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Sermão Nº 493, Getsêmani, por C. H. Spurgeon

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Sermão Nº 493. Pregado numa manhã de Domingo, 8 de fevereiro de 1863. Por C. H. Spurgeon, no Tabernáculo Metropolitano, Newington.

“E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra.” (Lucas 22:44)

Poucos foram feitos participantes das aflições do Getsêmani. A maioria dos discípulos não estava lá. Eles não eram suficientemente maduros na graça para serem capazes de contemplar os mistérios “da agonia”. Ocupados com a festa de Páscoa em suas casas, eles representavam os muitos que viviam sob a Lei, mas eram meros bebês e lactantes no que se refere ao espírito do Evangelho. Os muros do Getsêmani apropriadamente tipificam esta fraqueza na graça que efetivamente esconde da contemplação dos crentes simples as profundas maravilhas da comunhão. A doze, ou melhor, a onze discípulos foi concedido o privilégio de entrar no Getsêmani e contemplar esta grandiosa visão. Dos onze, oito foram deixados a certa distância; eles tinham comunhão, mas não aquele tipo de intimidade a que são admitidos os homens grandemente amados. Apenas três altamente favorecidos, que tiveram com Ele no monte da transfiguração, e testemunharam o milagre da ressurreição na casa de Jairo; apenas estes três puderam aproximar-se do véu de Sua misteriosa angustia, porém neste véu mesmo estes não deveriam adentrar; uma distância de um tiro de pedra deveria estar entre eles. Ele deveria pisar o lagar sozinho, e do povo ninguém deveria estar com Ele. Pedro e os dois filhos de Zebedeu, representam os poucos santos eminentes, experimentados, instruídos na graça, que podem ser descritos como “Pais” estes que fizeram negócios em muitas águas, podem em algum grau, mensurar a enorme onda atlântica da paixão do seu Redentor; havendo passado muito tempo sozinhos com Ele, eles podem ler Seu coração bem melhor do que aqueles que meramente O viram em meio à multidão.

A alguns espíritos escolhidos isto é dado, para o bem de outros, e para seu próprio fortalecimento para quando enfrentarem algum conflito futuro, especial e tremendo, adentrar no círculo íntimo e ouvir as súplicas de sofrimento do Sumo Sacerdote; eles têm comunhão com Ele em Seus sofrimentos, e são feitos semelhantes à Sua morte. Contudo, eu digo, mesmo estes, os eleitos dentre os eleitos, estes escolhidos e favoritos especiais dentre os cortesãos do rei, mesmo estes não podem adentrar no lugar secreto do sofrimento do Salvador, como para compreender todas as Suas agonias. “Teus desconhecidos sofrimentos” é a notável expressão da Liturgia Grega; pois há uma câmara interna em Sua aflição, isolada do conhecimento e companheirismo humanos. Não foi aqui que Cristo foi mais do que nunca um “indescritível presente” para nós? Watts está certo quando canta:

“E todos os júbilos desconhecidos que Ele proporciona foram comprados com agonias desconhecidas.”

Uma vez que não é possível para nenhum crente, por mais experimentado que seja, saber por ele mesmo tudo o que nosso Senhor suportou no lugar de prensa de azeite, quando Ele foi esmagado sob a mais alta e a mais baixa pedra do moinho do sofrimento mental e malícia infernal, isto está claramente muito além da capacidade do pregador em expressá-lO a vocês. O próprio Jesus deve dar-lhes acesso às maravilhas do Getsêmani; quanto a mim, posso apenas convidá-los a entrar no jardim, pedindo a vocês que tirem as sandálias dos pés, porque o lugar em que estamos é terra santa. Eu não sou Pedro, nem Tiago, nem João, mas alguém que, de bom grado, como eles, gostaria de beber do cálice do Mestre, e ser batizado com o Seu batismo. Eu tenho até agora avançado apenas tão longe quanto está o grupo de oito discípulos, mas ali eu tenho escutado os gemidos profundos do Homem de dores. Alguns de vocês, meus veneráveis amigos, devem ter aprendido bem mais do que eu; mas vocês não se recusarão a ouvir novamente o ruído das muitas águas que se esforçaram para tentar apagar o Amor do Grandioso Esposo das nossas almas [Ezequiel 1:24].

Muitos assuntos exigirão nossa breve consideração. Vem Espírito Santo, sopra luz em nossos pensamentos, vida em nossas palavras.

I. Venham mais perto e contemplem a INEXPRIMÍVEL AFLIÇÃO DO SALVADOR.

As emoções daquela dolorosa noite são expressas através de muitas palavras na Escritura. João O descreve como dizendo quatro dias antes da Sua Paixão: “Agora está minha alma perturbada” enquanto advertia sobre o ajuntamento de nuvens Ele quase não sabia onde virar-se e clamou: “E que direi eu?” [João 12:27]. Mateus escreveu sobre Ele: “ele começou a entristecer-se e a angustiar-se muito” [Mateus 26:37]. Sobre a palavra ademonein traduzida como “angustiar-se muito”, Goodwin comenta que havia uma desorientação na agonia do Salvador, pois em sua origem a palavra significa “separado do povo: homens confusos, tornando-se separados da humanidade”. Que pensamento, meus irmãos, que nosso Bendito Senhor tenha sido levado ao limite máximo da desorientação pela intensidade de Sua angústia. Mateus apresenta o próprio Salvador dizendo: “A minha alma está cheia de tristeza, até a morte” [Mateus 26:38]. Aqui a palavra Perilupos significa envolvido, cercado, sobrecarregado de dor. “Ele foi submergido completamente (até a cabeça e orelhas) em sofrimento e não tinha como desafogar-se”, é a forte expressão de Goodwin. O pecado não deixa nenhuma brecha pela qual possa entrar o consolo, e, portanto, quem carrega o pecado deve estar inteiramente imerso em dor. Marcos registra que Ele começou a ter pavor, e a angustiar-se [Marcos 14:33]. Neste caso thambeisthai, com o prefixo ek, demonstra assombro ao extremo, como aquele de Moisés quando sentiu grande temor e tremor. Ó bendito Salvador, como nós podemos suportar pensar em Ti como um homem assombrado e temeroso! Todavia, foi assim quando os terrores de Deus se dispuseram em batalha contra Ti. Lucas usou a forte linguagem do meu texto: “e posto em agonia” [Lucas 22:44]. Estas expressões, as quais cada uma é digna de ser tema de um sermão, são quase suficientes para expressar que a aflição do Salvador era de um caráter sumamente extraordinário justificando bem a exclamação profética: “Atendei, e vede, se há dor como a minha dor, que veio sobre mim” [Lamentações 1:12]. Ele permaneceu perante nós em miséria incomparável. Ninguém foi tão afligido pelos poderes das trevas quanto Ele; é como se os poderes do inferno tivessem dado o comando às suas legiões: “Não pelejem nem contra pequenos nem contra grandes, mas somente contra o próprio Rei de Israel”.

Se professássemos compreender todas as causas das agonias de nosso Senhor, a sabedoria nos repreenderia com o questionamento: “Entraste tu até as origens do mar, ou passeaste no mais profundo do abismo?” [Jó 38:16]. Não podemos fazer mais do que olhar as causas reveladas do sofrimento. Surgiu, em parte, do horror de Sua alma quando compreendeu plenamente o significado do pecado. Irmãos, quando vocês foram primeiramente convencidos do pecado e o viram como algo extremamente pecaminoso, embora sua compreensão de pecaminosidade fosse apenas débil comparada com sua real atrocidade, ainda assim o terror apoderou-se de vocês. Lembram-se daquelas noites de insônia? Quando como o salmista, você disse: “envelheceram os meus ossos pelo meu bramido em todo o dia. Porque de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; o meu humor se tornou em sequidão de estio” [Salmos 32:3-4]. Alguns de nós podem se lembrar de quando nossas almas escolheriam antes a estrangulação do que a vida [Jó 7:15], quando se as sombras da morte nos tivessem escondido da ira de Deus nós ficaríamos muito felizes em dormir na sepultura para não fazer nossa cama no inferno [Salmos 139:8]. Nosso bendito Senhor viu o pecado em sua escuridão natural. Ele teve a mais nítida percepção do traiçoeiro assalto sobre seu Deus, de seu ódio homicida contra Sua própria pessoa, e a influência destruidora do pecado sobre a humanidade. Seria esperado que o terror se apoderasse dEle, pois uma visão do pecado deve ser de longe mais aterrorizante do que uma visão do inferno, o qual é apenas a sua prole.

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