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O Chamado de Cristo, por A. W. Pink

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“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.”  (Mateus 11:28-30)

Familiar como é o som dessas palavras aos Cristãos professos, no entanto há uma necessidade urgente de seu exame cuidadoso, pois há poucas porções da Palavra de Deus que receberam tal tratamento superficial nas mãos de pregadores como o que recebeu a acima. Que esses versos, como todos os outros no Volume Sagrado, chamam para a meditação em oração alguns admitirão formalmente, mas que tal “simples passagem” demanda um estudo prolongado poucos parecem perceber. É neste exato ponto que tanto dano tem sido feito: muitos tinham como certo que já haviam entendido o significado de tal passagem, e, portanto, nenhuma investigação diligente sobre o significado de seus termos foi realizada. O simples fato de um verso ser tão frequentemente citado de modo que fôssemos completamente familiarizados com a sua linguagem não é uma prova de que nós realmente percebemos o seu significado; mas sim, o fato de que tal familiaridade impediu um exame cuidadoso torna muito mais provável que nós não o apreendemos corretamente.

Há uma grande diferença entre ser familiarizado com o som de um versículo da Sagrada Escritura e adentrar ao sentido dele. O fato triste é que hoje existem milhares de “evangelistas” não qualificados e “alto-falantes” autonomeados ao ar livre que levianamente citam trechos da Palavra de Deus, mas não mais entendem o significado espiritual das palavras proferidas por seus lábios mais do que as linhas telegráficas percebem as mensagens que passam por elas. E isso não é de admirar. A nossa época é uma que está cada vez mais marcada por vadiagem industrial e frouxidão mental, quando o trabalho é detestado, quando a rapidez com que uma tarefa pode ser descartada é preferível a quão bem ela pode ser feita, é a ordem do dia. E o mesmo espírito dilatório e métodos desleixados marcam os produtos tanto do púlpito quanto da página impressa. Por isso, o tratamento superficial que a passagem acima comumente recebe: nenhuma consideração é dada ao seu contexto, nenhuma laboriosa tentativa analisada para verificar a sua coerência (a relação de uma oração com outra), nenhum meticuloso exame e exposição de seus termos.

Se alguma vez uma passagem da Escritura foi mutilada e dilacerada por pregadores, seu significado pervertido e arrancado, é aquela citada acima. Dezenove vezes de vinte apenas um mero fragmento do que é citado, sendo omitida a parte que é mais desagradável para a carne. Uma chamada especial é torcida em um convite promíscuo deliberadamente ignorando os termos de qualificação aqui utilizados pelo Salvador. Mesmo onde a cláusula de abertura é citada, nenhuma tentativa é feita procurando mostrar que é significado por e envolvido em “vir a Cristo”, por isso o ouvinte é deixado a presumir que ele já entende o significado dessa expressão. Os ofícios especiais nos quais o Filho de Deus está ali retratado, ou seja, como Senhor e Mestre, como o Príncipe e Profeta, são ignorados, e outros estão substituindo o seu lugar. A promessa condicional aqui feita por Cristo é falsificada, tornada incondicional, como se o seu “descanso” pudesse ser obtido sem que nós tomemos Seu “jugo” sobre nós e sem a nossa “aprendizagem” daquele que é manso e humilde de cora-ção.

Estamos bem conscientes de que tais cobranças e restrições como acabamos de fazer podem ser ressentidas amargamente por uma grande classe de frequentadores da igreja, que não querem ouvir qualquer pessoa ou coisa que os critique. Mas não é para eles que nós escrevemos: se eles estão preparados para permanecer “sossegados em Sião” [Amós 6:1], se eles estão contentes que sejam enganados ou não, se eles têm tanta confiança nos homens que estão dispostos a receber as coisas mais valiosas e importantes de toda segunda mão, se eles se recusam a examinar seus fundamentos e esquadrinhar seus corações, então temos que “deixá-los” (Mateus 15:14). Porém ainda há alguns na terra que prezam suas almas tão altamente que não consideram nenhum esforço demasiado grande a fim de verificar a existência ou não da posse de um conhecimento salvífico da verdade de Deus, se eles compreendem verdadeiramente ou não, os termos da salvação de Deus; se eles estão construindo sobre uma base inabalável ou não; e é na esperança de que o Senhor se digne a abençoar estes artigos que lhes estamos escrevendo os mesmos.

Mas, vamos agora dar uma olhada em nossa passagem. Ela inicia com “Vinde a mim… e eu vos aliviarei”, e praticamente encerra com “e achareis descanso para as vossas almas”. Agora não são (como alguns têm estranhamente suposto) dois descansos diferentes que são falados aqui, mas o mesmo em ambos os casos, a saber, o descanso espiritual, descanso da salvação. Tampouco são dois aspectos diferentes deste descanso que são aqui retratados, mas sim um único descanso visto a partir de dois pontos de vista distintos. No primeiro caso, a soberania Divina está em vista: “Eu te darei”; no segundo, a responsabilidade humana está sendo cumprida: “achareis”. Na sentença de abertura Cristo faz a afirmação clara de que Ele é o Doador do descanso: No que se segue Ele especifica os termos em que Ele concede descanso, ou para expressá-lo de outra maneira, as condições que devem ser cumpridas por nós, se quisermos obter o mesmo. O resto é dado gratuitamente, mas somente para aqueles que cumprem os requisitos revelados de Seu Doador.

“Vinde a Mim”. Quem é que emite este chamado? Cristo, você responde. É verdade, mas Cristo em que caráter particular? Alguns podem perguntar: O que exatamente você quer dizer com isso? Isto: Cristo estava aqui falando como Rei, comandando Seus súditos; como Criador, dirigindo-se às Suas criaturas; como o Médico, convidando o doente; ou como Senhor, instruindo os Seus servos? Será que alguém responde: Tais distinções confusas estão além de mim o suficiente para eu considerar isto como o Salvador oferecendo descanso para os miseráveis pecadores. Mas você não obteve para si próprio uma distinção em sua mente entre a Pessoa de Cristo e o ofício de Cristo? e você não distingue nitidamente entre Seu ofício como Profeta, como Sacerdote e como Rei? E você não encontrou tais distinções necessárias e úteis? Então, por que reclamar se estamos buscando chamar a atenção para as variadas relações que nosso Senhor mantém e a importância de notar em qual destas relações Ele está agindo em um determinado momento [?]. É atenção a detalhes como este que muitas vezes faz toda a diferença entre um entendimento correto e errado de uma passagem.

Para responder a nossa questão, em que caráter particular Cristo fez aqui este chamado: “Vinde a Mim”, é necessário para nós olharmos para os versículos anteriores: atenção ao contexto é uma das primeiras preocupações para aqueles que cuidadosamente ponderam uma passagem particular. Mateus 11 abre com menção de João Batista ter sido lançado na prisão, de onde enviou mensageiros a Cristo informando-O de sua perplexidade (vv. 2-3). Então nosso Senhor vindicou publicamente Seu precursor e magnificou seu ofício exclusivo (vv. 4-15). Tendo louvado a Batista e seu ministério, Cristo passou a reprovar aqueles que tinham o privilégio de desfrutar tanto deste como do Seu próprio, porque eles não se beneficiaram com o mesmo, sim, tinham desprezado e rejeitado tanto um quanto o outro. Tão depravadas eram as pessoas daquela época que acusaram João de ser possuído por demônios e Cristo de ser um comilão e beberrão (vv. 16-19).

Nos versos 20-24, temos uma das passagens mais solenes a ser encontradas nas Sagradas Escrituras, registradas como algumas das mais terríveis palavras que já saíram dos lábios do Filho de Deus encarnado. Ele repreendeu as cidades onde a maioria dos seus milagres foram feitos, e isso por “não se haverem arrependido” (v. 20). Que seja devidamente observado por aqueles que parecem gostar de retratar nosso Senhor como uma pessoa covarde e afeminada, que era incapaz de pronunciar uma sílaba que ferisse os sentimentos de alguém, uma caricatura de sentimentalismo piegas fabricado pelos Romanistas, porém como se fomentou por muitos nas fileiras do Protestantismo — o Cristo das Escrituras se recusou a encobrir a perversidade do povo, em vez disso, acusou-os de seus pecados. E deixem os Antinomianos observarem também que, longe do Cristo de Deus ignorar a responsabilidade humana ou desculpar a impotência espiritual dos homens, Ele os mantinha estritamente responsáveis ​​e os culpava por sua impenitência.

Impenitência intencional é o grande pecado condenável de multidões que desfrutam do Evangelho, pelo que (mais do que quaisquer outros) os pecadores serão repreendidos na eternidade. A grande doutrina que tanto João Batista, o próprio Cristo e os apóstolos pregaram, era o arrependimento, a grande coisa designada tanto na “música” quanto no “luto” era persuadir as pessoas a mudarem as suas mentes e caminhos, deixarem seus pecados e converterem-se a Deus, mas a isso eles não foram trazidos. Ele não disse, porque eles não criam, pois algum tipo de fé muitos deles tinham, que Cristo era um “Mestre, vindo de Deus”, mas porque “não se arrependeram”, a sua fé não prevaleceu para a transformação de seus corações e a reforma de suas vidas. Cristo os reprovou por seus outros pecados para que Ele pudesse levá-los ao arrependimento, mas quando eles não se arrependeram, Ele censurou-lhes quanto à sua recusa em serem curados. Ele censurou-lhes com isto, para que repreendessem a si mesmos, e pudessem finalmente ver sua própria loucura, como o que, por si só, torna o caso triste, desesperado e a ferida incurável (Matthew Henry).

 

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