Graça e Paz Multiplicadas Pelo Conhecimento de Deus e de Jesus, Nosso Senhor – Arthur Walkington Pink

“Graça e paz vos sejam multiplicadas, pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor; visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude.” (2 Pedro 1:2-3)

Nenhum estudo aprofundado das orações dos apóstolos, ou das orações da Bíblia como um todo, seria completa sem um exame das bênçãos com que os apóstolos (com exceção de Tiago), antecederam as suas epístolas. Essas saudações iniciais eram muito diferentes do mero ato de cortesia, como quando o comandante dos soldados Romanos em Jerusalém escreveu uma carta nestes termos: “Cláudio Lísias, a Félix, potentíssimo presidente, saúde” (Atos 23:26). Os seus discursos introdutórios eram muito mais do que uma formalidade cortês, sim, do que as expressões de um desejo gentil. Sua “Graça a vós e paz” era uma oração, um ato de adoração, em que Cristo era sempre abordada em união com o Pai. Isso significa que um pedido por essas bênçãos foi feito diante do trono. Tais bênçãos evidenciavam a afeição calorosa que os apóstolos tinham por aqueles a quem escreveram, e demonstravam os seus desejos espirituais em nome deles. Ao colocar estas palavras de bênção no início de sua epístola, o apóstolo Pedro manifesta poderosamente como seu próprio coração foi afetado pela bondade de Deus para com seus irmãos.

Aquilo que agora envolve a nossa atenção pode ser considerado sob os seguintes tópicos. Primeiro, olharemos para a essência da oração: “graça e paz”, essas são as bênçãos suplicadas a Deus. Em segundo lugar, devemos ponderar a medida desejada de sua concessão: “vos sejam multiplicadas”. Em terceiro lugar, contemplaremos o meio de sua comunicação: “pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor”. Em quarto lugar, examinaremos o motivo que levou o pedido: “Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade” (v. 3). Antes de preencher esse esboço ou fazer uma exposição desses versículos, apontaremos o que está implícito por meio desta oração (especialmente para o benefício de jovens pregadores, para quem é especialmente vital aprender como um texto deve ser ponderado)

As Implicações Vitais desta Bênção

Na busca do apóstolo por Deus quanto a tais bênçãos como estas para os santos, as seguintes lições vitais são ensinadas por implicação: (1) que ninguém pode merecer qualquer coisa das mãos de Deus, pois a graça e mérito são opostos; (2) que não pode haver paz verdadeira à parte da Divina Graça “Não há paz para os ímpios, diz o meu Deus” (Isaías 57:21). (3) que, mesmo o regenerado permanece em necessidade, constante precisão, da graça de Deus; e (4) o regenerado, portanto, deve ser vil aos seus próprios olhos. Se quisermos receber mais de Deus, então devemos apresentar os nossos corações a Ele como vasos vazios. Quando Abraão estava prestes a fazer súplica ao Senhor, ele humilhou a si mesmo como “pó e cinza” (Gênesis 18:27); e Jacó reconheceu que ele não era digno da menor de Suas misericórdias (Gênesis 32:10). (5) Tal pedido como o que Pedro está fazendo aqui é uma confissão tácita da total dependência dos crentes sobre a bondade de Deus, de forma que somente Ele é capaz de suprir as suas necessidades. (6) Ao pedir que a graça e paz fossem multiplicado a eles, o reconheci-mento é feito que não só o início e continuidade deles, mas também o seu crescimento procede da boa vontade de Deus. (7) Por isso, intimação é dada: “abre bem a tua [nossa] boca” (Salmos 81:10) para Deus. Sim, é um mal sinal o contentar-se com pequena graça. “Nunca foi bom aquele que não deseja crescer mais”, diz Manton.

 O Caráter Especial da Segunda Epístola

Uma palavra também precisa ser dito sobre o caráter do livro em que esta oração particular é encontrada. Como toda segunda Epístola, esta trata de um estado de coisas em que o falso ensino e apostasia tinham um lugar mais ou menos proeminente. Uma das principais diferenças entre as duas epístolas é esta: enquanto que em sua primeira Epístola, o propósito principal de Pedro era fortalecer e confortar os seus irmãos em meio ao sofrimento a que estavam expostos devido ao mundo profano (pagão) (veja o capítulo 4), e ele agora graciosamente os adverte (2 Pedro 2:1; 3:1-4) e confirma (2 Pedro 1:5-11; 3:14) contra um perigo pior do que o mundo professo, a partir daqueles dentro da Cristandade, o qual os ameaçava. Em sua primeira Epístola, Pedro tinha representado o seu grande adversário, o diabo, como um leão que ruge (1 Pedro 5:8). Mas aqui, sem nomeá-lo diretamente, ele retrata Satanás como um anjo de luz (mas, na realidade, a serpente sutil), que já não está perseguindo, mas buscando corrompê-los e envenená-los por meio de falsos ensinamentos. No segundo capítulo, esses falsos mestres são denunciados (1) como os homens que haviam negado o Senhor que os resgatou (v. 1), e (2) como licenciosos (vv. 10-14, 19), que dão liberdade aos seus apetites carnais.

O apóstolo Pedro dirige sua epístola “alcançaram fé igualmente preciosa pela justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” (2 Pedro 1:1, as palavras ordenadas aqui de acordo com o texto grego e VKJ, nota marginal). A palavra fé aqui refere-se a esse ato da alma através do qual a verdade divinamente revelada é salvifícamente apreendida. Sua fé é declarado ser “preciosa”, pois é um dos dons escolhidos de Deus e o fruto imediato do poder regenerador do Seu Espírito. Isto é enfatizado na expressão “alcançaram” (lagchanō, Nº 2975, em Strong e Thayer). É a mesma palavra Grega encontrada em Lucas 1:9: “coube-lhe em sorte entrar no templo do Senhor para oferecer o incenso”. Ela aparece novamente em João 19:24: “Não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ela”. Assim, esses santos foram lembrados de que eles deviam a sua fé salvadora não a qualquer sagacidade superior da parte deles, mas apenas às distribuições da graça. Isso ocorreu com eles, como com o próprio Pedro. A revelação foi feita a eles: não pela carne e sangue, mas pelo Pai celestial (Mateus 16:17). Na distribuição de favores de Deus uma bendita porção havia caído para eles, mesmo “a fé dos eleitos de Deus” (Tito 1:1). Eles a quem Pedro se dirige são os Gentios, e o nós em que ele se inclui são os Judeus. Sua fé tinha por objeto a perfeita justiça de Cristo, seu Fiador, pois as palavras “pela justiça do” são, provavelmente, melhor traduzidas e compreendidas “na justiça do” Divino Salvador.

A Substância da Bênção de Pedro

Tendo assim descrito seus leitores por sua posição espiritual, Pedro acrescenta sua bênção apostólica: “Graça e paz vos sejam multiplicadas”. A combinada bênção apostólica e saudação (que contém os elementos, graça e paz) é essencialmente o mesmo que a empregada por Paulo em dez de suas Epístolas, bem como por Pedro em 1 Pedro. Em 1 e 2 Timóteo e Tito, Paulo acrescentou o elemento misericórdia, como o fez João em João 2. Judas usou os elementos misericórdia, paz e amor. Assim, nós aprendemos que os apóstolos, ao pronunciarem bênçãos ditada pelo Espírito sobre os crentes a quem escreveu, combinaram a graça, a palavra de ordem na era da Nova Aliança (João 1:14,17) com a paz, a distintiva bênção Hebraica. Quem leu o Antigo Testamento com atenção se lembrará com que frequência a saudação “a paz esteja contigo”, ou algo semelhante é encontrada (Gênesis 43:23; Juízes 6:23; 18:6; etc.) “Haja paz dentro de teus muros, e prosperidade dentro dos teus palácios” (Salmos 122:7), clama Davi, enquanto ele contempla com expectativa as bênçãos espirituais e temporais que ele deseja para Jerusalém e, portanto, a favor de Israel (cf. vv. 6, 8, bem como todo o Salmo). Este texto mostra que a palavra paz era um termo genérico para designar o bem-estar. Desde a sua utilização pelo Salvador ressuscitado em João 20:19, concluímos que era um resumo de inclusão de toda bênção. Nas Epístolas e Livro do Apocalipse [...] os termos graça e/ou paz são frequentemente usados ​​em saudações e bênçãos conclusivas. A palavra paz é usada de maneiras diversas por oito vezes (Romanos 16:20; 2 Coríntios 13:11; Efésios 6:23; 1 Tessalonicenses 5:23; 2 Tessalonicenses 3:16; Hebreus 13:20; 1 Pedro 5:14; 3 João 14), seis dessas vezes em maior ou menor proximidade com a palavra graça, que é usada dezoito vezes (Romanos 16:20, 24; 1 Coríntios 16:23; 2 Coríntios 13:14; Gálatas 6:18; Efésios 6:24; Filipenses 4:23; Colossenses 4:18; 1 Tessalonicenses 5:28; 2 Tessalonicenses 3:18; 1 Timóteo 6:21; 2 Timóteo 4:22; Tito 3:15; Filemom 1:24; Hebreus 13:25; 1 Pedro 5:10; 2 Pedro 3:18; Apocalipse 22:21). Obviamente, a cláusula “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja convosco”, ou alguma variação disso, é a mais característica bênção conclusiva empregada pelos apóstolos. À luz da sua compreensão das realidades gloriosas da era do Evangelho (Atos 10, 11, especialmente vv. 1-18), é evidente, por esta bênção, que o apóstolo Pedro vê e abraça tanto Judeus crentes e Gentios crentes, como unidos no compartilhamento da plena bênção de grande salvação de Deus.

Tendo um desejo sincero pelo bem-estar deles, Pedro pediu para os santos as mais preciosas bênçãos que lhes poderiam ser conferidas, para que eles pudessem ser moral e espiritualmente enriquecidos, tanto interna como externamente. “Graça e paz” contém a soma das dádivas do Evangelho e o suprimento de todas as nossas necessidades. Juntas, elas incluem todos os tipos de bênçãos, e, portanto, elas são as coisas mais abrangentes que podem ser solicitadas a Deus. Elas são os mais valiosos favores que podemos desejar para nós mesmos, e para os nossos irmãos! Elas devem ser solicitadas por meio da fé, da parte de Deus nosso Pai, em confiança na mediação e os méritos de nosso Senhor Jesus Cristo. “Graça e paz” são a própria essência, assim como o todo, da verdadeira felicidade de um crente nesta vida, o que explica o desejo do apóstolo de que seus irmãos em Cristo pudessem abundantemente participar delas.

Pedro Ora para que seus Irmãos Cresçam na Graça

A graça não deve ser entendida no sentido do distintivo favor redentor de Deus, pois estes santos já eram objetos desta graça; nem isso deve ser tomado como um princípio espiritual dentro da natureza, pois este foi dado a eles no novo nascimento. Antes, isso se refere a uma maior manifestação da natureza espiritual e semelhança divina que alguém recebeu de Deus e uma dependência maior e mais alegre sobre o Doador (2 Coríntios 12:9). Também se refere aos dons divinos que induzem a esse crescimento. Falando de Cristo, o apóstolo João declara: “E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por [“sobre”, margem da American Standard Version] graça” (João 1:16). Matthew Poole comenta da seguinte forma:

E graça por graça: temos recebido não gotas, mas graça sobre graça; não somente o conhecimento e instrução, mas o amor e a graça de Deus, e os hábitos espirituais, na proporção do favor e da graça que há em Cristo (permitindo nossa pequena capacidades); recebemos a graça livremente e com abundância, tudo a partir de Cristo, e por causa dEle; pelo que vemos o quanto a alma que recebe a graça é obrigada a reconhecer e adorar a Cristo, e pode ser confirmada no recebimento de mais graça, e de esperanças de vida eterna. (itálicos pelo autor)

É evidente a partir de 1 Pedro 4:10 que a graça de Deus é multiforme, sendo dispensada aos Seus santos em várias formas e medidas de acordo com as suas necessidades, mas para a edificação não somente do indivíduo, mas do Corpo de Cristo como um todo (Efésios 4:7-16). No próprio final desta Epístola, Pedro ordena aos seus leitores, dizendo: “Antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo” (2 Pedro 3:18; cf. Efésios 4:15). Assim, vemos a adequação da oração de Pedro, que Deus exerceria ainda mais Sua benignidade para com eles. Vemos também a necessidade da nossa oração, desta mesma forma, para nós mesmos e para os outros.

Assim, vemos que, embora o significado fundamental e referência da graça é o favor redentor de Deus, gratuitamente concedido, ainda assim o termo é frequentemente usado em um sentido mais amplo para incluir todas essas bênçãos que fluem da Sua bondade soberana. Desta forma é que a graça deve ser entendida nas bênçãos apostólicas: a oração para a contínua e crescente manifestação da expressão da boa obra que Ele já começou (Filipenses 1:6). “Graça e paz”. Os dois benefícios são adequadamente unidos, pois um nunca é encontrado sem o outro. Sem graça conciliadora, não pode haver paz sólida e duradoura. A primeira é a boa vontade de Deus para conosco; a última é a Sua grande obra em nós. Na proporção em que a graça é comunicada, a paz é apreciada: a graça santifica o coração; a paz conforta a alma.

Embora a Paz Comece com a Justificação, Ela é Mantida pela Nossa Obediência

A paz é um dos principais frutos do Evangelho, enquanto é recebida em um coração crente, sendo aquela tranquilidade de espírito que advém da sensação de nossa aceitação da parte de Deus. Não é uma objetiva, mas uma paz subjetiva que está aqui em vista. “Paz com Deus” (Romanos 5:1) é fundamentalmente judicial, sendo o que Cristo fez por Seu povo (Colossenses 1:20). Ainda assim, a fé transmite uma resposta à consciência a respeito de nossa reconciliação com Deus. Na proporção em que a nossa fé repousa sobre a paz feita com Deus pelo sangue de Cristo, e de nossa aceitação nEle, será a nossa paz interior. Em e através de Cristo, Deus está em paz com os crentes, e o feliz efeito desta em nossos corações é uma perceptível “justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Romanos 14:17). Mas não estamos em uma capacidade para receber e desfrutar as bênçãos até que nos rendamos ao Senhorio de Cristo e levemos o Seu jugo sobre nós (Mateus 11:29, 30). É necessário, portanto, que Paulo diga: “E a paz de Deus, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine em vossos corações” (Colossenses 3:15). Este é o tipo de paz pelo que apóstolos oraram em favor de seus irmãos. Esta paz é o fruto de uma segurança bíblica do favor de Deus, o qual, por sua vez, vem da manutenção da comunhão com Ele por uma caminhada obediente. É também a paz conosco. Estamos em paz conosco quando a consciência deixa de acusar-nos, e quando nossos afetos e vontades submetem-se a uma mente iluminada. Além disso, inclui a concórdia e amizade com os nossos irmãos em Cristo (Romanos 5:5-6). Que excelente exemplo nos foi deixado pela igreja em Jerusalém: “E era um o coração e a alma da multidão dos que criam” (Atos 4:32).

A Medida de Concessão Desejada: A Multiplicação de Graça e Paz

Graça e paz são a presente herança do povo de Deus, e delas Pedro desejava que eles fruíssem muitíssimo mais do que um simples gole ou prova. Como 1 Pedro 3:18 indica, ele desejava que eles “crescessem na graça”, e que eles fossem cheios de paz (cf. Romanos 15:13); assim, ele fez solicitação nesse sentido. “Graça e paz vos sejam multiplicadas”. Por essas palavras Pedro apela a Deus para visitá-los com ainda maiores e mais abundantes demonstrações de Sua bondade. Ele ora não somente para que Deus possa conceder a eles mais e maiores manifestações da Sua graça e paz, mas também que as fracas capacidades deles compreendessem que o Deus fizera por suas almas poderia ser grandemente ampliado. Ele ora para que uma oferta abundante de graça e de paz seja conferida a eles. Eles já foram os participantes favorecidos desses favores divinos, mas o pedido foi feito por um aumento abundante desses benefícios. As coisas espirituais (ao contrário das materiais) não saciam no gozo delas, e, portanto, não podemos ter em demasia delas. As palavras “paz vos sejam multiplicadas” indicam que há graus de segurança sobre a nossa condição em relação a Deus, e que nós nunca deixaremos de ser dependentes da livre graça. As dimensões deste pedido nos ensinam que é nosso privilégio pedir a Deus, não somente por mais graça e paz, mas por uma ampliação das mesmas, pelo que Deus é mais honrado quando fazemos as maiores solicitações de Sua graça. Se nossos espíritos são estreitados em seu deleite de graça e paz de Deus, é devido à insignificância de nossas orações e nunca por qualquer avareza nEle.

O Meio pelo Qual a Graça e Paz são Transmitidas

“Pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor”. O leitor atento, que não é muito lento em comparar Escritura com Escritura, terá observado uma variação da saudação usada por Pedro em sua primeira epístola (1 Pedro 1:2). Lá, ele orou: “Graça e paz vos sejam multiplicadas”. A adição (“pelo conhecimento de Deus” etc.) feita aqui é significativa, de acordo com a mudança de propósito de Pedro e adequação ao seu objetivo atual. O estudante também pode ter notado que o conhecimento é uma das palavras de destaque desta epístola (veja 2 Pedro 1:2,3,5,6,8; 2:20; 3:18). Devemos considerar também a frequência com que Cristo é designado “nosso Senhor” ou “nosso Salvador” (2 Pedro 1:1,2,8,11,14,16; 3:15,18), pelo que Pedro traça um contraste acentuado entre os verdadeiros discípulos e os falsos professos do Cristianismo, os quais não se submeterão ao cetro de Cristo. Esse “conhecimento de Deus” aqui mencionado não é natural, mas um conhecimento espiritual, não especulativo, mas experiencial. Nem é simplesmente um conhecimento do Deus da criação e da providência, mas de um Deus que está em aliança com os homens através de Jesus Cristo. Isto é evidente a partir de seu ser mencionado em conexão com as palavras “e de Jesus nosso Senhor”. É, portanto, um conhecimento evangélico de Deus que está aqui em vista. Não pode haver conhecimento salvífico, exceto em e através de Cristo, mesmo como o próprio Cristo declarou: “ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mateus 11:27).

Na medida em que esta oração foi para que a graça e paz fossem “multiplicadas” aos santos “pelo [ou no] conhecimento de Deus”, havia uma tácita indicação de que eles tanto manteriam e progrediriam nesse conhecimento. Calvino comenta da seguinte forma:

Através do conhecimento, literalmente, no conhecimento; apenas a preposição en [Nº. 1722, em Strong e Thayer] muitas vezes significa “através de” ou “com”: ainda assim, ambos os sentidos podem se adequar ao contexto. Estou, no entanto, mais disposto a adotar o primeiro. Pois, quanto mais alguém avança no conhecimento de Deus, todo o tipo de bênção aumenta também igualmente, com a percepção do amor Divino.

O conhecimento espiritual e experiencial de Deus é o grande meio pelo qual todas as influências da graça e paz são transmitidas para nós. Deus trabalha em nós, como criaturas racionais de uma forma que está de acordo com a nossa natureza intelectual e moral, com o conhecimento precedendo todo o mais. Assim como não há paz verdadeira à parte da graça, assim não há nenhuma graça ou paz sem um conhecimento salvífico de Deus; e nenhum tal conhecimento de Deus é possível, senão em e através de “Jesus, nosso Senhor”, pois Cristo é o Meio através do qual todas as bênçãos são transmitidas aos membros do Seu Corpo místico. Quanto mais janelas há em uma casa, mais luz solar entra nela; deste modo, quanto maior o nosso conhecimento de Deus, maior é a nossa medida de graça e paz. Todavia, o conhecimento evangélico do santo mais maduro é apenas fragmentário e frágil e, portanto, requer o aumento contínuo pela bênção Divina sobre aqueles meios que foram nomeados para seu aperfeiçoamento e fortalecimento.

A Realização Divina que Moveu Pedro à Oração

“Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude” (v. 3). Nisso o apóstolo encontrou a motivação para fazer a solicitação acima. Foi porque Deus já havia operado tão maravilhosamente nestes santos que ele foi levado a solicitar que Ele continuasse a lidar generosamente com eles. Também podemos considerar este terceiro versículo como sendo trazido para incentivar a fé daqueles Cristãos: uma vez que Deus havia feito tão grandes coisas por eles, eles devem esperar suprimentos mais liberais da parte dEle. Observe que o motivo inspirador foi puramente evangélico, e não legal ou mercenário. Deus havia concedido a eles tudo o que era necessário para a produção e preservação da espiritualidade em suas almas, e o apóstolo desejava vê-los mantidos em uma condição saudável e vigorosa. O poder divino é o fundamento da vida espiritual, a graça é o que a suporta, e a paz é a atmosfera em que ela vive. As palavras “tudo o que diz respeito à vida e piedade” também podem ser entendidas como referindo-se, finalmente, à vida eterna na glória: o direito a ela, uma aptidão para ela, e uma garantia dela, que já haviam sido concedidos a eles.

Finalmente, é essencial para o nosso crescimento Cristão perceber que o conteúdo do versículo 3 deve ser considerado como o fundamento da exortação nos versículos 5 a 7. Assim, o suprimento solicitado no versículo 2 deve ser considerado como a capacitação necessária para toda frutificação espiritual e boas obras. Vamos, então, exercer a maior diligência para permanecer em Cristo (João 15:1-5), tanto em nossas orações e em todos os nossos pensamentos, palavras e ações.

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♦ Este texto é formado pelo Capítulo 10 do Livro A Guide to Fervent Prayer, por A. W. Pink. Editado.
Fonte: Pbministries.org | Título Original: A Guide to Fervent Prayer
As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
Tradução por Amanda Ramalho | Revisão por Camila Almeida


A Vida e os Labores de Patrick Hues Mell – C. Ben Mitchell

[Jornal Founders 76 • Primavera de 2009 • pp. 17-32]

 Como os homens e mulheres de Hebreus onze, existiram Batistas do Sul pouco conheci-dos de nossa geração “dos quais o mundo não era digno” (Hebreus 11:38). Um destes homens era Patrick Hues Mell.

Nascimento e Primeiros Anos

Nascido em 19 de julho de 1814, Patrick era filho do Major Benjamin Mell de Laurel Hill, Georgia, e Cynthia Sumner Mell, da Carolina do Sul. Sabemos pouco sobre os primeiros anos de Patrick, exceto que ele era o segundo de oito filhos. O pai do jovem Patrick era um homem muito rico, “simpático por natureza, e excessivamente generoso” [1]. Ele era tão generoso que que deu a maior parte de sua fortuna, deixando muito pouco à família após a sua morte, em 1828; três anos mais tarde a senhora Mell morreu, deixando Patrick, com dezessete anos, responsável por toda a família.

Sendo ainda um mero jovem inexperiente, ele foi forçado a confiar exclusivamente em seu talento natural para fornecer um meio de sustento para si e para os irmãos e irmãs dependentes. Ele abriu mão do pequeno restante de sua parte da propriedade para o sustento de seus irmãos e irmãs, e começou com a determinação de obter uma boa educação, e, na medida do possível, recuperar a posição social e propriedade que havia sido perdida pela adversidade de seu pai [2].

Neste ponto, Mell começou a sua carreira de acadêmico, que perdurou por toda a sua vida. Aos dezessete anos, ele ensinou em uma escola primária, em uma cabana de madeira com chão de terra em sua cidade natal, Walthourville, Geórgia, (cerca de 50 km ao sudoeste de Savannah).

Embora o pai de Patrick nunca tenha professado o Cristianismo, os primeiros anos de Mell não foram desprovidos de impressões espirituais. Dr. John Jones, um colega de classe, e mais tarde um ministro Presbiteriano, contou sobre a educação de Mell:

Sua mãe era uma mulher de notável individualidade de caráter, intelectual e verdadeiramente uma mulher de Deus, criada no modo estrito do antigo Congregacionalismo, e, sem dúvida, perfeitamente familiarizada com o Breve Catecismo de Westminster [3].

Um Trecho de uma carta da senhora Mell ao seu filho demonstra sua grande preocupação pela alma dele (deve-se notar que por esta altura Mell, evidentemente, tinha aspirações ao ministério do Evangelho):

Meu querido filho:

É tempo de que você e eu devemos nos comunicar com frequência, intimidade e confidencialidade. Se isso não deve ser esperado pelo momento em que você chegou aos quinze anos, quando deve ser procurado? Em uma consideração, eu tenho mais ansiedade, mesmo pavor, em seu nome do que por qualquer um dos meus filhos. Sinceramente, como eu desejo que um filho meu seja ministro, ainda assim tremo com a ideia de educar e dedicar um filho à profissão sagrada sem provas previamente satisfatórias de que a sua alma esteja bem com Deus. Meu coração arde por vê-lo em todos os sentidos da palavra como um verdadeiro Cristão. Você deve exercer um zelo sobre si mesmo, para que as ninharias deste mundo não amorteçam os seus sentimentos sobre as grandes questões; que são: quais são as probabilidades de minha salvação, o que eu fiz ou devo fazer para ser salvo? Lembre-se: os que são de Cristo crucificaram suas paixões e concupiscências, crucifique as suas. [4]

O coração da senhora Mell tanto anelava pela salvação de seu filho, que ela também escreveu a ele no dia seguinte:

Digo isso com ansiedade, e escrevo com temor, mas eu o digo com fervorosas orações pela verdadeira conversão de sua alma a Deus, e com alguma esperança de que Ele ouvirá a petição que tenho me esforçado para oferecer por você há muitos anos. Eu repetirei: Eu nunca poderei consentir que você estude para o ministério até que eu tenha alguma prova satisfatória de que seu coração foi convertido a Deus, em santa coerência e constância de caráter. [5]

A senhora Mell não viveu para ver seu filho convertido, pois em 1831 o Senhor a levou. No entanto, as sementes de suas orações não foram semeadas em vão. No verão de 1832, Mell foi batizado na Igreja Batista do Norte Newport, Liberty County, Georgia, pelo pastor, Josiah Samuel Law. No ano seguinte, devido à beneficência de um cavalheiro rico, George W. Walthour, Mell conseguiu entrar na turma de calouros de Amherst College, em Massachusetts. Vários eventos em Amherst testemunham que, embora batizado, Mell não era convertido.

Em Amherst, as coisas não iam bem entre o menino do Sul e seus mentores do Norte. Um deles, especialmente desagradável para Pat Mell, era um Professor, chamado Fiske. O sangue de Pat ferveu num domingo, quando Fiske estava pregando. Ele fez alguns comentários depreciativos sobre os sulistas. Pat saiu do santuário e foi condenado por conduta desordeira. O problema surgiu novamente quando Pat se recusou a divulgar para o corpo docente os nomes de alguns de seus colegas estudantes que estavam sendo acusados de violar as regras do colégio. Ameaçado de expulsão, ele estava determinado a não se intimidar e se manteve firme até o fim. Embora ele não quisesse ceder, a faculdade decidiu não expulsá-lo [6].

Mas, sem notificar para Mell, Dr. Fiske escreveu ao benfeitor de Pat acusando o jovem Mell de desperdiçar dinheiro, fazendo com que o Sr. Walthour retirasse o seu apoio ao jovem estudante. Assim, Mell não conseguiu mais permanecer em Amherst. Com pouco mais de cinco dólares no bolso, em 1835, Mell andou 25 milhas até Springfield, onde ele foi capaz de garantir uma posição de ensino.

Os próximos quatro anos foram repletos de inquietação para Pat Mell. Mesmo assim, seu espírito dinâmico e senso de humor o guardaram do total desespero. De Springfield ele se mudou para Hartford, Connecticut, onde se tornou diretor associado na Escola East Hartford. Um ano depois, em 1837, Mell voltou para sua casa no Sul e em pouco tempo conseguiu uma diretoria na Escola Perry Mill, em Tatnall County, Geórgia. No ano seguinte, mudou-se para Montgomery County, onde lecionou na escola Ryal até que, em fevereiro de 1839, foi-lhe oferecido o cargo de diretor da Escola Oxford Clássica e de Inglês (que era uma escola preparatória para Emory College).

Conversão e Chamada para o Ministério

Embora incomodado, inquieto e sob pressão por vários anos de trabalho e luta, uma sábia Providência estava assistindo o jovem. Um Deus misericordioso o segurou na palma de Sua soberana mão. Uma carta escrita em fevereiro de 1939, a Josiah Samuel Law, que o batizara oito anos antes, revela que enquanto em Oxford, as orações de sua mãe deram frutos na vida de seu filho.

Reverendo e Prezado Senhor:

Você tem, sem dúvida, estado acautelado por suas próprias observações, e a partir do testemunho de outros, apesar de você não ter recebido nenhuma confissão minha sobre o fato, que tenho sido há alguns anos passados descuidado no que diz respeito aos interesses da eternidade, e um apóstata da fé que eu professei. Quando eu desisti de minha esperança, eu estava ausente do Estado e o informei sobre isso, enquanto eu pensei (erroneamente, desde então fui informado), que havia somente duas maneiras, de acordo com as regras da igreja, pelas quais minha conexão com ela poderia ser dissolvida: uma por uma demissão em situação regular, se eu desejasse unir-me a outro corpo, e outra pela excomunhão. E, eu suponho que a última deve ser administrada somente quando o membro violou quaisquer das regras óbvias de moralidade, ou pelo menos segundo o que a Igreja instituiu para regular sua conduta exterior. Meu objetivo ao escrever-lhe no momento é saber se o meu nome ainda está nos livros da igreja, para que eu possa ser capaz de descobrir qual pode ser o meu dever sob as circunstâncias…

O Senhor lidou misericordiosamente comigo e teve o prazer de trazer-me das distâncias mais terríveis da incredulidade a humilhar-me aos pés da Cruz. E eu acho que posso dizer que tenho a mais firme crença de humildemente descansar em Suas promessas, que Ele, pelo amor de Cristo, perdoou todos os meus pecados. É quase mais do que posso compreender, e quando penso em quem eu sou e o que eu tenho sido e como eu brinquei com este assunto, eu fico cheio de maravilha que eu possa, possivelmente, chegar a um tal estado de espírito a ponto de crer que eu passei da morte para a vida.

Quando eu me uni à igreja, eu ignorava completamente a religião que eu professava. Isso eu digo não para limpar-me da imputação de instabilidade, nem em qualquer medida como uma desculpa, mas como um fato horrível que eu professei crer em um Deus de Quem eu não sabia nada…

Vivendo pela fé em Cristo, lançando mão de Suas promessas e confiando nEle para o seu cumprimento. Embora tenha lido muitas vezes e ouvido mais outras vezes — surpreendente como isso possa parecer-lhe, e não posso surpreendê-lo mais do que a mim mesmo agora —, eu nunca apreendi qualquer ideia como parte do plano do evangelho e, em vez de buscar o testemunho do Espírito de Deus, que pode testemunhar ao meu espírito que eu nasci de novo, eu olhei para os meus próprios sentimentos instintivos para a prova da minha aceitação para com Deus, sentimentos sobre uma história patética, representações teatrais e harmonia de som, desde então produzidos muitas vezes. E eu estava seguro de que tudo estava certo se eu tivesse sucesso em estimular aqueles sentimentos ao levantar de minha cama pela manhã e ao deitar à noite, especialmente se eu pudesse tê-los acompanhado de algumas lágrimas. Essa, Senhor, era a minha religião. Este foi o alicerce de areia em que eu edifiquei, e não foi de se admirar que as ondas do mundo, batendo em minha casa, a derrubassem. Os confortos da religião eram para mim, apenas um nome. Eu buscava a face Deus, e não porque eu O amava, mas porque eu O temia. Eu olhava para Ele não como alguém que podia sorrir para mim e abençoa-me também, mas como um Deus irado que me puniria por meus pecados. Renunciei ao mundo não porque eu vi a sua vaidade em comparação com as coisas eternas, mas porque eu me senti compelido por motivos de segurança; e eu sou obrigado a acreditar — embora eu não consentiria em confessar a mim mesmo na época — que se eu tivesse a garantia de que eu não tinha nada a temer quanto à justa indignação de Deus, eu nunca teria renunciado a eles e me unido ao Seu povo. Assim era o meu estado religioso quando saí de casa para a faculdade. E agora, eu fui colocado em meio a novos cenários e novos associados, a minha atenção e interesse foram absorvidos por outros assuntos. Deus e as coisas da eternidade tornaram-se cada vez menos interessantes para mim, os meus esforços para criar uma boa condição de sentimento tornaram-se cada vez menos árduos, com intervalos frequentes. Da indiferença quanto à salvação de minha alma, eu deslizei por uma corrente imperceptível a um desgosto sobre o assunto, até uma antipatia sobre ele e, finalmente, aberta e alegremente lancei fora as restrições que a minha religião impôs a mim e me enterrei no mundo. A incapacidade de obter aquela mudança de coração que a Bíblia falou, me induziu a questionar sua realidade e a acreditar que a princípio ela teve a sua existência apenas na calorosa imaginação de entusiastas, e então, que era uma fábula engenhosamente inventada por sacerdotes para enganar os símplices e perpetuar o seu poder. E, assim, a Bíblia passou a ser vista como uma impostura e o povo de Deus como enganadores e enganados, e apenas restou para eu consumar a minha incredulidade, o duvidar da existência de um Deus. Sim, com meus olhos virados para o céu, que declaram a Sua glória, e abertos sobre o belo mundo físico em torno de mim, que revela a obra de Sua mão, eu disse em meu coração, e me alegrei por poder dizer que: não há Deus. Mas, meu misericordioso Pai Celestial me perdoou deste pecado.

Quando penso nas terríveis profundezas de incredulidade em que eu lutei, fico cheio de assombro pela longanimidade e misericórdia de Deus, em que Ele, subitamente, não tenha me cortado ou tenha me dado mais dureza de coração e cegueira de espírito para acreditar em uma mentira. E, agora, todo o meu coração estava absorvido nas coisas deste mundo. Deus e a religião não eram cogitados, exceto para serem blasfemados e zombados, mas não abertamente; pois motivos de prudência me levaram a esconder meu estado, para que eu não chocasse as mentes dos homens e, assim, foi posta uma barreira no caminho das minhas perspectivas temporais. A ambição agora tomava posse de toda a minha alma, um desejo de superar meus companheiros em estado mental — não tanto que eu fosse capaz de fazer melhor, a ponto de me poder me destacar para que todos pudessem contemplar. Isso, a saber, um desejo de tornar-me grande no mundo, fora um princípio comigo desde a minha lembrança mais remota, embora eu tivesse o bom senso de esconder isso dos meus conhecidos em geral, e muitas vezes quando eu era um pobre menino destituído até mesmo das necessidades da vida, eu poderia deliciar-me imaginado sobre um futuro de grandeza e triunfo, nas quais eu pudesse ser o ator. Estes eram apenas sonhos, é verdade, mas sonhos que expulsavam de meus pensamentos cada coisa que não ministrava a eles. E no momento em que estou falando sobre a minha mente ter se tornado tão espiritualmente obscurecida, que eu, se pudesse ter conseguido fama, realmente acredito que estaria disposto a renunciar, sem o menor pesar do coração, desde então e para sempre, a todo interesse na expiação de Cristo, cuja existência eu duvidava. Tal era o meu estado, quando há um pouco mais que um ano eu voltei para casa.

Mas, eu estendi isso a um comprimento impróprio. Resta-me relacionar tão brevemente quanto possível, os meios pelos quais os meus pensamentos foram novamente conduzidos para as coisas da eternidade. E aqui eu não tenho nenhum sinal de interposição para relacionar, nenhuma ocorrência para indicar como tendo sido fundamental para despertar-me a um senso de minha terrível condição. Mas aprouve a Deus que eu fosse colocado em uma situação onde eu pude estar frequentemente sozinho; onde, por influência de Seu Espírito Santo, Ele pôde converter meus pensamentos interiores e a voz mansa e delicada da consciência pôde ser ouvida. O mundo, também, anterior a isso, começou a assumir um aspecto mui diferente aos meus olhos. As circunstâncias que aconteciam, as quais me afetaram, e somente elas de fato, e fizeram uma profunda impressão em mim. A experiência me mostrou que o afeto de amigos, mesmo que me desejassem o bem, poderia facilmente ser perdido, e que da parte do mundo, eu tinha a mesma probabilidade de receber censura por aquilo que merecia elogios, como o contrário. Durante a minha ausência da Geórgia, o tempo não dedicado ao exercício das minhas funções fora gasto em diversões ou em companhia daqueles que eu possuía um comando ilimitado, e, assim, os pensamentos sobre a religião não tinham a oportunidade de se introduzirem sobre mim. Mas depois de meu regresso eu me envolvi em negócios, na época, muito contra o meu próprio consentimento, em uma parte do país que está muito mal resolvida, onde não havia um único jovem da minha idade com quem eu poderia me associar; adicionado a isso havia o fato de que eu não estava em condições de ocupar o meu tempo de férias com os livros. Assim, em certas horas, todos os dias, eu estive sozinho, comigo mesmo. Durante estes períodos Deus agradou-Se em estar perto de mim e de induzir uma tal linha de pensamento como a mostrar-me a vaidade das coisas terrenas, e a importância do peso das coisas da eternidade. As objeções que eu sustentava contra a existência de um Deus e sobre a autenticidade das Escrituras, agora que tinha a oportunidade de pensar com calma e sem interrupção, perderam o seu peso. Mais particularmente de modo que eu não tinha oportunidade de assinalar as inconsistências de Cristãos professos, e raramente ouvia o evangelho pregado. Nesta parte de minha experiência não há nada distinto em destaque que eu possa referir como a causa de qualquer resultado do que se seguiu. Comecei dando aulas naquele lugar confessadamente com a crença de que toda a Bíblia era uma fábula e, que mesmo se fosse verdadeira, ela nunca mais receberia a minha atenção. E os meus passos que eram imperceptíveis para mim no momento e não podiam ser rastreados, agora eram levados a renunciar a todas as minhas dúvidas e sentir que, mesmo para mim, a questão tinha um interesse. Porém, não obstante, por mais de um ano eu brinquei com o assunto. Havia aquela dúvida que eu tinha que resolver, aquele mistério para o qual eu tinha que olhar, e eu tentei me satisfazer dizendo que a religião era um assunto que eu não conseguiria entender. Então, talvez cedendo à influência do momento em que me retirava para um lugar privado e tentava orar, um porque eu não recebia uma manifestação milagrosa da presença de Deus no meu coração eu desistiria em desespero e, talvez, no momento seguinte, com um entusiasmo que poderia me surpreender, eu conseguiria unir-me com o insensato ao lançar ridículo sobre a Bíblia e sobra a Religião.

Mas, para não multiplicar as palavras. Eu continuei nesse estado terrível até cerca de três semanas atrás, quando Deus Se agradou em trazer-me como uma criança ao pé da cruz, e fui levado a rogar-Lhe que me salvasse em seu próprio caminho. Eu sei que sou fraco e incapaz de perseverar se eu depender de mim mesmo; mas Cristo é forte e Ele me disse em Sua palavra, que a Sua graça me basta. Permita-me pedir-lhe para fazer parte de suas orações, assim como eu não tenho nenhuma dúvida de que eu já faço. Ore por mim, para que eu não mais me iluda, mas para que eu possa edificar sobre a Rocha Cristo Jesus [7].

E assim, podemos aprender a partir de sua própria pena como a graça redentora alcançou Pat Mell. A prova de que aquela mudança de coração era real veio no desejo de Pat para dar toda as suas forças ao serviço do Rei dos reis e Senhor dos senhores. Certamente as palavras de sua querida mãe ecoavam em sua mente: “Eu nunca poderei consentir que você estude para o ministério até que eu tenha alguma prova satisfatória de que seu coração foi convertido a Deus, em santa coerência e constância de caráter”. O restante da vida de Mell foi uma vívida ilustração de constância e diligência que acompanham um verdadeiro chamado para o ministério. Ao escrever ao Pastor Law sobre as suas aspirações para o ministério da Palavra, Mell reconheceu: “Eu sei que eu não sou apto para o cargo; mas a preparação do coração é com Deus e Ele pode me qualificar para isso” [8]. Esta crença de que só Deus pode qualificar e capacitar um homem para o ministério do Evangelho esteve gravada profundamente no coração de Mell. Em seu primeiro discurso a uma turma de formandos (1843) na Universidade de Mercer, Mell disse:

Seus corações devem ser profundamente imbuídos do espírito do Evangelho. Vocês não devem apenas entender, mas sentir essas verdades; não apenas recomendá-las aos outros, mas amá-las vocês mesmos, e ademais, vocês devem pregá-las e se esforçarem em humilde dependência do auxílio do Todo-Poderoso [9].

Mell também cria que, para alguns homens, ele mesmo, em especial, a formação teológica formal fazia parte dos meios Divinos usados para preparar Seus ministros. Embora mais educação fosse o objetivo de Mell, Deus já estava guiando-o para um ministério e fornecendo-lhe os materiais espirituais e intelectuais necessários para fazer-lhe um homem de Deus e um pregador de grande poder.

No final da primavera de 1840, menos de um ano após o seu chamado, Mell começou a pregar na comunidade Oxford sob a licença de North Newport Church of Liberty County. Durante os dias de semana Mell ensinava na escola preparatória e no Dia do Senhor ele pregava em lugares carentes e em torno de Oxford.

Seu Pastorado e Carreira em Mercer

Em 1840, Mell casou-se com Lurene Howard Cooper, uma de suas ex-alunas da Academia Ryal em Montgomery County, Geórgia. Sua união de 20 anos foi abençoada com oito filhos e um amor que era visto neles tanto na adversidade quanto no sucesso.

Em 17 de fevereiro de 1841, tendo sido fortemente apoiado pelo ex-governador da Geórgia, George M. Troup, P. H. Mell foi eleito para ocupar a cadeira de Línguas Antigas da Universidade de Mercer, então localizada em Penfield, por volta de 35 milhas de Athens. Em outubro do mesmo ano, Mell foi ordenado ao ministério pela North Newport Church, sob a imposição das mãos de B. M. Sanders, W. H. Stokes e Otis Smith (então presidente da Universidade de Mercer). Sua ordenação foi solicitada pela Igreja Batista Greensboro que Mell pastoreou pelos dez anos seguintes. W. H. Stokes pregou o sermão de ordenação a partir do texto de 2 Timóteo 4:2: “Que pregues a palavra”. E, Mell pregou a Palavra. Um contemporâneo disse sobre Mell:

Como pregador Dr. Mell é forte, capaz, argumentativo e doutrinariamente são, mantendo a sua audiência fascinada pela clareza das suas afirmações e a força de seu raciocínio. Seus argumentos, fundamentados em premissas sólidas, chegam a conclusões inevitáveis. Sobre as grandes Doutrinas do Cristianismo e especialmente os (chamados) “cinco pontos” na teologia, ele é especialmente capaz. Sobre as Doutrinas distintivas de sua denominação, ele é particularmente forte e conclusivo, sempre refutando aqueles que colocam-se em oposição a ele [10].

Quando, um ano depois, se dirigiu à turma de graduandos de Mercer, Mell expressou sua avaliação pessoal sobre grande parte da pregação contemporânea:

A demanda pela pregação que animará, de uma vez, todas as faculdades da mente e do coração, é limitada, e lamento confessar que a oferta cai ainda aquém da demanda. As pessoas facilmente se satisfazem, e são conformadas, quando, semana após semana, elas ouvem os mesmos princípios iniciais da doutrina de Cristo exclamados aos seus ouvidos; e o pregador, tomando licença disso, para saciar sua indolência, continua a substituir o som pela substância, e busca criar a mesma inconstância em sua audiência [11].

Mas, para esses jovens pregadores, ele passou a dizer:

Impregnem-se, por si mesmos na mente inesgotável da verdade do Evangelho. Isso é necessário para a sua ampla e permanente utilidade, e, como ministros instruídos, vocês são obrigados a fazê-lo [12].

Os anos do professor Mell em Mercer foram gastos, de modo geral, em utilidade e felicidade. De acordo com o eminente Presidente John Leadley Dagg, sobre Mell, a sua “juventude, saúde e corpo vigoroso o habilitaram a ocupar o cargo de disciplinador com notável sucesso” [13]. Foi enquanto trabalhava como disciplinador da Universidade de Mercer que Mell recebeu dos alunos o apelido de “Velho Pat”. Pode-se pensar que o cargo de disciplinador em uma escola para pastores Batistas seria uma tarefa de relativa facilidade e segurança. Este não foi o caso. Em uma noite o Professor Mell foi despertado pelo barulho de estudantes universitários bêbados na rua de Penfield. Esses alunos, armados com porretes, ameaçaram bater no Professor Mell por expor previamente alguns delitos às autoridades universitárias. Assim que Mell foi capaz de ver seus rostos, ele se anunciou, chamou-os pelo nome, e ordenou-lhes que fossem para os seus quartos e que se dirigissem na manhã seguinte ao escritório do Presidente. Quando ele se virou para ir embora, um dos estudantes lançou o pesado porrete na direção da cabeça de Mell. Passando ao lado de sua cabeça, o porrete atingiu fortemente o seu ombro, paralisando temporariamente o braço de Mell. No dia seguinte, o jovem, sóbrio e percebendo o que fizera, deixou a universidade sem esperar ser expulso.

Em outra ocasião, a vida de Mell foi salva pela pólvora umedecida pela chuva, quando um estudante bêbado colocou uma pistola no peito do “Velho Pat” e puxou o gatilho três vezes. A tarefa de disciplinar não ocorria sem seus perigos. Ainda assim, Mell serviu bem nessa função.

De 1848 até algum momento em 1880, Mell, juntamente com suas responsabilidades de ensino, pastoreou duas, às vezes, três igrejas. Quando em 1857 Mell assumiu o cargo de Professor de Línguas Antigas da Universidade da Geórgia, seu contrato foi feito “com a condição de que seus deveres de professor não interferissem em suas relações com as igrejas que ele pastoreava” [14]. Em 1848, enquanto ainda estava pastoreando a Igreja Greensboro, Mell também assumiu a Bairdstown Church in Green County. Em 1852, ele foi convocado a assumir o comando da Igreja Antioch em Oglethorpe County, também. Percebendo que estas duas últimas igrejas ocupariam todo o seu tempo, ele foi obrigado a desfazer seu pastorado de dez anos em Greensboro.

Mell foi um pastor fiel e capaz, bem como um poderoso pregador. Um dos membros da Igreja Antioch escreve, depois vinte e seis anos de pastorado da Mell ali:

Fiquei impressionado que ao mesmo tempo ele era um pacificador, no melhor e mais pleno sentido do termo. Ele não procurou harmonizar discórdias, deixando alguns pontos do caso despercebidos, outros apenas suavizados ou cobertos para que fermentassem e irrompessem em toda a sua fúria; seu plano era o melhor; cada ponto em disputa era reunido aos seus próprios méritos e sobre princípio, pelo que poderia ser ajustado, e a paz e harmonia asseguradas sobre uma base sólida [15].

Outro disse sobre as suas habilidades pastorais:

Quanto à sua capacidade ministerial e utilidade, o sucesso com que seus esforços foram coroados são respostas suficientes mesmo para as críticas mais exigentes a que o seu ministério pudesse ser sujeito. Como pastor, em minha opinião, eu ainda não encontrei alguém igual. Minha relação amável e respeito por ele, no passado, foram ocasiões para a observação de que eu o admirava, e eu pensei que gostaria ter o mesmo destino que ele após a morte. Em nossos serviços memoriais, eu referia esta declaração, e comentei que meu apego por ele permanecia inabalável, pois os meus amigos consideraram que o meu desejo era ir após ele quando eu morresse, porque eu imaginava que ele estaria muito perto do Salvador, mais próximo em posição, talvez, do que eu esperava que me seria concedido [16].

Mell não era apenas um pastor, disciplinador e professor universitário, mas também um autor. Ele segurava na mão uma pena pronta, cuja tinta fluiu de 1851 até perto de sua morte. O primeiro trabalho escrito de Mell foi o seu tratado sobre a Predestinação e Perseverança dos Santos. Como visto anteriormente, Mell era um expositor capaz e um destemido defensor dos “cinco pontos da teologia”. Sra. D. B. Fitzgerlad, um membro da Igreja Antioch, relembra:

Quando primeiramente convocado a assumir a igreja, Dr. Mell a encontrou em um triste estado de confusão. Ele disse que certo número de membros estava caindo no Arminianismo. Ele amava muito a verdade para soprar quente e frio ao mesmo tempo. Se esta era uma igreja Batista, deveria ter doutrinas peculiares a essa denominação pregadas nela. E com aquela ousadia, clareza e vigor de discurso que o marcava, ele pregou as doutrinas da predestinação, eleição, livre graça, etc. Ele disse que sempre foi o seu empreendimento pregar a verdade como ele a encontrou na Palavra de Deus, e deixar a questão ali, sentindo que Deus tomaria conta dos resultados [17].

Sua razão declarada para escrever Predestinação e Perseverança dos Santos (que apareceu pela primeira vez como uma série de artigos em The Christian Index) era responder a dois sermões impressos, pelo Reverendo Russel Reneau, que fora “amplamente distribuído através de partes da Geórgia e Tennessee, e tinha sido elogiado como uma refutação completa do Calvinismo” [18]. Mell envolveu-se neste debate escrito, porque ele acreditava que o coração do evangelho estava em jogo. Ele não acreditava que ele estava entrando em uma discussão mística sobre alguma controvérsia antiga. Essa era muito mais uma questão de “vida”.

Eu tenho estado pesaroso, por alguns anos passados, por parte de alguns de nossos ministros, em algumas localidades no Sul, com a disposição de renunciar às doutrinas da Graça, em suas ministrações públicas. Enquanto alguns tenham estado totalmente em silêncio sobre elas, e até mesmo as tenham pregado, contudo não ostensivamente, doutrinas não consistentes com elas, outros deram-lhes apenas um assentimento frio e indiferente, e alguns poucos as têm abertamente ridicularizado e denunciado. Isso, em muitos casos, resultou, sem dúvida, em uma carência de informação, e de uma apreensão, por causa disso, que as doutrinas da graça são sinônimas de Antinomianismo [19].

Que Mell não era nenhum formalista frio e que suas doutrinas não o levaram a qualquer tipo de fatalismo é visto em que aprouve ao Senhor enviar avivamento à Igreja Antioch, em 1852-1853. A partir deste avivamento, o segundo tratado de Mell fluíu, Batismo em Seu Modo e Sujeitos.

Esta publicação deve sua existência às seguintes circunstâncias: Durante o mês de agosto do ano passado, o Senhor abençoou a igreja Antioch, da qual eu sou o pastor, com um período de refrigério de Sua presença. Durante seu progresso, tivemos, por quase duas semanas, ocasião diária para administrar a ordenança do batismo. Como é meu costume, eu aproveitei a oportunidade oferecida para abordar as pessoas ao lado da água, sobre o assunto…

Dentro de uma milha de Antioch está situada a Casa de Encontro Metodista, chamada “Centre”. A próxima “Conferência Trimestral”, nomeou o mui estimável senhor Rev. Wm. J. Parks, o Presbítero Presidente, para pregar um sermão sobre o batismo… Isto nunca foi anunciado publicamente, creio eu, mas foi geralmente compreendido, que isto foi uma resposta às minhas observações ao lado da água [20].

 

Além de pregar sobre o assunto do batismo, Rev. Parks também distribuiu, no “Reino de Mell” (como a comunidade passou a ser conhecida), uma série de trabalhos sobre o batismo infantil. Como resultado, as igrejas Antioch e Bairdstown solicitaram, em uma conferência regular de negócios, que Mell publicasse seus “mui instrutivos discursos sobre o assunto do batismo”. Assim, mais uma vez vemos Mell lançado em controvérsia. Dizem-nos que o livro teve uma grande circulação e que foi fundamental para mudar vários Pedobatistas à fé e crença da denominação Batista [21].

Enquanto Mell nunca se desviou um centímetro da defesa da verdade, ele era muito cortês, no entanto, em relação àqueles que divergiam dele. A Escritura diz:

“E ao servo do Senhor não convém contender, mas sim, ser manso para com todos, apto para ensinar, sofredor; instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade” (2 Timóteo 2:24-25).

Que este foi o caso com o Pastor Mell é visto a partir da seguinte descrição, por seu filho:

Entre os que estavam sentados sob o seu ministério por dez, vinte e vinte e cinco anos haviam pessoas de outras denominações que eram tão calorosas e amigáveis como qualquer outro que ele tinha. Alguns irmãos metodistas participavam em todas as reuniões e conferências tão regularmente como aqueles de suas próprias ovelhas, e eram uma fonte de grande deleite para ele. Eles podiam balançar a cabeça com o que chamaram de “doutrina difícil”, mas eles poderiam apertar a mão dele mui cordialmente ao final do sermão e eles solicitavam um compartilhamento de suas visitas, tanto como faziam os membros de seu próprio rebanho [22].

Paulo e Barnabé em Mercer?

Os próximos anos seguintes a 1854 foram tumultuados para Mell, a Universidade Mercer e os Batistas da Geórgia. Em fevereiro de 1854, John Leadly Dagg deixou vir a público que ele pensou que havia chegado o momento em que ele seria liberado da presidência da Mercer. A oposição a este curso surgiu principalmente devido à apreensão sobre a dificuldade que surgiria na escolha de um sucessor [23]. A turbulência surgiu quase profeticamente. Uma declaração proposta sobre a devida razão da resignação de Dagg foi a sua “falta de força”. Dagg imediatamente registradou seu protesto a esta declaração imprecisa [24]. Mell, crendo que o motivo alegado para a demissão de Dagg faria “grande injustiça a um oficial capaz e fiel”, redigiu uma petição assinada por todos os professores (com exceção do Dr. N. M. Crawford, Professor de Teologia) pedindo que Dagg não fosse aposentado por conta de “falta de força”. No entanto, o Conselho de Curadores recebeu a renúncia de Dr. Dagg e logo depois elegeu o Professor Crawford para o cargo de Presidente.

Logo emergiram entre o Professor Mell e o Presidente Crawford uma diferença de opinião a respeito dos deveres pertencentes a cada um, o que resultou em afastamento, e suas resignações foram oferecidas ao Conselho [25].

O fim último desta triste disputa foi semelhante àquela que aconteceu entre Paulo e Barnabé, e resultou na ruptura entre ambos. Dr. Crawford foi reintegrado pela Diretoria; os Professores Mell, Dagg e Hillyer renunciaram; as coisas não começaram a se resolver até que chegou o ano de 1856. Há muito que pode ser dito sobre essa polêmica e muita coisa deve ser considerada conjecturas [26]. É suficiente dizer que o caráter de ninguém foi criticado durante a tempestade, especialmente o de Mell. No calor da batalha, o Professor Mell foi eleito moderador da Associação Batista da Geórgia e foi lhe oferecida a presidência do Mississippi College, a reitoria do Instituto Feminino Alabama, e foi convocado para exercer o pastorado da Primeira Igreja Batista de Savannah; destes, ele aceitou apenas o primeiro.

Depois de sua demissão como professor de Línguas Antigas da Mercer, os estudantes da Universidade ofereceram a seguinte homenagem ao seu amado professor.

Em uma reunião de vinte e nove estudantes da Universidade de Mercer, em Cicernian Hall, na quinta-feira à noite, dia 29 de novembro, as seguintes deliberações foram aprovadas por unanimidade:

CONSIDERANDO a relação agradável que Rev. P. H. Mell tem até agora sustentado com os estudantes da Universidade de Mercer, como professor de Línguas Antigas, sem mais delongas,

Resolvemos, que em sua aposentadoria, ele levará consigo os nossos melhores anelos para a sua felicidade futura e o desejo ardente de que em qualquer esfera que sua porção seja lançada, seu trabalho seja recompensado com o mesmo sucesso eminente que o acompanhou durante o seu vínculo com a Universidade Mercer.

Resolvemos, que, como um testemunho da alta estima e admiração que nós entretemos em relação a ele, tanto como homem quanto Professor laborioso e competente, nós lhe oferecemos um Bastão com a Ponta de Ouro, carregando a inscrição: Prof. P. H. Mell, dos estudantes da Universidade de Mercer.

Resolvemos, que os procedimentos acima devem ser publicados no Temperance Banner, Christian Index, e Tennessee Baptist.

A comoção foi feita, e prevaleceu por unanimidade, de forma que o encontro, no posterior sábado à noite, resolveu-se em uma Comissão como um todo, e en massa, fizeram a apresentação conforme a devida formalidade na residência privada de P. H. Mell [27].

Na Universidade da Geórgia

Enquanto as águas tumultuosas foram acalmadas, um ano se passou. Um pouco ferido pela batalha e certamente mui cansado, Mell foi eleito pelo Conselho de Administração para a cadeira de Línguas Antigas da Universidade da Geórgia, em 11 de dezembro de 1856. Ele ocupou este cargo até 1860, quando ele foi eleito para a cadeira de Ética e Metafísica e feito vice-Reitor da Universidade. Nesse ínterim, Mell foi eleito presidente da Convenção Batista da Geórgia, uma posição que ocupou por um total de 24 anos. Além disso, a Universidade Furman conferiu-lhe o grau de Doutor em Divindade em 1858. Tudo parecia tranquilo neste espaço de três anos, mas em 1860, Mell foi novamente empurrado para a batalha.

A publicação do seu terceiro grande tratado, Disciplina Eclesiástica Corretiva, despertou a ira de um número crescente de Landmarkistas na Convenção Batista do Sul. De acordo com seu filho, Mell foi solicitado por um número de líderes Batistas a “preparar uma obra sobre o tema [da disciplina na igreja] que pudesse dar uma concepção clara da relação existente entre as igrejas e a condição dos membros da igreja” [28]. Primeiramente publicado pela primeira vez como uma série de artigos nos principais jornais Batistas daquela época, Disciplina Eclesiástica Corretiva foi publicado posteriormente em forma de livro pela Southern Baptist Publication Society, em 1860. Embora não haja nada de esplêndido no tratado em si, que poderia levar a pensar que era uma polêmica contra o Landmarkismo e especialmente contra o tratamento recebido por R. B. C. Howell, da Primeira Igreja Batista de Nashville, ainda assim, sendo publicado logo após o problema de Nashville, todos sabiam o alvo em que Mell mirava. A publicação dos artigos de Mell iniciaram um debate jornalístico em quase todos os documentos confessionais do Sul. O Professor A. H. Worrell de Talladega, Alabama, publicou uma série de artigos intitulados “Revisão de Disciplina Eclesiástica Corretiva”, que procurou responder aos argumentos de Mell a partir de uma posição Landmarkista e somente acendeu as chamas da controvérsia. Embora alguns autores, como os homens caídos frequentemente costumam fazer, envolvem-se em assassinato de caráter, Mell permaneceu cortês e tentou sempre dirigir-se à questão, não à personalidade do autor.

Quando um escritor tentou defender a posição Landmarkista tomando verso após verso de seu contexto Bíblico, a única resposta de Mell foi:

Eu vejo que o meu irmão atacou minha última posição e citou certa Escritura para sustentar o seu ponto de vista. Agora pelo curso de raciocínio de meu querido irmão, eu posso provar algo a partir da Bíblia. Posso provar que o irmão deveria se enforcar. A Bíblia não diz “[Judas Iscariotes] retirou-se e foi-se enforcar”? (Mateus 27:5), e ela também não diz: “Vai, e faze da mesma maneira”? (Lucas 10:37); “O que fazes, faze-o depressa” (João 13:27) [29].

Assim, Mell foi um acérrimo defensor dos princípios Batistas e nunca deixou passar a oportunidade de falar a verdade em amor contra o erro. Ele tinha um grande senso do absurdo e ele manteve uma poderosa capacidade de usar a arma de sarcasmo para defender sua posição. A nitidez das armas do sarcasmo e da réplica rápida começaram ainda em seus primeiros anos. Como um jovem garoto, ele conheceu maltrato de seus vizinhos, em um caminho estreito em que um rapaz não permitia que Mell passasse. Ocupando a caminho, o agressor disse: “Eu nunca dei lugar a um tolo”. Mell simplesmente se afastou e respondeu, “eu dei” [30].

No ano seguinte à publicação Disciplina Eclesiástica Corretiva, a Guerra Civil estourou. Sendo um forte simpatizante com o Sul, Mell foi um dos primeiros a oferecer seus serviços para a defesa de sua terra natal. Na abertura da guerra uma companhia de guerreiros foi organizada, chamada de “Voluntários de Mell” (mais tarde, “Fuzileiros de Mell”). Enquanto os preparativos estavam sendo feitos para enviar os fuzileiros para a dianteira da batalha na Virgínia, a esposa de Mell morreu, forçando-o a renunciar a sua comissão. Não somente Mell perdeu sua esposa, mas também em 1862, em Antietam, na batalha mais sangrenta da guerra, Mell perdeu seu filho mais velho, Benjamin. A correspondência entre Mell e a família que assistiu seu filho antes de sua morte é muito comovente.

Mell casou-se em 24 de dezembro de 1861, com Eliza E. Cooper, de Scriven County, Geórgia, e foi pai de seis filhos. Em 1862, Observância do Sabath, foi publicado como um panfleto para ser distribuído entre os soldados.

Em 1863, duas posições muito importantes foram concedidas a Mell. Primeiro, ele foi eleito o coronel de milícias por parte dos cidadãos de Athens, Geórgia, com o objetivo de defender a parte norte do estado da invasão. Uma parte do comitê dos cidadãos de Athens, ao saber que Mell estava sendo considerado para a posição disse: “Ora, ele não sabe nada sobre assuntos militares”. A que outro membro respondeu: “Eu não me importo com isso, eu sou por Mell de qualquer maneira. Pois, um homem que pode administrar quatrocentos Batistas pode fazer qualquer coisa” [31]. O segundo acontecimento na vida de Mell foi sua eleição em 1863 para a presidência de uma denominação que ele ajudou a construir, a Convenção Batista do Sul. Mell, que reuniu-se com outros em Augusta, em 1845, ocupou a presidência da Convenção Batista do Sul por 17 anos. De 1863 a 1886, com exceção de oito anos de ausência por causa de enfermidade, Mell presidiu a convenção [32].

Em janeiro de 1866, com as cicatrizes da guerra gravadas em seu coração, Mell retomou as suas funções na Universidade da Geórgia. Embora não haja espaço aqui para relembrar suas conquistas, tenha certeza, Mell estava convencido de que não poderia haver separação entre o sagrado e o secular para o Cristão. Seus labores na Universidade foram realizados tão diligentemente para o Senhor como o labor que ele assumiu como pastor e líder Batista do Sul.

O Príncipe dos Parlamentares

Na Convenção Batista do Sul de 1867, reunida em Memphis, Tennessee, Mell foi solicitado (por uma resolução feita por J. P. Boyce) para elaborar um manual de prática parlamentar para o uso da denominação. Um ano depois, um Manual de Boas Práticas Parlamentares foi publicado e adotado pela CBS. Tão generalizada foi a aceitação desta obra, que muitos corpos legislativos adotaram o Manual de Mell, inclusive o poder legislativo da Geórgia. Como parlamentar e oficial Presidente do Tribunal, Mell se destacou, tanto que ele assumiu o título de “Príncipe dos Parlamentares”. Em Direito Parlamentar, um texto designado para as classes de autores no Seminário do Sul, F. H. Kerfoot reconhece:

Durante os primeiros dez anos que o autor ensinou esta matéria, usou como seu livro o manual de Práticas Parlamentares, pelo Presidente P. H. Mell. Ele é, em muitos aspectos, um excelente livro. E pode muito bem ser suposto que o uso dele durante tantos anos deve ter deixado sua impressão sobre o professor, e, portanto, sobre as páginas seguintes também [33].

Um visitante na Convenção Batista do Sul de 1866, comentou sobre as habilidades de Mell como parlamentar:

Pensamos que o Dr. Mell é o melhor oficial presidente que já vimos; e ouvimos muitos presentes na Convenção expressarem a mesma opinião. Ele entende perfeitamente os deveres do cargo, e age com aquela deliberação, rapidez e firmeza, mas com gentileza; ele segurava em verificação qualquer um que fosse indisciplinado, e permitia que o membro mais humilde e mais modesto da Convenção ganhasse a atenção do corpo. Nenhuma pressão dos negócios, ou emoção incidia quanto a tais reuniões, quando as perguntas inesperadas surgiam, poderiam, por um momento, desconcertá-lo. Ele impressionou a todos com a sua peculiar aptidão para o cargo que tão graciosamente ocupou [34].

O carisma pessoal de Mell como presidente e oficial ao presidir, foi visto quando:

Em uma certa reunião da Convenção Batista do Sul, Dr. Mell chamou um irmão para presidir o corpo devido a sua ausência temporária. Os negócios prosseguiram corretamente até que alguém fez um movimento que fez muitos levantarem-se, todos clamando pelo reconhecimento da cadeira. O Presidente irremediavelmente bateu na mesa por ordem, ordem, mas não havia nenhuma ordem. Dr. Mell foi enviado por alguém que reconheceu a importância de um homem calmo na cadeira. Ele voltou e tranquilamente assumiu a liderança da cadeira. Ele bateu levemente o martelo na mesa, e de imediato, como que por mágica, a desordem cessou, grupos de membros que formavam toda a casa e estavam conversando animadamente e em voz alta, dispersaram-se e sentaram-se, e o grande corpo se movia de forma suave e ordenada em seu empreendimento, como se fossem alguma grande porção de máquinas sob o controle de seu dono [35].

Talvez tenha sido esta grande popularidade como um parlamentar que tanto ofuscou seus dons e habilidades como pastor e teólogo, o que mais tem impedido de Mell ser conhecido em nossos dias.

O Ataque Nervoso de Mell

Os anos entre 1871 e 1873 foram muito problemáticos para Mell. O peso das igrejas sobre ele, os deveres da Universidade, as responsabilidades denominacionais, sua pena prolífica, tudo isso contribuiu para o que se tornou conhecido como o “ataque nervoso” de Mell. Em agosto de 1871, enquanto pregava em Bairdstown, Mell foi apreendido por um ataque que o deixou prostrado e quase acabou com sua vida. Por mais de um ano, ele foi incapaz de fazer qualquer trabalho ativo. Talvez isso foi um exemplo do que hoje chamamos de burnout ministerial. Muitas vezes Mell foi ouvido dizer: “Deixe-me desgastar, não enferrujar”.

Juntamente com todas as suas responsabilidades e deveres, não foi também seu grande fardo pelas almas dos homens que o levaram ao seu ataque? Vários dias antes de seu ataque debilitante, Mell estava no púlpito da igreja Antioch e pediu:

“Devo eu, deixá-los, como eu vos encontrei, fora de Cristo? Devem todos os meus argumentos, minhas súplicas, minhas orações, serem apenas tantas mós amarradas aos seus pescoços para arrastá-los para baixo rumo à perdição? Minhas palavras são claras. Já vos alertei sobre a justa indignação de Deus. Tenho vos cortejado com a doçura do amor de Cristo”. Levantando os olhos, solenemente, ele disse: “Deus é minha testemunha, não me esquivei de vos anunciar todo o conselho de Deus, mas, oh, como posso deixá-los. Para muitos de vocês, eu sinto, será apenas um pouco de tempo, até que tenhamos uma doce conversa em um mundo melhor, mas para vocês que têm resistido à força do Evangelho por tanto tempo, deverei permanecer em juízo contra vocês?” [36].

Embora impressionado pensando que o momento de sua própria morte estivesse próximo, Mell foi aliviado pela sua utilidade futura. Depois de sofrer por quase um ano, o médico de Mell prescreveu um cruzeiro. Após seu retorno, e com mais um ano de descanso, em 1874, Mell retomou seus labores na Universidade de Geórgia e ambas as igrejas, com ainda mais vigor do que antes.

Talvez essa experiência “atrás do deserto” proporcionou a Mell mais tempo para a oração e meditação, pois em 1876 o sua Doutrina da Oração foi publicada. Dois anos depois, Mell foi eleito Chanceller da Universidade, cargo que ocupou até sua morte em 1888. Sob a sua liderança, os administradores estabeleceram colégios filiais em várias cidades da Geórgia, a fundação de uma escola de tecnologia (agora Georgia Tech) foi aprovada, e uma estação experimental agrícola foi estabelecida. Um contemporâneo disse sobre a obra de Mell na Universidade:

A administração do chanceler Mell foi uma década de prosperidade para a Universidade. Ele trouxe para o ofício a longa experiência como professor universitário, fortes convicções do dever e da política de boa gestão, e a confiança da poderosa denominação a que pertencia [37].

Ao todo, Dr. Mell serviu na Universidade da Geórgia por 22 anos; na presidência da Convenção Batista do Sul por 17 anos, e na Convenção Batista da Geórgia por 24 anos. Seu ministério incluiu muitas igrejas e agências a mencionar, e suas obras escritas circularam amplamente na segunda metade do século XIX.

Doença e Morte

Em 12 de dezembro de 1887, Mell pregou o seu último sermão. Ele falou sobre a doutrina da eleição, a partir de 2 Tessalonicenses 2:13. No décimo quinto dia do mês, ele foi forçado a deixar de lado todos os seus deveres e buscar descanso, na parte sul da Geórgia. Neste dia, ele escreveu ao seu filho:

Minha saúde está ruim. Eu me gastei pelo meu excesso de trabalho. Meu médico me ordena o recesso. Muitos dos curadores exortam-me a descansar durante um mês; mas eu não posso fazê-lo, os meus colegas já estão sobrecarregados, e minhas aulas poderiam ser prejudicadas. Não há descanso para mim, senão na sepultura [38].

No dia vinte e seis de janeiro de 1988, Patrick Hues Mell encontrou seu descanso eterno nos braços de Seu amado Pai Celestial. Três dias antes de sua morte, ele foi ouvido dizer: “Tenho sido um maravilhoso filho da Providência, se não for da graça” [39]. Seu filho lembrou das últimas horas de Dr. Mell:

Em intervalos, ele dizia: “Eu entrego a minha alma para Deus em Cristo Jesus — a Deus seja a Glória”. “Uma vez que eu estive morto, mas agora estou vivo. No outro mundo eu sou totalmente compreendido e plenamente apreciado — totalmente compreendido e plenamente apreciado”. Ele proferiu estas palavras exatamente como escritas — repetindo a última parte da sentença. Parecia que aqueles que o assistiam foram autorizados a penetrar o véu que paira entre este e o outro mundo, e que ele realmente viu o sorriso compreensivo e de aprovação no rosto de seu amado Mestre.

Pouco antes de sua última respiração, ele disse: “Quase em casa?”. E fez um esforço para dizer algo mais, porém não conseguiu. Em seguida, ele tentou cruzar os braços sobre o peito e morreu tranquilamente — adormeceu nos braços de Jesus, por Quem ele havia combatido uma luta valorosa, e no final de longos anos de vida útil foi levado para o seu galardão [40].

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Notas:
[1] P. H. Mell, Jr., A Vida de Patrick Hues Mell (Louisville, KY: Baptist Book Concern, 1895), 8.
[2] Ibid., 10.
[3] Ibid., 12.
[4] Ibid., 13.
[5] Ibid., 15.
[6] Spencer B. King, Jr., “Patrick Hues Mell: Pregador, Pedagogo e Parlamentar”, História e Herança Batista 5 (Outubro de 1970): 187.
[7] P. H. Mell, Jr., A Vida de Mell, 33-39.
[8] Ibid., 41.
[9] P. H. Mell, “Discurso do Professor Mell, Pregado à Classe de Graduação do Último Dia de Formatura,” The Christian Index, 18 de agosto de 1843, 515.
[10] Samuel Boykin, História da Denominação Batista na Geórgia (Atlanta: The Christian Index, 1881), 382.
[11] “Discurso à Classe de Graduação”, 516.
[12] Ibid.
[13] A Vida de Mell, 48.
[14] Robert Preston Brooks, A Universidade da Geórgia (Athens, GA: The University of Georgia Press, 1956), 69.
[15] A Vida de Mell, 55.
[16] Ibid., 56-57.
[17] Ibid., 58-59.
[18] P. H. Mell, Predestinação e Perseverança dos Santos (Charleston, SC: Southern Baptist Publication Society, 1851; ed. reimp. Forth Worth, TX: The Wicket Gate, 1983), III.
[19] Ibid., IV.
[20] P. H. Mell, Batismo em Seu Modo e Sujeitos (Charleston, SC: Southern Baptist Publication Society, 1853), V.
[21] A Vida de Mell, de 56 anos.
[22] Ibid., 59.
[23] John L. Dagg, “Autobiografia” no Manual de Teologia e Ordem da Igreja (Harrisonburg, VA: Gano Books, 1982, ed. reimp.). 49.
[24] B. O. Ragsdale, História dos Batistas da Geórgia, Volume 1 (Atlanta, GA: O Comitê Executivo da Convenção Batista do Estado da Geórgia, 1932), 1:102.
[25] A Vida de Mell, 77.
[26] Para o cenário completo veja Ragsdale, História dos Batistas da Geórgia, 1:101-117 e Mell, A Vida de Mell, 76-102.
[27] The Christian Index, vol. 34, 13 de dezembro de 1855.
[28] A Vida de Mell, 109.
[29] Ibid., 114.
[30] King, “Pregador, Pedagogo e Parlamentar”, 191.
[31] A Vida de Mell, 144.
[32] É interessante notar que nos anos de ausência de Mell como presidente, J. P. Boyce presidiu a denominação, e também,
no ano da morte de Mell, em 1888, Boyce atuou como presidente da CBS.
[33] F. H. Kerfoot, Direito Parlamentar (Nashville, TN: Broadman Press, 1899), VI.
[34] A Vida de Mell, 153-54.
[35] Ibid., 159.
[36] Ibid., 179.
[37] Robert Preston Brooks, A Universidade da Geórgia, 79.
[38] A Vida de Mell, 249.
[39] Ibid., 249.
[40] Ibid., 251.

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♦ Fonte: Founders.org │Título Original: The Life and Labors of Patrick Hues Mell
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Somente as Igrejas Congregacionais se Adequam aos Propósitos de Cristo na Instituição de Sua Igreja – John Owen

Tendo feito um relato sobre a instituição e a ordem das igrejas evangélicas, que são de Instituição Divina, é necessário que nós também declaremos a sua adequação e suficiência a todos os propósitos para os quais o Senhor Jesus Cristo designou tais igrejas; porque, se há qualquer verdadeiro fim próprio dessa natureza que não pode ser alcançado em ou por qualquer instituição de igreja nesta ou naquela forma, deve-se admitir, então, que nenhuma tal forma é designada por Deus. Sim, é necessário não apenas que tal instituição como pretendida àquela origem divina seja não apenas não contraditória ou inconsistente com tal finalidade, mas que efetivamente conduza a ela, e em sua posição necessária a este propósito. Isso, portanto, é o que buscaremos agora investigar, ou seja, se esta instituição e forma de igrejas evangélicas em congregações individuais são adequadas a todos esses fins para os quais tais igrejas foram designadas; o que elas devem ser em consideração à sabedoria de Jesus Cristo, o seu autor e fundador, ou devem ser completamente descartadas de sua pretensão. Nem há qualquer argumento mais convincente contra qualquer pretensa instituição, regra, ou ordem de igreja do que esta que ser obstrutiva às almas dos homens em alcançar os fins apropriados de sua instituição como um todo. Posto que, de forma geral, o que estes propósitos são já foi anteriormente declarado; eu aqui não os repetirei, ou voltarei a abordá-los, mas apenas destacarei a consideração daqueles que são geralmente pleiteados como não possíveis nesta forma de igrejas em congregações locais, apenas, ou daqueles que pelo menos não são apropriadas à sua finalidade.

 

1. O primeiro destes é o amor mútuo entre todos os Cristãos, todos os discípulos de Cristo. Por discípulos de Cristo refiro-me somente àqueles que professam fé em Sua Pessoa e Doutrina, e O ouvem, ou são guiados por Ele somente, em todas as coisas que referem-se ao culto a Deus, e suas vidas nEle. Se houver alguns chamados Cristãos que nestas coisas escolhem outros guias, chamam a outros ministros, os ouvem em seus apontamentos, nós devemos cortá-los de nossa presente consideração; embora existam importantes funções exigidas de nós em relação a eles também. Mas o que se alega é necessário à constituição de um verdadeiro discípulo de Cristo. Para todos o Seu grande comando é o amor mútuo entre eles mesmos. Isso que Ele chama de uma maneira especial “o Seu mandamento” e “um novo mandamento”; como por outras razões, porque Ele havia dado o primeiro grande exemplo disso em Si mesmo, como também desvelou os motivos para isso e as razões para isso, sobre o que a humanidade anteriormente estava obscurecida até então. E tal peso Ele colocou sobre esse comando, que Ele declara que a manifestação da glória de Deus, Sua própria honra, e a evidência a ser dada ao mundo de que somos Seus discípulos, de fato dependem da nossa obediência a isso.

Expressar e exercitar esse amor, em todos os seus atos e deveres, entre os Seus discípulos, foi uma finalidade de Sua nomeação para que eles andassem em relação de igreja uns com os outros, neste amor que é o vínculo da perfeição. E a perda desse amor, como o de seu devido exercício, não é menos uma perniciosa parte da apostasia fatal das igrejas do que o é a perda da fé e adoração: pois, a esse respeito a Cristandade, como normalmente é chamada, se torna o maior palco de ódio, raiva, ira, derramamento de sangue, e desolações mútuas que há no mundo todo; de modo que não temos nenhuma maneira de responder à objeção dos Judeus ao argumentarem contra nós sobre as promessas Divinas de amor e paz no reino do Messias, mas pela admissão de todas essas coisas surge uma rebelião contra Seu governo e reino. Agora, esse amor em seu exercício é eminentemente preservado nesta finalidade de Igrejas particulares; pois,

(1) O princípio do ajuntamento deles em tais sociedades, além da fé em Cristo Jesus, é o amor para com todos os santos; pois a sua união, sendo com alguns deles, como tais, somente, eles devem ter um amor para com todos os que o são assim. E nenhum deles se ajuntaria em tais sociedades se o seu fazê-lo em qualquer coisa prejudicasse o seu amor por todos os discípulos de Cristo, ou o impedisse em qualquer de suas operações. E a comunhão destas igrejas entre si é, e deve ser, como a que todas elas se constituem como que um só corpo e uma igreja comum; como veremos posteriormente. E é um dever principal delas o estimularem-se, em todos os seus membros, a um exercício contínuo de amor para com todos os santos de Cristo, conforme a ocasião exigir; e se eles são defeituosos nesse amor católico, a culpa é deles, [sendo] contrária à regra e ao propósito de sua instituição.

(2) Para a expressão constante e exercício desse amor são necessários, [1] objetos presentes adequados a todos os atos e deveres do mesmo; [2] A descrição e prescrição desses atos e deveres; [3] Regras para os corretos desempenho e exercício deles; [4] O fim a ser alcançado em seu cumprimento. Todas estas coisas o Senhor Jesus providenciou aos Seus discípulos na constituição e regra dessas igrejas. E o devido atendimento a eles, Ele designou como o exemplo, julgamento e experiência do amor deles por todos os Seus discípulos; ao passo que eles podem pretender tal amor, ainda assim alega-se que eles não sabem como e nem onde se expressa-lo e exercê-lo, especialmente quanto aos variados deveres mencionados na Escritura como pertencentes a isso, Ele providenciou este caminho, em que não se pode ignorar os deveres de amor exigido deles, nem os objetos, normas adequadas, e fins para a sua prática. Exigiria muito tempo discorrer sobre essas coisas em particular. Eu apenas adicionarei (o que é facilmente defensável) que o amor evangélico jamais será recuperado e restaurado em sua glória primitiva até que as Igrejas ou congregações particulares sejam reformadas e convertidas ao exercício do amor sem fingimento que é exigido de todos os seus membros entre si; pois enquanto os homens vivem em inveja e malícia, detestarão e odiarão uns aos outros, ou enquanto eles vivem em uma negligência aberta de todos os deveres que o Senhor Jesus Cristo ordenou para que fossem observados em relação aos membros da sociedade a que eles pertencem, como um penhor e prova de seu amor por todos os Seus discípulos, tal coisa não pode ser alcançada. E assim é na maioria das assembleias locais, que, em meio a suas queixas de violação do amor e união, pela retenção da comunhão de alguns homens em algumas partes do culto divino com eles, ainda, além dos deveres comuns da civilidade e da vizinhança, não conhecem nem praticam qualquer coisa deste amor, alegria e comunhão espirituais que devem haver entre eles, como membros da mesma igreja.

Não nos vangloriamos de quaisquer realizações deste tipo, – nós sabemos o quão pouco alcançamos daquele amor ardente que floresceu nas primeiras igrejas; mas isso dizemos, que não há nenhuma maneira de recuperá-lo, senão por essa instituição e ordem de igrejas particulares que propomos, e, κατὰ τὴν δοθεῖσαν δύναμιν, real aderência a elas.

Mas, pretensões quanto ao contrário são pleiteadas com veemência, e os clamores quanto a este fim são altos e muitos: pois, esta forma, diz-se, de estabelecimento de congregações locais é aquilo que tem causado divisões intermináveis​​, e perdido todo o amor e afeição Cristã entre nós, sendo acompanhados de outras consequências perniciosas, como os adversários mais retóricos disso são malmente capazes de declarar; nem o próprio Tértulo poderia fazê-lo, se ele estivesse ainda vivo; pois, por esse meio, os homens não se encontrando, como costumavam fazer, na administração do sacramento e oração comum, todo o amor é perdido entre eles. Eu respondo:

[1] Essa objeção, tanto quanto eu sou capaz de observar, é maioritariamente gerida por aqueles que parecem saber muito pouco sobre a natureza e deveres daquele amor que o nosso Senhor Jesus Cristo ordena no evangelho, nem dão qualquer evidência considerável de seu viver, andar e agir no poder dele. E, quanto a que eles se imaginam sob esse nome, ao passo que é evidente a partir da prática comum que isso não se estende mais longe, senão até a passividade nas coisas civis e indiferentes, com algumas expressões de bondade em seus folguedos e festins, e outras sociedades joviais, em que não estamos interessados.

[2] Essa objeção reside não contra a coisa em si mesmo, absolutamente – a saber, que todas as igrejas de instituição Divina são congregacionais, o que, somente, é agora pleiteado – mas contra o ajuntamento de tais sociedades ou congregações nessa condição das coisas que agora prevalecem entre nós. Mas, enquanto isso depende de princípios ainda não declarados e confirmados, a consideração desta parte da oposição deve ser encaminhada a outro lugar. Direi apenas no momento, que este é o maior e mais potente motor na mão de Satanás, e dos homens de interesse secular corrupto, para reter toda a reforma da igreja fora do mundo.

[...]

[3] Não encontramos que uma participação conjunta nas mesmas ordenanças, ao mesmo tempo, no mesmo ambiente, é em si mesmo ou um efeito, ou evidência, ou dever do amor evangélico, ou qualquer outro meio para a preservação ou promoção do mesmo; pois isso foi diligentemente observado no Papado, quando todo o verdadeiro amor, fé e adoração evangélicos foram perdidos. Sim, esse tipo de comunhão e colaboração, adicionadas a uma dependência implícita na autoridade da igreja, foram substituídos em seu lugar; e multidões estiveram satisfeitas com elas, como aqueles que as estabelecem em sua negligência a todas as outras graças e seu exercício. E, eu gostaria que não fosse assim entre outros que supõem que eles têm todo o amor que lhes é exigido, se eles estiverem livres de tais variações escandalosas com seus próximos, a ponto de torná-los inadequados para a comunhão.

[4] Se este for o único meio de amor, como os homens o mantém em direção a qualquer um que não seja de sua própria comunidade, considerando que eles nunca se encontram no sacramento da Ceia do Senhor? E se eles podem viver em amor com os de outras comunidades, por que eles não o fazem com aqueles que tendo a mesma fé e sacramentos com eles, encontram-se para o exercício do culto Divino, em tais congregações como as que já descrevemos? Portanto –

[5] A divergência que pretensamente seria causada pela criação destas congregações particulares é uma parte daquela variância que Cristo veio trazer ao mundo: “Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; e assim os inimigos do homem serão os seus familiares” (Mateus 10:34-36). Ele foi o Príncipe da Paz; Ele veio para fazer a paz entre Deus e os homens, entre os próprios homens, Judeus e Gentios; Ele não ensinou nada, ordenou nada que em sua própria natureza tivesse a mínima incoerência com a paz, ou oferecesse semblante de desavença: mas Ele declara o que aconteceria e viria, por meio do pecado, das trevas, da incredulidade e inimizade quanto à verdade, o que continuaria em alguns sob a pregação do evangelho; enquanto outros de seus parentes mais próximos abraçariam a verdade e profissão dele. [...]. A mesma verdade evangélica pregada, os mesmos sacramentos administrados; e considerando que tanto os princípios da forma, e as pessoas deles que se reúnem em corporações distintas para a celebração do culto Divino, conduzem ao amor e à prática do mesmo em todas as suas funções conhecidas, todos os males que ocorrem nesta forma congregacional devem ser cobrados da inimizade, ódio, orgulho e interesse secular dos homens; o que não está em nosso poder sarar.

 

2. Outra finalidade do estabelecimento desta instituição é que a igreja seja a “coluna e firmeza da verdade” (1 Timóteo 3:15), ou seja, que ela deve ser o principal meio exterior de apoio, conservação, declaração pública e propagação da doutrina ou verdade do evangelho, especialmente em relação à Pessoa e ofícios de Cristo; que os apóstolos acrescentam à esta afirmação nas próximas palavras. A instituição de igreja que não corresponde a este propósito não é de instituição Divina; todavia, o ministério daquelas igrejas é eminentemente adequado.

Existem três coisas necessárias para cumprir este dever, ou exigidas para esta finalidade, para que a igreja seja a coluna e baluarte da verdade:

(1) Que ela preserve a verdade em si mesma, e na profissão de todos os seus membros, contra todos enganadores, falsos mestres e erros. Isso o apóstolo dá em encargo especial aos anciãos da igreja de Éfeso, acrescentando as razões disso (Atos 20:28-31). Isto é de uma forma especial confiado aos oficiais da igreja (1 Timóteo 5:20; 2 Timóteo 1:13-14). A isso o ministério dessas igrejas é próprio e adequado. A inspeção contínua que eles têm e devem ter quanto a todos os membros da igreja, adicionado àquela circunspecção e julgamento das doutrinas pregadas por eles mesmos a todo o corpo da igreja, adequa-os para este trabalho. Este é o meio fundamental (em questão, o único meio externo), que o Senhor Jesus Cristo determinou para a preservação da verdade do evangelho neste mundo, em que a Igreja é a coluna e firmeza da verdade. Eu desconheço como isso pode ser feito onde as igrejas adotam aquele modo de agir e constituir que os oficiais delas não podem ter inspeção imediata ou jurisdição tanto sobre o conhecimento, opiniões ou práticas dos membros de sua igreja, nem o corpo da igreja conhece, sobre algum fundamento evidente, o que o seu principal oficial crê e ensina. Por este meio a verdade foi preservada nas igrejas dos primeiros dois séculos, as quais não tinham oficiais, senão os que eram estabelecidos em igrejas locais, de modo que nenhum erro considerável foi introduzido dentre elas.

(2) Que cada igreja cuide para que a mesma verdade seja plenamente conservada, bem como a profissão dela, em todas as outras igrejas. Sua comunhão entre si (e sobre isso, posteriormente) é construída sobre a sua ὁμολογία comum, ou a profissão da mesma fé. Este, portanto, é seu dever, e sempre foi a sua prática, cuidar para que a verdade seja plenamente preservada; pois caso houvesse uma mudança na fé de qualquer um deles, eles sabiam que seria a dissolução da sua comunhão. Portanto, quando qualquer coisa dessa natureza ocorria, assim como houve na igreja de Antioquia na pregação sobre a necessidade da circuncisão e observância da lei, por meio de que as almas de muitos dos discípulos foram subvertidas, a igreja em Jerusalém, ao ser notificada e tomar conhecimento sobre isso, ajudou-os com as suas advertências e conselho. E nos diz Eusébio, que, após a primeira promulgação das heresias e frenesis de Montano, os fiéis, ou igrejas na Ásia, reuniram-se com frequência em diversos lugares para examinar suas pretensões e condenar seus erros; pelo que as igrejas na Frígia foram preservadas (Hist. Eclesiástica, livro V. cap. 14). Assim, o mesmo foi feito depois, no caso de Samosatenus em Antioquia, em que a igreja foi libertada da infecção de sua heresia perniciosa (livro VII. cap. 27, 28, 29). E esse cuidado ainda compete a cada Igreja local, caso ela demonstre ser a coluna e firmeza da verdade. E da mesma maneira Epifânio, relatando sobre a origem da heresia do Noetus, um Patripassiano1, afirma que os santos presbíteros da Igreja o chamaram e perguntaram a opinião dele várias vezes; pelo que, sendo convencido antes do presbitério sobre os enormes erros, ele foi expulso da igreja: “Ἀλλὰ μεταξὺ τούτων (when he began to disperse his errors) ἀπὸ τῆς περὶ αὐτὸν ἐνηχήσεως οἱ μακάριοι πρεσβύτεροι τὴς ἐκκλησίας προσκαλεσάμενοι αὐτὸν ἐξητάζον περὶ τούτων ἁπάντων· — ὁ δὲ τὰ πρῶτα ἠρεῖτο ἐπὶ τοῦ πρεσβυτερίου ἀγόμενος, Epiphanius, Hæres. cont. Noet. Hær [Epifânio, Contra as Heresias]. xxxviii. seção 57.

Assim é que a doutrina da igreja, quanto ao seu conteúdo, foi preservada completa durante os dois primeiros séculos, e um pouco depois. Na verdade, como quando os Israelitas saíram do Egito, veio junto com eles uma “muita mistura de gente” (Êxodo 12:38), que caiu por “cobiçar” a carne quando eles chegaram ao deserto (Número 11:4), para o perigo de toda a congregação. semelhantemente, quando o Cristianismo foi primeiramente pregado e recebido no mundo, além daqueles que abraçaram sinceramente, e foram acrescentados à igreja, havia uma grande mistura de Judeus obstinados, como os Ebionitas; de Gregos filosóficos, como os Valentinianos e Marcionitas; de impostores evidentes, como Simão, o Mago e Menandro; os quais, todos eles, fingiram ser Cristãos, mas caíram em concupiscência, e extremamente perturbaram e deixar as igrejas perplexas esforçando-se para seduzi-las às imaginação deles. No entanto, nenhuma das suas abominações poderia forçar uma entrada em suas próprias igrejas, as quais, por manter a sua instituição, foram preservadas. Mas quando esta instituição e ordem da igreja foi alterada, e outra gradualmente introduzida em seu lugar, erros e heresias obtiveram novas vantagens, e entraram nas próprias igrejas, as quais antes embora as atacassem eram frustradas, pois:

[1] Quando a prerrogativa e preeminência de uma única pessoa na igreja começou a estar em estima, não poucos falharam em suas tentativas de igualá-lo, retaliando eles mesmos a igreja, fazendo de seu trabalho o o inventar e propagar heresias perniciosa. Assim fez Thebuthis em Jerusalém (Eusébio, livro IX, cap. 22); e Valentinus, Tertul e Valentine (cap. IV); e Marcion em Roma (Epifânio. Haeres. XIII). Montano caiu em sua velhice na mesma consideração; assim o fez Novaciano em Roma (Eusébio, livro VI. cap. 43, e Ário em Alexandria. Por isso há aquela censura deles, por Lactâncio, livro IV. cap. 30: “Ii quorum fides fuit lubrica, cum Deum nosse se et colere simularent, augendis opibus et honori studentes, sacerdotium máximo affectabant, et uma victi potioribus, secedere cum suffragatoribus maluerunt, quam eos ferre præpositos quibus concupierant ipsi ante præponi”.

[2] Quando qualquer um de seus bispos da nova constituição, seja patriarcal ou diocesana, caía em heresias, o que fizeram com frequência, chegando a incorrer nelas muitas vezes, tinham muitas vantagens para difundir o seu veneno para o corpo inteiro de suas igrejas, e certos interesses políticos para a sua promoção, de modo que as próprias igrejas foram completamente infectadas com estas heresias. É verdade, o corpo das pessoas em muitos lugares se opuseram a eles, retiraram-se e separaram-se deles; mas não se pode negar, contudo, que esta foi a primeira forma e os meios através dos quais as igrejas deixaram de ser a coluna e firmeza da verdade. Tantos erros destrutivos foram recebidos dentro delas, que elas foram atacadas exteriormente somente enquanto elas se firmaram na primeira instituição. E se não tivessem as igrejas, no decorrer do tempo, completamente perdido seu estado e ordem primitivos, por aglomerarem-se em um papado, sob a dissimulação da igreja ser universal, a fé em si nunca poderia ter sido tão completamente corrompida, depravada e perdida entre eles, como ela foi, em consequência disso.

(3) Propagar o evangelho é da mesma maneira necessário a ela. Isso, eu reconheço, mais imediatamente diz respeito ao dever de pessoas em qualquer ordem de igreja do que a própria ordem em si; pois esse deve ser o trabalho de algumas pessoas em particular, que se dedicam aos seus ministérios, como era nas primeiras igrejas, 3 João 5-8.

Semelhantemente pode ser dito de qualquer outra finalidade reconhecidamente pública da instituição de igrejas. Se a forma como defendida não for consistente com todas elas, e os meios adequados para os atingir, se não forem adequadas ao seu cumprimento, que sejam descartadas. Insistirei somente em mais uma.

 

3. Nosso Senhor Jesus Cristo deu essa instituição às Suas igrejas, estabeleceu-as nessa ordem, como que o Seu interesse, reino e religião fossem propagados ao mundo, sem prejuízo ou desvantagem a nenhum dos interesses legítimos dos homens, especialmente, sem qualquer oposição ou até interferência com a autoridade ou o magistrado civil, que é ordenação de Deus; e nenhuma forma de igreja que assim o faz é de Sua instituição. Portanto, devo declarar brevemente quais são os princípios daqueles desta forma, nestas coisas, que são os princípios da forma em si que eles professam:

(1) A primeira asserção geral quanto à essa finalidade é esta: O Senhor Jesus Cristo não ensinou nenhuma doutrina, nem nomeou qualquer ordem em Sua igreja, nem deu-lhe algum poder, que se opõem ou sejam inconsistentes com qualquer governo justo neste mundo, de que espécie for, sobre aqueles a quem o governo é distribuído em razão e prática. Sua doutrina, na verdade, se opõe a toda injustiça em e sobre todos os homens, magistrados e outros; mas não se opõe à regra legal de magistrados que são homens injustos. E esta oposição é apenas doutrinária, confirmada com promessas e ameaças de coisas eternas, recusando-se e desprezando todos os auxílios exteriores de força e contenção. Esta regra nós consentimos ao julgamento de todas as igrejas e sua instituição, se elas estão de acordo com a mente de Cristo.

Mas, enquanto o Senhor Jesus Cristo não ensinou e nem ordenou, nada que seja contrário ou inconsistente com qualquer tipo de governo que seja justo. Se governantes ou magistrados proibirem a observância do que Ele comandou, designou e nomeou, então, pesa sobre Ele ou sobre a Sua forma, de modo que Seus discípulos não podem, não ousam e nem irão cumprir essa proibição, e serão acusados por isso de sedição e de oposição aos governantes, assim, eles tratam de forma negativa o próprio Cristo, pelo que eles prestarão contas; pois, ao passo que “todo o poder lhe é dado no céu e na terra” [Mateus 28:18], todas as nações são a Sua herança, todas as pessoas estão à Sua disposição absoluta, e é o Seu prazer estabelecer o Seu reino na terra, sem o que a própria Terra não teria continuado. Ele não poderia lidar mais gentilmente com os governantes justos deste mundo (e Ele fez isso porque o governo justo é a ordenança de Deus) do que ao ordenar todas as coisas assim, que se eles recebem a Sua lei e doutrina ou não, nada deve ser feito em oposição a eles ou à regra deles.

[...]

(2) Em particular, o Senhor Jesus Cristo não ordenou nenhum poder ou ordem em Sua igreja, nenhum ofício ou dever, que permaneça em necessidade da autoridade, sanção ou força civil para preservá-lo, ou torná-lo eficaz quanto à sua finalidade apropriada. É suficiente retirar qualquer coisa de uma pretensão de ser um desígnio de Cristo em Sua igreja, se isso não for suficiente ao seu próprio fim adequado, sem a ajuda do magistrado civil. Qualquer instituição de igreja que é constituída pela autoridade humana, ou não pode funcionar sem ela, não é pertence a Cristo. Essa ordenança que existe em sua própria natureza Divina, ou melhor, que assim se auto supõe, na medida em que não é eficaz à finalidade sem o auxílio da autoridade humana, não é de Cristo, pois Ele não precisa disso. Ele não pedirá a assistência da autoridade civil para governar sobre as consciências dos homens, no que diz respeito ao seu viver para Deus e ao vir para o gozo dEle mesmo.

A forma de exigir a sanção da autoridade civil quanto às ordens e determinações eclesiásticas começou com a utilização de conselhos gerais nos dias de Constantino; e quando isso era desenvolvido e aprovado, na medida em que era determinado nos sínodos, seja quanto à doutrina ou quanto ao governo da igreja, deveria ser confirmado pela autoridade imperial, com penalidades em tudo o que pudesse contradizer tais determinações. É lamentável considerar que destruição mútua foi feita entre os Cristãos baseados sobre os vários sentimentos de sínodos e imperadores. No entanto, esta forma agradou os dirigentes da igreja tão bem, e – como eles pensavam –, os aliviou de tantos problemas, que até agora foi incrementado entre eles, de forma que finalmente, eles não deixaram nenhum poder sobre a religião ou sobre as pessoas religiosas em relação ao magistrado civil, senão o que deveria ser exercido na execução dos decretos e determinações da igreja.

É necessário, a partir desta instituição de igrejas independentes, que elas tenham a sua subsistência, continuação, ordem e eficácia de tudo o que elas realizam e fazem como igrejas, a partir do próprio Cristo; pois, enquanto tudo o que somos e fazemos é celestial, espiritual, e não é deste mundo, assim, isso não se estende a nenhuma de todas as coisas que estão sob o poder do magistrado (ou seja, a vida e os corpos dos homens, e todos os interesses civis pertencentes a eles), e nada influencia, senão o que nenhum poder de todos os magistrados sob o céu podem alcançar (ou seja, as almas e as consciências dos homens), nenhum problema pode surgir disso a algum dos governantes do mundo, nenhuma contestação sobre o que eles devem e o que não devem confirmar; o que têm causado grandes transtornos entre muitos.

(3) Em especial, também, não há nem pode haver nesta instituição de igreja a menor pretensão de poder ou autoridade a ser desempenhada em direção ou sobre as pessoas de reis ou governantes, o que poderia contestar o seu direito ou impedir o exercício de sua justa autoridade; pois, como Cristo não concedeu tal poder à igreja, assim, é impossível que qualquer pretensão disso seja estabelecida em uma congregação particular, especialmente sendo reunidas sobre este princípio. De forma que não há nenhum poder eclesiástico propriamente dito, senão que é assim estabelecido, e a isso nenhuma concordância, acordo ou associação de muitas igrejas podem adicionar um novo, maior, ou outro poder ou autoridade para elas além do que elas tinham antes isoladamente. [...].

Estes princípios, eu digo, são suficientes para assegurar a religião Cristã, e o estado, ordem e poder das igrejas instituídas nela, a partir de todas as reflexões sobre a inconsistência com o governo civil, ou de homens influentes buscando sua mudança ou ruína.

A soma é: Permita que a estrutura exterior e ordem do governo justo seja de que tipo for, não tenha nada inconsistente com ele, nada estabelecido sobre ele, nada fazendo em oposição a ele, pois isto é designado por Jesus Cristo, ou pertence à instituição de igreja que Ele ordenou e estabeleceu.

Apenas dois aspectos devem ser adicionados a estes princípios: que nós não podemos ver a distinção entre o estado civil e a igreja de forma a torná-los indiferentes um ao outro; pois,

Em primeiro lugar, é o dever inquestionável dos soberanos e governadores do mundo, sobre a pregação do evangelho, receberem a sua verdade e prestarem obediência aos seus mandamentos. E considerando que todo poder e ofícios devem ser indicados por Deus, de quem são todas as normas dos ministros, eles são obrigados, no exercício das suas funções, a aprovar, suprir e proteger a profissão e professores da verdade, ou seja, a Igreja – e isso de acordo com os graus e medidas que julgarem necessárias.

Em segundo lugar, é dever da igreja, materialmente considerada, isto é, de todos aqueles que são membros desta organização, em qualquer reino ou comunidade, ser útil e subserviente, mesmo como Cristãos, a essa regra, que está sobre eles como os homens, em todas as formas e por todos os meios, que as leis, usos e costumes dos países aos quais eles pertencem. Todavia estas coisas são frequentemente faladas.

Há outras diversas considerações pelo que pode ser evidenciado que esta ordem e instituição de igrejas evangélicas não apenas são consistentes com todos os governos justos no mundo (digo, que é assim em sua constituição, embora, como todas as outras formas, ela é suscetível à má administração), porém ela é mui útil e subserviente à sua justa administração, sendo absolutamente incapaz de mistura em si, como tal, em qualquer dessas ocasiões de assuntos do mundo ou estatais que possam criar a menor dificuldade ou problema aos governantes.

Com os demais, não é assim. Sabe-se que a própria constituição da igreja papal, como se afirma nos cânones, é incompatível com os justos direitos dos reis e governantes, e frequentemente, no exercício de seu poder, destrutivo às suas pessoas e domínios. E nisso concordou o prelatício da instituição da igreja da Inglaterra, enquanto ela continuou em comunhão com eles, e apegou-se a sua dependência em relação à Igreja Romana; pois, embora, eles tiveram todo o seu poder original a partir dos reis deste reino – como os registros e as leis disso expressamente afirmam: “que a Igreja da Inglaterra foi fundada em episcopado pelo rei e pelos seus nobres”, ainda assim, eles alegaram essa adição de poder e autoridade, em virtude de seu ofício de onipotência papal, na medida em que eles eram líderes em detrimento do governo desta nação, sob o pretexto de manter o que eles chamavam de “direitos da Igreja”. [...].

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[1] Patripassiano:Um monaquiano. Alguém que nega distinção entre as três Pessoas em um só Deus, e afirma que há apenas uma Pessoa divina, que em sua natureza eterna foi denominado o Pai, mas na sua encarnação o Filho, e que o Pai sofreu na paixão como e no Filho. O termo ocorre pela primeira vez na literatura em um tratado de Tertuliano sobre o assunto 200 d. C. [Fonte: Century Dictionary and Cyclopedia, via Finedictionary.com – N. R.]

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♦ Este texto é o Capítulo 6 do Livro Inquiry into the Original, Nature, Institution, Power, Order, and Communion of Evangelical Churches, por John Owen. Editado.
♦  Fonte: CCEL.org | Título: Inquiry into the Original, Nature, Institution, Power, Order, and Communion of Evangelical Churches
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Graça, Eleição e Glória – Arthur Walkington Pink

“E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória, depois de havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça. A ele seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém.” (1 Pedro 5:10-11)

“E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou”. No último capítulo (utilizan-do a análise de Thomas Goodwin) foi apontado que este título mui abençoado tem relação com o que Deus é em Si mesmo, o que Ele é em Seu propósito eterno, e o que Ele é em Suas atuações em relação ao Seu povo. Aqui, nas palavras que acabamos de citar, vemos as três coisas unidas em uma referência ao chamado eficaz de Deus, pelo que Ele traz uma alma das trevas da natureza para a Sua própria maravilhosa luz (1 Pedro 2:9). Esta especial chamada interior do Espírito Santo, que produz imediata e infalivelmente arrependimento e fé em seu objeto, fornece, assim, a primeira prova evidente ou exterior que o novo crente recebe de que Deus é, em verdade, para ele “o Deus de toda graça”. Embora esta não tenha sido a primeira saída do coração de Deus para ele, no entanto, está é a prova de que o Seu amor fora estabelecido sobre ele desde a eternidade. “E aos que predestinou a estes também chamou” (Romanos 8:30). Deus tem “elegido desde o princípio [o Seu povo] para a salvação” (2 Tessalonicenses 2:13-14). No devido tempo, Ele opera a salvação deles pelas operações invencíveis do Espírito, que capacita e faz com que eles creiam no Evangelho. Eles creem através da graça (Atos 18:27), pois a fé é o dom da graça Divina (Efésios 2:8), e ela é dada a eles, porque eles pertencem à “eleição da graça” (Romanos 11:5). Eles pertencem a essa eleição favorecida porque o Deus de toda a graça, desde a eternidade passada, os escolheu para serem os monumentos eternos da Sua graça.

A Regeneração é o Fruto da Eleição, Não a Sua Causa

Que foi a graça que havia no coração de Deus, que O levou a chamar-nos é evidente a partir de 2 Timóteo 1:9: “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos”. A regeneração (ou chamada eficaz) é a consequência e não a causa, da predestinação Divina. Deus resolveu nos amar com um amor imutável, e este amor designou que fôssemos participantes de Sua glória eterna. Sua boa vontade por nos O moveu de modo infalível a realizar todas as resoluções da Sua livre graça para conosco, de modo que nada pode impedi-lo, embora no exercício de Sua graça Ele sempre aja de uma maneira que seja consistente com as Suas demais perfeições. Ninguém magnifica a graça de Deus mais do que Goodwin; no entanto, quando perguntado: “Será que a prerrogativa Divina da graça significa que Deus salva os homens, mesmo que eles continuem a serem o que quiserem?”, ele respondeu:

Deus me livre. Nós negamos tal soberania assim compreendida, como se ela salvasse qualquer homem sem regra, muito menos contra regra. O próprio versículo que fala de Deus como “o Deus de toda graça” em relação à nossa salvação acrescenta “que nos chamou”, e nosso chamado é um chamado santo (2 Timóteo 1:9). Embora o fundamento do Senhor permaneça, ainda assim é acrescentado: “e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade” (2 Timóteo 2:19), ou ele não pode ser salvo.

Ajuda-nos a obter uma melhor compreensão deste título Divino: “o Deus de toda graça”, se o compararmos com outro encontrado em 2 Coríntios 1:3: “o Deus de toda a consolação”. A principal distinção entre os dois está em sendo este último mais restrito ao aspecto da dispensação da graça de Deus, como as palavras que se seguem mostram: “Que nos consola em toda a nossa tribulação” (2 Coríntios 1:4). Como “o Deus de toda a consolação”, Ele não somente é o Doador de toda a real consolação e o Sustentador em todas as tribulações, mas também o Doador de todos os confortos temporais ou misericórdias. Pois, qualquer refrigério natural ou benefício que nós derivamos de Suas criaturas é devido somente a Sua bênção para nós. Da mesma forma, Ele é o Deus de toda a graça: graça buscadora, graça vivificante, graça perdoadora, graça purificadora, graça da provisão, graça da restauração, graça da preservação, graça da glorificação –graça de todo tipo, e em plena medida. No entanto, embora a expressão “o Deus de toda a consolação” sirva para ilustrar o título que estamos aqui considerando, no entanto, fica aquém daquele. Pois, as dispensações da graça de Deus são mais extensas do que as de Seu conforto. Em certos casos, Deus dá a graça onde Ele não dá conforto. Por exemplo, a Sua graça iluminadora traz consigo as dores da convicção do pecado, o que às vezes duram uma temporada longa antes que qualquer alívio seja concedido. Além disso, sob Sua vara de correção, a graça sustentadora é concedida, onde o conforto é retido.

Deus Dispensa todos os Tipos de Graça Precisamente de Acordo com a Necessidade

Não apenas há em Deus todos os tipos concebíveis de graça disponíveis para nós, mas Ele sempre a concede justamente na hora de nossa necessidade; pois, nessa ocasião, o Seu favor concedido gratuitamente obtém a melhor oportunidade em que mostrar-se. Somos livremente convidados a chegar com confiança ao trono da graça, para que possamos “alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hebreus 4:16), ou como Salomão o expressou, que o Senhor Deus sustentasse a causa de Seu povo Israel “a cada qual no seu dia” (1 Reis 8:59). Esse é o nosso gracioso Deus, ministrando a nós em todos os momentos, assim como em todas as questões. O apóstolo Paulo declara (falando para os crentes): “Não veio sobre vós tentação, senão humana [ou seja, apenas tal que é comum à natureza humana decaída, pois o pecado contra o Espírito Santo só é cometido por tais que têm como que uma afinidade incomum com Satanás e seus maus desígnios para impedir o reinado da graça de Cristo]; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar” (1 Coríntios 10:13). O Senhor Jesus Cristo declarou: “Todo o pecado e blasfêmia [com exceção exatamente da mencionada acima] se perdoará aos homens” (Mateus 12:31). Pois, o Deus de toda graça opera arrependimento e perdoa todos os tipos de pecados, aqueles cometidos após a conversão, bem como aqueles antes, como os casos de Davi e Pedro demonstram. Diz Ele: “Eu sararei a sua infidelidade, eu voluntariamente os amarei” (Oséias 14:4). Plena causa cada um de nós tem para dizer ternamente a partir da experiência: “a graça de nosso Senhor superabundou” (1 Timóteo 1:14).

A Prova Infalível de Sua Abundante Graça em Direção Àqueles que São Seus

“E o Deus de toda a graça… nos chamou à sua eterna glória”. Aqui está a maior e mais grandiosa prova de que Ele é realmente o Deus de toda graça para o Seu povo. Nenhuma evidência mais convincente e bendita é necessária para manifestar a boa vontade que Ele tem por eles. A graça abundante que há em Seu coração em relação a eles e o propósito beneficente que Ele tem para eles são feitas claramente evidentes aqui. Eles são “os [únicos] chamados de acordo com o seu propósito” (Romanos 8:18), a saber, aquele “eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” (Efésios 3:11). O chamado eficaz que traz da morte para a vida é a primeira abertura irrompendo a graça eletiva de Deus, e é a base de todos os atos de Sua graça por eles, posteriormente. É então que Ele começa aquela Sua “boa obra” naqueles em que Ele finalmente completará no “dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1:6). Por meio disso, eles são chamados a uma vida de santidade aqui e a uma vida de glória no porvir. Na cláusula “nos chamou à sua eterna glória”, somos informados sobre aqueles de nós que uma vez já foram “por natureza filhos da ira” (Efésios 2:3), mas agora, pela graça de Deus são “participantes da divina natureza” (2 Pedro 1:4), também serão participantes da glória eterna de Deus. Embora o chamado eficaz de Deus não os traga para a posse real disso, de uma vez, ainda assim, os qualifica totalmente e capacita-os a participar de Sua glória para sempre. Assim, o apóstolo Paulo diz aos Colossenses que está “Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz” (Colossenses 1:12).

Mas, olhemos para além do mais delicioso dos fluxos de graça para a sua Fonte comum. É a infinita graça que há na natureza de Deus, que se compromete a fazer bom o Seu propósito beneficente e que fornece continuamente estes fluxos. Deve ser bem observado que quando Deus proferiu essa grande carta da graça “[Eu] me compadecerei de quem eu me compadecer”, Ele a prefaciou com estas palavras: “Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do Senhor diante de ti” (Êxodo 33:19). Toda esta graça e misericórdia que está no próprio Jeová, e que deve ser feita conhecida de Seu povo, era para atrair a atenção de Moisés antes que a sua mente se voltasse a considerar a soma dos Seus decretos ou graça designada. O verdadeiro oceano de bondade que está em Deus está empenhado em promover o bem de Seu povo. Foi essa bondade que Ele fez passar diante dos olhos de Seu servo. Moisés foi animado pela contemplação de uma riqueza tão ilimitada de benevolência, tanto que ele estava completamente certo de que o Deus de toda graça seria realmente gracioso para aqueles a quem Ele escolheu em Cristo antes da fundação do mundo. E é esta graça essencial enraizada no próprio ser de Deus que deve ser o primeiro objeto da fé; e quanto mais a nossa fé é direcionada para a mesma, mais nossas almas serão sustentadas na hora da tribulação, convencidas de que tal Pessoa não falhará conosco.

O Argumento em que Pedro Baseia Sua Petição

Em quarto lugar, examinemos o fundamento sobre o qual o apóstolo Pedro baseia sua petição: “E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória”. Esta cláusula é, sem dúvida, trazida para engrandecer a Deus e para exemplificar Sua maravilhosa graça. Ainda assim, considerada separadamente, em relação à oração como um todo, é o apelo feito pelo apóstolo em apoio à petição que segue. Ele estava fazendo pedido para que Deus aperfeiçoe, confirme, fortaleça e estabeleça os Seus santos. Isso foi equivalente a dizer: “Desde que Tu já fizeste o maior, conceder-lhes o menor; vendo que eles devem ser participantes da Tua glória eterna em Cristo, dê-lhes o que eles precisam enquanto permanecerem neste mundo passageiro”. Se nossos corações fossem mais engajados com quem nos chamou, e com o que Ele nos designou, não só nossas bocas se abririam mais, mas seríamos mais confiantes de serem cheias de louvores a Deus. Ele não é outro senão Jeová, que está sentado no Seu trono resplandecente, cercado pelas adoradoras hostes celestes, Quem em breve dirá a cada um de nós: “Vinde a Mim e deleite-te em Minhas perfeições”. Você pensa que Ele reterá qualquer coisa que seja verdadeiramente para o seu bem? Se Ele me chamou para o céu, há alguma coisa necessária na terra que Ele me negará?

Que apelo poderosíssimo e predominante é este! Em primeiro lugar, é como se o apóstolo dissesse: “Tu tens atentado para as obras das Tuas mãos. Tu realmente os chamaste das trevas para a luz, mas eles ainda são terrivelmente ignorantes. É Teu gracioso prazer que eles passem a eternidade em Tua presença imediata no alto, mas eles estão aqui no deserto, e estão rodeados de fraquezas. Então, tendo em vista tanto um quanto o outro, continue todas as outras obras da graça em direção a eles e neles, que são necessárias a fim de trazê-los para a glória”. O que Deus já fez por nós, não somente deve ser um motivo de confiante expectativa do que Ele ainda fará (2 Coríntios 1:10), mas isso deve ser usado por nós como um argumento ao fazer nossos pedidos a Deus. “Visto que Tu me regeneraste, faça-me agora crescer na graça. Visto que puseste em meu coração um ódio ao pecado e uma fome de justiça, intensifica os mesmos. Posto que Tu me fizeste um ramo da Videira, faça-me um ramo mui frutífero. Pois que mi uniste ao Teu Filho amado, permita-me manifestar os Seus louvores, para honrá-lO em minha vida diária, e, portanto, para recomenda-lO àqueles que não O conhecem”. Entretanto, estou antecipando um pouco o próximo ponto.

O Nosso Chamado e a Justificação são Motivos de Grande Louvor e Expectativa

Nesta obra única do chamado, Deus Se mostrou ser o Deus de toda graça para você, e isso deve grandemente fortalecer e confirmar a sua fé nEle. “Aos que chamou a estes também justificou” (Romanos 8:30). A justificação é composta de duas coisas: (1) Deus perdoando-nos e declarando-nos ser “inocentes”, como se nunca tivéssemos pecado; e (2) Deus nos declarando ser “justos”, exatamente como se tivéssemos obedecido perfeitamente a todos os Seus mandamentos. Para estimar a plenitude de Sua graça no perdão, você deve calcular o número e a atrocidade de seus pecados. Eles eram mais do que os cabelos da sua cabeça; pois você “nasce como a cria do jumento montês” (Jó 11:12), e desde as primeiras auroras da razão, toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente (Gênesis 6:5). Quanto à criminalidade, a maioria de seus pecados foram cometidos contra a voz da consciência, e consistiam em privilégios desprezados e misericórdias abusadas. No entanto, a Sua Palavra declara que Ele lhe perdoou “todas as ofensas” (Colossenses 2:13). Como isso deve derreter o seu coração e levá-lo a adorar “o Deus de toda graça”. Como isso deve fazê-lo plenamente convencido de que Ele continuará a lidar com você não de acordo com as suas transgressões, mas segundo a Sua própria bondade e benignidade. É verdade, Ele ainda não o livrou da corrupção que habita no teu interior, mas isso concede nova ocasião para Ele mostrar a Sua paciente graça para com você.

Embora maravilhoso como é tal favor, ainda assim o perdão dos pecados é apenas metade do lado legal da nossa salvação, e a parte negativa e inferior dela. Embora, por um lado, tudo que estava registrado contra mim no que diz respeito ao débito tenha sido apagado, contudo, por outro lado, não há um único item em meu crédito. Desde a hora do meu nascimento até o momento da minha conversão nenhuma boa ação foi registrada na minha conta, pois nenhuma das minhas ações ocorreu em um princípio puro, não sendo realizada para glória de Deus. Fluindo de uma fonte suja, os fluxos de minhas melhores obras eram poluídos (Isaías 64:6). Como, então, Deus poderia me justificar, ou declarar-me ter alcançado o padrão exigido? Esse padrão é uma conformidade perfeita e perpétua à Lei Divina, pois nada menos assegura a sua recompensa. Aqui, novamente as riquezas maravilhosas da graça Divina aparecem. Deus não somente apagou todas as minhas iniquidades, mas creditou em minha conta uma justiça plena e sem falhas, tendo imputado a mim a perfeita obediência de Seu Filho encarnado: “Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo [...] Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos [ou seja, legalmente constituídos] justos” (Romanos 5:17, 19). Quando Deus efetivamente lhe chamou, o revestiu “com o manto de justiça [de Cristo]” (Isaías 61:10), e essa veste concede a você um direito inalienável à herança (Romanos 8:17).

A Glorificação, Desde o Princípio, Era o Objetivo Final de Deus Para Nós

“Que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória”. Quando Deus regenera uma alma Ele lhe dá fé. Ao exercer fé em Cristo, aquilo que a desqualificava para a glória eterna (ou seja, a sua contaminação, culpa e amor ao pecado) é removida, e um título seguro para o céu é concedido. O chamado eficaz de Deus é tanto a nossa qualificação para quando um pagamento pela glória eterna. Nossa glorificação era o grande objetivo que Deus tinha em vista desde o princípio, e tudo o que Ele faz por nós e opera em nós aqui, são apenas os meios e os pré-requisitos para esta finalidade. Depois de Sua própria glória nisso, a nossa glorificação é o propósito supremo de Deus ao eleger-nos e chamar-nos. “Por vos ter Deus elegido desde o princípio… para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Tessalonicenses 2:13-14). “E aos que predestinou… também glorificou” (Romanos 8:30). “Não temais, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino” (Lucas 12:32). “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mateus 25:34). Cada um desses textos estabelece o fato de que o povo crente em Cristo deve herdar o reino celestial e eterna glória da parte do Deus Triuno. Nada menos do que isso foi em que o Deus de toda graça estabeleceu o Seu coração como a porção de Seus filhos amados. Assim, quando a nossa eleição é feita manifesta inicialmente por Seu chamado eficaz, Deus é tão decidido quanto a essa glória que Ele imediatamente nos concede um título a ela.

Goodwin deu um exemplo notável do que acabamos de dizer, a partir do relacionamento de Deus com Davi. Enquanto Davi era apenas um simples menino pastor, Deus enviou Samuel para ungi-lo rei abertamente diante de seu pai e irmãos (1 Samuel 16:13). Por esse ato solene Deus o investiu com um direito visível e irrevogável ao reino de Judá e Israel. Deus adiou por muitos anos a sua posse real do trono do reino, no entanto, seu título Divino ao mesmo foi dado em Sua unção, e Deus Se ocupou em fazer isto firme, jurando não Se arrepender. Então Deus suportou Saul (uma figura de Satanás), que ordenou todas as forças militares de seu reino e a maioria de seus súditos, para fazer o seu pior. Deus fez isso para demonstrar que nenhum conselho Seu pode ser frustrado. Embora por um período Davi esteve exposto como uma perdiz nas montanhas e tinha que fugir de um lugar para outro, no entanto, ele foi milagrosamente preservado por Deus e, finalmente, trazido ao trono. Assim, na regeneração, Deus nos unge com o Seu Espírito, nos separa e nos concede um título para a glória eterna. E embora posteriormente, Ele deixe os inimigos ferozes soltos contra nós, deixando-nos a enfrentar as mais difíceis lutas e contendas com eles, ainda assim a Sua poderosa mão está sobre nós, nos socorrendo, fortalecendo e restaurando quando somos temporariamente vencidos e levados cativos.

Não Há Nada de Transitório em Relação à Glória Para a Qual Somos Chamados

Deus não nos chamou para uma [glória] evanescente, mas para uma glória eterna, dando-nos um título a ela no novo nascimento. Naquele momento, uma vida espiritual foi comunicada à alma, uma vida que é indestrutível, incorruptível e, portanto, eterna. Além disso, nessa ocasião recebemos “o Espírito de glória” (1 Pedro 4:14) como “o penhor da nossa herança” (Efésios 1:13-14). Além disso, a imagem de Cristo está sendo progressivamente moldada em nossos corações durante esta vida, o que o apóstolo Paulo chama ser “transformados de glória em glória “(2 Coríntios 3:18). Assim, nós não somente somos feitos “idôneos para participar da herança dos santos na luz” (Colossenses 1:12), mas é-nos, então, concedido um direito eterno de glória. Porque pela regeneração ou chamado eficaz, Deus nos gera para a herança (1 Pedro 1:3-4); um título desta nos é dado nesse momento, o qual é válido para sempre. Esse título é nosso, tanto pela estipulação do pacto de Deus quanto pela herança testamentária do Mediador (Hebreus 9:15). “E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e coerdeiros de Cristo”, diz Paulo (Romanos 8:17). Thomas Goodwin o resume da seguinte forma:

Coloque essas três coisas juntas: em primeiro lugar, que essa glória a que somos chamados é em si mesma eterna; segundo, que a pessoa que é chamada tem um nível de glória que começou nela, a qual nunca morrerá ou perecerá; terceiro, que ela tem o direito à eternidade, e isso a partir do momento de seu chamado, e o argumento está completo.

Essa “glória eterna” são “as abundantes riquezas da sua graça” que Ele derramará sobre o Seu povo nos séculos vindouros (Efésio 2:4-7), e como esses versículos nos dizem, mesmo agora, nós, jurídica e federalmente, nos assentamos “nos lugares celestiais, em Cristo Jesus”.

“Que [em Cristo Jesus] nos chamou à sua eterna glória”. Deus não somente nos chamou para um estado de graça, “esta graça na qual estamos firmes”, mas a um estado de glória, glória eterna, Sua glória eterna, de modo que “nos gloriamos na esperança da glória de Deus” (Romanos 5:2). Essas duas coisas estão inseparavelmente ligadas: “o Senhor dará graça e glória” (Salmos 84:11). Embora sejamos as pessoas que serão glorificadas por isso, é a Sua glória que é colocada em cima de nós. Obviamente assim, pois somos criaturas totalmente miseráveis e vazias, as quais Deus encherá com as riquezas da Sua glória. Na verdade é “o Deus de toda graça” que faz isso por nós. Nem criação nem providência, nem mesmo o Seu lidar com os eleitos nesta vida, mostram plenamente a abundância de Sua graça. Somente no céu sua altura máxima será vista e apreciada. É lá que a manifestação definitiva da glória de Deus será feita, ou seja, a própria honra e glória inefável com o qual Divindade investe a Si mesmo. Não apenas contemplaremos aquela glória para sempre, mas ela será comunicada para nós. “Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai” (Mateus 13:43). A glória de Deus encherá tão completamente e irradiará nossas almas que ela irradiará de nossos corpos. Então, o propósito eterno de Deus será plenamente cumprido. Nessa ocasião, todas as nossas esperanças mais queridas serão perfeitamente realizadas. Então, Deus será “tudo em todos” (1 Coríntios 15:28).

A Glória Eterna é Nossa Por meio de Nossa União com Cristo

“Que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória”. A primeira parte desta cláusula é melhor traduzida “em Cristo Jesus”, o que significa que o nosso chamado para fruir da glória eterna de Deus existe em virtude de nossa união com Cristo Jesus. A glória pertence a Ele, que é a nossa Cabeça, e é comunicada a nós somente porque somos Seus membros. Cristo é o primeiro e grande Proprietário dela, e Ele a compartilha com aqueles a quem o Pai deu a Ele (João 17:5, 22, 24). Cristo Jesus é o centro de todos os conselhos eternos de Deus, os quais são “segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” (Efésios 3:11). Todas as promessas de Deus “são nele [Cristo] sim, e por ele o Amém” (2 Coríntios 1:20). Deus nos abençoou com todas as bênçãos espirituais em Cristo (Efésios 1:3). Somos herdeiros de Deus, porque somos coerdeiros com Cristo (Romanos 8:17). Como todos os propósitos da graça Divina foram formados em Cristo, assim, eles são efetivamente executados e estabelecidos por Ele. Pois, Zacarias, enquanto bendizendo a Deus por ter “levantado uma salvação”, acrescentou, “Para manifestar misericórdia a nossos pais, e lembrar-se da sua santa aliança” (Lucas 1:68-72). Estamos “conservados por Cristo Jesus” (Judas 1). Desde que Deus nos chamou “para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor” (1 Coríntios 1:9), ou seja, para participar (na devida proporção) de tudo o que Ele é participante em Si mesmo, Cristo nosso Coerdeiro e Representante entrou em posse dessa herança gloriosa e em nossos nomes está guardando-a para nós (Hebreus 6:20).

Toda a Nossa Esperança Está Vinculada Somente a Cristo

Parece bom demais para ser verdade que “o Deus de toda graça” é o seu Deus? Há momentos em que você dúvida se Ele, pessoalmente, te chamou? Será que ultrapassa a sua fé, leitor Cristão, que Deus, em verdade, chamou você à Sua glória eterna? Então permita-me deixar este pensamento de encerramento a você. Tudo isso é por e em Cristo Jesus! Sua graça está estesourada em Cristo (João 1:14-18), o chamado eficaz vem por Cristo (Romanos 1:6), e a glória eterna é alcançada por meio dEle. O Seu sangue não foi suficiente para comprar bênçãos eternas para pecadores merecedores do inferno? Então, não olhe para sua indignidade, mas, para a infinita dignidade e méritos dAquele que é o Amigo de publicanos e pecadores. Se a nossa fé compreende ou não, infalivelmente segura é que esta Sua oração será respondida: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória” (João 17:24). Essa contemplação não será transitória, como a que os apóstolos apreciaram no monte da transfiguração, mas eterna. Como muitas vezes tem sido apontado, quando a rainha de Sabá contrastou sua breve visita à corte de Salomão com o privilégio daqueles que residiam ali, ela exclamou: “Bem-aventurados os teus homens, bem-aventurados estes teus servos, que estão sempre diante de ti” (1 Reis 10:8). Essa será a nossa porção feliz ao longo dos séculos sem fim.

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♦ Este texto é formado pelo Capítulo 8 do Livro A Guide to Fervent Prayer, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: A Guide to Fervent Prayer
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


A Natureza da Doutrina da Eleição – Arthur Walkington Pink

Foi bem dito que: “A razão por que qualquer um acredita na eleição é que ele a encontra na Bíblia. Nenhum homem jamais poderia imaginar tal doutrina, pois é, em si mesma, contrária ao pensamento e aos desejos do coração humano. Cada um, a princípio, se opõe a esta doutrina, e é só depois de muitas lutas, sob a ação do Espírito de Deus, é que somos levados a recebê-la. A aquiescência perfeita a esta doutrina, descansar, maravilhar-se em adoração, no estrado da soberania de Deus, é a última realização da alma santificada nesta vida, como é o início do Céu. A razão pela qual qualquer um acredita na eleição é apenas isso, e só isso: que Deus a tornou conhecida. Fosse a Bíblia uma falsificação ela nunca poderia ter contido a doutrina da eleição, pois os homens são muito avessos a tal pensamento para dar-lhe expressão, muito mais para dar-lhe destaque” (G. S. Bishop).

Até agora, em nossa exposição desta bendita verdade, nós mostramos que a fonte de eleição é a vontade de Deus, pois nada existe ou pode existir fora disso. Em seguida, vimos, que a Grande Origem da eleição é o homem Cristo Jesus, que foi ordenado para a união com a segunda Pessoa na Divindade. Então, a fim de abrir o caminho para um exame mais detalhado dessa verdade assim como ela é apresentada a nós, demonstramos a verdade e, em seguida, a justiça dela, visando remover das mentes dos leitores Cristãos a profanação e efeitos perturbadores da principal objeção que é feita contra a eleição Divina por seus inimigos. E agora buscaremos apontar os principais elementos que adentram na eleição.

Em primeiro lugar, a Eleição é um ato de Deus. Verdade é que chega um dia em que cada um dos eleitos escolhe a Deus como seu absoluto e sumo Bem, mas este é o efeito, e em nenhum sentido a causa da escolha de Deus. Nossa escolha dEle é no tempo, mas Seu escolher-nos foi antes dos tempos eternos; e certo é que a menos que Ele nos escolhesse em primeiro lugar, nós jamais O escolheríamos de modo algum. Deus – que é um Ser soberano, faz tudo o que Lhe agrada, tanto no céu e na terra –, tem um direito absoluto de fazer o que quiser com Suas próprias criaturas e, portanto, Ele escolheu um certo número de seres humanos para ser Seu povo, Seus filhos, Seu tesouro peculiar. Tendo feito isso, este ato foi chamado de “eleição de Deus” (1 Tessalonicenses 1:4). Pois Ele é a causa eficaz dela; e as pessoas escolhidas são denominadas “seus escolhidos” (Lucas 18:7; cf. Romanos 8:33).

Esta escolha de Deus é absoluta, sendo inteiramente gratuita, não dependendo de absolutamente nada fora de Si mesmo. Deus elegeu aqueles que Ele quis, simplesmente porque Ele escolheu fazê-lo, não partir de alguma bondade, mérito ou atrativo na criatura, nem a partir de qualquer mérito ou atrativo previsto na criatura. Deus é absolutamente autossuficiente e, portanto, Ele nunca irá para fora de si mesmo para encontrar uma razão para qualquer coisa que Ele faz. Ele não pode ser influenciado pelas obras de Suas próprias mãos. Não, Ele é Aquele que os move, como somente Ele é Aquele que lhes deu existência. “Nele vivemos, e nos movemos, e existimos”. Foi, então, simplesmente a partir da espontânea bondade de Sua própria vontade que Deus destacou, a partir da massa daqueles que Ele se propôs a criar, um povo que deve expressar os Seus louvores por toda a eternidade, para a glória de Sua soberana graça para todo o sempre.

Esta escolha de Deus é uma questão imutável. Necessariamente assim, pois não é fundamentada sobre qualquer coisa na criatura, ou estabelecida sobre qualquer coisa fora de Si mesmo. Ela é antes de tudo, antes mesmo de Sua “presciência”, porque embora Ele conheça de antemão, contudo Ele conhece de antemão porque Ele infalível e irrevogavelmente o fixou, caso contrário, Ele meramente a adivinharia. Mas visto que Ele a conhece de antemão, então Ele não supõe, ela é segura; e sendo segura, então Ele deve tê-la fixado. A eleição, sendo o ato de Deus, é para sempre, pois seja o que for que Ele faça em uma forma de graça especial, é irreversível e inalterável. Os homens podem escolher alguns para serem seus favoritos e amigos por um tempo, e depois mudam de ideia e escolhem outros em seu lugar. Mas Deus não age de tal maneira; Ele é de uma mente, e ninguém pode mudá-lO; Seu propósito, segundo a eleição permanece firme, seguro, inalterável (Romanos 9:11; 2 Timóteo 2:19).

Em segundo lugar, o ato de eleição de Deus é feito em Cristo: “Como também nos elegeu nele” (Efésios 1:4). A eleição não encontra homens em Cristo, mas os enxerta nEle. Ela concede a eles o estar em Cristo e união com Ele, que é o fundamento de sua manifestação como estando nEle por ocasião de conversão. Na mente infinita de Deus, Ele quis amar uma companhia da posteridade de Adão com um amor imutável, e do amor com que Ele os ama, Ele os escolheu em Cristo. Por meio deste ato de Sua mente infinita, Deus lhes concedeu o estar e bem-aventurança em Cristo desde a eternidade. Todavia, ao mesmo tempo, todos caíram em Adão, ainda assim, todos não caíram semelhantemente. Os não-eleitos caíram, de modo a serem condenados, sendo eles deixado a perecer em seus pecados, porque não tinham nenhuma relação com Cristo, Ele não relacionou-se com eles como o Mediador da união com Deus.

Os não-eleitos tiveram seu tudo em Adão, sua cabeça natural. Mas os eleitos tiveram toda sorte de bênçãos espirituais concedida a eles em Cristo, sua graciosa e gloriosa Cabeça (Efésios 1:3). Eles não podiam perder estas, porque eles foram assegurados delas em Cristo. Deus os havia escolhido como Seus próprios: Ele seria o seu Deus, eles o Seu povo; Ele, seu Pai e eles, Seus filhos. Ele deu-lhes a Cristo para serem Seus irmãos, Seus companheiros, Sua noiva, Seus consortes em toda a Sua graça comunicável e glória. Na previsão da sua queda em Adão, e quais seriam os seus efeitos, o Pai propôs erguê-los das ruínas da queda, mediante a consideração do compromisso de Seu Filho realizando toda a justiça por eles, e como seu Fiador, suportando todos os seus pecados em Seu próprio corpo no madeiro, oferecendo Sua alma como oferta pelo pecado. Para executar tudo isso, o amado Filho encarnou.

Foi a isso que o Senhor Jesus se referiu em Sua oração sacerdotal, quando disse ao Pai: “Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste; eram teus, e tu mos deste” (João 17:6). Ele estava se referindo a toda a eleição da graça. Eles eram os objetos de prazer do Pai: Suas joias, Sua porção; e aos olhos de Cristo eles eram o que o Pai viu que eles seriam. Quão grandemente, então, o Pai estima o Mediador, ou Ele nunca teria concedido Seus eleitos a Ele e os entregado todos ao Seu cuidado e governo! E quão altamente Cristo valorizou esta dádiva de amor do Pai, ou Ele não teria realizado a salvação deles em tal enorme custo para Si mesmo! Agora, a entrega dos eleitos a Cristo foi um ato diferente, um ato distinto do ato da eleição deles. Os eleitos foram primeiramente do Pai por meio da eleição, que escolheu as pessoas; e, em seguida, Ele as deu a Cristo, como o Seu amor e dom: “eram teus [por eleição], e tu mos deste”, da mesma forma, esta graça é dita ser dada a nós em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos (2 Timóteo 1:9).

Em terceiro lugar, este ato de Deus foi independentemente de e anterior a qualquer previsão da entrada do pecado. Antecipamos um pouco este ramo de nosso assunto, ainda assim, como é um assunto sobre o qual pouquíssimos hoje são seguros, e algo que consideramos de importância considerável, nos propomos conceder-lhes uma consideração separada. O ponto específico que devemos ponderar agora é, quanto a saber se o Seu povo era visto por Deus, em Seu ato de eleição, como caídos ou não caídos; como na massa corrupta através de sua deserção em Adão, ou na massa pura da criação, como a ser criada. Aqueles que consideram o primeiro ponto de vista são conhecidos como infralapsarianos; aqueles que tomaram o último são conhecidos como supralapsarianos, e no passado esta questão foi debatida consideravelmente entre os altos e baixos Calvinistas. Este escritor sem hesitação (após estudo prolongado) assume a posição Supralapsariana, embora ele saiba muito bem que poucos de fato estarão dispostos a segui-lo.

O pecado, tendo posto um véu sobre o maior de todos os Divinos mistérios da graça – excetuado somente aquele da encarnação Divina – torna a nossa tarefa presente a mais difícil. É muito mais fácil para nós aprendermos sobre a nossa miséria, e sobre a nossa redenção dela – pela encarnação, obediência e sacrifício do Filho de Deus – do que é para nós concebermos a original glória, excelência, pureza e dignidade da Igreja de Cristo, como o eterno objeto dos pensamentos, conselhos e propósito de Deus. No entanto, se nos apegarmos firmemente às Sagradas Escrituras, é evidente (ao escritor, pelo menos) que o povo de Deus tinha uma criação de qualidade superior e união espiritual com Cristo antes mesmo que eles tivessem uma criação e união natural com Adão; de forma que eles foram abençoados com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (Efésios 1:3), antes que eles caíssem em Adão e tornaram-se sujeitos a todos os males da maldição. Em primeiro lugar, vamos resumir as razões dadas por John Gill em apoio a isso.

O decreto eletivo de Deus deve ser dividido em duas partes ou níveis, ou seja, o Seu propósito a respeito da finalidade e Seu propósito sobre os meios. A primeira parte relaciona-se com o propósito de Deus em Si mesmo, no qual Ele determinou ter um povo eleito e isso, para Sua própria glória. A segunda parte tem relação com a execução real da primeira, fixando os meios pelos quais a finalidade será realizada. Estas duas partes do decreto Divino não devem ser nem separadas nem confundidas, mas consideradas distintamente. O propósito de Deus sobre a finalidade significa que Ele ordenou certas pessoas para serem os destinatários de Seu favor especial, para a glorificação de Sua soberana bondade e graça. Seu propósito sobre os meios significa que Ele determinou criar aquelas pessoas, permitir-lhes cair e resgatá-las com base na redenção de Cristo e na santificação do Espírito. Estes não devem ser considerados como decretos separados, mas como partes componentes e níveis de um propósito. Há uma ordem nos conselhos Divinos, como reais e definidos, como Gênesis 1 mostra que houve em conexão com a criação.

Na medida em que o propósito da primeira extremidade está em vista (em ordem de natureza), antes da determinação dos meios, portanto, o que é o primeiro em intenção é último em execução. Agora, como a glória de Deus é última em execução, segue-se necessariamente que ela foi a primeira em intenção. Por isso os homens devem ser considerados no propósito Divino, concernente à finalidade, nem como criados nem caídos, desde que ambos, sua criação e permissão ao pecado, pertencem ao conselho de Deus sobre os meios. Não é óbvio que, se Deus primeiro decretou criar homens e permitir-lhes cair, e, em seguida, a partir da massa caída escolheu alguns para a graça e glória, que Ele se propôs a criar os homens sem qualquer finalidade em vista? E não é esta a acusação de Deus, a saber algo que mesmo um homem sábio nunca faria, pois quando o homem determina fazer uma coisa, ele propõe uma finalidade (como a construção de uma casa) e depois estabelece formas e meios para concluí-la. Pode ser pensado por um momento que o Onisciente agiria de outra forma?

A distinção acima, entre o propósito Divino a respeito da finalidade e indicação de meios para assegurar este propósito de Deus, é claramente confirmada pela Escritura. Por exemplo, “Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles” (Hebreus 2:10). Aqui há primeiro o decreto relacionado à finalidade: Deus ordenou Seus muitos filhos “à glória”; em Seu propósito dos meios Deus ordenou que o príncipe da salvação deles fosse consagrado “pelas aflições”. Da mesma forma foi em conexão com o próprio Cristo. “Disse o SENHOR ao meu Senhor” (Salmos 110:1). Deus decretou que o Mediador tivesse esta alta honra conferida a Ele, mas com este objetivo foi ordenado: que “Beberá do ribeiro no caminho” (v. 7), Deus, então, decretou que o Redentor deve beber da plenitude desses prazeres que estão em sua mão direita eternamente (Salmos 16:11), contudo isto aconteceu antes que Ele devesse tomar o cálice amargo da angústia. Assim é com o Seu povo: Canaã é a sua porção designada, mas o deserto é apontado como aquele através do qual eles passarão a caminho da mesma.

A predestinação de Deus de Seu povo à santidade e glória anterior à Sua presciência da Queda deles em Adão, se adequada muito melhor com os exemplos dados sobre Jacó e Esaú, em Romanos 9:11-12 do que faz o ponto de vista infralapsariano que Seu decreto os contemplou como criaturas pecadoras. Ali, lemos: “Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá ao menor”. O apóstolo está mostrando que a preferência foi dada a Jacó independente de toda o fundamento de mérito, porque foi feito antes de que as crianças nascessem. Se for mantido em mente que o que Deus faz no tempo é apenas uma manifestação do que Ele secretamente decretou na eternidade, o ponto que estamos aqui defendendo será muitíssimo conclusivo. Os atos de Deus, tanto da eleição quanto da preterição – escolha e rejeição – foram totalmente independentes de qualquer “bem ou mal” previstos. Observe também como essa expressão composta “o propósito de Deus, segundo a eleição” apoia a tese da existência de duas partes para o decreto de Deus.

Também deve ser salientado que a predestinação de Deus de Seu povo para a bem-aventurança eterna, antes que Ele os contemplasse como criaturas pecadoras, concorda muito melhor do que a ideia infralapsariana, com o barro sem forma do Oleiro: “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Romanos 9:21). Sobre isso, Beza (co-pastor com Calvino na igreja em Genebra) observou que: “se o apóstolo tivesse considerado a humanidade como corrompida, ele não teria dito que alguns vasos foram feitos para honra e alguns para desonra, mas antes, que todos os vasos eram aptos para desonra, alguns sendo deixados para desonra, e outros transportados da desonra para a honra”.

Mas deixando de inferências e deduções, voltemo-nos agora para algo mais evidente e definitivo. Em Efésios 1:11 lemos: “havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade”. Agora, um estudo cuidadoso do que precede revela uma clara distinção em “todas as coisas” que Deus opera “segundo o conselho da sua vontade”, ou, para indicá-lo de outra maneira, as bênçãos espirituais que Deus concede ao Seu povo são divididas em duas classes distintas, de acordo como Ele os contemplou pela primeira vez em um estado não caído e, em seguida, em um estado caído. A primeira e mais elevada classe de bênçãos são enumerados nos versículos 4 a 6 e relaciona-se com o decreto de Deus sobre a finalidade; a segunda e subordinada classe de bênçãos são descritas nos versos 7 a 9 relaciona-se com o decreto de Deus sobre os meios que Ele designou para a realização desse fim.

Estas duas partes do mistério da vontade de Deus para com o Seu povo desde a eternidade são claramente marcadas pela mudança de tempo que é usada: o passado de “também nos elegeu” (v. 4), “e nos predestinou para a adoção de filhos” (v. 5) e “nos fez agradáveis a si no Amado” (v. 6), torna-se em tempo presente, no versículo 7: “em quem temos a redenção pelo seu sangue”. Os benefícios mencionados nos versículos 4-6 são como em nenhuma forma dependentes de uma consideração sobre a Queda, mas seguem o nosso ser escolhidos em Cristo, sendo dados sobre fundamentos altos e distintos a partir de Seu ser o nosso Redentor. Deus nos escolhe em Cristo, nosso Cabeça, para que sejamos “santos” significa não esta santidade imperfeito que temos nesta vida, mas uma santidade perfeita e imutável, até mesmo como a que os anjos não tinham por natureza; e a nossa predestinação para adoção denota uma comunhão imediata com o próprio Deus, bênçãos que teriam sido nossas mesmo que o pecado jamais houvesse entrado no mundo.

Como Thomas Goodwin destacou em sua inigualável exposição de Efésios 1: “A primeira fonte de bênçãos – santidade perfeita, adoção, etc. – foram ordenadas a nós sem levar em consideração a Queda, embora não antes da consideração da Queda; pois todas as coisas que Deus decreta existem ao mesmo tempo em Sua mente; elas estavam todas, tanto uma quanto a outra, ordenadas às nossas pessoas. Mas Deus, nos decretos sobre esta primeira sorte de bênçãos nos viu como criaturas que Ele poderia e gostaria de fazer assim gloriosos… Mas a segunda sorte de bênçãos foi ordenada a nós apenas em consideração à Queda, e às nossas pessoas consideradas como pecadoras e incrédulas. A primeira sorte foi para “louvor da graça de Deus”, considerando a graça pela gratuidade do amor; enquanto o segundo tipo é para “o louvor da glória da sua graça”, considerando a graça da livre misericórdia”.

As primeiras e maiores bênçãos devem ter a sua plena realização nos céus, sendo adequadas para aquele estado em que estaremos estabelecidos, e como na principal intenção de Deus, elas estão diante da outra e são ditas terem sido “antes da fundação do mundo” (Efésios 1:4), então elas devem ser realizadas após este mundo estar terminado, a “adoção” a que estamos predestinados (Efésios1:5) ainda esperamos (Romanos 8:23); enquanto que as segundas são bênçãos derramadas sobre nós no mundo inferior, pois é aqui e agora que recebemos a “remissão dos pecados” através do sangue de Cristo. Mais uma vez; as primeiras bênçãos são fundadas unicamente sobre a nossa relação com a pessoa de Cristo, como é evidente, “escolhidos nele… no Amado”; mas as bençoas da segunda sorte são baseadas em Sua obra, a redenção que advém do sacrifício de Cristo. Assim, as últimas bênçãos são apenas a remoção daqueles obstáculos que por causa do pecado se interpõem em nosso caminho de glória intencionada.

Mais uma vez; esta distinção das bênçãos que nós recebemos em Cristo, como criaturas, e por meio de Cristo como pecadores, é confirmada pelo duplo ofício que Ele sustenta em nossa direção. Isto é claramente expresso em: “Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo” (Efésios 5:23). Observe cuidadosamente a ordem desses títulos: Cristo é o primeiro como cabeça e marido para nós, o que estabelece as bases dessa relação com Deus na qualidade de Seus filhos adotados, como pelo casamento com Seu Filho. Em segundo lugar, Ele é o nosso “Salvador”, o que necessariamente relaciona-se ao pecado. Efésios 5:23 deve ser comparado com Colossenses 1:18-20, onde a mesma ordem é estabelecida: nos versos 18 e 19 aprendemos que Cristo é absolutamente ordenado e Sua igreja com Ele, através do que Ele é o fundador desse estado que nós entraremos após a ressurreição, e, em seguida, no versículo 20 O vemos como redentor e reconciliador: primeiro a “cabeça” da Sua Igreja, e, em seguida, o seu “Salvador!” A partir desta dupla relação de Cristo com os eleitos surge uma dupla glória para a qual Ele é ordenado: a intrínseca, devida a Ele como o Filho de Deus que habita em natureza humana e sendo aí a cabeça de uma Igreja gloriosa (veja João 17:5); e outra mais extrínseca, como adquirida pela Sua obra de redenção e comprada com a agonia de Sua alma (veja Filipenses 2:8-10)!

Temos chamado a atenção para o fato de que a única razão para que qualquer alma temente a Deus creia na doutrina da eleição é porque ela a encontra revelada em destaque na Palavra de Deus e, portanto, segue-se que a nossa única fonte de informação sobre a mesma é a Palavra em si. No entanto, o que acaba de ser dito é demasiado geral para ser de ajuda específica para o investigador sério. Quando nos voltamos para as Escrituras por luz sobre o mistério da eleição, é mui essencial que tenhamos em mente que Cristo é a chave para todas as partes delas: “no rolo do livro de mim está escrito” [Salmos 40:7], declara Ele, e, portanto, se tentarmos estudar este assunto à parte dEle, certamente erraremos. Em capítulos anteriores nós evidenciamos que Cristo é a grandiosa origem da eleição, e é a partir desse ponto de partida que devemos proceder, se quisermos fazer qualquer avanço correto.

O que acaba de ser sinalizado é válido não apenas no geral, mas em particular: por exemplo, em relação a esse ramo especial de nosso assunto que foi discutido, nós agora seguiremos a partir deste ponto de vista particular. Se formos corretamente de volta para o início propriamente dito, então, aparecerá que Deus Se agradou, e assim resolveu, vir à comunhão com a criatura, o que significa que Ele determinou trazer à existência criaturas que deveriam gozar de comunhão com Ele mesmo. Sua própria glória era unicamente o fim supremo desta determinação, pois “O Senhor fez todas as coisas para atender aos seus próprios desígnios” (Provérbios 16:4). Nós repetimos, que a Sua própria glória foi o motivo único e suficiente que levou Deus a criar a todos: “Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém” (Romanos 11:35-36).

A principal glória que Deus projetou para Si mesmo na eleição foi a manifestação da glória de Sua graça. Isto é irrefutavelmente estabelecido por: “E nos predestinou para filhos de adoção por [através, no Grego] Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça” (Efésios 1:5-6). A graça é uma daquelas perfeições ilustres no caráter Divino, que é gloriosa em si mesma, e sempre teria permanecido assim embora nenhuma criatura fosse formada; mas Deus mostrou este atributo na eleição de tal forma que o Seu povo ainda a louvará e glorificará para todo o sempre. Deus mostrou a Sua santidade ao entregar a Lei, o Seu poder na criação do mundo, a Sua justiça em lançar os ímpios no inferno, mas a Sua graça resplandece especialmente na predestinação e a que Seus eleitos são predestinados. Assim, também, quando se diz que Deus deu a “conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou” (Romanos 9:23), a primeira referência é à Sua graça, como Efésios 1:7 demonstra.

A segunda pessoa da Trindade foi predestinada para ser Deus-homem, sendo primeiro decretado, pois somos “escolhidos nele” (Efésios 1:4), o que pressupõe que Ele seja escolhido em primeiro lugar, como o fundamento em que nós somos estabelecidos. Somos predestinados para a adoção de filhos, no entanto, é “por Jesus Cristo” (Efésios 1:5). Assim lemos: “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” (1 Pedro 1:20); como veremos mais tarde que a expressão “antes da fundação do mundo” não é apenas uma observação de tempo, mas, principalmente, uma indicação de eminência ou preferência, que Deus tinha de Cristo em Sua visão antes de Sua intenção de criar o mundo para Ele e Seu povo. Agora, temos mostrado que Cristo foi ordenado para ser Deus-homem para fins muito mais elevados do que a nossa salvação, a saber, para que o próprio Deus Se deleitasse; para contemplar a imagem perfeita de Si mesmo em uma criatura, e por essa união, comunicar-Se com aquele homem de uma maneira e nível que não é possível a qualquer mera criatura como tal.

Juntamente com o Filho sendo predestinado a ser Deus-homem, ali repousa a Sua gloriosa pessoa, como Sua herança, para ser o fim soberano de todas as outras coisas que Deus faria e a finalidade de quaisquer de suas criaturas racionais que Ele se agradaria em escolher para a glória. Isso fica claro em: “por que tudo é vosso, e vós de Cristo, e Cristo de Deus” (1 Coríntios 3:21-23), que é falado em referência à consumação. Como vocês, os santos, são o fim para o qual todas as coisas foram ordenadas, assim Cristo é o fim de vocês, e Cristo é o propósito de Deus ou o propósito em ação. Nós dizemos que Cristo é “o fim soberano”, e não o fim supremo, pois o próprio Deus está acima e sobre tudo; mas Cristo é o fim soberano de toda a criação, tendo co-autoridade com Deus, abaixo de Deus. Assim, declara-se que “por Ele” e “para ele” foram criadas todas as coisas (Colossenses 1:16), como se diz de Deus em Romanos 11:36. Assim, este fim soberano na criação repousa nEle como a herança do Mediador: “O Pai ama o Filho, e todas as coisas entregou nas suas mãos” (João 3:35).

Na predestinação do Filho do homem quanto à união com o Filho de Deus, e na constituição dEle através dessa união para ser o nosso fim soberano e de todas as coisas, foi conferido ao homem Cristo Jesus, assim, exaltado ao favor mais alto possível, incomensuravelmente transcendendo toda a graça mostrada para os eleitos, de qualquer forma considerada, de modo que se a nossa eleição é para o louvor da glória da graça de Deus, a Sua muito mais. Mais honra foi conferida “ao santo ser” que nasceu da virgem do que a todos os membros do Seu corpo místico juntos; e isso foi a graça pura e simples, graça soberana, que a concedeu. O que havia em Sua humanidade, simplesmente considerada, o que lhe concedeu direito a tal exaltação? nem poderia haver qualquer mérito previsto que o exigia, por isso deve ser dito sobre o homem Jesus Cristo, como sobre todas as outras criaturas: “Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido?” (1 Coríntios 4:7).

Que não seja esquecido que ao decretar o Filho do homem em união com a segunda pessoa da Trindade, com toda a honra e glória envolvidas nisso, Deus era perfeitamente livre, como em todo o restante, para tê-lO decretado ou não, como Ele seria; sim, tivesse Ele se agradado, Ele poderia ter nomeado o arcanjo ao invés da semente da mulher, para tal inestimável privilégio. Foi, portanto, a livre graça de Deus, que fez esse decreto, e quanto mais elevada foi a dignidade conferida a Cristo acima de Seus companheiros, tanto maior foi a graça. A predestinação do homem Jesus, então, é o maior exemplo de graça e, portanto, o maior propósito de Deus na predestinação para manifestar a Sua graça (de onde tem o seu título denominado “a eleição da graça” – Romanos 11:5) foi realizado nEle sobre Seus irmãos, para que Ele seja para o louvor da glória da graça de Deus, muito acima do que nós somos.

Desde que no caso de Cristo nós temos tanto o padrão e exemplo da eleição – a grandiosa origem – é bastante evidente que a graça não deve ser limitada ou entendida apenas como o favor Divino em direção às criaturas que estão caídas e estão entregues à ruína e miséria. A graça não necessariamente supõe pecado nos objetos em que é mostrada, pois a mais alta instância de todas, esta da graça concedida ao homem Cristo Jesus, foi conferida Àquele que não teve pecado e era incapaz disso. Graça é favor mostrado a quem não merece, pois a natureza humana no Deus-homem não mereceu a distinção que lhe foi conferida. Quando estendida às criaturas caídas, é favor demonstrado a merecedores do mal e merecedores do Inferno, mas isso não está implícito no termo em si, como pode ainda ser visto no caso da graça Divina sendo estendida aos anjos não-caídos. Assim, como Cristo é o padrão em quem Deus predestinou Seu povo para ser conforme, Sua eleição deles para a glória eterna estava sob Sua visão deles como criaturas não-caídas e não como criaturas corrompidas.

Deus, tendo, assim, absolutamente escolhido o Filho do homem e com isso dotou-O de tal realeza como a ser o fim soberano de todos a quem Ele criaria ou elegeria para a glória, isso, portanto, segue que aqueles de nós homens que foram escolhidos, foram destinados pela própria ordenação de Deus em nossa escolha de existirmos para a glória de Cristo como a finalidade de nossa eleição, bem como para a própria glória de Deus. Nós não fomos absolutamente ordenados – como Cristo em Sua predestinação única foi no primeiro propósito dEle – senão a partir do primeiro de nós, a intenção de Deus a nosso respeito é que sejamos de Cristo e tenhamos a nossa glória a partir dAquele que é “o Senhor da glória “(1 Coríntios 2:8). Aqui, como em toda parte, Cristo tem a preeminência, pois a pessoa de Cristo, Deus-homem, foi predestinada para a dignidade de Si mesmo, mas nós para a glória de Deus e de Cristo. Embora Deus o Pai, primeiro e unicamente, designou quem os favorecidos seriam, ainda assim, qualquer eleição que houve deveria ser por causa de Cristo, bem como a Sua própria.

Em nossa eleição Deus tinha o Seu Filho em vista como Deus-homem, e em Seu propósito sobre Ele como a nossa finalidade, Ele nos escolheu por amor dEle, para que fôssemos Seus “companheiros” ou companhias (Salmos 45:7), assim como Ele era o deleite de Deus (Isaías 42:1), de modo que nós pudéssemos ser o Seu deleite (Provérbios 8:31). Assim, nós fomos dados a Cristo em primeiro lugar, não como pecadores a serem salvos por Ele, mas como membros sem pecado a uma Cabeça sem pecado, como um dom soberano de Sua pessoa, para Sua honra e deleite, e para participar da glória sobrenatural com Ele e dEle. “E eu dei-lhes a glória que a mim [como Deus-homem] me deste”, em conformidade com Tua eleição deles e Teu entregar-lhes a Mim para serem Meus. Tu os tens amado como Tu Me tens amado a Mim [ou seja, com um amor eterno na eleição], sim, Tu lhes deste a Mim, para a Minha glória como a finalidade deles, e pelo que, principalmente, Tu lhes amaste (João 17:22-23).

E o que se segue imediatamente em João 17? Isto: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo” (v. 24). Cristo foi amado em Sua eleição desde a eternidade, e a partir do amor de Deus por Ele, pessoas foram dadas a Ele – com que propósito? Mesmo para contemplá-lO, admirá-lO e adorá-lO em Sua pessoa e glória, como sendo a própria coisa a que eles foram ordenados, mais do que para a própria glória deles, pois a glória deles surge a partir de contemplar a dEle (2 Coríntios 3:18). E o que é esta glória a que Cristo foi ordenado? A glória de Sua pessoa primeiro absolutamente decretada a Ele é a elevação de Sua glória no céu, onde somos ordenados a contemplá-la. E observe como Ele aqui (João 17:24) revela o principal motivo de Deus nisso: “porque tu me amaste”, Cristo sendo escolhido em primeiro lugar na designação de Deus, os membros foram escolhidos e dados a Ele para que eles redundassem em Sua glória.

Sendo nós escolhidos para a glória de Cristo como nossa finalidade, e por amor a Ele, bem como para a glória da graça de Deus para conosco, Deus ordenou uma dupla relação de Cristo para conosco para a Sua glória, adicional àquela glória absoluta de Sua pessoa. Primeiro, a relação de uma “Cabeça”, onde nós fomos entregues a Ele como membros de Seu corpo, e como uma esposa ao seu marido para ser seu cabeça. Em segundo lugar, a relação de um “Salvador” e Redentor, que é, em adição à sua liderança; e ambos para adicional glória de Cristo, e também para a manifestação da graça de Deus em relação a nós. Estas duas relações são bastante distintas e não devem ser confundidas. “Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo” (Efésios 5:23): cada um desses ofícios foi nomeado a Ele pelo beneplácito da vontade de Deus. Esta mesma dupla relação de Cristo em relação ao Seu povo é apresentada novamente em Colossenses 1:18-20, esta honra oficial dupla conferida a Ele está além e acima das realezas absolutas de Sua pessoa como Deus-homem.

Agora vimos que a dupla relação de Cristo quanto ao Seu povo tem, adequadamente, um duplo e distinto aspecto e consideração quanto a nós e sobre nossa eleição por Deus, que não foi absoluta como a de Cristo foi, mas em relação aos Seus dois ofícios principais. O primeiro diz respeito às nossas pessoas, sem a consideração de nossa queda em Adão, pelo qual fomos contemplados na pura porção da criação como a ser criada, e nesta consideração Deus nos ordenou para a glória final, sob relação com Cristo como “Cabeça”, seja como membros de Seu corpo ou como Sua noiva, ou melhor, tanto como sendo Ele a Cabeça da Igreja; também ou ambas, as nossas pessoas eram plenamente capazes antes ou sem qualquer consideração de nossa queda. Em segundo lugar, as nossas pessoas vistas como caídas, como corruptas e pecaminosas, e, portanto, como objetos a serem salvos e redimidos da escravidão do mesmo, sob a nossa relação com Ele como um “Salvador”.

Cada uma dessas relações foi para a glória da graça de Deus. Primeiro, em Seu desígnio de favorecer-nos, considerados puramente como criaturas, para uma maior glória por seu Cristo do que era atingível pela lei da criação. Ordenar-nos a esta glória foi pura graça, não menos do que para redimir-nos do pecado e da miséria em que caímos; pois isso foi totalmente independente das obras ou mérito, assim como a eleição de Cristo (que é o padrão da nossa) se deu além da consideração de obras de qualquer tipo, como Ele declarou: “a minha bondade não chega à tua presença” (Salmo 16:2). “Embora o trabalho da vida e agonia da morte do Filho refletiu um brilho incomparável sobre cada atributo de Deus, ainda assim o Deus mui bendito e infinitamente feliz não tinha nenhuma necessidade da obediência e da morte de Seu Filho, foi por nossa causa que a obra da redenção foi empreendida” (C. H. Spurgeon). É a esta graça original que 2 Timóteo 1:9 refere-se, foi a graça somente, que levou Deus a nos resgatar e chamar, à parte de obras, mas “segundo” esta graça matriz pela qual fomos ordenados para a glória desde o início.

Nessa graça original repousa o grandioso e último desígnio de Deus, pois ela terá sua realização última em todos, e com a perfeição de todos. Deus poderia imediatamente, sobre a nossa primeira criação, ter nos tomado nesta glória. Mas em segundo lugar, para adicional magnificação de Cristo e demonstração mais ampla de Sua graça, para estendê-la ao seu alcance máximo; como a palavra em Hebraico é “Estende a tua benignidade” (Salmo 36:10). Ele não quis conduzir-nos à plena posse da nossa herança em contemplar a glória pessoal de Cristo, nossa cabeça; mas permissivamente ordenou que cairíamos em pecado, e, portanto, decretou criar-nos em condições mutáveis (como a lei da criação requeria), o que abriu caminho para a abundância de Sua graça (Romanos 5:15). Isto é confirmado por: “Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia [um termo que denota nosso merecimento do mal], pelo seu muito amor com que nos amou” (Efésios 2:4). Primeiro Deus nos amou, vistos como criaturas sem pecado; e isso se tornou a base da “misericórdia” para conosco, quando considerados como pecadores.

Foi sobre esta determinação Divina que os eleitos não entrariam imediatamente após a sua criação na glória a que foram ordenados, antes primeiro seriam permitidos cair em pecado e miséria e, em seguida, seriam libertos do mesmo, de forma que Cristo tivesse Sua grandiosa e maior glória do ofício de Redentor e Salvador acrescentada à Sua eleição de Preeminência. É nosso ser pecador e miserável que ocupa a nossa preocupação presente e imediata, como a que estamos mais solícitos quanto a deixar este mundo, e é por isso que as Escrituras, principalmente, apresentam a Cristo como Redentor e Salvador. Dizemos “principalmente” pois como vimos elas não são, de forma alguma, silenciosas sobre a maior glória advinda do fato dEle ser o Cabeça da Igreja; sim, suficiente é dito nelas para atrair os nossos pensamentos, afeições e esperanças para contemplá-lO em Sua grandiosa glória.

Ao concluir este esboço sobre a ordem Divina da eleição de Cristo, e nossa, como é representada nas Escrituras, que seja destacado que não supomos um intervalo de tempo entre Deus predestinar a Cristo, como Cabeça e O predestinar como Salvador, pois tudo foi simultâneo na mente de Deus; mas a distinção é da ordem de natureza, e para a nossa melhor compreensão dos mesmos. Cristo não poderia ser o “Cabeça”, sem o correlato de Seu “corpo” místico, como Ele não poderia ser o nosso “Salvador”, a menos que houvéssemos caído. “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma” (Isaías 42:1): Cristo foi o primeiro eleito e deleite de Deus e depois Seu servo – sustentado por Ele na obra da redenção. Absoluta e principalmente Cristo como Deus-homem foi ordenado para Ele mesmo, para Sua própria glória; relativa e, secundariamente, Ele foi escolhido para nós e para a nossa salvação.

A glória da pessoa do Deus-homem, absolutamente considerada, foi o desígnio primário de Deus, a que Ele determinou em Seu coração; próximo a isso foi a Sua ordenação de Cristo para ser um Cabeça para nós e de nós para sermos um corpo para Ele, isso por nossa união com Ele como nossa Cabeça; Ele foi o autor suficiente e eficiente de tais bênçãos, à medida que nos tornarmos imutavelmente santos; da filiação a partir de Sua Filiação; da aceitação graciosa de nossas pessoas nEle como o principal Amado, e herdeiros de uma mesma glória com Ele – todas estas benções nos capacitam a sermos considerados por Deus como criaturas puras através da nossa união com Cristo, e não necessitados de Sua morte para comprá-las para nós, sendo bastante distintas da bênção da redenção como Efésios 1:7 (seguido dos versículos 3-6) mostra com suficiente clareza. Como fazer de Cristo a nossa cabeça foi o primeiro no plano de Deus, assim são ó último a ser efetuado, sendo esta a maior de todas as bênçãos da “salvação”, a coroa de tudo, quando nós estaremos “para sempre com o Senhor”.

Descendo a um nível muito mais baixo, que seja sinalizado que certamente os santos anjos não podiam ser considerados na massa corrupta quando eles foram escolhidos, uma vez que nunca caíram; por isso, é mais razoável supor que eram considerados por Deus mesmo quando estavam na mesma pura massa da criação, quando Ele nos elegeu. Assim foi com a natureza humana de Cristo, que é o objeto da eleição, pois nunca caiu em Adão, nem nunca entrou em um estado corrupto, mas foi “escolhido dentre o povo” (Salmos 89:19), e, consequentemente, as pessoas das quais ele foi escolhido devem ser consideradas como ainda não-caídas. Isso por si só concorda com o tipo de Eva (a Igreja) que está sendo dada a Adão (Cristo) antes do pecado entrar no mundo. Assim, a dupla ordenação dos eleitos para a glória e para a salvação (tendo em vista a queda) de Deus concorda com a dupla ordenação dos não-eleitos: preterição como criaturas e condenação como pecadores.

Nota: Por muito do que foi exposto acima, estamos em dívida com Thomas Goodwin. Em alguns lugares temos sido propositadamente repetitivos neste capítulo, pois a maior parte do fundamento examinado é inteiramente nova para a maioria dos nossos leitores.

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♦ O texto deste e-book é capítulo 10 do livro The Doctrine of Election, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: The Doctrine of Election
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Graça, Sofrimento e Glória – Arthur Walkington Pink

“E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória, depois de havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça. A ele seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém.” (1 Pedro 5:10-11).

Tendo considerado nos dois capítulos anteriores, o suplicante, a definição, o Objeto e o apelo desta oração, vamos agora contemplar, em quinto lugar, a sua petição: “E o Deus de toda a graça… ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça”. A força apropriada da gramática Grega faria a petição ser lida assim: “o Deus de toda graça… Ele mesmo vos aperfeiçoe, Ele mesmo vos confirme, Ele mesmo vos fortaleça, Ele mesmo vos estabeleça”. Há muito mais contido nessas palavras do que aparece na sua superfície. A plenitude do seu significado só pode ser descoberta por um exame paciente das Escrituras, assim, determinando como os vários termos são utilizados em outras passagens. Eu considero as palavras “Ele mesmo vos aperfeiçoe” como a principal coisa solicitada. As três palavras que se seguem são, em parte, uma amplificação e, em parte, uma descrição do processo pelo qual o efeito desejado seja alcançado, embora cada uma das quatro palavras requer ser considerada separadamente. Expositores antigos – que adentraram nas coisas de modo muito mais profundo e completo do que os nossos expositores modernos o fazem –, levantaram a questão de saber se esta oração recebe o seu cumprimento na vida presente ou na vida por vir. Depois de pesar cuidadosamente os prós e os contras de seus argumentos, concluí tendo em vista o alcance extraordinário da palavra grega katartizō (Nº 2675, em Strong e Thayer), aqui traduzida por aperfeiçoar, que esta petição é concedida em uma resposta dupla: aqui e no futuro. Considerarei a ambos em meus comentários.

Duas Significações Relevantes

Katartizō significa aperfeiçoar (1) por ajustar ou articular de modo a produzir um objeto impecável; ou (2) por restaurar um objeto que se tornou imperfeito. Para que você seja capacitado a formar seu próprio julgamento, definirei antes as passagens em que a palavra Grega é de forma variada traduzida em outro lugar. Em cada passagem citada a palavra ou palavras colocadas em itálico são a tradução em Português da palavra Grega traduzida como aperfeiçoar em nosso texto. Quando o Salvador diz: “Mas corpo me preparaste [ou “me equipaste”, tolerância admissível] (Hebreus 10:5), devemos entender, como disse Goodwin, que “aquele corpo foi formado ou articulado pelo Espírito Santo, com a alma humana, em todas as suas partes, em um instante de sua união com o Filho de Deus”, e que ele era imaculadamente santo, impecável, e sem mancha ou defeito. Katartizō é usado novamente para expressar a consumação final e perfeita da obra da primeira criação de Deus: “os mundos pela palavra de Deus foram criados” (Hebreus 11:03). Ou seja, eles estavam de tal forma concluídos que nada mais era necessário para a sua perfeição; pois como Gênesis 1:31 nos diz: “E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom”.

Mas essa mesma palavra Grega tem um sentido muito diferente em outras passagens. Em Mateus 4:21 encontra-se na frase “consertando as redes”, em que se denota a reparação do que foi danificado. “Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão” (Gálatas 6:1). Neste texto, isso significa tal como a restauração de um membro que está fora da articulação. Sem dúvida, essa foi uma das significações que o Apóstolo Pedro tinha em mente quando escreveu esta oração, pois aqueles por quem ele orava haviam sido desarticulados ou dispersos por perseguições (1 Pedro 1:1, 6, 7). Paulo também tinha esse tom de significado diante dele quando exortou os Coríntios divididos: “sejais unidos em um mesmo pensamento e em um mesmo parecer” (1 Coríntios 1:10). Mais uma vez, a palavra é usada às vezes para expressar o suprimento de uma deficiência, como acontece em 1 Tessalonicenses 3:10: “para que possamos ver o vosso rosto, e supramos o que falta à vossa fé?”. A palavra falta implica uma deficiência. Mais uma vez, a palavra ocorre em Hebreus 13:21: “Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus” (Hebreus 13:21). Aqui o apóstolo ora para que os santos avancem para maiores níveis de fé e de santidade nesta vida.

Nosso Aperfeiçoamento Tem Relação Com o Processo de Santificação

Desta forma, poderá ver, a partir de seu uso em outras passagens, que a palavra Grega traduzida como aperfeiçoar em 1 Pedro 5:10 pode oferecer um significado de algo como isto: “O Deus de toda graça… Ele mesmo vos perfeito em todos esses níveis sucessivos de graça que são necessários para que vocês alcancem a maturidade espiritual”. Esse significado não necessariamente implica qualquer culpa pessoal ou fracasso naqueles por quem se ora, assim como uma criança não deve ser responsabilizada por não ter ainda atingido a plena estatura de um adulto ou de não ter atingido o conhecimento que vem com a idade madura. É com este princípio em mente que Deus prometeu levar à perfeição a boa obra que Ele começou na alma de seu povo (Filipenses 1:6). Um Cristão pode ir até a medida de graça recebida do alto, sem qualquer divergência intencional em seu curso, e ainda ser imperfeito. Este foi o caso com o apóstolo Paulo, um dos mais favorecidos dos filhos de Deus, que confessou: “Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito” (Filipenses 3:12). Houve, e há, algumas almas privilegiadas que nunca deixaram o seu primeiro amor, que seguiram rapidamente na busca do conhecimento do Senhor, e que (como o teor geral de suas vidas) têm se conduzido de acordo com a luz recebida. No entanto, mesmo estes têm necessidade de mais adições de sabedoria e santidade para torná-los ramos mais fecundos da videira e para movê-los sempre na direção à consumação de sua santidade no céu.

Um exemplo disso aparece no caso dos santos de Tessalônica. Eles não somente haviam experimentado uma conversão notável (1 Tessalonicenses 1:9), mas eles se comportaram da maneira mais exemplar e que mais honrava a Deus, de modo que o apóstolo deu graças a Deus por eles por causa da “obra da vossa fé, do trabalho do amor, e da paciência da esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, diante de nosso Deus e Pai” (vv. 2-3). Não somente as suas graças interiores eram saudáveis e vigorosas, mas em sua conduta exterior eles foram feitos “exemplo [padrão] para todos os fiéis” (v. 7). No entanto, Paulo estava mui ansioso para visitá-los novamente, para que pudesse aperfeiçoar o que faltava em sua fé (1 Tessalonicenses 3:10). Ele desejava que fossem abençoados com outras fontes de conhecimento e graça que promoveria uma caminhada mais íntima com Deus e uma maior resistência e superação de tentações. Pois essa fé que repousa sobre Cristo para perdão e aceitação de Deus, que Ele concede na conversão, é também uma fé consciente se fundamente sobre a nossa aceitação por Deus. Paulo refere-se a isto como a “plenitude da inteligência” (Colossenses 2:2). Com essa bendita segurança, Deus nos dá a rica experiência da “alegria indizível e cheia de glória” (1 Pedro 1:8) e do fazer firme a nossa vocação e eleição, a fim de que uma entrada abundante em Seu reino seja iniciada nesta vida (2 Pedro 1:10-11). No entanto, este aperfeiçoamento também se aplica à recuperação e restauração dos Cristãos que tropeçaram, como é evidente, no próprio caso de Pedro.

Pedro ora pelo Estabelecimento ou Confirmação da Fé Daqueles a Quem se Dirige

Mas suponha que Deus assim conserte e restaure aqueles que foram achados em falta, ainda assim, eles não podem cair novamente? Sim, de fato, e, evidentemente, Pedro teve uma tal contingência em vista. Assim, ele acrescenta a palavra “confirmar”. Pedro anelava que eles fossem tão confirmados na fé que eles não caíssem. Para os inconstantes e vacilantes, esse foi um pedido para que eles não fossem mais lançados para lá e para cá, antes fossem inamovíveis em suas crenças. Para os desanimados que, tendo posto a mão no arado, não olhassem para trás por causa das dificuldades do caminho. Para aqueles que estavam andando de perto com o Senhor, para que pudessem ser confir-mados em santidade diante de Deus (1 Tessalonicenses 3:13); pois os mais espirituais estão diariamente em necessidade de graça sustentadora A palavra grega usada (stērizō, Nº 4.741, em Strong e Thayer) de um modo geral significam firmar ou confirmar. Ela ocorre nas palavras de Cristo em Lucas 16:26: “está posto um grande abismo”. Ela é encontrada novamente em conexão com Cristo e é traduzida assim: “manifestou o firme propósito de ir a Jerusalém” (Lucas 9:51). É a palavra dirigida pelo Senhor ao próprio Pedro: “e tu, quando te converteres, confirma [ou “fixa firmemente”] teus irmãos” (Lucas 22:32). Nosso Senhor estava comissionando Pedro, com antecedência, para restabelecer aqueles de Seus condiscípulos que também poderiam ceder à tentação de negar o Seu Mestre. Da mesma forma, Paulo quis estabelecer e consolar os santos de Tessalônica a respeito de sua fé, e isso em relação à tentação ou tribulação (1 Tessalonicenses 3:1-5).

Pedro Ora para que Deus Se Agrade em Conceder Força Moral a Eles

Mas, ainda que nós sejamos assim confirmados pela graça de Deus, de modo que não podemos cair total e finalmente, ainda assim, somos fracos e podemos estar labutando sob grandes debilidades. Por isso, o apóstolo acrescenta à sua petição a palavra “fortale-cer”. Este verbo grego (sthenoō, Nº 4.599 em Strong e Thayer) não é usado em outras partes do Novo Testamento, mas, a partir de sua posição aqui entre “confirmar” e “estabelecer”, ela parece ter a força revigorante contra fraquezas e corrupções. Lembro-me da oração que Paulo ofereceu, em nome dos Efésios, para que fossem “corroborados com poder pelo seu Espírito no homem interior” (Efésios 3:16). Paulo emprega um substantivo negativo (asthenes, Nº 772 em Strong e Thayer), formado a partir da mesma raiz, em Romanos 5:6: “Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios”. Em nosso estado não-regenerado, estávamos totalmente desprovidos de capacidade e habilitação para fazer aquelas coisas que são agradáveis a Deus. O estado de impotência espiritual de uma alma não-regenerada não é apenas dito ser “fraco”, mas a condição do corpo quando morto é expresso por um substantivo (astheneia, Nº 769) derivado de asthenes (Nº 772). “Semeia-se em fraqueza”, ou seja, é sem vida, totalmente desprovido de qualquer vigor. Mas, por contraste, “ressuscitará com vigor” (1 Coríntios 15:43); ou seja, isso deve ser dotado e capacitado com todas as habilidades das criaturas racionais, mesmo como as que os anjos têm (Lucas 20:36), os quais “excedem em força” (Salmos 103:20). Assim, este pedido pelo fortalecimento dos santos deve ser entendido como por suprimentos de graça que fortalecerão as mãos cansadas e joelhos desconjuntados e os capacitarão a superar todas as forças de oposição.

Pedro Ora para que Eles Possam Ser Estabelecidos em Fé, Amor e Esperança

Apesar de sermos confirmados de modo que nunca seremos perdidos, e embora sejamos fortalecidos para resistirmos contra as tribulações, ainda assim, podemos nos tornar instáveis e inseguros. Portanto, Pedro acrescenta a palavra “estabelecer” à sua petição. Ele está preocupado para que eles sejam incansáveis em sua fé em Cristo, amor por Deus e esperança da glória eterna. O verbo grego (themelioō, Nº 2.311) é traduzido como “edifi-cada” em Mateus 7:25, “fundaste” em Hebreus 1:10, e “fundados” em Efésios 3:17. Em nosso texto, ele parece ser utilizado como o oposto de oscilações de espírito e dúvidas de coração. Pedro está dizendo algo como: Eu oro para que vocês sejam capazes de dizer com confiança: “porque eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia” (2 Timóteo 1:12), e que vocês não se desviem do caminho do dever por causa da oposição que vocês encontram. Não importa o quão boa uma árvore possa ser, se ela não estiver estabelecida na terra, mas sendo movida de lugar para lugar, ela terá pouco ou nenhum fruto. Quantos podem traçar a esterilidade de suas vidas pela condição incerta de seus corações e julgamentos! Davi poderia dizer: “Preparado está o meu coração, ó Deus, preparado está o meu coração”, e portanto, ele adicionou, “cantarei, e darei louvores” (Salmos 57:7). Esta também é uma benção que somente Deus pode dar. “Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar”, diz Paulo (Romanos 16:25). Ainda assim, como Deuteronômio 28:9 e 2 Crônicas 20:20 mostram, devemos utilizar os meios indicados.

“Ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça”. O objetivo último parece ser mencionado em primeiro lugar, e, em seguida, as etapas através do que isso deve ser alcançado. Mas, se considerados em conjunto ou isoladamente, todos eles relacionam-se com a nossa santificação prática. O acúmulo destes termos enfáticos indica a dificuldade da tarefa do Cristão e sua necessidade urgente de suprimentos constantes de Graça Divina. A guerra do santo é uma de dificuldade incomum, e suas necessidades são profundas e muitas; mas ele relaciona-se com “o Deus de toda graça”! Por isso, é tanto o nosso privilégio e dever recorrer a Ele por meio de súplica insistente (2 Timóteo 2:1; Hebreus 4:16). Deus providenciou graça correspondente a todas as nossas necessida-des, ainda assim, esta flui através dos meios que Ele designou. Deus irá nos “aperfeiçoar, confirmar, fortificar, e estabelecer”, em resposta à fervorosa oração, pela instrumentalidade de Sua Palavra, por Sua bênção para nós aos vários ministérios de Seus servos, e santificando-nos a disciplina de Suas providências. Aquele que deu ao Seu povo uma esperança segura também dará todo o necessário para a realização da coisa esperada (2 Pedro 1:3); mas é unicamente a nossa parte buscar a bênção desejada e necessária por meio da oração (Ezequiel 36:37).

Nosso Padecer com Cristo Deve Preceder o Sermos Glorificados com Cristo

Em sexto lugar, passamos a refletir sobre a qualificação desta oração: “depois de have-mos padecido um pouco”. Esta cláusula está intimamente ligada com duas outras: (1) “que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória” e (2) a petição “Ele mesmo vos aperfeiçoe”. O apóstolo não orou para que os crentes fossem removidos deste mundo, assim que fossem regenerados, nem que eles fossem imediatamente aliviados de seus sofrimentos. Ao contrário, ele ora para que os seus sofrimentos deem lugar à glória eterna “depois de um tempo”, ou, como diz o original em Grego: “depois de um pouco de tempo”, pois todo o tempo é curto, em comparação à eternidade. Pela mesma razão, as aflições mais severas devem ser consideradas como “leves” e apenas “momentâneas” quando comparada a um “peso eterno de glória” que nos aguarda (2 Coríntios 4:17). Os sofrimen-tos e a glória estão inseparavelmente ligados, pois “por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus” (Atos 14:22). O apóstolo Paulo ensina claramente que aqueles de nós que somos filhos de Deus deveremos realmente compartilhar da herança de Cristo, “se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” (Romanos 8:17). Se alguém não carrega qualquer cruz, ele não ganhará nenhuma coroa (Lucas 14:27). Todos os que sofreram por amor de Cristo na terra serão glorificados no céu; mas ninguém será glorificado, salvo aqueles que, de alguma forma ou de outra, estão sendo “feito conforme à sua morte” (Filipenses 3:10). Alguns dos sofrimentos do crente provem da mão da providência de Deus, alguns de “falsos irmãos” (2 Coríntios 11:26; Gálatas 2:4), alguns do mundo profano, alguns de Satanás e alguns de pecado interior. Pedro fala de “tentações” ou “tribulações” (1 Pedro 1:6), mas elas são contraba-lançadas pela “multiforme graça” (1 Pedro 4:10). E ambas são dirigidas pela “multiforme sabedoria de Deus” (Efésios 3:10)!

A Nossa Conformidade com Cristo Inclui Necessariamente Nossa Comunhão com Ele em Seus Sofrimentos

A abundante graça de Deus não exclui tribulações e aflições, mas aqueles que são os destinatários da graça Divina têm sido “ordenados para isso” (1 Tessalonicenses 3:3). Então, não nos espantemos ou desfaleçamos por eles, mas busquemos a graça para nos santificarmos. Os sofrimentos são necessários para os santos em várias considerações. Em primeiro lugar, eles são designados para que os membros possam se conformar com a sua Cabeça: “Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles” (Hebreus 2:10). Suficientes, então, para que o discípulo seja como o seu Mestre, para que ele seja aperfeiçoado depois de ter sofrido por algum tempo. O próprio Pedro faz alusão a esta ordem divinamente prescrita no caminho da salvação (ou seja, a humilhação, em seguida, a exaltação, que se aplica não somente à Cabeça, mas aos Seus membros também), quando ele se refere aos “sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir” (1 Pedro 1:11). Foi a vontade Divina que mes-mo o Filho encarnado deveria aprender a “obediência [submissão], por aquilo que padeceu” (Hebreus 5:8). Houve um ponto de viragem no Seu ministério quando Jesus começou “a mostrar aos seus discípulos que convinha ir a Jerusalém, e padecer muitas coisas dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia” (Mateus 16:21). Por que Ele teve que sofrer assim? É porque Deus havia ordenado isso (Atos 4:28). Cristo foi tentado pelo Diabo apenas por causa da malícia de Satanás em relação a Ele? Não, pois foi “conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Mateus 4:1; cf Marcos 1:12-13; Lucas 4:1-2). Lembrem-se durante as tribulações, queridos santos, que o próprio Salvador entrou no reino de Deus “por muitas tribulações” (Atos 14:22), assim como nós devemos fazer. Assim, “naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer [“aliviar” ou “ajudar”] aos que são tentados” (Hebreus 2:18). Portanto, tenhamos “grande gozo quando cairdes [nós cairmos] em várias tentações” (Tiago 1:2), pois, sofrer “como Cristão” é um meio pelo qual podemos glorificar ao nosso Deus redentor (1 Pedro 4:16). O privilégio de experimentar “a comunhão dos Seus sofrimentos” é um dos meios indicado por Deus através do que podemos saber que estamos em Cristo, e não mais identificados com o mundo que agora permanece sob a ira de Deus (Filipenses 3:7-11). Ouça as palavras de nosso Mestre (Mateus 5:10-12):

Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.

A Graça de Deus é Magnificada ao Atender as Nossas Necessidades e Confundir Nossos Inimigos

Em segundo lugar, o Deus de toda graça fez esta designação porque a Sua graça é melhor vista em sustentar-nos e é mais manifesta ao nos trazer refrigério. Assim, encon-tramos o trono da graça magnificado por Deus nos dar “graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hebreus 4:16). Grande parte da glória da graça de Deus aparece em Seu apoiar os fracos, em libertar os tentados e em levantar os caídos. O Senhor não nos isenta do conflito, mas nos sustenta no mesmo. O chamado eficaz garante a nossa perseverança final, ainda assim, isso não torna desnecessárias as fontes contínuas de graça. Como Manton expressou: “Deus não apenas lhes dará glória no final de sua jorna-da, mas sustenta as suas despesas pelo caminho”.

Em terceiro lugar, nosso Pai nos conduz através de provas ardentes, a fim de confundir aqueles que se opõem a nós. A graça reina (Romanos 5:21), e a grandeza de uma monarquia é demonstrada por sua subjugação dos rebeldes e ao derrotar seus inimigos. Deus levantou o poderoso Faraó, a fim de manifestar Seu próprio poder. No contexto (1 Pedro 5:8), como já vimos, ele permite o diabo, como um leão que ruge, a rugir em nosso derredor, se opondo e atacando-nos. Mas Ele faz isso somente para o frustrar, pois é “certo que os presos se tirarão ao poderoso” (Isaías 49:25), e Deus “esmagará em breve Satanás debaixo dos vossos [nossos] pés” (Romanos 16:20).

O Sofrimento Prova Nossas Graças e Faz o Céu Mais Glorioso

Em quarto lugar, o sofrimento é necessário para testar e provar as nossas graças: “a pro-va da vossa fé opera a paciência” (Tiago 1:3). Considere o que Pedro diz sobre nós, que fomos gerados “de novo para uma viva esperança”:

“Em que vós grandemente vos alegrais, ainda que agora importa, sendo necessário, que estejais por um pouco contristados com várias tentações, para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo” (1 Pedro 1:6-7).

É o vento da tribulação que separa o trigo do joio, a fornalha que revela a diferença entre a escória e o ouro. O ouvinte que um “solo pedregoso” se ofende e cai: quando é “chega-da a angústia e a perseguição, por causa da palavra, logo se ofende” (Mateus 13:21). Assim, também, para a purificação e resplendor de nossa esperança, nossos corações têm que ser mais completamente apartados deste mundo antes que eles se tornem estabelecidos sobre as coisas do alto.

Em quinto lugar, a glória de nossa herança eterna é reforçada por nosso suportar a aflição. Ouça as palavras de Thomas Goodwin:

O céu não é simplesmente alegria e felicidade, mas uma glória, e uma glória vitoriosa pela conquista “Ao que vencer” [as promessas são feitas] em cada uma das sete cartas de Apocalipse 2 e 3. Esta é uma coroa conquistada por mestria, e assim por esforço, de acordo com certas leis estabelecidas que devem ser observadas por aqueles que militam (2 Timóteo 2:5). A glória vitoriosa por conquista e mestria é a mais valiosa. A porção que Jacó ganhou “com a minha espada e com o meu arco” foi aquela reservada para seu amado José (Gênesis 48:22). Nós somos mais do que vencedores, por meio dAquele que nos amou.

Graça é Fornecida para Conflitos Internos e Externos

É um erro (cometido por alguns) restringir tanto as aflições do versículo 9 ou o sofrimento do versículo 10 a perseguições exteriores e provações. Antes, todos os assaltos internos (seja a partir de nossas próprias concupiscências ou de Satanás), e bem como todas as tentações, sejam quais forem, devem ser incluídos. O contexto exige isso, as palavras: “Sede sóbrios e vigilantes”, relaciona-se às nossas concupiscências, bem como a todas as outras provocações à prática do mal, assim, o chamado a resistir ao Diabo claramente se relaciona com suas tentações interiores para o pecado. A experiência de todos os santos o exige, pois as suas dores mais agudas são ocasionadas por suas próprias corrupções. Além disso, como Goodwin apontou, a nossa ação de colocar Deus diante dos olhos de nossa fé como “o Deus de toda graça”, argumenta o mesmo; pois a Sua graça está principalmente pronta para auxiliar-nos contra pecados interiores e tentações ao pecado. Além disso, toda a Sua graça se estende não somente a todos os tipos de misérias exteriores, mas a todos os males internos, que são a nossa maior tristeza, o que exige Sua graça abundante sobre todo o mais, e para o que Sua graça é principalmente dirigida (Salmo 19:14; 119:1-16; Provérbios 3:5-7; 4:20-27) Sua graça é o grande remédio para todos os males a que o crente está sujeito. Alguns são culpados de pecados piores após a conversão do que antes, e se não fosse o Deus de toda graça o seu Deus, onde eles estariam?

A Perfeição em Graça é Progressiva e Escatológica

“Depois de havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça”. Isso pode muito bem ser considerado como um pedido de graça para que possamos obedecer a exortação encontrada em 1 Coríntios 15:58: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor”. Devemos estar constantemente em oposição ao pecado e nos esforçando para sermos santos em toda maneira de viver. Este pedido recebe um cumprimento parcial nesta vida, mas uma realização completa e mais transcendente no céu. Os santos avançam para novos graus de fé e de santidade, quando, após temporadas de hesitação e sofrimento, Deus os fortalece e estabelece em uma forma mais estável de espírito. No entanto, apenas em nossa condição permanente após a morte, essas bênçãos serão totalmente nossas. Somente então seremos aperfeiçoados, no sentido de sermos plenamente conformes à imagem do Filho de Deus. Nossos corações serão feitos “irrepreensíveis em santidade diante de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 3:13). Só então toda a nossa debilidade findará e nossos corpos “ressuscitarão com vigor” (1 Coríntios 15:43). Então, de fato, nós seremos eternamente estabelecidos, pois a pro-messa Divina é esta: “A quem vencer, eu o farei coluna no templo do meu Deus, e dele nunca sairá” (Apocalipse 3:12).

A Doxologia da Esperança Infalível

Em sétimo lugar, finalmente, chegamos à grande atribuição desta oração apostólica: “A ele seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém”. “O apóstolo, tendo acrescentado oração à sua doutrina, aqui adicionou louvor à sua oração”, diz Leighton. Isso expressou a confiança do apóstolo de que o Deus de toda graça concederia sua petição. Ele estava certo de que o que ele pedira em nome dos santos seria a “glória” Divina, e que o Divino “poderio” infalivelmente o operaria. Há, portanto, uma dica prática implícita para nós nesta doxologia final. Isso indica onde o alívio deve ser obtido e onde a força deve ser encontrada em meio ao nosso sofrimento: ao olhar para a glória de Deus, que é a grande finalidade que Ele tem em vista em todo o Seu lidar conosco; e pela confiante crença no domínio de Deus em realizar todas as coisas para o nosso bem (Romanos 8:28). Pois, se é Seu o poderio, e Ele nos chamou à Sua glória eterna, então o que temeremos? Assim, certa é a nossa glorificação (Romanos 8:30) de forma que devemos dar graças por isso agora. A graça abundante e infinita de Deus está envolvida para efetivá-la, e Seu poder onipotente garante a sua realização.

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♦ Este texto é formado pelo Capítulo 9 do Livro A Guide to Fervent Prayer, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: A Guide to Fervent Prayer
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


O Senhor Sabe Livrar – Robert Murray M´Cheyne

“Assim, sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar os injustos para o dia do juízo, para serem castigados.” (2 Pedro 2:9)

Há apenas duas grandes classes de pessoas no mundo: os piedosos e os injustos; e a maneira em que Deus lida com essas duas classes configura a história do universo. A uma dessas classes cada um de vocês pertence. (1) Os piedosos são aqueles que nasceram de novo, que são feitos participantes da natureza Divina, e vivem para Deus. (2) Os injustos são aqueles que são ímpios, que nunca nasceram de novo, que vivem para si mesmos e para o mundo. Deus lida de forma muito diferente com essas duas classes.

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I.
Seu tratamento aos piedosos.

1. Ele lhes permite cair em tentações. Toda a Bíblia mostra que é comum para os crentes serem conduzidos através de muitas e grandes tentações. Tentações podem ser compreendidas de duas maneiras. (1) Solicitações para pecar. Todos os crentes podem cair nestas. A velha natureza permanece; embora crucificada, e mortificada, e odiada, contudo ela permanece. Satanás atira seus dardos inflamados, coloca armadilhas para a alma. O mundo espreita por nossa hesitação. Sem dúvida, Noé sentiu estas no mundo antigo, e Ló, enquanto caminhava pelas ruas de Sodoma. (2) Tribulações. Todos os tipos de tribulações tentam a alma para ver se esta permanecerá em Cristo ou não, censuras e perseguições. Muitas vezes, a tribulação é ardente. Toda a Bíblia testifica que é comum que os crentes caiam nestas. O curso normal de um crente passa por meio destas: “Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar” [1 Coríntios 10:13]. Não pense que isso é estranho. Tiago diz “tende grande gozo quando cairdes em várias tentações” [Tiago 1:2]. E Paulo diz que ele serviu ao Senhor “com toda a humildade, e com muitas lágrimas e tentações” [Atos 20:19]. Você pode achar estranho que Deus nos conduza por tal caminho para a glória, a saber, pelas lágrimas e tentações. Por que Ele deixou Noé viver tanto tempo em um mundo de provações? Por que ele deixou Ló permanecer no meio de Sodoma?

Primeiramente, para manifestar a realidade da graça. Diz-se: “E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós” [1 Coríntios 11:19]. Pela mesma razão, deve haver tentações, para que aqueles dentre vós, que são realmente filhos de Deus se manifestem. Em um momento em que não há tribulação ou tentação, é fácil receber a Palavra com alegria, e muitos entre vocês parecem ser Cristãos, mas quando a tentação vem, muitos caem, muitos que, uma vez, pareciam ir bem, estar comovidos, e esperar diligentemente na Palavra. Talvez se você fosse autorizado a prosseguir suavemente ao longo da vida, sem tentações, você teria ficado com um nome de quem vive por todos os seus dias; mas a tentação veio, e você afundou, só para mostrar que você não era dEle. Noé, porém, é preservado em meio ao mundo antigo, não conformado com o mundo, para mostrar que há um poder Divino operando nele, para mostrar que há um Deus eletivo, perdoador, defensor. Ló é preservado de Sodoma para mostrar a mesma coisa. E vocês que são crentes são preservados pelo poder de Deus, através de várias tentações.

Em segundo lugar. Para condenar o mundo. Noé foi movido com temor, pelo que ele condenou o mundo. Quando um miserável companheiro-verme e companheiro-pecador foi habilitado a viver acima do mundo, a ter comunhão com Deus, e entrar e sair dentre eles, vivendo para a eternidade, isso provou-lhes que havia um Salvador, que havia um Deus de graça. Um crente é uma demonstração viva do caminho da salvação. Ló condenou os homens de Sodoma, quando afligia a sua alma dia a dia, quando ele viveu entre eles como um pecador perdoado, confirmado pelo Espírito Santo. E assim, poucos crentes neste lugar estão condenando isso. Oh, se você nunca tivesse visto o que é a conversão, se você não tivesse exemplos de um crente santo, renovado em sua vizinhança, você permaneceria com um rosto mais ousado no julgamento! Mas, ah! cada crente neste lugar condena você. Por que não lavar-se, onde fomos lavados?!

Em terceiro lugar, para que sejamos conformados a Cristo. Não estranheis a ardente prova que vem sobre vós para vos tentar, como se coisa estranha vos acontecesse; mas alegrai-vos no fato de serdes participantes das aflições de Cristo [1 Pedro 4:12-13]. Cristo foi tentado pelo diabo, e odiado pelo mundo; e devemos estar contentes de compartilharmos os Seus sofrimentos. Deus quer que sejamos como o nosso Cabeça em todas as coisas.

2. O Senhor sabe livra-los.

(1) Eles não sabem como livrarem-se. Não tenho dúvidas de que Noé disse muitas vezes: Eu temo que também serei levado com o dilúvio; eu temo que a minha fé me faltará; eu não sei o que fazer. E Ló muitas vezes tremeu em Sodoma; e Davi, quando Saul o perseguia. Muitos de vocês não sabem como livrarem-se. Estão cercados, como com um dilúvio, por antigos companheiros, paixões antigas, um mundo que odeia, um leão que ruge. (2) O homem não sabe como livrá-los. É comum que as almas sob tentação peçam conselho aos ministros, mas eles não podem livra-las. Nada é mais inútil do que a ajuda de homem em uma hora de tentação. (3) O Senhor sabe. Mais se entende do que as meras palavras implicam. O Senhor não apenas sabe como fazê-lo, mas certamente livrará os piedosos da tentação. Ele os ama. Cada um dos piedosos é uma joia à Sua vista; Ele morreu por eles, e Ele não perderá nenhum deles. Quando Ele os coloca na fornalha, Ele se assenta como um refinador. Ele prometeu que eles jamais perecerão: “Eu nunca te deixarei, nem te desampararei” [Josué 1:5]. Ele, com a tentação dará também o caminho de escape: “Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça” [Lucas 22:32].

Não importa que tentação seja. Não importa quão grande a tentação é, e quão fraca a alma crente. Alguns filhos de Deus, por vezes, dizem: Se fosse uma tribulação menor, eu poderia suportá-la; se a fornalha não estivesse tão quente, se a tentação não fosse tão grande, eu poderia suportá-la; ou, se eu tivesse mais força, se eu fosse um crente mais velho e mais experiente. Olhe para as seguintes palavras: “sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos”. Há alguma coisa difícil para o Senhor?

Não importa quão poucos os crentes sejam. Havia apenas um Ló e um Noé. Talvez eles dissessem: “O Senhor se esqueceu de mim, e o meu Deus me abandonou”. Deus é tão capaz de livrar um como mil. Uma alma é preciosa aos Seus olhos: “vos tomarei, a um de uma cidade, e a dois de uma família; e vos levarei a Sião” [Jeremias 3:14]. “Porque eis que darei ordem, e sacudirei a casa de Israel entre todas as nações, assim como se sacode grão no crivo, sem que caia na terra um só grão” [Amós 9:9]. “Tenho guardado aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que a Escritura se cumprisse” [João 17:12].

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II.
O tratamento de Deus para com os injustos: Deus sabe “reservar os injustos para o dia do juízo, para serem castigados”.

1. O fim de todos os ímpios é a punição. Quaisquer que sejam os tratamentos atuais de Deus com os ímpios, o fim deles é ser punidos. Seja quem for encontrado carregado de pecado, seu fim é ser punido. Os anjos pecaram. Eles eram de uma natureza nobre, originalmente à imagem de Deus, contudo, Deus não os poupou, mas lançou-os no inferno. O velho mundo pecou – uma grande multidão – um mundo inteiro e Deus trouxe o dilúvio sobre eles. Uma cidade em particular pecou e Deus a transformou em cinzas, e a tornou um exemplo para todos os que, posteriormente, viveriam impiamente. Este será o fim de todos nesta congregação que vivem em pecado. Ah! Isso será mais tolerável para Sodoma do que para você. O seu fim é ser queimado.

2. Não agora, “Deus sabe como reservar”. O julgamento contra a má obra não é executada instantaneamente. Durante a Revolução Francesa, um jovem se aproximou, e desafiou que o Deus Todo-Poderoso o fulminasse e ele caísse morto. Nenhum mal se seguiu. Muitos de vocês prosseguem no pecado assim. A primeira vez que você pecou, você tremeu que você não fosse rapidamente convocado para julgamento; mas nenhum mal seguiu, e agora seu coração está inteiramente disposto a fazer o mal. Ah! você entende pouco. “O Senhor sabe como reservar”. Os caminhos de Deus não são como os nossos caminhos. Quando um homem rouba, o grito segue imediatamente: “Pare, ladrão!”, senão ele estará fora de alcance. Quando um assassinato é cometido, uma recompensa é oferecida para a apreensão do assassino, de modo que ele não escape das mãos da justiça. Não é assim com Deus. Ele não está com pressa para punir. Você não pode fugir de Seus domínios. Seus pés devem deslizar no tempo devido. Deus está reservando para você o dia do juízo, para que seja castigado. Ele suporta com muita longanimidade os vasos da ira, preparados para a perdição.

(1) Não é que você tenha pecado pouco. Muitos de vocês pecaram mais do que outros que foram ceifados. Eu não tenho nenhuma dúvida que há muitos no inferno, que tinham, de longe, menos pecados do que alguns de vocês.

(2) Não é que Deus ame o seu pecado. Deus o odeia infinitamente. Cada novo pecado que você comete O provoca de forma temerosa. A cada novo Sabbath que você quebra, a cada nova concupiscência que você dá vazão, Deus fica mais e mais irado com você.

(3) Não é porque você está com saúde que não haja meios disponíveis para a sua destruição ao seu redor. Deus poderia golpea-lo em uma hora. Aqui está a explicação: “Deus sabe como reservar os injustos”. Oh, utilize este dia de longanimidade, enquanto Jesus aguarda para salvá-lo, e Deus Se abstém de destruí-lo, oh, Senhor, ajude um verme!

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♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título Original: The Lord Knoweth How To Deliver
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida e Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Tirareis Água com Alegria – Robert Murray M’Cheyne

“E dirás naquele dia: Graças te dou, ó SENHOR, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolas. Eis que Deus é a minha salvação; nele confiarei, e não temerei, porque o SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico, e se tornou a minha salvação. E vós com alegria tirareis águas das fontes da salvação.” (Isaías 12:1-3)

Estas palavras primeiramente se aplicam ao antigo povo de Deus, os Judeus; mas elas não são menos aplicáveis a nós.

1. Observem o tempo falado: “Naquele dia”, o dia mencionado no capítulo anterior: “E há de ser que naquele dia o Senhor tornará a pôr a sua mão para adquirir outra vez o remanescente do seu povo, que for deixado, da Assíria, e do Egito, e de Patros, e da Etiópia, e de Elã, e de Sinar, e de Hamate, e das ilhas do mar. E levantará um estandarte entre as nações, e ajuntará os desterrados de Israel, e os dispersos de Judá congregará desde os quatro confins da terra” (versos 11 e 12). Isso acontece no dia em que Deus restaura os Judeus para a sua terra, e converte as suas almas.

2. Observem o que eles farão: “Graças te dou”. Eles, então, serão um povo de louvor. No presente, eles são um povo melancólico. Não há alegria no seu serviço, eles são como uma companhia de ossos secos; mas naquele dia as suas vozes serão elevadas em louvor a Deus.

3. Observem o fundamento disso: “Porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolas. Eis que Deus é a minha salvação; nele confiarei, e não temerei, porque o SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico, e se tornou a minha salvação. E vós com alegria tirareis águas das fontes da salvação”. O fundamento de sua alegria é que a ira de Deus se apartou deles, eles encontraram um Divino Salvador: “Eis que Deus é a minha salvação”. Eles encontraram um Divino santificador: “O SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico”. Ah! Este é o verdadeiro fundamento de alegria e louvor em todo o mundo.

4. Observem as consequências: “E vós com alegria tirareis águas das fontes da salvação”. (v. 3). As fontes da salvação parecem ser as ordenanças Divinas, a Palavra de Deus e os sacramentos. Os Judeus salvos agora encontrarão todas as suas fontes em Sião, eles serão alegres ouvintes da Palavra de Deus, eles serão alegres participantes na Ceia do Senhor. Com alegria eles tirarão água das fontes da salvação.

Doutrina. Almas salvas tiram água com alegria das fontes da salvação.

Muitos entre nós não encontram nenhuma alegria nas ordenanças. Alguns as desprezam por completo. Eles não veem nada nelas. Eles passam a manhã de Sabath em sua cama, a noite de Sabath nos prazeres da ociosidade. A maioria das pessoas nesta paróquia não tem alegria ao tirar água. Alguns vêm para a casa de Deus; mas, oh! É um cansaço, quando acabará? Se fosse um jogo de cartas, ou uma companhia alegre, vocês não estariam cansados; mas vocês não sabem o que é ter alegria ao retirar água. Multidões vêm à mesa do Senhor por um nome, por costume, por decência, ou para obter o batismo de seus filhos. Ai! Ai! Eles são estranhos ao tirar água com alegria. Algumas almas cansadas, ansiosas sobre sua eternidade vão de sermão a sermão, de sacramento a sacramento, buscando repouso, mas não encontrando nenhum. Eles vão para uma fonte, mas eles a encontram amarga, e a outra, mas ela está seca, vão a outra, mas ela é profunda, e eles não conseguem tirar. Estes estão sempre aprendendo, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade [2 Timóteo 3:7]. Eles nunca tiram água com alegria das fontes da salvação. Aqui está o erro: em todos e cada um destes, eles não vêm como almas salvas, eles não vêm a Cristo para fugir da ira de Deus. Somente almas salvas tiram água com alegria.

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I.
O estado do não-convertido: “Te iraste contra mim”. Toda alma redimida pode olhar para trás para um tempo em que elas estavam sob a ira de Deus. Deus está no presente, irado com cada alma não-convertida. Observem:

1. De quem é a ira: “Te iraste”. É a ira de Deus. Se todos os homens do mundo estivessem irados com uma alma, isto seria uma condição triste. Se cada homem que você conheceu estivesse cheio de raiva e fúria contra você, os ricos e os pobres, os reis e capitães, você pensaria de si mesmo estar em uma má situação. Se todos os animais selvagens da floresta, os leões, lobos e tigres, estivessem enfurecidos contra você, e você estivesse em seu poder, você estaria em um caso desesperado. Mas estes são apenas criaturas. Toda alma não-convertida dentre vós está sob a ira do Criador. Aquele que te criou está irado contigo.

2. Ele está sempre irado: “Deus está irado com o ímpio todos os dias” [Salmo 7]. Seja qual for o dia da semana, dia de semana ou dia de Sabath, Deus está irado com as almas não-convertidas. Seus pecados estão sempre diante dEle, e, portanto, Ele é continuamente provocado por eles. A fumaça de seus pecados está subindo continuamente às Suas narinas. Aquele que não crê no Filho, a ira de Deus sobre ele permanece [João 3:36]. Deus não somente está irado todos os dias, mas a cada momento do dia. Não há um momento da vida de um homem não-convertido em que a ira de Deus não permaneça sobre ele. Quando ele está no seu trabalho ou em seu jogo, dormindo ou acordado, na igreja ou no mercado, a espada da ira de Deus está sobre a sua cabeça. Almas não-convertidas andam e dormem sobre a superfície do inferno.

3. Esta ira é crescente. Homens não-convertidos estão entesourando ira para o dia da ira. Algumas pessoas não-convertidas pensam que limpam muitos de seus pecados ao vir à mesa do Senhor, ao passo que, se conhecessem a verdade, veriam que eles estão acumulando ira. A ira de Deus é como um rio represado. Ele está ficando cada vez mais alto, mais cheio e mais profundo, todos os dias contra cada alma que está fora de Cristo. A cada Sabath o seu cálice está ficando mais cheio; ele em breve estará completo.

4. A ira de Deus é insuportável. Homens não-convertidos, por vezes, dizem que se eles forem para o inferno, eles simplesmente o suportarão; mas este não pode ser suportado. Se vocês vissem uma aranha prestes a ser esmagada sob uma grande rocha, e quisesse engrandecer seu corpo a fim de suportar o choque, isso seria uma miserável tolice. Tal é a insensatez dos homens não-convertidos dizendo que eles suportarão a ira de Deus. Como vocês podem suportar a ira do seu Criador? Como vocês podem suportar o calcanhar da Onipotência? “Porventura estará firme o teu coração? Porventura estarão fortes as tuas mãos, nos dias em que eu tratarei contigo? Eu, o Senhor, o disse, e o farei” [Ezequiel 22:14].

Aprendam a partir disto a fugir da ira vindoura. Oh! Senhores, se vós apenas soubésseis qual é a vossa condição, subiriam e fugiriam. Eu declaro a vocês que às vezes penso de mim mesmo ser um infiel, por causa da maneira fria com que eu falo para as almas não-convertidas. Este é o estado de cada um de vocês que ainda não nascerão de novo. Embora amáveis e gentis, e irrepreensíveis aos olhos humanos; sejam quais forem as experiências que vocês atravessaram; embora vocês tenham participado das ordenanças e sido constantes em oração; ainda assim, se vocês não são convertidos, Deus está irado com vocês todos os dias.

Aprendam que as almas ansiosas deveriam estar dez mil vezes mais ansiosas do que são. Este é o dia da graça, este é o tempo da salvação. Deus tem infinita compaixão por você. Embora Sua ira contra você seja infinita, contudo a Sua compaixão também é infinita. Quanto mais Ele está irado com você, mais Ele tem piedade de você. Apesar de que a Sua justiça clama para que vingança, espada e arco venham sobre a sua alma; apesar de que por Suas exigências de santidade você deve ser lançado fora da Sua vista para a escuridão das trevas; ainda assim, a Sua compaixão clama: “Deixa-a este ano” [Lucas 13:8]. Ainda há espaço para você sob as asas de Cristo: “Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam” [Salmos 2:12].

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II.
O caminho da salvação: “A tua ira se retirou”. (1) Há abundante provisão para o perdão e a paz ao pecador; porque a ira de Deus se desviou caindo sobre a cabeça de Cristo. A única coisa que incomoda a consciência das almas despertas é a ira de Deus. É isso que as faz tremer, de noite e de dia, em público e em secreto. Uma alma despertada sente que ela tem quebrado a Lei de Deus, e está exposta a cada momento à Sua ira. Ela não consegue encontrar nenhum descanso em sua cama, nem paz em suas refeições, nenhuma alegria em seus amigos; os céus são sombrios sobre a sua cabeça, a terra está pronta a abrir e devorá-la. Se Deus é um Deus justo e santo, Ele derramará a Sua ira. Se Ele é um Deus verdadeiro, Ele cumprirá todas as Suas ameaças. Se essa alma tomasse a Cristo como seu fiador, ela encontraria paz abundante. A ira de Deus já teria se desviado dela para a cabeça de Cristo. Todas as nuvens da ira seriam dirigidas, como um bico de água, sobre aquela única Cabeça. Se você está desejando que Cristo seja o seu fiador, você não precisa ter medo. A Lei teve o seu curso, e Deus não exige uma segunda punição. Não há nenhuma razão para que você permaneça tremente, quando há um caminho tão glorioso de perdão. Cristo Se oferece como uma garantia para cada um de vocês; e se vocês O aceitarem, a Sua ira é passada, ela nunca cairá sobre você por toda a eternidade. (2). Isto ainda será mais evidente, se vocês considerarem que Cristo é uma Pessoa Divina: “Eis que Deus é a minha salvação”. Se os trêmulos pecadores apenas conhecessem a Pessoa que Se comprometeu a ser um Salvador, isso dissiparia todos os seus medos. Ele é o resplendor da glória de Deus, e a expressa imagem da Sua pessoa. Ele é o inigualável, incomparável Filho de Deus, que Se comprometeu a suportar [a ira de Deus] por nós. Ele é o criador do mundo, Aquele que vê o fim desde o começo. “Todas as coisas foram feitas por Ele” [João 1:3]. Ele fez o sol, a lua e as estrelas; Ele fez a terra firme; Ele sustenta todas as coisas pela palavra do Seu poder [Hebreus 1:3]. Vocês acham que Ele fracassaria em qualquer empreendimento? Vocês acham que, se Ele se compromete a ser um escudo para os pecadores, que Ele não será suficiente para protegê-los? Oh! Envergonhem-se de sua incredulidade, e venham para debaixo deste Escudo infinito. “Eis que Deus é a minha salvação”, “Eu confiarei e não temerei”. Venha, alma tremente, para debaixo desse Escudo Divino, e você encontrará a paz Divina. Venham ao abrigo desta Rocha, e vocês encontrarão descanso para as vossas almas cansadas. Não importa que pecados vocês tenham; se vierem para debaixo de Cristo, terão paz.

2. Santidade. “Tu me consolas”. “O SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico”. Quando uma alma vem, a princípio, a Cristo, ela não sabe que precisa de mais consolo; ela sente tanta alegria, ela pensa que nunca estará triste novamente. Logo, ela é levada a sentir suas necessidades. Ela sente inúmeros inimigos, no interior e exterior. Ela sente que seu que próprio coração é uma espécie de inferno em seu interior; corrupções cujas faces sombrias nunca viu antes, agora levantam a cabeça; o peito parece cheio de serpentes sibilantes. O homem estremece em si mesmo; ele se sente à beira de um precipício; o menor sopro de tentação, ele sente que o jogará para baixo. Desesperado por ajuda, ele olha acima; para Jesus à mão direita de Deus, capaz de salvar perfeitamente. Aprouve ao Pai que em Jesus habitasse toda a plenitude. Ele envia o Consolador, o Espírito Santo entra no coração da pessoa tremente e tentada. “NEle confiarei, e não temerei, porque o SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico”.

Ah! Vocês conhecem alguma coisa sobre este Consolador, sobre esta força, esta canção? Digam-me, em que vocês descansam para a santidade? Vocês descansam sobre os bons pensamentos sobre si mesmos? Ah! Isto é como Hazael: “Pois, que é teu servo, que não é mais do que um cão, para fazer tão grande coisa?” [2 Reis 8:13]. E ainda assim, ele era o próprio cão que ele tanto negou. “A altivez do espírito precede a queda” [Provérbios 16:18]. Vocês descansam em suas promessas ao homem, ou seus votos a Deus? Ah! isto é como Pedro: “Ainda que todos se escandalizem, nunca, porém, eu” [Marcos 14:29], e ainda assim, a sua promessa foi como um sopro. Não, nada menos do que o Senhor pode ser a força da sua alma, nada menos do que o Senhor Deus. Criaturas não podem preservar criaturas. A mão que sozinha guia as estrelas pode segurar os seus pés de cair. Ele é a sua força? Então, Ele é capaz de guarda-lo de cair. Mesmo que o mundo tivesse dez mil vezes mais tentações do que tem; mesmo que seu coração fosse dez mil vezes mais cheio de paixões; embora Satanás e seus anjos tivessem dez milhões mais força do que você; eles não poderiam derrubar a alma que se inclina sobre Jeová. Espere no Senhor, tenha bom ânimo, e Ele fortalecerá o seu coração. A mesma mão que sustenta o sol em sua jornada, sustenta a alma de Seu povo. Cante, então, discípulo fraco, trêmulo, tentado, cante em voz alta: “nele confiarei, e não temerei”.

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III.
Alegria nas ordenanças: “E vós com alegria tirareis águas das fontes da salvação” (v. 3). Quão modificadas são todas as fontes da salvação para um pobre pecador que veio a Cristo!

1. A Bíblia. Uma vez este era livro enfadonho, cansativo; você olhou para o final do capítulo quando o começou, para ver quando seria finalizado. Mas você veio a Cristo? Agora este livro é uma fonte de salvação, um poço de água viva.

2. Oração. Uma vez a oração foi totalmente negligenciada por você, ou uma forma fria em que você corria; agora como esta é uma doce fonte de deleite! Ah, Não há melhor teste para a alma do que o deleite em oração secreta, sem ser observado e visto pelo homem.

3. A casa de oração. Uma vez você a desprezava, ou veio para o espetáculo, para mostrar suas melhores roupas, ou ver os seus companheiros; agora você pode dizer: “Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor” [Salmos 122:1].

4. A Ceia do Senhor. Uma vez você sentou ali, um outro Judas, com coração de pedra e olhos secos; Agora você encontra ser verdadeiramente uma fonte de salvação. É uma promessa de que Cristo é seu. Quando você vê os elementos, o seu coração começa a queimar; quando você os toca, as suas ataduras são desatadas; quando você os saboreia, os seus olhos são iluminados; quando você os come, toda a sua alma é fortalecida. Tão certo como o pão e o vinho são seus, você sente que Cristo é seu. Oh! venham, então, com fé simples, pecadores que vieram a Cristo, e então vocês tirarão água com alegria desta fonte da salvação. Mas, ah! Você não tem nenhuma mudança salvífica em seu coração, nenhuma fé em Cristo; nenhuma união com Ele; nenhum Consolador? Ah! Então será um dia triste para você. Você sentará à mesa com a ira de Deus habitando sobre você; a fonte da salvação será uma fonte envenenada para você; o pão da vida será o pão da morte para você; o cálice da bênção será o cálice da maldição.

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♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título Original: Draw Water With Joy
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Cristo, Sua Ressurreição e a Nossa Regeneração – Arthur Walkington Pink

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós, que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo.” (1 Pedro 1:3-5:) 

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos”. Vamos começar este capítulo, continuando nossa consideração do reconhecimento desta oração. Deve nos lembrar que esta epístola é dirigida àqueles que são estrangeiros, dispersos (v. 1). Mui apropriada então é esta referência para a geração Divina dos eleitos de Deus, pois é pela geração graciosa do Espírito Santo que os eleitos são constituídos estrangeiros ou peregrinos (ou seja, residentes temporários deste mundo), tanto no coração quanto na conduta. O Senhor Jesus era um estranho aqui (Salmos 69:8), pois Ele era o Filho do Deus do céu; e assim também é o Seu povo, pois eles têm o Seu Espírito dentro deles. Como esse entendimento reforça este milagre da graça! A geração Divina não é apenas uma doutrina, mas a comunicação real para a alma da própria vida de Deus (João 1:13). Anteriormente, o Cristão esteve dentro e [era] do mundo, mas agora a sua “cidade [cidadania, Versão Americana Padrão – King James] está nos céus” (Filipenses 3:20, os parênteses são meus). “Eu sou um peregrino na terra” (Salmos 119:19) é doravante a sua confissão. Para a alma renovada por Deus, este mundo se torna um deserto estéril. Pois sua herança, a sua casa, está no alto e, portanto, ele agora vê as coisas as coisas temporais e naturais sob uma luz muito diferente.

Os Grandes Interesses da Alma Regenerada São Alheios a este Mundo

Os principais interesses de uma alma verdadeiramente nascida de novo não residem nesta esfera mundana. Suas afeições estarão estabelecidas nas coisas de acima; e na proporção em que elas são assim, seu coração é separado deste mundo. Sua estranheza é uma marca essencial que distingue os santos dos ímpios. Aqueles que cordialmente abraçam as promessas de Deus são devidamente afetados por elas (Hebreus 11:13). Um dos efeitos seguros da graça Divina na alma é separar o seu possuidor, tanto no espírito e na prática, do mundo. Seu prazer em coisas celestiais se manifesta em seu ser desapegado das coisas terrenais, assim como a mulher no poço deixou o balde para trás, quando ela obteve de Cristo, a água viva (João 4:28). Tal espírito o constitui um estrangeiro entre os adoradores de Mamom. Ele é moralmente um estrangeiro em uma terra estranha, cercado por aqueles que não o conhecem (1 João 3:1), porque não conhecem seu Pai. Eles também não entendem as suas alegrias ou tristezas, não valorizam os princípios e motivos que o mobilizam; pois as atividades e prazeres deles são radicalmente diferentes das suas. Não, ele se vê no meio de inimigos que o odeiam (João 15:19), e não há ninguém com quem ele tenha comunhão salvo com os poucos que “obtiveram fé igualmente preciosa” (2 Pedro 1:1).

Entretanto, apesar de não haver nada neste deserto mundano para o Cristão, ele tem sido “gerado de novo para uma viva esperança”. Anteriormente ele via a morte com horror, mas agora ele percebe que ela fornecerá uma bendita libertação de todo pecado e tristeza e abrirá a porta para o Paraíso. O princípio da graça recebido no novo nascimento não apenas inclina seu possuidor a amar a Deus e agir com fé em Sua Palavra, mas também o conduz a: “não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem” (2 Coríntios 4:18), inclinando suas aspirações para longe do presente em direção ao seu futuro glorioso. Thomas Manton apropriadamente declara: “A nova natureza foi feita para um outro mundo: ela veio de lá, e isso conduz a alma para lá”. A esperança é uma expectativa certa de bom futuro. Enquanto a fé está em exercício, uma visão de felicidade sem nuvens é estabelecida diante do coração, e a esperança entra no gozo da mesma. Há uma viva esperança exercida dentro de um ambiente moribundo, e ela tanto apoia quanto revigora a todos nós que cremos. Enquanto em atividade saudável, a esperança não somente nos sustenta em meio às provações desta vida, mas também nos eleva acima delas. Oh, que os corações fossem mais engajados nas antecipações alegres do futuro! Pois tais corações esperançosos nos vivificam ao dever e nos estimulam à perseverança. Em proporção ao entendimento e força da nossa esperança, nós seremos libertos do medo da morte.

A União com Cristo em Sua Ressurreição é a Causa da Nossa Regeneração

Agora, mais uma palavra deve ser dita sobre a relação que a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos lança o fundamento para a nossa geração, pelo Pai, para esta viva esperança. A obra de Cristo, horando a Deus e a triunfante saída do túmulo foram a base legal não somente da justificação de Seu povo, mas também da regeneração deles. Misticamente, em virtude de sua união com Cristo na mente e no propósito de Deus, eles foram libertos de sua morte, nas mãos da Lei, quando o Fiador ressuscitou dos mortos. “Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele…” (Efésios 2:4-6). Essas palavras se referem à união corporativa da Igreja com sua Cabeça e sua participação judicial em Sua vitória, e não a uma experiência individual. No entanto, uma vez que todos os eleitos ressuscitaram federalmente quando o seu representante ressuscitou, eles devem, no devido tempo, ser regenerados; uma vez que eles foram vivificados legalmente, eles devem, no devido tempo, ser vivificados espiritualmente. Se Cristo não tivesse ressuscitado, ninguém teria sido vivificado (1 Coríntios 15:17); mas porque Ele vive, eles também viverão.

Jesus vive, e assim eu viverei.
Morte! teu aguilhão se foi para sempre!

Ele que Se dignou morrer por mim,
Vive, para romper as cadeias da morte.
Ele [ressuscitou-me] do pó:
Jesus é a minha Esperança e Confiança.

A Vida que Está na Cabeça Deve ser Comunicada aos Membros do Seu Corpo

A ressurreição de Cristo é a causa eficaz da nossa regeneração. O Espírito Santo não teria sido dado a menos que Cristo houvesse conquistado o último inimigo (1 Coríntios 15:26). E ido para o Pai: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós… Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito” (Gálatas 3:13-14). As Questões da regeneração estão tão verdadeiramente relacionadas com a ressurreição de Cristo, quanto as da nossa justificação, a qual é o resultado daquela fé salvadora em Cristo que só pode emanar a partir de um coração renovado pelo Espírito Santo. Ele obteve para o Seu povo o bendito Espírito para criá-los para a graça e glória. “Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo, que abundantemente ele derramou sobre nós por Jesus Cristo nosso Salvador” (Tito 3:5-6). Deus, o Pai derramou o Espírito Santo sobre nós em poder regenerador por causa dos méritos da vida, morte e ressurreição de Cristo, e em resposta à Sua mediação em nosso nome. O Espírito Santo está aqui para testemunhar de Cristo aos eleitos de Deus, para operar a fé neles em direção a Ele, a fim de que eles “abundem em esperança” (Romanos 15:12-13). Nossa libertação espiritual da sepultura da culpa, poder e contaminação do pecado é tanto devido à eficácia do triunfo de Cristo sobre a morte, quanto será a nossa vivificação física no Seu retorno. Ele é “o primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8:29), sendo a própria vida de Cristo transmitida a eles quando são novamente gerados.

O Poder que Ressuscitou Cristo Fisicamente, Ressuscita Pecadores Espiritualmente

A ressurreição de Cristo é também o protótipo dinâmico de nossa regeneração. O mesmo poder operado ao ressuscitar o corpo de Cristo é empregado no resgate de nossas almas da morte espiritual (Efésios 1:19-20; 2:1). O Senhor Jesus é designado “o primogênito dentre os mortos” (Apocalipse 1:5) porque Sua emersão da sepultura não foi apenas o penhor, mas a semelhança, tanto da regeneração dos espíritos de Seu povo quanto da criação de seus corpos no último dia. A semelhança é óbvia. A geração é o começo de uma nova vida. Quando Cristo nasceu neste mundo isso foi “em semelhança da carne do pecado” (Romanos 8:3). Embora intocado pela mancha do pecado original (Lucas 1:35) e sem mácula pela contaminação das transgressões reais, Ele estava vestido de enfermidade por causa da iniquidade imputada. Mas quando Ele se ergueu do túmulo de José, em poder e glória, isso foi em um corpo apropriado para o céu. Da mesma forma, na regeneração, recebemos uma natureza que nos faz adequados ao céu. Como Deus ressuscitando a Cristo, testemunhou o Seu ser pacificado pelo sacrifício dEle (Hebreus 13:20), assim, gerando-nos outra vez Ele nos garante nosso interesse pessoal nisso. Como a ressurreição de Cristo foi a grande prova de Sua filiação Divina (Romanos 1:4), assim, o novo nascimento é a primeira manifestação aberta de nossa adoção. Como a ressurreição de Cristo foi o primeiro passo para a Sua glória e exaltação, assim, a regeneração é a primeira etapa de nossa entrada em todos os privilégios espirituais.

A Glorificação é o Objetivo da Regeneração

Nossa sétima consideração na análise desta doxologia é a sua substância: “Para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós” (v. 4). A regeneração tem como objetivo a glorificação. Nós somos gerados espiritualmente para duas realidades: uma viva esperança no presente, e uma gloriosa herança no futuro. É pela geração de Deus que nós obtemos nosso título à glorificação. O direto a heranças vem por meio do nascimento: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus” (João 3:5). Se não [somos] filhos, então não podemos ser herdeiros; e temos que ser nascidos de Deus, a fim de nos tornarmos filhos de Deus. Mas “se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo” (Romanos 8:17). A geração não apenas confere o título, mas também garante a herança. O Cristão já recebeu o Espírito, “o qual é o penhor da nossa herança” (Efésios 1:14). Como a parte de Cristo era adquirir a herança, assim a parte do Espírito é torná-la conhecida para os herdeiros; pois, “as coisas que Deus preparou para os que o amam” Ele “no-las revelou pelo seu Espírito” (1 Coríntios. 2:9-10). É a esfera de ação do Espírito Santo a concessão de doces antecipações aos regenerados do que está guardado para eles, traz algo da alegria celestial para o interior de suas almas na terra.

O Novo Nascimento Nos Adequa Imediatamente para o Céu

A geração Divina não somente concede o título e garante a herança celestial, mas também concede uma adequação à mesma. No novo nascimento uma natureza que é adequado para a esfera celestial é concedida, o que qualifica a alma para habitar para sempre com o Deus três vezes santo (como é evidente, a sua comunhão com Ele presente); e, ao fim de sua peregrinação terrena, o pecado que habita interiormente (que agora dificulta a sua comunhão) morre com o corpo. Tudo é muito pouco percebido pelos santos na regeneração, a saber, que eles são imediatamente capacitados para o céu. Muitos deles, para a grave diminuição de sua paz e alegria, supõem que eles ainda devem passar por um processo de disciplina severa e refino antes que eles estejam prontos para entrar nas cortes acima. Isso é apenas mais uma relíquia do Romanismo. O caso do ladrão moribundo, que foi levado imediatamente a partir de seu nascimento espiritual ao Paraíso, deve ensiná-los melhor. Mas isso não ensina. Assim, permanece a tendência legalista do coração, mesmo de um Cristão, de forma que é muito difícil convencê-lo de que na mesma hora que ele nasceu de novo, ele foi habilitado para o céu, como ele sempre seria caso permanecesse na terra mais um século. Como é difícil para nós acreditarmos que nenhum crescimento na graça ou passar por tribulações ardentes é essencial para preparar as nossas almas para a casa do Pai.

Em nenhum lugar as Escrituras dizem que os crentes vão sendo preparados, ou gradualmente capacitados para o céu. O Espírito Santo declara expressamente que Deus Pai “segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo… para uma herança”. O que poderia ser mais claro? Nosso texto, por qualquer meio, sustenta-se sozinho. Os Cristãos já foram feitos “participantes da natureza divina” (2 Pedro 1:4), e o que mais pode ser necessário para prepará-los para a presença Divina? A Escritura declara enfaticamente: “Assim que já não és mais servo [escravo], mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo” (Gálatas 4:7 – os colchetes são meus). A herança é um direito inato ou patrimônio do filho. Falar de herdeiros não sendo elegíveis para uma herança é uma contradição de termos. A nossa aptidão para a herança se baseia somente em sermos filhos de Deus. Assim como é verdade que se alguém não nascer de novo não pode entrar ou ver o reino de Deus, assim, por outro lado, segue-se, necessariamente, que uma vez que ele nasceu de novo ele está qualificado para uma entrada e gozo do reino de Deus. Todo espaço para discussão sobre esse ponto é excluído por estas palavras, que expressam um aspecto das orações de Paulo de agradecimento em nome do Colossenses: “Dando graças ao Pai que nos fez [tempo passado] idôneos para participar da herança dos santos na luz” (Colossenses 1:12 – os colchetes são meus).

Pela Regeneração Nós somos Casados com Cristo

Pela regeneração somos feitos vitalmente um com Cristo e, assim, nos tornamos co-herdeiros com Ele. A porção da Noiva é a sua participação na porção do Noivo. “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste” (João 17:22), diz o Redentor dos Seus remidos. Isto, também, precisa ser enfatizado hoje, quando tanto erro ostenta-se como a verdade. Em suas tentativas fantasiosas de “manejar bem a Palavra”, os homens erroneamente dividiram a família de Deus. Alguns dispensacionalistas sustentam que não somente existe uma distinção de privilégios terrenos, mas que as mesmas distinções serão perpetuadas no mundo vindouro; que os crentes do Novo Testamento olharão para baixo a partir de uma posição superior, a Abraão, Isaque e Jacó; que os santos que viveram e morreram antes de Pentecostes não participarão da glória da Igreja ou entrarão na herança “guardada no céu para vós”. Afirmar que os santos desta era Cristã ocuparão uma posição mais elevada e desfrutarão de privilégios grandiosos, do que irão os de épocas anteriores é um erro grave e imperdoável, pois entra em conflito com os ensinamentos mais fundamentais da Escritura sobre o propósito do Pai, a redenção de Cristo, e a obra do Espírito, e repudia as características essenciais da grande salvação de Deus. Escrevendo às igrejas da Galácia, em grande parte composta de Gentios, o apóstolo Paulo declara: “Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão” (Gálatas 3:7). Este texto por si só é suficiente para provar que o caminho da salvação de Deus nunca mudou essencialmente.

Todos os eleitos de Deus são os compartilhadores comuns das riquezas de Sua graça maravilhosa, vasos que Ele “de antemão preparou para a glória” (Romanos 9:23), a quem Ele predestinou para serem “conformes à imagem de seu Filho” (Romanos 8:29). Cristo agiu como o Fiador de toda a eleição da graça, e o que Sua obra meritória garantiu para um deles, necessariamente garantiu para todos. Os santos de todas as épocas são co-herdeiros. Cada um deles foi predestinado pelo mesmo Pai (João 6:37; 10:16, 27-30; 17:2, 9-12, 20-24); cada um deles foi regenerado pelo mesmo Espírito (Efésios 4:4), cada um deles olhou para e confiou no mesmo Salvador. A Escritura não conhece a salvação que não concerne aos coerdeiros com Cristo. Aqueles a quem Deus dá o Seu Filho, ou seja, toda companhia de Seus escolhidos desde Abel até o fim da história da Terra, Ele também dá livremente todas as coisas (Romanos 8:32). Que tanto Abraão e Davi foram justificados pela fé é evidente a partir de Romanos 4, e não há destino mais elevado ou perspectiva mais gloriosa do que a perspectiva do que aquela à qual a justificação concede título pleno. A obra regeneradora do Espírito Santo é idêntica em todos os membros da família de Deus: gerando-os, qualificando-os para uma herança celestial. Todos aqueles que foram eficazmente chamados por Ele durante a era do Antigo Testamento receberam “a promessa da herança eterna” (Hebreus 9:15). Filhos nascidos do céu devem ter uma porção celestial.

A Natureza de Nossa Herança Eterna

“Para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós”. A porção celestial reservada para o povo de Deus é aquela que está de acordo com a nova vida recebida na regeneração, pois é um estado de perfeita santidade e felicidade adequado para seres espirituais que possuem corpos materiais. Muitas e variadas são as descrições dadas na Escritura sobre a natureza de nossa herança. Em nosso texto (v. 5), é descrito como “a salvação, já prestes para se revelar no último tempo” (cf. Hebreus 9:28), isto é, a salvação em sua plenitude e perfeição que deve ser concedida ao redimido no retorno glorioso de Cristo. Nosso Senhor Jesus a descreve como “casa de meu Pai”, em que “há muitas moradas”, a qual o próprio Cristo prepara agora para o Seu povo (João 14:1-2). O apóstolo Paulo se refere a isso como “a herança dos santos na luz” (Colossenses 1:12). E aos futuros habitantes daquele reino glorioso como “filhos da luz” (1 Tessalonicenses 5:5). Sem dúvida, essas expressões apontam para a perfeição moral dEle à luz resplandecente em cuja presença (Isaías 33:13; 1 Timóteo 6:13-16; Hebreus 12:29, 1 João 1:5) todos os santos habitarão um dia. Além disso, elas ressaltam a pureza imaculada que caracterizará cada um daqueles que devem “habitar na casa do Senhor para sempre” (Salmos 23:6; cf. Daniel 12:3; Apocalipse 21:27). Paulo descreve-a além, como “a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus” (Hebreus 11:10), na qual os olhos esperançosos do crente de Abraão estavam fixados. Ele também a chama de “um reino que não pode ser abalado” ou “estremecido” (Hebreus 12:26-28; cf. Apocalipse 21:10-27).

O apóstolo Pedro refere-se aos Cristãos como aqueles a quem Deus “em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória” (1 Pedro 5:10). Em outro lugar, ele chama a nossa herança “reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pedro 1:11). O Senhor Jesus orou: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste” (João 17:24). O Cristo glorificado, em Sua revelação ao apóstolo João, descreve a herança dos santos como “paraíso de Deus” (Apocalipse 2:7), a partir do qual pode-se inferir que o Éden era apenas uma sombra. Olhando adiante para este paraíso, Davi declara: “Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente” (Salmos 16:11).

O Significado do Termo Herança

Em seu comentário sobre 1 Pedro, John Brown faz as seguintes e pertinentes observações sobre a importância do uso do termo herança:

A bem-aventurança celestial recebe aqui, e em muitas outras passagens da Escritura, a denominação de “herança”, por duas razões: para assinalar a sua natureza gratuita, e para enfatizar a sua posse segura.

Uma herança é algo que não é obtido pelos próprios esforços do indivíduo, antes é o dom gratuito ou legado de outro. A herança terrena do povo visível de Deus não foi dada a eles, porque eles eram mais ou melhores do que as outras nações da terra. Foi por que: “Tão-somente o Senhor se agradou de teus pais para os amar” (Deuteronômio 10:15). “Pois não conquistaram a terra pela sua espada, nem o seu braço os salvou, mas a tua destra e o teu braço, e a luz da tua face, porquanto te agradaste deles” (Salmos 44:3). E a herança celestial do espiritual povo de Deus é totalmente o dom da bondade soberana. “Porque pela graça sois salvos” (Efésios 2:5); “o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 6:23).

A segunda ideia sugerida pela expressão figurativa, “a herança”, quando usada em referência à bem-aventurança celestial, é a segurança da posse pelo que ela é realizada. Nenhum direito é mais inalienável do que o direito de herança. Se o direito do doador ou testador estiver correto, tudo está seguro. A felicidade celestial, deve ser vista como o dom do Divino Pai, ou como o legado do Divino Filho, pois é “firme a toda a posteridade” [Romanos 4:16]. Se o título do requerente for apenas tão válido quanto o direito do titular original, sua posse deve ser tão segura como o trono de Deus e de Seu Filho.

A Excelência da Nossa Herança

A excelência desta herança ou eterna porção dos redimidos é descrita por quatro expressões. Primeiro, é incorruptível, e portanto é como o seu autor “o Deus incorruptível” (Romanos 1:23). Toda corrupção é uma mudança de melhor para pior, mas o céu é sem mudança ou fim. Daí, a palavra incorruptível tem a força de resistente, imperecível. Nem isso corromperá os seus herdeiros, como muitas heranças mundanas têm feito. Em segundo lugar, é incontaminável, e, assim como o seu Comprador, que passou por este mundo depravado tão incontaminado como um raio de sol é imaculado embora brilhe sobre um objeto imundo (Hebreus 7:26). Toda contaminação se dá pelo pecado, mas nenhum germe da corrupção jamais pode entrar no céu. Daí, incontaminável tem a força de beneficente, incapaz de danificar seus possuidores. Em terceiro lugar, não se pode murchar, e, portanto, é como Aquele que nos conduz até lá, “pelo Espírito eterno” (Hebreus 9:14), o Espírito Santo, “o rio puro da água da vida” (Apocalipse 22:1). A palavra incontaminável nos fala deste Rio de perene e perpétuo refrigério; seu esplendor nunca será prejudicado, nem a sua beleza diminuída. Em quarto lugar, a frase guardada nos céus fala da localização e segurança da nossa herança (veja Colossenses 1:5; 2 Timóteo 4:18).

Ao considerarmos as quatro expressões descritivas no versículo 4, várias características da nossa herança são exibidas. Para começar, a nossa herança é indestrutível. Sua substância é totalmente contrária a dos reinos terrenos, cuja grandeza se desgasta. Os impérios mais poderosos da Terra, eventualmente se dissipam em razão da corrupção inerente. Considere a pureza da nossa porção. Nenhuma serpente jamais entrará neste paraíso para o profanar. Contemple a sua beleza imutável. Nem ferrugem deve manchá-la nem a traça estragá-la, nem a eternidade produzirá uma ruga no rosto de qualquer um dos seus habitantes. Pondere a sua segurança: É guardada por Cristo para os Seus remidos; nenhum ladrão jamais a invadirá.

Parece-me que estas quatro expressões são designadas para levar-nos a fazer uma série de contrastes com a herança gloriosa que nos espera. Primeiro, considere a herança de Adão. Quão breve o Éden foi corrompido! Em segundo lugar, pense sobre a herança que “o Altíssimo distribuía… às nações” (Deuteronômio 32:8) e como elas a contaminaram com a ganância e o derramamento de sangue. Em terceiro lugar, contemplem a herança de Israel. Como, infelizmente, a terra que mana leite e mel murchou sob as secas e fomes que o Senhor enviou, a fim de castigar a nação por seus pecados. Em quarto lugar, reflitamos sobre a habitação gloriosa que foi perdida pelos anjos caídos, que “não guardaram o seu principado” (Judas 6). Estes, miseráveis espíritos ignorantes não têm nenhum gracioso Sumo Sacerdote para interceder por eles, antes estão reservados “na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia”. Conheça a nossa própria corrupção remanescente, bem poderíamos tremer e pedir com piedosa auto-desconfiança (veja Mateus 26:20-22): “O que nos impedirá de tal desgraça?”.

A Garantia de que Nós Receberemos a Nossa Herança

Chegamos, finalmente, a refletir sobre a garantia infalível desta doxologia, que graciosamente responde à pergunta dos santos trêmulos, exatamente considerando: “Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo” (1 Pedro 5:1). Aqui está o tônico para o Cristão enfraquecido! Não apenas a herança inestimavelmente gloriosa e preciosa é segura, “reservada no céu” para nós, mas nós também estamos seguros, “guardados na virtude de Deus”. Aqui a doutrina do Apóstolo Pedro coincide perfeitamente com o do Senhor Jesus e dos outros apóstolos. Nosso Senhor ensinou que aqueles nascidos ou gerados de Deus creem no Seu Filho (João 1:11-13; 3:3-5), e que aqueles que creem têm a vida eterna (João 3:15-16). “Aquele que crê no Filho tem [possui presente e continuamente] a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece” (João 3:36 – os colchetes são meus). Ele ainda ensinou que aqueles que não creem, não acreditam porque eles não são Suas ovelhas (João 10:26). Mas, depois, Ele continua:

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai. Eu e o Pai somos um” (João 10:27-30).

O Apóstolo Paulo Declara Também o Fato de que Nenhum dos Irmãos de Cristo Jamais Perecerá

“Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? [...] Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 8:35, 37-39).

No entanto, a questão a ser respondida permanece: “Qual é o principal meio que o poder de Deus exerce em preservar-nos, a fim de que possamos entrar e desfrutar de nossa herança?”.

A Fé é o Meio de Nossa Preservação

“Que mediante a fé estais guardados”. As reflexões de John Brown sobre este ponto são de grande valor:

Eles são “guardados”, preservados seguros, em meio a muitos perigos a que estão expostos, “na virtude de Deus”. A expressão “virtude de Deus”, aqui pode referir-se ao poder Divino tanto como exercido em referência aos inimigos do Cristão, controlando os seus propósitos malignos e, como exercido na forma de influência espiritual na mente do próprio Cristão, guardando-os na fé da verdade, “no amor de Deus e na paciência de [nosso Senhor Jesus] Cristo” [2 Tessalonicenses. 3:5; cf. 2 Timóteo 1:13-14]. É, provavelmente, a última a que o apóstolo alude principalmente, pois ele acrescenta: “mediante a fé”. É através da perseverante fé na verdade que o Cristão é, por influência Divina, preservado de cair, e mantém a posse tanto daquele estado e caráter que são absolutamente necessários para o gozo da herança celestial.

A perseverança, assim assegurada ao verdadeiro Cristão é a perseverança na fé e santidade; e nada pode ser mais grosseiramente absurdo do que uma pessoa que vive na incredulidade e no pecado, supor que ela esteja no caminho para a obtenção da bem-aventurança celestial.

Embora Deus Nos Guarde, Nós Devemos Crer

Pelo poder onipotente do Deus Triuno, nós somos guardados “para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo”. Mas o mesmo Espírito gracioso que nos guarda também inspirou Judas a escrever, “Conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna” (Judas 21). Por meio dEle, o apóstolo Paulo também escreveu: “Revesti-vos de toda a armadura de Deus…Tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno” (Efésios 6:11,16). Portanto deveríamos frequentemente clamar ao Senhor com os apóstolos: “Acrescenta-nos a fé” (Lucas 17:5). Se o nosso clamor é genuíno, então podemos estar certos de que Jesus, que é “o autor e consumador da nossa fé” (Hebreus 12:2) ouvirá e responderá em uma forma mui adequada para a nossa necessidade, embora, talvez, por meio da adversidade.

A referência do apóstolo à herança celestial dos crentes foi adequadíssima. Ele estava escrevendo para aqueles que estavam, tanto natural como espiritualmente, longe de sua terra natal, os estrangeiros em um país estranho. Muitos deles eram Judeus convertidos, e como tais, ferozmente confrontados e cruelmente tratados. Quando um Judeu se tornava um Cristão, ele perdia muito: ele era excomungado da sinagoga, tornando-se um pária em meio ao seu próprio povo. No entanto, havia uma rica compensação para ele. Ele fora Divinamente gerado para uma herança infinitamente superior, tanto em qualidade e duração, do que a terra da Palestina. Assim, os seus ganhos muito mais do que compensavam as suas perdas (veja Mateus 19:23-29, especialmente v. 29). O Espírito Santo, então, desde o início da Epístola, atraiu os corações daqueles santos sofredores a Deus, por estabelecer perante eles a Sua grande misericórdia e abundantes riquezas da Sua graça. Quanto mais eles estivessem ocupados com as mesmas, mais as suas mentes seriam levantadas acima deste cenário, e seus corações seriam cheios de louvor a Deus. Enquanto poucos de nós estão vivenciando qualquer tipo de tribulações semelhantes às deles, ainda assim, a nossa porção está lançada em dias de trevas, e cabe-nos olhar além das coisas que são vistas e mais e mais fixar a nossa atenção sobre a futura bem-aventurança que nos espera. Posto que Deus designou a forma pela qual devemos glorificá-lO em adoração sincera, e apegar-nos às suas promessas por meio da “obediência da fé” (Romanos 16:26) até o fim!

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♦ Este texto é formado pelo Capítulo 6 do Livro A Guide to Fervent Prayer, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: A Guide to Fervent Prayer

♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


A Natureza e a Necessidade da Nova Criatura – John Flavel

“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17)

Você já viu um processo de um interesse em Cristo, em nosso último discurso, ou seja, pela doação do Espírito. Temos aqui outro assunto da mesma matéria, de um dos maiores e mais nobres efeitos do Espírito sobre nossas almas; ou seja, sua obra de regeneração ou nova criação: “Se alguém está em Cristo, nova criatura é”. Âmbito do apóstolo no contexto imediato é dissuadir os Cristãos de uma parcialidade carnal e pecaminosa em seus aspectos para com os homens: Não despreze-os, segundo a maneira do mundo, de acordo com as diferenças externas, mas o valor real interno e excelência que está nos homens. Isto o apóstolo pressiona por dois argumentos; um tirado da finalidade da morte de Cristo, versículo 15, que era para retirar aqueles planos egoístas e fins carnais pelos quais o mundo inteiro está seduzido. Segundo lugar, a partir do novo espírito, pelo qual os crentes são impulsionados: os que estão em Cristo devem julgar e medir todas as coisas por uma nova regra: “se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram”. Outrora nós possuíamos aquele espírito baixo, egoísta do mundo que era totalmente governado pelo interesse carnal; devemos agora julgar por uma nova regra, para sermos impulsionados a partir de um novo princípio, visar a um novo e mais nobre fim; “Eis que tudo se fez novo”. Com estas palavras, temos três partes gerais, a serem consideradas distintamente, a saber:

1. A grande questão a ser determinada, “Se alguém está em Cristo”.

2. A regra através da qual isso pode ser determinado, ou seja, “Ele é uma nova criatura”.

3. Esta regra geral, mais particularmente explicada: “As coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”.

Primeiro, temos aqui a grande questão a ser determinada: Está um homem em Cristo? Uma questão em cuja determinação devemos ficar em pé ou cair para sempre. Por [estar em Cristo], o apóstolo não se refere aqui à profissão geral do Cristianismo, o que dá ao homem a reputação de um interesse nEle; mas por estar em Cristo, significa um interesse por Ele, pela união vital com a Sua Pessoa, e uma participação real em Seus benefícios. Agora, esta é a questão a ser determinada, a questão a ser julgada; de que, nada pode ser mais solene e importante no mundo todo.

Em segundo lugar, a regra pela qual esta grande questão pode ser determinada, ou seja, a nova criação; “Se alguém está em Cristo, nova criatura é”. Por esta regra todos os títulos e reivindicações feitas a Cristo no mundo dos que professam, devem ser examinados. [Se alguém] seja ele o que quiser, alto ou baixo, grande ou pequeno, letrado ou analfabeto, jovem ou velho, se ele intenciona interesse em Cristo, este é o padrão pelo qual ele deve ser julgado: se ele está em Cristo, ele é uma nova criatura; e se ele não é uma nova criatura, ele não está em Cristo, que seus dotes, dons, confiança e reputação sejam o que forem: [Uma nova criatura] não é nova fisicamente, ele é a mesma pessoa que era; mas uma nova criatura, isto é, uma criatura renovada por princípios graciosos, recém-infundidos nele a partir do alto, o que lhe impulsionará e o guiará de outra maneira, e para outro fim que nunca atuou antes; e estes princípios graciosos não sendo induzidos a partir de qualquer coisa que era pré-existente no homem, mas recém infundidos do alto, por isso são chamados, neste lugar, uma nova criatura: Esta é a regra pela qual a nossa confissão de Cristo deve ser determinada.

Em terceiro lugar, esta regra geral é aqui mais particularmente explicada; “As coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”. Ele não se satisfaz em estabelecer esta regra de forma concisa, ou expressá-la em termos gerais, dizendo-nos que o homem em Cristo deve ser uma nova criatura; todavia, mais particularmente, ele nos mostra o que esta nova criatura é, e quais são as suas partes, ou seja, ambas:

1. A parte negativa; “As coisas velhas já passaram”.

2. A parte positiva; “Todas as coisas se fizeram novas”.

Por coisas velhas, Ele quer dizer todos aqueles princípios carnais, fins egoístas e concupiscências carnais que pertencem ao estado carnal, ou o velho homem. Todas esses já passaram; “Não simples e perfeitamente, mas apenas em parte no presente, e totalmente em esperança e expectativa no futuro”. Mui brevemente sobre a parte privativa da nova criatura, “as coisas velhas já passaram”. Uma ou duas palavras devem ser ditas sobre a parte positiva; “Todas as coisas se tornaram novas. Ele não quer dizer que as antigas faculdades da alma são abolidas, e novas criadas em seu lugar; mas como os nossos corpos podem ser chamados de novos corpos, em razão de seus novos dotes e qualidades induzidos de forma excelente, e concedidos a eles em sua ressurreição, assim as nossas almas são agora renovadas pela infusão de novos princípios de graça nelas, na obra da regeneração. Estas duas partes, a saber, a parte negativa, as coisas velhas que se passaram; e a parte positiva, a renovação de todas as coisas, no meio deles, compreende toda a natureza da santificação, o que, em outras partes da Escrituras, é expressa por frases equivalentes; às vezes, despojar-se do velho homem e revestir-se do novo homem (Efésios 4:24). Às vezes, morrer para o pecado e viver para a justiça (Romanos 6:11). Que é a mesma coisa que o apóstolo aqui pretende, pelo passar das coisas velhas e o fazer novas todas as coisas. E porque este é o trabalho mais excelente, glorioso e admirável do Espírito, que é, ou pode ser feito no homem neste mundo; portanto, o apóstolo afirma isso com uma perspectiva, uma nota de observação especial: “Eis que tudo se fez novo”; diariamente contemple e admire esta maravilhosa mudança surpreendente que Deus fez nos homens; eles estão vindo das trevas para a Sua maravilhosa luz (1 Pedro. 2: 9). Fora do velho, por assim dizer, para um mundo novo; “Eis que tudo se fez novo”. Assim, observe,

Doutrina: Que a criação por Deus de uma obra sobrenatural da graça na alma de qualquer homem, é a certa e infalível prova de um interesse salvífico em Jesus Cristo.

Adequadas são as palavras do apóstolo, Efésios 4:20-24: “Mas vós não aprendestes assim a Cristo, Se é que o tendes ouvido, e nele fostes ensinados, como está a verdade em Jesus; Que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano; E vos renoveis no espírito da vossa mente; E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade”. Onde temos, em outras palavras de mesma importância, a mesmíssima descrição do homem que está em Cristo, que o apóstolo nos dá neste texto. Agora, para a introdução e estabelecimento deste ponto, será necessário que eu vos diga,

1. Por que a obra regeneradora do Espírito é chamada de uma nova criação.

2. Em que respeito cada alma que está em Cristo é renovada, ou feita uma nova criatura.

3. Quais são as propriedades e qualidades notáveis desta nova criatura.

4. A necessidade desta nova criação para todos os que estão em Cristo.

5. Como esta nova criação evidencia o nosso interesse em Cristo.

6. E, em seguida, aplico a totalidade nos seus usos adequados. [Este ponto 6 é a segunda parte deste sermão, ou seja, ele sozinho constituí um segundo sermão de aplicação, e não consta no presente texto - N. do R.]

Primeiro, porque a obra regeneradora do Espírito é chamada de uma nova criação. Esta deve ser a nossa primeira pergunta. E, sem dúvida, a razão desta denominação é a analogia, proporção e semelhança que se encontra em meio a obra da regeneração e a obra de Deus na primeira criação. E o seu acordo e proporção serão encontrados nas seguintes indicações.

Em primeiro lugar, o mesmo Autor todo-poderoso que criou o mundo, criou também essa obra da graça na alma do homem, 2 Coríntios 4:6: “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo”. A mesma palavra poderosa que criou a luz natural criou também a espiritual. É igualmente absurdo para qualquer homem dizer: “eu me faço arrepender, ou crer”, como é dizer, “eu me fiz existir e ser”.

Em segundo lugar, a primeira coisa que Deus criou no mundo natural, foi luz (Gênesis 1:3). E a primeira coisa que Deus criou na nova criação, é a luz do conhecimento espiritual, Colossenses 3:10: “E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou”.

Em terceiro lugar. A criação é a partir do nada; não requer nenhuma matéria pré-existente; ela não traz uma coisa de outra, mas algo a partir do nada; dá uma existência ao que antes não existia: Assim é também na nova criação, 1 Pedro 2:9-10: “vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia”. A obra da graça não é induzida a partir do poder e princípios da natureza, mas é uma pura obra da criação. Os filósofos pagãos não podiam nem compreender, nem reconhecer a criação do mundo, porque essa noção era repugnante a esta máxima da razão, en nihilo nihil fit, a partir do nada, nada pode ser feito. Assim eles insanire cum ratione, enganaram-se com seus próprios raciocínios; e da mesma maneira alguns grandes pretendentes à razão entre nós, apontando que seja um absurdo afirmar, que a obra da graça não seja virtual e potencialmente contida na natureza, a nova criação na antiga.

Em quarto lugar, foi a virtude e eficácia do Espírito de Deus, que deu ao mundo natural a sua existência pela criação; Gênesis 1:2 diz que O Espírito de Deus se movia sobre a face das águas; pairava sobre o caos, como as asas de um pássaro faz sobre seus ovos, como a mesma palavra é proferida (Deuteronômio 32:11). Move-se, como que por incubação, aquela massa bruta por uma secreta influência vivificante, pelo qual Ele chamou todas as criaturas em suas diversas formas, e em particulares naturezas: Assim é a nova criação; uma influência vivificante deve vir do Espírito de Deus, ou então a nova criação nunca pode ser formada em nós; João 3: 8: “Assim é todo aquele que é nascido do Espírito”. E versículo 6, “O que é nascido do Espírito é espírito”.

Em quinto lugar, a palavra de Deus foi o instrumento da primeira criação; Salmo 33:6, 9: “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo espírito da sua boca; Porque falou, e foi feito; mandou, e logo apareceu”. A palavra de Deus é também o instrumento da nova criação, ou obra da graça no homem, 1 Pedro 1:23: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre”. Assim, Tiago 1:18: “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas”. Segundo a Sua vontade; o que foi a causa impulsiva; com a Palavra da verdade; que foi a causa instrumental. Grande respeito e honra, amor e prazer, são devidos a Palavra sobre esta consideração, que é o instrumento de nossa regeneração, ou nova criação.

Em sexto lugar, o mesmo poder que criou o mundo, ainda o mantém e o sustenta em seu existir: o mundo deve a sua conservação, bem como a sua existência ao poder de Deus, sem o que não poderia subsistir por um momento. Também assim é com a nova criação, que depende inteiramente do poder de preservação, que primeiro a formou; Judas, versículo 1: “Conservados por Cristo Jesus”, 1 Pedro 1:5: “Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo”. Como de uma forma natural “Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (Atos 17:28), assim de uma forma espiritual, continuamos acreditando, nos arrependendo, amando, e deliciando-nos em Deus; sem cuja influência contínua sobre nossas almas, não poderíamos fazer nenhum destes.

Em sétimo lugar, em uma palavra, Deus avaliou a primeira criação com complacência e grande prazer; Ele viu as obras de Suas mãos, e aprovou-as como muito bom (Gênesis 1:31). Portanto, assim também na segunda criação; nada agrada e encanta a Deus mais do que as obras da graça nas almas de Seu povo. Não é um privilégio exterior da natureza, ou um presente da Providência, que recomenda qualquer homem a Deus; “nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura” (Gálatas 6:15). E assim você vê sobre que fundamentos a obra da regeneração no homem é feita uma nova criatura; o que foi a primeira coisa a ser desvelada.

Em segundo lugar, a seguir, deve-se perguntar, em quais aspectos cada alma que está em Cristo é renovada, ou feita uma nova criatura: e aqui encontraremos uma renovação tríplice de todo aquele que está em Cristo, ou seja:

1. Em seu estado e condição.

2. Em sua estrutura e constituição.

3. Em sua prática e conversação.

Em primeiro lugar, ele é renovado em seu estado e condição, porque ele passa da morte para a vida em sua justificação (1 João 3:14). Ele estava condenado pela lei, ele está agora justificado gratuitamente pela graça, pela redenção que há em Cristo: ele estava sob a maldição da primeira aliança; ele está sob a bênção da nova aliança: ele estava longe, mas agora veio para perto de Deus; alguém separado, uma vez estranho, agora da família de Deus (Efésios 2:12-13). Abençoada mudança, a partir de uma triste condição, para uma doce e confortável condição! “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1).

Em segundo lugar, cada homem em Cristo é renovado em sua estrutura e constituição; todas as faculdades e afeições de sua alma são renovadas pela regeneração: o seu entendimento estava escuro, mas agora é luz no Senhor (Efésios 5:8). Sua consciência estava morta e presa, ou cheia de culpa e horror, mas agora tornar-se afetuosa, atenta e cheio de paz (Hebreus 9:11). Sua vontade era rebelde, teimosa e inflexível; mas agora é obediente e disposta a cumprir a vontade de Deus (Salmos 110:2). Seus desejos uma vez ansiavam e desperdiçavam-se na busca de vaidades, agora eles estão mirados em Deus, Isaías 26:8. Seu amor caducou ternamente iludido sobre objetos terrenos, agora é absorvido pelas excelências infinitas de Deus e de Cristo (Salmos 119:97). Sua alegria esteve uma vez em ninharias e coisas de nada, agora sua alegria está em Cristo Jesus, (Filipenses 3:3). Seus medos estiveram uma vez sobre criaturas nocivas, agora Deus é o objeto de temor e reverência (Atos 9:31), e o pecado o objeto do medo e cautela (2 Coríntios 7:11). Suas esperanças e expectativas eram apenas para o mundo presente, mas agora, pelas que há de vir (Hebreus 6:19). Assim, a alma em suas faculdades e afetos é renovada; o que sendo feito, os membros e sentidos do corpo, precisam ser destinados e utilizados em novos serviços; não mais para serem armas da injustiça, mas instrumentos de serviço a Jesus Cristo (Romanos 6:19). E, assim, todos os que estão em Cristo são renovados em sua estrutura e constituição.

Em terceiro lugar, O homem em Cristo é renovado em sua prática e conversação: o modo de funcionamento segue sempre a natureza dos seres. Agora, os regenerados não são o que eram. Não podem andar e agir como uma vez eles fizeram, Efésios 2:1-3: “E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo…”. Eles eram levados, como a água pela força da maré, pela influência de suas próprias naturezas corruptas, e os costumes e exemplos do mundo; mas o caso está agora alterado. Assim, em 1 Coríntios 6:11, o apóstolo expôs aos crentes os antigos companheiros no pecado, e lhes diz: “E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados” [...], o mundo está agora bem alterado quanto à você, graças à graça de Deus por isto. Esta maravilhosa mudança de prática, que é tão universal e notável em todos os regenerados, e imediatamente após a sua conversão, deixa o mundo surpreso com eles. E acham estranho que você não corra “e acham estranho não correrdes com eles no mesmo desenfreamento de dissolução, blasfemando de vós” (1 Pedro 4:4). Eles acham estranho: A palavra significa ficar de pé e olhar, como a galinha que chocou ovos de perdiz, quando ela vê os pintinhos que ela trouxe à luz, tira as asas e voa para longe deles. Assim fazem os homens do mundo, ficam espantados ao ver seus antigos companheiros de pecado, cuja língua era uma vez vã e terrena, talvez profana e imunda, agora estarem orando, falando sobre Deus, o céu e as coisas espirituais, não tendo mais relação com eles, quanto ao pecado, a não ser por meio de repreensão e advertência: isto espanta o mundo, e os faz olhar com um estranho olhar admirado sobre o povo de Deus.

Em terceiro lugar, a seguir, investigaremos as propriedades e qualidades desta nova criatura, e mostraremos a você, como formos capazes, o que elas são. Mas, leitor, não espere aqui um relato exato e preciso do que é tão grande mistério; pois se perguntas podem ser feitas sobre uma mosca boba, que pode deixar confuso o maior filósofo ao responde-las; quanto mais podemos conceber esta grande e maravilhosa obra de Deus, a mais misteriosa e admirável de todas as suas obras, que supera os entendimentos dos cristãos mais iluminados? Oh, quão pouco sabemos sobre a natureza, propriedades e operações desta nova criatura! Até onde Deus revelou aos nossos fracos entendimentos, podemos falar sobre isso.

Em primeiro lugar, a Escritura fala dela como uma coisa de grande dificuldade a ser entendida pelo homem, João 3:8: “O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito”. A origem dos ventos é uma questão de grande dificuldade na filosofia: Nós ouvimos o ruído do vento, sentimos a sua força poderosa, e observamos os seus efeitos estranhos; mas não sabemos de onde vem, nem para onde vai. Pergunte a um homem “você ouviu o vento soprar? Sim. Você sente ele soprar? Sim, mui evidentemente. Você vê os efeitos dele, rasgando e derrubando as árvores? Sim, muito claramente. Mas você pode descrever a sua natureza, ou declarar a sua origem? Não, isso é um mistério que eu não entendo. Ora, é justamente assim com aquele que é nascido do Espírito. O Espírito Santo de Deus, cuja natureza e operações entendemos bem pouco, vem do céu, vivifica e influencia nossas almas, derrota e mortifica as nossas concupiscência pela sua onipotência: Estes efeitos do Espírito em nós, experimentalmente sentimos, e de forma sensivelmente discernimos: Mas como o Espírito de Deus primeiro entrou, e vivificou as nossas almas, e produziu esta nova criatura em si, entendemos um pouco mais sobre isso do que como se formam os ossos no ventre da mulher que está grávida (Eclesiastes 11:5). Por isso a vida da nova criatura é chamada de uma vida escondida (Colossenses 3:3). A natureza dessa vida não está apenas totalmente escondida de todos os homens carnais, mas em grande medida esta vida está oculta e desconhecida aos homens espirituais, apesar de serem eles próprios os sujeitos dela.

Em segundo lugar, embora esta vida da nova criatura seja um grande mistério e segredo, em alguns aspectos; ainda até onde é conhecida, e aparece sobre nós, a nova criatura é a criatura mais bela e encantadora que já Deus fez; pois a beleza do próprio Senhor está sobre ela: “novo homem, que segundo Deus é criado” (Efésios 4:24). Como um retrato é desenhado a partir do homem, [a nova criatura] é um esboço do próprio Deus, delineado pelo Espírito, esse Artista admirável, na alma do homem. A santidade é a beleza e a glória de Deus; e na santidade a nova criatura é criada à imagem de Deus (Colossenses 3:10). A alma regenerada aqui se torna santa (1 João 3:3). Não essencialmente santa, como Deus é, nem ainda eficientemente santa; pois a alma regenerada não pode fazer-se santa, nem tornar outros santos. Mas a vida da nova criatura pode ser dita que se assemelha a vida de Deus no fato de que, como Deus vive para Si mesmo, então a nova criatura vive totalmente para Deus; como Deus ama a santidade, e odeia o contrário, o mesmo acontece com a nova criatura; é nestas coisas formada à imagem de Deus que a criou. Quando Deus cria essa criatura na alma do homem, somos ditos, então, ser “participantes da natureza divina” (2 Pedro 1:4). De modo que não pode haver nada transmitido aos homens que embeleza e enfeita suas almas como essa nova criação o faz. Os homens não se assemelham a Deus quando eles são nobres e quando eles são ricos, mas quando eles são santos: nenhum dom, nenhum dote natural embeleza a alma como esta nova criatura faz [...]. Sim, essa é a beleza da nova criatura, que Cristo, seu Autor, é também o seu Admirador, Cânticos 4:9: “Enlevaste-me o coração com um dos teus olhares”.

Em terceiro lugar, esta nova criatura é criada no homem, sobre o maior propósito que alguma vez qualquer obra de Deus foi feita: o fim de sua criação e infusão é elevado e nobre: a salvação da alma em que é feito; é tanto o finis operis, e finis operantis: Este é o propósito do trabalho e do trabalhador que a operou. Quando recebemos o fim da nossa fé, nós recebemos a salvação de nossas almas; salvação é o fim da fé, como a morte é o fim do pecado, também a vida eterna é o fim da graça. A nova criatura, pelo instinto e direção constante de sua própria natureza, segue o seu curso como que diretamente a Deus, e para o céu, o lugar de seu pleno exercício, como os rios fazem com o oceano; declara-se ter sido feito para Deus, por seu incansável esforço por Ele; e como a salvação é o fim da nova criatura, também, é o desígnio expresso e finalidade dAquele que a criou. 2 Coríntios 5:5. “Ora, quem para isto mesmo nos preparou foi Deus”; por esta obra dEle em nossas almas, Ele agora está polindo, preparando e “nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz” (Colossenses 1:12).

Em quarto lugar, esta nova criação é a obra mais necessária que Deus já operou na alma do homem: o eterno bem-estar de sua alma depende disso; e sem ela ninguém verá Deus (Hebreus 12:14) e “A não ser que vocês sejam regenerados e nasçam de novo, não podem ver o reino de Deus” (João 1:3, 5). Você pode ser salvo sem Cristo? Você sabe que não pode. Você pode ter interesse em Cristo, sem a nova criação? Meu texto expressamente diz que você nunca o pode ter; pois: “se alguém está em Cristo, nova criatura é”. Oh, leitor, quaisquer que sejam seus pensamentos levianos nesta matéria, e com que olhos negligentes e descuidados você leia estas linhas; ainda sim, saibas que tu deves ser ou uma nova criatura, ou uma criatura miserável e maldita para sempre. Se civilidade sem a nova criatura pudesse te salvar, porque os pagãos morais não são salvos também? Se o rigor da vida sem a nova criação pudesse te salvar, por que isso não salvou os escribas e Fariseus? Se uma elevada profissão [de fé] na religião sem a nova criatura pode te salvar, por que não salvou Judas, Himeneu e Fileto também? Nada é mais evidente do que isso, que nenhum arrependimento, obediência, abnegação, orações, lágrimas, reformas ou ordenanças, sem a nova criação nada aproveitam para a salvação da tua alma: o próprio sangue de Cristo, sem a regeneração nunca salvou e nunca salvará alguém. Oh que obra necessária é a nova criação! “Nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura” [Gálatas 6:15].

Em quinto lugar, a nova criatura é uma criatura admirável e maravilhosa: há muitas maravilhas na primeira criação, “Grandes são as obras do Senhor, procuradas por todos os que nelas tomam prazer” (Salmos 111:2). Mas não há maravilhas na natureza, como aquelas da graça. Não é a maior maravilha que jamais foi vista no mundo, (exceto a encarnação do Filho de Deus) ver a natureza e temperamento do homem tão transformados e modificados como eles o são pela graça? Veem os lascivos Coríntios e os idólatras Efésios tornando-se Cristãos mortificados e celestiais? Veem um feroz e perseguidor cruel, tornar-se um confesso glorioso e sofredor por Cristo? (Gálatas 1:23). Veem a mente carnal do homem, que estava, recentemente, fixada por completo em uma forte inclinação para o mundo, ser totalmente retirado de suas concupiscências, e firmado sobre coisas que são espirituais e celestiais? Certamente não foi um milagre maior ver Lázaro sair do seu sepulcro, do que é ver a mente morta e carnal saindo de suas concupiscências para abraçar a Jesus Cristo; não era uma maravilha maior ver os ossos mortos e secos no vale se moverem e se unirem, do que é ver uma alma morta em movimento em direção Deus, e movendo-se a Cristo no caminho da fé.

Em sexto lugar, a nova criatura é uma criatura imortal, uma criatura que nunca verá a morte (João 4:14). Há na alma do homem, uma fonte de água que jorra para a vida eterna. Eu não vou aventurar dizer que é imortal em sua própria natureza, pois é apenas uma criatura, como o meu texto chama-lhe; e sabemos, que infinitude essencial está na propriedade comunicável de Deus: A nova criatura tem tanto um começo e sucessão; e, portanto, também pode ter um fim, como a qualquer coisa em si, ou sua própria natureza. A experiência também nos mostra, que é capaz tanto de aumento e diminuição, e pode ser aproximada da morte (Apocalipse 3:2). A obra do Espírito nos crentes, pode estar pronta para morrer; mas, apesar de sua perpetuidade não fluir de sua própria natureza, flui da aliança e das promessas de Deus, o que a torna uma criatura imortal: quando todas as outras excelências no homem vão embora, como na morte (Jó 4:21) apenas esta excelência permanece: os nossos dons podem deixar-nos, nossos amigos nos deixam, nossas propriedades nos deixam, mas nossas graças nunca nos deixarão; elas sobem com a alma (em que são inerentes) na glória, quando o golpe da morte a separa do corpo.

Em sétimo lugar, a nova criatura é uma criatura celestial; “Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (João 1:13). Sua descida e origem é celestial, é espírito nascido do espírito, João 3:6. Seu centro é o céu, e lá estão todas as suas tendências, Salmos 63:8. Seu próprio alimento, do que vive, são coisas celestiais (Salmos 4:6 e 7), ele não pode alimentar-se como outras criaturas fazem, sobre as coisas terrenas; o objeto de toda a sua alegria e amor está no céu, Salmos 73:25: “Quem tenho eu no céu senão a ti?” As esperanças e expectativas da nova criatura são todos do céu; ele procura por pouco neste mundo, mas espera pelo refrigério do Senhor. A vida da nova criatura sobre a terra é uma vida de espera paciente por Cristo; seus desejos e anseios são pelo céu (Filipenses 1:23). A carne de fato permanece, e gostaria de adiar, mas a nova criatura se apressa, e de bom grado partiria (2 Coríntios 5:2). Ela não está em casa enquanto está aqui; isso veio do céu, e não pode ficar quieta, nem sofrer a alma em que habita, a será assim, até que vá para lá.

Em oitavo lugar, a nova criatura é uma criatura ativa e laboriosa; tão logo ela nasce, já está agindo na alma. Atos 9:11: “Eis que ele está orando!”. A atividade é sua própria natureza. Gálatas 5:25: “Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito”. Também não deve ser admirado, que deva estar sempre ativo e estimulando a alma, vendo que a atividade em obediência foi a finalidade para o que foi criada. “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras” (Efésios 2:10). E aquele que realiza os deveres da religião, por esse princípio da nova criatura, ou a natureza, vai (na medida em que o princípio atua nele) agradar-se em fazer a vontade de Deus; regozijar-se no caminho de Seu mandamento, e encontrar o prazer mais doce nos caminhos do dever.

Em nono lugar, a nova criatura é uma criatura que se desenvolve, crescendo de força em força (1 Pedro 2:2). E mudando a alma em que ela está submetida, de glória em glória (2 Coríntios 3:18). As tendências vigorosas e busca constante desta nova criatura, é atingir sua exata perfeição e maturidade (Filipenses 3:11). Ele não pode suportar restrição e limites à sua vontade. Aquém da perfeição; cada grau de força que alcança, apenas aguça e aprimora seus desejos por graus mais elevados: Após este relato, ele tem grande prazer nas ordenanças de Deus, deveres da religião, e a comunhão dos santos; pois são auxílios e melhorias à mesma, fim de seu grande propósito.

Em décimo lugar, a nova criatura, é uma criatura de preservações maravilhosas: Há muitas maravilhas da providência divina na preservação de nossas vidas naturais, mas nada como aquelas pelo que a vida da nova criatura é preservada em nossas almas: Há momentos críticos de tentação e deserção, em que ela está pronta para morrer (Apocalipse 3:2). Os graus de sua força e vivacidade são, por vezes, infelizmente, abatidos, e suas operações doces e confortáveis descontinuadas (Apocalipse 2:4). As evidências pelas quais a sua existência em nós era habitualmente encontrada, podem ser, e muitas vezes são, obscurecidas (2 Pedro 1:9). E a alma na qual ela está pode tirar conclusões muito tristes sobre a questão e circunstância; concluindo que sua vida, não apenas está em perigo, mas bastante extinguida (Salmos 51:10-12). Mas apesar de estar pronto para morrer, Deus maravilhosamente preserva-a da morte; ela tem também o seu reavivamento, assim como suas temporadas de fraquezas. E, assim, você vê, quais são as características encantadoras e ilustres da nova criatura. Em seguida,

Em quarto lugar, demonstraremos a necessidade desta nova criação para todos os que estão em Cristo, e que por Ele esperam alcançar a salvação; e a necessidade da nova criatura aparecerá de diversas maneiras.

Em primeiro lugar, a partir da vontade positiva e expressa de Deus, revelada nas Escrituras, no tocante a este assunto: Examinem as Escrituras, e vocês encontrarão que Deus colocou toda a ênfase e peso de sua felicidade eterna, por meio de Jesus Cristo, sobre obra do Espírito nas suas almas. Então, nosso Salvador diz a Nicodemos, João 3:5: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus”. Semelhantes são as palavras do apóstolo, Hebreus 12:14: “Segui… a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”. E, embora alguns pensem que os seus privilégios de nascimento, gozo de ordenanças, e profissões religiosas podem recomendá-los à aceitação de Deus sem esta nova criação, ele prova assim quão irracional e sem fundamento são todas essas esperanças. Gálatas 6:15: “Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura”. Cristo e o céu são os dons de Deus, e Ele tem a liberdade de conferi-los nos termos e condições que Lhe aprouver: e este é o caminho, o único caminho, e método indicado em que Ele trará os homens, por meio de Cristo, para a glória. Os homens podem extirpar as impressões dessas coisas de seus próprios corações, mas eles nunca podem alterar o estabelecido curso e método de salvação. Ou devemos ser novas criaturas, como o preceito da Palavra nos ordena, ou perdidos, e criaturas amaldiçoadas, como as ameaças da Palavra claramente nos dizem.

Em segundo lugar, esta nova criação é a parte inicial dessa grande salvação que esperamos que através de Cristo, e, portanto, sem isso, todas as esperanças e expectativas de salvação devem desaparecer. Salvação e regeneração estão inseparavelmente ligadas. Nossa glória no céu, se entendermos corretamente a sua natureza, consiste em duas coisas; ou seja, assimilação a Deus, e nossa fruição de Deus, e ambos estes tomam seu início e evolução em nossa regeneração neste mundo. Aqui começamos a ser transformados em Sua imagem, em algum grau (2 Coríntios 3:18), pois o novo homem é criado por Deus, como foi falado anteriormente. Na obra de graça é dito que Deus começa uma boa obra, que deve ser concluída, ou consumada, no dia de Cristo, Filipenses 1: 6. Agora nada pode ser mais irracional do que imaginar que um propósito, ou obra deve ser concluída ou aperfeiçoada, sendo que nunca teve um começo.

Em terceiro lugar, tão necessária é a nova criação a todos que esperam salvação por Cristo que sem isso, o céu não seria céu, e a glória dele não seria nenhuma glória para nós, por causa da inadequação e aversão de nossas mentes carnais em relação a isso; “A inclinação da carne é inimizade contra Deus” (Romanos 8:7). E inimizade exclui toda complacência e deleite. Há uma necessidade de um adequado e agradável moldar do coração à Deus, para o descanso complacente de nossas almas nEle: E esse temperamento agradável é operado pela nossa nova criação. 2 Coríntios 5:5: “Ora, quem para isto mesmo nos preparou foi Deus”. Regeneração, veja, é a obra ou moldar do espírito de um homem em um temperamento agradável, ou como está em Colossenses 1:12, nos fazer idôneos para participar da herança dos santos na luz.

A partir de tudo que isso, segue-se, vendo que não pode haver complacência, ou deleitar-se em Deus, sem idoneidade e conformidade com Ele, como é evidente, a partir de 1 João 3:2, bem como a partir da razão e da natureza da coisa em si mesma; ou Deus deve tornar-se semelhante a nós, adequado aos nossos corações pecadores, corruptos e vãos, o que é apenas uma rude blasfêmia alguma vez imaginar; ou então devemos ser feitos agradáveis e adequados a Deus, o que é propriamente o que agora estou provando ser necessário.

Em quarto lugar, há uma necessidade absoluta da nova criação para tudo o que espera interesse em Cristo, e a glória vindoura, uma vez que todas as características, marcas e sinais de tal interesse, são constantemente tomadas a partir da nova criação operada em nós. Olhe para todas as marcas e sinais de interesse em Cristo, ou salvação por meio dEle que se encontram dispersas nas Escrituras, e você ainda deve encontrar a pureza do coração (Mateus 5:8). Santidade, tanto em princípio e em prática (Hebreus 12:14). A mortificação do pecado (Romanos 8:13). Desejo pela aparição de Cristo (2 Timóteo 4:8). Com multidões mais de mesma natureza, sendo feitas constantemente as marcas e sinais da nossa salvação por Cristo. De modo que, ou devemos ter uma nova bíblia, ou um novo coração; pois se essas Escrituras são as verdadeiras e fiéis Palavras de Deus, nenhuma criatura não regenerada pode ver Seu rosto; o que corresponde ao quarto aspecto a ser desvelado.

Em quinto lugar, a última coisa a ser falada é como a nova criação é uma prova infalível e evidência da participação da alma em Cristo; e isso aparecerá de diversas maneiras.

Em primeiro lugar, onde todas as graças salvadoras do Espírito estão, ali o interesse em Cristo deve ser estar certo; e onde há a nova criatura, aí todas as graças salvadoras do Espírito estão: Pois o que é a nova criatura, senão a forma ou sistema de todas as graças especiais de salvação? Não é esta ou aquela graça particular, como a fé, nem esperança, ou amor a Deus, que constitui a nova criatura; pois estes são apenas como tantos membros ou ramos dela; mas a nova criatura abrange todas as graças do Espírito, Gálatas 5:22: “Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança”, e etc. Qualquer uma das graças salvíficas e especiais dá prova de nosso interesse em Cristo, quanto mais, então, a nova criatura, que é a forma complexa ou sistema de todas as graças juntas?

Em segundo lugar, para concluir; Onde são encontradas todas as causas de um interesse em Cristo, e todos os efeitos e frutos desse interesse aparecem, aí, sem dúvida, um interesse em Cristo é encontrado: onde quer que você encontre uma nova criatura, você encontra todas as causas e todas as facetas de um interesse em Cristo: Pois, ali você encontrará,

(1) A causa impulsiva, ou seja, o amor eletivo de Deus, a partir do que a nova criatura é inseparável (1 Pedro 1:2). Com a nova criatura, as causas apreciáveis, eficientes e finais de interesse em Cristo, e união com Ele, também sempre são encontradas (Efésios 2:10, capítulo 1:4-6).

(2) Todo o conjunto e frutos do interesse em Cristo são encontrados na nova criatura; há todos os frutos da obediência, pois somos criados em Cristo Jesus para boas obras (Efésios 2:10, Romanos 7:4). Há verdadeira oposição espiritual ao pecado, 1 João 5:18: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca”. Há amor pelo povo de Deus, 1 João 4:7: “qualquer que ama é nascido de Deus”. Há uma relação de consciência quanto aos deveres [...], pois a nova criatura é criada segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade (Efésios 4:25). Há a perseverança nos caminhos de Deus até o fim, e a vitória sobre todas as tentações; pois todo aquele que é nascido de Deus vence o mundo (1 João 5:4). Seria fácil falar de todos os outros frutos particulares de nossa união com Cristo, e mostrar-lhes cada um deles na nova criatura. E, assim, muito da parte doutrinária foi dita nesse ponto.

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♦ Fonte: CCEL.org | Título Original: Of the Nature and Necessity of the New Creature.
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Amanda Ramalho | Revisão por Camila Almeida


A Visão de Ossos Secos – Robert Murray M’Cheyne

“Veio sobre mim a mão do SENHOR, e ele me fez sair no Espírito do SENHOR, e me pôs no meio de um vale que estava cheio de ossos. E me fez passar em volta deles; e eis que eram mui numerosos sobre a face do vale, e eis que estavam sequíssimos. E me disse: Filho do homem, porventura viverão estes ossos? E eu disse: Senhor DEUS, tu o sabes. Então me disse: Profetiza sobre estes ossos, e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor. Assim diz o Senhor DEUS a estes ossos: Eis que farei entrar em vós o espírito, e vivereis. E porei nervos sobre vós e farei crescer carne sobre vós, e sobre vós estenderei pele, e porei em vós o espírito, e vivereis, e sabereis que eu sou o Senhor. Então profetizei como se me deu ordem. E houve um ruído, enquanto eu profetizava; e eis que se fez um rebuliço, e os ossos se achegaram, cada osso ao seu osso. E olhei, e eis que vieram nervos sobre eles, e cresceu a carne, e estendeu-se a pele sobre eles por cima; mas não havia neles espírito. E ele me disse: Profetiza ao espírito, profetiza, ó filho do homem, e dize ao espírito: Assim diz o Senhor DEUS: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mortos, para que vivam. E profetizei como ele me deu ordem; então o espírito entrou neles, e viveram, e se puseram em pé, um exército grande em extremo. Então me disse: Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel. Eis que dizem: Os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança; nós mesmos estamos cortados. Portanto profetiza, e dize-lhes: Assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu abrirei os vossos sepulcros, e vos farei subir das vossas sepulturas, ó povo meu, e vos trarei à terra de Israel. E sabereis que eu sou o Senhor, quando eu abrir os vossos sepulcros, e vos fizer subir das vossas sepulturas, ó povo meu. E porei em vós o meu Espírito, e vivereis, e vos porei na vossa terra; e sabereis que eu, o SENHOR, disse isto, e o fiz, diz o SENHOR” [Ezequiel 37:1-14].

No início da vida o profeta Ezequiel havia sido testemunha de cercos e campos de batalha; ele próprio experimentara muitos dos horrores e calamidades da guerra; e isso parece ter tingido o seu caráter natural, de tal forma que suas profecias, mais do que quaisquer outras, estão cheias de imagens terríveis e visões de coisas temíveis. Com estas palavras, temos a descrição de uma visão que, por sua grandeza e terrível sublimidade, é, talvez, inigualável em qualquer outra parte da Bíblia.

Ele se descreve como posto por Deus no meio de um vale que estava cheio de ossos. Era como se ele estivesse colocado no meio de algum espaçoso campo de batalha, onde milhares e dezenas de milhares foram mortos, e ninguém deixado para trás para enterrá-los. As águias haviam muitas vezes se reunido sobre os cadáveres, e ninguém as havia repeliu, e os lobos das montanhas tinham comido a carne daqueles homens fortes, e bebido o sangue dos príncipes. As chuvas do céu tinham branqueado tais ossos, e os ventos que sopravam sobre o vale aberto os tinham desnudado; e um intenso sol de verão havia embranquecido e secado os ossos. E enquanto profeta esteve em redor e por perto de modo a ver a triste cena, esses dois pensamentos surgiram em sua mente: “eis que eram mui numerosos sobre a face do vale, e eis que estavam sequíssimos”.

Se o local não fosse um vale aberto, poderia ter parecido ao seu olhar admirado algum vasto sepulcro, como se os túmulos de todos os Faraós fossem desvelados por algum choque da natureza, pelos fortes ventos do céu; como se a mão arbitrária da violência houvesse saqueado os vastos cemitérios do Egito, e lançado os ossos mumificados de outras eras para clarear e branquear à luz do céu. Quão expressivas são as breves palavras do profeta: “eis que eram mui numerosos sobre a face do vale, e eis que estavam sequíssimos”.

Sem dúvida, houve um terrível silêncio propagado sobre esta cena de desolação e morte; mas a voz do seu guia celeste rompe em seu ouvido: “Filho do homem, porventura viverão estes ossos?”.

Que estranha pergunta foi esta feita em relação aos ossos branqueados e secos! Quando Jesus disse da menina: “não está morta, mas dorme” [Lucas 8:52], eles riram dele, com escárnio; mas aqui não eram corpos recém-mortos, mas ossos, ossos descobertos, branqueados; não, eles nem mesmo eram esqueletos, pois osso estava separado de seu osso; no entanto, Deus pergunta: “viverão estes ossos?”. Se Ele tivesse feito esta pergunta ao mundo, eles teriam rido como uma altíssima risada de desprezo; mas Ele perguntou a alguém que, embora uma vez tenha estado morto, havia sido vivificado por Deus; e ele respondeu: “Senhor DEUS, tu o sabes”. Eles não podem viver por si mesmos, pois eles estão mortos e secos; mas se Tu puseres o Teu Espírito de vida neles, eles viverão. Assim, então, só Tu o sabes.

Recebendo esta resposta de fé do profeta, Deus ordena a ele que profetize sobre aqueles ossos, e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor. Assim diz o Senhor DEUS a estes ossos: Eis que farei entrar em vós o espírito, e vivereis. E porei nervos sobre vós e farei crescer carne sobre vós, e sobre vós estenderei pele, e porei em vós o espírito, e vivereis, e sabereis que eu sou o Senhor”. Tivesse o profeta caminhado pela vista, e não pela fé, ele teria duvidado da promessa, por causa da incredulidade. Se ele tivesse sido um adorador da razão, ele teria argumentado: Estes ossos não têm ouvidos para ouvir, por que eu deveria pregar-lhes: “Ouvi a palavra do Senhor?”. Mas não, ele creu em Deus mais do que em si mesmo. Ele havia sido ensinado “a suprema grandeza do seu poder”; e, portanto, ele obedeceu: “Então profetizei como se me deu ordem”.

Se a cena que Ezequiel primeiramente viu era sombria e desolada, a cena que agora aparecia aos seus olhos era mais sombria, ainda mais terrivelmente chocante: “E houve um ruído, enquanto eu profetizava; e eis que se fez um rebuliço, e os ossos se achegaram, cada osso ao seu osso. E olhei, e eis que vieram nervos sobre eles, e cresceu a carne, e estendeu-se a pele sobre eles por cima; mas não havia neles espírito”. Se foi uma visão horrível antes, ver o vale cheio de ossos, todos lavados pelas chuvas e ventos, e clareados nos sóis de verão, quanto mais horrível agora, ver aqueles mortos, osso unido ao seu osso, tendões, e carne e pele sobre eles; mas nenhum fôlego neles! Aqui estava um campo de batalha, de fato, com seus milhares de mortos insepultos, massas de carne sem respiração, frias e imóveis, prontas apenas para apodrecerem, cada mão rígida e imóvel, cada seio, sem um suspiro, todos os olhos lustrosos e sem vida, toda língua fria e silenciosa como um túmulo.

Mas a voz de Deus novamente quebra o silêncio: “Profetiza ao espírito (ou fôlego), profetiza, ó filho do homem, e dize ao espírito: Assim diz o Senhor DEUS: Vem dos quatro ventos, ó Espírito, e assopra sobre estes mortos, para que vivam”.

Antes, Ezequiel se inclinara sobre os ossos secos, mortos, e pregou a eles, uma congregação vasta, porém sem vida, mas agora ele levanta a cabeça e levanta os olhos; porque a sua palavra é ao Espírito de Deus vivo. A incredulidade pode ter sussurrado a ele: “A quem você está indo profetizar agora?”. A razão poderia ter argumentado: “que sentido há em falar com o Espírito invisível, a alguém a quem você não vê”; pois está escrito “O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece” [João 14:17]. Mas ele não duvidou da palavra por incredulidade: “E profetizei como ele me deu ordem; então o espírito entrou neles, e viveram, e se puseram em pé, um exército grande em extremo”.

A primeira aplicação feita sobre esta visão é a restauração dos Judeus.

1. Ele ensina que, neste momento eles são como ossos secos no vale aberto, espalhados por todas as terras, muitos e sequíssimos, destituídos da vida de Deus.

2. Isso ensina que a pregação de Jesus, apesar de ser loucura para o mundo, deve ser o meio de seu despertar, e que a oração ao todo-vivificante Espírito deve ser o meio de sua nova vida.

3. Isso ensina que, quando esses meios são utilizados com eles, o antigo povo de Deus deve levantar-se ainda, e ser um exército grande em extremo, serão como eles costumavam ser quando eles marchavam através do deserto, quando Deus ia adiante deles na coluna de nuvem; de forma que eles serão, então, levados de volta para a sua terra, e plantados em sua própria terra, e não mais arrancados. Mas outra, e para nós mais importante, aplicação desta visão, é para as almas não-convertidas em nosso meio. Sigamos por este ponto de vista.

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I. Almas não-convertidas são como ossos secos: mui numerosas e sequíssimas.

1. Elas são muitas. Quando uma alma é primeiramente trazida a Cristo, ela goza de uma paz na crença que ela nunca conheceu antes; e não somente isso, mas ela é vivificada da morte de delitos e pecados para uma vida que ela nunca conheceu anteriormente; ela conhece a bem-aventurança de viver para Deus. Porém, mesmo com toda essa alegria, há um sentimento terrível de solidão; para quando ele olha em volta do mundo, ela se sente exatamente como Ezequiel, colocada em meio a um vale cheio de ossos secos. Ele mesmo está vivo, mas este mundo, que uma vez foi toda a sua alegria, parece agora com algum antigo campo de batalha, onde os restos dos mortos estão todos lançados expostos em campo aberto; e ele se sente algo solitário em um mundo de mortos. Este mundo agora aparece como um vasto sepulcro, onde gerações inteiras de mortos se encontram, e são misturadas; todos semelhantemente apropriados apenas para a queima; e ele se sente vivo e solitário, movendo-se sobre as pilhas de mortos. Ele se sente como Elias no monte de Deus, quando ele reclamou: “Senhor Deus dos Exércitos… mataram os teus profetas à espada, e só eu fiquei” [1 Reis 19:10]. Ele se sente como nosso bendito Senhor, que era uma luz que brilha nas trevas, e as trevas não O compreenderam. Ele se sente “como astros no mundo; retendo a palavra da vida” [Filipenses 2:15-16], uma lâmpada suspensa na mais densa escuridão, cujo óleo é totalmente fornecido pela graça do alto, e cujos raios parecem apenas fazer a escuridão mais visível. Ele se sente como Paulo em Atenas; pois o seu espírito é comovido por ele ver o mundo inteiro entregue à idolatria. Ele se sente como Paulo em Roma, quando ele reclamou: “Porque a ninguém tenho de igual sentimento, que sinceramente cuide do vosso estado; porque todos buscam o que é seu, e não o que é de Cristo Jesus” [Filipenses 2:20-21]. Ele se sente como João, quando ele disse tão docemente, porém também mui tristemente: “Sabemos que somos de Deus, e que todo o mundo está no maligno” [1 João 5:19].

Para o olho do Sentido, oh, como este mundo é vivo e feliz, com as suas lojas e mercados; seus cumprimentos e empresas; as visitas de cerimônia e visitas de bondade; sua alegria e sua melodia! Quão vivo e realista é o mundo inteiro, desde o raiar da manhã até a meia-noite. Mas, para os olhos da Fé, oh, que deserto solitário é este mundo! Pois, “todo o mundo está no maligno”. Não é assim, irmãos crentes? Ele não é como Egito, naquela noite terrível, quando um grito foi ouvido em cada habitação; porque não havia uma casa onde não havia um morto? Oh! Isso é mais sombrio agora; pois em cada casa há muitas almas mortas, e ainda assim, não há nenhum clamor.

Olhe para a sua própria família; olhe entre as famílias dos seus vizinhos; olhe para a sua cidade natal; não há nestes muitos mortos, almas mortas? A maioria são ossos mortos, secos. Não, olhe para a Igreja Cristã; olhe entre os nossos guardadores do Sabath, e aqueles que se assentam nos sacramentos; oh, irmãos! não é verdade que, como Sardes, a maioria tem um nome que vive, e estão mortos? A maioria de vocês não vive uma vida de deleites? e não está escrito: “Mas a que vive em deleites, vivendo está morta”? [1 Timóteo 5:6] Não é verdade que a maioria de vocês não demonstra amor pelos irmãos? e não está escrito: “Aquele que não ama a seu irmão, permanece na morte?”. Oh, sim, a maioria são ossos secos! Verdadeiramente, então, “eis que eram mui numerosos”.

2. Eles são sequíssimos. Ossos secos estão muito além de toda a possibilidade de viver. (1) Eles são desprovidos de qualquer carne ou beleza. (2) Eles não têm qualquer medula ou espírito. (3) Elas não apresentam qualquer atividade ou poder de se moverem. E, oh! Não é esta a própria imagem das pobres almas não-convertidas, “eis que estavam sequíssimos”?

(1) Elas são desprovidas de qualquer beleza. Elas não veem a beleza em Cristo, e Cristo não vê beleza neles; as suas almas são magras e desfavorecidas. O homem foi feito perfeito em beleza, a princípio; pois ele foi feito à imagem dAquele que é a perfeita beleza; mas uma alma caída, não-convertida não tem beleza; é como um belo edifício em ruínas espalhadas; é como uma bela estátua inteiramente quebrada, nenhuma característica remanescente; é como um corpo bonito ferido pela morte, apodrecendo no túmulo.

(2) Elas não têm qualquer medula ou espírito. O homem foi feito para ser uma habitação de Deus através do Espírito; e é somente quando somos guiados pelo Espírito que somos vivos para Deus. Mas a alma não-convertida é “sensual, não têm o Espírito” [Judas 1:19]. A Bíblia diz: “O mundo não pode receber o Espírito Santo, porque não o vê, nem o conhece”. Eles não têm nenhuma obra do Espírito no seu coração; nenhuma obra de despertamento; nenhum convencimento da justiça; nenhuma obra de santificação; nenhum selo da alma; nenhum andar no Espírito; nenhum amor no Espírito; nenhuma oração no Espírito Santo.

(3) Almas não-convertidas não apresentam qualquer atividade ou poder de se moverem em direção a Deus. Se nós pregamos a Palavra do Senhor para elas, as mesmas não têm coração para atender às coisas que são faladas; ossos secos não têm ouvidos. Se nós lhes dizemos sobre a ira de Deus, que está chegando a elas, elas não são movidas a fugir; ossos secos não podem correr. Se nós lhes dizemos sobre a beleza do Senhor Jesus, como Ele se oferece para ser completo Salvador, ainda assim elas não são movidas para abraçá-lO; pois, ossos secos não podem estender os braços. Ah! estes ossos secos estão sequíssimos.

Irmãos, não é possível fazê-los ansiosos a respeito de suas almas? Vocês podem permanecer e ouvir quão mortos e secos eles são, e ainda irem embora e esquecer tudo isso? Vocês podem suportar carregar convosco uma pedra morta em vosso seio, em vez de um coração? Vocês podem suportar terem tal coração frio, gelado, perverso, que não vê nenhuma desejabilidade no encantador Salvador; nenhuma beleza nAquele que está estendendo as mãos para vocês todo o dia, o “primeiro entre dez mil”, o totalmente desejável”? Oh, irmãos! se vocês vão embora impassíveis; e, sem dúvida, isso pode acontecer com centenas de vocês; que necessidade temos de testemunhas? Vocês mesmos são a única evidência que precisamos de que as almas não-convertidas são “mui numerosas”, e “estavam sequíssimas”.

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II. A segunda lição que aprendemos a partir desta visão é que a pregação é o instrumento de Deus para despertar os não-convertidos.

Todo homem inteligente no meio de vocês ficou intrigado em um momento ou outro por uma aparente contradição que atravessa toda a Bíblia. Está escrito em um lugar: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer” [João 6:44], e ainda assim, toda a Bíblia completamente ordena que todos venham a Cristo. Novamente, está escrito: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” [1 Coríntios 2:14], e ainda assim, o que estamos pedindo continuamente a vocês, senão que recebam as coisas do Espírito de Deus? Mais uma vez, Deus abriu o coração de Lídia para atender às coisas que Paulo dizia, o que deixa claro que nenhum coração natural pode compreender, e ainda assim, não fazemos nada, senão instar essas coisas à vossa atenção. Por natureza, os seus corações são tão duros quanto diamante, e até mesmo a sua demonstração não vos fará fugir do inferno; ainda assim, “sabendo o temor que se deve ao Senhor, persuadimos os homens”. Por natureza, vocês não podem sequer compreender a beleza e graciosidade do Senhor Jesus; e ainda assim, estamos determinados a nada saber entre vocês, a não ser “Cristo e este crucificado”. Oh! que grande contradição há aqui; e ainda assim, com que facilidade isso é resolvido! Aqueles ossos estavam mortos, secos, sem espírito, sem vida, sem carne, sem ouvidos para ouvir; no entanto, Deus diz: “Profetiza sobre estes ossos, e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor”. Exatamente assim, meus amigos não-convertidos, suas almas são como esses ossos secos, mortas, secas, sem espírito, sem vida, sem ouvidos para ouvir, sem coração para atender às coisas que são faladas. Vocês têm suas consciências embotadas, de forma que nenhuma palavra minha pode movê-los a fugirem da ira vindoura; vocês têm esses corações ímpios, duros, de modo que nenhuma palavra minha pode persuadi-los a abraçar o suplicante Salvador, e ainda assim, é pela loucura da pregação que agrada a Deus salvar os que creem; e embora as nossas palavras não tenham poder, contudo Deus pode trabalhar de forma toda-poderosa através delas; e esta é a Sua mensagem para vocês: “Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor”.

Eu sinceramente rogo aqueles de vocês que pouco se importam com a pregação da Palavra, para compreendê-la. Vocês podem dizer, e dizer com verdade, que a pregação parece um instrumento fraco e tolo para tal tipo de obra, o próprio Deus a chamou de “a loucura da pregação” [1 Coríntios 1:21]. Vocês podem dizer, e dizem, de fato, que os ministros são apenas vasos de barro, que são homens, de natureza semelhante a vossa, o próprio Deus os chamou assim antes de vocês. Mas vocês não podem dizer que esta não é a maneira de Deus para converter almas; e é com risco às suas próprias almas que vocês a desprezam. Mantenham-se afastados da casa de Deus e selem a vossa Bíblia, e afastarão de vocês os únicos instrumentos pelos quais Deus pode chegar às vossas almas moribundas.

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III. A terceira e última lição que aprendemos a partir desta visão é que a oração deve ser adicionada à pregação, de outra forma a pregação é vã.

Os efeitos produzidos pela profecia de Ezequiel aos ossos secos foram muito notáveis. Os ossos se achegaram, osso ao seu osso; a carne, os nervos, a pele veio sobre eles, e os cobriu; mas ainda não havia neles o espírito, eles estavam tão mortos como sempre. E, oh! Quão semelhantes são aos efeitos que muitas vezes seguem a pregação da Palavra. Quão frequentemente um povo é aparentemente reformado! Em vez de quebrar o Sabath, há a observância do Sabath; em vez de embriaguez, há sobriedade; existe forma de piedade, mas nenhum do poder; os ossos, tendões, carne e pele de piedade, mas nada do sopro vital de piedade. Ah! Meus amigos, não é exatamente esta a forma de nossas congregações atualmente? há abundância de conhecimento intelectual, mas, ah! onde está o coração humilde que ama o Salvador? Há abundância de ortodoxia e de argumentação, mas, ah! onde está a fé simples no Senhor Jesus e amor por todos os santos? Não diz o Salvador quando Ele olha para baixo, para as nossas Igrejas: “mas não havia neles espírito?”, Oh! então, irmãos, vamos todos e cada um de nós dar atenção ao segundo comando para o profeta: “Profetiza ao espírito, profetiza, ó filho do homem, e dize ao espírito: Assim diz o Senhor DEUS: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mortos, para que vivam. E profetizei como ele me deu ordem; então o espírito entrou neles, e viveram, e se puseram em pé, um exército grande em extremo”. Aprendam duas lições a partir disso.

Primeiro. Amigos não-convertidos, que corações mortos vocês devem ter; toda a pregação do mundo não pode colocar a vida neles. Que corações duros vocês devem ter; o martelo mais pesado que nós possamos erguer não pode quebrá-los. Nós falamos os argumentos mais pesados em vosso ouvido, ainda assim, nem isso tudo vos moverá. Temos que levantar a nossa voz, e profetizar ao Espírito; devemos clamar ao Espírito Todo-Poderoso antes que possamos tocar o vosso coração. Tentamos convencê-los do pecado; demonstramos como vocês quebraram a lei, e que: “Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las” [Gálatas 3:10]; que vocês devem estar sob a maldição, que vocês não serão capazes de suportar essa maldição, que esmagou um Salvador à terra, e vos esmagará até as profundezas do inferno. Vocês estão um pouco impressionados, e esperamos que o vosso coração seja tocado; mas suas impressões são como impressões na areia quando a maré está baixa, e a próxima maré do mundo apaga tudo. Tentamos convencê-los da justiça. Nós lhes falamos sobre o amor do Salvador, como ele excede todo o entendimento; como havia um oceano de amor naquele seio que nenhuma corda poderia sondar, amor por pecadores perdidos como vocês; como Ele esteve no lugar dos pecadores, obedecendo a lei por nós; como Ele sofreu no lugar de pecadores, levando a maldição por nós. Nós dizemos a vocês que creiam nEle, e sejam salvo; vocês são derretidos, e a lágrima fica em seu rosto; mas, ah! Isso é “como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa” [Oséias 6:4].

Ah! Irmãos, que corações duros, de aço, vocês devem ter, quando tudo o que o homem possa fazer não vos derreterá. Seus corações são muito difíceis para nós; e nós temos que voltar lamentando para o nosso Senhor, dizendo: “Quem creu em nossa pregação?”. Em todas as outras coisas vocês poderiam ser persuadidos com argumentos. Se os seus corpos estivessem doentes, poderíamos persuadi-los a envia-los ao médico; se vossa propriedade fosse estorvada, poderíamos convencê-los a ser diligentes para a sua família. Oh! Quão prontamente vocês nos obedeceriam; mas quando mostramos que vocês são os herdeiros, alma e corpo, de um inferno eterno, vocês não despertarão de modo algum. Mesmo se nós pudéssemos mostrar-lhes o próprio Senhor Jesus Cristo, o Salvador sangrante, suplicante, seus corações ímpios não se apegariam a Ele. Vocês precisam dAquele que criou os seus corações, para quebrar e dobrar os seus corações. Então, vocês não irão embora, cada um de vocês, batendo no peito e dizendo: “Deus, tenha misericórdia de mim, pecador?”.

Aprendam, em segundo lugar, irmãos crentes, que necessidade vocês têm de orar.

Quando Deus, no capítulo anterior (36) promete dar um novo coração e um novo espírito a Israel: “tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne” [versículo 26], acrescenta, no versículo 37: “Ainda por isso serei solicitado pela casa de Israel, que lho faça”. E quando Deus promete dar os Gentios a Cristo por Sua herança, Ele apenas promete isso em resposta à oração: “Pede-me, e eu te darei” [Salmos 2:8]. E exatamente assim é aqui, quando Ele quer dar vida àqueles cadáveres que estão repousados no vale aberto, Sua palavra é: “Profetiza ao espírito, profetiza, ó filho do homem”.

Oh, irmãos crentes! Que instrumento é este que Deus tem colocado em suas mãos! A oração move Aquele que move o universo. Oh, homens de fé e oração! Israelitas, que lutam com Deus, e prevalecem! Homens retos, justos, cujas orações podem muito em seus efeitos! Vocês podem ser um pequeno rebanho, porém estejam suplicantes para que não deem descanso ao Senhor. Oh, orem para que o Espírito “assopre sobre estes mortos, para que vivam”. E vós, cristãos egoístas, se tal contradição pode existir; vocês, que se aproximam do trono de Deus apenas por si mesmos; vocês, cujas petições começam e terminam apenas por si mesmos; que não pedem por dons, exceto para a vossa paz e alegria. Vão e aprendam o que significa: “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” [Atos 20:35], “De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” [Filipenses 2:5].

Dundee, 25 de Dezembro de 1836.

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♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título Original: The Vision of Dry Bones
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Conversão – John Gill

[Um Tratado de Teologia Doutrinária • Livro 6 • Capítulo 13 • Sobre a Conversão]

Conversão, embora possa parecer, em alguns aspectos, estar unida com a regeneração e o chamado eficaz, ainda assim pode ser diferenciada de ambos. A regeneração é o ato único de Deus; a conversão consiste tanto no ato de Deus sobre os homens, transformando-os, e de atos praticados pelos homens sob a influência da conversão de graça; eles se convertem, sendo transformados. A regeneração é o movimento de Deus para e sobre o coração do pecador; a conversão é o movimento de um pecador em direção a Deus, como alguém (Charnock) expressa. Na regeneração, os homens são totalmente passivos, uma vez que também estão no primeiro momento da conversão; mas por ela, se tornam ativos: por isso às vezes ela é expressa passivamente; “tendes voltado”, ou sido convertidos (1 Pedro 2:25), e às vezes ativamente; “grande número creu e se converteu ao Senhor” (Atos 11:21), e “quando” a maioria do povo Judeu “se converterem ao Senhor”, o que diz respeito à conversão deles nos últimos dias (2 Coríntios 3:16). O chamado eficaz é a chamada de homens da escuridão para a luz; e as respostas da conversão a esse chamado, e é a real “viragem” dos homens de um para o outro; de modo que, com propriedade, a conversão pode ser considerada como distinta da regeneração e do chamado eficaz. No que diz respeito ao que pode ser observado,

1. Em primeiro lugar, o que a conversão é, e onde ela se encontra. A conversão a ser tratada NÃO É,

1a. Algo exterior, ou que se encontra apenas em uma reforma exterior de vida e costumes, tais como a dos Ninivitas; pois isso pode existir onde a conversão interna não existe, como nos Escribas e Fariseus; e é a que as pessoas podem se afastar, e voltar ao seu primeiro curso da vida novamente; e onde ela é segura e verdadeira, ela é o fruto e o efeito da verdadeira conversão, mas não ela em si mesma.

1b. Também não é algo meramente doutrinário, ou uma conversão de falsas noções antes assimiladas a um conjunto de doutrinas e verdades que estão de acordo com as Escrituras; assim os homens do passado foram convertidos do Judaísmo e do paganismo ao Cristianismo, mas nem todos os que foram assim convertidos, em um sentido doutrinário, eram verdadeiros e reais convertidos; alguns tinham a forma de piedade sem o poder dela, tinham um nome para viver, e serem chamados de Cristãos, mas estavam mortos, e por isso não convertidos; assim, a recuperação de professos da religião de erros em que caíram, para o reconhecimento da verdade, é chamado de sua conversão (Tiago 5:19-20).

1c. Nem a restauração do povo de Deus desde as rebeliões a que estão sujeitos, quando eles são em uma forma muito comovente e inoportuna chamados a voltarem para o Senhor (Jeremias 3:12, 14, 22; Oséias 14:1-4), de modo que Pedro, quando caiu em tentação, e negou o seu Senhor, e foi recuperado a partir de sua queda por um olhar de Cristo, isso é chamado de sua conversão (Lucas 22:32). Mas,

1d. A conversão em questão é verdadeira, real e internamente uma obra de Deus sobre as almas dos homens; há uma falsificação dela, ou ocorre em alguns homens que não são realmente convertidos, o que é um pouco semelhante ao que sempre se encontra naqueles que são verdadeiramente convertidos; como, o senso do pecado, e um reconhecimento do mesmo; uma apreensão do desagrado Divino em relação a ele; grande angústia sobre o assunto, alguma tristeza por isto, a humilhação por causa disso, e uma abstinência dela; e algo que tem uma semelhança com cada uma destes pode ser encontrado em pessoas não-convertidas; embora a sua preocupação com o pecado seja principalmente quanto ao mal que advém dele, ou pode vir por ele, e não pelo mal que há nele. Assim em pessoas convertidas há mais cedo ou mais tarde a luz do evangelho e das suas doutrinas, particularmente a doutrina da salvação por Cristo, que produzem alívio e conforto para eles sob o senso do pecado, e incentivam a fé e a esperança em Deus. E há algo assim a ser observado em alguns que não são verdadeiramente convertidos, que dizem ser “iluminados”, isto é, de uma forma teórica e doutrinária; e “provam” a boa palavra de Deus, embora isso aconteça somente de uma forma superficial; e “a recebem com alegria”, com um lampejo de afeição natural, que dura por um tempo; e creem nela com uma fé temporária, historicamente, e tornam-se sujeitos às ordenanças; mas ainda em tudo isto não há nenhuma obra no coração, ao passo que a real conversão genuína encontra-se,

1d1. Na conversão do coração a Deus, dos pensamentos do coração; que são não somente maus, mas continuamente maus, e sobre coisas más, não sobre Deus e as coisas de Deus; “Deus não está em todos os seus pensamentos”, nem em qualquer um dos pensamentos dos homens ímpios; mas quando convertidos, seus pensamentos se voltam para o seu estado e condição por natureza, sobre suas almas, e o bem-estar eterno delas; e sobre Deus, e os métodos de Sua graça na salvação dos homens, essa é a conversão dos “desejos” do coração, que antes seguiam após as concupiscências e desejos vãos, carnais, mundanos e pecaminosos; mas agora ele anseia por Deus e a comunhão com Ele, por Cristo e a salvação por Ele, segundo o Espírito e as coisas do Espírito. Esta é a conversão dos “afetos” do coração, que antes eram “desordenados”, e corriam em uma direção errada; antes eles eram carnais, após as coisas do mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, mas agora eles são examinados, e voltados para Deus, seu coração é circuncidado para amá-lO. E eles amam a Deus com todo o coração e alma, porque Ele os amou primeiro; embora antes suas mentes carnais estavam em inimizade para com Ele; e em relação a Cristo, a quem agora eles amam carinhosamente, com fervor, superlativa e sinceramente; e pelos santos, que são agora os notáveis na terra, em cuja conversação está todo o seu deleite, embora antes os odiavam; e em direção à Palavra, adoração e ordenanças de Deus, em que eles têm prazer em participar, embora antes fosse um cansaço para eles.

A conversão é um voltar da “mente” das coisas carnais para as espirituais, e das coisas terrenas para as celestiais; sim, é uma mudança da “vontade”, que antes da conversão está em um estado muito ruim, é obstinada e inflexível, tendenciosa e se inclinava para o que é mau, é contrária a tudo o que é bom; mas na conversão, Deus “opera nos” homens “tanto o querer como o efetuar, segundo a Sua boa vontade”; Ele lhes concede uma outra vontade, ou não obstante, uma mudança da vontade deles, de modo que de um povo indisposto, eles são feitos um povo voluntário no dia do Seu poder sobre eles; de forma que eles não estavam dispostos a vir a Cristo para a salvação, e tomá-lO somente, para ser o seu Salvador; “E não quereis vir a mim para terdes vida”, diz Cristo (João 5:40), ou seja, vós não tens a vontade de vir a Mim de modo algum para terem vida e salvação; eles escolhiam, antes, ir a qualquer lugar em vez de ir até Ele para isso; mas agora eles são dispostos a serem salvos por Ele, e resolvem não ter nenhum outro Salvador, senão Ele; sim, embora Ele os mate, eles confiarão nEle, e dizem: “Ele será a nossa salvação”; e embora antes eles estiveram procurando estabelecer a sua justiça própria, e não iriam nem queriam submeterem-se à justiça de Cristo; agora seus corações robustos, que estavam longe da justiça, são enfraquecidos e tornam-se dispostos a serem encontrados em Cristo, e em Sua justiça somente; e na medida em que antes eles não queriam que Cristo reinasse sobre eles, e optaram por não estarem sujeito às Suas leis e ordenanças, agora eles são dispostos a reconhecê-lO como Seu Rei e Governador, e voltam os seus pés para os Seus testemunhos, e estimem os Seus preceitos acerca de todas as coisas como certos.

1d2. Conversão repousa em um homem ser transportado das trevas para a luz; diz o apóstolo, ele foi enviado por Cristo aos Gentios, como ministro do evangelho “para… das trevas os converteres à luz” (Atos 26:18), ou seja, para ser o instrumento ou meio de sua conversão, por pregar o evangelho para eles. Nisso, a conversão pode parecer coincidir com o chamado eficaz; mas pode-se observar, que a vocação eficaz é um chamado para, enquanto a conversão é um “voltar-se” dos homens das trevas para a luz; Deus não apenas chama para a luz, mas converte-os à luz em todos os sentidos; a Deus, que é a própria luz, e em quem não há treva alguma; a Cristo, que é a luz do mundo; ao evangelho, que é a grande luz que brilha sobre os homens que estão nas trevas; e à luz da graça, que é uma luz resplandecente, que brilha mais e mais até ser dia perfeito.

1d3. A conversão consiste na mudança dos homens “do poder de Satanás a Deus”, como na passagem acima (Atos 26:18). Satanás tem grande poder sobre os homens em um estado não-convertido, o seu lugar está em seus corações e estes são o palácio em que ele governa; ele trabalha efetivamente com grande poder e força nos filhos da desobediência, agitando as suas concupiscências e corrupções, sugerindo coisas más às suas mentes e tentando-os a elas; ele faz tudo o que pode para mantê-los em sua cegueira natural e ignorância, e para aumentá-la, e para impedi-los de ouvir o evangelho e do fato deste ser benéfico para eles, para que a luz dele brilhe em suas mentes. Satanás os prende e os leva cativos segundo a sua vontade; e eles são de bom grado liderados por ele, pelas concupiscências de seu pai que eles satisfarão; mas agora, na conversão, eles são convertidos de seu poder; despojados deles, e sua armadura na qual ele confiava lhe é tirada; a presa é retirada das mãos do poderoso, e o cativo da lei é liberto; homens são transportados do poder das trevas para o reino do Filho amado de Deus; e embora eles não estejam livres de suas tentações, contudo graça suficiente é concedida a eles para que as suportem, sendo o prazer de Deus salvá-los delas, o Qual brevemente o esmagará sob eles; e à medida que eles são, na conversão, retirados dele, eles são convertidos a Deus; os que antes estavam sem Ele e separados da vida de Deus, e estranhos a Ele; mas agora, eles são convertidos para conhecê-lO, amá-lO, para depositarem sua fé nEle, e para a comunhão com Ele.

1d4. Conversão consiste em converter os homens dos ídolos para servirem o Deus vivo; não apenas dos ídolos de prata e ouro, de madeira e pedra, como antigamente, mas a partir dos ídolos do próprio coração de um homem, suas paixões e corrupções; em relação a que a linguagem de um pecador convertido é: “Que mais tenho eu com os ídolos?”, esta é uma bênção derramada na conversão: “Ressuscitando Deus a seu Filho Jesus, primeiro o enviou a vós, para que nisso vos abençoasse”, no “apartar, a cada um de vós, das vossas maldades” (Atos 3:26). Na redenção, Cristo afasta as iniquidades de Seu povo ao suportá-las e fazer satisfação por elas; e na conversão, Ele, pelo Seu Espírito e graça converte-os de suas iniquidades; ele transforma-os do amor por elas a um ódio pelas mesmas, mesmo dos pensamentos vãos, bem como de ações pecaminosas; do serviço e trabalho penoso da iniquidade ao serviço da justiça; do poder e do domínio delas e sujeição a elas, e de um curso de vida nelas para uma vida de santidade; e dos caminhos do pecado para os caminhos da verdade e da retidão.

1d5. Conversão consiste em fazer voltar os homens de sua justiça própria para a justiça de Cristo; não de fazer obras de justiça – embora tais pessoas convertidas são mais aptas para, e mais capacitadas a, e estão sob maiores obrigações de realiza-las – mas a partir da dependência delas para a justificação diante de Deus e aceitação por Ele; de forma que eles são convencidos pelo Espírito de Deus da insuficiência de sua justiça própria para justificá-los, pois são imperfeitos; e da necessidade, perfeição e plenitude da justiça de Cristo, e sendo convertidos a Ele, recebem, abraçam, lançam mão e pleiteiam o Sua justiça justificadora diante de Deus. E isso requer mais do que os ensinamentos dos homens, pois, embora os ministros sejam descritos como “os que a muitos ensinam a justiça”, isto se refere à justiça de Cristo, mas apenas instrumentalmente, e como os meios disso, através da pregação do evangelho, em que há uma revelação dela; pois Deus é a causa eficiente da conversão deles a Ele; pois, embora o evangelho seja a ministração dela, contudo é o Senhor que deve atrair os duros de coração que estão longe da justiça, e torná-los dispostos a submeterem-se a ela, e estarem desejosos de serem encontrados nEle. Pois os homens, naturalmente, não se importam de reter a sua própria justiça; esta é propriamente sua, e o que eles têm tido há muito tempo e com grande esforço a ergueram, e não podem suportar tê-la demolida; eles de bom grado a seguram firmemente, e se inclinam sobre ela, embora ela não subsistirá; é o seu ídolo, no que eles colocam a sua confiança, e tirar isso deles é como tirar o seu deus; como disse Mica, quando seu ídolo foi roubado dele: “Os meus deuses, que eu fiz, me tomastes… que mais me resta agora?”. Por isso a conversão de uma pessoa que se julga justa aos seus próprios olhos é mais rara e difícil do que a conversão de um pecador devasso; daí o nosso Senhor dizer aos escribas e Fariseus, que “os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus”, e que Ele próprio não veio “chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento”.

1d6. Conversão consiste em um “voltar-se” do homem para o Senhor ativamente, sob a influência da graça Divina; e por esta frase é muitas vezes expressa na Escritura, como em Isaías 10:21; Atos 11:21; 2 Coríntios 3:16, os homens são plenamente convencidos de que não há salvação em nenhum outro, senão em Cristo, de forma que é em vão esperar em outro lugar; depois de terem feito muitos questionamentos e pesquisas sem propósito, se voltam para o Senhor Jesus Cristo, e olham para Ele por salvação; sendo alertados do perigo, eles se convertem à medida que são dirigidos, encorajados e habilitados para irem a Cristo, a fortaleza, onde estão a salvo dos perigos e de todos os inimigos. São sensibilizados quanto à insuficiência de sua justiça própria, e da idoneidade da justiça de Cristo para eles, eles se voltam para Ele como o Senhor sua justiça, em Quem toda a semente de Israel é justificada e se gloriará; e estando plenamente satisfeitos com a equidade das leis, regras e ordenanças de Cristo, eles se voltam para Ele como seu Senhor e Legislador, e se submetem às Suas ordens, renunciando a todos os outros senhores e seu domínio sobre eles.

E embora em seu estado natural, eles sejam como ovelhas desgarradas, na conversão eles são devolvidos a Cristo, como o grande Pastor e Bispo das almas. A parábola que representa o buscar, encontrar e trazer para casa a ovelha perdida, é uma representação da forma de conversão de um pecador, o povo de Cristo são as Suas ovelhas antes da conversão, mas são ovelhas perdidas, vagueando no deserto; e, como a ovelha nunca retorna ao rebanho, ao pastor e à pastagem por si mesma, a não ser que seja buscada e seja levada a retornar; assim é com eles, até que eles sejam procurados e encontrados, e trazidos para casa por Cristo, o proprietário deles, com alegria. As parábolas seguintes representam a mesma coisa; como a da moeda de prata [dracma] perdida, pois, ao busca-la a mulher acende uma vela e varre a casa, e procura por todos os cantos até que ela a encontra, o que lhe dá alegria; isso apresenta a alta estima e valor que os eleitos têm para Cristo, que é comparável à prata, sim à ouro fino e pedras preciosas; e a passividade dos homens à princípio na conversão, que não mais contribuem para sua própria conversão do que o pedaço de prata contribuiu para ser encontrado; e os meios e métodos utilizados na conversão, à luz do ministério do evangelho, e a agitação e alvoroço naquela ocasião.

Assim também ocorre na parábola do filho pródigo, e seu retorno ao seu pai, é expressivo do mesmo; sua maneira de viver antes de seu retorno é uma vívida imagem do estado dos homens não-convertidos, vivendo em suas concupiscências, e seguindo os desejos da carne e dos pensamentos. Em seu retorno há todos os sintomas de uma conversão verdadeira e real: como um senso de que ele estava morrendo à míngua, passando fome e que estava, por natureza, perecendo; seu retorno ao seu perfeito juízo, seu senso de pecado, a confissão deste e arrependimento por ele e a sua fé e esperança de encontrar uma recepção favorável da parte de seu pai, o que o incentivou a voltar, e foi isto que ele encontrou; (veja Isaías 55:7).

2. Em segundo lugar, as causas da conversão que são eficientes, móveis e instrumentais.

2a. Em primeiro lugar, a causa eficiente, que não é o homem, mas Deus.

2a1. Não é o homem, não é pelo poder e nem pela vontade do homem.

2a1a. Não é pelo poder do homem; o que se diz sobre a conversão ou saída dos Judeus de seu cativeiro, é válido para a conversão de um pecador, a saber: “Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos” [Zacarias 4:6]. Os homens estão mortos em um sentido moral, enquanto não-convertidos, eles estão mortos em seus delitos e pecados, que são a causa de sua morte; e sua própria vida em si não é outra senão a morte moral; nem podem vivificarem a si mesmos, e, a menos que eles sejam vivificados, eles não podem ser convertidos; e possuem em um senso moral mortificado, de modo que eles estão “fracos” [Romanos 5:6]; eles não estão apenas “enfermos pela carne” [Romanos 8:3], a corrupção da natureza, mas eles estão “sem força”; sem nenhuma força em absoluto para realizar o que é bom, e muito menos uma obra de tão grande importância como a sua própria conversão.

Eles não têm o domínio de si mesmo, nem qualquer poder sobre seus corações, pensamentos, desejos ou afetos; eles não podem vê-los e controlá-los ao seu bel prazer; eles não podem pensar alguma coisa, como de si mesmos, muito menos ter um bom pensamento; eles não podem direcionar os fluxos de seus desejos e afetos aos objetos apropriados; eles não podem mover suas mentes, nem dobrar as suas vontades, mesmo para aquilo que é o seu próprio benefício.

A conversão é uma tal transformação em um homem de modo que não estar em seu poder efetuar, é como um Etíope mudar a sua pele, e um leopardo as suas manchas; de tais coisas nunca se ouviu falar, como um mouro se tornar branco, e um leopardo se tornar limpo de suas manchas; assim é a grande improbabilidade de que um homem converta-se (Jeremias 13:23). Uma árvore primeiramente precisa ser feita boa, de modo a dar frutos bons: “Faça a árvore boa”, diz o Senhor; mas a árvore não pode fazer a si mesma boa; outra mão deve ser empregada neste caso para enxertá-la, cultivá-la e melhorá-la. Um espinheiro não pode transformar-se em uma videira, e assim produzir uvas; nem um cardo em uma figueira, para trazer figos; essas coisas são tão possíveis de acontecer quanto um homem converter-se e produzir bons frutos de justiça (Mateus 12:33; 7:16-18).

A conversão é o movimento da alma em direção a Deus; mas como este não pode existir em um homem morto e, a menos que ele seja vivificado, assim, a não ser que ele seja atraído pela graça eficaz; pelo que Deus, na conversão, atrai os homens com bondade para Si mesmo; e, com cordas de amor, ao Seu Filho; pois “ninguém”, diz Cristo, “pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer” (João 6:44). E até mesmo as pessoas convertidas são tão sensíveis a isso, que oram, como a igreja o fez, “Leva-me tu; correremos após ti” (Cânticos 1:4), a coisa fala por si mesma, e mostra que ela não pode ser feita pelo poder do homem; pois isso não é outra senão uma “criação”, o que exige poder de criação para efetivá-la, e tal poder a criatura não tem; pois a restauração ou conversão de um santo apóstata é uma criação e exige o poder do Criador para fazê-la. Sobre isto Davi, quando desviado, foi sensível e, portanto, orou: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro” [Salmos 51:10], então, muito mais é a primeira conversão de um pecador, e exige semelhante poder; esta é uma ressurreição dentre os mortos, e não é efetuada, senão pela sobreexcelente grandeza do poder de Deus, mesmo como o poder que foi expresso em ressuscitar a Cristo dentre os mortos (Efésios 1:19).

2a1b. Também não é a conversão devida à vontade dos homens; a vontade do homem, antes da conversão, está em um péssimo estado, pois escolhe seus próprios caminhos, e se deleita em suas abominações; ele busca avidamente os desejos da carne e dos pensamentos; ele é determinado a ir atrás de seus amantes e dos desejos que alimentam o seu apetite, e concede a si mesmo coisas agradáveis à mente carnal; a vontade se torna um escravo de desejos e prazeres carnais; embora a liberdade natural da vontade não seja perdida pelo pecado, ela pode livremente desejar as coisas naturais, como o comer ou beber, sentar, ou ficar em pé ou caminhar ao seu bel prazer; mas a sua liberdade moral é perdida, é algemada com as duas cadeias dos desejos pecaminosos, pelo que é vencida e levado ao cativeiro; e não obstante ele se gabe de sua liberdade, ele é um escravo nascido em casa; e, portanto, com razão, Lutero chamou isso de “servum arbitrium” [escravo arbítrio]: o homem não deseja o que é bom até que Deus opere isso nele, e de indisposto o faz voluntário no dia do Seu poder. O homem não-convertido não tem vontade de vir a Cristo e ser salvo por Ele; nem de submeter-se à Sua justiça; nem de estar sujeito às Suas leis e ordenanças, até que a vontade seja operada nele pela graça eficaz. Nega-se que a conversão seja a partir da vontade dos homens; pois como toda a salvação “não depende do que quer”; assim acontece com esta parte da salvação em particular; a regeneração, com a qual a conversão, no seu primeiro momento concorda, não é “nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Romanos 9:16; João 1:13).

Mas, pode-se dizer que se a conversão não está no poder e vontade dos homens, para que finalidade são as exortações como as seguintes; “Tornai-vos, e convertei-vos de todas as vossas transgressões; arrependei-vos, pois, e convertei-vos” (Ezequiel 18:30, 32 e Atos 3:19), ao que pode ser respondido, que estas passagens não relacionam-se à conversão espiritual e interna, mas a uma reforma exterior da vida e costumes. No primeiro caso, os Judeus estavam então em um estado de cativeiro, que era uma espécie de morte, como as aflições dolorida, por vezes, são denominadas (2 Coríntios 1:10), E para a qual eles foram trazidos por seus pecados: agora o Senhor declara, que Ele não tinha prazer neste estado desconfortável e condição deles; era mais desejável para Ele, e assim Ele os exorta a isso, a reforma de suas práticas malignas; em seguida, eles seriam libertos a partir de seu cativeiro, e viveriam confortavelmente em sua própria terra, como viviam anteriormente. Mas o que tem isto a ver com a conversão espiritual e interna de um pecador para a Deus? No que diz respeito àquele último caso, os Judeus foram ameaçados com a destruição de sua cidade e nação, por sua rejeição de Jesus, o Messias, e outros pecados que eles eram culpados; e agora o apóstolo aconselha aqueles a quem ele dirige seu discurso, a abandonarem suas noções erradas sobre Cristo, e se arrependerem de má forma de tratá-lO e aos Seus seguidores, e de seus outros pecados, de forma exterior, para que eles escapassem das calamidades que estavam vindo sobre a sua nação e povo. Mas, supondo que estas, e tais semelhantes exortações, fossem relativas à conversão interna do coração a Deus; tais exortações só podem ser projetadas para mostrar aos homens a necessidade de tal conversão à salvação; como nosso Senhor disse: “se não vos converterdes… de modo algum entrareis no reino dos céus” [Mateus 18:3], e quando os homens são convencidos disto, eles logo serão conscientes de sua impotência para converterem-se, e orarão, como Efraim, “converte-me, e converter-me-ei” [Jeremias 31:18], imediata e eficazmente; pois,

2a2. Somente Deus é o autor e a causa eficiente de conversão. Aquele que fez o coração do homem e formou o espírito do homem dentro dele, somente Ele pode transformar seus corações, e formar e moldar seus espíritos, como Lhe aprouver; o coração de um rei, e assim o de todos os outros homens, está nas mãos do Senhor, e Ele pode direcioná-los como os rios de água são dirigidos. Ele, e somente Ele, pode dar, e esquadrinhar, e converter os pensamentos, desejos e afetos do coração em outra direção e a mente e a vontade para outros objetos. Ele pode remover a obstinação da vontade, e dobrá-la ao Seu deleite, e torná-la flexível e adaptável à Sua própria vontade. Ele pode tirar a dureza do coração, embora seja como pedra de diamante, Ele pode suavizá-lo e deixa-lo suscetível das melhores impressões; Ele pode quebrar o coração de pedra em pedaços; sim, tirar o coração de pedra e dar um coração de carne; como Ele pode ter extrair dele o que quiser, para que Ele possa colocar nele o que quiser, como Ele faz na conversão com as Suas leis, o temor dEle e Seu espírito. Ele pode e os atrai, pela forte influência de Sua graça sobre eles, a Si mesmo e ao Seu Filho; e isso Ele faz sem forçar as Suas vontades; Ele docemente atrai, pela Sua graça, para que venham a Cristo e aos Seus preceitos; ele poderosamente convence Jafé a habitar nas tendas de Sem; Ele faz o Seu povo voluntário no dia de Seu poder, para fazer o que antes eles não tinham nenhuma vontade nem inclinação; e ainda assim eles agem mui livremente. O homicida não sente mais vontade de fugir para uma cidade de refúgio, para abrigar-se contra o vingador de sangue, do que um pecador, sensível ao seu perigo, foge para Cristo em busca de refúgio, e lança mão da esperança proposta diante dele.

O poder da graça Divina, expresso na conversão, é irresistível; isto é, tão irresistível, como que uma parada não pode ser colocada na obra, e esta tornar-se de nenhum efeito, por oposição feita a ela seja interior ou exteriormente. A conversão é de acordo com a vontade de Deus, a Sua vontade proposital, que nunca pode ser frustrada: “Porquanto, quem tem resistido à sua vontade?” [Romanos 9:19]. Seu conselho será firme, e Ele cumprirá todo o Seu prazer; ela é operada por Sua onipotência; a obra da fé, que é a principal parte da obra da conversão, é iniciada, continuada, e executada com poder; nem pode um pecador mais resistir, de modo a torna-la de nenhum efeito, ao poder de Deus na conversão, do que Lázaro conseguiu resistir ao poder de Cristo ao chamá-lo para fora de seu túmulo.

Se estivesse no poder da vontade dos homens dificultar o trabalho de conversão, de modo que ela não ocorresse, quando é o desígnio de Deus que ela ocorra; então Deus poderia se frustrar em Seu propósito, o que não deve ser dito; pois não há conselho, nem força contra Ele; sejam quais forem os dispositivos que estejam no coração de um homem, os conselhos de Deus nunca podem ser frustrados; quando Deus propôs converter um pecador, quem o poderá invalidar? e quando a Sua mão forte da graça está estendida para colocar esse efeito em execução, quem pode encolhê-la? quando Ele opera de alguma forma, e assim nisso, não há ninguém que possa impedir. Além disso, se a conversão ficasse de pé ou caísse de acordo com a vontade dos homens; ou se esse fosse o ponto de viragem na conversão do homem, isso deveria, antes, ser atribuído à vontade de homens do que à vontade de Deus; e não seria verdade o que se diz: “isto não depende do que quer” [Romanos 9:16]: sim, pois então a vontade dos homens teria maior impacto na conversão, em resposta a essa pergunta: “Porque, quem te faz diferente?” [1 Coríntios 4:7], poderia ser dito, como foi citado por um orgulhoso e altivo com livre-arbítrio, Grevinchovius: eu me fiz diferente.

A tudo isso pode-se objetar as palavras de Cristo; “quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!” (Mateus 23:37), mas deve ser observado que este ajuntar não deve ser entendido como conversão; mas sobre a participação no ministério da palavra sob João Batista, o próprio Cristo e Seus apóstolos; de forma que Cristo afetuosa e inoportunamente havia exortado-os; o que, se fosse considerado, os teria preservado da vingança iminente sobre Jerusalém, e também deve ser observado que não são as mesmas pessoas a quem Cristo gostaria de ajuntar, e aquelas sobre quem Ele diz: “e tu não quiseste”; pelo que intencionou-se os legisladores e governadores do povo, que não lhes permitiam participar do ministério do evangelho, mas os ameaçavam expulsá-los da sinagoga se eles o fizessem (Mateus 23:13).

2b. Em segundo lugar, a causa motriz ou que impulsiona a conversão é o amor, graça, misericórdia, favor e boa vontade de Deus; os mesmos são a causa motriz da regeneração e do chamado eficaz, e não os méritos dos homens; pois o que há ali nos homens antes da conversão que mova a Deus para dar esse passo em seu favor? (veja 1 Coríntios 6:9-11; Efésios 2:2-4).

2c. Em terceiro lugar, a causa instrumental, ou meios da conversão, geralmente é o ministério da palavra; às vezes, de fato, é feito sem a palavra, por alguma ou outra notável providência despertadora, e às vezes, lendo as Escrituras; mas, na maioria das vezes, é através da pregação da Palavra; portanto, os ministros são descritos como “os que a muitos ensinam a justiça” [Daniel 12:3]; e o apóstolo Paulo diz que ele foi enviado por Cristo para o mundo Gentio, “para… das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus” [Atos 26:18]; e isso é feito tanto pela pregação da Lei quanto do Evangelho: “A lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma” [Salmos 19:7], embora talvez não a Lei, considerada rigorosamente, mas toda a doutrina da Palavra está ali significada; no entanto, a pregação da lei é utilizada pelo Espírito de Deus para convencer do pecado; pois “porque pela lei vem o conhecimento do pecado” [Romanos 3:20]; e por meio dela, quando ela entra no coração e na consciência, sob Sua influência, o pecado evidencia-se excessivamente maligno, e a alma é cheia de grande angústia por causa disso; “Porque a lei opera a ira” [Romanos 4:15]; embora alguns o consideram sendo antes preparatório para a conversão, em vez de a própria conversão, isso pode ser melhor atribuído ao evangelho; e, de fato, o recebimento do Espírito, e Suas graças, e em particular a fé, são atribuídos à pregação do evangelho, e não à Lei, como o meio dos mesmos: “recebestes o Espírito pelas obras da lei?” [Gálatas 3:2], isto é, pela pregação da doutrina de obediência a ele; “ou pela pregação da fé?”, ou seja, pela doutrina do evangelho, a pregação da fé em Cristo; a qual é, portanto, chamada de “a palavra da fé”, e por ela vem; pois “a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Gálatas 3:2; Romanos 10:8, 17), mas, em seguida, a pregação da Palavra do Evangelho não é suficiente por si só para produzir a obra da conversão no coração; homens podem ouvi-lo, e não serem convertidos por ela; nem receberem qualquer benefício, proveito ou vantagem através dela; se ela vir somente em palavras, e não com a demonstração do Espírito e de poder; e quando é acompanhado com o poder de Deus; ou é feito o poder de Deus para a salvação, mesmo então, é apenas um instrumento, e não uma forma eficiente; pois “quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros [ou instrumentos] pelos quais crestes?” (1 Coríntios 3:5).

3. Em terceiro lugar, os sujeitos da conversão; estes não são todos os homens, porque todos, de fato, não são convertidos; nem parece ser o desígnio e o propósito de Deus converter todos os homens; nem Ele dá suficiente graça para que todos os homens se convertam, se quiserem; pois Ele não faz tanto como dar a todos os homens os meios da graça, o ministério externo da Palavra: esta não foi concedida aos Gentios por centenas de anos antes da vinda de Cristo; e desde então, milhões de pessoas nunca foram favorecidas com ele; nem o são uma multidão no dia de hoje; e quanto àqueles que têm a Escritura para ler, para muitos, é um livro selado, e para todos é assim, a menos que seja aberta pelo Espírito de Deus; e para quem o evangelho é pregado, o mesmo está escondido, a menos que lhes seja dado conhecer os mistérios do reino, que não é o caso de todos; as pessoas convertidas são os “eleitos” de Deus, tanto entre os Judeus quanto entre os Gentios, nos primeiros tempos do Evangelho, muitos entre os Gentios se converteram, e igrejas foram formadas por eles; e desde então tem havido conversões entre eles, e até hoje, e no último dia uma abundância deles serão convertidos; e quando a plenitude dos Gentios for trazida, então, os Judeus, dos quais agora e a seguir apenas alguém é convertido, eles serão todos como uma nação nascida de novo, convertidos e salvos. Aqueles convertidos são os “redimidos”, e a razão pela qual eles são convertidos é porque eles são redimidos: “Eu lhes assobiarei”, pelo ministério da Palavra, “e os ajuntarei”, o que é outro termo para conversão, “porque eu os tenho remido” (Zacarias 10:8), aqueles a quem Deus converte são as mesmas pessoas para as quais Ele forneceu o perdão dos pecados na Aliança da Sua graça, e uma herança eterna no Seu propósito Divino; pois o apóstolo diz que ele foi enviado por Cristo “para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim” (Atos 26:18). Em uma palavra, eles são descritos como “pecadores”; “os pecadores a ti se converterão” (Salmos 51:13). Pecadores por natureza e por prática, e alguns deles os piores e principais dos pecadores; e, portanto, a maravilhosa graça de Deus é mais demonstrada em sua conversão (1 Coríntios 6:11; 1 Timóteo 1:3,14-15).

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♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: A Body of Doctrinal Divinity • Book 6 — Chapter 13 • Of Conversion
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


A Prerrogativa Real – Charles Haddon Spurgeon

Sermão  Nº 1523, Pregado na Manhã do Dia do Senhor, 15 de fevereiro de 1880, por C.H. Spurgeon. No Tabernáculo Metropolitano, Newington.

“O nosso Deus é o Deus da salvação; e a DEUS, o Senhor, pertencem os livramentos da morte. Mas Deus ferirá gravemente a cabeça de seus inimigos e o crânio cabeludo do que anda em suas culpas” (Salmos 68:20-21).

Não o importa o que for dito sobre a dispensação do Antigo Testamento, e embora de forma tênue ela possa ter revelado algumas verdades de Deus, contudo havia uma questão que era clara como o sol, sob a economia do Antigo Testamento, a saber, o Senhor Deus de Israel é sempre muitíssimo notável. Deus está em tudo e sobre tudo, e a partir das páginas dos Profetas, assim como dos lábios dos coros do templo, ouvimos soando alto a nota: “O Senhor reinará eternamente; o teu Deus, ó Sião, de geração em geração. Louvai ao Senhor” (Salmos 146:10). Pelo sacerdote e Profeta, santo e Vidente, o testemunho único é confirmado: “O Senhor reina”. Você não pode ler o Livro de Jó sem tremer na majestosa Presença do Altíssimo. Também não podemos nos voltar para os Salmos sem sermos tomados com solene reverência, à medida que você vê Davi, e Asafe, e Hemã adorando o Senhor que fez o céu, a terra e o mar.

Em todas as passagens, desde Abraão até Malaquias, o homem é tido em pouca consideração e Deus é tudo em todos. Pouquíssima atenção é dada para quaisquer direitos imaginários e reivindicações do homem e o espanto é demonstrado no fato do criador atentar para o homem. Não lemos nenhum discurso sobre a dignidade da natureza humana, ou sobre a beleza do caráter humano, mas Deus, por Si só, é santo e quando Ele olha do céu Ele não vê ninguém que faça o bem, nenhum sequer! O homem é envolvido no pó de onde ele surgiu e ao qual ele retornará. Todo o seu orgulho é extirpado e sua formosura mirrada e, acima de tudo somente Deus é visto e ninguém ao lado dEle.

Será uma grande ofensa se, entrando na luz mais brilhante do Novo Testamento, formos menos vívidos em nossas concepções sobre a glória de Deus. Se Deus for menos claramente visto na Pessoa de nosso Senhor Jesus do que quando Ele estava sob os símbolos da Lei, será culpa de nossos corações cegos. Será prejudicial para nós transformarmos o dia em noite e, como corujas, ver menos porque a luz é aumentada! Que não seja assim entre nós, mas que seja em nossas Igrejas como no antigo Israel, do qual foi dito: “Conhecido é Deus em Judá; grande é o seu nome em Israel” [Salmos 76:1]. “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho” [Hebreus 1:1], e por Ele, como o Verbo Encarnado, Ele se revelou com um esplendo sétuplo, portanto, deve ser o grande deleite de nossa alma perceber Deus em todas as coisas – nos alegrarmos em Sua presença e engrandecê-lO em todas as coisas como Rei dos reis e Senhor dos senhores!

O Salmista, neste caso particular, atribui ao Senhor a ação universal e poder sobre nós, pois ele atribui a Ele as misericórdias da vida e as questões da morte. Ele diz: “Bendito seja o Senhor, que de dia em dia nos carrega de benefícios” [Salmos 68:19]. O Senhor amontoa Seus favores até que seu número se acumula na memória e seu valor sobrecarrega os ombros da gratidão. Ele nos concede tantas misericórdias que a mente é dominada no esforço para calcular o seu valor! Somos sobrecarregados com um senso de Sua bondade e a consciência de que não podemos retornar algum agradecimento adequado para tal abundância de graça diária. Esse é o nosso Deus na vida, Ele será na morte? Ficaremos sem Ele ali?

Não, bendito seja o Seu nome, “a DEUS, o Senhor, pertencem os livramentos da morte” [Salmos 68:20]. Seu reino inclui a terra da sombra da morte e todos os seus termos. Nós não morreremos sem Sua permissão, nem sem a Sua presença! Embora misericórdias temporais encontrarão o seu fim quando a vida terminar, ainda existem misericórdias eternas que ao longo da vida eterna devem manifestar a bondade do Altíssimo. E enquanto isso, por salvamentos, recuperações e fugas, seremos preservados de descer ao túmulo prematuramente. Se qualquer um de vocês, queridos amigos, foram trazidos para perto das portas da morte; se foram derrubados pela doença cansativa; se o seu coração se afundou dentro de você em uma espécie de morte mental, você irá, ao voltar à saúde e à força, mais cordialmente bendizer ao Senhor, que encontra para nós um caminho de voltarmos das proximidades do sepulcro! Ele não só é o Deus da vida, mas o Deus na morte. Ele nos mantém em vida e torna a vida feliz. Ele nos impede da morte e das agências ferozes que esperam arrastar-nos para o túmulo. Há questões fora da sombria terra limítrofe da doença, perigo e desespero, e o Senhor nos conduz pela Sua própria mão direita, para conduzir-nos ao livramento. Será que Ele não diz: Eu os farei voltar de Basã, farei voltar o meu povo das profundezas do mar”? [Salmos 68:22]. Devemos e vamos louvá-lO por isso com um novo cântico! Eu reúno a partir de nosso texto que a morte está na mão de Deus; que os livramentos da morte são manifestações de Seu poder Divino e que Ele é digno de ser louvado por eles.

O esboço do discurso desta manhã, como indicado pelo texto, é apenas isso: em primeiro lugar, a prerrogativa soberana de Deus: “a DEUS, o Senhor, pertencem os livramentos da morte”. Em segundo lugar, o Caráter do Soberano a quem essa prerrogativa pertence: “O nosso Deus é o Deus da salvação”. E, em seguida, em terceiro lugar, a solene advertência que este grande Soberano dá em referência ao exercício de Sua prerrogativa. Severas são as palavras! Que o Espírito Santo nos conduza a sentir o Seu poder: “Mas Deus ferirá gravemente a cabeça de seus inimigos e o crânio cabeludo do que anda em suas culpas”.

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I. Primeiro, então, com profunda reverência, falaremos sobre A SOBERANA PRERROGATIVA DE DEUS – “a DEUS, o Senhor, pertencem os livramentos da morte”. Reis estiveram acostumados a deter o poder da vida e da morte em suas próprias mãos. O grande Rei dos reis, o Governante Soberano e Senhor absoluto de todos os mundos reserva isso mesmo a Si, Ele permitirá que os homens morram ou lhes dará livramento da morte segundo aprouver à Sua própria boa vontade e prazer. Ele pode igualmente criar e destruir. Ele envia o Seu Espírito e eles são criados e em Seu próprio prazer Ele diz: “Voltai, ó filhos dos homens”, e eis que eles caem diante dEle como as folhas caídas no outono!

A prerrogativa da vida ou morte pertence a Deus em uma ampla gama de sentidos. Primeiro de tudo, quanto à vida natural somos todos dependentes de Sua boa vontade. Nós não morreremos até o tempo que Ele indica, pois o tempo de nossa morte, como todo o nosso tempo, está em Suas mãos. Nossas orlas podem roçar nos portais do sepulcro e ainda atravessarmos o portão de ferro ilesos se o Senhor for o nosso Protetor. Os lobos da doença nos caçam em vão até que Deus lhes permite-lhes vencer-nos.

Os inimigos mais desesperados podem nos atacar de surpresa, mas nenhuma bala deve encontrar o seu destino em qualquer coração sem que o Senhor o permita. Nossa vida nem sequer depende do cuidado dos anjos, nem a nossa morte pode ser causada pela malícia dos demônios. Somos imortais até que nosso trabalho esteja concluído! Somos imortais até que o Rei imortal chame-nos de voltar à terra onde seremos imortais em um sentido ainda mais elevado.

Quando estamos muito doentes e mais prontos para desfalecer na sepultura, não precisamos nos desesperar por causa da recuperação, uma vez que as questões da morte estão nas mãos do Todo-Poderoso. “O Senhor é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz tornar a subir dela” [1 Samuel 2:6]. Quando o nosso estado estiver além da habilidade do médico, não passamos além do socorro do nosso Deus, a Quem pertence os livramentos da morte. Espiritualmente, também, essa prerrogativa está em Deus. Estamos, por natureza, sob a condenação da lei por causa dos nossos pecados, e nós somos como criminosos julgados, condenados, sentenciados e enviados para a morte. Pertence a Deus, como o grande Juiz, ver a sentença executada, ou emitir um perdão gratuito, de acordo com o que Lhe agrada! E Ele nos fará saber que é do Seu supremo prazer que este assunto depende.

Sobre a cabeça de um universo de pecadores, eu ouço esta frase retumbante, “Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” [Romanos 9:15]. Presos nos laços da morte, como os homens estão devido os seus pecados, pertence a Deus perdoar quem Ele quer, ninguém tem qualquer pretensão de Seu favor e este deve ser exercido mediante mera prerrogativa, porque Ele é o Senhor Deus, misericordioso e clemente e Ele tem prazer em perdoar a transgressão e o pecado. Assim, também, o Senhor liberta Seu próprio povo crente da “morte, muitas vezes”, que faz parte da experiência deles. Embora, em Cristo Jesus, nós sejamos libertos da morte como penalidade, entretanto muitas vezes sentimos uma morte interior causada pela velha natureza, que exerce uma influência mortal dentro de nós. Sentimos a sentença de morte em nós mesmos que não podemos confiar em nós mesmos, mas em Jesus, em quem a nossa vida está escondida.

Pode ser que por algum tempo as nossas alegrias estejam amortecidas, o nosso vigor espiritual desvaneça, e dificilmente possamos saber se temos alguma vida espiritual remanescente dentro de nós. Tornamo-nos como as árvores de inverno cuja substância existe em si, mas a seiva deixa de fluir e não há nem fruta nem folha para acusar a vida interior secreta. Nós quase não sentimos uma emoção espiritual nestes tempos tristes e não nos atrevemos a nos descrever entre os vivos em Sião! Nesses momentos, o Senhor pode nos devolver a plenitude da vida! Só Ele pode restaurar nossa alma da cova da corrupção e levar-nos não somente para a vida, mas para tê-la mais abundantemente. Os livramentos da morte estão com o Espírito vivificador e quando nossas almas apegam-se ao pó, Ele pode nos revivificar novamente, até que exultemos com alegria indizível!

Como o clímax de tudo, quando realmente viermos a morrer e quando esses nossos corpos descerão ao túmulo sem piedade, como provavelmente eles irão, nas mãos de nosso Senhor Redentor estão os livramentos da morte! O arcanjo está agora mesmo esperando o sinal, uma rajada de sua trombeta será suficiente para reunir os eleitos de todas as terras, do leste ao oeste, do sul ao norte! Então, a morte, em si, deve desaparecer, e os justos se levantarão –

“Dos leitos de pó e barro silencioso,
Para os reinos do dia eterno.”

“Eu sou a ressurreição e a vida” [João 11:25], diz Cristo, e Ele é ambos para todo o Seu povo. Não é Ele a Vida, pois Ele diz: “quem crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá”? Não é Ele a Ressurreição, pois Ele diz: “quem crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá”? Aquele resplandecente dia brilhante em que os santos hão de subir com o seu Senhor mostrará como a Deus, o Senhor, pertencem os livramentos da morte!

A nossa tradução é muito feliz, porque ela traz tantas representações e inclui não apenas o livramento da morte, a libertação da condenação, renascimento da morte espiritual e o levantar-se da mortal depressão mental, mas o resgate de estragos diretos da morte pelo nosso ser ressuscitado novamente do túmulo! Em todos estes aspectos, o Senhor Jesus tem a chave da morte, Ele abre e ninguém fecha, Ele fecha e ninguém abre. Quanto a esta prerrogativa, podemos dizer, primeiro, que a Deus pertence o direito de exercê-la. Este direito advém, em primeiro lugar, dEle ser o nosso Criador. Ele diz: “todas as almas são Minhas” [Ezequiel 18:4]. Ele tem um direito absoluto de fazer conosco o que Lhe agrada, vendo que Ele nos fez e não nós a si próprios. Os homens se esquecem do que eles são e vangloriam-se de grandes coisas, mas, na verdade, eles são apenas como o barro na roda do oleiro e Ele pode formá-los ou pode quebrá-los como Lhe aprouver. Eles não pensam assim, mas Ele sabe que seus pensamentos são vãos.

Oh, a dignidade do homem! Que tema para um discurso sarcástico! Como o sapo da fábula se inchou até que explodiu, o mesmo acontece com o homem, em seu orgulho e despeito contra o seu Criador, que está assentado sobre o círculo da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos” [Isaías 40:22], e as nações são consideradas por Ele como a gota de um balde, e como o pó miúdo das balanças [v. 15]. A prerrogativa do Senhor sobre a Criação é manifestamente ampliada moralmente pela nossa perda de qualquer consideração que possa ter surgido por obediência e retidão se os tivéssemos possuído. Nossa culpa envolveu a perda de reivindicações na qualidade de criatura, qualquer que elas pudessem ter sido. Somos todos culpados de alta traição, e cada um de nós é culpado de rebelião pessoal; portanto, não temos os direitos dos cidadãos, mas jazemos sob sentença de condenação.

O que diz a voz infalível de Deus? “Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las” (Gálatas 3:10). Estamos debaixo dessa maldição; a Justiça nos sentenciou como culpados, e, por natureza, nós permanecemos condenados. Se, então, o Senhor terá o prazer de nos livrar da morte, isto permanece com Ele para fazê-lo; mas não temos direito a tal libertação, nem podemos usar qualquer argumento que seria proveitoso nos tribunais de justiça para a reversão da pena ou suspensão da execução. Antes, no tribunal de justiça no que diz respeito ao nosso caso será difícil fazer qualquer alegação de direito. Seremos expulsos com o desdém do juiz imparcial, se nós apelarmos o nosso processo sobre essa base. Nosso procedimento mais sábio é apelar para a Sua misericórdia e Sua Graça Soberana, pois somente isto é a nossa esperança.

Compreenda-me claramente: Se o Senhor fizer com que todos nós pereçamos, nós apenas receberemos o que merecemos, e nós não temos, nenhum de nós, sequer uma sombra de reivindicação de Sua misericórdia; nós estamos, portanto, absolutamente nas mãos de Deus, e a Ele pertencem as questões da morte. Este direito de Deus para salvar é ainda manifestado pela redenção de Seu povo. Poderia ter sido dito que Deus não tinha direito de salvar, se ao salvar, Ele diminuísse a Sua justiça. Mas agora que Ele colocou o socorro sobre Alguém que é poderoso e Seu Filho unigênito tornou-se uma vítima em nosso lugar – para magnificar a Lei e torná-la gloriosa – o Senhor Deus tem um direito inquestionável de libertar da morte os Seus próprios redimidos por quem o Substituto morreu! Nosso Deus salva o Seu povo, em coerência com a justiça, ninguém pode questionar Seu agir corretamente, mesmo quando Ele justifica o ímpio. Seu direito e poder sobre os livramentos de morte são, no caso de Seus próprios entes comprados por sangue, claros como o sol ao meio-dia e quem discutirá com Ele?

Nosso texto, no entanto, coloca a prerrogativa sobre o único fundamento de senhorio e nós preferimos voltar a isso. “A DEUS, o Senhor, pertencem os livramentos da morte”. Esta é uma doutrina que é muito desagradável nestes dias, mas, no entanto, deve ser sustentada e ensinada: que Deus é um soberano absoluto e age como quer. As palavras de Paulo não podem ser silenciadas: “Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?” [Romanos 9:20]. O Senhor não pode agir errado. Sua natureza perfeita é a lei em si! No caso dele Rex é Lex – o Rei é a Lei! Ele é o Manancial e Fonte de todos os direitos, verdade, regra e ordem. Sendo absolutamente perfeito em Si mesmo e compreendendo todas as coisas, não é possível para Ele fazer o contrário do que é correto. Ele é a Bondade, Verdade e Justiça em Si e, portanto, as prerrogativas do Seu trono não são limitadas e ao Senhor do céu e da terra pertencem os livramentos da morte!

Falamos o suficiente sobre essa questão de direito. Eu prossigo para observar que o Senhor tem o poder dessa prerrogativa. Com Ele está a capacidade de libertar os homens da morte natural. Jeová Rafá é um Médico que nunca fica perplexo. Medicamentos podem falhar, mas não o grande Criador de todas as plantas, ervas e medicamentos úteis! Estudo e experiência podem não ser inovadores, mas Aquele que formou o corpo humano conhece suas partes mais complexas e em breve pode corrigir seus distúrbios! Deus pode restaurar nossa saúde mesmo quando uma centena de doenças nos acometem ao mesmo tempo. Coragem, vocês desfalecidos e olhem para cima! Certamente, quanto à alma, não há nenhum caso de homem tão distante que Deus não possa encontrar um livramento de sua morte. Ele pode expulsar sete demônios e uma legião de pecados diabólicos! Pois a Deus, o Senhor, pertence os livramentos da morte, embora sujo de pecado e desesperadora seja a condição causada pela transgressão. Aquele que ressuscitou Lázaro dentre os mortos depois de quatro dias pode levantar o mais corrupto da sepultura de suas iniquidades. Oh, que pecadores despertados cressem nisso!

Lembro de ter lido sobre um antigo ministro que tinha, há alguns anos, caído em desânimo profundo. Ele desistiu de seu púlpito e manteve-se por muito tempo isolado, sempre escrevendo coisas amargas contra si mesmo. Por fim, quando ele estava em seu leito de enfermidade, um servo de Deus foi enviado a ele, que lidou sabiamente com ele. Este bom homem disse ao desesperançado: “Irmão, você crê nesta passagem: ‘Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus’?”, “Eu creio nisso”, ele disse, “com todo o meu coração, estou convencido”, aqui o outro o deteve: “Eu não perguntei quais são as suas convicções, nem o que seus sentimentos podem ser, mas eu vim para te dizer que o homem que confia nessa promessa vive”. Esta declaração simples do Evangelho foi feita, pelo Consolador Divino, o meio de suprema consolação para o desesperançado!

Que ela possa ser igualmente útil a todos aqueles que a ouvem. Aquele que pode pendurar a esperança de sua alma sobre a capacidade infinita de Cristo para salvar, é um homem salvo! Aquele que crê nEle tem a vida eterna! Que bênção é essa! O Diabo pode me dizer que eu nunca escaparei da morte merecida e que eu estou preso para sempre por causa dos justos resultados das minhas transgressões. Minha própria consciência, conhecendo minha indignidade também pode me condenar milhares de vezes! Mas a Deus, o Senhor, pertencem os escapes da morte e Ele pode e me arrebatará do meio das garras da morte, pois acredito nEle! Ele é capaz de trazer aqueles que Ele ordena, para poupar até mesmo da extrema profundeza do desespero!

O direito absoluto de Deus é apoiado pela onipotência e, portanto, Sua prerrogativa torna-se um fato. E isso não é tudo, o Senhor tem efetivamente exercido essa prerrogativa em abundantes casos. Quanto a esses livramentos de morte, que são vistos na restauração da doença, não preciso lembrar que estes são abundantes o suficiente. Às vezes, estes têm vindo de forma milagrosa, como quando Ezequias teve sua vida prolongada em resposta à oração, e quando muitos outros foram curados pelo Salvador e Seus Apóstolos. A vida tem sido preservada na cova dos leões e na barriga de um peixe; em uma fornalha ardente e no coração do mar. A morte não tem flecha na Sua aljava que possa ferir o homem a quem Deus ordena viver! Fora do perigo iminente, o Senhor ainda liberta em meio ao curso normal da Providência e há pessoas presentes, nesta manhã, que são provas de Seu poder de interposição. Ele levantou alguns de nós a partir de prostração do corpo e da depressão de espírito. Ele salvou outros de naufrágio e incêndio de forma muito singular e aqui estamos nós, vivendo para louvar a Deus, como fazemos neste dia!

Deus tem exercido essa prerrogativa espiritualmente. Em que miríade de casos Ele libertou almas da morte! Pergunte acolá, aos anfitriões vestidos de branco no céu: “Deus não demonstrou a vocês o Seu poder soberano para salvar?”. Pergunte a muitos aqui abaixo que provaram que Ele é misericordioso e eles te dirão: “Ele me salvou”. De acordo com a Sua misericórdia, concedeu um perdão gratuito, assinado por Sua mão real, dizendo: “Livre-o de descer à cova, pois eu encontrei um Resgate”. Por que Sua soberania foi interposta para nos resgatar da morte não sabemos explicar. Nós muitas vezes perguntamos: “Por que eu fui levado a ouvir Sua voz? Como eu fui escolhido para viver?”. Contudo, permanecemos em silêncio, com grata admiração, e não inventamos nenhuma resposta! A vontade Divina, apoiada pelo poder Divino, operou o propósito soberano de amor e aqui estamos, salvos de uma morte tão grande por meio do amor invencível. Sim, de fato, a Deus, o Senhor, pertencem os livramentos da morte!

Venham, então, irmãos e irmãs, que Ele tenha toda a glória por isso! Se vocês estão vivos depois de uma longa doença, bendizei o Senhor, que perdoa todas as nossas iniquidades, quem sara todas as nossas enfermidades! Se vocês estão salvos da condenação nesta manhã e o sabem, bendizei o Senhor que nos aceita no Amado! Se vocês sentem, neste momento, que a morte do pecado não tem domínio sobre vós, pois a vida da Graça reina interiormente, então bendigam ao Senhor, que vos vivificou e nos fez andar em novidade de vida! Glorificai o Seu Nome neste dia, a Quem, em amor por vossa alma, vos libertou do abismo da corrupção e lançou todos os seus pecados atrás de Suas costas! Mais uma vez, se vocês têm uma gloriosa esperança de uma ressurreição abençoada e sentem que vocês podem sorrir na morte porque Deus sorri para vocês, então bendigam ao Senhor, que vos ressuscitará no último dia! Seu Redentor vive e vivereis, porque Ele vive! Portanto batam palmas com santa alegria! Bendigam ao Nome todo-glorioso dAquele a Quem pertencem os livramentos ou libertações da morte.

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II. Assim, eu expus a prerrogativa. E agora, em segundo lugar, sigam-me com os seus pensamentos enquanto eu mostro O CARÁTER DO SOBERANO em quem essa prerrogativa é investida. Não podemos, em cima desta terra, exibir muito amor a príncipes humanos que afirmam domínio absoluto. O imperialismo não é a nossa posição. Entre as piores maldições que já caíram sobre a humanidade estão os monarcas absolutistas, hoje em dia os homens os repelem como Paulo sacudiu a víbora no fogo. Que o Senhor conceda que vejamos o fim da última das dinastias despóticas e que as nações sejam livres. Não podemos suportar um tirano e ainda se pudéssemos ter déspotas absolutamente perfeitos, humanamente falando, essa não poderia ser a melhor forma de governo.

Certamente, o grande e eterno Deus, que é o Rei dos reis e Senhor dos senhores, é absolutamente perfeito e podemos estar muito contentes em deixar todas as prerrogativas e investir todos os poderes em Suas mãos. Ele nunca pisou os direitos do mais vil, nem esqueceu o mais fraco. Seu pé não esmaga um verme desnecessariamente, nem Ele matou uma mosca com injustiça. Ele nunca fez uma maldade, nem operou uma injustiça. Nós oprimimos os outros, mas o Juiz de todos não oprime a ninguém! O Senhor é santo em todos os Seus caminhos e Sua misericórdia dura para sempre e as prerrogativas mais amplas são apresentados de forma segura em tais mãos.

Nosso texto nos diz ainda mais, isto é, nas mãos de Quem os livramentos da vida e da morte são deixados: “O nosso Deus é o Deus da salvação”. Pecador, a sua salvação pertence a Deus, mas, por isso, não fique desencorajado, pois este Deus, em quem o assunto repousa é o Deus da salvação, ou de “salvações”, pois assim está no Hebraico. O que queremos dizer com isso? A Escritura quer dizer, em primeiro lugar, que a salvação é o mais glorioso de todos os desígnios de Deus. Desde que o mundo foi feito, o trabalho de salvação foi executado por meio de Sua história como um fio de prata. O Senhor fez o mundo e iluminou a lua e as estrelas e estabeleceu o céu, a terra e o mar em ordem, com os Seus olhos sobre a salvação em todo o arranjo. Ele regulou todas as coisas pelo Seu supremo governo, com o mesmo fim.

As grandes rodas de Sua Providência estiveram girando esses 6.000 anos diante dos olhos dos homens e entre eles. E em suas costas uma mão sempre esteve se movendo para realizar cada movimento quanto à questão final, que é a salvação dos que estão na Aliança! Este é o objeto mais querido para o coração de Jeová. Ele ama salvar! Deus estava contente com a criação, mas não como Ele está com a Redenção. Quando Ele fez os céus e a terra, foi uma obra comum para Ele. Ele apenas falou e disse: “É bom”. Mas quando Ele deu Seu Filho para morrer, de modo a redimir o Seu povo, e quando os Seus eleitos iam sendo salvos, Ele não falou com de maneira breve como na criação: Ele cantou! Não está escrito: “calar-se-á por seu amor, regozijar-se-á em ti com cânticos” (Sofonias 3:17 – KJV, tradução literal).

A Redenção é uma questão sobre a qual o Senhor canta! Você é capaz de imaginar o que deve acontecer para Deus cantar? Para o Pai, Filho e Espírito Santo irromperem em um hino de júbilo sobre a obra da salvação? Isso ocorre porque a salvação é muitíssimo querida ao coração de Deus, e na qual toda a Sua natureza está mais intensamente envolvida. O juízo é a sua obra estranha, mas Ele Se deleita na misericórdia! Ele tem demonstrado muitos atributos na realização de outras obras, mas nesta, Ele revelou todo o seu Ser. Ele é visto nesta como mui poderoso para salvar. Nisto, Ele desnudou Seu braço. Para isso, Ele tomou o Seu Filho do Seu seio. Para isso, Ele fez com que Seu Unigênito fosse ferido e levado a sofrer. A salvação é o propósito eterno do mais íntimo do coração de Deus e por meio dela Sua maior glória é revelada! Esse, então, é o Deus a quem pertencem os livramentos da morte, o Deus cujo desígnio grandioso é a salvação! Cantai ao Seu nome e exultai que o Senhor reina, o Senhor é a minha força e o meu cântico, quem também se tornou a minha salvação.

Se você perguntar, mais uma vez, o que isso significa: “O nosso Deus é o Deus da salvação”, lembramos que as obras mais encantadoras que o Senhor tem realizado têm sido obras de salvação. Salvar os nossos primeiros pais no portão do Éden e dar-lhes uma promessa de vitória sobre a serpente foi a alegria de Deus. Abrigar Noé na arca também foi Seu prazer. O afogamento de um mundo culpado era necessário, mas a salvação de Noé foi agradável ao Senhor, nosso Deus. Ele destruiu a terra com a mão esquerda, mas com a mão direita Ele guardou os únicos justos que encontrou. Salvar o Seu povo é sempre a Sua alegria, Ele prossegue nisso avidamente! Montou um querubim e voou, sim, voou sobre as asas do vento, quando Ele veio libertar Seus escolhidos! Que proclamação Ele faz sobre a Sua obra salvadora no Mar Vermelho! Toda a Escritura está cheia de alusões à grande salvação da escravidão no Egito e até no Céu eles cantam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro.

O Velho Testamento parece tocar esta nota, “Cantai ao Senhor, porque gloriosamente triunfou; e lançou no mar o cavalo com o seu cavaleiro” [Êxodo 15:21]. O Senhor se alegrou muito ao fazer um caminho através do deserto e um caminho através das profundezas para o Seu próprio povo, para que pudesse operar a salvação para eles no meio da terra. Depois, no Antigo Testamento, como eles mantêm os registros de salvações! A o registro dos reis que oprimiam o povo, mas quão dedicadamente eles gastam tempo descrevendo a maneira em que Deus redimiu Israel de seus adversários. Que nota de alegria há sobre Golias que foi morto e o filho de Jessé trazendo sua cabeça ensanguentada, e Israel liberto da jactância da Filístia! Eles bem disseram: “O nosso Deus é o Deus da salvação”. Ele tem prazer nos atos da Graça, estes são os Seus deleites. Estas são Suas recreações. Ele sai em Suas vestes reais e coloca a Sua coroa com joias quando Ele se levanta para salvar o Seu povo e, portanto, Seus servos, clamam bem alto: “Bendizei, povos, ao nosso Deus, e fazei ouvir a voz do seu louvor, ao que sustenta com vida a nossa alma, e não consente que sejam abalados os nossos pés” [Salmos 66:8-9].

Este, então, é o Deus em quem está investida toda a soberania sobre os livramentos da morte. Ele tem prazer, não na destruição, mas na salvação dos filhos dos homens! Onde a prerrogativa estaria melhor colocada? “O nosso Deus é o Deus da salvação”, também significa que no tempo presente o Deus que é pregado para nós é o Deus da salvação. Vivemos, neste momento, sob a dispensação da misericórdia. A espada é embainhada, a balança da justiça é afastada. Essa balança não está destruída e aquela espada não está quebrada, nem mesmo está anulada, mas, por um tempo, ela repousa em sua bainha. Hoje, sobre todas as nossas cabeças se estende o cetro de prata do amor eterno. Um coro angelical ouvido pela primeira vez pelos pastores em Belém, persiste, ainda, nas regiões celestes, se você tem ouvidos para ouvi-lo: “Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens” [Lucas 2:14].

O reinado mediatório de Cristo é aquele de múltiplas salvações. “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” [Mateus 11:28] é o anúncio salvífico do Deus que reina! O Deus da era Cristã é o Deus da salvação. Ele é apresentado diante de nós como vindo buscar e salvar o perdido! Ele habita entre nós pelo Seu Espírito permanentemente, não como um Juiz punindo criminosos, mas como um Pai recebendo Seus filhos errantes em Seu seio e alegrando-se com eles, uma vez mortos, mas agora vivos! Deus, em Cristo Jesus, nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, é Aquele que vivifica a quem Ele quer e é ordenado a dar a vida eterna a todos quantos o Pai Lhe deu. Onde mais todo o poder poderia ser colocado com mais segurança? Mais uma vez: “O nosso Deus é o Deus da salvação”, ou seja, para àqueles que pertencem à Sua Aliança, aqueles que podem chamá-lo de “nosso Deus”, Ele é especial e enfaticamente o Deus da salvação. Não há destruição para aqueles que O chamam de “nosso Deus”, pois, “agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” [Romanos 8:1]. Jesus não veio para condenar o mundo, mas para que o mundo, por meio dEle, fosse salvo. “Porque este Deus é o nosso Deus para sempre; ele será”, nosso destruidor? Não, “Ele será nosso guia até à morte” [Salmos 48:14]. Este Deus é o nosso Sol e Escudo e Ele dará graça e glória. Agora, observem bem este fato: nós, que com fé invocamos ao Senhor, “nosso Deus”, nesta manhã vos diremos que fomos salvos inteiramente pela Graça Soberana de Deus e não através de qualquer melhoria natural provinda de nós mesmos, nem através de qualquer coisa que nós tenhamos feito para merecer o Seu favor.

Foi porque Ele olhou para nós com consideração piedosa e bondosa, quando estávamos mortos em pecado que, portanto, vivemos! Quando estávamos deitados em nosso sangue e em nossa imundícia, Ele passou no tempo de amor e nos disse: “Vive”. Se Ele tivesse passado e nos deixado para morrer, Ele teria sido infinitamente justo ao fazê-lo, mas Seu coração o inclinou a fazer de outra maneira. Ele olhou para nós e disse: “Vive”, e nós vivemos e nós bendizemos ao Seu nome, de forma que ainda estamos vivendo e louvando a Sua eterna e infinita misericórdia! Aquele que diz: “eu mato, e eu faço viver” [Deuteronômio 32:39] é Aquele que nos vivificou, embora nós estivéssemos mortos em nossos delitos e pecados! Certamente, Aquele que exerceu Sua prerrogativa, tão gentilmente para conosco, pode ser confiável para exercê-la para com todos os que vêm a Ele de acordo com o Seu convite gracioso! Se houver qualquer homem que diz: “Alegro-me com a eleição de Deus, porque, embora Ele tenha me salvado, deixou os outros a morrer”, eu não desejo ter nenhuma simpatia com o seu espírito.

Minha alegria é de um tipo muito diferente, pois eu argumento que Aquele que salvou um tal indigno como eu sou, não lançará fora ninguém que vem a Ele pela fé! Sua eleição não é estreita, pois abrange um número que ninguém pode contar, sim, todos os que hão de crer em Jesus! Ele espera para ser misericordioso e aquele que vem a Ele, Ele de maneira nenhuma o lançará fora. A festa de casamento precisa de inúmeros convidados e todos os assentos devem ser preenchidos. Desejamos que toda a raça humana pudesse vir e aceitar as disposições do Amor infinito e estamos ansiosos para ir para as ruas e valados e compeli-los a entrar! Nós nos alegramos em saber que, se qualquer homem está excluído de Cristo e da esperança, ele trancou a si mesmo do lado de fora, embora, ao mesmo tempo, sentimos que, se alguém está sendo trazido para o lado de dentro, este alguém não levou a si mesmo para dentro, antes a Graça imerecida operou a sua salvação. A Justiça governa na condenação, mas a Graça reina na salvação!

Na salvação devemos atribuir tudo à Graça, absolutamente e sem reservas. Não deve haver nenhuma gagueira sobre esta Verdade de Deus! Alguns começam a dizer Graça, mas eles não terminam com a palavra, eles a gaguejam terminando em “livre-arbítrio”. Isso nunca funcionará! Isso não está de acordo com o ensinamento da Sagrada Escritura, não está de acordo com os fatos. Se há aqui alguém que pensa que foi salvo como o resultado de sua própria vontade, à parte da poderosa graça de Deus, deixe-o jogar o chapéu para cima e engrandecer a si mesmo para sempre: “Glória à minha boa disposição!”. Mas, quanto a mim, cairei aos pés do trono de Deus e direi: “A graça reina pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo. Tivesse Tu, ó Deus, me deixado em minha própria vontade, eu ainda continuaria a desprezar o Teu amor e a rejeitar a Tua misericórdia”.

Certamente, todo o povo de Deus concorda que este é o fato em seu próprio caso, no entanto, embora isso seja diferente, teoricamente, da declaração geral. Sim, a prerrogativa de vida e morte está em boas mãos, está nas mãos dAquele que é o Deus da nossa salvação e rogo a todos aqui presentes que não são salvos, a serem encorajados a se curvarem diante do Trono do grande Rei e clamarem pela misericórdia dAquele que está sempre pronto para salvar! Vá para casa e tente merecer a salvação e você perderá os seus esforços! Prossiga em adequar a si mesmo por misericórdia e forjar algum bem que possa atrair a atenção de Deus e você enganará a si mesmo e insultará a majestade do Céu!

Mas, venha como você está, totalmente culpado, vazio, sem mérito e caído diante do grande Rei que você tão frequentemente provocou e rogue a Ele, que em Sua infinita misericórdia, apague as suas transgressões, mude a sua natureza e faça de você uma propriedade Sua e veja se Ele te rejeitará! Não está escrito: “Mas contigo está o perdão, para que sejas temido” [Salmos 130:4]? E mais uma vez: “o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” [João 6:37]. Seu Trono é um Trono da Graça! A misericórdia está para sempre posta diante dEle! Ele é o Senhor, Deus misericordioso e compassivo, tardio em irar-se e grande em benignidade! Alguma vez, foi rejeitado algum penitente que demandou perdão aos Seus pés soberanos? Nunca! Nem tal caso ocorre enquanto a terra permanece.

Se você tentar comprar o Seu favor, você será recusado. Se você reivindicá-lo como um direito, você será rejeitado. Mas se você vier e aceitar a salvação da caridade Divina e a receber por meio da Expiação de Cristo Jesus, o Senhor, você encontrará um livramento da morte! Ouça o testemunho de Jeremias e seja encorajado a prostrar-se diante do Senhor: “Invoquei o teu nome, Senhor, desde a mais profunda masmorra. Ouviste a minha voz; não escondas o teu ouvido ao meu suspiro, ao meu clamor. Tu te aproximaste no dia em que te invoquei; disseste: Não temas. Pleiteaste, Senhor, as causas da minha alma, remiste a minha vida” [Lamentações 3:55-58].

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III. Nosso último dever é ouvir A SOLENE ADVERTÊNCIA DE NOSSO SOBERANO SENHOR. Um novo deus tem sido ultimamente criado entre os homens, o deus do Cristianismo moderno, o deus do pensamento moderno, um deus feito de mel ou açúcar. Ele é todo clemência, bondade, mansidão e indiferente quanto à questão do pecado. Justiça não há nele e quanto à punição pelo pecado, ele não a conhece. O Antigo Testamento, como você está, sem dúvida, ciente por meio dos sábios deste mundo, tem uma visão muito severa de Deus e, portanto, a sabedoria moderna coloca-O de lado. Na verdade, metade da Palavra de Deus está desatualizada e tornou-se um desperdício de papel!

Embora o nosso Senhor Jesus não veio “destruir a Lei ou os Profetas”, mas para cumpri-los, contudo os avançados pensadores destes tempos iluminados nos dizem que a ideia de Deus no Antigo Testamento é falsa. Temos que acreditar em um novo deus que não se importa se o que fazemos é certo ou errado! “Por sua disposição todos virão para o mesmo fim. Pode haver alguma distorção por algum tempo por alguns que são bastante incorrigíveis, mas, finalmente tudo se endireitará. Viva como você gosta! Vá e blasfeme e beba. Vá e oprima os povos e faça guerras sangrentas e aja como quiser. Por meio do patriotismo, você estará bem quando tudo acabar!”. Este é aproximadamente o credo moderno que envenena toda a nossa literatura.

Mas deixe-me dizer por Jeová: isso não será como os homens sonham! Jeová, o Juiz de toda a terra, tem que cumprir o direito. O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó é o Deus de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, Ele será chamado o Deus de toda a terra. Ele não mudou nem uma partícula na severa integridade de Sua natureza e Ele, de modo algum, poupará o culpado! Leia, a seguir, o último versículo do nosso texto e creia que é tão verdadeiro hoje como quando foi escrito pela primeira vez e que, se o próprio Jesus estivesse aqui, o Ser Manso e Humilde, Ele poderia dizer isso em tom de terna solenidade, mas Ele o proferiria dizer o mesmo, a saber: “Mas Deus ferirá gravemente a cabeça de seus inimigos e o crânio cabeludo do que anda em suas culpas”. É evidente a partir destas palavras que Deus não é indiferente ao caráter humano. Nosso Deus conhece os Seus inimigos. Ele não os confunde com os amigos, nem os trata como tais. Ele considera a iniquidade como uma transgressão e, portanto, Ele não quebrou os limites da Lei, nem as fronteiras do direito, ainda há ofensas e Deus as percebe e as observa, e os tais que continuam em seus pecados estão provocando a Sua longanimidade e provocando a Sua justiça! Deus não dorme, nem dormita diante do pecado humano, mas convoca a todos os homens em todos os lugares que se arrependam! E é claro, também, que Deus tem o poder para ferir aqueles que se rebelam contra Ele.

Não sonhem confiando que leis naturais resguardarão os ímpios: “Deus ferirá gravemente a cabeça de seus inimigos”. Eles podem erguer aquelas cabeças tão alto quanto quiserem, mas não podem estar fora do alcance das Suas mãos! Ele não apenas ferirá seus calcanhares, ou ferirá as costas com golpes que podem ser curados, mas em suas cabeças Ele fará golpes fatais e abatera até o pó. Ele pode fazê-lo e Ele o fará! Eles podem ser muito fortes e seu couro cabeludo coberto de pelos pode indicar força inabalável, mas eles não podem resistir à Onipotência! Pode não haver nenhum sinal até agora da calvície, que advém da fraqueza ou da escassez de cabelo que é um sinal de velhice, mas vãos são aqueles que se vangloriam do vigor, mesmo em seu apogeu Ele pode fazê-los murchar como a erva do campo!

O orgulho pode gloriar-se de sua beleza – seu crânio cabeludo, como o de Absalão, pode ser sua glória –mas como o Senhor fez o cabelo de Absalão ser o instrumento de sua desgraça, assim Ele possa fazer a vanglória do homem ser a sua ruína. O orgulho vem antes da destruição e um espírito altivo, antes da queda. Ninguém está fora do alcance de Deus, e nenhuma nação também! Os grandes estão altivos sobre os seus lugares elevados e eles falam sobre a “multidão vulgar”, e desprezam os piedosos da terra. Quanto às raças estrangeiras, quão levemente eles O estimam, embora o Deus único fez a todos eles! Populações e nações, o que são? Mera comida para o pó quando uma nação orgulhosa é estabelecida sobre o seu próprio engrandecimento. Derrubam seus reinos, abatem seus defensores patrióticos, avermelham a terra com sangue, queimam suas casas, fazem passar fome as suas mulheres e crianças. Deus não os conhece e não há ali julgamentos do Altíssimo?

Nós somos um grande povo, e temos homens, navios e dinheiro. Quem nos convocaria a prestar contas? No entanto, deixem a, ainda, pequena voz, ser ouvida! Assim diz o Senhor para uma grande nação do passado: “Porque confiaste na tua maldade e disseste: Ninguém me pode ver; a tua sabedoria e o teu conhecimento, isso te fez desviar, e disseste no teu coração: Eu sou, e fora de mim não há outra. Portanto sobre ti virá o mal, sem que saibas a sua origem, e tal destruição cairá sobre ti, sem que a possas evitar; e virá sobre ti de repente desolação que não poderás conhecer” [Isaías 47:10-11]. De tais castigos, bom Senhor, livrai-nos! Quando o Senhor coloca as mãos à obra de vingança, Sua matança será terrível, mesmo até uma derrota total, pois fará cair um uma matança sobre a cabeça!

Se Ele não ferir os Seus inimigos até a hora da morte, que golpe eles receberão a seguir! Eles se gabam de sua justiça própria, ou de sua grandeza, mas, oh, o terror os agarrará, no último momento; enquanto eles sonham com o céu, eles são lançados para dentro da insondável profundidade, onde, ali, receberão a recompensa eterna de sua rebelião audaz contra o seu Rei! Guerreiros da antiguidade, quando iam para a batalha, muitas vezes raspavam todo o cabelo, exceto aqueles cachos que estão na parte de trás do couro cabeludo. No entanto, quando se viravam para fugir frequentemente acontecia que eles eram agarrados por seus perseguidores pela sua cabeleira! Deus não costuma pegar os ímpios pelo topete, pois Ele tem muita paciência e tolerância com eles. Em casos especiais, como quando os homens jovens por meio de hábitos dissipados apressam a sua condenação, ele os toma pela frente, mas como regra, Ele espera para ter misericórdia. E mesmo assim Ele os suporta enquanto eles permanecem impunes, pois por fim, Ele agarra o seu crânio cabeludo. Se por oitenta anos a infinita paciência permitiu que um homem continue em sua rebelião, contudo se ele continua em suas culpas, ao fim, Deus deve enfiar a mão em seu crânio cabeludo e o agarrará para a sua própria destruição!

Convertei-vos, sim, vocês que não conhecem a Deus! Convertam-se diante de Sua repreensão, nesta manhã, pois a repreensão significa amor! E se eu usei palavras duras, é porque o meu coração está honestamente ansioso que vocês se arrependam e escapem para Aquele que tem em Seu poder os livramentos da morte! Eu não sou como os bajuladores acolá que lhe dizem que há um pequeno inferno e um pequeno deus, de onde vocês naturalmente inferem que podem viver como quiserem. Ambos você e eles perecerão eternamente, se acreditarem neles! Há um inferno terrível, pois há um Deus justo!

Convertei-vos a Ele, suplico-vos, enquanto ainda, em Cristo Jesus, Ele coloca a misericórdia diante de vocês! Ele é o Deus da salvação e suplica-lhes para que venham e aceitem a Sua grande graça em Cristo Jesus. Que o Senhor abençoe esta palavra de acordo com Sua própria mente e a Ele seja o louvor, para sempre e sempre. Amém.

 

[Adaptado de A coleção de CH Spurgeon, Versão 1.0, Ages Software, 1.800.297.4307]


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♦ Fonte: Spurgeongems.org | Título Original: The Royal Prerogative
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida e Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


A Bem-Aventurança da Eleição de Deus – Arthur Walkington Pink

Em primeiro lugar, a doutrina da eleição magnifica o caráter de Deus. Ela exemplifica a Sua graça. A Eleição torna conhecido o fato de que a salvação é dom gratuito de Deus, gratuitamente concedido a quem Ele quer. Isso deve ser assim, pois aqueles que a recebem são eles próprios não diferentes e nem melhores do que aqueles que não a recebem. A eleição permite que alguns vão para o inferno, para mostrar que todos mereciam morrer. Mas a graça vem como um arrastão e atrai de uma humanidade arruinada um pequeno rebanho, para ser por toda a eternidade o monumento de soberana misericórdia de Deus. Ela exibe Sua onipotência. A eleição torna conhecido o fato de que Deus é todo-poderoso, governando e reinando sobre a terra, e declara que ninguém pode resistir com êxito à Sua vontade ou frustrar Seus propósitos secretos. A eleição revela Deus quebrando a oposição do coração humano, subjugando a inimizade da mente carnal, e com poder irresistível atraindo os Seus escolhidos para Cristo. A eleição confessa que “nós O amamos porque Ele nos amou primeiro”, e que nós cremos, porque Ele nos fez mui voluntários no dia do Seu poder (Salmos 110:3).

A doutrina da eleição atribui toda a glória a Deus. Ela não permite qualquer crédito para a criatura. Ela nega que o não-regenerado seja capaz de predizer um pensamento reto, gerar uma afeição correta ou originar uma volição certa. Ela insiste que Deus deve operar em nós tanto o querer como o efetuar. Ela declara que o arrependimento e a fé são eles próprios dons de Deus, e não algo que o pecador contribui para o preço da sua salvação. Sua linguagem é: “Não a nós, SENHOR, não a nós”, mas “Àquele que nos amou e nos lavou de nossos pecados em seu próprio sangue”. Esses parágrafos foram escritos por nós há quase um quarto de século, desde então, e até o dia de hoje nós nem os rescindimos nem os modificamos.

“O Senhor faz distinções entre os homens culpados de acordo com a soberania de Sua graça. “Porque eu não tornarei mais a compadecer-me da casa de Israel, mas tudo lhe tirarei. Mas da casa de Judá me compadecerei”. Judá não havia pecado também? Não poderia o Senhor ter desistido de Judá? Na verdade, Ele poderia justamente tê-lo feito, mas Ele se deleita na benignidade. Muitos pecaram, e justamente trouxeram sobre si mesmos o castigo devido pelo pecado: eles não creem em Cristo, e morrem em seus pecados. Mas Deus tem misericórdia, de acordo com a grandeza do Seu coração, de muitos que não podem ser salvos em qualquer outro fundamento, senão desta misericórdia imerecida. Alegando Seu direito real, Ele diz: ‘Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia’. A prerrogativa de misericórdia é exercida pela soberania de Deus, esta prerrogativa que Ele exerce, Ele concede onde Ele quer, e Ele tem o direito de fazê-lo, já que ninguém tem qualquer direito sobre Ele” (C. H. Spurgeon: “A Salvação do Próprio Senhor”, um Sermão em Oséias 1:7).

O que foi exposto acima torna suficientemente claro que não é coisa leve rejeitar esta parte abençoada da verdade eterna; não, é uma questão mui solene e séria fazer isso. A Palavra de Deus não nos é dada para selecionarmos e escolhermos, para destacarmos as partes que apelam para nós, e desprezar tudo o que em si não elogia a nossa razão e sentimentos. Ela nos é dada como um todo, e por ela cada um de nós ainda será julgado. Rejeitar a grande verdade que estamos aqui tratando é o cúmulo da impiedade, repudiar a eleição de Deus é repudiar o Deus da eleição. É uma recusa a se curvar diante de Sua elevada soberania. É o pregador corrupto opondo-se contra o santo Criador. É o orgulho presunçoso que insiste em ser o determinante de seu próprio destino. É o espírito de Lúcifer, que disse: “Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono… Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo” (Isaías 14:13-14).

Em segundo lugar, a bem-aventurança dessa doutrina aparece em que tudo é importante no plano da salvação. Considere isto, primeiro, do lado Divino. A apresentação Escriturística desta grande verdade é indispensável se os atos distintivos do Deus Triuno em matéria de salvação devem ser reconhecidos, honrados e confessados. A salvação não procede de uma só Pessoa Divina, mas igualmente das três Pessoas Eternas. Jeová, então, ordenou as coisas de forma que cada um na Divindade deve ser magnificado e glorificado igualmente. O Pai é tão real e verdadeiramente o Salvador do Cristão como é o Senhor Jesus, e assim também é o Espírito Santo, note como o Pai é expressamente designado “Deus, nosso Salvador” em Tito 3:4, como distinto de “Jesus Cristo, nosso Salvador” no versículo 5. Mas isso é ignorado e perdido de vista, se esta doutrina preciosa for omitida. A Predestinação pertence ao Pai, a propiciação ao Filho, a regeneração ao Espírito. O Pai originou, o Filho efetuou nossa salvação, e pelo Espírito ela é consumada. Repudiar o primeiro é retirar o próprio fundamento.

Considere isso, agora, do lado humano: a eleição está na própria base da esperança de um pecador. Por natureza, todos são filhos da ira. Na prática, todos se desviaram. O mundo inteiro tornou-se culpado diante de Deus, todos estão expostos à ira, e se deixados a si mesmos estariam envolvidos em uma ruína comum. Eles são “barro da mesma massa”, e continuando sob a mão formadora da natureza seriam todos “vasos para desonra” (Romanos 9:21). Que quaisquer que são salvos, é pela graça de Deus (Romanos 11:4-7). Jesus Cristo, o redentor dos pecadores, Ele mesmo é o Eleito, como descrito pelo profeta (Isaías 42:1). E todos os que alguma vez serão salvos, são eleitos nEle, dados a Ele pelo Pai, escolhidos nEle antes da fundação do mundo. Foi para realizar a salvação que Deus entregou o Seu Filho unigênito, e que Jesus Cristo assumiu a nossa natureza e deu Sua vida em resgate.

É para chamar os eleitos que as Escrituras são dadas, que os ministros são enviados, que o evangelho é pregado, e que o Espírito Santo está aqui. É para realizar a eleição que os homens são ensinados por Deus, atraídos pelo Pai, regenerados pelo Espírito Santo, feitos participantes da fé preciosa, dotados com o espírito de adoção, o espírito de oração e o espírito de santidade. É em consequência de sua eleição que os homens são feitos obedientes ao evangelho, são santificados pelo Espírito, e tornam-se santos e irrepreensíveis diante de Deus. Se não houvesse eleição Divina, não haveria salvação Divina. E isso não é uma afirmação meramente arbitrária de nossa parte: “E como antes disse Isaías: Se o Senhor dos Exércitos nos não deixara descendência, Teríamos nos tornado como Sodoma, e teríamos sido feitos como Gomorra” (Romanos 9:29). Pecadores perdidos não podem se salvar. Deus não tinha nenhuma obrigação de salvá-los. Se Ele Se agradou em salvar, Ele salva a quem quer.

A eleição não apenas está no fundamento da esperança de um pecador, mas também acompanha cada passo do progresso do cristão para o céu. Traz-lhe as boas novas de salvação. Ela abre seu coração para receber o Salvador. Ela é vista em cada ato de fé, em cada dever sagrado, e em cada oração eficaz. Ela o chama. Ela o vivifica em Cristo. Ela adorna a sua alma. Ela o coroa com justiça e vida e glória. Ela contém em si a garantia preciosa que “aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo” (Filipenses 1:6). Não havia nada neles que levou Deus a escolhê-los como Seu povo; e Ele então lida com eles, para não permitir que qualquer coisa neles ou a partir deles leve-os a reverter essa escolha. Como Romanos 8:30 então definitivamente indica, a predestinação envolve glorificação e, portanto, garante o suprimento de todas as necessidades dos escolhidos entre os dois.

Em terceiro lugar, a bem-aventurança dessa doutrina aparece em seus elementos essenciais. Destacaremos três ou quatro dos principais dentre estes. Em primeiro lugar, a honra superlativa de ser escolhido por Deus. Em todas as escolhas que a pessoa faz, coloca um valor sobre o escolhido. Pois, ser selecionado por um rei a um ofício, ou ser chamado para algum emprego pelo Estado, isso dignificará um homem. Assim ocorre nos assuntos espirituais. Foi um elogio especial sobre Tito que ele havia sido “escolhido das igrejas” (2 Coríntios 8:19). Mas que o grande Deus, o potentado bendito e único, escolha essas criaturas miseráveis, desprezíveis, inúteis e vis como nós somos, excede todo o entendimento. Pondere em 1 Coríntios 1:26-29, e veja como isso está ali colocado. Como isso deve nos maravilhar. Como isso deve nos humilhar. Observe como essa ênfase honrosa é colocada sobre o Senhor Jesus: “Eis o meu servo, a quem escolhi” (Mateus 12:18); assim sobre Seus membros também: “por causa dos eleitos que escolheu” (Marcos 13:20).

Mais uma vez; a consequente excelência disso. Eles são os eleitos: os que Deus escolheu, e isso não lhes confere, necessariamente, excelência elevada, valiosa, honrosa? Os escolhidos de Deus, devem ser excelentes; é o ato de Deus que os torna assim. Observe a ordem em 1 Pedro 2:6: “pedra angular, eleita e preciosa”, preciosa porque eleita. Pegue o mais eminente dos santos de Deus, e qual é o seu maior título e honra? Este: “Por amor de Davi, meu servo, a quem escolhi” (1 Reis 11:34). “Enviou Moisés, seu servo, e Arão, a quem escolhera” (Salmos 105:26). Paulo “este é para mim um vaso escolhido” (Atos 9:15). “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido” (1 Pedro 2:9), ou seja, eleitos. Essa expressão é retirada de “sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos” (Êxodo 19:5). Isso implica o que é precioso a Deus: “Visto que foste precioso aos meus olhos, também foste honrado, e eu te amei” (Isaías 43:4).

Mais uma vez, observe a plenitude desse alto privilégio. “Bem-aventurado aquele a quem tu escolhes, e fazes chegar a ti, para que habite em teus átrios” (Salmos 65:4); sim, ele é “abençoado para sempre” (Salmos 21:6), ou como o Hebraico o apresenta: “separado para bênçãos”, isto é, separado ou nomeado para nenhuma outra coisa, senão para bênçãos. Como o Novo Testamento expressa, “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; Como também nos elegeu nele” (Efésios 1:3-4). Eleição, então, é a fonte do tesouro de toda bem-aventurança. Os eleitos são escolhidos para uma maior aproximação e união a Deus que é possível para as criaturas, para a maior comunhão com Ele próprio. Considere também o tempo em que Ele nos escolheu. Paulo o data: “o princípio” (2 Tessalonicenses 2:13). Deus nos amou desde que Ele era Deus, e enquanto Ele for Deus, Ele continuará a fazê-lo. Deus é desde a eternidade e Ele continua sendo Deus pela eternidade (Samos 90:2), e Seu amor por nós é muitíssimo antigo: “Com amor eterno te amei” [Jeremias 31:3]. E o Seu amor é como Ele mesmo: sem causa, imutável, infinito.

A bem-aventurança da eleição aparece novamente na comparativa raridade dos eleitos. A escassez de homens desfrutando algum privilégio o magnifica, como no caso da preservação de Noé e sua família: “a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram” (1 Pedro 3:20). Que contraste foi isso, em relação a todo o mundo “dos ímpios”, pois todos pereceram! O mesmo fato e contraste foram enfatizados por Cristo em Lucas 12: “Porque as nações do mundo buscam todas essas coisas” (v. 30), ou seja, as coisas temporais e carnais, e Deus concede as tais para eles. Mas, em oposição a isso, o Senhor diz: “Não temais, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino” (v. 32). Seu propósito era mostrar a mais grandiosa misericórdia de Deus, que tão poucos são reservados aos favores espirituais e eternos, enquanto todos os outros têm apenas coisas materiais e temporais como a sua porção.

Como esse fato solene deve afetar os nossos corações. Volte seus olhos, caro leitor, sobre o mundo de hoje, e olha para ele, o que você contemplará? Você não é compelido a dizer sobre a atual geração, em todas as nações semelhantemente, que Deus deixou-os a caminhar “em seus próprios caminhos?”. Não devemos concluir tristemente sobre os homens e mulheres desta época que “todo o mundo está no maligno” (1 João 5:19)? O número escasso dos que são de Deus, são, na verdade poucos semeados, um pequeno punhado colhido em comparação com toda a grande safra da humanidade. E que não seja esquecido que o que parece agora diante de nossos olhos, é apenas a realização daquilo que foi preordenado na eternidade. Não há um Deus desapontado e derrotado no trono do universo. Ele tem o Seu caminho “na tormenta e na tempestade” (Naum 1:3).

E mais uma vez nós dizemos o quão profundamente esse contraste surpreendente deve afetar nossos corações. “Pois alguns serem escolhidos e salvos, quando uma multidão, sim, a generalidade dos outros devem padecer a perecer, como isso aumenta a misericórdia e a graça da salvação para nós; pois Deus, em Sua providência ordenou muitos meios exteriores para resgatar alguns, os quais Ele nega aos outros, que perecem. Como isso deve afetar as pessoas que são preservadas? Quanto mais quando essa é “uma tão grande salvação” (Thomas Goodwin). Isso aparece a partir do que eram tipos e meras sombras disso nos tempos do Antigo Testamento, como no caso de somente a única e pequena família de Noé sendo poupada do dilúvio universal. Assim, também, pelo exemplo de Ló, retirado de Sodoma pela mão dos anjos. E por quê? “Sendo-lhe o Senhor misericordioso”, diz Gênesis 19:16. Observe que profundo senso e valorização que Ló teve sobre o mesmo: “Eis que agora o teu servo tem achado graça aos teus olhos, e engrandeceste a tua misericórdia que a mim me fizeste, para guardar a minha alma em vida” (Gênesis 19:19).

Porém, há mais isso a ser considerado: a nossa libertação de uma condição de semelhante miséria e ira, como a que pertence ao não-eleito, que não está mencionada nos casos acima. Noé era “homem justo e perfeito em suas gerações” (Gênesis 6:9), e Ló era “justo” e “enfadado da vida dissoluta dos homens abomináveis” (2 Pedro 2:7-8). Eles não eram culpados daqueles pecados terríveis pelos quais Deus enviou aos seus semelhantes a inundações e incêndios. Mas quando nós somos ordenados para a salvação, estamos diante de Deus em uma condição de semelhante corrupção e culpa como toda a humanidade. Foi apenas o decreto soberano de um Deus soberano que determinou o nosso ser trazido para fora de um estado de pecado e ira, para um estado de graça e justiça. Quão estupenda, então, foi a misericórdia de Deus para conosco, em fazer esta diferença (1 Coríntios 4:7) entre aqueles em que não havia “nenhuma diferença” (Romanos 3:22)! Oh, que amor, que obediência de todo o coração, que louvor é devido a Ele.

Em quarto lugar, a bem-aventurança dessa doutrina aparece em que uma verdadeira apreensão da mesma é um grande promotor da santidade. De acordo com o propósito Divino, os eleitos são destinados a uma santa vocação (2 Timóteo 1:9). Na realização desse propósito, eles são real e efetivamente trazidos à santidade. Deus os separa de um mundo ímpio. Ele escreve no coração deles a Sua Lei e afixa neles o Seu selo. Eles são feitos participantes da natureza Divina, sendo renovados à imagem dAquele que os criou. Eles são uma habitação de Deus, seus corpos se tornam o templo do Espírito Santo, e eles são conduzidos por Ele. Uma mudança gloriosa é, portanto, neles operada, transformando seu caráter e conduta. Eles lavam as suas vestiduras e as branqueiam no sangue do Cordeiro. Para eles, as coisas velhas já passaram e tudo se fez novo. Esquecendo-se das coisas que atrás ficam, eles prosseguem para as coisas que estão diante. Eles são reis e sacerdotes para Deus e, ainda serão adornados com coroas de glória.

Há aqueles que, em sua ignorância, dizem que a doutrina da eleição é uma doutrina licenciosa, que a crença nela é avaliada algo que leva a produzir descuido e uma sensação de segurança no pecado. Essa acusação é uma reflexão blasfema sobre o seu autor Divino. Esta verdade, como nós mostramos longamente, ocupa um lugar de destaque na Palavra de Deus, e esta Palavra é santa, e toda ela útil para a instrução na justiça (2 Timóteo 3:16). Todos e cada um dos apóstolos criam e ensinavam essa doutrina, e eles foram os promotores de piedade e não incentivadores da vida relaxada. É verdade que esta doutrina, como todas as outras Escrituras, pode ser pervertida por homens ímpios e colocada em mau uso, mas até agora, enquanto militando contra a verdade, isso apenas serve para demonstrar a temível extensão da depravação humana. Nós também admitimos que homens não-regenerados podem intelectualmente defender essa doutrina e, em então, fundarem-se em uma inércia fatal. Mas nós enfaticamente negamos que uma recepção dela, de coração, produzirá qualquer efeito tal como este.

Que fé, obediência, santidade são as consequências inseparáveis e frutos da eleição é inequivocamente claro a partir das Escrituras (Atos 13:48; Efésios 1:4; 1 Tessalonicenses 1:4-7, Tito 1:1), e tem sido totalmente estabelecido por nós nos capítulos anteriores. Como pode ser de outra forma? A eleição sempre envolve regeneração e santificação, e quando uma alma regenerada e santificada descobre que ela deve a sua renovação espiritual unicamente à soberana predestinação de Deus, como ela pode ser, senão verdadeiramente agradecida e profundamente grata? E de que outra maneira ela pode expressar sua gratidão, do que em um santo caminhar de obediência frutífera? Uma apreensão do amor eterno de Deus por ela necessariamente despertará nela um amor sensível a Deus, e onde quer que este exista, haverá um esforço sincero para agradá-lO em todas as coisas. O fato é que um sentido espiritual da distintiva graça de Deus é o mais poderoso motivo de constrangimento para a piedade genuína.

Se entrássemos em detalhes sobre os principais elementos da santidade neste capítulo, isso seria prorrogado por tempo indeterminado. Uma devida atenção ao fato de que não havia nada em nós que moveu Deus para fixar Seu coração sobre nós, e que Ele nos previu como criaturas arruinadas e merecedores do inferno, humilhará as nossas almas como nada mais o fará. A compreensão espiritual que todos os nossos interesses estão inteiramente à disposição de Deus, operará em nós uma submissão à Sua vontade soberana como nada mais pode. A percepção crente que Deus colocou Seu coração sobre nós desde a eternidade, nos escolhendo para ser Seu tesouro peculiar, operará em nós um desprezo pelo mundo. O conhecimento de que outros Cristãos são os eleitos e amados de Deus evocará amor e bondade por eles. A garantia de que o propósito eterno de Deus é imutável e assegura o suprimento de todas as nossas necessidades comunicará consolo sólido em cada tribulação.

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♦ Este texto  é capítulo 10 do livro The Doctrine of Election, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: The Doctrine of Election
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão e Capa por William Teixeira


Como toda a Doutrina da Predestinação é Corrompida pelos Arminianos – John Owen

A causa de todas essas contendas, com as quais os Arminianos e seus cúmplices têm incomodado a igreja de Cristo, vem a seguir à nossa consideração. A predestinação eterna do Deus Todo-Poderoso, esta fonte de todas as bênçãos espirituais, de todos os efeitos do amor de Deus derivados a nós por meio de Cristo, a demolição desta rocha da nossa salvação tem sido o principal esforço de todos os patronos da autossuficiência humana; assim, de forma a reivindicarem para si mesmos um poder e habilidade independente de fazerem o bem, de fazerem-se diferentes dos outros, de alcançarem a felicidade eterna, sem andar um passo sem ser a partir deles mesmos. E esta é a sua primeira tentativa, para atingir o seu segundo propósito final, a construção de uma torre alta a partir da qual eles se empilhem até o céu, cuja fundação nada é, senão a areia de seu livre-arbítrio e esforços próprios. Quase de repente (o que eles fizeram de fato) removeram a predestinação Divina, nome e substância, tem sido uma tentativa observada como notória, e não susceptível de atingir o menor sucesso entre os homens que professam crer no evangelho de Cristo; portanto, padecendo que o nome permanecesse, eles aboliram a coisa em si, e substituíram um outro muito diferente disso no seu lugar, que qualquer um pode ver que eles ficaram com uma Lia de olhos tenros em vez de Raquel, e abraçam uma nuvem em vez da Deidade. A verdadeira doutrina em si tem sido tão excelentemente anunciada por diversos teólogos eruditos, assim libertos de todas as acusações, de forma que eu somente, de forma breve e claramente, o demonstrarei, e isso com especial referência ao artigo XVII da nossa igreja, onde isso é claramente declarado; mostrando, além disso – que é a minha intenção principal – como isso é contrariado, oposto, e subvertido pelos Arminianos. A Predestinação, no sentido usual [em que] é tomada, é uma parte da providência de Deus em relação às Suas criaturas, distinguida disso por uma restrição dupla –

Primeiro, em relação aos seus objetos; pois, enquanto o decreto da providência compreende Suas intenções para com todas as obras das Suas mãos, a predestinação atenta apenas para as criaturas racionais.

Em segundo lugar, a respeito de suas finalidades; pois, enquanto a Sua providência se dirige a todas as criaturas, em geral, para aqueles variados fins para os quais longamente eles são trazidos, sejam eles proporcionais à sua natureza ou excedendo a esfera de sua atividade natural, a predestinação é exercida apenas em dirigir criaturas racionais para fins sobrenaturais: o que, em linhas gerais, é o conselho, decreto ou propósito do Deus Todo-Poderoso sobre o fim último e sobrenatural de Suas criaturas racionais, para que seja cumprido para o louvor da Sua glória. Mas isso também deve receber uma restrição dupla antes de chegarmos precisamente ao que nós almejamos aqui: e esta novamente se refere aos objetos ou suas finalidades.

O objeto da predestinação são todas as criaturas racionais. Agora, estes são ou anjos ou homens. Dos anjos não tratarei. Em segundo lugar, a finalidade fornecida pela predestinação para eles ou é a felicidade eterna ou a miséria eterna. Falo apenas sobre a primeira, – o ato da predestinação de Deus transmitindo aos homens a felicidade eterna e, neste sentido restrito, isso não difere em absoluto da eleição, e podemos usá-los como sinônimos, [como] termos de mesma importância; embora, por alguns afirmarem que Deus predestinou à fé àqueles que Ele escolheu, eles parecem ser distinguidos como os decretos da finalidade e os meios conducentes para isso, dos quais o primeiro é a eleição, intencionando a finalidade, e a seguir, ocorre a predestinação, proporcionando os meios. Mas esta distinção exata não aparece diretamente na Escritura.

Esta eleição é apresentada na Palavra de Deus como o gracioso decreto imutável do Deus Todo-Poderoso, pelo que, antes da fundação do mundo, a partir de Seu próprio prazer, Ele escolheu certos homens, determinando libertá-los do pecado e da miséria, conferir-lhes a graça e a fé, dar-lhes a Cristo, trazê-los à bem-aventurança eterna, para o louvor da Sua gloriosa graça; ou, como isso é expresso em nossos artigos da igreja: “A predestinação para a vida é o eterno propósito de Deus, pelo qual (antes de lançados os fundamentos do mundo) tem constantemente decretado por seu conselho, a nós oculto, livrar da maldição e condenação os que elegeu em Cristo dentre o gênero humano, e conduzi-los por Cristo à salvação eterna, como vasos feitos para a honra. Por isso os que se acham dotados de um tão excelente benefício de Deus, são chamados segundo o propósito de Deus...” e etc. [Os Trinta e Nove Artigos da Religião, Artigo XVII: Predestinação e Eleição. Fonte:  Monergismo.com – N. R.]

Agora, para evitar prolixidade, anexarei apenas essas observações como as que possam esclarecer o sentido e confirmar a veracidade do artigo pelas Escrituras, e mostrar brevemente como isso é subvertido pelos Arminianos em todos os detalhes do mesmo:

Em primeiro lugar, o artigo, em conformidade com as Escrituras, afirma que este é um decreto eterno, feito antes da fundação do mundo; de modo que por ele, nós necessariamente fomos escolhidos antes de nascermos, antes de termos feito o bem ou o mal. As palavras do artigo são claras, e assim também é a Escritura: “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo” (Efésios 1:4); “porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal” e etc. [Romanos 9:11-12]; “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” [2 Timóteo 1:9]. Agora, a partir disso, sem dúvida, segue-se que nada de bom em nós pode ser a causa da nossa eleição, pois qualquer causa deve, em ordem, preceder o seu efeito; mas todas as coisas de que nós por qualquer meio somos participantes, na medida em que são nossas, são temporárias, e por isso não podem ser a causa do que é eterno. Coisas com esta qualificação devem relacionarem-se apenas à vontade e prazer de Deus; cuja referência quebraria o pescoço da eleição Arminiana. Portanto, para evitar uma ruína tão fatal, eles negam o princípio – a saber, que a eleição é eterna [1].

Assim falam os Remonstrantes em sua Apologia [2]: “A eleição completa não se refere a ninguém, senão àquele que está morrendo; pois esta eleição peremptória decreta todo o cumprimento e consumação da salvação, e, portanto, requer no objeto o curso acabado de fé e obediência”, diz Grevinchovius; o que é fazer a eleição de Deus nada, senão um ato de sua justiça, aprovação de nossa obediência, e tal ato como é incidente a qualquer homem fraco, que não sabe o que acontecerá na próxima hora que ainda está por vir. E é essa pós-destinação que nos é proposta na Escritura como fonte insondável do amor de Deus para com todos nós em Cristo? “Sim”, [3], dizem eles, “nós não reconhecemos nenhuma outra predestinação que é revelada no evangelho além daquela pela qual Deus decreta salvar aqueles que devem perseverar na fé”, ou seja, a determinação de Deus sobre a sua salvação está pendente, até que Ele encontre pela experiência que eles perseverarão em obediência. Mas, pergunto-me por que – vendo que a eleição é reconhecidamente uma das maiores expressões da infinita bondade, amor e misericórdia de Deus por nós –, se ela segue a nossa obediência, nós não a temos, como todas as outras bênçãos e misericórdias prometidas a nós. Não é porque tais proposições como estas: “Creia, Pedro, e persevere na fé até o fim, e eu vou escolher-te antes da fundação do mundo”, são mais aptas para os escritos dos Arminianos do que para a Palavra de Deus? Nem seremos seus rivais em tal eleição, a partir de onde nenhum fruto [4], nenhum efeito e nenhum consolo podem ser derivados a qualquer mortal, enquanto ele vive neste mundo.

Em segundo lugar, o artigo afirma que ela é constante, ou seja, um decreto imutável; também em conformidade com as Escrituras, ensinando sobre um propósito único, contudo algo pré-conhecido, uma boa vontade, um decreto de Deus, a respeito da ordenação infalível dos Seus eleitos à glória; apesar de este decreto poder ser considerado como dois atos – um relativo ao meio, o outro relacionado à finalidade, mas ambos unem-se na “imutabilidade do conselho de Deus” (Hebreus 6:17). “Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus” [2 Timóteo 2:19]; “Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” [Romanos 11:29].

Agora, o que dizem os nossos Arminianos sobre isso? Ora, eles têm inventado toda uma multidão de noções e termos para obscurecer a doutrina. “Eleição”, dizem eles [5], “é legal ou evangélica, geral ou particular, completa ou incompleta, revogável ou irrevogável, peremptória ou não peremptória”, com não sei mais quantas distinções de um único ato eterno do Deus Todo-Poderoso, a respeito das quais não há nem “vola nec vestigium,” sinal ou vestígio, em toda a Bíblia, ou qualquer autor aprovado. E a estas trêmulas divisões, eles acomodam a sua doutrina, ou melhor, eles propositadamente as inventam para fazer seus erros ininteligíveis. Ainda assim, agradavelmente eles assim dizem: [6] “Há uma eleição completa que não pertencente a ninguém, senão àqueles que estão morrendo; e há outra, incompleta, comum a todos os que creem: como as boas coisas da salvação estão incompletas, as quais continuam enquanto a fé é continuada, e [são] revogadas quando essa [fé] é negada, assim, a eleição é incompleta nesta vida, e revogável”.

Mais uma vez eles dizem em sua confissão [7]: “Há três ordens de crentes e arrependidos na Escritura, os quais alguns são neófitos, outros permaneceram por um tempo, e alguns perseveraram. As duas primeiras classes são escolhidos verè, verdadeiramente, porém não absolutè prorsus, absolutamente, mas apenas por um tempo, desde que eles permaneçam como estão; a terceira [classe] são [dos] escolhidos final e peremptoriamente: pois este ato de Deus ou é continuado ou interrompido, à medida que nós cumprimos a condição”. Mas de onde os Arminianos aprenderam esta doutrina? Nenhuma palavra desta afirmação foi extraída a partir da Palavra da Verdade; nem nenhuma menção de qualquer eleição inconstante, nem nenhum discurso sobre fé, senão como a consequência de um eterno decreto irrevogável da predestinação: “creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48). Sem distinção de homens meio ou inteiramente eleitos, onde é afirmado que é impossível que o eleito seja enganado (Mateus 24:24); que ninguém arrebataria as ovelhas de Cristo das mãos de Seu pai (João 10:28-29). O que eles querem mais? O propósito da eleição de Deus está selado (2 Timóteo 2:19), e, portanto, não pode ser revogado; deve permanecer firme (Romanos 9:11), apesar de toda a oposição. Nem a razão nos permite pensar qualquer ato imanente de Deus como incompleto ou revogável, por causa da mera Aliança que Ele tem com Sua própria natureza. Entretanto a razão, a Bíblia e o próprio Deus devem ceder lugar tais absurdos, se eles estiverem no caminho dos Arminianos quando estes estiverem trazendo o seu ídolo com brados e preparando seu trono, pela alegação de que a causa de sua predestinação está neles mesmos.

Em terceiro lugar, o artigo evidencia que o objeto desta predestinação é alguns homens particulares, escolhidos dentre a humanidade; ou seja, este é um ato de Deus concernente a alguns homens em particular, tomando-os, por assim dizer, dentre o meio de seus irmãos, e projetando-os a alguma finalidade e propósito especial. A Escritura também transborda em afirmar esta verdade, chamando os que são assim escolhidos de “poucos”, (Mateus 20:16), o que deve denotar algumas determinadas pessoas; e o “remanescente segundo a eleição”, (Romanos 9:5); aqueles a quem “o Senhor sabe que são Seus” (2 Timóteo 2:19); homens “ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48); “Nós” (Romanos 8:39); aqueles que estão “inscritos no livro da vida do Cordeiro” (Apocalipse 21:27). Todas estas passagens, e diversas outras, provam claramente que o número dos eleitos é certo, não só materialmente, como eles dizem [8], que eles são tantos, mas formalmente também, de forma que essas pessoas particulares, e nenhum outro, são aquelas, que não podem ser alteradas. Não, a mesma natureza da própria coisa em si demonstrativamente assim o evidencia, que eu me pergunto se isso pode, eventualmente, ser concebido sob qualquer outra noção. Apreender sobre uma eleição de homens não circunscritos com a circunstância de pessoas determinadas é uma abstração pretensiosa e Platônica, como parece estranho que alguém se atreva professar entender que deve haver uma predestinação, e nenhum predestinado; uma eleição, e nenhum eleito; uma escolha entre muitos, mas ninguém a ser deixado ou tomado; um decreto para salvar os homens, e ainda assim a salvação não ser destinada a homem nenhum, mas seja somente “re aut spe”, em realidade ou em expectativa. Em uma palavra, que deve haver um propósito de Deus para trazer os homens para a glória, permanecendo inviolável, embora nunca qualquer pessoa atinja o fim proposto, é como um enigma como o que nenhum Édipo pode desvendar.

Agora, tal eleição e tal predestinação, os Arminianos têm substituído no lugar do decreto eterno de Deus. “Nós negamos”, [9] dizem eles, “que a eleição de Deus se estende a quaisquer pessoas singulares como pessoas particulares”, ou seja, que quaisquer pessoas particulares, como Pedro, Paulo, João, são por isso eleitos. Não; como, então? Porque, [10] “Deus designou, sem diferença, dispensar o meio da fé; e como Ele vê essas pessoas crerem ou não crerem no uso desses meios, assim, longamente, Ele determina sobre eles”, como diz Corvinus. Pois bem, então, [segundo os Arminianos], Deus não escolhe nenhum homem em particular para a salvação, senão a quem Ele vê crendo por seu próprio poder, com a ajuda apenas dos meios, como os que são oferecidos aos outros que nunca creem; e como ele assim faz a si mesmo diferente dos outros pelo bom uso de suas próprias habilidades, assim também ele pode ser reduzido novamente à mesma situação, e depois de sua eleição, que diz respeito não à sua pessoa, mas apenas à sua qualificação, muito desvanecente. Mas este é o decreto da eleição de Deus? “Sim”, eles dizem; e apresentam uma triste queixa que qualquer outra doutrina seja ensinada na igreja. [11] “É intrusivo”, dizem os verdadeiros filhos nascidos de Armínio “para a igreja como uma doutrina mui sagrada, que Deus, por intermédio de um decreto imutável absoluto, desde toda a eternidade, segundo o Seu próprio prazer, escolheu certas pessoas, e aqueles poucos em comparação, sem nenhum respeito tido a partir de sua fé e obediência, e os predestinou para a vida eterna”. Mas a que tão grande exceção esta doutrina é responsável​​, que impiedade ela inclui, que ela não deva ser considerada santíssima? Não, não é apenas a questão, mas os próprios termos dela contidos na Escritura? Porventura ela não diz que os eleitos são poucos, e que eles [são] escolhidos antes da fundação do mundo, sem qualquer consideração à sua obediência ou qualquer coisa que eles tenham feito, mas por mera graciosa boa vontade de Deus, para que o Seu livre propósito, segundo a eleição, permaneça firme, mesmo porque assim aprouve a Ele; e isto para que eles fossem santos, isto é, cressem e fossem santificados, de modo que eles vêm a Cristo, e por Ele são preservados para a vida eterna? Sim, isto é o que lhes irrita: [12] “Nenhuma tal vontade pode ser atribuída a Deus, pela qual Ele assim deseja que qualquer um seja salvo como que a partir disso a sua salvação seja segura e infalível”, diz o pai desses filhos.

Bem, então, que a definição de Agostinho seja completamente rejeitada [13]: “Que a predestinação é uma preparação de tais benefícios em que alguns são certamente libertados e resgatados a partir do pecado e trazidos para a glória”, e que seja rejeitada também a declaração de São Paulo: “Porque (por este motivo) nada nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” [Romanos 8:38-39]. O que é esta eleição em seu julgamento? [14] “Nada senão um decreto pelo qual Deus destinou salvar os que creem em Cristo”, diz Corvinus, “sejam eles quem forem; ou um propósito geral de Deus, no qual Ele ordenou a fé em Cristo para ser o meio de salvação. Sim, mas isso pertence a Judas, bem como a Pedro. Este decreto diz respeito igualmente àqueles que são condenados como aos que são salvos”. Se a Salvação, sob a condição de fé em Cristo, também foi proposta a eles; mas foram eleitos Judas e toda a sua companhia? Como vieram, então, a ser enganados e a perecer? Que qualquer um dos eleitos de Deus vá para o inferno é ainda uma afirmação estranha no Cristianismo. Não obstante este decreto, ninguém pode acreditar, ou todos os que o fazem podem cair, e por isso mesmo ninguém é salvo de modo algum. Este é um tipo estranho de predestinação: ou todos podem crer, perseverar na fé e serem salvos; o que é um tipo mais estranho de eleição.

Nós, pobres almas, pensávamos até então que poderíamos ter crido, de acordo as Escrituras, que alguns por esse propósito foram de uma maneira peculiar feitos do Pai (“eram teus”), e por Ele dados a Cristo, para que Ele pudesse levá-los à glória; e que estes homens eram de tão certo e imutável número, que não apenas Deus “os conhece” como sendo “Seus”, mas também que Cristo “chama-os pelo nome”, (João 10:3), e atente: de forma que ninguém os arrebata de Sua mão. Nós nunca imaginamos antes que Cristo foi o Mediador de uma aliança incerta, pelo fato de certas pessoas não estarem na aliança, ou por haver tais pessoas que podem ou não cumprir a condição. Nós sempre pensamos que alguns tinham sido separados antes pelo propósito de Deus dentre o restante do mundo que perece, que Cristo pode dar a vida por Seus “amigos”, por Suas “ovelhas”, para os que foram “dados a Ele” por Seu Pai.

Mas agora nos dizem que Ele foi ordenado para ser um Rei, quando era totalmente incerto se Ele alguma vez teria quaisquer súditos; para ser uma Cabeça sem corpo, ou de uma tal igreja cujo conjunto e continuidade dependem total e exclusivamente da vontade dos homens. Estas são doutrinas que eu acredito que os examinadores da Escritura dificilmente já conheceram, se não houvessem tido tal iluminação em tais expositores como aqueles que os ensinam [15]: “Que a única razão pela qual Deus ama” (ou escolhe) “qualquer pessoa é, por causa da honestidade, fé e piedade com que, de acordo com a ordem de Deus e seu próprio dever, ele é dotado, aceitável a Deus”. Nós admitimos que isso seja verdade quanto a consequência ou evidência do amor de Deus, mas certamente há um amor Divino com o qual Ele olha para nós de outra forma quando Ele nos dá a Cristo, de outro modo, o dom de Cristo não é por amor, ou nós somos piedosos, justos e fiéis antes de vir a Ele, ou seja, não temos necessidade dEle de modo algum. Embora possamos apagar esses testemunhos de nossos corações, ainda assim eles estarão registrados na Sagrada Escritura, a saber, que Deus assim nos amou, quando éramos seus “inimigos” (Romanos 5:10), “pecadores” (verso 8), “estando nós ainda fracos” (verso 6); de modo que “deu o seu Filho unigênito” para morrer “para que não pereçamos, mas tenhamos a vida eterna” (João 3:16). Isto é o bastante.

Em quarto lugar, outra coisa que o artigo afirma, de acordo com as Escrituras, é que não há nenhuma outra causa de nossa eleição, senão o próprio conselho de Deus. Ele não se volta a nenhum motivo em nós, nada impulsiona a vontade de Deus para escolher alguns dentre a humanidade, rejeitando outros, senão o Seu próprio decreto, ou seja, a Sua absoluta e boa vontade; assim, não existe absolutamente nada, em qualquer coisa fora dEle mesmo, por que Ele criaria o mundo ou elegeria alguém, porque Ele fez todas estas coisas para Si mesmo, para o louvor da Sua glória. Portanto, não há motivo nas pessoas particulares eleitas pelo que Deus as escolheria, em vez de outros.

Ele olhou para toda a humanidade na mesma condição, investida com as mesmas qualificações, ou melhor, sem absolutamente nenhuma qualificação; porque, não tendo os filhos ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal, que são escolhidos ou rejeitados [Romanos 9], a Sua livre graça abraça um e passa pelo outro. No entanto, aqui, devemos observar que, embora Deus livremente, sem nenhum merecimento deles, escolhe alguns homens para participar tanto do fim quanto dos meios, ainda assim Ele concede a fé, ou os meios, por nenhum outro senão por pelo mérito de Cristo; nem alguém alcança a finalidade ou a salvação, senão por sua própria fé, por meio daquela justiça dEle. A livre graça de Deus, não obstante, escolhendo Jacó, quando Esaú é rejeitado, é a única causa antecedente de qualquer diferença entre os eleitos e réprobos, permanece firme e inabalável; e, certamente, a menos que os homens estivessem resolvidos a não receber nada que não seja de maneira gratuita das mãos de Deus, eles irão roubar sua glória, ao ter misericórdia de quem quer ter misericórdia, de nos amar, sem nossa deserção antes do início do mundo, se alegássemos ter um interesse legítimo em obter os atos temporais de Seu favor por nossos próprios esforços, mas, oh, vamos conceder-Lhe a glória por ser benigno para conosco, apenas pela Sua própria bondade, quando estávamos em Sua mão como a argila na mão do oleiro.

O que tornou esse pedaço de argila apto para o serviço honroso, e não um vaso em que não há prazer, senão o poder e a vontade do Autor? É o suficiente, sim, muito, para que eles resmunguem e digam: “Por que Tu nos fizeste assim?”, os que são vasos formados para a ira. Não permita que aqueles preparados para honra se exaltem contra ele, e sacrifiquem às próprias redes deles, como os únicos fornecedores de sua glória. Mas assim é: a vileza humana ainda estará declarando e reivindicando uma dignidade que de maneira nenhuma é devida a ela, concernente a um auxílio de que alegam merecer; se os Arminianos não são culpados, permita que a seguinte declaração de suas opiniões particulares sobre este assunto determine:

“Confessamos”, dizem eles [16], “inequivocamente, que a fé, na consideração de Deus nos escolher para a salvação, de fato precede, e não segue como fruto da eleição”. Assim que, enquanto Cristãos, até agora, creram que Deus concede fé àqueles que são escolhidos, parece que agora isso é anulado, pois dizem que somente àqueles que Deus encontra crendo, por suas próprias habilidades, é que Ele depois escolheria. Nem é a fé, na opinião deles, algo que necessariamente ocorrerá naquele que foi escolhido, mas um agente que impulsiona a vontade de Deus a eleger aquele que o obtém [17]: “como a vontade do juiz é movida para outorgar uma recompensa àquele que de acordo com a lei o mereceu”, como Grevinchovius fala: – embora, Corvinus se esforça para temperar, mas tudo em vão, embora ele o distorça contrariamente à intenção do autor – e com ele concordam todos os seus companheiros [18]: “A única causa absoluta da eleição é, não a vontade de Deus, mas a consideração de nossa obediência”, diz Episcopius. A princípio, eles não exigem nada além de fé, e esta como condição, e não como uma causa [19]; em seguida, a perseverança na fé, que extensamente, eles começaram a chamar de obediência, abrangendo todo o nosso dever para com os preceitos de Cristo; pois a causa, dizem eles, deste amor por qualquer pessoa, é a justiça, fé e piedade com que ele é dotado; as quais sendo todas as boas obras de um Cristão eles, de fato, afirmam que um homem é escolhido por elas, ou seja, que as nossas boas obras são a causa da eleição. Se isto algum vez foi tão grosseiramente ensinado, seja por Pelagianos ou Papistas, eu tenho algumas dúvidas.

E aqui, observe, que isso não frustra a minha afirmação anterior, onde eu mostrei que eles negam a eleição de quaisquer pessoas particulares, o que aqui eles parecem conceder sobre uma previsão de sua fé e boas obras; pois não há uma única pessoa, que como uma pessoa, não obstante tudo isso, no julgamento deles é eleito nesta vida, mas somente enquanto ele é considerado com essas qualificações as quais ele pode qualquer momento deixar de cultivá-las, e assim tornar-se mais uma vez a não ser mais eleito do que Judas.

A soma de doutrina deles, neste aspecto particular é refutada por um dos nossos em um folheto intitulado “O amor de Deus pela humanidade”, etc. Esta suma doutrinária deles é um livro cheio de ignorância palpável, sofisma grosseiro e blasfêmia abominável, cujo autor parece ter proposto nada para si, senão ajuntar todos os monturos de alguns dos Arminianos mais ofensivos, e recolher a escória mais suja e contaminação de suas injúrias para lançarem sobre a verdade de Deus; e, sob eu não sei que pretextos auto-cunhados, bradam blasfêmias odiosas contra o Seu santo nome.

A soma, diz ele, de todos esses discursos (ele citou o seu propósito) é, [20] “Que não existe decreto de salvar homens, senão o que é edificado sobre a presciência das boas ações dos homens de Deus”. Não há nenhum decreto? Não, não aquele pelo que Deus determina dar alguém a Cristo, para enxertar-lhes nEle pela fé, e trazê-los por meio dEle para a glória; o que lança luz à posição de Armínio, onde ele afirma [21]: “Que Deus não ama ninguém precisamente para a vida eterna, senão os considerados justos, tanto com a justiça legal ou evangélica”. Agora, amar para a vida eterna é destinar alguém para obter a vida eterna, por Cristo, e assim, isso é coincidente com o afirmação anterior, de que a nossa eleição, ou escolha para a graça e glória, está sobre a previsão de nossas boas obras; o que contém uma doutrina tão contraditória com as palavras e o significado do apóstolo (Romanos 9:11) condenado em tantos conselhos, suprimido por tantos editos e decretos dos imperadores e governadores, contrariado como uma heresia pestilenta, desde que foi idealizada à princípio, por tantos pais ortodoxos e eruditos escolásticos, tão diretamente contrária à doutrina da igreja, de modo prejudicial para a graça e o poder supremo do Deus Todo-Poderoso, que eu muito me maravilho de que alguém, tendo esta luz do evangelho e vivendo neste próspero tempo de farto conhecimento, seria tão corajosamente ignorante ou impudente de forma trazer esta doutrina para o meio dos Cristãos. Provar que isso é uma heresia desmascarada por toda a antiguidade ortodoxa e católica seria acender uma vela no sol; pois isso não pode apenas ser conhecido por todos e cada um que já ouviu ou leu alguma coisa sobre a instituição da igreja de Cristo, após o surgimento dos tumultos Pelagianos [22].

Acumular testemunhos dos antigos é completamente paralelo ao meu propósito. Apenas acrescentarei a confissão de Belarmino [23] um homem não tão apegado à verdade: “Predestinação”, ele diz, “a partir da previsão de obras, não pode ser mantida a menos que supuséssemos algo no homem justo, que deve torná-lo diferente do ímpio, que ele não tenha recebido de Deus; o que verdadeiramente todos pais com unânime consentimento rejeitam”. Mas temos um testemunho mais seguro, para o qual nos voltaremos com atenção, a própria Escritura sagrada, declarando fortemente a livre e imerecida graça de Deus.

Em primeiro lugar, nosso Cristo Salvador (Mateus 11:26), declarando como Deus revela o evangelho a alguns, o qual é escondido de outros (um fruto especial da eleição), e que isso repousa em Seu querer e boa vontade como a única causa do mesmo: “Sim, ó Pai, porque assim te aprouve”. Assim, confortando Seu “pequeno rebanho” (Lucas 12:32), Ele os convida a não temer “porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino”. “Sua boa vontade é a única razão pela que o Seu reino está preparado para vocês em vez de para outros”. Mas não há nenhuma outra razão para esta discriminação? Não; ele faz tudo para que o Seu “propósito… segundo a eleição, ficasse firme” (Romanos 9:11); pois nós somos “predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11).

“Mas, este conselho de Deus não O leva a nos escolher, em vez de a outros porque nós tínhamos algo para nos recomendar mais do que eles?”. Não, “o Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; mas, porque o Senhor vos amava” (Deuteronômio 7:7-8). “Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), Foi-lhe dito a ela: O maior servirá ao menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú” (Romanos 9:11-13). Em resumo, sempre que há qualquer menção à eleição ou predestinação, isso é acompanhado com o propósito, amor ou a vontade de Deus; Sua presciência, pelo que Ele conhece os que são Seus; Seu livre poder e supremo domínio sobre todas as coisas. Sobre a nossa fé, obediência ou algo semelhante, não há nenhuma sílaba, nenhuma menção, a não ser como fruto e efeito disso.

A eleição e predestinação são unicamente atos de Sua livre graça e boa vontade: “Para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia” (Romanos 9:23). Para esta única finalidade Ele “nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” (2 Timóteo 1:9). Até mesmo nossa chamada acontece de forma gratuita e imerecida, porque flui daquela mui livre graça da eleição, da qual somos participantes antes que fôssemos [ou seja, existíssemos]. Seria desnecessário amontoar mais testemunhos quanto a algo tão claro e evidente. Quando Deus e o homem permanecem em competição de quem deve ser considerado como a causa de um bem eterno, podemos ter certeza que a Escritura dará o veredito favorável ao Altíssimo. E a sentença, neste caso, pode ser derivada a partir daí por estas razões que se seguem:

Primeiramente, se a perseverança final em fé e obediência for a causa de, ou uma condição exigida quanto à, eleição, então ninguém pode ser dito nesta vida ser eleito; pois nenhum homem pode ser declarado como tendo perseverado até o fim até que ele esteja morto, até que tenha terminado o seu curso e tenha consumado a fé. Mas certo é que se fala de alguns nas Escrituras, os quais são eleitos mesmo nesta vida: “poucos escolhidos” (Mateus 20:16); “mas por causa dos escolhidos serão abreviados aqueles dias” (Mateus 24:22); “se possível fora, enganariam até os escolhidos” (Mateus 24:24), onde é evidente que a eleição é necessária para fazer alguém perseverar na fé, mas em nenhum lugar a perseverança na fé é requerida à eleição; sim, e Pedro dá a todos nós um mandamento para que possamos dar toda diligência para obter uma garantia de nossa “eleição”, mesmo nesta vida (2 Pedro 1:10: e, por isso, certamente a eleição não pode ser um decreto pressupondo a fé consumada e obediência.

Em segundo lugar, considere duas coisas sobre a nossa condição, antes do primeiro ato temporal da livre graça de Deus (pois a graça já não é graça, se não for livre), que é o primeiro efeito de nossa predestinação, compreendida a nós: Em primeiro lugar, “Somos nós mais excelentes que outros?”, “De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado” (Romanos 3:9). “Porque não há diferença. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”, (vv. 22-23); estando todos “mortos em delitos e pecados” (Efésios 2:1); sendo “por natureza filhos da ira, como os outros também”, (v. 3); “separados”, “mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto” (vv. 12-13); éramos “inimigos” de Deus (Romanos 5:10; Tito 3:3). E observe que deserto havia em nós como é demonstrado por estas qualificações, quando se deu a nossa vocação, o primeiro efeito de nossa predestinação – como São Paulo demonstra em Romanos 8:30, e como eu provarei a seguir –, separa-nos do mundo dos descrentes. E tanto há em relação à predestinação em si, de modo que, se a temos merecido de alguma forma é por sermos pecadores, inimigos, filhos da ira e mortos em delitos. Estes são os nossos méritos, esta é a nossa glória, da qual deveríamos ter vergonha.

Mas, em segundo lugar, quando eles estão no mesmo estado de verdadeira alienação de Deus, ainda assim, em seguida, em relação ao Seu propósito de salvá-los por meio de Cristo, alguns são descritos como pertencentes a Ele: “eram teus, e tu mos deste” (João 17:6). Eles eram Seus [do Pai] antes que eles viessem a Cristo pela fé; eles eram as ovelhas de Cristo, antes de serem chamados, pois Ele “chama pelo nome às suas ovelhas” (João 10:3); antes de virem para o rebanho ou congregação, pois: “Ainda tenho outras ovelhas”, Ele diz, “que não são deste aprisco; também me convém agregar estas” (João 10:16), tais pessoas são amadas de Deus, antes que elas O amem: “Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós” (1 João 4:10). Agora, tudo isso deve ser com referência ao propósito de Deus de trazê-los a Cristo, e por meio dEle à glória; o que vemos ocorrer antes de qualquer fé ou obediência de sua parte.

Em terceiro lugar, a eleição é um ato eterno da vontade de Deus: “nos elegeu nele antes da fundação do mundo” (Efésios 1:4); consumada antecedentemente a todos os nossos deveres (Romanos 9:11). Ora, naturalmente, toda causa deve preceder o seu efeito; nada possui qualquer ação como causa antes que ela tenha uma existência. A operação em todo o caso é um ato secundário, que flui da essência de uma coisa que é primária. Mas todas as nossas graças e obras, nossa fé, obediência, piedade e caridade, são todos temporais, os mesmos permanecendo conosco, e não mais; e, portanto, não podem ser a causa, nem ser uma condição necessária para a realização de um ato eterno de Deus, irrevogavelmente estabelecido antes de nós existirmos.

Em quarto lugar, se a predestinação for por fé prevista, estas três coisas, com diversos tais absurdos, necessariamente seguirão: Em primeiro lugar, que a eleição não é “por aquele que chama”, como o apóstolo fala em Romanos 9:11, ou seja, a partir do beneplácito de Deus, que nos chama com uma santa vocação, mas por aquele que é chamado; pois, se depender da fé prevista, deve ser daquele a quem pertence a fé, ou seja, de quem crê. Em segundo lugar, Deus não pode ter misericórdia de quem quer ter misericórdia, pois a própria finalidade da mesma está assim vinculada às qualidades da fé e obediência, de modo que Ele deve ter misericórdia somente dos crentes antecedentemente ao Seu decreto. O que, em terceiro lugar, impede-O de ser um agente livre e absoluto, e fazer o que Ele quer com o que é Seu, também o impede de ter um tal poder sobre nós como o oleiro tem sobre o barro; pois Ele nos encontra sendo de matérias diferentes, um homem é de argila, o outro homem é de ouro e etc., quando Ele vem a nos designar para diferentes usos e fins.

Em quinto lugar, Deus não vê em qualquer homem nenhuma fé, nenhuma obediência, nem perseverança, enfim nada, senão o pecado e a maldade, e o que Ele mesmo intenciona graciosa e livremente conferir-lhes; pois “a fé não vem de vós, é dom de Deus (Efésios 2:8); “a obra de Deus é esta: Que creiais” (João 6:29). Ele “nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Efésios 1:3). Agora, todos esses dons e graças Deus concede apenas àqueles que Ele preordenou para a vida eterna, porque: “os eleitos o alcançaram, e os outros foram endurecidos” (Romanos 11:7); “acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar” (Atos 2:47). Portanto, certamente, Deus nos escolhe não porque Ele prevê essas coisas em nós, visto que, ao invés disso a verdade é que Ele concede aquelas graças por Ele ter nos escolhido. “Portanto” [24], diz Agostinho, “Cristo diz: ‘Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós’ [João 15:16], mas justamente porque eles não O escolheram é que Ele deveria escolhê-los; contudo Ele os escolheu para que eles pudessem escolhê-lO”. Nós escolhemos a Cristo pela fé; Deus nos escolhe por Seu decreto da eleição. A questão é, se nós O escolhemos porque Ele nos elegeu, ou se Ele nos escolhe porque nós O escolhemos, e se for assim, fomos nós que escolhemos a nós mesmos? Nós afirmamos o primeiro, porquanto o fato de termos escolhido a Deus é um dom que Ele mesmo concede apenas sobre aqueles que Ele anteriormente escolheu.

Em sexto lugar, e principalmente, os efeitos da eleição, infalivelmente pelo fato de eles a seguirem não podem ao mesmo tempo ser as causas da eleição, pois neste causo certamente eles a precederiam. Isto é evidente, pois nada pode ser a causa e o efeito da mesma coisa e ao mesmo tempo, antes e depois de si mesmo. Mas, toda a nossa fé, obediência, arrependimento e boas obras, são os efeitos da eleição, que fluem a partir dela como sua fonte adequada, erguidas sobre ela como a base deste edifício espiritual. E quanto a isso o artigo de nossa igreja é evidente e claro. “Aqueles”, ele diz, “que se acham dotados de um tão excelente benefício de Deus, são chamados segundo o propósito de Deus, por seu Espírito operando em tempo devido; pela graça obedecem à vocação; são justificados gratuitamente; são feitos filhos de Deus por adoção; são criados conforme à imagem de Seu Unigênito Filho Jesus Cristo; vivem religiosamente em boas obras”, etc. Onde, em primeiro lugar, eles são ditos ser participantes deste benefício da eleição, e, em seguida, pela virtude dela, têm direito à fruição de todas as graças. Em segundo lugar, ele diz, “Aqueles que se acham dotados de um tão excelente benefício de Deus”, significando que a eleição é a regra segundo a qual Deus procede ao conceder essas graças, restringindo os objetos dos atos temporais do favor especial de Deus apenas àqueles a quem o Seu decreto eterno envolve. Estes ambos, de fato, são negados pelos Arminianos; que fazem uma descoberta mais distante de suas heterodoxias neste aspecto particular [25]. “Você diz”, diz Armínio a Perkins, “que a eleição é a regra para conceder ou não conceder a fé; e, portanto, a eleição não é sobre a crença, mas sobre a fé dos eleitos, mas por você admitir isso, eu devo negar”. Mas ainda assim, seja o que for que o sofista herético aqui nega, seja o antecedente ou a conclusão, ele acaba se desentendendo com a palavra de Deus: “Creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48) e outra vez: “acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar” (Atos 2:47). A partir de ambas colocações, é evidente que Deus concede a fé apenas àqueles a quem Ele preordenou para a vida eterna; porém, mais claramente afirma Romanos 8: 29-30: “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou”. Agostinho interpretou esta passagem, adicionando em cada elo da cadeia a seguinte afirmação: “Somente aqueles”. No entanto, as palavras diretamente implicam a precedência da predestinação antes da concessão de outras graças, e também um sistema de restrição daquelas graças apenas àqueles que são assim predestinados. Agora, a inferência a partir disso não é apenas quanto à forma lógica, mas também quanto à matéria; ela contém as próprias palavras da Escritura: “A fé dos eleitos de Deus” (Tito 1:1).

Para a outra parte da proposição, a saber, que a fé e a obediência são os frutos de nossa eleição, eles não podem ser mais peremptórios em sua negação do que a Escritura é abundante em sua confirmação: “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Efésios 1:4); não porque éramos santos, mas para que fôssemos santos. A santidade, do qual a fé é a raiz e a obediência é o corpo, é aquilo para o quê, e não porque, somos eleitos. O fim e a causa meritória de qualquer ato não pode ser o próprio ato; eles têm diversos aspectos, e exigem condições repugnantes. Mais uma vez; “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo”, (Efésios 1:5). Adoção é aquilo pelo que nós somos admitidos na família de Deus, quando anteriormente éramos “estrangeiros, separados, estranhos, distantes”; o que vemos é um fruto da nossa predestinação, ainda que seja a própria entrada no estado em que começamos pela primeira vez a agradar a Deus, minimamente. Da mesma natureza são todas aquelas passagens das Escrituras Sagradas que falam sobre Deus dando alguns a Cristo; sobre as ovelhas de Cristo ouvirem a Sua voz, e outros não ouvirem porque eles não são Suas ovelhas; todas essas, e diversas outras razões invencíveis, eu intencionalmente omito, com diversas outras afirmações falsas e posições heréticas dos Arminianos sobre este artigo fundamental de nossa religião, concluindo este capítulo com o seguinte esquema:

Escrituras Sagradas

Livre Arbítrio

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou”. De forma que nada “nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 8:28,29, 39) “Nenhuma tal vontade pode ser atribuída a Deus, pela qual Ele assim quisesse que alguém seja salvo, isso de modo que sua salvação seja segura e infalível” (Arminius, Jacobus)
“Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos” (Efésios 1:4). “Eu não reconheço em nenhum sentido, nenhuma percepção de qualquer eleição nesta vida” (Grevinckhoven, Nikolaas: Ad Ames).
“Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” (2 Timóteo 1:9). “Negamos que a eleição de Deus para a salvação se extende a pessoas singulares” (Collatio Hagiensis).
 “Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama)” (Romanos 9:11); Todo o que o Pai me dá virá a mim” (João 6:37). “Como nós somos justificados pela fé, assim nós não somos eleitos, senão pela fé” (Grevinckhoven, Nikolaas: Ad Ames.).
 “Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mateus 22:14). “Nós professamos inequivocamente que a fé é considerada por Deus como uma condição precedente à eleição, e não que a segue como um fruto” (Collatio Hagiensis).
 “Não temais, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino” (Lucas 12:32). “A causa única e exclusiva da eleição não é a vontade de Deus, mas a consideração de nossa obediência” (Episcopius, Simon: Disputationes Theologicæ); “Deus resolveu conceder os meios de salvação a todos sem diferença; e de acordo como Ele prevê que os homens usarão esses meios, assim Ele determina sobre eles” (Corvinus, Johannes Arnoldus); “Por causa desse amor a qualquer pessoa é, [que] a bondade, fé e piedade, com o qual, de acordo com a ordem de Deus e seu próprio dever, ele é dotado, ele está agradando a Deus” (Apologia pro Confessione Remonstrantium).
“E que tens tu que não tenhas recebido?” (1 Coríntios 4:7); “Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma” (Romanos 3:9). Mas “nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Efésios 1:5); João 6:37-39, 23:18, 17:6; Atos 13:48; Tito 1:1; 2 Timóteo 2:19; Tiago 1:17-18, etc. A soma de sua doutrina é: Deus designou a obediência da fé a ser o meio de salvação. Se os homens cumprem esta condição, Ele determina salvá-los, e nisto consiste a sua eleição; mas se, depois de terem entrado no caminho da santidade, eles caem, eles também perdem a sua predestinação. Se eles voltarem de novo, eles são escolhidos novamente; e se eles conseguem perseverar até o fim, então, e por essa continuidade, eles estão peremptoriamente eleitos, ou pós-destinados, depois de serem salvos.Agora, se essas posições podem ser reunidas partir dessas passagens das Escrituras que anunciam essa doutrina, que qualquer homem julgue por si mesmo.

 

Notas:

[1] “Electio non est ab aeterno.” — Rem. Apol.

[2] “Electio alia completa est, quae neminem spectat nisi immorientem. Electio peremptoria totum salutis complementum et consummationem decernit, ideoque in objecto requirit totam consummatam fidei obedientiam.” — Grevinch, ad Ames. p. 136, passim. dis.

[3] “Non agnoscimus aliam praedestinationem in evangelio patefactam, quam qua Deus decrevit credentes et qui in eadem fide perseverarent, salvos facere.” — Rem. Coll. Hag., p. 34.

[4] “Electionis fructum aut sensum in hac vita nullum agnosco.” — Grevinch.

[5] Episcop. Thes., p. 35; Epist. ad Walach., p. 38; Grevinch. ad Ames., p. 133.

[6] “Electio alia completa est, quae neminem spectat nisi morientem, alia incompleta, quae omnibus fidelibus communis est; ut salutis bona sunt incompleta quae continu-antur, fide contlnuata, et abnegate, revocantur, sic electio est incompleta in hac vita, non peremptoria, revocabilis.” — Grevinch, ad Ames.

[7] “Tres sunt ordines credentium et resipiscentium in Scripturis, novitli, credentes aliquandiu, perseverantes. Duo priores ordines credentium eliguntur vere quidem, at non prorsus absolute, nec nisi ad tempus, puta quamdiu et quatenus tales sunt,” etc. —Rem. Confess., cap. 18, sect. 6,7.

[8] Tomás Aquino.

[9] “Nos negamus Dei electionem ad salutem extendere sese ad slngulares personas, qua singulares personas.” — Rem. Coll. Hag., fol. 76.

[10] “Deus statuit indiscrimlnatim media ad fidem administrare, et prout has, vel illas personas, istis mediis credituras vel non credituras videt, ita tandem de illis statuit.” — Corv. ad Tilen., 76.

[11] “Ecclesiae tanquam sacrosancta doctrina obtruditur, Deum absolutissimo et immutabili decreto ab omni retro aeternitate, pro puro suo beneplacito, singulares quosdam homines, eosque, quoad caeteros, paucissimos, citra ullius obedientiae aut fidei in Chris-tum intuitum praedestinasse ad vitam.” — Praefat. Lib. Armin. ad Perk.

[12] “Nulla Deo tribui potest voluntas, qua ita velit hominem ullum salvari, ut salus inde illis constet certo et infallibiliter.”–Armin. Antip., p. 583.

[13] “Praedestinatio est praeparatio beneficiorum quibus certissime liberantur quicunque liberantur.” — Aug, de Bono Per. Sen., cap. 14.

[14] “Decretum electionis nihil aliud est quam decretum quo Deus constituit credentes in Christo justificare et salvare.” — Corv, ad Tilen., p. 13.

[15] “Ratio dilectionis personae est, quod probitas, tides, vel pietas, qua ex officio suo et prrescripto Dei ista persona praedita est, Deo grata sit.” — Rem. Apol., p. 18.

[16] “Rotunde fatemur, fidem in consideratione Dei in eligendo ad salutem antecedere, et non tauquam fracture electionis sequi.” —Rem. Hag. Coll., p. 85.

[17] Grevinch. ad Amea, p. 24; Corv. ad Molin., p. 260.

[18] “Electionis et reprobationis causa unica vera et absoluta non est Dei voluntas, seal respectus obedientise et inobedientise.” — Epis. Disput. 8.

[19] “Cum peccatum pono causam merltoriam reprobationls, ne existlmato e contra me ponere justitiam causam meritoriam electionis.” — Attain. Antip.; Rein. Apol., p. 73.

[20] God’s Love, p. 6.

[21] “Deum nullam creaturam preecise ad vitam ,eternam amare, nisi consideratam ut justam sire justitia legali sire evangelica” — Armin. Artic. Perpend., fol. 21.

[22] Vid. Prosp. ad Excep. Gen. ad Dub., 8,9. Vid. Car. de Ingratis., c. 2,3.

[23] “Non potest defendi praedestinatlo ex operibus praevisis, nisi aliquid boni ponatur in homine justo, quo discernatur ab impio, quod non sit illi a Deo, quod sane patres omnes summa consensione rejiciunt.” — Bellar, de Grat., et Lib. Arbit., cap. 14.

[24] “Non ob aliud dicit, ‘Non vos me eligistis, seal ego vos elegi,’ nisi quia non elegerunt eumut eligeret eos; sed ut eligerent eum elegit eos.” — Aug, de Bono Perse, cap. 16.

[25] “Dicis electionem divinarn esse regulam fidei dandae vel non dandae; ergo, electio non est fidelium, sed tides electorum: seal liceat mihi tua bona venia hoc negare.” — Armin. Antip., p. 221.

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♦ Fonte: CCEL.org | Título Original: Display of Arminianism
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão e capa por William Teixeira


Fé Verdadeira – George Müller

“Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem. Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente” (Hebreus 11:1-3)

Primeiro: O que é a Fé? Na forma mais simples em que eu sou capaz de expressar isso, eu respondo: A fé é a certeza de que aquilo que Deus disse em Sua Palavra é verdade, e que Deus agirá de acordo com o que Ele disse em Sua Palavra. Esta certeza, essa confiança na Palavra de Deus é Fé.

Impressões não devem consideradas em relação à fé. Impressões não têm nenhuma coisa nem outra a ver com a fé. A fé tem a ver com a Palavra de Deus e não são impressões, fortes ou fracas, que farão qualquer diferença. O objeto de nossa fé é Palavra escrita e não nós mesmos ou nossas impressões.

As probabilidades não devem ser levadas em conta. Muitas pessoas estão dispostas a acreditar em relação a essas coisas que parecem prováveis para elas. A fé não tem nada a ver com probabilidades. O domínio da fé começa onde as probabilidades cessam e aquilo que se vê e sente falham. Um grande número de filhos de Deus estão abatidos e lamentam sua falta de fé. Eles escrevem para mim e dizem que eles não têm impressões, nenhum sentimento, que não veem nenhuma probabilidade de que a coisa que desejam venham a acontecer. As aparências não devem ser levadas em conta. A questão é se Deus falou em Sua Palavra.

E agora, amados amigos Cristãos, vocês estão em grande necessidade de se perguntarem se têm o hábito de confiar assim, no mais profundo de sua alma, no que Deus disse, e se vocês estão sendo sinceros na busca para descobrir se a coisa que vocês querem está de acordo com o que Ele disse em Sua Palavra.

Segundo: como a fé pode ser aumentada. Deus se deleita em aumentar a fé de Seus filhos. Nossa Fé que é fraca no início, é desenvolvida e fortalecida cada vez mais por nós. Nós devemos, ao invés de desejar nenhumas tribulações antes da vitória, e nenhum exercício de paciência, ser desejosos de toma-las das mãos de Deus, como recursos. Eu digo, e declaro isto deliberadamente, os problemas, os obstáculos, as dificuldades e as vezes que vencemos são o próprio alimento da fé. Eu recebo cartas de muitos dos filhos amados de Deus que dizem: “Querido irmão Müeller, eu estou escrevendo esta carta porque eu sou tão fraco na fé”.

Tão certamente como nós pedimos para ter a nossa fé fortalecida, nós devemos sentir uma disposição para tomar das mãos de Deus os meios para fortalecê-la. Devemos permitir que Ele nos ensine através das provações, problemas e lutos. É através das provações que a Fé é exercida e se desenvolve mais e mais. Deus amoravelmente permite dificuldades, para que Ele possa desenvolver sem cessar aquilo que Ele está disposto a fazer por nós, e para este fim, não devemos nos retrair se Ele nos concede tristeza e obstáculos, perdas e aflições, antes devemos recebê-los de Suas mãos como evidências de Seu amor e cuidado por nós para que a nossa fé se desenvolva mais e mais, tendo em vista o nosso fortalecimento.

A Igreja de Deus não é despertada a ver Deus como aquele Belo e Amorável Ser que Ele é, e assim a sua bem-aventurança é pequena aos seus próprios olhos. Oh, amados irmãos e irmãs em Cristo, procurem aprender por si mesmos, pois não posso descrever para vocês a vossa bem-aventurança! Nos momentos mais difíceis eu sou capaz de confiar nEle, pois sei que Ele é um Ser Belo, Gentil, Amável, e, se for a vontade de Deus nos colocar no forno, deixe-O fazê-lo, pois por isso podemos nos familiarizar com Ele, da maneira que Ele se revela, e para que possamos conhecê-lO melhor. Cheguemos então à conclusão de que Deus é um Ser Amável, e estejamos satisfeitos com Ele a ponto de dizer-Lhe: “Ele é meu Pai, que faça o que agradar-Lhe”.

Quando eu comecei a consentir que Deus lidasse comigo, contando com Ele, tomando-O em Sua Palavra, e preparando-me, há cinquenta anos, simplesmente para confiar a Ele a mim mesmo, minha família, impostos, despesas de viagem e todas as outras necessidades, eu descansei nas promessas simples que eu encontrei no sexto capítulo de Mateus. Leia Mateus 6:25-34 com cuidado. Eu acreditei na Palavra, eu descansei nela e a pratiquei. Tomei a Deus em Sua palavra.

Um estranho, um estrangeiro na Inglaterra, eu sabia sete idiomas e poderia tê-los usado talvez como meios para conseguir algum emprego remunerado, mas eu tinha me consagrado ao trabalho para o Senhor, eu coloquei a minha confiança no que Deus prometeu, e Ele agiu de acordo com a Sua Palavra. Eu não tinha nada, nada. Eu tive minhas provações, as minhas dificuldades e meu bolso vazio, mas eu tenho recebido doações de milhares de dólares, enquanto o trabalho estava sendo feito nesses 51 anos.

Então, com relação ao meu trabalho pastoral; nos últimos 51 anos, tive grandes dificuldades, grandes provocações e perplexidades. Sempre haverá dificuldades e provações. Mas Deus tem me sustentado sob elas, me livrado muitas vezes, e o trabalho tem continuado. Ora, isso não é, como alguns têm dito, porque eu sou um homem de grande poder mental, ou dotado de energia e perseverança, estas não são as razões corretas. É porque eu confiei em Deus; porque eu tenho buscado a Deus, e Ele tem cuidado da Instituição, que, sob Sua direção, tem cem escolas, com professores e professoras, e outros departamentos, os quais eu citei antes.

Eu não carrego fardos. E agora quando estou em meu sexagésimo sétimo ano, eu tenho força física e vigor mental para o trabalho tanto quanto quando eu era um jovem na universidade, estudando e preparando orações em latim. Eu sou tão vigoroso quanto naquele momento. Como isso aconteceu? Porque no último meio século de trabalho eu tenho sido capaz, com a simplicidade de uma criança, de confiar em Deus. Eu tive minhas provações, mas eu me mantive apegado a Deus, e por isso em tenho sido sustentado.

Não é apenas a permissão, mas um comando positivo que Ele dá, para lançarmos nossos fardos sobre Ele. Oh, façamos isso! Meus amados irmãos e irmãs em Cristo: “Lança o teu cuidado sobre o Senhor, e ele te susterá” [Salmos 55:22]. Dia após dia eu faço isso. Nesta manhã eu trouxe diante do Senhor sessenta questões relacionadas com a igreja da qual sou pastor, e dia após dia eu faço isso, e ano após ano, nestes últimos 10, 30, 40 anos.

Não fiquem, no entanto, à espera de obter plena fé de uma só vez. Todas as coisas, tais como que mergulhando em pleno exercício de Fé, estas coisas eu desaprovo. Eu não acredito nisso. Eu não acredito nisso, e desejo que vocês entendam claramente que eu não acredito nisso. Todas essas coisas se dão de uma maneira natural. O pouco que eu consegui, eu não obtive tudo de uma vez. Tudo isso eu digo particularmente, porque cartas veem a mim cheias de perguntas daqueles que buscam ter sua fé fortalecida. Comecem de novo, fazendo com que sua alma permaneça na Palavra de Deus, e vocês terão um crescimento de sua fé à medida que vocês forem exercendo-a.

Uma coisa mais. Alguns dizem: “Oh, eu nunca vou ter o dom da Fé que o Sr. Mueller tem”. Isso é um erro, é o maior erro, não há uma partícula de verdade nisso. Minha fé é o mesmo tipo de fé que todos os filhos de Deus têm ou tiveram. É o mesmo tipo de fé que Simão Pedro tinha, e todos os Cristãos podem obter esta mesma fé. Minha fé é a sua fé, embora a minha fé possa ser maior pelo fato de que tem sido um pouco mais desenvolvida pelos exercícios aos quais ela se submeteu; mas sua fé é precisamente a fé que eu exerço, apenas, em relação ao grau, a minha talvez seja mais fortemente exercida.

Agora, meus amados irmãos e irmãs, comecem aos poucos.

No começo eu era capaz de confiar no Senhor por dez dólares, em seguida por cem dólares, depois por mil dólares, e agora, com a maior facilidade, eu poderia confiar nele por um milhão de dólares, se houvesse ocasião. Mas, primeiro, eu deveria calmamente, com cuidado, deliberadamente examinar e ver se aquilo em que eu estava confiando era algo que está de acordo com as Suas promessas feitas em Sua Palavra escrita.

“E nós cooperando também com ele” (2 Coríntios 6:1).

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♦ Fonte: TheOldTimeGospel.org │ Título Original: Real Faith
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida e Fiel).
♦ Tradução por William Teixeira │ Revisão por Camila Almeida


Um Reprovado – Robert Murray M’Cheyne

“Pois eu assim corro, não como a coisa incerta; assim combato, não como batendo no ar. Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ficar reprovado” (1 Coríntios 9:26-27).

OBSERVE, (1) Quão fervorosamente Paulo buscou o reino dos céus. “Pois eu assim corro, não como a coisa incerta; assim combato, não como batendo no ar.” (V. 26). Foi muito tempo depois de sua conversão que Paulo escreveu desta maneira. Ele podia dizer: “Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho” [Filipenses 1:21]. Ele sentia que era melhor partir e estar com Cristo. Ele sabia que havia uma coroa guardada para ele; e ainda assim veja quão sério para ele era avançar na vida Divina. Ele era como um dos atletas Gregos correndo por um prêmio. Esta é a maneira com que todas as pessoas convertidas devem procurar a salvação. “Correi de tal maneira que o alcanceis” [1 Coríntios 9:24] É comum para muitos sentarem-se após a conversão, e dizer, estou seguro, não preciso me esforçar mais. Mas Paulo corria para o alvo.

(2) Algo particular em que ele era muito sério. “Subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão”, ele tinha observado nos jogos Gregos, que aqueles que estavam correndo e lutando, eram muitos cuidadosos naquilo que faziam: “E todo aquele que luta de tudo se abstém” [1 Coríntios 9:25] (V. 25). Isso era uma coisa pelo que Paulo se esforçou, isto é, ser moderado em todas as coisas, no comer e beber, “subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão”.

(3) Sua razão para toda essa seriedade. “Para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ficar reprovado”. Não que Paulo não tinha a certeza da sua salvação; mas ele quer dizer com isso que sentia profundamente que seu alto cargo na Igreja não iria salvá-lo, embora ele fosse um dos apóstolos – o apóstolo dos Gentios – aquele havia trabalhado mais do que todo os outros; embora muitos houvessem sido convertidos por meio de seu ministério, ele sabia que mesmo isso não o impediria de ser um reprovado. Judas havia pregado a outros, e ainda foi reprovado. Paulo sentiu também que se ele vivesse uma vida ímpia certamente seria reprovado. Ele sabia que havia uma ligação indissolúvel entre viver em pecado e ser reprovado; e, portanto, este era um motivo constante para a sua santa diligência. O que ele temia, era ser “reprovado”. Esta ilustração é retirada a partir do exemplo dos metais, a escória, ou aquilo que é jogado fora, é chamado de reprovado, ou refugo.

O que significa ser reprovado?

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I.
Os homens maus serão lançados para longe de Deus. “Apartai-vos de mim, malditos”. (Mateus 25:41). “Os quais, por castigo, padecerão eterna perdição, longe da face do Senhor e da glória do seu poder” (2 Tessalonicenses 1:9).

(1) Apartados de Cristo. Neste momento, homens ímpios muitas vezes estão perto de Cristo. Cristo está em sua porta e bate. Ele estende as mãos para eles todo o dia. Ele lhes fala na Bíblia e no Evangelho pregado. Ele diz: Vinde a Mim, e Eu vos aliviarei. O que vem a mim, de modo algum eu o lançarei fora. Mas quando Cristo pronunciar a frase: “Apartai-vos de mim, malditos”, não haverá mais nenhum bater na porta, mais nenhum convite, mais nenhuma doce oferta. Cristo é o único caminho para o Pai; mas estará, então, fechado para sempre. Cristo é a única porta; mas será fechada para sempre. A bem-aventurança dos remidos é que eles estarão com Cristo: “hoje estarás comigo” [Lucas 23:43]. Estes possuem um desejo de estar ausentes do corpo e presentes com Senhor. Então, eles estarão para sempre com o Senhor. Seus servos O servirão, e verão a Sua face. É isso que mantém a calma eterna no seio dos redimidos. Mas os ímpios serão lançados para longe de tudo isso: “Amarrai-o de pés e mãos, levai-o, e lançai-o nas trevas exteriores” [Mateus 22:13].

(2) Distantes de Deus. É verdade que os ímpios nunca poderão ser lançados fora da presença de Deus. “Se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também” [Salmos 139:8]. Jó diz: “O inferno está nu perante ele, e não há coberta para a perdição” (Jó 26:6). Sua onipotência criou isto; Sua respiração o acende: “o assopro do Senhor como torrente de enxofre a acenderá” (Isaías 30:33). Contudo eles serão banidos,

Em primeiro lugar, da fruição de Deus. Deus disse a Abraão: “Abrão, eu sou o teu escudo, o teu grandíssimo galardão” [Gênesis 15:1]. Deus faz a Si mesmo o Deus da alma crente, dizendo: Eu serei o teu Deus. Asafe diz: “Deus é a fortaleza do meu coração, e a minha porção para sempre” (Salmos 73:26). Quem pode descrever a alegria daqueles que têm seu prazer em Deus, que têm a Deus, o Deus infinito, como sua porção? Disto, aqueles que estão sem Cristo serão lançados fora. Você não terá nenhuma parte em Deus. Deus não será o teu Deus. Seus atributos estarão todos contra você.

Em segundo lugar, do favor de Deus. “No seu favor está a vida” [Salmos 30:5]. O favor de Deus é o que faz os crentes se sentirem em casa. Um raio de luz da face de Deus é suficiente para encher o coração de um crente a ponto de transbordar. É o suficiente para iluminar o rosto pálido de um santo à beira da morte com brilho seráfico, e fazer o coração da viúva solitária cantar de alegria. De tudo isso aquele que está sem Cristo será privado para sempre. “Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo” [Hebreus 10:31].

Em terceiro lugar, perdem a bênção de Deus. Deus é a fonte de toda bênção. Nenhuma criatura é mais boa ou agradável do que Deus faz com que ela seja. O sol nos aquece, a nossa comida nos alimenta, os nossos amigos são agradáveis ​​para nós; porque Deus os torna assim. Todas as alegrias do mundo são apenas feixes de luz da luz incriada; mas separe um homem de Deus, e tudo se torna escuro. Deus é a fonte de toda a alegria, separe um homem de Deus e nenhuma criatura pode dar-lhe alegria. Disto eles serão privados, cortados, apartados de Deus para todo o sempre. Ainda que não houvesse nenhum lago de fogo isto por si só já seria um inferno.

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II.
Os homens maus serão lançados para longe pelo Espírito Santo. Não é muitas vezes visto, mas é verdade, que o Espírito Santo está agora a lidar e contender com os homens naturais. Toda a decência e moralidade dos homens não-convertidos deve ser atribuída à graça restringidora do Espírito Santo.

(1) O Espírito Santo trabalha nos homens naturais por meio das ordenanças. A ordenança do culto familiar é muitas vezes muito abençoadora para conter crianças más, de modo que elas são preservadas dos caminhos viciosos e pecados deliberados. A ordenança da leitura e da pregação da Palavra é também muito abençoadora em sua maneira de conter os homens maus. As ameaças terríveis da Palavra, os doces convites e promessas do Evangelho, causam esse efeito sobre os homens não-convertidos, que são grandemente impedidos de ir aos extremos da maldade.

(2) O Espírito Santo também trabalha através da Providências na contenção dos homens ímpios. Ele os coloca em circunstâncias que não podem pecar, pois, caso contrário, pecariam. Ele muitas vezes reduz a pobreza, de modo que eles não podem incorrer nos vícios que estavam inclinados pois ficam inacessíveis; ou Ele põe uma doença em seu corpo, de modo que seu gosto apurado para o pecado é muito atenuado; ou Ele os aterroriza por lutos, de modo que eles são mantidos na escravidão do medo, e não se atrevem a pecar com mão levantada, pois, caso contrário, pecariam.

(3) O Espírito Santo também restringe através de convicções de pecado. Muitos homens têm feridas profundas de convicção, e ainda assim nunca são salvos. Muitos são traspassados pelas flechas da Palavra de tempos em tempos, e são, portanto, afastados de seus companheiros ímpios por medo do pecado deliberado. A graça restringidora é uma maravilhosa obra de Deus. É mais maravilhosa do que o fato de que Ele tenha definido um limite para o mar a que ele não pode ultrapassar. Pense no inferno que o seio de cada não-convertido seria, se o Espírito fosse retirado e o homem fosse entregue às próprias concupiscências do seu coração. Pense que inferno uma família não-convertida seria, se o Espírito retirasse as suas influências. Quanto ódio, discórdias, assassinatos e parricidas haveriam neste lugar! Pense que inferno esta cidade se tornaria, se cada homem sem Cristo fosse entregue às concupiscências de seu próprio coração.

Ora, isto é ser um reprovado: “Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem” (Gênesis 6:3). O Espírito Santo, creio eu, esforça-se com todos os homens. “Vós sempre resistis ao Espírito Santo” (Atos 7:51); mas Ele nem sempre se esforçará. Quando o dia da graça é chegado ou quando o pecador se afunda no inferno, o Espírito não se esforçará mais.

Em primeiro lugar. O Espírito não mais se esforçará por meio das ordenanças. Não haverá culto familiar no inferno, nem leitura da Bíblia, nem canto dos Salmos. Não haverá Sabath, nem pregação do Evangelho, nem atalaias para avisá-los de seu pecado e perigo. A voz do atalaia silenciará, o perigo chegou, sua desgraça acontecerá e não há mais espaço para o arrependimento.

Em segundo lugar. O Espírito não mais se esforçará através de providências. Não haverá mais pobreza ou riqueza, nem luto ou doença, nenhuma providência benigna que restrinja a alma de pecar, nada senão angústia e desespero indescritível.

Em terceiro lugar. O Espírito não mais produzirá convicções. A consciência condenará, mas não poderá restringir. Seus corações desmaiarão. Todo o seu ódio a Deus, as fontes do desprezo e blasfêmia em seu coração serão todas abertas. Você vai blasfemar o Deus do céu. Todos os seus desejos e as impurezas que foram reprimidas e contidas, pela graça restringidora e pelo medo dos homens eclodirão com terrível impetuosidade. Você será tão mau e blasfemo como os demônios ao seu redor.

Oh! A miséria destes! É uma coisa má e amarga. O caminho dos transgressores é árduo. Ah! pecadores, vocês ainda perceberão que o pecado é o mais duro de todos os mestres, vocês ainda vão encontrar as suas concupiscências rastejantes como sendo piores do que o verme que nunca morre. “Quem é injusto, seja injusto ainda” (Apocalipse 22:11).

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III.
Os homens maus serão reprovados por todas as criaturas. O estado dos homens não-convertidos no presente, embora seja muito terrível, ainda não é desesperador. Os anjos assistem os não-convertidos, para ver se há qualquer sinal de arrependimento. Acredita-se que os anjos estão presentes na assembleia de adoradores de Deus (1 Timóteo 5:21). E se assim for, não há dúvida que assistem seus rostos, para ver se uma lágrima brota em seus olhos, ou se seus lábios movem-se em uma oração. Haveria alegria entre os anjos neste dia, se um pecador se arrependesse.

Os redimidos na terra são particularmente interessados nas almas não-convertidas. Eles oram por elas dia e noite, muitos deles com lágrimas; muitos filhos de Deus que molham seu travesseiro com lágrimas nos contam de almas que perecem. Jeremias chorou em lugares secretos pelo seu orgulho. Davi disse: rios de água correm dos meus olhos. Eles procuram a sua conversão mais do que qualquer benefício pessoal. Ministros são separados para buscar almas perdidas e que estão a perecer. “Ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel” [Mateus 10:6]. Se os ministros são como o Seu Mestre, esta será a sua grande missão, a saber, que por todos os meios busquem salvar alguns. Mas quando o dia da graça for passado, todas as santas criaturas vão lhes reprovar. Prata rejeitada lhes chamarão, porque o Senhor os rejeitou.

Os anjos não mais terão qualquer interesse em vocês [...]. Vocês serão atormentados na presença dos santos anjos e na presença do Cordeiro.

Os redimidos não mais orarão por vocês, nem derramarão outra lágrima por vocês. Eles verão vocês condenados no juízo, e não lhes dirão uma só palavra. Eles vos verão indo para o fogo eterno, e ainda assim não orarão por vocês. Eles vão ver a fumaça do seu tormento subindo pelos séculos dos séculos, e ainda clamarão: Aleluia!

Ministros não mais desejarão a sua salvação. Este não será mais o seu trabalho. O número dos salvos estará completo sem você; a mesa estará cheia. Os ministros testemunharão contra você naquele dia.

Até mesmo os demônios te rejeitarão. Enquanto você permanece na terra, o diabo lhe mantém em seus caminhos; ele lhe elogia e dá-lhe muitas provas da sua amizade e estima; mas logo ele te rejeitará. Você já não será agradável para ele; você será uma parte do seu tormento; e ele te odiará e atormentará, porque você o enganou, e ele enganou você.

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IV.
Os homens maus serão reprovados por si mesmos. Diz-se, devem desejar a morte, e não poderão morrer. Eles buscarão a morte e a morte fugirá deles. Acredito que alguns suicidas experimentam o início do inferno. Acredito que Judas experimentou isto; ele não podia suportar a si mesmo, e tentou acabar consigo mesmo. Este será o sentimento das almas perdidas. Eles não serão capazes de suportar a visão de si mesmos; eles estarão cansados de existir; eles desejarão que nunca houvessem nascido. No presente, os homens não-convertidos são frequentemente muito autocomplacentes. Eles gostam de empregar suas faculdades; as rodas da sua vida giram suavemente; suas afeições são agradáveis​​. A memória alcança muitos pontos verdes ao olhar para trás. Quão diferente será quando o dia da graça tiver terminado!

(1) A compreensão será clara e lhe dará completa apreensão da verdadeira natureza de sua miséria. Sua mente, então, verá a santidade de Deus, a Sua onipotência, Sua Majestade. Você verá a sua própria condição de condenado, e a profundidade do seu inferno.

(2) A sua vontade estará completamente contrária à vontade de Deus, ainda que você veja que isso fará o seu inferno ser ainda maior; contudo você odiará tudo o que Deus ama, e amará tudo o que Deus odeia.

(3) Sua consciência será o vice-regente de Deus em sua alma. Ela vai acusá-lo de todos os seus pecados. Ela vai colocá-los em ordem perante você e lhe condenará.

(4) Suas afeições ainda amarão seus familiares. “Eu tenho cinco irmãos” [Lucas 16:28], Vocês pais terrenos que são maus, sabeis dar boas dádivas aos seus filhos. Mesmo no inferno você amará a sua própria parentela; mas ah! que miséria isto lhe causará, quando você os ver condenados junto com você.

(5) Sua memória será muito clara. Você lembrará de todos os seus Sabaths desperdiçados; dos sermões que você ouviu, como se não os ouvisse; do seu lugar na casa de Deus; do rosto do seu ministro e da sua voz; do sino e isto através de milhões de séculos sem fim, você se lembrará destes, como se fosse ontem.

(6) Suas antecipações. Desespero Eterno. Oh! como você desejará nunca ter existido! Como você vai querer arrancar das suas memórias, essas ternas afeições, essa consciência acusadora! Você buscará a morte, e ela fugirá de você. Isto, isto é ser perdido! Isto é a eterna destruição! Isso é ser reprovado.

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Lições

(1) Que os crentes aprendam a séria diligência de Paulo. Uma vida ímpia acabará sendo também uma vida reprovada. Estas duas estão ligadas entre si, e nenhum homem pode separá-las.

(2) Inferno será intolerável. Eu não falei do lago de fogo, da completa escuridão e do bicho que nunca morre. Falei apenas dos fatos mentais do inferno; e ainda estes por si só são intoleráveis​​. Oh! Como poderíamos descrever o que será quando ambos se encontrarem, e isto eternamente? “Quem conhece o poder da tua ira?” [Salmos 90:11] Oh! Não se mantenha longe de Cristo, agora. Agora Ele diz: Venha, logo; mas naquele dia Ele dirá: Aparte-se de Mim! Oh! não resistam ao Espírito Santo, agora. Agora Ele se esforça, mas Ele nem sempre se esforçará com você. Logo, logo Ele o deixará. Oh! não despreze a palavra dos ministros e amigos piedosos. Agora eles insistem com você, choram por você, oram por você, mas logo, logo eles vão silenciar como a sepultura, ou cantarão aleluia ao ver sua perdição. Oh! Não seja orgulhoso e narcisista. Logo você odiará a própria visão de si mesmo, e desejará nunca ter existido.

(3) O maravilhoso amor de Cristo em suportar tudo isso pelos pecadores. Cristo sofreu a ira, e tornou-se um Fiador. Todos os que estiverem nEle terão seus pecados lançados fora porque Ele já os suportou. Amém.

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♦ Fonte: MCheyne.Info │ Título Original: A Castaway
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por William Teixeira │ Revisão por Camila Almeida


Um Cordão de Pérolas Soltas, Uma Jornada Teológica no Batismo de Crentes – Fred A. Malone

Copyright © 1998 Founders Press. Todos os direitos reservados. Traduzido e publicado, em formato digital, em português pelo website oestandartedecristo.com com a devida autorização de Fred Malone (autor) e Tom Ascol (diretor executivo da Founders Ministries), sob a licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International Public License.

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 Prefácio

Este folheto não se destina a ser uma obra definitiva sobre o Batismo. Originalmente escrito em 1977, é simplesmente um diário narrado para mim mesmo e para os meus amigos que estão interessados ​​em entender por que eu mudei de uma posição pedobatista (batismo infantil) a uma Batista (batismo de discípulos/confessores somente). Este artigo foi editado para uso como um livreto, mas eu tenho reservado uma revisão completa para um próximo livro1.

Qualquer discussão sobre o batismo, como acontece com outras doutrinas nas Escrituras, é inútil a menos que todas as partes estejam dispostas a sentar-se com Bíblias abertas, mentes abertas e corações mantidos em oração. O batismo infantil é uma questão emocional, pois envolve nossos filhos e as promessas de salvação para eles. Peço simplesmente que aqueles que desafiam minhas conclusões sincera e caridosamente estudem meus argumentos antes que eles comecem a fazer julgamentos.

Teria sido fácil passar sobre este tema polêmico e permanecer na esfera da Igreja Presbiteriana. Ainda entristece meu coração que meus votos obrigaram-me a retirar-me voluntariamente dessa arena do serviço com seu companheirismo e oportunidades. No entanto, a minha consciência e prática devem ser governadas pelo próprio Cristo por meio da orientação de Sua Palavra escrita e por nenhum outro homem, tradição ou extensão lógica. Por isso, este artigo apresenta o que entendo ser a Sua orientação para mim através das Escrituras.

Estabelecido brevemente, como um teólogo pactual eu vim a crer que, de acordo com a Bíblia, os únicos sujeitos apropriados para o batismo Cristão são discípulos de Cristo. Jesus e Seus discípulos “fazia e batizava mais discípulos do que João” (João 4:1). Primeiro, eles se tornavam discípulos, em seguida, eles eram batizados. Jesus e os apóstolos batizavam as pessoas que haviam se tornado crentes (“discípulos”). Além disso, a Grande Comissão ordena a “ide, fazei discípulos de todas as nações [indivíduos de todas as nações, não as entidades nacionais], batizando-os [aqueles que foram feitos discípulos, ênfase minha]…

Ensinando-os [os discípulos, ênfase minha] a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado” (Mateus 28:19-20). Isso é exatamente o que aconteceu no dia de Pentecostes. Somente aqueles que “foram batizados os que de bom grado receberam a sua [de Pedro] palavra” (Atos 2:41), e não filhos pequenos dos crentes. Na Confissão de Westminster e na Segunda Confissão Batista de Londres, o batismo e seus sujeitos estão incluídos como elementos de culto sob o princípio regulador de culto, instituídos positivamente por Deus e “limitados por Sua própria vontade revelada” (Confissão de Westminster capítulo 21, seção 1; Segunda Confissão Batista de Londres, capítulo 22, seção 1). A única forma de batismo que se encaixa neste princípio é a que foi “instituída” e “prescrita na Sagrada Escritura”, ou seja, o batismo de discípulos/confessores, não de bebês.

 Introdução

A maior luta em minha teologia não foi, por incrível que pareça, os cinco pontos do Calvinismo e da fé Reformada. Encontro isso claro e bem definido de Gênesis ao Apocalipse. Ao invés disso, o meu “espinho na carne” teológico foi o batismo.

Embora eu tenha crescido como um Batista, no seminário eu vim para a posição pedobatista por causa de vários pontos da teologia. Estes incluíram a aliança com Abraão, a relação entre circuncisão e batismo, a suposta disjunção entre batismos de João e Jesus e o batismo Cristão, o argumento do silêncio, os textos-prova a respeito das crianças no Pacto, e o testemunho da tradição. A obra que mais me influenciou foi o “Christian Baptism” (Batismo Cristão), de John Murray.

Quando olho para trás para aqueles dias como um estudante de seminário sincero e investigador, muitas vezes me pergunto se eu fora tão honesto pela busca da verdade como eu pensei que era. Pois no cadinho difícil da rejeição, por vezes amarga, pelos meus amigos batistas sobre as doutrinas da soberana graça, e na comunhão calorosa dos meus irmãos pedobatista de minha mesma opinião, é mais do que possível que eu permiti que sentimentos subjetivos influenciassem a minha interpretação da verdade objetiva sobre o batismo. Eu não acredito que eu sou o único Batista, que se tornou um Presbiteriano sob estas circunstâncias. Na verdade, eu acredito que muitos Batistas, frustrados com a superficialidade doutrinária, deixaram igrejas Batistas para encontrar um lar confortável, teologicamente são em igrejas Presbiterianas. No entanto, os sacramentos nunca são questões menores da doutrina, e é minha esperança que este panfleto convencerá muitos a permanecer, ajudará a reforma e construção de igrejas Batistas mais sólidas.

Em qualquer caso, após a graduação eu reexaminei a minha posição sobre o batismo de crianças e encontrei muitas inconsistências que, por algum motivo, eu não encontrei no seminário. Tentei deixar a maior parte de meu trabalho ser o mais original possível. No entanto, dois livros me ajudaram a verbalizar muitas coisas já descobertas, estes são Bebês Devem Ser Batizados? por T. E. Watson, e Os Filhos de Abraão, de David Kingdon. Eu recomendo essas obras aos meus amigos pedobatistas e Batistas.

Eu lidei apenas com os sujeitos apropriados do batismo, porque eu creio que este seja o fator mais importante com o qual começar. O próprio João Calvino acreditava que a Bíblia ensina a imersão e que a igreja primitiva praticava a imersão (Institutas Livro IV. cap. XV, seção 19). Eu aceito a análise de Calvino embora ele tenha permitido diversas práticas.

Enquanto eu percorro cada ponto da teologia em uma forma de narrativa informal, espero dar glória a Deus, deixando que a Sua infalível Palavra seja a autoridade absoluta e final para cada conclusão. Minha oração contínua é para que o Espírito Santo ilumine a minha mente e a mente do leitor enquanto nós olhamos juntos para a mente de Deus revelada na Palavra escrita.

O Espinho

A mudança para convicções Batistas começou enquanto eu estava lendo Êxodo 12, como parte de meus exercícios devocionais. Certamente eu havia lido muitas vezes antes, mas desta vez uma questão importunou a minha alma. Na instituição da festa da Páscoa, eu li: “Portanto guardai isto por estatuto para vós, e para vossos filhos para sempre” [ênfase adicionada] (Êxodo 12:24). A minha pergunta diz respeito à participação das crianças na festa, que é um prenúncio da Ceia do Senhor. E se eles participavam, a que idade eles começavam? Além disso, o que isso tem a dizer sobre a participação das crianças na Ceia do Senhor? Enquanto eu meditava, eu me perguntei se isso pode não seria simplesmente um comando para continuar a ordenança de pai para filho em gerações inteiras. Por isso, decidi pesquisar a questão para uma compreensão mais clara.

Concluí que o texto pode favorecer a participação na festa das crianças da família de qualquer idade, bem como ser um comando para continuar a ordenança indefinidamente. Que a palavra “sempre” implica a perpetuidade da ordenança é óbvio. Mas, no contexto da família da aliança, o hebraico vav conjunção (“e”) parece definir a ordenança como sendo para todos os filhos da casa também. O contexto parece apoiar essa inclusão das crianças na refeição porque não havia outros pães ázimos e carnes permitidas para estarem presentes no domicílio (12:19,20,28). Com a exceção dos bebês lactentes, não havia literalmente nada para as crianças comerem, senão a refeição da Páscoa! Alguns especulam que o questionamento das crianças sobre a refeição (v. 26) indica sua falta de participação na mesma. No entanto, elas certamente poderiam ter participado da refeição e ainda fazer a pergunta sobre ela muito antes de terem a capacidade conceitual para compreender seu significado.

Achei interessante como Berkhof e Murray diferiam em relação a esta situação, mas ambos discordavam da pedocomunhão. Berkhof afirma:

As crianças, embora fossem autorizados a comer a Páscoa nos dias do Antigo Testa-mento, não podem ser autorizadas a participar da mesa do Senhor, uma vez que não podem cumprir os requisitos para a participação digna. (Teologia Sistemática, p. 656)

Embora admitindo que as crianças do Antigo Testamento participavam da Páscoa, Berkhof as excluía da Ceia do Senhor, porque o Novo Testamento prescreve o auto-exame e o discernimento do corpo.

Murray, por outro lado, desconsidera a interpretação que as crianças participavam da Páscoa, por duas razões: (1) não há nenhuma menção de crianças no texto, e (2) a dieta não era adequada para crianças. Um problema com as objeções de Murray é que o mes-mo raciocínio pode ser aplicado de forma coerente com o silêncio a respeito bebês no batismo de famílias. Além disso, sua afirmação é presunçosa, que as crianças tinham uma idade para entender o significado da Páscoa, quando perguntaram o que ela significava. Quantas vezes nossos próprios filhos fizeram perguntas sobre Cristo ou Ceia do Senhor e não foram capazes de entender as respostas? Além disso, Murray não reconhece que as crianças são capazes de ingerir o pão ázimo e a carne, enquanto crianças antes de um ano de idade (Batismo Cristão, pp. 76-79).

Portanto, concluo a partir do texto, contexto e apoio de comentário Reformado que os filhos da casa que eram capazes de ingerir carne e pão ázimo partilhavam da festa da Páscoa, simplesmente pela sua posição na família da Antiga Aliança.

Quais são as implicações desse fato? Maravilhou-me que eu corri através de um artigo na Open Letter (Carta Aberta) no mês seguinte (1977), usando este mesmo fato para funda-mento da comunhão de “Filhos do Pacto”. Esta publicação pela Fraternidade Pactual de Presbiterianos imprimiu um artigo do pastor do Canal Street Presbyterian Church, em Nova Orleans, defendendo a passagem da alteração da P.C.U.S. (Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos) que permite criancinhas batizadas a virem à mesa do Senhor, logo que eles sejam capazes de tomar os elementos! O argumento foi baseado na transformação da circuncisão em batismo infantil como o princípio que transformar os sujeitos da Páscoa nos sujeitos da Ceia do Senhor.

Quando comecei a assimilar e analisar este artigo, vários argumentos contra as suas conclusões vieram à mente. Os dois mais evidentes eram que (1) há o comando bíblica-mente instituído para examinar a si mesmo antes de participar, e (2) não existe nenhum comando positivo para incluir bebês e crianças pequenas na ceia. O primeiro é um argumento de preceito de acordo com o princípio regulador da Escritura, e o segundo um argumento de silêncio e de inferência. Ambos os argumentos parecem limitar a participação na observância da Ceia observância do Senhor aos discípulos batizados que são capazes de compreender o significado da Ceia e são capazes de examinar a sua motivação espiritual interior ao tomá-la. Cheguei à conclusão, juntamente com a maioria dos teólogos Reformados, que estes dois argumentos são suficientes para mostrar o erro da comunhão infantil ou pactual.

Qual é agora o meu ponto? Simplesmente isto: Por que a regulamentação do Novo Testamento é suficiente para definir os sujeitos da Ceia do Senhor, mas não os do batismo infantil? Supondo que as crianças da família, na administração da Antiga Aliança, eram autorizadas a participar da festa da Páscoa tão logo elas fossem capazes de consumir os elementos, e assumindo que os filhinhos da família, na administração da Nova Aliança, não são autorizados a participar até professarem a fé e o autoexame são evidentes, minhas perguntas são:

• O que mudou na aplicação do conceito de família da aliança a partir da Antiga Aliança para a Nova Aliança?
• Por que a criança da família participa da Páscoa e não da Ceia do Senhor?
• O filhinho de crentes na Nova Aliança tem menos bênçãos do que a criança da família na Antiga Aliança?
• Quais são exatamente as bênçãos da aliança para a criança da família na Nova Aliança, se houver alguma? 

Um Cordão de Pérolas

Enquanto eu reconhecia a discordância relativa à conclusão que as crianças da Antiga Aliança participavam da Páscoa pela posição pactual, permaneceu em minha mente um crescente desejo de reexaminar a base bíblica para o batismo infantil. Eu pensei que tal-vez Deus estava me guiando para estudar novamente a doutrina, de forma que eu seria confirmado disso em minha própria mente no início do seminário, se eu não tivesse deixa-do influências subjetivas guiarem minha busca pela verdade objetiva. No entanto, eu pensava que se eu viesse a ser um Batista eu não perderia nada em aceitar a verdade de Deus na Palavra. De qualquer forma, eu estaria mais forte no final.

Enquanto todos os teólogos pactuais pedobatistas que li concordam plenamente que não há mandamento positivo para batizar crianças da aliança, eles citam o que pode parecer ser um número impressionante de pérolas individuais que podem ser amarradas juntas, como um colar bonito e unificado. Este é o princípio da hermenêutica chamado “boa e necessária inferência”. John Murray afirmou este princípio para o batismo infantil:

Uma das objeções mais convincentes e uma que conclui o argumento para um grande número de pessoas é que não há nenhuma ordem expressa para batizar bebês e nenhum registro no Novo Testamento de um caso claro de batismo infantil… A evidência para o batismo infantil se enquadra na categoria de boa e necessária inferência, e por isso é completamente indefensável demandar que a prova exigida esteja na categoria de ordem expressa ou instância explícita (Batismo Cristão, p. 72).

O problema com esta afirmação é que ela admite inferência do Antigo Testamento a partir da aliança com Abraão para anular o mais evidente e final cumprimento, prescrição e instituição Neotestamentária, pela revelação. De acordo com Murray, alguém teria que apresentar uma ordem ou exemplo contra o batismo infantil para anular sua inferência do Antigo Testamento, mesmo que este nunca fora praticado. Esta é uma posição hermeneuticamente absurda.

O princípio da “boa e necessária inferência” é legitimamente usado para apoiar a cessação de tais coisas como a revelação escrita e apóstolos modernos. No entanto, nestes casos, a base para tal conclusão é sempre a revelação do Novo Testamento, não implicação do Antigo Testamento. “O Novo está no Antigo, velado; e o Antigo está revelado no Novo” é um acordo sobre hermenêutica, que coloca mais autoridade sobre a instituição do Novo Testamento do que sobre a inferência do Antigo Testamento.

Pode haver uma impressionante coleção de pérolas amarradas no cordão da “boa e necessária inferência”, mas ambos, T. E. Watson e Herman Hoeksema (Crentes e Sua Descendência) já demonstraram amplamente que há discordância suficiente entre os teólogos pactuais pedobatistas em cada pérola específica para justificar um reexame da “boa e necessária inferência” que lhes amarra todas juntas. Uma vez que este é um breve artigo, simplesmente usarei o livro bem documentado de Watson (Bebês Devem Ser Batizados?) para mostrar que há um sério desacordo em relação a Escrituras específicas entre os principais teólogos Reformados em quase todo ponto e base de apoio ao batismo infantil.

Então, quais são as pérolas no cordão? Desde que eu estou lidando com a minha própria aceitação do pedobatismo, aqui estão as pérolas cuja beleza me fez adicioná-las ao meu cordão:

1. A Teologia Pactual do Antigo e Novo Testamentos

2. A Relação entre Circuncisão e Batismo

3. Os Textos de Prova em Relação ao Batismo

4. Atitude de Jesus para com as Crianças

5. A Santificação dos Filhos de Crentes

6. A Disjunção do Batismo de João e o Batismo Cristão

7. O Argumento do Silêncio

8. O Argumento das Bênçãos Ampliadas

9. O Testemunho da Tradição

 

Eu não lidei com o modo neste artigo, pois a questão dos sujeitos bíblicos do batismo é algo muito mais importante.

1

A Primeira Pérola

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Teologia Pactual no Antigo e Novo Testamentos

A principal base para o batismo de criança do pacto é reivindicada ser encontrada na promessa pactual de Deus de abençoar Abraão e a sua “semente”. Abraão foi justificado pela fé, crendo nas promessas de Deus para ser o seu Deus e fazê-lo o pai de muitas nações (Gênesis 12-17; Romanos 4). Ele e sua “semente” herdariam Canaã, em possessão perpétua. E, o mais importante de tudo, o Senhor prometeu ser o Deus de Abraão e de sua “semente”. Então, Deus concedeu o sinal desta aliança, a circuncisão, a Abraão e à sua “semente” para sempre. Este sinal também deveria ser administrado a todos os homens na família, nascidos e comprados. Desde que Abraão é chamado de “pai de todos nós” (Romanos 4:16), e uma vez que os Cristãos são chamados de “descendência de Abraão” (Gálatas 3:29) e “herdeiros segundo a promessa”, parece “bom e necessário” inferir que o sinal do batismo, do Novo Testamento, deve ser aplicado aos filhos de Abraão “semente” da fé como a circuncisão foi aplicada aos filhos de Abraão “semente” da carne (Colossenses 2: 11-12). Esta é uma pérola que compele ao batismo infantil.

Os Participantes da Aliança

Várias questões, no entanto, devem ser colocadas a esta conclusão. Em primeiro lugar, se os Cristãos judeus ou gentios são a “semente” de Abraão, devemos tanto reivindicar Canaã física como o nosso legítimo território e também a possessão “eterna”? Em segundo lugar, se a circuncisão é um sinal “para sempre” da Aliança Abraâmica, então por que a “semente” Neotestamentária de Abraão não continua a circuncisão como um ato religioso? E, em terceiro lugar, os Cristãos devem batizar não somente os filhos, mas também todos os homens comprados ou nascidos em suas casas?

Tem sido frequente a objeção de que não é legítimo identificar tanto filhos e terra física na mesma categoria em relação às promessas pactuais a Abraão. Concordo plenamente. No entanto, o que acontece com os 318 funcionários do sexo masculino da família de Abraão que foram circuncidados, em virtude de que eles estavam na casa de Abraão? Como é este aspecto sobre pessoas na família da aliança, não sobre terras, na aplicação Neotestamentária do Pacto de Abraão?

Havia uma questão teológica a respeito do batismo dos escravos no período pré-Guerra Civil do Sul entre os Presbiterianos. Meredith Kline tenta lidar com esta questão da aplica-ção da autoridade pactual doméstica na administração da Nova Aliança sobre a Aliança Abraâmica, em seu livro, Por Juramento Consignado (pp. 94-102). No entanto, Kline não é claro sobre se o batismo de escravos é ou não uma aplicação legítima na administração da Nova Aliança. Ele se esquiva de dizer que esta prática é legítima por causa do silêncio do Novo Testamento e a dificuldade de disciplina eclesiástica (p. 98). Por outro lado, no mesmo parágrafo, ele parece permitir a plausibilidade do batismo de servo em determinadas situações de missão pela conveniência cultural temporária. A decisão parece ser deixada para a chefe individual da aliança em sua aplicação dos princípios da cultura, da família e da igreja com a sua situação particular. A questão sobre qual é a maneira bíblica de lidar com os próprios escravos nesse sentido realmente não é atendida. O participante da teologia pactual e da Nova Aliança é tão vagamente definido?

Junto com a maioria dos teólogos pactuais, concluo que estes elementos de terra e servo da Aliança Abraâmica atualmente não se aplicam ao Novo Testamento Cristão e à igreja, uma vez que o reino de Cristo “não é deste mundo” nem é uma nação teocrática, ainda assim continua sendo o “Israel de Deus” (Gálatas 6:16). A maioria de nós acredita que os Cristãos possuirão Canaã nos Novos Céus e Nova Terra, mas não na atual administração das coisas. Nem qualquer um acredita seriamente no batismo de servo.

Deve-se entender que só porque houve uma mistura de elementos físicos e espirituais no Pacto de Abraão, não segue implicitamente que os mesmos elementos se aplicam à Nova Aliança. Todos nós sabemos que alguém tornava-se membro da aliança com Abraão pela circuncisão física, mas Deus também convocou a semente de Abraão a circuncidar espiritualmente os seus corações também (Deuteronômio 10:16). Que a Nova Aliança enfatiza a circuncisão espiritual não implica automaticamente que deve haver membros físicos na Nova Aliança, sem um tal coração. Como o pastor Walter Chantry da Grace Baptist Church, Carlisle, Pensilvânia, bem disse: “Na Antiga Aliança, tudo o que era espiritual era identificado com uma nação exterior. Na Nova Aliança, tudo o que é exterior é identificado com uma nação espiritual”.

Portanto, aqueles que aplicam a inclusão Abraâmica de filhos físicos à Nova Aliança como base para o batismo de infantes dos filhos de Cristãos, devem também lidar honestamente com as implicações “para sempre” de Canaã, circuncisão e membresia adulta doméstica na Nova Aliança. Há muita inconsistência aqui para fazer um argumento válido.

Portanto, a questão principal para mim é: como a Escritura aplica as promessas do Antigo Testamento que são dadas a Abraão e à sua “semente” ao cumprimento da Nova Aliança ao Cristão e à igreja? Continuando, para o momento, assumo que o batismo é a contra-partida Neotestamentária da circuncisão, vamos definir a partir da Escritura a essência da Nova Aliança e quem é exatamente a “semente” de Abraão, os que devem receber o sinal e as bênçãos da Nova Aliança.

A Nova Aliança Descrita

Uma das principais passagens que deve ser considerada na definição do significado da Nova Aliança é Jeremias 31. Nos versículos de 27 a 30, Deus declara que, após o cati-veiro profetizado, cada homem arcará com a responsabilidade por sua própria condição espiritual diante de Deus de uma maneira nova. Dando continuidade a essa mudança de ênfase para a responsabilidade individual nos vv. 31-34, Deus define uma nova base para a participação na aliança e bênção no Novo Pacto, que é diferente da base para a adesão e bênção na Antiga Aliança. Ao contrastar a Antiga e Nova Aliança, a definição de Deus sobre a diferença é a de renovação do coração em cada um dos membros da Nova Aliança.

Inicialmente, para se tornar um participante da Aliança Abraâmica e sua continuação no Sinai, alguém simplesmente teria que nascer na descendência física de Abraão. A membresia física nesta aliança foi representada pela circuncisão, mas alguém era cortado da salvação da aliança se ele não circuncidasse seu coração também (Deuteronômio 10:16). No entanto, é importante notar que muitos cujos corações nunca foram circuncidados continuaram a participar do Israel visível. No entanto, eles não foram visivelmente corta-dos do povo da aliança de Deus. Assim, a doutrina do remanescente fiel do Israel físico surgiu nos profetas (Jeremias 23:1-6; 31:7). Este remanescente viria à fruição e cumprimento durante o reinado de “um Renovo de justiça” da linhagem de Davi. É esse remanescente fiel que é erguido nos dias da Nova Aliança (Jeremias 31:7, 32-34).

A participação na Nova Aliança, que “não é semelhante” à Antiga Aliança, é definida como o experimentar da realidade da religião do coração em cada membro (Jeremias 31:33-34). A Nova Aliança não apenas introduz novas bênçãos. Em vez disso, todos os membros da Nova Aliança, em verdade, têm a lei escrita em seus corações (“Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração”), recebem o perdão dos pecados (“porque lhes perdoarei a sua maldade, e nunca mais me lembrarei dos seus pecados”) e conhecem o Senhor (“porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o Senhor”).

Esta definição não diz nada sobre a participação nas bênçãos da Nova Aliança por descendência física somente. Em vez disso, os participantes que Jeremias descreve são o verdadeiro “Israel” (Gálatas 6:16). Eles são os “filhos da promessa”, um remanescente fiel de acordo com a “eleição da graça” de Deus (Romanos 9:6-8), em que cada verdadeiro membro conhece o Senhor. Esta Nova Aliança, na qual Deus escreve a Sua lei no coração de cada um na Aliança também é definida em Ezequiel 36:24-28 como o tempo em que Deus coloca o Seu Espírito no interior e dá um novo coração que terá o cuidado de observar os Seus preceitos. Esta promessa do Espírito também é falada para toda a casa de Israel, indicando que este novo coração ficará evidente na nação como um todo. De fato, Gálatas 3:14,29 define o cumprimento da promessa feita a Abraão, na Nova Aliança, como o dom do Espírito para toda a sua “semente”, ou seja, os Judeus e Gentios crentes (Romanos 4, veja também a exposição sobre a promessa em Atos 2:39 abaixo).

O teólogo pedobatista, Herman Ridderbos, acredita que o ensinamento de Jesus sobre o reino de Deus e de Seus membros nascidos de novo é “determinado pela ideia de aliança”. A referência de Jesus à Nova Aliança sobre Jeremias 31 na Última Ceia afirma este entendimento. Assim, a ideia do povo de Deus toma um significado mais restrito na Nova Aliança:

O povo de Deus são aqueles por quem Cristo derrama o Seu sangue da aliança. Eles compartilham da remissão dos pecados trazida por Ele e da comunhão inquebrantável com Deus na Nova Aliança, que Ele tornou possível… À luz de todo o Evangelho, eles são as pessoas que aceitaram a pregação do evangelho em fé e conversão. São eles, e ninguém mais (grifo meu), os que recebem a salvação do reino. Eles são “Israel”, “povo de Deus”, e é a eles que todas as promessas do pacto aplicam-se (Ridderbos, “The Coming of the Kingdom” [A Vinda do Reino], p. 202).

Portanto, com base em Jeremias 31:31-34 e sua descrição sobre a regeneração dos participantes da Nova Aliança, e à luz da definição dos requisitos de entrada para o reino de Cristo (João 3:5-6) e igreja (Mateus 16:16-18), eu não posso dizer que os filhos de crentes estão “dentro” da Nova Aliança, igreja ou reino ou “povo de Deus” até que eles mostrem, por confissão exterior, evidência de regeneração.

Tem sido objetado que, talvez, Jeremias 31:34 seja uma referência escatológica por causa da declarada falta de necessidade de que alguém ensine o seu próximo e irmão. Portanto, o argumento conclui que isso descreve a Igreja triunfante. Não precisamos ensinar uns aos outros na Nova Aliança? Claro! Mas no discurso a Israel, Deus está se referindo ao próximo e irmãos na Israel da Nova Aliança! Não há necessidade de evangelizar os participantes na Nova Aliança, porque todos conhecem o Senhor! É claro que ensinamos uns aos outros a observar tudo o que Cristo nos ordenou (Mateus 28:18-20). Mas não há necessidade de ensinar os da Nova Aliança a “conhecer o Senhor”, porque eles já O conhecem, tendo sido ensinados pelo próprio Deus (João 6:44-45; 1 João 2:27; 1 Tessalonicenses 4:9). Por esta razão, o “menor até o maior”, daqueles na Nova Aliança, é maior do que João Batista, que foi regenerado no ventre (Mateus 11:11). Portanto, eu não estou disposto a admitir que o filho de um crente esteja automaticamente na Nova Aliança e seja, assim, maior do que João, o Batista, até que ele ou ela mostre evidências de regeneração por uma profissão de fé em Cristo. Mesmo que o nosso Deus Soberano regenerasse os filhos de crentes no útero, eles não deveriam ser considerados “na” Nova Aliança até que eles mostrassem a evidência de regeneração por meio do arrependimento e da fé. Isto é a ordem e exemplo padrão do Novo Testamento, e precede o batismo Neotestamentário.

O Sacrifício da Nova Aliança

Dizer que todos os filhos físicos dos crentes estão “na” Nova Aliança, como os filhos de Abraão estavam “nos” Pactos Abraâmico e do Sinai viola a doutrina da redenção particular. Hebreus 9 nos lembra que a aliança de Deus requer a mediação através do sangue. O Cordeiro pascal trouxe libertação física para todo o Israel, porque todos comeram. A Expiação anual (Levítico 16) era oferecida em nome de toda a assembleia, de todo o Israel. É claro que esses sacrifícios não poderiam purificar a consciência, mas seu propósito era para o povo da aliança de Deus no Velho Testamento. Se o sacrifício de Cristo é oferecido apenas por Seu povo eleito como “o novo testamento no Meu sangue” (Lucas 22:20; Marcos 14:24), como podem os filhos não-regenerados dos crentes serem ditos estar “na” Nova aliança, igreja, e reino, sem um mediador eficaz? Eles não podem. Na verdade, Hebreus 9:15 define Cristo como um Mediador eficaz da Nova Aliança para assegurar que “aqueles que são chamados recebam a promessa da herança eterna”. Alguém pode ser dito estar “na” Nova Aliança ou igreja sem um Mediador? Não sobre o fundamento do conceito de igreja no Novo Testamento. Embora todos concordem que os falsos professos foram referidos como membros da igreja pela qual o eficaz sangue de Cristo foi derramado, ainda assim, eles foram assim referidos com base em sua profissão, não com base na fé de seus pais. Mesmo assim, eles deveriam ser expulsos da igreja, se a sua profissão fosse provada ser falsa pelas suas vidas. Entretanto, houve alguma evidência exterior para designá-los como estando “na” igreja. Mas não há nenhuma base clara para dizer que filhos de crentes estão “na” igreja, a menos que também eles estejam dispostos a dizer que eles estão “na” “igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue” (Atos 20:28). Não, se uma criança é dita estar “na” administração do Novo Pacto de uma aliança de graça e “na” igreja, sem a mediação eficaz, grave violência é feita à verdade bíblica de que “Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela” [Efésios 5:25]. Pode ser dito de uma criança não-regenerada que ela está “na” igreja através da mediação eficaz de Cristo e nunca receber a salvação? Absolutamente não. Portanto, violência é feita à doutrina da redenção particular.

A aliança da graça requer o sangue de um Mediador eficaz. Cristo é a Circuncisão e o Isaque da Aliança Abraâmica. Cristo é o Cordeiro Pascal e a Expiação Anual para a sua continuidade através do Sinai. E Cristo é o único Mediador do cumprimento da Nova Aliança como o sacrifício eficaz para todos aqueles considerados como estado “na” Nova Aliança, a igreja redimida de Cristo. Estas pessoas redimidas e apenas estas são os participantes da Nova Aliança.

A Semente de Abraão

Isso nos leva à próxima pergunta: exatamente quem são a “semente” da Aliança Abraâmica que devem receber a contrapartida Neotestamentária da circuncisão? Em Romanos 4, onde Abraão é chamado de “o pai de todos nós”, vemos que Deus cumpriu a Sua promessa a ele para se tornar o pai de muitas nações, definindo sua “semente”, como aqueles que são “da fé de Abraão” (v. 16). Sejam eles incircuncisos ou circuncidados, sua “semente” são aqueles que possuem “a justiça da fé quando estava na incircuncisão” (v. 11-12). Não há menção aos descendentes físicos de crentes como incluídos no cumprimento Neotestamentário da aliança com Abraão; antes, é somente aqueles que realmente têm obtido “a justiça da fé” ao receber Jesus Cristo (cf. João 1:12-13).

Em Gálatas 3, Paulo indica claramente que a descendência física e circuncisão não têm nenhuma relação necessária para o cumprimento do Pacto de Abraão na Nova Aliança. As promessas da aliança com Abraão foram feitas a Abraão e à sua única “semente”, a saber, Cristo (3:16). Portanto, o cumprimento Neotestamentário da promessa de fazer Abraão o pai de muitas nações é através de Cristo, a sua “semente” e foi cumprida e todos os que têm fé nEle. A definição real de “semente” de Abraão é: “aqueles que são da fé” (vv. 7,9). Se você pertence a Cristo, então você é “semente”, “herdeiros de Abraão, segundo a promessa” (v. 29). A única definição de “semente” de Abraão na Nova Aliança é Cristo e sua “semente” que têm experimentado a realidade da fé salvadora, ou seja, a promessa Abraâmica do Espírito (vv. 14,29).

Quem é a “semente” de Cristo, a quem pertencem as promessas da Aliança com Abraão? São aqueles que pertencem a Cristo (Gálatas 3:29) e estes somente são revelados por sua fé. Os únicos que têm uma reivindicação à herança de Deus são os filhos de Deus pela regeneração do Espírito (Romanos 8:9,14-17; João 1:12-14). Portanto, ninguém é considerado um herdeiro das promessas Abraâmicas até que pela fé ele dê evidência de ser uma “semente” de Abraão por meio de Cristo, que é o cumprimento literal da semente de Abraão. E nós “pertencemos a Cristo” somente através da fé que evidencia a regeneração (Gálatas 3:22,29).

Além disso, se continuarmos a assumir que o batismo é a contrapartida da circuncisão, somos confrontados com o problema do versículo 27, onde todos (sem distinção entre crianças e adultos) que fomos batizados em Cristo somos revestidos de Cristo. É somente o preconceito que impede de definir isso em termos de batismo em água (veja Marston, “Are You a Biblical Baptist?” [Você é um Batista Bíblico?] pp. 21-22). Paulo está aludindo à sua experiência de união com Cristo, simbolizada por sua experiência confirmatória do batismo em águas. Ninguém diria que todos os participantes da circuncisão da Antiga Aliança experimentaram a realidade da fé salvadora. Nem alguém afirmaria que todos os que recebem o batismo de discípulos têm a fé salvadora. No entanto, o cumprimento Neotestamentário da promessa de Abraão é a uma “semente”, que consiste de todos os que são “da fé”, os quais recebem a promessa Abraâmica do Espírito, e que confessam a sua fé através do batismo como o sinal exterior.

A Aliança com Abraão foi introduzida pela circuncisão; a Nova Aliança é introduzida pela fé em Cristo. Na Nova Aliança, somente a “semente” Abraâmica da fé deve receber o sinal Neotestamentário do batismo.

Agora, você pode estar pensando: Será que isso realmente diz algo que verdadeiramente proíbe a administração do sinal pactual do batismo aos filhos da “semente” Neotestamentária de Abraão? Antes de responder a essa pergunta, primeiramente examinemos as Escrituras para determinar o significado da circuncisão em relação à Nova Aliança.

 

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A Segunda Pérola

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A Relação entre Circuncisão e Batismo

A circuncisão é a segunda pérola no cordão da “boa e necessária inferência”. Qual é exata-mente a contrapartida da circuncisão na Nova Aliança? É o batismo em água? O que exatamente diz a Escritura sobre as implicações da circuncisão na Nova Aliança?

A Circuncisão Física e a Circuncisão do Coração

Em Romanos 2:28-29, encontramos que a circuncisão sempre intencionou representar a obra interior do Espírito no coração. De acordo com os princípios de interpretação tipológica, a circuncisão física é o tipo e a regeneração é o antítipo ou cumprimento. Esta foi a definição de um verdadeiro Judeu, seja de ascendência Judaica ou Gentílica. O sinal exterior da circuncisão deveria simbolizar o que Deus desejava interiormente no coração. Porém, mais do que isso, a realidade do símbolo também tinha que estar presente para que uma pessoa fosse um verdadeiro Judeu ou para receber todas as bênçãos da aliança de Deus.

Esta mesma verdade é ensinada em Romanos 9:6-8, onde Paulo diz que “nem todos os que são de Israel são israelitas”. Esta é mais uma referência à ideia do remanescente fiel que começou na nação física dos descendentes de Abraão e chegou a ser concretizado nos membros da Nova Aliança ou igreja. Isto é explicado em Romanos 4:12, onde a “semente” prometida de Abraão não consiste daqueles que são da descendência física apenas, mas daqueles que são da fé de seu pai Abraão. Estes, e estes somente são o cumprimento da “semente” (Romanos 4:23). Aqueles que são da fé, Judeus e Gentios, são a “semente” de Abraão. Em todas estas Escrituras, os verdadeiros Judeus, ou “semente” de Abraão em cumprimento da promessa de Deus a ele, são aqueles que têm a circuncisão do coração pelo Espírito, a qual é exibida pela fé em Cristo.

A Circuncisão do Coração e o Batismo

Qual é então a contrapartida da circuncisão na Nova Aliança? O texto mais citado para vincular a circuncisão e o batismo em água é Colossenses 2:9-12:

Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade; e estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade; no qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, pela circuncisão de Cristo; sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.

Este texto, no entanto, tem sido mal interpretado por muitos pedobatistas pactuantes.

Paulo ensina que todos os Cristãos têm recebido a circuncisão, a circuncisão de Cristo. O que é “a circuncisão de Cristo”? Isso pode ser interpretado como a morte de Cristo objetiva-mente ou a circuncisão do coração do crente por Cristo. De qualquer forma, Paulo está falando da maneira pela qual o crente tem sido “também circuncidado” através da morte e ressurreição de Cristo. Por causa da morte de Cristo, recebemos uma circuncisão melhor do que a dos Judaizantes, “…no despojo do corpo dos pecados da carne [...] Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé [ênfases adicionadas] no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” (Colossenses 2:11-12).

Aqui está um vínculo definitivo entre circuncisão e batismo. Os Cristãos têm sido circuncidados “também” por serem sepultados com Cristo no batismo. Mas Paulo está se referindo apenas à água real do batismo como o cumprimento direto da circuncisão? Citando Paulo: “De modo nenhum!”. Esta circuncisão realizada é “feita sem mãos”. Não há mão humana envolvida na sua administração, seja por faca ou pela água. Sua definição completa do cumprimento Cristão da circuncisão é “no despojo do corpo dos pecados da carne… Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé [ênfases adicionadas] no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” (Colossenses 2:11-12).

Para resumir, a circuncisão do Cristão é aquela união com a morte e ressurreição de Cristo, simbolizado pelo batismo, o que é evidenciado pela fé exterior! Os versículos 13 e 14 também apoiam este ponto de vista, definindo os que receberam a “circuncisão”, como aqueles que realmente experimentaram o novo nascimento e a remissão dos pecados. Esta nova vida de fé é a circuncisão do coração na Nova Aliança “a circuncisão de Cristo”, que cumpre o tipo da circuncisão na Antiga Aliança. Somente essas pessoas estavam “sepultadas com Cristo no batismo”, de acordo com esta passagem, porque seu coração havia sido circuncidado; e isso era exibido por sua fé. Seu batismo em água simbolizava o precedente batismo espiritual.

Alguns pedobatistas consideram a união com Cristo no batismo em Romanos 6:3-4 como referência secundária ao batismo em águas, considerando-o principalmente uma referência à regeneração. No entanto, contraditoriamente, eles usam o mesmo conceito de união com Cristo no batismo em Colossenses 2:11-12 como referência principal para a relação do batismo em águas para a circuncisão, em vez de sua clara intenção de relacionar a circuncisão à regeneração. Minha conclusão é que Paulo definiu a circuncisão dos Cristãos em Colossenses 2:9-12 principalmente como a união com Cristo pela fé, secundariamente simbolizado no seu batismo em água, como em Romanos 6:3-4.

Se a circuncisão é o sinal e selo da aliança Abraâmica, qual, então, é a sua contrapartida na Nova Aliança? Eu acredito que as Escrituras a definem como a circuncisão do coração pelo Espírito exibida em fé. É por isso que Paulo proibiu a circuncisão física. Eles haviam recebido a sua realidade no novo coração (Gálatas 3:3). Paulo diz aos Gálatas que eles não precisam da circuncisão para entrar na relação de aliança com Deus, porque já entra-ram naquela relação de aliança pela circuncisão de Cristo, um novo coração, pela união com a Sua morte e ressurreição. Portanto, como a circuncisão (a sombra ou tipo) era o sinal de entrada no Pacto de Abraão e o selo da fé salvadora de Abraão, assim a regeneração (a substância ou antítipo) é o sinal de entrada na Nova Aliança e o selo da fé do crente (Efésios 1:13-14; João 3:5-6).

O batismo então, é o cumprimento indireto da circuncisão física somente através de sua associação com o cumprimento direto, a circuncisão espiritual. É por isso que vemos somente batismo de confessores no registro do novo Testamento. Era fácil saber quem entrava no Pacto de Abraão; eles eram nascidos na casa e eram circuncidados exteriormente. Mas como se pode saber se alguém entrou na Nova Aliança e passou pela circuncisão espiritual? Somente pelo seu arrependimento e fé, simbolizados pelo sinal exterior da circuncisão e purificação realizadas, o batismo em águas. Atos 2:37-42 é a prova exegética clara que os únicos batizados foram aqueles que receberam a palavra de Pedro em arrependimento e fé em Cristo (Atos 2:38,39,41). Eles demonstraram exteriormente a circuncisão interior, e, em seguida, eram batizados. É assim que Cristo ordenou construir a Sua Igreja (Mateus 16:16-18; 28:19).

O batismo em água, então, é o sinal exterior da circuncisão interior do coração, em vez de ser a contrapartida exterior da circuncisão exterior, na carne. Assim como a “semente” de Abraão na Antiga Aliança entrava inicialmente na aliança pela circuncisão física e o confirmava pela circuncisão espiritual, a sua “semente” na Aliança Nova inicialmente entra no pacto pela circuncisão espiritual e a confirma através do batismo. Aos descendentes físicos da “semente” de Abraão na Nova Aliança não deve ser permitido o sinal do batismo até que eles demonstrem pela fé que eles também se tornaram a “semente” espiritual de Abraão. O livro de David Kingdon, “Children of Abraham” (Filhos de Abraão), é um estudo mais aprofundado desse conceito. A regeneração pelo Espírito, e não o batismo da “semente” infantil de crentes é o cumprimento da promessa de dar uma multidão de nações a Abraão como seus descendentes. A fé vem primeiro como a evidência de regeneração, em seguida, vem o batismo, e não o contrário.

 

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A Terceira Pérola

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Textos Específicos de Prova

Tendo concluído, até agora, que a “semente” de Abraão na Nova Aliança consiste somente daqueles “da fé” e do Espírito, e que a circuncisão da Nova Aliança não é a de Abraão, mas a circuncisão de Cristo na regeneração, evidenciada pela fé e externamente simbolizada pelo batismo, permita-me agora lidar com a pérola de específicos textos de prova que têm sido utilizados para apoiar o batismo de crianças da aliança.

Atos 2:39

“Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar”. Este é um texto fundamental para o batismo infantil. Pedobatistas como Berkhof, Murray e Marston às vezes cortam o texto em “A promessa é para vós e para os vossos filhos…”, exclamando que esses Judeus assumiram imediatamente que o sinal pactual do batismo era para seus filhos. No entanto, o texto também inclui “todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar”. Duas coisas devem ser definidas neste texto: (1) qual é a “promessa”, e (2) quem deve recebê-la?

Primeiro, a palavra epaggelia (promessa) no v. 39 é usada no contexto para identificar a promessa do Espírito Santo, através da mediação de Cristo, evidenciada exteriormente através do arrependimento e fé (v. 38; veja também Lucas 24:49; Atos 1:4 e Atos 2:33). Se alguém aponta que estes eram Judeus que pensariam de imediato sobre a promessa feita a Abraão e sua “semente”, ele estaria certo. Pois nós encontramos que a “promessa” a Abraão incluía o derramamento do Espírito em sua “semente”, Judeus e Gentios (Gálatas 3:14), dado apenas para aqueles que creem (Gálatas 3:22).

Indo mais longe, somos herdeiros de acordo com a “promessa” e descendência de Abraão se e somente se nós pertencemos a Cristo (Gálatas 3:14,29). Romanos 4:16 afirma que a “promessa” a Abraão é assegurada a todos e cada um da “semente” de Abraão, Judeus e Gentios, pela fé, para que seja segundo a graça e não segundo a carne. Romanos 9:6-8 declara que é somente os filhos da “promessa” (ou seja, regenerados pelo Espírito Santo), que são considerados como “semente” de Abraão e o verdadeiro Israel. E isto está no contexto da eleição soberana, que determina quem recebe a “promessa”, até mesmo dentro da família da aliança de Isaque.

Para resumir: a “promessa” feita a Abraão que ele se tornaria “o pai de muitas nações” se cumpre na Nova Aliança pelo seguro derramamento do Espírito prometido sobre a sua “semente” que vêm a Deus através do arrependimento e fé na mediação perfeita de Jesus Cristo. Somente aqueles que recebem a “promessa” do Espírito através do arrependimento e fé em Cristo são verdadeiramente a “semente” de Abraão e “herdeiros”. Somente estes têm o direito ao sinal da Nova Aliança, que é o batismo.

Mais uma vez, a quem é oferecida a promessa do Espírito, por meio do arrependimento e da fé em Cristo em Atos 2:38? A todos aqueles mencionados no versículo 39, “a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar”. Mas essa é uma garantia indiscriminada que cada um daqueles mencionados certamente receberá a promessa? Não. Apenas “a quantos Deus nosso Senhor chamar”. Aqui está a condição para receber a promessa: o chamado eficaz de Deus.

A verdadeira questão é, a quem hosous an (a quantos) se refere? Será que hosous an (a quantos) refere-se apenas “os que estão longe” (geralmente entendidos como uma referência aos gentios), ou refere-se a toda a frase, incluindo “a vós, a vossos filhos”? De acordo com o léxico Grego por Arndt e Gingrich, hosous an introduz uma cláusula relativa condicional que denota a ação do verbo como dependente de alguma circunstância ou condição. Ou seja, nomeadamente, a vontade soberana de Deus no chamado eficaz expressa no subjuntivo de proskaleo (pode chamar). Hosous é o plural masculino acusativo para o verbo proskaleo. E desde teknois, humin e pasin (filhos, vós e todos) são coletivamente oferecidos a promessa pela utilização da conjunção kai (e), nós podemos referir a esses três plurais dativos como o objeto indireto composto. Além disso, como teknois e pasin são masculinos, hosous an (a quantos) pode legitimamente modificar ambos. Portanto, a todas as três classes são oferecidas a promessa do Espírito através do arrependimento e fé. No entanto, em hosous an, a condição do recebimento por todos os três devem depender do soberano chamado eficaz de Deus. Não há maior promessa para os filhos daqueles a quem se dirigia do que aos pais Judeus e Gentios presentes. Nem todos aqueles endereçados receberam a promessa e foram batizados, mas apenas aqueles que “receberam” a palavra de Pedro em arrependimento e fé, pelo chamado eficaz de Deus, incluindo os filhos (2:41).

Uma objeção à minha linha de raciocínio é que não haveria necessidade de mencionar “e a vossos filhos”, se eles devessem receber a mesma promessa como seus pais teriam sido incluídos no “vós”, que se dirige à multidão. Portanto, o argumento segue, a menção de “e a vossos filhos” é uma prova da continuação do conceito de família da aliança e da aplicação do sinal do pacto sobre os filhos da mesma. No entanto, a simples menção de filhos como uma categoria separada indica que o apóstolo queria enfatizar que não houvesse mal-entendido, de forma que eles não recebessem o batismo, a menos que eles se arrependessem e cressem como o versículo 38 exige claramente. A segunda resposta a essa objeção é que todos aqueles que eram batizados participavam da Ceia do Senhor imediata-mente depois (v. 42). Se os filhinhos fossem batizados com seus pais, eles também participariam do partir do pão? A objeção não se sustenta.

Outra objeção comum define que Atos 2:39 deve primeiro ser lido através dos olhos da Aliança Abraâmica. Entretanto, é minha convicção de que a revelação mais completa da Nova Aliança deve definir como a Aliança Abraâmica é cumprida, ao invés de deixar a Aliança Abraâmica interpretar a revelação do cumprimento da Nova Aliança. É um princípio de interpretação que está em questão aqui. Nós ensinamos este princípio às nossas crianças, descrevendo a relação entre os Testamentos, com um pouco de rima:

O Novo está no Antigo velado.
O Antigo está no Novo revelado.

Atos 2:38-39 e 41 apoiam o princípio de que a revelação da Nova Aliança deve definir os participantes de seu cumprimento na Nova Aliança do Pacto de Abraão e não vice-versa. Apenas aquelas crianças no meio da multidão que receberam a palavra de Pedro foram batizadas. Não há outra possibilidade exegética no texto e contexto.

Independentemente da sua idade, apenas aqueles que receberam a palavra de Pedro e reivindicaram a promessa de Deus foram batizados. Não há nenhuma menção nesta passagem de bebês sendo batizados juntamente com seus pais. Na verdade, essa passagem depende explicitamente da recepção da promessa do Espírito sobre o soberano chamado eficaz de Deus, que é evidenciado pelo arrependimento e fé. Estes e somente estes foram batizados em comunhão da igreja.

Atos 2:39 define o cumprimento da “promessa” apenas naqueles que são eficazmente chamados por Deus, aqueles que recebem a Palavra em arrependimento e fé. Somente estes devem ser batizados.

Os Textos de “Batismos de Casas”

A questão do batismo de casas tem sido muito utilizada para apoiar o pedobatismo. Estes são os batismos das casas de Cornélio, de Lídia, do carcereiro de Filipos, Estéfanas e Crispo.

A Casa de Cornélio (Atos 10:22; 11:12,14)

O relato de Pedro pregando o evangelho à casa de Cornélio não apoia o batismo infantil. Pedro pregou o evangelho a toda a casa, e “toda” a casa foi salva. Como sabemos disso? Atos 10:44 e 11:15 o testificam. O Espírito Santo desceu sobre “todos” eles e levou-os ao arrependimento e fé (11:17-18). Na verdade, Pedro explicitamente declarou em 10:47 que ele batizou somente aqueles que “também receberam como nós o Espírito Santo”. Esta extensão do Pentecostes para os Gentios claramente definiu quem foi batizado. Não há nenhuma menção de infantes no domicílio, mas somente aqueles que “ouviam a palavra” (10:44). Bebês podem ser regenerados por Deus (por exemplo, João Batista), e alguns podem ter estado presentes. Mas eles não são capazes de ouvir o evangelho e de “falar em línguas e magnificar a Deus” (Atos 10:46). Apenas as pessoas que fizeram isso receberam o batismo como um sinal da “promessa” Abraâmica do Espírito (Gálatas 3:14). Concluo que o episódio na casa de Cornélio não apenas não apoia o batismo infantil, mas também é um forte indicador para o batismo de discípulos/confessores.

Casa de Lídia (Atos 16:15)

O caso de Lídia é inconclusivo. Onde estava o marido de Lídia? Ela pode não ter se casa-do de modo algum. Apenas mulheres são mencionados na margem do rio. E parece que ela e sua família foram batizados no rio antes que ela levasse Paulo de volta para sua casa. Isso abre a possibilidade de que haviam apenas mulheres em sua casa (cada membro que esteve, provavelmente, na margem do rio com ela), e que ela era uma comerciante solteira ou viúva. Mesmo que isso não seja inteiramente exato, não há nenhuma menção de bebês ou crianças mais velhas em sua casa. Mesmo muitos pedobatistas tomam esta instância de batismo de casas como inconclusiva para a posição deles.

Casa do Carcereiro de Filipos (Atos 16:30-34)

O relato do carcereiro de Filipos é provavelmente a melhor possibilidade para a inclusão de infantes no batismo de casas. Toda a sua casa foi batizada, mas é errado aplicar a promessa do versículo 31 ao “batismo da aliança” à família baseada na fé do carcereiro. Isto é claramente demonstrado nos versículos seguintes, onde está registrado que Paulo e Silas pregaram o evangelho “a todos os que estavam em sua casa” (v. 32) e que “toda a sua casa” (v. 34) acreditou em Deus com ele.

Há um problema de tradução com este texto que precisa ser examinado. J. A. Alexander (Atos) concorda que o v. 31 é simplesmente uma promessa de salvação pela fé para o carcereiro e sua família sobre a crença por ambos. O versículo 34 é mais complicado. As traduções NVPA, NVI, VKJ, Williams, e Beck indicam que a fé que foi compartilhada por toda a sua família foi a base para a alegria deles “tendo crido em Deus… com toda a sua casa”. No entanto, o particípio é masculino, singular e parece descrever a fé do carcereiro: “ele se alegrou muito com toda a sua casa, tendo crido [isto é, o carcereiro] em Deus”. A ênfase parece ser que a família se alegrou com ele porque ele havia crido fé (RSV, NEB).

Mesmo que a última interpretação seja correta, ainda temos o problema da alegria dos infantes. É verdade que as crianças podem detectar e participar da alegria em uma casa. Mas infantes podem se alegrar porque eles percebem que o pai creu em Deus? Esta pode muito bem ser a base para a alegria de toda a família. No entanto, por causa do contexto de pregação da Palavra a todos na casa e porque todos foram consequentemente batiza-dos, eu creio que a alegria deles era a mesma do regozijo do carcereiro, a evidência de uma fé recém-encontrada e redenção expressa na alegria da regeneração pelo Espírito Santo. Porque todos eles ouviram o evangelho, foram batizados, e se alegraram, é uma conclusão legítima de que todos eles creram. Ele e “toda a sua casa” foram batizados porque todos creram. Infantes podem ouvir a Palavra e responder em fé? Não. Se crianças estavam presentes, sobre o que não há nenhuma prova, o contexto nega que elas foram batizadas. De fato, o contexto sugere que nenhum infante estava presente. Este caso de batismo de casa realmente dá apoio ao batismo de confessores.

Casa de Crispo (Atos 18:8)

Um caso relatado que apoia a mesma conclusão, refiro-me à família de Crispo. Aqui há um relato definitivo a respeito do batismo, no qual toda a família, juntamente com Crispo, creu no Senhor. Também deve ser notado que, no mesmo versículo, os outros Coríntios que foram batizados, primeiramente creram. Parece evidente que toda a família creu em primeiro lugar e, depois, foram batizados. Este caso também apoia positivamente o batismo de confessores dentro das famílias.

Casa de Estéfanas (1 Coríntios 1:16)

O último batismo de casas mencionado no Novo Testamento é o de Estéfanas, por Paulo. A ênfase deste texto é que os crentes batizados estavam em divisão e controvérsia sobre quem os batizara. Parece que eles eram capazes de saber quem os batizou, excluindo assim as crianças. Além disso, 1 Coríntios 16:15 descreve a “família de Estéfanas” como tendo se dedicado ao ministério aos santos. Os bebês não podem conscientemente dedicarem-se de tal maneira. No entanto, mesmo se isso não impede as crianças na família de Estéfanas, o máximo que se pode dizer é que não sabemos se as crianças estavam presentes. Na melhor das hipóteses, esse relato não é conclusivo para o batismo infantil.

Em resumo, os relatos das casas de Lídia e Estéfanas não são conclusivos, enquanto que os relatos das casas de Cornélio, Crispo e do carcereiro de fato apontam para a crença consciente e regeneração antes do batismo. Portanto, concluo que o peso dos batismos de casas inclina-se para o batismo de confessores.

 

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A Quarta Pérola

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A Atitude de Jesus para com as Crianças

Um conjunto de textos de prova tem sido muitas vezes usado para indicar que Jesus ensinou a inclusão de filhos dos crentes na Aliança da Graça. Estas são as passagens que mostram Jesus com as crianças.

 

Mateus 18:1-10

O primeiro conjunto de passagens consiste de Mateus 18:1-10, Marcos 9:33-37 e Lucas 9:46-48. Em cada uma delas, Jesus pôs uma criança diante de Seus discípulos para ensinar-lhes uma lição. O problema contextual era a arrogância deles ao discutir qual era o maior discípulo. Em Mateus 18:2 vemos que paidion (menino) respondeu ao chamado de Jesus no verbo proskalesamenos (chamando a Si mesmo). Este é o mesmo verbo de Atos 2:39, que condiciona a recepção da promessa de Deus por meio do arrependimento e da fé pelo chamado eficaz de Deus. Isto significa que o menino não era um bebê, mas que foi capaz de responder ao chamado de Jesus.

Neste contexto, Jesus ensinou três coisas aos Seus discípulos. Primeiro de tudo, eles devem ser convertidos e tornarem-se “como meninos” para entrarem no reino dos céus. O uso da criança como uma ilustração de sua humildade necessária é claramente precedido pela necessidade de conversão para entrada no reino dos céus (18:2-5). Esse uso passivo de strepho (converter ou mudar) estabelece um requisito para entrar no reino dos céus que é semelhante ao novo nascimento em João 3. Suas reivindicações vãs de grandeza traíram seus corações orgulhosos.

Jesus definiu o que Ele quis dizer no versículo 3 pelo inferencial oun (portanto) do versículo 4. Eles devem ser convertidos e humilharem-se “como meninos” para entrarem e serem grandes no reino dos céus. Esta criança veio a Jesus em Seu chamado sem levar em conta qualquer coisa dentro de si mesmo; ele veio humildemente.

Em segundo lugar, Jesus ensinou aos discípulos que eles devem receber até mesmo crianças que vêm a eles, como recebendo a Ele mesmo. Eles devem honrar o menor entre eles como eles honrariam o próprio Cristo, em vez de pensarem de si mesmos como sendo os maiores (cf. Jeremias 31:33,34; Mateus 11:11).

Em terceiro lugar, Jesus ensinou aos discípulos que escandalizar um “destes pequeninos que creem em Mim” era uma ofensa contra Deus e acarretaria a Sua ira. Estas passagens não têm nada a ver com os infantes no pacto porque este paidion (menino) respondeu ao chamado de Jesus, proskaleo, como um crente nEle. Esta humilde submissão da criança a Cristo como Senhor era o que Ele estava tentando ensinar aos Seus discípulos a respeito das atitudes e disposições que caracterizam o Seu reino. Não é nenhuma instância de algum apoio ao batismo infantil.

Mateus 19:13-15

Um segundo conjunto de passagens tem sido objeto de apelo mais frequentemente como um apoio aos privilégios no batismo de infantes na aliança: Mateus 19:13-15; Marcos 10:13-16 e Lucas 18:15-17. Os discípulos repreendiam as pessoas por trazerem os meninos a Jesus. Em Lucas 18:16 lemos que Jesus chamou os meninos para Si (proskalesamenos), “chamando-os para si” (esta é a mesma palavra encontrada em Atos 2:39), assim como Ele fez nas anteriores passagens citadas. Em seguida, Ele ordenou os discípulos a não impedirem as crianças de virem até Ele.

Embora alguns apontaram que Lucas chama os meninos mencionados nesta passagem de brephe (infantes), ainda assim o pronome reflexivo auta (eles) define aqueles que foram impedidos de chegar a Jesus como os brephe, não os pais que os estavam trazendo. O contexto define esses “meninos” como capaz de responder ao chamado de Jesus. Além disso, deve-se salientar que Paulo lembrou a Timóteo que ele conhecia as Escrituras desde brephous (um bebê), ou seja, desde a infância. Isso mostra que brephe pode ser usado para descrever uma criança que tem idade suficiente para aprender as Escrituras. Essa criança certamente teria idade suficiente para chegar a Jesus quando chamada por Ele.

A cena parece ser que os pais traziam os filhos para serem abençoados, e em seguida, Jesus chamou as crianças para chegarem-se a Ele. Os meninos que vieram a Ele foram tocados e abençoados. Mais uma vez, Jesus ensinou que se deve “receber” o reino de Deus como uma criança o recebe para entrar no reino. Não há promessa aqui para essas crianças, a menos que elas venham a Jesus e recebam o Seu reino também. Na verdade, se alguma passagem da Escritura ensinasse a falácia do pedobatismo deveria ser esta. Nem Jesus nem os Seus discípulos batizaram estas crianças. Em vez disso, o Senhor as abençoou.

Em resumo, Jesus abençoou os filhos enquanto eles eram apresentados a Ele por seus pais. No entanto, nenhuma promessa de entrada no reino é feita para essas crianças, a menos que elas também venham a Jesus e recebam o Seu reino da mesma forma que adultos devem receber. O máximo que pode ser visto nestas passagens é que os infantes foram abençoados. Sem dúvida, não há nenhum apoio ao batismo infantil.

 

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A Quinta Pérola

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A Santificação dos Filhos dos crentes

“Mas aos outros digo eu, não o Senhor: se algum irmão tem mulher descrente, e ela consente em habitar com ele, não a deixe. E se alguma mulher tem marido descrente, e ele consente em habitar com ela, não o deixe. Porque o marido descrente é santificado pela mulher; e a mulher descrente é santificada pelo marido; de outra sorte os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos. Mas, se o descrente se apartar, aparte-se; porque neste caso o irmão, ou irmã, não está sujeito à servidão; mas Deus chamou-nos para a paz. Porque, de onde sabes, ó mulher, se salvarás teu marido? ou, de onde sabes, ó marido, se salvarás tua mulher?” (1 Coríntios 7:12-16).

1 Coríntios 7:12-16 é uma passagem frequentemente utilizada para ilustrar a situação especial dos filhos de crentes “na” Igreja e aliança da graça, e para defender o direito deles ao batismo, pela linhagem física. No entanto, há pelo menos mais duas explicações credíveis que permitem que as crianças sejam chamadas “santas”, e ainda impedir o direito ao batismo até que o arrependimento e fé sejam evidenciados.

Em primeiro lugar, o contexto dessa passagem em particular relaciona-se a um Cristão que é casado com incrédulo. Todo o contexto refere-se a Cristãos permanecendo na condição em que estão, quando eles são salvos (7:17-40). Eles deveriam permanecer casados ​​ou o Cristão deveria deixar o incrédulo? Paulo declara que eles devem permanecer casados porque Deus santifica o descrente. Toda a Escritura estabelece claramente que a única maneira pela qual alguém é salvo e, assim, “santificado” em sentido salvífico é pela fé pessoal e salvífica em Cristo. Nesta passagem, no entanto, Paulo está usando o termo “santificado”, no sentido de receber o reconhecimento Divino de um casamento legítimo. Este é o ponto principal!

Um ponto adicional de Paulo é que os filhos não são akatharta (impuro), mas hagia (santo) à luz da santificação do cônjuge incrédulo por sua relação com o crente. Muitos viram isso como uma referência para a posição especial dos filhos de crentes em relação a Deus. No entanto, o contexto e uso de akatharta (imundo) deve ajudar a definir o sentido de hagia (santo) aqui. O pensamento principal diz respeito ao reconhecimento do casamento por Deus. Se o casamento não fosse aceito por Deus, então seria ilegítimo e impuro, e assim seriam os filhos.

O único outro uso de akatharta no Novo Testamento, em referência a uma pessoa está em Atos 10:28. Ali Pedro disse a Cornélio, quando este ainda não era um crente em Cristo, que Deus o havia instruído a não considerar nenhum homem como akatharta. Embora Cornélio fosse temente a Deus, e pudesse ser chamado de “santo” por causa dos pais (Romanos 11:16), ainda assim ele não era “santo” em virtude de estar “dentro” da Nova Aliança, tendo, assim, o direito ao batismo. Aqui está um exemplo onde uma pessoa que não foi conside-rada impura e, possivelmente, “santa” por causa dos pais, contudo, ainda assim não estava “dentro” do pacto da graça.

Portanto, tanto o contexto quanto estudo da palavra sugerem que hagia (santo) referem-se à legitimidade ou sanção do casamento e dos filhos, em vez de, necessariamente, às promessas da aliança de salvação e santificação. Além disso, qual é a idade dos filhos deste casamento legitimado? Eles são crianças, adolescentes ou adultos? Se isso abre o caminho para o batismo pactual, todos os filhos que ainda vivem em casa devem ser considerados hagia (santos) e batizados em relação pactual, mesmo que sejam adolescentes ou adultos? Certamente não, de acordo com o restante das Escrituras sobre o batismo de confessores. Quaisquer tentativas arbitrárias para definir as idades de responsabilidade, a fim de limitar o batismo de criancinhas nesta casa também encontram problemas. Ismael foi circuncidado aos treze anos, e Israelitas até quarenta anos de idade foram circuncidados por Josué (Josué 5). Nenhuma dessas situações exigiram uma boa confissão antes da circuncisão. Se 1 Coríntios 7:14 prescreve o batismo de filhos “santos” simplesmente por causa de sua descendência física, então até mesmo os filhos adultos devem ser incluídos. Diante dessas dificuldades, é melhor entender esta passagem como falando sobre a legitimidade dos filhos diante de Deus.

Em segundo lugar, existe uma alternativa para a posição de legitimidade que ainda não inclui qualquer dos cônjuges ou criança “na” da Nova Aliança.

A verdadeira questão aqui é como pode um cônjuge incrédulo ser “santificado”, e como pode o filho de um Cristão ser chamado de “santo” sob a administração da Nova Aliança da graça? Se o significado básico de ambas as palavras é “separado” para Deus, então, mais perguntas surgem a respeito de como cada uma das partes é “separada” para Deus e em que relação cada um está na Nova Aliança.

A maioria concorda que o cônjuge descrente não está na Nova Aliança até a regeneração (Atos 26:18). No entanto, Kline (Por Juramento Consignado, pp. 94-102) tem que ser um pouco arbitrário, a fim de explicar como a autoridade pactual conjugal do marido crente mudou a partir da inclusão de sua esposa na Antiga Aliança, enquanto ela não é incluída na Nova Aliança. No entanto, ele afirma que a autoridade parental e pactual do marido crente ainda é válida na Nova Aliança como base para que seus filhos estejam “dentro” da Aliança e recebam o batismo. Tal lógica intrincada é demasiado arbitrária para ser convincente. Em vez disso, parece que pela união com o crente, Deus reconhece o casamento como sagrado e promete aceitar o marido ou a esposa do incrédulo “separando” aquele casamento para cumprir Seus propósitos.

No caso dos filhos neste casamento misto, a maneira em que são “separados” é mais difícil de determinar. Dois textos frequentemente utilizados para apoiar a participação das crianças no cumprimento, na Nova Aliança, da Aliança Abraâmica são: Romanos 11 e Efésios. 6:1-4. Eles merecem nossa consideração.

Primeiro, Paulo declara em Romanos 11:16 que seus parentes na carne, os ramos atualmente cortados da participação na oliveira da Nova Aliança, são ainda “santos” porque sua raiz é “santa”. No entanto, esses “amados por causa dos pais” (v 28) serão enxertados novamente, se não permanecerem na incredulidade (v. 23). Aqui é o caso dos descendentes físicos de Abraão e das promessas da aliança (9:1-5) que embora “santos”, contudo não estão “na” Nova Aliança e Reino até que eles creiam. Aqui está um uso de “santo” aplicado à “semente” física aos que estão fora da Nova Aliança por causa da incredulidade deles. Isso apoia a visão de que os filhos de 1 Coríntios 7:14 podem ser considerados “santos” por causa de seus pais e sua herança nas bênçãos do evangelho e ainda não estarem “dentro” da Nova Aliança até que eles creiam. Portanto, eles podem ser considera-dos “santos”, como é a “semente” física de Abraão (Romanos 11:16), no entanto, serem impedidos quanto ao sinal da aliança até que eles professem arrependimento e fé.

Em segundo lugar, se estritamente dito (como muitos pedobatistas dizem) que os filhos de Efésios 6:1-4 foram abordados e aceitos como santos (1:1), também devemos dizer rigorosamente que eles haviam crido e foram selados com o Espírito Santo da promessa (1:13). Dificilmente este é um argumento sobre a inclusão de crianças na igreja, sem que também seja afirmado a regeneração e a conversão. O fato de que os filhos poderiam entender a exortação de Paulo, foram chamados de santos, e foram selados pelo Espírito, torna perfeitamente plausível que ele estava falando com filhos professos que eram membros reais da Igreja da Nova Aliança.

No entanto, também é possível que Paulo estivesse se dirigindo aos filhos na reunião da congregação que estava assentada sob a pregação da Palavra de Deus, embora eles ainda não estivessem pessoalmente “na” Igreja da Nova Aliança. Obediência ao quinto manda-mento é exigida de todos os filhos, crentes e não crentes, semelhantemente. Não é incomum que os pastores tratem as igrejas como os “santos” mesmo quando há uma criança na assembleia que não faz parte da igreja, e que possui pais descrentes. A exortação de Paulo é inaplicável a eles? Claro que não. Apelar para Efésios 6:1-4 como o ensino que as crianças não crentes são membros da Nova Aliança e da igreja é “agarrar-se em palhas”2.

Se vamos fazer dos filhos em Efésios 6 membros da igreja, há melhor prova de que eles são considerados crentes e, por isso, foram batizados (Efésios 1:13; 4:4-6.). O apelo inadequado para Efésios apoia apenas ainda mais a possibilidade de que os filhos a que se refere podem ser considerados “separados” como privilegiados por sua herança e exposição evangélicas, ainda assim, não estando realmente “na” Igreja da Nova Aliança, nem possuindo direito ao batismo.

A minha conclusão é que 1 Coríntios 7:14 está se referindo tanto à legitimidade dos filhos aos olhos de Deus, ou, no máximo, à sua “separada” posição por uma questão de herança evangélica dos pais, e não à sua participação na Aliança. E como podemos conceder dois significados distintos para a santificação dos filhos, por um lado, e não para o pai incrédulo, por outro lado, se não o fizermos de forma arbitrária? É impossível fazer o mesmo, exceto por um tratamento danoso ao texto. Este versículo não faz nenhuma menção do batismo pactual de infantes, mesmo que essa tivesse sido uma oportunidade perfeita para Paulo explicar esta prática àqueles Gentios Coríntios. O uso deste texto para apoiar o batismo infantil é completamente injustificado.

Depois de examinar a importante pérola dos textos de prova para o batismo infantil, eu prossigo com mais dúvidas do que provas. O que eu encontro com consciência honesta e transparente é que esses textos usados para tentar provar o pedobatismo apoiam o batismo dos crentes muito mais do que o batismo infantil.

 

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A Sexta Pérola

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A Disjunção do Batismo de João e Jesus e o Batismo Cristão

Muitas vezes existe uma tentativa de diferenciar a intenção e sujeitos dos batismos de João e de Jesus e a intenção e assuntos do Batismo Cristão. Esta é uma diferenciação anti-bíblica e errônea.

É geralmente admitido pelos Batistas e Pedobatistas que, semelhantemente, João batizou somente sob a condição de arrependimento (Mateus 3:6; Marcos 1:4) para remissão dos pecados. Atos 19:4 também revela que João encaminhou os homens a Jesus. Também está claro que os discípulos de Jesus somente batizaram aqueles que anteriormente haviam se tornado discípulos (João 4:1). Não há nenhuma menção, nem evidências para o batismo infantil dos filhos daqueles que eram feitos discípulos, nem nos batismos de João ou de Jesus. Qual, então, é a relação entre o batismo de João e de Jesus, e o batismo Cristão? E o que esta relação tem a nos dizer sobre o pedobatismo?

Uma questão que trata deste aspecto é esta: quem batizou os discípulos de Jesus no batismo Cristão? Não poderia ter sido Jesus (João 4:1-2). João batizou no mínimo André e outro discípulo (João 1:35,40), ainda assim, não há registro de rebatismo deles por Jesus ou por outras pessoas no dia de Pentecostes. Apolo é outro caso de um dos discípulos de João dos quais não há registro de rebatismo no batismo Cristão (Atos 18:24-28). De fato, no dia de Pentecostes, somente aqueles que conversavam com Pedro e que receberam a sua palavra foram batizados (Atos 2:37-42). Parece que os discípulos de Cristo e os 120 no cenáculo não foram rebatizados no batismo Cristão, pois teria sido repetitivo para esses crentes perguntar: “Irmãos, o que faremos?” Na verdade, estes 120 podem ter ajudado a batizar os 3.000 recém-convertidos.

O único caso possível para rebatismo no Novo Testamento está em Atos 19:1-7 (e Calvino discorda). Parece que estes discípulos batizados no batismo de João não receberam toda a mensagem de João sobre Jesus e o Espírito Santo quando foram batizados. Talvez a receberam posteriormente. Por isso, eles foram rebatizados em Cristo por Paulo. Calvino diz que esse rebatismo não foi necessariamente por água, mas pelo batismo de Cristo com o Espírito Santo. Ele aponta para a ação de Paulo de imposição de mãos e para o fato de nenhuma menção de água ter sido feita, para sustentar sua posição. Há muita discordância sobre este texto. Mas se dissermos que o batismo de João não era suficiente para o batismo Cristão, ainda temos os problemas apresentados pelo batismo de Apolo, que foi aparente-mente aceito por Áquila e Priscila em Éfeso, e pelo batismo dos fiéis antes do Pentecostes.

Não parece haver uma linha de demarcação entre o batismo de João, de Jesus, e o Cristão. Isto é ainda atestado pela verdade de Marcos 1:1, que define o início do evangelho de Jesus Cristo com a vinda de João no versículo 2, portanto, os sujeitos dos batismos evangélicos de João e de Jesus devem ser aplicados também ao batismo Cristão; ou seja, os sujeitos são limitados exclusivamente aos discípulos ou professos. Jesus afirmou isso na Grande Comissão, quando Ele deu a ordem de fazer discípulos de todas as nações, batizando e ensinando-”os” (Mateus 28:19). “Os” refere-se apenas àqueles que se tornam discípulos. Cada uso da palavra “discípulo” no Novo Testamento refere-se ao seguir consciente e intencional de um professo. Quando Cristo comissionou Seus seguidores para batizar discípulos, Ele estava estabelecendo ainda mais a prática do batismo dos crentes.

Pode-se acrescentar que Jesus definiu claramente a base para a construção de Sua Igreja em Mateus 16:16-19,24-26 por meio do evento da confissão de Pedro. Este também é um grande apoio para os sujeitos do batismo intencionados na Sua igreja na Grande Comissão. Se chamamos o batismo de uma instituição de Cristo para sinal exterior de admissão em Sua igreja confessional, não deveríamos também confiar em Seus preceitos instituídos sobre os sujeitos do batismo em vez de recorrer a uma dependência mui questionável da “boa e necessária inferência”? É minha crença de que as instruções Instituídas por Cristo para fundar Sua Igreja devem interpretar a aplicação do Pacto de Abraão ao batismo e não vice-versa, por meio de inferência.

Alguns tentaram negar que Jesus definiu o batismo de confessores apenas neste texto, afirmando que Suas palavras referem-se exclusivamente à instituição inicial do batismo. Portanto, se o raciocínio procede, nós deveríamos esperar um Cristo de ânimo missionário dando instruções para o batismo de confessores, naturalmente admitindo o batismo de suas crianças a seguir. No entanto, permanece o fato de que Cristo instituiu o batismo e o praticou (através de Seus discípulos) muito antes da Grande Comissão (João 4:1). Em seu batismo anterior, claramente foram batizados por Seus discípulos apenas aqueles que eram feitos discípulos, excluindo suas criancinhas. Se vamos supor que a Grande Comissão é a instituição oficial do batismo cristão, então o batismo de Cristo não era Cristão? E por que Ele não adicionou “batizando-os e aos seus filhos”? A prática e comando do batismo de Jesus, juntamente com João, nomeia os crentes, somente, como os sujeitos do batismo. Eu, por exemplo, não estou preparado para contradizer o ensino ou o exemplo de Cristo.

Concluo, então, que os batismos de João, de Jesus e o batismo Cristão não devem ser separados artificialmente, como tem sido feito muitas vezes. Não há nenhuma boa evidência dessa pérola nas Escrituras e, portanto, nenhuma evidência de que os sujeitos do batismo depois do Pentecostes fossem diferentes dos sujeitos anteriores. Em ambos os casos eles eram discípulos que creram.

 

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A Sétima Pérola

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O Argumento do Silêncio

Um dos argumentos mais utilizados para apoiar a prática do pedobatismo é o silêncio a seu respeito que aparece no Novo Testamento. A principal linha de raciocínio é assim: Era tão óbvio que uma parte do pacto de graça era administrar o sinal da aliança às crianças da aliança no Antigo Testamento que não havia nenhuma razão para mencioná-lo ou defendê-lo no Novo Testamento. Assim, supostamente, o caso é comprovado. No entanto, este princípio de hermenêutica que atrai “boas e necessárias inferências” a partir do silêncio pode ser bastante subjetivo e pode levar a erros mui rapidamente. É, evidentemente, um princípio legítimo se não houver nenhum preceito claro para contradizer a sua inferência. No entanto, o princípio regulador do culto reformado requer instituição positiva para os sacramentos (veja a Confissão de Westminster, capítulo 20, seção 5).

É minha disputa que este argumento para o pedobatismo não permanece quando analisado à luz de dois grandes princípios de hermenêutica: 1) o peso do preceito regulador e instituído, e 2), ironicamente, o próprio argumento do silêncio quando corretamente utilizado.

O Preceito Regulador

Consideremos o peso do preceito regulador. Se estivéssemos buscando por preceitos do Novo Testamento para o pedobatismo nossa pesquisa se provaria inútil. Como o grande teólogo Presbiteriano B. B. Warfield disse: “É verdade que não há nenhuma ordem expressa para batizar crianças no Novo Testamento, não há registro expresso de batismo de crianças, e nenhumas passagens tão rigorosamente implicando que devemos inferir a partir deles que crianças foram batizadas” (“Studies in Theology” [Estudos em Teologia], p. 399). Os reais preceitos relativos ao batismo só podem ser aplicados aos discípulos porque o arrependimento e a fé são necessários para o batismo na Nova Aliança. Muitos pedobatistas admitem isso. No entanto, o argumento pedobatista vai além ao concluir que uma vez que estes preceitos estão no contexto de uma igreja missionária, é lógico que haveria apenas chamadas para o arrependimento e a fé antes do batismo. Por isso, dizem eles, os preceitos de arrependimento e fé não se aplicam aos filhos dos crentes em uma igreja estabelecida. Para o pedobatista, seria necessário um preceito expresso que proibisse especificamente as crianças de receberem o sinal pactual do batismo, por causa do preceito anterior de Abraão. No entanto, esses mesmos pedobatistas (a saber, Berkhof e Murray) citam o comando para examinar a si mesmo como preceito suficiente, junto com o argumento do silêncio a respeito da comunhão pactual, para negar que as crianças não-regeneradas, que na aliança Abraâmica comeram a Páscoa no Antigo Testamento, comam a Ceia do Senhor, que é o cumprimento da Páscoa no Novo Testamento.

Esta inconsistência em empregar esse preceito proibitivo é exposto à luz de Atos 2:41-42, onde todos os batizados eram autorizados participar no partir do pão, a Ceia do Senhor. Se o batismo infantil for admitido em Atos 2, então assim também deve ser admitida a comunhão de infantes e bebezinhos. Foram muitos anos depois, quando os preceitos do autoexame por causa da participação irreverente foram dados. Assim, na posição pedobatista, há confusão sobre o fundamento para participação na Ceia do Senhor – é o batismo ou o autoexame? E como os anciãos sabem a quem a Ceia do Senhor deve ser servida se o fundamento principal é o autoexame? À luz dessas considerações, o preceito do auto-exame antes de participar da Ceia do Senhor (que é de fato legítimo) não se compara em força com os preceitos do arrependimento e da fé antes do batismo. Há uma grande incoerência aqui e grande perigo em ser arbitrariamente seletivo na aplicação destes princípios hermenêuticos.

Parece que há preceito muito mais conclusivo para excluir os filhinhos dos crentes do batismo do que da Ceia do Senhor. Os preceitos do batismo de confessores proíbem expressamente as crianças do sinal do pacto pela sua delimitação positiva de sujeitos confessores (Mateus 28:18-20). Deixar o silêncio a respeito do batismo infantil subjugar os preceitos claros sobre o batismo de confessores é um método hermenêutico perigoso e uma clara violação do princípio regulador do culto.

O Argumento do Silêncio

Na verdade, se o argumento do silêncio for aplicado de forma consistente, há um apoio maior para o batismo de discípulos. O concílio de Jerusalém em Atos 15 foi chamado para lidar com os Judaizantes, que requeriam a circuncisão para os novos Cristãos. A resposta do conselho relativo à circuncisão foi que somos salvos pela graça, sem circuncisão (15:11), e que é bom abster-se “das contaminações dos ídolos, da fornicação, do que é sufocado e do sangue” (v. 20). Se o batismo for a contrapartida direta da circuncisão, por que o conselho simplesmente não disse: “Vocês e seus filhos foram circuncidados no batismo de Cristo, e portanto, não precisam da circuncisão”? Aqui o argumento do silêncio fala contra o batismo como a contrapartida direta da circuncisão e em favor da salvação pela graça ou regeneração como contrapartida direta e ab-rogação (15:11).

Além disso, Paulo escreveu a carta inteira aos Gálatas para lidar com os Judaizantes, que estavam exigindo que a igreja da Galácia fosse circuncidada (Gálatas 5:2-3). Por que Paulo não simplesmente disse: “Depois de crer, vocês e seus filhos foram batizados; assim, vocês já receberam a contrapartida da Nova Aliança da circuncisão e não precisam mais disso?”. Aqui, novamente o argumento do silêncio fala contra o batismo como a contrapartida direta da circuncisão e fala a favor do recebimento do Espírito pela pregação da fé como sua contrapartida e fundamento para a revogação (Gálatas 3:2-3).

Uma objeção a esse argumento é que Paulo não alude ao batismo como a razão para não receber a circuncisão porque isso colocaria o batismo na classe de salvação pelas obras, como os Judaizantes alegavam ser o caso da circuncisão. Eu não concordo. Paulo poderia facilmente ter explicado que nem a circuncisão nem o batismo contribuem para a salvação de qualquer forma, mas o batismo em água é o cumprimento da circuncisão, e esta não é mais aplicável na administração da Nova Aliança. Mas Paulo não fez isso. Depois de afirmar claramente que a circuncisão não tem relação com a salvação, ele explicou que a regeneração é a resposta para os Judaizantes para a entrada à verdadeira circuncisão, o Israel de Deus (Gálatas 6:15-16; Filipenses 3:3). Todo o ensinamento de Gálatas é que não são os filhos da carne e circuncisão, mas os filhos da fé e regeneração que são o Israel de Deus e os verdadeiros filhos de Abraão (Gálatas 3:14, 29; 6:14-16). Assim, o argumento do silêncio no concílio de Jerusalém e em Paulo não favorece uma identidade direta da circuncisão na Nova Aliança com o batismo e, portanto, também não implica de modo nenhuma no batismo infantil.

Alguns tentaram legitimar o argumento do silêncio para o batismo infantil, alegando um silêncio do Novo Testamento a respeito, por exemplo, do Sabath Cristão e da admissão de mulheres à Ceia do Senhor. No entanto, o quarto mandamento foi ensinado por Jesus no Novo Testamento (Mateus 12, Marcos 2), e há referências explícitas ao Dia do Senhor como sendo observado pelos Cristãos no primeiro dia da semana (Atos 20:7; Apocalipse 1:10). Há também mais Existem princípios correlacionando os Dez Mandamentos à prática Cristã (Romanos 2:14-15; 7:7; 8:4; Jeremias 31:31-34). Além disso, quanto à admissão de mulheres à Mesa do Senhor, Paulo se dirige claramente a homens e mulheres na primeira parte de 1 Coríntios 11. Quando ele passa a discutir a responsabilidade de tomar a Ceia do Senhor corretamente, ele ainda está escrevendo, tanto para homens quanto para mulheres. Não há tais evidências bíblicas para o batismo infantil. Nestes dois casos, o argumento do silêncio não é tão silencioso quanto no caso do batismo infantil.

O argumento do silêncio é certamente um princípio hermenêutico legítimo, contudo a instrução clara sobrepõe supostas inferências lógicas. Pessoas como John Murray nunca seguiriam tal hermenêutica sobre outros assuntos. A minha conclusão é que a “pérola” do silêncio não é boa o suficiente para o cordão.

 

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A Oitava Pérola

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O Argumento das Bênçãos Ampliadas

Uma das grandes pérolas que brilha tão resplandecente quanto as demais encontra-se em perguntas retóricas, tais como: Se às crianças da Antiga Aliança fora concedido o sinal do pacto, nesta época de bênçãos ampliadas e cumprimento, da Nova Aliança, devemos proibir o sinal do pacto aos filhos dos crentes? Será que os nossos filhos da Nova Aliança são menos abençoados e privilegiados do que as crianças da Antiga Aliança? Tais ques-tões são certamente legítimas e estão no centro da questão do pedobatismo.

O poder principal de tais questões como um argumento decorre do fato de que nenhum Cristão quer proibir preciosos bebês das bênçãos de Deus ou limitar a bondade de Deus na concessão de favor às crianças. Estes pensamentos atraem nosso coração e nos constrangem a dizer “sim” ao sinal da aliança em nossos filhos. No entanto, a Palavra de Deus, e não nosso bem-intencionado sentimentalismo, deve determinar as respostas a tais perguntas como aquelas do parágrafo acima.

Se Deus assim deseja conceder a filhos físicos o sinal do pacto na sombra da Antiga Aliança e proibir o sinal do pacto aos filhos físicos no cumprimento da Nova Aliança, Ele tem o soberano direito de fazê-lo. Isso também não implica necessariamente que os nossos filhos da Nova Aliança são menos favorecidos ou menos bem-aventurados ao serem proibidos do sinal da Nova Aliança. Eu retoricamente respondo: São os nossos filhos menos abençoados e privilegiados por terem nascido de pais piedosos que manifestam a plenitude do Espírito, a qual não foi totalmente derramada no Pacto de Abraão? As nossas crianças são menos abençoadas em terem Cristo e este crucificado proclamado a eles desde a infância, em comparação com os tipos e sombras anunciados aos seus homólogos, no Velho Testamento? As nossas crianças são menos favorecidas tem nascido no Israel do Espírito, em comparação com as crianças criadas no Israel da carne? Acho que não.

Nossos filhos, acima de todos os outros do Israel da Antiga Aliança e do mundo presente, têm privilégios sem medida. Eles estão sendo criados em lares e igrejas, que estabelecem o Senhor crucificado e ressuscitado em glória diante deles como o seu pão de cada dia. O nosso gracioso Deus os escolheu acima das multidões que perecem nas trevas sem o evangelho, para ouvirem a mesma promessa que Ele soberanamente usou para trazer-nos para o reino eterno:

“E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo; porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar” (Atos 2:38-39).

Deuteronômio 30:6 é uma passagem interessante à luz de Atos 2:38 em diante, é a promessa de Deus de circuncidar os corações dos Israelitas e sua descendência depois que Ele trouxer do exílio profetizado. Ele parece estar se referindo à mesma promessa em Jeremias 31:31-34 e Ezequiel 36:25 em diante. Se considerarmos esta passagem como tendo sido cumprida na administração da graça da Nova Aliança, nós compreendemos corretamente que Atos 2:38,39,41 diz isso:

A promessa da circuncisão do coração é para vocês e seus filhos, a todos quantos o Senhor nosso Deus chamar para Si mesmo, como no mesmo caso, com os Gentios. Deus circuncidará os corações de filhos de acordo com Seu soberano chamado e eles podem receber o sinal da Nova Aliança da circuncisão do coração, com base em seu arrependimento e fé quando manifestos (v. 41).

Parece possível que Deus prometa chamar Seus eleitos dentre os filhos dos crentes, bem como dentre os Gentios, mas não podemos dizer que eles estão na Nova Aliança com o coração circuncidado e devem receber o seu sinal exterior até que eles se arrependam e creiam. Este conceito de eleição da “descendência” dos crentes é semelhante ao de Hoeksema (“Believers and Their Seed” [Crentes e sua Descendência]). No entanto, os preceitos do batismo e da aplicação do sinal da Nova Aliança, como ilustrados em Atos 2:38,39,41 nos impedem de aplicar o sinal da circuncisão do coração até que nossos filhos mostrem evidências de terem entrado na Nova Aliança (Jeremias 31:31-34).

Nossos filhos têm sido abençoados com o ouvir e memorizar da Palavra escrita de Deus, desde o berço. Eles têm sido abençoados com as orações e lágrimas de pais cheios do Espírito implorando pela regeneração e conversão de suas almas. Eles têm sido abençoados com as substâncias da Nova Aliança, em relação às sombras da Antiga Aliança, para atraí-los para Cristo. Podemos dizer que eles são menos favorecidos ao crescerem sob a semeadura da plena revelação do soberano plano de Deus? Não! Eles não podem ser considerados menos privilegiados, pois Deus soberanamente escolheu anunciar o evangelho da soberana graça para eles, enquanto muitos de nossa raça caída perecem a cada dia na ignorância e em trevas. Além disso, temos a promessa de Deus para implorar diante de Cristo, nosso Advogado pessoal, pelos nossos filhos:

“Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” (Isaías 55:11).

Pleiteemos a bondade de Deus para com Seu povo e clamemos ao Seu Espírito para semear a Palavra de vida nos corações de nossos filhos até que eles carreguem o fruto de uma regeneração em Cristo Jesus.

Nós, Cristãos, temos todos os motivos para dizer que os nossos filhos têm suas bênçãos ampliadas na Nova Aliança, mesmo que, na boa vontade de Deus, não devam receber o sinal exterior até que eles tenham uma profissão de fé. Não apelemos para a pérola brilhante das perguntas retóricas e sentimentais para anular a vontade revelada e preciosa de Deus na aplicação da Nova Aliança da soberana graça. Em vez disso, proclamemos o evangelho da graça para os nossos filhos, implorando que Deus tenha misericórdia deles.

  

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A Nona Pérola

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O Testemunho da Tradição

A tradição é a última e menor pérola que é enfiada no cordão pedobatista. No entanto, muitas vezes em polêmicas pedobatistas, ela é tratada como se fosse a maior. Mas se a Escritura é a nossa única regra de fé e prática, então o papel da tradição deve ser apenas o de esclarecer e confirmar o que a Escritura claramente estabelece. Duas áreas atraen-tes da tradição são o batismo de prosélitos Judeus e prática da igreja primitiva de acordo com os pais apostólicos. Em ambas as tradições, T. E. Watson apresentou o resumo mais incisivo.

Primeiro de tudo, Edersheim (“Life and Times of Jesus the Messiah” [Vida e Tempos de Jesus, o Messias], vol. 2, p. 746) e Berkhof (Teologia Sistemática, p. 622), ambos admitem que prosélitos Judeus e seus filhos de até doze anos de idade eram batizados no Judaísmo. No entanto, as crianças ainda não nascidas, no ventre da mãe batizada não eram batizadas após o nascimento, como se elas já fossem consideradas limpas e uma parte de Israel. Se apelarmos para qualquer parte da prática do Judaísmo, temos de lidar com a idade tardia de crianças da família que recebem o batismo, bem como a proibição de batismo para os fetos no útero. Nenhuma dessas dificuldades presta qualquer tipo de apoio ao batismo infantil. Alguns estudiosos desconsideram por completo o batismo de prosélito Judeu no primeiro século. Certamente esse não é o apoio para o batismo infantil.

Em segundo lugar, a menção explícita mais antiga que temos de batismo infantil nos escritos didáticos da igreja primitiva é de Tertuliano, por volta de 200 d.C. Nesta passagem, ele exorta o adiamento do batismo, especialmente de crianças pequenas, de modo que o seu significado seja plenamente cumprido. Isso, é claro, admite que crianças pequenas ou bebês estavam sendo batizados em sua época. Mas isso está longe de consentir que esta era uma tradição apostólica.

Orígenes, Agostinho, e muitos outros posteriores a eles dizem que era costume apostólico batizar crianças. É provável que Orígenes foi batizado como uma criança em 185 d. C. Ele afirma que esta foi a tradição, transmitida desde os apóstolos. Irineu mencionou as fases da vida, desde a infância até a velhice como os estágios em que Cristo passou para salvar todos aqueles que nasceram de novo em todas as idades, assim, possivelmente aludindo ao batismo de crianças pela tendência dos pais da igreja de identificar o batismo com a regeneração. Assim, parece que a partir da segunda metade do segundo século da Reforma, no século XVI, o batismo infantil foi aceito como uma tradição apostólica.

No entanto, Irineu também afirmou em sua possível referência ao batismo que ele havia recebido uma tradição apostólica que Jesus teve de quarenta a cinquenta anos de idade, contrariando o registro bíblico. Também sabe-se que os pais da igreja têm reclamado muitas outras tradições apostólicas que são infundadas. De fato, Tertuliano é frequentemente reconhecido como um acérrimo defensor da tradição apostólica. Mas por que ele não defendeu o batismo de crianças, se esta é uma tradição apostólica? Tal testemunho não pode ser considerado conclusivo se não for bem fundamentado nas Escrituras.

Apelo também pode ser feito a uma fonte muito mais primitiva, ou seja, a Didaqué (100-125 d.C.). Este manual da igreja primitiva oferece instrução apenas para o batismo dos catecúmenos. O seu silêncio sobre o batismo infantil é ensurdecedor. Isto é especialmente assim por causa da reivindicação pedobatista que a igreja “missionária” de Mateus 28:18-20 apenas registra o batismo de discípulos inicialmente, mas que o batismo infantil veio depois. Mas, por que então o batismo infantil não foi mencionado neste manual eclesiástico? Tanto quanto sabemos sobre a Bíblia e a Didaqué, é que não foi mencionado porque não era praticado.

As primitivas referências didáticas claras para o batismo são ou silêncio sobre ou a negativa para o batismo infantil. Não posso permitir que tal evidência incerta da tradição interprete a Escritura ou tradição apostólica para mim. Tradição, como muitos pedobatistas concordam, pode oferecer provas confirmatórias somente se o batismo infantil for primeiramente encontrado na Bíblia. No entanto, enquanto eu olho através da perspectiva das Escrituras, a pequena pérola da tradição diminui de tamanho e desaparece de vista.

 

Conclusão

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O Cordão Sem Pérolas

 Como eu já examinei cada pérola no cordão, eu saio, na melhor das hipóteses, com um colar de joias desbotadas e ausentes. Na realidade, eu confesso que eu fiquei com um cordão vazio chamado “boa e necessária inferência” que não me faz nenhum bem para mostrar a beleza do batismo Cristão. Ele é um fio de barbante em volta do pescoço de uma princesa.

Eu não posso construir a minha doutrina em um cordão vazio. Portanto, eu aceito a única pérola de valor inestimável do batismo de discípulos e o uso em minha mão como um sinal de meu casamento com Cristo. O batismo é o sinal exterior da entrada na Nova Aliança, a circuncisão interior do coração, evidenciada por sua confissão de fé em Cristo. Infantes do Antigo Testamento entraram na aliança Abraâmica, a circuncisão da carne. Se eles viessem à fé, isso se tornava um selo da justiça da fé, como foi com Abraão (Romanos 4). Agora, os nossos filhos da Nova Aliança entram na Nova Aliança, a circuncisão do coração, selados pelo Espírito Santo e o simbolizam pelo sinal do batismo de discípulos.

Alegro-me de ver um reavivamento de crenças Reformadas em nossas igrejas Batistas em todo o país. Batistas estão redescobrindo suas raízes Reformadas. No entanto, a obra da restauração da verdade Bíblica custou a muitos pastores seus empregos e a paz de espírito de suas famílias. Em amor, eu desafio as pessoas com convicções Batistas a não aceitarem muito rapidamente um refúgio acolhedor nas igrejas pedobatistas. Permaneçam firmes para, com os Batistas, “confirmar os restantes” [Apocalipse 3:2], em vez de fugirem para o que parece ser um ambiente mais acolhedor.

É triste ver pastores Batistas e leigos encobrirem o batismo, a fim de servirem em igrejas Pedobatista. Antes que qualquer mudança seja contemplada, a Palavra de Deus deve ser estudada sobre o assunto, com diligência e honestidade. Pastores fazem votos sobre tais coisas. Os Batistas hoje precisam de sacrificiais Luteros, Calvinos e Bunyans em nossos púlpitos e bancos para que considerem o custo da construção de igrejas Biblicamente Reformadas e Batistas, de discípulos fiéis. Isso deve ser feito. Isso pode ser feito. E pela graça de Deus, isso está sendo feito, com frequência cada vez maior em todo o mundo.

Finalmente, depois de termos passado por tantas lutas sobre a questão do batismo Cristão, só posso sinceramente implorar pela unidade e entendimento entre os Batistas e os irmãos pedobatista que detêm as grandes doutrinas da graça em comum para a glória de Deus em Sua igreja.

 

Bibliografia Selecionada:

Baillie, John, John T. McNeill, e Henry P. Van Dusen, eds. A Biblioteca de Clássicos Cristãos. Vol. XX-XXI, Calvino: Institutas da Religião Cristã, por João Calvino. Traduzido por Ford Lewis Battles. Philadelphia: Westminster Press, 1960.

Berkhof, L. Teologia Sistemática. Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1941.

Hoeksema, Herman. Crentes e sua Descendência. Grand Rapids: Reformed Free Publishing Asso., 1971.

Jewett, Paul K. Batismo Infantil e o Pacto da Graça. Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1978.

Kingdon, David. Filhos de Abraão. Sussex: Carey Publications, 1973.

Kline, Meredith G. Por Juramento Consignado. Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1968.

Marcel, Pierre Ch. A Doutrina Bíblica do Batismo Infantil. Traduzido por Philip Edgcumbe Hughes. Londres: James Clarke & Co., 1953.

Marston, George. Você é um Batista Bíblico? Panfleto.

Murray, John. O Batismo Cristão. Philadelphia: Presbyterian & Reformed Pub. Co., 1970.

Ridderbos, Herman. A Vinda do Reino. Philadelphia: Presbyterian & Reformed Pub. Co., 1962.

Robertson, O. Palmer. O Cristo dos Pactos. Phillipsburg, NJ: Presbyterian & Reformed Pub. Co., 1980.

Watson, T. E., Bebês Devem Ser Batizados? Grand Rapids: Guardian Press, 1962.

Warfield, B. B., Estudos em Teologia. Oxford University Press, 1932, Reedição, Baker Book House: Grand Rapids, MI, 1981.

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[1] Este próximo livro ao qual Malone se refere é o clássico Batismo de Discípulos Somente.
[2] Esta expressão no original “grasp at straws” denota “tentar usar qualquer método, mesmo aqueles que não são susceptíveis de ter sucesso, pelo fato de que você está em uma situação muito ruim – Fonte: Idioms.thefreedictionary.com – Nota de Tradução)

♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Torna-te Para Mim – Robert Murray M’Cheyne

“Lembra-te destas coisas, ó Jacó, e Israel, porquanto és meu servo; eu te formei, meu servo és, ó Israel, não me esquecerei de ti. Apaguei as tuas transgressões como a névoa, e os teus pecados como a nuvem; torna-te para mim, porque eu te remi” (Isaías 44:21-22)

Nestas palavras Deus contrasta a condição do Seu povo eleito com a dos pobres idólatras cegos que haviam sido descritos nos versos anteriores. Ah! meus amigos, aos olhos dos homens pode haver pouca diferença entre os filhos do maligno e os filhos de Deus; mas, aos olhos de Deus, eles são tão diferentes quanto o joio do trigo, como lírio do espinho. Sobre você que está sem Cristo, Deus diz: “Apascenta-se de cinza” (versículo 20); mas para vocês que são Seus filhos, “Lembra-te destas coisas, ó Jacó”. Que Deus abra os nossos olhos para ver as maravilhas de Sua Escritura!

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I.
Todos os que vêm a Cristo são perdoados: “Apaguei as tuas transgressões”. Versículo 22.

1. Observe a plenitude de Seu perdão: “Apaguei as tuas transgressões como a névoa”. Este perdão completo é demonstrado de muitas maneiras na Bíblia. (1) Ele é comparado com a mudança produzida nas roupas depois de uma lavagem: “ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve” (Isaías 1:18); e novamente: “Àquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados” [Apocalipse 1:5]. (2) É comparado com algo encoberto: “Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto” [Salmos 32:1]. E Jesus diz: “Aconselho-te que de mim compres… roupas brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez” [Apocalipse 3:18]. (3) Este perdão completo é comparado com algo que foi perdido. Ezequias diz: “lançaste para trás das tuas costas todos os meus pecados” [Isaías 38:17]; Micaías: “Tu lançarás todos os seus pecados nas profundezas do mar” [Miquéias 7:19]. Mas ainda assim eles podem estar próximos para sempre? Não, “assim como está longe o oriente do ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões” (Salmos 103:12). Mas e se Deus fosse procurar por elas? “Naqueles dias, e naquele tempo, diz o Senhor, buscar-se-á a maldade de Israel, e não será achada; e os pecados de Judá, mas não se acharão; porque perdoarei os remanescentes que eu deixar” [Jeremias 50:20]. (4) Este perdão completo é comparado a algo esquecido: “E jamais me lembrarei de seus pecados e de suas iniquidades” [Hebreus 10:17]. “De todas as transgressões que cometeu não haverá lembrança contra ele” [Ezequiel 18:22]. (5) Este perdão também é comparado a apagado. Apesar de seus pecados terem sido lavados, cobertos, perdidos, esquecidos eles ainda permanecerão no registro de Deus, mas como continuarão ali se foram “apagados”? Alguém dentre vocês acredita em Jesus, você toma o Filho de Deus como seu Fiador? Tome esta palavra para si mesmo. Veja o que acontecerá com a cédula em que os teus pecados estão escritos. Ela será como uma grande mancha, como uma nuvem espessa. Quando você olhar para estas nuvens, você pode ler algo escrito ali? Deus não pode mais ler qualquer um dos teus pecados ali, oh! crente em Jesus.

2. Observe, que o perdão acontecerá no presente. Não é, eu apagarei; mas, “apaguei”. Alguns dizem, eu espero que Deus me perdoe. Ah, meus amigos, vocês se confundem muito com a Bíblia, um perdão é oferecido para você agora no presente. No momento em que a alma se apega a Cristo, nesse momento está palavra se torna verdade a seu respeito: “Eu apaguei”. “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” [Romanos 8:1].

Pergunta. Será que Deus apagou os seus pecados? (1) A maioria diz: “eu não sei”. Eu nunca me perguntei sobre isso. Oh! pecador, se você nunca inquiriu, então eu vou responder por você: nenhum deles está apagado. Cada mau pensamento, palavra e ação que você fez, está escrito contra ti; um dia você encontrará com todos eles. Um coração enganado te desviou, e tu não sabe que há uma mentira na tua mão direita. (2) Dizem alguns: “é impossível responder a isso; eu nunca vi o livro memorial de Deus; como posso saber?”. É verdade, você nunca viu o livro memorial de Deus, e ainda assim há outro livro, e se você procurasse muito, e cresse na palavra que é dita a respeito de Jesus, você saberia que você está perdoado. Ah, sim! é completamente possível. Davi provou, e milhares desde Davi tem recebido, das mãos do Deus bendito, o perdão de todas as suas iniquidades. A mulher que tocou a orla do manto de Cristo sentiu dentro de si que estava curada. Ela não era médica, e ainda assim ela sabia que ela estava curada. Quando um homem tem um peso nas costas, se você o retira, ele o saberá imediatamente; semelhantemente quando uma alma oprimida vem a Jesus, ela encontra descanso.

3. Observe quem apaga: “Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim” [Isaías 43:25]. (1) Alguns tentam apagar os seus próprios pecados. “Eu me entristecerei e me arrependerei dos meus pecados”, diz um deles. “Eu vou apagá-los com lágrimas, vou orar a Deus, e cobrir meus pecados passados ​​com minhas orações fervorosas”, diz outro. “Vou consertar a minha vida e cobrir minha alma nua, com boas ações”, diz outro. Porém tudo isso é inútil; só Deus pode apagar pecados. Ou Ele apagará, ou os pecados não serão apagados: “Eu, eu mesmo, sou o que…”. (2) Alguns têm esperança de que Cristo apagará seus pecados, sem que o Pai saiba. Eles pensam que Cristo está muito disposto a ser um Salvador, mas não o Pai. Porém estão errados; Cristo e o Pai são um. Se você vir a Cristo, o próprio Deus vai dizer-lhe, “eu fiz isso”.

Uma palavra às almas não-perdoados: Homem infeliz! Você tem muitos prazeres e muitos amigos; mas de uma coisa você carece: o perdão dos seus pecados. Você não acha que seria mais feliz, que seu coração ficaria mais leve, se você fosse perdoado? Oh! quão miseráveis são todos seus labores e deleites diários, quando você sabe que o inferno está com a boca escancarada para você. Deus nunca apagou os seus pecados; mas você ainda pode ser perdoado: “A vós, ó homens, clamo; e a minha voz se dirige aos filhos dos homens” [Provérbios 8:4]. Venha a Cristo, e Deus é rico em perdoar.

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II.
Todos aqueles que vieram a Cristo são servos de Deus. “Porquanto és meu servo; eu te formei, meu servo és”. Duas razões são dadas: 1. “Eu te remi”. 2. “Eu te formei”. Em primeiro lugar, porque te remi. Quando um homem consente que Cristo seja seu Fiador, ele sente que não pertence a si mesmo, mas que foi comprado por bom preço, foi assim que Davi se sentiu: “Ó Senhor, deveras sou teu servo; sou teu servo, filho da tua serva; soltaste as minhas ataduras” [Salmos 116:16]. Assim, Paulo se sentiu, quando ele estava ofegante no chão: “Senhor, que queres que eu te faça?”. Antes da conversão, o não-convertido pensa que ele pertence a si mesmo: “não posso fazer o que quero com o que é meu?”. Ele era o escravo voluntário do Diabo. Mas quando ele vê o preço pago por ele, sente que o Senhor o redimiu da casa da servidão. Agora, ele diz: Eu sou do Senhor. Agora ele é mais o servo do Senhor do que jamais ele fora servo do Diabo. Oh! queridos Cristãos, eu gostaria de ver mais disso em vosso meio, devotai-vos ao Senhor: “Porquanto és meu servo; eu te formei, meu servo és”. Em segundo lugar, porque foste formado por Deus: “o Senhor que te criou e te formou desde o ventre” [Isaías 44:2]. Toda a obra da graça é obra do Senhor, e é maravilhoso aos nossos olhos. Paulo diz: “aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça, revelar seu Filho em mim” [Gálatas 1:15-16]; e Deus diz a Jeremias: “Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei” [Jeremias 1:5]. Deus marca os seus desde o ventre de sua mãe. Quando crianças, Deus entesoura cada oração por eles; cada lágrima da mãe, Ele coloca em seu odre, seus suspiros em Seu livro. Na infância, ele preserva as suas almas da morte, dá-lhes momentos de despertamento, corrige as palavras em sua memória: “Eu te cinjo, ainda que tu não me conheças” [Isaías 45:5]. Quando chega o seu tempo, Ele os orienta para algum ministério adequado; ou, por algum julgamento dolorido, os desperta, e os conduz a Cristo, atraí, vence, conforta e edifica a alma. Ele é um Criador fiel. “Cantai alegres, vós, ó céus, porque o Senhor o fez” [Isaías 44:23]. Essa alma torna-se verdadeiramente um servo.

Alguns de vocês sabem que Deus vos formou. Vocês podem ver os vestígios de Sua mão, guiando-os desde que vocês nasceram, preparando-lhes quando vocês não O conheciam, na mãe que lutou por vocês, nos entes queridos que oraram por vocês, os quais estão agora em seus sepulcros solitários; nos ministros a quem vocês foram trazidos, nos textos a que vocês foram guiados. Oh! sejam servos do Senhor! Deixem que Ele abra os seus ouvidos. Tenham em vosso corpo as marcas do Senhor Jesus.

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III.
As almas que estão em Cristo não serão esquecidas por Deus: “Não me esquecerei de ti”. Os filhos de Deus, muitas vezes pensam que o seu Deus se esqueceu deles. Muitas vezes, quando eles caem em pecado e em trevas, eles se sentem afastados de Deus, como se as Suas misericórdias houvessem cessado para sempre. Mas aprendem aqui que Deus nunca se esquece da alma que está em Cristo Jesus.

1. Assim foi com Moisés na terra de Midiã. Por quarenta anos, ele pensava que Deus tinha esquecido seu povo. Ele perambulou no deserto, vivendo como um pastor, por quarenta anos, triste e desolado. Mas Deus havia realmente esquecido o Seu povo? Não; Ele apareceu em uma chama de fogo em uma sarça, e disse: “Tenho visto atentamente a aflição do meu povo que está no Egito, e ouvi os seus gemidos, e desci a livrá-los. Agora, pois, vem, e enviar-te-ei ao Egito” [Atos 7:34; Êxodo 3:7]. Deus conhece as tuas tristezas, oh, alma em Cristo.

2. Assim foi com Davi, nos Salmos 77 e 31.

3. Assim foi com Ezequias, quando Deus lhe disse que ele morreria. Ezequias chorou muito: “Como o grou, ou a andorinha, assim eu chilreava, e gemia como a pomba; alçava os meus olhos ao alto; ó Senhor, ando oprimido, fica por meu fiador” [Isaías 38:14]. Será que Deus o esqueceu? Não; Deus envia esta palavra para ele: “Ouvi a tua oração, e vi as tuas lágrimas; eis que acrescentarei aos teus dias quinze anos” [Isaías 38:5]. Deus nunca se esquece da alma que está em Cristo.

4. Assim será com o antigo povo de Deus: “Porém Sião diz: Já me desamparou o Senhor, e o meu Senhor se esqueceu de mim. Porventura pode uma mulher esquecer-se tanto de seu filho que cria, que não se compadeça dele, do filho do seu ventre? Mas ainda que esta se esquecesse dele, contudo eu não me esquecerei de ti” (Isaías 49:14-15).

5 Da mesma forma as palavras do texto dizem: “Não me esquecerei de ti”. O mundo pode esquecer de ti, os teus amigos, o teu pai, tua mãe, podem te desamparar; mas contudo “não me esquecerei de ti”.

Uma palavra para as almas que estão em Cristo. O Senhor não pode te esquecer. Se você estivesse diante de Deus em sua própria justiça, então saberia que você estava sujeito a ser separado de Seu amor e cuidado; pois suas circunstâncias variam, o vosso amor é como a nuvem da manhã e o orvalho da madrugada. Mas você está diante dEle, em Cristo, e Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre. Você será mantido em memória eterna. O mundo pode esquecer de você, seus amigos podem te esquecer, pois este é um mundo de esquecimento, você pode não ter uma lápide sobre seu túmulo; mas Deus não vai te esquecer, Cristo colocará o Seu nome ao lado daquela Sua fiel testemunha, Antipas. Na vida, na morte e na eternidade “não me esquecerei de ti”.

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IV.
A alma redimida deve retornar a Deus: “torna-te para mim”. O pecado e a miséria de cada alma natural consistem em ir para longe de Deus. Adão escondeu-se da presença de Deus. Então Isaías reclama: “deixaram ao Senhor, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás” [Isaías 1:4]. E Deus diz: “Que injustiça acharam vossos pais em mim, para se afastarem de mim?” [Jeremias 2:5]. “Porventura esquece-se a virgem dos seus enfeites, ou a noiva dos seus adornos? Todavia o meu povo se esqueceu de mim por inumeráveis dias” [Jeremias 2:32]. Mas quando uma alma vem a Cristo, não há mais razão para que ela fuja de Deus. “Torna-te para mim, porque eu te remi”. Por meio de Jesus “ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito” [Efésios 2:18]. “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” [João 14:6].

Queridos irmãos em Cristo, permitam-me suplicar-lhes que vocês voltem para o Pai.

1. Venha para os braços do Seu amor. Quando Deus redime uma alma, Ele quer tê-la em Seus braços, Ele quer cair sobre Seu pescoço e beijá-la. Veja como Ele busca ganhar a alma! Ele diz tudo o que Ele tem feito por ela, tudo o que Ele fará; e acrescenta: “Torna-te para mim, porque eu te remi”. Oh! Por que estais com medo, homens de pouca fé? Por que você se afasta, não vai se aventurar a aproximar-se de Deus? Por que você não corre para Ele? Alguns dizem: “Eu temo por causa dos meus pecados passados”. Oh! Então ouça a Sua palavra: “Eu os apaguei. Torna-te para mim, porque eu te remi”. Alguns dizem: “Eu estou com medo que Ele possa não querer uma criatura fraca e pecadora como eu ao lado dEle”. Oh! néscios, e tardos de coração para crerdes em Sua própria Palavra. Será que a fala dEle não é bastante clara, e doce o suficiente? “Torna-te para mim, porque eu te remi”.

2. Venha e tenha comunhão com Ele; caminhe diariamente com Ele. Enoque andou com Deus. Uma vez Adão andou com Deus no paraíso, tão facilmente, Herbert diz: “como você pode caminhar de uma sala para outra”. Ele conversou com Adão a respeito dos Seus juízos. Oh! vinde a teu Deus, alma perdoada e redimida. Reconcilia-te com Deus e esteja em paz. Venha a Ele; não permaneça sem Ele. Você imagina ser uma grande coisa conhecer um Cristão vigoroso; Oh, quão infinitamente melhor é conhecer a Deus. Está é sua bem-aventurança infinita. Você obterá mais conhecimento em uma hora com Deus, do que em toda uma vida passada ao lado dos homens. Você se tornará mais santo por conversar [...] com Deus, do que através de todos os outros meios de graça juntos. De fato, os meios são vaidades inúteis, a menos que você venha a Deus através deles. “Torna-te para mim, porque eu te remi”.

3. Uma palavra para o desviado. Alma culpada, você já entrou dentro do véu; você conhece a paz que Jesus dá; você sabe a alegria que vem do sorriso de Deus. Mas você deixou tudo isso e voltou para trás. Alma culpada, você fez pior do que o mundo. Os homens mundanos nunca serviram a Cristo como você um diz fez. Eles cuspiram nEle, O esbofetearam e O crucificaram; mas você O feriu na casa de Seus amigos: “Pois não era um inimigo que me afrontava; então eu o teria suportado; nem era o que me odiava que se engrandecia contra mim, porque dele me teria escondido. Mas eras tu, homem meu igual, meu guia e meu íntimo amigo” [Salmos 55:12-13]. Alma culpada, será que o teu Deus te diz “Apartai de mim maldito?”. Não; ele diz: “Torna-te para mim, porque eu te remi”. “Convertei-vos, ó filhos rebeldes, diz o Senhor; pois eu vos desposei” [Jeremias 3:14]. Volta, pecador, o teu Deus te chama; o Deus que te escolheu, o Salvador que morreu por ti, o Consolador que te renovou. “Torna-te para mim, porque eu te remi”.

São Pedro, 8 de julho de 1838.

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♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título Original: Return Unto Me
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por William Teixeira │ Revisão por Camila Almeida


Graça e Glória – Charles Haddon Spurgeon

Sermão Nº 3358, Sermão publicado numa quinta-feira, 12 de junho de 1913.
Pregado por C. H. Spurgeon, no Tabernáculo Metropolitano, Newington.
Numa quinta-feira 6 de fevereiro de 1868.

 “O Senhor dará graça e glória” (Salmo 84:11).

É muito sábio olharmos para dentro de nós mesmos para descobrirmos a nossa própria fraqueza e pobreza espiritual, mas é muito imprudente estarmos sempre enfatizando esta fraqueza e pobreza, de forma a esquecermos que a nossa força não reside ali, nem as nossas riquezas podem ser encontradas dentro de nós mesmos! Olhemos para dentro para nos sentirmos humilhados, mas não para nos tornarmos incrédulos. Olhemos para dentro, de modo a sermos esvaziados de toda a confiança em nós mesmos, mas nunca de forma a abalar nossa confiança absoluta em Deus. Nosso texto, por assim dizer, nos conclama a buscar o vivente entre os mortos, chamando-nos a procurar pedras preciosas em meio a escória e refugo, contudo nos direcionando para o próprio Deus vivo, a Fonte transbordante de todo o bem, o nosso Pai cujo braço não está encolhido, para que não possa salvar, e cujo ouvido não está agravado para que Ele não possa nos ouvir hoje à noite! Ele, Ele, o Senhor, Ele, o Infinito, Eterno, Sempiterno, Inimitável EU SOU; o Senhor dará graça e glória, de modo que, embora você pode pensar que você não tem nenhuma graça, Ele vai dá-la a você, e assim você ainda pode temer que obterá a glória, mas Ele pode e irá concedê-la a você! O Senhor dará graça e glória. A primeira palavra do texto, eu digo, é algo que nos leva para longe de inclinar-nos sobre as canas quebradas de nossa própria autossuficiência e algo que nos chama para a Rocha da nossa salvação, onde podemos descansar com segurança!

“O Senhor dará graça e glória”. Essa palavra, “dar”, também nos tira de nossa legalidade natural e da auto-confiança. Eu acho que todos nós estamos muito aptos a voltar para a escravidão do Monte Sinai. Somos como os Gálatas insensatos! Muitas vezes somos “fascinados”, para que não obedeçamos a verdade de Deus, mas, tendo começado pelo Espírito, procuramos ser aperfeiçoados na carne e, sendo já salvos pela fé, nós tentaremos muitas vezes ser aperfeiçoados pelas obras da Lei!

“‘É estranho, ‘é extremamente estranho, ‘é assombroso’”, que, depois de termos sentido o chicote da escravidão da Lei, nós desejemos voltar para os fornos de tijolos do Egito e sermos escravos mais uma vez! O texto diz: “O Senhor dará graça e glória”, o que é exatamente o oposto de salário e nos coloca no âmbito da graça e não da dívida. Oh, é algo bendito ver um dedo do Céu convidando-nos para longe de debaixo do monte fumegante, e tão terrível foi a visão, que Moisés disse: Estou todo assombrado, e tremendo [Hebreus 12:21]! É uma coisa abençoada ser liberto do trovão e dos relâmpagos, e da voz como de trombeta, e ser trazido para o sangue que fala melhor do que o de Abel, e ouvir Deus falando a respeito de Seus grandes e indizíveis dons para nós!

Agora, no espírito desses dois pensamentos, vamos nos achegar a este texto, que é muito simples, extremamente simples, mas que também é muito cheio de consolo, se o Senhor o aplicar aos nossos corações pelo Espírito Santo.

Existem apenas dois grandes e esplêndidos dons que Deus declara aqui que Ele concederá. Em primeiro lugar, o dom da graça e, em seguida, o dom da Glória. Meditemos inicialmente no primeiro dom.

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I.
DEUS DARÁ GRAÇA. Para quem Ele dará a graça? Se entendermos de maneira ampla, podemos dizer que Ele dará graça aos Seus próprios escolhidos. Assim acontece no Pacto de graça: “Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” [Romanos 9:15-16]. A graça é algo muitíssimo soberano. Deus tem o direito de dá-la a quem Ele quiser, e Ele cuida para que Sua soberania seja vista. Alguns de Seus escolhidos passaram muito tempo no pecado, mas Ele lhes dá graça, para superar tudo isso. Alguns deles podem estar no limiar da destruição e entrar para a última hora de vida, contudo, ainda assim, Ele lhes dará graça, e nenhum daqueles em quem o Seu amor eletivo estabeleceu a extensa flecha do Reino, marcando-os para que sejam vasos de misericórdia, passarão sem que recebam a Divina Graça! Esta é uma afirmação óbvia, embora existam alguns que criem sofismas a seu respeito, mas estamos certos de que é a Verdade de Deus!

Outra declaração também pode fazer isto ser ainda mais claro, a saber, que Ele dará a graça a todos aqueles que foram especialmente redimidos por Cristo. Tantos quanto Cristo redimiu e comprou pelo Seu sangue serão dEle, pois nós O ouvimos dizer: “o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas” [João 10:11]. Cristo amou a Sua Igreja e Se entregou por ela. Os escolhidos são descritos desta maneira, “Estes são os que dentre os homens foram comprados” [Apocalipse 14:4], e embora a redenção de Cristo tenha o seu aspecto universal muito claramente ensinado na Palavra de Deus, e espero que nunca tentem tirar a força dessas passagens universais, ainda há uma redenção especial à parte. “O Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens”, diz o Apóstolo, “principalmente dos fiéis” [1 Timóteo 4:10]. Agora, esta redenção especial é de tal natureza que a todos aqueles que estão incluídos nela, Ele dará graça. Nenhum daqueles que Cristo assim redimiu dentre os homens perecerão! Nenhuma das Suas próprias ovelhas que foram compradas por sangue serão devoradas pelo lobo. Nenhum membro deste Seu corpo será mutilado. Nenhuma parte de Sua noiva, a Igreja, será destruída! Com certeza absoluta para cada um deles Ele dará a graça Divina!

E, embora alguns pensam que estas duas verdades de Deus não são práticas, entretanto elas eminentemente o são, por isso, entre outras coisas, este é é um destes resultados práticos, a saber, que pregamos com santa confiança, com confiança tranquila, de que a nossa pregação não pode ser em vão uma vez que não lançamos a rede por acaso, mas crendo que Deus irá enchê-la e que, quando o evangelho é pregado, ele deve ser o cheiro de vida para vida de muitos!

“Ainda tenho outras ovelhas”, disse Cristo, “que não são deste aprisco; também me convém agregar estas” [João 10:16], e, por isso, nós pregamos, porque estas ovelhas deverão ser agregadas!

Assim como o agricultor semeia milho liberalmente, porque ele sabe que há uma colheita predestinada, assim somos nós. E, como um pescador que tivesse uma promessa Divina de que ele deveria pegar peixes jogaria as redes e trabalharia a noite toda com alegria, porque ele sabia que não iria trabalhar em vão, assim acontece conosco. Sabemos que, se formos firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, este será o nosso conforto, a saber, que o nosso trabalho não é vão no Senhor! “Ele verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão” [Isaías 53:10]. Tomo a expressão deste texto, em seguida, sem qualificação – Ele dará graça.

Mas agora, visto que não podemos dizer, exceto por marcas e evidências, que somos os escolhidos e quem são os especialmente resgatados, pode-se dizer que o Senhor dará graça para cada alma crente. Se você colocar toda a sua confiança na Expiação de Cristo, Ele dará graça para você. Mesmo que sua fé seja pequena, que pareça que você não seja nada além de uma cana quebrada, Ele não esmagará a sua fé, antes Ele te dará graça. E embora a vida espiritual possa pareça ser tão fraca a ponto de ser nula, como um pavio que fumega, ainda assim, Ele não vai apagá-la, antes, porém, dará graça. Se você crê nisto, embora seja com uma fé fraca, você terá a graça Divina! Se você descansar em Cristo, embora haja muito medo e muita desconfiança misturados com a sua confiança, ainda assim Ele dará graça. “Aquele que crer e for batizado será salvo”. Não diz nada a respeito de quanto ele acredita, nem quão pouco: “Aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. Esta passagem não diz o quão alto se deve invocar, ainda que a invocação seja muito fraca, contudo se alguém O invoca, Ele dará graça! “O que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” [João 6:37]. Esta outra passagem não diz se alguém vem andando, ou correndo, ou rastejando, se ele vem, apenas vem, então ele não será lançado fora! Se você crer no Senhor Jesus Cristo, então será dito a teu respeito: “O Senhor dará graça”.

O mesmo pode ser dito para cada pecador arrependido. Se você abomina seu pecado, se você resolver na força de Deus renunciar às suas iniquidades, se a doçura do pecado se transformou em amargura, se é como cascalho entre os seus dentes, então Ele te dará graça, pois quando você está completamente doente do pecado e do seu “eu”, então Ele lhe dará graça para você se alegrar e se regozijar em Cristo!

O mesmo também pode ser dito de todos aqueles que estão em oração. Ele dará graça a todos os que a procuram com corações sinceros, através do Salvador. Diante do Propiciatório, seja você um santo ou pecador, se você se aproximar de Deus em oração sincera, Ele já lhe concedeu alguma Graça, e Ele dará mais. Toda vez que você vai a Deus em oração com verdade de coração e confiança, coloque isso diante de você gravado em letras de ouro: “Ele vai dar graça”.

Você verá que não irá esperar em Deus inutilmente, pois Ele não disse em lugares secretos ou escuros da terra: “Buscai a minha face em vão”. Ele, para cada um que persiste em oração, dará graça.

Eu poderia continuar citando outros exemplos para pessoas diferentes, mas a certeza é, caro amigo, que se você é um crente, e você praticar a oração e o arrependimento, você verá que a promessa de Deus é verdadeira em todas as suas condições. Se você sair para trabalhar para Deus, Ele lhe dará graça. Na Sua vinha você verá que Ele lhe dará as ferramentas, sim, e também dará força conforme o seu dia. Ele dará graça. E se você está posto de lado do serviço ativo e levado a virar-se para lá e para cá sobre a cama que torna-se mais difícil a cada hora, até que a pele seja danificada e a cama se torne um inferno, ainda assim Ele dará graça. Talvez você seja naturalmente de um espírito impaciente, mas espere nEle, Ele sabe como acalmar o seu espírito de uma maneira e como levanta-lo de outra! Ele dará graça.

Assim eu poderia continuar a tomar o texto a partir de seu sentido absoluto e aplicá-la a todos os personagens que são retratados na Palavra de Deus como tendo uma parte e porção na bem-aventurança da salvação, e pode ser dito de cada um deles: “O Senhor dará graça”.

Mas para voltamos ao assunto por um momento, vamos nos perguntar: que graça Deus dará?

Ele dará todos os tipos de graça. Há Graça não somente em plenitude, mas graças de todas as variedades entesouradas em Cristo Jesus. Como as nossas necessidades são muitas, assim, as formas pelas quais a graça nos abençoa são muitas, e Deus vos dará graça em todas essas formas! Você lamenta nesta noite por causa da sua ignorância das coisas profundas de Deus? Você se sente como uma criança ao estudar sua cartilha de ABC na grande escola de Deus? Então, se você quer entender com todos os santos quais são as alturas e larguras, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, Ele dará graça a você! Ele dará a graça para instruir. Ele fará você saber até mesmo como você é conhecido. Ele lhe dará o Seu Espírito Santo para guia-lo em todas as verdades de Deus e tomar as coisas de Cristo e mostrá-las a você. Ele dará a graça da instrução!

Talvez hoje à noite você está em meio a algum grande dilema. Há dificuldades à direita e à esquerda. Há montanhas atrás e o mar agitado em sua frente, e você diz: “O que devo fazer?”. “Fique quieto e veja a salvação de Deus”, pois Ele lhe dará a graça do livramento. Se Ele não lhe der dinheiro para encher sua bolsa, Ele lhe dará graça para ajudá-lo a suportar a pobreza. Se Ele não lhe der saúde para fazer você se levantar de seu leito de enfermidade, Ele lhe dará graça para estar em seu leito em toda a sua dor, de modo que você o suporte e ainda se alegre sempre no Senhor! Ele dará graça. Se você somente esperar, você receberá a graça da orientação. Você ouvirá uma voz por detrás de você, dizendo: “Este é o caminho, andai nele” [Isaías 30:21]. Se você vai fazer o que fez Davi, quando ele disse: “Traze-me, peço-te, aqui o éfode” [1 Samuel 30:7], ele fez isso a fim de que ele pudesse perguntar a Deus, por meio de um sacerdote, o que ele deveria fazer. Se você esperar até que Cristo, Sumo Sacerdote de Deus, leve o sagrado Urim e Tumim, Ele terá o prazer de enviar a Luz de Deus para sua alma e você receberá a graça da orientação e direção de Deus para guiá-lo em seu caminho! “O que confia no seu próprio coração é insensato, mas àquele que confia no Senhor a misericórdia o cercará” [Salmos 32:10. Provérbios 28:26]. Mas talvez vocês precisam, queridos amigos, neste momento, não tanto de instrução e direção quanto de conforto. Pode ser que vocês estejam se sentindo muito deprimidos. Seus espíritos estão, de fato, muito rebaixados. Bem, Ele lhe dará graça. O médico pode dar remédio, mas Deus pode dar a graça! Um gole de graça é muitas vezes melhor do que um litro do que o mundo pode dar em forma de xaropes. Oh, que abençoado reavivamento de espírito Deus pode dar aos seus abatidos!

Eu acho que um dos grandes prazeres do Espírito de Deus é consolar os enlutados. Eu sei que é, pois Ele poderia, se ele tivesse se agradado, se denominar Instrutor, e Jesus poderia ter falado dEle como o Vivificador, contudo é algo tão bendito lembrar que Ele não o fez assim, mas que o nome de Consolador foi especialmente Seu porque precisamos mais do Seu consolo para nos fortalecer e fortificar para suportarmos todas as provações de nossa vida. Precisamos muitíssimo do consolo do Espírito Santo, e este é o Seu principal ofício, a saber, consolar todos os que são tentados e os que choram. Esta é a Sua ocupação graciosa, e aqueles em que Ele mais se deleita em agir!

Quando um homem tem muitos títulos, ele naturalmente vai escolher ser mais conhecido por aquele que ele mais gosta. Assim o Espírito Santo usa esse nome de “O Consolador”, embora Ele tenha muitos outros nomes além deste. Oh, vocês, então, que sois atribulados e preocupados, lançados de um lado para outro na tormenta e desconsolados, Jesus vem, e Ele diz: “O Senhor dará graça”, e se Ele faz isso, você não precisa desejar que o seu problema seja resolvido, mas, como Paulo, você ficará bastante satisfeito com a graciosa promessa: “A minha graça te abasta”.

Possivelmente, no entanto, caro amigo, você não esteja incomodado nesta noite. Cuidado com isso! Seja grato e ore para que você não venha a ser. “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”. Mas é possível que agora você precise de graça para levá-lo a progredir na santificação interior, e embora isso possa parecer muito difícil para você na posição em que está colocado, e mesmo sobrecarregado como você está com suas corrupções internas, Ele lhe dará graça! Você tem mau humor? Acabe com ele! “Eu não posso”, você diz, mas Ele lhe dará graça. Você tem um espírito orgulhoso. Fora com ele! “Eu não posso vencê-lo”, você diz, mas Ele dará graça. Você tem se tornado frio e morno, você deverá ser vivificado, você se recuperará desta apostasia. Você diz, “Como?”. Ele dará graça! A graça é a única coisa que é necessária para levar o Cristão a um estado saudável da alma! E a promessa do Senhor, que nós estamos usando hoje à noite, e repetindo tantas vezes em seus ouvidos, é apenas o ponto – Ele dará a graça Divina. Você nunca deve dizer que você não pode ser tão santo como tal e tal pessoa. Nunca me diga que você não pode ser tão paciente como Jó, ou crer como Abraão. Jó recebeu sua paciência e Abraão recebeu sua fé de Deus! Ele não está estreitado nos Seus dons para nós. Ele é tão pronto para distribuir Seus dons a nós como Ele foi para com os que viveram no passado. Vá a Ele com confiança como de criança, com estas palavras em sua boca: “O Senhor dará graça”.

Agora, não é possível para mim indicar o caso de todos os meus irmãos e irmãs agora presentes. Você pode estar com falta de força ou proteção, ou você pode estar precisando de correção e repreensão, mas seja qual for a sua grande necessidade, a graça de Deus é adequada para sua necessidade e por isso a promessa é adequada para cada um de nós: “O Senhor dará graça”. Venha, pobre Ana, você cujos lábios se movem em oração silenciosa por causa de alguma aflição que está ocorrendo em sua casa e é muito dolorosa. Diga ao Senhor o que está acontecendo! Pode haver nenhuma mudança nas suas circunstâncias, mas, oh, se Ele lhe der graça, as coisas parecerão ser muito diferentes do que eram!

Homem de negócios, você veio aqui hoje tendo passado por um mundo de problemas durante o dia. Você não pode tirá-los de sua mente e de alguma forma você não pode ver como o Senhor pode mudar isso. Bem, Ele pode não mudar, mas Ele te dará a graça Divina e, então, a diferença será maravilhosa!

Assim eu poderia selecionar o trabalho de cada um, mas tenho certeza de que este curativo serve para todos os tipos de ferida. O consolo do mundo é descrito por um dos Profetas, assim, “Porque a cama será tão curta que ninguém se poderá estender nela; e o cobertor tão estreito que ninguém se poderá cobrir com ele” [Isaías 28:20]. Ah, não é assim com o meu texto! Agora, deite-se nesta cama, você que tem grandes problemas, “Ele dará graça”, é uma cama suficiente para você! Agora, então, você que está mais descoberto e com frio, cubra-se com isto e certamente isso fará a sua alma brilhar: “O Senhor dará graça”. “Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça” [2 Coríntios 9].

Talvez você esteja tremendo nesta noite ao pensar no maior inimigo de todos, ou seja, a morte! E como você está ficando velho, talvez você tema que ela esteja se aproximando. Bem, amigo, Ele dará graça e ainda que você morra, contudo, a graça lhe permitirá passar pelas maiores profundezas do Jordão cantando, triunfando na Graça, que certamente lhe trará em segurança para o outro lado! Ele dará a graça, graça de todos os tipos para aqueles que a buscam.

Mas agora, uma vez mais – ainda mudando o caleidoscópio um pouco – tomando o mesmo pensamento, somente posto sob outras luzes. De que maneira Deus dará a graça?

Bem, queridos amigos, Ele lhes dará o suficiente. Ele lhes dará o máximo de graça que vocês precisam, embora, certamente, não dará nada de sobra. Cada homem deve ter o seu ômer cheio de maná a cada dia. Não haverá falta no campo do Senhor! Haverá graça abundante para as abundantes tentações e problemas. E para aqueles que estão enfrentado muitos problemas haverá ainda graça superabundante! O Senhor dará Sua graça sazonalmente. A graça sempre virá justamente quando precisarmos dela –

“Ele nunca vem antes de Seu tempo,
Ele nunca está atrasado.”

Sempre que as suas provações ou problemas vierem, Sua Graça também será dada, e quando você chegar ao lugar em que você terá que abaixar as costas devido ao fardo, será fornecida Graça que reforçará as suas costas para que você suporte a carga! Você não encontrará graça abundante quando você não a necessitar, contudo, assim como são os seus dias, assim deve ser a sua força. Deus também lhe enviará a Sua graça prontamente. Você não tem que labutar ou esforçar-se para obtê-la. Você não deve ter trabalho e fadiga para recebê-la. A graça Divina deverá cair sobre você como o mel caindo do favo! Ela virá livremente a você como a água brota da grande fonte. Deus será um socorro bem presente na hora da angústia e Se alegrará em livrar você, e ficará tão feliz em te livrar como você ficará ao ser liberto!

E a graça virá para você constantemente, e não irregularmente ou só às vezes, mas em todos os momentos! De noite e de dia. Deus nunca deixará de abençoá-lo, pois a Sua misericórdia dura para sempre –

“Em casa ou no exterior, na terra e no mar,
Conforme a necessidade de seus dias, assim sempre será sua força.”

Se a Terra se esquecesse da aliança que Deus fez com o sol e a lua. Se a sementeira e a sega, o verão e o inverno cessarem, como acontecerá na conflagração geral, contudo, ainda que os montes se retirem e os outeiros sejam abalados, mas o Pacto de Sua Graça não se apartará de ti! Graça virá a ti constantemente. Mas lembre-se de uma coisa: Ela virá até você por mediação, ou seja, não direta e imediatamente de Deus, mas mediatamente e por meio de Cristo. Você deve obter a graça dAquele a Quem agradou ao Pai que toda a plenitude habitasse nEle. E, em outro sentido, você deve buscá-la através da utilização de meios. “Ainda por isso serei solicitado pela casa de Israel, que lho faça” [Ezequiel 36:37]. Ele dará graça, mas você deve orar por ela! Ele dará graça, mas você deve examinar as Escrituras para encontrá-la! Ele dará graça, mas você deve observar as ordenanças do evangelho, você não deve ser negligente para com o batismo ou a Ceia do Senhor! Ele dará graça, mas você deve escutar a Palavra, e atendê-la, e assim a vossa alma viverá! Ele dará graça, mas você deve entrar em comunhão com Deus e se aproximar de Deus, tendo os seus momentos de retiro, calma e meditação. [...] Embora Ele ponha a mesa, contudo, não força a comida em nossas bocas! Temos de nos achegar à mesa e comer das iguarias que Ele tem preparado. Ele é muito generoso e gracioso. Oh, não criem dificuldades em vós mesmos, pois vocês nunca encorarão dificuldades em relação a Ele! Assim, voltamos ao texto. Ele dará graça, mas é preciso tomar cuidado para irmos a Ele buscando-a, e isso conforme as maneiras que Ele mesmo prescreveu.

Mas, agora, concluiremos o assunto sobre esta primeira bênção prometida, a quem é que Ele dará graça? Isso nos traz de volta para o ponto de onde começamos. “O Senhor dará graça”. Oh, eu anelo tanto que cada Crente apegue-se ao seu Deus! O Senhor dará graça. Você não ficará sem a graça Divina! Esta graça nunca fluirá de dentro de nós, à parte de Deus. O senhor dará graça. Você não terá graça simplesmente por usar os meios de graça, como alguns o fazem mecanicamente, e se sentem muito satisfeitos quando fizeram a sua oração matinal, ou foram para o culto público, se houver, e leram o seu capítulo da Bíblia, e assim por diante, mesmo os seus corações tendo estado como que adormecidos o tempo todo. Não! Você deve ir a Deus, pois é Ele quem dá graça e ninguém mais! E que bênção é que você não precisa de qualquer outro homem para ajudá-lo a vir a Ele! Você mesmo pode se aproximar dEle, por meio de Jesus Cristo! E Ele prometeu, e não por um sacerdote, nem por qualquer meio semelhante, mas por Ele próprio mesmo, que dará graça para você, hoje à noite, mesmo para você que não tem nenhuma graça, se você vier a Deus, você a receberá! Você não conseguirá isso trabalhando, orando ou fazendo outras coisas por si mesmo, porém se a sua mente pode ir direto ao Deus invisível e pedir-Lhe por graça, Ele lhe dará! Dependa dEle, nenhum homem alguma vez buscou sinceramente a Deus por graça, o qual, mais cedo ou mais tarde, não a tenha recebido. Um homem pode buscar por muito tempo e ele pode buscar ansiosamente e não descobrir o que ele precisa, mas se a promessa tardar, espere por ela, e ela virá! Deus é fiel em Sua promessa e Ele, ao Seu tempo, responderá às suas orações, pois isto está no registro “O Senhor dará graça”. Não obscureça a promessa de seu coração, pobre alma, mas se agarre a ela e segure-a! Como um homem se afogando se agarra e se apega a uma tábua, assim se apegue a esta afirmação Divina: “O Senhor dará graça”.

Que o Senhor possa aplicar a vocês essas observações, e agora vamos dizer algumas palavras sobre a segunda grande promessa.

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II. O SENHOR DARÁ GLÓRIA.

Ele dará “graça e glória”. Essa palavra, “e”, parece ser muito pequena a medida que a ouvimos. Não é nada, senão uma conjunção tão comum e abundantemente usada que parece não conter nenhum significado! [...]. “O Senhor dará graça e glória”. Ora, Ele uniu as duas, graça e glória! Há muitas pessoas que gostariam de rebitar este diamante, mas eles não podem. O Senhor não diz que Ele dará graça e perdição. Ele não diz, por outro lado, que Ele dará glória sem antes dar graça. Ele colocou os dois juntos e o que Deus uniu não separe o homem!

Se tivermos graça, vamos certamente ter glória, pois os dois são amarrados em um feixe. Estas são estrelas gêmeas que brilham juntas e se você é um participante de Sua graça, então a Sua glória não pode ser negada. A graça florescerá em glória, assim como o botão em flor! A graça será como a fonte e a glória como as águas a brotar!

Se possuímos a graça, não pereceremos, mas se não a tivemos iremos perecer e jamais veremos a glória! Não é possível que aqueles que serão glorificados não tenham antes sido justificados e santificados, e onde a graça não reinar em nossos corações, não reinaremos no céu!

“O Senhor dará graça e glória”. Agora, esta é a glória que Ele dará – oh, que eu tivesse o poder para contemplá-la e compreendê-la! O olho não viu, o ouvido não ouviu, nem jamais penetrou no coração do homem as coisas que Deus tem preparado para aqueles que O amam! Mas Ele no-las revelou pelo Seu Espírito, “para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus” [1 Coríntios 2:11-12]. Temos, portanto, conhecido um pouco do que é glória. Nem o olho e nem o ouvido percebem, mas a alma iluminada e ensinada pelo Espírito de Deus sabe o que a glória será. Até o momento, nós sabemos, que a glória que nós, os que obtivemos graça, receberemos é a glória do céu, seja o que isso possa ser: um lugar ou um estado, ou ambos, como é mais provável! Seja o que for entendido pelas ruas de ouro brilhante, os portões de pérola, os muros de jaspe, calcedônia e safira; seja o que for que signifique as coroas, palmas e harpas de ouro; seja o que for que signifique as margens do rio da Água da Vida e as árvores que dão doze frutos a seu tempo; tudo isso em perfeição é a herança daqueles que possuem graça em seus corações! Oh, vocês terão harpas, vocês trarão palmas em suas mãos, vocês se assentarão com Abraão, Isaque e Jacó, no Reino de Deus! Se há graus na Glória, como alguns dizem, contudo, isso é plenamente certo: que o menor dos santos terá glória, e eu não vejo como o muito maior poderia ter mais do que este. O mais mediano, o próprio porteiro, se tais existem na Casa do Senhor acima, terão Glória! E estou certo de que podemos dizer do Céu, que se nós pudermos ter, ainda que seja o lugar mais baixo lá, vamos bendizer ao Senhor por toda a eternidade! A glória que Deus pode dar é a glória do céu!

Outrossim, é a glória da eternidade. Eternidade! Oh, quando começamos a falar dessa palavra nós não sabemos como nos expressar! Eternidade! Eternidade! Eternidade! Esta palavra deve explicar a si mesma. Estamos sempre confundindo-a com o tempo, e falando das “incontáveis ​​eras da eternidade” como se houvesse alguma “era”, ou pudesse haver quaisquer semelhante contagens de tempo na eternidade, a qual é de duração infinita! Ora, a glória que Cristo está para nos dar será uma tal glória como esta. Ela nunca conhecerá qualquer pausa, nunca se aproximará de seu fim, nunca diminuirá e nós nunca nos cansaremos dela, nem ela se cansará de nós. Esta é a glória da eternidade!

Além disso, irmãos e irmãs, somos informados pelo Senhor que a glória que Ele dará a Seu povo é a glória de Cristo. “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste” [João 17:22]. Você consegue conceber quão glorioso Cristo é, não só em Sua natureza original, mas agora que Ele tem obtido como uma recompensa, um assento no trono de Seu Pai, à mão direita? Irmãos e Irmãs, qualquer que seja a glória de Jesus, Ele vai compartilhá-la conosco, então seremos semelhantes a Ele e, quando O veremos como Ele é. Esta é a glória de Cristo!

E, portanto, para coroar tudo, é a glória do próprio Pai, pois Cristo, participa da glória de Seu Pai, e semelhantemente nós também participaremos! O seu coração não anela e suspira para conhecer, por fruição atual, o que é esta glória? Oh, afastar-se de olhar o espelho e ter uma visão da face de Cristo! Ter as nuvens e névoas todas dissipadas, e, na serena atmosfera do Céu, contemplar o Rei em Sua beleza, e a terra que está mui distante!

Ora, esta glória é a glória da natureza perfeita – imaculada, sem pecado, incorruptível – um corpo que pode conhecer nenhuma fraqueza, doença ou decadência! Uma alma que não estará sujeita à tentação, que não pode ser desgastado por preocupações, nem distraída com problemas!

Esta é a glória da vitória. A glória que Deus dará ao Seu povo é a Glória de esmagar Satanás debaixo dos seus pés, logo, esta glória de ver as setas e o arco, a espada e o escudo do Diabo para sempre despedaçados! A glória de ver todos os exércitos do Inferno confundidos e eternamente envergonhados por todos os santos sobre quem Cristo reinará para sempre!

É a glória de descanso perfeito, a felicidade perfeita e uma segurança perfeita. É a Glória do pé sobre a rocha, com um novo cântico na boca e dos passos firmes! É a glória dos bem-aventurados. Aquele que conhece o que é quando toda a alma será tão plena de felicidade quanto esta pode ser obtida, deverá flutuar, nadar e mergulhar em mares de descanso celestial! É ali não será possível para um homem ter um desejo insatisfeito, nem um desejo não realizado! É onde todo poder deve encontrar um amplo trabalho sem cansaço, e toda paixão tem indulgência plena, sem haver qualquer coisa como medo do pecado –

“Oh, hora feliz, oh, morada abençoada,
Estarei próximo e como o meu Deus!
E cada poder encontrará doce emprego
Nesse eterno mundo de alegria!” 

Você não diz novamente: “Por que tarda em vir o seu carro?” [Juízes 5:28], Por que você demora, Amado? Seja Tu como um gamo, ou como o filho do veado sobre os montes de Beter!

E agora, para concluir. O texto diz: “Ele dará glória”. Assim, então, apesar da Glória ser uma recompensa e é muitas vezes chamada assim, ainda assim ela é um presente! As recompensas da graça são por graça. Elas não são recompensas dadas a nós por direito legal, porque merecemos. Como se diz, Cristo primeiro dá a Sua graça aos Seus servos para que eles possam servi-lO, e, em seguida, recompensa-os como se tivessem servido a Ele em sua própria força, embora o seu serviço, de fato, é Seu próprio, em vez de ser o trabalho de seus servos para Ele! Portanto, é um presente. Não há uma alma no céu que esteja lá por seus próprios méritos. Não há nem mesmo uma única nota de auto-justificação para estragar a canção da livre graça que é entoada diante do Trono de Deus! É tudo amor, amor imerecido, amor sem limites, amor para ser exaltado por toda a eternidade!

Entretanto é dito que Ele dará Glória. Agora, quando Ele a dará? Ah, quantos de nós não gostariam de saber!? Se pudéssemos obter alguma obra profética que nos dissesse quando nós, todos nós, iremos obter esta glória, tenho certeza de que iríamos pagar o seu preço, com grande prontidão e alegria. Mas seria muito imprudente fazê-lo, e é mais sábio aquele homem que diz –

“Meu Deus, eu não gostaria de ver
Meu destino com olhos curiosos.”

É o suficiente para você, Cristão, saber que você receberá glória! E eu vou te dizer uma coisa: você vai tê-la antes que se passem setenta anos. Há bem pequena probabilidade que dentre qualquer um de vocês que são adultos haja uma única exceção a essa afirmação! Bem, isso não é muito tempo, e é o que falta! Alguns de vocês vão tê-la muito em breve. Ah, não devemos nos admirar se antes deste ano da graça passar você tenha alcançado a terra da Glória! Outros podem ser poupados um pouco mais, mas o que esta diferença de tempo representa? Realmente parece não haver nenhuma diferença. A vida é apenas um período, quando mais longa, apenas um período, assim também com a mais curta; todas estas são iguais em comparação com a eternidade. Quando apenas chegarmos ao céu, ficaremos imaginando que nós não conhecíamos nada a respeito do tempo. Uma hora com o nosso Deus compensará todos os seus problemas. Sim, eu penso assim, que somente um vislumbre de Cristo retirará para sempre de nossas bocas todo os sabores amargos que experimentamos em nossas vidas! Veremos que nunca poderíamos ter nos preocupado e afligido com coisas tão pequenas como elas eram, tais eram como ninharias insignificantes e como leves e momentâneas aflições que não eram dignas de ser comparadas com o eterno peso de glória que nos foi revelado. E que tais coisas não poderiam, por vezes, ter exercido uma influência tão deprimente sobre nossos espíritos! Se pudéssemos nos envergonhar no Céu, certamente teríamos que nos envergonhar ao pensar que temos sido tão impacientes por estarmos nos demorando um pouco aqui!

Quando é que vamos chegar a essa glória? Bem, devemos ir a ela quando o nosso trabalho estiver concluído. Nós não devemos ser privados do salário nem por um momento depois que ele se torna merecido. Vamos chegar à glória quando estivermos maduros para ela. Quando a fruta está madura, o agricultor a colhe e ajunta em seu celeiro. Alguns logo se tornam adocicados, mas alguns são naturalmente azedos e eles precisam de muito tempo para amadurecer. Vamos chegar ao céu quando nós realmente estivermos sido provados na fornalha até que não haja mais necessidade de provações, quando passarmos pelo cadinho e sairmos dele santificados, o processo estará concluído.

Isso é tudo que sabemos, que devemos ir para o Céu somente quando aprouver a Deus. O próprio diabo, com todos os exércitos do Inferno, não pode nos reter nem por um momento! Devemos ir para lá apenas quando o Céu for mais Céu para nós [...]. Devemos ir para lá apenas quando Cristo estiver pronto para nos receber e quando entendermos que Ele preparou um lugar para nós. Sejamos pacientes por mais algum tempo. Só vamos nos apegar com firmeza a esta graciosa promessa, pensando no Senhor com frequência, e lembrando que: “O Senhor dará graça e glória”.

Agora, irmãos e irmãs, mais uma observação. Se o Senhor dá graça e glória para alguns de Seus amigos, não briguem com Ele por causa disso. Ele disse que faria isso, e quando o faz, por que deveríamos reclamar? Você já viu duas pessoas orando uma contra a outra? Você pode supor tal coisa como um crente orando por uma coisa e Cristo orando por outra? Agora, ouçam. Há um crente orando por um amigo: “Oh, Deus, poupe-o! poupe-o, eu Te suplico, eu Te suplico, eu Te suplico! Poupe-o e deixe-o viver aqui ainda”. Ouça! Cristo ao orar, também diz: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo” [João 17:24]. Oh! Crente, deseje que seus amigos estejam com Cristo onde Ele está! Cristo diz: “Onde eu estiver”. Agora, quando as orações de Cristo e as nossas orações se cruzam qual deve triunfar? Quando nós puxarmos para um lado e Cristo puxar para o outro, qual será nossa escolha? Certamente vamos dizer: “Oh, Senhor Jesus, eu não competirei conTigo nem por um momento! Não, Tu tens direito sobre o meu amigo mais do que eu, pois Tu o compraste com o Teu sangue precioso”.

A separação é difícil, mas deixe-os partir! Se Ele no presente deu graça a seus queridos filhos, ou a seus amigos, ou a seus companheiros na vida, quando Ele lhes der glória não chore, pois, “Jesus chorou”, mas você não deve murmurar, pois isso seria negar o direito de Cristo, pois Ele os comprou com o Seu próprio sangue precioso!

Oh, que todos vocês recebam graça, e que todos recebam também glória! Não espere por glória sem graça, porém Jesus está disposto a dá-las a você. Quem confia nEle receberá a ambas. Que esta seja a parte de todos nós, por amor de Jesus. Amém!

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♦ Fonte: Spurgeongems.org | Título Original: Grace and Glory
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por William Teixeira | Revisão por Camila Almeida


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