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A Seriedade Exigida No Púlpito Evangélico, por Abraham Booth

 [Excerto de Um Ensaio sobre o Reino de Cristo, por Abraham Booth]

Alguns, de diferentes comunhões, têm agido deliberadamente como se o trabalho do pregador fosse um mero julgamento de habilidade, e como se um púlpito fosse o palco de um arlequim. Para exibir a fertilidade de sua invenção, eles selecionaram por textos meros pedaços de linguagem da escritura; o que, longe de conter proposições completas, não têm, por sua perversão, transmitido uma única ideia. Sobre isso eles discursam enquanto a multidão ignorante tem estado muito surpresa de que o pregador pudesse encontrar tanto onde as capacidades comuns nada perceberam. Às vezes, estes homens geniais escolherão passagens das Escrituras expressivas de fatos históricos simples que não têm ligação com a grande obra da salvação por meio de Jesus Cristo, e as tratarão (não declaradamente por meio de acomodação, pois, então, isso poderia ser evidenciado) como se fossem alegorias sagradas. Tais fatos históricos sendo espiritualizados, como eles gostam de chamar isto, doutrinas, privilégios e deveres em abundância, são facilmente derivados dos mesmos.

Não, tão engenhosos são os pregadores deste desvio, que não é uma questão difícil para eles encontrarem uma grande parte de seu credo em quase todo o texto que eles tomam. Assim, eles alegorizam o senso comum em absurda piedade. Isso pode, talvez, ser muito descarado, embora certamente se adequará à vaidade de tais pregadores, se eles frequentemente anunciarem aos seus ouvintes o monossílabo pronominal eu; e há duas passagens da Escritura Sagrada onde isso ocorre na forma mais contrária. A primeira comporia um texto admirável; a última, uma nobre conclusão; e elas são as seguintes: “Que homem eu sou — Não é esta a grande babilônia que eu edifiquei”1. Outros, e muitas vezes as mesmas pessoas, utilizam frequentemente os gestos do teatro, e a linguagem de um charlatão, como se seus negócios fossem divertir, entreter e fazer seus ouvintes rirem. Atitudes extravagantes e expressões típicas, histórias ociosas e símiles muito ridículos aparecem em abundância, e constituem grande parte do entretenimento fornecido por esses personagens. Mas em que estado as consciências daqueles pregadores estão, os quais podem deliberada e com premeditadamente agir dessa maneira!? Ou, o que devemos pensar de seus pedidos por assistência Divina, na abordagem das pessoas, quando eles pretendem, assim, tratá-los!? Eu chamei isso de entretenimento e, certamente, eles próprios não o consideram em uma luz religiosa. Pois, pode qualquer homem que não é insano deliberadamente adotar medidas deste tipo, quando, na verdade, visam produzir ou promover um temperamento devocional e celestial nos corações de seus ouvintes? No entanto, esse é o fim geral da pregação. Ou pode o pregador ter alguma devoção, enquanto mostra os ares de um charlatão; e quando, se a maioria de sua audiência não tiver mais decência do que ele, haveria uma explosão de risos em toda a assembleia? Seja o que for que esses declamadores pensem, onde não há solenidade, não há nenhuma devoção, e, podemos nos aventurarmos a acrescentar que uma pessoa habitualmente destituída de devoção em seu próprio coração, enquanto finge ensinar aos outros a doutrina de Cristo, é um miserável caráter à vista de Deus e tem razões para tremer. Tal homem não serve ao nosso Senhor Jesus Cristo, mas aos seus próprios interesses, de uma forma ou de outra. Ele pode desejar a popularidade e, talvez, pode obtê-la da multidão ignorante; mas as pessoas de bom senso e de piedade o considerarão como desonrando o seu ofício, como afrontando seus entendimentos e como insultando a majestade daquela presença Divina em que ele está. Pois, onde, sobre a terra, devemos esperar solenidade, se não no púlpito? Ali, um homem deve ser sério e solene como a morte.

O Sr. Claude diz: “Nunca escolha textos como os que não têm um sentido completo; pois apenas as pessoas impertinentes e tolas tentarão pregar a partir de uma ou duas palavras, que nada significam”. Ensaio Sobre a Composição de um Sermão, Vol. 1, p. 3.

Talvez possa ser dito: “Esse tipo de frivolidades tem seu uso. É um meio de excitar a curiosidade e de atrair a muitos para ouvir o Evangelho, os quais, de outro modo, não teriam a menor inclinação de fazê-lo”. Tal coisa, presumo, é o principal motivo pelo qual os pregadores deste tipo de esforço justificam-se no tribunal de suas próprias consciências. Em resposta a isso, uma repetição daquele dito capital, o Meu reino não é deste mundo, pode ser suficiente; pois, esta deve ser uma causa miserável, mesmo de um tipo secular, a que precisa de bufonaria para apoiá-la. Brincar no serviço de Deus é ser profano. É, portanto, uma espécie ímpia de frivolidade. Vamos fazer o mal para que venha o bem? Por meio da interferência da Providência e da graça soberana de Deus diversos exemplos de enorme impiedade provocaram um bem maior para a humanidade. Desses, temos evidência incontestável na venda de José por seus irmãos invejosos. Temos um exemplo ainda mais impressionante na morte de Cristo, através da traição de Judas e da malícia dos judeus. A perseguição tem sido frequentemente uma ocasião de pregar o Evangelho; contudo, poucos, eu tomo isso por garantido, têm perseguido para esse fim ou tentado justificar a prática sobre esse princípio. Se o comportamento ridículo aqui censurado fosse lícito, haveria razão para pensar que a causa de Cristo, e os interesses do arlequim são quase aliados; porque o mesmo tipo de meios seria adaptado para promovê-los

Os Serafins, no entanto, na visão de Isaías, e os Apóstolos de Cristo, parecem ter tido uma visão muito diferente do caso. Os primeiros (que parecem ser um emblema dos ministros apostólicos2) são apresentados, à medida que realizam o serviço de seu Sublime Soberano, com admiração profunda. Impressionados com a majestade de Sua aparência e atingidos pela autoridade de Seus comandos eles adoram e obedecem com toda a humildade, e com toda a solenidade. Conformemente a isso, estes últimos anunciam como a lei Divina, que aqueles que desejam realizar culto aceitável, devem fazê-lo com reverência e temor a Deus. Esta lei da devoção, eles nos informam ainda mais, é fundada na natureza das coisas; como parece, pelo motivo atribuído para fazer cumprir o preceito, pois o nosso Deus é um fogo consumidor. Tal é o Deus do Cristão, no que diz respeito à Sua pureza, Seu zelo e Sua justiça.3

Em conformidade a esta ideia sobre o Sublime Ser a Quem cada pregador professa servir, era a conduta de Paulo quando pregava o Evangelho. Pois, em oposição a alguns que lidavam com a Palavra de Deus, enganosamente, para entreter os carnais e ganhar suas afeições, ele trabalhou, pela manifestação da verdade, para recomendar-se à consciência de todo homem como que diante de Deus. Verdade, consciência e Deus! Que pensamentos sagrados e solenes! No entanto, Paulo, como um pregador, habitualmente agiu sob a influência destes. Aquela verdade evangélica poderia ser exibida, de modo que a consciência humana ficasse impressionada, e aquela vontade de Deus poderia ser realizada, fossem todos incluídos em Seu decreto. Quão alheias são estas particularidades a de cada coisa de uma natureza ridícula! Nem pode qualquer pessoa que se considera, ao pregar a Palavra, como tendo a verdade eterna como o tema de seu discurso, as consciências dos homens como os objetos de sua consideração, bem como o Deus onisciente por uma testemunha de sua conduta, ser de outra forma além do que solene; pois, tal pessoa falará, como sabendo que ele deve prestar contas. Ao ouvir um ministro que age no mesmo caráter e imita o exemplo de Paulo, somos levados a refletir sobre aquele antigo oráculo: “Serei santificado naqueles que se chegarem a mim”, para executar o serviço sagrado. Mas ao sentar-se sob as efusões de um púlpito fanfarrão, a fala de um tirano egípcio ocorre à lembrança: “Quem é o Senhor, cuja voz eu ouvirei…?”, ou que é o Seu culto, para que eu o trate com reverência?

Quando um sermão era esperado da parte de Pedro, por Cornélio e seus amigos, o centurião expressou-se assim: “Agora, pois, estamos todos presentes diante de Deus, para ouvir tudo quanto por Deus te é mandado” [Atos 10:33]. Estes gentios, como é manifesto, estavam traspassados com solenidade devota e cheios de santa expectativa. Não estavam reunidos para diversão carnal, mas para conhecerem e executarem a vontade de Deus, eles se consideravam como estando na presença Divina, e assim fez o seu professor inspirado. Este é um exemplo digno para nós seguirmos, quando convocados para pregar e ouvir a Palavra da Verdade.

Mas quão contrário a isso é aquele púlpito gracejador, que é o objeto de nossa censura!

Pois, isso converte o serviço solene de Deus (que metamorfose chocante!) em diversão carnal, a qual muitos, de fato, assistem com prazer, mas sem nenhuma devoção a mais do que se estivessem em um teatro.

Existe alguma razão para estar surpreendido que os homens sensatos, que já têm preconceitos contra o evangelho genuíno, devem entreter insatisfações com as verdades evangélicas incrementadas, quando encontram essas verdades confessadas e sua importância exclamada em voz alta por palhaços? Se, em vez de discurso são, que não pode ser condenado, eles se encontram com extravagância e absurdo, o que tu dirás? Existe alguma razão para se maravilhar que os infiéis, a partir daí, extraiam ocasião para ridicularizar a Escritura, como projetada para servir aos propósitos mais medíocres; ou que eles devem chamar desdenhosamente a pregação sacerdotal? Se aqueles que professarem amar o casaco do tolo, para o entretenimento de seus ouvintes, os Deístas reprimirão o riso? Se, quando o homem de Deus deve ser ouvido com toda a solenidade, advertindo os pecadores a fugirem da ira vindoura e instando com eles a se reconciliarem com Deus, uma farsa cômica aparece, jorrando sagacidade e provocando uma disposição aos risos, dirá o infiel: “O próprio pregador não crê que o ministério Cristão seja um comissionamento Divino, nem o seu exercício um serviço de devoção, antes ele pensa que este é conveniente para fins seculares e para fazer pretextos deste tipo”?

Entre todos os dispositivos da política carnal para o apoio e a expansão do reino de nosso Senhor, não há nenhum mais desprezível, e poucos mais detestáveis do que converter o púlpito em um palco de entretenimento. Dessa mente era um velho ministro Dissidente, quando ele disse: “De toda pregação no mundo eu odeio mais a que tem uma tendência a fazer os ouvintes rirem, ou que afeta as suas mentes com tanta leviandade, como os atores fazem, em vez de lhes influenciar a uma santa reverência ao nome de Deus. Nós devemos supor, por assim dizer, quando nos aproximamos dEle nas coisas santas, que se estamos vendo o trono de Deus, e os milhões de Seus gloriosos anjos ministradores, que sejamos admirados com Sua majestade, para que não profanemos o Seu serviço, e tomemos o Seu nome em vão”. A um arlequim do púlpito, podemos, portanto, aplicar as seguintes linhas:

“Se anjos estremecem diante de tal visão,
Mais impressionados com o sofrimento, ou maravilha, quem pode falar?”

 

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Notas:

[1] O Sr. G. Gregoey, quando censurando a conduta que é aqui reprovada, diz: “É perigoso em qualquer ocasião afastar-se da vereda simples do bom senso, e não há nenhuma tentativa de ingenuidade mui fácil quanto aquela que se achega aos limites da insensatez. Este é um dos artifícios medíocres do gênio estéril, a saber, surpreender o público com um texto que consiste em uma ou duas palavras. Tenho ouvido falar de uma pessoa desta descrição, que pregou a partir de Jeová Jiré, e outra, a partir do monossílabo, Mas. Estes são os dispositivos desprezíveis, e mais adaptados para o teatro móvel do charlatão do que ao púlpito, e só pode servir para cativar o mais vil e o mais ignorante dos símplices”. Sermões, Introdução. pp. 14,15, 18.

[2] Vid. Vitringam in loc.

[3] Hebreus 12:28-29; Deuteronômio 4:24; 9:3.