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Um Tradado Sobre Oração, por John Bunyan

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Descrição

 

Prefácio

Precisamos de orações vivas e de vidas de oração. A oração é para alma o que a respiração é para o corpo. Pelos movimentos desta respiração celeste entendemos que há vida, que estamos vivos; ou não. Precisamos de homens dispostos a orar e não a pecar.

Assim disse o Senhor Jesus: “Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai” (Mateus 6:5-15). Aqui, o Senhor não especulou a respeito da possibilidade dos seus seguidores orarem em secreto ou não, Ele não diz “se talvez orares”, “se quiseres orar”, “Se tiveres tempo para orar” não, o Senhor diz: “quando orares”, a oração secreta e constante na vida dos verdadeiros seguidores de Cristo não é uma possibilidade, é uma certeza plena. Jesus sabia muito bem que os Seus orariam. Assim como o pastor usa o seu cajado para apartar as ovelhas dos bodes, a oração secreta é o cajado que separa os filhos de Deus dos filhos do Diabo, pois aqueles que entram em seus aposentos e fecham a porta, o fazem como filhos e para “orar a seu Pai”. Certamente os que assim não fazem, e isso não lhes aflige, são bastardos e não filhos (Hebreus 12:8).

 

“A oração particular é o teste de nossa sinceridade, o indicador de nossa espiritualida-de, o principal meio de crescimento na graça. A oração particular é a única coisa, acima de todas as demais, que Satanás busca impedir, pois ele bem sabe que se ele puder ser bem sucedido neste ponto, o Cristão falhará em todos os outros”.[1]

 

Existem cristãos que possuem uma vida de oração sem, no entanto, possuírem um conhecimento bíblico correto; mas definitivamente não existem cristãos que possuem um conhecimento bíblico correto e não possuem uma vida de oração. Falar de Cristo não é o mesmo que falar com Cristo. Ocupar-se nas coisas de Deus não é o mesmo que ocupar-se em oração com o próprio Deus das coisas. Existem cristãos falsos que são constantes em “oração”, mas é impossível que existam cristãos verdadeiros que não sejam constantes e diligentes na oração. Sobre isto o Puritano Joseph Alleine, diz:

 

“Aquele que negligencia a oração é um pecador profano e não-santificado. Aquele que não é constante na oração é hipócrita, a menos que a omissão seja contrária ao seu costume, sob a força de alguma tentação momentânea. Uma das primeiras coisas em que se manifesta a conversão é que ela leva os homens a orar”.[2]

 

Atualmente muito se têm falado sobre piedade, sobre o que é ser piedoso. Não me arriscarei a responder tais perguntas, pois conheço a minha grande ignorância, mas sei disto: “Piedade”, sem oração é nada mais do que pecado maquiado com pincéis de soberba. Os que se julgam versados nas Escrituras e como possuindo um bom conhecimento de doutrina e teologia, mas que não cultivam um hábito de profunda oração, estão inchados e nada sabem. Certamente as palavras de David Martyn Lloyd-Jones são verdadeiras:

 

“Nossa condição definitiva como cristãos é testada pelo caráter da nossa vida de oração. Isso é mais importante que o conhecimento e o entendimento. Não pensem que eu estou diminuindo a importância do conhecimento. Tenho passado a maior parte da minha vida tentando mostrar a importância de se ter um bom conhecimento e entendimento da verdade. Isso é de importância vital. Só há uma coisa que é mais importante: a oração. O teste definitivo da minha compreensão do ensino bíblico é a quantidade de tempo que eu gasto em oração… Se todo o meu conhecimento não me conduz à oração, certamente há algo de errado em algum lugar”.[3]

 

A fraqueza dos cristãos do nosso tempo reflete a fraqueza das nossas vidas de oração. As frequentes idas de nossas almas ao chão equivalem inversamente à mesma frequência em que os nossos joelhos não vão ao chão. A esterilidade na oração, demonstra uma esterilidade na fé, e sabemos muito bem que a árvore estéril perto está de ser amaldiçoada e secar-se até as raízes (Mateus 21:19).

A oração é urgente. E este excelente tratado escrito pelo Puritano John Bunyan tem muito a nos ensinar a respeito do santo exercício da oração, a qual Bunyan define como: “O derramar de modo sincero, consciente e amoroso o coração ou a alma diante de Deus, por meio de Cristo, no poder e ajuda do Espírito Santo, buscando as coisas que Deus prometeu, ou que estão em conformidade com a Sua Palavra, para o bem da igreja, com fiel submissão à Sua vontade”. Este tratado está dividido em quatro partes: Primeiro, o autor procura mostrar em que consiste e qual é a verdadeira oração. Em segundo lugar, o que é orar com o Espírito. Em terceiro lugar, o que é orar com o Espírito e com o entendimento. E finalmente, faz uma breve conclusão com uma valiosa aplicação dos ensinos contidos no discurso deste tratado.

O bom senso nos diz que se queremos aprender como fazer algo bem feito, temos que aprender com alguém que faz bem feito; se queremos aprender boas coisas devemos procurar bons mestres e bons modelos nos quais devemos nos espelhar. E não pode haver melhor mestre ou modelo ao qual devamos seguir senão o sempre Bendito Jesus Cristo, Ele mesmo. Aquele cuja própria vida – disse Henry Scougal – foi uma espécie de oração, um constante curso de comunhão com Deus.[4] Em Cristo recebemos tanto sábia instrução quanto um modelo de vida perfeita de um homem entendido e experimentado na sagrada arte da oração ao Pai que está nos céus.

Sigamos as pisadas do Verdadeiro Homem de Oração (1 Pedro 2:21).

Não escrevo estas palavras como quem tem autoridade de mestre, mas como um conservo que exorta outro servo do mesmo Senhor.

Que o mesmo Senhor Jesus Cristo, centro destas palavras, aplique o que dEle há neste e-book, com poder, pelo Seu Santo Espírito de graça e de súplicas, nos corações de Seus escolhidos (Zacarias 12:10). Para glória de Deus Pai.

Amém e amém!

 

William Teixeira,

30 de novembro de 2013.

 


 

Um Tratado Sobre Oração

Por John Bunyan

A oração é uma ordenança de Deus para o uso tanto público como privado: Mais ainda, é uma ordenança que coloca aqueles que têm o espírito de súplica em estreita relação com Ele, e também possui efeitos tão notáveis que alcançam grandes coisas de Deus, tanto para uma pessoa que ora, como para aqueles por quem ela ora. Abre, por assim dizer, o coração de Deus, e, através dela, a alma mesmo quando vazia, é preenchida. Através da oração o Cristão também pode abrir seu coração a Deus como o faria com um amigo, e obter um renovado testemunho de Sua amizade. Muitas palavras poderiam ser utilizadas aqui para distinguir entre oração pública e privada, assim como entre a do coração e a dos lábios. Também poderia dizer algo para fazer a diferença entre os dons e graças na oração, mas, deixando este método de lado, desta vez me ocuparei somente em mostrar a alma da oração, sem a qual toda elevação de mãos, olhos ou vozes seria completamente desprovida de propósito.

O método que me proponho a seguir nesta ocasião será:

1. Mostrar qual é a verdadeira Oração.

2. Mostrar o que é orar com o Espírito.

3. O que é orar com o Espírito e com o entendimento.

4. E finalmente, fazer uma breve conclusão do tratado.

 

***

 

I. O QUE É ORAÇÃO

A oração é o derramar de modo sincero, consciente e amoroso o coração ou a alma diante de Deus, por meio de Cristo, no poder e ajuda do Espírito Santo, buscando as coisas que Deus prometeu, ou que estão em conformidade com a Sua Palavra, para o bem da igreja, com fiel submissão à Sua vontade.

Esta descrição contém, portanto, sete pontos. Orar é derramar seu coração ou a alma:

 

1. De modo sincero;

2. De modo consciente;

3. De modo afetuoso, derramando a alma diante de Deus, por meio de Cristo;

4. No poder ou ajuda do Espírito Santo;
5. Buscando as coisas que Deus prometeu, ou que estão que estão em conformidade com a Sua Palavra;
6. Para o bem da igreja;
7. Com submissão fiel à vontade de Deus.

 

 

1. Quanto ao primeiro ponto: É derramar de modo sincero a alma diante de Deus. A sinceridade é uma graça que faz parte de todas as demais que Deus nos concede, e todas as atividades do Cristão são influenciadas por ela, caso contrário, Deus não as olharia. Isso acontece na oração, como particularmente disse Davi, falando sobre o assunto: “A ele clamei com a minha boca, e ele foi exaltado pela minha língua. Se eu atender à iniquidade no meu coração, o Senhor não me ouvirá” (Salmos 66:17-18).

A sinceridade é parte da oração, porque sem ela Deus não a considera como tal: “E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração” (Jeremias 29:13). A falta de sinceridade fez Jeová rejeitar as orações que nos fala em Oséias 7:14, onde diz: “E não clamaram a mim com seu coração” (isto é, em sinceridade), “mas uivam nas suas camas”. Mas oram para dissimular, para exibir-se hipocritamente, para serem vistos pelos homens e aplaudidos por eles. A sinceridade é o que Cristo elogiou em Natanael, quando ele estava debaixo da figueira: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo”. Provavelmente este bom homem havia estado derramando a sua alma a Deus em oração debaixo da figueira, fazendo-o com um espírito sincero e determinado diante do Senhor. A oração que contém esse elemento como um de seus principais ingredientes, é a oração que Deus escuta. Assim, vemos que “a oração do justo é o seu prazer” (Provérbios 15:8). Por que a sinceridade deve ser um dos elementos essenciais da oração que Deus aceita? Porque a sinceridade induz a alma a abrir o coração perante Deus com toda simplicidade para apresentar o caso claramente, de forma inequívoca, reconhecer a culpa sem falsidade, a clamar a Deus desde o mais profundo de seu coração, sem palavras vazias e artificiais.

“Bem ouvi eu que Efraim se queixava, dizendo: Castigaste-me e fui castigado, como novilho ainda não domado…” [Jeremias 31:18a]. A sinceridade é a mesma quando é silenciada em um canto ou quando ela se apresenta para o mundo. Não sabe levar duas máscaras, uma para aparecer, diante dos homens e outra para breves momentos, passados em solidão. Ela se oferece ao olho perscrutador de Deus, e anela se ocupar no dever da oração. Não possui apreço pelo esforço dos lábios, pois sabe que o que Deus vê é o coração, de onde brota, para ver se a oração é acompanhada pela sinceridade.

2. É derramar de um modo sincero e consciente o coração ou alma. Não se trata, como muitos pensam, de algumas expressões balbuciantes, de uma conversa lisonjeira, senão de um movimento consciente do coração. A oração contém um elemento de múltipla e genuína sensibilidade: algumas vezes para o peso que representa o pecado, outras a ação de graças pelas misericórdias recebidas, outras para a vontade de Deus a conceder Sua misericórdia, etc.

(a) A consciência da necessidade de misericórdia, por causa do perigo do pecado. A alma, digo, passa por uma experiência na qual suspira, geme, e o pecado a entristece, pois a verdadeira oração, da mesma forma que o sangue brota da carne quando é aprisionada por cadeias de ferro, expressa balbuciante o que procede do coração quando ela está sobrecarregada com dor e amargura. Davi grita, clama, chora, desmaia em seu coração, seus olhos lhe falham, se secam, etc. Ezequias lamentou-se queixosamente como uma pomba; Efraim se lamenta; Pedro chorou amargamente; Cristo experimentou o que é “grande clamor e lágrimas”; e tudo isso por estar ciente da justiça de Deus, da culpa do pecado, das dores do inferno e da destruição. “Os cordéis da morte me cercaram, e angústias do inferno se apoderaram de mim; encontrei aperto e tristeza. Então invoquei o nome do Senhor” (Salmos 116:3-4). E em outro lugar: “A minha mão se estendeu de noite” (Salmo 77:2). E também: “Estou encurvado, estou muito abatido, ando lamentando todo o dia” (Salmos 38:6). Em todos estes exemplos, e muitíssimos outros que poderiam ser citados, pode ser visto que a oração envolve uma profunda consciência motivada, principalmente, pela experiência do pecado.

(b) Às vezes alguém é gratamente consciente da misericórdia que recebe; misericórdia que alenta, conforta, fortalece, anima, ilumina, etc. Assim, vemos como Davi derrama a sua alma para abençoar, louvar e magnificar o grande Deus por Sua bondade para com seres tão pobre, vis e miseráveis: “Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios. Ele é o que perdoa todas as tuas iniquidades, que sara todas as tuas enfermidades que redime a tua vida da perdição; que te coroa de benignidade e de misericórdia, que farta a tua boca de bens, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia” (Salmos 103:1-5). E assim, a oração dos santos converte-se, às vezes, em louvor e ações de graças, mas nem por isto deixa de ser oração. Este é um mistério: o povo de Deus ora com seus louvores, como está escrito: “Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças” (Filipenses 4:6). A ação de graças oferecida com plena consciência é uma poderosa oração aos olhos de Deus, que prevalece diante dEle de modo inefável.

(c) Na oração, a alma se expressa, por vezes, como já sabendo as bênçãos que há de receber, e isso faz com que o coração se inflame: “Pois tu, Senhor dos Exércitos”, diz Davi, “Deus de Israel, revelaste aos ouvidos de teu servo, dizendo: Edificar-te-ei uma casa. Portanto o teu servo se animou para fazer-te esta oração” (2 Samuel 7:27). Esta confiança é que moveu Jacó, Davi, Daniel e outros, à experiência prévia das misericórdias que receberiam. Sem transes nem êxtase, sem balbuciar de maneira néscia e vazia algumas palavras escritas em um papel, mas com o poder, com fervor e sem cessar estes homens apresentaram gemendo sua condição diante de Deus, experimentando, como eu disse, as suas necessidades, sua miséria e confiando em Seus propósitos de misericórdia.

Além disso, orar é derramar o seu coração e alma. Há na oração um ato em que o íntimo se revela, em que o coração se rende a Deus, que a alma se derrama afetuosamente em forma de petições, suspiros e gemidos: “Senhor, diante de ti está todo o meu desejo — diz Davi no Salmo 38:9 — e o meu gemido não te é oculto”. E também: “A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus? Quando me lembro disto, dentro de mim derramo a minha alma” (Salmo 42:2-4). Note que diz: “Derramo minha alma”, um termo que significa que na oração a própria vida assim como todas as nossas forças, voam para Deus. Como diz em outro lugar: “Confiai nele, ó povo, em todos os tempos; derramai perante ele o vosso coração” (Salmos 62:8). Esta é a oração em que tem sido dada a promessa de libertação para a pobre criatura cativa no cativeiro. “Então dali buscarás ao Senhor teu Deus, e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma” (Deuteronômio 4:29).

Continuemos: Orar é derramar o coração e alma a Deus. Isso também mostra a excelência do espírito de oração. É para a presença do grande Deus onde a oração se retira: “Quando virei e comparecei diante de Deus”. A alma que realmente ora assim, vê a vaidade de todas as coisas debaixo do céu; vê que só em Deus há descanso e satisfação para ela […] Davi diz: “Em ti, SENHOR, confio; nunca seja eu confundido. Livra-me na tua justiça, e faze-me escapar; inclina os teus ouvidos para mim, e salva-me. Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza. Livra-me, meu Deus, das mãos do ímpio, das mãos do homem injusto e cruel. Pois tu és a minha esperança, Senhor DEUS; tu és a minha confiança desde a minha mocidade” (Salmo 71:1-5). Muitos falam de Deus com discurseira, mas a verdadeira oração faz dEle sua esperança, seu auxílio, e seu tudo. A verdadeira oração não vê nada de substancial ou de valor, exceto Deus. E isso ocorre (como eu disse antes), de modo sincero, consciente e afetuoso.

Seguiremos dizendo que a oração é derramar o coração e a alma de modo sincero, consciente e afetuoso através de Cristo. Faz-se necessário acrescentar que é através de Cristo. Caso contrário, cabe duvidar se é oração, mesmo que se empregue muita pompa e eloquência.

Cristo é o caminho pelo qual a alma tem acesso a Deus, e sem o qual é impossível que um único desejo chegue aos ouvidos do Senhor dos Exércitos: “Se pedirdes alguma coisa em Meu Nome, tudo o que pedirdes ao Pai em Meu Nome, será feito”. Esta foi a maneira que Daniel orou pelo povo de Deus, em nome de Cristo: “Agora, pois, ó Deus nosso, ouve a oração do teu servo, e as suas súplicas, e sobre o teu santuário assolado faze resplandecer o teu rosto, por amor do Senhor” (Daniel 9:17). E o mesmo Davi: “Por amor do teu nome (ou seja, por amor do Teu Cristo), Senhor, perdoa a minha iniquidade, pois é grande” (Salmo 25:11). Agora, isso não quer dizer que todos os que proferem o nome de Cristo em suas orações estão realmente orando em Seu nome. O achegar-se a Deus através de Cristo é a parte mais difícil da oração. O homem pode mais facilmente experimentar Suas obras, e até mesmo desejar sinceramente Sua misericórdia, do que pode ir a Deus através de Cristo. Aquele que vem a Deus através de Cristo deve conhecê-lO primeiramente: pois aquele que se achega a Deus deve crer que Ele existe. E também o que se aproxima de Deus deve conhecer a Cristo “rogo-te que me faças saber o teu caminho”, diz Moisés, “e conhecer-Te-ei” (Êxodo 33:13).

Somente o Pai pode revelar a este Cristo. E vir por meio de Cristo é um poder de Deus que é dado à alma para abrigar-se na sombra do Senhor Jesus, como aquele que se abriga em um refúgio. Por isso, Davi chama Cristo, muitas vezes de seu escudo, torre, fortaleza, rocha de confiança, etc. E dá-Lhe esses nomes, não só porque Ele venceu seus inimigos, mas porque achou favor junto a Deus Pai. Para Abraão foi dito: “Não temas, Abrão, eu sou o teu escudo”, etc. (Gênesis 15:1). Então, quem se aproxima de Deus por meio de Cristo deve ter fé, por meio da qual é revestido por Ele, e Ele aparece diante de Deus. Pois bem, aquele que tem fé é nascido de Deus, nascido de novo, e, portanto, torna-se um de Seus filhos, em virtude disto está unido a Cristo e feito um membro Seu. Por conseguinte, uma vez que foi feito um membro de Cristo, tem acesso a Deus. Digo membro de Cristo, pela maneira como Deus o considera como parte de Seu Filho, como parte de Seu corpo, de Sua carne e de Seus ossos, unidos a Ele pela eleição, pela conversão, pela iluminação. Deus coloca o Espírito no coração deste pobre homem, de modo que agora se achega a Deus em virtude dos méritos de Cristo, em virtude de Seu sangue, Sua justiça, Sua vitória, Sua intercessão. E este está perante Ele, sendo aceito em Seu Filho amado. Sendo assim, esta pobre criatura torna-se membro do Senhor Jesus, e, portanto, tem acesso ao trono de Deus, em virtude desta união, uma vez que o Espírito Santo também está nele, habilitando-o a derramar sua alma diante de Deus e a ser ouvido.

4. Orar é derramar o coração e alma de modo sincero, consciente e afetuoso diante Deus por meio de Cristo, no poder e ajuda do Espírito. Essas coisas dependem de tal modo umas das outras, que é impossível que haja oração sem que todas elas cooperem. Por mais excelente que seja o nosso discurso, Deus rejeita toda súplica que não possua estas características. Se não se derrama o coração sincera, consciente e afetuosamente diante dEle, e isso por meio de Cristo, não se faz outra coisa senão um mero esforço de lábios, o que está longe de ser agradável aos ouvidos de Deus. Assim também, se não é no poder e ajuda do Espírito, é como o fogo estranho que ofereceram os filhos de Arão (Levítico 10:1). Porém disto falarei mais largamente mais adiante. Entretanto, concluímos que aquilo que não se pede por meio dos ensinamentos e ajuda do Espírito não pode estar de acordo com a vontade de Deus.

5. Orar consiste em derramar o coração e alma de maneira sincera, consciente e afetuosa diante Deus por meio de Cristo, no poder e ajuda do Espírito, pedindo o que Ele prometeu, e que está de acordo com a Sua Palavra. A oração é oração, quando está dentro do âmbito e do propósito da Palavra de Deus, pois quando a petição está em desacordo com o Livro, é uma blasfêmia, ou pelo menos, “conversas vãs”. Por isto Davi, em sua oração, não apartava seus olhos da Palavra de Deus: “A minha alma está pegada ao pó; vivifica-me segundo a Tua palavra” (Salmo 119:25). E também: “Lembra-te da palavra dada ao teu servo, na qual me fizeste esperar” (Salmo 119:49). Certamente o Espírito Santo não vivifica nem move diretamente o coração do Cristão sem a Palavra, mas por, com e através dela, trazendo-a ao coração, e abrindo este, por meio do que o homem é impulsionado a se achegar ao Senhor, e contar-Lhe a sua condição, e também a argumentar e suplicar conforme a Sua palavra. Assim ocorreu no caso de Daniel, aquele poderoso profeta do Senhor. Compreendendo pelos livros que o cativeiro dos filhos de Israel estava chegando ao fim, ora a Deus de acordo com a Palavra: “Eu, Daniel, entendi pelos livros (os escritos de Jeremias) que o número dos anos, de que falara o Senhor ao profeta Jeremias, em que haviam de cumprir-se as desolações de Jerusalém, era de setenta anos. E eu dirigi o meu rosto ao Senhor Deus, para o buscar com oração e súplicas, com jejum, e saco e cinza” (Daniel 9:2-3). Por todas estas razões, o Espírito é o ajudador e guia da alma, quando esta ora de acordo com a vontade de Deus, é o mesmo Espírito que a governa segundo a Palavra de Deus e Sua promessa. Portanto, o próprio nosso Senhor Jesus foi retido em uma ocasião, como se sua vida dependesse disso: “Posso, agora, orar a meu Pai, e Ele me daria mais de doze legiões de anjos, mas como se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?”. Como dizendo: Se houvesse tão somente uma palavra sobre Ele nas Escrituras, logo estaria longe das mãos dos meus inimigos, os anjos me ajudariam. A Escritura não justifica esse tipo de oração. Devemos orar de acordo com a Palavra e com a promessa. O Espírito levará através da Palavra, tanto na maneira como no tema da oração. “Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento” (1 Coríntios 14:15). Mas não há entendimento sem a Palavra; pois sem ela, que sabedoria há?

6. Para o bem da Igreja. Essa cláusula abrange tudo o que tende para a glória de Deus, o louvor de Cristo, ou o proveito de Seu povo; pois Deus, Cristo e Seu povo estão unidos de tal maneira, que se orarmos para o bem de uma, a saber, a igreja, se ora necessariamente pela glória de Deus e pelo louvor de Cristo. Porque, assim como Cristo está no Pai, os santos estão em Cristo, e aquele que toca nos santos, toca na menina dos olhos de Deus. Orai, pois, pela paz de Jerusalém e orareis por tudo o que deveis, Jerusalém não terá jamais paz perfeita até estar no céu, e não há nada que Cristo deseja mais do que tê-la ali, no lugar que Deus, por meio de Cristo, lha deu. Assim, pois, o que ora pela paz e pelo bem de Sião, ou a igreja, pede em oração o que Cristo comprou com Seu sangue e o que o Pai Lhe deu.

Pois bem, o que ora pedindo isto, tem de fazê-lo pedindo a abundância da graça para a igreja; ajuda contra todas as tentações; pedindo que Deus não permita que nada a aflija demasiado e arduamente, que todas as coisas cooperem para o seu bem, que Ele lhes guarde irrepreensíveis e sinceros, para Sua glória, filhos sem culpa em meio a uma geração maligna e perversa. Esta é a essência da oração de Cristo em João 17. E todas as orações de Paulo seguiam este curso, como nos mostra o texto bíblico: “E peço isto: que o vosso amor cresça mais e mais em ciência e em todo o conhecimento, para que aproveis as coisas excelentes, para que sejais sinceros, e sem escândalo algum até ao dia de Cristo; cheios dos frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus” (Filipenses 1:9-11). Como vocês veem, é uma frase curta, mas bela e de bons desejos para a igreja, do começo ao fim, para que estejam firmes e perseverem, manifestando-se na melhor disposição espiritual, ou seja irrepreensivelmente, com sinceridade e sem ofensa até o dia de Cristo, quaisquer que sejam as tentações ou perseguições a que vocês forem submetidos.

7. A oração se submete à vontade de Deus e diz, assim como Cristo ensinou: “Seja feita a Tua vontade”. Por meio da qual, o povo de Deus, com toda a humildade, há de colocar-se, as suas orações e tudo que tem, aos pés de seu Deus, para que Ele possa dispor deles segundo melhor Lhe agrade em Sua sabedoria celestial. E, sem dúvida, Ele responderá ao desejo de Seu povo da maneira mais conveniente para eles e para a Sua própria glória. Por conseguinte, quando os santos oram submissos à vontade de Deus, não significa que eles devem colocar em dúvida o Seu amor e bondade para com eles, mas que, devido nem sempre serem igualmente prudentes, circunstância que às vezes Satanás se aproveita para lhes tentar a orar por aquilo que, se alcançado, não redundaria em glória de Deus e nem no bem de Seu povo, temos esta confiança nEle, que se pedirmos alguma coisa segundo a Sua vontade, Ele nos ouve. E, se sabemos que Ele nos ouve em tudo o que pedimos, sabemos que obtemos as petições que Lhe houvermos pedido, ou seja, pedindo-Lhe no espírito de graça e de súplicas. Mas, como eu disse antes, a petição que não for apresentada em e por meio do Espírito, não será atendida, por ser alheia à vontade de Deus, pois somente o Espírito a conhece, e, portanto, é o único que sabe como orar em conformidade: “Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus” (1 Coríntios 2:11). Mais adiante voltaremos a este ponto.

 


[1] PINK, A. W.  Oração Particular. Disponível em: <https://oestandartedecristo.com/?p=3191>. Acesso em: 02 jan 2014.

[2] LLOYD-JONES, David Martin. Como está sua vida de oração? Disponível em: <http://www.bomcaminho.com/mlj002.htm>. Acesso em: 30 nov 2013.

[3] ALLEINE, Joseph. Um guia seguro para o céu. São Paulo: PES, 2002. p. 163.

[4] SCOUGAL, Henry. A vida de Deus na alma do homem. São Paulo: PES, 2007. p. 54.

 

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