso, ainda assim, a razão não é uma lei em si mesma para fazer qualquer suplemento que quiser. Qualquer dedução que fazemos, não importa quão lógica pareça, qualquer consequência que extraímos, não importa o quão plausível seja, é errônea se for incompatível com outras passagens. Por exemplo, quando lemos: “Sede vós pois perfeitos, como vosso Pai que está nos céus é perfeito” (Mateus 5:48), podemos concluir que a perfeição sem pecado é atingível nessa vida, mas se fizermos isso erramos, como Filipenses 3:12 e 1 João 1:8 mostram. Outrossim, eu poderia inferir a partir das palavras de Cristo, “ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer” (João 6:44), que, portanto, não sou de modo algum responsável ​​por ir a Ele, e que minha incapacidade me isenta de responsabilidade; assim, eu seguramente cometeria um erro, como João 5:40 e outras passagens mostram.

 


[1] “Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?”.

[2] “E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos?”.
 

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