Cristo em Vós, a Esperança da Glória – Robert Murray M’Cheyne

“Aos quais Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória.” (Colossenses 1:27)

O evangelho é aqui descrito como “Cristo em vós, esperança da glória”. Existem dois sentidos distintos que podem ser inferidos a partir destas palavras, e eu não posso determinar positivamente qual é o verdadeiro. É possível que tanto um como outro sejam pretendidos. Vou falar de ambos.


I.
Cristo em vós, significa Cristo abraçado pela fé como a nossa justiça e força; e este é o fundamento seguro sobre o qual esperamos a “glória”. Este sentido é empregado em Efésios 3:17: “Para que Cristo habite pela fé nos vossos corações”. Quando o coração de um pecador é aberto pelo Espírito Santo, quando a beleza e a excelência do Salvador são mostradas a ele, o coração abraça interiormente a Cristo, unindo-se a Ele. Cada novo vislumbre de Cristo, renova na alma o seu ato interno de apegar-se ao Senhor Jesus. Cada reprovação, cada tentação, cada queda no pecado, todo o luto, faz com que a alma mais seriamente, com firmeza, abrace plenamente o Senhor Jesus: e assim, pela fé contínua, Cristo pode ser dito como habitando no coração; como em Efésios 3:17: “Para que Cristo habite pela fé nos vossos corações”. Cristo, assim, abraçado é a esperança da glória. É essa inabalável fé constante, este achegar-se a Cristo como sendo toda a nossa justiça que dá uma doce, calma e pacífica esperança cheia de glória. A alma que pode dizer: Cristo é meu; também pode dizer: a glória é minha; pois não precisamos de nada além de Cristo para nos abrigar no dia do julgamento. Vocês podem dizer que Cristo é em vós, a esperança da glória? Se vocês não têm Cristo, vocês não têm boa esperança da glória.

 

II. Cristo formado na alma pelo Espírito. Veja Gálatas 4:19. Cristo formado na alma também é a esperança da glória; e isso eu considero ser o pleno significado desse versículo. Então, João 15:4 “Estai em mim, e eu em vós”; João 17:23: “Eu neles, e tu em mim”; João 17:26: “e eu neles esteja”.

1. A mente de Cristo é formada na alma, 1 Coríntios 2:16: “Nós temos a mente de Cristo”. Pela palavra “mente” eu entendo os poderes de raciocínio do homem. Agora, cada crente tem a mente de Cristo formado nele, ele pensa como Cristo: “Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação” (2 Timóteo 1:7). Sendo esta a mesma mente do Senhor. Eu não quero dizer que um crente tem a mesma mente que tudo vê, o mesmo julgamento infalível a respeito de tudo assim como Cristo tem; mas a partir de Sua luz, ele percebe as coisas como Cristo o faz.

Ele vê o pecado como Cristo vê. Cristo vê o pecado como mau e amargo. Ele vê este como sendo imundo e abominável; seus prazeres como totalmente ilusórios. Ele o vê como muito perigoso. Ele vê a ligação inseparável entre o pecado e o sofrimento. O mesmo acontece com um crente.

Ele vê o Evangelho como Cristo o vê. Cristo vê a maravilhosa glória no Evangelho. O caminho da salvação que Ele mesmo trouxe à luz. Vê a mais completa e livre salvação para ele, aquilo que mais glorifica a Deus e traz felicidade para o homem. Assim faz o crente.

Ele vê o mundo como Cristo o vê. Cristo sabe o que há no homem. Ele olhou para este mundo como sendo uma vaidade em comparação com o sorriso de Seu Pai. O que há no mundo, suas riquezas, suas honras, seus prazeres foram como nada para Ele. Ele via estas coisas como passageiras. O mesmo acontece com o crente.

Ele vê o tempo como Cristo o viu. “Convém que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar” [João 9:4] “Eis que venho sem demora” [Apocalipse 3:11]. É assim que um crente olha para o tempo.

Ele vê a eternidade como Cristo faz. Cristo olhou para tudo à luz da eternidade. “Na casa de meu Pai há muitas moradas”. Tudo é precioso aos olhos de Cristo, apenas, uma vez que isso conduz à eternidade. Assim, com os crentes.

2. O coração de Cristo. Por “coração” quero dizer as afeições, esta parte de nós que ama ou odeia, confia ou teme. Temos o coração de Cristo formado em nós: “E porei dentro de vós o meu Espírito” [Ezequiel 36:27], “e eu neles esteja” [João 17:26], “as minhas palavras estiverem em vós” [João 15:7].

(1) O mesmo amor a Deus. O deleite intenso que Jesus tinha em Seu Pai. “Pai justo, o mundo não te conheceu; mas eu te conheci” [João 17:25], “Não estou só, porque o Pai está comigo” [João 16:32], “Graças te dou, ó Pai”, “Aba Pai”. “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” [Lucas 23:46]. Assim é com cada crente.

(2) A mesma aversão ao abandono de Deus. Salmo 22:1: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Versículo 15: “me puseste no pó da morte”. Salmo 88:7, “Sobre mim pesa o teu furor”; Salmo 102:10: “tu me levantaste e me arremessaste”. Assim, é com os filhos de Deus. Salmo 42:9: “Direi a Deus, minha rocha: Por que te esqueceste de mim?”.

(3) O mesmo amor aos santos. Salmo 16:3: “Mas aos santos que estão na terra, e aos ilustres em quem está todo o meu prazer”; João 13:1: “como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim”; João 15:13: “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos”; John 14:3: “outra vez, e vos levarei para mim mesmo”; Atos 4:4, “Saulo, Saulo, por que me persegues?”. Assim é com todos os verdadeiros crentes. Todo aquele que ama é nascido de Deus.

(4) Compaixão para com os pecadores. Esta foi a principal característica da personalidade de Cristo. Isso foi o que O trouxe do céu para morrer. Isso O fez chorar sobre Jerusalém, ansiando para reunir Seus filhos. Isso faz Ele adiar Sua vinda, não querendo que nenhum pereça (2 Pedro 3:9). Todos os que são de Cristo são como Ele neste ponto. O mesmo coração pulsa dentro deles.

(5) Ternura para com os despertados. “Não esmagará a cana quebrada” [Isaías 42:3; Mateus 12:20]. Oh, a ternura dos Seus lábios que diziam: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos” [Mateus 11:28]. Assim são todos os Cristãos.

3. A vida de Cristo. Eles vivem a maior parte de suas vidas no mundo como Cristo viveu. Apesar de terem muitas quedas, esfriamentos e etc., ainda assim o fluxo principal da sua vida é Cristo que vive neles. Gálatas 2:20: “Cristo vive em mim”; 2 Coríntios 6:16: “Neles habitarei, e entre eles andarei”.

Sendo censurados. 1 Pedro 2:23: “O qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava. Cristo sentiu profundamente a censura: “Afrontas me quebrantaram o coração” [Salmos 69:20]. Ainda assim, Ele não injuriou a ninguém, antes orou por eles. Assim são os crentes.

Ao fazer o bem. “O qual andou fazendo bem” [Atos 10:38]. Ele fez disto sua comida e bebida. Assim serão todos os que têm Cristo formado neles. Eles fazem o bem, e não se esquecem de compartilhar. Eles são os almoners1 do mundo. “E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister” (Atos 2:45)

Sendo separado dos pecadores. Cristo andou pelo meio dos pecadores de maneira impoluta. Como um feixe de luz que adentra em um calabouço sujo, ou como um rio que purifica e fertiliza, permanecendo em si mesmo imaculado, assim Cristo passou por este mundo; e assim fazer todos os seus próprios. Salmo101:4: “Não conhecerei o homem mau”.

Mas como Cristo formado em nós é a esperança da glória? (I) Não legalmente. Cristo na alma não é o nosso título de glória. Nós temos que ter uma justiça completa para este ser nosso título; mas Cristo na alma não está completo. A maioria é tristemente deficiente em muitas das principais características de Cristo. É Cristo em nós pela fé, que é o nosso título de glória. Cristo é nossa veste nupcial, o Senhor Justiça Nossa; isso, e isso somente, pode dar-nos confiança no dia do julgamento. (II), Contudo realmente é assim. (1) Esta é prova de que temos também crido em Cristo. Um homem pode saber que ele creu em Cristo, sem quaisquer evidências exteriores a si. “Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho” [1 João 5:10]. Mas se um homem creu os efeitos de sua fé logo serão vistos. Cristo será formado nele, e então ele terá provas duplas de que Cristo é seu. “Pois aquele em quem não há estas coisas é cego” [2 Pedro 1:9]. (2) Este é o cumprimento da glória. Um crente santo como se o céu já houvesse começado: “eis que o reino de Deus está entre vós” [Lucas 17:21]. Ele pode dizer: Agora eu sei que estarei em breve no céu, pois ele já está se iniciou em mim. Cristo vive em mim. Em breve estarei para sempre com o Senhor.

Aperfeiçoamento. 1. Você tem o título legal para a glória? Cristo habitando em você pela fé. Você já ouviu falar como aqueles que são iluminados por Deus abraçam a Cristo, e fazem dEle sua justiça continuamente. Você já fez isso? Você já está em Cristo? Este é o único título legal para a glória. Se você não tem isso, sua esperança é um sonho. 2. Você apresenta adequação para a glória? Cristo formado em vós. Será que Cristo vive em você, e se move em você? “Sem santidade ninguém verá o Senhor” [Hebreus 12:14].

 Dundee, 1843.


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P. S.: Ele escreveu no fim de suas notas após este sermão: “Uma noite muito doce e solene”.
[1] Almoner: é um capelão ou oficial da igreja que originalmente era o encarregado de distribuir dinheiro aos pobres e necessitados. (Wikipédia)

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♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título original: Christ In You the Hope of Glory
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por William Teixeira │ Revisão por Camila Almeida


Cristo, o Mediador da Aliança Eterna – Arthur Walkington Pink

“Ora, o Deus de paz, que pelo sangue da aliança eterna tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus Cristo, grande pastor das ovelhas”. Nós devemos agora considerar cuidadosamente o ato especial de Deus em direção ao nosso Salvador que o apóstolo Paulo aqui utiliza como o seu apelo para a petição que se segue. No grande mistério da redenção, Deus o Pai sustenta o ofício de Juiz supremo (Hebreus 12:23). Foi Ele quem colocou sobre o Fiador deles, os pecados de Seu povo. Foi Ele quem solicitou a espada da vingança para ferir o Pastor (Zacarias 13:7). Foi Ele quem rica e altamente O recompensou e O honrou (Filipenses 2:9). “Saiba pois com certeza toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (Atos 2:36; cf. 10:36). Assim é no texto agora diante de nós: a restauração de Cristo a partir do túmulo é aqui vista não como um ato de poder Divino, mas de justiça Divina. Que Deus é aqui visto exercendo a Sua autoridade judicial resulta do termo utilizado. Nós sempre seremos perdedores se, em nosso descuido, deixarmos de observar e devidamente pesar cada variação individual na linguagem da Sagrada Escritura. Nosso texto não diz que Deus “ressuscitou”, mas sim que Ele “tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus”. Isso coloca diante de nós um aspecto contundentemente diferente, contudo ainda mais abençoado da verdade, a saber, a libertação legal do corpo de nosso Fiador da prisão da morte.

 

A Ressurreição de Cristo, Parte de um Processo Legal

Havia um processo legal formal contra Cristo. Jeová depositou sobre Ele todas as iniquidades dos Seus eleitos, e, assim, Ele foi declarado culpado aos olhos da Lei Divina. Assim, Ele foi justamente condenado pela justiça Divina. Em conformidade com isto, Ele foi lançado na prisão. Deus irou-se contra Ele como o Portador do Pecado. Aprouve ao Senhor esmagá-lO, exigir a plena satisfação dEle. Mas a dívida sendo paga, a penalidade da Lei tendo sido infligida, satisfez a justiça e Deus foi apaziguado. Em consequência, Deus o Pai tornou-se “o Deus da paz”, tanto em relação a Cristo quanto para com aqueles a quem Ele representava (Efésios 2:15-17). A ira de Deus sendo apaziguada e Sua Lei magnificada e honrada (Isaías 42:21), Ele, então, exonerou o Fiador, O libertou e O justificou (Isaías 50:8, 1 Timóteo 3:16). Assim, isso foi predito: “Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo da sua vida?” (Isaías 53:8). Em sua excelentíssima exposição de Isaías 53 – praticamente inalcançável hoje – James Durham (1682) mostrou conclusivamente que o versículo 8 descreveu a exaltação de Cristo depois de Sua humilhação. Ele demonstrou que aqui o termo “geração” [versão King James] faz referência à Sua duração ou continuidade (como o faz em Josué 22:27). “Como a Sua humilhação foi baixa, assim a Sua exaltação foi inefável: ela não pode ser declarada, nem adequadamente concebida, sendo a sua continuidade para sempre”.

Resumindo-o em poucas palavras, Durham ofereceu o seguinte como a sua análise de Isaías 53:8.

1. Algo é aqui afirmado sobre Cristo: “ele foi tirado (ou “elevado”) da opressão e do juízo”. 2. Algo é sugerido, que não pode ser expresso: “quem contará o tempo da sua vida [continuação]?” 3. A razão é dada em referência a ambos: “Porquanto foi cortado da terra dos viventes”.

A cláusula “Da opressão e do juízo foi tirado” não se limita a chamar a atenção para o fato de que Cristo foi preso, mantido sob custódia, e levado a julgamento perante o Sinédrio e os magistrados civis. Pelo contrário, ela nos lembra principalmente que aquela severa humilhação e sofrimento em que Cristo foi trazido ocorreu em consideração à Sua acusação perante o tribunal de Deus como o Marido e Fiador legal de Seu povo (Suas ovelhas, João 10:14-15), a penalidade devida por aqueles que pecaram contra Deus, Ele estava legalmente obrigado a pagar (já que Ele havia concordado voluntariamente em se tornar o Marido deles). “Pela transgressão do meu povo ele foi atingido” (Isaías 53:8). Os invejosos líderes Judeus (e seus seguidores), que com mãos ímpias crucificaram e mataram o Príncipe da vida (Atos 2:23, 3:15), não tinham a menor consciência das grandes transações entre o Pai e o Filho, agora sendo legalmente aplicadas por Sua instrumentalidade. Eles estavam apenas prosseguindo em sua rebelião contra o Filho de Davi, o popularmente aclamado Rei de Israel (João 1:49; 12:13), de uma forma consistente com a preservação de seus próprios interesses egoístas como homens de poder, riqueza e prestígio entre os Judeus. No entanto, em sua alta traição contra o Senhor da glória, a quem eles não conheceram (1 Coríntios 2:8) eles executaram a ordem de Deus (Atos 2:23; 4:25-28; cf. Gênesis 50:19-20) ao trazer o Substituto designado para a justiça como se Ele fosse um criminoso comum.

A palavra “prisão” pode ser considerada mais amplamente por aqueles apertos e pressões de espírito que o Senhor Jesus resistiu ao sofrer a maldição da Lei, e o julgamento pela terrível sentença infligida sobre Ele.

Foi ao Seu juízo iminente que Cristo se referiu quando disse: “Importa, porém, que seja batizado com um certo batismo; e como me angustio até que venha a cumprir-se”! (Lucas 12:50). E são às dores e confinamento da prisão que Sua agonia no Jardim e Seu brado de angústia na Cruz devem ser atribuídos. Em última análise, o túmulo se tornou Sua prisão.

 

A Relevância da Libertação de Cristo a Partir da Prisão da Morte

A palavra hebraica laqach traduzida na cláusula “Da opressão e do juízo foi tirado”, às vezes significa libertar ou soltar, como um prisioneiro é liberado (veja Isaías 49:24-25; cf. Jeremias 37:17; 38:14; 39:14). A partir da opressão e juízo o Fiador foi retirado ou libertado, de modo que “a morte não tem mais domínio sobre ele” (Romanos 6:9). Cristo recebeu a sentença de absolvição Divina, assim como aquele que é julgado como tendo pagado a sua dívida é libertado pelo tribunal. Cristo não apenas recebeu a absolvição, mas foi efetivamente libertado da prisão, depois de ter pagado o último centavo exigido dEle. Embora Ele tenha sido levado para a opressão e juízo, quando as plenas exigências da justiça foram cumpridas, Ele não podia mais ser detido. O apóstolo Pedro expressou desta forma: “Ao qual Deus ressuscitou, soltas as ânsias [ou “cordas”] da morte, pois não era possível que fosse retido por ela” (Atos 2:24, parênteses meus). Matthew Henry declara: “Ele foi retirado da prisão da sepultura por uma ordem extraordinária do Céu; um anjo foi enviado com o propósito de remover a pedra e colocá-lO em liberdade, pois a sentença contra Ele fora revertida, e retirada”. Nesse sentido Thomas Manton insiste que a cláusula “quem contará o tempo da sua vida?” (Isaías 53:8) significa quem “contará a glória da Sua ressurreição, como as palavras anteriores contam a Sua humilhação, sofrimento e morte”?

Manton afirma com razão: “Enquanto Cristo esteve em estado de morte, Ele era efetivamente um prisioneiro, sob a prisão da vingança Divina; mas quando Ele ressuscitou, então o nosso Fiador saiu da prisão”. De uma forma mui útil, ele passa a mostrar que a força peculiar da frase “tornou a trazer dos mortos” é melhor explicada pelo honroso comportamento dos apóstolos, quando foram lançados ilegalmente na prisão. No dia seguinte, os magistrados mandaram quadrilheiros para a prisão, ordenando à sua guarda que os deixassem sair. Mas Paulo recusou ser “retirado secretamente” e ali permaneceu até que os próprios magistrados formalmente “os tirassem” (Atos 16:35-39). Assim foi com Cristo: Ele não saiu da prisão. Assim como Deus O havia “entregue” à morte (Romanos 8:32), assim Ele “tornou a trazer[-Lhe] dos mortos”. Diz Manton,

Era como se fosse uma absolvição daquelas nossas dívidas, as quais Ele se comprometeu a pagar: como Simeão foi liberado quando foram realizadas as condições, e quando José foi satisfeito com a visão de seu irmão, ele “trouxe-lhes fora a Simeão” (Gênesis 43:23).

Isso foi Deus, em Seu caráter oficial como o juiz sobre todos, que com justiça libertou o nosso Substituto. Apesar de que Cristo, como nosso Fiador, foi oficialmente culpado e, assim, condenado (Isaías 53:4-8), Ele era pessoalmente inocente e foi absolvido assim, por Sua ressurreição (Isaías 53:9-11; Hebreus 4:15, 7:26-28, 9:14; 1 Pedro 1:19). Ao trazer Seu Filho da sepultura, Deus estava dizendo que esse Jesus, o verdadeiro Messias, não morreu por Seus próprios pecados, mas pelos pecados de outros.

 

O Deus da Paz Trouxe Cristo dentre os Mortos

Agora, observemos brevemente que foi como o Deus da paz que o Pai agiu quando Ele “tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus Cristo”. A perfeita obediência e oblação expiatória de Cristo tinham satisfeito todos os requisitos da Lei, retiraram as iniquidades daqueles por quem a expiação foi oferecida, e aplacaram a Deus e O reconciliaram com eles. Enquanto o pecado permaneceu, não poderia haver paz; mas quando o pecado foi apagado pelo sangue do Cordeiro, Deus foi propiciado. Cristo tinha “feito a paz pelo sangue da sua cruz” (Colossenses 1:20), mas enquanto Ele continuou na sepultura não houve proclamação aberta da mesma. Foi por Seu trazer Cristo dentre os mortos que Deus fez saber ao universo que Seu sacrifício havia sido aceito. Por meio da ressurreição de Seu Filho, Deus o Pai declara publicamente que a inimizade havia acabado e a paz estabelecida. Ali estava a grande evidência e prova de que Deus fora apaziguado em direção ao Seu povo. Cristo tinha feito uma paz honrosa, de forma que Deus pudesse ser ao mesmo tempo “justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Romanos 3:26). Note também da relação que Cristo sustentou quando Deus O libertou dentre os mortos: não foi como uma pessoa privada, mas como a Cabeça federal de Seu povo que o Pai lidou com Ele, como “grande pastor das ovelhas”, de modo que Seu povo foi, então, legalmente liberto da prisão da morte com Ele (Efésios 2:5, 6).

 

As Petições de Cristo por Sua própria Libertação

É muito abençoado aprender com os Salmos – onde muita luz, não dada no Novo Testamento, é lançada sobre os exercícios do coração do Mediador – que Cristo suplicou a Deus pelo livramento do túmulo. No Salmo 88 (o tema profético deste é a paixão do Senhor Jesus) nós O encontramos dizendo: “Chegue a minha oração perante a tua face, inclina os teus ouvidos ao meu clamor; porque a minha alma está cheia de angústia, e a minha vida se aproxima da sepultura” (vv. 2-3). Desde que as transgressões de Seu povo foram imputadas a Ele, essas “angústias” foram as tristezas e as tribulações que Ele experimentou quando os salários que eram devido aos pecados de Seu povo foram infligidos e executados sobre Ele. Ele passou a exclamar a Deus: “Puseste-me no abismo mais profundo, em trevas e nas profundezas. Sobre mim pesa o teu furor; tu me afligiste com todas as tuas ondas” (vv. 6-7). Ali nos é concedida uma visão sobre o que o Salvador sentiu em Sua alma sob o golpe de Deus, como Ele suportou tudo o que estava contido na justa e santa maldição do Pai sobre o pecado. Ele não poderia ter sido levado a um estado inferior. Ele estava em total escuridão, o sol por algum tempo se recusou a brilhar sobre Ele, como Deus escondeu dEle o Seu rosto. Os sofrimentos da alma de Cristo foram o mesmo que “a segunda morte”. Ele sofreu a totalidade do que era para Ele, como o Deus-homem, o equivalente a uma eternidade no inferno.

O ferido Redentor passou a dizer: “Estou fechado, e não posso sair” (v. 8). Ninguém, senão o juiz podia legalmente libertá-lO. “Mostrarás, tu, maravilhas aos mortos, ou os mortos se levantarão e te louvarão?” (v. 10). Em sua notável exposição, S. E. Pierce declarou:

Estas questões contêm o argumento mais poderoso que o próprio Cristo poderia incitar diante do Pai por Si próprio, emergindo de Seu atual estado de sofrimento e de Sua ressurreição do poder da morte. “Porventura os mortos se levantarão e te louvarão?”. No entanto, em mim Tu mostrarás prodígios ao levantar meu corpo da sepultura, ou a salvação dos Teus eleitos não pode ser concluída, nem a Tua glória na mesma pode brilhar plenamente. Tuas maravilhas não podem ser declaradas; os mortos eleitos não podem subir novamente e louvar-Te, como devem, senão sobre o fundamento do meu Ser ressurreto.

“Eu, porém, Senhor, tenho clamado a ti” (v. 13). Que luz este Salmo lança sobre estas palavras do apóstolo a respeito de Cristo: “O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia” (Hebreus 5:7). Na linguagem profética do Salmo 2:8, Deus, o Pai diz ao Seu Filho: “Pede-me, e eu te darei os gentios por herança, e os fins da terra por tua possessão”. Da mesma forma, nosso Senhor primeiro clamou por Sua libertação da prisão do túmulo, e então o Pai “o trouxe”, em resposta ao Seu clamor. Eis como perfeitamente o Filho do homem está conformado com a nossa total dependência de Deus. Ele, também, embora Inocente, teve que orar por essas bênçãos que Deus já havia prometido a Ele!

 

Pelo Sangue da Aliança Eterna

Em último lugar, considere que o grande ato de Deus aqui citado é dito ser “pelo sangue da aliança eterna”. Quanto ao significado exato destas palavras não houve pequena confusão na mente dos diferentes escritores sobre esta Epístola; e enquanto uma prospecção completa desta interessante questão está realmente fora do escopo do presente artigo, no entanto, alguns dos mais eruditos de nossos leitores ficariam descontentes se deixássemos de fazer algumas observações sobre isso. Então, pedirei aos outros que gentilmente suportem-me enquanto eu lido com um detalhe um tanto quanto técnico. Uma leitura cuidadosa através da Epístola aos Hebreus mostra que a menção aqui é feita sobre “a aliança” (10:29), “uma melhor aliança” (8:6), “uma nova aliança” (8:8), e aqui à “aliança eterna”. Não poucos homens capazes concluíram que esta faça referência à mesma coisa por toda parte, mas eu não posso concordar com eles. É bastante claro em Hebreus 8:6-13 que a nova e melhor aliança feita com o Israel espiritual e Judá (isto é, a Igreja) está em oposição à primeira (v. 7) ou velha (v. 13) aliança feita com a nação de Israel no Sinai (que é o “Israel segundo a carne”). Em outras palavras, o contraste é entre o Judaísmo e o Cristianismo sob dois pactos ou economias diferentes, ao passo que “a aliança eterna” é a antítese desse pacto de obras feitas com Adão como a cabeça federal da raça humana.

Embora o pacto das obras foi o primeiro em manifestação, a aliança eterna, ou pacto da graça, foi o primeiro em ordem de origem. Em todas as coisas Cristo deve ter a preeminência (Colossenses 1:18), e, portanto, Deus entrou em pacto com Ele antes que Adão fosse criado. Esse pacto foi por diversas vezes designado como o “pacto da redenção” e como o “pacto da graça”. NEle Deus fez plenas disposições e provisões para a salvação de Seus eleitos. Essa aliança eterna tem sido administrada, sob diferentes economias, ao longo da história humana, as bênçãos da mesma foram concedidas a indivíduos favorecidos através de todas as eras. Sob a Antiga Aliança, ou o Judaísmo, os requisitos e as disposições da aliança eterna foram tipificados ou prenunciados particularmente por meio da lei moral e cerimonial; sob a Nova Aliança, ou o Cristianismo, seus requisitos e disposições estão estabelecidos e proclamados no e pelo Evangelho. Em cada geração, o arrependimento, a fé e a obediência foram exigidos daqueles que participariam (e participam) de suas bênçãos inestimáveis (Isaías 55:3). Em seus Esboços de Teologia, o renomado teólogo A. A. Hodge diz o seguinte:

A frase “mediador da aliança” é aplicada a Cristo três vezes no Novo Testamento (Hebreus 8:6; 9:15; 12:24), mas, como em cada caso, o termo para o pacto é qualificado por um ou outro adjetivo “novo” ou “melhor”, isso evidentemente aqui é usado para designar não a aliança da graça propriamente, mas aquela nova dispensação daquela aliança eterna que Cristo introduziu em pessoa, em contraste com a administração menos perfeita dela, que foi instrumentalmente introduzida por Moisés.

 

Cristo, o Mediador de uma Aliança Eterna

Assim, podemos tomar essas palavras “o sangue da aliança eterna” por seu valor nominal, como uma referência ao eterno pacto que Deus estabeleceu com Cristo. À luz das frases anteriores de Hebreus 13:20, é evidente que “o sangue da eterna aliança” tem uma conexão tripla. Em primeiro lugar, ele é ligado ao título Divino aqui utilizado. Deus tornou-se historicamente “o Deus da paz”, quando Cristo fez propiciação e confirmou o acordo eterno com o Seu próprio sangue (Colossenses 1:20). Desde antes da fundação do mundo Deus havia proposto e planejado esta paz entre Ele e os homens pecadores (Lucas 2:13-14) que Cristo deveria efetivar; tudo estava conectado em conformidade com o pacto que foi eternamente acordado entre Eles. Em segundo lugar, ele aponta para o fato da morte de Cristo. Como o justo Juiz sobre todos, Deus, o Pai foi movido pelo derramamento do sangue precioso de Cristo a restaurá-lO da sepultura e exaltá-lO a um lugar de honra e autoridade suprema (Mateus 28:18; Filipenses 2:5-11). Visto que o Fiador totalmente cumpriu a Sua parte do acordo, convinha que o Governador deste mundo O livrasse da prisão como aquilo que era justamente devido a Ele. Em terceiro lugar, esta frase bendita está ligada ao ofício de Cristo. Foi pelo derramamento de Seu sangue por eles, de acordo com o pacto da aliança, que o nosso Senhor Jesus tornou-se “o grande Pastor das ovelhas”, Aquele que buscaria os eleitos de Deus, os traria para o rebanho, e ali os ministraria, os proveria e os protegeria (João 10:11, 15).

Deus trazendo o nosso Senhor Jesus dentre os mortos não foi feito simplesmente por contrato, mas também por causa de Seus méritos, e, portanto, é atribuído não apenas à “aliança”, mas ao “sangue” dEle. Como o Filho de Deus, Ele não mereceu ou comprou isso, pois honra e glória Lhe eram devidas; mas como o Mediador Deus-Homem, Ele obteve a Sua libertação da sepultura como recompensa apenas por Sua obediência e sofrimentos. Além disso, isso não ocorreu como pessoa privada, mas foi como a Cabeça de Seu povo que Ele foi libertado, e isso garantiu a Sua libertação também. Se Ele foi restaurado a partir do túmulo “através do sangue da eterna aliança”, igualmente assim eles devem ser. A Escritura atribui a nossa libertação do túmulo não somente à morte de Cristo, mas também à Sua ressurreição. “Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que em Jesus dormem, Deus os tornará a trazer com ele” (1 Tessalonicenses 4:14; cf. Romanos 4:25). Assim, a garantia é dada para a Igreja quanto à sua redenção completa e final. Deus, no passado, expressamente fez a promessa ao Pastor: “Ainda quanto a ti, por causa do sangue da tua aliança, libertei os teus presos da cova em que não havia água [ou seja, a sepultura]” (Zacarias 9:11, parênteses meus). Como foi “por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário” (Hebreus 9:12), assim também no fundamento de valor infinito deste sangue, nós também entramos na sala do trono celestial (Hebreus 10:19). Como Ele declarou: “porque eu vivo, vós também vivereis” (João 14:19).

 

A Petição Bem-fundamentada

Passamos agora para petição em si. “Ora, o Deus de paz [...] Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus”. Este versículo está intimamente relacionado com o conjunto da anterior, e a bendita conexão entre eles inculca uma lição de grande importância prática. Esta pode ser estabelecida, de forma simples, da seguinte maneira: a maravilhosa obra de Deus no passado deve aprofundar a nossa confiança em Deus e fazer-nos buscar de Suas mãos, as bênçãos e misericórdias para o presente. Uma vez que Ele tão graciosamente forneceu tal Pastor para as ovelhas, uma vez que Ele foi apaziguado em relação a nós e agora nenhuma carranca permanece em Seu rosto, uma vez que Ele demonstrou tão gloriosamente tanto o Seu poder e Sua justiça em trazer de volta a Cristo dentre os mortos, uma continuidade de Seu favor pode ser esperada de forma segura. Devemos olhar com expectativa para Ele, dia a dia, por todos os suprimentos necessários de graça. Aquele que ressuscitou o nosso Salvador é bem capaz de nos vivificar e fazer-nos fecundos para toda boa obra. Olhemos, portanto, para “o Deus de paz” e pleiteemos “o sangue da eterna aliança” em cada aproximação nossa ao propiciatório.

Mais especificamente, o fato de Deus ter trazido de volta a Cristo dentre os mortos é a Sua garantia infalível para nós de que Ele cumprirá todas as Suas promessas aos eleitos, mesmo todas as bênçãos da aliança eterna. Isso fica claro em Atos 13:32-34: “E nós vos anunciamos que a promessa que foi feita aos pais, Deus a cumpriu a nós, seus filhos, ressuscitando a Jesus; como também está escrito no salmo segundo: Meu filho és tu, hoje te gerei. E que o ressuscitaria dentre os mortos, para nunca mais tornar à corrupção, disse-o assim [por meio desta ação]: As santas e fiéis bênçãos de Davi vos darei” (colchetes meus). Ao restaurar Cristo dentre os mortos, Deus cumpriu a grande promessa feita aos santos do Antigo Testamento (no qual todas as Suas promessas foram praticamente constantes) e deu garantia para o desempenho e cumprimento de todas as do futuro, assim, concedendo-lhes virtude. As “fiéis bênçãos de Davi” são as bênçãos que Deus jurou na aliança eterna (Isaías 55:3). O derramamento do sangue de Cristo ratificou, selou e estabeleceu para sempre todos os artigos nesta aliança. Deus, ao trazê-lO de volta dentre os mortos, garantiu ao Seu povo que Ele infalivelmente lhes concederá todos os benefícios que Cristo obteve por eles, por meio de Seu sacrifício. Todas essas bênçãos: regeneração, perdão, purificação, reconciliação, adoção, santificação, preservação e glorificação foram dadas a Cristo para os Seus remidos, e estão seguras em Suas mãos.

Por Sua obra mediadora, Cristo abriu um caminho pelo qual Deus pode conceder, de forma consistente com toda a glória de Suas perfeições, todas as coisas boas que fluem a partir dessas perfeições Divinas. Como a morte de Cristo foi necessária para que os crentes pudessem receber essas “fiéis bênçãos” de acordo com os desígnios Divinos, assim, a Sua ressurreição foi igualmente indispensável, para que vivo no céu Ele pudesse comunicar a nós os frutos de Seu trabalho como que de parto e a recompensa de Sua vitória. Deus cumpriu a Cristo todos os artigos pelos quais Ele se comprometeu na aliança eterna: Ele O trouxe dos mortos, O exaltou à Sua mão direita, O investiu com honra e glória, fazendo-O sentar-Se no trono de mediação, e deu a Ele aquele Nome que está acima de todo nome. E o que Deus fez por Cristo, a Cabeça, é a garantia de que Ele cumprirá tudo o que Ele prometeu aos membros de Cristo. É uma consideração mui gloriosa e bendita que o nosso tudo, tanto para o tempo e a eternidade, depende inteiramente sobre o que se passou entre o Pai e Jesus Cristo: que Deus Pai se recorda e é fiel aos Seus compromissos com o Filho, e que estamos em Sua mão (João 10:27-30). Quando a fé verdadeiramente apreende essa grande verdade, todo o medo e incerteza são dissipados; toda legalidade e falatório sobre a nossa indignidade, silenciados. “Digno é o Cordeiro” torna-se o nosso lema e canção!

 

Esse Tipo de Oração Produz Estabilidade Espiritual

Quão tranquilizador e estabilizador é para nós quando consideramos que temos uma participação pessoal em todos os atos eternos que se passaram entre Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo em nosso nome antes mesmo que o homem fosse criado, assim como em todos os atos que foram acordados entre o Pai e o Filho e em toda a Sua obra mediadora que Ele operou e consumou aqui abaixo. É somente esta salvação da aliança, em toda a sua bem-aventurança e eficácia, apreendida pela fé, que pode levantar-nos para fora de nós mesmos e, acima de nossos inimigos espirituais, que pode permitir-nos triunfar sobre nossas presentes corrupções, pecados e misérias. É completamente um assunto para a fé estar envolvida, pois sentimentos nunca podem fornecer a base para a estabilidade espiritual e paz. Tal só pode ser obtida por uma alimentação consistente da verdade objetiva, que os conselhos Divinos da sabedoria e graça deram a conhecer nas Escrituras. Enquanto a fé é exercida nisso, enquanto o registro dos compromissos eternos do Pai e do Filho são recebidos na mente espiritual, a paz e a alegria serão a nossa experiência. E quanto mais a fé se alimenta de verdade objetiva, mais somos fortalecidos subjetivamente, ou seja, emocionalmente. A fé diz respeito a cada cumprimento passado das promessas de Deus como uma certa evidência de Seu cumprimento de todo o restante de Suas promessas para nós, em Seu próprio tempo e modo. Especialmente a fé considerará o cumprimento de Deus de Sua promessa de trazer o nosso Senhor Jesus da sepultura sob esta luz. O próprio Pastor foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai? Tão seguramente, então, todas as Suas ovelhas serão libertadas da morte do pecado, vivificadas em novidade de vida, santificadas pelo Espírito Santo, recebidas no Paraíso, onde sua guerra finda, e ressuscitarão corporalmente para a imortalidade no último dia.

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♦ Este texto é o Capítulo 4 do livro “A Guide to Fervent Prayer” [Um Guia para a Oração Fervorosa], por A. W. Pink.
♦  Fonte: Pbministries.org | Título Original: A Guide to Fervent Prayer
♦  As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦  Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


A Veracidade da Doutrina da Eleição – Arthur Walkington Pink

Antes de prosseguir com uma exposição ordenada desta profunda, mas preciosa doutrina, pode ser melhor (especialmente para o benefício daqueles menos familiarizados com o assunto), que agora seja demostrada a sua origem Bíblica. Não devemos tomar nada como garantido, e como alguns dos nossos leitores nunca têm recebido qualquer instrução sistemática sobre o assunto – sim, alguns deles não sabem quase nada sobre isso – e como outros já ouviram e leram apenas perversões e caricaturas desta doutrina, parece essencial que façamos uma pausa para que estabeleçamos a sua veracidade. Em outras palavras, o nosso presente objetivo é fornecer provas de que o que estamos escrevendo agora não é uma invenção teológica de Calvino ou de qualquer outro homem, mas é algo claramente revelado na Sagrada Escritura, a saber, que Deus, antes da fundação do mundo, fez diferença entre as Suas criaturas, escolhendo algumas pessoas para serem os objetos especiais de Seu favor.

Vamos lidar com o assunto de uma forma mais ou menos geral – ocupando-nos com o fato em si; reservando a análise mais detalhada e esboços de distinções para capítulos posteriores. Vamos começar com a pergunta: Será que Deus tem um povo eleito? Agora, esta questão deve ser proposta para o próprio Deus, pois só Ele é competente para responder. É, portanto, para a Sua Santa Palavra que devemos nos voltar se quisermos conhecer Sua resposta àquela pergunta. Todavia, antes disso, precisamos sinceramente pedir a Deus que nos conceda um espírito dócil, para que possamos humildemente receber o testemunho Divino. Ninguém pode conhecer as coisas de Deus até que o próprio Deus as declare; mas quando Ele as declara, não é somente loucura crassa, mas uma presunção ímpia, alguém contender ou descrer nelas. As Sagradas Escrituras são a regra da fé, bem como a regra da conduta. À lei e ao testemunho, então, agora nos voltamos.

No que diz respeito à nação de Israel, lemos: “o Senhor teu Deus te escolheu, para que lhe fosses o seu povo especial, de todos os povos que há sobre a terra” (Deuteronômio 7:6); “Porque o Senhor escolheu para si a Jacó, e a Israel para seu próprio tesouro” (Salmo 135:4); “Porém tu, ó Israel, servo meu, tu Jacó, a quem elegi descendência de Abraão, meu amigo; tu a quem tomei desde os fins da terra, e te chamei dentre os seus mais excelentes, e te disse: Tu és o meu servo, a ti escolhi e nunca te rejeitei” (Isaías 41:8-9). Estes testemunhos tornam inequivocamente claro que o antigo Israel foi o eleito e favorecido povo de Deus. Nós aqui não levantamos a questão de por que ou como Deus os escolheu, ou para que eles foram escolhidos; mas estamos enfatizando somente o fato em si mesmo. Nos tempos do Antigo Testamento Deus tinha uma nação eleita.

Em seguida, deve-se observar que, mesmo no favorecido Israel, Deus fez uma distinção: houve uma eleição dentro de uma eleição; ou, em outras palavras, Deus teve um povo especial dentre o Seu própria nação. “Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência” (Romanos 9:6-8). “Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu… Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram os joelhos a Baal. Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça… o que Israel buscava não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram, e os outros foram endurecidos” (Romanos 11:2-7). Assim, vemos que, mesmo no Israel visível, a nação escolhida para desfrutar de privilégios externos, Deus havia feito uma eleição: um Israel espiritual, os objetos de Seu amor.

O mesmo princípio de seleção Divina aparece clara e visivelmente no ensino do Novo Testamento. Lá também é revelado que Deus tem um povo peculiar, os súditos de Seu favor especial, Seus próprios filhos amados. O Salvador e Seus apóstolos descrevem este povo de várias maneiras, e muitas vezes se referem a eles pelo termo de que estamos aqui tratar. “Por causa dos escolhidos serão abreviados aqueles dias… se possível fora, enganariam até os escolhidos… os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus” (Mateus 24:22, 24, 31). “E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles?” (Lucas 18:7). “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus?” (Romanos 8:33). “Para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme” (Romanos 9:11). “Portanto, tudo sofro por amor dos escolhidos” (2 Timóteo 2:10). “A fé dos eleitos de Deus” (Tito 1:1). Muitas outras passagens poderiam ser citadas, mas estas são suficientes para demonstrar claramente que Deus tem um povo eleito. Deus diz que Ele tem, quem ousará dizer que Ele não tem!?

A palavra “eleito”, e seus derivados, ou seu sinônimo “escolhido” em seus derivados, ocorre na Páginas Sagradas consideravelmente mais de cem vezes. O termo, então, pertence ao vocabulário Divino. Deve significar alguma coisa; deve transmitir alguma ideia definida. Qual, então, é o seu significado? O inquiridor humilde não forçará uma construção em cima da palavra, ou tentará ler para ele seus próprios preconceitos, mas se esforçará humildemente para assegurar-se da mente do Espírito. Não deveria haver tal dificuldade, pois não há palavra em linguagem humana que tenha um significado mais específico. O conceito universalmente expressa que um é tomado e outro deixado, pois se todos fossem tomados não haveria nenhuma “escolha”. Além disso, o direito de escolha sempre pertence àquele que escolhe; o ato é seu, e as motivações também são suas. É aí que a “escolha” difere de compulsão, do pagamento de uma dívida, do cumprimento de uma obrigação ou do atendimento das exigências da justiça. A escolha é um ato livre e soberano.

Que não haja incerteza sobre o significado do nosso termo. Deus fez uma escolha, pois eleição significa seleção e designação. Deus exerceu Sua própria vontade soberana e selecionou a partir da massa de Suas criaturas aqueles sobre os quais Ele determinou conferir Seus favores especiais. Não pode haver uma eleição sem uma seleção, e não pode haver seleção sem rejeição. A doutrina da eleição significa que desde toda a eternidade Deus fez uma escolha de quem viria a ser o Seu tesouro especial, os Seus queridos filhos, os coerdeiros de Cristo. A doutrina da eleição significa que antes que Seu Filho encarnasse Deus marcou os que deviam ser salvos por Ele. A doutrina da eleição significa que Deus não deixou nada ao acaso, a realização de Seu propósito, o sucesso do empreendimento de Cristo e nem o povoamento do céu estão subordinados ao capricho da criatura inconstante. A vontade de Deus, e não a vontade do homem não, estabelece o destino.

Vamos agora chamar a atenção para um exemplo muito notável e pouco conhecido da eleição Divina. “Conjuro-te diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, e dos anjos eleitos” (1 Timóteo 5:21). Se, então, há “anjos eleitos” então, necessariamente devem haver anjos não-eleitos, pois não pode haver um sem o outro. Deus, então, no passado, fez uma seleção entre as hostes do céu, escolhendo alguns para serem vasos de honra e outros para serem vasos de desonra. Aqueles a quem Ele escolheu para Seu favor, permaneceram firmes, mantiveram-se em sujeição à Sua vontade. O restante caiu quando Satanás se revoltou, e em sua apostasia arrastou para baixo com ele um terço dos anjos (Apocalipse 12:4). A respeito destes lemos: “Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo” (2 Pedro 2:4). Mas aqueles deles que pertencem à eleição da graça são “santos anjos”, santos como consequência de sua eleição, e não eleitos, porque eles eram santos, pois a eleição antecedeu a sua criação. O exemplo supremo da eleição é visto em Cristo […].

Vamos agora observar e admirar a maravilha e a singularidade da escolha de Deus entre os homens. Ele selecionou uma parte da raça de Adão para serem os altamente favorecidos do céu. “Agora, isso é a maravilha das maravilhas, quando passamos a considerar que o céu, o céu dos céus, é do Senhor. Se Deus deve ter uma raça escolhida, por que Ele não seleciona uma da ordem majestosa dos anjos, ou a partir dos querubins e serafins que flamejando ficam ao redor de Seu trono? Por que Gabriel não foi tomado? [...] O que poderia haver no homem, uma criatura menor que os anjos, para que Deus o escolhesse, em vez dos espíritos angelicais? Por que querubins e serafins não foram dados a Cristo? Por que Ele não assume a natureza dos anjos, e os leva à união com Ele? Um corpo angelical pode estar mais de acordo com a pessoa da Divindade do que um corpo fraco e sofredor formado por carne e sangue. Haveria algo congruente se Ele tivesse dito aos anjos: “Sereis meus filhos”. Mas não! embora todos estes fossem Seus; Ele passa por eles e se inclina para o homem” (C. H. Spurgeon).

Alguns podem sugerir que a razão pela qual Deus elegeu os descendentes de Adão, preferindo-os em relação aos anjos, foi a de que a raça humana caiu em Adão e, portanto, proporcionou uma situação mais adequada para Deus mostrar Sua rica misericórdia. Mas tal suposição é completamente falaciosa, pois, como vimos, um terço dos próprios anjos caíram do seu elevado estado, mas muito pelo contrário de Deus usar de misericórdia com eles, Ele antes os “reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia” (Judas 6). Nem qualquer Salvador foi provido para eles, nem algum evangelho já foi pregado a eles. Quão impressionante e solene é este fato: os anjos caídos foram deixados e os caídos filhos de Adão se tornaram os objetos da misericórdia Divina.

 Aqui está algo verdadeiramente maravilhoso. Deus determinou possuir um povo que seria o Seu tesouro peculiar, para serem mais próximos e mais caros a Ele do que qualquer outra criatura; um povo que deveria ser conformado à própria imagem de Seu Filho. E que Seu povo seria escolhido dentre os descendentes de Adão. Por quê? Por que não ter reservado essa honra suprema para as hostes celestes? Eles são uma ordem superior de seres; eles foram criados antes de nós. Eram criaturas celestiais, mas Deus passou por eles; nós somos terrenos, mas o Senhor pôs o Seu coração sobre nós. Novamente perguntamos, por quê? Ah, permitam que aqueles que odeiam a elevada verdade da soberania de Deus e lutam contra a doutrina da eleição incondicional, cuidadosamente ponderarem neste exemplo flagrante desta. Que aqueles que tão descaradamente insistem que seria injusto para Deus mostrar parcialidade entre homem e homem, nos digam por que Ele mostra parcialidade entre raça e raça, concedendo favores sobre os homens que Ele nunca concedeu aos anjos? Apenas uma resposta é possível: porque assim Lhe agradou.

A eleição é um segredo Divino, um ato na vontade de Deus na eternidade passada. Mas não para que permanecesse em segredo para sempre. Não, em devido tempo, Deus tem o prazer de manifestar abertamente Seus conselhos eternos. Isto Ele fez em graus variados, desde o início da história humana. Em Gênesis 3:15 Ele deu a conhecer o fato de que haveria duas linhas distintas: a “semente” da mulher que faz referência a Cristo e ao Seu povo, e a “semente” da Serpente que significava Satanás e aqueles que estão conformados com sua semelhança; Deus colocou uma “inimizade” irreconciliável entre elas. Estas duas “sementes” compreendem os eleitos e os não-eleitos. Abel pertencia a eleição da graça, a e evidência disto sendo provida pela sua “fé” (Hebreus 11:4), pois somente os “ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48) creem salvificamente. Caim pertencia aos não-eleitos, a evidência disso é encontrada na declaração de que “Caim, que era do maligno” (1 João 3:12). Assim, no início da história, dos dois filhos de Adão e Eva, Deus “tomou” a um para Ser seu favorecido, e “deixou” o outro para sofrer o castigo de suas iniquidades.

Em seguida, vemos a sequência da eleição na linhagem de Sete, pois era de seus descendentes (e não aquelas de Caim), lemos: “então se começou a invocar o nome do Senhor” (Gênesis 4:26). Mas, no decorrer do tempo, eles também foram corrompidos, até que toda a raça humana tornou-se tão maligna que Deus enviou o dilúvio e os levou a todos. No entanto, mesmo assim, o princípio da eleição Divina foi exemplificado: não só em Enoque, mas em que “Noé achou graça aos olhos do Senhor” (Gênesis 6:8). Era o mesmo depois do dilúvio, pois uma diferenciação foi observada entre os filhos de Noé: “Bendito seja o Senhor Deus de Sem” (Gênesis 9:26), que significava que Deus o havia escolhido e abençoado. Por outro lado: “Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos” (Gênesis 9:25), esta expressão denota a preterição de todas aquelas que estão envolvidos na rejeição de Deus. Assim, Deus fez diferença mesmo entre aqueles que saíram da arca.

A partir dos filhos de Noé surgiram as nações que têm povoado o mundo. “E destes [isto é, três filhos de Noé] foram divididas as nações na terra depois do dilúvio” (Gênesis 10:32). A partir dessas setenta nações Deus escolheu aquele em que a grande corrente de sua eleição prosseguiria. Em Gênesis 10:25 lemos que esta divisão das nações foi feita no tempo de Éber, o neto de Sem. Por que isso nos é dito? Para insinuar que Deus, então, começou a separar a nação Judaica, para si mesmo em Éber, pois Éber seria o seu pai; por isso também é que no início da genealogia de Sem nos é dito: “E a Sem [os eleitos e abençoados por Deus] nasceram filhos, e ele é o pai de todos os filhos de Éber” (10:21). Isso é muito marcante, pois Sem tinha outros filhos mais velhos (cuja linha de descendência também está registrada), como a Assur e Elão, os pais dos Assírios e os Persas.

O detalhe aparentemente seco e desinteressante em Gênesis 10 a que acabamos de aludir, marca um passo muitíssimo importante no desenrolar dos conselhos Divinos, pois foi então que Deus começou a separar para Si mesmo os Israelitas em Éber, a quem Ele havia nomeado para ser seu pai. Até então os Hebreus tinham ficado promiscuamente misturados com as outras nações, mas agora Deus os “separou” do restante dos povos, assim como também as nações foram dividas umas das outras. Assim, encontramos a posteridade de Éber, mesmo quando eram muito poucos em número, foram designados “Hebreus”, como sua denominação nacional (“Israel” sendo o seu nome religioso) na distinção entre aqueles entre os quais viviam: “Abraão, o hebreu” (Gênesis 14:13), “José, o hebreu” (Gênesis 39:14). Assim, quando se tornou uma nação numerosa, e ao mesmo tempo vivendo no meio dos egípcios, permaneciam identificados como “hebreus” (Êxodo 01:15), enquanto que em Números 24:24 estão distintamente chamados de “Éber”!

O que temos procurado para explicar acima é definitivamente confirmado por “Lembra-te dos dias da antiguidade, atenta para os anos de muitas gerações: pergunta a teu pai, e ele te informará; aos teus anciãos, e eles te dirão. Quando o Altíssimo distribuía as heranças às nações, quando dividia os filhos de Adão uns dos outros, estabeleceu os termos dos povos, conforme o número dos filhos de Israel. Porque a porção do Senhor é o seu povo; Jacó é a parte da sua herança” (Deuteronômio 32:7-9). Observe, em primeiro lugar, o Senhor mandou aqui Israel voltar suas mentes para os tempos antigos, para as tradições de que haviam sido transmitidas por seus pais. Em segundo lugar, o evento especial aludido foi quando Deus “dividia” às nações, isto se refere à famosa divisão de Gênesis 10. Terceiro, essas nações não são ditas “como os filhos de Noé” (que era da linhagem dos eleitos), mas como “os filhos de Adão”, outra dica simples de quem encabeçou a linhagem dos réprobos. Em quarto lugar, Deus atribuiu às nações não-eleitas suas porções de terras, contudo, o Seu olho de graça e favor estava sobre os filhos de Israel. Em quinto lugar, “conforme o número dos filhos de Israel”, que era de setenta quando se estabeleceram no Egito (Gênesis 46:27), o número exato das nações mencionadas em Gênesis 10!

O ponto de ligação e conexão entre Éber e a nação de Israel foi, é claro, Abraão, e no seu caso o princípio da eleição Divina brilha com a uma rutilante luz solar. O chamado Divino que recebeu marcou mais uma etapa importante no desenvolvimento do propósito eterno de Deus. Na torre de Babel Deus deixou que as nações andassem nos seus próprios maus caminhos, depois de tomar a Abraão para ser o fundador da nação favorecida. “Tu és o Senhor, o Deus, que elegeste a Abrão, e o tiraste de Ur dos caldeus” (Neemias 9:7). Não foi Abraão, que escolheu a Deus, mas foi Deus que escolheu Abraão. “O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, estando na Mesopotâmia” (Atos 7:2): este título de “o Deus da glória” é empregado aqui para enfatizar o sinal do favor que foi mostrado a Abraão, a glória da Sua graça em elegê-lo, pois não havia nada nele, por natureza, que o fizesse sobressair de seus companheiros e lhe conferisse o direito ao conhecimento Divino. Foi bondade imerecida, misericórdia soberana, que foram mostradas a ele.

Isto é muito evidente pelo que nos é dito em Josué 24 de sua condição diante de Jeová, quando este apareceu-lhe: “Assim diz o Senhor Deus de Israel: Além do rio habitaram antigamente vossos pais, Terá, pai de Abraão e pai de Naor; e serviram a outros deuses” (v. 2). Abraão estava vivendo na cidade pagã de Ur, e pertencia a uma família idólatra! Em data posterior Deus trouxe esse fato à memória de seus descendentes, lembrando-os do estado modesto e corrupto em que se encontravam originalmente, e dando-lhes a conhecer que não era por nada de bom naqueles que Ele havia escolhido: “Ouvi-me, vós os que seguis a justiça, os que buscais ao SENHOR. Olhai para a rocha de onde fostes cortados, e para a caverna do poço de onde fostes cavados. Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara, que vos deu à luz; porque, sendo ele só, o chamei, e o abençoei e o multipliquei” (Isaías 51:1, 2). Que palavra fulminante para a carne é esta: o grande Abraão é aqui comparado (por Deus) com uma “caverna do poço”, tal era a sua condição quando o Senhor apareceu-lhe inicialmente.

Mas há algo mais na passagem acima. Observe cuidadosamente as palavras “sendo ele só, o chamei”. Lembre-se que isto aconteceu enquanto ele morava em Ur, e, como escavações modernas têm mostrado, esta era uma cidade de grande extensão, de toda o seu enorme número de habitantes Deus revelou-se a um só! O Senhor aqui enfatizou esse fato e nos convida a observarmos a singularidade de Sua eleição por esta palavra “só”. Veja aqui, então, a soberania absoluta de Deus, exercendo Sua vontade imperial na escolha de quem Ele quer. Ele teve misericórdia de Abraão simplesmente porque Ele se agradou em fazer assim, e Ele deixou o resto de seus compatriotas na escuridão pagã, simplesmente porque assim pareceu bem aos Seus olhos. Não havia nada mais em Abraão que em qualquer de seus companheiros pelo que Deus deveria tê-lo escolhido, qualquer bondade foi achada nele mais tarde foi a que o próprio Deus colocou ali, e, portanto, foi a consequência e não a causa de sua escolha.

É impressionante o caso da própria eleição de Abraão, contudo o trato de Deus para com sua prole é igualmente digno de nota. É aí que Deus fornece um resumo do que foi amplamente caracterizada a história de todos os seus eleitos, pois é uma coisa muito rara encontrar uma família inteira que (não simplesmente faz uma profissão, mas) dá evidências de desfrutar de Seu favor especial. A regra comum é que um é tomado e o outro é deixado, pois aqueles a quem é concedido realmente acreditar nesta verdade preciosa, mas solene, são levados a experimentalmente perceber a força disso em conexão com a sua própria parentela. Assim, a própria família de Abraão esboça em seus próximos e imediatos sucessores, um protótipo da futura experiência dos eleitos. Em sua família, eis que os exemplos mais marcantes de ambos, a saber, da eleição e da preterição, pela primeira vez em seus filhos, e, em seguida, seus netos.

Isaque era um filho da pura graça eletiva (e isto foi a causa e não a consequência de sua fé e santidade), e que, como tal, ele foi colocado na família de Abraão como um dom precioso, enquanto Ismael foi excluído desse favor preeminente, é bastante evidente a partir da história de Gênesis. Antes que ele nascesse, sim, antes de ser concebido no ventre, Deus declarou a Abraão que Isaque seria o herdeiro da mesma salvação com ele, e tinha irrevogavelmente estabelecido o pacto da graça sobre ele, diferenciando-o assim de Ismael; que, apesar de abençoado com misericórdias temporais, não estava no pacto da graça, mas estava sob o pacto de obras (veja Gênesis 17:19-21 e compare os comentários do Espírito sobre esta passagem em Gálatas 4:22-26).

Mais tarde, enquanto Isaque ainda era jovem, e ficou ligado como um sacrifício no altar, Deus ratificou as promessas de bênçãos que Ele havia feito antes de seu nascimento, confirmando-as com um juramento solene: “E disse: Por mim mesmo jurei, diz o Senhor: Porquanto fizeste esta ação, e não me negaste o teu filho, o teu único filho, que deveras te abençoarei, e grandissimamente multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus” (Gênesis 22:16-17). Esse juramento dizia respeito à semente espiritual, aos herdeiros da promessa, como Isaque, que foi declarado o filho da promessa. A quem o apóstolo se referiu quando disse: “querendo Deus mostrar mais abundantemente a imutabilidade do seu conselho aos herdeiros da promessa, se interpôs com juramento” (Hebreus 6:17). E o que era seu “conselho imutável”, senão Seu decreto eterno, Seu propósito de eleição? Os conselhos de Deus são os Seus decretos que estavam ocultos nEle mesmo desde a eternidade (Efésios 1:4, 9,10). E o que é uma promessa com juramento, senão o imutável conselho ou eleição de Deus posto em forma de promessa? E quem são os “herdeiros da promessa”, senão os eleitos, como Isaque o foi?

Um objetor diria que a escolha de Isaque, em detrimento de Ismael não foi um ato de pura soberania, visto que o primeiro foi o filho de Sara, enquanto o último foi o filho de Agar, a escrava egípcia – supondo, assim, que os dons de Deus são regulados por algo na criatura. Mas a próxima ocorrência impede este sofisma e totalmente nos faz calar a boca frente à vontade não-causada e não-influenciada do Altíssimo. Jacó e Esaú tiveram o mesmo pai e mãe, e eram gêmeos. Referente a eles lemos: “(para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá ao menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú” (Romanos 9:11-13). Vamos nos inclinar em silêncio reverente diante de tal passagem.

A nação que surgiu a partir de Abraão, Isaque e Jacó, foi o povo escolhido e favorecido por Deus, escolhido e separado de todas as outras nações, para serem os destinatários das ricas bênçãos de Deus. Foi isso mesmo que acrescentou tão grandemente à enormidade de seus pecados, pois o maior número de privilégios implica maior responsabilidade e maior responsabilidade não cumprida leva à maior culpa. “Ouvi esta palavra que o SENHOR fala contra vós, filhos de Israel… De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido; portanto eu vos punirei por todas as vossas iniquidades”. Desde os dias de Moisés até o tempo de Cristo, passou-se um período de 1500 anos, e Deus permitiu que todas as nações pagãs andassem em seus próprios caminhos, deixando-as entregues às suas corrupções e à escuridão de seus corações malignos. Nenhuma outra nação tinha a Palavra de Deus, nenhuma outra nação tinha um sacerdócio Divinamente destinado. Somente Israel foi favorecido com uma revelação escrita do céu.

E por que o Senhor escolheu os israelitas para serem Seus favoritos especiais? Os Caldeus eram mais antigos, os Egípcios eram muito mais sábios, os Cananeus eram mais numerosos; mas eles foram passados por alto. Qual, então, era a razão por que o Senhor escolheu Israel? Certamente não foi por causa de qualquer excelência neles, como toda a sua história mostra. De Moisés até Malaquias foram um povo de cerviz e coração duros, insatisfeitos com os favores divinos, e que não atendiam à vontade Divina. Isto não poderia ter sido por causa de alguma bondade neles, este foi um caso claro da soberania Divina: “Senhor teu Deus te escolheu, para que lhe fosses o seu povo especial, de todos os povos que há sobre a terra. O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; mas, porque o Senhor vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais” (Deuteronômio 7:6-8). A explicação de atos e todas as obras de Deus devem ser encontradas nEle mesmo – na soberania de Sua vontade, e não qualquer coisa que haja na criatura.

O mesmo princípio de seleção Divina é tão claramente e de forma proeminente revelada no Novo Testamento assim como o foi no Antigo. Isto foi surpreendentemente exemplificado em conexão com o nascimento de Cristo. Em primeiro lugar, no lugar em que Ele nasceu. Quão surpreendentemente a soberania de Deus foi demonstrada nesse acontecimento. Jerusalém não foi o local de nascimento do Salvador, nem o foi uma das cidades importantes da Palestina; em vez disso, Ele habitou em uma pequena aldeia! O Espírito Santo tem chamado especial atenção a este ponto em uma das principais profecias Messiânicas: “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel” (Miquéias 5:2). Quão diferentes são os pensamentos e caminhos de Deus em relação aos dos homens! Como Ele despreza o que nós mais estimamos, e honra que nós olhamos com desprezo. Um dos mais insignificante de todos os lugares foi escolhido por Deus para ser o cenário do mais estupendo de todos os eventos.

Mais uma vez; a elevada soberania de Deus e o princípio da Sua eleição singular apareceram naqueles a quem Ele primeiro comunicou estas boas novas. Para quem Deus enviou anjos para anunciar o bendito fato do nascimento do Salvador? Suponha que a Escritura tivesse estado em silêncio sobre a questão, quão diferente nós teríamos concebido o assunto. Será que não teríamos, naturalmente, pensado que os primeiros a serem informados sobre este glorioso evento haviam sido os líderes eclesiásticos e religiosos em Israel? Certamente os anjos entregariam a mensagem no templo. Mas não, não foi nem para os principais dos sacerdotes, nem para os governantes que eles foram enviados, mas aos humildes pastores que vigiavam seus rebanhos nos campos. E mais uma vez nós dizemos, quão completamente diferentes são os pensamentos e caminhos de Deus dos pensamentos e maneiras dos homens. E o que assim ocorreu no princípio da era Cristã foi indicativo da maneira de Deus ao longo de todo o seu curso (veja 1 Coríntios 1:26-29).

Vamos agora observar que essa mesma grande verdade foi enfatizada pelo próprio Cristo em Seu ministério público. Olhe para sua primeira mensagem na sinagoga de Nazaré. “E foi-lhe dado o livro do profeta Isaías; e, quando abriu o livro, achou o lugar em que estava escrito: O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres [isto é, os pobres de espírito, e não para ricos de Laodicéia]. Enviou-me a curar os quebrantados de coração [e não aos de coração impenitente, mas àqueles que estão aflitos diante de Deus por seus pecados], A pregar liberdade aos cativos [e não para aqueles que tagarelam sobre o seu “livre arbítrio”], e restauração da vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos [não àqueles que se consideram donos de si mesmos], a anunciar o ano aceitável do Senhor” (Lucas 4:17-19).

A consequência imediata é de fato solene: “Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos. E todos lhe davam testemunho, e se maravilhavam das palavras de graça que saíam da sua boca” (vv. 21 e 22). Até aí tudo bem, eles estavam satisfeitos em Suas “palavras de graça”; sim, mas eles tolerariam a pregação da graça soberana? “Em verdade vos digo que muitas viúvas existiam em Israel nos dias de Elias, quando o céu se cerrou por três anos e seis meses, de sorte que em toda a terra houve grande fome; e a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a Sarepta de Sidom, a uma mulher viúva. E muitos leprosos havia em Israel no tempo do profeta Eliseu, e nenhum deles foi purificado, senão Naamã, o siro” (vv. 25-27). Aqui Cristo pressionou sobre eles a elevada verdade da soberania de Deus, e isto eles não puderam suportar: “todos, na sinagoga, ouvindo estas coisas, se encheram de ira. E, levantando-se, o expulsaram da cidade” (vv. 28, 29) e observe bem que eram os adoradores respeitáveis da sinagoga que, assim, deram vazão a seu ódio a esta preciosa verdade! Então, não deixe que o servo de hoje se surpreenda se ele se encontrar com o mesmo tratamento que foi dado ao seu Mestre.

Seu sermão em Nazaré não foi de forma alguma o único momento em que o Senhor Jesus proclamou a doutrina da eleição. Em Mateus 11 nós O ouvimos dizer: “Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve” (versos 25 e 26). Para os setenta Ele disse: “Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lucas 10:20). Em João 6, será encontrado que Cristo, na presença da multidão, não hesitou em falar abertamente de um determinado número de pessoas a quem o Pai havia “dado a ele” (vv. 37, 39). Para os apóstolos Ele disse: “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto” (João 15:16): como teria chocado a grande maioria dos frequentadores da igreja de hoje se ouvissem o próprio Senhor dizer essas palavras! Em João 17:9 nós O encontramos dizendo: “Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste” (João 17:9).

Como ilustração interessante e instrutiva da ênfase que o Espírito Santo tem colocado sobre esta verdade chamamos a atenção para o fato de que os integrantes do povo de Deus do Testamento Novo são chamados de “crentes” apenas duas vezes, de “cristãos” apenas três vezes, enquanto que que são designados como eleitos catorze vezes e santos ou separados umas sessenta e duas vezes! Também quero salientar que vários outros termos e frases são usadas nas Escrituras para expressar a eleição: “Então disse o Senhor a Moisés: Farei também isto, que tens dito; porquanto achaste graça aos meus olhos, e te conheço por nome” (Êxodo 33:17); “Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei” (Jeremias 1:5; cf. Amós 3:2). “Não falo de todos vós; eu bem sei os que tenho escolhido” (João 13:18; cf. Mateus 20:16). “Creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48). “Deus visitou os gentios, para tomar deles um povo para o seu nome”” (Atos 15:14). “Igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus” (Hebreus 12:23).

Esta verdade básica da eleição fortalece todo o esquema da salvação, é por isso que nos é dito “Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus” (2 Timóteo 2:19). A eleição é necessária e claramente implicada por alguns dos termos mais importantes utilizados na Escritura sobre vários aspectos da nossa salvação, sim, estes termos tornam-se ininteligíveis se ela não existisse. Por exemplo, cada passagem que faz menção de “redenção” pressupõe eleição eterna. Como assim? Porque “redenção” implica uma posse anterior, é Cristo comprando de volta e libertando aqueles que eram de Deus no princípio. Mais uma vez; as palavras “regeneração” e “renovação” significam necessariamente uma vida espiritual anterior – perdida quando caímos em Adão (1 Coríntios 15:22). Então mais uma vez o termo “reconciliação” não somente denota que havia um estado de alienação antes da reconciliação, mas uma condição de harmonia e amizade, antes deste estado alienação. Já vimos o suficiente; a verdade da eleição já foi abundantemente demonstrada pelas Escrituras. Se estas muitas e indubitáveis provas não são suficientes, seria um desperdício de tempo continuar a multiplicá-las ainda mais.

Vamos agora salientar que esta grande verdade foi definitivamente mantida e apropriada por nossos antepassados. Primeiro, uma breve citação do antigo credo dos Valdenses (século XI) – esses confessores renomados da fé Cristã viveram na idade das trevas, no meio das mais terríveis perseguições do papado: “Este Deus salva da corrupção e da condenação aqueles a quem Ele escolheu desde a fundação do mundo, não por qualquer disposição, fé ou santidade que previu neles, mas de Sua simples misericórdia em Cristo Jesus, Seu Filho, passando por todo o resto, de acordo com a razão irrepreensível de Sua própria vontade e justiça”. Este é um dos Trinta e Nove artigos da Igreja da Inglaterra: “A predestinação para a vida é o eterno propósito de Deus, pelo qual (antes de lançados os fundamentos do mundo) tem constantemente decretado por Seu conselho, a nós oculto, livrar da maldição e condenação os que elegeu em Cristo dentre o gênero humano, e conduzi-los por Cristo à salvação eterna, como vasos feitos para a honra” [Artigo XVII].

Este é da Confissão de Fé de Westminster, subscrito por todos os ministros Presbiterianos: “Por meio do decreto de Deus e para manifestação da Sua glória, alguns homens e anjos são predestinados para a vida eterna, e outros preordenados para a morte eterna” [Cap. III, parágrafo 3]. E este é o terceiro capítulo da antiga Confissão Batista de Londres: “Por meio do decreto de Deus e para manifestação da Sua glória, alguns homens e anjos são predestinados ou preordenados para a vida eternal por meio de Jesus Cristo, para o louvor de Sua gloriosa graça; outros são deixados a agir em seus pecados para a sua justa condenação, para o louvor da Sua gloriosa justiça”.

Que não se pense que nós fizemos as citações desses padrões humanos, a fim de reforçar a nossa causa. Não é assim, este escritor, pela graça Divina, acreditaria e ensinaria esta grande verdade mesmo que ninguém antes dele já houvesse ensinado-a, e mesma que cada um que faz parte da Cristandade agora a repudiasse. Mas o que acaba de ser apresentado é uma boa evidência de que não estamos avançando aqui para nenhuma novidade herética, mas para uma doutrina proclamada no passado em cada seguimento da Igreja ortodoxa sobre a terra. Fizemos também as citações acima com o propósito de mostrar o quanto a atual geração de Cristãos professos se afastaram da fé daqueles a quem em Deus, eles devem suas atuais liberdades religiosas. Assim como as negações modernas da inspiração Divina e autoridade das Escrituras (pelos altos críticos), a negação da criação imediata (pelos evolucionistas), a negação da Divindade de Cristo (por Unitários), de modo que a presente negação da soberana eleição de Deus e de impotência espiritual do homem, são igualmente desvios da fé de nossos antepassados, fé esta que se baseava na inerrante Palavra de Deus.

A verdade da Divina eleição foi mais visivelmente exemplificada na história da Cristandade. Se é verdade que durante os últimos dois mil anos da dispensação do Antigo Testamento, as bênçãos espirituais de Deus estavam em grande parte confinadas a um único povo, é igualmente verdade que nos últimos 500 anos uma parte da raça humana tem sido mais assinalada para serem os favorecidos pelo céu mais do que todos as outras partes juntas. As relações de Deus com os Anglo-Saxões têm sido tão singulares e soberanas como o Seu trato para com os Hebreus no passado. Este é um fato que não pode ser negado, todos nós olhando no rosto, expomos a loucura daqueles que negam esta doutrina, porque em séculos passados, a grande maioria dos santos de Deus estavam reunidos dentre os Anglo-Saxões! Assim, o próprio testemunho da história moderna inequivocamente repreende a loucura daqueles que repudiam os ensinamentos da Palavra de Deus sobre este assunto, tornando sua incredulidade indesculpável.

Digam-nos, vocês que murmuram contra a soberania Divina, por que é que a raça Anglo-Saxã tem sido selecionada para a fruição de muito de grande parte das bênçãos espirituais de Deus? Será que não haviam outras raças igualmente necessitadas? Os Chineses praticavam um sistema mais nobre de moralidade e eram muito mais numerosos; por que, então, eles foram deixaram por tanto tempo em ignorância quanto ao Evangelho? Por que todo o continente Africano foi deixado por muitos séculos até que o Sol da Justiça brilhasse ali novamente trazendo a cura em Suas asas? Por que a América é hoje mil vezes mais favorecida do que a Índia, que possui uma população três vezes mais numerosa? Para todas estas perguntas somos obrigados a recorrer à resposta de nosso bendito Senhor: “Sim, ó Pai, porque assim te aprouve” [Mateus 11:26]. E, assim como no antigo Israel havia uma eleição dentro de uma outra eleição, assim a Alemanha, a Grã-Bretanha e os EUA são alguns lugares específicos que foram favorecidos com um ministério fiel após outro, enquanto outros lugares foram amaldiçoados com os falsos profetas. “Fiz que chovesse sobre uma cidade, e não chovesse sobre a outra cidade” (Amós 4:7) – Isto é verdade agora, embora de forma espiritual.

Finalmente, a veracidade da eleição é claramente evidenciada pela feroz oposição de Satanás contra ela. O Diabo luta contra a verdade, e não contra o erro. Ele deu vazão ao seu ódio contra ela quando Cristo a proclamou (Lucas 4:28-29); ele fez isso quando Paulo a pregou (como é mais do que sugerido em Romanos 9:14, 19); ele fez isso quando os Valdenses, os Reformadores e os Puritanos a proclamavam – usando os papistas como suas ferramentas para atormentar e matar milhares deles que confessam esta doutrina. Ele ainda se opõe a ela. Hoje ele faz isso disfarçado como um anjo de luz. Ele finge ser muito zeloso da honra do caráter de Deus, e declara que a eleição faz dEle um monstro de injustiça. Ele usa a arma do ridículo: se a eleição é verdade, por que pregar o evangelho? Ele procura intimidar: mesmo que a doutrina da eleição seja bíblica, não é sábio pregá-la. Assim, o ensino das Escrituras, o testemunho da história e a oposição de Satanás, juntos testemunham a veracidade da doutrina da eleição.

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♦ Este texto é o Capítulo 4 do livro The Doctrine of Election, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: The Doctrine of Election
♦  As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por William Teixeira │ Revisão por Camila Almeida


A Justiça da Eleição – Arthur Walkington Pink

Contrariando um pouco as nossas inclinações decidimos sair novamente do método lógico de exposição, e em vez de prosseguirmos com um desdobramento ordenado dessa doutrina, fazemos uma pausa para lidar com a principal objeção que é feita contra a mesma. Tão logo seja anunciada a verdade de que Deus escolheu algumas das Suas criaturas para serem os sujeitos de Seus favores especiais, um grito geral de protesto é ouvido. Não importa o quanto a Escritura seja citada, nem quantas passagens claras são apresentadas para ilustra-la e demonstrá-la, a maioria dos que professam ser Cristãos objetam contra ela em voz alta, alegando que tal ensino calunia o caráter Divino, tornando Deus culpado de injustiça grosseira. Parece, então, que essa dificuldade deve ser encontrada, a saber, que esta resposta deve ser feita a tal criticismo desta doutrina, antes de seguirmos em frente com a nossa tentativa de dar uma definição sistemática para ela.

Em uma época como a nossa, em que os princípios da democracia, do socialismo e do comunismo são tão ampla e calorosamente defendidos, em dias em que a autoridade e o domínio humanos estão sendo cada vez mais desprezados, quando é costume comum “vituperar as dignidades” (Judas 8), é pouco surpreendente que muitas pessoas que não fazem nenhuma pretensão de se curvar à autoridade da Sagrada Escritura devem se rebelar contra o conceito de Deus ser parcial. Mas é indescritivelmente terrível ver que a grande maioria dos que professam receber as Escrituras como Divinamente inspiradas, ranjam os dentes contra o Seu autor quando informados de que Ele soberanamente elegeu um povo para ser o Seu tesouro peculiar, e os ouçamos acusando-O de ser um tirano odioso, um monstro de crueldade. No entanto, tais blasfêmias somente mostram que “a inclinação da carne é inimizade contra Deus” [Romanos 8:7]

Não é porque temos alguma esperança de converter tais rebeldes do erro de seus caminhos que nos sentimos constrangidos a abordar o presente aspecto de nosso tema, embora possa agradar a Deus em Sua infinita graça usar estas fracas linhas para a iluminação e convencimento de alguns deles. Não, pelo contrário, mas porque algumas das pessoas queridas de Deus são perturbadas por esses delírios de seus inimigos, e não sabem como responder em suas próprias mentes a essa objeção, a saber, que se Deus faz uma escolha soberana entre as Suas criaturas e as predestina para as bênçãos que Ele retém de incontáveis ​​milhões de seus companheiros, então tal parcialidade O torna culpado de tratar estes últimos com injustiça. E ainda os espanta o fato que à face tanto da criação e providência, Deus distribui as Suas misericórdias mui desigualmente. Não há igualdade em Suas concessões tanto de saúde física quanto de força, capacidades mentais, status social ou dos confortos da vida. Por que, então, devemos nos surpreender quando aprendemos que as Suas bênçãos espirituais são distribuídas de forma desigual?

Antes de prosseguirmos, deve ser salientado que o propósito de cada falso esquema e sistema de religião é descrever o caráter de Deus de tal maneira que seja agradável ao gosto do coração carnal, aceitável para a natureza humana depravada. E isso só pode ser feito por uma espécie de distorção: a ignorância das pessoas sobre as Suas prerrogativas e perfeições que são objetáveis​​, e a ênfase desproporcional de Seus atributos que ape-lam ao egoísmo deles, como o Seu amor, misericórdia e longanimidade. Mas, que o caráter de Deus seja fielmente apresentado como Ele realmente é retratado nas Escrituras – no Antigo Testamento, bem como no Novo – e nove em cada dez dos frequentadores da igreja irão francamente afirmar que eles acham que é impossível amá-lO. O fato é, caro leitor, que para a geração atual o Altíssimo da Escritura Sagrada é o “Deus desconhe-cido”.

É justamente porque as pessoas de hoje são tão ignorantes sobre o caráter Divino e tão carentes de temor a Deus, que elas estão em grande escuridão quanto à natureza e à glória da justiça Divina, e ponto de terem a presunção de acusá-lO. Esta é uma época de irreverência flagrante, na qual pedaços de barro animado atrevem-se a prescrever o que o Todo-Poderoso deve e o que não deve fazer. Nossos antepassados ​​semearam o vento, e hoje seus filhos estão colhendo tempestades. Os “direitos Divinos dos reis”, foram zombados e transformados em tabu pelos senhores, e agora sua prole repudia os “direitos Divinos do Rei dos reis”. A menos que os supostos “direitos” da criatura sejam “respeitados”, então os nossos contemporâneos não terão nenhum respeito pelo Criador, e se Sua alta soberania e domínio absoluto sobre tudo forem enfatizados, eles não hesitarão em vomitar sua condenação sobre Ele. E, “as más conversações corrompem os bons costumes” (1 Coríntios 15:33)! O próprio povo de Deus está em perigo de ser infectado pelo gás venenoso que agora infecta o ar do mundo religioso.

Não é só a atmosfera miasmática que se constitui, na maioria das “igrejas”, como uma séria ameaça para o Cristão, mas há em cada um de nós há uma tendência grave para humanizar Deus, vendo Suas perfeições através de nossas próprias lentes intelectuais em vez de através das lentes da Escritura, interpretando Seus atributos através de qualidades humanas. Foi isto mesmo que Deus se queixou no passado, quando Ele disse: “Pensavas que era tal como tu” (Salmos 50:21), esta é uma advertência solene para levarmos a sério. O que queremos dizer é o seguinte: quando lemos sobre a misericórdia ou a justiça de Deus nós somos muito propensos a considerá-los de acordo com as qualidades da misericórdia e da justiça do homem. Mas este é um erro grave. O Todo-Poderoso não deve ser medido por qualquer padrão humano: Ele está tão infinitamente acima de nós que qualquer comparação é totalmente impossível e, portanto, é o cúmulo da loucura qualquer criatura finita julgar os caminhos do Senhor.

Mais uma vez; precisamos estar muito atentos contra a loucura de fazer distinções injustas entre as perfeições Divinas. Por exemplo, é muito errado para nós supor que Deus é mais glorificado em Sua graça e misericórdia do que Ele é em Seu poder e majestade. Mas este erro é muitas vezes cometido. Quantos são mais gratos a Deus por lhes aben-çoar com a saúde do que por Ele ter concedido Seu evangelho a eles, mas será que, portanto, conclui-se que a bondade de Deus em dar coisas materiais é maior do que a Sua bondade ao conceder bênçãos espirituais? Certamente que não. A Escritura muitas vezes fala da sabedoria e do poder de Deus sendo manifestados na Criação, mas onde nos é dito da Sua graça e misericórdia em fazer o mundo? Na medida em que os homens geralmente não glorificam a Deus pela Sua sabedoria e poder não se segue que Ele não é tão adorado por eles? Cuidado para não exaltar uma das perfeições Divinas em detrimento das outras.

O que é a justiça? É tratar cada pessoa de forma equitativa e justa, dando-lhe o que lhe é devido. A justiça Divina é simplesmente faz o que é certo. Mas isso levanta a questão: O que é devido à criatura? O que Deus deve conceder a ela? Ah, meu amigo, cada pessoa sóbria vai ao mesmo tempo opor-se à introdução da palavra “dever” em tal conexão, e com razão. O Criador não tem obrigação, seja qual for, para com as obras de Suas próprias mãos. Somente Ele tem o direito de decidir se tal e tal criatura deve existir. Somente Ele tem a prerrogativa de determinar a natureza, status e o destino daquela criatura; se deverá ou não ser um animal, um homem ou um anjo; se deverá ou não ser dotado de uma alma que existirá para sempre, ou seja, não uma alma que subsistirá apenas por um breve tempo; se ele será vaso para honra e desfrutara de comunhão com Ele, ou se será um vaso para desonra, e será rejeitado por Ele.

Como o grande Criador possuía perfeita liberdade para criar ou não criar, para trazer à existência qualquer criatura que Ele quisesse (e uma visita ao zoológico mostrará que Ele criou algumas que impressionam o expectador por serem extremamente estranhas); e, portanto, Ele tem o direito inquestionável de decretar, concernente a eles, o que Lhe agrada. A justiça de Deus na eleição e na preterição, então, é fundamentada em Sua elevada Soberania. A dependência de todas as criaturas em relação a Ele é completa. Sua propriedade de todas as criaturas é indiscutível. Seu domínio sobre todas as criaturas é absoluto. Deixe esses fatos serem confirmados a partir da Escritura – e sua demonstração completa daí é uma questão muito simples: onde está a criatura que pode com a menor propriedade dizer ao Senhor Altíssimo: “O que fazes?”. Em vez do Criador estar sob qualquer obrigação à Sua criatura, é a criatura que está sob vínculos de obriga-ções para como Aquele que deu existência e agora sustenta a sua vida.

Deus tem o direito absoluto de fazer o que quiser com as criaturas da Sua própria mão: “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Romanos 9:21) esta é a Sua própria afirmação. Portanto, Ele pode dar a um e reter de outro, dar cinco talentos a um e somente um único talento para outro, sem qualquer imputação de injustiça. Se Ele pode dar graça e glória a quem Ele quer sem tal inocorrência em injustiça, então Ele pode também decretar fazê-lo sem qualquer ônus adicional. Os homens são sujeitos à cobrança de injustiça quando esco-lhem os seus próprios favoritos, amigos, companheiros e confidentes? Então, obviamente, não há injustiça em Deus de escolher quem Ele quer para conceder Seus favores espe-ciais, para entrar em comunhão com Ele agora e viver com Ele por toda a eternidade. Um homem é livre para escolher a mulher que ele deseja para sua esposa? E faz ele faz algo de errado para com as outras mulheres a quem ele rejeita? Assim é o grande Deus me-nos livre para escolher aqueles que serão a Noiva de Seu Filho? Envergonhem-se! Enver-gonhados sejam àqueles que atribuem menos liberdade ao Criador do que à criatura.

[...]

A menos que a perversidade de seus corações cegue os seus julgamentos, os homens facilmente perceberiam que a justiça Divina deve necessariamente ser imensamente de outra ordem e caráter em relação à justiça do ser humano; sim, quão diferente e superior a ela, como o amor Divino é do amor humano. Todos concordam que um homem age injustamente, que ele peca, se ele tolera as transgressões de seu irmão quando está em seu poder impedi-lo de cometê-las. Então, se a justiça Divina fosse do mesmo tipo, embora superior em grau, se seguiria necessariamente que Deus peca cada vez que Ele permite que uma de Suas criaturas transgrida, pois muito certamente, Ele tem poder para impedi-las; sim, e pode exercer esse poder sem destruir a liberdade da criatura: “Eu te tenho impedido de pecar contra mim; por isso não te permiti tocá-la” (Gênesis 20:6). Cessai, então, ó rebeldes de acusar o Altíssimo, tentando medir Sua justiça por Suas fitas métricas mesquinhas, assim procuram entender Sua sabedoria ou definir Seu poder, bem como compreender a Sua justiça inescrutável. “Nuvens e escuridão estão ao redor dele” e isto é observado, e expressamente dito em relação a isto, “justiça e juízo são a base do seu trono” (Salmo 97:2).

Para que alguns de nossos leitores não objetem a nossa citação de um alto calvinista como o Sr. Twisse, nós adicionamos a seguinte de um calvinista mais brando, James Usher. “O que é a justiça Divina? É uma propriedade essencial de Deus, na qual Ele é infinitamente justo em Si mesmo, de Si mesmo, para, de, e por si mesmo, e nenhum para outro: “Porque o Senhor é justo, e ama a justiça” (Salmo 11:7). Qual é a regra de Sua jus-tiça? Resposta: Sua própria vontade, e nada mais, pois aquilo que Lhe aprouver é justo, o que Ele deseja é o que é justo, e não porque isto é justo que Ele o deseja (Efésios 1:11; Salmo 115:3). “E aqueles dos fariseus, que estavam com ele, ouvindo isto, disseram-lhe: Também nós somos cegos? Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece” (João 9:40-41).

Então mais uma vez justamente o renomado professor W. Perkins: “Não devemos pensar que Deus faz uma coisa porque esta coisa seja boa e certa, mas a coisa é boa e certa, porque Deus quer e pratica. Exemplos disto temos na Palavra. Deus mandou Abimeleque entregar Sara a Abraão, ou então Ele iria destruí-lo e toda a sua casa (Gênesis 20:7). Para a razão do homem isto pode parecer injusto, pois, por que os servos de Abimeleque seriam punidos por culpa de seu senhor? Então, novamente Acã pecou, ​​e toda a casa de Israel foi penalizada por ele (Josué 7). Davi contou o povo, e toda a nação foi ferida por uma praga (2 Samuel 24). Para a razão humana tudo isso pode parecer falta de equidade; contudo sendo estas as obras de Deus, devemos com toda a reverência julgá-las como muitíssimo justas e santas”. Ai, quão pouco dessa humildade e reverência se manifesta nas igrejas de hoje! Quão imediatamente a geração atual crítica e condena qualquer dos caminhos de Deus e as obras que não entendem adequadamente!

Tão longe da verdade estão a maioria dos que agora são vistos mesmo como “os campeões da ortodoxia”, de modo que até eles mesmos são muitas vezes culpados de virar as coisas de cabeça para baixo, ou colocar a carroça na frente dos bois. É suposto geralmente por eles que o próprio Deus está sob a lei, que Ele está sob uma restrição moral para fazer o que Ele faz, de modo que Ele não pode fazer o contrário. Outros o envolvem em termos mais sofisticados, insistindo que é a Sua própria natureza que regula todas as Suas ações. Mas isso é apenas um subterfúgio ardiloso. É por uma necessidade de Sua natureza ou pelo livre exercício da Sua soberania, que Ele concede favor às Suas criaturas? Deixe a Escritura responder: “Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” (Romanos 9:18). Por que, meu leitor, se a natureza de Deus o obrigasse a mostrar misericórdia par a salvação de qualquer um, então, por paridade de razão, isto iria obriga-lO a mostrar misericórdia para com todos, e assim, levar toda a criatura caída ao arrependimento, fé e obediência. Mas chega dessa insensatez.

Vamos agora abordar este aspecto de nosso assunto por um ângulo totalmente diferente. Como poderia haver alguma injustiça em Deus eleger aqueles a quem Ele elegeu, quando se Ele não tivesse feito isso todos teriam inevitavelmente perecido, anjos e homens? Isto não é nem uma invenção nem uma inferência particular nossa, pois a própria Escritura expressamente declara: “Se o Senhor dos Exércitos nos não deixara descendência, Terí-amos nos tornado como Sodoma, e teríamos sido feitos como Gomorra” (Romanos 9:29). Nenhuma das criaturas racionais de Deus, seja celestial ou terrena, teria sido salva eterna e efetivamente à parte da solene eleição Divina. Embora ambos os anjos e os homens foram criados em estado de santidade perfeita, contudo eles eram criaturas mutáveis​​, susceptíveis de mudança e queda. Sim, na medida em que a sua permanecia neste estado de santidade dependia do exercício de suas próprias vontades, a menos que Deus se agradou de preservá-los de maneira sobrenatural, sua queda era certa.

“Eis que ele não confia nos seus servos e aos seus anjos atribui loucura” (Jó 4:18). Os anjos eram perfeitamente santos, mas se Deus não lhes deu outra assistência a mais do que aquela com que Ele os havia capacitado na sua criação, então não há “confiança” ou segurança posta sobre eles, ou em sua posição. Se eles eram santos hoje, eles estavam sujeitos ao pecado amanhã. Se Deus, os enviasse em uma missão para este mundo, eles podem cair antes de voltarem para o céu. A “loucura” que Deus imputa a eles na passagem acima é a sua mutabilidade de criatura, pois, eles manterem a sua santidade imutavelmente até a eternidade, sem o perigo de perdê-la, era totalmente além da capacidade deles como criaturas. Portanto, para que eles sejam preservados imutavelmente deve haver uma graça sendo emitida a partir de outra e maior fonte do que o pacto das obras ou o dom da criação, ou seja, a graça da eleição, a superior criação da graça.

Isto foi conhecido desde o princípio, a saber, que Deus tornaria manifesto o abismo infinito que divide a criatura do Criador. Só Deus é imutável, sem mudança ou sombra de variação. Foi, então, adequado que Deus retirasse Sua mão de preservação daqueles a quem Ele havia criado corretos, de modo que pudesse parecer que a maior criatura de todos (Satanás, “o querubim ungido” Ezequiel 28:14) era mutável e inevitavelmente cairia em pecado, quando saiu para o fazer sua vontade própria. Somente sobre Deus pode ser dito que Ele “não pode ser tentado pelo mal” (Tiago 1:13). A criatura, embora seja santa, pode ser tentada a pecar, cair, e ser irremediavelmente perdida. A queda de Satanás, então, abriu caminho para evidenciar mais claramente a necessidade absoluta da graça eletiva, a comunicação à criatura, da imagem da própria santidade imutável de Deus.

Por causa da mutabilidade do estado da criatura Deus previu que, se todas as Suas criaturas fossem deixadas para serem conduzidas pelas suas próprias vontades, elas estariam em risco contínuo de caírem. Ele, então, fez uma eleição da graça para remover todo o perigo de queda final e total no caso de Seus escolhidos. Isso nós sabemos ser o que é revelado de sua história. Judas nos fala de “anjos que não guardaram o seu prin-cipado, mas deixaram a sua própria habitação” (v. 6), e o restante deles, mais cedo ou mais tarde, fariam isto também, se fossem deixados à mutabilidade do Suas próprias vontades. Assim também se mostrou com Adão e Eva, ambos evidenciaram a mutabilidade de suas vontades por sua apostasia. Assim, Deus prevendo tudo isso desde o início, fez uma “reserva” (Romanos 11:4 – explicado no verso 5 como “eleição”), determinando que ele teria um remanescente que devia ser abençoado por Ele e que iria eternamente bendizê-lO em retorno. A Eleição e preservação da graça nunca devem ser separadas.

Temos mostrado, até agora, em primeiro lugar que a justiça Divina é de uma ordem e de um caráter inteiramente diferentes dos da justiça humana; segundo, que a justiça Divina está fundamentada sobre o domínio soberano de Deus sobre todas as obras de Suas mãos, sendo assim o exercício da Sua vontade imperial. Terceiro, que o Criador não deve absolutamente nada à criatura, nem mesmo aquilo que Ele se agradar de dar, e que, longe de Deus estar sob qualquer obrigação para ela, ela está sob obrigações eternas para com Ele. Em quarto lugar, que tudo o que Deus quer e faz é certo e devemos nos submeter a isto com reverência, sim, e devemos adorá-lO por isto. Em quinto lugar, que é impossível acusar Deus de injustiça pelo fato dele ter elegido algumas pessoas para serem os objetos de Sua maravilhosa graça, desde que, à parte disso, todos teriam perecido eternamente. Vamos agora descer a um nível mais baixo e mais simples, e contemplar a eleição de Deus em conexão com a raça humana caída em Adão.

Se não houve injustiça em Deus por fazer uma escolha de alguns para receberem Seu favor especial e bênção eternas à medida que Ele via as Suas criaturas pelas lentes do Seu propósito de criar, então, certamente, não poderia haver injustiça no fato dEle ter determinado mostrar-lhes Sua misericórdia à medida que Ele os viu de antemão entre a massa dos arruinados descendentes de Adão; pois, se uma criatura sem pecado não tem direito algum sobre o seu Criador, estando totalmente dependente de Sua caridade, então, com toda a certeza, uma criatura caída não tem direito a nada de bom vindo das mãos de Seu juiz ofendido. E este é o ângulo a partir do qual devemos agora ver o nosso assunto. O homem caído é um criminoso, um fora-da-lei e se a pura justiça deve ser dada a ele, então ele deve ser deixado para receber a devida recompensa de suas iniquidades, o que não pode significar nada menos do que a punição eterna, por ter, por meio de suas transgressões, incorrido em culpa infinita.

Antes de ampliarmos o que acaba de ser dito, também precisa ser salientado que se a única esperança para uma criatura santa está na graça eletiva de Deus, então isso é duplamente verdade em relação uma criatura profana, totalmente depravada. Se um santo anjo estava em perigo constante, incapaz de manter a sua pureza, por causa da mutabilidade de sua natureza e da inconstância de sua vontade, o que deve ser dito de uma criatura diabólica? Por que o homem caído possui uma natureza que é arraigada no mal, nada mais nada menos do que isso, e, portanto, sua vontade já não tem qualquer poder de se voltar para o que é espiritual, sim, ele é inveteradamente endurecido contra Deus; portanto, seu caso é absoluta e eternamente impossível, a menos que Deus, em Sua graça soberana, tenha o prazer de salvá-lo de si mesmo.

Os pregadores podem tagarelar tudo que quiserem sobre os poderes inerentes do ho-mem, sobre a liberdade de sua vontade, e sobre sua capacidade para o bem, mas é inútil e loucura ignorar o fato solene da Queda. A diferença e desvantagem entre o nosso estado e o estado de Adão antes de ter Caído dificilmente podem ser concebidas. Em vez da posse uma santidade perfeita das inclinações de nossas mentes e vontades, como ele possuía, não existe tal princípio vital deixado em nossos corações. Em vez disso, há uma deficiência completa para o que é espiritual e santo, sim, há inimizade, contrariedade e oposição em relação a estes. “Os homens erram, não conhecendo o poder do pecado original, nem a profundidade da corrupção que está em seus próprios corações. A vontade do homem agora é o principal e apropriado assento do pecado, o trono dele está estabelecido ali” (Thomas Goodwin). Auxílios exteriores e subsídios são de nenhuma consideração, pois nada menos que uma nova criação é de algum proveito.

Não importa a instrução que homens caídos recebem, ou quais incentivos sejam oferecidos a eles, o Etíope não pode mudar a sua pele. Nem luz, nem convicção, nem as opera-ções gerais do Espírito Santo, são de qualquer proveito, a menos que Deus sobre e acima deles dê um novo princípio de santidade para o coração. Isto foi clara e plenamente demonstrado sob a lei e o Evangelho. Leia Êxodo 20 e Deuteronômio 5 e veja a mani-festação maravilhosa e inspiradora de Si mesmo que Deus concedeu a Israel no Sinai: isso mudou seus corações e inclinou a vontade deles a obedecê-lO? Em seguida, leia os quatro evangelhos e eis o Filho encarnado de Deus habitando no meio dos homens, não como juiz, mas como um benfeitor – que andou fazendo o bem, alimentando os famintos, curando os enfermos, proclamando o evangelho, isto que fez derreter seus corações ou os ganhou para Deus? Não, eles O odiaram e O crucificaram.

Eis, então, o caso da humanidade caída: alienados da vida de Deus, mortos em delitos e pecados, sem coração, sem vontade para as coisas espirituais. Em si o seu caso é desesperado, irremediável, sem esperança. À parte da eleição Divina ninguém iria e nem poderia jamais ser salvo. Eleição significa que Deus se agradou em reservar o remanes-cente, de modo que toda a raça de Adão não perecerá eternamente. E que ações de graças Ele recebe para isso? Nenhuma, exceto daqueles que têm seus olhos cegos pelo pecado abertos para perceber a bem-aventurança inefável de tal fato. “Obrigado”? não; em vez disso, a grande maioria, mesmo daqueles que fazem parte da professa Cristandade quando ouvem desta verdade, ignorantes de seus próprios interesses e dos caminhos de Deus, contendem contra Sua eleição, e O insultam por causa da mesma, O acusam de injustiça e de ser um tirano impiedoso.

Ora, o grande Deus não está em nenhuma necessidade de defender-se de nós: em devido tempo, Ele efetivamente fechará a boca de todos os rebeldes. Mas devemos fazer mais algumas observações para aqueles crentes que estão perturbados por tais que insistem fortemente que Deus é culpado de injustiça quando Ele soberanamente elege alguns. Primeiro, então, pedimos a esses caluniadores de Jeová para que façam boa a sua acusação. O ônus da prova recai sobre aqueles que a fazem. Eles afirmam que um Deus que elege é injusto, então que eles demonstrem isto que afirmam. Eles não podem. Para isso, eles devem mostrar que os infratores merecem algo de bom vindo das mãos do legislador. Eles devem mostrar que o Rei dos reis está moralmente obrigado a sorrir para aqueles que têm blasfemado o Seu nome, profanado Seus sabaths, menosprezado Sua Palavra, injuriado Seus servos, e acima de tudo, desprezado e rejeitado Seu Filho.

“Há um homem em todo o mundo que teria a impertinência de dizer que ele merece alguma coisa de seu Criador? Se assim for, seja conhecido de vós que ele deverá ter todos os méritos! E sua recompensa será as chamas do inferno, para sempre, pois esse é o máximo que qualquer homem já mereceu de Deus; Deus não está em dívida para com nenhum homem e, no Último Grande Dia todo homem deve ter tanto amor, tanta piedade e tanta bondade como ele merece! Até mesmo os perdidos no inferno terão o que todos eles merecem, sim, e ai do dia quando eles terão a ira de Deus, que será o ápice do que eles merecem! Se Deus dá a cada um tanto quanto ele merece, Ele é, por isso, acusado de injustiça, porque Ele dá a alguns infinitamente mais do que eles merecem?” (C. H. Spurgeon [Sermão 303, Eleição e Santidade]).

Muitos dos que agora falam dele elogiosamente, e se referem a ele como “amado Spurgeon”, mas que iriam ranger os dentes e execrá-lo se o ouvissem em sua maneira fiel e simples de pregar.

Em segundo lugar, gostaríamos de informar esses detratores de Deus que Sua salvação não é uma questão de justiça, mas de pura graça, e graça é algo que não pode ser reivindicado por ninguém. Onde está a injustiça se qualquer um faz o que quiser com o que é seu próprio? Se eu sou livre para fazer caridade como eu achar melhor, a Deus será concedida menos liberdade para conceder Seus dons a quem Ele quer!? Deus não está em dívida com ninguém, e, portanto, se Ele concede Seus favores de uma maneira soberana ninguém pode reclamar. Se Deus passa por ti, Ele não te fez agravo; mas se Ele te enriquece, então és um devedor à Sua graça, e então, tu irás cessar de tagarelar sobre Sua justiça e injustiça, e de bom grado te juntarás com aqueles que surpreenden-temente exclamam: “Não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos recompensou segundo as nossas iniquidades” (Salmo 103:10). A salvação é dom gratuito de Deus, e, portanto, Ele a dá a quem Ele quer.

Em terceiro lugar, gostaríamos de perguntar a essas criaturas arrogantes, para quem tem Deus alguma vez recusado a Sua misericórdia quando esta foi sincera e penitentemente buscada? Será que Ele não proclama livremente o evangelho a toda criatura? Sua Palavra não ordena todos os homens a derrubarem as armas da sua guerra contra Ele e virem a Cristo para receberem o perdão? Será que Ele não promete apagar as suas iniquidades, se você se converter a Ele da forma por Ele apontada? Se você se recusar a fazê-lo, se você tão profundamente ama o pecado, se você está tão apegado às suas concupiscências de forma que você está determinado a destruir sua própria alma, então de quem é a culpa? Certamente de Deus não é. Suas promessas do evangelho são confiáveis, e qualquer um tem a liberdade de prová-los por si mesmo. Se ele faz isso, ou seja, se ele renuncia ao pecado e coloca sua confiança em Cristo, então ele descobrirá por si mesmo que ele é um dos eleitos de Deus. Por outro lado, se ele deliberadamente rejeita o evangelho e rejeita o Salvador, então, o seu sangue é sobre a sua própria cabeça.

Isso nos leva a perguntar, em quarto lugar: Você diz que é injusto que alguns devam ser perdidos enquanto outros serão salvos, mas quem causa a perdição dos estão perdidos? Alguma vez Deus fez alguém pecar? Em vez disso Ele adverte, avisa e exorta contra ele. A quem o Espírito Santo alguma vez impeliu a uma ação errada? Em vez disso Ele uniformemente o inclina contra o mal. Onde é que as Escrituras apoiam qualquer maldade Sua? Em vez disso elas constantemente condenam sua maldade em todas as suas formas. Então Deus é injusto se Ele condena aqueles que voluntariamente Lhe desobedecem? Ele é injusto se Ele pune aqueles que desafiadoramente desconsidera, Seus sinais de perigo e expostulações? Certamente que não. Para cada um destes Deus ainda dirá: “Tu destruíste a ti mesmo” (Oséias 13:9 – KJV). É a criatura que comete suicídio moral. É a criatura que rompe todas as restrições e atira-se para o precipício da desgraça eterna. No último grande dia será demonstrado que Deus é justificado quando Ele fala, e puro quando Ele julga (Salmo 51:4).

A eleição é o tomar de um e o deixar de outro, e implica a liberdade por parte do eleitor de escolher ou recusar a escolher. Daí a escolha de um não faz nenhum dano para o outro que não é escolhido. Se eu escolher um só dentre cem homens para uma posição de honra e proveito, eu faço isso sem prejudicar os outros noventa e nove que não foram escolhidos. Se eu tomar duas dentre vinte crianças maltrapilhas e famintas, e adotá-los como meu filho e filha, alimentá-las e vesti-las, dar-lhes uma casa e educação, e eu faço-lhes um imenso bem; mas enquanto eu distribuo meus bens e escolho fazer aquelas duas crianças felizes, eu o faço sem prejudicar as outras dezoito crianças que foram deixadas. É verdade, elas permanecem em trapos, mal alimentadas e sem instrução, mas elas não estão em condição pior depois que o meu favor foi mostrado às suas duas companheiras, elas somente continuam exatamente na situação em que elas estavam.

Mais uma vez; se entre dez homens justamente condenados à morte, o rei da Inglaterra se agrada de escolher cinco para receberem sua soberana misericórdia, e serem perdoados e libertados, eles devem a sua própria vida a seu favor real; no entanto, ao conceder bondade para com eles, nenhum dano é feito para os outros cinco, eles são deixados a sofrer a pena de justiça da Lei, que lhes é decida por suas transgressões. Eles somente sofrem o que teria sofrido se a misericórdia do rei não tinha sido concedida para com os seus companheiros. Quem, então, pode deixar de ver que seria um mau uso dos termos, uma calúnia grave do rei, acusá-lo de injustiça, porque ele se agradou de exercer sua prerrogativa real e mostrar seu favor a um e não a outro.

Nosso Salvador definitivamente expressa essa ideia de eleição, quando Ele disse: “Então, estando dois no campo, será levado um, e deixado o outro” (Mateus 24:40). Se ambos fossem “deixados”, então, ambos teriam perecido, daí o ser “levado” de apenas um não causou nenhum dano ao seu companheiro. “Estando duas moendo no moinho, será levada uma, e deixada outra” (Mateus 24:41). O fato de uma ter sido levada foi um grande favor a ela, mas isto não causou nada de errado para com sua companheira. A eleição Divina, então, é uma escolha a favor dentre aqueles que não têm direitos sobre Deus. É, portanto, ela não comete injustiça para os que são deixados, pois eles somente conti-nuam como e onde eles estavam, e como e onde estariam se os eleitos não houvessem sido levados do meio deles. No exercício de Sua graça eletiva Deus tem misericórdia de quem Ele quiser ter misericórdia, e na concessão de Seu favor Ele faz o que quer com o que é Seu próprio.

Não é difícil perceber a base sobre a qual o falso raciocínio de detratores de Deus des-cansa: por trás de todas as murmurações dos opositores contra a justiça Divina está o conceito de que Deus tem a obrigação de prover a salvação para todas as Suas criaturas caídas. Mas tal raciocínio (?) não consegue ver que se tal alegação fosse válida, então nenhuma ação de graças poderia ser dada a Deus. Como poderíamos louvá-lO por redimir aqueles que Ele tinha a obrigação de resgatar? Se a salvação é uma dívida que Deus tem para com o homem por ter permitido que ele caísse, então a salvação não pode ser uma questão de misericórdia. Mas não devemos esperar que aqueles cujos olhos estão cegos pelo orgulho venham a entender algo sobre os deméritos infinitos do pecado, ou de sua própria indignidade absoluta e vileza; e, portanto, é impossível que eles formem um verdadeiro conceito da graça Divina, e percebam que quando a graça é exercida, ela necessariamente é exercida de forma soberana.

Mas, depois de tudo o que foi pontuado acima alguns estarão prontos a perguntar sarcasticamente: “A Bíblia não declara que Deus “não faz acepção de pessoas”, então como então Ele pode fazer uma seleção entre os homens?”. Os caluniadores da predestinação Divina supõem que, ou as Escrituras são inconsistentes com eles mesmos, ou que, em Sua eleição Deus leva em conta os méritos. Vamos primeiro citar Calvino:

“A Escritura nega que Deus faz acepção de pessoas, em um sentido diferente daquele em que eles entendem; pois a palavra pessoa não significa um homem, mas essas coisas em um homem que, sendo visível aos olhos, geralmente conciliam favor, honra e dignidade, ou atraem o ódio, desprezo e vergonha. Tais são as rique-zas, poder, nobreza, magistratura, país, elegância da forma, por um lado; e, por ou-tro lado, a pobreza, a necessidade, nascimento ignóbil, desleixo, desprezo, e assim por diante. Assim, Pedro e Paulo declaram que Deus não faz acepção de pessoas, pois Ele não faz distinção entre judeu e grego, para rejeitar um e receber o outro, apenas por conta de sua nacionalidade (Atos 10:34, Romanos 2:11). Então, Tiago usa a mesma linguagem quando afirma que Deus, em Seu julgamento, não considera riquezas (2:5). Não haverá, portanto, nenhuma contradição em nossa afirmação, a saber, que de acordo com o que agrada à Sua vontade, Deus escolhe quem Ele quer para serem Seus filhos, independentemente de todo o mérito, enquanto que Ele rejeita e reprova os outros. No entanto, por uma questão de satisfação adicional, o processo pode ser explicado da seguinte maneira: Eles perguntam como isso acontece, isto é, que duas pessoas que não se distinguem umas das outras por nenhum mérito, Deus, em Sua eleição, deixe uma e tome outra. Eu, por outro lado, pergunto a eles, se eles supõem o que aquele que é levado possui qualquer coisa que possa atrair o favor de Deus? Se eles confessarem que ele não tem, como de fato deverão fazer, se seguirá, que Deus não se baseiam no homem, mas deriva Seu motivo para favorecê-lo a partir de Sua própria bondade. A eleição de um homem por Deus, portanto, enquanto Ele rejeita o outro, não procede de qualquer aspecto do homem, mas somente procede de Sua própria misericórdia; que pode ser demonstrada e livremente exercida onde e quando Ele quiser”.

Fazer “acepção de pessoas” é considerar e tratá-las de forma diferente por causa de uma suposta ou real diferença em si ou suas circunstâncias, que não possua base ou razão que seja justificável para tal tratamento preferencial. As características de uma acepção de pessoas pertencem, sim, àquele que avalia e reputa as outras pessoas de acordo com as suas características e obras. Acepção de pessoas acontece quando um juiz justifica e recompensa um ao invés de outro, porque este é rico e o outro pobre, ou porque ele lhe deu um suborno, ou é um parente próximo ou um amigo íntimo, enquanto o caráter e a conduta do outro é mais reta e sua causa mais justa. Mas tal denominação é inaplicável a uma concessão de caridade, quem concedeu os Seus favores e deu gratuitamente dons imerecidos para um e não para outro o faz sem qualquer consideração de mérito pessoal. O benfeitor tem todo o direito de fazer o que quiser com o que lhe pertence, e aqueles que são negligenciados por ele não têm nenhum motivo válido para se queixarem.

Mesmo que esta expressão seja considerada em sua acepção mais popular, nada tão impressionante evidencia que Deus “não faz acepção de pessoas” do que as caracterís-ticas daqueles que Ele escolheu. Quando os anjos pecaram e caíram Deus não providen-ciou nenhum Salvador para eles, no entanto, quando a raça humana pecou e caiu um Salvador foi providenciado para muitos deles. Deixe o crítico hostil pesar cuidadosamente este fato: se Deus houvesse feito acepção de “acepção de pessoas” Ele não iria escolher os anjos e deixar os homens? O fato de que Ele fez o inverso O livra desta calúnia. Considere novamente a nação que Deus escolheu para serem os destinatários de seus favores terrenos e temporais muito mais do que todos os outros povos durante os últimos dois mil anos de história do Antigo Testamento. Que tipo de pessoas eles eram? Por que, Deus escolheu um povo ingrato e murmurador, duro de cerviz e coração, rebelde e impenitente, desde o início de sua história até o fim? Se Deus tivesse sido uma acepção de pessoas Ele certamente nunca havia escolhido os Judeus para tal favor e bênção!

O verdadeiro caráter, então, daqueles a quem Deus escolhe refuta essa objeção tola. O mesmo é igualmente evidente no Novo Testamento. “Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo?” (Tiago 2:5). Bendito seja o Seu nome, por isso ser assim, pois, tivesse Ele escolhido os ricos, isso passaria a prejudicar a muitos de nós, não iria? Deus não escolhe magnatas e milionários, financistas e banqueiros, para serem objetos de Sua graça. Nem os de sangue real ou nobres do reino ou o sábio, o talentoso, o influente deste mundo, pois poucos deles têm seus nomes escritos no Livro da Vida do Cordeiro. Não, é o desprezado, o fraco, a vil, os sem-nome deste mundo, a quem Deus escolheu (1 Coríntios 1:26-29), e isto, a fim de que “nenhuma carne se glorie perante ele”. Os fariseus foram deixados e os publicanos e as meretrizes foram escolhidas! “Amei a Jacó”: e o que havia nele para Deus amá-lo!? – E ainda ecoam pergunta: “por que?”. Se Deus fizesse “acepção de pessoas” Ele certamente nunca teria escolhido um inútil como eu!

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♦ Este texto é o Capítulo 4 do Livro The Doctrine of Election, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: The Doctrine of Election
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por William Teixeira │ Revisão por Camila Almeida


Um Catecismo Puritano, Compilado por Charles Haddon Spurgeon

Um Catecismo Puritano Com Provas Bíblicas Compilado por C. H. Spurgeon, “Herdeiro dos Puritanos”.

Prefácio

Estou convencido de que o uso de um bom catecismo em todas as nossas famílias será uma grande proteção contra os erros crescentes dos tempos, e, portanto, eu compilei este pequeno manual a partir da Confissão de Fé da Assembleia de Westminster e do Catecismo Batista, para o uso de minha própria igreja e congregação. Aqueles que fizerem uso dele em suas famílias ou classes devem se esforçar para explicar o sentido; mas as palavras devem ser cuidadosamente aprendidas de cor, pois será melhor entendido com o passar dos anos. Que o Senhor abençoe meus queridos amigos e suas famílias cada vez mais, esta é a oração de seu pastor amoroso.

— C. H. Spurgeon

“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Timóteo 2:15).

Publicado em meados de 14 de outubro de 1855, quando Spurgeon tinha 21 anos. Em 14 de outubro, Spurgeon pregou o Sermão Nº 46, A Gloriosa Habitação, a vários milhares que se reuniram para ouvi-lo em New Park Street Chapel. Quando o sermão foi publicado, conteve um anúncio deste catecismo. O texto naquela manhã foi: “SENHOR, tu tens sido o nosso refúgio, de geração em geração” – Salmos 90:1.

 

Índice de Perguntas

1. Qual é o fim principal do homem?
2. Que regra Deus nos deu para nos direcionar a como podemos glorificá-lO?
3. O que as Escrituras ensinam principalmente?
4. O que é Deus?
5. Há mais do que um único Deus?
6. Quantas Pessoas há na Divindade?
7. O que são os decretos de Deus?
8. Como Deus executa os Seus decretos?
9. O que é a obra da criação?
10. Como Deus criou o homem?
11. Quais são as obras da providência de Deus?
12. Que ato especial de providência Deus exerceu em relação ao homem no estado em que ele foi criado?
13. Será que os nossos pais continuam no estado em que foram criados?
14. O que é pecado?
15. Todo o gênero humano caiu na primeira transgressão de Adão?
16. Em que estado ficou a humanidade depois da Queda?
17. Em que consiste a pecaminosidade do estado em que o homem caiu?
18. Qual é a miséria deste estado em que o homem caiu?
19. Deus deixou toda a humanidade perecer no estado de pecado e miséria?
20. Quem é o Redentor dos eleitos de Deus?
21. Como Cristo, sendo o Filho de Deus, Se fez homem?
22. Quais são os ofícios que Cristo executa como nosso Redentor?
23. Como Cristo executa o ofício de profeta?
24. Como Cristo executa o ofício de sacerdote?
25. Como Cristo executa o ofício de rei?
26. Em que a humilhação de Cristo consiste?
27. Em que consiste a exaltação de Cristo?
28. Como somos feitos participantes da redenção adquirida por Cristo?
29. Como o Espírito aplica a nós a redenção adquirida por Cristo?
30. O que é o chamado eficaz?
31. Quais os benefícios que aqueles que são chamados eficazmente participam nesta vida?
32. O que é justificação?
33. O que é adoção?
34. O que é santificação?
35. Quais são os benefícios que nesta vida, acompanham ou seguem a justificação, a adoção e a santificação?
36. Que benefícios os crentes recebem de Cristo, quando morrem?
37. Que benefícios os crentes recebem de Cristo na ressurreição?
38. O que será feito com o ímpio após sua morte?
39. O que acontecerá com os ímpios no dia do julgamento?
40. O que Deus revelou ao homem para que fosse a regra de sua obediência a Ele?
41. Qual é a soma dos dez mandamentos?
42. Qual é o primeiro mandamento?
43. O que é requerido no primeiro mandamento?
44. Qual é o segundo mandamento?
45. O que é requerido no segundo mandamento?
46. O que é proibido no segundo mandamento?
47. Qual é o terceiro mandamento?
48. O que é requerido no terceiro mandamento?
49. Qual é o quarto mandamento?
50. O que é requerido no quarto mandamento?
51. Como o Sabath deve ser santificado?
52. Qual é o quinto mandamento?
53. O que é requerido no quinto mandamento?
54. Qual é a razão anexada ao quinto mandamento?
55. Qual é o sexto mandamento?
56. O que é proibido no sexto mandamento?
57. Qual é o sétimo mandamento?
58. O que é proibido no sétimo mandamento?
59. Qual é o oitavo mandamento?
60. O que é proibido no oitavo mandamento?
61. Qual é o nono mandamento?
62. O que é requerido no nono mandamento?
63. Qual é o décimo mandamento?
64. O que é proibido no décimo mandamento?
65. Alguém é capaz de guardar perfeitamente os mandamentos de Deus?
66. Todas as transgressões da lei são igualmente hediondas?
67. O que todo pecado merece?
68. Como podemos escapar da ira e da maldição que é devida a nós por causa do pecado?
69. O que é a fé em Jesus Cristo?
70. O que é o arrependimento para a vida?
71. Quais são os meios exteriores pelos quais o Espírito Santo nos comunica os benefícios da redenção?
72. Como a Palavra é feita eficaz para a salvação?
73. Como a Palavra deve ser lida e ouvida para que se torne eficaz para a salvação?
74. Como o Batismo e a Ceia do Senhor se tornam úteis espiritualmente?
75. O que é o Batismo?
76. A quem o Batismo deve ser administrado?
77. Os filhos dos que professam ser crentes devem ser batizados?
78. Qual é o modo correto de administrar o Batismo?
79. Qual é o dever dos que são corretamente batizados?
80. O que é a Ceia do Senhor?
81. O que é necessário para a digna recepção da Ceia do Senhor?
82. O que se entende pelas palavras, “até que Ele venha”, que são usadas pelo apóstolo Paulo em referência à Ceia do Senhor?

 

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Pergunta 1: Qual é o fim principal do homem?
Resposta: O fim principal do homem é glorificar a Deus1, e deleitar-se nEle para sempre2.

1 1 Coríntios 10:31
2 Salmos 73:25-26

Pergunta 2: Que regra Deus nos deu para nos direcionar a como podemos glorificá-lO?
Resposta: A Palavra de Deus, que está contida nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos1 é a única regra para nos direcionar à maneira correta pela qual podemos glorificar a Deus e fruir dEle2.

1 Efésios 2:20; 2 Timóteo 3:16
2 1 João 1:3

Pergunta 3: O que as Escrituras ensinam principalmente?
Resposta: As Escrituras ensinam principalmente o que o homem deve crer acerca de Deus, e quais os deveres que Deus requer do homem1.

1 2 Timóteo 1:13; Eclesiastes 12:13

Pergunta 4: O que é Deus?
Resposta: Deus é Espírito1, Infinito2, Eterno3, e Imutável4 em Seu Ser5, Sabedoria, Poder6, Santidade7, Justiça, Bondade e Verdade8.

1 João 4:24
2 Jó 11:7
3 Salmos 90:2; 1 Timóteo 1:17
4 Tiago 1:17
5 Êxodo 3:14
6 Salmos 147:5
7 Apocalipse 4:8
8 Êxodo 34:6-7

Pergunta 5: Há mais do que um único Deus?
Resposta: Há somente um único Deus1, o Deus vivo e verdadeiro2.

1 Deuteronômio 6:4
2 Jeremias 10:10

Pergunta 6: Quantas Pessoas há na Divindade?
Resposta: Há três Pessoas na Divindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e estes três são um só Deus, o mesmo em essência, iguais em poder e glória1.

1 1 João 5:7; Mateus 28:19

Pergunta 7: O que são os decretos de Deus?
Resposta: Os decretos de Deus são o Seu eterno propósito, segundo o conselho da Sua vontade, segundo os quais, para a Sua própria glória, Ele preordenou tudo o que acontece1.

1 Efésios 1:11-12

Pergunta 8: Como Deus executa os Seus decretos?
Resposta: Deus executa os Seus decretos nas obras da criação1, e da providência2.

1 Apocalipse 4:11
2 Daniel 4:35

Pergunta 9: O que é a obra da criação?
Resposta: A obra da criação consiste em todas as coisas que Deus fez1 do nada, pela palavra do Seu poder2, em seis dias consecutivos e normais3, e tudo muito bom4.

1 Gênesis 1:1
2 Hebreus 11:3
3 Êxodo 20:11
4 Gênesis 1:31

Pergunta 10: Como Deus criou o homem?
Resposta: Deus criou o homem, macho e fêmea, segundo a Sua própria imagem1, em conhecimento, justiça e santidade2, possuindo domínio sobre as criaturas3

1 Gênesis 1:27
2 Colossenses 3:10; Efésios 4:24
3 Gênesis 1:28

Pergunta 11: Quais são as obras da providência de Deus?
Resposta: As obras da providência de Deus são a Sua santíssima1, sábia2, e poderosa3, preservação e governo de todas as Suas criaturas, e de todas as suas ações4.

1 Salmos 145:17
2 Isaías 28:29
3 Hebreus 1:3
4 Salmos 13:19; Mateus 10:29

Pergunta 12: Que ato especial de providência Deus exerceu em relação ao homem no estado em que ele foi criado?
Resposta: Quando Deus criou o homem, entrou em um pacto de vida com este, sob a condição de perfeita obediência1; proibindo-o de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, sob pena de morte2.

1 Gálatas 3:12
2 Gênesis 2:17

Pergunta 13: Será que os nossos pais continuam no estado em que foram criados?
Resposta: Nossos primeiros pais, sendo deixados à liberdade da sua própria vontade, caíram do estado em que foram criados, pecando contra Deus1, por comer o fruto proibido2.

1 Eclesiastes 7:29
2 Gênesis 3:6-8

Pergunta 14: O que é pecado?
Resposta: Pecado é qualquer falta de conformidade com, ou transgressão da lei de Deus1.

1 1 João 3:4

Pergunta 15: Todo o gênero humano caiu na primeira transgressão de Adão?
Resposta: O pacto foi feito com Adão, e não somente com ele, mas com toda a sua posteridade, toda a humanidade que descende dele por geração ordinária, pecou nele e caiu com ele na sua primeira transgressão1.

1 1 Coríntios 15:22; Romanos 5:12

Pergunta 16: Em que estado ficou a humanidade depois da Queda?
Resposta: A queda levou a humanidade a um estado de pecado e miséria1.

1 Romanos 5:18

Pergunta 17: Em que consiste a pecaminosidade do estado em que o homem caiu?
Resposta: A pecaminosidade do estado em que o homem caiu consiste na culpa do primeiro pecado de Adão1, na falta de retidão original2, e na corrupção de toda a sua natureza (isto é comumente chamado de pecado original)3 juntamente com todas as transgressões atuais que procedem dele4.

1 Romanos 5:19
2 Romanos 3:10
3 Efésios 2:1; Salmos 51:5
4 Mateus 15:19

Pergunta 18: Qual é a miséria do estado em que o homem caiu?
Resposta: Toda a humanidade, por sua Queda, perdeu a comunhão com Deus1, está sob Sua ira e maldição2, e assim se fez passível de todas as misérias nesta vida, à própria morte, e às dores do inferno para sempre3.

1 Gênesis 3:8, 24
2 Efésios 2:3; Gálatas 3:10
3 Romanos 6:23; Mateus 25:41

Pergunta 19: Deus deixou toda a humanidade perecer no estado de pecado e miséria?
Resposta: Deus tem, de Sua boa vontade desde toda a eternidade, eleito alguns para a vida eterna1, entrado em um pacto de graça para livrá-los do estado de pecado e miséria, e para trazê-los a um estado de salvação por meio de um Redentor2.

1 2 Tessalonicenses 2:13
2 Romanos 5:21

Pergunta 20: Quem é o Redentor dos eleitos de Deus?
Resposta: O único Redentor dos eleitos de Deus é o Senhor Jesus Cristo1, que sendo o Filho eterno de Deus, Se fez homem2, e assim foi e continua a ser Deus e homem em duas naturezas distintas que coexistem em uma única pessoa para sempre3.

1 1 Timóteo 2:5
2 João 1:14
3 1 Timóteo 3:16; Colossenses 2:9

Pergunta 21: Como Cristo, sendo o Filho de Deus, Se fez homem?
Resposta: Cristo, o Filho de Deus, tornou-se homem tomando para Si um verdadeiro corpo1, e uma alma racional2, sendo concebido pelo poder do Espírito Santo na Virgem Maria, e nascido dela3, contudo sem pecado4.

1 Hebreus 2:14
2 Mateus 26:38; Hebreus 4:15
3 Lucas 1:31, 35
4 Hebreus 7:26

Pergunta 22: Quais são os ofícios que Cristo executa como nosso Redentor?
Resposta: Cristo como nosso Redentor, executa os ofícios de um profeta1, de um sacerdote2, e de um rei3, tanto em Seu estado de humilhação quando em Seu estado de exaltação.

1 Atos 3:22
2 Hebreus 5:6
3 Salmos 2:6

Pergunta 23: Como Cristo executa o ofício de profeta?
Resposta: Cristo executa o ofício de profeta, revelando-nos1, pela Sua Palavra2, e Espírito Santo3, a vontade de Deus para a nossa salvação.

1 João 1:18
2 João 20:31
3 João 14:26

Pergunta 24: Como Cristo executa o ofício de sacerdote?
Resposta: Cristo executa o ofício de sacerdote, em Seu, uma vez, oferecer-Se em sacrifício para satisfazer a justiça Divina1, e para nos reconciliar com Deus2, e fazendo contínua intercessão por nós3.

1 Hebreus 9:28
2 Hebreus 2:17
3 Hebreus 7:25

Pergunta 25: Como Cristo executa o ofício de rei?
Resposta: Cristo executa o ofício de rei sujeitando-nos a Si mesmo1, ao nos governar e defender2, e em restringir e vencer todos os Seus e os nossos inimigos.

1 Salmos 110:3
2 Mateus 2:6; 1 Coríntios 15:25

Pergunta 26: Em que a humilhação de Cristo consiste?
Resposta: A humilhação de Cristo consistiu em Ele ter nascido, e isso em condições precárias1, nascido sob a lei2, sofrer as misérias desta vida3, a ira de Deus4, e a morte de um maldito na cruz5; em ser sepultado, e permanecer sob o poder da morte por um tempo6.

1 Lucas 2:7
2 Gálatas 4:4
3 Isaías 53:3
4 Mateus 27:46
5 Filipenses 2:8
6 Mateus 12:40

Pergunta 27: Em que consiste a exaltação de Cristo?
Resposta: A exaltação de Cristo consiste em Sua ressurreição dentre os mortos ao terceiro dia1, em subir ao céu e sentar-se à direita de Deus Pai2, e em vir para julgar o mundo no Último Dia3.

1 1 Coríntios 15:4
2 Marcos 16:19
3 Atos 17:31

Pergunta 28: Como somos feitos participantes da redenção adquirida por Cristo?
Resposta: Nós somos feitos participantes da redenção comprada por Cristo, através da aplicação eficaz desta a nós1 pelo Seu Espírito Santo2.

1 João 1:12
2 Tito 3:5-6

Pergunta 29: Como o Espírito aplica a nós a redenção adquirida por Cristo?
Resposta: O Espírito aplica-nos a redenção adquirida por Cristo, pela fé que é operada em nós1, e por esta nos une a Cristo em nosso chamado eficaz2.

1 Efésios 2:8
2 Efésios 3:17

Pergunta 30: O que é o chamado eficaz?
Resposta: O chamado eficaz é a obra do Espírito de Deus1 segundo a qual Ele nos convence de nosso pecado e miséria2, ilumina nossas mentes para o conhecimento de Cristo3, e renova as nossas vontades4, e nos persuade e nos capacita a nos apegarmos a Jesus Cristo que é oferecido gratuitamente a nós no Evangelho5.

1 2 Timóteo 1:9
2 Atos 2:37
3 Atos 26:18
4 Ezequiel 36:26
5 João 6:44-45

Pergunta 31: Quais os benefícios que aqueles que são chamados eficazmente participam nesta vida?
Resposta: Aqueles que são chamados eficazmente nesta vida participam dos benefícios da justificação1, adoção2, santificação, e dos vários benefícios que nesta vida o acompanham ou resultam do chamado eficaz3.

1 Romanos 8:30
2 Efésios 1:5
3 1 Coríntios 1:30

Pergunta 32: O que é justificação?
Resposta: A justificação é um ato da livre graça de Deus, onde Ele perdoa todos os nossos pecados1, e nos aceita como justos diante de Seus olhos2 somente pela justiça de Cristo imputada a nós3, e recebida somente pela fé4.

1 Romanos 3:24; Efésios 1:7
2 2 Coríntios 5:21
3 Romanos 5:19
4 Gálatas 2:16; Filipenses 3:9

Pergunta 33: O que é a adoção?
Resposta: A adoção é um ato de livre graça de Deus1, pela qual somos recebidos dentre o número dos filhos de Deus, e adquirimos direito a todos os privilégios dos tais2.

1 1 João 3:1
2 João 1:12; Romanos 8:17

Pergunta 34: O que é santificação?
Resposta: A santificação é a obra do Espírito de Deus1, pela qual somos renovados no novo homem, feito à imagem de Deus2, e somos mais e mais capacitados a morrer para o pecado e viver para a justiça2.

1 2 Tessalonicenses 2:13
2 Efésios 4:24
3 Romanos 6:11

Pergunta 35: Quais são os benefícios que nesta vida, acompanham ou seguem a justifi-cação, a adoção e a santificação?
Resposta: As bênçãos que nesta vida acompanham a justificação1, são a segurança do amor de Deus, paz de consciência, a alegria no Espírito Santo2, o crescimento da graça, e a perseverança nesta até o fim3.

1 Romanos 5:1, 2, 5
2 Romanos 14:17
3 Provérbios 4:18; 1 João 5:13; 1 Pedro 1:5

Pergunta 36: Que benefícios os crentes recebem de Cristo, quando morrem?
Resposta: As almas dos crentes, quando morrem, são aperfeiçoadas em santidade1, e passam imediatamente para a glória2, e seus corpos, estando ainda unidos a Cristo3, descansam em seus túmulos4 até a ressurreição5.

1 Hebreus 12:23
2 Filipenses 1:23; 2 Coríntios 5:8; Lucas 23:43
3 1 Tessalonicenses 4:14
4 Isaías 57:2
5 Jó 19:26

Pergunta 37: Que benefícios os crentes recebem de Cristo na ressurreição?
Resposta: Na ressurreição, os crentes sendo ressuscitados em glória1, serão abertamente reconhecidos e absolvidos no Dia do Juízo2, e serão perfeitamente abençoados tanto no corpo como na alma, e entrarão no pleno gozo de Deus3 por toda a eternidade4.

1 1 Coríntios 15:43
2 Mateus 10:32
3 1 João 3:2
4 1 Tessalonicenses 4:17

Pergunta 38: O que será feito com o ímpio após sua morte?
Resposta: As almas dos ímpios após sua morte serão lançadas nos tormentos do inferno1, e seus corpos jazerão em suas sepulturas até a ressurreição e julgamento do Grande Dia2.

1 Lucas 16:22-24
2 Salmos 49:14

Pergunta 39: O que acontecerá com os ímpios no dia do julgamento?
Resposta: No dia do juízo, os corpos dos ímpios serão ressuscitados para fora de suas sepulturas, para serem condenados, juntamente com as suas almas, a tormentos indescritíveis ao lado do Diabo e de seus anjos para sempre1.

1 Daniel 2:2; João 5:28-29; 2 Tessalonicenses 1:9; Mateus 25:41

Pergunta 40: O que Deus revelou ao homem para que fosse a regra de sua obediência a Ele?
Resposta: A primeira regra que Deus revelou ao homem para ser a regra de sua obediên-cia, é a lei moral1, que se resume nos dez mandamentos.

1 Deuteronômio 10:4; Mateus 19:17

Pergunta 41: Qual é a soma dos dez mandamentos?
Resposta: A soma dos dez mandamentos é amar ao Senhor nosso Deus com todo nosso coração, com toda a alma, com todas as nossas forças e com toda a nossa mente; e ao nosso próximo como a nós mesmos1.

1 Mateus 22:37-40

Pergunta 42: Qual é o primeiro mandamento?
Resposta: O primeiro mandamento é: “Não terás outros deuses diante de mim” [Êxodo 20:3].

Pergunta 43: O que é requerido no primeiro mandamento?
Resposta: O primeiro mandamento requer de nós que saibamos1 e reconheçamos que Deus é o único Deus verdadeiro, e nosso Deus2, e que O adoremos e O glorifiquemos em conformidade com isso3.

1 1 Crônicas 28:9
2 Deuteronômio 26:17
3 Mateus 4:10

Pergunta 44: Qual é o segundo mandamento?
Resposta: O segundo mandamento é: “[4] Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. [5] Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. [6] E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” [Êxodo 20:4-6].

Pergunta 45: O que é requerido no segundo mandamento?
Resposta: O segundo mandamento exige que recebamos, observemos1 e mantenhamos puros e em sua totalidade todos os cultos e ordenanças religiosas tal como Deus nos prescreveu em Sua Palavra2.

1 Deuteronômio 32:46; Mateus 28:20
2 Deuteronômio 12:32

Pergunta 46: O que é proibido no segundo mandamento?
Resposta: O segundo mandamento proíbe a adoração de Deus por meio de imagens1, ou qualquer outra forma não prescrita em Sua Palavra2.

1 Deuteronômio 4:15-16
2 Colossenses 2:18

Pergunta 47: Qual é o terceiro mandamento?
Resposta: O terceiro mandamento é: “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão” [Êxodo 20:7].

Pergunta 48: O que é requerido no terceiro mandamento?
Resposta: O terceiro mandamento requer o santo e reverente uso dos nomes de Deus1, bem como Seus títulos, atributos2, Ordenanças3, Palavra4, e obras5.

1 Salmos 29:2
2 Apocalipse 15:3-4
3 Eclesiastes 5:1
4 Salmos 138:2
5 Jó 36:24; Deuteronômio 28:58-59

Pergunta 49: Qual é o quarto mandamento?
Resposta: O quarto mandamento é: “[8] Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. [9] Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. [10] Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. [11] Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o Senhor o dia do sábado, e o santificou” [Êxodo 20:8-11].

Pergunta 50: O que é requerido no quarto mandamento?
Resposta: O quarto mandamento exige a santa guarda para Deus de um determinado tempo que Ele prescreveu em Sua Palavra, expressamente um dia inteiro em cada sete, para ser um santo Sabath para Ele mesmo1.

1 Levítico 19:30; Deuteronômio 5:12.

Pergunta 51: Como o Sabath deve ser santificado?
Resposta: O Sabath deve ser santificado por um santo repouso por todo aquele dia, mesmo daqueles atividades mundanas e recreações que são lícitas em outros dias1, e durante este dia, todo o tempo deve ser gasto em exercícios públicos e particulares de adoração a Deus2, com exceção daquele tempo que for destinado a praticar obras necessidade e misericórdia3.

1 Levítico 23:3
2 Salmos 92:1-2; Isaías 58:13-14
3 Mateus 12:11-12

Pergunta 52: Qual é o quinto mandamento?
Resposta: O quinto mandamento é: “Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá” [Êxodo 20:12].

Pergunta 53: O que é requerido no quinto mandamento?
Resposta: O quinto mandamento requer a preservação da honra e exercício dos deveres que pertencem a cada um em suas várias posições e relacionamentos como superiores1, inferiores2, ou iguais3.

1 Efésios 5:21-22, 6:1; 5 Romanos 13:1
2 Efésios 6:9
3 Romanos 12:10

Pergunta 54: Qual é a razão anexada ao quinto mandamento?
Resposta: A razão anexa ao quinto mandamento é uma promessa de longa vida e prosperidade – na medida em que servirá para a glória de Deus, e para seu próprio bem – a todos aqueles que guardam este mandamento1.

1 Efésios 6:2-3

Pergunta 55: Qual é o sexto mandamento?
Resposta: O sexto mandamento é: “Não matarás” [Êxodo 20:13].

Pergunta 56: O que é proibido no sexto mandamento?
Resposta: O sexto mandamento proíbe o tirar a nossa própria vida1, ou a vida do nosso próximo injustamente2, ou qual coisa semelhante a isto3.

1 Atos 16:28
2 Gênesis 9:6
3 Provérbios 24:11-12

Pergunta 57: Qual é o sétimo mandamento?
Resposta: O sétimo mandamento é: “Não adulterarás” [Êxodo 20:14].

Pergunta 58: O que é proibido no sétimo mandamento?
Resposta: O sétimo mandamento proíbe todos os pensamentos1, palavras2, e ações3 impuros.

1 Mateus 5:28; Colossenses 4:6
2 Efésios 5:4; 2 Timóteo 2:22
3 Efésios 5:3

Pergunta 59: Qual é o oitavo mandamento?
Resposta: O oitavo mandamento é: “Não furtarás” [Êxodo 20:15].

Pergunta 60: O que é proibido no oitavo mandamento?
Resposta: O oitavo mandamento proíbe tudo o que embarace ou possa injustamente embaraçar nossas próprias posses1 (ou de nossos próximos), ou bens exteriores2.

1 1 Timóteo 5:8; Provérbios 28:19, 21:6
2 Efésios 4:28

Pergunta 61: Qual é o nono mandamento?
Resposta: O nono mandamento é: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo” [Êxodo 20:16].

Pergunta 62: O que é requerido no nono mandamento?
Resposta: O nono mandamento requer a manutenção e promoção da verdade entre homem e homem1, e sobre nós mesmos2, e bom nome de nosso próximo3, especialmente em testemunhos4

1 Zacarias 8:16
2 1 Pedro 3:16; Atos 25:10
3 3 João 1:12
4 Provérbios 14:5, 25

Pergunta 63: Qual é o décimo mandamento?
Resposta: O décimo mandamento é: “Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo” [Êxodo 20:17].

Pergunta 64: O que é proibido no décimo mandamento?
Resposta: O décimo mandamento proíbe todo o descontentamento com as nossas próprias posses1, inveja ou murmuração para com os bens de nosso próximo2, e todas as emoções e afeições desordenadas quanto a tudo o que é dele3.

1 1 Coríntios 10:10
2 Gálatas 5:26
3 Colossenses 3:5

Pergunta 65: Alguém é capaz de guardar perfeitamente os mandamentos de Deus?
Resposta: Nenhum mero homem, desde a Queda, é capaz de guardar perfeitamente os mandamentos de Deus durante sua vida1, antes ele os quebra diariamente em pensa-mento2, palavra3, e ação4.

1 Eclesiastes 7:20
2 Gênesis 8:21
3 Tiago 3:8
4 Tiago 3:2

Pergunta 66: Todas as transgressões da lei são igualmente hediondas?
Resposta: Alguns pecados em si mesmos, e em razão de vários agravos, são mais odiosos à vista de Deus do que outros1.

1 João 19:11; 1 João 5:16-17

Pergunta 67: O que todo pecado merece?
Resposta: Cada pecado merece a ira e a maldição de Deus, tanto nesta vida quanto na que há de vir1.

1 Efésios 5:6; Salmos 11:6

Pergunta 68: Como podemos escapar da ira e da maldição que é devida a nós por causa do pecado?
Resposta: Para escapar da ira e da maldição de Deus que são devidas a nós por causa do pecado, temos que crer no Senhor Jesus Cristo1, confiando nEle somente, em Seu sangue e justiça. Esta fé é acompanhada pelo arrependimento em relação ao passado2, e leva à santidade no futuro.

1 João 3:16
2 Atos 20:21

Pergunta 69: O que é a fé em Jesus Cristo?
Resposta: A Fé em Jesus Cristo é uma graça salvadora1, pela qual O recebemos2, e confiamos somente nEle para a salvação3, tal como Ele é apresentado no Evangelho4.

1 Hebreus 10:39
2 João 1:12
3 Filipenses 3:9
4 Isaías 33:22

Pergunta 70: O que é o arrependimento para a vida?
Resposta: Arrependimento para a vida é uma graça salvadora1, pela qual um pecador, tomado por um verdadeiro senso de seu pecado2, e apreensão da misericórdia de Deus em Cristo3, com tristeza por causa, e ódio de seus pecados, converte-se destes a Deus4, com firme propósito de esforçar-se por uma nova obediência5.

1 Atos 11:18
2 Atos 2:37
3 Joel 2:13
4 Jeremias 31:18-19
5 Salmos 119:59

Pergunta 71: Quais são os meios exteriores pelos quais o Espírito Santo nos comunica os benefícios da redenção?
Resposta: Os meios externos e ordinários pelos quais o Espírito Santo nos comunica os benefícios da redenção de Cristo, são a Palavra, através da qual as almas são geradas para a vida espiritual; o Batismo, a Ceia do Senhor, a Oração e a Meditação, por todos estes os crentes são mais edificados em sua santíssima fé1.

1 Atos 2:41-42; Tiago 1:18

Pergunta 72: Como a Palavra é feita eficaz para a salvação?
Resposta: O Espírito de Deus faz da leitura, mas especialmente da pregação da Palavra, meios eficazes para convicção e conversão de pecadores1, e os edifica em santidade e consolação2, por meio da fé para a salvação3.

1 Salmos 19:7
2 1 Tessalonicenses 1:6
3 Romanos 1:16

Pergunta 73: Como a Palavra deve ser lida e ouvida para que se torne eficaz para a salvação?
Resposta: Para que a Palavra se torne eficaz para a salvação, devemos ouvi-la com diligência1, preparação2, e oração3; recebê-la com fé4, e amor5, escondê-la em nossos corações6, e praticá-la em nossas vidas7.

1 Provérbios 8:34
2 1 Pedro 2:1-2
3 Salmos 119:18
4 Hebreus 4:2
5 2 Tessalonicenses 2:10
6 Salmos 119:11
7 Tiago 1:25

Pergunta 74: Como o Batismo e a Ceia do Senhor se tornam úteis espiritualmente?
Resposta: O Batismo e a Ceia do Senhor se tornam úteis espiritualmente, não por alguma virtude em si mesmos, ou naqueles que os administram1, mas somente pela bênção de Cristo2, e pela obra do Espírito naqueles que os recebem pela fé3.

1 1 Coríntios 3:7; 1 Pedro 3:21
2 1 Coríntios 3:6
3 1 Coríntios 12:13

Pergunta 75: O que é o Batismo?
Resposta: O Batismo é uma ordenança do Novo Testamento, instituído por Jesus Cristo1, para ser para a pessoa batizada um sinal de sua comunhão com Ele, em Sua morte, sepultamento e ressurreição2, deve ser também como um símbolo de seu ser enxertado nEle3, da remissão dos pecados4, e de sua entrega pessoal a Deus, por meio de Jesus Cristo, para viver e andar em novidade de vida5.

1 Mateus 28:19
2 Romanos 6:3; Colossenses 2:12
3 Gálatas 3:27
4 Marcos 1:4; Atos 22:16
5 Romanos 6:4-5

Pergunta 76: A quem o Batismo deve ser administrado?
Resposta: O Batismo deve ser administrado a todos aqueles que realmente professam arrependimento para com Deus1, e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, e para mais ninguém além destes.

1 Atos 2:38; Mateus 3:6; Marcos 16:16; Atos 8:12, 36, 37; 10:47-48


Pergunta 77: Os filhos dos que professam ser crentes devem ser batizados?
Resposta: Os bebês mesmo que sejam filhos de crentes professos não devem ser batizados, pois não existe nenhum comando nem exemplo nas Sagradas Escrituras para o seu batismo1.

1 Êxodo 23:13; Provérbios 30:6.

Pergunta 78: Qual é o modo correto de administrar o Batismo?
Resposta: O Batismo é devidamente administrado por imersão, ou mergulhando todo o corpo da pessoa na água1, em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, de acordo com a instituição de Cristo e a prática dos apóstolos2, e não por aspersão ou derramamento de água, ou mergulhando somente alguma parte do corpo, segundo a tradição dos homens3.

1 Mateus 3:16; João 3:23
2 Mateus 28:19-20
3 João 4:1-2; Atos 8:38-39

Pergunta 79: Qual é o dever dos que são corretamente batizados?
Resposta: É dever dos que são corretamente batizados, entregarem-se a alguma particular e ordenada Igreja de Jesus Cristo1, de modo que andem em todos os mandamentos e preceitos do Senhor sem ter do que se envergonhar2.

1 Atos 2:47; Atos 9:26; 1 Pedro 2:5
2 Lucas 1:6

Pergunta 80: O que é a Ceia do Senhor?
Resposta: A Ceia do Senhor é uma ordenança do Novo Testamento, instituído por Jesus Cristo; pelo que, por dar e receber pão e vinho, de acordo com a Sua designação, Sua morte é anunciada1, e os receptores dignos são, não por uma forma corporal ou carnal, mas pela fé, feitos participantes de Seu corpo e sangue, com todos os seus benefícios, para a sua nutrição espiritual, e crescimento na graça2.

1 1 Coríntios 11:23-26
2 1 Coríntios 10:16

Pergunta 81: O que é necessário para a digna recepção da Ceia do Senhor?
Resposta: É exigido daqueles que desejam participar dignamente da Ceia do Senhor, que examinem-se a si mesmos quanto ao seu conhecimento para discernirem o corpo do Senhor1, quanto a sua fé para alimentarem-se dEle2, quanto ao seu arrependimento3, Amor4, e nova obediência5, pois aquele que vem indignamente à mesa do Senhor, come e bebe juízo para si mesmo6.

1 1 Coríntios 11:28-29
2 2 Coríntios 13:5
3 1 Coríntios 11:31
4 1 Coríntios 11:18-20
5 1 Coríntios 5:8
6 1 Coríntios 11:27-29

Pergunta 82: O que se entende pelas palavras, “até que Ele venha”, que são usadas pelo apóstolo Paulo em referência à Ceia do Senhor?
Resposta: Estas palavras nos ensinam claramente que nosso Senhor Jesus Cristo virá uma segunda vez; e esta é a alegria e esperança de todos os crentes1.

1 Atos 1:11; 1 Tessalonicenses 4:16.

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FONTES:

• Um Catecismo Puritano Compilado por C. H. Spurgeon: CCEL.org

Título Original: A Puritan Catechism

As citações bíblicas desta tradução são da versão ACRF (Almeida Revisada Corrigida e Fiel)

Tradução e Revisão por William Teixeira e Camila Almeida


A Fonte da Doutrina da Eleição – Arthur Walkington Pink

Precisamente falando, a eleição é um ramo da predestinação, sendo este último um termo mais abrangente do que o anterior. Predestinação diz respeito a todos os seres, coisas e eventos; mas a eleição é restrita aos seres racionais – anjos e humanos. Como a palavra predestinação significa que Deus desde toda a eternidade, soberanamente ordenou e imutavelmente determinou a história e o destino de todas e cada uma de Suas criaturas. Entretanto neste estudo nos limitaremos à predestinação enquanto ela se relaciona ou diz respeito às criaturas racionais. E aqui também deve ser notado uma outra distinção. Não pode haver uma eleição sem uma rejeição, uma eleição sem uma reprovação, uma escolha sem uma recusa. Como o Salmo 78 expressa, “Além disto, recusou o tabernáculo de José, e não elegeu a tribo de Efraim. Antes elegeu a tribo de Judá; o monte Sião, que ele amava” (vv. 67-68). Assim a predestinação inclui tanto a reprovação (a preterição ou passar pelos não-eleitos, e então o preordena-los para a condenação – Judas 4 – por causa de seus pecados) e a eleição para a vida eterna, o primeiro destes nós não discutiremos agora.

A doutrina da eleição significa, então, que Deus escolheu alguns em Sua mente tanto entre os anjos (1 Timóteo 5:21) e dentre os homens, e ordenou-lhes para a vida eterna e bem-aventurança; que antes que Ele os criasse, Ele decidiu o destino deles, assim como um construtor desenha seus planos e determina todas as partes do edifício antes que qualquer um dos materiais sejam reunidos para a realização de seu projeto. Eleição pode ser assim definida: é a parte do conselho de Deus pelo qual Ele, desde toda a eternidade, propôs em Si mesmo mostrar a Sua graça sobre algumas de Suas criaturas. Isto foi feito eficaz por um decreto definitivo relacionado a eles. Agora, em cada decreto de Deus três coisas devem ser consideradas: o início, a matéria ou substância, o fim ou propósito. Vamos oferecer algumas observações sobre cada uma.

O início do decreto é a vontade de Deus. Origina-se unicamente em Sua própria determinação soberana. Quanto à determinação da condição de Suas criaturas, a própria vontade de Deus é a causa única e absoluta da mesma. Como não há nada acima de Deus para governá-lO, então não há nada fora dEle mesmo que seja de algum modo uma causa impulsiva a Ele; dizer o contrário é fazer da vontade de Deus, uma vontade totalmente nula. Nisto Ele é infinitamente exaltado acima de nós, pois não somos apenas sujeitos a Alguém superior de nós, mas nossas vontades estão sendo constantemente modificadas e dispostas por causas externas. A vontade de Deus não poderia ter nenhuma causa fora de si mesma, ou de outro modo haveria algo anterior a si mesma (pois uma causa sempre precede o efeito) e algo mais excelente (pois a causa é sempre superior ao efeito), e, portanto, Deus não seria o Ser independente que Ele é.

A matéria ou substância de um decreto Divino é o propósito de Deus para manifestar um ou mais de Seus atributos ou perfeições. Isto é verdade para todos os decretos Divinos, mas como há variedade nos atributos de Deus, assim há nas coisas que Ele decreta trazer à existência. Os dois principais atributos que Ele exerce sobre as Suas criaturas racionais são a Sua graça e Sua justiça. No caso dos eleitos, Deus determinou exemplificar a riqueza da Sua maravilhosa graça, mas no caso dos não-eleitos, Ele achou por bem demonstrar a Sua justiça e severidade – retendo Sua graça deles, porque foi a Sua boa vontade fazê-lO. No entanto, não deve ser admitido, sequer por um momento, que este último foi um ponto de crueldade em Deus, pois Sua natureza não é somente graça, nem somente justiça, mas os dois juntos; e, portanto, na determinação de exibir os dois não poderia haver um ponto de injustiça.

O fim ou propósito de cada decreto Divino é a própria glória de Deus, pois nada menos do que isso poderia ser digno dEle mesmo. Como Deus jura por Si mesmo porque Ele não pode jurar por ninguém maior, assim por que um maior e mais grandioso fim não pode ser proposto além de Sua própria glória, Deus estabeleceu isto como o fim supremo de todos os Seus decretos e obras. “O Senhor fez todas as coisas para atender aos seus próprios desígnios” (Provérbios 16:4), para a Sua própria glória. Como todas as coisas são dEle como a primeira causa, então todas as coisas são para Ele (Romanos 11:36), como a finalidade última. O bem de Suas criaturas é apenas o fim secundário; Sua própria glória é o fim supremo, e todo o restante é subordinado a isso. No caso dos eleitos, é a maravilhosa graça de Deus que será magnificada; no caso dos réprobos, Sua pura justiça será glorificada. O que se segue neste capítulo será em grande parte uma ampliação destes três pontos.

A fonte da eleição, então, é a vontade de Deus. Deve ser malmente necessário salientar que por “Deus”, queremos dizer, Pai, Filho, e Espírito Santo. Embora existam três pessoas na Divindade, há apenas uma natureza indivisível comum a todos Eles, e assim, apenas uma vontade. Eles são um, e Eles concordam em um: “Mas, se ele resolveu alguma coisa, quem então o desviará?” (Jó 23:13). Que também seja pontuado que a vontade de Deus não é uma coisa à parte de Deus, nem deve ser considerada apenas como uma parte de Deus: a vontade de Deus é o próprio Deus disposto: ou seja, se assim podemos dizer, Sua própria natureza em atividade, de forma que a Sua vontade é a Sua própria essência. Nem a vontade de Deus é sujeita a qualquer flutuação ou mudança: quando afirmamos que a vontade de Deus é imutável, estamos apenas dizendo que no próprio Deus “não há mudança nem sombra de variação” (Tiago 1:17). Por isso, a vontade de Deus é eterna, pois desde que o próprio Deus não teve princípio, e desde que a Sua vontade é a Sua própria natureza, então Sua vontade deve ser eterna.

Para continuar e dar um passo adiante. A vontade de Deus é absolutamente livre, não influenciada e não controlada por qualquer coisa fora de dEle mesmo. Isso aparece a partir da criação do mundo, bem como de tudo que nele há. O mundo não é eterno, mas foi feito por Deus, mas se esse seria ou não seria criado, foi determinado por Ele mesmo somente. O momento em que ele foi feito, se mais cedo ou mais tarde; o seu tamanho, se maior ou menor; a duração do mesmo, se para uma época ou para sempre; a condição dele, se ele permaneceria “muito bom” ou seria contaminado pelo pecado; tudo foi determinado pelo decreto soberano do Altíssimo. Houvesse Ele se agradado, Deus poderia ter trazido este mundo à existência milhões de anos mais cedo do que Ele o fez. Se assim Lhe aprouvesse, Ele poderia ter feito isso e todas as coisas nele em um instante do tempo, em vez de em seis dias e noites. Houvesse Lhe agradado, Ele podia ter limitado a família humana a alguns milhares ou centenas, ou tê-la feito milhares de vezes maior do que é. Nenhuma outra razão pode ser atribuída ao porquê, como e quando Deus o criou assim como ele é, além de Sua própria vontade imperial.

A vontade de Deus era absolutamente livre em relação à eleição. Na escolha de um povo para a vida eterna e glória, não havia nada fora de Si mesmo, que moveu Deus a formar um tal propósito. Como Ele declara expressamente: “Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Romanos 9:15), a linguagem não poderia afirmar mais definitivamente o caráter absoluto da soberania Divina nesta questão. “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Efésios 1:5), aqui novamente tudo se resolve no mero prazer de Deus. Ele concede Seus favores ou os retém como agrada a Si mesmo. Nem Ele fica em qualquer necessidade de que vindiquemos o Seu procedimento. O Todo-Poderoso não deve ser levado até o tribunal da razão humana, em vez de tentar justificar a elevada soberania de Deus, nós somos apenas obrigados a acreditar nela, segundo a autoridade de Sua própria Palavra. “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve” (Mateus 11:25-26), o Senhor Jesus estava contente em descansar ali, e assim devemos estar.

Alguns dos expositores mais hábeis desta profunda verdade afirmaram que o amor de Deus é a causa motriz de nossa eleição, citando “em amor, nos predestinou” (Efésios 1:4-5); ainda assim fazendo, nós pensamos que eles são imputáveis de uma ligeira imprecisão ou afastamento da regra de fé. Embora concordando plenamente que as duas últimas palavras de Efésios 1:4 (tal como estão na Versão Autorizada [King James]) pertencem adequadamente ao início do versículo 5, no entanto, deve ser cuidadosamente observado que o versículo 5 não está falando de nossa eleição original, mas de nossa predestinação para a adoção de filhos: as duas coisas são totalmente distintas, atos separados da parte de Deus, o segundo seguindo o primeiro. Há uma ordem nos conselhos Divinos, como existe nas obras da criação de Deus, e é tão importante prestar atenção no que se diz sobre o primeiro, quanto é observar o procedimento Divino nos seis dias de trabalho de Gênesis 1.

Um objeto deve existir ou subsistir antes que possa ser amado. Eleição foi o primeiro ato na mente de Deus, no qual Ele escolheu as pessoas dos eleitos para que sejamos santos e irrepreensíveis (v. 4). Predestinação foi o segundo ato de Deus, pelo que Ele ratificou por decreto a condição daqueles a quem Sua eleição havia dado uma verdadeira subsistência diante dEle. Tendo os escolhidos em Seu amado Filho para uma perfeição de santidade e justiça, o amor de Deus seguiu adiante deles, e lhes concedeu a mais importante e maior bênção que Seu amor pode conferir, torná-los Seus filhos por adoção. Deus é amor, e todo o Seu amor é exercido sobre Cristo e sobre aqueles nEle. Tendo feito a eleição de Seus próprios, pela soberana escolha de Sua vontade, o coração de Deus foi estabelecido sobre eles como o Seu tesouro peculiar.

Outros atribuem a nossa eleição à graça de Deus, citando “Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça” (Romanos 11:5). Mas aqui novamente devemos distinguir entre coisas que diferem, ou seja, entre o início de um decreto Divino e sua matéria ou substância. É verdade, abençoadamente verdade, que os eleitos são os objetos sobre os quais a graça de Deus é especialmente exercitada, mas isso é outra coisa bem diferente de dizer que a Sua eleição teve origem na graça de Deus. A ordem a que estamos aqui insistindo é claramente expressa em Efésios 1. Em primeiro lugar, “Como também [Deus] nos elegeu nele [Cristo] antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis [justos] diante dele” (v. 4): esse foi o ato inicial na mente Divina. Em segundo lugar, “em amor, e nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo”. E isso “de acordo com o beneplácito de sua vontade” (v. 5), isso foi Deus valorizando aqueles sobre quem Ele havia estabelecido o Seu coração. Em terceiro lugar, “Para louvor da glória de sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado” (v. 6), esse foi tanto o sujeito e o propósito do decreto de Deus: a manifestação e magnificação de Sua graça.

“A eleição da graça” (Romanos 11:5), portanto, não deve ser entendida como o genitivo de origem, mas como o objeto ou característica, como em “Rosa de Saron”, “A árvore da vida”, “os filhos da desobediência”. A eleição da igreja, como todos os Seus atos e obras, devem ser traçados de volta à não reprimida e irreprimível vontade de Deus. Em nenhum outro lugar nas Escrituras a ordem dos conselhos Divinos é assim definitivamente revelado como em Efésios 1, e em nenhum outro lugar é tão forte a ênfase sobre a vontade de Deus. Ele predestinou para filhos de adoção “segundo o beneplácito de sua vontade” (v. 5). Ele fez conhecido a nós “o mistério da sua vontade” (não a “graça”) e isso “segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo” (v. 9). E então, como se isso não fosse suficientemente explícito, a passagem termina com “Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade; Com o fim de sermos para louvor da sua glória” (vv. 11, 12).

Detenhamo-nos por mais um momento nesta notável expressão: “daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” (v. 11). Observe bem que não é: “o conselho de seu próprio coração”, nem mesmo “o conselho da sua própria mente”, mas da VONTADE: não “a vontade de seu próprio conselho”, mas “o conselho da sua própria vontade”. Nisto Deus difere radicalmente de nós. Nossas vontades são influenciadas pelos pensamentos de nossas mentes e modificam-se pelos afetos do nosso coração; mas não é assim com Deus. “Segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra” (Daniel 4:35). A vontade de Deus é suprema, determinando o exercício de todas as Suas perfeições. Ele é infinito em sabedoria, mas a Sua vontade regula as operações da mesma. Ele é cheio de misericórdia, mas a Sua vontade determina quando e para quem Ele a demonstra. Ele é inflexivelmente justo, mas a Sua vontade decide se a Sua justiça deve ou não ser expressada: observe cuidadosamente que não é: “Quem ao culpado não pode ter por inocente” (como é tão comumente mal interpretado), mas “que ao culpado não tem por inocente” (Êxodo 34:7). Deus em primeiro lugar quer ou determina que uma coisa será, em seguida, Sua sabedoria efetua a execução do mesmo.

Apontemos agora o que tem sido desmentido. De tudo o que foi dito acima, é claro, primeiramente, que as nossas boas obras não são o que induziu Deus a nos eleger, pois esse ato passou na mente Divina na eternidade, muito antes que nós tivéssemos qualquer existência real. Veja como este ponto é posto de lado em: “Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama)” (Romanos 9:11). Novamente, lemos: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” (Efésios 2:10). Desde que, então, fomos eleitos antes de nossa criação, então, as boas obras não poderiam ser a causa motriz da mesma: não, elas são os frutos e os efeitos da eleição.

Em segundo lugar, a santidade dos homens, seja no princípio ou na prática, ou ambos, não é a causa motriz da eleição, pois, como Efésios 1:4 tão claramente declara: “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele”, não porque éramos santos, mas para que sejamos santos. Que nós “fôssemos santos” era algo futuro, que segue sobre isso, e é o meio para um outro fim, ou seja, a nossa salvação, para o que os homens são escolhidos: “por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade” (2 Tessalonicenses 2:13). Desde que, então, a santificação do povo de Deus que foi o propósito de Sua eleição, não poderia ser a causa da mesma. “Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1 Tessalonicenses 4:3.), não meramente a aprovação da vontade de Deus, como sendo agradável à Sua natureza; nem meramente a Sua vontade preceptiva, conforme exigido pela Lei; mas a Sua vontade decretiva, Seu conselho determinado.

Em terceiro lugar, nem a fé é a causa da nossa eleição. Como ela poderia ser? Ao longo de seu estado não-regenerado, todos os homens estão em uma condição de incredulidade, vivendo neste mundo sem Deus e sem esperança. E quando tivemos fé, não foi de nós mesmos, ou de nossa bondade, poder ou vontade. Não, foi um dom de Deus (Efésios 2:9), e a operação do Espírito (Colossenses 2:12), que flui de Sua graça. Está escrito: “Todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48), e não “todos que creram, foram ordenados para a vida eterna”. Uma vez que, então, a fé brota da graça Divina, a fé não pode ser a causa de nossa eleição. A razão pela qual os outros homens não creem, é porque eles não são as ovelhas de Cristo (João 10:26); o motivo pelo qual alguém crê é porque Deus lhe dá a fé, e por isso é chamada “a fé dos eleitos de Deus” (Tito 1:1).

Em quarto lugar, não é a previsão de Deus dessas coisas nos homens que O levou a elegê-los. A presciência de Deus do futuro está fundamentada sobre a determinação de Sua vontade em relação a ele. O decreto Divino, a presciência Divina e a predestinação Divina é a ordem estabelecida nas Escrituras. Em primeiro lugar, “que são chamados segundo o seu propósito”; segundo, “por que os que dantes conheceu”; terceiro, “também os predestinou” (Romanos 8:28-29). O decreto de Deus, como precedente de Sua presciência também é afirmado em “a este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus” (Atos 2:23). Deus prevê tudo o que acontecerá, porque Ele ordenou tudo o que há ocorrer; então, é colocar a carroça na frente dos bois quando fazemos da presciência a causa da eleição de Deus,

Em conclusão, que seja dito que a finalidade de Deus em Seu decreto da eleição é a manifestação de Sua própria glória, mas antes de entrar em detalhes sobre este ponto citaremos várias passagens que estabelecem amplamente o fato em si. “Sabei, pois, que o Senhor separou para si aquele que é piedoso; o Senhor ouvirá quando eu clamar a ele” (Salmos 4:3). “Separou” aqui significa escolheu ou apartou do restante; “aquele que é piedoso” refere-se ao próprio Davi (Salmos 89:19-20); “para si mesmo”, e não apenas para o trono e o reino de Israel. “Porque o Senhor escolheu para si a Jacó, e a Israel para seu próprio tesouro” (Salmos 135:4). “[...] porque porei águas no deserto, e rios no ermo, para dar de beber ao meu povo, ao meu eleito. A esse povo que formei para mim; o meu louvor relatarão” (Isaías 43:20-21), o que é paralelo com Efésios 1:5-6. Assim, no Novo Testamento, quando aprouve a Cristo dar a Ananias um relato da conversão de Seu amado Paulo, ele disse, “Vai, porque este é para mim um vaso escolhido” (Atos 9:15). Mais uma vez, “Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram os joelhos a Baal” (Romanos 11:4), o que é explicado no versículo seguinte como “um remanescente, segundo a eleição da graça”.

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♦ Este texto é o capítulo 2  “Its Source” do Livro The Doctrine of Election, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: The Doctrine of Election
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Amanda Ramalho e C. Almeida │ Revisão por Camila e William


Introdução à Doutrina da Eleição – Arthur Walkington Pink

Eleição é uma doutrina fundamental. No passado, muitos dos professores mais hábeis estavam acostumados a começar sua teologia sistemática, com uma apresentação dos atributos de Deus, e, em seguida, uma contemplação de Seus decretos eternos; e é nossa examinada convicção, após ler os escritos de muitos de nossos modernos, que o método seguido por seus antecessores não pode ser melhorado. Deus existia antes do homem, e Seu propósito eterno longamente antecedeu Suas obras no tempo. “Conhecidas por Deus são todas as suas obras desde o princípio do mundo” (Atos 15:18). Os conselhos divinos vieram antes da criação. Como um construtor desenha seus planos antes de começar a construir, assim o grande Arquiteto predestinou tudo antes que uma única criatura fosse chamada à existência. Deus também não manteve isso em segredo trancado em Seu próprio seio; aprouve a Ele dar a conhecer em Sua Palavra os conselhos eternos da Sua graça, Seu projeto na mesma, e a grande finalidade que Ele tem em vista.

Quando um edifício está em curso de construção, espectadores muitas vezes não conseguem perceber a razão para muitos dos detalhes. Até agora, eles não discernem nenhuma ordem ou propósito; tudo parece estar em confusão. Mas, se eles pudessem examinar cuidadosamente o “plano” do construtor e visualizar a produção acabada, muito do que era confuso, se tornaria claro para eles. É o mesmo com a realização do propósito eterno de Deus. A menos que estejamos familiarizados com os Seus decretos eternos, a história continua a ser um enigma insolúvel. Deus não está trabalhando de forma aleatória: o evangelho não foi enviado em nenhuma missão incerta: o resultado final no conflito entre o bem e o mal não foi deixado indeterminado; quantos serão salvos ou perdidos não depende da vontade da criatura. Tudo foi infalivelmente determinado e imutavelmente fixado por Deus desde o princípio, e tudo o que acontece no tempo é apenas o cumprimento do que foi ordenado na eternidade.

A grande verdade da eleição, então, leva-nos de volta para o início de todas as coisas. A Eleição precedeu a entrada do pecado no universo, a queda do homem, o advento de Cristo, e a proclamação do evangelho. A correta compreensão da mesma, especialmente em sua relação com a aliança eterna, é absolutamente essencial se quisermos ser preservados de erro fundamental. Se a própria fundação estiver com defeito, então o edifício construído sobre ele não pode ser sólido; e se erramos em nossas concepções desta verdade básica, então na mesma proporção será a imprecisão da nossa compreensão de todas as outras verdades. As relações de Deus com Judeus e Gentios, Seu objetivo em enviar Seu Filho ao mundo, Seu projeto por meio do evangelho, sim, todo os Seus tratos providenciais, não podem ser vistos em sua devida perspectiva até que eles sejam vistos à luz da Sua eleição eterna. Isso se tornará mais evidente à medida que prosseguimos.

Esta é uma doutrina difícil, e isto em três aspectos. Em primeiro lugar, no entendimento dela. A menos que tenhamos o privilégio de sentar-nos sob o ministério de algum servo ensinado pelo Espírito de Deus, que nos apresente a verdade de forma sistemática, um grande esforço e empenho são necessários para o exame das Escrituras, de modo que possamos coletar e tabular suas declarações dispersas sobre este assunto. Não agradou ao Espírito Santo nos dar uma definição completa e ordenada da doutrina da eleição, mas sim “um pouco aqui, um pouco ali” – na história típica, em salmo e profecia, na grandiosa oração de Cristo (João 17), nas epístolas dos apóstolos. Em segundo lugar, a aceitação da mesma. Isto apresenta uma maior dificuldade, pois quando a mente percebe que as Escrituras revelam a mesma, o coração é relutante em receber uma verdade tão humilhante e abatedora da carne. Quão ardentemente precisamos orar a Deus para subjugar nossa inimizade contra Ele e nosso preconceito contra a Sua verdade. Em terceiro lugar, na proclamação da mesma. Nenhum iniciante é competente para apresentar o assunto em sua proporção e perspectiva escriturísticas.

Mas, não obstante, essas dificuldades não devem desencorajar, e menos ainda deter-nos de um esforço honesto e sério para entender e sinceramente receber tudo o que Deus Se agradou revelar nela. Dificuldades são projetadas para nos humilhar, para nos exercitar, para nos fazer sentir nossa necessidade da sabedoria do alto. Não é fácil chegar a uma compreensão clara e adequada de qualquer uma das grandes doutrinas da Escritura Sagrada, e Deus nunca pretendeu que fosse assim. A verdade tem de ser “comprada” (Provérbios 23:23); infelizmente tão poucos estão dispostos a pagar o preço – dedicar, em oração, ao estudo da Palavra o tempo desperdiçado em jornais ou recreações ociosas. Estas dificuldades não são insuperáveis​​, pois o Espírito foi dado ao povo de Deus para guiá-los em toda a verdade. Igualmente assim para o ministro da Palavra: uma espera humilde a Deus, juntamente com um esforço diligente para ser um obreiro que não tem do que se envergonhar, que, no devido tempo servirá para expor esta verdade para a glória de Deus e para a bênção de seus ouvintes.

É uma doutrina importante, como é evidente a partir de várias considerações. Talvez possamos expressar mais impressionantemente a importância desta verdade, apontando que, à parte da eterna eleição nunca teria havido qualquer Jesus Cristo e, portanto, não haveria evangelho divino; porque, se Deus não tivesse escolhido um povo para a salvação, Ele nunca teria enviado o Seu Filho; e se Ele não tivesse enviado nenhum Salvador, ninguém seria salvo. Assim, o próprio evangelho se originou nesta questão vital da eleição. “Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação” (2 Tessalonicenses 2:13). E por que devemos “dar graças”? Porque a eleição é a raiz de todas as bênçãos, na nascente de cada misericórdia que a alma recebe. Se a eleição for tirada, tudo é levado embora, pois aqueles que têm qualquer espécie de bênçãos espirituais são os que têm todas as bênçãos espirituais “como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo” (Efésios 1:3-4).

Foi bem dito por Calvino, “Nós nunca seremos claramente convencidos, como deveríamos ser, que a nossa salvação flui da fonte da misericórdia gratuita de Deus, até estarmos familiarizados com a Sua eleição eterna, que ilustra a graça de Deus, por esta comparação; que Ele não adota todos indiscriminadamente para a esperança da salvação, mas Ele dá a alguns o que Ele recusa a outros. Ignorância deste princípio evidentemente desvia a glória divina, e diminui a real humildade. Se, então, precisamos lembrar que a origem da eleição prova que não obtemos a salvação de nenhuma outra fonte além daquela mera boa vontade de Deus, então aqueles que desejam extinguir este princípio fazem todo o possível para obscurecer o que deveria ser magnificamente e em voz alta celebrado”.

É uma doutrina abençoada, pois a eleição é a fonte de todas as bênçãos. Isto é feito inequivocamente claro por Efésios 1:3-4. Primeiro, o Espírito Santo declara que os santos foram abençoados com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo. Então Ele passa a mostrar como e por que eles foram tão abençoados: isto é na medida em que Deus nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo. Eleição em Cristo, portanto, precede o sermos abençoados com todas as bênçãos espirituais, pois somos abençoados com elas apenas enquanto estando nEle, e nós apenas estamos nEle na medida em que somos escolhidos nEle. Vemos, então, que grande e gloriosa verdade é esta, pois todas as nossas esperanças e perspectivas pertencem a isso. Eleição, embora distinta e pessoal, não é, como, por vezes é descuidadamente afirmado, uma mera escolha abstrata de pessoas para a salvação eterna, independentemente da união com sua Cabeça da Aliança, mas uma escolha deles em Cristo. Isso implica, portanto, todas as outras bênçãos, e todas as outras bênçãos são dadas apenas por meio da Eleição e, de acordo com ela.

Corretamente entendido não há nada tão calculado para dar conforto e coragem, força e segurança, como uma apreensão de coração desta verdade. Pois ter certeza de que eu sou um dos altos favoritos do Céu dá a confiança de que Deus certamente suprirá todas as minhas necessidades e fará com que todas as coisas cooperem para o meu bem. O conhecimento que Deus me predestinou para a glória eterna fornece uma garantia absoluta que nenhum esforço de Satanás pode, eventualmente, levar à minha destruição, pois se o grande Deus é por mim, quem será contra mim?! Isso traz uma grande paz para o pregador, pois ele agora descobre que Deus não o enviou para levar um arco em uma aventura perigosa, mas que a Sua Palavra fará o que Lhe apraz, e prosperará naquilo para que Ele a envia (Isaías 55:11). E que incentivo isso deve dar ao pecador despertado. Quando ele descobre que a eleição é apenas uma questão de graça divina, a esperança se acende em seu coração; enquanto ele descobre que a eleição destacou alguns dos mais vis dentre os vis para serem os monumentos da misericórdia divina, por que ele deveria se desesperar!?

É uma doutrina desagradável. Alguém naturalmente pensou que uma verdade que honra tanto a Deus, exalta Cristo, e tão abençoada, teria sido cordialmente defendida por todos os Cristãos professos que tiveram-na claramente apresentada a eles. Em vista do fato de que os termos “predestinados”, “eleitos” e “escolhidos”, ocorrem com tanta frequência na Palavra, alguém com certeza concluiria que todos os que pretendem aceitar as Escrituras como divinamente inspiradas receberiam com implícita fé esta grande verdade, relacionando o ato em si – como convém a criaturas pecadoras e ignorantes assim fazer – à boa vontade soberana de Deus. Mas isso está longe, muito longe de ser o caso real. Nenhuma doutrina é tão detestada pela orgulhosa natureza humana como esta, que faz da criatura nada e do Criador, tudo; sim, em nenhum outro ponto a inimizade da mente carnal é tão descarada e acaloradamente evidente.

 Nós iniciávamos as nossas pregações na Austrália, dizendo: “Eu falarei hoje à noite sobre uma das doutrinas mais odiadas da Bíblia, ou seja, sobre a eleição soberana de Deus.” Desde então temos rodeado este globo, e entramos em mais ou menos estreito contato com milhares de pessoas pertencentes a várias denominações, e mais milhares de Cristãos professos ligados a nenhuma, e hoje a única mudança que faria nessa declaração é que, enquanto a verdade do castigo eterno é mais reprovável a não-professos, a da eleição soberana de Deus é a verdade mais odiada e insultada pela maioria daqueles que afirmam ser crentes. Que seja claramente anunciado que a salvação não teve origem na vontade do homem, mas na vontade de Deus (veja João 1:13; Romanos 9:16), que se não fosse assim, ninguém seria ou poderia ser salvo – pois por causa da Queda, o homem perdeu todo o desejo e vontade ao que é bom (João 5:40; Romanos 3:11) – e que até mesmo os eleitos precisam ser feitos dispostos (Salmos 110:3) e altos serão os brados de indignação levantados contra tal ensino.

É neste ponto que a questão é torcida. Os comerciantes de méritos não reconhecerão a supremacia da vontade divina e a impotência da vontade humana para o bem; consequentemente, aqueles que são os mais implacáveis em denunciar a eleição pela vontade soberana de Deus, são os mais calorosos em declarar o livre arbítrio do homem caído. Nos decretos do Concílio de Trento – em que o Papado definitivamente definiu sua posição sobre os principais pontos levantados pelos Reformadores, e os quais Roma nunca revogou – ocorre o seguinte: “Se alguém afirmar que, desde a queda de Adão, o livre arbítrio do homem está perdido, seja anátema.” Foi por sua fiel adesão à verdade da eleição, com tudo o que ela envolve, que Bradford e centenas de outros foram queimados na fogueira pelos agentes do papa. Indescritivelmente triste é ver tantos Protestantes professos de acordo com a mãe das meretrizes neste erro fundamental.

Mas seja qual for a aversão que os homens tenham quanto a está bendita verdade, eles serão obrigados a ouvi-la no último dia, ouvi-la como a voz de decisão final, inalterável e eterna. Quando a morte e o inferno, o mar e a terra seca, darão os mortos, então virá o Livro da Vida – o registo no qual foi gravado antes da fundação de todo o mundo a eleição da graça – será aberto na presença dos anjos e demônios, com a presença dos salvos e dos perdidos, e aquela voz soará dos mais altos arcos do Céu, às mais baixas profundezas do inferno, ao extremo limite ao universo: “E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo” (Apocalipse 20:15). Assim, esta verdade que é odiada pelos não-eleitos acima de todos os outros, é o que deve soar nos ouvidos dos perdidos enquanto eles entram sua condenação eterna! Ah, meu leitor, a razão pela qual as pessoas não recebem e devidamente apreciam a verdade da eleição, é porque elas não sentem a sua devida necessidade.

É uma doutrina de separação. A pregação da soberania de Deus, como exercida por Ele em preordenar o destino eterno de cada uma das Suas criaturas, serve como um mangual eficaz para dividir o joio do trigo. “Quem é de Deus escuta as palavras de Deus” (João 8:47): sim, não importa quão contrárias sejam as suas ideias. É uma das marcas dos regenerados que eles estabeleceram por seu selo que Deus é verdadeiro. Nem eles selecionam, como hipócritas religiosos o fazem: uma vez que eles percebem que uma verdade é claramente ensinada na Palavra, mesmo que seja totalmente oposta à sua própria razão e inclinações, eles humildemente se curvam a ela e, implicitamente, a recebem, e faria assim, embora nenhuma outra pessoa no mundo inteiro acredite nela. Mas é muito diferente com os não-regenerados. Como o apóstolo declara: “Do mundo são, por isso falam do mundo, e o mundo os ouve. Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus ouve-nos; aquele que não é de Deus não nos ouve. Nisto conhecemos nós o espírito da verdade e o espírito do erro” (1 João 4:5-6).

Nós não sabemos de nada tão decisivo entre as ovelhas e os bodes como uma exposição fiel dessa doutrina. Se um servo de Deus aceita um novo cargo, e ele quer saber quem do seu povo deseja o leite puro da Palavra, e quais preferem substitutos do Diabo, que ele transmita uma série de sermões sobre este assunto, e este será rapidamente o meio de “apartares o precioso do vil” (Jeremias 15:19). Foi assim na experiência do Divino Pregador: quando Cristo anunciou “Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido. Desde então muitos dos seus discípulos tornaram para trás, e já não andavam com ele” (João 6:65-66)! Verdade é que de forma alguma, todos os que recebem intelectualmente o “Calvinismo” como uma filosofia ou teologia, dão provas (em suas vidas diárias) de regeneração; mas igualmente é verdade que aqueles que continuam a contrariar e firmemente recusar qualquer parte da verdade, não têm direito de serem considerados como Cristãos.

É uma doutrina negligenciada. Apesar de ocupar um lugar tão proeminente na Palavra de Deus, é pouco pregada, e menos ainda compreendida. Claro, não é de se esperar que os “altos críticos” e seus ingênuos cegos pregariam aquilo que faz do homem um nada; mas mesmo entre aqueles que desejam ser vistos como “ortodoxos” e “evangélicos”, há pou-quíssimos que dão a esta grande verdade um lugar real tanto em suas ministrações no púlpito quanto em seus escritos. Em alguns casos, isso é devido à ignorância: não tendo sido ensinados no seminário, e certamente nem nos “Institutos Bíblicos”, eles nunca perceberam sua grande importância e valor. Mas, em muitos casos, é o desejo de ser popular com os seus ouvintes que amordaça suas bocas. No entanto, nem a ignorância, o pré-conceito, nem inimizade podem acabar com a própria doutrina, ou diminuir sua importância vital.

Ao concluir estas observações introdutórias, que seja salientado que esta doutrina abençoada precisa ser tratada com reverência. Não é um assunto a ser discutido ou especulado, mas abordado num espírito de reverência e devoção. Ele deve ser tratado com seriedade: “Quando estás em disputa, engajado em uma justa discussão apenas para vindicar a verdade de Deus da heresia e distorção, olhe para o teu coração, estabeleça uma vigilância em teus lábios, tenha cuidado com o fogo selvagem em teu zelo” (E. Reynolds, 1648). No entanto, esta verdade deve ser tratada com intransigência e independentemente do temor ou favor do homem, confiantemente deixando todos os “resultados” na mão de Deus. Que seja graciosamente concedido a nós escrevermos de uma maneira que agrade a Deus, e que você receba tudo que é dEle.

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♦ Este texto é o primeiro capítulo “Introduction” do Livro The Doctrine of Election, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: The Doctrine of Election
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Amanda Ramalho e C. Almeida │ Revisão por Camila e William


A Grandiosa Origem da Doutrina da Eleição – Arthur Walkington Pink

Os decretos de Deus, Seu eterno propósito, os conselhos inescrutáveis ​​de Sua vontade, são realmente um grande abismo; ainda assim, isso nós sabemos: que do primeiro ao último eles têm uma relação estabelecida com Cristo, pois Ele é o Alfa e o Ômega, em todas as operações da Aliança. Spurgeon expressa isto maravilhosamente: “Examine a fonte celestial, a partir da qual todas as correntes da graça Divina fluem para nós, e você encontrará Jesus Cristo, o manancial na Aliança de Amor. Se os seus olhos jamais viram o rolo da aliança, se você será permitido, em um estado futuro, ver todo o plano da redenção, que uma vez que foi traçado nas câmaras da eternidade, você deverá ver a linha de vermelho-sangue do sacrifício expiatório percorrendo através da margem de cada página, e você verá que desde o início até o fim o objetivo sempre foi: a glória do Filho de Deus”. Portanto, parece estranho que muitos que veem que a Eleição é o fundamento da salvação, ainda ignoram a glorioso Cabeça da eleição, em quem os eleitos foram escolhidos e de quem recebem todas as bênçãos.

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo” (Efésios 1:3-4). Visto que fomos escolhidos em Cristo, é evidente que fomos escolhidos fora de nós mesmos; e uma vez que fomos escolhidos em Cristo, segue-se necessariamente que Ele escolheu a nós antes de nós a Ele. Isto está claramente implícito no verso anterior, em que o Pai é expressamente designado “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”. Agora, de acordo com a analogia da Escritura (ou seja, quando Ele se diz ser o “Deus” de alguém) Deus era o “Deus” de Cristo em primeiro lugar, porque Ele o escolheu para graça e união. Cristo como homem foi predestinado tão verdadeiramente como nós fomos, e por isso tem Deus como sendo o Seu Deus por predestinação e livre graça. Em segundo lugar, porque o Pai fez um pacto com Ele (Isaías 42:6). Deus tornou-se conhecido como “o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó” tendo em vista o pacto feito com eles, semelhantemente tendo em vista o pacto que fez com Cristo, Ele tornou-se seu “Deus”. Em terceiro lugar, porque Deus é o autor de toda a bem-aventurança de Cristo (Salmos 45:2, 7).

“Como também [Deus] nos elegeu nele” significa, então, que na eleição Cristo foi feito o Cabeça dos eleitos. “Do ventre da eleição Ele, o Cabeça, saiu primeiro [esboçado em todo parto normal – A.W.P.], e depois nós, os membros” (Thomas Goodwin). Em todas as coisas Cristo deve ter a “preeminência”, e, portanto, Ele é “o Primogênito” na eleição (Romanos 8:29). Na ordem da natureza Cristo foi escolhido em primeiro lugar, mas, no fim dos tempos fomos eleitos com Ele. Nós não fomos escolhidos por nós mesmos à parte de Cristo, mas em Cristo, o que denota três coisas: Primeiro, fomos escolhidos em Cristo como os membros do Seu corpo. Em segundo lugar, fomos escolhidos nEle como o padrão ao qual devemos conformar-nos. Em terceiro lugar, nós fomos escolhidos nEle tendo-O como nosso fim último, ou seja, foi para a glória de Cristo, para ser Sua “plenitude” (Efésios 1:23).

“Eis aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma” (Isaías 42:1), que essa passagem refere-se a ninguém menos do que ao Senhor Jesus Cristo é inegavelmente claro pela citação do Espírito dela em Mateus 12:15-21. Aqui, então, está o grande originador da eleição, em sua primeira e mais alta instância eletiva é falado e aplicado ao Senhor Jesus! Era da vontade dos três eternos eleger e predestinar a segunda pessoa em estado e existência de criatura, para que, como Deus-homem, “o primogênito de toda criatura” (Colossenses 1:15), Ele fosse o centro dos decretos Divinos e o objeto imediato e principal do amor dos três co-essenciais. E, como o Pai tem a vida em Si mesmo, assim deu também ao Filho – considerado como Deus-homem – ter a vida em Si mesmo (João 5:26), para ser uma fonte de vida, de graça e de glória, para Sua amada Esposa, que recebeu a sua existência e o bem-estar a partir da livre graça e amor eterno de Jeová.

Quando Deus decidiu criar, entre todas as criaturas inumeráveis, tanto angelicais quanto humanos, que surgiram na mente Divina, para serem trazidos à existência por Ele, Jesus Cristo homem foi destacado deles, e nomeado para a união com a segunda Pessoa da Trindade bendita, e foi, portanto, santificado e estabelecido. Este ato original e maior da eleição foi um da pura soberania e da maravilhosa graça. As hostes celestes foram ignoradas, e a semente da mulher foi tomada ao invés delas. Fora das inúmeras sementes que seriam criadas em Adão, a linhagem de Abraão foi escolhida, em seguida, a de Isaque e de Jacó. Das doze tribos que descenderam de Jacó, a tribo de Judá foi escolhida, Deus não elegeu um anjo para a elevada união com seu Filho, mas “a um eleito do povo” (Salmos 89:19). O que dirão aqueles que tanto se desagradam da verdade de que os herdeiros do céu são eleitos, quando eles aprendem que Jesus Cristo é o tema da eleição eterna!?

“Jeová é a causa primeira e o fim último de todas as coisas. Sua essência e existência são de e para Si mesmo. Ele é o Senhor, a Essência auto-existente; a fonte da vida, e bem-aventurança essencial: ‘Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus sábio, aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver’ [1 Timóteo 1:17; 6:16]. E ao longo de uma vasta eternidade os três Eternos se deleitaram na bem-aventurança sem limites e incompreensível da contemplação daquelas perfeições essenciais que pertencem ao Pai, o Filho e o Espírito, o eterno Jeová, que é a Sua própria eternidade, e não pode receber qualquer adição à Sua felicidade essencial ou glória por qualquer uma ou por todas as Suas criaturas. Ele está exaltado sobre toda a bênção e louvor. Toda a criação diante dEle é vista por Ele, e ainda menos do que nada e uma vaidade. Se alguns curiosamente perguntassem a si mesmos, O que Deus estava fazendo antes de ter estendido os céus e lançado os fundamentos da terra? A resposta é: os três benditos, co-iguais e co-essenciais Pai, Filho e Espírito Santo, tinha mútua comunhão juntamente, e eram essencialmente bem-aventurados no que diz respeito à vida eterna e Divina, no mútuo interesse e propriedade quem eles tinham um ao outro, em mútuo amor e deleite – bem como em posse de uma glória em comum.

Mas, como é da natureza do bem o ser comunicativo de si mesmo, por isso agradou a Trindade eterna o propósito de manifestar Seus atos nas criaturas. Os três sempre-benditos, a quem nada pode ser acrescentado ou diminuído, a nascente e fonte da qual aquelas benções essenciais brotam das imensas perfeições e da natureza infinita em que elas existem, do amor mútuo que eles têm uns para com os outros, e da Sua mútua comunicação, juntamente, o prazer de deleitar-se na companhia e sociedade da criatura. O Pai eterno predestinou Seu Filho co-essencial em estabelecimento e existência de criatura, e desde a eternidade Ele apresentou a forma e deu à luz à característica de Deus-homem. A criação de todas as coisas é atribuída nas Escrituras à soberania divina: “Tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são e foram criadas” (Apocalipse 4:11). Nada fora de Deus pode movê-Lo, ou ser um motivo para Ele; Sua vontade é Seu governo, a Sua glória seu fim último. “Porque dele (como a causa primária), e por meio dele (como preservador da causa), e para ele (como a causa final), são todas as coisas” (Romanos 11:36).

Deus, em Sua efetiva criação de tudo, é a finalidade de tudo. “O Senhor fez todas as coisas para atender aos seus próprios desígnios” (Provérbios 16:4), e a soberania de Deus surge naturalmente a partir da relação de todas as coisas em relação a Ele mesmo como o seu Criador, e sua dependência natural e inseparável dEle, no que diz respeito à sua existência e bem-estar. Ele tinha o ser de todas as coisas na sua própria vontade e poder, e foi no seu próprio prazer se Ele iria dar-se ou não. “Conhecidas são a Deus, desde o princípio do mundo, todas as suas obras” (Atos 15:18). Ele compreende e apreende todas as coisas em Sua infinita compreensão. Como Ele tem uma essência incompreensível, frente à qual a nossa nada é senão apenas como a gota de um balde, assim pois Ele tem um conhecimento incompreensível, frente ao qual a nosso é apenas como um grão de poeira. Seu decreto primário e visão, na criação de céu e terra, anjos e homens, sendo a Sua própria glória, e que deu base para isso e foi a base para apoiá-lo, foi projeto de Jeová exaltar o Seu Filho como Deus-homem, para ser o fundamento e a pedra angular de toda a criação de Deus. Deus nunca teria agido por meio dos atos da criatura, se não houvesse a segunda Pessoa condescendido em tomar sobre Si a nossa natureza para se tornar uma criatura. Embora isso tenha ocorrido após a Queda, no entanto, o decreto relativo foi existiu antes da queda. Jesus Cristo, o companheiro do Senhor dos exércitos, foi o primeiro de todos os caminhos de Deus” (S. E. Pierce).

Em nenhum lugar a soberania de Deus brilhará tão conspicuamente como em seus atos de eleição e reprovação, que são desde a eternidade passada, nos quais nada na criatura foi a causa disso. O ato de Deus de escolher Seu povo em Cristo se deu antes da fundação do mundo, sem a consideração da Queda, nem ocorreu sobre a previsão e posição das obras, mas foi totalmente por graça, e tudo para o louvor e glória da mesma. Em nada mais a soberania de Jeová é tão evidenciada, de fato, o maior exemplo desta foi predestinar a segunda Pessoa da Trindade para ser o Deus-homem. Que este esteve sob o decreto de Deus é claro, uma vez mais, a partir das palavras do apóstolo: “O qual, na verdade, [diz ele ao falar de Cristo], foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo” (1 Pedro 1:20). E de quem é dito como sendo posto “em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa” (1 Pedro 2:6). Este grande originador da eleição, tão pouco conhecido hoje, é de tal importância transcendente que nós nos estenderemos sobre ele um pouco mais, para apontar algumas das razões por que aprouve a Deus predestinar o homem Cristo Jesus para união pessoal com Seu Filho.

Cristo foi predestinado para fins mais elevados do que a salvação de Seu povo contra os efeitos de sua Queda em Adão. Primeiro, Ele foi escolhido por Deus para deleitar-se, muito mais e infinitamente acima de todas as outras criaturas. Sendo unido com a segunda pessoa, o homem Cristo Jesus foi exaltado a uma união mais estreita e comunhão com Deus. O Senhor dos Exércitos fala de Deus como “o homem que é o meu companheiro” (Zacarias 13:7), “meu eleito, em quem se apraz a minha alma” (Isaías 42:1). Em segundo lugar, Cristo foi escolhido para que Deus possa contemplar a imagem dEle mesmo e de todos as Suas perfeições em uma criatura, de modo que Suas excelências são vistas em Cristo como em nenhum outro: “O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa” (Hebreus 1:3), isto é dito a respeito da pessoa de Cristo como Deus-homem. Em terceiro lugar, pela união do homem Cristo Jesus com o Filho eterno de Deus, toda a plenitude da Divindade habitando corporalmente nEle, Ele é “a imagem do Deus invisível” (Colossenses 1:15, 19).

Jesus Cristo Homem, então, foi escolhido para uma maior união e comunhão com o próprio Deus. NEle o amor e a graça do Senhor resplandecem em Sua glória superlativa. O Filho de Deus deu subsistência e personalidade à Sua natureza humana, para que o Filho de Deus e Sua natureza humana não fossem apenas uma carne como homem e mulher (que é a união mais íntima conosco), nem um espírito só (como é o caso entre Cristo e a Igreja: 1 Coríntios 6:17), e assim, esta natureza de criatura é favorecida com uma comunhão em sociedade com a Santíssima Trindade, e, portanto, a Ele Deus se comunica sem medida (João 3:34). Descendo agora a um plano inferior, o homem Cristo Jesus também foi escolhido para ser um Cabeça de uma semente de eleitos, que foram escolhidos nEle [...] e abençoados nEle com todas as bênçãos espirituais.

Se Deus ama, Ele deve ter um objeto de Seu amor, e tal objeto deve ter uma existência diante dEle para que Ele possa exercer o Seu amor, pois Ele não pode amar uma não-entidade. Deve, portanto, ser que o Deus-homem, e os eleitos nEle existiam na mente Divina, como objetos do amor eterno de Deus, antes de todos os tempos. Em Cristo, a Igreja foi escolhida desde a eternidade, este o Cabeça, a outra Seu corpo; esse é o noivo, e a outra Sua noiva, aquela que está sendo escolhida e designada para o outro. Eles foram escolhidos em conjunto, mas Cristo veio em primeiro lugar na ordem dos decretos Divinos. Como, então, Cristo e a Igreja já existiam na vontade, pensamentos e propósitos do Pai desde o princípio, Ele podia amá-los e se alegrar-se neles. Como o Deus-homem declara: “Tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim… porque tu me amaste antes da fundação do mundo” (João 17:23-24).

O Filho de Deus é, antes de todos os tempos, predestinado para ser Deus-homem, Ele foi secretamente ungido ou estabelecido como tal, e Sua natureza humana teve uma subsistência pactual diante de Deus. Em consequência disso, Ele era o Filho do homem no céu antes de Ele se tornasse o Filho do homem sobre a terra; Ele era o Filho do homem secretamente diante de Deus antes que Ele se tornasse o Filho do homem abertamente e manifestamente neste mundo. É por isso que o salmista exclama: “Seja a tua mão sobre o homem da tua destra, sobre o filho do homem, que fortificaste para ti” (80:17); e, portanto, o próprio Cristo declara: “Que seria, pois, se vísseis subir o Filho do homem para onde primeiro estava?” (João 6:62). “Deus, pela infinita bondade de Seu amor, ordenou a Cristo para se tornar uma criatura, e se comunicar com as Suas criaturas, ordenando em Seu eterno conselho que a pessoa da Divindade se unisse à nossa natureza e para uma de Suas criaturas em particular, a ponto de que que na pessoa do Mediador a verdadeira escada da salvação pode ser estabelecida, no qual Deus possa descer para as Suas criaturas e Suas criaturas subirem a Ele” (Sr. Francis Bacon).

“Cristo foi eleito no princípio como Cabeça e Mediador, e como a pedra angular que suportaria todo o edifício; pois o ato da eleição do Pai em Cristo supõe que Ele foi primeiramente escolhido para este trabalho de mediação e de ser o Cabeça da parte eleita do mundo. Após esta eleição de Cristo, outros foram predestinados “para serem conformes à Sua imagem” (Romanos 8:29), isto é, a Cristo como Mediador, possuindo uma natureza humana; não de Cristo sendo considerado apenas como Deus. Esta conformidade sendo especialmente o propósito da eleição, Cristo era segundo o desígnio do Pai o primeiro exemplar e padrão dos eleitos. Um pé do compasso da graça estava em Cristo como o centro, enquanto o outro andou sobre a circunferência, apontando um aqui e outro ali, para desenhar uma linha, por assim dizer, entre cada um desses pontos e Cristo. O Pai, então, sendo a causa primeira da eleição de alguns dentre a massa da humanidade, foi a causa primeira da eleição de Cristo, ao trazê-los à fruição daquilo a que eles foram eleitos. É provável que Deus, na fundação de um reino eterno, deve consultar sobre os membros antes que ordena um Cabeça? Cristo foi registrado no topo do livro da eleição, e os seus membros, após Ele. E portanto este livro se chama: “o livro da vida do Cordeiro” [Apocalipse 13:8; 21:27]” (Stephen Charnock).

Essa passagem da Escritura que introduz mais plenamente o que estamos aqui contemplando é Provérbios 8, e é para ela que vamos agora olhar. Há muitas passagens neste livro em que a “sabedoria” de que fala significa muito mais do que uma excelência moral, e algo ainda mais bendito do que a personificação de um dos atributos divinos. Em não poucas passagens (1:20-21, por exemplo), a referência é a Cristo, um dos títulos usados é “sabedoria de Deus” (1 Coríntios 1:24). É, como tal, Ele deve ser considerado aqui no capítulo 8. Que é uma pessoa que está ali referida, é claro a partir do versículo 17, e que é uma pessoa Divina aparece a partir do versículo 15; contudo não é uma pessoa Divina considerada abstratamente, mas como o Deus-homem. Isso é evidente a partir do que é afirmado sobre Ele.

“O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos, desde então, e antes de suas obras” (v. 22). Aqui quem fala é o próprio Cristo, o único Mediador entre o Criador e Suas criaturas. As palavras “O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos” tendem a esconder o que está ali sendo afirmado. Não há prefixo no original hebraico, nada há para justificar a interposição “no”, enquanto a palavra traduzida como “princípio” significa o primeiro ou o principal. Assim, deve ser traduzida como “o Senhor me possuiu: o início (ou Principal) de seus caminhos, desde então, e antes de suas obras”. Cristo era o primogênito de todos os pensamentos e projetos de Deus, deleitando-Se em e por Ele muito antes do universo ter sido trazido à existência.

“Desde a eternidade fui ungida, desde o princípio, antes do começo da terra” (v. 23). “Nosso Redentor saiu do ventre de um decreto desde a eternidade, antes que houvesse saído do ventre da virgem no tempo; Ele estava escondido na vontade de Deus antes que Ele se manifestasse na carne de um Redentor; Ele era um Cordeiro imolado no decreto antes que Ele fosse morto na cruz; Deus o possui no princípio, ou no início de seu caminho, o Arquiteto de Suas obras, e estabelecido desde a eternidade para ter Seus deleites entre os filhos dos homens” (Provérbios 8:22, 23, 31), (Stephen Charnock).

“Quando ainda não havia abismos, fui gerada, quando ainda não havia fontes carregadas de águas. Antes que os montes se houvessem assentado, antes dos outeiros, eu fui gerada” (vv. 24, 25). Cristo está aqui se referindo ao seu ser “gerado” na mente de Deus, predestinado à existência da criatura antes que o mundo fosse feito. A primeira de todas das intenções de Deus relacionou-se à união do homem Cristo Jesus a Seu Filho. O Mediador se tornou a base de todos os conselhos divinos (veja Efésios 3:11 e 1:9-10). Como o Trino Jeová O “possuía” como um tesouro em que foram colocados todos os Seus desígnios. Ele foi, então, “criado” ou “ungido” (v. 23) em Seu caráter oficial como Mediador e Cabeça da Igreja. Como o Deus-homem Ele teve uma influência eficaz e foi o executor de todas as obras e vontade de Deus.

“Então eu estava com ele, e era seu arquiteto; era cada dia as suas delícias, alegrando-me perante ele em todo o tempo” (v. 30). Aqui não é a complacência do Pai no Filho que é considerada absolutamente como a segunda Pessoa, mas Sua satisfação e alegria no Mediador, à medida como Ele O via pelas lentes de Seus decretos. Foi como encarnado que o Pai disse: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mateus 3:17), e foi como pré-ordenado Deus-homem, que tinha uma real subsistência diante da mente divina, que Ele era as delícias de Jeová, antes que o mundo existisse. Em Seus pensamentos eternos e previsões, o homem que foi Seu companheiro, tornando-se o Objeto de amor e complacência inefável de Deus. Isso foi muito mais do que Jeová simplesmente propondo que o Filho deveria encarnar-se; Seu decreto deu a Cristo uma verdadeira subsistência diante dEle, e como tal uma a satisfação infinita foi conferida ao Seu coração.

Tão pouco compreendido é este aspecto abençoado de nosso assunto, e tão importante que mais algumas observações adicionais sobre isso parecem necessárias. Que Cristo é o primogênito ou cabeça de eleição da graça foi prefigurado no início das obras de Deus, na verdade, a criação deste mundo e a formação do primeiro homem foram com o propósito de fazer Cristo conhecido. Como nos é dito em Romanos 5:14: “o qual é a figura daquele que havia de vir”. Em Sua criação, formação e constituição como o cabeça federal da nossa raça, Adão era um tipo notável de Cristo como Eleito de Deus. Ao ampliar esta afirmação, será necessário seguir sobre o mesmo fundamento que nós percorremos em União Espiritual e Comunhão, mas nós confiamos que o leitor suportará que nós repitamos aqui uma certa quantidade de coisas.

Há uma certa classe de pessoas – aquelas que desprezam toda a doutrina e, particularmente, as que não gostam da doutrina da soberania absoluta de Deus – que muitas vezes nos exortam a “pregar a Cristo”, mas temos observado que eles nunca pregam a Cristo no Seu maior caráter oficial, como o Cabeça da Aliança do povo de Deus, que eles nunca dizem uma palavra sobre Ele como o Eleito de Deus “em quem se apraz a minha alma”! [Isaías 42:1]. A Pregação Cristo é uma tarefa muito mais abrangente do que muitos supõem, nem pode ser feita de forma correta por qualquer homem, até que ele comece pelo princípio e mostre que o homem Jesus Cristo foi eternamente predestinado para a união com a segunda pessoa da Trindade. “Exaltei a um eleito do povo” (Salmos 89:19), esta exaltação começou com a elevação da humanidade de Cristo para a união pessoal com o Verbo eterno – honra única!

As próprias palavras “escolhidos em Cristo” implica necessariamente que Ele foi escolhido em primeiro lugar, tornando-se o fundamento em que os outros foram escolhidos. Quando Deus escolheu Cristo não era como uma pessoa única ou particular, mas como uma pessoa pública, como Cabeça do Seu corpo, sendo escolhido nEle como os seus membros. Assim, na medida em que foi então dado a subsistência representante diante de Deus, Deus poderia fazer um Pacto com Cristo em nosso favor. Que Ele assim entrou em um acordo eterno com Cristo na qualidade de Cabeça da eleição da Graça, é claramente demostrado: “Fiz uma aliança com o meu escolhido, e jurei ao meu servo Davi” (Salmo 89:3), esta aliança foi esboçada no tempo com aquele que era tipicamente “o homem segundo o seu coração”, pois Davi era na verdade uma sombra de Cristo, quando Deus fez um pacto com ele; como José foi quando ele forneceu comida aos seus irmãos necessitados, ou como Moisés foi quando ele conduziu os Hebreus para fora da casa da servidão.

Que aqueles, então, que desejam pregar a Cristo, cuidem para dar-Lhe a preeminência em todas as coisas, e a eleição não é exceção! Deixe-os aprender a dar a Jesus de Nazaré Sua plena honra, pois a honra que o próprio Pai deu a Ele é uma honra superlativa, a saber, que Cristo é o canal através do qual toda a graça e glória que temos, ou teremos, flui para nós, e foi estabelecido como tal desde o início. Como Romanos 8:29 ensina tão claramente, foi em relação à eleição que Deus designou Seu próprio Filho amado para ser “o primogênito entre muitos irmãos”. Cristo sendo apontado como a obra-prima da sabedoria Divina, o grande protótipo, e nós ordenados a sermos muitas pequenas cópias segundo o Seu Modelo. Cristo é o primeiro e último de todos os pensamentos, conselhos e caminhos de Deus.

O universo nada é senão o teatro e este mundo o palco principal em que o Senhor Deus considera adequado executar alguns de Seus projetos mais profundos. Sua criação de Adão foi uma sombra para apontar para um melhor Adão, que teria uma liderança universal sobre todas as criaturas de Deus, e cujas glórias estavam a brilhar visivelmente em e através de todas as partes da criação. Quando o mundo foi criado e decorado, o homem foi trazido à existência. Mas, antes de sua formação lemos sobre aquela célebre consulta dos três eternos: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem” (Gênesis 1:26). Isto diz respeito a Cristo, o Deus-homem, que era desde toda a eternidade o objeto e sujeito de todos os conselhos da Trindade. Adão, foi criado e feito segundo a Imagem de Deus, que consistia em verdadeira justiça e santidade, foi um tipo, pois Cristo é por excelência “a imagem do Deus invisível” (Colossenses 1:15).

A formação do corpo de Adão, pela mão imediata de Deus, do pó da terra, era uma figura ou sombra do pressuposto da natureza humana por meio do Filho de Deus, cuja humanidade se formou imediatamente pelo Espírito Santo, assim como o corpo de Adão foi produzido a partir da terra virgem, semelhantemente a natureza humana de Cristo foi produzido desde o ventre da virgem. Mais uma vez, esta união da alma e do corpo em Adão era uma maneira de expressar o mais profundo e maior de todos os mistérios, a união hipostática de nossa natureza na pessoa de Cristo, como é justamente expresso no que é comumente chamado de Credo de Atanásio: “como a alma racional e a carne são um só homem, assim Deus e homem são um só Cristo”. Mais uma vez; como a pessoa de Adão compreendeu as perfeições de todas as criaturas, e foi adaptado para desfrutar de todos os confortos e prazeres que eles podiam lhe conceder e transmitir, deste modo a glória da humanidade de Cristo supera todas as criaturas, até mesmo os próprios anjos. Quanto mais atentamente consideramos a pessoa e a posição do primeiro Adão, melhor podemos discernir quão total e apropriadamente ele era uma figura do último Adão.

Como Adão, foi posto no paraíso, tendo todas as criaturas da terra trazidas diante dele e foi constituído como dominador sobre todos elas (Gênesis 1:28), sendo assim coroado de glória e honra mundana, por isso também ele antecipou com precisão Cristo, que tem império universal e domínio sobre todos os mundos, seres e coisas, como pode ser visto no Salmo 8, que é aplicado ao Salvador em Hebreus 2:9, onde a soberania sobre todas as criaturas é atribuída a Ele; a terra, o céu, o sol, a lua e as estrelas O magnificam. Pois, ainda que Ele tenha sido por pouco tempo descido abaixo dos anjos em Sua humilhação, contudo agora em Sua exaltação, Ele é coroado Rei dos reis e Senhor dos senhores. Além disso, embora o Deus-homem, o “companheiro do Senhor dos Exércitos”, tenha passado por um período de degradação antes de Sua exaltação, não obstante Sua glorificação foi conhecida ainda antes que o mundo começasse: “E eu vos destino o reino, como meu Pai mo destinou” (Lucas 22:29); “Ele é o que por Deus foi constituído juiz dos vivos e dos mortos” (Atos 10:42).

Que Cristo tinha tanto a precedência quanto à presidência na eleição também foi prefigurado neste tipo de parente-primitivo, pois lemos: “E Adão pôs os nomes a todo o gado, e às aves dos céus, e a todo o animal do campo; mas para o homem não se achava ajudadora idônea” (Gênesis 2:20). Observe ainda a precisão perfeita do tipo: quando Deus criou Adão, Ele criou Eva nele (e em abençoar Adão – Gênesis 1:28 – Ele abençoou toda a humanidade nele); do mesmo modo, quando Deus elegeu a Cristo, o Seu povo foi eleito nEle (Efésios 1:4), e, portanto, eles tiveram uma existência virtual e subsistência nEle desde toda a eternidade, e, consequentemente, Ele foi denominado “Pai da Eternidade” (Isaías 9:6. Cf. Hebreus 2:13); e, consequentemente, ao abençoar a Cristo, Deus abençoou todos os eleitos nEle e com Ele (Efésios 1:3; 2:5).

Embora Adão tenha saído “muito bom” das mãos de seu Criador, e tenha recebido o domínio sobre todas as criaturas da terra, ainda lemos: “mas para o homem não se achava ajudadora idônea”. Por isso, Deus proveu uma parceira idônea para ele, que sendo retirada de sua costela foi, então, “formada” (Gênesis 2:22), e em seguida trazida a ele, e se agradou nela. Da mesma forma, apesar de Cristo ter existido no início dos caminhos de Deus, criado desde a eternidade, deleitando-Se pelo Pai (Provérbios 8:22-23, 30), contudo Deus não achou que fosse bom que para Ele estar sozinho, e Ele, portanto, decretou uma esposa para Ele, que devia compartilhar de Suas graças comunicáveis, honras, riquezas e glórias; um cônjuge que, em devido tempo, fosse o fruto de Seu lado traspassado, e fosse trazido a Ele pelas operações graciosas do Espírito Santo.

Quando Eva foi formada pelo Senhor Deus e trazida a Adão, de modo a realizar uma união matrimonial, foi prefigurado o maior mistério da graça, a saber, Deus Pai apresentando os Seus eleitos e dando-lhes a Cristo: “eram teus, e tu mos deste” (João 17:6). Prevendo-os pelas lentes dos decretos Divinos, o Mediador amou e contentou-Se com eles (Provérbios 8:31), prometeu a eles para Si mesmo, tendo a Igreja assim como que sido apresentada por Deus a Ele, em um ato de acordo de casamento e contrato pactual como o dom do Pai. Como Adão confessou a relação entre Eva e ele mesmo, dizendo: “Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne” (Gênesis 2:23), semelhantemente, Cristo tornou-Se um marido eterno para a Igreja. E, assim como Adão e Eva estavam unidos antes da Queda, assim Cristo e a Igreja eram um na mente de Deus antes de qualquer ocorrência de pecado.

Se, então, devemos “pregar Cristo” em Seu ofício mais glorioso, deve ser claramente demonstrar que Ele não foi ordenado no propósito eterno de Deus para a Igreja, mas a Igreja é que foi ordenada para Ele. Observe como o Espírito Santo tem enfatizado este ponto particular do tipo. “O homem, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem. Porque o homem não provém da mulher, mas a mulher do homem. Porque também o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem” (1 Coríntios 11:7-9). No entanto, como Adão não estava completo sem Eva, do mesmo modo, Cristo também não estava sem a Igreja: ela é sua “plenitude” ou “complemento” (Efésios 1:23), sim, ela é sua coroa de glória e diadema real (Isaías 62:3). A Igreja pode ser considerada necessária para Cristo como um vaso vazio para que Ele a possa encher com graça e glória. Todas o Seu prazer está nela, e Ele será glorificado nela e por ela por toda a eternidade, colocando a Sua glória sobre ela (João 17:22). “Vem, mostrar-te-ei a esposa, a mulher do Cordeiro… que de Deus descia do céu. E tinha a glória de Deus” (Apocalipse 21:9-11)

Em seu caráter de “Eleito” o Cristo de Deus foi prefigurado por outros que não Adão. Na verdade, é impressionante ver que quantidade de pessoas que eram tipos importantes de Cristo e foram feitos sujeitos de uma eleição real de Deus, pelo qual eles foram designados para algum cargo especial. Quanto a Moisés, lemos: “Por isso disse que os destruiria, não houvesse Moisés, seu escolhido, ficado perante ele na brecha, para desviar a sua indignação, a fim de não os destruir” (Salmos 106:23). De Arão é dito, “E ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão” (Hebreus 5:4). Dos sacerdotes de Israel está registrado: “Então se achegarão os sacerdotes, filhos de Levi; pois o Senhor teu Deus os escolheu para o servirem, e para abençoarem em nome do Senhor” (Deuteronômio 21:5). Quanto Davi e a tribo de onde ele veio, está escrito: “Além disto, recusou o tabernáculo de José, e não elegeu a tribo de Efraim. Antes elegeu a tribo de Judá; o monte Sião, que ele amava… Também elegeu a Davi seu servo, e o tirou dos apriscos das ovelhas” (Salmos 78:67-68, 70). Cada um desses casos esboça a grande verdade de que o homem Cristo Jesus foi escolhido por Deus para um mais alto grau de glória e bem-aventurança do que que todas as Suas criaturas.

“E não entrará nela coisa alguma que contamine, e cometa abominação e mentira; mas só os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro” (Apocalipse 21:27). Esta expressão “O Livro da Vida” é, sem dúvida, figurativa, pois o Espírito Santo se deleita em representar as coisas espirituais, celestiais e eternas, bem como a bênção e benefícios destas, sob uma variedade de imagens e metáforas, para que nossas mentes possam mais facilmente compreender e nossos corações sintam a realidade delas, e assim, nos tornamos mais capaz de recebê-las. Ainda assim, isto nós sabemos: a similaridade assim empregada para representa-las à nossa visão espiritual são apenas sombras, mas o que é representado por elas tem existência real e substancial.

O sol no firmamento é um emblema instituído na natureza de Cristo – de que Ele é para o mundo espiritual, o que o sol é para o mundo natural, entretanto o sol é apenas a sombra, mas Cristo é a substância real, portanto, ele é denominado “o Sol da justiça”. Assim, quando Cristo é comparado à luz, Ele é a “verdadeira luz” (João 1:9), quando comparado a uma videira, Ele é a “videira verdadeira” (João 15:1), quando comparado ao pão, Ele é “o verdadeiro pão”, o pão da vida, aquele Pão de Deus que desceu do céu (João 6). Deixe este princípio, então, ser devidamente mantido em mente por nós quando nos deparamos com muitas metáforas que são aplicadas ao Redentor nas Escrituras. Então, aqui em Apocalipse 21:27, admitindo que “Livro da Vida” é uma expressão figurativa, estamos longe de garantir que não há no céu o que é figurado por ele, ou melhor, a própria realidade em si.

Esta expressão “o Livro da vida” tem suas raízes em Isaías 4:3, onde Deus se refere ao Seu remanescente escolhido como “todo aquele que estiver inscrito entre os viventes em Jerusalém”, e é isso que explica o significado de todas as outras referências que fazem ao mesmo. O ato eterno da eleição de Deus é descrito como o escrever dos nomes de seus escolhidos no Livro da Vida, e as seguintes coisas são sugeridas por esta figura: Em primeiro lugar, o conhecimento exato que Deus tem de todos os eleitos, Sua lembrança especial deles, Seu amor e prazer neles. Em segundo lugar, que a Sua eleição eterna trata cada pessoa em particular, cujos nomes são, definitivamente, inscritos por Ele. Em terceiro lugar, para mostrar que eles estão absolutamente seguros, pois Deus escreveu seus nomes no Livro da Vida, e eles nunca serão apagados (Apocalipse 3:5). Quando os setenta voltaram de sua viagem missionária, eufóricos, porque os próprios demônios estavam sujeitos a eles, Cristo disse: “alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lucas 10:20 e cf. Filipenses 4:3; Hebreus 12:23), o que mostra que a eleição de Deus para a vida eterna é de pessoas particulares – pelo nome – e, portanto, é segura e imutável.

Vamos agora particularmente observar que este registro da eleição é designado “Livro da Vida do Cordeiro”, e isso por pelo menos duas razões. Primeiro, porque o nome do Cordeiro o encabeça, sendo Ele o primeiro a ser escrito nele, pois Ele deve ter a preeminência; após o qual segue a inscrição dos nomes particulares de todo o Seu povo. Observe como o Seu nome é o primeiro registrado no Novo Testamento: Mateus 1:1! Em segundo lugar, porque Cristo, é a raiz e Seus eleitos são os ramos, para que eles recebam a sua vida dEle como eles são nEle e sustentados por Ele. Está escrito “Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória” (Colossenses 3:4). Cristo é a nossa vida, porque Ele é o próprio “Príncipe da vida” (Atos 3:15). Assim, o registro Divino da eleição em que estão inscritos os nomes de todos os membros de Cristo, é apropriadamente chamado de “Livro da Vida do Cordeiro”, pois são totalmente dependentes dEle para a vida.

Entretanto é em conexão com a primeira razão que nós gostaríamos de fazer mais uma observação. Isso é chamado Livro da Vida do Cordeiro, porque Ele é o primeiro nome escrito no mesmo. Esta não é uma afirmação arbitrária da nossa parte, mas algo que é claramente justificado pela Bíblia: “Eis aqui venho (no rolo do livro está escrito de mim)” (Hebreus 10:7 – KJV). O orador aqui é o Senhor Jesus e, como é tão frequentemente o caso (tal é a plenitude de Suas palavras), há uma dupla referência aqui: primeiro aos arquivos eternos dos conselhos de Deus, o livro dos Seus decretos; em segundo lugar, às Escrituras Sagradas, que são uma transcrição de uma parte deles. De acordo com esta dupla referência é o duplo sentido da palavra “livro”. No Salmo 40:7 “rolo” é sem dúvida o significado da palavra hebraica aqui utilizada; mas em Hebreus 10:7 a palavra Grega certamente deve ser traduzida como “cabeça” – kephale ocorre setenta e seis vezes no Novo Testamento, e é sempre traduzida como “cabeça”, exceto aqui. Assim, devidamente traduzido, Hebreus 10:7 diz “na cabeça do livro está escrito de mim”.

Aqui, então, esta é a prova de nossa afirmação. O Livro da Vida – o registo Divino da eleição – é denominado Livro da Vida do Cordeiro, “porque Seu nome é o primeiro escrito nEle, e Ele, que tinha visto a Si mesmo no rolo disse, quando Ele entrou neste mundo, ‘na cabeça do livro está escrito de mim’. Uma outra referência a este livro foi feita por Cristo: “no teu livro todos os meus membros foram escritos” (Salmos 139:16 – KJV). O salmista estava se referindo ao seu corpo natural, primeiro como formado no útero (v. 15), e depois como sendo o tema dos decretos divinos (v. 16). Mas a referência mais profunda é a de Cristo, falando, como o antítipo de Davi, dos membros do Seu corpo místico. “A substância da Igreja, da qual esta deveria ser formada, estava sob os olhos de Deus, tal como proposto no decreto de eleição” (John Owen).

Talvez um leitor preocupado esteja se perguntando: Como posso ter certeza de que agora meu nome está escrito no Livro da Vida do Cordeiro? Nós respondemos muito brevemente. Em primeiro lugar, por Deus ter te ensinado a ver e te conduzido a sentir sua corrupção interior, sua vileza pessoal, sua terrível culpa, a sua extrema necessidade do sacrifício do Cordeiro. Em segundo lugar, fazendo com que você dê a Cristo o primeiro lugar de importância em seus pensamentos e estima, compreendendo que somente Ele pode te salvar. Em terceiro lugar, por Deus ter te conduzido a crer nEle, descansar toda a sua alma nEle, desejando ser achado nEle, não tendo a sua própria justiça, mas a dEle. Em quarto lugar, fazendo-o infinitamente precioso para você, de modo que Ele é todo Seu desejo. Em quinto lugar, por estar trabalhando em você a determinação de agradá-lO e glorificá-lO.

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♦ Este texto é capítulo 3 do livro The Doctrine of Election, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: The Doctrine of Election
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦  Tradução por William Teixeira │ Revisão por Camila Almeida


A Grande Misericórdia de Deus – Arthur Walkington Pink

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós, que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo”. (1 Pedro 1:3-5)


PARTE 1

Alguns extremistas dentre os Dispensacionalistas afirmam e insistem que as últimas sete epístolas do Novo Testamento (de Hebreus a Judas) não dizem respeito a todos aqueles que são membros do corpo místico de Cristo, mas são totalmente Judaicas, escritas pelos apóstolos para a Circuncisão e destinadas somente para eles. Tal afirmação feroz e perversa é uma invenção arbitrária deles próprios, pois não há uma palavra nas Escrituras que fundamenta a reivindicação deles. Pelo contrário, há muito nestas mesmas Epístolas que repudiam claramente esse ponto de vista. Seguindo o pensamento deles pode-se também afirmar que as epístolas de Paulo “não são para nós” (santos do século XX), porque elas são dirigidas a grupos de crentes em Roma, Corinto, Galácia, e assim por diante. A identidade precisa dos Cristãos professos a quem a Epístola aos Hebreus foi originalmente dirigida não pode ser descoberta. É vital reconhecer, no entanto, que a Epístola é dirigida àqueles que são “participantes da vocação celestial” (Hebreus 3:1 – itálicos meus), algo que de modo algum pertencia à nação Judaica como um todo. Embora a Epístola de Tiago fora escrita para “as doze tribos que andam dispersas”, no entanto, foi dirigida aos membros dos que eram gerados de Deus (Tiago 1:18). As Epístolas de João são manifestamente as cartas de um pai em Cristo aos seus queridos filhinhos (1 João 2:12; 5:21) e, como tal, transmitem o cuidado solícito do Pai celestial para os Seus próprios, para aqueles que tinham Jesus Cristo por seu advogado (1 João 2:1). A epístola de Judas é também geral, direcionada para os “santificados em Deus Pai, e conservados por Jesus Cristo” (v.1).

 

Àqueles por Quem Pedro Oferece Esta Doxologia

A primeira Epístola de Pedro é dirigida “aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia” (1 Pedro 1:1). A Versão Americana Padronizada mais literalmente o traduz: “aos eleitos que são forasteiros da Dispersão no Ponto…”, ou seja, para os Judeus que estão ausentes da Palestina, residentes nas terras dos Gentios (cf. João 7:35). Mas cuidado deve ser tomado para que o termo “estrangeiros” não seja limitado à sua força literal, mas sim seja dado também o seu sentido figurado e aplicação espiritual. Isso não se refere estritamente aos descendentes carnais de Abraão, mas sim à sua descendência espiritual, que eram participantes da vocação celestial, e como tal, estavam longe de seu lar. Os patriarcas “…confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Porque… claramente mostram que buscam uma pátria… desejam uma melhor [do que a Canaã terrena], isto é, a celestial”. (Hebreus 11:13-16 – os colchetes são meus). Mesmo Davi, enquanto reinando como rei em Jerusalém, fez um reconhecimento similar: “Eu sou um peregrino na terra” (Salmos 119:19). Todos os Cristãos são estrangeiros neste mundo; por enquanto eles “estando no corpo”, estão “ausentes do Senhor” (2 Coríntios 5:6). Sua pátria está nos céus (Filipenses 3:20). Assim, era aos peregrinos espirituais (residentes temporários) a quem Pedro escreveu, aqueles que tinham sido gerados para uma herança guardada nos céus para eles (1 Pedro 1:4).

Nem todos os estrangeiros espirituais eram da linhagem natural de Abraão. Há mais do que uma indicação nesta mesma epístola que, embora possivelmente a maioria deles eram crentes Judeus, contudo de modo algum todos o eram. Assim, no capítulo 2, versículo 10, depois de afirmar que Deus os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz, o Apóstolo Pedro passa a descrevê-los com estas palavras: “Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia”. Isso delineia precisamente o caso dos crentes Gentios (cf. Efésios 2:12-13). Pedro está aqui citando Oséias 1:9-10 (onde os “filhos de Israel”, no versículo 10, referem-se ao Israel espiritual), o que é definitivamente interpretado por “nós” em Romanos 9:24-25: “Os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios? Como também diz em Oséias: Chamarei meu povo ao que não era meu povo”. Mais uma vez, no capítulo 4, versículo 3, Pedro diz por meio de recordação para aqueles a quem ele está escrevendo: “Porque é bastante que no tempo passado da vida fizéssemos a vontade dos gentios, andando em dissoluções, concupiscências, borrachices, glutonarias, bebedices e abomináveis idolatrias”. A última categoria de transgressão só pode referir-se aos Gentios; pois os Judeus (quando considerados como uma nação), desde o cativeiro Babilônico, nunca caíram em idolatria.

 

A Oração em Si

Ao examinarmos juntos a oração contida em 1 Pedro 1:3-5, consideremos oito coisas: (1) a sua conexão, para que percebamos que todos estão incluídos pelas palavras “nos gerou de novo”; (2) a sua natureza, uma doxologia (“Bendito seja”); (3) o seu Objeto, “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”; (4) a sua atribuição, “Sua grande misericórdia”; (5) o seu incitamento, “nos gerou de novo para uma viva esperança”; (6) o seu reconhecimento, “pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos”; (7) a sua substância, “para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós” e (8) a sua garantia, “que mediante a fé estais guardados”. Há muito aqui de interesse e profunda importância. Portanto, seria errado para nós apressadamente ignorarmos tal passagem com algumas generalizações, especialmente uma vez que ela contém uma tal riqueza de reflexão espiritual, jubilosa que não deixará de edificar a mente e despertar a vontade e as afeições de cada santo que medita corretamente sobre ela. Que possamos ser devidamente afetados por seu conteúdo e realmente adentremos em seu espírito elevado.

Em primeiro lugar, consideramos a sua conexão. Aqueles em cujo nome o apóstolo ofereceu esta doxologia são citados de acordo com suas circunstâncias literais e figuradas no versículo 1, e, em seguida, descritos por suas características espirituais: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo” (v. 2). Essa descrição refere-se igualmente a todos os regenerados em todas as épocas. Quando conectada com a eleição, a “presciência de Deus” não se refere à Sua presciência eterna e universal, pois esta envolve todos os seres e acontecimentos, passados, presentes e futuros; e, portanto, tem por seus objetos os não-eleitos, bem como os eleitos. Consequentemente, não há qualquer alusão à previsão de Deus de nossa crença ou qualquer outra virtude nos objetos de Sua escolha. Em vez disso, o termo presciência relaciona-se à fonte ou origem da eleição, a saber, a imerecida boa vontade e aprovação de Deus. Para este sentido da palavra, veja os seguintes: Salmo 1:6; Amós 3:2; 2 Timóteo 2:19. Para um sentido semelhante da palavra previsão, veja Romanos 11:2. Portanto, a frase “eleitos segundo a presciência de Deus” significa que as pessoas favorecidas, assim descritas, foram de antemão amadas por Ele, que foram os objetos de Sua eterna graça, inalteravelmente agradáveis a Ele, enquanto Ele as previa em Cristo, “… pela qual nos fez agradáveis [ou “objetos da graça”] a si no Amado” (Efésios 1:4-6 – colchetes meus).

 

Obediência, um Sinal Indispensável da Obra Salvífica do Espírito

“Em santificação do Espírito”. É por meio das operações graciosas e eficazes do Espírito que a nossa eleição por Deus Pai tem efeito (veja 2 Tessalonicenses 2:13). As palavras “santificação do Espírito” têm referência à Sua obra de regeneração, pela qual somos vivificados (feitos vivos), ungidos e consagrados ou separados para Deus. A ideia subjacente de santificação é quase sempre a de separação. Pelo novo nascimento, nós somos distinguidos daqueles que estão mortos em pecado. As palavras “para a obediência” aqui em 1 Pedro 1:2 significam que pelo chamado eficaz do Espírito, somos sujeitos ao chamado de autoridade do Evangelho (versículo 22 e Romanos 10:1, 16) e, posteriormente, para os seus preceitos. A Eleição nunca promove licenciosidade, mas sempre produz santidade e boas obras (Efésios 1:4; 2:10). O Espírito regenera os pecadores para uma nova vida de amável submissão a Cristo, e não a uma vida de autossatisfação. Quando o Espírito santifica a alma, é a fim de que ela possa adornar o Evangelho por uma caminhada que é regulada por ele. É pela sua obediência que um Cristão torna evidente a sua eleição pelo Pai, pois anteriormente ele era um dos “filhos da desobediência” (Efésios 5:6). Por sua nova vida de obediência, ele fornece a prova de uma obra sobrenatural do Espírito em seu interior.

“E aspersão do sangue de Jesus Cristo”. É importante que nós entendamos a distinção entre a aspersão do sangue de Cristo e o derramamento dele (Hebreus 9:22). O derramamento é em relação a Deus; enquanto que a aspersão é a sua aplicação ao crente, pelo qual ele obtém o perdão e a paz de consciência (Hebreus 9:13-14; 10:22), e pelo que o seu serviço é prestado de maneira aceitável a Deus (1 Pedro 2:5).

Uma leitura cuidadosa de toda a epístola torna evidente que estes santos estavam passando por duras provas (veja 1 Pedro 1:6-7; 2:19-21; 3:16-18; 4:12-16; 5:8-9). Cristãos Judeus (que evidentemente compunham a maioria daqueles a quem originalmente Pedro se dirigiu) já haviam sido severamente oprimidos, perseguidos, não tanto pelo mundo profano quanto por seus próprios irmãos segundo a carne. Quão amargo e feroz era o ódio de tais Judeus incrédulos é demonstrado não somente a partir do caso de Estevão, mas pelo que o apóstolo Paulo sofreu nas mãos deles (2 Coríntios 1:24-26). Como forma de incentivo, o apóstolo Paulo deliberadamente lembrou seus irmãos Hebreus das perseguições que ele já havia sofrido por amor de Cristo. “Lembrai-vos, porém, dos dias passados, em que, depois de serdes iluminados, suportastes grande combate de aflições… e com alegria permitistes o roubo dos vossos bens” (Hebreus 10:32-34). Ao mantermos esse fato em mente, uma melhor compreensão é tida sobre muitos dos detalhes do livro de Hebreus. Além disso, isso se torna mais evidente por que Pedro tem muito a dizer sobre a aflição, e por que ele se refere com tanta frequência aos sofrimentos de Cristo. Seus irmãos estavam em necessidade de um estímulo cordial que pudesse encorajá-los à resiliência heroica. Ele, portanto, alongou-se sobre os aspectos da verdade Divina mais adequados a apoiar a alma, fortalecer a fé, inspirar a esperança, e produzir firmeza e boas obras.

 

Esta Oração é Uma Doxologia, uma Expressão de Puro Louvor a Deus

Em segundo lugar, examinemos a sua natureza. É um tributo de louvor. Nesta oração, o apóstolo não está suplicando a Deus, antes está oferecendo adoração a Ele! Este é tanto o nosso privilégio quanto o dever, enquanto nós derramamos as nossas necessidades diante dEle; sim, um deve sempre ser acompanhado pelo outro. É “com ações de graças” que somos convidados a fazer com que as nossas “petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus” (Filipenses 4:6). E isso é precedido pela exortação: “Regozijai-vos sempre no Senhor”, cuja alegria deve encontrar a sua expressão em gratidão e por atribuir a glória a Ele. Se nós somos adequadamente afetados pelas bênçãos de Deus, não podemos deixar de bendizer o Doador delas. No versículo 2, Pedro mencionou alguns dos mais notáveis e abrangentes de todos os benefícios Divinos, e esta exclamação: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo!” é o eco, ou melhor, o reflexo do coração do Apóstolo Pedro, em resposta à maravilhosa graça de Deus por si e pelos seus irmãos. Esta doxologia especial também deve ser considerada como um reconhecimento devoto dos favores inestimáveis que Deus concedeu aos Seus eleitos, como ampliado no versículo 3. Enquanto o apóstolo refletia sobre as gloriosas bênçãos concedidas aos pecadores merecedores do inferno, seu coração foi inclinado à adoração fervorosa ao benigno Autor delas.

Assim pode ser, assim deve ser, com os Cristãos hoje. Deus não tem filhos mudos (Lucas 17:7). Eles não somente clamam a Ele dia e noite, em sua aflição, mas eles frequentemente O louvam por Sua Excelência e Lhe dão graças por Seus benefícios. Enquanto eles meditam sobre a Sua grande misericórdia, em tê-los gerado para uma viva esperança, enquanto eles antecipam, pela fé, a herança gloriosa que, para eles, está reservada nos céus, e enquanto eles percebem estes fluxos do favor soberano de Deus vindo a eles através da morte e ressurreição do Seu Filho amado, eles bem podem exclamar: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo!”. Doxologias, então, são expressões de santa alegria e de homenagem em adoração. Em relação ao bendito termo especial, Ellicott mui proveitosamente observa:

Esta forma da palavra Grega é consagrada a Deus somente: Marcos 14:61; Romanos 9:5; 2 Coríntios 11:31. É uma palavra completamente diferente de “bendito” ou “feliz” das Bem-aventuranças e diferente de “bem-aventurada”, que é disto sobre a mãe de nosso Senhor em Lucas 1:28, 42. Esta forma dela [em 1 Pedro 1:3] implica que essa bênção é sempre devida em consideração a algo inerente à pessoa, enquanto aquela apenas implica uma bênção que foi recebida.

Assim, vemos mais uma vez quão minuciosamente distintiva e precisa é a linguagem da Sagrada Escritura.

 

O Glorioso Objeto de Louvor

Em terceiro lugar, nós contemplamos o seu objeto. Esta doxologia é dirigida ao “Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”, o que é explicado por Calvino, assim:

Porque, como anteriormente, ao chamar a Si mesmo o Deus de Abraão, Ele quis evidenciar a diferença entre Ele e todos os falsos deuses; assim, depois que Ele Se manifestou em Seu próprio Filho, Sua vontade é não ser conhecido de outro modo, a não ser nEle. Daí, aqueles que formam suas ideias sobre Deus em Sua pura majestade, à parte de Cristo, tem um ídolo em vez do verdadeiro Deus, como é o caso dos Judeus e dos Turcos [isto é, dos maometanos, aos quais podemos acrescentar os Unitarianos]. Todo aquele que, então, procura realmente conhecer ao único Deus verdadeiro, deve considerá-lO como o Pai de Cristo.

Além disso, em Salmos 72:17, é predito sobre Cristo que “os homens serão abençoados nele” e que “todas as nações o chamarão bem-aventurado”. Diante disso, o cantor sagrado irrompe nesse louvor em adoração: “Bendito seja o Senhor Deus, o Deus de Israel, que só ele faz maravilhas” (v. 18). Essa foi a forma de doxologia do Velho Testamento (cf. 1 Reis 1:48, 1 Crônicas 29:10); mas a doxologia no Novo Testamento (2 Coríntios 1:3; Efésios 1:3) é expressa em termos da autorrevelação da Divindade feita na Pessoa de Jesus Cristo: “Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” (João 5:23).

Aqui, Deus Pai não é visto absolutamente, mas relativamente, isto é, como o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Nosso Senhor é contemplado em Seu caráter de Mediador, ou seja, como o Filho eterno investido de nossa natureza. Como tal, o Pai nomeou e enviou-O em Sua missão redentora. Nessa qualidade e ofício, o Senhor Jesus O confessou e O serviu, como o Seu Deus e Pai. Desde o início Ele esteve envolvido nos negócios de Seu Pai, sempre fazendo as coisas que eram agradáveis à Sua vista. Ele foi regulado em todas as coisas pela Palavra de Deus. Jeová era sua “porção” (Salmo 16:5), Seu “Deus” (Salmos 22:1), Seu “Tudo”. Cristo estava submisso a Ele (João 6:38; 14:28): “a cabeça do Cristo é Deus” (1 Coríntios 11:3). Na forma de aliança, também, Ele era e é o Deus e Pai de Cristo (João 20:17), não somente enquanto Cristo esteve aqui na terra, mas mesmo agora que Ele está no céu. Isso é claro a partir da promessa de Cristo depois de Sua ascensão: “A quem vencer, eu o farei coluna no templo do meu Deus, e dele nunca sairá; e escreverei sobre ele o nome do meu Deus” (Apocalipse 3:12 – itálicos meus). No entanto, esta subordinação oficial de Cristo a Deus Pai em nenhum aspecto milita contra, nem modifica a Sua igualdade essencial com Ele (João 1:1-3; 5:23, 10:30-33).

 

Pelo Fato de Deus ser o Pai de nosso Fiador, Ele é Também nosso Pai

Deve ser observado atentamente que o louvor aqui é prestado não ao “Deus e Pai do Senhor Jesus Cristo”, mas de “nosso Senhor Jesus Cristo”. Em outras palavras, a relação de Deus conosco é determinada por Sua relação com o nosso Fiador. Ele é o Deus e Pai dos pecadores somente em Cristo. Ele é adorado como o Cabeça da aliança e Salvador dos Seus eleitos nEle. Este é um ponto de suma importância: a conexão que a Igreja mantém com Deus é estabelecida por aquela relação do Redentor com Deus, pois ela é de Cristo, e Cristo é de Deus (1 Coríntios 3:23). O título “Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” é a designação Cristã peculiar e característica da Divindade, contemplando-O como o Deus da redenção (Romanos 15:6; 2 Coríntios 11:31; Colossenses 1:3). Quando um israelita O chamava como “o Deus de Abraão, Isaque e Jacó”, ele O reconhecia e confessava não somente como o Criador e Governador moral do mundo, mas também como o Deus da aliança de sua nação. Assim, quando o Cristão O chama como “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”, ele O reconhece como o Autor da eterna redenção por meio do Filho encarnado, que voluntariamente tomou o lugar de subserviência e dependência nEle. No mais elevado sentido da palavra, Deus não é o Pai de nenhum homem até que ele se una Àquele a quem Ele comissionou e enviou para ser o Salvador dos pecadores, o único Mediador entre Deus e os homens.

A linguagem na qual Deus é aqui adorado explica como é que Ele pode ser tão amável e generoso para o Seu povo. Todas as bênçãos veem de Deus para as criaturas. Ele é quem lhes deu a existência e supre as suas variadas necessidades. Igualmente assim, todas as bênçãos espirituais procedem de Deus (Efésios 1:3; Tiago 1:17). O Altíssimo é “benigno até para com os ingratos e maus” (Lucas 6:35). Mas as bênçãos espirituais são derramadas a partir dEle não simplesmente como Deus, nem da parte do Pai absolutamente, mas a partir do “Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”. No que segue, o apóstolo faz menção à Sua grande misericórdia, de Seu gerar os eleitos para uma viva esperança, e para uma herança que transcende infinitamente todo bem terrenal. E na concessão desses favores, Deus é aqui reconhecido no caráter especial no qual Ele lhes outorga. Se for perguntado, Como pode um Deus santo dotar homens pecadores com tais bênçãos? A resposta é, como “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”. É porque Deus Se agrada do Redentor que Ele Se agrada dos redimidos. A obra de Cristo mereceu tal recompensa, e Ele a compartilha com aqueles que Lhe pertencem (João 17:22). Tudo vem para nós do Pai, por meio do Filho.

 

Sua Abundante Misericórdia, a Causa da Eleição da Graça

Em quarto lugar, vamos refletir sobre a sua atribuição, que é encontrada na frase “sua grande misericórdia”. Assim como Deus não elegeu porque previu que qualquer um se arrependeria e creria salvificamente no Evangelho – pois estes são os efeitos de Seu chamado invencível, o que por sua vez é a consequência e não a causa da eleição – mas, sim, “de acordo com seu próprio propósito” (2 Timóteo 1:9). Nem Ele regenerou por causa de quaisquer méritos possuídos pelos sujeitos do mesmo, mas apenas por Sua própria vontade soberana (Tiago 1:18). Sua grande misericórdia é aqui definida em oposição aos nossos abundantes deméritos, e na medida em que estamos sensíveis aos nossos deméritos, seremos movidos a prestar louvor à Sua grande misericórdia. Tal é o nosso terrível caso por causa do pecado, de forma que nada, a não ser a misericórdia Divina pode socorrê-lo. Atentem para as palavras de C. H. Spurgeon:

Nenhum outro atributo teria nos ajudado, se a misericórdia fosse negada. Como nós somos, por natureza, a justiça nos condena, a santidade nos desaprova, o poder nos esmaga, a verdade confirma a ameaça da lei, e a ira a cumpre. É a partir da misericórdia de Deus, que todas as nossas esperanças começam. A Misericórdia é necessária para o miserável, e ainda mais para o pecaminoso. A miséria e o pecado são totalmente unidos na raça humana, e a misericórdia aqui realiza as suas nobres ações. Meus irmãos, Deus graciosamente concedeu a Sua misericórdia para nós, e nós devemos reconhecer que, felizmente, no nosso caso, a Sua misericórdia tem sido grande misericórdia!

Nós estávamos contaminados com pecado abundante, e somente a multidão das Suas benignidades poderia ter retirado esses pecados. Nós estávamos infectados com um mal abundante, e somente misericórdia transbordante alguma vez poderia nos curar de toda a nossa doença natural, e fazer-nos encontrar o céu. Nós temos recebido graça abundante até agora; temos feito grandes saques no erário¹ de Deus, e da Sua plenitude todos nós recebemos graça sobre graça. Onde abundou o pecado, superabundou a graça… Tudo em Deus é em grande escala. Grande poder, Ele estremece o mundo. Grande em sabedoria, Ele controla as nuvens. Sua misericórdia é compatível com Seus outros atributos: é a misericórdia Divina, misericórdia infinita! Você pode medir a Sua Divindade antes que possa contabilizar a Sua misericórdia. Ela bem pode ser chamada de “abundante”, se ela é infinita. Ela sempre será abundante, pois tudo o que pode ser extraído de lá será apenas como a gota de um balde no próprio mar. A misericórdia que lida conosco não é a misericórdia do homem, mas a misericórdia de Deus, e, portanto, uma misericórdia sem limites. [Um Colar de Pérolas, Sermão Nº 948 – N. R.]

 

PARTE 2

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança”. Começaremos este capítulo com uma continuação de nossa análise da atribuição desta doxologia. Deus o Pai é aqui visto como a Cabeça da aliança, do Mediador e dos eleitos de Deus nEle, e é, portanto, chamado por Seu distintivo título Cristão (veja, por exemplo, Efésios 1:3). Este título O apresenta como o Deus da redenção. “Grande misericórdia” é atribuída a Ele. Esta é uma das Suas perfeições inefáveis, mas o seu exercício, como de todos os Seus outros atributos, é determinado por Sua própria vontade imperial (Romanos 9:15). Muito se fala na Escritura sobre esta excelência Divina. Lemos sobre sua “misericórdia” (Lucas 1:78). Davi declara: “Pois grande é a tua misericórdia” (Salmos 86:13); “Pois tu, Senhor, és… abundante em benignidade” (Salmos 86:5). Neemias fala de Sua “grande misericórdia” (Neemias 9:27). Ouça Davi descrever o efeito de meditar sobre esse atributo, enquanto ele o tinha experimentado praticamente, sobre sua adoração: “Porém eu entrarei em tua casa pela grandeza da tua benignidade; e em teu temor me inclinarei para o teu santo templo” (Salmos 5:7). Bendito seja o Seu nome porque “a sua benignidade dura para sempre” (Salmos 107:1). Bem, então cada crente pode se unir ao salmista, ao dizer: “Eu, porém, cantarei… a tua misericórdia” (Salmos 59:16). Para este atributo especial, os santos errantes devem olhar: “apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias” (Salmo 51:1).

 

A Misericórdia Geral e Especial de Deus deve ser Distinguida

Deve ser pontuado que há tanto uma misericórdia geral quanto uma especial. Essa distinção é necessária e importante, sim, algo vital; pois muitas pobres almas estão contando com a primeira, em vez de olhar pela fé para esta última. “O Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias são sobre todas as suas obras” (Salmos 145:9). Considerando quanto maldade abunda neste mundo, o coração discernente e contrito pode dizer com o salmista: “A terra, ó Senhor, está cheia da tua benignidade…” (Salmo 119:64). Para o bem de nossas almas, é essencial que nós compreendamos a distinção revelada na Palavra de Deus entre esta misericórdia geral e a especial benignidade de Deus em relação aos Seus eleitos. Em virtude de Sua eminência como um dom de Deus, Cristo é denominado “misericórdia a nossos pais” (Lucas 1:72 – itálicos meus). Como acertadamente o salmista declara: “Porque a tua benignidade se estende até aos céus” (Salmos 108:4; cf. Efésios 4:10); pois ali o propiciatório de Deus é encontrado (veja Hebreus 9, especialmente vv. 5, 23, 24), sobre o qual o Salvador exaltado está agora assentado, administrando os frutos de Sua obra redentora. É para lá que a alma condenada e sobrecarregada pelo pecado deve olhar por misericórdia salvadora. Concluir que Deus é misericordioso demais para condenar alguém eternamente é uma ilusão com que Satanás fatalmente engana multidões. A misericórdia do perdão é obtida somente através da fé no sangue expiatório do Salvador. Rejeite-O, e a condenação Divina é inevitável.

 

Esta Misericórdia é Abundante Porque ela é Misericórdia da Aliança

A misericórdia aqui celebrada por Pedro é mui claramente particular e distintiva. É aquela do “Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”, e flui para Seus objetos favorecidos “pela [por meio da] ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” (colchetes meus) É entre essas duas frases que encontramos estas palavras firmemente apresentadas: “que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança”. Assim, ela é uma misericórdia pactual, misericórdia redentora, misericórdia regeneradora. Justamente ela é denominada “grande misericórdia”, especialmente tendo em vista o Doador. Pois esta abundante misericórdia é emitida a partir do autossuficiente Jeová, que é infinito e imutavelmente bendito em Si mesmo, que não teria sofrido nenhuma perda pessoal se Ele abandonasse toda a raça humana à destruição. Foi de Sua mera boa vontade que Ele assim não o fez. Ela é vista como “grande misericórdia”, quando olhamos o caráter de seus objetos, ou seja, rebeldes depravados, cujas mentes eram inimigas contra Deus. Ela também aparece assim, quando contemplamos a natureza de suas bênçãos peculiares. Elas não são as mais comuns e temporais, como a saúde e força, sustento e preservação que são concedidas aos ímpios, mas os benefícios espirituais, celestiais e eternos, tais como nunca havia entrado na mente do homem conceber.

Ainda é mais vista assim, como “grande misericórdia”, quando contemplamos os meios através dos quais essas bênçãos são encaminhadas para nós: “pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos”, o que pressupõe necessariamente Sua encarnação e crucificação. Que outra linguagem, senão “grande misericórdia” poderia adequadamente expressar o Pai enviando o Seu Filho amado para tomar sobre Si a forma de servo, assumir a Si mesmo em carne e osso, e de ter nascido em uma manjedoura, tudo para o bem daqueles cujas inumeráveis iniquidades mereciam o castigo eterno? Esse Ser Bendito veio aqui para ser o Fiador do Seu povo, para pagar as suas dívidas, para sofrer em seu lugar, para morrer, o Justo pelos injustos. Portanto, Deus não poupou Seu próprio Filho, mas chamou a espada da justiça para feri-lO. Ele O entregou à maldição, para que Ele pudesse nos dar “também com ele todas as coisas” (Romanos 8:32). Assim, ela é uma misericórdia justa, como o salmista declara: “A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram” (Salmos 85:10). Foi na cruz que os atributos aparentemente conflitantes da misericórdia e da justiça, do amor e da ira, da santidade e da paz se uniram, assim como as várias cores da luz, quando separadas por um prisma natural de neblina, são vistas maravilhosamente unidas no arco-íris, o sinal e emblema do Pacto (Gênesis 9:12-17; Apocalipse 4:3). {{lindo!}}

 

O Meditar sobre o Milagre do Novo Nascimento Evoca Louvor Fervoroso

Em quinto lugar, consideremos o incitamento desta doxologia, o qual é encontrado nas seguintes palavras: “que (quem), segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança”. Foi a constatação de que Deus havia vivificado aqueles que estavam mortos em pecados que moveu Pedro a bendizê-lO com tanto fervor. As palavras “nos gerou” referem-se à regeneração deles. Mais tarde, no capítulo, o apóstolo descreve-os como tendo sido “de novo gerados” (v. 23) e no próximo capítulo dirige-se a eles como “meninos novamente nascidos” (1 Pedro 2:2). Uma vida nova e espiritual, Divina em sua origem, foi dada a eles, forjada em suas almas pelo poder do Espírito Santo (João 3:6). Essa nova vida foi dada com o propósito de formar um novo caráter e para a transformação da conduta deles. Deus enviou o Espírito de Seu Filho aos seus corações, comunicando, assim, uma santa disposição, que, como o Espírito de adoção (Romanos 8:15), os inclinou a amá-lO. Isso é denominado: uma nova geração, não somente porque é nessa ocasião que a vida espiritual começa e que uma semente santa é implantada (1 João 3:9), mas também porque uma imagem ou semelhança do próprio Progenitor é transmitida (1 João 5:1). Como caído Adão “gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem” (Gênesis 5:3), assim acontece com o Cristão no novo nascimento: “E vos vestistes do novo [homem], que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Colossenses 3:10 – colchetes do revisor).

Nas palavras “nos gerou de novo”, há uma dupla alusão: uma comparação e um contraste. Em primeiro lugar, tal como Deus é a causa eficaz de nossa existência, assim Ele é também de nosso bem-estar; nossa vida natural vem de Deus, e assim também acontece com a nossa vida espiritual. Em segundo lugar, o apóstolo Pedro tem a intenção de distinguir o nosso novo nascimento do antigo. Em nossa primeira geração e nascimento nós fomos concebidos em pecado e formados em iniquidade (Salmos 51:5); mas em nossa regeneração somos criados “em verdadeira justiça e santidade” (Efésios 4:24). Pelo novo nascimento somos libertos do poder reinante do pecado, pois somos, então, feitos “participantes da natureza divina” (2 Pedro 1:4). A partir de agora há um conflito perpétuo dentro do crente. Não somente a carne cobiça contra o espírito, mas o espírito cobiça contra a carne (Gálatas 5:17). Não é suficientemente reconhecido e compreendido que a nova natureza ou princípio da graça necessariamente faz guerra contra a velha natureza ou princípio do mal. Esta geração espiritual é atribuída à “grande misericórdia” de Deus, pois ela não foi induzida por nada em ou de nós. Nós não tivemos nem mesmo um desejo por Ele; em todos os casos Ele é capaz de declarar: “Fui achado daqueles que não me buscavam” (Isaías 65:1; cf. Romanos 3:11). Como crentes O amam porque Ele os amou primeiro (1 João 4:19), da mesma forma eles não se tornam buscadores de Cristo até que Ele primeiro os procure e eficazmente os chame (Lucas 15; João 6:44; 10:16).

Esta geração acontece de acordo com a grande misericórdia de Deus. A Misericórdia foi mais eminentemente demonstrada aqui. Pois a regeneração é a bênção fundamental de toda a graça e glória, sendo a primeira manifestação aberta de que os eleitos recebem do amor de Deus por eles. “Mas quando apareceu a benignidade e amor de Deus, nosso Salvador, para com os homens, não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo” (Tito 3:4-5). Como Thomas Goodwin tão bem expressou:

O amor de Deus é como um rio ou nascente, que corre no subsolo, e assim tem feito desde a eternidade. Quando ele rompe em primeiro lugar? Quando um homem é eficazmente chamado, então, este rio, que esteve subterrâneo desde a eternidade, e por meio de Cristo na cruz, irrompe no próprio coração de um homem também.

É então que somos, experimentalmente, feitos filhos de Deus, recebidos em Seu favor, e conformados à Sua imagem. Aí está uma notável demonstração de Sua benignidade. No novo nascimento o amor de Deus é derramado no coração, e este é a introdução, bem como o seguro penhor de todas as outras bênçãos espirituais, para o tempo e a eternidade. Como o amor de Deus, ao predestinar, garante nosso chamado eficaz ou regeneração, assim a regeneração garante a nossa justificação e glorificação (Romanos 8:29-30).

 

A Obra Divina da Regeneração Precede o Nosso Arrependimento e Fé

Refaçamos agora os nossos passos, seguindo novamente sobre o fundamento que abrangemos, mas na ordem inversa. Até que uma alma seja nascida de Deus não podemos ter qualquer apreensão espiritual da misericórdia Divina. Antes deste milagre da graça acontecer, ela está possuída, mais ou menos, de um espírito farisaico. Bendizer sinceramente a Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo por Sua grande misericórdia, é o reconhecimento sincero de alguém que se afastou com repugnância dos trapos imundos de sua justiça própria (Isaías 64:6) e que não coloca nenhuma confiança no carne (Filipenses 3:3). É igualmente verdade que nenhuma pessoa não-regenerada já tem a sua consciência aspergida com o sangue apaziguador de Cristo, pois até que a vida espiritual seja transmitida, arrependimento evangélico e fé salvadora são moralmente impossíveis. Portanto, não pode haver compreensão de nossa desesperada necessidade de um Salvador, ou qualquer confiança real nEle até que sejamos vivificados (feitos vivos) pelo Espírito Santo (Efésios 2:1), ou seja, nascermos de novo (João 3:3). Ainda mais evidente é que, desde que uma pessoa permanece morta em pecado, com sua mente posta em inimizade contra Deus (Romanos 8:7), não pode haver obediência aceitável a Ele; porque Ele nem se ilude nem é subornado por rebeldes. E certo é que ninguém que está apaixonado pelos enfeites coloridos deste mundo se conduzirá como “estrangeiros e peregrinos sobre a terra”; pois estão perfeitamente em casa aqui.

 

A Regeneração Produz uma Viva Esperança

“Nos gerou de novo para uma viva esperança”. Este é o imediato efeito e fruto do novo nascimento, e é uma das marcas características que distinguem os regenerados dos não-regenerados. Esperança sempre diz respeito a algo futuro (Romanos 8:24-25), sendo uma grande expectativa de algo desejável, uma antecipação de um bem prometido, seja real ou imaginário. O coração do homem natural é largamente flutuante, e seus espíritos mantidos, por contemplações de alguma melhoria em sua sorte que aumentará a sua felicidade neste mundo. Mas na maioria dos casos, as coisas sonhadas jamais se materializam, e mesmo quando o fazem, o resultado é sempre decepcionante. Pois nenhuma satisfação real da alma pode ser encontrada em qualquer coisa sob o sol. Se tais almas desiludidas têm estado sob a influência da religião feita pelo homem, então elas tentarão se convencer a olhar para a frente, esperando por algo muito melhor para eles mesmos no futuro. Mas tais expectativas provarão ser igualmente vãs, pois elas são apenas as fantasias carnais de homens carnais. A falsa esperança do ímpio (Jó 8:13), a esperança presunçosa de quem nem reverencia a santidade de Deus, nem teme a Sua ira, mas que conta com a Sua misericórdia, e a esperança morta de um professo sem graça, apenas zombarão de seus possuidores.

 

A Esperança do Cristão é Tanto Viva Quanto Vivificante

Em contraste com as expectativas ilusórias acarinhadas pelo não-regenerado, os eleitos de Deus são gerados de novo para uma esperança real e substancial. Esta esperança, que preenche suas mentes e age sobre suas vontades e afeições (assim alterando radicalmente a orientação de seus pensamentos, palavras e ações) é baseada nas promessas objetivas da Palavra de Deus (que são resumidas no v. 4). Na maior parte de suas ocorrências, o particípio adjetivo Grego zaō (viver; Nº 2198, no Dicionário Grego de Strong) é traduzido como “vivificante”, embora em Atos 7:38 (como aqui em 1 Pedro 1:3) ele é traduzido por viva. Ambos os significados são precisos e apropriados neste contexto. A esperança do Cristão é segura e firme (Hebreus 6:19), pois repousa sobre a palavra e juramento dAquele que não pode mentir. É o dom da graça Divina (2 Tessalonicenses 2:16), um fruto do Espírito (Romanos 5:1-5), inseparavelmente ligado à fé e ao amor (1 Coríntios 13:13). É uma esperança viva porque ela é exercida por uma alma vivificada, sendo um exercício da nova natureza ou princípio da graça recebida na regeneração. É uma esperança vivificante porque ela tem a vida eterna como o seu objeto (Tito 1:2). Que gloriosa mudança ocorreu antes de sermos gerados de Deus, muitos de nós éramos cativos de “uma certa expectação horrível de juízo” (Hebreus 10:27), e, com medo da morte, éramos por “por toda a [nossa] vida sujeitos à servidão” (Hebreus 2:15 – colchetes meus). Ela também é chamada de “uma viva esperança”, porque é imperecível, uma que olha e dura para além do túmulo. Se a morte alcançar o seu possuidor, longe de frustração, a esperança, então, entra em sua fruição.

Esta esperança interior do crente não é apenas uma viva, mas vivificante, pois ela é como a fé e o amor, um princípio ativo em sua alma, animando-o à paciência, firmeza e perseverança no caminho do dever. Nisso ela difere radicalmente da esperança morta dos formalistas religiosos e professos vazios, porque a “fé” deles nunca os estimula à atividade espiritual ou não produz nada para distingui-los dos mundanos respeitáveis que não fazem nenhuma profissão de fé. É a posse e exercício desta viva esperança que dá demonstração de que temos sido “gerados de novo”. Por geração Divina uma vida espiritual é comunicada, e esta vida se manifesta por desejos pelas coisas espirituais, por uma busca de satisfação em objetos espirituais, e por um desempenho alegre dos deveres espirituais. A autenticidade e a realidade desta “viva esperança” são, por sua vez, é evidenciada por sua produção de uma prontidão para a negação de si mesmo e pelo suportar das aflições, assim agindo como “âncora da alma” (Hebreus 6:19) em meio às tempestades da vida. Esta esperança distingue-se ainda mais, ao purificar o seu possuidor. “E qualquer que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também ele é puro” (1 João 3:3). É também uma “viva esperança” na medida em que anima e vivifica o seu possuidor; pois, enquanto ele vê o bendito alvo, a coragem é transmitida e a inspiração concedida, habilitando-o a perseverar até o fim de suas tribulações.

 

A Virtude Salvífica da Ressurreição de Cristo

Em sexto lugar, consideremos o reconhecimento desta oração, ou seja, “a ressurreição de Jesus Cristo”. A partir da posição ocupada por essas palavras, é claro que elas estão relacionadas e governam as palavras anteriores, bem como o versículo que se segue. Igualmente óbvio é que a ressurreição de Cristo implica a Sua vida e morte anteriores, embora cada uma possua seu próprio valor distintivo e virtude. A conexão entre a ressurreição de Cristo e o exercício da grande misericórdia de Deus o Pai, ao trazer-nos da morte para a vida, e por colocar em nossos corações uma viva esperança, e por nos trazer para uma herança gloriosa é algo mui real e profundo e como tal, exige a nossa atenção devota. O Salvador ressuscitando dentre os mortos foi a prova crítica da origem Divina de Sua missão e, portanto, uma ratificação do Seu Evangelho; foi o cumprimento das profecias do Antigo Testamento a respeito dEle, e, assim, foi provado que Ele é o Messias prometido; foi a realização de Suas próprias previsões, e, assim, foi certificado que Ele é um verdadeiro profeta. Isso determinou o contexto entre Ele e os líderes Judeus. Eles O condenaram à morte como um impostor, mas pela restauração do templo do Seu corpo em três dias, Ele demonstrou que eles eram mentirosos. Ele testemunhou a aceitação pelo Pai de Sua obra redentora.

Há, no entanto, uma ligação muito mais estreita entre a ressurreição de Cristo dentre os mortos e a esperança da vida eterna que está estabelecida diante de Seu povo. Sua emersão em triunfo a partir do sepulcro forneceu indubitável prova da eficácia do Seu sacrifício propiciatório, pelo qual Ele havia retirado os pecados daqueles por quem ele foi oferecido. Isso sendo cumprido, pela Sua ressurreição, Cristo trouxe justiça eterna (Daniel 9:24), garantindo, assim, para o Seu povo a recompensa eterna, devida a Ele por Seu cumprimento da Lei de Deus, por Sua própria obediência perfeita. Ele, que foi entregue à morte por nossos pecados ressuscitou para nossa justificação (Romanos 4:25). Ouçam as palavras de John Brown (a quem, devido ao comentário sobre 1 Pedro, eu devo muito):

Quando Deus “tornou a trazer dentre os mortos a nosso Senhor Jesus, grande pastor das ovelhas, pelo sangue da eterna aliança”, Ele manifestou como sendo “o Deus da paz”, a Divindade pacificada. Ele “o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus” (1 Pedro 1:21). Se Jesus não tivesse ressuscitado, a nossa fé seria vã, e permaneceríamos nos nossos pecados (1 Coríntios 15:17), e sem esperança. Mas agora que Ele ressuscitou,

Nosso Fiador libertado, nos declara livres,
Por cujas ofensas Ele foi apreendido;

Em Sua libertação, a nossa própria libertação vemos,
E nos alegramos em ver Jeová satisfeito.

Mas mesmo isso não é tudo. A ressurreição de Nosso Senhor deve ser vista não apenas em conexão com Sua morte, mas com a glória que se seguiu. Ressurreto dentre os mortos, Ele recebeu “poder sobre toda a carne, para que dê a vida eterna a todos quantos lhe deste” [João 17:2]. Como isso é projetado para incentivar a esperança, pode ser facilmente apreendido: “Porque ele vive, nós também viveremos”. Tendo as chaves da morte e do mundo invisível, Ele pode e vai ressuscitar-nos da morte, e dar-nos a vida eterna. Ele está sentado à direita de Deus. “Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória” [Colossenses 3:3-4]. Ainda não estamos na posse da herança; mas Ele, nossa Cabeça e Representante, está: “Mas agora ainda não vemos que todas as coisas lhe estejam sujeitas” [Hebreus 2:8]. Quanto ao Capitão de nossa salvação, “Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus… por causa da paixão da morte” [Hebreus 2:9]. A ressurreição de Cristo, quando considerada em referência à morte que a precedeu e a glória que a seguiu, é o grande meio de produção e fortalecimento da esperança da vida eterna.

Pela fé, contemple agora Cristo sentado à direita da Majestade nas alturas, de onde Ele está administrando todo o desenrolar daquela redenção que Ele consumou. “Deus com a sua destra o elevou a Príncipe e Salvador, para dar a Israel [espiritual] o arrependimento e a remissão dos pecados” [Atos 5:31 – colchetes meus).

Mais especificamente, a ressurreição de Cristo não é somente a base jurídica sobre a qual Deus o Pai imputa a justiça de Cristo aos pecadores crentes, mas também é o mandado legal sobre o qual o Espírito Santo passa a regenerar aqueles pecadores a fim de que eles possam inicialmente crer em Cristo, se converterem dos seus pecados e serem salvos. Infelizmente, como tantos outros pontos refinados da doutrina do Evangelho, isto é pouco compreendido hoje. O espírito de um homem deve ser trazido de sua morte no pecado antes que seu corpo seja o sujeito de uma ressurreição em glória no último dia. E enquanto o Espírito Santo é Aquele que vivifica espiritualmente os eleitos de Deus, deve ser lembrado que Ele é enviado, para fazer a Sua obra de salvação, pelo poder real de Cristo ressuscitado, a Quem a autoridade foi dada como recompensa de Sua obra consumada (Mateus 28:18, Atos 2:33; Apocalipse 3:1). Em Tiago 1:18, o novo nascimento é delineado até a soberana vontade do Pai. Em Efésios 1:19 e seguintes, o novo nascimento e suas graciosas consequências são atribuídos à operação graciosa do Espírito. Aqui em nosso texto, ao relatar a grande misericórdia do Pai, esta é atribuída à virtude do triunfo de Cristo sobre a morte. Deve ser observado que a própria ressurreição de Cristo é descrita como gerá-lO (Salmos 2:7; cf. Atos 13:33), enquanto que a nossa ressurreição espiritual é chamada de regeneração (Tito 3:5). Cristo é expressamente chamado de “o primogênito dentre os mortos” (Apocalipse 1:5). Assim Ele é chamado porque a Sua ressurreição marcou um novo começo para Ele e para o Seu povo.

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♦ Este texto é formado pelos Capítulos 4 e 5 do Livro A Guide to Fervent Prayer, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: A Guide to Fervent Prayer
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦  Tradução por Camila Almeida │ Revisão e Capa por William Teixeira 


A Especial Origem da Instituição da Igreja Evangélica – John Owen

Nosso principal interesse no momento é a instituição da igreja evangélica, ou o estabelecimento das igrejas sob o Novo Testamento; pois isso é sobre o que há muitas disputas, grandes e vorazes, entre os Cristãos, e estes participaram com perniciosas consequências e efeitos. Qual é a origem, qual é a natureza, qual é o uso e poder, qual é a finalidade das igrejas, ou de qualquer igreja, qual é o dever dos homens na mesma e para com ela, estes são temas de várias disputas, e a principal ocasião de todas as distrações que há no dia de hoje no mundo Cristão; pois, a maior parte dos que julgam-se obrigados a ordenar e zelar por essas coisas têm entrelaçado seus próprios interesses seculares e vantagens próprias em tal estado de igreja, enquanto é apropriado e adequado para preservá-los e promovê-los, supondo πορισμὸν εἶναι τὴν εὐσέβειαν, ou que a religião seja transformada em um comércio para obter vantagem exterior, eles procuram abertamente a destruição de todos aqueles que não consentem com essa forma e ordem de igreja em que eles têm formado para si mesmos. Além disso, a partir de várias concepções dos homens e de práticas adequadas sobre esta condição de igreja, vantagem e ocasião são tomadas para acusar uns aos outros de provocar cisma, e todos os tipos de males que supostamente ocorrem na mesma. Portanto, embora eu projete toda brevidade possível, e apenas para declarar esses princípios da verdade em que podemos repousar em segurança a nossa fé e prática, evitando tanto quanto está em meu poder, e o assunto permitir, lidar com essas coisas em forma de controvérsia com os outros, porém, um pouco mais do que a diligência normal é necessária para a verdadeira afirmação deste importante interesse de nossa religião. E o que devemos primeiro investigar é a especial origem e constituição autorizada desta instituição de igreja. Portanto,

1. A instituição da igreja do Novo Testamento não se relaciona menos a ou recebe força da natureza, e luz ou lei da mesma, do que qualquer outra condição de Igreja que seja. Aqui, quanto à sua natureza geral, o seu fundamento é colocado. Estas diretrizes podem até receber novos reforços pela revelação, mas não pode ser modificada, ou alterada, ou suprimida. Portanto, não há necessidade de qualquer nova instituição expressa além daquela que é exigida por essa luz e lei em todas as igrejas e sociedades para a adoração a Deus, mas apenas uma aplicação disso em ocasiões presentes e ao presente estado da igreja, que tem sido variada. E é apenas a partir de um espírito de discórdia que alguns chamam a nós ou a outros para produzirmos testemunho expresso ou instituição para cada circunstância na prática dos deveres religiosos na igreja, e em uma suposta falha nisso, concluem que eles mesmos têm poder para instituir e ordenar tais cerimônias como eles acham adequado, sob uma pretensão de suas circunstâncias de culto; pois, como a diretiva luz da natureza é suficiente para nos guiar nessas coisas, então a obrigação da igreja a isso faz todas as adições indicadas serem inúteis; como em outras consideração, as adições são nocivas.

Coisas tais como: os tempos e os períodos de assembleias da igreja; a ordem e decência em que todas as coisas devem ser feitas; a delimitação delas como o número dos seus membros e locais de habitação, de modo a atender às finalidades da sua instituição; a multiplicação de igrejas, quando o número de crentes ultrapassa a proporção capaz de edificação em tais sociedades; quais vantagens especiais devem ser usadas na ordem e culto da igreja, quais devem ser os métodos na pregação, traduções e melodias de salmos cantados, continuação em deveres públicos, e assim por diante. As coisas em si que sendo Divinamente instituídas, são capazes de tais orientações gerais em e pela luz da natureza como possíveis, com comum prudência Cristã, sejam em todas as ocasiões aplicadas ao uso e prática da igreja. Abandonar essas diretrizes e, em vez delas, inventar maneiras, modos, formas e cerimônias por nossa própria conta, cujas coisas em que são aplicadas e utilizadas em formas não convocadas, requeridas, ou reconhecidas (como é com todas as estabelecidas cerimônias humanamente inventadas); e isso, por leis e cânones, para determinar a precisa observação delas, em todos os tempos e épocas, para serem uma e a mesma, o que é contrário à própria natureza das circunstâncias de tais atos e deveres enquanto eles as aplicam — a sua utilização, nesse meio tempo, para a finalidade geral de edificação, sendo tão indemonstrável quanto a sua necessidade aos deveres a que eles estão também vinculados — é aquilo que não tem garantia de autoridade Divina ou prudência Cristã.

Esta questão do estabelecimento da igreja evangélica à luz da natureza, o apóstolo demonstra, em seus frequentes apelos a isso, quanto às coisas que pertencem à ordem da igreja, 1 Coríntios 7:29, 33, 37; 9:7; 11:14-16; 14:8-11, 32, 33, 40; e similares são feitas em diversos outros lugares. E as razões disso são evidentes.

2. Entretanto tal é a especial natureza e condição do estado de igreja evangélica; tal é a relação com a pessoa e mediação de Jesus Cristo, com todas as coisas que disso dependem; tal é a natureza desta especial honra e glória que Deus designou para Si mesmo nisso (coisas sobre o que a luz da natureza não pode dar nenhuma orientação nem direção); e, além disso, tão diferente e distante de tudo o que foi ordenado antes em qualquer outra instituição de igreja são as formas, meios e deveres do culto Divino prescritos na mesma — estes devem ter uma instituição Divina peculiar deles mesmos, para evidenciar que isto provém do céu, e não dos homens. A instituição atual da igreja sob o Novo Testamento o apóstolo chama de τελείωσις, em Hebreus 7:11 — sua perfeição, sua consumação, este estado perfeito a que Deus a designou neste mundo. E ele nega que ela poderia ter sido levada a esse estado por meio da Lei, ou por qualquer uma das instituições Divinas que pertenciam à mesma, capítulos 7:19; 9:9; 10:1. E nós não precisamos ir mais longe, não precisamos de nenhum outro argumento para provar que o estabelecimento da igreja evangélica, quanto à sua natureza especial, está fundamentado em uma instituição Divina peculiar; pois ela tem um τελείωσις, um perfeito estado consumado, o que a Lei não poderia trazer a ela, embora em si, suas ordenanças de culto, suas regras e políticas, eram todas de instituição Divina. E nisto consiste a sua excelência e primazia acima do estado da igreja durante a Lei, como o apóstolo prova amplamente. Supor que isso tenha sido dado a ela de alguma outra maneira, senão por autoridade Divina em sua instituição, é fazer avançar a sabedoria e autoridade dos homens acima das de Deus, e tornar a instituição da igreja evangélica em uma máquina a ser movida para cima e para baixo à vontade, a ser novamente moldada ou forjada de acordo com as ocasiões, ou ser movida por qualquer interesse, como as asas de um moinho o são ao vento.

Toda a dignidade, a honra e a perfeição do estado da igreja sob o Antigo Testamento dependiam apenas disso, que eram, em todos e de todos os elementos dela, de instituição Divina. Por isso, era “gloriosa”, ou seja, mui excelente, como o apóstolo declara em 2 Coríntios 3. E se a instituição da igreja do Novo Testamento não tem a mesma origem, esta deve ser estimada como tendo uma maior glória dada a ela pela mão dos homens do que a outra tinha, na medida em que foi instituída pelo próprio Deus; pois ela tem uma maior glória, como testifica o apóstolo. Nem qualquer homem pode, nem ousa qualquer homem vivo, dar qualquer instância em particular, em que não haja o menor defeito em seu ser, constituição, regra e governo do estado da igreja (pois, a igreja carece de instituição Divina), de modo que deve ser necessário fazer um suprimento dos mesmos pela sabedoria e autoridade dos homens. Mas essas coisas serão mais plenamente faladas, depois de termos declarado quem é que Divinamente instituiu esta condição de igreja.

3. O nome da igreja sob o Novo Testamento torna possível uma aplicação tríplice, ou seja, é tomada em uma noção tripla; como, (1) Para a igreja católica invisível, ou comunidade de fiéis eleitos em todo o mundo, realmente ligados pela fé nEle, no Senhor Jesus Cristo como sua Cabeça mística; (2) Para todo o número de professos visíveis em todo o mundo, que, pelo batismo e a profissão exterior do evangelho e obediência a Cristo, se distinguem do restante do mundo; e, (3) Para uma instituição em que o culto a Deus deve ser celebrado na forma e maneira que Ele ordenou, e que deve ser governada pelo poder que Ele lhe concede, e de acordo com a disciplina que Ele ordenou.

Sobre a natureza da igreja sob estas noções distintas, com nossa relação a uma ou a todas elas, e os deveres exigidos de nós mesmos, tratei totalmente no meu discurso sobre Amor Evangélico, Paz e Unidade da Igreja; e para lá devo remeter o leitor. É apenas a origem da igreja no último sentido que nós agora investigamos, e eu digo,

4. A origem desta instituição de igreja é direta, imediata e somente a partir de Jesus Cristo; somente Ele é o autor, planejador e instituidor da mesma. Quando eu digo que é imediata e somente a partir dEle, não tenho a intenção de dizer que isto que foi em e por Sua própria Pessoa, ou em Seu ministério Pessoal aqui na terra, que Ele absoluta e completamente consumou este estado, mas exclusivamente me refiro ao ministério de quaisquer outros que Lhe aprouve fazer uso; pois, enquanto Ele tomou sobre Si como Sua própria obra, edificar Sua igreja, e isso sobre Si mesmo como fundamento, assim, Ele empregou Seus apóstolos para atuarem sob Ele e com Ele, no prosseguimento desta obra até a perfeição. Mas o que foi feito pelos apóstolos considera-se ter sido feito por Ele mesmo, somente. Pois,

(1) Foi imediatamente a partir dEle que eles receberam revelações que diziam respeito a este estado de igreja, e o que deveria ser estabelecido nela. Eles nunca, nem em conjunto nem isoladamente alguma vez se esforçaram, em sua própria sabedoria, ou a partir de sua própria invenção, ou por sua própria autoridade, adicionaram algo à instituição da igreja, como de uso perpétuo, e que pertence a ela, como tal, ou menos ou mais, qualquer coisa maior ou menor que fosse. É verdade que eles deram os seus conselhos em casos diversos de emergências presentes, em e sobre assuntos da igreja; que deram diretrizes para a devida e ordenada prática do que fora revelado a eles, e exerceram autoridade quanto à ordenação de oficiais, e rejeição de pecadores obstinados da comunidade de todas as igrejas. Todavia inventar, planejar, instituir, ou nomear qualquer coisa na igreja e em sua instituição, a qual eles não haviam recebido por revelação imediata de Cristo, eles nunca fizeram nem tentaram. E a esta regra de procedimento, eles estavam precisamente obrigados a partir das palavras expressas de Sua comissão (Mateus 28:19-20). Isso, eu digo, é tão claramente incluído no conteúdo do Seu comissionamento, e assim evidente a partir de tudo o que é Divinamente registrado sobre a prática deles, que não admitirá nenhuma contradição sóbria. Em relação ao que os outros pensam ser adequado fazer dessa forma, nós não estamos preocupados.

(2) A autoridade pela qual os apóstolos agiram na instituição da igreja, em seu ordenamento, sobre o qual as consciências de todos os crentes eram obrigadas a submeterem-se, e cumprir com isso de uma forma obediente, era a autoridade do próprio Cristo, agindo neles e por meio deles, 2 Coríntios 1:24; 4:5. Eles, em todos os lugares, não assumem nenhum tal poder e autoridade em si mesmos. Eles confessaram que eles eram apenas despenseiros e ministros; não senhores da fé ou obediência da igreja, mas cooperadores de seu júbilo; sim, servos de todas as igrejas por amor de Cristo. E nisso segue-se o que é registrado sobre a sua prática, sua instituição, em sua ordenação, ou disposição de qualquer coisa na igreja, que deveria ser uma continuidade permanente, tendo nela o duradouro poder da autoridade do próprio Cristo. [...]

O que os apóstolos fizeram, indicaram e ordenaram na igreja para a sua observação constante, eles fizeram isso por revelação imediata de Cristo, e em Seu nome e autoridade, de modo que, em distinção, portanto, como governadores da igreja, o que eles fizeram ou encomendaram, o fizeram somente por uma devida aplicação às ocasiões presentes do que eles haviam recebido por revelação. Mas como eles eram apóstolos, Cristo enviou-lhes, como o Seu Pai O enviou; E Ele foi tão enviado do Pai, de forma que “permanecerá, e apascentará ao povo na força do Senhor, na excelência do nome do Senhor seu Deus” (Miquéias 5:4). Assim eles alimentaram as ovelhas de Cristo em Sua força, e na autoridade ou majestade de Seu nome.

5. Cristo, portanto, por Si só é o autor da instituição da igreja evangélica. E porque este é o único fundamento de nossa fé e obediência, como a tudo o que nós devemos crer, fazer e praticar, pela virtude dessa instituição de igreja, ou em sua ordem, a Escritura não apenas claramente a afirma, mas também declara os fundamentos dela, por que ela deve ser assim, e a partir do que ela é assim, como também em que o Seu agir nela consiste.

Três coisas, entre outras, são eminentemente necessárias quanto Àquele que constitui esta instituição de igreja, com tudo o que pertence a ela; e como a Escritura eminente e expressamente atribui todas elas a Cristo, assim nenhum homem, nem todos os homens do mundo, pode ter qualquer participação nelas como a fazê-los adequar esta obra, ou qualquer parte dela:

(1) A primeira delas é o direito e o título. Aquele que instituiu este estabelecimento da igreja deve ter um direito e título para dispor de todos os homens, em todas os seus interesses espirituais e eternos, como bem Lhe parecer; pois a esta instituição de igreja, ou seja, como ela é puramente evangélica, nenhum homem é obrigado pela lei da natureza, nem qualquer criatura pode dispor dela em uma condição sobre a qual todos os seus interesses, espirituais e eternos, dependerão. Este direito e título para a disposição soberana dos homens, ou de Sua igreja, pertence somente a Cristo, e isso sobre consideração tríplice: [1] Sobre a doação do Pai: Ele O constituiu “herdeiro de tudo” (Hebreus 1:2-3). Ele Lhe deu “poder sobre toda a carne” (João 17:2). Especialmente Ele Lhe deu e colocou em Sua absoluta disposição todos aqueles que devem ser a Sua igreja, versículo 6. [2] Pela virtude de aquisição: Ele, pelo preço de Seu preciosíssimo sangue, os comprou em Seu próprio poder e disposição: “A igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue” (Atos 20:28), o apóstolo faz disto o fundamento deste cuidado que deve ser tido por ela. E isso é invocado como razão suficiente para que nós estejamos totalmente à Sua disposição, e estejamos livres de qualquer imposição de homens nas coisas espirituais: “Fostes comprados por bom preço; não vos façais servos dos homens” (1 Coríntios 7:23). A aquisição desse direito e título foi um grandioso propósito dos principais atos de mediação de Cristo: “Porque foi para isto” e etc. (Romanos 14:9-10). [3] Sobre a conquista: pois, todos aqueles que foram, assim, dispostos por Ele, estavam tanto sob o poder de seus inimigos, quanto eles mesmos eram inimigos dEle em suas mentes. Ele não poderia, portanto, ter o direito soberano à sua disposição, senão por uma conquista dupla; a saber, primeiro de seus inimigos, pelo Seu poder; e depois deles mesmos por Sua palavra, pelo Seu Espírito, e por Sua graça. E esta dupla conquista Sua está plenamente descrita nas Escrituras.

Considerando, pois, que há uma disposição das pessoas que pertencem a esta instituição de igreja, como as suas almas, consciências, e todos os interesses eternos delas, por uma obrigação moral indispensável para o cumprimento conjunto, até que os homens possam mostrar que eles têm esse direito e título sobre os outros, e isto, ou pela concessão especial e doação de Deus, o Pai, ou por uma compra que fizeram deles para si mesmos, ou conquista, eles não devem ser considerados como tendo qualquer direito ou título de instituir qualquer coisa que pertence ao estado de igreja. E é em vão intencionar (como veremos posteriormente) que Cristo, de fato, ordenou esta instituição de igreja em geral, mas que Ele não determinou nenhuma forma particular de igrejas ou o Seu domínio, mas deixou isso à discrição e autoridade de homens, como eles achassem adequado, que eles têm poder exterior por sua garantia. Mas, se por estas nomeações e enquadramentos das igrejas com a sua ordem particular, os homens são dispostos, quanto aos seus interesses espirituais, além da obrigação da luz da natureza ou da lei moral, devemos ainda investigar quem lhes deu esse direito e o título de fazer esta disposição deles.

(2) Autoridade. Como direito e título consideram as pessoas dos homens a serem reduzidas a uma nova forma de governo, assim a autoridade diz respeito às regras, leis, ordens e estatutos a serem realizados, prescritos, e estabelecidos, pelo que os privilégios desta nova sociedade são transmitidos, e os deveres dela ordenados, a todos os que são levados a ela. Autoridades terrenas, que desejam dispor os homens em um estado e governo absolutamente novos para eles, como para com todos os seus interesses temporais da vida, liberdade, heranças e bens, de modo que eles devem manter todos eles na dependência e conformidade das regras e leis de seu novo governo e reino, devem ter essas duas coisas, a saber: o direito e o título às pessoas dos homens, o que eles devem obter pela conquista, ou uma renúncia absoluta de todos os seus interesses e preocupações à sua disposição; e autoridade, nisso para constituir que ordem, que tipo de estado, regra e governo lhes agrada. Sem isso eles descobrirão rapidamente que seus esforços e empreendimentos serão frustrados. A instituição da igreja evangélica, em sua natureza e em todas as suas leis e constituição, é absolutamente nova, e neste, eles, aos olhos do mundo inteiro são naturalmente estrangeiros e estranhos. Como eles não têm direito a isso, quanto aos seus privilégios, assim eles não têm a obrigação quanto a ele, uma vez que isso prescreve deveres; portanto, há necessidade de ambos: direito, quanto às pessoas dos homens; e autoridade, quanto às leis e constituição da igreja, quanto à concepção dela. E até que os homens possam alegar estas coisas, tanto o direito e autoridade no que diz respeito a todos os interesses espirituais e eternos das almas dos outros, eles podem bem considerar como é perigoso invadir o direito e a herança de Cristo, e deixar de buscar por uma aquisição de poder na concepção ou formação de igrejas evangélicas, ou fazer leis para sua regra e governo.

Esta autoridade não é apenas atribuída a Jesus Cristo na Escritura, mas está vinculada a Ele, de modo que nenhum outro pode ter qualquer participação na mesma. Veja Mateus 23:18; Apocalipse 3:7; Isaías 9:6-7. Pela virtude disso, Ele é o único “legislador” da igreja, Tiago 4:12; Isaías 23:22. Há, de fato, alguma derivação de poder e autoridade dEle para outros, mas esta não se estende além, salvo apenas que eles devem dirigir, ensinar e comandar aqueles à quem Ele os enviou, para que façam e observem o que Ele mandou, Mateus 28:20. “Ele edificou a Sua própria casa”, e Ele é “sobre a Sua própria casa”, Hebreus 3:3-6. Ele tanto constitui o seu estado quanto dá leis para o seu governo.

A desordem, a confusão, e a derrocada do reino de Cristo, que se seguiu após a usurpação dos homens, tomando sobre si um poder legislativo em e sobre a igreja, não podem ser facilmente declarados; pois, acima de uma ligeira pretensão, que de nenhuma forma é adequada ou benéfica aos seus fins — sobre os conselhos dados e determinação feita pelos apóstolos com os presbíteros e irmãos da igreja de Jerusalém, em uma constituição temporária sobre o uso da liberdade Cristã — os bispos dos séculos IV e V tomaram sobre si o poder de fazer leis, cânones e constituições para a ordenação do governo e do estado da igreja, trazendo muitas novas instituições sobre a pretensão da mesma autoridade. Nem os outros que os seguiram deixaram de construir sobre o seu alicerce de areia, até que toda a estrutura do estado da igreja foi alterada, uma nova lei feita para seu governo, e um novo Cristo — ou melhor, anticristo — assumiu a cabeça de seu governo por meio dessas leis; por toda essa pretensa autoridade de fazer leis e constituições para o governo da igreja, emitidos dessa fossa de abominações que eles chamam de direito canônico.

Que qualquer homem, apenas de um entendimento tolerável, e liberto de preconceitos enfatuados, simplesmente leia a representação que é feita do estado de igreja evangélica, sua ordem, regra e governo, na Escritura, de um lado, e a representação é feita por outro lado, de um estado de igreja, sua ordem, regra e governo, no direito canônico — o único efeito de homens assumindo para si o poder legislativo em relação à igreja de Cristo — se Ele não os pronuncia como sendo contrários um ao outro como a luz o é das trevas, e que pelo último, o primeiro é totalmente destruído e abolido [...].

Essa autoridade foi usurpada pela primeira vez por sínodos ou concílios de bispos. Por meio disso eles deveriam a qualquer momento declarar e dar testemunho a qualquer artigo da fé que nos seus dias havia sido contestado por hereges, não inquirirei sobre isto agora; todavia como para o exercício da autoridade reivindicada por eles para fazer leis e cânones para a regra e governo da igreja, deve ser lamentado que haveria tal monumento deixado de sua fraqueza, ambição, interesse próprio e loucura, como está no que resta das suas Constituições. Todo o seu esforço desse tipo foi no máximo apenas construção de madeira, feno e palha sobre o fundamento, em cuja destruição, eles sofrerão perdas, embora eles salvem a si mesmos.

Mas, ao elaborar leis para ordenar toda a igreja — em e sobre coisas inúteis e triviais, de forma alguma pertencente à religião ensinada a nós por Jesus Cristo; em e para a criação ou aumento de seu próprio poder, jurisdição, autoridade e regra, com a extensão e limites dos seus vários domínios; e para a constituição de novas formas e estados de igrejas, e novas formas de governo delas; na nomeação de novos modos, ritos e cerimônias do culto divino; com as confusões que seguem a isso, em mútuas animosidades, contendas, divisões, cismas e anátemas e horríveis escândalos como estes na religião Cristã — eles não cessaram até destruírem toda a ordem, regra e governo da Igreja de Cristo, sim, a própria natureza da mesma, e introduziram em seu lugar um estado de igreja e governo carnais, mundanos, adequados aos interesses de prelados avarentos, ambiciosos e tirânicos. A maioria deles, na verdade, não sabia para quem trabalhavam para o suprimento de materiais para esta Babel, que, por uma habilidade oculta no mistério da iniquidade, foi criada fora de suas disposições; pois depois que elas foram lavradas e esculpidas, moldadas, formadas e douradas, o papa apareceu na cabeça dela, por assim dizer, com essas palavras em sua boca: “Não é esta a grande babilônia que eu edifiquei para a casa real, com a força do meu poder, e para glória da minha magnificência?” [Daniel 4:30].

Este foi o acontecimento fatal dos homens que invadiram o direito de Cristo, e afirmaram sua participação na autoridade para criar leis para a igreja. Isso, portanto, é absolutamente negado por nós — ou seja, que quaisquer homens, sob o pretexto ou nome que for, tenha qualquer direito ou autoridade para constituir qualquer nova estrutura ou ordem da igreja, para fazer quaisquer leis de si mesmos para a sua regra ou para o seu governo, de forma que obrigue os discípulos de Cristo por dever de consciência à sua observação. Que não há nada nesta afirmação que deva, nem mesmo minimamente, contestar o poder dos magistrados, com referência às questões civis e políticas, externas à igreja, ou a profissão pública da religião nos seus territórios — nada disso deve ser retirado da justa autoridade dos guias lícitos da igreja, na ordenação, nomeação e quanto ao ordenar a observação de todas as coisas em si mesmas, de acordo com a mente de Cristo, serão posteriormente declarados. Nestas coisas “o Senhor é o nosso Juiz; o Senhor é o nosso legislador; o Senhor é o nosso rei, ele nos salvará” [Isaías 33:22].

É, então, apenas fracamente defendido: “Que, considerando que o magistrado não pode nomear ou ordenar nada na religião do que Deus proibiu, nem há qualquer necessidade que ele nomeie ou ordene o que Deus já determinou e ordenou; se é certo que ele assim não pode, por meio de comando de lei tais coisas na igreja que antes não foram nem ordenadas nem proibidas, mas indiferentes, que são o campo de sua própria competência legislativa eclesiástica, então ele não tem nem poder nem autoridade sobre a religião em absoluto”. Ou seja, se ele não tem esta autoridade e ou poder juntamente com Deus ou Cristo, ele não tem absolutamente nada! Um dos melhores argumentos que podem ser usados ​​para o poder do magistrado nas questões eclesiásticas é tomado a partir do exemplo aprovado dos bons reis, sob o Antigo Testamento. Mas eles pensavam ser honra suficiente para eles, e seu dever, observar e tomar cuidado para que as coisas que Deus havia designado e ordenado fossem diligentemente observadas por todos aqueles que com elas estavam envolvidos, tanto em relação aos sacerdotes quanto em relação ao povo, para que não fosse destruído o que Deus havia proibido. Pois, eles nunca nomearam qualquer coisa de si mesmos, ou impuseram algo como sendo necessário na Igreja e no seu culto, que Deus assim não tenha feito; e eles nunca avaliaram que isso estivesse em seu poder, ou que pertencesse ao seu dever. Quando eles faziam qualquer coisa dessa natureza, e, assim, fizeram quaisquer adições ao culto exterior as quais Deus não havia antes ordenado, eles o fizeram por revelação imediata de Deus, e assim por autoridade divina (1 Crônicas 28:19). É registrado como uma marca daqueles que eram ímpios, não apenas que eles ordenavam e faziam “estatutos” para a observação do que Deus havia proibido (Miquéias 6:16), mas também que ordenavam e designavam que Deus não havia ordenado (1 Reis 12:32-33). E será encontrado finalmente ser honra suficiente ao maior potentado debaixo do céu, cuidar do que Cristo determinou que devesse ser observado em Sua igreja e culto, sem reivindicar um poder semelhante ao do Altíssimo, para criar leis para a igreja e para que sejam observadas as coisas reveladas e inventadas por eles mesmos ou por outros homens.

Da mesma natureza é a outra parte de seu apelo contra essa negação de um poder legislativo nos homens com respeito à constituição do estado de igreja evangélica, ou a ordenação de qualquer coisa para ser observada, a que Cristo não ordenou, pois é dito:

“Que se isso for permitido, como toda dignidade, poder e honra dos governadores da igreja, será rejeitado ou desprezado, então todo tipo de confusão e desordem será trazido para a própria igreja; pois como pode ser o contrário, quando todo o poder de legislar, na preservação da dignidade dos governantes e da ordem da igreja é retirado? E, portanto, vemos que foi a sabedoria da Igreja nos séculos anteriores, que todas as principais leis e cânones que eles fizeram, em seus conselhos ou não, foram projetados para a exaltação e para a preservação da dignidade dos governantes da igreja; portanto, lance fora este poder, e você trará toda a confusão para dentro da igreja”.

Resposta 1. Em meu julgamento, eles não pensam suficientemente em quem e do que falam, os que argumentam desta maneira; pois a substância do que aqui é sugerido é que se a igreja tem toda sua estrutura, constituição, ordem, regra e o governo de Cristo somente, embora os homens desempenhem fielmente o seu dever em fazer e observar tudo o que Ele ordenou, não haveria nada nela, senão desordem e confusão. Se isso se torna a reverência que devemos ter a Ele, ou é apropriado à fidelidade e sabedoria que é particularmente atribuída a Ele, na constituição e ordenação de Sua igreja, não é difícil determinar, e a verdade será pois demonstrada.

Resposta 2. Quanto à dignidade e honra dos governantes da igreja, o tema de tantas leis eclesiásticas, eles devem, em primeiro lugar, se lembrar do exemplo do próprio Cristo em Seu ministério pessoal aqui na Terra: “Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos” (Mateus 20:28) — E da regra prescrita por Ele para a igreja, versículos 25-27: “Então Jesus, chamando-os para junto de si, disse: Bem sabeis que pelos príncipes dos gentios são estes dominados, e que os grandes exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre vós; mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal; e, qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo” — E da ocasião desta instrução dada aos Seus apóstolos, versículo 24: “E, quando os dez ouviram isto, indignaram-se contra os dois irmãos” — Como também a injunção dada a eles pelo apóstolo Pedro, a quem, em proveito próprio, alguns vinculam uma monarquia sobre toda a Igreja: “Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho” (1 Pedro 5:2-3) — E as benditas expressões da condição apostólica de Paulo, 1 Coríntios 4:1: “Que os homens nos considerem como ministros de Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus”. 2 Coríntios 1:24: “Não que tenhamos domínio sobre a vossa fé, mas porque somos cooperadores de vosso gozo”; 2 Coríntios 4:5: “Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor; e nós mesmos somos vossos servos por amor de Jesus”. Isso pode preparar as suas mentes para o gerenciamento correto dessa honra que lhes é apropriado. Pois,

Em segundo lugar, há na e pela constituição de Cristo e Suas leis expressas, uma honra e respeito devidos aos dirigentes da igreja que Ele determinou, cumprindo os deveres que Ele designou. Se os homens não estivessem cansados da simplicidade e humildade apostólicas, se eles tivessem se contentado com a honra e a dignidade vinculadas aos seu ofício e labor pelo próprio Cristo, eles jamais teriam entretido prazerosos sonhos ​​de tronos, preeminências, status de governantes, grandeza e poder seculares, nem enquadrado tantas leis e cânones sobre essas coisas, transformando toda a regra da igreja em um império mundano. Foi para tal, que a partir de todos os papas que já habitaram em Roma, nunca houve qualquer zelo, pretenso ou representado, pela regra e governo da igreja, pelas leis e cânones que ele fizera para esse fim, do que Gregório VII, por isso, se alguma vez houve qualquer anticristo no mundo (como há muitos anticristos), ele foi um deles. Seu orgulho luciferiano; seu pisoteio sobre todos os reis e potentados Cristãos; sua tirania horrível sobre as consciências de todos os Cristãos; seus ditames abomináveis ​​afirmando sua própria soberania como deus; exigindo que todos os seus homens, sob pena de condenação, fossem pecadores sujeitos a Deus e Pedro (ou seja, ele mesmo), do que seus próprios atos e epístolas são preenchidos, e além disto manifestam tanto quem e o que ele era. Até que por fim se chegou a esta questão deste poder de legislar ou fazer cânones, para a honra e dignidade de governantes das igrejas.

Resposta 3. Para que a constituição da Igreja por Jesus Cristo governe e permaneça — que as leis de sua regra, governo e culto, que Ele registrou na Escritura sejam diligentemente observadas por aqueles cujo dever é cuidar delas, tanto para observá-las por si mesmos quanto para ensinar aos outros o modo de agir — e nós sabemos muito bem que não haverá ocasião dada ou deixada para a mínima confusão ou desordem na igreja. Mas se os homens serão perversos, e pelo fato de que eles não podem fazer leis por si mesmos ou manter os estatutos feitos por outros, negligenciarão a devida observação e execução do que Cristo ordenou; ou negarão o que podemos e devemos, na e para a devida observação de Suas leis, para fazer uso da pura luz da natureza e das regras da prudência comum (o uso e exercício de ambas, as quais estão incluídos e intimados nos mandamentos de Cristo, em que Ele exige um cumprimento no caminho da obediência, o que não podemos realizar sem elas) — desconheço algum alívio contra a perpetuidade de nossas diferenças sobre estas coisas. Mas depois de tanto desprezo e desonra terem sido lançados sobre esse princípio, não é lícito observar qualquer coisa no governo da igreja ou no culto Divino, de forma constante, por força de quaisquer cânones ou leis humanas, que não esteja prescrita nas Escrituras [...].

Admitimos que as regras gerais que nos são dadas nas Escrituras para a ordem da igreja e culto devem ser aplicadas a todas as ocasiões e circunstâncias com preceitos Divinos particulares, positivos; Admitimos, também, que os apóstolos, no que eles faziam e representavam na constituição e ordenação das igrejas e sua adoração, fizeram e agiram em nome e pela autoridade de Cristo; como também que não precisavam de nenhum outro meio para comover e obrigar as nossas consciências a estas coisas, mas apenas que a mente e a vontade de Cristo fosse intimada e em tudo conhecidas diante de nós, mas não sob a forma de uma lei dada e promulgada; e com isto, eu suponho, nenhum homem de mente ou princípios sóbrios pode desconcordar. Ou então, dê um exemplo de uma tal deficiência como aquela mencionada nas instituições de Cristo, e toda a diferença nesta questão será retamente estabelecida [...].

A Escritura não somente atribui essa autoridade somente a Cristo, mas ela dá exemplos de Seu uso e exercício da mesma; que compreende tudo que é necessário para a constituição e ordenação de Suas igrejas e do culto delas (1) Ele edifica a Sua própria casa, Hebreus 3:3. (2) Ele constitui os ofícios e oficiais para regerem Suas igrejas, 1 Coríntios 7:5; Romanos 12:6-8. (3) Ele concede dons para as administrações da igreja, Efésios 4:8, 11-13; 1 Coríntios 11:12. (4) Ele dá poder e autoridade àqueles que devem ministrar na e regular a igreja, etc., questões as quais devem ser posteriormente faladas.

(3) Quanto a esta constituição da instituição da igreja evangélica, o Escritura atribui, de modo especial, fidelidade ao Senhor Cristo, Hebreus 3:2-6. Este poder está originalmente no próprio Deus; ela pertence a Ele somente, como o grande soberano de todas as Suas criaturas. A Cristo, como mediador, ela Lhe foi dada pelo Pai, e toda ela confiada a Ele [...]. E assim a Sua fidelidade é exercida na revelação de toda a mente de Deus nesta questão, instituindo, nomeando e comandando tudo o que Deus assim teria ordenado, e nada mais. E o que pode qualquer homem fazer, depois que vem o Rei?

A isso é adicionado, na mesma conta, a consideração de Sua sabedoria, Seu amor e cuidado para o bem de Sua igreja; que nEle são inefáveis e inimitáveis. Por todas essas coisas Ele estava capacitado para Seu ofício e obra que estavam reservados para Ele, de modo que Ele possa, em todas as coisas, ter a preeminência. E estes ofício e obras eram fazer a última e única plena, perfeita e completa revelação da mente e da vontade de Deus, quanto ao estado, ordem, fé, obediência e culto da igreja. Não houve perfeição em qualquer uma dessas coisas, até que Ele tomou essa obra em Sua mão; portanto, justamente pode-se supor que Ele tem assim, perfeitamente indicado e estabelecido todas as coisas relativas as Suas igrejas e seu culto, sendo a última mão Divina que deveria ser colocada neste trabalho, e esta Sua mão (Hebreus 1:2-3), que em tudo é capaz de legislar ou de criar uma constituição para o uso da Igreja em todos os tempos, ou o necessário para os Seus discípulos observarem é revelado, declarado e estabelecido por Ele.

E nesta persuasão permanecerei, até que eu veja melhores frutos e efeitos da interposição da sabedoria e autoridade dos homens, aos mesmos fins que Ele designou, do que ainda tenho sido capaz de observar em qualquer era.

A substância das coisas alegadas pode, para a maior prova de sua verdade, ser reduzida aos seguintes tópicos ou proposições:

Primeiro. Cada igreja estabelecida que possui uma instituição especial própria, dando a ela um aspecto especial, supõe e tem respeito à lei e luz da natureza, exigindo e orientando em geral aquelas coisas que são para a existência, ordem e preservação de tais sociedades como esta é. Deveria haver sociedades onde os homens se unem voluntariamente para o desempenho solene do culto Divino e caminhada conjunta em obediência diante de Deus; que essas sociedades devem usar os meios para a sua própria paz e ordem à medida que a luz da natureza as conduz; que onde muitos têm um interesse comum, eles devem consultar juntamente entre si qual a correta gestão da mesma, com outras coisas de semelhante importância, são ditames evidentes desta luz e lei. Agora, seja a que for que ao estabelecimento da igreja possa ser introduzido por instituição Divina [...]. E estas instituições Divinas em todos os seus ditames evidentes, continuam com o seu poder em e sobre as mentes dos homens, e assim deve ser eternamente. Portanto, as coisas que pertencem a isso não necessitam de nova instituição em qualquer estabelecimento da igreja que seja. Mas, ainda assim, –

Em segundo lugar. Tudo o que é exigido pela luz da natureza nessas sociedades como igrejas, como úteis para a sua ordem, e conduzindo-as à sua finalidade, é uma instituição Divina. O Senhor Jesus Cristo, na instituição das igrejas evangélicas, quanto ao seu estado, ordem, regra e culto, não exige de Seus discípulos que em sua observância de Suas nomeações deixem de ser homens, ou renunciem ao uso e exercício de suas habilidades racionais, de acordo com a regra daquele exercício, de acordo com a luz da natureza. Sim, porque as regras e orientações devem, neste caso, ser aplicadas às coisas espirituais e de simples revelação, Ele dá a sabedoria, prudência e entendimento, para que essa aplicação de forma devida, seja feita àqueles a quem a orientação e regulação da igreja estão dedicados. Portanto, como a todas as coisas que a luz da natureza nos dirige, no que diz respeito à observação dos deveres prescritos por Cristo e à igreja, não precisamos de nenhuma outra instituição, senão aquele uso da sabedoria espiritual especial e prudência que Cristo, o Senhor, dá à Sua igreja para essa finalidade.

Em terceiro lugar. Há na Escritura regras gerais orientando-nos, na aplicação da luz natural, para uma tal determinação sobre todas as circunstâncias, nas ações de governo da igreja e de culto, que são suficientes para o seu desempenho “com decência e ordem” [1 Coríntios 14:40]. Portanto, como foi dito antes, é totalmente vão e inútil exigir instituição expressa de todas as circunstâncias que pertencem ao governo, ordem, regra e culto na igreja, ou para a devida melhoria das coisas em si indiferentes à sua edificação, quando a ocasião exigir; nem elas podem ser de qualquer indicação contrária, apenas enquanto elas se encontram, à luz da natureza e da prudência espiritual, dirigidas por regras gerais das Escrituras.

Essas coisas, sendo premissas, nossa principal afirmação é que somente Cristo é o autor, instituidor e ordenador, em uma forma de autoridade e de legislação, da instituição da igreja evangélica, sua ordem, regra e culto, com todas as coisas constante e perpetuamente pertencentes a ela, ou necessárias para serem nela observadas. O que não for assim provém de homens, e não do céu. Isto é o que temos provado em geral, e será mais particularmente confirmado em nosso progresso. Assim —

6. Não há nenhum uso espiritual, nem benefício de qualquer instituição da igreja, nem de qualquer coisa nela executada, senão o que, da parte dos homens, consiste em atos de obediência à autoridade de Cristo. Se, em qualquer coisa que nós fizermos a partir desta natureza, não conseguirmos responder àquela pergunta que Deus dirige para ser feita neste caso, a saber: “Que culto é este?” (Êxodo 12:26-27), com a seguinte resposta: “Fazemos isso porque Cristo o exigiu de nós”, não O reconhecemos como o Senhor sobre Sua casa, não O ouvimos como Filho. Não existe qualquer ato de poder a ser colocado diante da regra da igreja, senão aqueles a quem isso é comissionado; ou isso é um ato de obediência a Cristo, ou isso é uma mera usurpação. Todo poder da igreja não é nada além de uma faculdade ou capacidade de obedecer aos mandamentos de Cristo de tal forma e maneira que Ele determinou; pois é a Sua constituição que regula a administração de Seu culto solene na igreja, e a norma deste, como em cumprimento às Suas ordens, assim algumas pessoas devem ser separadas e comissionados para este fim, de acordo com Seu apontamento. Esta é toda a Sua autoridade, tudo o que eles têm como ordem ou jurisdição, ou por quaisquer outros meios pelo qual eles têm o prazer de expressá-la. E onde há outra administração evangélica, qualquer ato de regra ou governo da igreja, quando pessoas realizam algo e não dão uma evidência de que elas fazem isso em obediência a Cristo, são nulas toda e qualquer obrigação sobre as consciências dos Seus discípulos. A negligência disso no mundo — em que muitos, no exercício da disciplina eclesiástica ou quaisquer atos que pertencem à regra dela, em nada pensam senão em seus próprios ofícios, pelo que tais poderes são anexados, por leis humanas e cânones, como para capacitá-los a agir em seu próprio nome, sem almejar a obediência a Cristo em tudo o que fazem, ou para fazer assim uma justa representação de Sua autoridade, sabedoria e amor — é desastroso para a ordem e norma da igreja.

7. Não há poder legislativo em e sobre a igreja, quanto à sua forma, ordem e culto, deixada a qualquer dos filhos dos homens, sob qualquer qualificação que seja; pois:

(1) Não há nenhum deles que tem participação em tais direitos, qualificações e dons, que são necessários a uma investidura ao poder de legislar; o qual foi dado e concedido ao próprio Cristo até o fim, de forma que Ele é o legislador da igreja [...]. Tem eles, qualquer um deles, um direito e um título a dispor das pessoas dos crentes da forma que quiserem, quanto aos seus interesses espirituais e eternos? Será que eles têm autoridade soberana sobre todas as coisas, para mudar a sua natureza moral, para dar-lhes novos usos e significados, para fazer necessárias as coisas que em si são indiferentes, e ordenar todas essas coisas por autoridade soberana em leis que obriguem as consciências dos homens? E assim por diante pode ser dito de Suas qualificações pessoais, de fidelidade, sabedoria, amor e cuidados, que são atribuídos a Ele para dar leis às Suas igrejas, sendo Ele o Senhor de Sua própria casa.

(2) O pretenso advento deste poder legislativo, sob o melhor pretexto que possa ser dado a ele — ou seja, em conselhos ou grandes assembleias de bispos e prelados — suficientemente demonstra o quão perigosa coisa é para qualquer homem estar comprometido com isso; pois isso emitido longamente em tal constituição de igrejas, e tais leis para o governo delas, como exaltando o direito canônico no lugar da Escritura, e assim extremamente destruindo a verdadeira natureza da Igreja de Cristo, e de toda a disciplina requerida nela.

(3) Tal pretensão é depreciativa para a glória de Cristo, especialmente quanto à Sua fidelidade em e sobre a casa de Deus, onde Ele é comparado a e preferido acima de Moisés em Hebreus 3:3-6. Agora, a fidelidade de Moisés consistia no fato de que ele fazia e nomeava todas as coisas de acordo com o padrão mostrado a ele no monte; ou seja, tudo o que era a vontade de Deus revelada e nomeada para a constituição, ordem, regra e culto de Sua igreja, e nada mais. Mas foi a vontade de Deus que deveria haver todas essas coisas na constituição da igreja evangélica também, ou se não, por que os homens contendem sobre elas? E se esta fosse a vontade de Deus, se elas não foram todas reveladas, nomeadas, prescritas, legalizadas por Cristo, onde está a Sua fidelidade em resposta à de Moisés? Mas nenhum exemplo pode ser dado de qualquer defeito em Suas instituições, que precise de qualquer suplemento a ser feito pelo melhor dos homens, quanto à finalidade de até constituir uma instituição de igreja, com ordem, regra, e com ritos de culto em particular.

(4) Quão depreciativo isso é para glória da Escritura, quanto à sua perfeição, será em outro lugar declarado.

8. Não há mais necessidade de dar autoridade, obrigando as consciências de todos os que creem, a qualquer instituição, ou a observação de dever, ou de atos de governo na igreja, senão apenas àquele que é evidenciado nas Escrituras ser da mente e da vontade de Cristo. Não é necessário que todas as coisas desta natureza sejam dadas a nós em forma de lei ou ordem precisa, em palavras expressas. É a mente e a vontade de Cristo que afeta imediatamente a consciência dos fiéis à obediência, pela forma ou meios, que o conhecimento delas é comunicado a eles na Escritura, quer por palavras expressas, ou apenas consequência do que é assim expresso. Portanto,

9. O exemplo e a prática dos apóstolos na plantação de igrejas, na nomeação de oficiais e dirigentes nelas, em instruções dadas para o seu caminhar, ordem, administração de censuras, e todas as outras questões sagradas, são uma indicação suficiente da mente e vontade de Cristo a respeito destas coisas. Nós não dizemos que em si mesmas elas são instituições e compromissos, mas infalivelmente declaram o que é assim, ou qual é o pensamento de Cristo em relação a estas coisas. Nem pode isso ser questionado sem uma negação de sua infalibilidade, fidelidade e autoridade Divina.

10. A afirmação de alguns, que os apóstolos tomaram seu padrão para instituição e regra das igrejas, e quanto aos diversos ritos de culto, a partir das sinagogas dos Judeus, de suas instituições, ordens e regras, não aquelas designadas por Moisés, mas, como se eles mesmos tivessem descoberto e ordenado, é tanto temerária quanto falsa. Na busca de tais conjecturas ousadas, alguém recentemente afirmou que Moisés tomou a maior parte de suas leis e cerimônias dos Egípcios, que é muito mais provável que muitos deles foram dados com o propósito para afastar as pessoas, por proibições, de qualquer complacência com os egípcios, ou qualquer outra nação; de quem Maimonides, em seu “Moré Nevochim”, dá-nos exemplos diversos.

Esta afirmação, eu digo, é precipitada e falsa; pois,

(1) Quanto às instâncias dadas pela sua confirmação, quem deverá assegurar-nos que elas estavam em uso e prática, nessa ocasião, nas sinagogas, quando os apóstolos davam regras às igrejas do Novo Testamento? Não temos nenhum registro delas, nem uma palavra em todo o mundo, do que foi o seu caminho e prática, senão o que é, pelo menos, 250 anos anterior e posterior aos escritos do Novo Testamento; e no primeiro de seus escritos, como deles se seguem, temos inúmeras coisas declaradas terem sido as tradições e práticas dos seus antepassados ​​desde os dias de Moisés, que sabemos ser totalmente falsas. Naquele momento em que eles se comprometeram a compor uma nova religião fora de suas tradições fingidas, em parte pela revolta de muitos apóstatas do Cristianismo contra eles, especialmente os Ebionitas e Nazarenos, e em parte por seu próprio estudo e observação, vieram ao conhecimento das diversas coisas nas igrejas evangélicas, sua ordem e culto, que eles as conduziram por si mesmos. Exemplos inegáveis ​​podem ser dados disso.

(2) Nisso não existe uma verdadeira coincidência entre o que foi ordenado pelos apóstolos e que era praticado pelos Judeus, isso em coisas que a luz da natureza e as regras gerais da Escritura direcionam. E é desonroso aos apóstolos e ao Espírito de Cristo neles, pensar ou dizer que em tais coisas eles tomaram o seu padrão a partir dos Judeus, ou tenham feito deles o seu exemplo. Certamente os apóstolos não tiveram o modelo e exemplo para a instituição da excomunhão a partir dos Druidas, entre os quais havia algumas coisas que se assemelham bastante a isso, até agora, uma vez que isso tem o seu fundamento na luz da natureza.

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♦ Este é o Capítulo 2 do Livro Inquiry into the Original, Nature, Institution, Power, Order, and Communion of Evangelical Churches, por John Owen.
♦ Fonte: CCEL.org │ Título original: Inquiry into the Original, Nature, Institution, Power, Order, and Communion of Evangelical Churches
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


A Condenação de Jesus Cristo – João Calvino

E eis que um dos que estavam com Jesus, estendendo a mão, puxou a espada e, ferindo o servo do sumo sacerdote, cortou-lhe uma orelha. Então Jesus disse-lhe: Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão. Ou pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e que Ele não me daria mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça? Então disse Jesus à multidão: Saístes, como para um salteador, com espadas e varapaus para me prender? Todos os dias me assentava junto de vós, ensinando no templo, e não me prendestes. Mas tudo isto aconteceu para que se cumpram as escrituras dos profetas. Então, todos os discípulos, deixando-o, fugiram. E os que prenderam a Jesus o conduziram à casa do sumo sacerdote Caifás, onde os escribas e os anciãos estavam reunidos. E Pedro o seguiu de longe, até ao pátio do sumo sacerdote e, entrando, assentou-se entre os criados, para ver o fim. Ora, os príncipes dos sacerdotes, e os anciãos, e todo o conselho, buscavam falso testemunho contra Jesus, para poderem dar-lhe a morte; E não o achavam; apesar de se apresentarem muitas testemunhas falsas, não o achavam. Mas, por fim chegaram duas testemunhas falsas, e disseram: ‘Este disse: Eu posso derrubar o templo de Deus, e reedificá-lo em três dias’. E, levantando-se o sumo sacerdote, disse-lhe: Não respondes coisa alguma ao que estes depõem contra ti? Jesus, porém, guardava silêncio. E, insistindo o sumo sacerdote, disse-lhe: Conjuro-te pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus. Disse-lhe Jesus: Tu o disseste; digo-vos, porém, que vereis em breve o Filho do homem assentado à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu. Então o sumo sacerdote rasgou as suas vestes, dizendo: Blasfemou; para que precisamos ainda de testemunhas? Eis que bem ouvistes agora a sua blasfêmia. Que vos parece? E eles, respondendo, disseram: É réu de morte” (Mateus 26:55-66).

 

 Se quiséssemos julgar superficialmente, de acordo com nossos sentidos naturais, a captura de nosso Senhor Jesus Cristo, estaríamos preocupados com o fato de que Ele não ofereceu resistência. Não parece consistente com a Sua majestade que Ele sofrera tal vergonha e desgraça, sem oferecer resistência. Por outro lado, premiaríamos o zelo de Pedro, uma vez que ele se expôs à morte. Pois, ele viu a grande multidão de inimigos. Ele estava sozinho, e era um homem inábil para manusear armas. No entanto, ele puxa a espada por causa do amor que ele tem para com o seu Mestre, e prefere morrer no campo, em vez de permitir que tal injúria seja feita a Ele. Mas por isso, vemos que devemos vir a conhecer, com toda a humildade e modéstia, aonde tudo o que o Filho de Deus fez e sofreu estava conduzindo, e que o que parece bom para nós não vale de nada, mas devemos orar a Deus para que Ele nos conduza e nos guie pela Sua Palavra e que não julguemos, exceto de acordo com o que Ele tem nos mostrado, pois quando isso ocorre o Evangelho torna-se um escândalo para muitas pessoas; outros fazem do Evangelho um divertimento, e tudo isso para a sua perdição. É que eles estão inchados com a presunção e são juízes precipitados. Mas, para que não sejamos enganados, devemos sempre, em primeiro lugar voltar ao que o nosso Senhor Jesus declara. Esta é a vontade de Deus, Seu pai. Esse é um ponto. Depois, nós temos que considerar a finalidade daquilo que pode parecer estranho para nós. Quando, então, tivermos estas duas considerações, em seguida, haverá ocasião para adorarmos a Deus e conhecermos que o que parece ser loucura de acordo com os homens é uma sabedoria admirável mesmo para os anjos.

Mas, para chegar a isso, consideremos o que é dito aqui sobre Pedro. Diz-se: “estendendo a mão, puxou da espada e, ferindo o servo do sumo sacerdote, cortou-lhe uma orelha”. Aqui vemos como os homens são muito ousados, quando eles seguem a sua tola opinião. Em seguida, eles são tão cegos que não se poupam sob quaisquer condições. Mas, quando eles deveriam obedecer a Deus, eles são tão covardes que é uma pena. Eles até esquecem-se de si mesmos de tal forma que não os faz recuar. É assim que sempre teremos cem vezes mais coragem de seguir nossas tolas imaginações do que fazer o que Deus nos ordena e cumprir o que o nosso chamado implica. Nós vemos muito disso no exemplo de Pedro. Pois, depois que ele mostrou que confessou e testemunhou de nosso Senhor Jesus, ele blasfema para seu próprio dano. Ainda assim, ele está contente em morrer, mesmo quando ele não é ordenado para isso. O que o move a puxara sua espada? Ele faz isso como que cheio de rancor. Pois, ele não recebera tal instrução de seu Mestre. E quando ele renuncia a Jesus Cristo, ele já conhecia o dito: “Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus” [Mateus 10:33]. Mas (como eu disse), ele é impulsivo. Este tolo desejo de apoiar o nosso Senhor Jesus, à sua maneira e de acordo com sua imaginação. Agora com o seu exemplo, aprendamos a nos esforçar para irmos onde Deus nos chama e que nada que Ele nos ordene seja muito difícil para nós. Mas, que não possamos tentar nada, nem mesmo mover o nosso dedo mínimo, a menos que Deus aprove isso e tenhamos o testemunho de que é Ele quem nos guia. Esse é um ponto.

De fato, em primeiro lugar, nosso Senhor Jesus mostra-lhe que ele ofendeu gravemente, porque ele não era ignorante da lei, onde se diz: “Quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue será derramado” [Gênesis 9:6]. São Pedro, em seguida, bem lembraria esta lição, que Deus não quer que força ou violência sejam usadas. E (o que é mais), em que escola ele havia sido alimentado durante mais de três anos? O nosso Senhor Jesus não havia se mantido, tanto quanto fora possível para Ele, em humanidade e gentileza? Onde, então, ele espera obter a aprovação por sua ousadia? Devemos observar além do que já dissemos. Ou seja, se o nosso zelo é valorizado por homens e é aplaudido, nessa medida, não deixará de ser condenado diante de Deus, se transgredirmos a Sua Palavra sempre tão futilmente. Não há, então, nenhum louvor, exceto em andar como Deus nos mostra através da Sua Palavra. Pois, assim que um homem vai para além desta linha, todas as suas virtudes somente fedem. Isso é o que acontece com todas as nossas devoções. Assim, se temos trabalhado para fazer o que nós imaginamos em nosso cérebro, Deus condenará tudo, a menos que tenhamos ouvido a Sua Palavra. Pois, à parte dela não há verdade que Ele aprove e que seja legítima diante dEle.

Mas, como para a consideração que estamos tratando agora, a segunda razão que o nosso Senhor Jesus alega é mais notável. O que já mencionamos acima é geral. Mas aqui há uma frase que é peculiar à morte e à paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando ele diz: “Ou pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e que Ele não me daria mais de doze legiões de anjos?”. Agora, uma legião nesse tempo habitualmente era composta de quatro ou cinco mil homens. “Há, então, um exército celestial que eu posso ter”, diz Ele, “e ainda assim, eu ajo sem ele. E por que, então, você veio aqui para usurpar mais do que Deus quis ou autorizou?”. Agora é certamente admissível clamar a Deus e orar a Ele para que Ele possa estar disposto a sustentar a nossa vida, e como Ele as considera preciosas, que Ele a possa manter em Sua proteção. Nosso Senhor Jesus declara que Ele não deseja isso agora e que Ele não deveria fazê-lo. Como, então, Pedro usará a violência, visto que isso está fora da ordem que Deus permitiu e estabeleceu por meio de Sua Palavra? Se um meio que é admissível em si não deve ser utilizado, como distinguir o que Deus tem defendido e o que Ele declarou digno de punição? Aqui (como já mencionado), vemos como o Filho de Deus Se sujeitou a essas vergonhas e que Ele preferiu deixar-se preso e amarrado como um malfeitor e um criminoso a ser um desleal por meio de milagre e que Deus empregasse Seu braço para protegê-lO. Pelo que temos que reconhecer como Ele valorizava a nossa salvação. Aqui é um ponto que já referi: a saber, que Ele nos remete à vontade e ao decreto de Deus, Seu pai. Pois, à parte disso, se poderia achar estranho que Ele não implorasse a Sua ajuda, como Ele certamente sabia que Ele poderia fazê-lo. Parece que Ele tenta a Deus quando Ele não clama a Ele em absoluto. Temos a promessa de que anjos cercarão aqueles que temem a Deus, até mesmo que eles os seguirão para impedi-los de se machucarem, e para que eles não encontrem nenhum mal em seus caminhos. Agora, quando Deus nos promete algo, Ele quer que isso nos convide à oração. Ainda assim, quando estamos em necessidade devemos voltar para Ele, a fim de que Ele possa usar Seus anjos para nos servir, por que Ele lhes deu este ofício. Vemos também que isto foi praticado pelos santos patriarcas e pais. “O Senhor, em cuja presença tenho andado, enviará o seu anjo contigo, e prosperará o teu caminho” [Gênesis 24:40], disse Abraão. Assim, então, os santos Pais o tem feito. Por que, então, Jesus Cristo não deseja ter os anjos? Pois Ele já havia sido confortado (como São Lucas menciona) e anjos O serviram, para adoçar a angústia em que Ele estava.

Parece, então, que Ele despreza a necessária ajuda de Deus. Porém, Ele leva isso em consideração quando Ele acrescenta: “Como, pois, se cumpririam as Escrituras?” Como se Ele dissesse: “Se nós duvidamos de algo, podemos, então, e devemos orar a Deus para que Ele possa olhar para nós com piedade e que por todos os meios Ele nos faça sentir o Seu poder. Mas quando estamos convencidos de que Ele deve passar por alguma necessidade, e que a vontade de Deus é conhecida por nós, então já não há uma questão de fazer-Lhe outro pedido, a não ser que Ele possa nos fortalecer no poder e na constância invencível, e que nós não façamos nenhuma reclamação, ou que não sejamos guiados por nossas afeições; mas que possamos seguir com uma coragem pronta, através de tudo aquilo a que Ele nos chama”. Por exemplo, se somos perseguidos por nossos inimigos, e não sabemos o que Deus tem reservado para nós, ou qual seria o resultado, temos que orar a Ele como se nossa vida fosse preciosa para Ele, e uma vez que Ele Se mantém em Sua guarda, que Ele demonstre isso pelo resultado e que Ele nos liberte. Mas quando estamos persuadidos de que Deus quer nos chamar a Si mesmo e que não há mais nenhum remédio, então devemos cortar toda disputa e totalmente resignar-nos, de modo que nada permaneça por mais tempo, mas que obedeçamos ao decreto de Deus, que é imutável.

Esta, então, é a intenção de nosso Senhor Jesus. Pois Ele certamente orou durante toda a sua vida, e mesmo anteriormente deste grande combate que Ele travou, Ele ora a Deus que, se fosse possível este cálice fosse afastado dEle. Mas agora, Ele assumiu Sua conclusão, porque Ele foi assim ordenado por Deus Pai e Ele viu que Ele deveria levar o fardo ao qual Ele estava comissionado, ou seja, oferecer o sacrifício perpétuo para apagar os pecados do mundo. Desde então, Ele se viu chamado àquele lugar, e o assunto terminara, essa é a razão pela qual Ele se abstém de orar a Deus para fazer o contrário. Ele não deseja, então, ser ajudado nem por anjos, nem pelos homens. Ele não deseja que Deus O faça sentir o Seu poder ao livrá-lO da morte. Apenas foi o suficiente para Ele ter esse espírito de constância, para que fosse capaz de ir, por Sua livre vontade, a realizar o Seu ofício. Isso é o que O satisfaz.

Agora, vejamos, em primeiro lugar, que a vontade de Deus deve parar-nos e manter-nos sob controle, de modo que, quando as coisas parecem-nos hostis e contra toda a razão, que possamos valorizar mais o que Deus ordenou do que o que nosso cérebro pode compreender. Nossa imaginação, então, deve ser espezinhada quando sentimos que Deus provou o contrário. Faz parte da obediência de nossa fé quando consideramos Deus ser sábio, de forma que Ele tem autoridade para fazer tudo o que Lhe agrada. Se nós temos razões para fazer o contrário, podemos saber que isso é apenas fumaça e vaidade e que Deus sabe tudo e que nada está escondido dEle, e mesmo que a Sua vontade é a regra de toda a sabedoria e de toda retidão. Além disso, o que nosso espírito argumenta contra, provém de nossa rudeza. Porque sabemos que a sabedoria de Deus é infinita, e quase não temos três gotas de sentido. Não precisamos, então, ser surpreendidos se os homens ficam receosos quando Deus não governa a Si mesmo de acordo com os apetites deles. E por que não? Porque nós somos tolos miseráveis. Na verdade, há apenas brutalidade em nós, por mais que o nosso senso e razão governem. Mas desde que não compreendemos a intensa profundeza dos juízos de Deus, aprendamos a adorar o que está oculto– para adorá-lo (digo eu) em humildade e reverência, confessando que tudo o que Deus faz é justo e correto, embora ainda possamos não perceber o quanto. Esse é um ponto.

Segue-se a isso, já que é assim que Deus quis, que Seu Filho fosse, portanto, exposto à morte, nós não podemos ter vergonha do que Ele suportou. Não podemos pensar que os homens ímpios estavam no controle e que o Filho de Deus não tinha os meios para Se defender. Pois, tudo começou a partir da vontade de Deus, e do decreto imutável que havia feito. É também por isso o Senhor Jesus diz em Lucas: “mas esta é a vossa hora e o poder das trevas” [Lucas 22:53], como se Ele dissesse: “Não se gloriem em nada do que vocês estão fazendo; porque o diabo é o vosso mestre”. No entanto, Ele mostra que isso ocorre por meio da permissão que Deus lhes deu. Embora o diabo os possuía, ainda assim, nem eles, nem ele poderiam tentar qualquer coisa a menos que Deus lhes permitisse. Isso, então, em resumo, é a forma como devemos ter os nossos olhos e todos os nossos sentidos fixos sobre a vontade de Deus, e em Seu plano eterno, quando a morte e a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo é contada para nós. Agora, Ele declara que tal é a vontade de Deus, porque está escrito. Pois, se Jesus Cristo não tivesse tido testemunho do que foi ordenado por Deus, Seu Pai, Ele ainda poderia ter estado em dúvida. Mas Ele conhecia o Seu ofício. Deus não O enviou aqui em baixo de forma que Ele não tivesse totalmente expressado a Ele a Sua incumbência. Isto é verdade, na medida em que o nosso Senhor Jesus é o Deus eterno, Ele não precisa ser ensinado por qualquer Escritura; mas na medida em que Ele é o nosso Redentor e que Se vestiu em nossa natureza para ter uma verdadeira fraternidade conosco, Ele teve que ser ensinado pela Sagrada Escritura, como vemos, acima de tudo, que Ele não recusou tal instrução.

 Então, uma vez que Deus mostrou a Ele a que Ele foi chamado, isto é sobre o que Ele confia. É por isso que Ele é tomado como um cativo, a fim de não retornar quando Ele sabia que devia alcançar a incumbência a que Ele estava comprometido, ou seja, oferecer-se em sacrifício para a redenção de todos nós. Assim, então, temos que aprender que, na medida em que esta vontade de Deus é secreta e incompreensível, é preciso recorrer à Sagrada Escritura. É verdade que Deus não deixa de ter Seu conselho ordenado por coisas que nós imaginamos ser por acaso. Mas isso não é declarado para nós. Não teremos sempre uma revelação especial para dizer que Deus determinou isto ou aquilo. Então, devemos conter o julgamento. É por isso que oramos a Deus para que Ele possa nos curar de uma doença ou que Ele nos livre de alguma outra aflição quando caímos nela. E por quê? Nós não sabemos o que Ele quer fazer. Estejam certos, não devemos impor uma lei sobre Ele. Esta condição deve sempre ser adicionada: que a Sua vontade seja feita. Mas todas as nossas orações devem nos conduzir aqui: pedir a Ele para que Ele possa nos conhecer sermos necessários e úteis, e que nós possamos, entrementes, referir tudo a Ele em Seu conselho secreto, a fim de que Ele faça o que bem Lhe parecer. Mas quando temos o testemunho através da Sagrada Escritura de que Deus quer algo, então não é adequado oferecer uma réplica, como eu já disse.

Aqui nós somos ainda mais assegurados quanto à pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo, que Ele fora aflito e cruelmente tratado com tanta vergonha e arrogância, desprezível abuso, e não apenas de acordo com o desejo dos homens ímpios e sem lei, mas, uma vez que Deus o havia assim decretado. E como sabemos? Por meio da Sagrada Escritura. Pois, os sacrifícios não foram ordenados na Lei dois mil anos antes de Jesus Cristo nascer? E antes que a Lei fosse dada ou escrita, Deus já não havia inspirado e ensinado os antigos Pais quanto ao sacrifício? E sangue de animais irracionais poderia adquirir a remissão dos pecados? Os homens poderiam se tornar agradáveis ​​a Deus? Não em absoluto, mas existiu para mostrar que Deus Se reconciliaria pelo o sangue do Redentor a quem Ele havia estabelecido. Então, Ele dá testemunho explícito e declaração através das Escrituras. Vemos, de fato, que os profetas falaram sobre Ele, e Ele também se refere especialmente a eles. Quando Isaías disse que Aquele que deveria ser o Redentor, seria desfigurado, que Ele seria tomado em desprezo, que Ele não teria nenhuma beleza ou não mais formosura do que uma cobra, que ele seria espancado e golpeado pela mão de Deus, que Ele seria uma coisa terrível de se ver, em resumo, que eles iriam tirar a Sua vida, por meio de que poder ele profetizou isso? Será que Deus não pode resistir a Satanás ou a todos os homens ímpios? Não é isso, mas Ele pronunciou pela boca de Isaías o que Ele havia ordenado anteriormente. Em Daniel, há uma expressão ainda mais grandiosa. Desde que é assim, então, Deus havia declarado que Seu único Filho seria sacrificado para a nossa redenção e salvação, agora estamos mais bem assegurados do que eu disse, isto é, que devemos sempre contemplar a mão de Deus, Quem governa, quando vemos que o nosso Senhor Jesus é sujeito a essas coisas vergonhosas nas mãos dos homens. É também por isso que São Pedro diz em Atos 4:27 que Judas e todos os judeus, e os guardas e Pilatos não agiram exceto quando o conselho e a mão de Deus o havia determinado, como será ainda mais declarado a seguir. Aqui, então, é o lugar onde devemos olhar, se não desejamos ser incomodados pelas nossas tolas imaginações. Isso é, que Deus enviou aqui abaixo o Seu Filho unigênito, a fim de aceitar a obediência quando Ele Se ofereceu a Ele em Sua morte e paixão, de modo a abolir todas as nossas falhas e iniquidades.

Agora, o segundo ponto que eu mencionei é o benefício que retorna para nós a partir do que nosso Senhor Jesus sofreu. Porque, se nós não soubéssemos o motivo, isso retiraria o sabor do que é narrado aqui para nós. Mas quando se diz que Ele foi preso e amarrado para nossa libertação, então, de fato, vemos a nossa condição, por natureza, isto é, que Satanás nos mantém sob a tirania do pecado e da morte, que somos escravos, de modo que, apesar de sermos criados à imagem de Deus, há em nós somente completa corrupção, que somos amaldiçoados, e que somos arrastados como pobres animais a este maldito cativeiro. Quando, então, sabemos e vemos isso, por outro lado, que o Filho de Deus não se recusou a ser vergonhosamente preso a fim de que os laços espirituais do pecado e da morte, que nos mantêm sob a servidão de Satanás, fossem quebrados, então nós temos que glorificar a Deus, temos que triunfar com plena voz na morte e paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e na captura que é aqui mencionada. Então é isso que devemos nos lembrar a partir dessa passagem.

Então, o escritor do Evangelho diz que o nosso Senhor Jesus curou o servo que havia sido ferido por Pedro. Não que ele fosse digno disso, mas para que a ofensa fosse removida. Pois, teria difamado a doutrina do Evangelho e a redenção de nosso Senhor Jesus Cristo, se esta ferida permanecesse (eu chamo de “redenção de nosso Senhor Jesus Cristo” o que ele adquiriu para nós), assim, poderia ser dito que Ele havia resistido ao governador do país e a todos os sacerdotes e que Ele cometera, por assim dizer, crime naquele lugar isolado. Isso, então, poderia ter obscurecido toda a glória do Filho de Deus e colocaria o Evangelho em vergonha perpétua. Também vejamos que essa ação de Pedro ocorreu por zelo de Satanás. Pois o diabo planejou fazer com que Jesus Cristo fosse infamado, com toda a Sua doutrina. Essa é também a tendência de todas as nossas belas devoções quando queremos servir a Deus de acordo com nosso desejo e a cada um é dada a licença para fazer o que ele imagina ser bom. Jesus Cristo, então, quis abolir tal escândalo, a fim de que Sua doutrina não fosse difamada em absoluto.

No entanto, vemos aqui uma ingratidão detestável naqueles que não foram movidos por tal milagre. Há os guardas que vem para prender o nosso Senhor Jesus Cristo. Eles veem aquele poder do Espírito de Deus que está operando nEle, de muitas formas. Ele os fez cair para trás um pouco antes por uma única palavra. Agora, Ele cura um homem que tem sua orelha cortada. Tudo isso não é nada para eles. Vemos, então, quando o diabo uma vez seduziu os homens e ele os tem deslumbrado os olhos, que nem as graças de Deus, nem todos os Seus poderes podem tocá-los para que eles não sigam e andam sempre em suas obras, e eles têm, como se fosse, o focinho de um porco, que se intromete em todos os lugares. Apesar de tudo o que Deus faz, de tudo o que Ele diz, eles sempre permanecem em sua obstinação, que é uma coisa horrível. No entanto, nós certamente temos que orar a Deus para que Ele possa nos dar prudência, de forma que nos beneficiemos com todas as Suas graças, a fim de que sejamos atraídos por Seu amor e também para nos tocar quando Ele levanta a Sua mão para nos mostrar que Ele é o nosso Juiz, de tal forma que nós, então, temamos, voltemos para Ele em verdadeiro arrependimento. Isso é, então, em resumo, o que temos que lembrar.

Independentemente do que isso possa significar, as bocas dos ímpios estavam fechadas quando Jesus Cristo curou o servo de Caifás. Então, diz-se que “os que prenderam a Jesus o conduziram à casa do sumo sacerdote Caifás” onde Ele foi questionado, etc. Para abreviarmos, omitimos o que São João diz sobre Anás, que era o sogro de Caifás, e talvez Jesus Cristo é conduzido para lá por respeito, ou talvez isso fosse ao longo do caminho, enquanto eles estavam esperando para que todos fossem reunidos. Jesus, então, é levado até a casa de Caifás e ali é questionado. Especialmente é dito: “Ora, os príncipes dos sacerdotes, e os anciãos, e todo o conselho, buscavam por falsos testemunhos contra Jesus, para poderem dar-lhe a morte; porém não encontravam. Mas, por fim chegaram duas testemunhas falsas, E disseram: Este disse: Eu posso derrubar o templo de Deus, e reedificá-lo em três dias”. Aqui vemos como Jesus Cristo foi acusado. Não que os sacerdotes estivessem movidos por algum zelo santo. Muitas vezes, aqueles que perseguem os inocentes imaginam que eles estão realizando um serviço agradável a Deus, como de fato, vemos que São Paulo estava possuído por uma raiva tal, que, sendo, por assim dizer, um salteador (pois assim ele é chamado), ele estragou e destruiu mais. Mesmo assim, ele imaginou sobre si mesmo, ser um bom partidário (zeloso). Mas isso não foi assim com Caifás e todo o seu bando. Pois, o que eles procuravam, exceto que Jesus Cristo fosse oprimido injustamente? Assim, vemos que a sua ambição os levou a lutar abertamente contra Deus, o que é uma coisa terrível. Porque, quanto a Caifás e todo o seu bando, eles são filhos de Levi, a linhagem santa que Deus escolhera. Isso não era por homens que eles haviam escolhido, mas Deus assim havia ordenado por meio de Sua lei. É verdade que houve uma corrupção vil e enorme, na medida em que o ofício do sacerdote foi vendido naquele tempo, e em vez de serem obrigados por toda a vida (assim Deus havia ordenado), cada um trazia o seu companheiro e aquele que trazia mais dinheiro, tomava essa dignidade. Tratava-se, então, de uma vil e detestável corrupção que trama e dissimula práticas que foram usadas ​​em tão santa e honrosa condição. No entanto, o Sacerdote sempre permaneceu nesta linhagem de Levi, a qual Deus dedicou ao Seu serviço. No entanto, olhem para eles! Todos inimigos de Deus, olhem para eles! Todos intoxicados por Satanás, de fato enfurecidos contra o Redentor do mundo, que era o propósito final da Lei.

Assim, notemos que aqueles que estão em elevada condição e dignidade nem sempre permanecem tão fielmente que não seja necessário manter vigilância sobre eles, como sobre aqueles que podem ser inimigos de Deus. Pelo que alguém pode ver a mui obtusa insensatez dos Papistas, quando eles adotam o título e a condição do Sacerdote. Suponham que Deus houvesse ordenado que houvesse um papa (o que Ele nunca fez). Suponham que Ele tivesse o Seu trono em Roma (isso ainda menos). Mesmo que tudo isso fosse verdade, ainda assim na pessoa de Caifás e de sua espécie, é visto que todos aqueles que têm sido levantados à honra podem abusar do seu poder. Então nós não podemos ser tão tolos a ponto de nos entretermos com máscaras. E quando há algum título honroso, que Deus não perca a Sua autoridade sobre ele, como podemos ver os Papistas, que renunciam a toda a Sagrada Escritura e fazem homenagem aos seus ídolos. Aprendamos, então, que sob a sombra de alguma dignidade humana Deus não deve ser diminuído, mas Ele deve manter o Seu domínio soberano. Esse é um ponto. Quanto ao escândalo, que poderíamos conceber aqui de acordo com a nossa imaginação, observemos o que é dito no Salmo 118 (como também nosso Senhor Jesus havia alegado anteriormente), que Ele é a rocha que seria rejeitada pelos construtores. E quem eram os construtores da casa de Deus e de Sua Igreja? Os sacerdotes. Pelo menos eles deveriam permanecer naquele ofício. No entanto, eles rejeitaram a pedra que Deus estabeleceu como a pedra angular. E esta pedra, embora pudesse ter sido rejeitada, no entanto, tem sido estabelecida no lugar principal do edifício, ou seja, Deus não deixará de cumprir o que Ele havia ordenado por meio de Seu conselho, quando Ele ressuscitou dos mortos Seu único Filho e elevou-O mais do que Ele era antes de ser esvaziado. Para que todo joelho se dobre diante dEle.

Quando é dito aqui que os sacerdotes buscavam falso testemunho, isso não era simplesmente inventar um crime, mas ter algum pretexto e disfarce para sobrecarregar e oprimir o Senhor Jesus. Na verdade, Ele havia pronunciado estas palavras: “Derribai este templo, e em três dias o levantarei” [João 2:19]. Essas, então, são as palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, exatamente como elas saíram de Sua boca. As testemunhas, que são falsas, recitam-nas. Alguém poderia dizer que elas são testemunhas boas e fiéis. No entanto, o Espírito Santo chama-lhes falsas, uma vez que elas perversamente perverteram esta observação. Pois, nosso Senhor Jesus falou de Seu corpo, que é o verdadeiro templo da divina majestade. O templo material que foi construído em Jerusalém não era nada além de uma figura; Era apenas uma sombra, como se sabe. Mas em nosso Senhor Jesus toda a plenitude da Divindade fez Sua habitação, como diz São Paulo, de fato, corporalmente e em verdadeira substância. Então, observemos que temos que olhar não apenas as palavras de uma testemunha, mas a intenção de quem fala. Esta é uma boa e útil instrução para nós, porque vemos que os homens são tão dados às suas más ações e mentiras que, quando eles têm alguma cobertura, isso é suficiente para que eles, e lhes parece que são absolvidos diante de Deus quando eles, por estes meios, acusam falsamente um homem. Não podemos, então, ser parados simplesmente com as palavras ou formalidade ou cerimônia, mas que possamos olhar para a verdadeira natureza da causa. Para aqueles que sempre sustentam que eles não dão nenhuma evidência, exceto a que existia, não deixarão de ser consideradas falsas testemunhas diante de Deus, como podemos ver.

Ao que se refere que Caifás disse a Jesus Cristo: “Não respondes coisa alguma ao que estes depõem contra ti? Jesus, porém, guardava silêncio”. No entanto, Jesus continua totalmente silencioso e recebe todas aquelas palavras caluniosas em silêncio. Alguém pode achar estranho que Jesus Cristo, que teve uma justa ocasião suficiente para repelir tal falsidade, não contradiz. Mas (como já mencionamos, como veremos ainda mais plenamente) Jesus Cristo não estava ali para manter a Sua doutrina como anteriormente. Devemos, portanto, distinguir prudentemente entre todas as circunstâncias. Pois Jesus Cristo, depois de ter jejuado no deserto, foi enviado por Deus Pai para anunciar a doutrina do Evangelho. Durante todo esse tempo, vemos com o que magnanimidade Ele sempre defendeu a doutrina da qual Ele era ministro. Nós vemos como Ele se opunha a todas as contradições. Isso, então, é como Ele mesmo desempenhou o Seu ofício, uma vez que Ele fora enviado como ministro da Palavra. Mas aqui há uma consideração especial. É que Ele deve ser o Redentor do mundo. Ele deve ser condenado, de fato, não por ter pregado o Evangelho, mas para nós, Ele deve ser oprimido, por assim dizer, às mais baixas profundezas e sustentar a nossa causa, uma vez que Ele estava ali, por assim dizer, na pessoa de todos os amaldiçoados e de todos os transgressores, e daqueles que mereciam a morte eterna. Assim, então, Jesus Cristo tem esse cargo, e Ele suporta o fardo daqueles que haviam ofendido a Deus mortalmente, é por isso que Ele mantém silêncio. Então, observemos também que, quando havia necessidade de que Jesus Cristo mantivesse a doutrina do Evangelho, e que seu ofício e sua vocação o exigiam, Ele guardou isso. Todavia, quando, pelo silêncio Ele realizou o ofício de Redentor, como se Ele aceitasse a voluntária condenação, não foi pela ausência de consideração por Si mesmo que manteve a Sua boca fechada, pois Ele estava lá (como eu já disse) em nosso nome. É verdade que Ele fala (como veremos), mas não é para Sua defesa; não é sem inflamar ainda mais a raiva e fúria dos homens ímpios contra Ele. Isso, então, é porque Ele não quis escapar da morte, mas entregou-Se voluntariamente para ser oprimido, a fim de que pudesse mostrar que Ele esqueceu-se de Si mesmo, a fim de nos absolver diante de Deus, Seu Pai. Desta forma, Ele não teve consideração por Si mesmo, nem pela Sua própria vida, nem mesmo por Sua honra. Era tudo um a sofrer as vergonhas e desgraças do mundo, desde que os nossos pecados fossem abolidos e fôssemos absolvidos de nossa condenação.

Quando então se diz: “E, insistindo o sumo sacerdote, disse-lhe: Conjuro-te pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus. Disse-lhe Jesus: Tu o disseste; digo-vos, porém, que vereis em breve o Filho do homem assentado à direita do Poder”, quando for tarde demais, ou seja, para eles, desde que isso será para a confusão deles. Aqui o nosso Senhor Jesus fala, mas não é para prostrar-se como um ser humano ao sumo sacerdote e todo o seu bando. Ao contrário, Ele usa ameaças para atingir-lhes ainda mais. Se antes ele estava cheio de malícia e crueldade, isto deve acender ainda mais o fogo. Mas, já declaramos que Jesus Cristo não teve consideração por Si mesmo e que, antes, Ele coloca-Se no dever, o qual Ele tomou a responsabilidade, ou seja, ser nosso Redentor.

Além disso, aqui temos, em primeiro lugar, por assim dizer, inimigos de Deus, que são totalmente possuídos por Satanás, que ainda abusarão de algum tipo de disfarce de religião, pois, alguém poderia dizer que este grande sacerdote ainda executa bem o seu ofício, quando ele conjura a Jesus Cristo pelo Nome do Deus vivo. Mas, é aí que os homens estão mergulhados uma vez que Satanás cega os seus olhos. Ele os lança em tal desfaçatez que eles não têm reverência a Deus, não mais do que eles têm vergonha diante dos homens. Nesta resposta de nosso Senhor Jesus, temos que observar que Ele deseja declarar tanto a Caifás e a todo o restante que se Ele está, por assim dizer, desta forma esmagado por um pouco de tempo, isso não diminuirá a Sua majestade, que Ele pode ser sempre considerado e reputado o Filho Único de Deus. Mas Ele tinha aqui uma consideração ainda mais elevada. Isso é: que podemos estar certos de que, tendo, assim, humilhado a Si mesmo por nossa salvação, nada foi perdido de Sua majestade celestial, mas que diante dos homens Ele estava disposto a ser tão oprimido, a fim de que estejamos totalmente seguros de que seremos encontrados honrosos diante de Deus, porque todas as vergonhas que teríamos merecido serão abolidas. Desde, então, o nosso Senhor Jesus manteve silêncio e Ele não Se defendeu em Sua boa causa; agora nós temos nossas as bocas abertas para invocar a Deus como se fôssemos justos. Ele ainda é o nosso Advogado, que intercede por nós. Quando, então, nosso Senhor Jesus suportou, foi no sentido de que agora, em plena liberdade Ele intercede por nós diante de Deus Pai, embora nós não sejamos nada, senão vermes miseráveis. Há em nós apenas toda a miséria. No entanto, temos acesso a Deus para que O invoquemos em particular e para clamar abertamente por Ele, como nosso Pai.

Isto é o que Ele deseja mostrar quando Ele disse: “digo-vos, porém, que vereis em breve o Filho do homem assentado à direita do Poder”. Nós devemos, então, nos afastar de todos os aspectos que poderiam nos trazer escândalo, quando vemos que o nosso Senhor Jesus foi assim humilhado. Então, olhemos para o que foi a finalidade de tudo. Ele quis, então, ser condenado sem qualquer resistência, a fim de que possamos ser capazes de comparecer perante o tribunal de Deus, e que cheguemos ali livremente, sem qualquer medo. Aprendamos, então, em resumo, cada vez que a história da Paixão é recitada para nós, a gemer e suspirar vendo que o Filho de Deus teve que sofrer tanto por nós, que nós tremamos diante de Sua Majestade até que ele nos apareça. Que estejamos tão resolvidos que quando Ele vier, isso seja para nos fazer experimentar o efeito do fruto que Ele adquiriu para nós por meio de Sua morte e paixão. Além disso, que possamos temer que sejamos contados com aqueles a quem Ele ameaça, dizendo. “Vós vereis em breve” Pois, isso será que os ímpios e réprobos sentirão o quão terrível é o tribunal de Deus e quão grande é o Seu poder para lançá-los para baixo quando Ele Se levantar contra eles. Quando São Paulo também quer falar da condenação que os ímpios e os que são amaldiçoados por Deus suportarão, ele diz que eles estarão diante de Sua infinita majestade trêmulos e assustados diante de Seu olhar.

 

Desde que é assim, aprendamos a nos humilhar diante do Senhor Jesus. Não esperemos para ver o olhar da majestade, que Ele mostrará em Sua segunda vinda, mas pela fé contemplemos a Ele hoje como nosso Rei, e Cabeça dos anjos e de todas as criaturas, e O recebamos como o nosso soberano Príncipe. Atribuamos a Ele a honra que Lhe pertence, sabendo que, como Ele nos é dado por sabedoria, por redenção, por justiça e santidade de Deus Seu Pai, devemos atribuir a Ele todo louvor, e que é de Sua plenitude que devemos extrair para que estejamos satisfeitos. Estejamos aconselhados, então, a fazer esta homenagem ao nosso Senhor Jesus Cristo, apesar de que hoje nós ainda não vemos o Seu tribunal preparado. Mas O contemplemos com os olhos da fé e oremos a Deus para que Ele possa iluminar-nos por Seu Espírito Santo, para que Ele possa nos fortalecer para que O invoquemos no tempo da angústia, e que isso possa conduzir-nos acima do mundo, acima de todos os nossos sentidos e de todas as nossas apreensões, de tal forma que o nosso Senhor Jesus pode ser magnificado hoje por nós como Ele merece. Isso, então, em resumo, é o que temos que lembrar.

Quanto à declaração que Caifás e os sacerdotes O condenaram à morte, que possamos aprender a não ser surpreendidos com a obstinação dos ímpios e dos inimigos da verdade. Hoje, essa doutrina é muito necessária para nós. Pois vemos os grandes deste mundo blasfemando abertamente contra o Evangelho. Vemos até mesmo em nosso meio que aqueles que fazem profissão do Evangelho e desejam ser consideradas pessoas reformadas e em quem parece que há somente o Evangelho, ainda assim condenam como diabos encarnados, ou mesmo como animais furiosos possuídos por Satanás, a doutrina da Evangelho. Alguém não necessita ir muito longe para ver todas essas coisas. Assim, que possamos estar seguros contra tais escândalos, e que possamos aprender a sempre glorificar o nosso Deus. Apesar de Caifás e toda a sua espécie cuspiu suas blasfêmias, tanto quanto eles queiram, e embora eles digam que Jesus Cristo merece a morte, é necessário que nos mantenhamos em silêncio sobre tal artigo, embora seja ruim. Embora, então, eles assim infectem o ar por meio de suas blasfêmias vis e execráveis, ainda assim, nos apeguemos a essa voz do nosso Senhor Jesus Cristo. Se hoje a Sua verdade é tão falsamente condenada pelos homens, e é posta em dúvida, é falsificada, é pervertida, e as pessoas deliberadamente viram as costas para ela, ela é forte e poderosa o suficiente para se manter. Esperemos com paciência até que Ele aparece para a nossa redenção. No entanto, que todos nós aprendamos a nos humilhar, e dar a Ele toda a glória, pois Ele esteve tão disposto a inclinar-Se, de fato, a esvaziar-Se de tudo por nossa salvação.

Agora, prostremo-nos em humilde reverência diante da majestade do nosso Deus.

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♦ Fonte: Monergism.com
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida e Fiel).

♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por Amanda Ramalho


Pecado Imensurável – Charles Haddon Spurgeon

Sermão Nº 299, Pregado na manhã de Sabath, 12 de fevereiro de 1860.
Por C. H. Spurgeon, em Exeter Hall, Strand.

“Quem pode entender os seus erros?” (Salmo 19:12)

O que sabemos é como nada em comparação com o que nós não sabemos. O mar de sabedoria lançou de si uma concha ou duas sobre a nossa praia, mas as suas vastas profundezas nunca foram conhecidas a cada passo do pesquisador. Mesmo as coisas naturais que conhecemos são apenas matérias superficiais. Aquele, que mais tem viajado o vasto mundo e decido às suas minas mais profundas, ainda assim deve estar ciente de que ele tenha visto, somente uma parte da mera crosta deste mundo; que, em relação ao seu vasto centro, seus fogos misteriosos e segredos de fundição, a mente do homem não os tem ainda concebido! Se você vai olhar para cima, o astrônomo irá dizer-lhe sobre as estrelas não descobertas, que a grande massa de mundos que formam a Via Láctea e as massas abundantes de nebulosas, que esses grandes grupos de mundos desconhecidos, infinitamente excedem o pouco que podemos explorar, como uma montanha excede um grão de areia! Todo o conhecimento que os homens mais sábios podem, eventualmente, atingir em toda uma vida não é mais do que aquilo que a criança pode retirar do mar, com sua pequena xícara, em comparação à imensidão das águas que enchem os seus canais até a borda. Pois, quando nos tornamos mais sábios, temos que vir para o limiar do co-nhecimento, que não demos, senão um passo nessa corrida da descoberta que vamos ter de perseguir por toda a eternidade. Este é igualmente o caso no que diz respeito às coisas do coração e às coisas espirituais, que diz respeito a este pequeno mundo chamado homem. Não sabemos nada sobre as coisas, senão superficialmente. Se eu falar com você sobre Deus, de Seus atributos, de Cristo, de Sua Expiação, ou de nós mesmos e do nosso pecado, devo confessar que ainda não conhecemos nada, senão o exterior; que não podemos compreender o comprimento, a largura, a altura de qualquer um desses assuntos!

O assunto desta manhã: nosso próprio pecado e o erro dos nossos próprios corações, é aquele que às vezes pensamos que conhecemos, mas do qual podemos sempre ter a certeza de que só começamos a conhecer, e que, quando nós aprendermos o máximo que alguma vez conheceremos na terra, a questão ainda será pertinente: “Quem pode entender os seus erros?” Agora, nesta manhã me proponho em primeiro lugar, muito bre-vemente, de fato, a explicar a questão; em seguida, em maior extensão impressioná-la em nossos corações; e, finalmente, vamos aprender as lições que ela nos ensina.

 

I. Primeiro, então, deixe-me EXPLICAR A PERGUNTA: “Quem pode entender os seus erros?”

Todos nós reconhecemos que temos erros. Certamente não somos tão orgulhosos a ponto de imaginarmos que somos perfeitos. Se pretendemos perfeição, somos completamente ignorantes, pois cada profissão da perfeição humana surge da perfeita ignorância! Qualquer noção de que somos livres do pecado deve ao mesmo tempo ensina-nos que abundamos no mesmo. Pois ao justificar a minha vangloria de perfeição, devo negar a Palavra de Deus, esquecer a Lei e exaltar a mim mesmo acima do testemunho da Verda-de de Deus! Por isso, eu digo, nós estamos dispostos a confessar que temos muitos erros, mas quem de nós pode entendê-los? Quem sabe com precisão o quanto uma coisa pode ser errada mas, nós imaginamos ser uma virtude? Quem entre nós pode definir o quanto de maldade está misturado com a nossa retidão, o quanto de injustiça com a nossa justiça? Quem é capaz de detectar os componentes de cada ação, de modo a ver a proporção de motivo que a constituiria certa ou errada? Seria realmente um homem as-tuto aquele que é capaz de desmascarar uma ação e dividi-la nos motivos essenciais que são seus componentes. Onde achamos que estamos certo, quem sabe, não estejamos errados? Mesmo onde com o escrutínio mais rigoroso, chegamos à conclusão de que fizemos uma coisa boa, quem entre nós pode ter certeza de que não foi enganado? Não pode a boa aparência estar tão desfigurada com motivação interna, a ponto de se tornar um mal real?

Quem pode entender os seus erros, de modo a sempre detectar uma falha quando é cometida? As sombras do mal são perceptíveis a Deus, mas nem sempre perceptíveis para nós. Nossos olhos ficaram tão cegos e sua visão tão arruinada pela queda, que a absoluta tenebrosidade do pecado nós podemos detectar, mas os tons de sua escuridão somos incapazes de discernir. E ainda assim a menor sombra de pecado é perceptível a Deus e cada sombra nos separa do Perfeito e nos faz ser culpados de pecado. Quem entre nós não tem esse método apurado de julgar a si mesmo, de modo que ele deve ser capaz de descobrir o primeiro traço de mal? “Quem pode entender os seus erros?” Certamente ninguém reclamará uma sabedoria tão profunda como esta. Mas passemos às questões mais comuns por que, talvez, nós possamos entender melhor o nosso texto. Quem pode discernir o número de seus erros? A mente mais poderosa não poderia contar os pecados de um único dia! Tal qual a multidão de faíscas de uma fornalha, assim são inumeráveis as iniquidades de um único dia. Podemos antes contar os grãos de areia da praia do mar, do que as iniquidades da vida de um homem. Uma vida mais purificada e limpa é ainda tão cheia de pecado como o mar é cheio de sal; e quem é aquele que pode pesar o sal do mar, ou pode detectá-lo, uma vez que se mistura com cada partícula de água? Mas se ele pudesse fazer isso, ele não poderia dizer quão grande quantidade de mal satura toda a nossa vida e quão inúmeras são as ações, pensamentos e palavras de desobediência que nos afastam da Presença de Deus e fazem com que Ele abomine as criaturas que Suas próprias mãos fizeram!

Mais uma vez, mesmo se pudéssemos contar o número de pecados humanos, quem, então, poderia estimar sua culpa? Perante a mente de Deus a culpa de um pecado é indescritível e nós estupidamente chamamos de coisa pequena, a culpa de um pecado mereça Seu desprazer eterno! Até que uma iniquidade seja lavada com sangue, Deus não pode aceitar a alma e levá-la ao Seu coração como Seu próprio filho. Embora Ele tenha feito o homem e seja infinitamente benevolente, ainda assim o Seu senso de justiça é tão forte, severo e inflexível, que para fora Sua presença, Ele lançará o Seu filho que-rido, se um único pecado permanecer sem perdão! Quem, então, entre nós pode dizer a culpa da culpa, a hediondez da ingrata rebelião que a homem iniciou e continuou contra o seu Criador sábio e compassivo? O pecado, como o inferno, é um poço sem fundo! Oh, irmãos e irmãs, jamais viveu um homem que realmente soube como ele era culpado! Se tal ser pudesse estar plenamente consciente de toda a sua culpa, ele carregaria o inferno em seu coração. Não, penso muitas vezes que dificilmente os condenados ao inferno podem conhecer toda a culpa de sua maldade, ou então até mesmo o seu forno seria aquecido sete vezes mais do as chamas de Tofete, seria ampliado para uma profundida-de imensurável! O inferno que está contido em um único mau pensamento é indescritível e inimaginável! Só Deus conhece a escuridão, o horror das trevas, que está condensado em um mau pensamento!

Outrossim, eu penso que o nosso texto queria transmitir-nos esta ideia. Quem pode en-tender o agravamento peculiar de sua própria transgressão? Ora, respondendo à pergun-ta por mim, eu sinto que, como ministro de Cristo eu não consigo entender os meus erros. Colocado onde multidões ouvem a Palavra através de meus lábios, minhas responsabili-dades são tão tremendas que no momento em que eu penso nelas, uma montanha cai sobre a minha alma! Houve momentos em que eu quis imitar Jonas e tomar um navio e fugir para longe da obra que Deus tem confiado a mim, porque sou consciente de que eu não sirvo como devo. Quando eu tenho pregado mais sinceramente, eu vou para o meu quarto me arrepender por eu ter pregado de maneira tão fria. Quando eu choro por vossas almas e quando eu agonizo em oração, eu ainda estou consciente que eu não lutei com Deus, como eu deveria ter lutado e que eu não tenho sentido pelas vossas almas como eu deveria sentir. Os erros que um homem pode cometer no ministério são incalculáveis! Não há inferno, eu penso, que deve estar quente o suficiente para o homem que é infiel aqui! Não pode haver uma maldição horrível demais para ser arremessada sobre a cabeça do homem que leva os outros a se desviarem quando ele deveria guiá-los no caminho da paz, ou que lida com as coisas sagradas como se fossem coisas que não têm peso e são de pequena importância. Traga aqui qualquer ministro de Cristo que vive e se ele está realmente cheio do Espírito Santo, ele irá dizer-lhe que quando ele está aba-tido pela solenidade de seu ofício, ele desistiria da obra, se ele se atrevesse; que se não fosse por algo superior, impulsos misteriosos que o impulsionam para a frente, ele tiraria a mão do arado e abandonaria o campo de batalha. Senhor tenha misericórdia de seus ministros, pois, mais do que todos os outros homens, nós precisamos de misericórdia!

E agora eu tomo qualquer outro membro da minha igreja, e qual é a sua posição na vida, qualquer que seja sua educação, ou as providências peculiares através do qual vocês passaram, eu vou insistir nisso de que há algo de especial sobre o seu caso, que faz seu pecado um tal pecado que não se pode entender como é vil! Talvez você tenha tido uma mãe piedosa que chorou por você na sua infância e te dedicou a Deus, quando você estava em seu berço. Seu pecado é duplamente pecado! Há nisso uma tonalidade escarlate que não pode ser encontrada em um criminoso comum. Você tem sido dirigido desde a tua mocidade no caminho da justiça e tem se desviado, cada passo que você deu não foi um passo para o inferno, mas um passo lá! O seu pecado é mais grave do que o dos outros. Outras dezenas de homens correm apressadamente, mas onde há um centavo depositado para outros pecadores, há libras colocadas em sua conta, pois você conhece o seu dever, mas você não o cumpre. Aquele que rompe do seio de uma mãe para o inferno, vai para as suas profundezas! Não há no inferno nenhum grau de tortura ou profundeza que deva certamente ser reservado para o homem que pisoteia as orações de uma mãe, para sua própria perdição. Ou você pode nunca ter de prestar conta por isso; mas você pode ter um agravamento igual. Você que tem estado no mar, senhor, Muitas vezes você este em perigo de naufragar. Você teve livramentos milagrosos. Agora, cada um desses naufrágios foi um aviso para você. Deus te trouxe até as portas da morte e você prometeu que se Ele salvasse a sua alma miserável você levaria uma vida nova, que você começaria a servir ao seu Criador. Você mentiu para o seu Deus! Seus pecados antes de proferir esse voto foram malignos o suficiente; mas agora você não apenas quebra a Lei, mas a própria aliança que voluntariamente você fez com Deus na hora da aflição! Talvez alguns de vocês, tenham caído de um cavalo, ou tenham sido atacados por febre, ou de outras formas foram levados até às portas da morte, que solenidade está ligada à sua vida agora! Ele que vestiu a balaclava e ainda voltou vivo, aquele que teve sua vida poupada, onde centenas morreram, deve a partir desse momento se considerar um homem de Deus, salvo por uma providência singular para fins singulares! Mas, também, tiveram seus escapes, se não são tão surpreendentes, ainda assim casos certamente tão especiais da bondade de Deus! E agora, a cada erro que você cometer torna-se indescritivelmente mau e sobre você eu posso dizer: “Quem pode entender os seus erros?”

Mas eu poderia esgotar a congregação, trazendo um por um. Aí vem o pai; senhor, os seus pecados serão imitados por seus filhos! Você não pode, portanto, compreender os seus erros, porque são pecados contra sua própria prole, você peca contra as crianças que procederam de suas próprias entranhas! Aqui está o magistrado; senhor, os vossos pecados são de uma cor peculiar, pois, estando em sua posição, seu caráter é visto e conhecido, e faça o que você fizer se tornará a desculpa de outros homens. Trago um outro homem que não possui nenhum ofício no Estado e que, talvez, é pouco conhecido entre os homens, mas, senhor, recebemos a graça especial de Deus; você teve rico gozo da luz do semblante de seu Salvador. Você tem sido pobre, mas Ele te fez rico, rico em fé! Agora, quando você se rebelou contra Ele, os pecados dos favoritos de Deus são pecados de fato! Iniquidades cometidas pelo povo de Deus tornam-se tão grandes como o alto Monte Olimpo e alcançam as próprias estrelas! Quem de nós, então, pode entender os seus erros, seus agravos especiais, seu número e sua culpa? Senhor, sonda-nos e conhece os nossos caminhos!

 

II. Tenho, portanto, tentado brevemente explicar o meu texto; agora eu buscarei IMPRESSIONÁ-LO NO CORAÇÂO, como Deus, o Espírito Santo me ajudar.

Antes que um homem possa entender os seus erros existem vários mistérios que ele deve saber. Mas cada um desses mistérios, em minha opinião, está além de seu conheci-mento e, consequentemente, a compreensão de toda a profundidade da culpa do seu pecado deve estar muito além do poder humano. Agora, o primeiro mistério que o homem deve entender é a Queda. Até que eu saiba o quanto todos os meus poderes estão degra-dados e depravados, quão completamente a minha vontade está pervertida e meu juízo desviou-se da retidão, quão real e essencialmente ímpia minha natureza se tornou, não pode ser possível que eu conheça toda a extensão da minha culpa. Aqui está um pedaço de ferro colocado sobre a bigorna. Os martelos são brandidos sobre ela vigorosamente. Milhares de faíscas estão espalhadas por todos os lados. Suponha que seja possível contar cada centelha, que cai da bigorna; ainda que pudéssemos adivinhar o número de faíscas produzidas, quantas ainda se encontram latentes e escondidas na massa de ferro? Agora, irmãos e irmãs, a sua natureza pecaminosa pode ser comparada com a barra de ferro aquecida. As tentações são os martelos; seus pecados as faíscas. Se você pudesse contá-los (o que você não pode), ainda assim quem poderia contar a multidão de iniquidades em gestação, ovos do pecado que jazem adormecidos em suas almas? No entanto, você deve saber isso antes de saber toda a pecaminosidade de sua natureza! Nossos pecados visíveis são como pequena amostra que o fazendeiro traz para o mercado. Há celeiros cheios em sua casa. As iniquidades que vemos são como as ervas daninhas sobre a superfície do solo; mas foi-me dito, e de fato o tenho visto, que se você cavar seis pés na terra e revolver o solo fresco, ali será encontrada no solo a seis pés de profundidade, as sementes das ervas daninhas nativas à terra.

E assim, não devemos pensar apenas nos pecados que crescem na superfície, mas se pudéssemos revolver o nosso coração até seu núcleo e cerce, iríamos encontrá-lo como totalmente envolvido com o pecado como cada pedaço de podridão está com vermes e putrefação! O fato é que o homem é uma massa cheirando a corrupção. Toda a sua alma é, por natureza, tão degradada e tão depravada, que nenhuma descrição pode ser dada a ela, pois nem mesmo línguas inspiradas podem dizer plenamente quão vil e infame ele é! Um antigo escritor disse uma vez da iniquidade interior como sendo um aquífero que está escondido nas profundezas da terra, Deus já rompeu as fontes do grande abismo e, então, eles cobriram as montanhas vinte côvados para cima. Se Deus retirasse Sua Gra-ça restringidora e abrisse em nossos corações todas as fontes do grande abismo da nossa iniquidade, seria uma inundação tão espantosa que cobriria os mais altos cumes das nossas esperanças e todo o verme dentro de nós seria afogado em temor e deses-pero! Nenhuma coisa viva poderia ser encontrada neste mar de mal. Isso cobriria tudo e engoliria toda a nossa humanidade! Ah, diz um velho provérbio: “Se o homem tivesse que usar seus pecados na testa, ele puxaria o chapéu por sobre os olhos”. Aquele velho romano que disse que gostaria de ter uma janela para o seu coração, para que todo homem pudesse ver seu interior, não se conhecia, pois se ele houvesse tido tal janela, ele logo teria implorado por um par de persianas e ele as teria mantido fechadas, tenho certeza que ele nunca teria visto o seu coração, pois ele teria sido levado à loucura delirante! Deus, portanto, poupa todos os olhos, exceto os Seus próprios desta visão desesperadora: um coração humano desvelado. Grande Deus, aqui nós fazemos uma pausa e cla-mamos: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe. Eis que amas a verdade no íntimo, e no oculto me fazes conhecer a sabedoria. Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais branco do que a neve” [Salmos 51:5-7].

A segunda coisa que será necessária entendermos, antes que possamos compreender os nossos erros é a Lei de Deus. Se eu apenas descrever a Lei, por um momento, você muito facilmente verá que você nunca pode esperar, por qualquer meio compreendê-la totalmente. A Lei de Deus, como lemos nos Dez Grandes Mandamentos, parece muito simples, muito fácil. Quando chegamos, no entanto, a colocar até mesmo seus preceitos expostos em prática, descobrimos que é quase impossível para nós mantê-los plenamente. A nossa surpresa, no entanto, aumenta, quando descobrimos que a lei não signifi-ca apenas o que diz, mas que tem um significado espiritual, uma profundidade oculta na letra que à primeira vista nós não descobrimos. Por exemplo, o mandamento: “Não cometerás adultério”, significa mais do que o simples ato, ele se refere à fornicação e a impureza de qualquer forma, tanto no ato, quanto na palavra e no pensamento. Não, para usar a própria exposição de nosso Salvador: “Qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela” [Mateus 5:28]. É assim, com cada Mandamento – a letra nua não é nada comparada com todo o significado grandioso e rigidez severa da regra. Os Mandamentos, se assim posso dizer, são como as estrelas, quando vistas a olho nu, parecem ser pontos brilhantes, mas se pudéssemos nos aproximar deles, veríamos que eles são mundos infinitos, maiores até mesmo do que o nosso sol, de tão grandiosos que são. Assim é com a Lei de Deus: parece ser somente um ponto luminoso, porque a vemos à distância, mas quando chegamos mais perto onde Cristo permaneceu e estimou a Lei, como Ele a via, então nós encontramos que ela é grande, incomensurável! “O teu mandamento é amplíssimo” [Salmos 119:96]. Pense em seguida, por um momento na espiritualidade da Lei, em sua extensão e rigor. A Lei de Moisés condena por ofensa, sem esperança de perdão e o pecado, como uma pedra de moinho, é amarrado ao redor do pescoço do pecador e lançado nas profundezas. Porém, muito mais a Lei trata de pecados de pensamento, imaginar o mau é pecado! Do fluir do pecado através do coração sai a mancha de impureza por trás dele. Esta Lei, também, estende-se a cada ato, nos acompanha ao nosso quarto de dormir, vai conosco para a nossa Casa de Oração, e se descobre mesmo o menor sinal de hesitação do estreito caminho da integridade, ela nos condena! Quando pensamos na Lei de Deus, podemos com razão ficarmos sobrecarregados com horror, e nos sentando dizer: “Deus, tem misericórdia de mim, pois guardar esta Lei está totalmente fora do meu poder; até mesmo conhecer a plenitude do seu significado não está dentro da capacidade finita. Portanto, grande Deus, purifique-nos de nossas falhas secretas, salve-nos por Sua Graça, pois pela Lei nunca poderemos ser salvos”.

Nem mesmo ainda se você soubesse dessas duas coisas, você seria capaz de responder a essa pergunta; pois para compreender os nossos próprios erros, devemos ser capazes de compreender a perfeição de Deus. Para se ter uma ideia completa de como o pecado é sombrio, você deve saber como Deus é brilhante. Vemos as coisas por oposição. Você terá em um momento que apontar para uma cor que parece perfeitamente branca; ainda é possível que algo seja ainda mais branco; e quando você acha que já chegou à própria perfeição de brancura, você descobre que ainda há nela uma sombra e que algo pode ser encontrado para branqueá-la elevando sua pureza. Quando nos colocamos em comparação com os Apóstolos, descobrimos que não somos o que deveríamos ser. Mas se pu-déssemos nos colocar, lado a lado com a pureza de Deus, oh que manchas! Oh quantas contaminações encontraríamos em nossa superfície! O Deus Imaculado está diante de nós e como o fundo brilhante revela a escuridão de nossas almas iníquas! Antes que você possa conhecer a sua própria corrupção, os olhos devem olhar para a glória inexprimível do caráter Divino. Perante ele nem os céus são puros, que encontra loucura nos anjos, você deve conhecê-lO antes que você possa conhecer a si mesmo! Não espere, então, que você alcance um perfeito conhecimento das profundezas do seu próprio pecado!

Mais uma vez, aquele que quer entender os seus erros em toda a sua hediondez deve conhecer o mistério do Inferno. Devemos caminhar até aquele monte queimando, ficar no meio da chama ardente; não, senti-lo! Devemos sentir o veneno da destruição, pois faz o sangue ferver em cada veia. Temos de ter os nossos nervos convertidos em estradas de fogo, ao longo do qual os pés quentes da dor devem viajar, correndo como relâmpagos. Devemos conhecer a extensão da eternidade e, em seguida, a agonia indescritível da ira eterna de Deus, que habita nas almas dos perdidos, antes que possamos conhecer o caráter terrível do pecado! Você pode mensurar melhor o pecado pela punição. Dependendo disto, Deus não submeterá suas criaturas a uma dor maior do que a justiça absolutamente demanda. Não existe tal coisa como tortura soberana ou inferno soberano. Deus não tortura sua criatura como um tirano; Ele vai dar a ela, somente o que ela merece e, talvez, até mesmo quando a ira de Deus é mais feroz contra o pecado, Ele não pune o pecador, tanto quanto o seu pecado poderia merecer, mas apenas o quanto ele exige. De qualquer forma, não haverá um grão a mais de absinto no copo dos perdidos do que a pura Justiça absolutamente requer! Então, oh meu Deus, se Tuas criaturas devem ser lançadas no lago que arde com fogo e enxofre, se é para um poço sem fundo que as almas perdidas devem ser conduzidas, então que coisa horrível o pecado deve ser! Eu não posso entender esta tortura, por isso eu não consigo entender a culpa que a merece. No entanto, estou consciente de que a minha culpa a merece, ou então Deus não teria me ameaçado com ela, porque Ele é justo e eu sou injusto. Ele é santo, justo e bom, e Ele não me puniria por meus pecados mais do que os meus pecados absolutamente merecem.

Ainda outra vez, um último esforço para impressionar essa questão do meu texto em nossos corações. George Herbert diz mui docemente: “Aquele que quiser conhecer o pecado, deixe-o olhar para o monte das Oliveiras, e ele verá um Homem tão espremido com a dor que toda a Sua cabeça, Seu cabelo, Suas vestes estavam ensanguentadas. O pecado era aquela força e impiedade que infligiu dor para perseguir seu sustento através de cada veia.” Você tem que ver Cristo, suando, por assim dizer, grandes gotas de san-gue! Você precisa ter uma visão dEle com o cuspe escorrendo pelo Seu rosto, com as costas rasgadas pelo chicote amaldiçoado. Você deve vê-lO indo em Sua jornada dolorosa por Jerusalém. Você deve contemplá-lO a desmaiar sob o peso da cruz. Você deve vê-lO como os cravos são conduzidos através de Suas mãos e através de Seus pés. Seus olhos cheios de lágrimas devem assistir a agonia das sombrias agonias da morte. Você deve beber da amargura do absinto misturado com fel. Você deve estar na escuridão com sua própria alma triste até à morte. Você deve gritar terrivelmente assustando a terra: “Lama Sabactâni”, você também, deve, como Ele fez, sentir toda a pesada ira do Deus Todo-Poderoso. Você deve ser moído entre as mós superiores e inferiores de ira e vingança; você deve beber o cálice até às últimas borras e como Jesus bradar: “Está consumado”, ou de outra forma você nunca poderá conhecer todos os seus erros e entender a culpa do seu pecado. Mas isso é claramente impossível e indesejável. Quem quer sofrer como o Salvador sofreu; suportar todos os horrores que Ele suportou? Ele, bendito seja o Seu nome, sofreu por nós! O cálice está vazio! A Cruz ergue-se não mais para nós morrermos nela! Extinta está a chama do inferno para sempre para o verdadeiro crente! Deus não mais está irado com o Seu povo, pois Ele aniquilou o pecado pelo sacrifício de Si mesmo! No entanto, eu digo novamente, antes que possamos entender o pecado, devemos conhecer toda aquela terrível ira de Deus, que Jesus Cristo suportou! Quem, então, pode entender os seus erros?

 

III. Espero ter a sua atenção paciente, apenas mais alguns momentos enquanto eu faço a aplicação prática, passando às lições que são tiradas de um assunto como este.

A primeira lição é: eis a loucura de toda a esperança da salvação pela nossa própria justiça. Venham aqui, os que confiam em si mesmos. Olhem para o Sinai, completamente em chamas, tremor e desespero! Vocês dizem que têm boas obras. Infelizmente, suas boas obras são más, não têm vocês sido maus? Vocês negam que já pecaram? Ah, meu ouvinte, você está tão obcecado a ponto de declarar que todos seus pensamentos foram castos, todos os seus desejos celestiais, todas as suas ações puras? Oh, homem, se tudo isso fosse verdade, se você não tivesse pecados de comissão, ainda que seria de seus pecados de omissão? Você já fez tudo o que Deus e que seu irmão poderiam requerer de você? Oh estes pecados de omissão! O faminto que você não tenha alimentado, o nu que você não tenha vestido, os doentes e os que estão na prisão, que você ainda não visitou, lembre-se que era por pecados como estes que os bodes foram encontrados na mão esquerda, finalmente! Não pelo que fizeram, mas pelo que não fizeram, pois pelas coisas que eles deixaram de fazer esses homens foram lançados no lago de fogo! Oh, meu ouvinte, acabe com sua jactância! Retirem as plumas de vossos capacetes, vós rebeldes, e venham com a vossa glória arrastando na lama, e com sua roupa brilhante manchada, e agora confessem que vocês não têm nenhuma justiça própria, que vocês são todos imundos e cheios de pecado!

Se apenas uma lição prática fosse aprendida, seria suficiente para compensar a reunião desta manhã e uma bênção seria transmitida para todo o espírito que tivesse aprendido. Mas agora chegamos a outra: quão vãs são todas as esperanças de salvação por nossos sentimentos. Temos um novo legalismo contra o qual lutar em nossas Igrejas cristãs. Há homens e mulheres que acham que não devem crer em Cristo até que eles sintam seus pecados até um ponto demasiado angustiante! Eles acham que devem sentir um certo grau de tristeza, um alto grau de senso de necessidade, antes que possam vir a Cristo. Ah, Alma, se você nunca pudesse ser salva até que você conhece toda a sua culpa, você nunca seria salva, pois jamais pôde conhecer isso! Eu lhe mostrei a absoluta impossibili-dade de ser capaz de descobrir as alturas e profundidades inteiras de seu próprio estado perdido. Oh homem, não tente ser salvo por seus sentimentos! Venha tome a Cristo como Ele é, venha a Ele assim como você está! “Mas, senhor, posso ir? Eu não sou convidado para ir”. Sim, você é: “Quem quiser, venha”. Não acredito que os convites do Evangelho são dados apenas para alguns. Eles são, alguns delas, convites ilimitados. Este é o dever de todo homem crer no Senhor Jesus Cristo. É o dever sagrado de cada homem confiar em Cristo, e não por causa de qualquer coisa que o homem é ou não é, mas porque ele é ordenado a fazê-lo! “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo” [1 João 3:23]:

“Oh, acredite na promessa verdadeira,
Deus para você, Seu Filho deu”.

Confie agora em Seu precioso sangue, e você será salvo e você verá Sua face no céu! Não espere ser salvo pelo sentimento, pois sentimentos perfeitos são impossíveis e um perfeito conhecimento da nossa própria culpa está muito além do nosso alcance! Venha, então, a Cristo, de coração duro como você está, e tome-o como para ser o Salvador do seu coração duro. Venha, pobre consciência de pedra, pobre alma gelada, venha como você está! Ele vai aquecê-la, Ele derreterá você:

“A verdadeira crença e o verdadeiro arrependimento,
Toda Graça que nos traz para perto;

Sem dinheiro,
Venha a Jesus Cristo e compre.”

Entretanto, novamente, há outra doce inferência, e certamente esta poderia muito bem ser a última, que graça é esta que perdoa o pecado, o pecado tão grande que a maior capacidade não pode compreender sua atrocidade? Oh, eu sei que os meus pecados vão desde o leste até o oeste, buscando elevarem-se até aos céus eternos como montanhas apontam para o Céu. Mas, então, bendito seja o nome de Deus, o sangue de Cristo é maior do que o meu pecado! Essa inundação sem limites do mérito de Jesus é mais profunda do que as alturas das minhas iniquidades! Meu pecado pode ser grande, mas o Seu mérito é ainda maior. Eu não consigo conceber a minha própria culpa, muito menos expressá-la, mas o sangue de Jesus Cristo, Filho amado de Deus, nos purifica de todo pecado! Há infinita culpa, mas há infinito perdão! Iniquidades sem limites, mas méritos ilimitados a ultrapassam totalmente! E se os seus pecados foram maiores do que a largura do céu, Cristo é maior do que o Céu! O céu dos céus não pode contê-lO. Se os seus pecados eram mais profundos do que o inferno sem fundo, ainda assim a Expiação de Cristo é ainda mais profunda, pois Ele desceu mais profundo do que jamais nenhum homem mergulhou, nem mesmo os homens condenados em todo o horror de sua agonia, pois Cristo foi até o fim da punição e mais profundo seus pecados nunca poderão mergulhar! Ah, o amor sem limites, que cobre todos os meus defeitos! Meu pobre ouvinte, creia em Cristo agora. Deus te ajude a crer! Que o Espírito agora lhe capacite a confiar em Jesus! Você não pode salvar a si mesmo. Todas as suas esperanças de auto-salvação são ilusórias. Desista delas agora; venha e tome a Cristo! Justamente como você está, caia em Seus braços. Ele vai levá-lo. Ele te salvará. Ele morreu para fazer isso e Ele vive para realizá-lo. Ele não lançará fora o espírito que se lança em Suas mãos e faz dEle seu tudo em Todos.

Eu penso que não devo detê-lo por mais tempo. O assunto demanda uma mente muito maior do que a minha e melhores palavras do que eu possa reunir agora. Mas se tiver lhe atingido, eu sou grato a Deus. Deixem–e repetir uma e outra vez o sentimento que eu desejo que todos vocês recebam, é apenas este: somos tão vis que nossa vileza está além da nossa própria compreensão, mas, no entanto, o sangue de Cristo tem infinita eficácia, e quem crê no Senhor Jesus é salvo, sejam seus pecados muitíssimos, ainda assim aquele que crê não será perdido, sejam seus pecados mui poucos.

Deus abençoe a todos vocês, por amor de Cristo.

 

[Adaptado de The C. H. Spurgeon Collection, Version 1.0, Ages Software. Veja todos os 63 volumes de sermões CH Spurgeon em Inglês Moderno, e mais de 525 traduções em espanhol, acesse: www.spurgeongems.org]

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♦ Fonte: SpurgeonGems.org | Título Original: Sin Immeasurable
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Traduçãoe por William Teixeira │ Revisão Capa por Camila Almeida


O que é um Avivamento? – Charles Haddon Spurgeon

Extraído de A Espada e a Espátula, dezembro de 1866.

A palavra “avivamento” é tão familiar em nossas bocas como uma palavra caseira. Estamos constantemente falando e orando por um “avivamento”; não seria tão bom sabermos o que queremos dizer com isso? Sobre os samaritanos nosso Senhor disse: “Vós adorais o que não sabeis” [João 4:22], que Ele não tenha que nos dizer: “Não sabeis o que pedis”. A palavra “avivar” veste seu significado sobre sua fronte; seu significado vem do Latim, e pode ser interpretado assim: viver de novo, receber novamente uma vida que quase expirou; reacender a chama da centelha vital que quase foi extinta.

Quando uma pessoa foi arrastada para fora de um lago após quase afogar-se, os espectadores têm medo de que ela esteja morta, e são ansiosos para saber se a vida ainda perdura. Os meios apropriados são usados para restaurar a animação; o corpo é esfregado, os estimulantes são administrados, e se pela Providência de Deus a vida ainda permanece no pobre barro, o homem resgatado abre os olhos, senta-se e fala, e aqueles em torno dele se alegram de que ele reviveu. Uma jovem tem um desmaio, mas depois de um tempo ela retorna à consciência, e nós dizemos “ela revive”. A luz tremulante da vida em homens moribundos de repente reacende, em intervalos, com brilho incomum, e aqueles que estão assistindo ao redor da cama doente dizem sobre o paciente “ele revive”.

Nestes dias, em que os mortos não estão milagrosamente restaurados, nós não espera-mos ver o avivamento de uma pessoa que está totalmente morta, e nós não poderíamos falar sobre reviver uma coisa que nunca viveu antes. É claro que o termo “avivamento” só pode ser aplicado a uma alma vivente, ou que já viveu alguma vez. Pois, ser avivado é uma benção que só pode ser apreciada por aqueles que têm algum grau de vida. Aqueles que não têm vida espiritual não são, e não podem ser, no sentido mais estrito do termo, os sujeitos de um avivamento. Muitas bênçãos podem vir para o não-convertido em com sequência de um avivamento entre os Cristãos, mas o próprio avivamento tem relação apenas com aqueles que já possuem vida espiritual. Deve haver vitalidade em algum grau, antes que possa haver uma ativação da vitalidade, ou, em outras palavras, um avivamento.

Um verdadeiro avivamento deve ser buscado na igreja de Deus. A pérola do avivamento só pode ser encontrada no rio da vida graciosa. Foi dito que um avivamento deve começar com o povo de Deus; isso é muito verdadeiro, mas não é toda a verdade, pois o próprio avivamento deve terminar bem como começar ali. Os resultados do avivamento se estenderão para o mundo exterior, mas o avivamento, estritamente falando, deve estar dentro do círculo da vida, e deve, portanto, essencialmente, ser apreciado pelos possuí-dores da piedade vital, e somente por eles. Não é esta uma visão sobre o avivamento bastante diferente daquela que é comum na sociedade; mas não é algo manifestamente correto?

É um fato triste que muitos dos que são espiritualmente vivos precisam grandemente reviver. Um homem com boa saúde em cada parte de seu corpo, em uma condição vigo-rosa, não precisa reviver. Ele requer sustento diário, mas reviver seria muito inadequado. Se ele ainda não alcançou a maturidade, o crescimento será mais desejável, mas um robusto jovem saudável não carece reviver, isso seria desperdício sobre ele. Quem pensa em reviver o sol do meio-dia, o mar em sua inundação ou o ano em seu auge? A árvore plantada junto aos ribeiros de águas, carregada com frutas não precisa estimular a nossa ansiedade pelo seu avivamento, pois sua fecundidade e beleza encantam a cada um. Essa deve ser a condição constante dos filhos de Deus. Alimentados e deitados em pastos verdejantes e conduzidos às águas tranquilas eles não devem sempre estar clamando, “Emagreço, emagreço, ai de mim!” [Isaías 24:16]. Sustentados por graciosas promessas e enriquecidos com a plenitude que Deus entesourou em Seu Filho amado, suas almas devem prosperar e estar em saúde, e sua piedade não deve precisar reviver. Eles devem aspirar por uma bênção maior, uma misericórdia mais rica, do que um mero avivamento. Eles já têm as fontes baixas; eles devem seriamente buscar as fontes altas. Eles devem estar solicitando o crescimento na graça, o aumento de força, para maior sucesso; eles devem ter escalado e subido do período em que eles precisam estar constantemente clamando: “Não tornarás a vivificar-nos”? [Salmos 85:6]. Pois, o fato de uma igreja estar constantemente precisando de avivamento é uma indicação de muito pecado, pois se ela fosse sã, diante do Senhor, permaneceria na condição em que um avivamento ergueria seus membros. A igreja deve ser um campo de soldados, e não um hospital de inválidos. Mas há excessivamente grande diferença entre o que deveria ser e o que é, e, consequentemente, muitos do povo de Deus estão em um estado tão triste que a oração muito mais apropriada para eles é por avivamento. Alguns cristãos estão, espiritualmente, apenas quase mortos. Quando um homem desceu em um tonel ou em um poço cheio de ar contaminado, sim, não se maravilhe de que quando ele for retirado mais uma vez, ele esteja meio morto, e necessita urgentemente ser reavivado. Alguns cristãos, para a sua vergonha isso falo, descem em tal companhia mundana, e em tais princípios profanos, e tornam-se tão carnais, que, quando são erguidos, pela graça de Deus, de sua posição de retrocesso, eles carecem de avivamento, e precisam mesmo que a sua respiração espiritual seja como que novamente soprada em suas narinas pelo Espírito de Deus.

Quando um homem decide ficar com fome, continuando por muito tempo sem comida, quando ele está, dia após dia, sem um pedaço de pão entre os lábios, nós não nos maravilhamos que o cirurgião, encontrando-o em extremos e diga: “Este homem enfraqueceu seu organismo, ele está muito fraco, e precisa reviver”. Claro que ele precisa, pois ele impôs esta dieta a si mesmo, trazendo sobre si um estado de fraqueza. Não existem centenas de cristãos — é vergonhoso que isso seja assim! — que vivem dia após dia sem se alimentar da verdade da Bíblia? Deve ser adicionado, sem real comunhão espiritual com Deus? Eles nem sequer assistem aos serviços noturnos semanais, e eles são ouvintes indiferentes no dia do Senhor. É extraordinário que eles precisem reviver? Não é verdade de que eles fazem esta carência ser muito mais desonrosa para si mesmos e angustiante para seus irmãos verdadeiramente espirituais?

Há uma condição de espírito que é ainda mais triste do que qualquer uma das duas acima mencionadas; é um declínio profundo, gradual, mas certo de todos os poderes espirituais. Olhem para o homem tuberculoso, cujos pulmões estão deteriorando, e em quem a energia vital está diminuindo; é doloroso ver o desfalecimento que ele experimenta após o esforço, e o abatimento geral que se espalha sobre o seu corpo debilitado. Muito mais triste para o olho espiritual é o espetáculo apresentado por tuberculosos espirituais que em alguns lugares se encontram, em todos os lados. O olho da fé é fraco e escurecido, e raramente pisca com santa alegria; o semblante espiritual é oco e afundado com dúvidas e medos; a língua de louvor está parcialmente paralisada, e tem pouco a dizer para Jesus; a forma espiritual é letárgica, e seus movimentos estão longe de ser vigorosos; o homem não está ansioso para fazer qualquer coisa por Cristo; um horrível entorpeci-mento, uma terrível insensibilidade veio sobre ele; ele é na alma como um preguiçoso em dias quentes de verão, que acha ser trabalho árduo o deitar na cama e afastar as moscas do rosto. Se esses tuberculosos espirituais odeiam o pecado, eles fazem isso tão fracamente que alguém poderia temer que eles antes o amam. Se eles amam a Jesus, é tão friamente que é um ponto de questão saber se eles amam de algum modo. Se eles can-tam os louvores de Jeová, isso é muito triste, como se os aleluias fossem hinos fúnebres. Se eles lamentam por causa do pecado é apenas com o coração meio quebrantado, e sua dor é superficial e pouco prática. Se eles ouvem a Palavra de Deus, nunca são agitados por ela; o entusiasmo é um luxo desconhecido. Se eles se deparam com uma verdade preciosa, não percebem nada de especial nela [...]. Eles atiram-se para trás sobre o sofá encantado da preguiça, e enquanto eles estão cobertos de trapos, sonham sobre riquezas e grande aumento de bens. É uma coisa muito triste, quando os Cristãos se enquadram nesta situação; então na verdade eles precisam de avivamento, e eles devem tê-lo, pois “toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco” [Isaías 1:5]. Todo aquele que ama as almas deve interceder por mestres em declínio, para que as visitações de Deus possam restaurá-los; que o Sol da justiça possa surgir sobre eles trazendo a cura sob as suas asas.

Quando o avivamento vem a um povo que está no estado assim descrito brevemente, ele simplesmente leva-os à condição em que eles sempre deveriam ter estado; ele vivifica-os, dá-lhes uma nova vida, estimula as brasas do fogo quase apagado, e coloca respiração celestial nos pulmões lânguidos. A alma doentia que antes era insensível, fraca e triste, tornar-se sincera, vigorosa e feliz no Senhor. Este é o fruto imediato do avivamento, e parece bem a todos os que são crentes que busquem essa bênção para os apóstatas, e para nós mesmos se estamos em declínio na graça.

Se o avivamento se limita aos homens que vivem, podemos ainda observar que ele deve resultar da proclamação e recepção da verdade viva. Nós falamos sobre “piedade vital”, e a piedade vital deve subsistir sobre a verdade vital. A piedade vital não é avivada nos Cristãos por mera excitação, por reuniões lotadas, pelo bater do pé, ou o percutir do coxim do púlpito, ou pelos gritos delirantes do zelo ignorante; estes são o estoque no co-mércio de avivamentos entre as almas mortas, mas para avivar os santos, outros meios são necessários. Emoção intensa pode produzir um avivamento carnal, mas como isso pode operar sobre o espiritual, pois, o espiritual demanda outro alimento além do que estes guisados nas panelas do mero entusiasmo carnal. O Espírito Santo deve vir para o coração vivo através da verdade viva, e assim trazer o alimento e estimulante para o espí-rito enfraquecido, pois, somente assim ele pode ser revivido. Isso, então, leva-nos à conclusão de que, se quisermos obter um avivamento, devemos ir diretamente para o Espírito Santo por ele, e não recorrer à máquina do fazedor-profissional-de-avivamento. A verdadeira centelha vital de fogo celeste vem do Espírito Santo, e os sacerdotes do Senhor devem tomar cuidado com o fogo estranho. Não há vitalidade espiritual em nada, a não ser que o Espírito Santo seja tudo em todos na obra; e se a nossa vitalidade caiu próxima ao zero, ela só pode ser avivada por aquele que primeiro a acendeu em nós. Temos de ir para a cruz e olhar para o Salvador morrendo, e esperar que o Espírito Santo renove a nossa fé e vivifique todas as nossas graças. Nós devemos nos alimentar de novo, pela fé, da carne e do sangue do Senhor Jesus, e assim o Espírito Santo reesta-belecerá a nossa força e nos dará um avivamento. Quando os homens na Índia adoecem nas planícies, eles escalam os montes e respiram o ar mais estimulante das regiões superiores; precisamos chegar mais perto de Deus, e nos banhar no céu, e a piedade avivada será o resultado certo.

Quando um ministro obtém esse avivamento, ele prega de maneira muito diferente de sua antiga forma. É um trabalho muito duro pregar quando a cabeça dói e quando o corpo está lânguido, mas é uma tarefa muito mais difícil quando a alma está insensível e sem vida. É triste, triste trabalho; sofrida, dolorosa, terrivelmente triste; é absolutmanete triste, se nós não sentimos que isso seja triste, se nós podemos ir pregar e nos mantermos descuidados sobre as verdades que pregamos, indiferentes quanto a saber se os homens são salvos ou perdidos! Que Deus guarde cada ministro de permanecer em tal estado! Pode haver um objeto mais miserável do que um homem que prega em nome de Deus, verdades que ele não sente, e que ele está consciente que nunca impressionaram o seu próprio coração? Ser um mero sinaleiro, apontando para a estrada, contudo nunca se movendo na mesma, é uma porção contra a qual cada coração maçante pode pelitear noite e dia.

Se esse avivamento for concedido a diáconos e presbíteros, que homens diferentes isso os fariam! Oficiais da igreja sem vida, mornos não são de mais valor a uma igreja, do que uma tripulação de marinheiros seria a uma embarcação, se todos estivessem desmaiados em seus dormitórios, quando fossem requeridos para içar as velas ou abaixar os botes. Oficiais da Igreja que precisam reviver devem ser temerosos pesos mortos sobre uma comunidade Cristã. Há a incumbência sobre todos os Cristãos que estejamos completamente despertos para os interesses de Sião, mas sobre os líderes acima de tudo. Súplica especial deve ser feita pelos amados irmãos que ocupam ofícios, para que sejam cheios do Espírito Santo.

Aqueles que trabalham nas escolas dominicais, distribuidores de folhetos, e outros trabalhadores de Cristo, que pessoas diferentes eles se tornam quando a graça é vigorosa, em relação ao que eles são quando sua vida treme nas bases! Que forragem doentia em um celeiro, toda empalidecida e insalubre, são os trabalhadores que têm pouca graça; como salgueiros junto aos ribeiros de água, como gordura com canas e juncos em vales bem irrigados, são os servos de Deus que vivem em Sua presença. Não é à toa que o nosso Senhor disse: “Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca” [Apocalipse 3:16], pois quando o coração do Cristão sincero está cheio de fogo é repugnante falar com pessoas mornas. Os amantes calorosos de Jesus não sentiram que quando foram desencorajados por pessoas fracas e duvidosas, que podiam ver um leão no caminho, como se eles pudessem colocar-se em rapidamente e passar por cima deles? Cada ministro sério tem conhecido momentos em que ele sentiu que cora-ções frios são tão intoleráveis quanto o zangão na colmeia é para as abelhas operárias. Professos descuidados são tão fora de lugar quanto a neve na colheita, entre os Cristãos que verdadeiramente vivem. Como vinagre para os dentes e fumaça para os olhos são esses preguiçosos. Tão bom é estar preso a um corpo morto quanto ser forçado à união com os professos sem vida; eles são um fardo, uma praga e abominação. Você vai a um destes irmãos frios após uma séria reunião graciosa de oração, e diz com santa alegria: “Oh, que reunião agradável tivemos!” “Sim”, ele diz desanimado e deliberadamente, como se fosse um esforço dizer: “havia um bom número de pessoas”. Como suas palavras congeladas irritam o ouvido! Você se pergunta: “Onde o homem tem estado? Ele não está consciente de que o Espírito Santo esteve conosco?” Não fala o nosso Senhor dessas pessoas como sendo vomitadas de Sua boca, somente porque Ele próprio é totalmente sincero, e, consequentemente, quando Ele Se encontra com pessoas mornas Ele não as suporta? Ele diz: “quem dera foras frio ou quente!” [v. 15], ou totalmente avesso ao bem ou sério quanto a isso. É fácil ver o seu significado. Se você ouvisse um homem ímpio blasfemar após uma reunião séria, você lamentaria, mas você sentiria da parte de tal homem que isso não era uma coisa para torná-lo nauseabundo, porque ele somente falou segundo sua natureza, mas quando você se encontrar com um filho de Deus, que é morno, como você pode suportar isso? É repugnante, e faz com que o espírito interior sinta os horrores da náusea mental.

Desde que um verdadeiro avivamento, em sua essência, pertence somente ao povo de Deus, ele sempre traz consigo uma bênção para as outras ovelhas que ainda não são do aprisco. Se você deixar cair uma pedra em um lago, o anel amplia continuamente, até que a margem mais distante do lago sinta a influência. Que o Senhor avive um crente e muito em breve a sua família, seus amigos, seus vizinhos, recebem uma porção do benefício; pois, quando um cristão é avivado, ele ora com mais fervor pelos pecadores. A oração anelante, amorosa pelos pecadores, é uma das marcas de um avivamento no coração renovado. Uma vez que a bênção é solicitada aos pecadores, a bênção vem dAquele que ouve as orações de Seu povo; e, portanto, o mundo ganha pelo avivamento. Logo, o Cris-tão avivado fala a respeito de Jesus e do Evangelho; ele semeia a boa semente e a boa semente de Deus nunca é perdida, pois ele disse: “ela não voltará para mim vazia” [Isaías 55:11]. A boa semente é semeada nos sulcos, e em alguns corações dos pecadores Deus prepara o solo, de modo que a semente brota em uma gloriosa colheita. Assim, com a conversa zelosa dos crentes, outra porta de misericórdia se abre para os homens.

Quando os Cristãos são avivados, eles vivem de forma mais consistente, eles fazem suas casas mais santas e mais felizes, e isso leva o ímpio a invejá-los, e a inquirir por seu se-gredo. Os pecadores, pela graça de Deus, anelam ser como tais santos animados e felizes; suas bocas salivam pela alegria que há neles, pelo seu maná escondido, e esta é outra bênção, pois leva os homens a procurarem o Salvador. Se um homem ímpio pisa em uma congregação onde todos os santos são avivados, ele não dormirá sob o sermão. O ministro não o deixará fazer isso, pois o ouvinte percebe que o pregador sente o que ele está pregando, e tem o direito de ser ouvido. Este é um ganho claro, pois agora o homem escuta com profunda emoção; e acima de tudo, o poder do Espírito Santo, que o pregador recebeu em resposta à oração, vem sobre a mente do ouvinte; ele é convencido do pecado, da justiça e do juízo vindouro, e os Cristãos que estão à espreita em torno dele apressam-se a contar-lhe sobre o Salvador, e apontar-lhe o sangue redentor, de modo que, embora o avivamento a rigor, seja com o povo de Deus, contudo o resultado dele ninguém pode limitar. Irmãos, busquemos um avivamento durante o presente mês, que o ano possa fechar com chuvas de bênção, e que o novo ano possa começar com bênção abundante. Vamos nos comprometer a formar uma união em oração, uma união sagrada de suplicantes, e que Deus faça por nós de acordo com a nossa fé.

Pai, por Tua bênção prometida,
Nós ainda suplicamos diante do Teu trono;
Pelo tempo de doce refrigério
Que somente de Ti pode vir.
Bênçãos escolhidas Tu tens dado,
Mas, nestas nós não nos acomodaremos,
Ainda há bênçãos escondidas conTigo,
Derrame-as, e nos abençoe.
Desperte os Teus filhos adormecidos, acorde-os,
Ordene-os a ir à Tua colheita;
Faça com que eles sejam bênçãos, oh Pai,
Ao redor de seus passos faça com que a bênção flua.
Que nenhum vilarejo seja esquecido,
Que Tuas chuvas desçam sobre todos;
Que em alguém entoe um hino abençoado,
Que miríades possam, em triunfo, harmonizarem-se.

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♦ Fonte: Spurgeon.org | Título Original: What is a Revival?
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


O Terrível Estado Dos Não-Convertidos – Jonathan Edwards

“Então, o carcereiro, tendo pedido uma luz, entrou precipitadamente e, trêmulo, prostrou-se diante de Paulo e Silas. Depois, trazendo-os para fora, disse: Senhores, que devo fazer para que seja salvo?” (Atos 16:29,30)

Temos aqui e no contexto um relato da conversão do carcereiro, que é uma das mais notáveis nas Escrituras. Ele, anteriormente, parece não apenas ter estado completamente insensível às coisas da religião, mas ter sido um perseguidor, tendo perseguido estes mesmos homens, Paulo e Silas, embora agora venha a eles de forma tão urgente, perguntando-lhes o que devia fazer para ser salvo. Lemos no contexto que todos os magistrados e multidões da cidade juntaram-se a uma em um tumulto contra Paulo e Silas, arrebatando-os, e lançando-os na prisão, encarregando o carcereiro da sua guarda. Imediatamente ele os lançou na prisão interior, e prendeu seus pés ao tronco. E é provável que não tenha agido assim meramente como um servo ou instrumento dos magistrados, mas que tenha se juntado com o resto do povo na sua fúria contra os apóstolos, e que assim o fez induzido por sua própria vontade, bem como pelas ordens dos magistrados, o que o fez executar suas ordens com tal rigor.

Mas quando, à meia noite, Paulo e Silas oravam e cantavam louvores, repentinamente houve um grande terremoto, e Deus abriu de forma tão maravilhosa as portas da prisão, e todas as cadeias foram afrouxadas, o carcereiro ficou extremamente aterrorizado, e, em uma espécie de desespero, estava prestes a se matar. Mas Paulo e Silas gritaram para ele: “Não te faças mal algum, pois estamos todos aqui”. Então, pediu uma luz, e saltou dentro [ARC], como temos o relato no texto. Podemos observar:

1. O objeto de sua preocupação. Ele está ansioso acerca de sua salvação: está aterrorizado por sua culpa, especialmente por sua culpa no maltrato destes ministros de Cristo. Está preocupado em escapar desse estado de culpa, o estado miserável que se encontrava devido ao pecado.

2. O senso que tem do horror do seu estado atual. Isto ele manifesta de diversas ma-neiras:

 1. Por sua grande pressa em escapar desse estado. Por seu afã em inquirir o que deve fazer. Ele parece estar tolhido pela mais premente preocupação, sensível à sua presente necessidade de libertação, sem qualquer adiamento. Antes, estava quieto e seguro em seu estado natural; mas agora seus olhos foram abertos, está na mais urgente pressa. Se a casa estivesse em chamas sobre sua cabeça, não poderia ter sido mais diligente, ou estar mais apressado. Se apenas tivesse andado, poderia logo ter chegado a Paulo e Silas, para perguntar-lhes o que devia fazer. Mas estava em grande pressa para andar apenas, ou correr, pois saltou; pulou para o lugar em que estavam. Ele fugia da ira. Fugia do fogo da justiça divina, e por isso apressava-se, como alguém que foge pela sua vida.

 2. Pelo seu comportamento e gesto diante de Paulo e Silas. Ele se prostrou. Que tenha se prostrado diante daqueles a quem havia perseguido, e atirado à prisão interior, e prendido os pés ao tronco, mostra qual era o estado de sua mente. Mostra alguma grande perturbação, que o alterou de tal maneira que o levou a isto. Estava, por assim dizer, despedaçado pela perturbação de sua mente, em um senso do horror de sua condição.

 3. Sua maneira urgente de inquiri-los acerca do que devia fazer para escapar desta condição miserável: “Senhores, que devo fazer para ser salvo?” Estava tão perturbado, que foi levado a se dispor a qualquer coisa; ter a salvação em qualquer termo, e por qualquer meio, mesmo que difícil; foi levado, por assim dizer, a escrever uma fórmula, e entregá-la a Deus, para que Ele prescrevesse seus próprios termos.

DOUTRINA: Os que estão em um estado natural, estão em uma condição terrível.

Isto me esforçarei para provar por uma consideração particular do estado e condição das pessoas não regeneradas.

 

I. Quanto a seu estado atual neste mundo.

II. Quanto as suas relações com o mundo futuro.

 

I. A condição daqueles que não são convertidos é terrível no mundo presente.

 Primeiro. Devido ao estado depravado de suas naturezas. Os homens, quando vêm ao mundo, têm naturezas terrivelmente depravadas. O homem, em seu estado primitivo, era uma peça nobre de habilidade Divina; mas, pela Queda, está horrivelmente desfigurado. É triste pensar que uma criatura tão excelente deva estar tão arruinada. O horror desta condição, na qual se encontram os não-convertidos neste respeito, prova-se pelo seguinte:

1. O horror de sua depravação evidencia-se pelo fato de serem tão insensivelmente cegos e ignorantes. Deus deu ao homem a faculdade da razão e do entendimento, que é uma nobre faculdade. Por ela, ele se diferencia de todas as outras criaturas inferiores. É exaltado em sua natureza acima delas, e é, neste aspecto, semelhante aos anjos, capacitado a conhecer a Deus, e conhecer as coisas eternas e espirituais. Deus lhe deu entendimento para este fim, para que O pudesse conhecer, e conhecer as coisas celestiais, e o fez capaz de compreendê-las como quaisquer outras. Mas o homem degradou a si mês-mo, e perdeu sua glória neste respeito. Tornou-se ignorante da excelência de Deus à maneira das próprias feras. Seu entendimento está cheio de obscuridade; sua mente está cega; está completamente cego para as coisas espirituais. Os homens são ignorantes de Deus, e ignorantes de Cristo, ignorantes do caminho da salvação, ignorantes de sua própria felicidade, cegos em meio a mais brilhante e clara luz, ignorantes sob todas as formas de instrução. Rm 3:17: “Desconheceram o caminho da paz”. Is 27:11: “Não é povo de entendimento”. Jr 4:22: “O meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não inteligentes”. Sl 95:10, 11: “É povo de coração transviado, não conhece os meus caminhos. Por isso, jurei na minha ira: não entrarão no meu descanso”:1 Co 15:34: “Alguns ainda não têm conhecimento de Deus; isto digo para vergonha vossa”.

Há um espírito de ateísmo prevalecendo nos corações dos homens; uma estranha disposição para duvidar da própria existência de Deus, e do outro mundo, e de qualquer coisa que não possa ser vista com os olhos físicos. Sl 14.1: “Diz o insensato no seu coração, não há Deus”. Não percebem que Deus os vê, quando pecam, e os chamará a prestar contas por isso. E, portanto, se podem esconder os pecados dos olhos dos homens, não se preocupam, e são ousados em cometê-los. Sl 94:7-9: “E dizem: O SENHOR não o verá; nem para isso atentará o Deus de Jacó. Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios? Aquele que fez o ouvido, não ouvirá? E o que formou o olho, não verá? [ARC]” Sl 73:11: “E diz: Como sabe Deus? Acaso, há conhecimento no Altíssimo?” São tão insensivelmente incrédulos das coisas futuras, do céu e do inferno, que comumente preferem correr o risco da condenação a ser convencidos. São estupidamente insensíveis da importância das coisas eternas. Como é difícil levá-los à fé, e dar-lhes real convicção de que ser feliz por toda a eternidade é melhor que todos os outros bens; e ser miserável por toda eternidade, debaixo da ira de Deus, é pior que todo mal. Os homens mostram-se insensíveis o suficiente nas coisas temporais, mas muito mais nas espirituais. Lc 12:56: “Hipócritas, sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu e, entretanto, não sabeis discernir esta época?” São muito engenhosos para o mal; mas rudes naquelas coisas que mais os importam. Jr 4:22: “São sábios para o mal e não sabem fazer o bem”. Os ímpios se mostram mais tolos e insensíveis para o que lhes é melhor, do que os brutos. Is 1:3: “O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende”. Jr 8:7: “Até a cegonha no céu conhece as suas estações; a rola, a andorinha e o grou observam o tempo da sua arribação; mas o meu povo não conhece o juízo do SENHOR”.

2. Não há bem algum neles. Rm 7:18: “Em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum”. Não há neles nenhum princípio que os disponha a qualquer coisa boa. Os não-convertidos não têm princípio mais elevado em seus corações do que o amor-próprio. E nisso não excedem os demônios. Estes amam a si mesmos, e sua própria felicidade, e te-mem sua própria miséria. E não vão mais longe. Seriam tão religiosos quanto os melhores dos não-convertidos, se estivessem nas mesmas circunstâncias. Seriam tão moralistas, e orariam com o mesmo fervor a Deus, e sofreriam o mesmo tanto pela salvação, se houvesse oportunidades semelhantes. E, assim como não há bom princípio nos corações dos não-convertidos, também nunca há quaisquer bons exercícios do coração, nunca um bom pensamento, ou mover de coração neles. Particularmente, neles não há amor por Deus. Jamais tiveram o mínimo grau de amor pelo Ser infinitamente glorioso. Jamais tiveram o mínimo respeito verdadeiro pelo Ser que os criou, e em cujas mãos está sua respiração, e de quem procedem todas as suas misericórdias. Conquanto, às vezes, possam parecer fazer coisas por respeito a Deus, e vistam o rosto como se O honrassem, e altamente O estimassem, tudo não passa de hipocrisia. Mesmo que haja um exterior limpo, são como sepulcros caiados; por dentro não há nada senão putrefação e podridão. Não têm amor por Cristo, o glorioso Filho de Deus, que é tão digno de seu amor, e que mostrou graça tão maravilhosa pelos pecadores ao morrer por eles. Jamais fizeram qualquer coisa por respeito verdadeiro ao Redentor do mundo, desde que nasceram. Jamais produziram quaisquer frutos a esse Deus que os criou, e em quem vivem, movem-se e tem seu ser. Jamais responderam de alguma forma ao fim para o qual foram criados. Têm, até agora, vivido completamente em vão, e sem nenhum propósito. Jamais obedeceram com sinceridade a um mandamento de Deus; nunca moveram um dedo motivados por um espírito verdadeiro de obediência a Ele, que os fez para servi-lO. E quando pareceram, externamente, concordar com os mandamentos de Deus, em seus corações não o fizeram. Jamais obedeceram movidos por um espírito de sujeição a Deus, ou por qualquer disposição em obedecê-lO, mas meramente foram levados a isso pelo medo, ou de alguma forma influenciados por seus interesses mundanos. Jamais deram a Deus a honra de nenhum de Seus atributos. Nunca Lhe deram a honra de Sua autoridade, obedecendo-Lhe. Jamais Lhe deram a honra por Sua soberania, submetendo-se a Ele. Jamais Lhe deram a honra de Sua santidade e misericórdia, amando-O. Nunca Lhe deram a honra por Sua suficiência e fidelidade, confiando nEle; mas olharam para Deus como Alguém indigno de ser crido e confiado, e o trataram como se fosse um mentiroso: 1 Jo 5:10: “Aquele que não dá crédito a Deus o faz mentiroso”. Eles jamais agradeceram de coração a Deus por uma simples misericórdia recebida em toda sua vida, embora Ele os tenha sustentado, e tenham vivido debaixo de Sua liberalidade. Jamais agradeceram genuinamente a Cristo por ter vindo ao mundo, e morrido para lhes dar a oportunidade de serem salvos. Jamais lhe mostrariam alguma gratidão a ponto de recebê-lO, quando bateu em suas portas; mas sempre lha fecharam, embora tenha batido sem nenhum outro propósito senão o de oferecer-Se para ser seu Salvador. Jamais tiveram qualquer desejo verdadeiro por Deus ou Cristo em toda a sua vida. Quando Deus se ofereceu para ser sua porção, e Cristo, para ser o amigo de suas almas, não os desejaram. Jamais quiseram ter Deus e Cristo como sua porção. Prefeririam, ao contrário, estar sem eles, se pudessem evitar o inferno sem Sua companhia. Jamais tiveram um pensamento honroso sobre Deus. Sempre estimaram as coisas terrenas antes dEle. E, apesar de tudo o que ouviram nos mandamentos de Deus e de Cristo, sempre preferiram um pequeno ganho mundano ou um prazer pecaminoso a eles.

3. Os não-convertidos estão em uma condição terrível devido à horrível impiedade que há neles.

1. O pecado possui uma natureza terrível, e isso se dá porque é cometido contra um Deus infinitamente grande e santo. Há na natureza do homem inimizade, desprezo e rebelião contra Deus. O pecado se levanta como um inimigo do Altíssimo. É terrível para a criatura ser inimiga do Criador, ou ter no coração algo como uma inimizade, como ficará bem claro, se considerarmos a diferença que há entre Deus e a criatura, e como as criaturas, comparadas a Ele, são como o pó da balança, como nada, menos do que nada, um vácuo. Há um mal infinito no pecado. Se víssemos a centésima parte do mal que há no pecado, isso nos tornaria sensíveis que aqueles que têm qualquer pecado, ainda que seja mínimo, estão em uma condição terrível.

2. Os corações dos não-convertidos estão completamente cheios de pecado. Se tivessem apenas um pecado neles, seria suficiente para tornar suas condições muito terríveis. Mas têm não apenas um pecado, mas todo tipo de pecado. Há todo tipo de desejo carnal. O coração é um mero poço de pecado, uma fonte de corrupção, de onde emerge todo tipo de regatos imundos. Mc 7:21, 22: “Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura”. Não há um desejo maligno no coração do diabo, que não esteja no coração do homem. Os homens naturais são à imagem do diabo. A imagem de Deus é demolida, e a imagem do diabo é estampada nele. Deus graciosamente se agrada em restringir a impiedade dos homens, especialmente pelo temor e respeito que têm pelos seus créditos e reputações, e pela educação. Não fosse tais restrições, não haveria tipo de impiedade que os homens não cometeriam, quando lhes viessem ao encontro. A prática daquelas coisas que os homens agora, à simples menção, prontamente ficam chocados quando ouvem o relato, seria comum e geral; e a terra seria um tipo de inferno. Se não temesse, o que o homem natural não faria? Mt 10:17: “acautelai-vos dos homens”. Os homens têm não apenas todo tipo de luxúria, e disposições ímpias e perversas em seus corações, mas as têm em um grau desesperador. Não há apenas o orgulho, mas um grau fantástico dele: orgulho tal que o dispõe a colocar-se acima até mesmo do trono do próprio Deus. Os corações dos não-convertidos são meras sarjetas de sensualidade. O homem se tornou como as feras ao colocar sua felicidade nas diversões sensuais. O coração está cheio das paixões mais repugnantes. Suas almas são mais vis e abomináveis que a de qualquer réptil. Se Deus abrisse uma janela no coração, de forma que pudéssemos contemplar o seu interior, seria o espetáculo mais repugnante que já se viu sob nossos olhos. Não há apenas malícia nos corações dos homens naturais, mas uma fonte dela. Os homens merecem, portanto, a linguagem aplicadas a eles por Cristo em Mateus 3.7: “Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?” e Mt 23:33: “Serpentes, raça de víboras!” Eles, não fosse pelo medo e outras restrições, não apenas cometeriam toda sorte de pecado, mas a que grau, a que distância não procederiam! O que impede um homem natural de abertamente blasfemar contra Deus, como faz qualquer um dos demônios; sim, de destroná-lo, se fosse possível, e não houvesse o medo e outras restrições no caminho? Sim, não aconteceria isto com muitos dos que agora aparecem com um rosto justo, falando muito de Deus, e com muitas pretensões de adorá-lO e servi-lO? A grande impiedade dos homens naturais aparece abundantemente nos pecados que cometem, não obstante todas estas restrições. Todo homem natural, se refletir, pode ver o suficiente para mostrar-lhe como é excessivamente pecador. O pecado flui do coração com tanta constância como a água flui de uma fonte. Jr 6:7: “Como o poço conserva frescas as suas águas, assim ela, a sua malícia”. E esta impiedade, que abunda desta maneira nos corações, tem domínio sobre eles. São escravos dela: Rom 7:14: “eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado”. Estão de tal maneira debaixo do pecado, que são conduzidos por suas luxúrias em um curso contra suas próprias consciências, e contra seu próprio interesse. Apressam-se em direção à própria ruína, e isso ao mesmo tempo em que suas próprias razões lhes advertem que isto provavelmente será sua perdição. 2 Pedro 2.14: “Insaciáveis no pecado”. Devido ao fato dos ímpios estarem de tal maneira sob o poder do pecado, o coração humano é descrito como desesperadamente corrupto em Jr 17.9 e Ef 2.1 diz: “[estáveis] mortos nos vossos delitos e pecados”.

3. Os corações dos não-convertidos são terrivelmente endurecidos e incorrigíveis. Nada, a não ser o poder de Deus, os moverá. Apegar-se-ão ao pecado, e continuarão nele, aconteça o que acontecer. Pv 27:22: “Ainda que pises o insensato com mão de gral entre grãos pilados de cevada, não se vai dele a sua estultícia”. Não há nada que abale seus corações, e nada que os leve à obediência: quer sejam misericórdias ou aflições, ameaças ou chamados e convites da graça, reprovação ou paciência e longanimidade, ou conselhos e exortações paternais. Is 26:10: “Ainda que se mostre favor ao perverso, nem por isso aprende a justiça; até na terra da retidão ele comete a iniquidade e não atenta para a majestade do SENHOR”.

Em segundo lugar: O estado relativo dos não-convertidos é terrível. Isso será evidente se considerarmos:

1. Seu estado relativo com respeito a Deus; e isso porque:

1. Eles estão sem Deus no mundo. Não têm interesse ou parte com Deus: Ele não é o Deus deles. Ele próprio declarou que não o seria (Os 1:9). Deus e os crentes têm uma re-lação pactual mútua e direito um ao outro. Eles são seu povo, e Ele é o Deus deles. Mas não é o Deus pactual daqueles que estão em um estado natural. Há uma grande alienação e estranhamento entre Deus e os ímpios: Ele não é seu pai e porção, não têm nada com que possam questioná-lo, não têm direito a nenhum de seus atributos. O crente pode reivindicar um direito no poder de Deus, em Sua sabedoria e santidade, Sua graça e amor. Tudo é renovado para ele, em seu benefício. Mas o não-convertido não pode reivindicar direito algum a qualquer das perfeições de Deus. Não têm Deus para defendê-los e protegê-los neste mundo mau: para defendê-los do pecado, de Satanás ou de qualquer mal. Não têm Deus para guiá-los e orientá-los em quaisquer dúvidas ou dificuldades, para confortá-los e apoiar suas mentes nas aflições. Estão sem Deus em todos as suas ocupações, em todos os negócios que realizam, em seus assuntos familiares, e em todas os seus projetos pessoais, nas suas preocupações exteriores e nas preocupações de suas almas.

Como poderia uma criatura ser mais miserável do que estando separada de seu Criador, e não ter um Deus a quem possa chamar de seu? É miserável, de fato, aquele que vagueia pelo mundo, sem um Deus para velar por si, e ser seu guia e protetor, e abençoá-lo nos seus afazeres. A própria luz da natureza ensina que o Deus de um homem é seu tudo. Jz 18:24: “Os deuses que eu fiz me tomastes; que mais me resta?” Não há senão um Deus, e não têm direito algum a Ele. Estão sem aquele Deus, cuja vontade deve determinar sua inteira existência, tanto aqui quanto na eternidade. Que os não-convertidos estão sem Deus mostra que estão sujeitos a todo tipo de mal. Estão sujeito ao poder do diabo, ao poder de todo tipo de tentação, pois não têm Deus para protegê-los. Estão sujeitos a ser seduzidos e enganados pelas opiniões errôneas, e a abraçarem doutrinas condenadas. Não é possível enganar os santos desta maneira. Mas os não-convertidos podem ser enganados. Podem tornar-se papistas, ou pagãos ou ateus. Nada que tenham pode livrá-los disso. Estão sujeitos a ser entregues à dureza judicial de Deus no coração. Eles a merecem, e, uma vez que Deus não é o seu Deus, não têm certeza se não lhes aplicará esse terrível julgamento. Como estão sem Deus no mundo, estão sujei-tos a cometer todo tipo de pecado, e, até mesmo, o pecado imperdoável. Não podem ter certeza se não vão cometê-lo. Estão sujeitos a construir uma falsa esperança do céu, e, com essa esperança, irem ao inferno. Estão sujeitos a morrer insensíveis e estúpidos, como muitos morrem. Estão sujeitos a morrer da mesma maneira que morreram Judas e Saul, sem temor do inferno. Não estão seguros disso. Estão sujeitos a todo tipo de engano, uma vez que estão sem Deus. Não podem dizer o que poderá lhes suceder, nem quando estão seguros de qualquer coisa. Não estão seguros nem por um momento. Dez mil enganos fatais podem recair sobre eles, e torná-los miseráveis para sempre.

Os que têm Deus por seu Deus estão livres de tais males. Não é possível que recaiam sobre eles. Deus é seu Deus pactual, e têm sua promessa fiel de ser seu refúgio. Mas quantos enganos há que não possam recair sobre os não-convertidos? Quaisquer esperanças que tiverem poderão ser desapontadas. Qualquer perspectiva ingênua que possa aparentemente haver de sua conversão e salvação, pode desvanecer. Podem fazer grandes progressos em direção ao reino de Deus, e, ainda assim, falhar no final. Podem parecer estar em um estado deveras esperançoso de serem convertidos, e, ainda assim, jamais o serem. Um homem natural não tem segurança alguma. Não está seguro de bem nenhum, nem de escapar de qualquer mal. É, portanto, terrível a condição na qual se encontra o não-convertido. Os que estão no seu estado natural estão perdidos. Desviaram-se de Deus, e são como ovelhas perdidas, que se desviaram do seu pastor. São pobres criaturas desamparadas, em um deserto cheio de uivos, sem pastor para protegê-las ou guiá-las. Estão desolados, e expostos a inúmeros enganos fatais.

2. Estão não apenas sem Deus, mas a Sua ira permanece sobre eles, João 3.36: “O que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus”. Não há paz entre Deus e eles, mas Deus está irado com eles, diariamente. Não está apenas irado, mas o está num grau terrível. Há um fogo aceso na ira de Deus: ela está em chamas. A ira permanece sobre eles, que, se fosse ela executada, os lançaria no mais profundo inferno, e os tornaria miseráveis por toda eternidade. Provocaram o Santo de Israel à ira. Deus sempre esteve irado com eles, desde que começaram a pecar: tem sido provocado diariamente, e mais e mais, a cada hora. A chama de sua ira está conti-nuamente ardendo. Provocaram a Deus mais do que muitos no inferno, e com maior frequência. Aonde quer que vão, convivem com a terrível ira de Deus sobre si. Comem, bebem e dormem debaixo de Sua ira. Como é terrível, portanto, a condição em que estão! É muito triste para a criatura ter a ira do seu Criador sobre si. Essa ira de Deus é algo infinitamente terrível. A ira de um rei é como o rugido de um leão; mas o que é a ira de um rei, que não é senão um verme do pó, comparada à ira do Deus infinitamente grande e terrível? Como é horrível estar debaixo da ira do Ser Primeiro, o Ser dos seres, o grande Criador e poderoso dono dos céus e da terra! Como é terrível para uma pessoa estar debaixo da ira de Deus, que lhe deu o ser, e em quem se move e existe, que é onipre-sente e sem o qual ela não pode dar um passo, nem um suspiro! Os não-convertidos, além de estarem debaixo de ira, estão debaixo de maldição. A ira e a maldição de Deus estão continuamente sobre eles. Não podem ter um conforto razoável, portanto, em qualquer de suas diversões, pois nada sabem, senão que elas lhes são dadas em ira, e serão amaldiçoados por elas, e não abençoados. Como é dito em Jó 18.15: “Espalhar-se-á enxofre sobre a sua habitação”. Como podem, então, ter algum conforto em suas refeições, ou posses, quando nada sabem senão que isso lhes é dado para prepará-los para a execução?

 

II. O estado relativo deles se mostrará terrível, se considerarmos como estão relacionados ao diabo.

1. Os que estão em um estado natural são filhos do diabo. Assim como os santos são filhos de Deus, os ímpios são filhos do diabo: 1 Jo 3:10: “Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo” Mt 13:38, 39: “o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do reino; o joio são os filhos do maligno; o inimigo que o semeou é o diabo”. Jo 8:44: “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos”. São, por assim dizer, descendência do diabo; procedem dele: 1 Jo 3:8: “Aquele que pratica o pecado procede do diabo”. Assim como Adão gerou um filho à sua semelhança, os ímpios são à imagem e semelhança do diabo. Eles reconhecem esta relação, e se consideram filhos do diabo, consentindo que ele seja seu pai. Sujeitam-se a ele, ouvem os seus conselhos, como os filhos ouvem os conselhos de um pai. Ele os ensina a imitá-lo, e a fazer como ele faz, assim como as crianças aprendem a imitar seus pais. Jo 8:38: “Eu falo das coisas que vi junto de meu Pai; vós, porém, fazeis o que vistes em vosso pai”. Como é terrível este estado! Como é horrível ser um filho do diabo, o espírito das trevas, o príncipe do inferno, esse ímpio, maligno e cruel espírito! Ter alguma relação com ele é mui terrível. Seria considerado algo medonho e assustador o mero encontro com o diabo, aparecendo ele em uma forma visível para alguém. Como é terrível, então, ser seu filho; como é assustador para qualquer pessoa ter o diabo por seu pai!

2. Eles são cativos e servos do diabo. O homem, antes da queda, estava em um estado de liberdade; mas, agora, caiu nas mãos de satanás. O diabo foi vitorioso, e o tomou cativo. Os homens naturais estão em posse de satanás, e estão sob seu domínio. São conduzidos por ele em sujeição a sua vontade, para seguirem suas instruções, e fazerem o que ele ordena, 2 Tm 2:16: “Tendo sido feitos cativos por ele para cumprirem a sua vontade”. O diabo governa sobre os ímpios. São todos seus escravos, e o servem com trabalhos forçados. Isto mostra que sua condição é terrível. Os homens consideram um estado de vida infeliz ser um escravo; e, especialmente, ser escravo de um senhor mau, de alguém que seja duro, implacável e cruel. Quão miseráveis consideramos aqueles que caíram nas mãos dos turcos, ou outras nações bárbaras semelhantes, sendo destinados a mais baixa e cruel escravidão, e tratados pior do que o gado! Mas o que é ser tomado cativo pelo diabo, o príncipe do inferno, e ser escravo dele? Não seria melhor ser escravo de qualquer um na terra a ser seu escravo? O diabo é, de todos os senhores, o mais cruel, e trata os seus servos da pior maneira. Coloca-os na realização dos mais vis serviços, os mais desonrosos no mundo. Nada é mais desonroso que a prática do pecado. O diabo põe seus servos para realizar obras que os degrada abaixo da dignidade da natureza humana. Devem tornar-se semelhantes às feras para fazer esse serviço e servir às suas concupiscências imundas. E, além da vileza do trabalho, é um trabalho árduo. O diabo os escraviza às custas de sua própria paz de consciência, e, com frequência, às custas de suas reputações, de suas posses, e encurtando seus dias. O diabo é um senhor cruel, pois o serviço a que submete seus escravos os destrói. Ele os põe em trabalhos forçados, dia e noite, para trabalharem em suas próprias ruínas. Jamais pretende lhes recompensar por suas lidas, mas estas servem para edificar sua destruição eterna. Serve para acumular combustível e chamas de fogo para eles mesmos serem atormentados por toda a eternidade.

3. A alma de um não-convertido é a habitação do diabo. Ele é não apenas pai deles, e seu chefe, mas habita neles. É terrível para um homem ter o diabo nas cercanias, visitando-o com frequência. Mas é ainda mais terrível tê-lo habitando com um homem, e aceitar sua habitação; e é ainda terrível tê-lo consigo, habitando no coração. Mas é isto que ocorre com o não-convertido. Ele tem o diabo habitando no seu coração. Assim como a alma de um justo é a habitação do Espírito de Deus, a alma de um ímpio é a habitação de espíritos imundos. Assim como a alma de um justo é o templo de Deus, a alma do ímpio é a sinagoga de Satanás. Ela é chamada na Escritura de casa de Satanás, e palácio de Satanás, Mt 12:27: “Ou como pode alguém entrar na casa do valente”, querendo dizer, o diabo. E Lc 11:21: “Quando o valente, bem armado, guarda a sua própria casa, ficam em segurança todos os seus bens”. Satanás não apenas vive, mas reina, no coração do ímpio. Não apenas fez sua morada lá, mas estabeleceu seu trono. O coração de um ímpio é lugar de encontro do diabo. As portas do seu coração estão abertas aos demônios. Têm livre acesso a ele, embora esteja fechado para Deus e Jesus Cristo. Há muitos demônios, sem dúvidas, que se relacionam com um ímpio, e seu coração é lugar de encontro deles. A alma de um ímpio é, como se diz da Babilônia, a habitação dos demônios, e a casa de todo espírito imundo, e um ninho de toda ave imunda e odiosa. Assim, terrível é a condição de um homem natural por causa da relação em que ele está com o diabo.

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♦ Fonte: CCEL.org │ Título Original: Natural Men in a dreadful Condition
♦ Fonte: JonathanEdwardsSelecionados.blogspot.com.br
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ARA (Almeida Revista e Atualizada).
♦ Tradução por Tiago Cunha │ Revisão por William Teixeira


O Sepultamento e a Ressurreição de Jesus Cristo – João Calvino

“E estavam ali, olhando de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galiléia, para o servir; Entre as quais estavam Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu. E, vinda já a tarde, chegou um homem rico, de Arimatéia, por nome José, que também era discípulo de Jesus. Este foi ter com Pilatos, e pediu-lhe o corpo de Jesus. Então Pilatos mandou que o corpo lhe fosse dado. E José, tomando o corpo, envolveu-o num fino e limpo lençol, E o pôs no seu sepulcro novo, que havia aberto em rocha, e, rodando uma grande pedra para a porta do sepulcro, retirou-se” (Mateus 27:55-60)

Vimos acima como o nosso Senhor Jesus declarou o fruto e o poder da Sua morte ao pobre ladrão, que certamente parecia ser, por assim dizer, uma alma condenada e perdi-da. Agora, se todos aqueles que anteriormente foram ensinados no Evangelho, e que tenham tido alguma prova deste, fossem alienados ao ver o Filho de Deus morrer, parece que a pregação do Evangelho teria sido vã e inútil. Além disso, sabemos que os Apósto-los haviam sido eleitos para a condição de serem, por assim dizer, as primícias da Igreja. Alguém poderia, então, ter pensado que esta eleição fora uma coisa decepcionante, o fato deles terem sido escolhidos para tal ofício e condição. Por esta razão, é aqui declarado para nós que, embora os Apóstolos tenham fugido e que nisto mostraram uma vil covardia, São Pedro tinha até negado ao nosso Senhor Jesus e foi, por assim dizer, afastado de toda a esperança de salvação, de fato, sendo digno de ser reputado como um membro podre; contudo, Deus não permitiu que a doutrina que haviam recebido anteriormente fosse extinta e totalmente abolida. É verdade que São Mateus coloca mais fé na constância de mulheres do que de homens. Isso é para que possamos aprender a magnificar ainda mais a bondade de Deus, que aperfeiçoa o seu poder em nossa fraqueza. Isso é também o que São Paulo diz, que Deus escolheu as coisas fracas deste mundo, a fim de que aqueles que imaginam-se fortes possam abaixar a cabeça e não gloriarem-se em absolutamente nada (1 Coríntios 1:19-31.) Se fosse aqui falado de homens e de sua magnanimidade, e que eles tinham seguido o nosso Senhor Jesus Cristo à morte, alguém poderia considerar isso como uma coisa natural. Mas quando mulheres são guiadas pelo Espírito de Deus, e há nelas mais ousadia do que nos homens, na verdade, do que naqueles que foram eleitos para anunciar o Evangelho para todo o mundo, nisto nós reconhecemos que Deus estava operando e que é a Ele que o louvor deve ser atribuído.

Agora diz-se especialmente: “E estavam ali [...] muitas mulheres que tinham seguido Jesus [...] para o servir”. O que é para melhor declarar a inclinação que elas tinham ao se beneficiar por meio do Evangelho. Pois não era pouca excelência que elas tenham deixado as suas casas para caminhar aqui e ali, de fato, com grande esforço e mesmo com vergonha. Porque sabemos qual foi a condição de nosso Senhor Jesus Cristo enquanto Ele andou no mundo. Ele diz que as raposas têm covis e pequenos pássaros são capazes de construir seus ninhos, mas Ele não tem onde reclinar a cabeça (Mateus 8:20, Lucas 9:58). Vemos, por outro lado, que estas mulheres tinham os meios para alimentarem-se pacificamente e em seu conforto. Quando, então, elas caminham assim, sem serem capazes de encontrar alojamento, exceto com dificuldade, elas têm que prosseguir sem comida e bebida, elas são sujeitas a muitas zombarias, elas são levadas para longe e injuriadas por toda parte, e ainda assim elas elevam-se acima de tudo isso e suportam isso em paciência, nós podemos facilmente julgar como Deus lhes havia fortalecido. No entanto, com a morte elas ainda declaram a esperança que elas tinham em nosso Senhor Jesus Cristo. Pois, embora elas estejam confusas, contudo se elas tivessem suposto que nosso Senhor havia perecido definitivamente, elas poderiam ter julgado que Ele falhara completamente. Pois Ele tinha falado com elas sobre o Reino de Deus, que deveria ser restaurado por Seus meios. Ele havia falado com elas sobre a perfeita bem-aventurança e sobre a salvação que Ele realizaria. E onde estão todas essas coisas? Vemos, então, como essas pobres mulheres apesar de terem ficado perplexas e por mais que elas estivessem preocupadas, sem saber qual seria o resultado da vida de Nosso Senhor, no entanto, foram sustentadas por Sua autoridade. E mesmo assim Ele faz com que, no final, elas reconheçam e julguem que Ele não prometera nada em vão. Elas, então, esperaram aquela promessa da ressurreição, embora de acordo com os homens elas poderiam ter julgado de forma totalmente contrária. No entanto, vemos como a fé delas foi exercitada, a fim de que não sejamos incomodados além da medida, se na aparência, parece que somos abandonados por Deus, e que todas as promessas do Evangelho estão, por assim dizer, abolidas, isso acontece para que nós persistamos. Pois estas mulheres dão testemunho contra nós, e para nossa grande condenação, se falharmos em tais combates. Será que desejamos um exemplo mais rude do que o que elas sofreram? No entanto, elas foram verdadeiramente vitoriosas por meio da fé.

Então, armemo-nos quando somos alertados sobre os ataques que Satanás faz contra nós, para que estejamos armados para resistir ao golpe, e mostremos que somos tão apoiados pelo poder de nosso Senhor Jesus Cristo que, embora não possamos perceber à primeira vista o cumprimento do que é dito a nós, não podemos deixar de descansar nEle, e trazer a Ele esta homenagem e reverência, que Ele mostrar-se-á fiel por fim. E nós precisamos ser assim provados ao limite. Pois caso contrário, seríamos muito delicados, e até mesmo a nossa fé seria amortecida, ou talvez pudéssemos imaginar um paraíso terrestre, e nós não poderíamos elevar os nossos sentidos alto o suficiente para renunciar a este mundo. Como também nós podemos ver isso melhor na pessoa da mãe de João e Tiago. Sabemos que anteriormente ela havia sido impulsionada por tal ambição que desejava que nosso Senhor estivesse sentado em Seu trono real, e que Ele tivesse ali somente pompa e bravura, e que seus dois filhos estivessem ali como dois oficiais de Nosso Senhor. “Dize”, disse ela, “que estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu reino” [Mateus 20:21]. Oh, que mulher tola! Que está atenta apenas à glória e que desejava ver um triunfo terreno em seus filhos. Agora, aqui há outra e mui diferente experiência. Pois ela vê nosso Senhor Jesus pendurado na cruz, em tal vergonha e desgraça quando todo o mundo se opõe a Ele, e Ele está mesmo ali, por assim dizer, amaldiçoado por Deus. Assim, nós vemos isso, quando seremos levados em tal confusão que nossos espíritos ficarão surpresos com o terror e angústia, mas isto significa que Deus nos retira de todos os afetos terrenos, a fim de que nada possa nos impedir de sermos erguidos ao céu e à vida espiritual a que devemos aspirar. E nós não podemos fazê-lo, a menos que sejamos expurgados de tudo o que nos impede nesta terra. Isso, então, em resumo, é o que temos que lembrar a respeito dessas mulheres.

No entanto, isso não quer dizer que ali não havia também homens, mas a intenção do Espírito Santo foi colocar diante de nossos olhos aqui tal espelho, a fim de que possamos saber que é Deus quem conduziu essas mulheres pelo poder do Espírito Santo, e Ele quis declarar o Seu poder e Sua graça, escolhendo instrumentos tão fracos de acordo com o mundo. Semelhante também é visto em Nicodemos e José. É verdade que São Mateus, São Marcos e São Lucas apenas falam de José, que veio a Pilatos e Nicodemos, tomou coragem, vendo que ele tinha tal líder. É verdade que Nicodemos era um mestre de gran-de estima. José era um homem rico em bens materiais, na verdade, também um membro do conselho. No entanto, olhemos para ver se havia neles um tal zelo, a ponto de se exporem à morte por nosso Senhor Jesus, e de fato se durante a Sua vida eles deixaram as suas casas para seguí-lO. Não absolutamente. Mas quando se trata da morte Deus, isso os move e os incita para além de toda a expectativa humana. Vemos, então, que Deus operou aqui uma mudança estranha e admirável, quando concedeu tal ousadia para José e Nicodemos, que não temiam a ira de todas as pessoas, quando eles vieram sepul-tar o nosso Senhor Jesus. Anteriormente Nicodemos havia vindo de noite, com medo de ser estigmatizado com infâmia. Agora, ele enterra o nosso Senhor Jesus, de fato, quando Ele chegou ao extremo. Deus, então, teve que lhe dar um novo ânimo, pois ele mesmo havia escondido, e, de fato, nenhumas sombras haviam sido suficientemente escuras para ele, vendo sua timidez e covardia, a menos que Deus houvesse corrigido esse defeito nele. Em resumo, vemos como a morte de nosso Senhor Jesus o beneficiou, e que Ele já, nesta ocasião, mostrou as graças de Seu Espírito Santo sobre essas pobres pessoas que anteriormente nunca tinham ousado fazer uma declaração de sua fé. Agora, eles não somente falam pela boca, mas o que eles fazem mostra que eles preferem ser tidos por execráveis diante de todo o mundo e ainda serem discípulos de Jesus Cristo, do que perder o que haviam obtido; ou seja, a salvação gratuita que tinha sido oferecida a eles.

É também por isso que se diz que José esperava o Reino de Deus. Por esta palavra é declarado a nós que estamos separados de Deus e banidos de Seu reino, até que Ele nos reúna para Si mesmo por Seu povo. Vemos, então, quão miserável é a condição dos homens, até que o Senhor Jesus os chame para Si, para dedicá-los ao Seu Pai. E se estamos separados deste bem, miséria e confusão estão sobre nós! Foi uma grande virtude, então, esperar o Reino de Deus, porque os Judeus haviam corrompido isso, e as ocasiões disso estavam em grande acordo com o mundo. Pois os profetas haviam declarado, quando o povo voltou da Babilônia, que Deus seria de tal modo o Seu Redentor que haveria um reino florescente em toda a dignidade, que o templo seria construído em maior glória do que antes, que, em seguida, eles desfrutariam de todos os benefícios, e que esta seria uma vida feliz, que todos teriam descanso e que a única preocupação seria a de fruir a Deus, e bendizer o Seu nome, e dar-Lhe louvor. Isso é o que os profetas haviam prometido. Mas, qual é a condição do povo? Eles são consumidos e devorados por seus vizinhos, eles são aferroados, eles são injuriados. Às vezes, há tanta tirania que o sangue inocente é derramado por toda a cidade, o livro da Lei é queimado, e eles são proibidos de ter uma única leitura do mesmo, sob pena de morte. Tais grandes crueldades são praticadas, de forma que é horrível pensar sobre isso. O templo está cheio de contaminação. A casa de Davi, o que aconteceu com ela? Foi totalmente abatida e a condição das coisas vai continuamente de mal a pior. Então, alguém não estaria surpreendido, se em um povo tão rude e dado aos seus apetites e afetos, eram pouquíssimos os que mantiveram a verdadeira religião e que não haviam perdido a coragem; como podemos ver também que o número de pessoas que suportaram com paciência e que eram firmes na fé era muito pequeno e raríssimo. Isso é dito sobre Simeão, dito sobre Ana, a profetisa, dito de José. Mas por quê? Em uma multidão tão grande, entre os Judeus, em um país tão populoso, o Espírito Santo coloca diante de nós quatro ou cinco como algo que não era nada habitual, e dá testemunho de que essas pessoas estavam esperando o Reino de Deus. Isso acon-teceu para que possamos aprender, quando tudo estiver e nos momentos de desespero, a mantermos os olhos fixos em Deus. E na medida em que a Sua verdade é infalível e imutável, permaneçamos firmes até o fim, e superaremos todas as dificuldades, escândalos e perplexidades do mundo, e ainda que gemamos, não deixemos de aspirar ao que o nosso Senhor nos chamou, isto é, a esperar pacientemente que o Seu Reino seja estabelecido em nós, e que ainda possa nos bastar ter o Penhor que Ele nos concede, o Seu Espírito Santo, por Quem nos sustentamos o testemunho da adoção gratuita pela qual Ele nos fez um. Quando Deus declara que Ele nos segura e nos considera como Seus filhos, e quando isso está gravado em nossos corações pelo Espírito Santo, quando temos diariamente a doutrina do Evangelho que ressoa e soa em nossos ouvidos, sejamos confirmados na fé e não falhemos de modo algum, mesmo que as coisas sejam tão con-fusas que não se possa imaginar como poderia ser pior. Isso, então, em resumo, é o que temos que lembrar a partir dessa passagem.

Agora também é necessário notar o que São João registra antes que o nosso Senhor Jesus fosse retirado da cruz: a saber, que eles traspassaram o Seu lado para ver se Ele já havia entregado o espírito. Pois eles não haviam apressado a Sua morte como eles fizeram com os dois ladrões. Mas vendo que parecia que Ele já havia falecido, chegaram a sonda-lO com um golpe de lança, e, em seguida, eles sabiam que Ele morrera, e assim, os guardas se deram por satisfeitos. Agora, é verdade que esta, se o testemunho da lei não foi adicionado, parece-nos uma declaração um tanto fria. Mas São João quis nos conceder uma prova de que o nosso Senhor Jesus era o verdadeiro Cordeiro pascal, já que pela providência e conselho admirável de Deus, Ele fora preservado de todas as mutilações. Por isso se diz no capítulo 12 de Êxodo que eles deveriam comer o cordeiro pascal, mas que os ossos não deveriam ser quebrados, e que eles deveriam permanecer todos íntegros (Êxodo 12:8, 9, 46.) Por que era importante que Jesus Cristo não tivesse os Seus ossos quebrados? Pois este era o costume comum, como vemos. Eles não queriam poupá-lO, e Ele estava no meio dos ladrões, para ser tido, por assim dizer, como o mais detestável, para ser reputado o principal entre os homens e os criminosos ímpios. Vemos, então, que Deus estava aqui em operação quando Ele reteve as mãos dos guardas, e até que Seu Filho expirasse, a fim de ser preservado, e para que tenhamos aqui um sinal evidente que era nEle que a verdade desta antiga figura tinha que ser cumprida. Assim, então, é preciso notar que o Filho de Deus foi preservado de toda quebra de Seus ossos, a fim de que possamos nos apegar a Ele como nosso cordeiro pascal, Quem nos preservar da ira de Deus, quando somos marcados com o Seu sangue. Pois devemos concluir que, se Ele é a nossa Páscoa devemos ser aspergidos pelo Seu sangue, pois sem isso, não nos aproveita nada que ele tenha sido derramado. Mas quando O aceitamos com este sacrifício, também encontramos ali a remissão dos nossos pecados, sabendo que até que Ele nos lave e nos purifique, somos cheios de contaminação. Então, nós somos aspergidos pelo Seu sangue, por meio dessa aspersão que é feita em nossas almas pelo Espírito Santo. Então somos purificados e Deus nos aceita por Seu povo, e estamos seguros; embora a Sua ira e Sua vingança esteja sobre todo o mundo, contudo Ele nos considera em piedade e nos têm como Seus filhos. Isso, então, é o que temos que lembrar a partir dessa passagem, quando se diz que os ossos de nosso Senhor Jesus não foram quebrados, a fim de que possamos conhecer que o que foi declarado por uma figura na Lei, foi ratificado em Sua pessoa.

No entanto, é dito também: “e logo saiu sangue e água. E aquele que o viu testificou, e o seu testemunho é verdadeiro” [João 19:34-35]. Quando vemos que a água e sangue assim saíram, isso deve lembrar-nos de nossa purificação e o acordo para limpar os nossos pecados, de fato, por Seu sacrifício, como São João fala em sua Carta Canônica (1 João 1:7). É verdade que o sangue será capaz de coagular após a morte, isso ocorre por natureza, e com o sangue, a água pode vir, isto é, a maior parte do fluido, uma vez que a cor e a parte mais grossa do sangue terá coagulado. Mas São João declarou que embora isso ocorra, Deus quis mostrar nisso que a morte de Seu Filho nos beneficia: a saber, em primeiro lugar, que pelo derramamento de sangue Ele é satisfeito conosco, como é dito que nenhuma remissão dos pecados é possível sem derramamento de sangue. Por isso é que desde o princípio do mundo sacrifícios foram oferecidos. Deus certamente declarou que Ele seria propício a todos os pobres pecadores que tivessem esperança nEle; mas Ele desejou que os sacrifícios fossem adicionados, como se Ele dissesse que a remissão dos pecados seria dada gratuitamente aos homens, porque eles de si mesmos não poderiam trazer nada de si próprios, mas que haveria o Mediador para solucionar este problema. Assim é como o sangue que fluiu do lado de nosso Senhor Jesus Cristo é o testemunho de que o sacrifício que Ele ofereceu é a recompensa por todas as nossas iniquidades, para que sejamos absolvidos diante de Deus. É verdade que devemos sempre nos sentir culpado daquele sangue, ou seja, que nos humilhemos e que sejamos conduzidos a um verdadeiro arrependimento, e que retiremos de nós toda presunção. Mas, isso possa ser, somos assegurados de que Deus nos considera inocentados e absolvidos pelo nome de Seu Filho, quando chegamos a reconhecer nossas falhas e ofensas. E por quê? Na medida em que o sacrifício de Sua morte é suficiente para apagar a memória de todas as nossas transgressões. Ora, não é a água que implica purificação. Para que, então, sejamos lavados de todas as nossas máculas, reconheçamos que o nosso Senhor Jesus desejou que a água fluísse de Seu lado para declarar que realmente Ele é a nossa pureza e que não devemos buscar qualquer outro remédio para lavar qualquer de nossas manchas. Isso, então, é como Ele veio com água e com sangue, e por este meio, significa que temos toda a perfeição da salvação nEle, e não devemos vagar aqui ou ali, para que sejamos ajudados de um lado e outro.

Na verdade, quando olhamos mais de perto, veremos que há uma notável semelhança entre o sangue e a água que fluiu do lado de nosso Senhor Jesus Cristo, e os Sacra-mentos da Igreja, pelo que nós temos a prova e selo do que foi feito em Sua morte. Por ter suportado o que era necessário para a nossa salvação, tendo plenamente satisfeito Deus Seu Pai, tendo nos santificado, tendo adquirido para nós a justiça plena, Ele dese-java que tudo isso fosse testemunhado nos dois sacramentos que Ele instituiu, os dois sacramentos. Pois, nenhuns outros instituídos em Sua Palavra, a saber, do que o Batismo e a Ceia do Senhor. Todo o restante é apenas imaginação frívola que veio da audácia e ousadia dos homens. Contemplem, então, o nosso Senhor Jesus Cristo, que mostra o poder da Sua morte e paixão, tanto no batismo como na Sua Santa Ceia. Pois no Batis-mo, temos o testemunho de que Ele lavou e nos purificou de toda a nossa contaminação, de forma que Deus nos recebeu em graça, como se viéssemos diante dEle puros e limpos. Agora reconheçamos que a água do Batismo não tem esse efeito. Como pode um elemento corruptível ser suficiente para a lavagem e purificação de nossas almas? Mas isso acontece na medida em que a água fluiu a partir do lado de nosso Senhor Jesus Cristo. Passemos, então, para Aquele que foi crucificado por nós, se quisermos que o Batismo seja útil para nós, se quisermos experimentar o fruto dele, que a nossa fé seja dirigida ao nosso Senhor Jesus Cristo, que deseja que busquemos todos os elementos de nossa salvação nEle, sem divagarmos e nos inclinarmos aqui e ali. E, em seguida, na Santa Ceia, temos testemunho de que Jesus Cristo é o nosso alimento. E sob o pão, Ele nos representa o Seu corpo, sob o vinho Seu sangue. Esta, então, é a perfeição completa da salvação, quando estamos assim purificados, e Deus nos aceita como se tivéssemos apenas integridade e justiça em nós e por isso somos absolvidos diante dEle de sermos por mais tempo condenáveis, uma vez que nosso Senhor Jesus Cristo fez plenamente a satisfação por nós. Assim, então, é como devemos nos beneficiar com os Sacramentos, aplicar-nos com toda a nossa fé em nosso Senhor Jesus Cristo, e não nos voltando para qualquer criatura em absoluto. Essa também é a forma como devemos ter a certeza do que foi feito na morte e a paixão de Nosso Senhor Jesus, e que a nossa memória seja diariamente atualizada ao nos mostrar Deus o quanto Ele valoriza o fato de que do lado de nosso Senhor Jesus Cristo procedeu sangue e água.

Portanto, isto é, em síntese, o que temos que lembrar sobre o relato de que o lado de nosso Senhor Jesus Cristo foi traspassado. Na verdade, também nesta palavra, quando se diz que a Escritura foi cumprida, que possamos reconhecer o que foi já dito mais lon-gamente, isto é, que todos foram governados pelo conselho secreto de Deus, e, apesar de que os guardas não soubessem o que estavam fazendo, mas Deus colocou em vigor e execução o que Ele havia pronunciado tanto por Moisés quanto por Seu Profeta Zacarias. Nós já vimos o testemunho de Êxodo. São João acrescenta também o do profeta Zacarias,

“[...] olharão para mim, a quem traspassaram” [Zacarias 12:10].

É verdade que Deus usa isso por força de expressão, pois Ele despreza os condenadores de Sua Palavra que foram endurecidos em cada rebelião e malícia. Ou talvez, Ele diz: “Parece que eles fazem a guerra contra os homens que pregam a Minha Palavra, e que podem impedi-los por estes meios. Agora é contra Mim que eles pelejam quando assim desprezam e rejeitam a Minha Palavra, isso é como se eles me ferissem por golpes de punhal; e assim eles verão Aquele a quem traspassaram”. Mas isso foi realmente cumprido na pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo; pois mesmo em Seu corpo humano Ele foi traspassado. Assim, então, é como Ele foi declarado o Deus vivo, que tinha falado em todos os tempos pelos Seus profetas, já que em Sua pessoa tudo o que havia sido prometido é visto.

Agora é dito, consequentemente, que José, tendo obtido a permissão de Pilatos para que o corpo de Jesus Cristo fosse retirado da cruz, e que fosse dado a ele para o sepultamen-to, tinha uma mortalha limpa e havia comprado também alguns unguentos aromáticos (de fato, por uma grande soma de dinheiro, como é dito por São João) de mirra e aloés, e que ele O sepultou em um sepulcro novo, que tinha feito para si mesmo, que fora escavado em rocha. Neste sepulcro, nosso Senhor Jesus Cristo já começou a mostrar o resultado de Sua morte, ou seja, Ele logo havia de vir na glória de Sua ressurreição, e Deus quis manifestá-lO completamente. Este, então, é ainda um testemunho infalível, que, entre tantas confusões do que lemos na narrativa que poderiam nos perturbar e agitar a nossa fé, percebemos que Deus sempre cuidou de Seu único Filho como a Cabeça da Igreja, e o Seu Bem-Amado, não somente a fim de que sejamos capazes de esperar nEle, mas para que esperemos confiantemente, pois somos membros do Seu corpo, de forma que o cuidado paternal de Deus também certamente será estendido para nós e para cada um daqueles que esperam nEle.

No entanto, pode-se perguntar por que o nosso Senhor Jesus Cristo desejava ser sepultado com tanto cuidado. Pois certamente parece que tal suntuosidade, como aloés, mirra, e tais coisas eram supérfluos. Na verdade, que bem é para uma pessoa morta que seja lavada ou ungida ou uma grande ostentação seja feita em homenagem a ela? Parece, então, que isso não estava em harmonia com o ensinamento do Evangelho, onde se diz que nós ressuscitaremos no último dia através do poder inestimável do nosso Deus. Assim, parece que toda essa pompa deveria ser rejeitada e esquecida. Consequentemente, pode-se julgar que José tinha uma devoção tola, o que tenderia a obscurecer a esperança da ressurreição. Mas temos que observar que os Judeus tinham tais cerimô-nias até que o nosso Senhor Jesus Cristo realizasse o que era necessário para a nossa salvação. Dentre os quais estavam o sepulcro, os sacrifícios, e lavagens, e as luzes do Templo, e todas as coisas semelhantes. Pois aquelas pessoas, como se fossem incultas, tinha que ser tratadas como crianças. É verdade que, por todo o mundo, o túmulo é considerado sagrado, e Deus quis que isso fosse gravado no coração dos homens, mesmo dos pagãos, a fim de que não houvesse nenhuma desculpa a todos os homens a se tornarem como brutos, não tendo nenhuma esperança de uma vida melhor. Os pagãos têm abu-sado disso. Mas, seja como for, eles serão reprovados por isso para o último dia, que eles tinham um grande cuidado em enterrar os mortos, de forma que não havia nenhuma nação tão bárbara de modo que eles negligenciassem o sepultar dos seus mortos. Eles não sabiam o motivo disso mais do que qualquer dos seus sacrifícios, mas foi uma condenação suficiente, quando permaneceram afastados da verdade de Deus e corromperam o testemunho que Ele lhes deu, a fim de atraí-los para a fé na vida celestial. Seja como for, o túmulo em si sempre foi, por assim dizer, um espelho da ressurreição. Porque os corpos são colocados na terra como que para jazerem por um tempo. Se não hou-vesse ressurreição de modo algum, seria muito bom jogá-los fora, a fim de que eles fossem comidos por cães ou por animais selvagens. Mas eles foram enterrados honrosamente, para mostrar que eles não pereceriam absolutamente, embora eles entrassem em decadência. Especialmente os Judeus tinham algumas cerimônias. É verdade que os Egípcios os superaram de várias maneiras, mas estas eram apenas fanfarras ao fazerem uma grande festa de luto, ao lamentarem-se, cortando o seu cabelo. Os egípcios, então, fizeram isso, mas o diabo os tinha enfeitiçado para que eles pervertessem toda a ordem. Quanto aos Judeus, que fizeram uso da sepultura, isso foi para confirmá-los na fé da ressurreição.

Então, seguindo o que eu comecei a dizer, nosso Senhor Jesus estava disposto a ser sepultado de acordo com o costume antigo, porque Ele ainda não tinha cumprido toda a nossa salvação com respeito à ressurreição. É verdade que o véu do Templo rasgou-se em Sua morte. E por meio disso, Deus mostrou que era chegado o fim e perfeição de todas as coisas, e que as figuras e as sombras da Lei já não permaneciam. No entanto, isso ainda não era evidente para o mundo, e não havia ninguém que fosse capaz de reconhecer que, em Jesus Cristo, todas as figuras da Lei haviam chegado ao fim. Por esta causa, então, Ele ainda desejava ser sepultado. Agora nós sabemos que na ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo a vida foi adquirida para nós, de modo que devemos ir direto a Ele, não procurando outros meios para nos conduzir além daqueles que Ele nos designou. Já dissemos que Ele nos deu dois sacramentos para nos servir como confirmação completa. Se a forma de sepultamento que os Judeus observavam fosse necessária para nós, não há dúvida em absoluto que Jesus Cristo desejaria somente que isso se mantivesse permanente em Sua Igreja. Mas já não é necessário que a nossa atenção esteja presa por estes elementos terrenos e pueris. É-nos suficiente, então, termos uma forma simples de sepultamento, deixando estes unguentos aromáticos, que não tipificam a ressurreição, que foi manifestada em nosso Senhor Jesus Cristo. Nós apenas nos separaríamos dEle, se quiséssemos ter tal instrução inferior. Pois vemos que São Paulo diz:

“Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus” (Colossenses 3:1),

e devemos estar unidos ao nosso Senhor Jesus (1 Coríntios 6:17). Cheguemos até Ele, não estejamos envolvidos em qualquer coisa que possa distrair-nos, impedir-nos, ou retardar-nos de estarmos unidos a Ele como a nossa Cabeça, pois é dito que o Seu corpo era o Templo de Deus. Isso, então, em resumo, é o que temos que lembrar sobre a sepultura.

Há ainda a considerar que Ele foi colocado em um sepulcro novo, isto não foi feito à parte da providência especial de Deus, pois Ele bem poderia ter sido colocado em um sepulcro que tinha servido por muito tempo. Também José de Arimatéia tinha seus antepassados, e, geralmente, em tais casas ricas e opulentas há um sepulcro comum. Mas Deus previu isso a partir de outro ponto de vista, e quis que o nosso Senhor Jesus fosse colocado em um sepulcro novo, no qual nenhuma pessoa ainda havia sido posta. Pois, absolutamente, também não foi sem motivo que Ele é chamado de as primícias da ressurreição e o primogênito dentre os mortos. No entanto, pode-se dizer que muitos morreram e foram feitos participantes da vida antes de nosso Senhor Jesus Cristo. Lázaro tinha sido ressuscitado. E também sabemos que Enoque e Elias foram levados sem morte natural, e foram reunidos em vida incorruptível. Mas tudo isso dependia da ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. Devemos, então, nos apegarmos a Ele como as primícias. Na Lei os frutos de um ano eram dedicados e consagrados a Deus, quando eles traziam apenas um punhado de trigo no altar, e um cacho de uvas. Quando, então, isso era oferecido a Deus, era uma consagração geral de todos os frutos do ano. E quando também os primogênitos eram dedicados a Deus, isso declarava a santidade da linhagem de Israel, e que Deus o aceitou por Sua herança, pois Ele reservou em Si mesmo estar satisfeito com aquele povo, como um homem se contenta em seu patrimônio. Além disso, quando chegarmos ao nosso Senhor Jesus Cristo, reconheçamos que em Sua pessoa todos nós somos dedicados e oferecidos, a fim de que Sua morte possa nos dar a vida hoje, e que não sejamos mais mortais, como anteriormente. Isso, então, é o que temos que observar com relação ao sepulcro novo, que o sepulcro de nosso Senhor Jesus Cristo deve conduzir-nos à Sua ressurreição.

No entanto, olhemos para nós mesmos. Pois, embora tudo que deve ajudar a nossa fé foi cumprido na pessoa do Filho de Deus, embora tenhamos testemunho daquilo que deve ser suficiente para nós, ainda em nossa rudeza e fraqueza permanecemos muito longe de chegar ao nosso Senhor Jesus Cristo. E por esta razão que cada um de nós reconheça seus defeitos, para que alcancemos os remédios, e não percamos a coragem. Nós vemos o que Nicodemos e José fizeram. Agora, temos de considerar duas coisas para o nosso exemplo. A primeira é que eles ainda não estão claramente iluminados sobre o fruto da paixão e morte de nosso Senhor Jesus Cristo. Há, então, alguma crueza e sua fé ainda é muito pequena. A outra, que, no entanto, em tal extremo eles lutaram contra todas as tentações, e eles vieram buscar o nosso Senhor Jesus morto para colocá-lO no sepulcro, protestando que eles estavam esperando a bendita ressurreição que havia sido prometida a eles, e eles aspiravam por isso. Já que é assim, então, quando nós experimentamos alguma fraqueza em nós, que ainda não sejamos impedidos de tomar coragem. É verda-de que somos fracos, e Deus poderia nos rejeitar, se Ele nos tratasse em rigor. Mas quando experimentamos essas falhas, deixe-nos saber que Ele aceitará o nosso desejo, embora seja imperfeito. Além disso, hoje, uma vez que o nosso Senhor Jesus ressuscitou em glória, embora ainda tenhamos que suportar aqui muitas privações e misérias, e embora pareça que diariamente Ele é crucificado em Seus membros, como verdadeiramente o ímpio, tanto quanto está em seu poder, O crucifica; não desfaleçamos por conta disso, sabendo que não seremos decepcionados com o que nos é prometido no ensino do Evangelho, e, embora nós passemos por muitas aflições, contudo olhemos sempre para a nossa Cabeça. José e Nicodemos não tinham esta vantagem que nós temos hoje, em absoluto, ou seja, o contemplar do poder do Espírito de Deus, que se manifestou na ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. Ainda assim, nesta consideração, a fé deles não foi completamente amortecida.

Agora, uma vez que o nosso Senhor Jesus nos chama para Si mesmo, e com grande voz Ele declara-nos que Ele subiu ao céu, a fim de que todos nós nos reunamos ali, vamos persistir constantemente em buscá-lO e segui-lO, e não consideramos como uma coisa má o morrer com Ele para que sejamos partícipes da Sua glória. Agora São Paulo nos exorta a conformar-nos com Jesus Cristo, não somente no que diz respeito à Sua morte, mas também em relação ao seu sepultamento (Romanos 6:4, Colossenses 2:12). Porque há alguns que se contentam em morrer com o nosso Senhor Jesus por um minuto de tempo, mas com o tempo eles se cansam. Por esta razão, eu disse que nós devemos morrer, não somente uma vez, mas devemos sofrer pacientemente que sejamos sepultados continuamente, até o fim. Eu chamo de morte, quando Deus quer que nós resistamos assim por Seu nome. Porque, embora não estejamos, a princípio, arrastados para o fogo ou condenados pelo mundo, mas, quando somos aflitos, já é uma espécie de morte que tenhamos que suportar com paciência. Mas, porque não somos tão logo humilhados, temos que ser espancados por um longo tempo, e nisto devemos perseverar e persistir em paciência. Porque, assim como o diabo nunca deixa de planejar o que é possível para distrair-nos e corromper-nos, assim, durante toda a nossa vida não devemos deixar de lutar contra ele. Embora esta condição seja difícil e tediosa, esperemos pelo tempo que virá quando Deus nos chama para Si mesmo, e nunca deixemos de fazer a confissão de nossa fé, e nisto sigamos a Nicodemos, mas não em sua timidez. Quando ele veio anteriormente ao Senhor Jesus Cristo, ele ocultou-se, e ele não se atreveu a mostrar-se um verdadeiro discípulo, mas quando ele veio para sepultar o nosso Senhor Jesus, ele declarou e protestou que ele era do número e da comunidade dos crentes. Já que é assim, sigamos hoje tal constância. E, apesar de nosso Senhor Jesus, com a doutrina de Seu Evangelho, ser odiado pelo mundo, na verdade eles O seguiram em ódio, não deixemos de aderir a Ele. Reconheçamos mesmo que Ele sempre será toda a nossa felicidade e satisfação, quando Deus aceitará nosso serviço, e nos deixar saber que, se devemos definhar neste mundo, o fato de que o nosso Senhor Jesus veio na glória de Sua ressurreição não é absolutamente a fim de estar separado de nós, mas que na hora certa Ele nos reunirá para Si mesmo.

Além disso, alguém não deve ser surpreendido que o nosso Senhor Jesus ressuscitou dos mortos ao terceiro dia. Pois é muito apropriado que Ele tivesse algum privilégio acima da ordem comum da Igreja. Nisto também se cumpriu o que é dito no Salmo 16:

“Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” (Salmos 16:10)

O corpo de nosso Senhor Jesus Cristo, então, teve que permanecer incorruptível até o terceiro dia. Mas Seu tempo foi definido e estabelecido pelo conselho de Deus, Seu Pai. De nossa parte, não temos tempo determinado, com exceção do último dia. Por isso, esperemos até que tenhamos definhado enquanto isso agradar a Deus. No final, sabe-remos que na hora certa Ele encontrará meios para nos restaurar, depois que tenhamos sido totalmente aniquilados. Como também São Paulo nos exorta a isso, quando ele diz que Jesus Cristo é as primícias (1 Coríntios 15:20, 23). Isso é para retardar o zelo ardente com que às vezes somos fortemente tomados. Pois queremos voar sem asas, e nós nos ofendemos se Deus nos deixa neste mundo, e por que ao primeiro sinal de luta Ele não nos retire ao céu. Queremos ser levados para lá em uma carruagem de fogo, como Elias. Em resumo, queremos triunfar antes de ter lutado. Agora, para resistirmos a tal cupidez e esses desejos tolos, São Paulo diz que Jesus Cristo é as primícias, e temos que estar convencidos de que em Sua morte, temos uma garantia segura da ressurreição. Assim é, uma vez que Ele está sentado à direita de Deus Pai, exercitando todo o domínio tanto acima como abaixo; contudo Sua majestade ainda não apareceu, e nossa vida deve estar escondido nEle, para que estejamos ali como pobres pessoas mortas, e que, enquanto vivermos neste mundo sejamos como pobres pessoas perdidas. No entanto, é adequado para nós sofrermos tudo isso até que o nosso Senhor Jesus venha. Pois, em seguida, a nossa vida será manifestada nEle, ou seja, no momento adequado.

 

Este, então, é o que temos que observar com relação ao sepulcro de nosso Senhor Jesus Cristo, até que cheguemos ao fim, que nos mostrará que Ele não somente fez propiciação por todos os nossos pecados, mas também tendo obtido a vitória, Ele adquiriu para nós a perfeição de toda a justiça, pela qual somos hoje aceitáveis a Deus, para que tenhamos acesso a Ele, e para invocá-lO em nome de Cristo. E nessa confiança que nos curvemos em humilde reverência diante de Sua Majestade Santa, oremos a Ele para que Ele possa nos receber em misericórdia; que embora sejamos pobres e miseráveis, nós não deixemos de ter o nosso refúgio em Sua misericórdia. Apesar de que dia a dia provoquemos a Sua ira contra nós, e embora justamente mereçamos a ser rejeitados por Ele, possamos esperar, no entanto, que Ele mostre o fruto e o poder da morte e paixão que Seu único Filho sofreu, por que nós fomos reconciliados, e que não duvidemos que Ele é sempre Pai para nós, principalmente quando Ele nos fará o favor de mostrar que somos verdadeiramente Seus filhos. Que possamos a declarar isso em verdade, de tal forma que não pedimos nada, exceto que sejamos completamente Seus, como também Ele nos comprou por tal preço, e com razão que sejamos totalmente reformados para o Seu serviço. Na medida em que nós somos tão fracos que não sabemos como realizar a centésima parte do nosso dever, que Ele ainda opere em nós pelo Seu Espírito Santo, porque sempre a fraqueza da nossa carne carrega consigo tantas pelejas e lutas que apenas podemos arrastar-nos para frente, em vez de andarmos corretamente.

Que possa agradar-Lhe retirar-nos de tudo isso, e que possamos ser unidos a Ele.

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♦ Fonte: Monergism.com
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida e Fiel)

♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira

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O Poder do Não-Conformismo – Charles Haddon Spurgeon

Extraído de A Espada e a Espátula, Julho de 1876.

A NÃO-CONFORMIDADE na Inglaterra foi, a princípio, um protesto contra os erros da igreja estabelecida por lei, na atualidade é um protesto contra a criação de qualquer igreja pelo estado, seja qual for. Na área liberal de seu protesto ele é levado a usar outras armas além das empregadas no início, e dar maior destaque do que uma vez já fez por questões outrora consideradas como de pequena importância: nosso temor é que as armas mais baixas coloquem as mais nobres para fora da moda, e os objetivos secundários ofusquem as intenções primárias. Pensamos ser correto lutar seriamente contra a aliança profana entre a igreja e o estado, e usar o poder político com o que somos confiados para promover os princípios da igualdade religiosa. Que o melhor sucesso atenda aos esforços daqueles que dedicam as suas vidas a esse objeto em sua própria maneira. Desejamos que Deus lhes dê êxito, com todo o nosso coração. Ainda assim, o poder real da não-conformidade nunca será aumentado nos palanques; ele poderá ser exibido lá de tempos em tempos para fins nobres, mas ele não é conquistado nem promovido ali. Ministros fazem bem em votarem, e expressarem as suas opiniões para a orientação de seu povo, mas na proporção em que a pregação se torna política, e o pastor afunda o espiritual no temporal, a força é perdida e não adquirida. Os Romanistas obtêm o poder por várias manobras e dispositivos que não usaríamos nem se pudés-semos; seu reino é deste mundo, e eles não são lentos para usar todos os métodos dos filhos deste mundo para a obtenção de seus objetivos; os Dissidentes nunca serão poderosos desta forma. Esperamos que nunca haverá uma charanga Não-conformista na Câmara dos Comuns, pronta a aliar-se com qualquer uma das partes, a fim de obter revigorantes privilégios para o seu clã, nem os homens em ofício serão secretamente influenciados e induzidos a apadrinhar os Dissidentes pela esperança de acalmar socie-dades secretas de não-conformistas rebeldes. A Igreja da Inglaterra também não tem escrúpulos para os seus próprios fins ao aliar-se com os partidários do comércio de bebi-das, e escrever sobre as suas bandeiras “Cerveja e Bíblia”, a este ponto é de se esperar que os Dissidentes nunca virão; nem isso jamais será suportada pelo interesse territorial, a nobreza, e o grande exército de pessoas cujas posições são mais ou menos misturadas com a conservação das coisas como elas são. Nós estamos em grande medida excluídos do uso de instrumentos que os outros possuem em abundância, e é bom que seja assim, pelo menos nós pensamos que isso seja bom, e muitos outros concordam conosco nesta opinião.

Nossos antepassados deixaram a Igreja da Inglaterra por causa dos graves erros de seu livro de orações, a sua forma de governo da igreja, e sua forma de procedimento eclesiástico. Sobre fundamentos espirituais, eles a deixaram, e sofreram a perda de todas as coisas. Eles não poderiam ser verdadeiros homens e assinar as doutrinas dela, nem pastores honestos, se eles sancionassem a frouxidão de disciplina dela, nem fiéis às suas convicções, se rendessem fidelidade aos seus prelados. Sua piedade, tanto quanto o seu credo os expulsou, e lhes fez um poder na terra, apesar da perseguição que eles sofreram. Pouquíssimo deles se opuseram a uma igreja-estatal, como tal; provavelmente a maioria deles concordou com uma ideal igreja da nação, embora a personificação real disso fosse desagradável para eles; nisto os temos ultrapassado, e nós devemos ser gratos por nossa maior luz. Mas a estreiteza de seu protesto pode muito ter tendido a aumentar a sua força. Eles fixaram os seus olhos sobre os males doutrinais e práticos de primeira grandeza, e voltaram a sua energia indivisível nessa direção; nós não obscurecemos o que nós adicionamos, mas anelamos as primeiras coisas originais que foram mais tenazmente sustentadas. A espiritualidade da mente era a arma do Puritano contra a formalidade religiosa, o ensino doutrinário era o seu escudo contra o Papado; por meio da disciplina vigilante na igreja, eles protestaram contra a maioria estabelecida; e por uma manutenção cuidadosa da devoção familiar, cada um sendo um sacerdote em sua própria casa, eles substituíram os serviços diários do campanário e as pretensões do sacerdote da paróquia. A vida e o poder do evangelho fizeram da casa de reunião, o recanto de homens piedosos, e tornaram impossível que o pároco pago pelo Estado com informantes, oficiais de justiça e magistrados do condado em suas costas acabassem com a Dissi-dência. Estes santos homens não tinham influência na cabine de votação, mas eles eram poderosos no propiciatório; eles não estavam em lugar nenhum no dia da eleição, mas eles iam por toda parte pregando a Palavra. Daí veio o seu reconhecido poder, e daí deve vir também o nosso.

Infelizmente, houve momentos de praga miserável, quando o Não-conformismo tornou-se respeitável, intelectual, frio e mundano. Sua grande antagonista e ele mesmo igualmente sentiram o poder mortal do Arianismo, e então é verdade que ele procurou justificar a sua posição, e apelou para os direitos do homem em vez de apelar para a verdade de Deus. Pequeno o suficiente foi o seu sucesso. A ascensão do Metodismo sob Whitefield e Wesley fizeram mais pelo Não-conformismo do que todos os agitadores que já viveram pela liberdade religiosa. O objetivo almejado era a glória de Deus e a conversão das almas, o fim obtido foi o despertar das igrejas e o avivamento da doutrina evangélica, mas como uma consequência mais remota, toda a posição de Dissidentes foi elevada, e tornou-se impossível retê-los. Como uma força vulcânica que não pode ser mantida sob controle, mas move todas as coisas de acordo com sua vontade, o poder vital da piedade causou uma agitação geral, e atirou ao chão as instituições de perseguição que pareciam estar construídas sobre uma rocha. A despertada igreja Deus começou novamente a buscar primeiro o reino de Deus e a Sua justiça, e as outras coisas foram adicionados a ela, aquelas pelas quais ela mal esperava. Ela não mais agarrou a arma de madeira do mero intelecto, mas tomou por Sua palavra de ordem “Espada do Senhor, e de Gideão” [Juízes 7:20], e as suas vitórias foram certas.

Neste momento julgamos necessário insistir que o poder real do Não-conformismo ainda deve ser encontrado na verdadeira doutrina, vida santa, zelo ardente e fé simples. Busquem, por todos os meios, aquela reforma que dará igualdade religiosa a todos os homens, mas não negligenciem o mais importante; “deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas” [Mateus 23:23]. Se nossos púlpitos se tornarem infectados com erros que obscureceram a expiação, se nossos membros tornarem-se mundanos e mornos, e se a vida de piedade e de poder da oração tornam-se fracos em nossas igrejas, a força essencial da Não-conformidade terá findado. As assinaturas para a Sociedade de Libera-ção podem não ser diminuídas por uma geração, e os fundos de nossas várias institui-ções podem até mostrar um aumento, mas o verme está na raiz, e em pouco tempo certamente aparecerá, se a espiritualidade estiver em decadência e a verdade for subestimada. Nada pode servir aos propósitos da nossa igreja semi-papal tanto quanto a Dissidência não-espiritual. “Fui levado a uma igreja paroquial”, disse-nos um Batista devoto, noutro dia “porque o único lugar dissidente perto de mim era uma capela independente, onde o ministro não pregava o evangelho como eu estava acostumado a ouvi-lo; não, nem evangelho de modo algum. Eu encontrei mais alimento para a minha alma ouvindo um clérigo evangélico do que na capela, e assim que eu fui para a igreja, extremamente contra a minha vontade”. Ouvimos os outros dizerem, “As pessoas da capela Batista estavam tão mortas, e de tão elevada doutrina, que eu não conseguia me unir a eles. Fui a vários quilômetros para ouvir um pároco auxiliar piedoso em uma pequena igreja, e embora em me desagrade bastante de uma forma de oração, eu a aturo por causa do evangelho que o bom homem pregou”. Essas coisas não deveriam ocorrer; mas tememos que elas estejam se tornando muito comuns.

Quando a antiga fé ortodoxa é pregada com o Espírito Santo enviado do céu, e os erros são apontados claramente e a verdade declarada, nosso povo se torna Dissidente na espinha dorsal; mas nenhum verdadeiro homem de Deus sacrificará as doutrinas vitais da Palavra de Deus, e o bem de sua alma e a esperança de ver os seus filhos convertidos, pelo que é uma questão importante, contudo, ainda assim, uma questão secundária. Tememos que em determinados bairros Não-conformistas há a necessidade de clamar, “Salve-me de meus amigos”. A “cultura moderna” está minando a estrutura que eles professam construir, os pretendentes à pregação intelectual estão nublando o evangelho que eles deveriam proclamar, e os senhores de gosto estético estão imitando o ritualismo contra o qual protestar deveria ter sido o seu primeiro empreendimento. Confessamos que não entendemos de modo algum por que certas pessoas estão conosco, eles estariam mais apropriadamente do lado oposto. Um Não-conformista, e ainda usa uma liturgia! Se um homem pode trazer a sua mente a um serviço litúrgico é um mero capricho que o faz buscar uma melhoria nesta nossa Igreja Nacional. Um Dissidente que não sabe por que ele discorda, e somente o faz por motivos políticos, ou a partir da força da educação, é uma fraqueza para aqueles com quem ele é contado; mas um Dissidente que realmente leva os outros para a própria igreja da qual ele professa a dissidência é muito pior, ele é um traidor no acampamento e não deveria ser suportado. Se tivéssemos um decreto contra as partes aqui pretendidas, nós não nos alongaríamos em encontrá-los.

Precisamos neste momento fazer o nosso protesto espiritual e doutrinal mais claro do que tem sido. Uma sociedade poderosa representa nossas demandas políticas, mas não temos nenhuma organização que exista para promover os nossos projetos muito mais elevados. Por que isso? A Dissidência está representada politicamente, mas não doutrinariamente. Como este vem a ser o caso? Certamente o segundo é de longe o mais impor-tante. Se a atual igreja Anglicana fosse dissolvida amanhã, deveríamos conscientemente nos apartar dela mais do que nunca, pois as nossas diferenças são solenes, graves e vitais; e não somos confinados em absoluto ao seu ser uma igreja estatal. É uma pena que este fato seja tão pouco lembrado. Como é que os Não-conformistas são tão pouco instruídos nos grandes princípios religiosos que justificam sua posição distintiva? Como é que eles preocupam-se tão pouco em instruir os outros nos mesmos? É mais agradável falar de política do que pregar a Cristo? Há mais encantos em guerrear contra a carne e o sangue do que em lutar com as hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais? Nosso chamado é para sermos Dissidentes fora de moda, para sermos Protestantes doutrinais, para sermos piedosos Não-conformistas em relação ao mundo, para a mais profunda piedade e para a doutrina mais sã; devemos obtê-los ou a causa sucumbirá, e merecerá a ruína. A vida de Deus na alma é uma força que nada pode confundir, e isso tem o poder, como o da espada flamejante do querubim às portas do Éden, para girar em todos os sentidos: “Não há outra semelhante; dá-ma” [1 Samuel 21:9].

Nós podemos ser mal interpretados neste artigo, e alguns podem supor que somos inconstantes em nosso fundamento, mas eles errarão muito se eles pensarem assim. Antes, nós solicitamos que cada Cristão exercite o direito de voto e use os seus privilégios políticos como diante dos olhos de Deus, e ainda o fazemos com a mesma energia; mas isso não é de forma alguma tão vital, ou tão essencial para os melhores interesses do Não-conformismo como a solidez na fé, e a profundidade da piedade. Nós valorizamos a agência que protesta contra a injustiça de patrocinar uma seita, mas acreditamos que isso não é tudo; deveria haver uma ponderosa organização para objetivos espirituais, cujo empreendimento deve ser expor os pecados originais do corpo Anglicano, e evidenciar os crescentes erros dentro de seu âmbito. Se alguma vez foi necessário fazer este trabalho, é agora. Isso colocaria o machado à raiz da árvore, e realizaria muito mais no sentido de desestabilização do que qualquer outra agência que se possa imaginar, com a única exceção da própria Igreja, que está fazendo todo o possível para a sua própria derrota. De nossa parte, gostaríamos de ver uma vigorosa e evangélica igreja Episcopal nesta terra, livre do Estado, e purgada do Papado; não temos inimizade em nosso coração por qualquer ramo da verdadeira igreja de Cristo, antes desejamos vê-los florescer e encher a terra com fruto; mas a presente miscelânea deve ser encerrada ou reparada. Isso não pode ser descrito por qualquer termo, isso é bom e mau, é luz e trevas, é Papado e Protestantismo, e ao mesmo tempo o mal neutraliza o bem, o bem auxilia o mal a fazer o seu trabalho pernicioso. Oh! Senhor, por quanto tempo! Almas estão sendo arruinadas, vendidas pelo ensino da alta igreja geral, e a igreja baixa empresta a ajuda de sua asso-ciação ao trabalho mortal, isso comove a nossa própria alma. Se o partidarismo não termi-nar não teremos feito nada; mas o evangelho de Deus, o bem das almas, a honra de Jesus, todos demandam de nós que esta corporação maligna não siga sem repreensão, mas deve ser resistida com a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus. Não há nin-guém que pense conosco, e esteja capaz e disposto a fazer de nossa sugestão um fato?

Nossa Luta

“… irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo. Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais”.

A vida Cristã é repleta de paradoxos. Um deste é que não há povo mais pacífico, trajado de um espírito manso e quieto, que é precioso diante do Seu Deus, como o Povo Cristão; mas também, não há um Povo nesta terra que seja convocado a lutar uma guerra mais feroz, vigorosa e constante, quanto os amados Cristãos. Todavia, somos lembrados que “não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais”. E isso, confiando apenas na força e Vitória já conquis-tada por Seu Senhor e Capitão, portanto irmãos, “tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes”.

Se há um “dia mau” são estes em que vivemos. Uma luta pela Verdade está sendo trava-da, e precisamos estar sempre combatendo toda espécie de males que tentam atacar a Prescrição da Palavra de Deus para nossa fé e prática, e assim, buscam desonrar ao nosso Senhor e Rei Jesus.

Os inimigos, a nossa própria carne, o diabo, e o mundo.

Nossa vitória, garantida por Jeová.

Nosso uniforme, a veste puríssima de justiça nos dada pelas mãos de Emanuel.

Nossa arma, a Espada do Espírito,

Nosso Alvo e Prêmio, Cristo Jesus nosso Senhor.

O Caminho excelente a ser trilhado, o amor.

Sim, amor e verdade são como as pétalas de um botão de flor, tire apenas uma, e o todo é feito feio e arruinado. Se não for por amor à Verdade, e por amor a Jesus, irmãos, podemos ser “Não-conformistas” em relação ao Erro e ao mundo, mas os nossos corações não estarão conformados ao que o nosso Deus requer de nós, “que todas as nossas coisas sejam feitas com amor”, e que O amemos “de todo coração, e de toda alma, e de TODAS AS FORÇAS”. Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes”.

Esta breve exortação do Sr. Spurgeon fez-me pensar em muitas coisas, e especialmente lembrar de um texto querido, que em certo momento assim diz:

O verdadeiro conhecimento de Deus deve gerar não apenas instrução, sabedoria e ciência do Altíssimo, mas principalmente amor. O homem ama a Cristo, e por meio deste amor que produz obediência e conformação com a Sua santa vontade, glorifica a Deus, que é o fim último de toda a criação (1 Pedro 4:11). [...] Conheça a Cristo e ame-O. Este amor te controlará e fará proezas. Proezas de amor”.

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“A vida de Deus na alma é uma força que nada pode confundir, e isso tem o poder, como o da espada flamejante do querubim às portas do Éden, para girar em todos os sentidos: “Não há outra semelhante; dá-ma” [1 Samuel 21:9]”.

Que o Povo Cristão floresça, e encha a terra com frutos excelentes para o Seu Deus. Faça assim, Senhor, derrame de Seu orvalhar celestial, enche-nos do amor a Ti e ao Evangelho, vivifica-nos para que Te busquemos, que lutemos, em Teu Nome façamos proezas de amor, e vençamos, em, por e para Cristo Jesus.

Amém!

 

EC, 02 de Agosto de 2014.

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♦ Fonte: Spurgeon.org | Título Original: The Power of Nonconformity
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


O Mistério da Piedade – João Calvino

“E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória” (1 Timóteo 3:16)

São Paulo exortou Timóteo a comportar-se em seu ofício; mostrando-lhe que honra Deus lhe tinha concedido, em que Ele o estabeleceu para governar a Sua casa. Mostrou-lhe também que o próprio ofício era honroso; porque a Igreja sustém a verdade de Deus neste mundo, e que não há nada mais precioso, ou que mais deve ser buscado do que conhecer a Deus, e adora-lO e servi-lO, e ser irrepreensível em Sua verdade, para que possamos, assim, alcançar a salvação. Tudo isso é mantido seguro para nós: e assim, tão grande tesouro é entregue ao nosso cuidado, por meio da igreja; de acordo com as pa-lavras de São Paulo. Esta verdade é mui digna de ser mais altamente estimada do que é.

Que coisa misteriosa é essa, e quão maravilhosa é a questão: que Deus manifestou-Se em carne, e tornou-Se homem! Será que isso até agora não ultrapassa o nosso entendi-mento, de forma que quando somos informados disso, ficamos assombrados? No entanto, não obstante, temos uma prova plena e suficiente, que Jesus Cristo sendo feito homem, e sujeito à morte, é também o Deus verdadeiro, que fez o mundo e vive para sempre. Disso, o Seu poder celestial nos dá testemunho. Mais uma vez, temos outras provas: a saber, Ele foi pregado aos gentios; que antes estavam banidos do reino de Deus, e esta fé teve o seu curso em todo o mundo, a qual naquele tempo estava limitada entre os Judeus; e da mesma forma Cristo Jesus foi elevado às alturas, e entrou na glória, e está assentado à destra de Deus Pai.

Se os homens desprezam estas coisas, sua ingratidão será condenada, porque os próprios anjos por isso chegaram ao pleno conhecimento daquilo que antes eles não conheciam. Porque aprouve a Deus esconder deles os meios de nossa redenção, a fim de que a Sua bondade seja maravilhosíssima a todas as criaturas: assim, percebemos o sentido do que escreve São Paulo. Ele chama a igreja de Deus de o baluarte da Sua verdade; ele também demonstra que esta verdade é como um tesouro, devendo ser altamente estimada por nós. E por que isso? Observemos o conteúdo do Evangelho; Deus humilhou-Se, de tal maneira, que Ele tomou sobre Si nossa carne; para que nós nos tornássemos Seus irmãos. Quem é o Senhor da glória, para que Ele tanto humilhasse a Si mesmo como a juntar-se a nós, e tomar sobre Si a forma de servo, até mesmo a sofrer a maldição que era devida a nós? São Paulo compreendeu todas as coisas que Jesus Cristo recebeu em Sua pessoa; a saber, que Ele esteve sujeito a todas as nossas fra-quezas, mas, sem pecado.

É verdade que não há nenhum defeito nEle, antes toda pureza e perfeição. Ainda assim é: Ele tornou-se fraco como nós somos, para que Ele pudesse ter compaixão e ajudar a nossa fraqueza; como está estabelecido na epístola aos Hebreus (4:15). Aquele que não tinha pecado sofreu a punição a nós devida; e foi, por assim dizer, maldito de Deus o Pai, quando Ele Se ofereceu em sacrifício: de modo que através de Seus meios nós fôssemos bem-aventurados; e que Sua graça, antes oculta a nós, fosse derramado sobre nós. Quando consideramos essas coisas, não temos ocasião para estar maravilhados? Nós consideramos que Ser Deus é? Nós podemos, em nenhuma sabedoria alcançar a Sua majestade, que contém todas as coisas em Si; a qual mesmo os anjos adoram.

O que há em nós? Se lançarmos os nossos olhos sobre Deus, e, em seguida, adentramos em uma comparação, ai de mim! Chegaremos perto dessa altura que sobrepuja os céus? Não, antes podemos ter qualquer familiaridade com isso? Pois não há nada senão podridão em nós; nada, a não ser o pecado e a morte. Então deixem vir o Deus vivo, a fonte da vida, de glória eterna, e de poder infinito; e não apenas aproximar-se de nós, de nossas misérias, nossa desventura, nossa fragilidade, e este abismo sem fundo de toda iniquidade, que há nos homens; deixem que não somente a majestade de Deus se aproxime disso, mas que Ele Se una a isso, e faça-Se um com isso, na Pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo! O que é Jesus Cristo? Deus e homem! Mas como Deus e homem? Que diferença há entre Deus e o homem? Sabemos que não há nada em nossa natureza, senão miséria e desventura; nada senão um abismo sem fundo de odor fétido e infecção; e ainda assim, na pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo, nós vemos a glória de Deus que é adorada pelos anjos, e também a fraqueza do homem; e que Ele é Deus e homem. Não é isto algo secreto e oculto, digno de ser estabelecido em palavras, e da mesma forma suficiente para arrebatar os nossos corações! Os próprios anjos nunca poderiam ter pensado sobre isso, como aqui é observado por São Paulo. Considerando isso, aprouve ao Espírito Santo expressar a bondade de Deus, e mostrar-nos que devemos estimar isso como tão preciosa joia, cuidemos de nossa parte para que não sejamos ingratos, e tenhamos as nossas mentes caladas, de tal maneira que não provaremos disso, se não pudermos completa e perfeitamente compreendê-lo.

É o suficiente para nós para ter algum pouco conhecimento sobre este assunto; cada um deve contentar-se com a luz que lhe é dada, considerando a fraqueza de nosso julgamen-to; e anelando pelo dia em que o que agora vemos em parte, será total e perfeitamente revelado a nós. Ainda assim, não obstante, nós devemos empregar nossas mentes e os estudos neste caminho. Por que São Paulo chama isso de um mistério de fé, que Jesus Cristo, que é Deus eterno, manifestou-Se em carne? É como se ele dissesse, quando somos unidos a Deus, e feitos um só corpo com o Senhor Jesus Cristo, devemos contemplar o fim para o qual fomos criados; a saber, que possamos conhecer que Deus está unido e feito um conosco na Pessoa de Seu Filho.

 

Assim, devemos concluir que nenhum homem pode ser um Cristão, a menos que ele conheça este segredo que é descrito por São Paulo. Devemos agora examinar, e questionar homens e mulheres se eles conhecem o que significam essas palavras, que Deus foi manifestado em carne, malmente um a cada dez poderia produzir tão boa resposta quanto a que seria esperada de uma criança. E, no entanto, não precisamos nos maravilhar com isso; pois vemos que negligência e desprezo há na maior parte da humanidade. Nós mostramos e ensinamos diariamente em nossos sermões, que Deus tomou sobre Si a nossa natureza; mas como os homens de fato nos ouvem? Quem há aqui que se aflija sobremaneira para ler a Escritura? Há pouquíssimos que observam essas coisas; cada homem está ocupado com seu próprio negócio.

Se há um dia da semana reservado para a instrução religiosa, quando eles passaram seis dias em seu próprio negócio, eles estão aptos para passar o dia que é separado para o culto, em jogo e passatempo; alguns vagueiam ao redor dos campos, outros vão para as tabernas para beber em grandes tragos; e há, sem dúvida, neste momento, muitos como os últimos mencionados aqui enquanto eles estão reunidos em nome de Deus. Portanto, quando vemos tantos evitando e fugindo dessa doutrina, podemos nos maravilhar que haja tal brutalidade, de modo que não conheçamos os rudimentos do Cristianismo? Esta-mos aptos a considerar como uma língua estranha, quando os homens nos dizem que Deus Se manifestou em carne.

Todavia esta sentença não pode ser retirada do registro de Deus. Nós não temos nenhuma fé, se não sabemos que o nosso Senhor Jesus Cristo está unido a nós, para que nos tornemos Seus membros. Parece que Deus nos compele a pensar sobre este mistério, vendo que somos tão sonolentos e apáticos. Vemos como o diabo incitou aque-les antigos rixosos para que negassem a humanidade de Jesus Cristo e Sua Divindade, e, por vezes, misturaram a ambos; para que não percebêssemos as duas naturezas distintas nEle, ou então para nos levar a crer que Ele não é o homem que cumpriu as promessas da lei; e, consequentemente, descendeu da linhagem de Abraão e Davi.

É realmente o caso, que tais erros e heresias como havia na igreja de Cristo, no início, estão estabelecidas nestes dias? Observemos bem as palavras que são utilizadas aqui por São Paulo: Deus se manifestou em carne. Quando ele chama Jesus Cristo de Deus, ele admite esta natureza que Ele tinha antes que o mundo existisse. É verdade, há somente um Deus, mas nesta única essência devemos compreender o Pai, e uma sabe-doria que não pode ser separada dEle, e uma virtude eterna, que sempre esteve, e sempre estará dEle.

Assim, Jesus Cristo era verdadeiramente Deus! Como Ele era a sabedoria de Deus antes que o mundo fosse feito, e antes da eternidade. Diz-se que Ele se manifestou em carne. Pela palavra carne, São Paulo nos dá a entender que Ele era verdadeiro homem, e tomou sobre Si a nossa natureza. Pela palavra manifesto, Ele mostra que nEle havia duas naturezas. Mas não devemos pensar que há um Jesus Cristo que seja Deus, e um outro Jesus Cristo, que seja homem! Mas devemos somente compreendê-lO como Deus e homem. Distingamos, então, as duas naturezas que há nEle, para que saibamos que o Filho de Deus é nosso Irmão. Deus suporta as antigas heresias, que em tempos passados conturbaram a igreja, para produzir mais uma vez um movimento, em nossos dias, para estimular-nos à diligência. O diabo prossegue prestes a destruir este artigo de nossa crença, sabendo que esse é o principal suporte e esteio de nossa salvação.

Se não tivermos esse conhecimento que São Paulo fala, o que será de nós? Estamos todos no abismo da morte. Não há nada além de morte e condenação em nós, até que saibamos que Deus desceu para buscar-nos e salvar-nos. Até que sejamos assim ensinados, somos fracos e miseráveis. Portanto, o diabo andou fazendo tudo que pôde para abolir este conhecimento, para estraga-lo e misturá-lo com mentiras, para que ele pudesse arruinar isso completamente. Quando nós vemos tal majestade em Deus, como ousamos presumir nos aproximar dEle, vendo que somos cheios de miséria! Devemos recorrer a esta conexão da majestade de Deus, e do estado de natureza do homem, juntamente.

Façamos o que pudermos, nós nunca teremos qualquer esperança, ou seremos capazes de lançar mão da generosidade e bondade de Deus, de forma a retornar a Ele, e invocá-lO, até que conheçamos a majestade de Deus que está em Jesus Cristo; e também a fraqueza da natureza humana, que ele recebeu de nós. Estamos totalmente desprovidos do reino dos céus, o portão está fechado contra nós, de modo que não podemos entrar nele. O diabo tem aplicado toda a sua astúcia para perverter esta doutrina; vendo que a nossa salvação está fundamentada nela. Devemos, portanto, estar tanto mais confirmados e fortalecidos na mesma; para que nunca sejamos abalados, mas permaneçamos firmes na fé, que está contida no evangelho.

Antes de tudo, temos esta observação, que nunca conheceremos que Jesus Cristo é nosso Salvador, até que saibamos que Ele era Deus desde a eternidade. Aquilo que foi escrito ao Seu respeito por meio de Jeremias, o profeta, necessita ser cumprido: “Mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me entender e me conhecer, que eu sou o Senhor” (Jeremias 9:24). São Paulo demonstra que isto deve ser aplicado à Pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo, e por isso ele protesta que não se propôs a saber qualquer doutrina ou conhecimento, apenas para conhecer a Jesus Cristo.

Novamente, como é possível que tenhamos a nossa vida nEle, a menos que Ele seja o nosso Deus, e nós sejamos mantidos e preservados pela Sua virtude? Como podemos colocar a nossa confiança nEle? Porque está escrito: “Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor!” (Jeremias 17:5). Mais uma vez, como podemos ser preservados da morte, exceto pelo poder infinito de Deus? Mesmo que a Escritura não desse nenhum testemunho da Divindade de Jesus Cristo, é impossível que nós O reconheçamos como nosso Salvador, a não ser que admitamos que Ele possui toda a majestade de Deus; a não ser que nós reconheçamos que Ele é o verdadeiro Deus; porque Ele é a sabedoria do Pai através do qual o mundo foi feito, preservado e mantido em sua existência. Portanto, estejamos completamente resolvidos neste momento, sempre que falamos de Jesus Cristo, para que elevemos nossos pensamentos ao alto, e adoraremos essa majestade que Ele tinha desde a eternidade, e esta essência infinita que Ele desfrutou antes que Ele Se vestisse em humanidade.

Cristo foi manifestado em carne, isto é, tornou-se homem; semelhante a nós em tudo, mas sem pecado (Hebreus 4:15). Onde ele diz, mas sem pecado, ele quer dizer que o nosso Senhor Jesus era sem culpa ou defeito. No entanto, não obstante, Ele não se recusou a carregar os nossos pecados: Ele tomou esse fardo sobre Si, para que nós, por Sua graça, fôssemos aliviados. Não podemos conhecer a Jesus Cristo como sendo um mediador entre Deus e o homem, a não ser que O contemplemos como homem. Quando São Paulo anelou encorajar-nos a clamar por Deus em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, ele expressamente Lhe chama de homem. São Paulo diz: “Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1 Timóteo 2:5). Sob esta consideração, podemos, em Seu nome, e por Suas mediações vir familiarmente a Deus, sabendo que somos Seus irmãos, e Ele é o Filho de Deus. Vendo que não há nada, senão pecado na humanidade, precisamos também encontrar justiça e vida em nossa carne. Portanto, se Cristo não Se tornou verdadeiramente o nosso irmão, se Ele não foi feito homem semelhante a nós, em que condições estamos? Consideremos agora a Sua vida e paixão.

Diz-se (falando de Cristo), “Mas agora na consumação dos séculos uma vez se mani-festou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Hebreus 9:26). E por que isso? São Paulo nos mostra a razão em Romanos 5:18: “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida”. Se não conhecemos isso, que o pecado que foi cometido em nossa natureza, foi reparado em própria idêntica natureza, em que situação nós estamos? Sobre que fundamento nós mesmos podemos permanecer? Portanto, a morte de nosso Senhor Jesus Cristo não poderia beneficiar-nos minimamente, a menos que Ele fosse feito homem, semelhante a nós.

Novamente, se Jesus Cristo fosse apenas Deus, poderíamos ter alguma certeza ou promessa em Sua ressurreição, de que devemos um dia ressuscitar novamente? É verdade que o Filho de Deus ressuscitou; quando ouvimos dizer, que o Filho de Deus tomou sobre Si um corpo semelhante ao nosso, veio da geração de Davi, que Ele ressuscitou (vendo que a nossa natureza é por si só corruptível), e é elevado nas alturas à glória, na Pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo “somos levados a assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus” (Efésios 2:6). Por isso, aqueles que procuraram reduzir a nada a natureza do homem, na Pessoa do Filho de Deus, devem ser os mais abominados. Pois, o diabo levantou-se nos tempos antigos alguns indivíduos que declararam que Jesus Cristo manifestou-Se em forma de homem, mas não tinha a verdadeira natureza de homem; esforçando-se, assim, para abolir a misericórdia de Deus para conosco, e destruir completamente a nossa fé.

Outros imaginaram que Ele trouxe um corpo com Ele do céu; como se Ele não participasse de nossa natureza. Declarou-se que Jesus Cristo tinha um corpo desde a eternidade; composto por quatro elementos; de forma que a Deidade estava, naquele tempo, em uma forma visível, e que sempre que os anjos apareceram, era o Seu corpo. Que insensatez é fazer tal alquimia, para formar um corpo para o Filho de Deus! O que devemos fazer com aquela passagem que diz: “Porque, na verdade, ele não tomou os anjos, mas tomou a descendência de Abraão. Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo” (Hebreus 2: 16-17).

Diz-se. Ele tomou sobre Si a nossa carne, e tornou-se nosso irmão. Sim, e que Ele foi feito semelhante a nós, para que pudesse compadecer-Se de nós, e ajudar as nossas fraquezas. Ele foi feito a descendência de Davi, para que pudesse ser conhecido como o Redentor que foi prometido, a quem os pais esperaram em todas as épocas. Lembremo-nos do que está escrito: o Filho de Deus Se manifestou em carne; ou seja, Ele tornou-Se de fato homem, e nos fez um com Ele; de modo que agora podemos chamar Deus de nosso Pai. E por que isso? Porque somos do corpo de Seu Filho Único. Mas, como so-mos de Seu corpo? Porque Ele Se agradou em juntar-Se a nós, para que fôssemos participantes de Sua substância.

Nisto vemos que não é uma vã especulação, quando os homens dizem-nos que Jesus Cristo revestiu-se de nossa carne, para mais perto devemos chegar, se queremos ter um verdadeiro conhecimento da fé. É impossível que confiemos nEle corretamente, a menos que compreendamos sua humanidade; devemos também conhecer a Sua majestade, antes que possamos confiar nEle para a salvação. Devemos saber, ainda, que Jesus Cristo é Deus e homem, e semelhantemente que Ele é apenas uma Pessoa.

Aqui, novamente, o diabo tenta atiçar as brasas da contenda, ao perverter ou dissimular a doutrina que São Paulo nos ensina. Pois tem havido hereges que têm se esforçado para sustentar que a majestade e Divindade de Jesus Cristo, a Sua essência celeste, foram imediatamente transformadas em carne e humanidade. Assim alguns dizem, com muitas outras blasfêmias malditas, que Jesus Cristo tornou-se homem. O que se seguirá neste ponto? Deus deve renunciar a Sua natureza, e Sua essência espiritual deve ser transfor-mada em carne. Eles vão mais longe e dizem que Jesus Cristo já não é mais homem, mas Sua carne tornou-se Deus.

Estes são maravilhosos alquimistas, para produzir tantas novas naturezas de Jesus Cristo. Assim, o diabo levantou esses sonhadores em tempos passados, para perturbar a fé da Igreja; os quais são agora renovados em nosso tempo. Por isso, observemos bem o que São Paulo nos ensina nesta passagem; pois ele nos oferece uma boa armadura, para que possamos nos defender contra tais erros. Se quisermos contemplar a Jesus Cristo em Seu verdadeiro caráter, vejamos nEle essa glória celestial, que Ele tinha desde a eternidade, e em seguida, venhamos à Sua humanidade, que foi descrita até aqui; para que possamos distinguir as Suas duas naturezas. Isso é necessário para nutrir a nossa fé.

Se buscamos obter vida em Jesus Cristo, devemos entender que Ele tem toda a Divinda-de nEle; porque está escrito: “Porque em ti está o manancial da vida; na tua luz veremos a luz” (Salmos 36:9). Se quisermos estar guardados contra o diabo, e resistir às tentações de nossos inimigos, devemos saber que Jesus Cristo é Deus. Para ser breve, se quisermos colocar toda a nossa confiança nEle, devemos saber que Ele possui todo o poder, o qual Ele não poderia ter, a menos que Ele fosse Deus. Quem é Aquele que tem todo o poder? É Aquele que se tornou o frágil e fraco; Filho da virgem Maria; Aquele que esteve sujeito à morte; Aquele que levou os nossos pecados: Ele é este que é a fonte da vida.

Nós temos dois olhos na nossa cabeça, cada um desempenhando a sua função, mas quando olhamos firmemente sobre algo, a nossa visão, que é separada em si mesma, une-se, e torna-se uma; e é totalmente ocupada em contemplar o que está diante de nós, desta forma, existem duas diferentes naturezas em Jesus Cristo. Há algo no mundo mais diferente do que o corpo e alma do homem? Sua alma é um espírito invisível que não pode ser visto ou tocado; que não tem nenhuma dessas paixões carnais. O corpo é uma massa informe corruptível, sujeito à podridão; uma coisa visível que pode ser tocada: o corpo tem as suas propriedades, as quais são totalmente diferentes daquelas da alma. E, assim, questionamos: o que é o homem? Uma criatura, formada de corpo e alma. Se Deus usou de tal feitura em nós, quando Ele nos fez de duas naturezas diversas, por que deveríamos achar estranho, que Ele empreendeu um milagre muito maior em Jesus Cristo? São Paulo usa essas palavras: “se manifestou”, para que possamos distinguir Sua Divindade de Sua humanidade; para que possamos recebê-lO como Deus manifestado em carne; isto é, Aquele que é verdadeiramente Deus, e ainda assim fez-Se um conosco: portanto, somos os filhos de Deus; sendo Ele nossa justificação, somos libertos do fardo de nossos pecados. Considerando que Ele nos purificou de toda a nossa miséria, nós temos riquezas perfeitas nEle; em suma, considerando que Ele submeteu-Se à morte, estamos agora assegurados da vida.

São Paulo acrescenta: “Foi justificado no espírito”. A palavra “justificado” é muitas vezes utilizada na Escritura, como aprovado. Quando se diz, “Ele foi justificado”, não é que Ele tornou-se justo, não é que Ele foi absolvido pelos homens, como se fossem seus juízes, e que Ele se obrigou a dar-lhes uma explicação; não, não; não existe tal coisa; mas isto é quando a glória é dada a Ele, a qual Ele merece, e nós O confessamos ser o que realmente Ele é. O que é dito é isso: o evangelho é justificado quando os homens o recebem, em obediência, e por meio da fé, submetendo-se à doutrina que Deus ensina; assim neste lugar, diz-se que Jesus Cristo foi justificado no espírito.

Não devemos nos contentar, olhando para a presença corporal de Jesus Cristo, que era visível, mas temos de olhar mais alto. São João diz que Deus se fez carne; ou a Palavra de Deus, que é o mesmo. A Palavra de Deus, que era Deus antes da criação do mundo, se fez carne; isto é, se uniu à nossa natureza; de modo que o Filho da virgem Maria é Deus; sim, o Deus eterno! Seu infinito poder foi ali manifestado; que é um seguro testemunho de que Ele é verdadeiro Deus! São Paulo diz: Jesus Cristo, nosso Senhor nasceu da descendência de Davi; Ele também acrescenta: Ele foi declarado ser o Filho de Deus (Romanos 1).

Não é o suficiente para nós que O contemplemos com nossos olhos naturais; pois, neste caso, nós não subiremos mais alto do que o homem, mas quando vemos, que por meio de milagres e prodígios, Ele mostra a Si mesmo como sendo o Filho de Deus, isto é um selo e prova que, humilhando a Si mesmo, Ele não excluiu a Sua majestade celestial! Portanto, podemos ir a Ele como nosso irmão, e ao mesmo tempo adorá-lO como o Deus eterno; por meio de quem fomos feitos, e por quem somos preservados.

Se não fosse por isso, não poderíamos ter nenhuma igreja; se não fosse isso, não poderí-amos ter nenhuma religião; se não fosse isso, não teríamos nenhuma salvação. Seria melhor para nós que fôssemos animais irracionais, sem razão e compreensão, do que estivéssemos destituídos desse conhecimento: a saber, que Jesus veio e uniu a Sua Divindade à nossa natureza, que era tão desventurada e miserável. São Paulo declara que isso é um mistério; para que não possamos ir a ele com orgulho e arrogância, como muitos fazem, os quais desejam ser julgados sábios; isto tem produzido o aparecimento de muitas heresias. E, de fato, o orgulho sempre foi a mãe das heresias.

Quando ouvimos esta palavra: “mistério”, lembremo-nos de duas coisas: em primeiro lugar, que nós aprendamos a nos mantermos sob os nossos sentidos, e não nos gloriemos possuirmos conhecimento e capacidade suficientes para compreender tão vasto assunto. Em segundo lugar, aprendamos a ir além de nós mesmos, e a reverenciar esta majestade que excede todo o nosso entendimento. Não devemos ser lentos nem sonolentos; mas considerar essa doutrina, e nos esforçarmos para que nos tornemos instruídos nela. Quando adquirirmos algum pouco conhecimento sobre ela, devemos nos esforçar para beneficiar-nos com isso, todos os dias de nossa vida.

Quando nós obtivermos esse conhecimento, de forma que o Filho de Deus esteja unido a nós, deveríamos lançar nossos olhos naquilo que é tão altamente estabelecido nEle; isto é, a virtude e o poder do Espírito Santo. Então, Jesus Cristo não apenas evidenciou-se como homem, mas mostrou-se de fato que Ele era o Deus Todo-Poderoso, visto que toda a plenitude da Divindade habitou nEle. Se uma vez conhecermos isso, bem podemos perceber que não é sem razão que São Paulo diz que todos os tesouros da sabedoria estão escondidos em nosso Senhor Jesus Cristo.

Quando uma vez lançarmos mão das promessas deste Mediador, e conheceremos a altura e profundidade, o comprimento e a largura, sim, e tudo que é necessário para nos-sa salvação, para que possamos firmar a nossa fé nEle, como sobre o único verdadeiro Deus; e também contemplá-lO como nosso irmão; que não somente aproximou-Se de nós, mas uniu-Se e juntou-Se a nós de tal maneira, que Ele Se tornou de mesma substância. Se viermos a isso, saibamos que chegamos à perfeição da sabedoria, que é falada por São Paulo em outro lugar; de modo que podemos nos alegrar plenamente na bondade de Deus; pois, aprouve a Ele nos iluminar com o brilho de Seu evangelho e nos atrair para o Seu reino celestial.

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♦ Fonte: ReformedSermonArchives.com
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida e Fiel).

♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Doxologia de Judas – Charles Haddon Spurgeon

Sermão Nº 2994, Publicado na quinta-feira, 28 de Junho, 1906.
Pregado por C. H. Spurgeon, na noite do Dia do Senhor, 7 de Novembro de 1875.
No Tabernáculo Metropolitano, Newington.

 

“Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória, ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém!” (Judas 1:24-25)

Os escritos de Paulo abundam em doxologias. Vocês as encontrarão espalhadas em diferentes formas por todas as suas Epístolas. Mas ele não é o único Apóstolo que pausa assim para magnificar o nome de Deus. Aqui está “Judas, não o Iscariotes”, mas o Judas fiel que escreveu uma Epístola que parece em tudo flamejante como um raio, que queima tão terrivelmente contra certas condições de pecadores. Quase toda a palavra que Judas escreve parece têm o estrondo do trovão nela, ele parece ser mais parecido com Ageu, do Antigo Testamento do que com o Judas do Novo. Ainda assim, ele não pôde concluir a sua curta Epístola antes de incluir alguns relatos de louvor a Deus!

Aprendam com isso, queridos amigos, que o pecado do homem, se somos alguma vez chamados para denunciá-lo, deve conduzir-nos a adorar a bondade e a glória de Deus. O pecado contamina o mundo, por isso depois de ter feito o seu melhor para varrê-lo para fora, resolvam isto, a saber, na mesma medida em que o homem tem desonrado o nome de Deus vocês procurarão engrandecer esse nome. É verdade que vocês não podem de fato reparar o mal que foi feito, mas, de qualquer forma, se o fluxo de pecado foi aumentado, vocês podem aumentar o fluxo de louvor leal e reverente! Cuidem para que vocês o façam. Judas não está satisfeito por ter repreendido os filhos dos homens por seu pecado, então ele vira-se para glorificar o seu Deus!

Observem que estas doxologias, onde quer que as encontremos, não são todas iguais. Elas são apresentadas ao mesmo Deus e oferecidas com o mesmo espírito, mas há ra-zões dadas para a doxologia em um caso que não são dadas em outra. Nosso texto da manhã disse-nos sobre o que Deus é capaz de fazer e assim o faz. Ambos começam louvando a capacidade de Deus, mas enquanto Paulo falou sobre a grandeza desta capacidade no que ela pode fazer por nós, Judas fala da grandeza desta capacidade no que nos preserva de cair e nos aperfeiçoa para que possamos ser apresentados irrepreen-síveis diante da Presença da Glória de Deus. Consideremos, em uma forma de adoração em mente, sobre este sublime assunto.

 

I. Primeiro, ADOREMOS AQUELE QUE PODE NOS GUARDAR DE TROPEÇAR.

Dirijo-me agora, é claro, apenas para o próprio povo de Deus. Quando será que veremos uma congregação em que será desnecessário fazer tal observação como essa? Eu não posso convocar alguns de vocês para adorar a Deus por guarda-los de tropeçar, pois, infelizmente, vocês ainda não aprenderam a ficar de pé! A Graça de Deus ainda nunca foi aceita por vocês. Vocês não estão na Rocha Eterna, vocês ainda não se estabeleceram na peregrinação celestial. Este é um estado miserável para vocês estarem, no qual vocês não podem adorar Àquele a quem os anjos adoram. É um triste estado de coração para qualquer homem estar! Ser excluído – autoexcluído – das aclamações gerais de alegria na presença de Deus, porque vocês não sentem tanta alegria e não podem, portanto, unirem-se em tais aclamações!

Mas para o povo de Deus, eu tenho que dizer isto. Queridos irmãos e irmãs, necessitamos de preservação, portanto, adorem Aquele que pode guardar-nos! Como almas salvas, precisamos de preservação da apostasia final. “Oh”, alguém diz, “Eu pensei que você nos ensinou que aqueles que são uma vez salvos jamais finalmente apostatam”. Eu realmente acredito nesta doutrina e deleite-me em pregá-la, mas é verdade que os salvos apostatariam – todos eles – se o Senhor não os guardasse! Não há estabilidade em qualquer cristão, considerado em si mesmo. É a graça interior de Deus que lhe permite ficar em pé. Eu acredito que a alma do homem é imortal, mas não em si, mas apenas pela imortalidade que Deus concede a ela a partir de Sua imortalidade essencial. Assim é com a nova vida nova que está dentro de nós. Ela jamais perecerá, mas esta só é eterna porque Deus continua a mantê-la viva. Sua perseverança final não é o resultado de qualquer coisa em si mesmo, mas o resultado da Graça que Deus continua a conceder-lhes e de Seu propósito eterno que primeiro escolheu vocês e de Sua onipotência, que ainda os mantêm vivificados. Ah, meus irmãos e irmãs, os santos mais brilhantes do planeta cairiam no mais profundo inferno se Deus não os guardasse de cair! Por isso, louvai-O, oh vós, estrelas que brilham no céu da Igreja, pois vocês se extinguiriam com um cheiro pernicioso, como as lâmpadas o fazem por falta de óleo, se o Senhor não mantivesse a vossa chama celeste queimando! Glória a este Preservador de Sua Igreja, que guarda os Seus amados até o fim!

Mas, há outras maneiras de tropeçar além de cair final e fatalmente. Ai de mim, irmãos e irmãs, todos estamos sujeitos a cair em erros de doutrina. O homem mais bem ensinado, à parte de Orientação Divina, é capaz de se tornar o maior tolo possível! Há uma estranha fraqueza que às vezes vem sobre os espíritos nobres e que os torna enfeitiçados por uma novidade errônea, ainda que eles imaginem ter descoberto alguma grande verdade de Deus. Homens de mentes interrogadoras e receptivas são frequentemente atraídos para fora das veredas antigas, dos bons velhos caminhos; e enquanto eles pensam que estão buscando a verdade, eles estão sendo induzidos ao erro condenável! Somente é preser-vado, como de seus pensamentos e opiniões doutrinárias, aquele a quem Deus mantém, pois há erros que, se fosse possível, enganariam até os escolhidos! E há homens e mulheres andando sobre este mundo com línguas suaves e argumentos plausíveis, que carregam palavras doces em seus lábios, apesar de que espadas estejam escondidas atrás das costas! Bem-aventurados os que são preservados desses lobos em pele de cordeiro! Senhor, só Tu pode nos preservar dos erros perniciosos dos tempos, pois Tu és “o único Deus sábio, Salvador nosso”.

E, queridos amigos, nós precisamos ser guardados de um espírito maligno. Eu não sei que devo preferir: ver um querido irmão Cristão meu cair em erro doutrinário, ou em um espírito não-cristão. Eu não preferiria ambos, porque eu acho que essa é uma regra de segurança: entre dois males, não escolha nenhum! É triste ouvir algumas pessoas falarem como se eles, somente, estivessem corretos, e todos os outros cristãos estivessem errados. Se existe algo que é a própria essência e a alma do Cristianismo, é o amor fraternal, mas o amor fraternal parece ser completamente esquecido por essas pessoas. E outros cristãos que, no julgamento da sobriedade, são tão sérios e tão sinceros e tão úteis quanto eles mesmos, estão estabelecidos como pertencentes a uma espécie de sistema Babilônico – eu malmente sei o que eles não o chamam, mas eles o dão todos os tipos de nomes ruins – e pensa-se que isso seja um alto estilo de Cristianismo! Queira Deus que seja perdoado o homem que pensou que fosse um propósito digno da sua vida fundar uma seita, cuja característica distintiva seja não ter comunhão com outros cristãos! O dano que o homem tem feito é absolutamente incalculável! E eu só posso orar para que na Providência de Deus, alguma parte disso morra com ele.

Oh, irmãos e irmãs, eu vos ordeno, sejam quais forem os erros que vocês cometam, não errem sobre esta única coisa, que, mesmo que vocês tenham todo o conhecimento, e não tiverem amor, nada disso vos aproveita para nada! Mesmo se vocês tivessem um credo perfeito e soubessem que seus modos de adoração eram absolutamente Apostólicos, ainda assim, se vocês também absorveram essa ideia que vocês não poderiam adorar com todos os outros Cristãos e que eles estavam completamente fora de vosso arraial, o vosso erro seria muito pior do que todos os outros erros juntos, pois, estar errado no coração é ainda pior do que estar errado na cabeça! Gostaria de tê-los fiéis à Verdade de Deus, mas, acima de tudo, gostaria de tê-los fiéis ao Amor de Deus! Meu irmão, eu acho que você está equivocado sobre este assunto ou aquele, mas você ama o Senhor Jesus Cristo? Se assim for, eu te amo. Não tenho dúvidas de que eu também, estou enganado sobre algumas coisas, mas, por isso, não retire a sua mão e diga que você não pode ter comunhão comigo! Eu tenho comunhão com meu Pai que está no Céu e com Seu Filho, Jesus Cristo, e com o Seu bendito Espírito. E eu acho que isso se torna um mal a você, se você se denomina um filho do mesmo Deus, o recusar-se a ter comunhão comigo quando eu tenho comunhão com Ele! Deus te salve desse espírito maligno, mas você pode facilmente cair nele, a menos que o Senhor o guarde. Seu muito zelo pela Verdade de Deus pode levá-lo a um esquecimento do Amor cristão! E se isso acontecer, será uma triste pena. Oh Senhor, guarda-nos de cair neste caminho!

Entretanto há tropeços de outro tipo que podem acontecer ao mais brilhante cristão. Quero dizer, quedas em pecado exterior. Enquanto vocês leem toda a Epístola de Judas, verão que apóstatas alguns professos se tornaram e vocês serão levados a clamar: “Senhor, livra-me de cair!” E se vocês fossem o pastor de uma grande igreja como a minha, vocês veriam o suficiente para convencê-los de que traidores como Judas não estão todos mortos, que em meio aos fiéis, os infiéis ainda são encontrados; que há peixe ruim a ser jogado fora, assim como bom peixe para ser preservado. E cada vez que executamos um ato de disciplina, cada vez que temos que lamentar a queda de alguém que parecia um irmão, podemos agradecer a Deus por termos sido guardados e podemos cantar esta doxologia: “Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, seja a glória e o poder para sempre.”

E, queridos amigos, há uma maneira de cair, da qual as pessoas não são tantas vezes recuperadas como quando caem em pecado evidente. Quero dizer, caindo em negligência quanto aos deveres naturais ou cristãos. Conheci professos que têm sido muito negligentes em casa; crianças que não eram obedientes aos seus pais; maridos que não amavam suas esposas como deveriam; esposas que estavam muito à vontade nesta e naquela reunião, mas muito negligentes de suas domésticas funções. E, observem vocês, quando este é caso, é algo a lamentar, pois o cristão deve ser absolutamente confiável em tudo o que tem que fazer! Eu não daria dois centavos por sua religião, se você é um comerciante, mas não é justo em seus negócios! Eu não me importo se você pode cantar como Davi, ou pregar como Paulo, se você não pode medir um metro de material com o número adequado de centímetros, ou se suas escalas não pesam corretamente, ou se os seus negócios geralmente não são feitos de forma honesta e verdadeira, é melhor você não fazer nenhuma profissão de religião! A separação do que é chamado “religioso” do “secular” é um dos maiores erros possíveis. Não existe tal coisa como uma religião de domingos, de capelas e de igrejas. No mínimo, embora haja tal coisa, ela não é digna de se ter. A religião de Cristo é uma religião de sete dias na semana, uma religião para todos os lugares e para todos os atos! E ela ensina aos homens que quer comam ou bebam, quer façam qualquer outra coisa, façam tudo em nome do Senhor Jesus Cristo e para a glória de Deus! Eu oro para que vocês sejam guardados de se apartarem desta religião, e para que vocês sejam guardados até o alvo de servir ao Senhor em todas as coisas e observando diligentemente as pequenas coisas comuns da vida diária.

E vocês sabem, queridos amigos, há outro tipo de queda, que é quando o coração fica gradualmente frio, quando o cristão se afasta pouco a pouco, quando a vida tornar-se mais ou menos incompatível com a profissão. Oh, quantos professos entram neste esta-do! Eles são como pessoas que não estão tão bem quanto costumavam estar. Eles não sabem quando eles começaram a se sentir piores, isto foi há meses e todos os dias eles estiveram mais fracos, mesmo agora vocês podem ver os seus ossos, embora uma vez que eles estiveram cheios de carne. Agora, eles descobrem que, enquanto uma vez eles poderiam ter caminhado 10 milhas sem fadiga, meia milha ou menos os cansa! Seu apetite, também, tem gradualmente desaparecido. Eles mal sabem como. Ah, estes são os enfermos com os quais o médico tem mais problemas do que ele tem com aqueles que são subitamente tomados por uma doença bem conhecida! E este declínio gradual da saúde espiritual, não vem todo de uma vez, mas, pouco a pouco, é um dos mais peri-gosos males e temos necessidade de clamar continuamente: “Senhor, guarda-nos disto!” E, para louvar o Seu nome que Ele seja assim capaz de guarda-nos!

Assim, eu lhes mostrei que precisamos de preservação, irmãos e irmãs, ninguém, senão o Senhor pode nos guardar. Nenhum homem pode guardar-nos. Sem a graça de Deus, ele certamente falhará! E nenhum lugar pode nos guardar. Algumas pessoas pensam que se eles pudessem entrar em tal e tal família, eles poderiam evitar o pecado, mas elas estão enganadas. Em cada posição que o homem ocupa, ele encontrará a tentação. Ouvimos do eremita que esperava livrar-se de todo o pecado, vivendo em uma caverna. Ele levou consigo o seu pequeno pão marrom e seu jarro de água, mas ele mal tinha en-trado na caverna antes que ele derrubasse o seu jarro e entornasse a água. Foi um longo caminho para o bem e ele ficou tão zangado consigo mesmo por haver feito isso, e assim ele logo descobriu que o diabo poderia entrar em uma caverna mais rápido do que ele! Então ele pensou que poderia muito bem voltar e enfrentar as provações da sociedade comum. Há uma história que eles contam, na Escócia, de uma família que era esbanja-dora e, portanto, não obtinha êxito. Porém eles pensaram que era um dos “duendes” que os impediam de progredir, então eles decidiram “emigrar”. Eles colocaram todas as suas coisas em um carro, mas enquanto eles estavam prestes a começar, eles ouviram um barulho que os fez clamar, “O duende está na batedeira!” Então, onde quer que a batedeira fosse, os duendes iriam também. E vocês podem remover sempre que quiserem e pensarem: “Se eu entrar em tal posição, vou fugir da tentação, mas você encon-trará que “o duende está na batedeira”, e ele o seguirá onde quer que vá! Vocês não podem ser impedidos de cair escolhendo outra situação. É melhor ficar onde está, irmão, e lutar contra o diabo ali, pois, talvez o próximo lugar que você escolha como o cenário par ao combate não seja tão adequado quanto o que você tem agora.

“’Ah’, alguém diz: ‘Eu gostaria de poder chegar até
A pousada em algum vasto deserto,
Algumas ilimitadas contiguidades de sombra
Onde rumor da opressão e do engano,
Da batalha mal sucedida ou bem sucedida,
Nunca pudessem me alcançar de novo.”

Sim, sim. Mas esse não é o caminho para vencer o pecado, não é? Suponha que a batalha de Waterloo esteja apenas começando e aqui está um soldado que quer conquistar uma vitória. Então, ele foge e fica fora de Bruxelas e esconde-se em um porão! É provável que ele seja contado entre os heróis do dia? Não, irmãos e irmãs, e se há algum pecado a ser superado neste mundo, não há crédito para o homem que diz: “Eu vou me esconder em algum lugar fora do mundo”. Não, não, meu irmão, aceite o quinhão que Deus providenciou para você! Tome seu lugar nas fileiras de Seus soldados e qualquer tentação que venha, olhe acima para Aquele que é poderoso para guardá-lo de cair, mas não sonhe em fugir, pois esta é a maneira mais fácil de cair, isto é ser derrotado antes que a batalha comece! Ninguém a não ser Deus pode guardá-lo. Você pode se juntar a qualquer igreja que quiser. Você pode usar um chapéu de aba larga e dizer “tu” e “ti”. Você pode encontrar-se com aqueles que partem o pão e que não pregam nada além do Evangelho da Graça de Deus. Você pode habitar entre as melhores pessoas que já viveram, mas você ainda será tentado! Nem o lugar, nem as pessoas, nem as maneiras, nem os costumes podem guarda-lo de cair – somente Deus pode fazê-lo!

Mas aqui está a misericórdia, Deus pode fazê-lo. Observe como a doxologia de Judas expressa isso: “Ao único Deus sábio, Salvador”. É somente porque Ele é sábio, de modo que Ele por si só é capaz de nos guardar de cair. Ele o faz, ensinando-nos a Verdade, ao nos alertar contra o pecado secreto e por Sua direção providencial. Às vezes, Ele nos guarda da tentação. Em outros momentos, Ele permite que a tentação venha a nós para que a superemos, e assim possamos estar mais fortes para enfrentar outra. Muitas vezes Ele nos livra da tentação, deixando que a aflição venha sobre nós. Muitos homens têm sido guardados de cair em pecado ao serem esticados sobre uma cama de doença. Se não fosse a perda do olho, ele teria contemplado a vaidade. Se não fosse pelo osso quebrado, ele teria corrido nos caminhos da impiedade. Nós pouco sabemos quanta preservação de queda devemos às nossas perdas e cruzes! A história de Sir James Thornhill, pintando o interior da cúpula da São Paulo é provavelmente bem conhecida. Quando ele finalizou um dos compartimentos, ele estava andando para trás, a fim de que ele pudesse ter uma visão completa do mesmo e assim foi quase até a borda do andaime e teria caído se ele tivesse dado mais um passo, porém um amigo, que viu seu perigo, sabiamente aproveitou uma de seu pincel e passou um pouco de tinta sobre a pintura. O artista irado, correu para salvar sua pintura e assim salvou sua própria vida! Nós temos toda a vida pintada, que imagem encantadora fizemos dela! E à medida que a admirá-vamos, nós nos distanciamos para mais e mais longe de Deus e da segurança, e fomos para cada vez mais perto da perigosa tentação! Mas, quando a tribulação chegou, arruinou a imagem que havíamos pintado e assim, embora dificilmente saibamos o motivo, nós fomos para frente e fomos salvos, Deus nos guardou de cair por meio do problema que Ele nos enviou!

Deus muitas vezes nos impediu de cair por um sentimento amargo de nosso pecado passado. Nós não nos atrevemos a chegar novamente perto do fogo por nossas antigas queimaduras ainda mal curadas. Tenho notado também, no meu caso, que quando o de-sejo pelo pecado veio com força, a oportunidade para o pecado não estava presente e quando a oportunidade do mal está presente, então, pela graça de Deus, o desejo estava ausente. É maravilhoso como Deus impede que essas duas coisas se encontrem, e assim guarda o Seu povo de cair.

Acima de tudo, é pelo Espírito Divino que Deus nos leva como que sobre asas de águia. O Espírito nos ensina a odiar o pecado e a amar a justiça e por isso somos diariamente guardados de cair.

Irmãos e Irmãs, juntem-se a mim, adorando ao Senhor, pois Ele nos guardará até o fim. Já entregamos as nossas almas nas mãos de Jesus? Então, nossas almas estão seguras para sempre! Estamos confiando nEle para nos guardar até o dia da Sua vinda? Se assim for, Ele nos guardará, nenhum carneiro ou ovelha do Seu rebanho será, por qualquer possibilidade, destruído pelo lobo, ou pelo urso, ou pelo leão que ruge desde o Inferno! Eles todos devem ser dEle, no dia em que eles passarem sob as mãos dAquele que lhes conta!

 

II. AGORA, em segundo lugar, ADOREMOS A ELE, PORQUE ELE, POR FIM, NOS APRESENTARÁ “IRREPREENSÍVEIS, COM ALEGRIA, PERANTE A SUA GLÓRIA.”

Chegará um dia, irmãos e irmãs, quando seremos apresentados nos tribunais de Deus como Seus cortesãos, ou então, seremos expulsos de Seu Tribunal, como rebeldes contra a Sua autoridade. Nós esperamos com expectativa confiante que seremos apresentados como amigos de Cristo, a Deus, ao Pai, e isso é, de fato, um motivo de adoradora gratidão!

Vocês notaram como Judas o expressa? Para “apresentar-vos irrepreensíveis”. Não haverá ninguém no céu, senão aqueles que são irrepreensíveis. Não entrarão de modo algum naqueles santos cortejos nada que contamine. O céu é perfeitamente puro e se vocês e eu alguma vez chegaremos lá, devemos ser puros como a neve. Nenhuma mácula de pecado deve estar sobre nós, ou então não poderemos ficar entre os cortesãos de Deus. De Seu Trono flamejante brotaria colunas de fogo devorador sobre qualquer alma culpada que se atrevesse se apresentar nas cortes do Altíssimo, se tal situação fosse possível! Mas somos impuros; impuros quanto aos nossos atos e, o pior de tudo, impuros quanto à nossa própria natureza! Como, então, podemos alguma vez esperar estar ali? Ainda assim, queridos irmãos e irmãs, a nossa confiança é que estaremos. Por quê?

Não é porque Cristo é capaz de nos apresentar irrepreensíveis ali? Venha, cristão, pense por um minuto em quão impecável Cristo o fez tanto quanto o seu pecado passado é considerado. No momento em que você acreditou nEle, você estava tão completamente lavado em Seu precioso sangue que nenhuma mancha de pecado permaneceu sobre você. Tente perceber que qualquer que tenha sido a sua vida passada, agora, se você crê em Jesus Cristo, você é purificado de toda a iniquidade, em virtude de Seu sacrifício expiatório e você está coberto por um manto imaculado de justiça em virtude de Sua vida bem-aventurada da perfeita pureza e obediência à vontade de Seu Pai. Agora você está sem culpa, na medida em que seu pecado passado é considerado, pois Ele lançou-os todos nas profundezas do mar, mas você sente que não é inculpável quanto à sua natureza.

“Oh”, você diz, “Eu sinto tudo o que é mal se erguendo, às vezes, dentro de mim”. Mas todo este mal está sob sentença de morte. Cristo o pregou em Sua Cruz. A crucificação é uma morte prolongada e mui dolorosa, e o culpado agoniza de dar o último suspiro. Mas os seus pecados tiveram seu golpe mortal. Quando Cristo foi pregado na cruz, os seus pecados foram pregados ali também, e nunca descerão novamente. Eles devem morrer, assim como Ele morreu. Será uma hora abençoada quando o pecado finalmente entregar seu espírito, quando não haverá mais nenhuma tendência para o pecado dentro de nossa natureza! Então, nós seremos apresentados irrepreensíveis diante do Trono de Deus!

“Isso pode alguma vez ocorrer?”, Pergunta alguém. Você bem pode fazer essa pergunta, irmão. Pode ser que alguma vez não seremos tentados por uma luxúria imunda, nem seremos perturbados por uma paixão desenfreada, nem sentiremos as paixões da inveja ou do orgulho novamente? Sim, certamente será! Cristo garantiu esta bênção para você. Seu nome é Jesus, o Salvador, “porque ele salvará o seu povo dos seus pecados” [Mateus 1:21]. Ele deve fazer e fará isso por todos os que confiam nEle. Alegrem-se que Ele fará isso, pois ninguém além de Deus pode fazer isso. Deve ser o “único Deus sábio, Salvador nosso,” que pode fazer isso, e Ele o fará! A vossa fé permite que vocês se imaginem como sendo irrepreensíveis diante do Trono de Deus? Bem, então, deem ao Senhor a glória que é devida a Ele por um ato tão maravilhoso da Graça quanto esse!

É assim vocês devem ser apresentados por Cristo em Glória. Há uma grande agitação em uma família quando uma filha deverá ser apresentada em um cortejo e pensa-se que isso seja um acordo grandioso. Mas um dia, você e eu que acreditamos em Jesus, seremos apresentados ao Pai. Que beleza radiante então vestiremos quando o próprio Deus olhará para nós e nos declarará sermos inculpáveis, quando não haverá motivo para tristeza remanescente, e, portanto, seremos apresentados com alegria! Deve ser assim, meu irmão! Deve ser assim, minha irmã! Portanto, não duvidem disso. Em quanto tempo isso ocorrerá, nós não podemos dizer; possivelmente, amanhã! Talvez, antes que o sol nasça novamente eu e você podemos ser apresentados por Cristo “com alegria, perante a sua glória”. Nós não podemos dizer quando isso ocorrerá, mas estaremos ali em Seu bom tempo. Seremos perfeitos! Seremos “aceitos no Amado” e, portanto, a Ele “seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém.”

 

III. Essa é a observação com a qual eu tenho que concluir meu discurso. POR CAUSA DESTAS DUAS GRANDIOSAS BÊNÇÃOS, A PRESERVAÇÃO FINAL E A APRESENTA-ÇÃO DIANTE DE SUA GLÓRIA, OFEREÇAMOS AO SENHOR AS NOSSAS MAIS ELEVADAS ATRIBUIÇÕES DE LOUVOR.

Judas diz: “agora, e para todo o sempre”. Bem, nós observaremos o “para todo o sempre” enquanto a eternidade desenrola-se, mas observaremos o louvor a Deus “agora”, neste momento! “Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder” agora! Venham irmãos e irmãs, pensem no que vocês devem a Ele, que os têm guardado até hoje e não os deixará! Pensem em onde vocês poderiam estar e considerem, posso dizer, aonde vocês costumavam estar em vosso estado não-regenerado. No entanto, vocês não estão ali agora, mas vocês estão aqui, sem justiça própria, diferidos de seus companheiros, dos outros homens inteiramente por meio da Graça de Deus! Vocês têm sido guardados, talvez por 20, 30, 40 anos, possivelmente há 50 anos! Bem, a Ele seja a glória! Deem-lhe a glória, agora mesmo!

 

Como vocês podem fazer isso? Bem, sintam isso em seus corações! Falem sobre isso para os seus vizinhos! Falem disso para os seus filhos! Digam a todos que vocês encontram que Deus bom, bendito e fiel Ele é, e assim deem-Lhe a glória agora. E sejam felizes e alegres. Vocês não podem melhor glorificar a Deus do que por uma vida calma, feliz. Deixem que o mundo saiba que vocês servem um bom Mestre. Se vocês estiverem com problemas, não deixem que ninguém veja que o problema toca o seu espírito, não, mais, não deixe que ele atribule o seu espírito. Descansem em Deus, considerem o mal como bem de Suas mãos e prossigam a louvá-lO. Vocês não sabem quanta coisa boa podem fazer e quão grandemente vocês podem glorificar a Deus se O louvarem em seus momentos sombrios. Os mundanos não se importam muito sobre o nosso Salmo cantado a menos que eles nos vejam na dor e na tristeza e observem que louvamos a Deus nessa ocasião. [...]. A alegria de alguns cristãos desaparece no desgaste da vida, ela não pode suportar lidar com as grosserias do mundo. Que não seja assim conosco, amados, mas louvemos, bendigamos e engrandeçamos o nome do Senhor, enquanto nós tivermos qualquer existência!

Eu sei que, ao falar assim, dirijo-me a apenas uma parte de minha congregação. Eu desejo que todo homem e mulher aqui agora estejam louvando ao Senhor, e tenho certeza de que vocês não poderiam ter uma melhor ocupação por toda a eternidade. Lembrem-se que se vocês não louvam a Deus, é impossível que vocês alguma vez entrem no Céu, pois essa é a principal ocupação dos Céus! E lembrem-se também que o louvor de seus lábios, até que esses lábios sejam divinamente purificados, seria como uma joia em focinho de porco, uma coisa completamente fora de lugar! Para vocês, caros ouvintes não salvos, a primeira coisa não é louvor, mas a oração; não, nem mesmo a oração em primeiro lugar, mas a fé: “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo”. E então, em fé, ore a oração que Deus aceita. Mas vocês devem primeiro crer em Jesus. “E o que significa crer em Jesus?”, você pergunta. Significa isto: seu pecado merece castigo, pois Deus, que é justo, deve punir o pecado, mas o Seu Filho veio ao mundo para sofrer no lugar daqueles que confiam nEle. E agora, Deus pode ser justo e justificador de toda alma que crê em Jesus! Na pessoa de Seu Filho, Deus está pendurado em um madeiro e morre a morte de um criminoso, você crerá no mérito daquela morte e no amor de Deus, que não poupou o Seu próprio Filho, a fim de que Ele possa poupar-nos? Você pode confiar em Jesus como seu Deus e Salvador? Você fará isso agora? Então, você está salvo!

O primeiro momento de assim confiar em Deus é, portanto, o início de uma nova vida, uma vida que irá expulsar a velha morte do pecado. No momento em que você, assim, confiar em seu Deus, você será colocado sobre uma nova base em relação a Ele, todo o seu aspecto em direção a Deus será transformado. O arrependimento tomará tal posse de seu espírito que você será acionado por novos motivos e influenciado por novos desejos! Na verdade, você será um novo homem em Cristo Jesus. Isto é ser salvo, salvo do amor ao pecado, salvo de retornar ao pecado, salvo de cair e tão completamente salvo, de for-ma que Cristo um dia lhe apresentará “irrepreensível, com alegria, perante a sua glória”. Que Deus faça isso por todos vocês, meus ouvintes, de acordo com as riquezas de Sua graça! Este é o último, melhor e mais forte desejo de meu coração: que todos vocês sejam salvos. Que todos possamos nos encontrar no céu, diante do Trono de Deus, para nunca mais nos separarmos!

Enquanto eu estiver fora, ouçam com toda a seriedade os outros arautos da Cruz, e orem ao Senhor para que abençoe as suas mensagens para a sua salvação, se a minha não tem sido tão abençoada. Eu oro para que, por alguma instrumentalidade, vocês todos sejam salvo no Senhor, com uma salvação eterna. Amém.

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Uma Exposição de C.H Spurgeon: da Epístola de Judas.

Verso 1. Judas. Isso quer dizer Judas, não o Iscariotes.

1. Servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago. Ele não diz, “e irmão de nosso Senhor”, pois sabemos que Tiago e Judas estavam, ambos, entre parente do Senhor segundo a carne. Mas agora, segundo a carne, ele não mais conhece a Cristo, mas está contente e feliz por ser conhecido como “o servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago”.

1. Santificados em Deus Pai. Pelo decreto da eleição, a definição dos eleitos é geralmente atribuída a Deus, o Pai.

1. Aos chamados [...] e conservados por Jesus Cristo. Temos aqui uma descrição muito abençoada de toda a obra da nossa salvação – separados pelo Pai, unidos a Cristo e preservados nEle – e então, no devido tempo, chamados pelo Espírito de Deus.

2. Misericórdia, e paz, e amor vos sejam multiplicados. As cartas cristãs devem estar cheias de amor e boa vontade. A dispensação cristã respira beneficência, é plena de bên-ção! “Misericórdia, e paz, e amor vos sejam multiplicados”. Que a Trindade Divina lhes conceda uma tripla bênção!

3. Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos. No sentido de ser uma vez dada aos santos, a fé dos cristãos não é algo variável. Não é uma coisa que muda de dia em dia, como alguns parecem supor, em vão imaginam que uma nova luz é concedida a cada nova geração. Não, a ver-dade de Deus foi dada uma vez, foi estereotipada, fixa e devemos guardá-la tão firmemente quanto Deus nos conceda.

4. Porque se introduziram alguns. Eles covardemente não confessaram a sua heresia quando eles vieram, eles não teriam sido autorizados a entrar, se o tivessem feito, mas furtivamente, subiram ao púlpito, professando ser pregadores do Evangelho, quando eles reconhecem, em tudo, que tinham a intenção de miná-lo. Os mais vis de todos os homens são aqueles que agem assim! “Há certos homens se introduziram com dissimulação”.

4. Que já antes estavam escritos para este mesmo juízo. Proscritos por Deus como traidores há muito tempo! Aqueles que não são corajosos de suas convicções, provável-mente, não têm convicções em absoluto, mas procuram minar a fé que eles professam sustentar.

4. Homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo. Antinomianos, que “convertem em dissolução a graça de Deus”, falsamente declarando que a Lei não tem força reguladora para a vida do cristão e dizendo que podemos fazer o mal para que venha o bem. E Socinianos, que negam “a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo”.

5. Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram. Se não temos fé real, nós podemos aparentar seguir um longo caminho para o céu, mas não entraremos na Canaã celestial.

6. E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia. Vejam, então, a necessidade da estabilidade, a necessidade de permanecer na fé e permanecer na prática da mesma, para que não nos tornemos como os israelitas, que, embora saíram do Egito, deixaram suas carcaças no deserto, ou como os anjos, que, embora estivessem na Presença de Deus na glória, caíram para as profundezas do abismo por causa de sua apostasia!

7, 8. Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno. E, contudo, também estes, semelhantemente adormecidos, contaminam a sua carne, e rejeitam a dominação, e vituperam as dignidades. Eles lançam fora todas as restrições; eles afirmam ter liberdade para fazer o que gostam e quando repreendidos, eles proferem palavras maledicentes contra aqueles que honestamente os repreendem!

9. Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda. A que isto se refere? Eu tenho certeza que não sei. Eu não posso pensar que se refere a qualquer coisa registrada no Antigo Testamento, mas a algum fato, conhecido por Judas, que aqui fala pela Revelação e o registra. Nós acreditamos nisso e aprendemos com isso que quando um arcanjo disputa com o diabo, ele não usa palavras duras mesmo contra ele, pois palavras duras são uma evidência de fraqueza da causa que eles costumam apoiar! Argumentos duros suavemente colocados, são armas real-mente eficazes, mas para alguns de nós, leva-se muito tempo para aprender isso e geralmente, em nossos dias de imaturidade, nós desgastamos nossa própria força pela violência que empregamos.

10 Estes, porém, dizem mal do que não sabem; e, naquilo que naturalmente conhecem, como animais irracionais se corrompem. É algo horrível quando o pecado de um homem passa por toda a extensão de seu conhecimento e ele peca até o nível de suas possibilidades!

11, 12. Ai deles! porque entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Coré. Estes são manchas. Estes são “espoliadores”, por isso podem ser entregues.

12. Em vossas festas de amor. Eles estragam as vossas festas de amor na Mesa da Comunhão. Estragam a sua comunhão quando se reúnem para adorar.

12. Banqueteando-se convosco, e apascentando-se a si mesmos sem temor. Alguns dos melhores cristãos que vêm à mesa do Senhor, chegam ali em grande temor e tremor. E eu conheci alguns que tiveram um direito inquestionável de estar ali, quase receosos em vir. No entanto, essas mesmas pessoas que têm um medo santo de que não venham mal, são aqueles que realmente deveriam vir. “Apascentando-se a si mesmos sem temor” é a marca daqueles que estão mais longe de Deus.

12. São nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte. Eles acreditam de acordo com o que lhes é dito pelo último homem que fala com eles, eles são facilmente persuadidos a esta ou aquela doutrina, ou a outra.

12. São como árvores murchas, infrutíferas. Eles parecem carregar frutos, mas eles caem antes que amadureçam.

12, 13. Duas vezes mortas, desarraigadas. Ondas impetuosas do mar. Eles não têm nada a dizer por Cristo, mas eles devem dizer alguma coisa, por isso são “ondas impetuo-sas do mar”.

 
13. Que escumam as suas mesmas abominações; estrelas errantes, para os quais está eternamente reservada a negrura das trevas. Estes são os falsos professos da religião, os membros da igreja para quem há assentos reservados no inferno! Este é um pensamento terrível: “para os quais está eternamente reservada a negrura das trevas”, não para os gentios, e não para os rejeitadores abertos do Evangelho, mas para tais como se arrastando descuidados nas igrejas, ensinam falsas doutrinas, vivem vidas profanas!

14, 15. E destes profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos; Para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram, e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele. Como Judas sabia que Enoque disse isso, eu não posso dizer, é outro exemplo da Inspiração Divina.

16. Estes são murmuradores, queixosos. Vocês conhecem o tipo de pessoas aqui mencionadas, nada os satisfaz. Eles estão descontentes, mesmo com o Evangelho. O Pão do Céu deve ser cortado em três pedaços e servido em guardanapos delicados, ou então eles não podem comê-lo! E muito em breve a sua alma abomina mesmo este pão leve. Não há nenhuma maneira pela qual um cristão possa servir a Deus de modo a agradá-los. Eles observarão buracos nos casacos de cada pregador e se o grande Sumo Sacerdote, Ele mesmo, estivesse aqui, eles encontrariam falha na cor das pedras de Seu peitoral!

16-19. Andando segundo as suas concupiscências, e cuja boca diz coisas mui arrogantes, admirando as pessoas por causa do interesse. Mas, amados, lembrem-se das palavras que foram preditas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo, como eles lhes disseram existiriam escarnecedores nos últimos tempos, que falariam segundo as suas ímpias concupiscências. Estes são os que causam divisões, sensuais, que não têm o Espírito. Pessoas que, se elas fazem uma profissão de fé em absoluto, devem estar continuamente dividindo igrejas e mantendo-se distantes dos outros, não tendo comunhão com ninguém, senão com aqueles que podem dizer “Chibolete” tão claramente quanto eles possam, e soar o “h” bastante alto.

20-22. Mas vós, amados, edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo, Conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna. E apiedai-vos de alguns, usando de discernimento. Alguns desses professos que não estão vivendo de forma consistente com a sua profissão, em quem vocês podem ver sinais e provas de pecado, ainda assim podem ter algum traço de arrependimento, alguma razão para esperar que eles abandonarão o mal quando enxergarem que isso seja mau, “apiedai-vos” deles.

23. E salvai alguns com temor, arrebatando-os do fogo, odiando até a túnica manchada da carne. Quando vocês tiverem que lidar com professos imundos, deve haver uma aversão e ódio ao seu pecado, mesmo quando há uma grande gentileza para com o pecador. Nunca devemos ser tão crentes no arrependimento do culpado como estando dispostos a relevar o seu pecado, pois o pecado é um grande mal, em qualquer caso, e o arrependimento não pode limpá-lo. E embora caiba a nós que sejamos ternos com o pecador, nunca devemos ser ternos com o pecado. Quão belamente termina esta breve e dolorosa Epístola! Tendo descrito a muitos que, depois de fazer uma confissão, ainda se desviam, Judas irrompe com essa jubilosa doxologia!

24, 25. Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória, Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém.

 

 

Hinos de “Nosso Próprio Hinário”: 441, 245, 160.

 

[Adaptado de The C. H. Spurgeon Collection, Version 1.0, Ages Software. Veja todos os 63 volumes de sermões CH Spurgeon em Inglês Moderno, e mais de 525 traduções em espanhol, acesse: www.spurgeongems.org]

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♦ Fonte: SpurgeonGems.org | Título Original: Jude’s Doxology
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Necessário Vos é Nascer De Novo – Thomas Boston

“Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo” (João 3:7)

Para sua convicção, pondere nestas poucas considerações:

A Regeneração é absolutamente necessária para qualificar você a fazer qualquer coisa realmente boa e aceitável a Deus.

Enquanto você não for nascido de novo, suas melhores obras são apenas pecados luminosos; pois apesar de que o conteúdo delas seja bom, elas são completamente corrompidas no desempenho.

Considere que sem regeneração não há fé, e “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hebreus 11:6).

Fé é uma ação vital da alma que nasceu de novo. O evangelista, demonstrando a diferente representação que o Senhor Jesus tinha para diferentes pessoas, dizendo que alguns O receberam, alguns O rejeitaram, aponta a graça regeneradora como a verdadeira causa desta diferença, sem a qual ninguém nunca O teria recebido. Ele nos diz que: “todos quantos o receberam”, foram aqueles “que nasceram de Deus” (João 1:11-13).

Os homens não regenerados podem presumir, mas eles não podem ter fé genuína. A Fé é uma flor que não cresce em solo natural. Assim como a árvore não pode crescer sem uma raiz, também um homem não pode crer sem uma nova natureza, da qual o princípio do crer é uma parte.

Sem regeneração as obras de um homem são obras mortas. Como é o princípio devem os ser também os efeitos: se os pulmões estão apodrecidos, a respiração será repugnante; e aquele que está morto em pecado suas obras, no mínimo, são apenas obras mortas. “Para os impuros e descrentes, nada é puro, são abomináveis, desobedientes e reprovados para toda boa obra” (Tito 1: 15-16).

Se nós pudéssemos dizer de um homem, que ele é mais irrepreensível em sua vida do que qualquer outro no mundo, que ele esmurra seu corpo com jejum e tem feito os seus joelhos soarem em contínua oração, se ele não é nascido de novo, esta exceção estragaria tudo. Como alguém diria: “Aqui há um corpo formoso, mas se a alma se esvai; é apenas uma massa morta”. Está é uma consideração mista. Você faz muitas coisas materialmente boas; mas Deus diz: “Pois em Jesus Cristo nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura” (Gálatas 6:15).

Se você não nasceu de novo:

(1) Toda a sua reforma é nada aos olhos de Deus. Você fechou a porta, mas o ladrão ainda está dentro da casa. Pode ser que você não seja o que uma vez já foi; apesar disso, você não é o que deveria ser, se é que alguma vez você deseja ver o céu, pois “se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (João 3:3).

(2) Suas orações são uma “abominação ao Senhor” (Provérbios 15:8). Pode ser que os outros admirem a sua seriedade; você chora como por sua vida; mas Deus descreve o abrir de sua boca como alguém que poderia descrever a abertura de uma sepultura cheia de podridão: “A garganta deles é um sepulcro aberto” (Romanos 3:13).

Outros são afetados com as suas orações, as quais parecem a eles como se fossem dirigidas aos céus; mas Deus as descreve como apenas uivos de um cachorro: “Não clamam a mim de coração, mas dão uivos nas suas camas” (Oséias 7:14)

Por que, pois, você ainda está “em fel de amargura e laço de iniquidade”. Todas as suas lutas contra o pecado em seu próprio coração e vida são nada. O orgulhoso Fariseu afligia seu corpo com jejuns, e Deus golpeia a sua alma, ao mesmo tempo com a sentença de condenação (Lucas 18). Balaão lutou com o seu temperamento ganancioso, até este nível, que embora ele amasse os pagamentos da injustiça, ainda ele não poderia obtê-las por amaldiçoar Israel, mas ele morreu a morte do ímpio (Números 31:8). Tudo o que você fizer, em um estado não regenerado, é para si mesmo, portanto, isto irá perecer com você como a um sujeito, que tendo abatido os rebeldes, colocou a coroa em sua própria cabeça, e perde todos os seus bons serviços e sua cabeça também.

Esteja convencido, então, de que você precisa nascer de novo. A Escritura diz que a Palavra é a semente; da qual a nova criatura é formada, portanto, preste atenção, e deleite-se nela, como se fosse a sua vida. Aplique a si mesmo à leitura da Escritura. Você que não pode ler, peça a outros para leiam as Escrituras para você. Espere diligentemente pela pregação da Palavra, como que pela Divina designação do especial meio de conversão; pois “aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação” (1 Coríntios 1:21).

Receba o testemunho da Palavra de Deus concernente à miséria do estado de não-regeneração, a malignidade disso, e a absoluta necessidade da regeneração. Receba este testemunho a respeito de Deus, como Aquele Santo e Justo que Ele é. Examine os seus caminhos através disto; a saber, os pensamentos de seu coração, as expressões de seus lábios, e o sentido de sua vida.

Olhe para trás através dos vários períodos de sua vida, veja os seus pecados a partir dos preceitos de Deus, e aprenda, a partir das ameaças destes, que você é responsável devido a estes pecados.

Pelo auxílio da mesma Palavra de Deus, veja a corrupção de sua natureza. Sendo estas coisas profundamente enraizadas em seu coração, eles podem ser a semente do temor e sofrimento, devido ao estado de sua alma, que são necessários para preparar e incitar você a buscar o Salvador. Fixe os seus pensamentos nEle, oferecido a você no Evangelho, como plenamente apropriado ao seu caso; tendo, pela Sua obediência até a morte, satisfeito perfeitamente a justiça de Deus, e conduzido em justiça eterna. Isto talvez ponha à comprove a semente da humilhação, anseio, esperança e fé; e incline você a estender a mão mirrada em direção a Ele, ao Seu próprio comando.

Permitam que estas coisas adentrem profundamente em seus corações, e os aperfeiçoe diligentemente. Lembre-se, seja quem você for, você precisa nascer de novo; ou então teria sido melhor que você nunca tivesse nascido. Pelo que, se algum de vocês viverá e morrerá em um estado não regenerado, você será inescusável, tendo sido bastante alertado sobre o seu perigo.

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♦ Fonte: EternalLifeMinistries.org | Título Original: “Ye Must Be Born Again” 
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Rebeca Almeida | Revisão por William Teixeira


Não é Judeu o que o é Exteriormente – Robert Murray M’Cheyne

“Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus” (Romanos 2:28-29).

A formalidade é, talvez, o pecado mais constante da mente humana. Ela pode ser encontrada entre todas as religiões; reina triunfante em cada mente natural; e ela constante-mente tenta voltar a usurpar o trono no coração de cada filho de Deus. Se fôssemos buscar a prova de que o homem caído está “sem entendimento”, que ele completamente caiu de sua primitiva clareza e dignidade de inteligência; que ele perdeu totalmente a imagem de Deus, no conhecimento, depois que ele foi criado; chamaríamos a atenção para esta estranha, irracional presunção, pela qual mais da metade do mundo está iludida para a sua ruína eterna; que Deus pode ser satisfeito com meras prostrações corporais e serviços; que é possível adorar a Deus com os lábios, quando o coração está longe dEle. É contra esse erro, o constante erro que assedia a humanidade, e preeminentemente erro que assedia a mente Judaica, a qual Paulo dirige as palavras diante de nós; e é muito notável que ele não condescende para discutir o assunto. Ele fala com toda a determinação e com toda a autoridade de alguém que não ficava atrás do próprio primeiro dos apóstolos, e ele coloca isso como uma espécie de primeiro princípio para o qual todos os homens de inteligência comum, previsto que ele sobriamente analisará a questão, devem ceder ao seu assentimento imediato, que “não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus”.

No seguinte discurso mostrarei mui brevemente, primeiro, que as observâncias externas não são de nenhum proveito para justificar o pecador; e, segundo, que as observâncias externas nunca podem permanecer no lugar da santificação para o crente.

 

I. As observâncias externas não são de nenhum proveito para justificar o pecador.

Em um discurso anterior tentei mostrar vários dos refúgios de mentiras para os quais a alma despertada correrá, antes que ela possa repousar persuadida a recorrer por si mesma à justiça de Deus; e em cada um deles, vimos que aquele que se cercou com faíscas de sua própria lenha, recebeu apenas isto da mão de Deus: deitar-se em tristeza. Primeiramente, a alma geralmente se contenta com pequenas visões da lei Divina, e diz: “Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade” [Mateus 19:20], mas quando a espiritualidade da lei se revela, então ela tenta escapar, minando toda a estrutura da lei; mas, quando isso não funciona, ela voa para as suas virtudes passadas, a fim de equilibrar as contas com os seus pecados; e então, quando isso também falha, ela começa uma obra de auto-reforma, a fim de subornar as tolices da juventude pelas sobriedades da velhice. Ai! Quão vãos são todos esses artifícios, inventados por um coração cego, instigados pelo inimigo maligno das almas.

Mas há outro refúgio de mentira, que eu ainda não descrevi, e para o qual a mente despertada muitas vezes recorre com avidez, a fim de encontrar a paz por causa dos chicotes da consciência e os azorragues da lei de Deus; e este é: uma forma de piedade. Ele se tornará um homem religioso, e certamente pensará que isso irá salvá-lo. Todo o seu curso de vida é agora alterado. Antes que isso ocorresse, ele negligenciou as ordenanças exteriores da religião. Ele não costumava se ajoelhar ao lado da cama; ele nunca costumou reunir seus filhos e servos ao redor dele para orar; ele nunca teve o costume de ler a Palavra em secreto, ou em família; ele raramente foi à casa de Deus, em companhia com a multidão que guardava o dia santo; ele não comia aquele pão que para o crente, é verdadeira comida, nem bebia do cálice que é verdadeira bebida.

Mas agora, todos os seus costumes são revertidos, todo o seu curso é alterado. Ele se ajoelha para orar, mesmo quando está sozinho; ele lê a Palavra com regularidade periódica; ele ainda levanta um altar para sacrifício da manhã e da tarde por sua família; seu semblante sóbrio sempre é aguardado em sua posição habitual na casa de oração. Ele olha para trás, agora, para o seu batismo com complacência e serenidade, e senta-se para comer o pão dos filhos à mesa do Senhor. Seus amigos e vizinhos todos observam a mudança. Alguns fazem uma brincadeira com ele, e para outros ele se torna motivo de alegria; mas uma coisa é óbvia, que ele é um homem transformado; e ainda assim, está longe de ser óbvio que ele é um novo homem, ou um homem justificado. Toda essa rotina de exercício corporal, se for iniciada antes que o homem esteja revestido da justiça Divina, é apenas outra maneira de buscar estabelecer a Sua justiça própria, para que ele não seja constrangido a se submeter a revestir-se da justiça de Deus. Não, tão completamente pervertido é o entendimento do não-convertido, que muitos homens são encontrados a perseverar em tal curso carnal de culto a Deus, enquanto, ao mesmo tempo, tão diligentemente perseveram em algum curso de iniquidade deliberada ou secreta.

Tais homens parecem considerar a observância exterior, não apenas como uma expiação pelos pecados passados, mas como um preço pago para comprar uma licença para pecar no futuro. Tal parece ter sido o refúgio de mentira, em que a pobre mulher de Samaria de bom grado teria se assentado, quando o bendito viajante, sentado ao lado do poço, despertou todos os anseios de seu coração, pelas palavras de investigação: “Vai, chama o teu marido, e vem cá” [João 4:16]. Sua mente ansiosa procurou aqui e ali por um refúgio, e encontrou. Onde? Em suas práticas religiosas “Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar” [João 4:20]. Ela empurra para longe a severa convicção de pecado por uma questão de suas observâncias externas; ela muda da ansiedade sobre a alma na ansiedade sobre o lugar onde se deve adorar; se deve ser no Monte Sião ou no Monte Gerizim. Oh! Se Ele somente resolvesse essa questão; se Ele somente dissesse a ela em qual destas montanhas Deus deve ser adorado, ela estaria disposta a adorar por toda a sua vida naquele lugar privilegiado. Se Sião fosse o lugar, ela deixaria a montanha nativa e adoraria ali, para que isso pudesse salvá-la. Oh! De quão bom grado ela teria encontrado aqui um refúgio para a sua alma ansiosa. Com que bondade Divina, então, o Salvador varre este refúgio de mentira, com a resposta: “Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai”, “Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” [João 4:21,24].

Agora é com o mesmo objeto, e com a mesma bondade, que Paulo aqui varre o mesmo refúgio de mentira de todas as almas ansiosas, com estas palavras decisivas: “porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus”.

Existe alguns de vocês a quem Deus despertou do sono mortal da mente natural? Ele tem retirado as cortinas, e feito a luz da verdade cair sobre o seu coração, revelando a verdadeira condição de sua alma? Ele fez você começar com os seus pés alarmados, para que você possa ir e prantear, enquanto você segue a buscar o Senhor, o seu Deus? Ele te fez trocar o despreocupado sorriso de alegria pelas lágrimas de ansiedade, e as gargalhadas da tolice, pelo brado de amarga angústia em relação à sua alma? Você está perguntando pelo caminho para Sião com o rosto dirigido para lá? Então, tome cuidado, eu te suplico, de sentar-se contente neste refúgio de mentira. Lembre-se de que não é um Judeu quem o é exteriormente; lembre-se que nenhuma observância exterior, nem orações, ou ir à igreja, ou leitura da Bíblia, jamais podem justificar-lhe diante dos olhos de Deus.

Estou bem ciente de que, quando a ansiedade pela alma adentra, então a ansiedade para assistir as ordenanças também adentrará. Assim como o cervo ferido vai além do rebanho, para sangrar e chorar sozinho, assim a alma ferida pelo pecado afasta-se de seus companheiros alegres, a prantear, e ler, e orar, sozinha. Ela desejará a Palavra pregada, e ansiará por mais e mais, mas lembre-se, ele não encontra a paz nesta mudança que opera em si mesmo. Quando um homem vai com sede ao poço, sua sede não é dissipada apenas indo ali. Pelo contrário, é aumentada a cada passo que ele segue. É pelo que ele retira do poço que sua sede é satisfeita. E exatamente assim, não é pelo mero exercício corporal da espera nas ordenanças que você alcança a paz; mas por meio de provar a Jesus nas ordenanças; cuja carne é verdadeira comida, e seu sangue, verdadeira bebida.

Se alguma vez, então, você estiver tentado a pensar que você está certamente seguro para a eternidade, porque tem sido levado a modificar o seu tratamento das ordenanças exteriores da religião, lembre-se, eu te suplico, da parábola da festa de casamento, onde muitos foram chamados; muitos foram convidados a entrar, mas poucos foram encontrados tendo as vestes de casamento. Muitos são trazidos dentro dos limites de ordenanças, e leem, e ouvem, isso pode ocorrer, com considerável interesse e ansiedade sobre todas as coisas que estão preparadas, as coisas do reino de Deus; mas destes muitos, poucos são persuadidos a abominarem os seus próprios trapos imundos, e a colocarem a veste de casamento da justiça do Redentor. E somente esses poucos devem sentar-se calmos a participar da festa, na alegria de seu Senhor; o restante ficará sem palavras, e serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro, pranto e ranger de dentes. Você pode ler a Bíblia e orar sobre ela até morrer; você pode esperar pela Palavra pregada todos os dias de Sabath, e sentar-se a cada sacramento até morrer; no entanto, se você não encontrar a Cristo nas ordenanças, se Ele não se revelar à sua alma na Palavra pregada, no pão partido e do vinho derramado; se você não for levado a unir-se a Ele, a olhar para Ele, crer nEle, a clamar em adoração interior: “Meu Senhor, e meu Deus”; “quão grande é a sua bondade! quão grande é sua formosura”; então a observância exterior das ordenanças é completamente inútil para você. Você veio para o poço da salvação, mas foi embora com o cântaro vazio; e, embora você possa estar agora orgulhoso e prepotente de seu exercício físico, você encontrará naquele dia que isso de pouco aproveitou, e que você ficará sem palavras diante do Rei.

 

II. As observâncias externas nunca podem permanecer no lugar de santificação para o crente.

Se é uma coisa comum para as mentes despertadas o buscar paz em suas observâncias externas, para fazer um “Cristo” delas, e descansar nelas como seus meios de aceitação diante de Deus, também é uma coisa comum para aqueles que foram trazidos a Cristo, e desfrutam da paz da crença, que coloquem meras observâncias externas no lugar do crescimento em santidade. Cada crente no meio de vocês sabe de quão bom grado o velho coração interior de vocês substituiria a audição de sermões, e a repetição de orações, no lugar daquela fé que opera pelo amor, e que vence o mundo. Agora, a grande razão pela qual o crente é muitas vezes tentado a fazer isso é que ele ama as ordenanças. Almas não-convertidas raramente se deliciam com as ordenanças de Cristo. Elas não veem em Jesus nem beleza nem formosura, elas escondem seus rostos dEle. Ora, vocês devem perguntar, então, eles não se deleitam em oração a Ele continuamente, em louvá-lO diariamente, em bendizê-lO? Por que vocês devem se maravilhar que a palavra da cruz é loucura para eles, que Seus tabernáculos não são amáveis aos seus olhos, para que eles abandonem suas assembleias juntamente? Eles nunca conheceram o Salvador, eles nunca O amaram; como, então, eles poderiam amar os memoriais que Ele deixou?

Quando vocês estão chorando pelo monumento cinzelado de um amigo que partiu, vocês não se admiram que a multidão descuidada passe sem uma lágrima. Eles não conheciam aquelas virtudes de seu amigo que partiu, eles não conhecem o perfume de sua memória. Exatamente assim, o mundo não se importa com a casa de oração, a água aspergida, o pão partido, o vinho derramado; pois nunca conheceram a excelência de Jesus. Mas com os crentes acontece algo muito diferente. Vocês foram Divinamente ensinados sobre a sua necessidade de Jesus; e, portanto, vocês se deleitam em ouvir a pregação sobre Cristo. Vocês já viram a beleza de Cristo crucificado; e, portanto, vocês amam o lugar onde Ele está visivelmente. Vocês amam o próprio nome de Jesus, é como unguento derramado; portanto, vocês podem juntar-se para sempre na melodia de Seus louvores. O dia de Sabath, sobre o qual vocês uma vez disseram: “Que canseira!” E, “Quando passará [...] para vendermos o grão”, é agora “deleitoso” e “honroso”, o dia mais doce de todos os sete. As ordenanças, que antes eram uma rotina maçante e enjoativa, agora são verdes pastos e águas tranquilas para a sua alma; e, certamente, esta é uma mudança bem-aventurada. Mas ainda assim, vocês estão no corpo, o céu ainda não está ganho, Satanás está em derredor; e uma vez que ele não pode destruir a obra de Deus em sua alma, contudo ele tenta estraga-la. Ele não pode conter o curso; portanto, ele tenta desviá-lo. Ele não pode reter a seta de Deus, e, portanto, ele tenta fazê-la desviar, e gastar a sua força em vão. Quando ele descobre que vocês amam as ordenanças, e é em vão tentá-los a abandoná-las, ele permite que vocês as amem: sim, ele ajuda vocês a amá-las cada vez mais. Ele se torna um anjo de luz, ele ajuda na decoração da casa de Deus, ele joga em torno de seus serviços uma beleza fascinante, apressa-lhes de uma casa de Deus para outra, de reuniões de oração à pregação do sermão, de sermões para os sacramentos. E por que ele faz tudo isso? Ele faz tudo isso apenas para que ele possa fazer disso toda a vossa santificação, para que as ordenanças exteriores sejam tudo em toda a sua religião, para que, em sua ansiedade de preservar a aparência, vocês possam deixar a essência.

Se houver um de vocês, então, em cujo coração Deus tem feito a surpreendente mudança de transforma-lo da aversão a amar as Suas ordenanças, deixe-me suplicar-te para ser zeloso de seu coração com zelo piedoso. Pare nesta hora, e veja se, na sua pressa e busca ansiosa das ordenanças, você não deixou o exercício dessa santidade, sem a qual os decretos são bronze que soa e como o címbalo que retine. Eu tenho uma mensagem de Deus para ti, está escrito: “Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus”. Não é um cristão quem o é exteriormente, nem é este batismo o que é meramente o lavar exterior do corpo, mas é um cristão quem o é interiormente, e verdadeiro batismo é o do coração, quando o coração é lavado de toda a imundícia da carne e do espírito; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus.

Lembre-se, eu te suplico, que as ordenanças são meios para um fim; elas são trampolins, pelo qual você pode chegar a um lugar de descanso. A sua alma está assentada nas ordenanças, e dizendo: É o suficiente? Você está tão satisfeito que você possa desfrutar das ordenanças de Cristo, que você não deseja realizações mais elevadas? Lembre-se da palavra que está escrita: “Este não é o seu descanso”. Você não diria ser um viajante tolo aquele que considerasse todas as pousadas a que ele veio como a sua casa; quem assume o seu descanso permanente, e em vez de preparar-se para a difícil jornada no dia seguinte, deve começar a considerar a facilidade e prazer da casa como seu tudo? Acautela-te, que você não seja esse viajante tolo. As ordenanças são destinadas por Deus para serem apenas pousadas e refeitórios onde o viajante rumo a Sião, cansado de fazer o bem, e fraco na fé, pode valer-se dele para ficar por uma noite, de forma que, sendo revigorado com pão e vinho, ele possa, com novo entusiasmo, avançar em sua jornada para casa, como sobre asas de águias.

Tomem, então, esta regra de vida junto com vocês, fundada sobre estas benditas palavras: “Porque não é judeu o que o é exteriormente”, de forma que se a sua religião exterior está ajudando em sua religião interior, se a sua audição de Cristo no dia de Sabath faz você crescer mais semelhante a Cristo por toda a semana, se as palavras de graça e alegria que você bebe na casa de Deus, levam seu coração a amar mais, e sua mão a fazer mais, então, e somente então, você está usando as ordenanças de Deus corretamente.

Não há uma alma mais miseravelmente enganada no mundo do que a alma dentre vós que, como Herodes, ouve o evangelho pregado com prazer, e ainda, como Herodes, vive em pecado. Você ama o dia de Sabath, você ama a casa de Deus, você gosta de ouvir Cristo pregado em toda a sua gratuidade e em toda a sua plenitude; sim, você acha que poderia ouvir para sempre se somente Cristo fosse o tema; você gosta de estabelecer-se em sacramentos, e comemorar a morte do seu Senhor. E isso é tudo; isso é toda a sua santidade? A sua religião termina aqui? Isso é tudo o que crer em Jesus fez por você? Lembre-se, eu te suplico, que as ordenanças de Cristo não são meios de entretenimento, mas meios de graça; e embora seja dito que os viajantes no vale de Baca cavaram poços, que foram preenchidos com a chuva do alto, ainda também é dito: “Vão indo de força em força” [Salmos 84:7]. Despertem, então, meus amigos, e não permitam mais que seja dito sobre nós, que nossa religião se limita à casa de Deus e ao dia de Sabath. Vamos tirar água com alegria desses poços, apenas a fim de que possamos viajar pelo deserto com alegria e força, o amor e esperança, abençoados para nós mesmos, e uma bênção para todos ao nosso redor. E se falamos, assim, para aqueles de vocês cuja religião não parece ir mais longe do que as ordenanças, que diremos para aqueles de vocês que contradizem o próprio uso e fim das ordenanças em suas vidas? É possível que vocês possam deliciar-se com o mundanismo, e vaidade, e cobiça, e orgulho, e luxúria? É possível que os próprios lábios, que são tão dispostos a cantar louvores, ou a se juntar em orações, também estejam prontos para falar palavras de malícia, maldade, inveja, amargura? Despertem, nós vos rogamos; não somos ignorantes dos ardis de Satanás. Para vocês, ele tem se tornado um anjo de luz.

Lembrem-se, está escrito: “Se alguém entre vós cuida ser religioso, e não refreia a sua língua, antes engana o seu coração, a religião desse é vã. A religião pura e imaculada para com Deus e Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo” [Tiago 1:26-27]. “Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus”. Amém.

 

 Sermão pregado perante o Presbitério de Dundee,
2 de Novembro de 1836. 

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♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título original: Not a Jew Which is One Outwardly
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


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