Uma Biografia de Arthur Walkington Pink – Por Erroll Hulse

Quanto ao Calvinismo e Arminianismo durante a primeira metade do século XX, um estudo de caso mui interessante é a experiência de Arthur W. Pink. Ele foi um pregador e escritor de talento excepcional que ministrou na Grã-Bretanha, América e Austrália. Quando morreu, em 1952, em isolamento na ilha de Lewis, no nordeste da Escócia, ele era pouco conhecido fora de uma pequena lista de assinantes de sua revista, “Studies in the Scriptures” (Estudos nas Escrituras). No entanto, na década de 1970, havia grande demanda por seus livros e seu nome era muito conhecido entre os editores e ministros. Na verdade, nesse período, seria difícil encontrar um autor reformado cujos livros fossem mais lidos.

O ministério de pregação de A. W. Pink fora notavelmente abençoado nos Estados Unidos, mas foi na Austrália que ele parece ter atingido o ápice de seu ministério público, e ali, em particular, o seu ministério de pregação alcançou grandes alturas. Ele foi então confrontado com o credenciamento pela União Batista e foi rejeitado por causa de suas opiniões Calvinistas. Depois, ele ministrou em uma igreja Batista do tipo Batista Estrita. Dali ele foi desvinculado, uma vez que o consideraram um Arminiano! Um grupo considerável, no entanto, apreciava Pink, reconhecia o seu valor, e separaram-se daquela Igreja Batista Estrita para formarem uma nova igreja de 27 membros. Então, de repente, em 1934, Pink pediu demissão e voltou à Grã-Bretanha. Sabe-se que uma rejeição é o bastante para prejudicar a vida de um ministro, mas duas, em rápida sucessão, podem destruir um pastor completamente. Assim isso se evidenciou para Arthur Pink. Ele nunca mais encontrou entrada significativa para o ministério, embora ele tentasse o seu melhor. Ele buscou aberturas tanto no Reino Unido e nos EUA, sem sucesso. Ele tornou-se cada vez mais isolado. Ele terminou seus dias como um recluso evangélico na Ilha de Stornoway na costa da Escócia. Dizia-se que não mais do que dez almas compareceram ao seu funeral.

Há muito que podemos aprender com a vida de A. W. Pink. Em primeiro lugar, delinearemos a sua infância, em linhas gerais. Em segundo lugar, descreveremos a sua experiência na Austrália, e traçaremos os efeitos adversos disso em sua vida. Em terceiro lugar, consideraremos o impacto de seu ministério de escrita.

1. Início da vida

Arthur Pink nasceu em Nottingham, Inglaterra, em 1886. Seus pais eram piedosos. Eles viviam conforme a Bíblia e santificavam o dia do Senhor. Arthur foi o primeiro dos três filhos educados no temor e na admoestação do Senhor. Para a tristeza de seus pais, os três filhos caíram em vida de incredulidade. Mas o pior estava por vir: Arthur abraçou a Teosofia, um culto esotérico que reivindicava poderes do ocultismo! “Lúcifer” era o nome da principal revista de Teosofia. A marca natural da personalidade de Arthur era a entrega sincera e completa ao que fazia, e ele adentrou na Teosofia com zelo. A liderança foi oferecida a ele, o que significava que ele teria que visitar a Índia. Ao mesmo tempo, um amigo que era um cantor de ópera, observou que Arthur possuía uma aguda voz tipo barítono; ele instou com Pink para avaliar uma carreira na ópera. Depois, de repente, numa noite, durante 1908, Arthur foi convertido. Sua primeira ação foi pregar o Evangelho ao grupo Teósofo.

Simultaneamente à conversão de Pink, ocorreu um chamado para o ministério Cristão. Mas as faculdades estavam nas mãos de liberais empenhados na destruição das Escrituras. Arthur, porém, ouviu falar do Instituto Bíblico Moody, que fora fundada por D. L. Moody em 1889 e em 1910, com 24 anos, Pink partiu para Chicago a fim de começar um curso de dois anos. Todavia, seu tempo em Moody durou apenas seis semanas. Ele decidiu que estava perdendo tempo, e que ele deveria entrar diretamente em um pastorado — e seus profes-sores concordaram! Ele não estava descontente, mas, antes, frustrado, que o ensino estivesse lançado a um nível tão primário, de modo que este ensino não fez nada por ele.

Ao longo de 1910, ele iniciou seu primeiro pastorado em Silverton, Colorado, um campo de mineração nas montanhas de San Juan. Nós possuímos poucos detalhes deste período, mas sabemos que a partir de Silverton, Pink mudou-se para Los Angeles. Ele sempre foi um trabalhador, e isso é ilustrado pelo fato de que de uma vez, em Oakland, ele esteve envolvido no evangelismo em tendas em seis noites por semana, durante 18 semanas!

De Los Angeles, ele se mudou para Kentucky. Foi ali que ele conheceu e se casou com Vera E. Russell. Não poderia ter havido um melhor presente do céu. Vera era totalmente comprometida com o Senhor. Ela era trabalhadora, talentosa, inteligente e perseverante. Ela morreu apenas dez anos após morte de Arthur, na ilha de Stornoway.

A próxima mudança foi para Spartanburg, Carolina do Sul, de 1917 a 1920. O edifício desta igreja consistia em uma pequena e frágil estrutura de madeira, enquanto ele e Vera viviam em uma pequena casa de madeira sustentada por colunas de madeira. O aquecimento era inadequado e, no inverno gelado a casa era como uma caixa de gelo.

Foi durante esse tempo que Pink começou a escrever livros. Houve dois significativos: um com o título “Divine Inspiration of the Bible” (A Inspiração Divina da Bíblia), e segundo “The Sovereignty of God” (A Soberania de Deus), cujo prefácio é datado em junho de 1918. Este foi o livro posteriormente publicado pelos editores de The Banner of Truth. A primeira edição, de acordo com I. C. Herendeen, seu primeiro editor na época, foi apenas de 500 cópias, e foi uma luta vender esse número. Quando o livro chegou a Banner, foi editado por Iain Murray e melhorou bastante. Tornou-se um dos mais populares livros impressos da The Banner of Truth. Em 1980, haviam sido vendidos 92 mil exemplares.

Após cerca de um ano em Spartanburg, Pink quase veio a sofrer. Ele sentiu uma forte convicção de desistir do ministério e dedicar-se apenas a escrever, e num dado momento, esteve desconsolado. Vera escreveu a uma amiga dizendo que o marido estava mesmo pensando em deixar o ministério e entrar em negócios, para ganhar dinheiro para o Reino como uma melhor maneira de servir a Deus. Em 1920, Arthur renunciou ao pastorado em Spartanburg. Ele e Vera mudaram-se e se estabeleceram em Swengel, Pensilvânia, a fim de estarem perto do editor I. C. Herendeen.

Em meados de julho de 1920, ele permitiu-se realizar uma série de reuniões na Califórnia. Grandes multidões se reuniram e muitos foram salvos. Em dado momento, 1.200 se reuniam para ouvir o Evangelho. Outras cruzadas e conferências ocorreram a seguir; era evidente que Pink era eminentemente adequado para este tipo de ministério. Olhando para trás, ao longo de sua vida, é evidente que ele experimentou mais bênção no ministério itinerante do que ele o fez em um total de 12 anos no pastorado de igrejas. Isso relacionava-se ao seu temperamento; ele preferia gastar seu tempo estudando mais do que fazendo visitas.

Em 1921, Arthur e Vera voltaram à Pensilvânia. A compilação mensal, os Estudos nas Escrituras, apareceu pela primeira vez em 1922. Esta revista esteve ativa de forma contínua, sem interrupção por 32 anos, até a morte de Arthur em 1952. Inicialmente, esta era uma revista de 24 páginas, contendo de 4 a 6 artigos, como porções de uma série. Escrever material expositivo em um elevado padrão, a este ritmo, a cada mês, é um tremendo testemunho de sua compreensão das Escrituras, e da benção e capacitação do Senhor. Todos os seus artigos tinham que ser escritos à mão e finalizados para impressão pelo menos dois meses antes da data de publicação. Estudos nas Escrituras tinha cerca de 1.000 exemplares em circulação, inicialmente, mas na maior parte de sua existência, o nível de subscrição pairava em cerca de 500. O aspecto financeiro sempre foi precário, com apenas o suficiente para cobrir os custos de impressão de um mês ao outro. Pink correspondia-se com alguns de seus assinantes; eventualmente, isso compôs o seu trabalho pastoral. Durante todo o tempo, ele foi auxiliado por sua trabalhadora esposa, que atuava como secretária. Eles nunca tiveram filhos, sempre viveram mui humildemente, e sempre conseguiam quitar suas despesas. Isso foi possível por meio de uma modesta herança deixada para ele por seus pais e por meio de ofertas que ele recebia de seus leitores.

Durante 1923, Arthur caiu em uma profunda depressão, que culminou em um colapso nervoso. Neste momento um jovem casal que fora muito abençoado pelo ministério de Pink veio a auxilia-lo, e Arthur foi cuidado por um período de vários meses de descanso forçado, que o trouxe de volta à saúde normal.

Em 1924, uma importante nova direção veio em forma de cartas de convite, de uma editora em Sydney, na Austrália. Antes de partir para a Austrália, não menos que a preparação de quatro meses teve que ser feita em Estudos. Em seu caminho para a Austrália, Pink envolveu-se em mais conferências Bíblicas, pregando no Colorado, depois em Oakland, Califórnia, e também São Francisco — de onde ele e Vera embarcaram, através do Pacífico, para Sydney.

2. A Experiência de Pink na Austrália

O casal Pink esteve por um total de três anos e meio na Austrália. Esse período foi para eles o melhor, mas também tornou-se o pior. Após a chegada, Arthur teve mais convites do que ele, possivelmente, cumpriria. Inicialmente o seu ministério na Austrália foi um grande sucesso. Uma multidão se reuniu; igrejas foram preenchidas; crentes foram reavivados; e almas foram conduzidas ao Salvador.

A audiência crescia em todo lugar que ele pregava. No primeiro ano na Austrália, Arthur pregou por 250 vezes. Ele costumava trabalhar até 2:00 da manhã para manter a Studies in the Scriptures em atividade. O casal Pink realmente deve ter sentido que, finalmente, havia encontrado o lugar de realização permanente. Havia um poder evidente em seu ministério. Um crente maduro declarou que ele atraía as pessoas “como um ímã”, e que ele pregava “todo o conselho da Palavra de Deus”, e era capaz de pregar um sermão “de cada palavra do texto”.

Este período revelou-se de grande alegria. Pink tinha neste momento 40 anos de idade. Ele esteve pregando quase diariamente por mais de uma hora. Ele poderia chegar em casa às 22:00 horas e, em seguida, trabalhar até às 02:00 horas. Ele escreveu, “nunca antes, durante nossos 16 anos no ministério, nós experimentamos tal bênção e alegria em nossas almas, tal liberdade de expressão, e uma resposta tão animadora quanto experimentamos nesta porção altamente favorecida da vinha de Cristo”.

Podemos ter certeza de que um vívido e poderoso ministério que salva almas despertará a fúria de Satanás. E assim isso provou ocorrer, neste caso, quando a antiga serpente, o Diabo, montou um astuto contra-ataque. Os líderes da União Batista eram fundamentalmente opostos ao Calvinismo. Esses líderes convidaram Arthur Pink para ler um artigo sobre “A Responsabilidade Humana”. Infelizmente, Pink não sabia que isso era um complô para rebaixá-lo diante dos olhos do público, e em seu fervor sincero ele caiu na armadilha. Em vez de recusar o convite, ele apresentou o artigo e, em seguida, respondeu a perguntas por mais de uma hora. O resultado disso foi que a União Batista de New South Wales publicou uma declaração de que eles concordavam, por unanimidade, em não apoiar o seu ministério. O que eles realmente queriam dizer (pois que eles mesmos não esclareceram qualquer doutrina) é que eles não concordavam com a doutrina reformada de Pink. Eles eram fundamentalmente Arminianos. O efeito de tudo isso foi que os convites minguaram, ​​e o amplo e eficiente ministério do Pink na Austrália foi reduzido drasticamente.

Foi neste momento que uma das três Igrejas Batistas Restritas e Particulares convidaram Pink para tornar-se o seu pastor. Esta igreja era conhecida como a igreja da Rua Belvoir (Belvoir Street Church). Ali Pink ocupou-se como nunca em sua vida. Ele pregou 300 vezes até o fim do ano, em 1926. Além de pregar três vezes por semana em Belvoir Street, ele pregava em três lugares diferentes em Sydney a cada semana, para uma média de 200 pessoas em cada reunião. Ele ainda conseguia manter Studies in the Scriptures pela queima do óleo da meia-noite.

Tribulação, no entanto, era iminente. A primeira parte do século XX foi um período de falta de clareza doutrinária. Uma das evidências disso era a confusão sobre o Calvinismo, Arminianismo e hiper-Calvinismo. Muitas igrejas estavam polarizadas. A União Batista era Arminiana, e os Batistas Restritas Particulares tendiam a ser hiper-Calvinistas. Este provou ser o caso da Rua Belvoir. Até por volta de maio de 1927, os Pinks criam que haviam encontrado uma igreja permanente.

3. O Impacto do Ministério de Escrita de Pink

Se a história tivesse progredido normalmente, Arthur Pink teria sido esquecido. Há vários líderes em cada geração, que são bem conhecidos, mas é pouco provável que seus nomes serão lembrados por muito tempo. Quando Arthur Pink morreu, ele era conhecido por um pequeno círculo de leitores, cerca de 500 dos que liam os seus periódicos mensais, Studies in the Scriptures, os quais ele havia produzido fielmente com a ajuda de sua esposa Vera, por 31 anos. No entanto, após sua morte, à medida que seus escritos foram reunidos e publicados como livros, seu nome se tornou muito conhecido no mundo evangélico de Língua Inglesa. Durante os anos de 1960 e 70, houve uma escassez de escritos expositivos fiéis; os escritos de Pink preencheram uma importante necessidade. Suas exposições são centradas em Deus, teologicamente convincentes e fiéis, bem como práticas e experimentais. Isso era precisamente o necessário durante um período de seca espiritual. Os editores descobriram o valor de seus escritos. O resultado foi impactante.

Por exemplo, Baker Book House publicou vinte e dois títulos diferentes por Pink, com um total combinado de vendas em 1980 de 350.000 exemplares. Por volta da mesma data, apenas três livros (Soberania de Deus, A Vida de Elias, e Enriquecendo-se com a Bíblia) somaram 211.000. No entanto, como autores reformados contemporâneos têm se multiplicado, então a demanda por livros de Pink diminuiu.

Devemos lembrar que com o advento do século XX, as principais denominações já sofreram perdas enormes para a alta crítica e o modernismo. Tal era o avanço do modernismo no final do século XIX e na primeira metade do século XX, que a maioria das faculdades e seminários Bíblicos perderam-se para uma contemporânea incredulidade e anti-Cristianismo. Em vez de produzir pregadores/pastores para as igrejas, eram enviados homens que esvaziavam as igrejas. O exemplo mais marcante é o Metodismo. A adesão global ao Metodismo cresceu de modo a ser a maior das igrejas Não-Conformistas. No entanto, esta denominação foi praticamente aniquilada pelo modernismo.

Os escritos de Pink têm suprido não somente alimento para o espiritualmente faminto, mas como Iain Murray afirma em sua obra The Life of Arthur W. Pink: “Pink tem sido extremamente importante na revitalização e no estímulo à leitura doutrinária em nível popular. O mesmo pode ser dito de poucos outros autores do século XX”.

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♦ Traduzido do original em Inglês: Biography of A.W. PinkBy Erroll Hulse

♦ Via: ChapelLibrary.org • © Copyright 2013 Chapel Library.
♦ Tradução por Camila Almeida • Revisão por William Teixeira
♦ Salvo indicação em contrário, as citações bíblicas usadas nesta tradução são da versão Almeida Corrigida Fiel | ACF • Copyright © 1994, 1995, 2007, 2011 Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

♦ Traduzido e publicado em Português pelo website oEstandarteDeCristo.com, sob a licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International Public License • Você está autorizado e incentivado a reproduzir e/ou distribuir este material em qualquer formato, desde que informe o autor, as fontes originais e o tradutor, e que também não altere o seu conteúdo nem o utilize para quaisquer fins comerciais.


Uma Defesa do Calvinismo – Charles Haddon Spurgeon

Prefácio – O Que é Calvinismo?

O grande teólogo de Princeton, Dr. B. B. Warfield, descreve o Calvinismo da seguinte maneira:

“Calvinismo é o evangelismo em sua pura e única expressão estável, e quando dizemos evangelismo, nós falamos sobre pecado e salvação. Isso significa total dependência de Deus para a salvação. Implica, portanto, na necessidade de salvação e um profundo senso de essa necessidade, juntamente com uma igualmente profunda percepção de impotência na presença dessa necessidade, e total dependência de Deus para a sua satisfação. Seu tipo é encontrado no publicano que bateu no peito e clamou: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” [Lucas 18:13]. Nenhuma contestação sobre salvar a si mesmo, ou cooperação.

Deus salva-o, ou abre o caminho para Deus para salvá-lo. Não questiona-se qualquer coisa, mas “eu sou um pecador, e toda a minha esperança está em Deus, meu Salvador!”. Isso é o Calvinismo, e não apenas algo como o Calvinismo, ou uma aproximação do Calvinismo, mas o Calvinismo em sua manifestação vital. Onde quer que esta atitude do coração é encontrada e é dada expressão em termos diretos e inequívocos, há Calvinismo. Onde esta atitude da mente e do coração ausente, mesmo que em pequena medida, ali o Calvinismo tornou-se impossível”.

“O Calvinista, em uma palavra, é o homem que vê a Deus. Ele contemplou a Visão inefável, e ele não a deixará desaparecer por um momento de diante de seus olhos. Deus na natureza, Deus na história, Deus em graça. Em todo lugar ele vê Deus em Suas poderosas pegadas, em todos os lugares ele percebe a obra de Seu poderoso braço, o pulsar do Seu poderoso coração… Calvinismo é apenas o Cristianismo.”

John A. Broadus, um dos grandes e respeitados pais Batista do Sul, ao descrever o Calvinismo de Dr. James P. Boyce, seu companheiro-fundador do Seminário do Sul, disse:

“Esse sistema exaltado da verdade Paulina que é tecnicamente chamado de Calvinismo, compele um estudante sério à consideração profunda, e quando perseguido com uma combinação de pensamento sistemático e experiência fervorosa, enche seu peito dos pontos de vista mais inspiradores e enobrecedores sobre Deus e sobre o universo que Ele criou.”

Patrick Hues Mell que foi um influente ministro, educador, chanceler da Universidade da Georgia e presidente da Convenção Batista do Sul em dois mandatos 1863–1871 e 1880–1887, descreve o Calvinismo da seguinte maneira:

“O que é o Calvinismo? É um sistema de doutrinas cridas estarem contidas na Bíblia, desenvolvido pela primeira vez de forma mais elaborada e consistente por João Calvino, e, portanto, chamado pelo seu nome. Este termo, no entanto, é usado como designação deste sistema de doutrinas unicamente por uma questão de conveniência, e não implica, de forma alguma, que qualquer uma dessas doutrinas se originaram com o Reformador de Genebra, ou que os Calvinistas são responsáveis por todos os sentimentos desenvolvidos por ele.

A característica distintiva do Calvinismo é que ele sustenta a Soberania de Deus sobre todas as coisas, e o pecado não é uma exceção; e que Sua vontade é demonstrada ou de forma eficiente ou permissivamente em todas as existências e em todos os eventos na terra. Deus não é apenas um Criador e Preservador, mas um Governante soberano e eficiente. Sua providência e Sua graça, portanto, controlam todas as coisas e eventos, grandes e pequenos, bons e maus, materiais e mentais. A partir de uma escolha inteligente, Ele permite que cada coisa nos homens seja moralmente errada, e por Sua graça, de forma eficiente opera neles tudo o que é moralmente certo. Como Criador, Preservador e Governador, Ele tem bastante inteligência para saber o que Ele criaria; e Sua sabedoria e poder são adequados a todas as exigências do empreendimento em Sua incipiência, seu processo e sua consumação.

O mundo, portanto, em todos os seus detalhes físicos e morais, é exatamente como Deus projetou que fosse; e em todos os termos de sua história, em casos especiais, bem como os seus resultados gerais, Ele efetuará o que Ele projetou em Sua criação, na Sua preservação, e em Seu governo. Ele não cometeu nenhum erro em Seu plano; portanto, nada acontece no Seu sistema de forma inesperada para Ele. Deus não é deficiente em poder, portanto, nada funciona ali, à parte dEle. “Deus dispõe de e direciona para algum fim particular, cada pessoa e coisa a que Ele deu, ou ainda dará, existência, e faz com que toda a criação seja subserviente à declarativa de Sua própria glória”. “O Senhor fez todas as coisas para atender aos seus próprios desígnios, até o ímpio para o dia do mal” (Provérbios 16:4). “Tudo o que o Senhor quis, fez, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos” (Salmo 135:6). “O Senhor dos Exércitos jurou, dizendo: Como pensei, assim sucederá, e como determinei, assim se efetuará. Este é o propósito que foi determinado sobre toda a terra; e esta é a mão que está estendida sobre todas as nações. Porque o Senhor dos Exércitos o determinou; quem o invalidará? E a sua mão está estendida; quem pois a fará voltar atrás?” (Isaías 14:24-27). “Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém” (Romanos 11:36).

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Uma Defesa do Calvinismo, Por C. H. Spurgeon

[Nota: Esta mensagem foi extraída da Autobiografia de C. H. Spurgeon, Volume 1]

É algo grandioso iniciar a vida Cristã crendo em boa e sólida doutrina. Algumas pessoas têm recebido vinte diferentes “evangelhos” em alguns anos; quantos mais eles aceitarão antes de chegar ao final de sua jornada, seria difícil de prever. Agradeço a Deus que Ele cedo me ensinou o Evangelho, e eu tenho estado tão perfeitamente satisfeito com ele, que eu não careço de qualquer outro. A mudança constante de credo resultará certamente em perdas. Se uma árvore tiver que ser arrancada duas ou três vezes por ano, você não precisará construir um grande depósito para armazenar as maçãs. Quando as pessoas estão sempre mudando seus princípios doutrinários, elas não são susceptíveis de produzir muito fruto para a glória de Deus. É bom que os jovens crentes comecem com um firme apego àquelas grandes doutrinas fundamentais que o Senhor nos ensinou em Sua Palavra. Por que, se eu cresse no alguns pregam sobre a salvação temporária, passageira, que dura apenas por um momento, eu dificilmente seria grato por isso; mas quando sei que aqueles a quem Deus salva, Ele salva com uma salvação eterna, quando sei que Ele lhes dá uma justiça eterna, quando eu sei que Ele estabelece-os sobre um eterno fundamento de amor sem fim, e que Ele os trará para o Seu reino eterno, oh! então maravilho-me, e assombro-me que uma bênção como esta pudesse ter sido alguma vez dada a mim!

“Silêncio, minh’alma! Adore, e maravilhe-se!
Pergunte: ‘Oh! por que tão grande amor para comigo?’
A graça colocou-me no número
Da família do Salvador: Aleluia!
Graças, graças eternamente, a Ti!”

Eu suponho que haja algumas pessoas cujas mentes naturalmente se inclinam em direção à doutrina do livre-arbítrio. Eu apenas posso dizer que a minha se inclina mui naturalmente para as Doutrinas da Graça Soberana. Às vezes, quando vejo na rua algumas das piores pessoas, eu sinto como se meu coração devesse irromper em lágrimas de gratidão por Deus nunca ter me deixado agir como aquelas pessoas! Eu tenho pensado que se Deus tivesse me deixado sozinho e não tivesse me tocado por Sua graça, que grande pecador eu teria sido! Eu teria ido o mais longe possível no pecado, mergulhado nas profundezas do mal, nem eu teria parado qualquer vício ou loucura se Deus não me tivesse impedido. Eu sinto que eu teria sido um rei dos pecadores, se Deus me tivesse deixado sozinho. Eu não consigo entender a razão pela qual sou salvo, exceto sobre o fundamento que Deus quis que fosse assim. Eu não posso, mesmo se eu buscar mui sinceramente, descobrir qualquer tipo de razão em mim mesmo pela qual eu deveria ser um participante da Divina graça. Se não estou neste momento sem Cristo, é somente porque Cristo Jesus cumpre a Sua vontade em mim, e esta vontade foi que eu estivesse com Ele onde Ele está, e devesse compartilhar de Sua glória. Eu não posso colocar a coroa em nenhum outro lugar, senão sobre a cabeça dAquele cuja graça poderosa me salvou de ir para dentro do abismo.

Olhando para o meu passado, eu posso ver que o alvorecer de tudo foi a partir de Deus e de Deus eficazmente. Eu não tomei nenhuma tocha para acender o sol, foi o sol que me iluminou. Eu não comecei a minha vida espiritual, não, antes, eu preferia recalcitrar e lutar contra as coisas do Espírito, quando Ele me chamou, em um tempo que eu não corria após Ele; havia um ódio natural em minha alma em relação a tudo que é santo e bom. Advertências eram ineficazes quanto a mim, alertas eram lançados ao vento, trovões eram desprezados; e quanto aos sussurros de Seu amor, eles foram rejeitados como sendo menos do que nada e vaidade. Mas, seguro estou, eu posso dizer agora, falando em nome de mim mesmo, “Ele somente é a minha salvação”. Foi Ele Quem transformou meu coração, e me trouxe de joelhos diante dEle. Eu posso, verdadeiramente, dizer com Doddridge e Toplady:

“A graça ensinou minha alma a orar,
E fez meus olhos transbordarem,”

E, chegando a este ponto, posso acrescentar:

“Esta graça tem me preservado até hoje,
E não me abandonará.”

Bem posso lembrar-me da maneira pela qual eu aprendi as Doutrinas da Graça em um único instante. Como todo homem, por natureza, eu nasci Arminiano, eu ainda acreditava nas velhas coisas que eu ouvira continuamente a partir do púlpito, e não via a graça de Deus. Quando eu estava vindo para Cristo, eu pensei que estava fazendo tudo sozinho, e embora eu buscasse ao Senhor sinceramente, eu não tinha ideia de que o Senhor estava me buscando. Eu não acho que o jovem convertido é a princípio consciente disso. Lembro-me de no mesmo dia e hora em que eu primeiramente recebi aquelas verdades em minha própria alma, quando elas foram, como diz John Bunyan, queimadas em meu coração como com um ferro quente, e lembro-me como eu senti que eu havia crescido, de repente, de um bebê a um homem; que eu havia feito progressos no conhecimento das Escrituras, por ter encontrado, de uma vez por todas, a chave para a verdade de Deus. Em uma noite, durante a semana, quando eu estava sentado na casa de Deus, eu não estava pensando muito sobre o sermão do pregador, porque eu não cria naquilo. O pensamento me ocorreu: “Como você veio a ser um Cristão?”, “Busquei ao Senhor”, respondi eu. “Mas como você veio a buscar o Senhor?”. A verdade passou pela minha mente em um momento, eu não teria procurado por Ele, a menos que tivesse havido alguma influência prévia em minha mente para me fazer buscá-lO. “Eu orei”, pensei eu, mas então eu me perguntei: “Como cheguei a orar?”, “Fui induzido a orar pela leitura das Escrituras”, repliquei comigo mesmo. “Como vim a ler as Escrituras? Eu li, mas o que me levou a fazer isso?”. Então, em um momento, eu vi que Deus estava no princípio de tudo isso, e que Deus era o Autor da minha fé, e assim toda a Doutrina da Graça se abriu para mim, e desta Doutrina eu não me afastei até o presente, e desejo fazer desta a minha confissão constante: “Eu atribuo a minha conversão inteiramente a Deus”.

Uma vez fui a um culto onde o texto era: “Escolherá para nós a nossa herança” [Salmos 47:4]; e o bom homem que ocupava o púlpito era um Arminiano. Assim, quando ele começou, disse: “Esta passagem se refere totalmente à nossa herança física, ela não tem relação com o nosso destino eterno, pois”, disse ele, “nós não carecemos que Cristo escolha para nós na questão do Céu ou inferno. É tão simples e fácil, que todo homem que tem um pouco de senso comum escolherá o Céu, e qualquer pessoa compreenderia que não deve escolher o inferno. Nós não temos nenhuma necessidade de alguma inteligência superior, ou de qualquer grandioso Ser, para escolher o Céu ou o inferno por nós. Isso é deixado ao nosso próprio livre-arbítrio, e temos bastante sabedoria dada a nós, e meios corretos para julgar por nós mesmos”, e, portanto, como ele muito logicamente inferiu, não havia necessidade de que Jesus Cristo, ou que qualquer outra pessoa, fizesse uma escolha por nós. Nós poderíamos escolher a herança por nós mesmos sem qualquer auxílio. “Ah!”, eu pensei, “mas, meu bom irmão, pode ser bem verdade que nós poderíamos, mas eu acho que nós precisaríamos de algo mais do que o senso comum antes que pudéssemos escolher corretamente”.

Em primeiro lugar, deixe-me perguntar: não devemos, todos nós, admitir uma soberana providência, e a designação da mão de Jeová, como os meios pelos quais nós viemos a este mundo? Aqueles homens que pensam que, posteriormente, nós somos deixados em nosso livre-arbítrio para escolher isso ou aquilo para dirigir os nossos passos, devem admitir que nossa entrada no mundo não ocorreu a partir de nossa própria vontade, mas que Deus teve, então, que escolher por nós. Que circunstâncias eram aquelas em nosso poder que nos levaram a eleger certas pessoas para serem nossos pais? Ele não poderia me fez nascer com a pele de um africano, nascido de uma mãe ímpia que cuidaria de mim em sua “tribo”, e me ensinaria a curvar-me diante de deuses pagãos, tão facilmente como me concedeu a uma mãe piedosa, que a cada manhã e noite dobraria seus joelhos em oração por mim? Ou, talvez Ele, se tivesse do Seu agrado, não poderia dar-me algum libertino para ter sido meu pai, de cujos lábios eu poderia ter desde cedo ouvido temerosas e imundas obscenidades? Deus não poderia ter me colocado onde eu poderia ter tido um pai bêbado, que teria me enclausurado no próprio calabouço da ignorância, e me conduzido às cadeias do crime? Não foi a providência de Deus que eu tivesse uma tão feliz porção, que os meus pais fossem Seus filhos, e se que se esforçaram para me educar no temor do Senhor?

John Newton costumava contar e rir de uma história curiosa sobre uma boa mulher que disse, a fim de provar a doutrina da eleição: “Ah! senhor, o Senhor deve ter me amado antes de eu nascer, ou então Ele não teria visto nada em mim para me amar depois”. Tenho certeza de que isso é verdade no meu caso; eu creio na doutrina da eleição, porque estou certo de que, se Deus não me tivesse escolhido, eu nunca O teria escolhido; e tenho certeza que Ele me escolheu antes de eu nascer, ou caso contrário Ele nunca teria me escolhido depois; e Ele deve ter me eleito por razões desconhecidas para mim, pois eu nunca poderia encontrar qualquer razão em mim mesmo pela qual Ele deveria ter olhado para mim com amor especial. Então, eu sou obrigado a aceitar esta grande doutrina Bíblica.

Lembro-me de um irmão Arminiano me dizendo que ele tinha lido as Escrituras por muitas e muitas vezes, e nunca conseguiu encontrar a doutrina da eleição nelas. Ele acrescentou que ele estava certo de que ele a teria encontrado se ela estivesse ali, pois ele lia a Palavra de joelhos. Eu disse a ele: “Eu acho que você lê a Bíblia em uma postura muito desconfortável, e se você tivesse lido em sua poltrona, teria sido mais provável que você a compreendesse. Ore por todos os meios, e quanto mais, melhor, mas é uma certa superstição pensar que há alguma coisa na postura em que o homem se coloca para a leitura, e quanto a ter lido toda a Bíblia vinte vezes sem ter encontrado nada sobre a doutrina da eleição, a maravilha é se você encontrou alguma coisa em absoluto. Você deve ter galopado através dela a um ritmo tal que não era susceptível de ter qualquer ideia inteligível sobre o sentido das Escrituras”.

Se seria maravilhoso ver um rio saltar caudaloso da terra, o que seria contemplar um vasto manancial do qual todos os rios da terra imediatamente irrompessem borbulhando, um milhão deles emergindo? Que visão isso seria! Quem pode concebê-lo? E ainda assim, o amor de Deus é aquela fonte, a partir da qual todos os rios da misericórdia têm alegrado a nossa raça, da qual todos os rios da graça no tempo, e de glória no porvir têm a sua origem. Minha alma, detém-te naquele manancial sagrado, e adore, e magnifique, para todo o sempre a Deus, o nosso Pai, que nos amou!

No início, quando este grande universo estava na mente de Deus, como florestas não nascidas; muito tempo antes dos ecos acordarem as solidões; antes que os montes nascessem; e longo antes que a luz brilhasse através do céu, Deus amou as Suas criaturas escolhidas. Antes que houvesse algum ser criado, quando o éter não era agitado pela asa de um anjo, quando o espaço em si não tinha uma existência, quando havia nada exceto Deus somente, mesmo então, naquela solidão da Deidade, e naquela intensa calma e profundidade, as Suas entranhas se moviam com amor por Seus eleitos. Seus nomes estavam escritos em Seu coração, e, Eles eram, então, queridos de Sua alma. Jesus amou Seu povo antes da fundação do mundo, desde a eternidade! e quando Ele me chamou pela Sua graça, Ele me disse: “Porquanto com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí” (Jeremias 31:3).

Depois, na plenitude do tempo, Ele me comprou com o Seu sangue; Ele deixou que o Seu coração sangrasse em uma profunda ferida aberta por mim, muito antes que eu O amasse. Sim, quando Ele veio pela primeira vez até mim, eu não O desprezei? Quando Ele bateu na porta e pediu para entrar, eu não O afastei, e desprezei, apesar de Sua graça? Ah, eu posso me lembrar que eu muitas vezes o fiz, até que, finalmente, pelo poder de Sua graça eficaz, Ele disse: “Eu devo, eu entrarei”, e então Ele converteu o meu coração, e me fez amá-lO. Mas, mesmo até agora eu teria resistido a Ele, se não fosse por Sua graça. Bem, em seguida, uma vez que Ele me comprou quando eu estava morto em pecados, não se segue, como consequência necessária e lógica, que Ele deve ter me amado primeiro? Será que meu Salvador morreu por mim, porque eu cria em Deus? Não; eu nem existia, então; eu tinha nenhuma existência nessa ocasião. Poderia o Salvador, portanto, ter morrido, porque eu tinha fé, quando eu ainda não havia nascido? Isso seria possível? Isso poderia ter sido a origem do amor do Salvador por mim? Oh! não; meu Salvador morreu por mim muito antes que eu cresse. “Mas”, diz alguém, “Ele previu que você teria fé, e, portanto, Ele te amou”. O que Ele previu sobre a minha fé? Ele previu que eu deveria ter fé de mim mesmo, e que eu deveria crer nEle a partir de mim mesmo? Não; Cristo não poderia prever isso, porque nenhum Cristão alguma vez dirá que sua fé se originou em si mesmo sem o dom e sem a ação do Espírito Santo. Encontrei-me com um grande número de crentes, e conversei com eles sobre este assunto; mas eu nunca conheci alguém que poderia colocar a sua mão em seu coração, e dizer: “Eu cri em Jesus sem a assistência do Espírito Santo”.

Apego-me à doutrina da depravação do coração humano, porque eu me encontro deprava-o de coração, e tenho provas diárias que na minha carne não habita bem algum. Se Deus entra em aliança com o homem antes da queda, o homem é uma tão insignificante criatura que isso deve ser um ato de graciosa condescendência da parte do Senhor; mas se Deus entra em aliança com o homem pecador, ele é, então, uma tão ofensiva criatura que isso deve ser, da parte de Deus, um ato de pura, abundante e soberana graça. Quando o Senhor entrou em aliança comigo, tenho certeza de que foi tudo por graça, nada mais do que graça. Quando me lembro que covil de feras e aves impuras que era meu coração, e quão forte era a minha vontade não-regenerada, quão obstinado e rebelde contra a soberania do governo Divino, sempre me sinto inclinado a tomar o menor lugar na casa de meu Pai, e quando eu entrar no Céu, isso será entre o menor dos menores de todos os santos, e com o principal dos pecadores.

O saudoso Sr. Denham colocou, na legenda de seu retrato, um texto admirável: “A salvação pertence ao Senhor”. Este é apenas um epítome do Calvinismo, é a soma e a substância do mesmo. Se alguém perguntar-me o que eu quero dizer por um Calvinista, eu respondo: “Ele é alguém que diz que a salvação pertence ao Senhor”. Não consigo encontrar nas Escrituras nenhuma outra doutrina além desta. É a essência da Bíblia. “Só ele é a minha rocha e a minha salvação” [Salmos 62:6]. Diga-me qualquer coisa contrária a esta verdade, e será uma heresia; diga-me uma heresia, e encontrarei a sua essência aqui, ou seja, que ela se afastou desta grande, desta fundamental rocha da verdade: “Deus é a minha rocha e a minha salvação”.

Qual é a heresia de Roma, senão a adição de algo aos perfeitos méritos de Jesus Cristo, a propositura de que as obras da carne auxiliam em nossa justificação? E qual é a heresia do Arminianismo, senão a adição de algo à obra do Redentor? Cada heresia, se trazida à pedra de toque, se desvelará aqui. Eu tenho minha própria opinião particular de que não há tal coisa como pregar Cristo e Ele crucificado, a menos que nós preguemos o que hoje é chamado Calvinismo. Calvinismo é um apelido; Calvinismo é o Evangelho, e nada mais. Eu não acredito que nós podemos pregar o Evangelho, se não pregarmos a justificação pela fé, sem obras; nem a menos que nós preguemos a soberania de Deus em Sua dispensação da graça; nem a menos que exaltemos o eletivo, imutável, eterno, inabalável, conquistador amor de Jeová; nem penso que podemos pregar o Evangelho, a menos que nos baseemos no resgate especial e particular do Seu povo eleito e escolhido, o que Cristo operou na cruz; nem posso eu compreender um Evangelho que permite que os santos venham a cair depois de serem chamados, e consente que os filhos de Deus sejam queimados no fogo da condenação após terem uma vez crido em Jesus. Tal evangelho eu abomino.

“Se alguma vez pudesse ocorrer,
Que as ovelhas de Cristo se perdessem,
Minha inconstante e fraca alma, infelizmente!
Cairia mil vezes por dia.”

Se algum querido santo de Deus pudesse perecer, então, todos poderiam; se um dos participantes do Pacto fosse perdido, então todos poderiam se perder; e então não há nenhuma promessa evangélica verdadeira, a Bíblia é apenas uma mentira, e não há nada nela que seja digno de minha aceitação. Eu serei um infiel no momento em que eu creia que um santo de Deus alguma vez pode cair finalmente. Se Deus me amou uma vez, então Ele me amará para sempre. Deus tem uma mente controladora; Ele organizou tudo em Seu gigantesco intelecto, muito antes de fazê-lo; e uma vez tendo estabelecido, Ele nunca o alterará. “Isso será feito”, diz Ele, e a mão de ferro do destino o determina, e é trazido à existência. “Este é o meu propósito”, e isso permanece, nem a terra ou o inferno podem alterá-lo. “Este é o meu decreto”, diz Ele, “promulguem isso, vós, santos anjos, arranquem da porta do Céu, ó, demônios, se puderem; mas vocês não podem alterar o decreto, ele será estabelecido para sempre”. Deus não revoga os Seus planos; por que Ele deveria? Ele é Todo-Poderoso, e, portanto, pode realizar a Sua vontade. Por que deveria? Ele é o Todo-sábio, e, portanto, não pode ter planejado de forma errada. Por que deveria? Ele é o Deus eterno, e, portanto, não pode morrer antes de Seu plano ser realizado. Por que Ele mudaria? Vós átomos inúteis da terra, coisas efêmeras de um dia, vós insetos rastejantes sobre este jardim da existência, vós podeis mudar os vossos planos, mas Ele nunca, nunca mudará os Seus. Ele me disse que Seu plano é salvar-me? Se for assim, eu estou seguro para sempre.

“Meu nome das palmas das Suas mãos
A eternidade não apagará;
Gravado em Seu coração permanece,
Em marcas de indelével graça.”

Eu não sei como algumas pessoas, que acreditam que um Cristão pode cair da graça, conseguem ser felizes. Deve ser algo muito louvável que eles sejam capazes de passar um dia sem desespero. Se eu não cresse na doutrina da perseverança final dos santos, eu acho que seria de todos os homens o mais miserável, porque eu careceria de qualquer fundamento do conforto. Eu não poderia dizer, seja qual fosse a condição de meu coração, que eu seria como um manancial de água, cujo fluxo não falha; antes, eu teria que com-parar-me com uma nascente intermitente, que pode parar de repente, ou um reservatório, que eu não teria nenhuma razão para esperar que estaria sempre cheio. Acredito que os mais felizes dos Cristãos e os mais verdadeiros dos Cristãos são aqueles que nunca se atrevem a duvidar de Deus, mas quem tomam a Sua Palavra simplesmente como é, e creem, e não fazem perguntas, apenas sentem a certeza de que se Deus disse algo, assim será. Presto de boa vontade o meu testemunho, que eu não tenho nenhuma razão, nem mesmo uma sombra de uma razão, para duvidar de meu Senhor, e eu desafio o céu, e a terra, e o inferno, para trazerem qualquer prova de que Deus não é verdadeiro. Das profundezas do inferno eu chamo os demônios, e desta terra eu convoco os crentes experimentados e aflitos, e ao Céu apelo, e desafio a longa experiência da hoste lavada pelo sangue, e não há de ser encontrado nos três domínios, uma única pessoa que possa testemunhar um fato que refute a fidelidade de Deus, ou enfraqueça a Sua reivindicação pela confiança de Seus servos. Há muitas coisas que podem ou não podem acontecer, mas isso eu sei que acontecerá:

“Ele deve apresentar a minha alma,
Sem mancha e completa,
Diante da glória de Sua face,
Com alegrias divinamente grandiosas.”

Todos os propósitos do homem têm sido derrotados, mas não os propósitos de Deus. As promessas do homem podem ser quebradas, muitas delas são feitas para serem quebrados, mas todas as promessas de Deus serão cumpridas. Ele é um fazedor de promessa, mas Ele nunca foi um quebrador de promessa; Ele é um Deus que guarda a promessa, e cada um de Seu povo provará que é assim. Esta é a minha grata confiança pessoal, “O Senhor aperfeiçoará o que me toca” [Salmos 138:8], eu sou indigno, perdido pecador e arruinado em mim mesmo, mas Ele, ainda assim, me salvará, e

“Eu, no meio da multidão lavada pelo sangue,
Agitarei a palma, e usarei a coroa,
E bradarei a vitória.”

Eu vou para a terra que o arado nunca orou, um lugar que é mais verde do que os melhores pastos da terra, e mais rico do que as suas colheitas mais abundantes já vistas. Irei para um edifício de arquitetura mais lindo do que alguém alguma vez edificou; ele não é de projeto mortal, é “de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus” [2 Coríntios 5:1]. Tudo o que conhecerei e desfrutarei no céu, será dado a mim pelo Senhor, e eu direi, quando finalmente comparecer perante Ele:

“A graça toda a obra deve coroar
Ao longo de dias eternos;
Ela estabelece no Céu a pedra do pináculo,
E bem merece o louvor.”

Eu sei que há alguns que pensam que é necessário para o seu sistema de teologia limitar o mérito do sangue de Jesus, se o meu sistema teológico necessitasse de tal limitação, gostaria de lançá-lo aos ventos. Eu não posso, eu não me atrevo a permitir o pensamento de encontrar uma acomodação em minha mente, isso parece tão perto da semelhança de blasfêmia. Na obra consumada de Cristo, eu vejo um oceano de mérito; meu prumo não encontra fundo, meu olho não descobre nenhum litoral. Deve haver eficácia suficiente no sangue de Cristo, se Deus assim o quisesse, para ter salvado não somente a todos neste mundo, mas a totalidade de dez mil mundos, se eles tivessem transgredido a lei de seu Criador. Uma vez admitida a infinitude do assunto, e o limite está fora de questão. Tendo uma Pessoa Divina por uma oferta, não é consistente conceber um valor limitado; limitações e medida são termos inaplicáveis ao sacrifício Divino. A intenção do propósito Divino fixa a aplicação da oferta infinita, mas não a transforma em uma obra finita.

Pense a quantos Deus já concedeu a Sua graça. Pense nas incontáveis hostes do Céu; se tu fosses introduzido hoje, tu encontrarias tão fácil contar as estrelas, ou as areias do mar, como contar as multidões dos que estão diante do trono mesmo agora. Eles vieram do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e eles estão sentados à mesa com Abraão, e com Isaque, e com Jacó no Reino de Deus; e ao lado daqueles no Céu, pense sobre os salvos na terra. Bendito seja Deus, que os Seus escolhidos na terra devem ser contados por milhões, eu creio, e os dias estão chegando, dias melhores do que estes, quando haverá multidões sobre multidões levadas a conhecer o Salvador, e a alegrarem-se nEle. O amor do Pai não é para alguns apenas, mas para uma mui grande companhia. “Uma multidão, a qual ninguém podia contar”, será encontrada no Céu.

Um homem pode contar até valores muito elevados; coloquem os Newtons para trabalhar, as calculadoras mais poderosas, e eles podem contar grandes números, mas Deus e só Deus pode contar a multidão de Seus remidos. Eu acredito que haverá mais no Céu do que no inferno. Se alguém me pergunta por que eu acho que sim, eu respondo, porque Cristo, em tudo, deve “ter a preeminência”, e eu não posso conceber como Ele poderia ter a preeminência se deverá haver mais pessoas nos domínios de Satanás do que no Paraíso. Além disso, eu nunca li que haverá no inferno uma grande multidão, que ninguém podia contar. Alegro-me em saber que as almas de todos os infantes, assim que eles morrem, logo seguem o seu caminho para o Paraíso. Pense em que multidão deles há! Então, já existem no Céu miríades inumeráveis dos espíritos dos justos aperfeiçoados, os remidos de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, até agora; e há melhores tempos próximos, quando a Religião de Cristo será universal; quando:

“Ele reinará de um extremo ao outro,

Com influência ilimitada.”

Quando reinos inteiros se prostrarão diante dEle, e as nações nascerão em um dia, e nos mil anos do grande estado milenar haverá salvos suficientes para compensar todas as deficiências dos milhares de anos que se passaram anteriormente. Cristo será Mestre em todos os lugares, e o Seu louvor ecoará em todas as terras. Cristo terá a preeminência, por fim; Seu cortejo será maior do que aquele que assistirá a carruagem do sombrio monarca do inferno.

Algumas pessoas amam a doutrina da expiação universal, porque elas dizem: “É tão bonita. É uma bela ideia a que Cristo teria morrido por todos os homens; ela recomenda a si mesma”, dizem eles, “pois, em relação instintos da humanidade, há algo nela cheio de alegria e beleza”. Admito que existe, mas a beleza pode estar muitas vezes associada com a falsidade. Há muito que eu possa admirar na teoria da redenção universal, mas apenas mostrarei o que a suposição envolve necessariamente. Se Cristo, em Sua cruz, intencionou salvar todos os homens, então Ele pretendia salvar os que estavam perdidos antes dEle morrer. Se a doutrina for verdadeira, que Ele morreu por todos os homens, então Ele morreu por alguns que estavam no inferno antes que Ele viesse a este mundo, pois, sem dúvida, havia até então miríades que foram lançadas ali por causa de seus pecados. Mais uma vez, se fosse a intenção de Cristo salvar todos os homens, quão deploravelmente Ele tem sido decepcionado, pois temos Seu próprio testemunho de que existe um lago que arde com fogo e enxofre, e nesse abismo de aflição têm sido lançadas algumas das próprias pessoas que, segundo a teoria da redenção universal, foram compradas com o Seu sangue. Isso me parece uma concepção mil vezes mais repugnante do que qualquer uma dessas consequências que dizem ser associadas com a Doutrina Cristã e Calvinista da redenção especial e particular. E pensar que meu Salvador morreu pelos homens que estavam ou estão no inferno, parece uma suposição horrível demais para eu sustentar.

Imagine por um momento que Cristo fosse o Substituto para todos os filhos dos homens, e que Deus, após ter punido o Substituto, posteriormente venha a punir os próprios pecadores, parece entrar em conflito com todas as minhas noções sobre a justiça Divina. Que Cristo tenha oferecido uma expiação e satisfação pelos pecados de todos os homens, e que depois alguns desses mesmos homens sejam punidos pelos pecados os quais Cristo já havia expiado, parece-me ser a iniquidade mais monstruosa que jamais poderia ter sido imputada a Saturno, a Juno, à deusa dos Thugs, ou às divindades pagãs mais diabólicas. Que Deus não permita que alguma vez pensemos assim sobre Jeová, que é justo, sábio e bom!

Não há nenhuma alma vivente que apegue-se mais firmemente as Doutrinas da Graça do que eu, e se algum homem me pergunta se eu me envergonho de ser chamado Calvinista, eu respondo: Desejo ser chamado de nada, senão de Cristão; mas se você me perguntar se eu compartilho das compressões doutrinárias que foram sustentadas por João Calvino, eu respondo, que eu sustento a maioria delas, e me regozijo em reconhecer isso. Mas longe esteja de mim, mesmo imaginar que Sião não contém nada, senão Cristãos Calvinistas dentro de seus muros, ou que não há nenhum salvo que não sustente nossos pontos de vista. Coisas mui terríveis foram ditas sobre o caráter e a condição espiritual de John Wesley, o príncipe moderno dos Arminianos. Apenas posso dizer a respeito dele que, enquanto eu detesto muitas das doutrinas que ele pregou, ainda assim, quanto ao homem em si, eu tenho uma reverência ao segundo que não era Wesleyano; e se houvesse necessidade de dois apóstolos serem adicionado ao número dos doze, acredito que não poderiam ser encontrados dois homens mais aptos para isso, do que George Whitefield e John Wesley. O caráter de John Wesley permanece além de qualquer imputação de autossacrifício, zelo, santidade e comunhão com Deus; ele viveu muito acima do nível normal dos Cristãos comuns, e foi um “dos quais o mundo não era digno”. Creio que há multidões de homens que não conseguem ver estas verdades, ou, pelo menos, não podem vê-las na maneira em que as colocamos, os quais, apesar disso, receberam a Cristo como seu Salvador, e são tão queridos ao coração do Deus da graça, como o firme Calvinista, dentro ou fora do Céu.

Eu acho que não sou diferente de qualquer um dos meus irmãos Hiper-Calvinistas quanto ao que eu creio, mas eu discordo deles no que eles não acreditam. Eu não sustento nada menos do que eles, mas eu sustento um pouco mais, e, eu acho, um pouco mais da verdade revelada nas Escrituras. Não só existem algumas doutrinas fundamentais, pelas quais podemos orientar o nosso navio Norte, Sul, Leste ou Oeste, mas à medida que estudamos a Palavra, começaremos a aprender algo sobre o Noroeste e Nordeste, e tudo o mais que fica entre os quatro pontos cardeais. O sistema da verdade revelada nas Escrituras não é simplesmente uma única linha reta, mas duas; e nenhum homem jamais terá um entendimento correto do Evangelho até que ele saiba como olhar para as duas linhas ao mesmo tempo. Por exemplo, eu li em um livro da Bíblia: “E o Espírito e a esposa dizem: Vem. E quem ouve, diga: Vem. E quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida” [Apocalipse 22:17]. No entanto, eu sou ensinado, em outra parte da mesma Palavra inspirada, que “isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” [Romanos 9:16]. Eu vejo, em uma passagem, Deus, em providência, presidindo tudo, e ainda assim eu vejo, e eu não posso deixar de ver, que o homem age como lhe agrada, e que Deus deixou as suas ações, em grande medida, à sua própria livre-agência.

Agora, se eu declarasse que o homem era tão livre para agir que não havia controle de Deus sobre suas ações, isso seria ir muito perto do ateísmo. E se, por outro lado, devo declarar que Deus controla todas as coisas de tal maneira que o homem não é livre o bastante para ser responsável, eu seria conduzido neste exato momento ao Antinomianismo ou fatalismo. Que Deus predestina, e ainda assim o homem é responsável, são dois fatos que poucos podem ver claramente. Acredita-se que estas duas verdades são inconsistentes e contraditórias, uma em relação a outra. Se, então, eu encontro ensinado em uma parte da Bíblia que tudo é predestinado, isso é verdade; e se eu encontro, em outra Escritura, que o homem é responsável por todas as suas ações, isso é verdadeiro; e é apenas a minha tolice que me leva a imaginar que essas duas verdades alguma vez podem se contradizer. Eu não acredito que elas podem alguma vez ser fundidas transformando-se em uma, em qualquer bigorna terrena, mas elas certamente serão apenas uma na eternidade. Elas são duas linhas que são quase tão paralelas, que a mente humana que as segue mais à distância nunca descobrirá que elas convergem, mas elas convergem, e elas se encontrarão em algum lugar na eternidade, perto do trono de Deus, de onde procede toda a verdade.

Costuma-se dizer que as doutrinas que cremos têm uma tendência a levar-nos a pecar. Eu ouvi afirmado mui positivamente, que aquelas grandes doutrinas que amamos, e que encontramos nas Escrituras, são doutrinas licenciosas. Não sei quem terá a audácia de fazer esta afirmação, quando eles considerarem que os mais santos dos homens têm crido nelas. Peço ao homem que se atreve a dizer que o Calvinismo é uma Religião licenciosa, o que ele pensa sobre o caráter de Agostinho, ou de Calvino, ou de Whitefield, os quais, em eras sucessivas foram os grandes expoentes do sistema da graça; ou o que ele dirá sobre os Puritanos, cujas obras estão cheias destas doutrinas? Se um homem fosse um Arminiano naqueles dias, ele seria considerado como o mais vil dos hereges, mas agora nós somos vistos como hereges, e eles como ortodoxos. Nós voltamos à velha escola; podemos traçar nossa descendência desde os apóstolos. É aquela veia de livre graça, correndo através da pregação dos Batistas, que nos preservou como uma denominação. Se não fosse por isso, não permaneceríamos onde estamos hoje. Nós podemos traçar uma linha dourada até o próprio Jesus Cristo, através de uma santa sucessão de poderosos pais, os quais todos sustentaram estas verdades gloriosas; e podemos perguntar a respeito deles: “Onde você encontrará homens mais santos e melhores no mundo?”.

Nenhuma doutrina é tão projetada para preservar o homem do pecado quanto a doutrina da graça de Deus. Aqueles que a chamaram de “uma doutrina licenciosa” não conheciam nada sobre ela. Pobres criaturas ignorantes, eles pouco sabiam que a sua própria vil doutrina era a mais licenciosa debaixo do Céu. Se eles conhecessem a graça de Deus verdadeiramente, eles logo veriam que não havia nada que conservasse da apostasia como um conhecimento de que somos eleitos de Deus desde a fundação do mundo. Não há nada como uma crença em minha perseverança eterna, e na imutabilidade da afeição de meu Pai, que possa manter-me perto dEle por um simples motivo de gratidão. Nada faz um homem tão virtuoso quanto a crença na verdade. A doutrina apóstata em breve gerará uma prática apóstata. Um homem não pode ter uma crença errônea sem, aos poucos, ter uma vida errônea. Eu creio que uma coisa naturalmente gera a outra. De todos os homens, os que têm a mais desprendida piedade, a mais sublime reverência e a mais ardente devoção são aqueles que creem que eles são salvos pela graça, sem as obras, por meio da fé, e isto não vem deles mesmos, é dom de Deus. Os Cristãos devem tomar cuidado, e perceber que isso é sempre assim, a menos que Cristo seja crucificado novamente e exposto ao vitupério.

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♦ Traduzido do original em Inglês: A Defense of Calvinism • By C. H. Spurgeon
♦ Via: Via SpurgeonGems.org • daptado a partir de The C. H. Spurgeon Collection, Version 1.0, Ages Software.
♦ Tradução por Camila Almeida • Revisão por William Teixeira
♦ Salvo indicação em contrário, as citações bíblicas usadas nesta tradução são da versão Almeida Corrigida Fiel | ACF • Copyright © 1994, 1995, 2007, 2011 Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil. 

♦ Traduzido e publicado em Português pelo website oEstandarteDeCristo.com, com permissão de Emmett O’Donnell em nome de SpurgeonGems.org, sob a licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International Public License • Você está autorizado e incentivado a reproduzir e/ou distribuir este material em qualquer formato, desde que informe o autor, as fontes originais e o tradutor, e que também não altere o seu conteúdo nem o utilize para quaisquer fins comerciais.


Um Espinho na Carne – Robert Murray M’Cheyne

“E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar. Acerca do qual três vezes orei ao Senhor para que se desviasse de mim. E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte.” (2 Coríntios 12:7-10)

O que está contido nessa passagem? I. O maravilhoso privilégio de Paulo, a saber, ser arrebatado ao terceiro céu, e ao paraíso, teve um dia de antecipação da glória; viu e ouviu coisas maravilhosas. II. A humilhante visitação de Paulo: um espinho na carne. Ele esteve no mundo dos espíritos, onde não há pecado; agora ele foi levado a sentir que ele tinha um corpo de pecado, a clamar: “Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?” [Romanos 7:24]. Ele esteve entre os habitantes do céu; agora a alguém do inferno é permitido esbofeteá-lo. III. Sua conduta sob isso: perseverante oração fervorosa. “Acerca do qual (assinalando a sua seriedade) três vezes orei”, nenhuma resposta havia ainda sido dada e ele continuava a orar. Antes, ele estava mais envolvido em louvar, ou pensando em contar aos outros; agora ele é trazido a clamar por sua própria alma, para que ele não seja um reprovado. A resposta: “A minha graça te basta”. Deus não arranca o espinho, não dirige o diabo de volta para o inferno; não o leva para fora do corpo. Não; mas Ele abre seu próprio seio, e diz: “Veja, aqui há graça suficiente para você; aqui há força que sustentará o mais fraco”. IV. A resolução de Paulo: seguir o seu caminho glorificando a Deus em suas enfermidades. Ele está contente em ter fraquezas, em ter um corpo de pecado, a fim de que Cristo seja glorificado ao sustentar um vaso tão fraco. Que o poder de Cristo habite continuamente em minha alma; que a Sua forte mão tenha alguém para sustentar para o Seu próprio louvor. Tenho prazer em todas as dispensações humilhantes; pois elas me ensinam que eu não tenho força, e então, eu sou mais forte.

I. O maravilhoso privilégio de Paulo.

Ele tinha obtido uma antecipação da glória dos céus. Esta viveu um período maravilhosa para a sua alma. Ele foi arrebatado ao terceiro Céu, ou ao Paraíso. Ele foi levado para a casa do Pai, com muitas moradas. Ele foi levado para estar com Jesus e o ladrão salvo no Paraíso. Ele não poderia dizer muito sobre como isso ocorreu, se ele estava no corpo ou fora do corpo, ele não poderia dizer. As palavras que ouviu, as palavras do Pai, as palavras de Jesus, as canções dos redimidos e dos santos anjos, eram inefáveis. Ainda assim, ele nunca poderia esquecer aquele dia. Quatorze anos se passaram sobre a sua cabeça, e isso ainda estava fresco em sua lembrança. As visões que viu, as palavras que ouviu, ele jamais esqueceria. Este foi exatamente um dia de glória, uma antecipação do céu.

Queridos crentes, vocês também têm privilégios maravilhosos. Vocês também têm as suas antecipações do céu. Vocês podem não ter as visões milagrosas do paraíso que Paulo fala aqui; ainda assim, vocês provaram a própria alegria que está nos Céus; beberam do próprio rio dos deleites de Deus. Se vocês conhecem o Senhor Jesus, vocês sabem quem é a Pérola do Céu, o Sol e o Centro dele. Se vocês têm o sorriso do Pai, vocês têm a própria alegria do Céu. Acima de tudo, se vocês têm o Espírito Santo que habita em vocês, têm também a garantia da herança. Em tais dias, como na última comunhão de Sabath, as alegrias de um Cristão não são inefáveis e cheias de glória? “Ao qual, não o havendo visto, amais”. Não devem tais dias ser lembrados? Mesmo quatorze anos depois, quando muitos terão ido para a mesa acima, alguns olharão para trás, para o Sabath passado, como um dia vivido em Seus átrios, melhor do que mil dias. Para aqueles de vocês que não obtêm nenhuma alegria em tais ocasiões, nada podemos dizer, senão que vocês não teriam nenhuma alegria no Céu! Se vocês não estão contentes à mesa aqui de baixo, vocês nunca, eu temo, estarão felizes à mesa de acima.

II. A humilhante visitação de Paulo. “E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar” (v. 7).

1. O que foi dado a ele.

O espinho na carne que se fala aqui é entendido de formas diferentes pelos intérpretes. (1) Alguns entendem que possa ter sido uma doença física; algumas fortes dores lancinantes dadas a ele. A dor e a doença são muito humilhantes. Eles são frequentemente usados por Deus para humilhar o espírito altivo do homem. (2) Alguns entendem por isso, alguma tentação notável para o pecado imediatamente a partir da mão do diabo. Um mensageiro de Satanás, que era como um espinho em sua alma. (3) Alguns entendem que possa ter sido algum pecado persistente, alguma parte do seu corpo de pecado do qual ele se queixa tão dolorosamente (Romanos 7). Alguns desejos de seu velho homem despertados à atividade por um mensageiro de Satanás. Parece mais provável que este era o espinho que o fazia gemer.

O que quer que fosse, uma coisa é clara: foi uma visita verdadeiramente humilhante. Ela levou Paulo ao pó. Um pouco antes, ele havia estado no mundo sem pecado, não sentia o corpo do pecado, viu os espíritos puros diante do trono, e os espíritos aperfeiçoados dos homens justos; agora, ele é levado para baixo para sentir que ele tem um corpo de pecado e morte, que ele tem um espinho na carne. Um pouco antes, ele estava entre os santos anjos, pisoteando o inferno e a sepultura debaixo de seus pés; agora, um mensageiro do inferno é enviado para lhe esbofetear. “Miserável homem que sou!”.

Pergunta. Por que este espinho foi dado a ele?

Resposta. Para que ele não se exaltasse acima da medida. Isto é indicado por duas vezes. Que coisa singular é o orgulho! Quem teria pensado que o arrebatamento de Paulo ao Paraíso algum dia o teria tornado orgulhoso? E ainda assim, Deus, que conhecia o seu coração, sabia que seria assim, e por isso o trouxe para baixo ao pó. O orgulho da natureza é assombroso. Um homem natural é orgulhoso de nada. Orgulhoso de sua pessoa, embora ele não tenha feito, ainda assim, ele é orgulhoso de sua aparência. Orgulhoso de sua veste, embora uma tora de madeira pudesse ter a mesma causa de orgulho, se você colocasse roupa nela. Orgulhoso de riquezas, como se houvesse algum mérito em ter mais ouro do que outros. Orgulhoso quanto à classe, como se houvesse algum mérito em ter sangue nobre. Ai! O orgulho corre nas veias; no entanto, há um orgulho mais assombroso do que o natural: o orgulho da graça. Você pensaria que um homem nunca poderia estar orgulhoso, pelo fato de uma vez ter estado perdido, contudo isso, infelizmente, acontece! A Escritura e a experiência mostram que um homem pode orgulhar-se de sua medida de graça; orgulhar-se do perdão; orgulhar-se da humildade; orgulhar-se de saber mais sobre Deus do que os outros. Foi isso o que foi surgindo no coração de Paulo, quando Deus lhe enviou o espinho na carne.

Caros amigos, alguns de vocês no último dia do Senhor foram trazidos para muito perto de Deus, e cheios de alegria indizível e cheia de glória. Alguns, eu estou bem certo, tiveram, desde então, a humilhante experiência de Paulo. Vocês pensaram que estavam para sempre longe do pecado, mas um espinho na carne vos trouxe para baixo. Vocês caíram em pecado durante a semana; ou algo assim vos trouxe para baixo, em verdade. “Miserável homem que sou!”. Por que vocês caíram assim após um período de comunhão?

1. Para torna-los humildes. Para ensinar-lhes que vermes vis vocês são; quando vocês podem ir à mesa do Senhor, e ainda cair tão baixo, isto pode muito bem ensinar-lhes que vocês são vis. Vocês pensaram, talvez, que o pecado estava purificado, mas aqui vocês o veem novamente. Oh! que necessidade constante vocês têm do sangue de Jesus!

2. Para fazê-los anelar pelo Céu. Lá não haverá mais pecado, para sempre. Nada, senão santidade haverá ali. Nada impuro pode entrar. Progridam para isso! Não se sentem pelo caminho. Olhem adiante, para a glória.

III. O remédio de Paulo: a oração.

Aqui está a diferença entre um homem natural e um filho de Deus. Ambos têm o espinho na carne; mas um homem natural está contente com ele. Suas concupiscências não o envergonham e nem o incomodam. Um filho de Deus não pode descansar sob o poder da tentação. Ele voa para os joelhos. No momento em que Paulo sentiu as bofetadas do mensageiro de Satanás, ele caiu de joelhos, orando ao Pai para levá-lo para longe dele. Nenhuma resposta veio. Mais uma vez ele vai ao trono da graça. Novamente, nenhuma resposta. Uma terceira vez ele cai de joelhos, e não O deixou ir sem a bênção. A resposta vem: “A minha graça te basta”. Não foi o que ele pediu. Ele suplicou: “Arranque esse espinho”. Deus não arranca o espinho de sua carne, não conduz o mensageiro de Satanás de volta para o inferno. Ele poderia ter feito isso, mas Ele não o faz. Ele abre o seu próprio coração, e diz: “Aprouve a Deus que em Mim habitasse toda a plenitude: ‘a minha graça te basta’”. Aqui está o Espírito Santo para cada necessidade de tua alma. Oh! que suprimento, então, Paulo viu em Cristo! Que riqueza insondável! Ele tinha visto muito no terceiro Céu, mas aqui estava algo maior, um Espírito todo-poderoso ministrando às necessidades de pobres fracos pecadores.

Queridos amigos, vocês já encontraram este remédio da alma tentada?

1. Vocês foram conduzidas aos joelhos pela tentação? Eu disse, que a semana anterior à Comunhão deve ser uma semana de oração; mas se vocês já tivessem a experiência de Paulo, a semana seguinte também teria sido uma semana de oração.

2. Ó alma tentada! Seja importuna, não se abata por alguma recusa. Homens devem orar sempre, e nunca desfalecer. Seja como a viúva persistente, como a mulher Cananéia. Se você se acomodar com o pecado, você pode muito bem temer que não haja graça em você.

3. Tome a resposta de Paulo. Deus pode não arrancar o espinho. Este é o mundo de espinhos. Mas olhe para o Seu seio. Há o suficiente em Jesus para preservar a sua alma. O oceano é cheio de gotas, mas o coração de Cristo é mais cheio de graça. Oh! ore para que seus desejos sejam tirados, ou para que você possa confiar na graça que há em Cristo Jesus.

IV. A determinação de Paulo. “E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte” (2 Coríntios 12:9-10).

“De boa vontade”. Quando Paulo foi arrebatado ao Paraíso ele pensou que nunca mais sentiria seu corpo de pecado, mas quando ele foi humilhado e levado a conhecer-se melhor, e conhecer a graça que há em Cristo, então a sua glória para sempre se fora; ele viu que tinha um frágil corpo de pecado e de morte, e que havia poder suficiente em Cristo para guardá-lo de cair. A partir daquele dia ele não se gloriou de que ele não tinha pecado em si, mas que ele tinha um Salvador onipotente habitando nele e sustentando-o. Agora, ele se deleitava em tudo o que lhe fizesse sentir a sua fraqueza; pois isso o levava a Jesus, a busca Sua força.

Aprendam, queridos irmãos, a verdadeira glória de um Cristão neste mundo. O mundo não conhece nada disso. Um verdadeiro Cristão tem um corpo de pecado. Ele tem toda a luxúria e corrupção que há no coração do homem ou do diabo. Contudo, ele não deseja nenhuma tendência ao pecado. Se o Senhor deu-lhes luz, vocês conhecem e sentem isso.

Qual é a diferença, então, entre vocês e o mundo? Infinita! Vocês estão nas mãos de Cristo. Seu Espírito está dentro de vocês. Ele é capaz de guardá-los de cair. “Alegrai-vos no Senhor, e regozijai-vos, vós os justos; e cantai alegremente, todos vós que sois retos de coração” [Salmos 32:11].

São Pedro, 26 de abril de 1840.

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♦ Traduzido do original em Inglês: A Thorn In The Flesh • By R. M. M’Cheyne • Extraído da obra original, em volume único: The Sermons of the Rev. Robert Murray M’Cheyne, Minister of St. Peter’s Church, Dundee.
♦ Via: Books.Google.com.br
♦ Tradução por Camila Almeida • Revisão por William Teixeira

♦ Salvo indicação em contrário, as citações bíblicas usadas nesta tradução são da versão Almeida Corrigida Fiel | ACF • Copyright © 1994, 1995, 2007, 2011 Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

♦ Traduzido e publicado em Português pelo website oEstandarteDeCristo.com, sob a licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International Public License • Você está autorizado e incentivado a reproduzir e/ou distribuir este material em qualquer formato, desde que informe o autor, as fontes originais e o tradutor, e que também não altere o seu conteúdo nem o utilize para quaisquer fins comerciais.


Uma Exposição de Hebreus 13:20-21 – A. W. Pink

[Capítulo 3 do livro A Guide to Fervent Prayer • Editado]

“Ora, o Deus de paz, que pelo sangue da aliança eterna tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus Cristo, grande pastor das ovelhas, vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus, ao qual seja glória para todo o sempre. Amém.” (Hebreus 13:20-21) 

“Ora, o Deus de paz… vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus”. Como indicado anteriormente, existe uma ligação muito estreita entre esse versículo e o anterior. Aqui temos a petição que o apóstolo ofereceu, em nome dos santos Hebreus, ao passo que o conteúdo do versículo anterior deve ser considerado como o argumento sobre o qual ele baseou seu pedido. Exatamente quão apropriado, poderoso e comovente fundamento era, prontamente será visto. O apelo é feito ao “Deus da paz”. Como Aquele que estava reconciliado com o Seu povo, Ele é suplicado para conceder esta bênção (cf. Romanos 5:10). Além disso, uma vez que Deus havia trazido novamente nosso Senhor Jesus dentre os mortos, este era um fundamento muito adequado sobre o qual Ele vivificaria os Seus eleitos espiritualmente mortos, por meio da regeneração, os resgataria quando eles vagueavam, e completaria a Sua obra da graça neles. Foi na qualidade de “o grande Pastor das ovelhas” que Nosso Senhor Jesus foi ressuscitado por Seu gracioso Pai da prisão da sepultura, a fim de que Ele seja capaz, como Alguém que vive para sempre, de cuidar do rebanho. O nosso grande Pastor está atualmente suprindo todas as necessidades de cada uma de Suas ovelhas por meio de Sua intercessão em nosso favor (Romanos 8:34; Hebreus 7:25). Por este meio eficaz, Ele agora está dispensando dons aos homens, especialmente aqueles dons que promovem a salvação de pecadores como nós (Efésios 4:8). Além disso, a mesma aliança eterna que prometeu a ressurreição de Cristo, também garantiu a glorificação do Seu povo. Assim, o apóstolo invoca a Deus Pai, para aperfeiçoá-los de acordo com esse compromisso.

Uma Oração por Santidade e Fecundidade

“Ora, o Deus de paz… vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade”. Substancialmente, este pedido é por santificação prática e frutificação do povo de Deus. Enquanto a aliança eterna foi adequadamente denominada “pacto da redenção”, devemos cuidadosamente ter em mente que Ele foi designado para proteger a santidade de Seus beneficiários. Fazemos bem em refletir sobre o clamor profético que fez Zacarias, cheio do Espirito Santo, que o “Bendito o Senhor Deus de Israel… [deveria] lembrar-se da sua santa aliança… De conceder-nos que, libertados da mão de nossos inimigos [espirituais], o serviríamos sem temor [servil], em santidade e justiça perante ele, todos os dias da nossa vida” (Lucas 1:68, 72, 74-75). E, embora isso tenha também sido apropriadamente designado “aliança da graça”, ainda assim nós também devemos lembrar que o apóstolo Paulo disse: “Porque a graça salvadora de Deus se há manifestado a todos os homens [Gentios, bem como aos Judeus], ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos neste presente século sóbria, e justa, e piamente, aguardando a bem-aventurada esperança…” (Tito 2:11-13). O grande objetivo da aliança eterna, como de todas as obras Divinas, era a glória de Deus e o bem de Seu povo. Isso foi designado não apenas como uma demonstração da generosidade Divina, mas também como para proteger e promover as reivindicações da santidade Divina. Deus não entra naquele pacto com Cristo, a fim de anular a responsabilidade humana, nem o Filho cumpre os seus termos, de modo a tornar desnecessária uma vida de obediência para os Seus remidos.

Cristo concordou não apenas em propiciar a Deus, mas a regenerar os Seus eleitos. Cristo se comprometeu não somente a atender todas as exigências da Lei em lugar deles, mas também a escrevê-la no coração deles e entronizá-la em suas afeições. Cristo comprometeu-se não apenas para tirar o pecado de diante de Deus, mas em torná-lo odioso e abominável aos Seus santos. Antes da fundação do mundo, Cristo se comprometeu não somente a satisfazer as exigências da justiça Divina, mas a santificar a Sua semente, enviando o Seu Espírito em suas almas para adequá-las à Sua imagem e incliná-las a seguir o exemplo que Ele os deixaria. Tem sido pouquíssimo insistido, nos últimos tempos, por aqueles que têm escrito ou pregado sobre o Pacto da Graça, que Cristo engajou-se não somente pela dívida de Seu povo, mas pelo dever deles também; que Ele faria uma aquisição da graça para eles, incluindo uma provisão completa para dar-lhes um novo coração e um novo espírito, para conduzi-los a conhecer o Senhor, para colocar Seu temor em seus corações e para torná-los obedientes à Sua vontade. Ele também se envolveu com a segurança deles, a saber, que, se eles abandonassem a Sua Lei e não andassem em Seus juízos, Ele visitaria as suas transgressões com a vara (Salmos 89:30-36); que se eles se desviassem e se afastassem dEle, Ele certamente os restauraria.

Paulo Volta à Profecia Messiânica em Oração

“Vos aperfeiçoe… para fazerdes a sua vontade”. Foi com o conteúdo da Aliança em seus olhos que o apóstolo elevou esta petição. Nos capítulos anteriores foi demonstrado que a profecia do Antigo Testamento apresenta o Messias prometido como o Fiador de uma aliança de paz e como o “Pastor” de Seu povo. Resta agora ser demonstrado que Ele estava ali retratado como um pastor que aperfeiçoaria as Suas ovelhas em santidade e boas obras. “E meu servo Davi será rei sobre eles, e todos eles terão um só pastor” (Ezequiel 37:24). Aqui o SENHOR anuncia que aquele Messias, a grandiosa semente de Davi, deve, em dias vindouros unificar o Israel de Deus como seu Rei e os regerá, a todos e sem rival. No mesmo versículo Ele declara ainda: “e andarão nos meus juízos e guardarão os meus estatutos, e os observarão”. Assim, depois de ter confessado a Deus como “o Deus da paz”, que libertou o Nosso Senhor Jesus do domínio da morte “através do sangue da eterna aliança”, Paulo faz solicitação que Ele opere em Suas ovelhas “o que perante ele é agradável por Cristo Jesus”. Pois, ainda que Deus prometeu fazer isso, Ele declara: “Ainda por isso serei solicitado pela casa de Israel” (Ezequiel 36:37). É sempre o dever sagrado do povo da aliança de Deus orar pelo cumprimento de Suas promessas (como testemunham as várias petições da Oração do Senhor). Vemos, então, que esta oração abrangente, ditada pelo Espírito, não é apenas um epítome do conteúdo de toda esta epístola, mas também um resumo das profecias Messiânicas.

A Fé em um Deus Reconciliado Produz Desejos por Sua Glória

“Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a Sua vontade”. Tal petição como essa pode ser corretamente oferecida enquanto alguém contempla a Deus como “o Deus de paz”. A fé deve considerá-lO primeiro como reconciliado conosco antes que haja qualquer verdadeiro desejo de glorificá-lO Enquanto houver algum horror sensível ao pensamento de Deus, qualquer temor servil produzido pela menção de Seu nome, não podemos servi-lO, nem fazer o que é agradável aos Seus olhos. “Sem fé é impossível agradar a Deus” (Hebreus 11:6), e a fé é completamente oposta ao terror. Precisamos primeiro ter certeza de que Deus não é um inimigo, mas nosso Amigo, antes que a gratidão de amor possam nos levar a correr no caminho de Seus mandamentos. Essa garantia só pode vir até nós ao percebermos que Cristo retirou os nossos pecados e satisfez cada reivindicação da lei de Deus contra nós. “Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 5:1). Cristo fez a paz perfeita e eterna “pelo sangue da sua cruz” (Colossenses 1:20), em consequência disso, Deus fez com aqueles que se rendem ao jugo de Cristo e confiança em Seu sacrifício uma “aliança eterna, que em tudo será bem ordenado e guardado” (2 Samuel 23:5). Isso deve ser apreendido pela fé antes que haja uma busca confiante dEle, ou de graça necessária para buscá-lO.

De outro ângulo, podemos perceber a adequação desta petição ser dirigida ao “Deus da paz”, para que Ele agora nos aperfeiçoe em toda boa obra para fazer a Sua vontade. Pois, fazer a vontade de Deus é mui essencial para o nosso deleite de Sua paz, de uma forma prática. “Muita paz têm os que amam a tua lei” (Salmos 119:165), pois os caminhos de Sabedoria “são caminhos de delícias, e todas as suas veredas de paz” (Provérbios 3:17). Por isso, é absolutamente inútil esperar tranquilidade de coração, se abandonarmos os caminhos da sabedoria por aqueles de autossatisfação. Certamente, não pode haver paz de consciência enquanto qualquer pecado conhecido é entretido por nós. O caminho para a paz é o caminho da santidade. “E a todos quantos andarem conforme esta regra, paz e misericórdia sobre eles…” (Gálatas 6:16). A não ser que nós realmente resolvamos e nos esforcemos para fazer aquelas coisas que são agradáveis aos olhos de Deus, haverá um estado de turbulência e agitação dentro de nós, em vez de paz. Há um significado espiritual mais profundo do que normalmente é percebido naquele título “Príncipe da paz”, que pertence ao Filho encarnado. Ele poderia dizer: “eu faço sempre o que lhe agrada” (João 8:29), e, portanto, uma calma imperturbável era a Sua porção. Que ênfase havia ali naquelas palavras: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou” (João 14:27)!

Paulo Ora pelo Fortalecimento dos Santos em Seus Deveres

“Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a Sua vontade”. Esta petição coloca diante de nós, por evidente implicação, o lado humano das coisas. Essas coisas pelas quais o apóstolo Paulo fez solicitação em nome dos santos estavam relacionadas com aqueles deveres que eles eram obrigados a realizar, mas para a cumprimento deles, a assistência Divina é imperativa. A aliança eterna previu a entrada do pecado, e assim fez provisão não somente para retirá-lo, mas também para o estabelecimento da justiça eterna. Essa justiça é a perfeita obediência de Cristo, pela qual a Lei Divina foi honrada e engrandecida. Essa perfeita justiça de Cristo é imputada a todos os que creem, mas ninguém crê nEle salvificamente até que o Seu Espírito implante um princípio de justiça em suas almas (Efésios 4:24). E essa nova natureza ou princípio de justiça se evidencia pela realização de boas obras (Efésios 2:10). Não temos o direito de falar do Senhor Jesus como “O Senhor nossa justiça”, a menos que sejamos praticantes pessoais da justiça (1 João 2:29). A aliança eterna, de modo algum deixa de lado a necessidade de obediência por parte daqueles que participam de seus benefícios, mas fornece motivos comoventes e poderosos para mover-nos a isso! A fé salvadora opera pelo amor (Gálatas 5:6), e visa agradar o seu Objeto.

Quanto mais as nossas orações são reguladas pelo ensinamento da Sagrada Escritura mais elas serão marcadas por essas duas qualidades: os preceitos Divinos serão transformados em petições; e o caráter e promessas Divinos serão usados como nossos argumentos. Quando o salmista, no curso de suas meditações sobre a Lei de Deus, declarou: “Tu ordenaste os teus mandamentos, para que diligentemente os observássemos”, ele era, ao mesmo tempo, consciente de seu fracasso e disse: “Quem dera que os meus caminhos fossem dirigidos a observar os teus mandamentos”! (Salmos 119:4-5). Mas Ele fez mais do que apenas lamentar os obstáculos do pecado interior; ele clamou: “Ensina-me, ó Senhor, o caminho dos teus estatutos… Faze-me andar na vereda dos teus mandamentos, porque nela tenho prazer” (Salmos 119:33-35). Assim também, quando buscou a confirmação de sua casa perante o Senhor, Davi se alegou na promessa Divina: “Agora, pois, ó Senhor Deus, esta palavra que falaste acerca de teu servo e acerca da sua casa, confirma-a para sempre, e faze como tens falado” (2 Samuel 7:25; veja também 1 Reis 8:25-26; 2 Crônicas 6:17). À medida que nos tornamos mais familiarizados com a Palavra de Deus e descobrimos os detalhes do elevado padrão de conduta que é posto diante de nós ali, devemos ser mais precisos e diligentes na busca de graça para realizar nossos diversos deveres; e à medida que nos familiarizamos melhor com o “Pai das misericórdias” (2 Coríntios 1:3) e Suas “grandíssimas e preciosas promessas” (2 Pedro 1:4), nós iremos mais confiantes a Deus buscando por estes suprimentos.

Uma Oração por Restauração do Vigor Espiritual

“Vos aperfeiçoe em toda a boa obra”. A palavra grega original aqui traduzida perfeitamente é katartizō, que James Strong define como completar perfeitamente, ou seja, para reparar (literal ou figurativamente), ajustar (veja o Nº 2.675 no Dicionário Grego de Concordância Exaustiva, de Strong). Compare isso com a palavra teleioō usada em Hebreus 2:10; 10:1, 14; 11:40, que de acordo com Strong significa completar (literalmente), realizar, ou (figurativamente) consumar em caráter (veja o Nº 5.048 no Dicionário Grego de Strong). A palavra em nosso texto, katartizō, é usada para descrever a atividade exercida por Tiago e João, filhos de Zebedeu, quando Cristo os chamou: eles estavam “consertando as redes” (Mateus 4:21). Em Gálatas 6:1, o apóstolo Paulo emprega esta palavra por meio de exortação: “Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão…”. Era, portanto, mais adequado que este termo fosse aplicado para o caso dos Cristãos Hebreus, que depois de crerem no Evangelho, se confrontaram com tal grande e prolongada oposição dos Judeus, de forma geral, que vacilaram e estavam em necessidade real de serem advertidos contra a apostasia (Hebreus 4:1; 6:11-12; 10:23, etc.). Como dito no início de nossa exposição, esta oração reúne não somente toda a instrução doutrinal, mas também as exortações dos capítulos anteriores. Os Hebreus haviam vacilado e falhado (Hebreus 12:12), e o apóstolo aqui ora por sua restauração. Os léxicos (como Liddell e Scott, p. 910) nos dizem que katartizō, aqui traduzido “aperfeiçoe”, literalmente faz referência ao reajuste de um osso deslocado. E não é muitas vezes assim com o Cristão? Uma triste queda quebra a sua comunhão com Deus, e ninguém, senão a mão do Divino Médico pode reparar os danos causados. Assim, esta oração é adequada para todos nós, que Deus retifique cada capacidade de nosso ser para fazer a Sua vontade e nos corrija para o Seu serviço cada vez que necessitarmos disso.

Observe quão abrangente é esta oração: “Vos aperfeiçoe em toda a boa obra”. Ela inclui, como Gouge apontou, “todos os frutos de santidade em relação a Deus, e de justiça em relação ao homem”. Nenhuma reserva nos é permitida pela regra extensa que Deus colocou diante de nós, somos obrigados a amá-lO com todo o nosso ser, ser santificados em todo o nosso espírito, alma e corpo, e crescermos em Cristo em todas as coisas (Deuteronômio 6:5; Lucas 10:27; Efésios 4:15; 1 Tessalonicenses 5:23). Nada menos do que a perfeição em “toda boa obra” é o padrão pelo qual devemos almejar. A perfeição absoluta não é possível nesta vida, mas a perfeição da sinceridade é exigida de nós; um esforço honesto e verdadeiro empenho para agradar a Deus. A mortificação dos nossos desejos, a submissão a Deus sob tribulações, e o desempenho de obediência imparcial e universal são sempre o nosso dever sagrado. De nós mesmos somos totalmente incapazes de cumprir os nossos deveres, e, portanto, devemos orar continuamente pelo suprimento de graça, para que possamos realizá-las. Não apenas somos dependentes de Deus para o início de toda a boa obra, mas também para a continuidade e progresso da mesma. Imitemos a Paulo, que disse: “Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito; mas prossigo para alcançar aquilo para o que fui também preso por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 3:12-14).

O Conhecimento Divinamente Revelado Requer Obediência

“Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade”. Que Ele, que já vos familiarizou totalmente com a Sua mente, agora efetivamente vos incline para a realização da mesma, mesmo a uma continuação de atenção solícita aos seus deveres como povo redimido, até o fim. Não é suficiente que saibamos a Sua vontade; devemos fazê-la (Lucas 6:46; João 13:17), e quanto mais a fizermos, melhor a entenderemos (João 7:17) e provaremos a excelência dela (Romanos 12:2). Essa vontade de Deus que devemos nos exercitar para realizar não é a vontade secreta de Deus, mas a Sua vontade revelada ou perceptiva, ou seja, aquelas leis e estatutos, nos quais Deus requer nossa completa obediência (Deuteronômio 29:29). A vontade revelada de Deus deve ser a única regra de nossas ações. Há muitas coisas feitas por Cristãos professos que, apesar de admiradas por eles e aplaudidas pelos seus companheiros, não são nada mais do que “culto da vontade”, e uma sequência de “preceitos e doutrinas dos homens” (Colossenses 2:20-23). Os Judeus acrescentaram suas próprias tradições à Lei Divina, instituindo jejuns e festas de sua própria invenção. Os iludidos papistas, com suas austeridades corporais, devoções idólatras e recompensas empobrecidas, são culpados da mesma coisa. Nem estão alguns Protestantes, com suas privações autoconcedidas e exercícios supersticiosos, livres desse mal Romanista.

“Operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus”. Estas palavras confirmam exatamente o que foi dito acima: somente é aceitável a Deus, o que está em conformidade com a regra de que Ele nos deu. As palavras “perante ele” mostram que todas as nossas ações estão sob Sua atenção imediata e são pesadas por Ele. Ao comparar outras Escrituras, descobrimos que somente são aprazíveis a Ele as obras que Ele nos ordenou realizar e que são realizadas em Seu temor (Hebreus 12:28). Ele aceitará apenas aquelas que procedem do amor (2 Coríntios 5:14), e que são feitas com um olhar unicamente fixado em glorificá-lO (1 Coríntios 10:31). Nosso objetivo constante e esforço diligente não deve ser nada menos do que isto: “Para que possais [nós] andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra” (Colossenses 1:10). No entanto, devemos receber capacitação Divina, a fim de fazer isso. Que duro golpe para a autossuficiência e glória do eu é esta pequena frase, “operando em vós”! Mesmo após a regeneração somos totalmente dependentes de Deus. Não obstante a vida, luz e liberdade que recebemos dEle, não temos força de nós mesmos para fazer o que Ele exige. Cada um tem de reconhecer, “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem” (Romanos 7:18).

Aqui Há uma Verdade que Abate o Orgulho

Aqui, de fato, está uma verdade humilhante, mas a verdade é que os Cristãos são, em si mesmos, incapazes de cumprir o seu dever. Embora o amor de Deus tenha sido derramado em seus corações e um princípio de santidade (ou nova natureza) tenha sido comunicado a eles, ainda assim eles são incapazes de realizar o bem que ardentemente desejam fazer. Eles não somente ainda são mui ignorantes sobre vários dos requisitos da vontade revelada de Deus, mas o pecado que habita sempre se opõe e procura inclinar seus corações em direção contrária. Assim, é imperativo que diariamente busquemos a Deus por novos suprimentos de graça. Embora assegurados de que Deus certamente completará a Sua boa obra em nós (Filipenses 1:6), isso não torna desnecessário o nosso clamor a Ele “ao Deus que por mim [nós] tudo executa” (Salmos 57:2). O privilégio da oração também não nos dispensa da obrigação da obediência. Ao contrário, na oração devemos pedir-Lhe que nos vivifique para o cumprimento daqueles deveres que Ele requer. A bênção de acesso a Deus não é designada para nos dispensar do uso regular e diligente de todos os meios que Deus designou para a nossa santificação prática, mas se destina a suprir para nossa busca da bênção Divina sobre o uso de todos os meios de graça. Nosso dever é este: pedir a Deus para operar em nós “tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2:13); para evitar que extingamos o Seu Espírito por indolência e desobediência, especialmente depois de ter orado por Suas doces influências (1 Tessalonicenses 5:19); e para usarmos a graça que Ele já nos concedeu.

“Operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus”. Há uma dupla referência aqui: (1) a obra de Deus em nós; e (2) a Sua aceitação de nossas obras. É em virtude da mediação do Salvador que Deus opera; não há comunicação de graça para nós a partir do Deus da paz, a não ser por meio de e através de nosso Redentor. Tudo o que Deus faz por nós, é por amor de Cristo. Cada operação graciosa do Espírito Santo em nós é o fruto de uma obra meritório de Cristo, pois Ele adquiriu o Espírito para nós (Efésios 1:13-14; Tito 3:5-6) e atualmente está nos enviando o Espírito (João 15:26). Todas as bênçãos espirituais derramadas sobre nós são em consequência da intercessão de Cristo por nós. Cristo não é apenas a nossa vida (Colossenses 3:4) e nossa justiça (Jeremias 23:6), mas também a nossa força (Isaías 45:24). “E da sua plenitude todos nós recebemos, e graça sobre graça” (João 1:16). Os membros do Seu Corpo místico são completamente dependentes de sua cabeça (Efésios 4:15-16). Nossa frutificação vem por meio de termos comunhão com Cristo, pela nossa permanência nEle (João 15:5). É muito importante que tenhamos uma compreensão clara sobre esta verdade, se desejarmos dar ao Senhor Jesus o lugar que Lhe é devido em nossos pensamentos e afetos. A sabedoria de Deus tem coisas tão planejadas que cada pessoa da Trindade é exaltada na estima de Seu povo: o Pai como a fonte da graça, o Filho em Seu ofício de mediação como o canal através do qual toda a graça flui para nós, e o Espírito Santo, como o Doador real disso.

Infinitos Méritos de Cristo, o Fundamento de Aceitação por Deus de Nossas Obras e Orações

Mas, essas palavras “por Jesus Cristo”, também têm uma conexão mais imediata com a frase “o que perante ele é agradável”. Embora nossas obras sejam boas e sejam feitas em nós por Deus, elas ainda são imperfeitas, uma vez que são maculadas pelos instrumentos pelos quais são feitas, assim como a luz mais pura é escurecida pela sombra nublada ou empoeirada da lâmpada através da qual ela brilha. No entanto, apesar de nossas obras defeituosas, elas são aceitáveis a Deus, quando feitas em nome de Seu Filho. Nossos melhores desempenhos são defeituosos e ficam aquém da excelência daqueles requisitos que a santidade de Deus demanda, mas os seus defeitos são cobertos pelos méritos de Cristo. Nossas orações, também, são aceitáveis a Deus somente porque nosso grande Sumo Sacerdote adiciona a elas “muito incenso” e, em seguida, oferece-lhes sobre o altar de ouro diante do trono (Apocalipse 8:3). Nossos sacrifícios espirituais são “aceitáveis a Deus por Jesus Cristo” (1 Pedro 2:5). Deus somente pode ser “glorificado por meio de Jesus Cristo” (1 Pedro 4:11). Nós devemos, então, ao Mediador, não somente o perdão de nossos pecados e a santificação de nossas pessoas, mas também a aceitação de nossos imper-feitos adoração e serviço a Deus. Como Spurgeon disse apropriadamente em seus comentários sobre esta frase: “Que nadas e ninguéns nós somos! Nossa bondade não é em nada nossa”.

Uma Doxologia

“Ao qual seja glória para todo o sempre. Amém”. O apóstolo olhava para a glória de Deus. E como devemos glorificá-lo? Devemos glorificá-lO por uma caminhada obediente, fazendo Sua vontade, realizando as coisas que são agradáveis aos Seus olhos, e adorando-O. A construção de toda a sentença nos permite considerar esta atribuição de louvor como sendo oferecida, tanto ao “Deus da paz”, a quem a oração é dirigida, ou ao “Grande Pastor das ovelhas”, que é o antecedente mais próximo do pronome. Desde que a gramática permite a isso e a analogia da fé nos ensina a incluir tanto o Pai e o Filho em nossa adoração, então, que a glória seja atribuída a ambos. Que Deus seja louvado, pois Ele agora é “o Deus de paz”, porque Ele tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus, porque Ele é fiel aos Seus compromissos na aliança eterna, porque todos os suprimentos de graça são dEle, e por Ele aceita nossa pobre obediência “por meio de Jesus Cristo”. Igualmente adoremos o Mediador: porque Ele é “nosso Senhor Jesus”, que nos amou e Se entregou por nós; porque Ele é o “Grande Pastor das ovelhas”, cuidando e ministrando ao Seu rebanho; porque Ele ratificou a aliança com o Seu precioso sangue; e porque é por Seus méritos e intercessão que as nossas pessoas e os serviços são feitos “agradáveis” ao Altíssimo. “Amém”. Que seja assim! Faça com que os louvores ao Deus redentor e propício sejam entoados por toda a eternidade!

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♦ Traduzido do original em Inglês: A Guide to Fervent Prayer • By A. W. Pink • A presente tradução consiste somente no capitulo 3 Hebrews 13:20-21, Part 3 da obra supracitada
♦ Via: PBMinistries.org (Providence Baptist Ministries)
♦ Tradução por Camila Almeida • Revisão por William Teixeira
♦ Salvo indicação em contrário, as citações bíblicas usadas nesta tradução são da versão Almeida Corrigida Fiel | ACF • Copyright © 1994, 1995, 2007, 2011 Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

♦ Traduzido e publicado em Português pelo website oEstandarteDeCristo.com, com a devida permissão do ministério Providence Baptist Ministries, sob a licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International Public License • Você está autorizado e incentivado a reproduzir e/ou distribuir este material em qualquer formato, desde que informe o autor, as fontes originais e o tradutor, e que também não altere o seu conteúdo nem o utilize para quaisquer fins comerciais.


Quando As Orações Serão Atendidas? – Christopher Love

DOUTRINA: Um homem deve ser levado a um estado de amizade ou de reconciliação com Deus antes de qualquer oração que ele faça venha a ser aceita.

Eu provarei esta doutrina por três razões e depois a aplicarei.

1. Deus não aceita a pessoa por causa da oração, mas a oração por causa da pessoa. Lemos em Gênesis 4:4: “atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta”. Deus atentou primeiro pra Abel e depois para o seu sacrifício. Deus aceitou o serviço de Abel porque sua pessoa estava em um estado de graça para com Ele. Deus deve estar em primeiro lugar satisfeito com o trabalhador antes que Ele possa aceitar o seu trabalho. Isso também é visto em Hebreus 11:5: “Pela fé Enoque foi trasladado para não ver a morte, e não foi achado, porque Deus o trasladara; visto como antes da sua trasladação alcançou testemunho de que agradara a Deus”. Agora, sem a fé em Cristo para justificar a sua pessoa, você não pode agradar a Deus. Aqui reside a grande diferença entre os Papistas e nós. Os Romanistas dizem que as obras justificam a pessoa; nós dizemos que a pessoa justifica as obras, pois fazei a árvore boa e o seu fruto necessariamente será bom.

2. Até que sejamos trazidos a esse estado de reconciliação, não temos nenhuma participação na intercessão, satisfação e justiça de Jesus Cristo. E até que tenhamos uma participação nos mesmos, nossas orações não podem ser aceitas. Jacó não pôde receber a bênção do pai, senão com as vestes de seu irmão mais velho; assim também não podemos receber qualquer coisa das mãos de Deus, senão vestidos nas vestes de Cristo. Nenhuma oração pode ser aceita por Deus, senão na e através da intercessão de Jesus Cristo. Se Cristo não é um intercessor no céu, nenhuma oração será ouvida na terra. Em Apocalipse 8:3, está escrito: “e veio outro anjo, e pôs-se junto ao altar, tendo um incensário de ouro; e foi-lhe dado muito incenso, para o pôr com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro, que está diante do trono”. A palavra em Grego tem este propósito: que Ele adicionaria orações às orações dos santos. É como se a oração de Cristo e de um crente fossem uma só. Em Isaías 56:7, Deus promete: “Também os levarei ao meu santo monte, e os alegrarei na minha casa de oração”. Nossas orações são como muitas cifras sem significado até que a intercessão de Cristo seja adicionada a elas. Sem isso, nossas orações não podem ser aceitas.

3. Até que nós estejamos em um estado de amizade e reconciliação, não temos a ajuda do Espírito de Deus para nos auxiliar; e se não temos a assistência do Espírito Santo, jamais encontraremos aceitação diante dEle. Todos os pedidos que não são ditados pelo Espírito, nada são senão os sopros da carne, coisas que Deus não considera. Agora, até que sejamos reconciliados com Deus, não podemos ter o Espírito. Gálatas 4:6: “E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai”. Assim, pois, até que vocês sejam filhos, vocês não podem ter o Espírito. Tendo falado sobre as razões, venho agora para a aplicação.

Aplicação

1. Se isto é assim, a saber, que um homem deve estar em um estado de amizade antes que suas orações possam ser aceitas, então entendemos que tudo o que você faz antes deste estado de reconciliação é odioso para Deus. Não somente as suas ações pecaminosas, mas mesmo suas ações civis, naturais e religiosas. Não que elas são reprovadas em si mesma, ou em relação a Deus, mas por causa daquele que as faz. Salmos 109:7: “e a sua oração se lhe torne em pecado”. Você faz uma oração contra o pecado, mas Deus transformará as suas orações em pecado. Muitas orações não podem transformar um pecado em graça, mas o pecado deliberada e resolutamente praticado e continuado pode transformar todas as suas orações em pecado. Provérbios 21:27: “O sacrifício dos ímpios já é abominação; quanto mais oferecendo-o com má intenção!”.

Um corpo enfermo torna toda a comida em humores corruptos, a qual um corpo saudável torna em sadia nutrição. Eu li sobre uma pedra preciosa que tinha uma excelente virtude nela, mas que perdia toda a sua eficácia se ela fosse colocada na boca de um homem morto. A oração é uma ordenança de grande excelência, de grande eficácia, mas se estiver na boca de um homem morto, se ela sai do coração de alguém que está morto em delitos e pecados, ela perde toda a sua virtude. A água que é pura na fonte é corrompida no canal.

2. Esta doutrina derruba um dos principais pilares da Religião Romana, a justificação pelas obras. Se Deus aceita a pessoa antes de aceitar as obras, como pode uma pessoa ser justificada pelas obras? A menos que sua pessoa seja justificada, a menos que seja reconciliada, suas obras são más obras, e más obras podem justificar? Boas obras não fazem um bom homem, mas um homem bom faz boas obras. E poderá uma obra que um homem fez bem, retornar e fazer o homem bom? Se não tivéssemos nenhuma outra razão contra a justificação pelas obras (disse William Perkins), somente isto seria suficiente.

3. Permita que isso nos ensine não somente a olhar para a aptidão e disposição do seu coração na oração, mas também a examinar quem é aquele que ora. É nosso dever, e é muito bom olhar para a boa disposição do coração na oração, e olhar para a qualidade na execução do dever; mas o trabalho principal é cuidar da qualificação da pessoa, e ver se você está em um estado de graça e reconciliação com Deus. Porque, se a pessoa não está no favor de Deus, você pode ter certeza de seus pedidos não serão ouvidos nem aceitos; antes Deus olhará para seus pedidos como os suspiros corruptos de seu coração pecaminoso e corrupto. Você deve olhar, portanto, na realização do dever, se você pode ir a Deus em oração, como um Pai.

Há muitos que cuidam da qualificação do seu dever, mas poucos cuidam da qualificação da pessoa para ver se elas são ou não justificadas, se Deus é seu amigo ou não. Mas devemos olhar principalmente para isso, pois, mesmo que o coração de um homem seja o mais disposto, contudo se o homem não é justificado, a sua oração não pode ser aceita. Deus não se importa com a retórica das orações (quão eloquentes elas possam ser), nem para a aritmética das orações (quantas elas são), nem para a lógica delas (quão racionais e metódicas elas possam ser), nem para a música delas (que harmonia e melodia de palavras você possa ter); mas Deus olha para o caráter teocêntrico das orações, que brota a partir da qualificação de uma pessoa, de uma pessoa justificada e santificada. É bom perguntar: “Será que meu coração é reto? Meu espírito é manso? As minhas afeições são estimuladas e fervorosas durante a oração?”, mas antes pergunte principalmente: “Será que a minha pessoa é aceita por Deus?”.

4. Deixe-me fazer uma advertência aqui. Acautele-se para que você não faça confusão com essa doutrina. Que ninguém pense que pelo fato de que Deus não aceita nenhuma oração a menos que o homem seja justificado, portanto, homens ímpios estão dispensados da oração. Pois, ainda que Deus não aceite a oração de todo homem, ainda assim, cada homem no mundo deve orar, e isto por estas razões:

1) Eles devem orar como criaturas que estão em necessidade de seu Criador. Os corvos clamam e Deus lhes dá carne.

2) O Senhor acusa os homens maus por não orarem a Ele. Jeremias 10:25: “Derrama a tua indignação sobre os gentios que não te conhecem, e sobre as gerações que não invocam o teu nome”. Romanos 3:11: “Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus”.

3) Eles são ordenados a orar, em Atos 8: 22-23, Pedro disse a Simão, o Mago: “Arrepende-te, pois, dessa tua iniquidade, e ora a Deus, para que porventura te seja perdoado o pensamento do teu coração; pois vejo que estás em fel de amargura, e em laço de iniquidade”.

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♦ Traduzido do original em Inglês: When Will Prayers be Heard? By Christopher Love
♦ Via: aPuritansMind.com
♦ Tradução por William Teixeira • Revisão por Camila Almeida

♦ Salvo indicação em contrário, as citações bíblicas usadas nesta tradução são da versão Almeida Corrigida Fiel | ACF • Copyright © 1994, 1995, 2007, 2011 Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

♦ Traduzido e publicado em Português pelo website oEstandarteDeCristo.com, sob a licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International Public License • Você está autorizado e incentivado a reproduzir e/ou distribuir este material em qualquer formato, desde que informe o autor, as fontes originais e o tradutor, e que também não altere o seu conteúdo nem o utilize para quaisquer fins comerciais.


O Propósito da Eleição – A. W. Pink

[Capítulo 7 do livro The Doctrine of Election • Editado]

No último capítulo procuramos voltar ao começo de todas as coisas e seguir a ordem dos conselhos de Deus em conexão com Seu decreto eterno da eleição, na medida em que são revelados nas Sagradas Escrituras. Agora buscaremos projetar os nossos pensamentos para o futuro, e contemplar o grande propósito de Deus, ou o como Ele ordenou o Seu povo a isso. Aqui estaremos em terreno mais familiar a muitos de nossos leitores, mas não podemos ignorar o fato de que, mesmo esta fase do nosso assunto será inteiramente nova para um bom número de pessoas que analisará estas linhas, e por causa deles, especialmente, caberá a nós prosseguir lentamente, não considerando nada como garantido, a não ser a clara prova bíblica para o que avançamos. O que estará diante de nós é indizivelmente bendito, oh! que agrade a Deus assim vivificar os corações de ambos, escritor e leitor, para que possamos realmente nos regozijar e adorar.

1. O propósito de Deus em nossa eleição foi que fôssemos santos: “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Efésios 1:4). Tem havido muita diferença de opinião entre os comentaristas sobre se isso se refere a esta santidade imperfeita da graça que temos neste mundo, ou àquela santidade perfeita da glória, a qual será nossa no mundo vindouro. Pessoalmente, acreditamos que ambas estão incluídas, mas que esta última é a que é principalmente intencionada, e por isso vamos expô-la.

Em primeiro lugar, que esta é a perfeita santidade do Céu. Pois esta é a principal referência a partir da cláusula de amplificação “e irrepreensíveis diante dele”, esta é uma tal santidade na qual o próprio Deus não pode encontrar nenhuma falha. Agora, a santidade imperfeita que os santos têm pessoalmente nesta vida, ainda que seja uma santidade diante de Deus em verdade e sinceridade, ainda assim não é uma santidade “irrepreensível”, não é uma sanidade em que Deus se deleita plenamente.

Em segundo lugar, assim como Deus ordenou aperfeiçoar a santidade no mundo vindouro, assim também Ele nos tem nos ordenado a uma santidade evangélica neste mundo, ou então nunca chegaremos ao Céu; a menos que sejamos nos tornemos puros de coração aqui, nunca veremos a Deus lá. A santidade é a imagem de Deus na alma, uma semelhança com Deus que nos torna aptos à comunhão com Ele; e, portanto, o apóstolo declara que devemos “seguir a santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12:14). Assim como a razão é o fundamento do conhecimento, e nenhum homem é capaz de chegar ao conhecimento, a menos que ele obtenha a razão, assim não podemos alcançar a glória do Céu, a menos que o princípio da santidade seja Divinamente comunicado a nós. Portanto, assim como o primeiro propósito de Deus em nossa eleição foi que fôssemos santos diante dEle, agora façamos disso a nossa preocupação primordial. Aqui também está o sólido conforto para aqueles que encontram que o pecado interior é o seu fardo mais pesado, ainda que a sua santidade seja mui imperfeita nesta vida, contudo ela é o penhor de uma santidade perfeita na vida vindoura.

A santidade deve ser o fruto de nossa eleição em Cristo, pois é essencial que tenhamos uma existência nEle. Seria uma contradição nos termos dizer que Deus elegeu um homem para estar em Cristo e não o fez para ser santo. Se Deus ordena um homem para estar em Cristo, então Ele ordenou que ele fosse um membro de Cristo, e deve haver conformidade entre a Cabeça e os membros. Os sujeitos da eleição da graça foram dados a Cristo como Sua Esposa, e marido e mulher devem ser do mesmo tipo e imagem. Quando Adão foi ter uma esposa, ela deveria ser da mesma espécie; nenhum dos animais estava apto para ser um parceiro para ele. Deus os trouxe todos à sua frente, mas entre todos eles, “para o homem não se achava ajudadora idônea” (Gênesis 2:20), porque eles não eram da mesma imagem e espécie. Portanto, se Deus escolhe um homem em Cristo, o Santo, tal homem deve necessariamente ser santo, e esta é a razão pela qual a nossa santidade está vinculada ao fato de termos sido eleitos nEle (Efésios 1:4).

Deus, então, decretou que o Seu povo fosse perfeitamente santo diante dEle, que estivesse em Sua presença para sempre, para ali frui-lO para sempre, e deliciar-se naquele gozo, pois, como o salmista nos diz: “na tua presença há farturas de alegria” [Salmos 16:11]. Nisso é revelado a nós no que consiste a inefável bem-aventurança de nossa herança eterna, a saber, a perfeita santidade, o perfeito amor a Deus; esta é a essência da glória celestial. Se todos os apóstolos tivessem passado toda a vida útil deles em uma tentativa de retratar e descrever o que é o Céu, eles não poderiam ter feito mais do que expandirem-se sobre estas palavras: perfeita santidade na presença de Deus, perfeito amor a Ele, perfeito gozo dEle, assim como somos amados por Ele. Este é o Céu, e é para ele que Deus decretou trazer o Seu povo. Este é seu primeiro propósito em nossa eleição, a saber, conduzir-nos a uma santidade irrepreensível diante dEle.

2. O propósito de Deus em nossa eleição foi que viéssemos a ser Seus filhos: “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Efésios 1:5). Santidade é aquilo que nos habilita para o Céu, pois uma pessoa profana não poderia apreciar o Céu, se ele entrasse ali, estaria completamente fora de seu elemento nativo. Santidade, então, é o que constitui a iminência dos santos para a sua herança na luz (Colossenses 1:12). Mas a adoção é aquilo que dá o direito à glória do céu, sendo concedido a eles como uma dignidade ou prerrogativa (João 1:12). Como nós já apontamos em outras ocasiões, as duas últimas palavras de Efésios 1:4 pertencem corretamente ao versículo 5: “Em amor nos predestinou para filhos de adoção”. O amor de Deus por Seu Filho amado era tão grande que, tendo nos escolhido nEle, Seu coração se inclinou a nós, como sendo nós um só com Cristo, e, portanto, Ele nos ordena a mais esta honra e privilégio. Isto concorda perfeitamente com: “Vede quão grande amor nos tem concedido o Pai, que fôssemos chamados filhos de Deus” (1 João 3:1).

Deus poderia ter-nos feito perfeitamente santos em Cristo e não acrescentado mais nenhuma bênção a isso. “Tendes o vosso fruto para santificação”, diz o apóstolo (Romanos 6:22), e este é fruto precioso; mas ele não para por aí: “e por fim a vida eterna”, isso é acrescentado como um fruto e privilégio adicionais. Da mesma maneira, Deus acrescentou à adoção a santidade, como diz o salmista: “o Senhor dará graça e glória” (84:11). Como o nosso Deus, Ele nos escolheu para a santidade, de acordo com esta declaração expressa: “Santos sereis, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo” (Levítico 19:2). Mas, como Ele se tornou nosso Pai em Cristo, Ele nos predestinou para a adoção de filhos. Aqui, então, está a dupla relação na qual o Altíssimo sustenta o Seu povo em e por meio de Cristo, e há a consequente bênção dupla sobre nossas pessoas por causa de Cristo. Observe quão minuciosamente isso corresponde com: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Efésios 1:3).

Pela adoção nos tornamos filhos de Deus segundo a lei, assim como pela regeneração somos feitos Seus filhos segundo a natureza. Pelo novo nascimento nos tornamos (experimentalmente) membros da família de Deus; pela adoção temos o status jurídico de filhos, juntamente com todos os elevados privilégios que esta relação envolve: “E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho” (Gálatas 4:6). A adoção faz conhecidas as elevadas prerrogativas e bênçãos que são nossas em virtude da união com Cristo, o direito legal que temos a todas as bênçãos que desfrutamos, tanto aqui como no por vir. Como o apóstolo nos lembra que se nós somos filhos, então somos “herdeiros”, coerdeiros com Cristo; sim, herdeiros de Deus (Romanos 8:17), para possuir e desfrutar de Deus como Cristo o faz. “Parece-vos pouco aos vossos olhos ser genro1 do rei, sendo eu homem pobre e desprezível?”, exclamou Davi, quando foi sugerido que ele se casasse com Mical (1 Samuel 18:23); você pode alegremente ser o favorito do rei e Ele pode engrandecê-lo, mas tornar-se seu filho, segundo a lei, é a maior honra de todas. É por isso que nos é dito logo após, em 1 João 3:1: “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” (v. 2); como Ele em nossa proporção, como Ele frui perfeitamente Deus, assim nós fruiremos.

Que seja devidamente observado que é “por Jesus Cristo” que somos filhos e herdeiros de Deus. Cristo é o nosso padrão na eleição, Aquele em cuja imagem nós somos predestinados para sermos conformes. Cristo é o Filho natural de Deus, e nos tornamos (pela união com Cristo), filhos legais de Deus. “A fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8:29), isso significa que Deus estabeleceu a Cristo como o protótipo e obra-prima, e nos fez para que sejamos muitas pequenas cópias e modelos dEle. Cada dignidade que possuímos, todas as bênçãos que desfrutamos, salvo nossa eleição quando Deus nos escolheu nEle, devemos a Cristo. Ele é a causa eficaz da nossa adoção. Cristo, como já dissemos, é o Filho natural de Deus; como, então, nos tornamos Seus filhos? Da seguinte maneira: Deus nos deu a Cristo para nos casarmos com Ele, e Deus nos prometeu a Ele desde a eternidade, e assim nos tornamos genros de Deus, assim como uma mulher chega a ser a nora de um homem ao se casar com seu filho.

Nós devemos a nossa adoção à nossa relação com a pessoa de Cristo, e não à Sua obra expiatória. A nossa adoção como originalmente ocorreu na predestinação, derramou-se sobre nós, não foi fundada no momento do resgate ou na obediência de Cristo, mas em Cristo ser o Filho natural de Deus. Nossa justificação está de fato fundamentada na obediência e sofrimentos de Cristo: “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas” (Efésios 1:7). Mas nossa adoção e o fato de nos tornarmos, segundo a lei, filhos de Deus é através de Cristo ser o Seu Filho natural, e nós seus irmãos em relação à Sua pessoa. “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor” (1 Coríntios 1:9). Essa relação ou comunhão envolve a nossa participação em Suas dignidades e tudo aquilo que nEle fomos capacitados; exatamente como uma mulher adquire um direito legal sobre todas as posses do homem com quem ela se casa. Assim como o fato de Cristo ser o Filho natural de Deus é o fundamento da Sua obra possuir valor infinito, assim, nossa adoção é fundada sobre a nossa relação com a Sua pessoa, e então nossa justificação sobre a Sua obra meritória.

Devemos, no entanto, adicionar esta palavra de cautela sobre o que acaba de ser apontado: quando caímos em Adão, perdemos todos os nossos privilégios, e, portanto, Cristo dignou-se a comprá-los novamente; e, portanto, segue-se que a adoção, e todas as outras bênçãos, são os frutos do Seu mérito desde que o Seu favor real está em causa. Assim, o apóstolo nos diz que Cristo se encarnou “para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos” (Gálatas 4:5), nossos pecados e escravidão sob a Lei e sua maldição colocavam um obstáculo contra a real concessão Divina da adoção. Mas observe a precisão imediata da linguagem usada: a redenção de Cristo não é dita obter a adoção para nós, mas apenas para que possamos recebê-la. Aquilo que adquiriu a adoção foi nossa relação com Cristo como genros de Deus: sendo este o propósito de Deus desde a eternidade.

Agora, consideremos devidamente a grandeza deste privilégio. Adão foi criado santo, e Lucas 3:38 nos diz que ele era “o filho de Deus”, mas em nenhum lugar é dito que ele era o filho de Deus por adoção através de Cristo. Assim também em Jó 38:7 os anjos são chamados de “estrelas da manhã” e “filhos de Deus”, mas nunca dizem que eles assim o são por adoção através de Cristo. Eles eram “filhos” de fato pela criação, pois, Deus os fez; mas não genros de Deus por estarem casados com Seu filho, que é uma graça e dignidade peculiar aos crentes. Assim, nós excedemos os anjos pela nossa relação especial com o Filho do amor de Deus. Cristo em nenhum lugar chama os anjos de Seus “irmãos”, como Ele faz conosco! Isso é confirmado por Hebreus 12:22, onde, ao contrário dos anjos mencionados anteriormente, lemos sobre “a Igreja dos primogênitos”, um título que denota superioridade (Gênesis 49:3); nós, estando relacionados com o “Primogênito” de Deus temos maior privilégio de filiação do que aqueles que os anjos possuem.

“Uma figura talvez nos ajude aqui. Um pai escolhe uma noiva para o seu filho, como Abraão escolheu uma dentre sua parentela para Isaque, e dá-lhe um dote considerável, além de presenteá-la com ornamentos de noiva, como Eliezer colocou sobre Rebeca. Mas, ao se tornar a esposa de seu filho, ela se torna a sua filha, e agora seus afetos fluem a ela, não apenas como uma noiva adequada para o seu querido filho; ele não apenas admira a sua beleza e graça, e fica encantado com a doçura de sua disposição, mas ele é movido também com amor paternal em relação a ela, como se a tivesse adotando para si mesmo, e assim ela passa a ocupar uma nova e mais próxima relação. Figuras são, é claro, necessariamente imperfeitas, e como tal não devem ser muito enfatizadas; mas se o que temos aqui apresentado a todos nos ajuda a chegarmos a uma melhor compreensão do maravilhoso amor de Deus em nossa adoção para Si mesmo, isso não estará fora de lugar. Vemos, portanto, que a predestinação para a adoção de filhos, é uma bênção mais elevada, mais rica e maior do que ser escolhido para a santificação, e pode-se dizer a seguir sobre ela como um fruto adicional e especial do amor de Deus.

Mas o amor de Deus, ao predestinar a Igreja para a adoção de filhos por Jesus Cristo, para Si mesmo, tem uma raiz ainda mais profunda se a vermos como a noiva de Seu amado Filho. Isso brota e é mais próximo e intimamente ligado à verdadeira filiação, real e eterna de Jesus. Sendo escolhidos em Cristo, os eleitos se tornaram filhos de Deus. Por quê? Porque Ele é o verdadeiro, real e essencial Filho do Pai; e, portanto, quando em união com Ele, que é o Filho de Deus por natureza, eles tornam-se os filhos de Deus por adoção. Fosse Ele apenas um Filho por ofício, ou encarnação, este não seria o caso, pois Ele mesmo, então, seria apenas um filho por adoção. Mas, sendo o Filho de Deus por subsistência eterna, Ele pode dizer: “Eis-me aqui a Mim, e aos filhos que Tu Me deste, Eu Teu Filho por natureza, eles Teus filhos por adoção”. Vemos, então, que tão grande, tão especial foi o amor de Deus por Seu Filho unigênito, para que, vendo a Igreja em união com Ele, Seu coração abraçou-a com o mesmo amor com o qual Ele O amava” (J. C. Philpot).

3. O propósito de Deus em nossa eleição foi que viéssemos a ser salvos, salvos da Queda e de seus efeitos, do pecado e de suas decorrentes consequências. Esta particular ordenação de Deus estava sobre Sua presciência de nossa deserção em Adão, que era a nossa cabeça natural e representativa; pois como apontado nos capítulos anteriores, Deus decretou permitir a Queda de Seu povo, a fim da maior manifestação de Sua própria graça e maior glória do Mediador. Obviamente, o próprio termo “salvação” implica pecado, e este por sua vez pressupõe a Queda. Mas essa determinação de Deus para permitir que Seu povo caísse em pecado e, em seguida, o libertasse dele, era inteiramente subserviente ao Seu desígnio primordial sobre os eleitos e a glória final para a qual Ele lhes ordenou. A subordinação deste terceiro propósito de Deus em nossa eleição àqueles que já consideramos aparece em “que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” (2 Timóteo 1:9).

Se a Escritura acima for cuidadosamente analisada, será visto, em primeiro lugar, que Deus formou um “desígnio” em relação ao Seu povo, e que “graça” lhes foi dada em Cristo Jesus “antes dos tempos dos séculos” historicamente ou na mente de Deus, a referência sendo ao Seu ato soberano em destacá-los a partir da pura massa da criação, dando a eles a existência em Cristo, e concedendo-lhes a graça da filiação. Em segundo lugar, que Deus “nos salvou” (aqui a referência é aos crentes) e “nos chamou com uma santa vocação”, que se refere ao que ocorre no momento em que Ele nos traz de nossa morte em pecado por meio de um chamado eficaz para a santificação (cf. Tito 3:5). Em terceiro lugar, que essa salvação e chamado a nós foi “não segundo as nossas obras”, quer reais ou previstas, mas “segundo o seu próprio propósito”, isto é, foi baseado em Sua intenção original que devemos ser Seus filhos. Nem os nossos méritos (pois não temos nenhum), nem a nossa miséria, moveu Deus a nos salvar, mas o fato de que Ele nos deu a Cristo desde o início.

Como já apontado anteriormente, Deus atribuiu a Cristo uma dupla relação ao Seu povo: “Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo” (Efésios 5:23). Na mesma Epístola Ele é visto pela primeira vez como Cabeça em quem nós fomos originalmente abençoados “com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais” (1:3); depois, Ele é apresentado como Salvador, como o Cristo que amou a Igreja, “e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a” (5:25-26). Ao falar dEle como “o salvador do corpo” é indicado que Ele não é o Salvador de ninguém mais, o que é claramente confirmado por: “Portanto, tudo sofro por amor dos escolhidos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus com glória eterna” (2 Timóteo 2:10), observe, não apenas “salvação”, indefinidamente, mas “a salvação” decretada por Deus para os Seus. Nem a passagem “esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis” (1 Timóteo 4:10) de maneira algum entra em confronto com isso: o “Deus vivo” faz referência ao Pai, e “Salvador” é mais corretamente traduzido como “Preservador”, na Interlinear de Baxter.

Agora, esta “salvação” que Deus decretou para os Seus eleitos, vistos como caídos em Adão, pode ser resumida em dois pontos: da culpa e da penalidade pelo pecado, e de seu domínio e poder; estes se relacionando, respectivamente, com as posições legais e experimentais. Eles são realizados no tempo, pelo que Cristo fez por nós, e por aquilo que o Espírito opera em nós. Sobre o primeiro está escrito: “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5:9); sobre este último, lemos: “por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade” (2 Tessalonicenses 2:13). É por este último que obtemos provas e garantia do primeiro: “Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus; porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo” (1 Tessalonicenses 1:4-5). Quando a nossa salvação do pecado for consumada, nós seremos libertos da própria presença dele.

4. O propósito de Deus em nossa eleição foi existíssemos para Cristo: “Tudo foi criado por ele e para ele” (Colossenses 1:16). Deus não somente nos escolheu em Cristo e nos predestinou para a filiação por meio dEle, mas deu-nos a Ele, para que Cristo fosse também o fim do propósito de Deus na escolha de aperfeiçoar a santidade e adoção. Deus tendo um Filho natural, a segunda pessoa da Trindade, a quem Ele designou tornar visível em natureza humana, por meio de uma união dela ao Seu Filho, decretou para Sua maior glória, nos ordenar para a adoção de filhos a Ele e, como irmãos para Ele, de forma que Ele não estivesse sozinho, mas fosse “o primogênito entre muitos irmãos”. Como em Zacarias 13:7 o homem Jesus Cristo é designado “companheiro” de Jeová, assim no Salmo 45:7 nós aprendemos que Deus predestinou outros a existirem para o Seu Filho, para serem Seus companheiros: “te ungiu com óleo de alegria mais do que a teus companheiros”.

O assunto dos decretos Divinos é tão vasto em seu alcance (quer olhemos para trás ou para a frente) e tão abrangente em seu escopo (quando contemplamos tudo o que está envolvido e incluído no mesmo), que está longe de ser uma tarefa fácil apresentar um esboço resumido (que é tão elevado quanto este escritor aspira) do mesmo; e quando é feita a tentativa de fornecer um esquema ordenado e lidar separadamente com as suas características mais essenciais e distintivas, é quase impossível evitar uma medida de sobreposição; no entanto, se tal repetição torna mais fácil para o leitor assimilar os aspectos principais, nossa finalidade será cumprida. Parte do que queremos agora contemplar em conexão com o projeto de Deus em nossa eleição foi de alguma forma antecipada, inevitavelmente antecipada, no capítulo sobre a natureza da eleição, quando, ao mostrar que a intenção original de Deus foi anterior à Sua previsão de nossa Queda, nós abordamos o lado positivo de Seu desígnio.

Temos procurado destacar a distância infinita entre a criatura e o Criador, o Alto, o Sublime, e que, devido à mutabilidade de nosso primeiro estado, por natureza, houve uma necessidade da graça de criação superior se a condição e posição de ambos, homens ou anjos, deveriam ser imutavelmente fixadas, o que Deus Se agradou designar por meio de uma eleição da graça. E, portanto, Deus por essa eleição também ordenou aqueles a quem Ele escolheu a uma união de criação superior com Ele e comunicação de Si mesmo, como o nosso fim mais elevado e final, que está muito acima daquela relação que tivemos com Ele por mera criação; esta sendo realizada por e através de Cristo. “Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele” (1 Coríntios 8:6). Notemos primeiro a linguagem discriminante utilizada neste versículo: há a indicação de uma diferença feita aqui entre o “nós” e “todas as coisas”, como sobre um grupo seleto e especial, o qual é repetido na segunda metade do verso.

Nós, e todas as outras coisas, somos do Pai, “dEle” ou por Sua vontade e poder, como a causa de origem: isso é comum a “nós” e todas as Suas criaturas. Mas o “nós” é falado aqui por Ele como de um remanescente à parte, separado para alguma maior excelência e dignidade, e este grupo especial é também referida como “nós por ele” (o Senhor Jesus), em contraste com o “pelo qual são todas as coisas”. A Versão Americana [da KJV] mostra “um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas, e nós, (Grego eis) nEle”, o que é bastante justificável, a referência aqui sendo de Deus levando-nos a Si mesmo por um amor especial e por uma união especial conSigo; compare “à igreja dos tessalonicenses em Deus, o Pai” (1 Tessalonicenses 1:1). Mas o Grego significa o fato de termos sido escolhidos para a Sua glória, “para Ele”, o nosso ser nEle é o fundamento do nosso ser para Ele.

A distinção a que acabamos de advertir recebe outra ilustração e confirmação em Efésios 4:6 onde está escrito: “Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós”. Aqui, novamente, encontramos a mesma diferença utilizada nas frases sobre todas as coisas e nós. Sobre todas as coisas, Deus é dito ser “sobre todos”, pelo que entendemos a sublimidade e transcendência da natureza e essência Divinas como sendo infinitamente superiores a essa existência a qual todas as criaturas têm pela participação a partir dEle. No entanto, em segundo lugar, o transcendente Alguém também é iminente, próximo, transpassando “por” todas as criaturas. Ele está presente com todos, ainda assim sustentando um ser diferente de todos, como o ar permeia todas as nossas habitações, sejam elas palácios ou casebres. Mas em terceiro lugar, quando se trata dos santos, é “em todos vós”, esta é a graça soberana fazendo-os diferir de todo o restante. Deus é tão unido a eles a ponto de ser feito um com eles, de uma forma especial e por meio de uma relação especial.

Quão maravilhosa é esta graça que tomou tais criaturas como nós somos, em união com Alguém tão elevado e inefável como Deus é! Este é o ápice de nosso privilégio e felicidade. Se compararmos Isaías 57:15 com 66:1-2, veremos como ali o próprio Deus destacou a sublimidade e a transcendência de Sua própria pessoa e a maravilha e medida de Sua graça em relação a nós. No primeiro, Deus fala de Si mesmo como “o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito”, enquanto no outro Ele declara: “O céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés… mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra”. Como isso demonstra a infinita condescendência de Seu favor que toma o pó animado, habita em nós, Se comunica conosco, como com nenhum outro, e nos dá uma participação nEle, como os anjos não têm!

Antes de prosseguir com a nossa exposição de 1 Coríntios 8:6, na medida em que ele recai sobre o nosso assunto presente, talvez devêssemos divagar por um momento e fazer um breve comentário sobre as palavras: “Mas, para nós há um só Deus, o Pai”, que foram grosseiramente pervertidas por aqueles que negam uma Trindade de pessoas na Divindade. O termo “Pai” aqui (como em Mateus 5:16; Tiago 3:9, e etc.) não é usado sobre a primeira pessoa em contraste com a segundo e a terceira, mas se refere a Deus como Deus, à natureza Divina como tal. Se pudesse ser mostrado a partir deste versículo que Cristo não é Deus no sentido mais absoluto (veja Tito 2:13), então por paridade de razão segue-se necessariamente que “o único Senhor” negaria que o Pai é Senhor, desmentindo Apocalipse 11:15, e etc. O principal pensamento de 1 Coríntios 8:6 torna-se bastante compreensível quando percebemos que este versículo fornece uma antítese perfeita e oposição aos falsos dispositivos das religiões pagãs mencionados no versículo 5.

Entre os pagãos, havia muitos “deuses” ou divindades supremas e muitos “senhores” ou pessoas intermediárias e mediadores. Mas os Cristãos têm apenas uma Divindade suprema, o Deus Uno e Trino, e apenas um Mediador, o Senhor Jesus Cristo (cf. João 17:3). Cristo tem um duplo “Senhorio”. Primeiro, um natural, um não-derivado, pertencente a Ele considerado simplesmente como a segunda pessoa da Trindade. Em segundo lugar (a que 1 Coríntios 8:6 se refere), um derivado, o Senhorio econômico e dispensatório, recebido por comissão de Deus, considerado como Deus-homem. Foi a esta alusão feita anteriormente, na qual foi declarado que Deus decretou que o homem Cristo Jesus fosse considerado em união com o Seu Filho, e assim indicou a Ele a Sua “finalidade soberana”. A administração do universo foi colocada debaixo dEle, todo o poder está comissionado a Ele (João 5:22, 27; Atos 2:36; Hebreus 1:2). Cristo como Deus-homem tem a mesma autoridade com Deus (João 5:23), ainda assim, sob Ele, como Coríntios 3:23 diz: “Pede-me” (cf. Salmos 2:8). Filipenses 2:11 também demonstra isso.

A próxima coisa em 1 Coríntios 8:6 que gostaríamos de nos alongar é a cláusula “e nós nEle” (Grego) ou como a margem [da versão bíblica usada pelo autor, King James – N. do R.] o apresenta “nós por Ele”. Tal união sobrenatural com Deus e comunicação de Deus é o Seu último propósito para nós em Seu escolher-nos. Por isso, é que tantas vezes lemos que: “Porque o Senhor escolheu para si a Jacó, e a Israel para seu próprio tesouro” (Salmos 135:4). “A esse povo que formei para mim” (Isaías 43:21). “Reservei para mim sete mil homens” (Romanos 11:4). Esse Seu escolher-nos não é apenas uma separação de todos os outros para sermos Sua propriedade peculiar (Êxodo 19:5), nem apenas que Deus tem nos separado para a Sua adoração e serviço peculiar para que sejamos santos para Ele mesmo (Jeremias 2:3), nem apenas que devemos relatar o Seu louvor (Isaías 43:21), pois mesmo os ímpios fazem isso (Provérbios 16:4; Filipenses 2:11); mas somos peculiarmente para Ele mesmo e para Sua glória, plenamente em uma forma de graça e amável bondade.

Tudo o que a graça pode fazer por nós ao comunicar o próprio Deus para nós, e tudo o que Ele fará por nós para a magnificação da Sua glória, surge completamente a partir do livre favor que Ele demonstra para conosco. Em outras palavras, Deus não terá mais glória em nós e sobre nós, do que a que surge a partir da graça que Ele nos concede, assim esta nossa felicidade, como o efeito, se estenderá tanto quanto a extremidade de Sua própria glória. Quão maravilhoso, quão grande, quão indizivelmente bendito, que a glória de Deus em nós não deve ser em nada dissociada de nosso bem, Deus ordenou as coisas de tal maneira que estas não são apenas duas coisas inseparáveis, mas co-extensivas. Se, portanto, Deus tem designado ter uma glória manifestada ao extremo, Ele também manifestará Sua graça em nós ao extremo. Não é meramente que Deus concede dons, chuvas de bênçãos, mas que Ele comunica a Si mesmo a nós, ao máximo que nós, como criaturas, somos capazes.

Isto está tão acima da pobre razão humana que nada, senão a fé pode apreendê-lo, que nós ainda devemos ser “cheios de toda a plenitude de Deus” (Efésios 3:19). Ao comunicar a Si mesmo, Deus comunica tudo de Si mesmo, as Suas perfeições Divinas como para nos abençoar com as mesmas, ou todas as três pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo, para que possamos desfrutar e ter comunhão. Tudo em Deus tão verdadeiramente servirá para tornar os eleitos abençoados (de acordo com a capacidade da criatura), quanto servirá para torná-lO bendito em Seu próprio Ser imenso infinito. Se nós temos o próprio Deus, e tudo dEle mesmo, então somos “herdeiros de Deus” (Romanos 8:17), pois somos “coerdeiros com Cristo”; e que o próprio Deus é a herança de Cristo é provado por Sua própria declaração: “O Senhor é a porção da minha herança” (Salmos 16:5). Mais do que isso não podemos ter ou desejar: “Quem vencer, herdará todas as coisas; e eu serei seu Deus, e ele será meu filho”.

Em consequência de ter nos escolhido para Ele, Deus reserva a Si mesmo para nós, e tudo o que há nEle. Se Romanos 11:4 fala de Deus ter “reservado para Si mesmo” os eleitos (veja o v. 5 e observe o “também”), assim 1 Pedro 1:4 diz que Deus está “reservado nos céus para nós” como é evidente a partir do fato de que o próprio Deus é a nossa “herança”, e ninguém poderá compartilhar esta herança maravilhosa, senão os herdeiros predestinados. E ali Ele espera, por assim dizer, até o momento em que estaremos reunidos a Ele mesmo. Ali Ele esperou ao longo dos séculos, suportando os grandes de cada geração passar, reservando a Si mesmo (como na eleição Ele designou) para os Seus santos: “como se um grande príncipe em um sonho ou visão visse a imagem de uma mulher ainda por nascer, e assim se apaixonasse por sua previsão dela, de modo que ele se reservasse até que ela nascesse e crescesse, e até que isso acontecesse não pensaria nem entreteria qualquer outro amor” (Thomas Goodwin). Leitor Cristão, se Deus tem tal amor por ti, o que deveria ser o teu amor por Ele! Se Ele entregou a Si mesmo totalmente a ti, quão plena deve ser a tua dedicação a Ele!

Quando Deus tiver nos trazido em segurança para o Céu, através de todas as provações e tribulações deste mundo inferior, então Ele fará manifesto que Seu primeiro e último propósito na nossa eleição foi Ele mesmo e, portanto, o nosso primeiro bem-vindo ali será uma apresentação de nós a Ele mesmo: “Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória” (Judas 1:24), o que é aqui mencionado para que possamos louvar e dar-Lhe glória de antemão. A referência aqui é (acreditamos) não a Cristo (que temos em Efésios 5:27; Hebreus 2:13), mas ao próprio Pai, como “a presença de sua glória” indica, isso sendo que nós somos “apresentados” diante. Essa é a mesma pessoa que nos apresenta a Si mesmo, cuja glória é essa. Isto é ainda corroborado por “ao único Deus sábio, Salvador nosso [observe que o “Pai” é claramente chamado de “nosso Salvador” em Tito 3:4] seja glória e majestade, domínio e poder, agora e sempre. Amém” (v. 25), todos os atributos que são os de Deus, o Pai, no uso habitual das doxologias.

Deus nos apresentará a Si mesmo “com alegria”. Esta “apresentação” tem lugar na primeira vinda de cada indivíduo santo ao Céu, mas será mais formalmente repetida quando todos os sujeitos da eleição da graça chegarem ali. Como nós de nossa parte, e com razão, nos alegraremos, assim Deus de Sua parte também. Ele tem o prazer de apresentar-nos com grande alegria a Si mesmo, como fazendo de nossa entrada no Céu mais Seu próprio interesse do que é nosso. Este apresentar-nos a Si mesmo “perante a Sua glória” é uma questão de grande alegria para Ele mesmo, por ter-nos assim com Ele, como os pais são muito felizes quando as crianças, há muito ausentes, retornam para casa, para eles. Compare a alegria do Pai em Lucas 15. Isso é porque o Seu propósito é cumprido, o Seu eterno desígnio realizado, Sua glória assegurada, e nisso Ele se alegra. Com isto concorda: “O Senhor teu Deus, o poderoso, está no meio de ti, ele salvará; ele se deleitará em ti com alegria; calar-se-á por seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo” (Sofonias 3:17). Foi para o próprio Deus, que fomos primeiramente escolhidos como Seu fim último, e isso é agora aperfeiçoado.

Outra Escritura que ensina que Deus escolheu o Seu povo para Si mesmo é: “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Efésios 1:5). A palavra grega traduzida como “para si mesmo” pode tão indiferentemente (com uma variação de aspirado) ser traduzido como: “para Ele”, assim, com igual garantia e justeza, podemos entendê-lo, em primeiro lugar, como se relacionando a Deus, o Pai, tendo Ele nos predestinado para Si mesmo como Seu fim último nesta adoção; ou em segundo lugar, a Jesus Cristo, que também é um fim em Deus assim nos predestinando à adoção. Que a preposição [grega] eis muitas vezes significa “para” como denotando o fim ou causa final, aparece a partir de muitos lugares, por exemplo, no versículo seguinte: “a [ou “para”] o louvor da glória de sua graça” como Seu grande propósito; assim também em Romanos 11:36 “a Ele” (ou “para ele”) são todas as coisas”. Devemos, portanto, tomar esta expressão no seu sentido mais abrangente e dar-lhe um duplo significado de acordo com o seu contexto e a analogia da fé.

Deus ter nos predestinado “para Si mesmo” não deve ser entendido como referindo-se principalmente ou somente para nos adotar como filhos para Si mesmo, mas como denotando distinta e imediatamente o fato dEle ter nos eleito e predestinado para o Seu próprio grande e glorioso Ser, para Seu grandioso e bendito Filho. Em outras palavras, a cláusula que estamos considerando agora aponta para outro e maior fim de Seu nos predestinar do que simplesmente nossa adoção; apesar de que esta seja mencionada como uma finalidade especial, no entanto, é apenas uma extremidade inferior e subordinada, em comparação com a que Deus nos predestina para Ele mesmo. Primeiro, Ele nos escolheu em Cristo para uma santidade irrepreensível, que satisfaria a Sua própria natureza; além disso, Ele nos predestinou para a honra e glória da adoção; mas, acima de tudo, a Sua graça alcançou à extensão máxima ao nos predestinar para Si mesmo — anteriormente, já nos dedicamos a mostrar o significado e à maravilha disto.

Deus ter nos predestinou “para Si mesmo” denota uma propriedade especial em nós. Os animais do campo são dEle, e eles O honram da sua forma (Isaías 43:20), mas a Igreja é Seu tesouro peculiar e meio de glória. Os eleitos são consagrados a Ele, a partir de um todo, de uma forma peculiar: “Então Israel era santidade para o Senhor, e as primícias da sua novidade” (Jeremias 2:3), o que denota o fato de Deus tê-los consagrado para Si mesmo, como o tipo em Números 18 explica. Cristo fez do fato de pertencermos a Deus uma grande questão: “Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus” (João 17:9); assim também o apóstolo Paulo enfatizou a mesma observação em: “O Senhor conhece os que são seus” (2 Timóteo 2:19). Isso também denota uma escolha para que sejamos santos diante dEle, como consagrando-nos ao Seu serviço e adoração, que é especialmente exemplificado em Romanos 11:4, onde “reservei para mim” está em contraste com o restante que Ele deixou para o culto a Baal. Mas, acima de tudo, indica o Seu escolher-nos para a união mais próxima, para uma comunhão e participação de Si mesmo.

Considere-se agora a frase em Efésios 1:5 como significando “para Ele”, isto é, para Jesus Cristo. As palavras gregas autos e hautos são usadas indiscriminadamente, tanto para “ele” ou “ele mesmo”, de modo que de modo algum estamos forçando-as na tradução “para Ele”. É nas preposições que são usadas com referência a Cristo em conexão com a relação da Igreja com Ele que Sua glória é anunciada: eles são nEle, por Ele, para Ele. Cada um destes é empregado aqui em Efésios 1:4-5 e nessa ordem: fomos escolhidos nEle como nosso Cabeça, predestinados para a adoção por meio dEle como meio de nossa filiação, e designados para Ele como um fim — a honra de Cristo, bem como a glória da Sua própria graça foi feito o objetivo de Deus em nos predestinar. As mesmas três coisas são atribuídas a Cristo em conexão com criação e a providência, veja, em Grego, Colossenses 1:16. Mas é sobre Deus o Pai somente, como a fonte, que lemos: “dEle” (o Originador) (Romanos 11:36; 1 Coríntios 8:6; 2 Coríntios 5:18).

Primeiro Deus decretou que o Seu próprio Filho amado fosse feito visivelmente glorioso em uma natureza humana, através de uma união desta com a Sua própria pessoa; e, em seguida, para Sua maior glória, Deus decretou adotar-nos como filhos por meio dEle, como irmãos dEle, pois Deus não queria que Seu Filho em humanidade estivesse só, mas que tivesse “companheiros” ou companhias para realçar a Sua glória. Em primeiro lugar, por sua comparação com eles, pois Ele é “ungido acima de seus companheiros” (Salmos 45:7), sendo “o primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8:29). Em segundo lugar, Deus deu ao Seu Filho uma honra única e glória incomparável, ordenando que Ele seja Deus-homem, e para abrilhantar o mesmo, Ele ordenou que haveria aqueles ao redor dEle, que veriam a Sua glória e O engrandeceriam pela mesma (João 17:24). Em terceiro lugar, Deus nos ordenou para a adoção de modo que Cristo fosse o meio de toda a glória de nossa filiação, que temos por Ele, pois Ele não é apenas o nosso padrão na predestinação, mas a causa virtual dessa.

Agora nos conselhos da eleição de Deus, a consideração do pressuposto da natureza humana de Cristo não estava fundada sobre a suposição ou previsão da Queda, como o nosso ser predestinados para Ele como finalidade declara. Certamente, isso é óbvio. Ora, levar Cristo ao mundo apenas por causa do pecado e para a obra da redenção seria sujeitá-lO a nós, fazendo de nossos interesses a finalidade de Sua encarnação! Isso é realmente colocar as coisas de cabeça para baixo, pois Cristo, como Deus-homem é a nossa finalidade, e de todas as outras coisas. Além disso, isso seria subordinar o valor infinito de Sua pessoa aos benefícios que recebemos a partir de Sua obra; enquanto que a redenção é muito inferior ao dom de Si mesmo a nós e nós a Ele. Isso também pode ser mostrado em que a própria redenção foi designada por Deus, em primeiro lugar para a própria glória de Cristo, em vez de atender à nossa necessidade.

Obs.: Estamos novamente em débito para com os escritos inestimáveis de Thomas Goodwin.

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[1] A palavra genro em inglês escreve-se “son-in-law”, e a tradução literal para o português é “filho segundo a lei”. Semelhantemente a palavra nora escreve-se “daughter-in-law” e significa literalmente “filha segundo a lei”. Aqui e a seguir A. W. Pink, fará uma bela analogia entre essas palavras usadas para designar genro e nora, e a nossa adoção por parte de Deus, em Cristo.

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♦ Traduzido do original em Inglês: The Doctrine of Election • By A. W. Pink A presente tradução consiste somente no Capítulo 7 Its Design da obra supracitada
♦ Via: PBMinistries.org (Providence Baptist Ministries)
♦ Tradução por Camila Almeida • Revisão por William Teixeira
♦ Salvo indicação em contrário, as citações bíblicas usadas nesta tradução são da versão Almeida Corrigida Fiel | ACF • Copyright © 1994, 1995, 2007, 2011 Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

♦ Traduzido e publicado em Português pelo website oEstandarteDeCristo.com, com a devida permissão do ministério Providence Baptist Ministries, sob a licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International Public License • Você está autorizado e incentivado a reproduzir e/ou distribuir este material em qualquer formato, desde que informe o autor, as fontes originais e o tradutor, e que também não altere o seu conteúdo nem o utilize para quaisquer fins comerciais.


O Pacto da Graça – Mike Renihan

[Carta-Circular para a Assembleia Geral, março de 2001 — ARBCA • Editada]

O PACTO DA GRAÇA

A construção teológica conhecida como o Pacto da Graça está sob ataque em nossos dias, em duas frentes: a partir da Teologia Pactual Pedobatista de um lado e da Teologia da Nova Aliança, por outro. A primeira faz com que ele seja um princípio organizador e meta-narrativa para toda a sua teologia, enquanto a última procura erradicar o seu uso legítimo. Esta carta circular aborda como essa ideia do Pacto da Graça é utilizada em nossa Confissão comum e como deve ser usada para dar instrução ao nosso povo sobre a obra da graça de Deus em Cristo.

A CONSTRUÇÃO TEOLÓGICA

O termo composto, “Pacto da Graça” não é encontrado nas Escrituras por si só. É uma construção de ideias sobre Deus e Sua obra entre os homens, que é usada para explicar como o decreto eterno de Deus no Pacto da Redenção foi estabelecido entre os homens no espaço e no tempo. O Pacto da Graça deve, portanto, ser distinguido do Pacto da Redenção.

Todos os teólogos (todos os homens) têm meta-narrativas ou pressupostos teológicos ou teoria teológica que conduz a reflexão teológica em uma forma compreensiva. Algumas dessas ideias transcendentes são justificadas; algumas não são. Todas elas devem ser testadas pelas Escrituras para que vejamos se elas foram corretamente deduzidas a partir da autorrevelação de Deus. É um direito fazer pronunciamentos doutrinários com base nas demonstrações implícitas das Escrituras, bem como nas explícitas. A Confissão fala sobre essas coisas que são “…expressamente declaradas ou necessariamente contidas na Sagrada Escritura…” (1:6). Algumas coisas são reveladas na face das Escrituras; outras têm que ser escavadas através de trabalho duro com o uso correto da razão comparando uma Escritura com as outras Escrituras.

Doutrinas e pronunciamentos doutrinários são coerentes com o ensinamento da Bíblia sobre os seus próprios usos legítimos. “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça” (2 Timóteo 3:16). Fazer declarações sistemáticas que são consistentes com a totalidade da Palavra de Deus coaduna-se com os fins para os quais o Espírito Santo inspirou a Palavra. Não devemos recuar da doutrina, ensino ou teologia baseados nas Escrituras. Devemos envolver nossas mentes e energias para trazer todo pensamento cativo ao senhorio de Cristo. Declarações confessionais são declarações Bíblicas enquanto são pronunciamentos doutrinários do que Deus disse e daquelas coisas mui certamente cridas entre nós.

As Escrituras ensinam de forma em sua totalidade que Deus opera com a humanidade, antes e depois da Queda de acordo com a Sua graça. É o princípio pelo qual Ele opera, revela, dirige, liberta, concede a Lei, e qualquer outra coisa “boa”. À medida que as Escrituras são examinadas nota-se que esta graça é frequentemente codificada em alianças entre Deus e o homem. Assim, este princípio da aliança encontrado ao longo das Escrituras é casado com a ubíqua graça de Deus nelas para criar um princípio de organização por meio de construção teológica comumente chamado de Pacto da Graça. Essa ideia ajuda o leitor a compreender melhor e de forma geral a obra e a misericórdia de Deus. É em termos modernos uma “meta-narrativa”, uma ideia que transcende todo o pensamento sobre um assunto. É uma verdade teológica implícita extraída a partir de muitas inferências em passagens múltiplas.

Premissa 1: A Palavra de Deus foi dada para ensinar Doutrina.

Premissa 2: O Pacto da Graça é uma doutrina ensinada na Palavra implicitamente e discernida por boas e necessárias inferências (necessariamente contidas) na mesma.

Conclusão: O Pacto da Graça deve ser ensinado como uma doutrina Bíblica.

A CONFISSÃO

Pressuposto: Desde que as Escrituras são dadas para ensinar a doutrina, qualquer declaração doutrinária consistente com a Palavra de Deus é uma afirmação Bíblica de forma resumida. A Confissão de Fé é uma declaração desse tipo. Por isso, a Confissão deve ser vista como Bíblica no seu conteúdo e na sua forma. É coerente com o primeiro uso das Escrituras mencionadas em 2 Timóteo 3:16 (Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar…).

Nossa Confissão define algumas verdades importantes sobre o Pacto da Graça. A fundação está firmada no Capítulo VII, Sobre a Aliança de Deus.

Por condescendência graciosa Deus provê para o homem o que o homem não poderia prover para si mesmo. Esta condescendência Divina se expressa por meio de Aliança [ou Pacto] (7:1).

No Capítulo VII, parágrafo 2, temos a primeira menção do Pacto da Graça especificamente. Entre outras verdades importantes, está escrito: “[...] aprouve ao Senhor fazer um Pacto de Graça, no qual Ele oferece livremente aos pecadores a vida e a salvação por meio de Jesus Cristo, exigindo deles a fé nEle, para que eles sejam salvos; e prometendo dar a todos os que são ordenados para a vida eterna, o Seu Espírito Santo, para torná-los dispostos e capazes de crer”. Nisto a graça de Deus opera sobre os pecadores. Note bem, o Pacto da Graça, em nossa Confissão comum é entendido como sendo entre o Senhor, e aqueles que Ele faz dispostos a crer. Não é entendida como um meio termo entre a existência comum e a fé salvadora. É feito com aqueles a quem Deus “faz dispostos a crer”, em outras palavras, com os eleitos.

A Confissão continua a dizer como esse Pacto foi revelado. “Primeiramente a Adão na promessa…” “…até que a sua plena revelação foi manifestada no Novo Testamento”. Há uma natureza progressiva para o desvelar do Pacto da Graça. A Confissão nos diz que o Pacto da Graça é análogo ao e fundada sobre, mas não é igual à “transação da eterna Aliança que havia entre o Pai e o Filho para a redenção dos eleitos” (7:3). O Pacto da Redenção tem um efeito de definição sobre a nossa compreensão do Pacto da Graça. Informa o conteúdo de quem será encontrado em ambos os Pactos. Trata-se da salvação dos eleitos, de todos os que creem. Lendo mais adiante, a Confissão acrescenta: “é somente pela graça desta Aliança que todos da caída posteridade de Adão que já foram salvos obtiveram a vida e a bem-aventurada imortalidade, o homem é agora totalmente incapaz de ser aceito por Deus naqueles termos em que Adão permanecia em seu estado de inocência” (7:3). Para que qualquer salvação seja recebida, eles devem ser feitos participantes do Pacto da Graça através do princípio da graça. Isso só é possível se Deus decretou salvá-los pelo Cordeiro que foi morto de acordo com Seu decreto eterno e irrevogável.

O conforto da inclusão no Pacto da Graça tem a ver com Deus comprometendo-se a Si mesmo àqueles a quem Ele verdadeiramente concede fé e arrependimento para a salvação final. “[...] Deus tem, no Pacto da Graça, providenciado misericordiosamente que os crentes que assim pecaram e caíram, sejam renovados através do arrependimento para a salvação” (15.2). O decreto eterno encontrado no Pacto de Redenção é garantido por inclusão pessoal e corporativa do crente no Pacto da Graça. No mesmo Capítulo, Sobre o Arrependimento para a Vida e Salvação, está escrito: “Tal é a provisão que Deus tem feito por Cristo, no Pacto da Graça, para a preservação dos crentes para a salvação, que, embora não haja pecado tão pequeno que não mereça a condenação; ainda não há pecado tão grande que possa trazer condenação sobre aqueles que verdadeiramente se arrependem; o que torna a constante pregação sobre o arrependimento necessária” (15:5). Sentimentos semelhantes são encontrados no Capítulo intitulado Sobre a Perseverança dos Santos: “Esta perseverança dos santos depende, não do seu próprio livre-arbítrio, mas da imutabilidade do decreto da eleição, que flui a partir do livre e imutável amor de Deus o Pai; sobre a eficácia do mérito e intercessão de Jesus Cristo; e da união com Ele; da promessa de Deus; da permanência de Seu Espírito e da semente de Deus dentro deles; e da natureza do Pacto da Graça; de todas estas coisas vêm a sua certeza e infalibilidade” (CFB 17:2). Assim, o Pacto da Graça não é sobre o homem, tanto quanto é sobre as promessas — abertamente proclamadas e solenemente juradas — de Deus no que diz respeito ao Seu amor pelos eleitos, e por estes somente.

Aqueles que foram beneficiados pela graça eletiva de Deus podem ter certeza da sua salvação final, não por causa de suas vontades, ou por causa da capacidade de crer, mas devido à graça soberana de Deus que terminará a obra que Ele mesmo começou (Filipenses 1:6). O conforto e uso do Pacto da Graça não é dar falsa esperança para nossos filhos, mas uma esperança real, viva e vibrante para aqueles que estão sendo salvos. Os verdadeiros crentes têm a promessa do amor de Deus em Cristo. Esta promessa nunca será revogada.

A NATUREZA BÍBLICA DESTE PACTO

Para descobrir a natureza Bíblica do Pacto da Graça, tudo o que o leitor tem a fazer é começar “no princípio” e ler. Deus criou, em seguida, ordenou, portanto, que todas as criaturas deviam lealdade inabalável a Ele. O homem não fez as obras que foram postas diante dele para que vivesse. A Queda do homem foi uma ocorrência trágica no mundo perfeito de Deus. Após a Queda, sempre que os homens são levados a relação especial com o Criador, é através de Sua própria condescendência voluntária. Isto está em perfeita harmonia com a Sua atividade graciosa. Está também dentro do contexto de um cabeça ou representante e/ou a ideia de uma aliança. Deus fornece a base para a comunhão restaurada conSigo mesmo nestes meios. Por exemplo, Deus providenciou uma cobertura para os nossos primeiros pais, para que eles pudessem ser libertos das consequências imediatas do pecado. Deus inclinou-se para o homem para restaurar em parte o que foi perdido.

Ao longo das Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, encontramos dois conjuntos de gloriosas palavras: “seu Deus” e “meu povo”. Eles são frequentemente encontrados juntos no decreto soberano de Deus para tomar um povo conhecido pelo pecado e rebelião contra o Seu caráter santo e trazê-los à comunhão especial conSigo mesmo, fazendo-os ser o “Seu povo” e comprometendo-se a ser “seu Deus”.

Abrão/Abraão deveria ser um pai de muitas nações. Por meio dele, foi dada a promessa de que todas as nações seriam abençoadas. Os Israelitas vagando pelo deserto estavam focados em receber o que havia sido prometido a eles por meio de Abraão, a sua cabeça pactual.

Israel deveria ser o povo especialmente adotado de Deus vivendo como Seu testemunho para essas nações. A aliança que Deus fez com Abraão, Isaque e Jacó começa a frutificar no verdadeiro povo de Deus. No entanto, o princípio primordial tomado a partir das alianças históricas específicas é que Deus opera pela graça entre os homens para realizar os Seus próprios santos propósitos.

Moisés foi o mediador da Lei. Foi por graça que as demandas de Deus foram feitas conhecidas ao Seu povo. No prólogo do documento da aliança, lemos: “Eu sou o Senhor teu Deus”. Deus afirma Seu direito de ser seu governante e legislador. Ele age assim sobre o fundamento de quem Ele é e da graça prévia ao libertá-los ao longo do Êxodo.

A expressão máxima deste motivo da graça é encontrada na Nova Aliança. Uma amostragem de três textos relevantes deve ser suficiente, embora existam mais dezenas, senão centenas com relação implícita a este tópico:

• “Mas esta é a aliança que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” (Jeremias 31:33).

• “E eles serão o meu povo, e eu lhes serei o seu Deus [...]” (Jeremias 32:38).

• “Para que andem nos meus estatutos, e guardem os meus juízos, e os cumpram; e eles me serão por povo, e eu lhes serei por Deus” (Ezequiel 11:20).

A atividade graciosa de Deus é revelada nas páginas da Sagrada Escritura. É o Seu subjugar os corações de Seus inimigos, a fim de torná-los o Seu povo, que Deus faz por esta graça. Ele os chama a um relacionamento de aliança conSigo, em que Ele é seu governante e eles são o Seu povo. Essa comunhão iniciada por Deus é comumente chamada de Pacto da Graça.

É Deus quem faz o Pacto da Graça por Sua própria obra graciosa em nome do homem caído e pecaminoso. É Deus quem fala e decreta, este Deus é quem faz a Lei para expressar Seu caráter e vontade. É este Deus pactuante que faz com que aqueles que Lhe pertencem andem nos Seus caminhos. E, tudo isso é operado por Sua livre graça. É sem qualquer condição de homem algum, e realizado de maneira sobrenatural. A graça é o princípio pelo qual Deus opera no que diz respeito ao Seu povo desde a Queda.

Para nos guardarmos de presunção é melhor dizer que não sabemos quem está no Pacto da Graça até que eles creiam. O Pacto da Graça não é perpetuado através da procriação e descendência linear de crentes, mas pela regeneração como um ato direto da livre e incondicional graça de Deus. A eleição daqueles que são feitos dispostos a crer (e estes somente) — juntamente com todas as obras, bênçãos e benefícios de Deus que acompanham a fé — demonstra a invencível união de um crente com Cristo. Estas realidades garantem a sua participação para sempre em Seu Pacto da Graça. Que conforto bendito surge pelo Deus vivo e verdadeiro, o criador e sustentador de todas as coisas, ter comprometido a Si mesmo com Seu povo por meio dessa aliança graciosa. Que alegria é a nossa, mesmo no meio de uma tomada de consciência do nosso pecado remanescente. Devemos agradecer humildemente pelo dom imerecido da graça de Deus, por meio da fé. Amém.

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♦ Traduzido do original em Inglês: Covenant of Grace • Circular Letter 2001 — ARBCA • By Dr. Mike Renihan.
♦ Via: ARBCA.com (Association of Reformed Baptist Churches of America)
♦ Tradução por William Teixeira • Revisão por Camila Almeida
♦ Salvo indicação em contrário, as citações bíblicas usadas nesta tradução são da versão Almeida Corrigida Fiel | ACF • Copyright © 1994, 1995, 2007, 2011 Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

♦ Traduzido e publicado em Português pelo website oEstandarteDeCristo.com, sob a licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International Public License • Você está autorizado e incentivado a reproduzir e/ou distribuir este material em qualquer formato, desde que informe o autor, as fontes originais e o tradutor, e que também não altere o seu conteúdo nem o utilize para quaisquer fins comerciais.


O Anúncio da Doutrina da Eleição – A. W. Pink

[Capítulo 12 do livro The Doctrine of Election • Editado]

Durante as últimas duas ou três gerações, o púlpito tem dado cada vez menos importância à pregação doutrinária, até mesmo hoje — com raríssimas exceções — ela não tem lugar. Em alguns lugares o clamor do banco era: queremos uma vívida experiência e não doutrina seca; em outros: precisamos de sermões práticos e não de dogmas metafísicos; e ainda em outros: dá-nos Cristo, e não teologia. É triste dizer, mas esses clamores insensatos foram geralmente atendidos; “insensatos”, dizemos, pois não há outra forma segura de experiência de testes, como não há fundamento sobre o qual construir práticas, se eles estiverem dissociados da doutrina Bíblica; assim como Cristo não pode ser conhecido, a menos que Ele seja pregado (1 Coríntios 1:23), e Ele certamente não pode ser “pregado” se a doutrina é engavetada. Várias razões podem ser dadas para a lamentável falha do púlpito, as principais dentre elas sendo a preguiça, desejo de popularidade, “evangelismo” superficial e unilateral, amor pelo sensacional.

Preguiça. É uma tarefa muito mais exigente, algo que exige confinamento muito mais restrito em estudo, preparar uma série de sermões sobre, digamos, a doutrina da justificação, do que fazer pregações sobre oração, missões, ou obra pessoal. Isso demanda uma mais ampla familiaridade com as Escrituras, uma disciplina mais rígida da mente, e uma mais extensa leitura dos escritores mais antigos. Mas isso foi uma exigência muito grande para a maioria dos ministros, e por isso eles escolheram a linha de menor resistência e seguiram um curso mais fácil. É por causa de sua propensão a essa fraqueza que o ministro é particularmente exortado, “persiste em ler… tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas” (1 Timóteo 4:13, 16), e novamente: “procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Timóteo 2:15).

Desejo por popularidade. É natural que o pregador queira agradar os seus ouvintes, mas é espiritual que ele deseje e vise a aprovação de Deus. Nenhum homem pode servir a dois senhores. Como o apóstolo expressamente declarou: “se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo” (Gálatas 1:10), estas são palavras solenes. Como elas condenam aqueles cujo objetivo principal é pregar para igrejas lotadas. Contudo, que graça é necessária para nadar contra a maré da opinião pública, e pregar o que é inaceitável para o homem natural. Mas, por outro lado, quão temível será a desgraça daqueles que, a partir de uma determinação para agradar os homens, deliberadamente retêm aquelas porções da verdade mais necessária aos seus ouvintes. “Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela” (Deuteronômio 4:2). Oh! poder dizer com Paulo: “Como nada, que útil seja, deixei de vos anunciar… Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do sangue de todos” (Atos 20:20, 26).

A “evangelização” superficial e unilateral. Muitos dos pregadores dos últimos 50 anos atuaram como se o primeiro e o último objeto de sua vocação fosse a salvação das almas, tudo sendo feito para curvar-se a esse objetivo. Em consequência, a alimentação do rebanho, a manutenção de uma disciplina Bíblica na igreja, e a inculcação de piedade prática foram lançadas fora; e com muita frequência todos os tipos de dispositivos mundanos e métodos carnais foram empregados sob o argumento de que o fim justifica os meios; e, assim, as igrejas foram cheias de membros não-regenerados. Na realidade, esses homens destruíram o seu próprio objetivo. O coração duro deve ser arado e atribulado antes que ele possa ser receptivo à semente do Evangelho. Instrução doutrinária deve ser dada sobre o caráter de Deus, os requisitos de Sua lei, a natureza e a hediondez do pecado, se um fundamento deve ser colocado para o verdadeiro evangelismo. É inútil pregar a Cristo para as almas até que elas vejam e sintam a sua desesperada necessidade de Deus.

Amor pelo sensacional. Em tempos mais recentes, o curso foi alterado. Uma geração surgiu, a qual era menos tolerante até mesmo à evangelização superficial, que hesitava diante de qualquer coisa na escuta do que fosse projetado para torná-los minimamente desconfortáveis em seus pecados. É claro, essas pessoas não seriam expulsas das igrejas, antes elas deveriam ser atendidas e supridas com algo que agradasse os seus ouvidos. O cenário da ação pública ofereceu material abundante. A guerra mundial e personagens como o Kaiser, Stalin, Mussolini eram muitos aos olhos do público, como Hitler e Abissínia foram desde então. Sob o pretexto de expor profecia, o púlpito voltou sua atenção para o que foi denominado de “os Sinais dos Tempos” e a membresia foi levada a acreditar que os “ditadores” estavam cumprindo as previsões de Daniel e Apocalipse. Não havia nada em tal pregação que atingisse a consciência, ainda assim dezenas de milhares foram iludidos a pensar que o próprio ouvir de tal lixo as tornava religiosas, e assim, as igrejas foram habilitadas a “seguir em frente”.

Antes de prosseguir, que seja salientado que as objeções mais comuns feitas contra a pregação doutrinária são bastante inúteis. Tome, em primeiro lugar, o clamor pela pregação experimental. Em certos lugares — lugares que embora muito restritos, ainda se consideram os próprios defensores da ortodoxia e os mais altos expoentes da piedade vital — a demanda é por um rastreamento detalhado das variadas experiências de uma alma vivificada tanto sob a lei como sob a graça, e qualquer outro tipo de pregação, especialmente doutrinária, é desaprovada como sendo nada mais do que o fornecimento de casca. Mas, como um escritor laconicamente disse: “Apesar de que as questões doutrinárias são, por alguns, consideradas apenas como a casca da religião, e a experiência como a semente, contudo, que seja lembrado que não há acesso à semente, senão através da casca; e enquanto a semente dá valor à casca, a casca é a guardiã da semente. Destrua àquela e você fere esta”. Elimine a doutrina e você não tem mais nada pelo que testar a experiência, e o misticismo e fanatismo são inevitáveis.

Em outros lugares a procura tem sido pela pregação sobre linhas práticas, supondo e insistindo essas pessoas que a pregação doutrinária é meramente teórica e impraticável. Tal conceito revela lamentável ignorância. “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa [primeiro] para ensinar, [e depois] para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça” (2 Timóteo 3:16). Estude as epístolas de Paulo e veja quão firmemente esta ordem é mantida. Os Capítulos 1-11 da Epístola aos Romanos são estritamente doutrinais, e os Capítulos de 12-16 são exortações práticas. Vejamos um exemplo concreto: em 1 Timóteo 1:9-10, o apóstolo elabora um catálogo de pecados contra os quais as denúncias da lei são iminentemente dirigidas, em seguida, ele acrescentou: “e para o que for contrário à sã doutrina”. Que evidente indicação é esta que o erro em princípios fundamentais tem uma influência mui desfavorável na prática, e que na proporção em que a doutrina de Deus é desacreditada, a autoridade de Deus é repudiada. É a doutrina que fornece motivos para a obediência aos preceitos.

Em relação àqueles que clamam, pregamos a Cristo e não teologia, nós temos observado que eles nunca O pregam como Aquele com quem Deus fez uma aliança (Salmos 89:3), nem como Seu “eleito” em quem Sua alma se deleita (Isaías 42:1). Eles pregam um “Cristo” que é o produto de sua própria imaginação, a criação do sentimento. Se pregamos o Cristo das Escrituras devemos anunciá-lO como o servo da escolha de Deus (1 Pedro 2:4), como o Cordeiro “cordeiro imaculado e incontaminado, O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo” (1 Pedro 1:19-20), como Alguém “posto para queda e elevação de muitos em Israel” (Lucas 2:34), como “pedra de tropeço, e uma rocha de escândalo” [Romanos 9:33]. Cristo não deve ser pregado como separado de Seus membros, mas como a Cabeça do Seu corpo místico — Cristo e aqueles a quem Deus escolheu, nEle, são um só, eternamente e imutavelmente, um. Então não pregue um Cristo mutilado. Pregue-O segundo os conselhos eternos de Deus.

Agora, se a pregação doutrinária, em geral, é tão impopular, a doutrina da eleição é particular e preeminentemente assim. Sermões sobre a predestinação são, com raríssimas exceções, acaloradamente ressentidos e amargamente denunciados. “Parece haver um preconceito inevitável na mente humana contra esta doutrina, e embora a maioria das outras doutrinas sejam recebidas por Cristãos professos, algumas com cautela, outras com prazer, contudo esta parece ser mais frequentemente desconsiderada e descartada. Em muitos de nossos púlpitos seria considerado um grande pecado e traição pregar um sermão sobre a eleição” (C. H. Spurgeon). Se esse era o caso há cinquenta anos, muito mais o é agora. Mesmo nos círculos declaradamente ortodoxos a simples menção da predestinação é como o acenar de um pano vermelho diante de um touro. Nada manifesta tão rapidamente a inimizade da mente carnal no presunçoso religioso e fariseu hipócrita quanto o faz a proclamação da Soberania Divina e Sua graça distintiva; e, agora, poucos de fato são os homens remanescentes que se atrevem a lutar bravamente pela verdade.

Temíveis além das palavras são as extensões do horror e do ódio em relação à eleição que têm acompanhado líderes declaradamente evangélicos em seus discursos blasfemos contra esta bendita verdade; nós nos recusamos a contaminar estas páginas, citando seus discursos ímpios. Alguns foram tão longe a ponto de dizer que, mesmo que a predestinação seja revelada nas Escrituras é uma doutrina perigosa, criando dissensão e divisão, e, portanto, não deveria ser pregada nas igrejas; esta é a mesma objeção usada pelos Romanistas contra oferecer a Palavra de Deus para as pessoas comuns em sua própria língua materna. Se devemos negar a verdade, de modo a pregar apenas o que é aceitável para o homem natural, quanto sobraria? A pregação de Cristo crucificado para os Judeus é escândalo e loucura para os Gregos (1 Coríntios 1:23). O púlpito deve silenciar-se quanto a isso? Porventura os servos de Deus deixarão de proclamar a Pessoa, ofício e obra de Seu Filho amado, simplesmente porque Ele é “uma pedra de tropeço e rocha de escândalo” (1 Pedro 2:8) para os réprobos?

Muitas são as objeções apresentadas contra essa doutrina por aqueles que desejam desacreditá-la. Alguns dizem que a eleição não deveria ser pregada, porque é muito misteriosa, e coisas encobertas pertencem ao Senhor. Mas, ela não é um segredo, pois Deus claramente a revelou em Sua Palavra; e se não deve ser pregada por causa de seu mistério, então, pela mesma razão, nada deve ser dito sobre a unidade da natureza Divina subsistente em uma Trindade de Pessoas, nem sobre o nascimento virginal, nem da ressurreição dos mortos. Segundo outros, a doutrina da eleição corta o nervo de todos empreendimentos missionários, na verdade se opõe a toda pregação, tornando-a totalmente negatória. Então, nesse caso, a pregação do próprio Paulo era totalmente inútil, pois estava repleta desta doutrina: leia suas epístolas e será encontrado que ele proclamou a eleição continuamente, mas nunca lemos sobre ele deixar de prega-la porque ela tornou seu trabalho inútil.

Paulo ensinou que “Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2:13), mas não acho que por causa disso ele deixou de exortar os homens à desejarem e a esforçarem-se pelas coisas que agradam a Deus, e labutarem, eles mesmos, com todas as suas forças. Se não somos capazes de perceber a consistência das duas coisas, isso não é motivo por que nos recusemos a crer e prestar atenção tanto a uma ou à outra. Alguns argumentam contra a eleição por que prega-la estremece a segurança e enche a mente dos homens com dúvidas e medos. Mas, especialmente nos dias de hoje devemos ser gratos por qualquer verdade que quebre a complacência de professos vazios e desperte os indiferentes a examinarem-se diante de Deus. Com tanta razão pode-se dizer que a doutrina da regeneração não deve ser promulgada, pois, é algo mais fácil certificar-me de que eu realmente nasci de novo do que é verificar se eu sou um dos eleitos de Deus? Não é.

Outros ainda insistem que a eleição não deve ser pregada porque o ímpio fará um mau uso da mesma, que eles abrigarão atrás dela desculpa para a sua despreocupação e procrastinação, argumentando se eles foram eleitos para a salvação, enquanto eles vivem como eles querem e multiplicam seus pecados. Tal objeção é pueril, infantil ao extremo. Mas, que verdade há ali que os ímpios não perverteram? Por que, eles tornarão a graça de Deus em dissolução, e utilizarão (ou melhor, mal utilizarão) Sua própria bondade, Sua misericórdia, Sua longanimidade, para a continuarem em um curso de ação ímpia. Arminianos nos dizem que pregar a segurança eterna do Cristão incentiva a preguiça; enquanto no extremo oposto, hiper-Calvinistas opõem-se à exortação do regenerado para o arrependimento e a fé no fundamento de que isso inculca a capacidade da criatura. Não vamos fingir ser sábios acima do que está escrito, mas preguemos todo o conselho de Deus e deixemos os resultados por conta Ele.

O servo de Deus não deve ser intimidado ou desencorajado de professar e proclamar a pura verdade. Sua comissão, hoje, é a mesma de Ezequiel no passado: “E tu, ó filho do homem, não os temas, nem temas as suas palavras; ainda que estejam contigo sarças e espinhos, e tu habites entre escorpiões, não temas as suas palavras, nem te assustes com os seus semblantes, porque são casa rebelde. Mas tu lhes dirás as minhas palavras, quer ouçam quer deixem de ouvir, pois são rebeldes” (Ezequiel 2:6-7). Ele deve esperar encontrar oposição, especialmente daqueles que fazem a mais alta profissão, e fortificar-se contra isso. O anúncio da soberana escolha Divina de homens evocou o espírito de maldade e perseguição desde os tempos remotos. Fê-lo assim, tão antigamente quanto nos dias de Samuel. Quando o profeta anunciou a Jessé sobre seus sete filhos “o Senhor não tem escolhido a estes” (1 Samuel 16:10), a ira de seu primogênito se acendeu contra Davi (1 Samuel 17:28). Assim também, quando o próprio Cristo enfatizou a graça de Deus ao distinguir aos Gentios, a saber, a viúva de Sarepta e Naamã, o Sírio, os adoradores da sinagoga ficaram “cheios de ira”, e procuravam matá-lO (Lucas 4:25-29). Mas o próprio ódio que esta verdade solene desperta é uma das provas mais convincentes de sua origem Divina.

A eleição deve ser pregada e anunciada, em primeiro lugar, porque ela é expressa em totalidade através das Escrituras. Não há um único livro na Palavra de Deus, onde a eleição não é expressamente declarada, ou admiravelmente ilustrada, ou claramente implícita. Gênesis é cheio dela: a diferença que o Senhor fez entre Naor e Abraão, Ismael e Isaque, e entre Seu amado Jacó e Seu odiado Esaú são exemplos deste tema. Em Êxodo vemos a distinção feita por Deus entre os Egípcios e os Hebreus. Em Levítico a expiação e todos os sacrifícios eram para o povo de Deus, não sendo ordenados a ir e “oferta-los” os pagãos ao redor. Em Números, Jeová usou a Balaão para anunciar o fato de que Israel era “o povo” que “habitará só, e entre as nações não será contado” (23:9); e, portanto, ele foi obrigado a clamar: “Quão formosas são as tuas tendas, ó Jacó, as tuas moradas, ó Israel!” (Números 24:5). Em Deuteronômio está escrito “Porque a porção do Senhor é o seu povo; Jacó é a parte da sua herança” (32:9).

Em Josué vemos a misericórdia distintiva que o Senhor derramou sobre Raabe, a meretriz, enquanto toda a sua cidade estava condenada à destruição. Em Juízes, a soberania de Deus aparece nos instrumentos improváveis selecionados, pelos quais Ele operou vitória para Israel: Débora, Gideão, Sansão. Em Rute temos Orfa beijando a sua sogra e retornando para os seus deuses, enquanto Rute se apegou a ela e obteve herança em Israel — quem as fez diferentes? Em 1 Samuel, Davi é escolhido para o trono, preferido a seus irmãos mais velhos. Em 2 Samuel, aprendemos sobre a eterna aliança “que em tudo será bem ordenada e guardada” (23:5). Em 1 Reis Elias torna-se uma bênção para uma única viúva escolhida dentre muitas; enquanto que em 2 Reis somente Naamã, dentre todos os leprosos, foi purificado. Em 1 Crônicas está escrito: “vós, filhos de Jacó, seus escolhidos” (16:13); enquanto que em 2 Crônicas somos feitos maravilhados com a graça de Deus concedendo arrependimento a Manassés. E assim poderíamos continuar. Salmos, Profetas, Evangelhos e Epístolas são tão repletos dessa doutrina, de forma que aquele que passa correndo consegue ler.

Em segundo lugar, a doutrina da eleição deve ser pregada de forma proeminente porque o Evangelho não pode ser proclamado biblicamente sem ela. Infelizmente, tão profunda é a escuridão e tão difundida a ignorância que agora prevalece, que poucos de fato percebem que há alguma ligação vital entre a predestinação e o Evangelho de Deus. Pare, então, por um momento e reflita seriamente nestas perguntas: o sucesso ou fracasso do Evangelho é uma questão de sorte? ou, dito de outra maneira, são os frutos do empreendimento mais estupendo de todos — a obra expiatória de Cristo — deixados na dependência do capricho humano? Poderia ser afirmado positivamente que o Redentor ainda: “verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito” (Isaías 53:11), se tudo dependesse da vontade do homem caído? Deus tem tão pouca consideração pela morte de Seu filho que Ele a deixou incerta a respeito de quantos serão salvos por Ele?

“O evangelho de Deus” (Romanos 1:1) só pode ser biblicamente apresentado como o Deus Triuno é reconhecido e honrado nele. O “Evangelho” atenuado de nossa época degenerada limita a atenção de seus ouvintes ao sacrifício de Cristo, ao passo que a salvação se originou no coração de Deus, o Pai, e é consumada pelas operações de Deus, o Espírito. Todas as bênçãos da salvação são comunicadas de acordo com os conselhos eternos de Deus, e foi por toda a eleição da graça (e por nenhum outro) que Cristo operou salvação. O primeiro capítulo do Novo Testamento anuncia que Jesus “salvará o seu povo dos seus pecados” [Mateus 1:21], não que Ele “pode”, mas que “salvará”; não oferecerá ou tentará, mas, de fato, os “salvará”. Mais uma vez; nem uma única alma jamais seria beneficiada com a morte de Cristo, se o Espírito não fosse concedido para aplicar Suas virtudes à semente escolhida. Qualquer homem, então, que omite a eleição do Pai, e as operações soberanas e eficazes do Espírito, não prega o Evangelho de Deus, não importa qual seja a sua reputação como um “ganhador de almas”.

Temos exposto a falta de sentido dessas acusações que são feitas contra a pregação doutrinária, em geral, e os argumentos que são feitos contra a proclamação da predestinação, em particular. Em seguida, apontamos algumas das razões pelas quais esta grande verdade deve ser anunciada. Primeiro, porque as Escrituras, de Gênesis a Apocalipse, estão repletas dela. Em segundo lugar, porque o Evangelho não pode ser biblicamente pregado sem ela. A grande comissão dada aos servos públicos de Cristo, devidamente chamados e capacitados por Ele, diz assim: “pregai o evangelho” (Marcos 16:15), não partes dele, mas todo o Evangelho. O Evangelho não deve ser pregado em partes, mas em sua totalidade, de modo que cada pessoa da Trindade seja igualmente honrada. Na medida em que o Evangelho é mutilado, assim como qualquer ramo do sistema evangélico é suprimido, o Evangelho não é pregado. Começar no Calvário, ou até mesmo em Belém, é começar no meio: precisamos retornar para os eternos conselhos da graça Divina.

Justamente um renomado reformador colocou: “A eleição é o fio de ouro que atravessa todo o sistema Cristão… é o vínculo que o liga e mantém unido, de forma que sem isso é como um sistema de areia sempre pronto a cair aos pedaços. É o cimento que mantém a construção unida; ou melhor, é a alma que anima todo o corpo. É tão misturado e entrelaçado com todo o esquema de doutrina do Evangelho que, quando o primeiro é excluído, o último sangra até a morte. Um embaixador deve entregar toda a mensagem que lhe é comissionada. Ele não deve omitir nenhuma parte dela, mas deve declarar a mente do soberano que ele representa, plenamente e sem reservas. Ele não deve dizer nem mais nem menos do que as instruções que seu juiz exigir, de outro modo, ele incorre no descontentamento de quem o enviou, talvez perca a cabeça. Que os ministros de Cristo ponderem bem nisso” (Jerome Zanchius, 1562).

Além disso, o Evangelho deve ser pregado “a toda a criatura”, isto é, a todos os que frequentam o ministério Cristão, seja Judeu ou Gentio, jovem ou velho, rico ou pobre. Todos os que esperam as ministrações dos servos de Deus têm o direito de ouvir o Evangelho plena e claramente, sem qualquer parte dele sendo retido. Agora uma parte importante do Evangelho é a doutrina da eleição: a escolha eterna, livre e irreversível de Deus de certas pessoas em Cristo para a vida eterna. Deus previu que, se o sucesso da pregação de Cristo crucificado ficasse condicionado à resposta feita a ela por homens caídos, haveria um desprezo universal da mesma. Isso fica claro, “e todos à uma começaram a escusar-se” (Lucas 14:18). Por isso Deus determinou que um remanescente dos filhos de Adão seriam os eternos monumentos da Sua misericórdia, e, consequentemente, Ele decretou conferir-lhes uma fé e arrependimento salvíficos. Isso é uma boa nova, de fato: tudo realizado correta e imutavelmente pela vontade soberana de Deus.

Cristo é o supremo evangelista, e encontramos que esta doutrina estava em Seus lábios durante todo o Seu ministério. “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve” [Mateus 11:25-26]; “por causa dos escolhidos serão abreviados aqueles dias” [Mateus 24:22]”; “vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mateus 11:25; 24:22; 25:34). “E ele disse-lhes: A vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora todas estas coisas se dizem por parábolas” (Marcos 4:11). “Alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lucas 10:20). “Todo o que o Pai me dá virá a mim”, “mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito”; “não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós” (João 6:37; 10:26; 15:16).

O mesmo é verdade para o maior dos apóstolos. Tome a primeira e principal de suas epístolas, a que é expressamente dedicada a um desvelamento do “evangelho de Deus” (Romanos 1:1). No capítulo 8, ele descreve aqueles que são “chamados segundo o propósito de Deus” (v. 28), e em consequência do que eles eram os que “dantes conheceu” e os que “predestinou para serem conformes à imagem de seu filho” (v. 29). Todo o capítulo 9 é dedicado a isso: ali, ele mostra a diferença que Deus fez entre Ismael e Isaque, entre Esaú e Jacó, os vasos da ira e os vasos de misericórdia. Ali, ele nos diz que Deus “compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” (v. 18). Essas coisas não foram escritas para algumas pessoas em algum canto obscuro, mas dirigidas para os santos em Roma “o que consistia, na verdade, em trazer esta doutrina sobre o palco do mundo inteiro, selando uma sanção universal sobre ela e anunciando-a aos crentes em geral em toda a terra” (Zanchius).

A doutrina da eleição deve ser pregada, em terceiro lugar, porque a graça de Deus não pode ser mantida sem ela. As coisas estão agora a um passo tão lamentável que o restante deste capítulo realmente deve ser dedicado à elucidação e amplificação deste importante ponto; mas temos que contentar-nos com algumas breves observações. Existem milhares de evangelistas Arminianos na Cristandade hoje que negam a predestinação, direta ou indiretamente, e ainda acham que eles estão magnificando a graça Divina. A ideia é que Deus, por Sua grande bondade e amor, providenciou a salvação em Cristo para toda a família humana, e isso é o que Ele agora deseja e busca. O ponto de vista destes homens é que Deus faz uma oferta de Sua graça salvadora através da mensagem do Evangelho, fazendo-a ao livre-arbítrio de todos os que o ouvem, e que eles podem aceitar ou recusar. Mas isso absolutamente não é “graça”.

A graça Divina e mérito humano são tão distantes um do outro como os polos são diretamente opostos. Mas não é assim com a “graça” do Arminiano. Se a graça é apenas algo que é oferecido para mim, algo que eu tenho que melhorar se isso tiver que fazer algum bem, então a minha aceitação da mesma é um ato meritório, e eu tenho motivo para gloriar-me. Se alguns recusam a graça e eu a recebo, então isso deve ser (já que é totalmente uma questão de livre-arbítrio do ouvinte) porque eu tenho mais sensibilidade do que eles têm, ou porque o meu coração é mais flexível do que o deles, ou porque a minha vontade é menos obstinada; e fosse a pergunta colocada a mim “porque, quem te faz diferente?” (1 Coríntios. 4:7), então a única resposta verdadeira que eu poderia dar seria dizer: eu me fiz diferente, e, assim, coloco a coroa de honra e glória sobre a minha própria cabeça.

A isso, pode ser respondido por alguns: Nós cremos que o coração do homem natural é duro e sua vontade obstinada, mas Deus em Sua graça envia o Espírito Santo e Ele convence os homens do pecado e, no dia da Sua visitação derrete seus corações e tenta atraí-los a Cristo; ainda assim, eles devem responder às suas “doces ofertas” e cooperar com Sua “graciosa influência”. Aqui o fundamento de que seja totalmente uma questão da vontade humana é abandonado. No entanto, também aqui não temos nada melhor do que um burlesco da graça Divina. Esses mesmos homens afirmam que muitos daqueles que são os sujeitos dessas influências do Espírito, resistem às mesmas e perecem. Assim, aqueles que são salvos, devem a sua salvação (em última análise) ao seu aprimorar as ofertas do Espírito, eles “cooperam” com Ele. Em tal caso, as honras seriam divididas entre as operações do Espírito e os meus aprimoramentos das mesmas. Mas isso não é “graça” de modo algum.

Há ainda outros que procuram atenuar o gume afiado da espada do Espírito, dizendo: Cremos na doutrina da predestinação, mas não como vocês Calvinistas a ensinam. Uma única palavra serve para desatar este nó para nós, “presciência”: a eleição Divina baseia-se na presciência Divina. Deus previu aqueles que se arrependeriam de seus pecados e aceitariam a Cristo como seu Salvador, e, assim, Ele os escolheu para a salvação. Aqui, novamente, méritos humanos são trazidos. A graça não é livre, a tenda é amarrada pela “decisão” da criatura. Tal conceito carnal como esse inverte a ordem da Escritura, que ensina que a presciência Divina é baseada no propósito divino, ou seja, Deus prevê o que ocorrerá porque Ele decretou o que ocorrerá. Observe cuidadosamente a ordem em Atos 2:23 e Romanos 8:28b e 29. Em lugar nenhum o Espírito Santo fala nas Sagradas Escrituras sobre Deus prevendo ou conhecendo de antemão o nosso arrependimento e fé, sempre é a presciência das pessoas e nunca dos atos: “os que dantes conheceu” e não “o que Ele dantes conheceu”.

Mas a Escritura não diz “quem quiser, venha?”. Sim, ela diz, e a pergunta mais importante é, de onde vem a vontade de vir, no caso daqueles que respondem a esse convite? Homens em sua condição natural não estão dispostos: como Cristo declarou: “e não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:40). Qual, então, é a resposta? Esta: “o teu povo [diz o Pai ao Filho, veja o contexto] será mui voluntário no dia do teu poder” (Salmos 110:3). É o poder Divino, isso e nada mais, é o que torna dispostos os indispostos, o que supera toda a sua inimizade e obstinação, que impele ou “chama-os” aos pés do Senhor Jesus. A graça de Deus, meus leitores, é muito mais do que um conceito agradável para cantar, é um poder onipotente, uma dinâmica invencível, um princípio vitorioso sobre toda a resistência. “A minha graça [diz Deus] te basta” (2 Coríntios 10:9); Ele não pede nenhuma assistência de nossa parte. “Mas pela graça de Deus [e não minha cooperação] sou o que sou” 1 (Coríntios 15:10), disse o apóstolo.

A graça Divina fez muito mais do que tornar possível a salvação dos pecadores, ela assegura a salvação dos eleitos de Deus. Ela não somente provê a salvação para eles, ela opera a salvação para eles; e o faz de tal maneira que suas honras não são compartilhadas com a criatura. A doutrina da predestinação derruba este ídolo Dagon do “livre arbítrio” e os méritos humanos, pois nos diz que, se temos de fato resolvido e desejado apegar-nos a Cristo e à salvação por meio dEle, então, esta própria vontade e desejo são os efeitos do propósito eterno de Deus e o resultado do cumprimento eficaz de Sua graça, pois é Deus que opera em nós tanto o querer como o efetuar, segundo a Sua boa vontade; e, portanto, nós nos gloriamos somente no Senhor e atribuímos todo o louvor a Ele. Este escritor não procurou o Senhor, mas odiou, resistiu e esforçou-se para bani-lO de seus pensamentos; mas o Senhor o procurou, o derrubou ao chão (como fez com Saulo de Tarso), subjugou sua vil rebelião e fê-lo voluntário no dia do Seu poder. Isso é graça, de fato — graça soberana, maravilhosa, triunfante.

Em quarto lugar, a doutrina da eleição deve ser anunciada porque rebaixa o homem. Os Arminianos imaginam que eles o fazem, declarando a depravação total da família humana, mas em sua própria próxima declaração eles se contradizem ao insistir na sua capacidade de realizar atos espirituais. O fato é que “depravação total” é apenas uma expressão teológica sobre os lábios deles, a qual repetem como papagaios, pois eles não entendem nem acreditam na terrível implicação deste termo. A queda radicalmente afetou, corrompeu, cada parte e faculdade de nosso ser, e, portanto, se o homem é totalmente depravado segue-se necessariamente que nossas vontades são completamente escravizadas pelo pecado. Como a apostasia humana em relação a Deus resultou no escurecimento de seu entendimento, profanação de suas afeições, endurecimento de seu coração, assim ela trouxe a sua vontade à escravidão completa a Satanás. Ele não pode libertar-se mais do que pode um verme libertar-se estando debaixo do pé de um elefante.

Uma das marcas do povo de Deus é que eles não têm “confiança na carne” (Filipenses 3:3), e nada é tão bem projetado para trazê-los a esse estado como a verdade da eleição. Cale a predestinação Divina e você deve introduzir as obras da criatura, e isso torna a salvação contingente, e, portanto, não é nem por graça, nem pelas obras somente, mas uma mistura nauseante. O homem que pensa que pode ser salvo sem a eleição deve ter alguma confiança na carne, não importa o quão fortemente ele possa negar isso. Enquanto nós somos convencidos que está no poder de nossas próprias vontades o contribuir com algo para a nossa salvação, seja isso alguma vez tão pouco, nós permanecemos em confiança carnal, e, portanto, não somos verdadeiramente humildes diante de Deus. Isto não acontece até que sejamos trazidos para o lugar de auto-desespero, abandono de toda a esperança em nossas próprias habilidades, até que realmente olhemos para fora de nós mesmos buscando por libertação.

Quando a verdade da eleição é Divinamente aplicada aos nossos corações, somos levados a perceber que a salvação advém apenas da vontade de um Deus soberano, que “isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” (Romanos 9:16). Quando nós somos assegurados de um sensível sentimento sobre aquelas palavras de Cristo “sem mim nada podeis fazer” (João 15:5), então o nosso orgulho recebe a sua ferida mortal. Enquanto nós entretemos a ideia louca de que podemos conceder uma mão de ajuda no empreendimento da nossa salvação, não há nenhuma esperança para nós; mas quando percebemos que somos barro nas mãos do Oleiro Divino, para sermos moldados em vasos de honra ou desonra, como Lhe aprouver, então devemos renunciar à nossa própria força, desesperar quanto a qualquer auto-ajuda, e orar, e submissamente esperar pelas operações poderosas de Deus; não oraremos e esperaremos em vão.

Em quinto lugar, a eleição deve ser pregada, porque é um meio Divinamente designado de fé. Um dos primeiros efeitos produzidos em ouvintes sérios de espírito é agitá-los até fervorosamente indagarem: Eu sou um dos eleitos? e a diligentemente examinarem-se diante de Deus. Em muitos casos, isso leva à dolorosa descoberta de que a sua profissão é vazia, descansando em nada melhor do que alguma “decisão” feita por eles anos antes, sob estresse emocional. Nada é mais projetado para revelar uma falsa conversão do um anúncio Bíblico das marcas de nascimento dos eleitos de Deus. Aqueles que são predestinados para a salvação são feitos os sujeitos de uma obra milagrosa de graça em seus corações, e isso é uma coisa muito diferente de um ato da criatura de “decidir por Cristo” ou tornar-se um membro de alguma igreja. Muito mais do que uma fé natural é necessário para unir a alma a um Cristo sobrenatural.

A pregação da eleição atua como um mangual ao separar o trigo do joio. “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Romanos 10:17), e como pode “a fé dos eleitos de Deus” (Tito 1:1) ser gerada e fortalecida, se a verdade da eleição for suprimida? A predestinação Divina não anula o uso de meios, mas garante a continuidade e a eficácia deles. Deus Se comprometeu a honrar aqueles que O honram, e a pregação que traz mais glória ao Senhor é a que Ele mais abençoa. Isso nem sempre é aparente agora, mas será totalmente manifesto no dia vindouro, quando será que muito do que a Cristandade considerou como ouro, prata e pedras preciosas não era nada além de madeira, feno e palha. A salvação e o conhecimento da verdade estão inseparavelmente ligados (1 Timóteo 2:4), mas como os homens podem chegar a um conhecimento salvador da verdade, se a parte mais vital e fundamental for retida deles?

Em sexto lugar, a eleição deve ser pregada, porque incita à santidade. O que pode ser um incentivo mais poderoso à piedade do que um coração que está dominado por um sentimento da soberana e maravilhosa graça de Deus!? A percepção de que Ele estabeleceu Seu coração sobre mim desde toda a eternidade, que Ele me escolheu dentre muitos, quando eu não tinha mais direito sobre Sua atenção do que eles tinham, que Ele me escolheu para ser um objeto de Seu favor distintivo, dando-me a Cristo, escrevendo o meu nome no livro da vida, e em Seu tempo determinado trazendo-me da morte para a vida e dando-me a união vital com o Seu Filho amado; este fato me encherá de gratidão e fará com que eu busque honrar e agradar a Deus. O amor eletivo de Deus por nós gera em nós um amor sem fim por Ele. Nenhuns motivos tão doces ou tão poderosos quanto o amor de Deus nos constrangem.

Em sétimo lugar, a eleição deve ser pregada, porque promove o espírito de louvor. Disse o apóstolo: “Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade” (2 Tessalonicenses 2:13). Como pode ser de outra forma? Gratidão deve culminar em adoração. Um senso da graça eletiva e amor eterno de Deus nos faz bendizer a Ele como nada mais o faz. Cristo elevou especial agradecimento ao Pai por Sua misericórdia distintiva (Mateus 11:25). A gratidão do Cristão flui por causa das operações regeneradoras e santificadoras do Espírito; ela é estimulada de forma revigorada pela obra redentora e intercessora de Cristo; mas deve subir ainda mais alto e contemplar a primeira causa, a graça soberana do Pai, que planejou toda a nossa salvação. Como, então, a eleição é a grande questão de ação de graças a Deus, ela deve ser pregada livremente ao Seu povo.

O valor desta bendita doutrina aparece em sua adequação e suficiência para estabilizar e estabelecer os verdadeiros Cristãos na certeza da sua salvação. Quando as almas regeneradas são habilitadas a crer que a glorificação dos eleitos é tão infalivelmente fixa no propósito eterno de Deus de forma que é impossível que qualquer um deles se perca, e quando eles são habilitados a perceber biblicamente que eles próprios pertencem ao povo escolhido de Deus, como isso fortalece e confirma a sua fé. Tal confiança não é presunçosa — embora qualquer outra certamente o seja — pois cada pessoa genuinamente convertida tem o direito de considerar-se como pertencendo àquela companhia favorecida, uma vez que o Espírito Santo não vivifica ninguém, senão aqueles que foram predestinados pelo Pai e redimidos pelo Filho. Esta é uma esperança “que não traz confusão”, pois ela não pode evocar decepção quando entretida por aqueles em cujos corações o amor de Deus é derramado pelo Espírito (Romanos 5:5).

A santa segurança que emana da apreensão crente desta grande verdade é forçosamente estabelecida pelo apóstolo nos versículos finais de Romanos 8. Ali ele nos assegura: “E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou” (v. 30). Tal princípio garante tal fim: a salvação que se originou desde uma eternidade passada deve ser consumada em uma eternidade futura. A partir de tais grandes premissas, Paulo evocou a bendita conclusão: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (v. 31). E, novamente: “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica” (v. 33). E mais uma vez: “Quem nos separará do amor de Cristo?” (v. 35). Se esse precioso córrego emana dessa fonte, então quão grande é a loucura e quão hediondo o pecado daqueles que desejam vê-lo barrado. A segurança eterna das ovelhas de Cristo não pode ser apresentada em toda a sua força, até que ela se baseie no decreto Divino.

Quão inclinado é o crente tremente a duvidar de sua perseverança final, pois ovelhas (tanto naturais e espirituais) são criaturas tímidas e auto-desconfiadas. Não são assim os bodes selvagens e rebeldes, equivalente ao seu tipo, eles são cheios de confiança e jactância carnal. Mas o crente tem um senso de sua própria fraqueza, tal visão de sua pecaminosidade, tal percepção da sua inconstância e instabilidade, que ele literalmente opera a sua própria salvação com “temor e tremor”. Além disso, como ele vê tantos que corriam bem não mais o fazendo, tantos que fizeram tal boa e promissora profissão, fazendo naufrágio da fé, a própria visão da apostasia deles o leva a questionar seriamente sua própria condição e fim último. É para estabilizar seu coração que Deus revelou em Sua Palavra que aqueles que são capacitados a ver em si mesmos as marcas da eleição podem se regozijar na certeza da sua bem-aventurança eterna.

Apontemos também que efeito estabilizador a apreensão desta grande verdade tem sobre o verdadeiro servo de Deus. Quanto há para desanimá-lo, o pequeno número daqueles que frequentam o seu ministério, e a oposição feita àquelas partes da verdade que mais exaltam Deus e humilham o homem, a escassez de quaisquer frutos visíveis que frequentam os seus trabalhos, a acusação apresentada por alguns dos seus oficiais ou amigos mais próximos, de forma que se ele continua ao longo dessas linhas, ele não terá absolutamente ninguém deixado a quem pregar, os sussurros de Satanás, que o próprio Deus está desaprovando tais esforços, que ele é um fracasso patente e que é melhor parar; estas e outras considerações têm uma poderosa tendência a enchê-lo de desânimo ou de tentá-lo a cortar suas velas e flutuar ao longo da onda do sentimento popular. Nós sabemos o que escrevemos, porque temos pessoalmente trilhado este caminho espinhoso.

Ah, mas Deus tem graciosamente fornecido um antídoto para o veneno de Satanás, e um eficaz tônico para reavivar os espíritos caídos de Seus servos atribulados. O que é isso? O conhecimento de que seu Mestre não os enviou para desenhar uma curva ao acaso, mas sim para serem instrumentos em Sua mão, para realizar Seu decreto eterno. Embora Ele lhes ordenou pregar o Evangelho a todos os que frequentam o seu ministério, contudo Ele também deixou claro em Sua Palavra que não é o Seu propósito que todos, ou mesmo que muitos sejam salvos por isso. Ele já fez conhecido que o Seu rebanho é um rebanho (em Grego) “muito pequeno” (Lucas 12:32), que há apenas “um remanescente segundo a eleição da graça” (Romanos 11:5), que “muitos” encontrariam o caminho espaçoso que conduz à perdição, e que apenas “poucos” andariam pelo caminho estreito que conduz à vida.

É para chamar esse remanescente escolhido para fora do mundo e para a alimentação e estabelecimento deles que Deus principalmente emprega Seus servos. É a devida apreensão e crença pessoal disso que tranquiliza e estabiliza o coração do ministro como nada mais o fará. Enquanto ele repousa sobre a soberania de Deus, a eficácia dos Seus decretos, a certeza absoluta de que os conselhos de Deus serão plenamente realizados, então ele está certo de que tudo o que Deus o enviou a fazer deve ser feito, que nem homem nem diabo podem impedi-lo. Mesmo consternado com a ruína à sua volta, humilhado por seus próprios tristes fracassos, contudo ele percebe que o desenrolar do plano Divino é infalivelmente assegurado. Aqueles a quem o Pai ordenou, crerão (Atos 13:48), aqueles por quem o Filho morreu serão salvos (João 10:16), aqueles a quem o Espírito vivifica serão efetivamente preservados (Filipenses 1:6).

Quando o ministro recebe uma mensagem para entregar em nome de seu Mestre, ele pode descansar com confiança inabalável na promessa: “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará [não “poderá”] para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” (Isaías 55:11). Ela pode não efetuar que o pregador deseja, nem prosperar na medida em que os santos desejam, mas nenhum poder na terra ou no inferno pode impedir o cumprimento da vontade de Deus. Se Deus traçou uma determinada pessoa a ser levada a um conhecimento salvador da verdade sob um sermão em particular, então não importa o quão enterrada no pecado aquela alma esteja, nem quão duramente ela poderá recalcitrar contra os aguilhões da consciência, ela deve (como Paulo, no passado) ser levada a clamar: “Senhor, que queres que eu faça?” [Atos 9:6]. Aqui, então, há um lugar de repouso seguro para o coração do ministro. Este era o lugar onde Cristo encontrou consolo, pois, quando a nação em geral O desprezou e rejeitou, Ele consolou-se com o fato de que: “Todo o que o Pai me dá virá a mim” (João 6:37).

O valor desta doutrina aparece novamente em que ela provê o incentivo real para almas orantes. Nada promove tanto o espírito de santa ousadia ao trono da graça, como a percepção de que Deus é o nosso Deus e que nós somos o povo de Sua escolha. Eles são Seu tesouro peculiar, a própria menina dos Seus olhos, e eles acima de todas as pessoas têm a Sua escuta. “E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite?” (Lucas 18:7). Seguramente Ele o fará, pois eles são os únicos que suplicam a Ele em mansidão, apresentando seus pedidos em sujeição à Sua vontade soberana. Ó, meus leitores, quando estamos de joelhos, como este fato de que Deus colocou Seu coração sobre nós desde a eternidade deve inspirar fervor e fé. Uma vez que Deus escolheu nos amar, Ele pode se recusar a nos ouvir? Então, tomemos coragem a partir de nossa predestinação para fazer súplica mais fervorosa.

“‘Sabei, pois, que o Senhor separou para si aquele que é piedoso. Senhor ouvirá quando eu clamar a ele’ (Salmos 4:3). Mas saiba, tolos não aprenderão e, portanto, eles devem ser uma e outra vez informados sobre a mesma coisa, especialmente quando se é uma verdade tão amarga que deve ser ensinada a eles, a saber: o fato de que os piedosos são os escolhidos de Deus, e são, por graça distintiva, apartados e separados dentre outros homens. A eleição é uma doutrina que o homem não-regenerado não pode suportar, todavia, mesmo assim, é uma verdade gloriosa e bem atestada, e que deve confortar o crente tentado. A eleição é a garantia da salvação completa, e um argumento para o sucesso diante do trono da graça. Aquele que nos escolheu para Si mesmo, certamente ouvirá as nossas orações. O eleito do Senhor não será condenado, nem o seu clamor deixará de ser ouvido. Davi foi rei por decreto Divino, e nós somos o povo do Senhor, da mesma maneira; vamos dizer aos nossos inimigos em seus rostos que eles lutam contra Deus e o destino, quando eles se esforçam para abater nossas almas” (C. H. Spurgeon).

Não apenas o conhecimento da verdade da eleição concede encorajamento para almas orantes, mas ela fornece instruções e orientações importantes nisso. Nossas petições devem sempre ser enquadradas em harmonia com a verdade Divina. Se cremos na doutrina da predestinação, nós devemos orar em conforme. A linguagem que usamos deve estar de acordo com o fato de que acreditamos que há uma companhia de pessoas escolhidas em Cristo antes da fundação do mundo, e foi por eles, e por eles somente, que Ele sofreu e morreu. Se acreditamos na redenção particular (e não em uma expiação universal) devemos implorar ao Senhor Jesus para ter consideração aos tais que Ele comprou por meio das dores de Sua alma. Este será um meio de manter corretas apreensões em nossas próprias mentes, como também será o estabelecimento de um bom exemplo nesta questão diante de outros.

Nos dias de hoje há muitas expressões deploráveis utilizadas em oração, que são totalmente injustificáveis, sim, que são completamente opostas à vontade ou Palavra do Senhor. Quantas vezes o púlpito moderno pede a salvação de todos os presentes, e o chefe de família pede que nenhum na família perca a glória eterna. Qual é o propósito disso? Direcionaremos o Senhor, a quem Ele salvará? Não sejamos mal interpretados: não somos contra que o pregador ore por sua congregação, nem que o pai ore pela salvação de sua família; aquilo a que nós nos opomos é aquela oração que está em oposição direta à verdade do Evangelho. A oração deve ser subordinada aos decretos Divinos, caso contrário, somos culpados de rebelião. Ao orarmos pela salvação dos outros, devemos sempre estar com a ressalva “se eles são Teus eleitos” ou “se for da Tua soberana vontade”, ou alguma qualificação similar.

O Senhor Jesus nos deixou um exemplo perfeito nisto, como em todo o mais. Em Sua grandiosa oração sacerdotal, registrada em João 17, O encontramos dizendo: “Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus” (v. 9). Nosso Senhor sabia de toda a boa vontade e prazer de Seu Pai para com os eleitos. Ele sabia que o ato da eleição foi um ato soberano e irreversível em Sua mente. Ele sabia que Ele mesmo não poderia adicionar alguém ao número dos escolhidos. Ele sabia que Ele foi enviado pelo Pai para viver e morrer pelos eleitos, e por eles somente. E, em perfeito acordo com isso, Ele declarou: “Eu rogo por eles; eu não rogo pelo mundo”. Se, então, Cristo deixou de fora o mundo, se Ele não orou pelos não-eleitos, nem nós deveríamos. Devemos aprender dEle e seguir Seus passos e, em vez de nos ressentirmos, estejamos bem satisfeitos com toda a boa vontade da soberana vontade de Deus.

Ser submisso à vontade Divina é a lição mais difícil de todas para aprender. Por natureza, somos obstinados e tudo o que nos contraria é ressentido. O perturbador dos nossos planos, o que frustra as nossas esperanças acarinhadas, o que esmaga os nossos ídolos, atiçam a inimizade da carne. Um milagre da graça é necessário, a fim de trazer-nos à aquiescência de Deus lidar conosco, de forma que possamos dizer de coração: “Ele é o Senhor; faça o que bem parecer aos seus olhos” (1 Samuel 3:18). E, ao operar esse milagre, Deus usa meios. Ele imprime em nossos corações, um sentido efetivo de Sua soberania, de modo que somos levados a perceber que Ele tem o total direito de fazer o que quiser com Suas criaturas. E nenhuma outra verdade tem tal poderosa tendência para nos ensinar esta lição vital como tem a doutrina da eleição. Um conhecimento salvífico do fato de que Deus nos escolheu para a salvação gera dentro de nós uma disposição para que Ele ordene todas as nossas ações, até que clamemos: “não a minha vontade, mas a Tua”.

Ora, em vista de todas essas considerações, perguntamos ao leitor, não deveria a doutrina da eleição ser clara e livremente anunciada? Se a Palavra de Deus é repleta dela, se o Evangelho não pode ser biblicamente pregado sem ela, se a graça de Deus não pode ser mantida quando ela é suprimida, se o anúncio dela humilha o homem ao pó, se ela é um meio divinamente designado de fé, se ela é um poderoso incentivo à promoção da santidade, se ela incita na alma o espírito de louvor, se ela confirma o Cristão na certeza de sua segurança, se ela é uma tal fonte de estabilidade para o servo de Deus, se ela fornece encorajamento para almas orantes e fornece valiosas instruções na oração, se ela opera em nós uma doce submissão à vontade Divina; então devemos nos recusar a dar aos filhos de Deus este pão valioso apenas porque os cães o abocanham? Ou reteremos das ovelhas este ingrediente vital de sua alimentação simplesmente porque os bodes não o conseguem digerir?

E agora, para concluir, algumas palavras sobre como essa doutrina deve ser anunciada.

Primeiro, ela deve ser apresentada com uma doutrina básica. Esta não é uma verdade incidental ou secundária, mas de uma importância fundamental e, portanto, não deve ser empurrada para um canto, nem falada com respiração suspensa. A predestinação está na própria base de todo o esquema da graça Divina. Isso fica claro a partir de Romanos 8:30, onde é ela é mencionada antes do chamado eficaz, justificação e glorificação. Ela é clara, novamente, a partir da ordem que se segue em Efésios 1, em que a eleição (v. 4) precede a adoção, a nossa aceitação no Amado, e nossa obtenção da redenção, pelo Seu sangue (vv. 5-7). O ministro deve, portanto, deixar claro aos seus ouvintes que Deus primeiro escolheu um povo para ser o Seu tesouro peculiar, em seguida, enviou o Seu Filho para redimi-los da maldição da lei violada, e agora concede o Espírito para vivifica-los e trazê-los para a glória eterna.

Em segundo lugar, ela deve ser pregada destemidamente. Os servos de Deus não devem ser intimidados pelas carrancas dos homens, nem impedidos de realizar o seu dever por qualquer forma de oposição. O ministro do Evangelho é chamado a sofrer “as aflições, como bom soldado de Jesus Cristo” (2 Timóteo 2:3), e os soldados que temem o inimigo ou fogem não são de nenhuma utilidade para o seu rei. O mesmo é valido para aqueles que são oficiais do Rei dos reis. Quão destemido foi o apóstolo Paulo! Quão valentes pela verdade foram Lutero e Calvino, e os milhares de pessoas que foram queimadas na fogueira por causa de sua adesão a esta doutrina. Então, que aqueles a quem Cristo chamou para pregar o Evangelho não permitam esconder esta verdade por causa do temor do homem, pois o Mestre claramente avisou: “Porquanto, qualquer que, entre esta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai, com os santos anjos” (Marcos 8:38).

Em terceiro lugar, ela deve ser pregada humildemente. Destemor não requer que sejamos bombásticos. A santa Palavra de Deus deve sempre ser tratada com reverência e sobriedade. Quando o ministro está diante de seu povo, eles deveriam sentir, pelo seu comportamento, que ele veio até eles da câmara de audiência do Altíssimo, de forma que o temor do Senhor repousa sobre sua alma. Pregar sobre a soberania de Deus, sobre Seus conselhos eternos, sobre Sua escolha de uns e não de outros, é uma questão muito solene para ser anunciada no poder da carne. Existe um feliz meio termo entre uma atitude servil, apologética, e o adotar o estilo de um político tirano. A seriedade não deve se degenerar em vulgaridade. É em “mansidão” que devemos instruir aqueles que se opõem, “a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade” (2 Timóteo 2:25).

Em quarto lugar, ela deve ser pregada proporcionalmente. Embora o fundamento seja de primeira importância, é de pouco valor, a menos que uma superestrutura seja erguida sobre ele. O anúncio da eleição deve abrir caminho para as outras verdades cardeais do Evangelho. Se qualquer doutrina for pregada exclusivamente, é distorcida. Há um equilíbrio a ser preservado em nossa apresentação da verdade; enquanto nenhuma parte dela deve ser suprimida, nenhuma parte dela deve receber indevidamente a proeminência. É um grande erro tocar harpa usando somente uma corda. A responsabilidade do homem deve ser aplicada, bem como a soberania de Deus insistida. Se por um lado o ministro não deve se intimidar com os Arminianos, por outro, ele não deve ser amedrontado por hiper-Calvinistas, que se opõem ao chamado aos não-convertidos a se arrependerem e crerem no Evangelho (Marcos 1:15).

Em quinto lugar, ela deve ser pregada experimentalmente. Isto é como os apóstolos lidaram com ela, como fica claro em “procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição” (2 Pedro 1:10). Mas como isso pode ser feito a não ser que nós ensinemos a doutrina da eleição, instruindo quanto à sua natureza e uso? A verdade da eleição pode ser um pequeno consolo para qualquer homem, até que ele tenha uma garantia bem fundamentada de que ele seja um dos eleitos de Deus; e isso só é possível pela verificação de que ele possui (em alguma medida) as marcas Bíblicas das ovelhas de Cristo. Como já lidamos com este aspecto de nosso assunto durante algum tempo, não diremos mais nada. Que agrade ao Senhor usar estas palavras para a Sua própria glória e para a bênção de Seus queridos santos.

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♦ Traduzido do original em Inglês: The Doctrine of Election By A. W. Pink • A presente tradução consiste somente no Capítulo 12 Its Publication da obra supracitada.
♦ Via: PBMinistries.org (Providence Baptist Ministries)
♦ Tradução por Camila Almeida • Revisão por William Teixeira
♦ Salvo indicação em contrário, as citações bíblicas usadas nesta tradução são da versão Almeida Corrigida Fiel | ACF • Copyright © 1994, 1995, 2007, 2011 Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil. 

♦ Traduzido e publicado em Português pelo website oEstandarteDeCristo.com, com a devida permissão do ministério Providence Baptist Ministries, sob a licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International Public License • Você está autorizado e incentivado a reproduzir e/ou distribuir este material em qualquer formato, desde que informe o autor, as fontes originais e o tradutor, e que também não altere o seu conteúdo nem o utilize para quaisquer fins comerciais.


Declaração de Fé e Prática da Igreja de Cristo, Uma Confissão por John Gill

Declaração de Fé e Prática da Igreja de Cristo em Carter-Lane, Southwark, sob os cuidados Pastorais do Dr. John Gill, para ser lida e consentida, na ocasião da admissão de membros.

Depois de ter sido habilitado, pela graça Divina, a dar-nos a nós mesmos ao Senhor, e também uns aos outros, pela vontade de Deus, este dever recai sobre nós, a saber, fazer uma declaração de nossa fé e prática, para a honra de Cristo, e a glória de Seu nome; sabendo que, com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação (Romanos 10:10). Nossa declaração possui o seguinte teor:

I. Cremos, que as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento (2 Timóteo 3 15-17; 2 Pedro 1:21), são a Palavra de Deus, e a única (João 5:39; Atos 17:11; 2 Pedro 1:19-20) regra de fé e prática.

II. Cremos, que há apenas um (Deuteronômio 6:4; 1 Coríntios 8:6; 1 Timóteo 2:5; Jeremias 10:10) único Deus vivo e verdadeiro: que há (1 João 5:7; Mateus 28:19) três pessoas na Divindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que são iguais em natureza, poder e glória; e que o Filho (João 10:30; Filipenses 2:6; Romanos 9:5; 1 João 5:20) e o Espírito Santo (Atos 5:3-4; 1 Coríntios 3:16-17; 2 Coríntios 3:17-18) são tão verdadeira e propriamente Deus como o Pai. Estas três pessoas Divinas são distinguidas uma da outra por propriedades relativas e peculiares: o caráter distintivo e propriedade relativa da primeira pessoa é gerar, Ela gerou um Filho de Sua mesma natureza, o qual é a imagem expressa de Sua pessoa (Salmos 2:7; Hebreus 1:3); e, portanto, é com grande propriedade chamado de Pai. O caráter distintivo e propriedade relativa da segunda pessoa é que Ele é gerado, e é chamado de o unigênito do Pai, e adequadamente Seu próprio Filho (João 1:14; Romanos 8:3, 32); não um filho por criação, como os anjos e os homens o são, nem por adoção, como santos o são, nem por ofício, como os magistrados civis, mas por natureza, por meio da geração eterna do Pai (Salmos 2:7) de Sua natureza Divina, e, portanto, Ele é verdadeiramente chamado o Filho. O caráter distintivo e propriedade relativa da terceira pessoa se dá por Ele ser soprado pelo Pai e pelo Filho, e proceder de ambos (Jó 33:4; Salmos 33:6; João 15:26, 20:26, 20:22; Gálatas 4:6), e é muito adequadamente chamado de Espírito, ou sopro de ambos. Estas três pessoas Divinas distintas, nós professamos reverenciar, servir e adorar como o único Deus verdadeiro (1 João 5:7; Mateus 4:10).

III. Cremos que, antes da fundação do mundo Deus elegeu (Efésios 1:4; 1 Tessalonicenses 1:4, 5:9; 2 Tessalonicenses 2:13; Romanos 8:30; Efésios 1:5; 1 João 3:1; Gálatas 4:4-5; João 1:12) um certo número de homens para a salvação eterna, aos quais predestinou para filhos de adoção por meio de Jesus Cristo, a partir de Sua própria livre graça, e de acordo com o beneplácito da Sua vontade; e que nos termos do presente desígnio gracioso, Ele planejou e fez um pacto (2 Samuel 23:5; Salmos 89:2, 28, 34; Isaías 42:6) de graça e paz com Seu filho Jesus Cristo, como representante de outras pessoas; para as quais um Salvador (Salmo 89:19; Isaías 49:6) foi nomeado, e todas as bênçãos (2 Samuel 23:5; Isaías 55:3; Efésios 1:3) espirituais lhes foram dadas; como também suas (Deuteronômio 33:3; João 6:37, 39 e 10:28-29; Judas 1) pessoas, com toda sua graça (2 Tim 1:9; Efésios 1:3; Colossenses 3:3-4) e glória, foram colocados nas mãos de Cristo, e Lhe foram dadas para Seu cuidado e custódia.

IV. Cremos, que Deus criou o primeiro homem, Adão, à Sua imagem, e à Sua semelhança, uma criatura justa, santa e inocente, capaz de servir e glorificá-lO (Gênesis 1:26-27; Eclesiastes 7:29; Salmos 8:5), mas ele pecou, e toda a sua posteridade pecou nele, e, desde então, todos os homens nascem destituídos da glória de Deus (Romanos 5:12, 3:23), a culpa do pecado de Adão é imputada; (Romanos 5:12, 14, 18, 19; 1 Coríntios 15:22; Efésios 2:3) e uma natureza corrupta é herdada por todos os seus descendentes que procedem dele por geração ordinária e natural (Jó 14:4; Salmos 51:5; João 3:6; Ezequiel 16:4-6); de modo que eles são, em virtude de seu primeiro, carnal e impuro nascimento; adversos a tudo o que é bom, incapazes de fazer qualquer bem, e propensos a todo (Romanos 8:7-8, 3:10-12; Gênesis 6:5) pecado; e também são por natureza filhos da ira, estando debaixo de uma sentença de condenação (Efésios 2:3; Romanos 5:12, 18) e por isso estão sujeitos, não só à morte corporal (Gênesis 2:7; Romanos 5:12, 14; Hebreus 9:27), e envolvidos em uma morte moral, comumente chamada espiritual (Mateus 8:21; Lucas 15:24, 32; João 5:25; Efésios 3:1), mas também são susceptíveis a uma morte eterna (Romanos 5:18, 6:23; Efésios 2:3) como considerados estando no primeiro Adão, caídos e pecadores; de todas estas coisas não há como se livrar, senão por Cristo, o segundo Adão (Romanos 6:23, 7:24-25, 8:2; 2 Timóteo 1:10; 1 Coríntios 15:45, 47).

V. Cremos que o Senhor Jesus Cristo, foi nomeado desde a eternidade (Provérbios 8:22-23; 12:24 Hebreus) como o Mediador do pacto, e que Ele se comprometeu a ser o (Salmos 49:6-8; Hebreus 7:22) Fiador de Seu povo, e se fez em tudo (Hebreus 2:14, 16, 17) de natureza humana, e não menos que isso no todo ou em parte; Sua alma humana sendo uma criatura, não existia desde a eternidade, mas foi criada e formada em Seu corpo por Aquele que forma o espírito do homem dentro dele, quando este foi concebido no ventre da virgem; e assim, pois, Sua natureza humana consiste em um verdadeiro corpo e uma alma racional, tanto que, juntos e ao mesmo tempo o Filho de Deus assumiu a união com Sua pessoa Divina, quando nasceu de uma mulher, e não antes; em cuja natureza Ele realmente sofreu e morreu (Romanos 4:25; 1 Coríntios 15:3; Efésios 5:2; 1 Pedro 3:18) como o substituto de Seu povo, em seu lugar, para seu benefício; pelo que Ele fez completa satisfação (Romanos 8:3-4, 10:4; Isaías 42:21; Romanos 8:1, 33, 34) pelos pecados de Seu povo, segundo a lei e a justiça de Deus exigiam; bem como abriu caminho para todas aquelas bênçãos (1 Coríntios 1:30; Efésios 1:7) que são necessárias para eles, tanto para o tempo como para a eternidade.

VI. Cremos, que a redenção eterna que Cristo obteve pelo derramamento do Seu sangue (Mateus 20:28; João 10:11, 15; Apocalipse 5:9; Romanos 8:30) é especial e particular, isto é, que só foi projetada intencionalmente para os eleitos de Deus, e as ovelhas de Cristo, pois somente estes compartilham as bênçãos especiais e peculiares da mesma.

VII. Cremos, que a justificação dos eleitos de Deus, se dá somente pela justiça (Romanos 3:28, 4:6, 5:16-19) de Cristo imputada a eles, sem a consideração de quaisquer obras de justiça feitas por eles; e que o perdão total e livre de todos os seus pecados e transgressões passadas, presentes e futuras, acontece somente através do sangue de Cristo (Romanos 3:25; Efésios 1:7; Colossenses 2:13; 1 João 1:7, 9), segundo as riquezas da Sua graça.

VIII. Cremos, que a obra de regeneração, conversão, santificação e fé, não é um ato do (João 1:13; Romanos 9:16 e 8:7) livre-arbítrio e poder do homem, mas da onipotente, eficaz e irresistível graça (Filipenses 2:13; 2 Timóteo 1:9; Tiago 1:18; 1 Pedro 1:3; Efésios 1:19; Isaías 43:13) de Deus.

IX. Cremos que todos aqueles que são escolhidos pelo Pai, redimidos pelo Filho, e santificados pelo Espírito, irão, certa e finalmente, (Mateus 24:24; João 6:39-40, 10:28-29; Mateus 16:18; Salmos 125:1-2; 1 Pedro 1:5; Judas 24; Hebreus 2:13; Romanos 8:30) perseverar; de modo que nenhum deles jamais perecerá, mas terá a vida eterna.

X. Cremos, que haverá uma ressurreição dos mortos (Atos 24:15; João 5:28-29; Daniel 12:2), tanto de justos e de injustos; e que Cristo virá uma segunda vez para julgar (Hebreus 9:28; Atos 17:31; 2 Timóteo 4:1; 2 Tessalonicenses 1:7-10; 1 Tessalonicenses 4:15-17), ambos vivos e mortos; quando, então, Ele tomará vingança contra os ímpios, e introduzirá o Seu próprio povo, em Seu reino e glória, onde estarão para sempre com Ele.

XI. Cremos, que o batismo (Mateus 28:19-20; 1 Coríntios 11:23-26) e a Ceia do Senhor são ordenanças de Cristo, que devem ser continuadas até Sua segunda vinda; e que o primeiro é absolutamente necessário para participar deste último; isto é, alguém só (Atos 2:41 e 9:18, 26) deve ser admitido na comunhão da Igreja, e na participação de todas as ordenan-ças na mesma, (Marcos 16:16; Atos 8:12, 36, 37, 16:31-34, 8:8) sobre sua profissão de sua fé, tendo sido batizados (Mateus 3:6, 16; João 3:23; Atos 8:38-39; Romanos 6:4; Colossenses 2:12) por imersão, em nome do Pai, (Mateus 28:19), e do Filho, e do Espírito Santo.

XII. Cremos também, que o cantar de salmos, hinos e cânticos espirituais vocalmente (Mateus 26:30; Atos 16:25; 1 Coríntios 14:15, 26; Efésios 5:19; Colossenses 3:16) é uma ordenança do Evangelho, a ser realizada pelos crentes; mas que, quanto ao tempo, lugar e maneira, cada um deve ser deixado à (Tiago 5:13) sua liberdade para praticá-la.

Agora em relação a todas e cada uma dessas doutrinas e preceitos, olhamos para nós mesmos sob a maior obrigação de abraçar, manter e defender; acreditando ser nosso dever (Filipenses 1:27; Judas 3) manter-nos firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé do Evangelho.

E quanto ao que estamos muito sensíveis, que a nossa conversa, tanto no mundo e na Igreja, deveria ser como convém ao Evangelho de Cristo (Filipenses 1:27); julgamos ser nosso dever incumbente, (Colossenses 4:5) andar em sabedoria para com os que estão de fora, exercitar uma consciência (Atos 24:16) sem ofensa para com Deus e os homens, ao vivermos (Tito 2:12) sóbria, justa e piedosamente neste mundo.

E, em nossa relação de uns para com os outros, na comunhão de nossa igreja; estimamos que nosso dever (Efésios 4:1-3; Romanos 12:9, 10, 16; Filipenses 2:2-3) é andar uns com os outros com toda a humildade e amor fraternal; cuidar (Levítico 19:17; Filipenses 2:4) das conversas de uns para com os outros; incentivar um ao outro ao amor e às boas obras (Hebreus 10:24-25); não deixando de nos congregar, enquanto temos oportunidade, adorar a Deus segundo a Sua vontade revelada; e, quando o caso requerer, advertir (1 Tessalonicenses 5:14; Romanos 15:14; Levítico 19:17; Mateus 18:15-17), repreender e admoestar uns aos outros, de acordo com as regras do Evangelho.

Além disso, pensamos nos comprometer (Romanos 12:15; 1 Coríntios 12:26) a nos simpatizarmos uns com os outros, em todas as condições, tanto interiores e exteriores, as quais Deus, em Sua providência, possa nos conduzir; como (Romanos 15:1; Efésios 4:12; Colossenses 3:13) suportar as fraquezas, quedas e debilidades uns dos outros, (Efésios 6:18-19; 2 Tessalonicenses 3:1), e que o Evangelho, e as suas ordenanças, possam ser abençoados para a edificação e o consolo de cada um das outras almas, e para o ajuntamento de outras pessoas a Cristo, além daqueles que já estão reunidos.

Nós desejamos ser encontrados no desempenho de todos estes deveres, por meio da ajuda da graça do Espírito Santo, enquanto nós tanto admiramos e adoramos a graça, que nos deu um lugar e um nome na casa de Deus, melhor do que o de filhos e de filhas (Isaías 56:5).

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♦ Traduzido do original em Inglês: Declaration of The Faith and Practice of the Church of Christ, in Carter-Lane, Southwark, under the Pastoral Care of Dr. John Gill, Read and assented to, at the Admission of Members.
♦ Via: ReformedReader.org
♦ Tradução por William • Revisão por Camila Almeida

♦ Salvo indicação em contrário, as citações bíblicas usadas nesta tradução são da versão Almeida Corrigida Fiel | ACF • Copyright © 1994, 1995, 2007, 2011 Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

♦ Traduzido e publicado em Português pelo website oEstandarteDeCristo.com, usado com a permissão do site ReformedReader.org, sob a licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International Public License • Você está autorizado e incentivado a reproduzir e/ou distribuir este material em qualquer formato, desde que informe o autor, as fontes originais e o tradutor, e que também não altere o seu conteúdo nem o utilize para quaisquer fins comerciais.


Contra o Arminianismo e Seu Ídolo Dourado, o Livre-Arbítrio – Augustus Toplady

Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua benignidade e da tua verdade.” (Salmos 115:1)

Alguns expositores têm suposto que este Salmo foi escrito pelo profeta Daniel; por ocasião da libertação milagrosa de Sadraque, Mesaque e Abednego, quando saíram ilesos da fornalha de fogo ardente, para a qual foram levados segundo a ordem do rei Nabucodonosor.

E, de fato, não há passagens insuficientes, no próprio Salmo, que pareçam apoiar esta conjectura. Como, onde lemos, no quarto versículo (falando sobre os ídolos dos pagãos, e, talvez, com especial referência àquela imagem de ouro que Nabucodonosor ordenou ser adorada): “Os ídolos deles são prata e ouro, obra das mãos dos homens. Têm boca, mas não falam; olhos têm, mas não veem” [vv. 4-5].

Eu ouso dizer que, em tal auditório como este, uma quantidade de Arminianos estão presentes. Eu temo que todas as nossas assembleias públicas têm muitos deles. Talvez, no entanto, mesmo essas pessoas, idólatras como elas são, podem estar aptas a censurar, e, em verdade, com justiça, o absurdo daqueles que adoram ídolos de prata e ouro, obra das mãos dos homens. Mas, permitam-me perguntar: Se assim é tão absurdo adorar a obra das mãos de outros homens, o que deve ser adorar as obras de nossas mãos? Talvez, você possa dizer: “Deus não permita que eu faça isso”. No entanto, permita-me dizer-lhe, que esperança, confiança, fé e dependência para a salvação, são todos atos, e estes também muito solenes, de culto Divino, e sobre o que você depende, no todo ou em parte, para sua aceitação diante de Deus, e para sua justificação diante de Seus olhos, seja o que for, em que você descansa, e confia, para a obtenção de graça ou glória; se for algo menos do que Deus em Cristo, você é um idólatra, quanto a todos os intentos e propósitos.

Muito diferente é a ideia que a Escritura nos dá, sobre o Deus para sempre bendito, em relação àqueles falsos deuses adorados pelos pagãos; e a partir desta representação degradante do verdadeiro Deus, o Arminianismo gostaria de corromper a humanidade. Nosso Deus (diz o Salmo 115, versículo 3) está nos céus; fez tudo o que lhe agradou. Esta não é a ideia Arminiana sobre Deus: pois os nossos defensores do livre-arbítrio e nossos negociadores de mudanças nos dizem que Deus não faz tudo o que Ele quer; que há um grande número de coisas que Deus quer fazer, e busca e se esforça para fazê-las, e ainda assim não consegue efetuá-las; eles nos dizem, como alguém engenhosamente o expressa: Que toda a humanidade, Ele de bom grado salvaria, mas, anseia pelo que Ele não pode ter. Esforça-se assim, para ressoar exteriormente, um Deus desapontado, cambiante.

Como isso é compatível com aquela descrição majestosa: “O nosso Deus está nos céus”? Ele está sentado no trono, pesando e distribuindo o destino dos homens; detendo todos os eventos em Sua própria mão; e dirigindo todos os elos da cada cadeia das causas secundárias, desde o início até o fim dos tempos. O nosso Deus está no céu, possuindo todo o poder; e (o que é a consequência natural disso) Ele fez tudo o que Lhe aprouve; ou como o Apóstolo expressa: (as palavras são diferentes, mas o sentido é o mesmo) “Aquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11).

Por isso é que nós tanto trabalhamos, e sofremos reprovação: mesmo porque dizemos (e o máximo que nós podemos dizer sobre o assunto, eleva-se a não mais do que isso: a saber, que) o nosso Deus está nos céus, e tudo fez como Lhe agradou. E, segundo a Sua própria vontade soberana Ele o fará, até o fim; embora todos os Arminianos sobre a terra procurem derrotar a intenção Divina, e obstruir as rodas do governo Divino. Ele, que está no céu, ri deles com desprezo, e faz ocorrer os Seus próprios propósitos, às vezes, até mesmo através daqueles mesmos meios incidentes, que os homens se esforçam para arremessar em Seu caminho, com uma perspectiva insensata para desapontá-lO de Seus propósitos. “Todos”, diz o Salmista, “são teus servos” (Salmos 119:91). Eles têm, todos, uma tendência direta, seja de forma efetiva ou permissiva, para prosseguir em Seus desígnios inalteráveis ​​da providência e graça. Observe: efetivamente, ou permissivamente. Pois nós nunca dizemos, nem queremos dizer, que Deus é o autor do mal, nós apenas sustentamos, que por razões desconhecidas para nós, mas bem conhecidas para Deus, Ele é o permissor eficaz (não o agente, mas o permissor) de tudo o que acontece. Mas quando falamos sobre o bem, então, nós ampliamos o termo; e afirmarmos, com o Salmista, que todo o auxílio que é feito sobre a terra foi feito pelo próprio Deus.

Lembro-me de uma citação do grande Monsieur Du Moulin, em seu admirável livro, intitulado Anatome Arminianismi. Sua observação é, que os ímpios, não menos que os eleitos, cumprem os sábios e santos e justos decretos de Deus; mas, ele diz, com esta diferença: O próprio povo de Deus, depois de serem convertidos, esforçam-se para obedecer à Sua vontade a partir de um princípio de amor, enquanto os que são deixados na perversidade de seus próprios corações (que é toda a reprovação que disputamos), os quais não se importam com Deus, nem está Deus em todos os seus pensamentos; essas pessoas se assemelham a homens remando em um barco, os quais vão para o mesmo lugar em que eles viram as costas. Eles viram as costas para o decreto de Deus; e ainda assim, voltam para esse mesmo ponto, sem o saber.

Uma grande disputa, entre a religião do Arminianismo e a religião de Cristo, é: quem permanecerá com o direito de louvor e glória pela salvação de um pecador? A conversão decide este ponto de uma vez; pois eu penso que, sem qualquer imputação de falta de caridade, eu arrisco dizer, que cada pessoa realmente despertada, pelo menos quando ela está sob o brilho da face de Deus em sua alma, cairá de joelhos, com este hino de louvor ascendente a partir de seu coração: “Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória: Eu sou salvo, não pela minha justiça, mas por amor da Tua misericórdia e da Tua verdade” [Salmos 115:1].

E isso é verdadeiro mesmo quanto às bênçãos da vida que agora há. É Deus quem exalta um e abate outro (veja Salmos 75:7). A vitória, por exemplo, quando príncipes rivais guerreiam, é toda de Deus. “Não é dos ligeiros a carreira, nem dos fortes a batalha” (Eclesiastes 9:11), como tal. É o decreto, a vontade, o poder e a providência de Deus que efetivamente, embora às vezes de forma invisível, ordena e dispõe todos os eventos.

Na famosa batalha de Azincourt, na França, onde, se não me engano, 80.000 franceses foram totalmente derrotados por cerca de 9.000 Ingleses, sob o comando do nosso imortal rei Henrique V, depois que o grande negócio do momento acabou, e Deus tinha dado àquele renomado príncipe a vitória, ele ordenou que o Salmo anterior (ou seja, o 114), e parte deste Salmo de onde eu li aquela passagem agora considerada, fosse cantado no campo de batalha, como forma de reconhecimento que todo o sucesso, e todas as bênçãos, seja de que tipo for, vem descendo do Pai das luzes. Alguns de nossos historiadores nos contam que, quando o Inglês triunfante veio àquelas palavras que tomei para o meu texto, todo o exército vitorioso caiu de joelhos, como um só homem, no campo da conquista; e clamou, com um só coração e uma só voz: “Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua benignidade e da tua verdade”.

E assim será quando Deus reunir o número dos Seus eleitos, e completamente ajuntá-los na plenitude do Seu reino redimido. Qual você acha que será a sua canção quando você vier para o céu? “Bendito seja Deus, pois Ele me deu o livre-arbítrio; e bendito seja o meu querido eu, que fez um bom uso dele”? Oh não, não. Tal canção como essa ainda nunca foi ouvida no céu, nem nunca será, enquanto Deus for Deus, e o céu for céu. Olhe para o Livro do Apocalipse, e ali você encontrará o serviço dos bem-aventurados, e a força com que eles cantam. Eles lançam as suas coroas diante do trono, dizendo: “Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue nos compraste para Deus de toda a tribo, e língua, e povo, e nação” (Apocalipse 5:9).

Há graça distinguidora para você! “Nos compraste… de toda a tribo” e etc., ou seja, dentre o restante da humanidade. Esta eleição não é particular e a redenção limitada?

A Igreja abaixo pode ser passível de errar, e se qualquer igreja visível na terra finge ser infalível, a própria pretensão muito demonstra que ela não é assim. Mas há uma Igreja, que me arrisco dizer ser infalível. E que Igreja é essa? A Igreja dos glorificados, que brilham como estrelas à mão direita de Deus. E, sobre o testemunho infalível desta Igreja infalível; um depoimento gravado nas infalíveis páginas da inspiração; ouso afirmar, que nem um grão de Arminianismo jamais acompanhou um santo para o céu. Se aqueles do povo de Deus, que estão em laços da iniquidade, não são explicitamente convertidos do Arminianismo, enquanto eles vivem e permanecem entre os homens; ainda assim eles deixam tudo para trás, no Jordão (ou seja, o rio da morte), quando eles passam. Eles podem ser comparados a Paulo, quando ele descia de Jerusalém para Damasco, e a graça de Deus o feriu, ele caiu como um defensor do livre-arbítrio, mas ele se levantou como um defensor da livre graça. Portanto, ainda que o bolor do orgulho farisaico (este é um bolor maldito que o Espírito de Deus retire-o de todas as nossas almas); apesar daquele bolor poder ter aderido a nós no presente; no entanto, quando viermos a estar diante do trono e diante do Cordeiro, tudo isso findará, e cantaremos, em um coro eterno e pleno, com anjos eleitos e os homens eleitos: “Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória”.

E por que não cantaríamos esse cântico agora? Por que não devemos procurar, sob a influência do Espírito, antecipar a linguagem dos céus, e ser tão celestiais quanto pudermos, antes de irmos para o céu? Por que devemos condenar essa canção sobre a terra, a qual nós esperamos cantar para sempre, diante do trono de Deus, acima? É, para mim, realmente surpreendente, que os Protestantes e a Igreja dos homens da Inglaterra, considerados meramente como criaturas racionais, e como pessoas de bom senso, que professam estar familiarizado com as Escrituras, e reconhecem o poder de Deus, tenham objecções quanto a cantar essa canção, “Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua benignidade e da tua verdade”.

Ainda mais assombroso e deplorável é que alguns, que até mesmo fazem profissão de religião espiritual, e falam sobre uma obra interior de Deus em seus corações, até agora percam de vista a humildade e a verdade a ponto de sonharem: ou que o seu próprio braço ajudou o Todo-Poderoso a salvá-los, ou pelo menos que o seu próprio braço seria capaz de tê-lO impedido de salvá-los. O que pode refletir mais profunda desonra a Deus, que tal ideia? E o que pode ter uma tendência mais direta para gerar e nutrir o orgulho do coração, o qual engana os homens?

Aprouve a Deus livrar-me da armadilha Arminiana, antes que eu tivesse dezoito anos. Antes desse período não houve (com a mais baixa auto-humilhação confesso isso) um defensor do livre-arbítrio mais arrogante e violento dentro do limite dos quatro mares. Um exemplo de meu zelo ardente e amargo, ocorre exatamente agora à minha memória. Por volta de 12 meses antes da bondade Divina conceder-me olhos para discernir, e um coração para abraçar a verdade, eu estava discursando um dia, em companhia, (pois julguei-me capaz de lidar com todos os predestinarianos do mundo), sobre a universalidade da graça, e os poderes do livre-arbítrio humano. Um bom velho cavalheiro (agora com Deus) se levantou da cadeira, e vindo a mim, me segurou por um dos meus botões do casaco, enquanto ele suavemente me dirigia estas palavras: “Meu caro senhor, há algumas marcas de espiritualidade em sua conversação; embora machadas com uma mistura infeliz de orgulho e autojustiça. Você tem falado, em grande parte, em favor do livre-arbítrio, mas, a partir de seus argumentos, vamos à experiência. Permita-me fazer uma pergunta. Como foi com você, quando o Senhor o resgatou na chamada eficaz? Você teve qualquer participação na obtenção daquela graça? Não; você não teria resistido e lutado contra isso, se o Espírito de Deus houvesse deixado você na mão de seu próprio conselho?”.

Senti a conclusividade dessas simples, porém convincentes interrogações, mais fortemente do que eu estava, então, disposto a reconhecer. Mas, bendito seja Deus, desde então eu fui capacitado a reconhecer a gratuidade e a onipotência de Sua graça, vezes inumeráveis; e a cantar (o que eu confio será minha canção eterna quando o tempo mais existir): “Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória”.

Nós nunca conhecemos muito sobre o céu em nossas próprias almas, nem permanecemos tão alto sobre o monte da comunhão com Deus, como quando o Seu Espírito, soprando em nosso coração, faz que fiquemos quietos no escabelo da graça soberana, e inspire-nos com este clamor: “Ó Deus, seja meu consolo de salvação, mas seja Teu todo o louvor disso”.

Apliquemos brevemente a regra e compasso da Palavra de Deus, às várias partes das quais a salvação se compõe; e logo perceberemos que todo o edifício é feito de graça, e de graça somente. Você pergunta: em que sentido eu aqui considero a palavra ‘graça’? Quero dizer, por este importante termo, a voluntária, soberana e gratuita bondade de Deus; completamente incondicional e totalmente independentemente de toda e qualquer sombra de dignidade humana, seja antecedente, concomitante ou subsequente. Esta é, precisamente, a noção bíblica de graça, a saber, que ela (ou seja, a salvação em todos os seus ramos) “não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” (Romanos 9:16). E assim é, que a graça reina, para a vida eterna dos pecadores, através da justiça de Jesus Cristo, nosso Senhor (cf. Romanos 5:21).

1. Examinando esta solene verdade, comecemos onde o próprio Deus começou, ou seja, com a eleição. A quem estamos em débito, pela primeira de todas as bênçãos espirituais? O orgulho me diz: “A mim”. A justiça própria diz: “A mim”. A vontade não-convertida do homem diz: “A mim”. Mas a fé se une à Palavra de Deus, dizendo: “Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao Teu nome seja toda a glória, pelo Teu designado amor eletivo: Tu não nos escolheste na suposição de que nós primeiro escolhermos a Ti, mas, por meio da operação vitoriosa do Teu poderoso Espírito, nós escolhemos a Ti como nossa porção e nosso Deus, em consequência da Tua primeira e livre escolha para sermos o Teu povo”.

Ouça o testemunho daquele Apóstolo que recebeu os acabamentos de sua educação espiritual no terceiro céu: “Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça. Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém, é [ou seja, a eleição] pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra” (Romanos 11:5-6).

Esquadrinhemos esse raciocínio; e o encontraremos invencível. Há “um remanescente”, ou seja, alguns da humanidade caída, que serão eternamente salvos por Cristo. Este remanescente é “segundo a eleição”. A própria vontade e escolha de Deus são a regra determinada, pelo que o remanescente salvo é medido e numerada. Esta eleição é uma “eleição da graça”, ou um ato livre, soberano e imerecido da parte de Deus. O Apóstolo não quis deixar de fora a palavra graça, para que as pessoas não imaginassem que Deus os elegeu em consideração de algo que Ele viu neles acima dos outros.

“Bem, mas” (alguns podem dizer) “admitindo que a eleição seja pela graça, as nossas boas obras previstas não têm um pouco de participação na questão? Deus não teria alguma pequena recompensa em relação ao nosso bom futuro comportamento?”, “Não”, responde o Apóstolo, “de modo nenhum”. Se a eleição é por “graça”, ou seja, a partir de mera misericórdia e amor soberano; então não é mais por “obras”, direta ou indiretamente, no todo ou em parte; “de outra maneira, a graça já não é graça”. Se alguma coisa humana, mesmo que pequena, fosse misturada com a graça, como um motivo para que Deus mostre favor a Pedro (por exemplo) acima de Judas; a graça evaporaria completamente e seria aniquilada, a partir daquele momento. Pois, como Agostinho observa: A graça deixa de ser graça, a menos que ela seja total e absolutamente independente de qualquer coisa e de tudo, seja bom ou ruim, no objeto da mesma.

De modo que, como o Apóstolo acrescenta, se fosse possível a eleição ser “pelas obras”, então “já não é mais” um ato de “graça”, mas um pagamento, em vez de um dom: “de outra maneira a obra já não é obra”. Por um lado, a “obra” deixa de ser considerada como influente na eleição, se a eleição é a filha da “graça”; por outro lado, a “graça” não tem nenhuma relação na eleição, se as “obras” têm alguma participação nela. Graça e condicionalidade são dois opostos incompatíveis; um totalmente destrói o outro; e não mais podem subsistir juntos, do que duas partículas de matéria podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.

Qual, portanto, dessas canções contrárias, vocês cantam (pois toda a arte e esforço dos homens, unidos, nunca poderiam unir as duas canções em uma)? Vocês são a favor de queimar incenso a vocês mesmos, dizendo: “Nossa justiça, e o poder de nosso próprio braço, nos obtiveram essa riqueza espiritual”? Ou, com os anjos e santos na luz, vocês depositam as suas mais brilhantes honras no estrado do trono de Deus: “Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua benignidade e da tua verdade” (Salmos 115:1).

Certamente, a eleição não é o ato do homem, mas de Deus: fundamentado, apenas, no soberano e gracioso deleite de Sua própria vontade. Ela “não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:9); mas unicamente dEle, Quem disse: “Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Romanos 9:15). Deus tem mérito sobre nós, não nós sobre Ele: e foi o Seu livre-arbítrio, não o nosso, que desenhou a linha intransponível entre os eleitos e predestinados.

2. A aliança do amor de Deus por nós em Cristo é um outro ribeiro, que flui a partir da fonte da graça sem mistura. E aqui, como no exemplo anterior, cada pessoa verdadeiramente despertada se isenta de qualquer título de louvor; lança isso para longe de si mesmo, com as duas mãos; e não apenas com as mãos, mas com o coração também; enquanto seus lábios reconhecem, “Não a nós, ó Tu, Divino e Coeterno Trino, não a nós, mas ao Teu nome dá glória!”.

Como é possível, que ou os propósitos de Deus, ou Sua aliança a nosso respeito, sejam, em qualquer aspecto, suspensos pela vontade ou pelas obras dos homens; considerando que tanto os Seus propósitos e Sua aliança foram estabelecidos, e fixados, e acordados, pelas Pessoas da Trindade, não só antes que os homens existissem, mas antes que os próprios anjos fossem criados, ou do próprio tempo ter iniciado? Tudo era vasta eternidade, quando a graça nos foi dada, federalmente, em Cristo, antes que o mundo existisse (veja 2 Timóteo 1:9). Portanto, bem pode o Apóstolo, no próprio texto onde ele faz a afirmação acima, observar, que a santa vocação, com o qual Deus efetivamente converte e santifica o Seu povo no tempo, foi derramada sobre nós “não segundo as nossas obras”, mas de acordo com o próprio livre propósito e destinação eterna de Deus.

O arrependimento e a fé, nova obediência e perseverança, não são condições de participação na aliança da graça (pois, então, seria um pacto de obras); antes são as consequências e evidências de participação no pacto, pois, “não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição [que é o padrão da misericórdia pactual], ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), Foi-lhe dito a ela: O maior servirá ao menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú” (Romanos 9:11-13).

Agora, se você considera essa passagem como referindo-se à posteridade de Jacó e Esaú, ou a Jacó e Esaú, eles mesmos, ou (que é, evidentemente, o significado do Apóstolo) como referindo-se a ambos; o argumento ainda virá para o mesmo ponto, por fim; ou seja, que os conselhos e determinações Divinos, em qualquer perspectiva que você os considere, são absolutamente independentes das obras, porque os decretos imanentes de Deus e transações da aliança ocorreram antes que os objetos houvessem feito bem ou mal. Naturalmente, todo o bem que é feito nos homens, vem de Deus, como o gracioso efeito, e não como a causa de Seu favor; e todo o mal, que Deus permite (tais são a Sua sabedoria e poder) é subserviente a promover, em vez de interferir para impedir, a realização de Sua santíssima vontade. Menciono a permissão Divina do mal, apenas incidentalmente neste lugar: pois, propriamente, isso pertence a um outro argumento. Meu presente empreendimento é mostrar que o bem, e as graças que Deus opera (não permissivamente, mas eficazmente) nos corações de Seu povo da aliança, são o fruto, não a raiz, do amor que Ele tem por eles.

3. A quem estamos em débito pela expiação de Cristo, e pela redenção, por Seu sangue, mesmo pela remissão dos pecados? Aqui, semelhantemente, “Não a nós, Senhor, não a nós!”. Foi Deus quem disse: “já achei resgate” (Jó 33:24). Foi Deus Quem satisfez a Sua própria justiça com um Cordeiro para o holocausto. Foi Deus quem aceitou a Expiação da mão do nosso Fiador, em vez da nossa. Foi Deus Quem concedeu livremente as bênçãos desta redenção completamente consumada, para o consolo e resgate eternos de todos aqueles que são capacitados a confiarem e gloriarem-se na cruz de Cristo. Contra tais pessoas a justiça Divina não tem nada a alegar, e sobre eles, não há penalidade a infligir. A espada da vingança, já tendo atingido a natureza humana sem pecado dAquele semelhante a Jeová, torna-se, para os que creem, um curtana¹, uma espada de misericórdia, uma espada sem corte. Graças à misericórdia reconciliadora de Deus, o Pai, e da graça sangrante de nosso Senhor Jesus Cristo! O livre-arbítrio humano e mérito não tiveram nenhuma relação com o assunto, do início ao fim.

4. Como o perdão nos isenta da punição, assim a justificação (ou seja, a aceitação de Deus em relação a nós como perfeitos cumpridores de toda a Lei) nos credencia para o reino dos céus. O primeiro é papesiV de Deus, ou o passar por nossas transgressões, de modo a não tomar conhecimento deles; e aqeatV de Deus, ou deixar-nos seguir, finalmente, impunes. Mas a justificação (que é o concomitante inseparável do perdão) não é meramente negativa, mas carrega em si mais de positividade, e nos exalta a um estado mais elevado de felicidade, do que o mero perdão (se fosse possível ser conferido sem justificação) faria.

É okatoatV de Deus, ou declarar-nos positiva e realmente justos, não apenas inocentes, mas também justos. São Bernardo, em algum lugar, preserva essa distinção óbvia e justa. Suas palavras, lembro-me, são que Deus é: “Não menos poderoso para justificar, do que rico em misericórdia para perdoar”.

Agora, a grande pergunta é: a Deus é dado todo o louvor por este dom inefável? Devemos, como pessoas justificadas, cantar o louvor e glória a nós mesmos; ou o louvor e glória a Deus?

A Bíblia determinará essa questão, em um momento; e nos mostrará que o Pai, o Filho e o Espírito Santo, são os únicos autores, e, consequentemente, devem receber toda a glória por nossa justificação: “É Deus [o Pai] quem os justifica” (Romanos 8:33); ou seja, quem nos aceita para a vida eterna; e isso “gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus”, e “Deus imputa a justiça [de Cristo] sem as obras” (Romanos 3:24;4:6), ou seja, sem ser movido a isso por qualquer consideração de boas obras, e sem ser impedido a partir de por qualquer consideração de más obras, feitas pela pessoa ou pessoas a quem a justiça de Cristo é imputada, e que são declarados justos apenas em consequência daquela justiça imputada.

A justificação é também o ato de Deus o Filho, em concordância com o Pai. São Paulo declara expressamente, que ele buscava ser justificado em Cristo (veja Gálatas 2:17). A segunda Pessoa na Divindade vincula, como tal, a aceitação de Seu povo através daquele mérito transferido, o qual, como Homem, Ele operou para este fim. Agora, deixe-me perguntar-lhe, se você ajudou Cristo a pagar o preço de sua redenção, e na realização de uma sequência de perfeita obediência para a sua justificação? Se você o fez, você tem direito a uma parte proporcional de louvor. Mas, se Cristo tanto obedeceu, e morreu, e ressuscitou, sem a sua ajuda, segue invencivelmente que não há nenhum tipo de reivindicação da menor partícula daquele louvor, que resulta dos benefícios adquiridos e garantidos por Sua obediência, morte e ressurreição. Os próprios benefícios são todos seus próprios, se Ele te concede fé para abraçá-los; mas a honra, a glória e as ações de graça você não pode atribuir a si mesmo, sem extrema impiedade e sacrilégio.

Deus o Espírito Santo une-Se na justificação dos remidos do Senhor. Nós somos, declarativa e evidentemente, justificados “pelo Espírito do nosso Deus” (1 Coríntios 6:11). Cujo condescendente e cativante ofício é revelar um Salvador ferido ao coração quebrantado e um Salvador de um pecador auto-esvaziado, e derramar o amor justificador de Deus na alma humana (cf. Romanos 5:5). Aqui o adorável Espírito nem precisa, nem recebe, qualquer ajuda dos pecadores que Ele visita. Sua graciosa influência é soberana, livre e independente. Não podemos mais ordenar, ou proibir o Seu agir, do que podemos ordenar, ou proibir, o brilho do sol.

A conclusão, a partir do todo, é: que não a nossa bondade, mas a misericórdia de Deus; não a nossa obediência, mas a justiça de Cristo; não a nossa suscetibilidade, mas a beneficência do Espírito Santo; devem ser agradecidos por toda a nossa justificação.

E, não é lição fácil dizer, do fundo do coração: “Não a nós, Senhor, não a nós!”. A auto-justiça, se apega a nós, tão natural e apegado a nós como a nossa pele, nem pode qualquer poder, senão aquele de uma mão Todo-Poderosa, esfolar-nos dele. Lembro-me de um exemplo, de um clérigo, agora vívido e eminente, acima de muitos, pelos seus trabalhos e utilidade. Esta digna pessoa assegurou-me, há um ano ou dois, que ele uma vez visitou um criminoso, que estava sob sentença de morte, por uma ofensa capital (acho que por assassinato). Meu amigo se esforçou para apresentar-lhe o mal que fizera; e convencê-lo de que ele estava perdido e arruinado, a menos que Cristo o salvasse por Seu sangue, justiça e graça. “Eu não estou muito preocupado com isso”, respondeu o malfeitor hipócrita, “eu, certamente, não tenho levado uma vida tão boa como alguns têm; mas, tenho certeza, que muitos foram para Tyburn², os quais eram homens muito piores do que eu”. Então você vê, um assassino pode ir para a forca, confiando na sua justiça própria! E você e eu iríamos para o inferno, confiando em nossa justiça própria, se Cristo não tivesse nos interrompido no caminho.

Ouso crer, que o criminoso acima mencionado, se o assunto fosse iniciado, também teria valorizado a si mesmo quanto ao seu livre-arbítrio. E livre-arbítrio, é verdade, ele tinha; e ele foi deixado em poder dele, e arruinou-se em consequência. O livre-arbítrio tem levado muitos homens a Tyburn, e (deve ser temido) de Tyburn para o inferno, mas ainda não levou uma única alma à santidade e ao céu. “Para a tua perda, ó Israel, te rebelaste contra mim”, o livre-arbítrio pode fazer isso por nós; mas Deus é o seu “ajudador” (Oséias 13:9). Sua livre graça deve ser o nosso refúgio e nosso abrigo de nosso próprio livre-arbítrio, ou seria bom que a melhor pessoa que há dentre nós nunca tivesse nascido.

Em uma palavra, toda a glória por nosso perdão e justificação pertence à Trindade, e não ao homem. Ésta é uma das joias da coroa de Deus, inalienável de Si mesmo; a qual Ele

nunca renunciará, nem compartilhar com quaisquer outros seres. É impossível, na própria natureza das coisas, que Ele jamais o faça, assim como pode qualquer um da humanidade depravada ser justificado pelas obras, e sendo assim justificado, não possa participar de nenhuma parte do louvor? Como, eu digo, pode qualquer um de nós ser justificado por nossas próprias ações, vendo que somos totalmente incapazes até mesmo de pensar um bom pensamento até que o próprio Deus sopre-o em nossos corações (2 Coríntios 3:5)?

Permita-me observar mais uma coisa, sob este artigo, a saber, que, se o Espírito de Deus tem despido você de sua justiça própria, Ele não o despiu a fim de deixá-lo nu, mas vai vesti-lo com “vestes finas” (Zacarias 3:4). Ele lhe dará uma veste, pelos seus trapos; a justiça de Deus, pela podre justiça do homem. Estragada, de fato, a encontraremos, se nós a tornarmos um pilar de confiança. Direi sobre isso, como Dr. Young diz sobre o mundo: “Não se apoie sobre ela”; não se apoie em tua justiça própria, pois caso se debruce, “ela perfurará o teu coração; na melhor das hipóteses, ela é uma cana quebrada; mas, frequentemente, uma lança que em sua ponta mais afiada, a paz sangra e a esperança expira”.

A autossuficiência é o próprio vínculo da incredulidade. Isso é infidelidade essencial, e um dos seus ramos mais mortais. Você é um infiel, caso você confie na sua justiça própria. Você é Cristão? Você é um homem da Igreja? Não; você não tem, aos olhos de Deus, nem parte nem sorte neste assunto. Você está morto espiritualmente, enquanto você finge viver. Até que você seja dotado de fé na justiça de Cristo, seu corpo (como um grande homem expressa) não é melhor que “o caixão vivo de uma alma morta”. O Cristão é um crente (e não em si mesmo, mas) em Cristo. E qual é a língua de um crente? “Senhor, eu, em mim, sou um pecador pobre, arruinado, perdido. Pela mão de Teu bom Espírito sobre mim, eu me lanço aos pés da Tua cruz; e olho para Teu sangue, para que me lave; por justiça, para que me justifique; por graça, para que me faça santo; por consolo, para fazer-me feliz; e por força para manter-me em Teus caminhos”.

5. Pela santidade, o princípio interior das boas obras; e pelas boas obras, elas próprias, as evidências exteriores de santidade interior; somos compelidos à graça, somente, e poder do Deus Altíssimo. Nós não fazemos dEle um devedor para nós, por amar e realizar os Seus mandamentos; mas nós nos tornamos, adicionalmente, devedores a Ele, ao coroarmos Seus outros dons da graça, pela concessão de operar em nós o que “perante ele é agradável por Cristo Jesus” (Hebreus 13:21).

Não digam: “Nesta perspectiva, a santificação é expulsa da questão, e as boas obras são colocadas à deriva”. Nada pode ser mais palpável e flagrantemente falso. A renovação de coração e de vida são tão essenciais, e constituem uma tão vasta parte do esquema evangélico da salvação, que se fosse possível que a santidade e os seus frutos morais fossem realmente desconsiderados, a corrente seria, de uma só vez, dissolvida e toda a tessitura se tornaria uma casa de areia. Os Arminianos, têm, nos últimos tempos, feito um enorme clamor sobre: “Antinomianos! Antinomianos!”. A partir da vasta experiência, a boca é capaz de falar. Os modernos Arminianos veem tanto real Antinomianismo entre eles mesmos, e em suas próprias tendas, que o Antinomianismo torna-se a ideia predominante do partido, e a palavra de vigilância favorita. Porque eles têm a praga, eles acham que cada corpo também a tem. Como a lepra está em suas paredes, eles imaginam que nenhuma casa está sem ela. Assim: “Tudo parece contaminado, àquele de olhar corrompido; como tudo parece amarelo, ao olho invejoso”.

[...]

No que diz respeito à santificação e obediência, verdadeiramente assim chamadas; estas somente podem fluir, e não podem deixar de fluir, a partir de um novo coração. Este novo coração é da própria autoria de Deus, e dom do próprio Deus: “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne [um suave coração crente, penitente]. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis” (Ezequiel 36:26-27).

Agora, Deus cumpre esta promessa, segundo a operação de Seu bendito Espírito, pelo fogo místico, cuja ação derreteu nossos corações em fé penitencial; Ele, então, aplica-lhes o selo de Sua própria santidade; a partir deste momento, começamos a ter a imagem e a inscrição de Deus sobre nosso temperamento, palavras e ações.

Esta é a nossa doutrina “licenciosa”, ou seja, uma doutrina que (sob a influência do Espírito Santo) conforma a alma, cada vez mais, a Deus, cuidadosamente referindo, ao mesmo tempo, todo o louvor desta conformidade ativa e passiva, ao próprio Deus, a Quem o dom pertence; cantando com os santos do passado: “Senhor… tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” (Isaías 26:12); e quanto a todas as obras assim operadas, pela vontade de agradar-Te, pelo esforço de agradar-Te, pela capacidade de agradar-Te, e por cada ato pelo que nós Te agradamos: “Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua benignidade e da tua verdade” (Salmos 115:1).

E, de fato, se não fosse essa a verdade do caso, ou seja, se a conversão e a santificação e boas obras não fossem dons de Deus e de Sua operação; os homens teriam, não somente um pouco, mas muito, mesmo, muitíssimo, que vangloriarem-se de ser seus próprios conversores, santificadores e salvadores. Diretamente contrário à letra clara da Escritura, que questiona: “Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido?” (1 Coríntios 4:7), a saber, do alto. Isso não é menos contrário à diretriz das Escrituras; “Aquele que se gloria glorie-se no Senhor” (1 Coríntios 1:31).

6. Uma vez mais. A quem devemos agradecer pela perseverança em santidade e boas obras até o fim? “Oh!”, talvez diga um velho Fariseu: “os agradecimentos são devidos à minha própria vigilância, minha fidelidade, ao meu próprio esforço, e aos meus próprios aperfeiçoamentos”. Sua suposta vigilância atende a um propósito muito ruim, se você fizer disso um mérito. O inimigo das almas não se importa com a conversões de palha, se você perecer por libertinagem aberta, ou por uma confiança enganosa em sua imaginária justiça própria. Se você irá para o inferno com um casaco preto ou um branco, é tudo o mesmo para ele. Não, por mais branco que você possa tecer será encontrado preto, e um mero “são Bento” a equipá-lo para as chamas, se Deus não vestir-lhe na justiça imputada de Seu bendito Filho.

Mas, para o presente, deixando os Fariseus e legalistas às mãos dAquele que por si só é capaz, e tem o direito, de salvar ou destruir; permita-me falar com o verdadeiro crente em Cristo. Você foi chamado, pode ser, há dez ou vinte anos atrás, ou mais, para o conhecimento de Deus; e você ainda é encontrado, morando sob o gotejar do santuário e andando nEle, o seu Senhor; às vezes fraco, mas sempre desejando avançar; perseguido, mas não desamparado; abatido, mas não destruído. Como isso ocorre? Como se dá que muitos professores ardentes que resplandeciam exteriormente, por um tempo, como luminares de primeira grandeza, apagaram-se, extinguiram-se, desapareceram; enquanto o pavio que fumega e a débil faísca da graça, continua a sobreviver e, por vezes, concede luz e calor? Enquanto mais que uns poucos, talvez, que uma vez pareciam estar enraizados como rochas, e estáveis como pilares na casa de Deus, se fizeram como a água que corre em ritmo acelerado. Por que você está de pé, embora em si mesmo, seja tão ou mais fraco do que eles? Um filho de Deus pode rapidamente responder a esta pergunta. E ele responderá assim: “Mas, alcançando socorro de Deus, ainda até ao dia de hoje permaneço…” (Atos 26:22). Não por minha própria força e poder, mas pelo Espírito do Senhor dos Exércitos (veja Zacarias 4:6).

E Aquele que o manteve até hoje, o sustentará todos os dias. O Seu Espírito que Ele dá gratuitamente ao Seu povo é uma fonte de água que jorra, não por um ano, e não por toda a vida, somente; mas para “a vida eterna” (João 4:14). A fidelidade de Deus a você é a fonte de sua fidelidade a Ele. Cristo ora por você, e por isso Ele o mantém vigiando em oração. Ele preserva você de cair; ou, quando caído, Ele restaura a sua alma, e te conduz adiante novamente no caminho da justiça, por amor do Seu nome. Ele decretou, e pactuou, e prometeu, e jurou, dar-lhe a coroa da vida; e, para isso, Ele, não menos solenemente, engajou-se e irrevogavelmente vinculou a Si mesmo, para tornar você fiel até a morte.

“Bem, então”, diz um Arminiano, “se estas coisas são assim, estou seguro em todos as ocasiões. Eu posso dobrar meus braços, e ainda me deitar para dormir. Ou, se eu escolher levantar-me e ser ativo, eu posso viver como eu desejar”. Satanás foi o iniciador deste raciocínio: e ele o ofereceu, como dinheiro corrente e verdadeiro ao Messias, mas Cristo rejeitou-o como dinheiro falso. “Se Tu és o Filho de Deus”, disse o inimigo: “Se tu és de fato o Messias a Quem Deus sustenta, e Seus eleitos, em Quem a Sua alma se deleita, lança-Te daqui a baixo; é impossível que Tu pereças, faça o que Tu quiseres, nenhuma queda pode prejudicar-te; e teu Pai, absolutamente prometeu que os Seus anjos te guardariam em todos os Teus caminhos; lança-te, portanto, corajosamente, do pináculo, e não tema mal algum”.

A argumentação do Diabo foi igualmente insolente e absurda, em todos os pontos de vista. Ele argumentou, não como uma serpente em sua astúcia, mas como uma serpente cuja cabeça estava machucada (veja Gênesis 3:15), e que não tinha mais de compreensão do que modéstia. Cristo silenciou esta pilha de palha, com uma única frase: “Não tentarás o Senhor teu Deus” (Mateus 4:7). Assim disse o Messias. E assim, nós dizemos. E essa é a resposta suficiente a este sofisma, cuja palpável irracionalidade cortaria a sua própria garganta, sem a ajuda de qualquer resposta.

Os filhos de Deus ficariam muito feliz, se eles pudessem “viver como eles quisessem”, pois a vontade, o desejo, o anelo, de uma alma renovada (ou seja, do novo homem, ou a parte regenerada do crente, pois o velho Adão nunca foi um santo, nem nunca será) é, digo eu, a vontade e o desejo de uma alma renovada, agradar a Deus em todas as coisas, e nunca ao pecado, em qualquer ocasião ou em qualquer grau. Este é o estado a que nossos suspiros aspiram; e em que (se a imperfeição da natureza humana admitisse tal felicidade abaixo) nós “desejamos” andar. Pois, cada pessoa verdadeiramente regenerada pode sinceramente juntar-se ao apóstolo Paulo, ao dizer: “Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus” (Romanos 7:25), e gostaria de melhor obedecê-la.

A preservação de Deus é a perseverança do bom homem. “Os pés dos seus santos [Deus] guardará” (1 Samuel 2:9). O Arminianismo representa o Espírito de Deus como se Ele agisse como guarda de uma carruagem, que vê os passageiros em segurança, fora da cidade por alguns quilômetros; e, em seguida retorna e volta atrás, e deixa-os prosseguir o resto de suas próprias viagens. Mas a graça Divina não lidará assim com os peregrinos de Deus. Ela os acompanha até o fim de sua jornada, e eternamente. Assim que o peregrino mais mediano de Sião pode clamar com Davi, em plena certeza de fé: “Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor por longos dias” (Salmos 23:6). Portanto, pela graça preservadora, pela preservação da graça: “Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua benignidade e da tua verdade” (Salmos 115:1).

7. Depois que Deus conduziu o Seu povo através do deserto da vida, e os trouxe para a beira daquele rio que fica entre eles e Canaã celestial, Ele suspende o Seu cuidado deles nesta questão de mais profunda necessidade? Não, bendito seja o Seu Nome. Pelo contrário, Ele (sempre, com segurança, e de forma geral, confortavelmente) os acompanha até o outro lado; para a boa terra que está muito longe, para aquela boa montanha, e o Líbano!

Eu sei, há alguns Arminianos fervorosos que nos dizem que “um homem pode perseverar até que ele venha a morrer, e ainda quase perecer no próprio momento da morte”; e eles ilustram essa miserável desonra a Deus e doutrina que abala a alma, pelo símile do “atolar de um navio na entrada do porto”.

É bem verdade, que algumas embarcações de madeira têm perecido assim. Mas não é menos verdade, que vasos escolhidos de Deus são infalivelmente salvos de perecerem assim. Pois, através da Sua bondade, cada um deles é sustentado por Aquele que os ventos e mares, tanto literais e metafóricos, obedecem. E a segurança deles é esta: “Quando passares pelas águas estarei contigo, e quando pelos rios, eles não te submergirão” (Isaías 43:2).

“E os resgatados do Senhor voltarão; e virão a Sião com júbilo, e alegria eterna haverá sobre as suas cabeças” (Isaías 35:10); ora, os regatados do Senhor estão longe de afundarem na lama diante da vista da terra firme.

Mesmo um pai terreno é particularmente cuidadoso e terno por uma criança moribunda, e, certamente, quando os filhos de Deus estão nessa situação, Ele (falando à maneira dos homens) tem duplamente misericórdia de Sua prole indefesa, os quais são Seus por eleição, por adoção, por pacto, pela redenção, pela regeneração, e por milhares de outros laços indissolúveis.

Não há marcas de naufrágios, nenhuns restos de embarcações perdidas, flutuando sobre aquele mar, que flui entre a Jerusalém de Deus abaixo e a Jerusalém que é de cima. O excelente Dr. William Gouge fez uma observação completa sobre a presente questão:

Se um homem fosse lançado em um rio, devemos considera-lo como seguro, enquanto ele for capaz de manter a cabeça acima da água. A Igreja, corpo místico de Cristo, é lançado no mar do mundo [e, posteriormente, no mar da morte]; e Cristo, seu Cabeça, mantém-Se no alto, mesmo no céu. Existe, então, qualquer temor, ou a possibilidade, que se afogue um membro deste corpo? Se alguém deve ser afogado, então ou o próprio Cristo deve ser afogado em primeiro lugar, ou então esse membro deve ser retirado de Cristo: ambos são impossíveis. Em virtude, portanto, desta união, vemos que sobre a segurança de Cristo, depende a nossa. Se Ele está seguro, assim nós estamos. Se nós perecemos, então Ele deve perecer.

Bem, portanto, os crentes moribundos podem cantar: “Não a nós, Senhor, mas ao Teu nome, dá glória! Teu amor misericordioso nos conduz, quando não conseguimos prosseguir, e, pelo amor de Tua verdade, Tu nos salva completamente sem que nem mesmo um se perca”.

8. Quando a alma resgatada for realmente trazida à glória, que música ela cantará, então? O conteúdo do texto ainda será a linguagem dos céus: “Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória”.

Enquanto estamos na terra, temos necessidade daquele cuidado notável, que Moisés deu aos filhos de Israel: Quando, pois, o Senhor teu Deus os lançar fora de diante de ti, não fales no teu coração, dizendo: Por causa da minha justiça é que o Senhor me trouxe a esta terra para a possuir; porque pela impiedade destas nações é que o Senhor as lança fora de diante de ti. Não é por causa da tua justiça, nem pela retidão do teu coração que entras a possuir a sua terra… Sabe, pois, que não é por causa da tua justiça que o Senhor teu Deus te dá esta boa terra para possuí-la, pois tu és povo obstinado” (Deuteronômio 9:4-6).

Agora, se a Canaã terrenal, que era apenas uma herança transitória, era inatingível por mérito humano; se até mesmo os bens materiais não nos são dados pelo nosso próprio bem a justiça; quem ousará dizer que o próprio céu é a compra de nossa justiça própria!? Se as nossas obras não podem merecer até mesmo as conveniências de escape e suprimentos temporais, como é possível, que sejamos capazes de merecer as riquezas infinitas da eternidade? Não precisaremos de nenhum alerta contra a justiça própria, quando chegarmos seguros àquele melhor país. A linguagem de nossos corações e das nossas vozes, será; e os anjos se unirão ao concerto; e todos os eleitos, os anjos e os homens, para sempre e sempre, tocarão em suas harpas essa nota: “Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua benignidade e da tua verdade”.

Oh! que um senso desta amorosa misericórdia e verdade possam ser, de forma calorosa e transformadora, experimentadas por nossos corações! Porque, na verdade, meus queridos irmãos, é a experiência de sentir o poder de Deus sobre a alma que faz com que o Evangelho seja cheiro de vida para vida. Não obstante o propósito de Deus seja firme como o seu trono; apesar de que toda a justiça e redenção de Cristo estejam consumadas e completas, como um agente Divino e onipotente poderia fazê-lo; não obstante estou convencido de que Deus sempre será fiel, a cada alma a quem Ele chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz; e embora ninguém possa arrancar o povo de Cristo de Suas mãos; ainda assim, eu não sou menos satisfeito, que esse deve ser sentimento percebido sobre tudo isso, qual seja, uma percepção operada em nossos corações pelo Espírito Santo, que dará a você e a mim o conforto dos decretos graciosos do Pai, e da obra consumada do Messias.

Eu sei que está crescendo mui popularmente o falar contra sentimentos espirituais. Mas não me atrevo a participar deste clamor. Pelo contrário, adoto a oração do apóstolo, que o nosso amor a Deus, e as manifestações de Seu amor por nós, cresçam mais e mais “em ciência e em todo o sentimento” (Filipenses 1:9 – tradução literal). E, não é desejo entusiástico, em nome de vocês e de mim mesmo, que sejamos do número daqueles “homens piedosos”, que, como a nossa Igreja justamente expressa, “sentem em si mesmos as obras do Espírito de Cristo, mortificando as obras da carne, e inclinado as suas mentes para coisas elevadas e celestiais”. Na verdade, o grande empreendimento do Espírito de Deus é elevar e abaixar. Elevar as nossas afeições a Cristo, e abaixar as insondáveis ​​riquezas da graça comunicando-as aos nossos corações. O conhecimento disso, e desejo sincero por isso, são todos os sentimentos pelos quais eu pleiteio. E, por estes sentimentos, desejo sempre pleitear. Satisfeito como eu sou, que, sem alguma experiência e deleites deles, não podemos ser felizes, vivendo ou morrendo.

Deixe-me perguntar-lhe, por assim dizer, um por um; o Espírito Santo começou a revelar essas coisas profundas de Deus à sua alma? Se assim for, dê a Ele a glória por isso. E, assim como você valoriza a comunhão com Ele; à medida que você valoriza o consolo do Espírito Santo; esforce-se para ser encontrado no caminho de Deus, até mesmo o alto caminho da fé humilde e do amor obediente, sentado aos pés de Cristo, e desejoso de absorver aquelas doces, arrebatadoras e santificadoras comunicações da graça, que são ao mesmo tempo um penhor, e uma preparação para o pleno céu completo, quando você vier a morrer. Deus me livre, que alguma vez pensemos levemente sobre os sentimentos religiosos! Pois, se, em algum grau, não nos sentimos pecadores, nem sentimos que Cristo é precioso; eu duvido que o Espírito de Deus tenha alguma vez operado salvificamente em nossas almas.

Não, longe de serem limitadas a isso, nossos desejos pelo sentimento interior da presença de Deus, deveria aumentar continuamente, quanto mais perto chegamos do fim de nossa peregrinação terrena, e à semelhança da expansão progressiva de um rio, o qual, embora estreito e apertado quando primeiro começa a fluir, nunca deixa de alargar-se e aumentar, na proporção em que se aproxima do oceano em que desagua.

Deus nos conceda uma graciosa e grande maré de Seu Espírito, a fim de reabastecer nossos canais sedentos, transbordar nosso fluxo escasso e acelerar o nosso curso lânguido! Se este não for o nosso grito, é um sinal, ou que a obra da graça ainda não foi iniciada em nós; ou que ela está, de fato, em maré baixa, e desbotada com aqueles sedimentos que tendem a desonrar a Deus, eclipsar a glória do Evangelho, e espalhar nuvens e escuridão em nossas almas.

Alguns Cristãos são como marcos deteriorados; que permanecem, é verdade, no caminho direito, e carregam alguns traços de impressão apropriada, mas tão miseravelmente mutilados e desfigurados, que eles quase não consegue ler ou saber o que se fará com eles. Que o bendito Espírito de Deus faça com que todos os nossos corações, nesta manhã, se submetam a uma renovada impressão; e sacie-nos com uma nova edição de nossas evidências para o céu! Oh! que chuvas de bênçãos desçam sobre você, a partir do alto! Que você possa ver, que Cristo, e a graça de Deus nEle, é tudo em todos! Enquanto você está na terra, você pode nunca atribuir toda a glória a Ele! E, tenho certeza, que quando você for para o céu, você nunca a atribuirá a qualquer outro.

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[1] Curtana: uma espada sem corte colocada diante de um soberano Inglês, em uma coroação, como um emblema de misericórdia – Fonte: Thefreedictionary.com – N. da T.

[2] Tyburn era um vilarejo no condado de Middlesex, próximo à localização do Marble Arch da atual Londres. Seu nome vem de um tributário do rio Tâmisa, que hoje é completamente coberto desde sua nascente até seu desembocar no Tâmisa. Durante muitos séculos, seu nome foi sinônimo de pena capital, tendo sido o principal local de execução dos criminosos de Londres, além de traidores e mártires religiosos. Sua notoriedade ficou ainda maior depois da construção em 1571 de um grande cadafalso, conhecido como “A árvore de Tyburn” – N do R.

 

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♦ Traduzido do original em Inglês: Arminianism: The Golden Idol of Freewill • By Augustus Montague Toplady (1740 – 1778).
♦ Via PBMinistries.org (Providence Baptist Ministries)
♦ Tradução por Camila Almeida • Revisão por William Teixeira
♦ Salvo indicação em contrário, as citações bíblicas usadas nesta tradução são da versão Almeida Corrigida Fiel | ACF • Copyright © 1994, 1995, 2007, 2011 Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

♦ Traduzido e publicado em Português pelo website oEstandarteDeCristo.com, com permissão de PBMinistries.org (Providence Baptist Ministries), sob a licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International Public License • Você está autorizado e incentivado a reproduzir e/ou distribuir este material em qualquer formato, desde que informe o autor, as fontes originais e o tradutor, e que também não altere o seu conteúdo nem o utilize para quaisquer fins comerciais.


Mito do Livre-Arbítrio – Walter J. Chantry

Walter J. Chantry nasceu em 1938 em Norristown, Pensilvânia, foi criado na Igreja Presbiteriana e foi convertido a Cristo quando ainda era um adolescente. Graduou-se em História, no Dickinson College, Carlisle, em 1960, e obteve um B. D. [Bacharel em Divindade/Teologia] do Seminário Teológico de Westminster, em 1963. Neste mesmo ano, ele foi chamado para ser pastor da Igreja Batista da Graça, em Carlisle, Pensilvânia, onde ele serviu ao Senhor pelos próximos 39 anos. Ele é casado e tem três filhos.

Logo após sua aposentadoria, em 2002, ele foi convidado para ser o editor da revista The Banner of Truth e continuou neste ministério por sete anos. Walter e sua esposa Joie residem agora em Waukesha, Wisconsin, EUA (Fontes: ReformedReader.org • BannerOfTruth.org).

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O MITO DO LIVRE-ARBÍTRIO

A maioria das pessoas diz que acredita em “livre-arbítrio”. Você tem alguma ideia do que isso significa? Eu acredito que você encontrará uma grande quantidade de superstição sobre este assunto. A vontade é tida como o grande poder da alma humana que é completamente livre para dirigir as nossas vidas. Mas de que ela é livre? E qual é o seu poder?

O MITO DA LIBERDADE CIRCUNSTANCIAL

Ninguém nega que o homem tem uma vontade, ou seja, a faculdade de escolher o que ele quer dizer, fazer e pensar. Mas você já refletiu sobre a fraqueza lamentável de sua vontade? Embora você tenha a capacidade de tomar uma decisão, você não tem o poder de levar a cabo o seu propósito. A vontade pode elaborar um plano de ação, mas não tem poder para executar sua intenção.

Os irmãos de José o odiavam. Eles o venderam para ser um escravo. Mas Deus usou suas ações para fazer dele um governante sobre eles mesmos. Eles escolheram agir daquela maneira para prejudicar José. Mas Deus, em Seu poder, direcionou os eventos que aconteceram com José para o seu bem. Ele disse: “Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem” (Gênesis 50:20).

E como muitas de suas decisões são miseravelmente frustradas? Você pode optar por ser um milionário, mas a providência de Deus provavelmente o impedirá. Você pode optar por ser um estudioso, mas problemas de saúde, um lar instável ou a falta de recursos financeiros podem frustrar a sua vontade. Você escolhe sair de férias, mas um acidente de automóvel pode mandá-lo para o hospital em vez disso.

Ao dizer que sua vontade é livre, nós certamente não queremos dizer que ela determina o curso da sua vida. Você não escolheu a doença, a tristeza, a guerra e a pobreza que têm estragado a sua felicidade. Você não escolheu ter inimigos. Se a vontade do homem é tão potente, por que não escolhe viver para sempre? Antes, você deve morrer. Os principais fatores que moldam sua vida não se dão por causa de sua vontade. Você não escolheu seu status social, cor, inteligência e etc.

Qualquer reflexão sóbria sobre a sua experiência produzirá a conclusão: “O coração do homem planeja o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos” (Provérbios 16:9). Ao invés de exaltar a vontade humana, deveríamos humildemente louvar ao Senhor cujos propósitos moldam nossas vidas. Como Jeremias confessou: “Eu sei, ó Senhor, que não é do homem o seu caminho; nem do homem que caminha o dirigir os seus passos” (Jeremias 10:23).

Sim, você pode escolher o que você quer, e você pode planejar o que você fará. Mas sua vontade não é livre para realizar nada contrário aos propósitos de Deus. Nem você tem alguma energia para alcançar seus objetivos, senão aqueles que Deus lhe permite. A próxima vez que você estiver tão encantado com a sua própria vontade, lembre-se da parábola de Jesus sobre o homem rico. O homem rico disse: “Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens… Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma” (Lucas 12:18-21). Ele era livre para planejar, mas não era livre para realizar; a mesma coisa acontece com você.

O MITO DA LIBERDADE ÉTICA

Mas a liberdade da vontade é citada como um fator importante na tomada de decisões morais. A vontade do homem é dita ser livre para escolher entre o bem e o mal. Mas devemos perguntar novamente, a partir do que ela é livre? E o que a vontade do homem é livre para escolher?

A vontade do homem é o seu poder de escolha entre alternativas. Sua vontade decide suas ações a partir de uma série de opções. Você tem a faculdade de dirigir seus próprios pensamentos, palavras e ações. Suas decisões não são formadas por uma força externa, mas por uma força que está dentro de você mesmo. Nenhum homem é compelido a agir contra a sua vontade, nem forçado a dizer o que ele não deseja. Sua vontade guia suas ações.

No entanto, isso não significa que o poder de decidir está livre de qualquer influência. Você faz escolhas com base no seu entendimento, seus sentimentos, seus gostos e desgostos, e seus apetites. Em outras palavras, sua vontade não é livre de você mesmo! Suas escolhas são determinadas por seu próprio caráter básico. A sua vontade não é independente de sua natureza, antes é escrava dela. Suas escolhas não moldam o seu caráter, mas o seu caráter é que orienta as suas escolhas. A vontade é bastante parcial para o que você sabe, sente, ama e deseja. Você sempre escolhe com base em sua disposição, de acordo com a condição do seu coração.

É apenas por esta razão que a sua vontade não é livre para fazer o bem. Sua vontade é escrava do seu coração, e seu coração é mau. “E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” (Gênesis 6:5). “Não há quem faça o bem, não há nem um só” (Romanos 3:12). Nenhum poder força o homem a pecar contra a sua vontade, antes os descendentes de Adão são tão maus que sempre escolhem o mal.

Suas decisões são moldadas pelo seu entendimento, e a Bíblia diz o seguinte a respeito de todos os homens: “o seu coração insensato se obscureceu” (Romanos 1:21). O homem só pode ser justo quando ele deseja ter comunhão com Deus, mas, “não há ninguém que busque a Deus” (Romanos 3:11). Seus apetites anseiam o pecado, e assim você não pode escolher o bem. Pois escolher o bem é contrário à natureza humana. Se você escolhe obedecer a Deus, isto é o resultado de uma compulsão externa. Mas você é livre para escolher, e, portanto, sua escolha está escravizada à sua própria natureza maligna.

Se carne fresca e uma salada mista fossem colocados diante de um leão faminto, ele escolheria a carne. Isto porque sua natureza dita a sua escolha. É exatamente assim com o homem. A vontade do homem é livre de força exterior, mas não da inclinação da natureza humana. Essa inclinação é contrária a Deus. Os poderes de decisão do homem são livres para escolher o que o coração humano dita; portanto, não há possibilidade de um homem escolher agradar a Deus sem uma obra prévia da graça Divina.

O que a maioria das pessoas entende por livre-arbítrio é a ideia de que o homem é, por natureza, neutro e, portanto, capaz de escolher o bem ou o mal. Isso simplesmente não é verdade. A vontade humana e de toda a natureza humana é inclinada para o mal continuamente. Jeremias perguntou: “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” (Jeremias 13:23). É impossível. É contrário à natureza. Assim os homens precisam desesperadamente da transformação sobrenatural de suas naturezas, do contrário as suas vontades são escravizadas para escolher o mal.

Apesar do grande louvor que é dado ao “livre-arbítrio”, vimos que a vontade do homem não é livre para escolher agir de forma contrária aos propósitos de Deus, nem livre para agir contra a sua própria natureza moral. Sua vontade não determina os acontecimentos de sua vida, nem as circunstâncias da mesma. Escolhas éticas não são formadas por uma mente neutra, mas sempre ditadas pela sua personalidade.

O MITO DA LIBERDADE ESPIRITUAL

No entanto muitos afirmam que a vontade humana faz a escolha final da vida espiritual ou morte espiritual. Aqui a vontade é totalmente livre para escolher a vida eterna oferecida em Jesus Cristo ou rejeitá-la. Diz-se que Deus dará um novo coração a todos que escolherem receber a Jesus Cristo pelo poder de seu próprio livre-arbítrio.

Não pode haver dúvida de que receber Jesus Cristo é um ato da vontade humana. É muitas vezes chamado de “fé”. Mas como os homens vêm a receber o Senhor de boa vontade? É geralmente respondido: “a partir do poder de seu próprio livre-arbítrio”. Mas como pode ser isso? Jesus é um profeta. Recebê-lO significa crer em tudo o que Ele diz. Em João 8:41-45 Jesus deixou claro que você nasceu de Satanás. Este pai maligno odeia a verdade e transmitiu a mesma inclinação ao seu coração por natureza. Assim disse Jesus: “Mas, porque vos digo a verdade, não me credes” [João 8:45]. Como a vontade humana salta da escolha do homem para crer no que a mente humana odeia e rejeita?

Receber a Jesus também significa abraçá-lO como um sacerdote, ou seja, confiar e depender dEle para pleitear a paz com Deus por meio de Seus sacrifícios e intercessão. Paulo nos diz que a mente com a qual nascemos é hostil a Deus (Romanos 8:7). Como poderei escapar da influência da natureza humana, que nasce com uma violenta inimizade para com Deus? Seria insano para a vontade escolher a paz quando cada osso e gota de sangue clamam por rebelião.

Outrossim, receber a Jesus significa recebê-lO como um rei. Isso significa escolher obedecer Seus comandos, confessar o Seu direito de governar e adorar diante do Seu trono. Mas a mente humana, as emoções e os desejos todos clamam: “Não queremos que este reine sobre nós” (Lucas 19:14).

Se todo o meu ser odeia a Sua verdade, odeia o Seu governo e odeia a paz com Deus, como minha vontade pode ser responsável por receber a Jesus? Como pode um pecador ter fé?

Não é a vontade do homem, mas é por causa da graça de Deus que um pecador alcança um novo coração. A menos que Deus mude o coração, crie um novo espírito de paz, verdade e submissão, o homem não optará por receber a Jesus Cristo e a vida eterna nEle. Um novo coração deve ser dado antes que um homem venha a crer, ou então a vontade humana está irremediavelmente escravizada à maligna natureza humana, mesmo no que diz respeito à conversão. Jesus disse: “Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo” (João 3:7). A menos que você nasça de novo, você jamais verá o Seu reino.

Leia João 1:12 e 13. Ali é dito que aqueles que creem em Jesus têm “nascido, não da vontade do homem, mas de Deus”. Assim como sua vontade não é responsável pela sua própria vinda a este mundo, assim também não é responsável pelo novo nascimento. É o Seu Criador, que deve ser agradecido por sua vida, e se alguém está em Cristo, é uma nova criatura (2 Coríntios 5:17). Quem já escolheu ser criado? Quando Lázaro ressuscitou dos mortos, ele escolheu atender à chamada de Cristo, mas ele não escolheu ressuscitar. Então Paulo disse em Efésios 2:4 e 5: “Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)”. A fé é o primeiro ato de uma vontade renovada pelo Espírito Santo. Receber a Cristo é um ato do homem, assim como a respiração o é, no entanto Deus deve primeiramente dar-lhe a vida.

Não admira que Martinho Lutero escreveu um livro intitulado “A Escravidão da Vontade”, que ele considerava um de seus mais importantes tratados. A vontade está presa nas cadeias da maligna natureza humana. Vocês, que exaltam o livre-arbítrio como uma grande força estão se agarrando a uma raiz de orgulho. O homem, como caído no pecado, está totalmente desamparado e sem esperança. A vontade do homem não oferece nenhuma esperança. Foi a vontade de escolher o fruto proibido que nos trouxe à miséria. A poderosa graça de Deus oferece libertação. Lance-se à misericórdia de Deus para a salvação. Peça ao Espírito da Graça para criar um espírito novo dentro de você.

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♦ Fonte: APuritansMind.com | Título Original: Myth of Free Will
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por William Teixeira │ Revisão por Camila Almeida


Sobre a Nossa Conversão a Deus e Como Esta Doutrina é Totalmente Corrompida Pelos Arminianos – John Owen

[Capítulo 14 do Livro A Display Of Arminianism • Editado]

 Quão pouco ou absolutamente nada os Arminianos atribuem à graça de Deus a realização da grande obra da nossa conversão, isso pode claramente ser evidenciado a partir do que eu já mostrei que eles a atribuem ao nosso próprio livre-arbítrio, de forma que eu devo passar por isso brevemente, o que, de outra forma, é tão copiosamente anunciado nas Sagradas Escrituras, que isso exigiria uma discussão muito maior. A confirmação prolixa da verdade que professamos não atenderá tão bem a minha intenção; que é apenas desvelar os erros deles, por não conhecerem as profundezas em que muitos são enganados e persuadidos.

Duas coisas, nesta grandiosa combinação de graça e natureza, os Arminianos atribuem ao livre-arbítrio: primeiro, um poder de cooperação e colaboração com a graça, para torná-la eficaz de algum modo; em segundo lugar, poder de resistir à operação da graça, tornando-a completamente ineficaz; Deus, entrementes, não concede nenhuma graça, senão a que espera um ato consumado de uma dessas duas habilidades, e tem seu efeito conformemente. Se um homem cooperar, então a graça alcança o seu fim; se ele resistir, ela retorna vazia. Para esta finalidade, eles inventam que toda a graça de Deus derramada sobre nós para a nossa conversão é apenas uma persuasão moral por Sua palavra, e não uma infusão de um novo princípio vital pela poderosa obra do Espírito Santo. E, de fato, admitindo isso, eu concordarei com eles, mui dispostamente, em atribuir ao livre-arbítrio um dos dons antes recitados: um poder de resistir à operação da graça; mas quanto ao outro, deve-se atribuir a toda a nossa natureza corrompida, e todos os que são participantes da mesma, uma deficiência universal de obedecê-lo, ou cooperar nesta obra que Deus tenciona por Sua graça.

Se a graça da nossa conversão não for nada além de uma persuasão moral, não temos mais poder para obedecê-la nesse estado em que estamos, mortos em pecado, do que um homem em seu túmulo, tem em si mesmo, para viver de novo e sair assim que lhe chamarem. As promessas de Deus e as orações dos santos na Sagrada Escritura parecem designar tal tipo de graça que deve conceder-nos uma real capacidade interna para fazermos aquilo que é espiritualmente bom. Mas parece que não existe tal questão; pois se um homem deve convencer-me de saltar sobre o rio Tâmisa, ou voar como pássaro, seja ele tão eloquente quanto puder, sua persuasão em si não me faz mais capaz de fazer isso do que eu era antes de vê-lo. Se o dom graça de Deus não conferir nada além de uma doce persuasão (embora nunca tão poderosa), é algo extrínseco, que consiste na proposta de um objeto desejado, mas não nos dá, em absoluto, uma nova força para fazer algo, que não tínhamos antes poder para fazer. Mas vamos ouvi-los pleiteando, eles mesmos, a cada um desses elementos relativos à graça e à natureza. E,

Primeiro, pela natureza da graça [1]: “Deus destinou salvar os crentes pela graça — ou seja, uma persuasão suave e doce, conveniente e concordante com o livre-arbítrio deles — e não por qualquer ação todo-poderosa”, diz Armínio. Parece algo estranho, que “a mente carnal sendo inimizade contra Deus”, e a vontade dominada pelo pecado, e cheia de miserável oposição a todos os caminhos de Deus, ainda assim Deus não tenha outros meios para conduzi-los Ele, a não ser alguma persuasão que é doce, agradável e congruente a eles nesse estado em que estão. E, é uma pequena exaltação da dignidade e poder da graça, quando o principal motivo pelo qual ela é eficaz, como Alvarez observa, é reduzida a um jantar bem digerido ou um sono tranquilo, em que alguns homens podem ser levados a um melhor temperamento que o normal, para dar cumprimento à presente graça conveniente.

Mas, no momento, vamos aceitar isso, e admitir que Deus chama alguns por uma tal convicção conveniente, em tal data e local que Ele sabe que eles consentirão com ela. Eu pergunto, se Deus chama assim todos os homens, ou apenas alguns? Se todos, porque não são todos convertidos? pois a própria concessão disso, sendo adequada, a torna eficaz. Se apenas alguns, então por que eles, e não outros? Isso é a partir de uma intenção especial para fazê-los obedientes? Mas, deixe-os tomar cuidado, pois isso chegará perto de estabelecer o decreto da eleição; e a partir de que outra intenção disso deve ocorrer, eles nunca serão capazes de determinar. Portanto [2], Corvinus nega que tal adequação seja necessária para a graça pela qual somos convertidos, mas apenas que seja uma persuasão moral; a qual podemos obedecer se quisermos, e assim a tornamos eficaz. Sim, e o próprio Armínio, depois de ter defendido isso, tanto quanto ele foi capaz, coloca-o fora de si mesmo, e falsamente coloca isso como originado por Agostinho. De modo que, como eles juntamente afirmam, [3] “eles confessam que nenhuma graça para a geração de fé seja necessária, mas somente a que é moral”, o que um deles interpreta ser [4] “uma declaração do evangelho a nós”, exatamente como seu antigo mestre, Pelágio, que disse [5]: “Deus opera em nós tanto o querer o que é bom e querer o que é santo, ao passo que Ele nos desperta com a promessa de recompensa e da grandeza da glória futura, aos que antes estavam entregues a desejos terrenos, como animais irracionais, não amando nada além das coisas do presente século, incitando nossas vontades estúpidas a um desejo por Deus, por meio de uma revelação da sabedoria, e por convencer-nos de tudo o que é bom”. Ambos afirmam que a graça de Deus nada é, senão a persuasão moral, operando pela maneira de poderosos argumentos convincentes; mas ainda aqui Pelágio parece atribuir maior eficácia a ela do que os Arminianos, consentindo que ela opera sobre nós quando o nosso estado é como o dos animais irracionais, estando posta somente nas coisas terrenas. Mas estes, como eles confessam que para que a fé seja produzida [6], é necessário que esses argumentos sejam propostos da parte de Deus para que nada provavelmente esteja em oposição pelo que eles não pareçam credíveis. Assim é — dizem eles — necessário da nossa parte uma piedosa docilidade e dignidade de espírito. Assim, [segundo os Arminianos] toda a graça que Deus nos concedeu consiste em argumentos persuasivos a partir da Palavra, e, então, se eles encontram mentes que sejam ensináveis podem operar a sua conversão.

Em segundo lugar, tendo assim atenuado a graça de Deus, eles afirmam [7]: “que a operação da eficácia dela depende do livre-arbítrio”; assim, então os Remonstrantes em sua Apologia [8] dizem: “E, para falar confiantemente”, diz Grevinchovius “eu digo que o efeito da graça, em um curso normal, depende de algum ato de nosso livre-arbítrio”. Suponhamos, então, que dois homens sejam feitos participantes da mesma graça, ou seja, que tenham o evangelho pregado a eles pelos mesmos meios, e um é convertido e outro não, o que pode ser a causa desta tão grande diferença? Houve alguma intenção ou propósito de Deus que um fosse transformado e o outro não? “Não; Ele igualmente deseja e intenciona a conversão de todos e de cada um”. Será que, então, Deus opera pelo Espírito Santo mais fortemente no coração de um do que do outro? “Não; a mesma operação do Espírito sempre acompanha a mesma pregação da palavra”. Mas não foi um, por alguma ação todo-poderosa, feito participante da real graça infundida, a qual o outro não alcançou? “Não; porque isso destruiria a liberdade de sua vontade, e o privaria de todo o louvor pela crença”. Como, então, ocorreu essa diferença extrema de efeitos? Porque, quem fez um diferente do outro? O que tem ele que não tenha recebido? “Ora, tudo isso procede apenas da força de seu próprio e obediente livre-arbítrio, cedendo ao convite da graça de Deus, que, como os outros, ele poderia ter rejeitado. Esta é a causa imediata de sua conversão, de forma que todos os louvores são devidos a ele”, e aqui o velho ídolo pode gloriar-se perante todo o mundo, que se ele pode, apenas obter que seus adoradores prevaleçam nisto, ele tem excluído completamente a graça de Cristo, e fez dela “nomen inane”, um mero título, ao passo que não existe tal coisa no mundo.

Em terceiro lugar, eles ensinam, que, apesar de todo o propósito e intenção de Deus para converter e, assim, salvar um pecador, não obstante a operação mui poderosa e eficaz do bendito Espírito, com a mais atraente e persuasiva pregação da Palavra, ainda assim está no poder de um homem frustrar o efeito, resistir a essa operação e rejeitar aquela pregação do evangelho. Não precisarei provar isso, porque isso é o que, em termos diretos, eles pleiteiam; o que eles também devem fazer, se eles concordarão com seus princípios antigos. Pois, consentindo que todos esses não têm influência sobre qualquer homem, a não ser por meio de persuasão moral, nós não devemos apenas consentir que ela pode ser resistida, mas também negar totalmente que ela pode ser obedecida. Podemos resistir a isso, eu digo, como tendo tanto uma incapacidade para o bem e repugnância contra ele; mas quanto a obedecê-lo, a menos que neguemos toda a corrupção inerente e depravação da natureza, não podemos atribuir tal suficiência a nós mesmos.

Agora, a respeito desta fraqueza da graça, que ela não seja capaz de superar o poder da natureza pecaminosa, um testemunho de Armínio é suficiente [9]: “Sempre permanece no poder do livre-arbítrio rejeitar a graça que é dada e recusar aquilo que a segue; pois a graça não é uma ação onipotente de Deus, de forma que o livre-arbítrio não possa resisti-la”. Não que eu afirmasse, em oposição a isso, como se uma operação da graça devesse, por assim dizer, violentamente superar a vontade do homem, e força-lo à obediência, o que deve necessariamente ser prejudicial à nossa liberdade; mas apenas que consiste em uma obra eficaz tão doce a ponto de promover infalivelmente a nossa conversão, nos tornando dispostos, a quem antes não éramos dispostos e obedientes, a quem não obedecíamos de forma a criar corações puros e renovar espíritos retos dentro de nós.

Isso, então, que nós afirmamos, em oposição a essas heterodoxias Arminianas, é: que a graça eficaz que Deus usa na grandiosa obra da nossa conversão, em razão de sua própria natureza, — sendo também o instrumento e intenção de Deus para este propósito, — certamente produz o efeito pretendido, sem resistência bem sucedida, e sozinha, sem qualquer considerável cooperação de nossas próprias vontades, até que elas sejam preparadas e transformadas por essa mesma graça. A infalibilidade do seu efeito depende principalmente do propósito de Deus. Quando, por qualquer meio que Ele intenciona a conversão de um homem, esses meios devem ter tal eficácia adicionada a elas, a ponto de torná-los instrumentos próprios para a realização desse propósito, de forma que o conselho do Senhor possa prosperar, e a Sua palavra não volte vazia. Mas, o modo de sua operação — o que não requer assistência humana, e é capaz de superar toda repugnância — é própria à essência de tal ato. Esta natureza e eficácia da graça se opõe a uma influência indiferente do Espírito Santo, a um movimento metafórico, a uma obra pela forma de persuasão moral, apenas propondo um objeto desejável, fácil de ser combatida, e não efetiva a menos que seja ajudada por uma capacidade inata de nós mesmos (que é a graça Arminiana), confirmarei brevemente, tendo como premissa essas poucas coisas:

Primeiro, embora Deus não utilize as vontades dos homens, em sua conversão, como espíritos malignos usam os membros dos homens, em êxtases, por um movimento abrupto violento, mas doce e agradavelmente à própria natureza deles; ainda assim, no primeiro ato de nossa conversão a vontade é meramente passiva, como um sujeito capaz de uma tal obra, não concorrendo cooperativamente para a nossa conversão de modo algum. Isso não é, eu digo, a causa da obra, mas o sujeito em que ela é operada, tendo apenas uma capacidade passiva para o recebimento dessa essência sobrenatural, que é introduzida pela graça. O início desta “boa obra” é de Deus somente (Filipenses 1:6). Sim, a fé é atribuída à graça, não por meio de cooperação com a nossa vontade, mas em oposição a ela: “isto não vem de vós, é dom de Deus” (Efésios 2:8). “Não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus” (2 Coríntios 3:5). “Converte-nos a ti, Senhor, e seremos convertidos” (Lamentações 5:21).

Em segundo lugar, embora a vontade do homem não dê qualquer consentimento na ocasião em que a graça é incialmente infundida, contudo há uma recepção subjetiva dela, ainda no primeiro ato, que é feita na e pela vontade, e então, ela coopera mui livremente (a propósito de subordinação) com a graça de Deus; e o mais efetivamente a vontade é movida pela graça, e mui voluntariamente ela opera com a graça. Então, assim, o homem que está sendo convertido pela graça, converte-se voluntariamente.

Em terceiro lugar, nós não afirmamos que a graça seja irresistível, como se ela viesse sobre a vontade com uma violência tal que subjuga e elimina a vontade humana, e a sujeite por compulsão, ao que ela não é de nenhuma maneira inclinável. Mas quando usamos este termo, temos em mente apenas uma eficácia tão invencível da graça que sempre e infalivelmente produz o seu efeito; pois, quem é que pode “resistir a Deus?” (Atos 11:17). Como também, isso pode ser usado quanto à vontade em si, a qual não resistirá à graça, pois, todo aquele que o Pai dá a Cristo virá a Ele (João 6:37). A operação da graça é não resistida por nenhum coração duro, porque ela pacifica o próprio coração. Ela não tanto tira um poder de resistir, como concede uma vontade de obedecer, pelo que a poderosa impotência da resistência é removida.

Em quarto lugar, em relação à graça em si, ou é comum ou especial. A Graça comum ou geral consiste na revelação externa da vontade de Deus através da Sua Palavra, com alguma iluminação da mente para percebê-la, e correção dos afetos, não tanto para desprezá-los; e isso, em algum grau ou outro, para alguns mais, para outros menos, é comum a todos os que são chamados. A Graça especial é a graça da regeneração, compreendendo a primeira, porém, acrescentando mais atos espirituais, porém especialmente pressupondo o propósito de Deus do que a sua eficácia principalmente depende.

Em quinto lugar, esta graça salvadora, pela qual o Senhor converte ou regenera um pecador, transportando-o da morte para a vida, é externa ou interna. A externa consiste na pregação da Palavra e etc., cujo funcionamento é pela forma de persuasão moral, quando por meio dela rogamos aos nossos ouvintes “da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” (2 Coríntios 5:20); e isso em nossa conversão é o agente instrumental da mesma, e pode ser considerada uma causa suficiente da nossa regeneração, na medida em que nenhum outro, de mesmo tipo, é necessário. Ela também pode ser resistida in sensu diviso, abstraindo a partir da consideração em que é vista como o instrumento de Deus para tal fim.

Em sexto lugar, a graça interna é distinguida, por teólogos, da graça inicial ou de prevenção, ou graça cooperante. A primeira é aquele princípio espiritual vital que é infundido em nós pelo Espírito Santo, aquela nova criação e concessão de uma nova força, pelo que somos conduzidos à capacidade para realizar ações espirituais, crer e prestar obediência evangélica: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras” (Efésios 2:10). Por esta graça interna Deus nos dá um coração novo, e põe dentro de nós um espírito novo, ele tira de nós o coração de pedra, e nos dá um coração de carne; ele põe dentro de nós o Seu Espírito, para que andemos nos Seus estatutos (Ezequiel 36:26-27).

Agora, esta primeira graça não é própria e formalmente um ato vital, mas somente causaliter [casualmente], sendo um princípio de movimento para tais atos vitais dentro de nós. O hábito da fé é concedido a um homem, para que ele seja capaz de suscitar e praticar os atos de fé, dando nova luz à compreensão, novas inclinações à vontade, e novas afeições ao coração, pois a eficácia infalível desta graça é o que nós pleiteamos contra os Arminianos. E entre aquelas inúmeras passagens da Sagrada Escritura que confirmam esta verdade, farei uso apenas de um número pequeno, reduzido a estes três tópicos:

Em primeiro lugar, nossa conversão é operada por uma ação Divina onipotente, a que a vontade do homem não irá, e portanto, não poderá resistir. A impotência da mesma não deve se opor a esta graça onipotente, que certamente efetuará a obra para a qual foi ordenada, sendo uma ação não inferior à “sobreexcelente grandeza do Seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus” (Efésios 1:19-20). E, este poder que pode superar o inferno, e desatar os laços da morte, não será eficaz para levantar um pecador da morte no pecado, quando, pela intenção de Deus, ela é designada a esta obra? Deus cumpre a “obra da fé com poder” (2 Tessalonicenses 1:11). É o “seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade” (2 Pedro 1:3). Certamente, a persuasão moral resistível não seria tantas vezes chamada de: o “poder” de Deus, o que denota uma eficácia real, a qual nenhuma criatura é capaz de resistir.

Em segundo lugar, posto que esta graça consiste em uma eficácia real — não pode de modo algum ser considerada assim, senão quando e onde ela realmente opera o que intenciona, e não pode ser resistida a ponto de tornar-se inoperante —, toda a sua natureza constitui uma operação real. Agora, que a própria essência da Divina graça consiste em um ato tão formal pode ser provado por todas as passagens da Escritura que afirmam que Deus, por Sua graça, ou a graça de Deus, na verdade, efetua a nossa conversão, refiro-me a passagens como Deuteronômio 30:6: “E o Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao Senhor teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas”. A circuncisão de nossos corações, para que possamos amar o Senhor com todo o nosso coração, e com toda a nossa alma, é nossa conversão, a qual o Senhor aqui afirma que Ele mesmo fará; não somente nos permite fazê-la, mas Ele mesmo, real e efetivamente o realizará. E, novamente: “Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração” (Jeremias 31:33). “Porei o meu temor nos seus corações, para que nunca se apartem de mim” (Jeremias 32:40). Ele não oferecerá o seu temor para eles, mas, na verdade, o porá dentro deles. E, mais claramente, Ezequiel 36:26-27: “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis”. Estas expressões são apenas uma persuasão moral? Porventura Deus afirma aqui que Ele fará o que Ele intenciona apenas persuadindo-nos, e que podemos recusar esta fazê-lo se quisermos? Está no poder de um coração de pedra o remover a si mesmo? Que pedra ativa é esta que tira a si mesma!? Em que este coração de pedra difere do coração de carne que Deus promete? Podemos dizer que um coração de pedra tem o poder de transformar-se em um coração de carne, de modo a fazer com que andemos nos estatutos de Deus? O fato é que, a menos que os homens fossem deliberadamente cegos, eles necessariamente perceberiam aqui a indicação de tal ação de Deus, de modo a operar a nossa conversão de maneira eficaz, única e infalível; abrindo os nossos corações para que estivéssemos atentos à Palavra (Atos 16:14) e concedendo que nós crêssemos em Cristo (Filipenses 1:29). Agora, estas e outras passagens semelhantes provam que a natureza da graça de Deus consiste em uma real eficácia e, portanto, a sua operação é seguramente eficaz.

Em terceiro lugar, nossa conversão é uma “nova criação”, uma “ressurreição”, um “novo nascimento”. Ora, Aquele que criou um homem não o convence a criar a si mesmo, e mesmo se este fosse o caso o homem não conseguiria, se Ele assim o fizesse. O homem não tem qualquer poder para resistir Àquele que deseja criá-lo, ou seja — como nós agora o consideramos —, transformando-o de algo que ele é em algo que ele não é. Quais argumentos você acha que seriam suficientes para convencer um homem morto a ressuscitar-se? Ou com que grande auxílio ele pode contribuir para a sua própria ressurreição? Nenhum homem gera a si mesmo; nenhuma verdadeira nova criação foi alguma vez introduzida em qualquer questão por meio de argumentos sutis. Estes são os termos que a Escritura tem o prazer de usar a respeito de nossa conversão: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é” (2 Coríntios 5:17). “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” (Efésios 4:24). Este é o nosso novo nascimento: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (João 3:3). “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade” (Tiago 1:18). E, assim, nós somos “de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” (1 Pedro 1:23). Esta é a nossa vivificação e ressurreição: “o Filho vivifica aqueles que quer” (João 5:21), mesmo aqueles “mortos”, que ouvem a Sua voz e vivem (versículo 25). “Estando nós ainda mortos em nossos delitos e pecados”, nós somos vivificados “juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)” (Efésios 2:5); pois, “Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus” (Colossenses 2:12). E “Bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes não tem poder a segunda morte; mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com ele mil anos” [Apocalipse 20:6].

Τῷ Θεῷ ἀριστομεγίστῳ δόξα.

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NOTAS:

Notas:

[1] “Deus statuit salvare credentes per gratiam, id est, lenem ac suavem liberoque ipsorum arbitrio convenientem seu congruam suasionem, non per omnipotentem actionem seu motionem.” — Armin. Antip., p. 211.
[2] Corv. ad Molin. — “His ita expositis ex mente Augustini,” etc. — Armin. Antip. De Elec.
[3] “Fatemur, aliam nobis ad actum fidei eliciendum necessariam gratiam non agnosci quam moralem.” — Rem. Act. Synod. ad Art. 4.
[4] “Annuntiatio doctrinae evangelicae.” — Popp. August. Port. p. 110.
[5] “Operatur in nobis velle quod bonum est, velle quod sanctum est, dum nos terrenis cupiditatibus deditos mutorum more animalium, tantummodo praesentia diligentes, futurae gloriae magnitudine et praemiorum pollicitatione, succendit: alum revelatione sapientiae in desiderium Dei stupentem suscitat voluntatem, dum nobis suadet omne quod bonum est.” — Pelag., ap. Aug. de Grat. Ch. cap. 10.
[6] “Ut autem assensus hic eliciatur in nobis, duo in primis necessaria sunt: — 1. Argumenta talia ex parte Dei, quibus nihil verisimiliter opponi potest cur credibilia non sint. 2. Pia docilitas animique probitas.” — Rem. Declar., cap. 17. sect. 1.
[7] “Ut gratia sit efficax in actu secundo pendet a libera voluntate.” — Rem. Apol., p. 164.
[8] “Imo ut confidentius again, dico effectum gratiae, ordinaria lege, pendere ab actu aliquo arbitrii.” — Grevinch, ad Ames., p. 198.
[9] “Manet semper in potestate Lib. Arbit. gratiam datam rejicere et subsequentem repudiare, quae gratia non est omnipotentis Dei actio, cui resisti a libero hominis arbitrio non possit.” — Armin. Antip., p. 243.

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♦ Fonte: CCEL.orgMonergism.com | Título Original: Display of Arminianism
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


As Elevadas Posições e Privilégios Concedidos aos Cristãos em Virtude da sua União com Cristo – Arthur Walkington Pink

“E da parte de Jesus Cristo, que é a fiel testemunha, o primogênito dentre os mortos e o príncipe dos reis da terra. Àquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados, e nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai; a ele glória e poder para todo o sempre. Amém.” (Apocalipse 1:5-6)

Duas evidências do amor de Cristo por Seu povo são mencionadas nesta oração: Sua purificação de seus pecados por Seu próprio sangue, e o Seu valoriza-los pelas dignidades Ele lhes concede. Mas há também uma terceira expressão e manifestação do Seu amor que, embora não claramente expressa, é necessariamente implícita aqui, ou seja, Sua provisão para eles. Como o resultado da obra que o Seu amor O levou a realizar em lugar deles, Ele meritoriamente garantiu o Espírito Santo para o Seu povo (Atos 2:33). Cristo, portanto, envia o Espírito Santo para regenerá-los, para tomar as coisas de Cristo e revelá-las a eles (João 16:14-15), para comunicar um conhecimento experiencial e salvífico do Senhor Jesus, e produzir fé em seus corações para que eles creiam nEle para a vida eterna. Eu digo que tudo isso está necessariamente implícito, pois somente por estas realidades eles são capacitados a real e sensivelmente exclamar “o qual me amou”, sim, de modo que cada um deles veja que este Cristo, o Filho de Deus “me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gálatas 2:20). Esta é a quintessência da verdadeira bem-aventurança, a saber, ser assegurado pelo Espírito da Palavra que eu sou um objeto de amor infinito e imutável de Cristo. O conhecimento disso torna-O “totalmente desejável” em minha estima (Cantares de Salomão 5:16), regozija a minha alma, e santifica minhas afeições.

Por meio da Fé Salvadora, Alguém Olha para Fora de Si Mesmo, para Cristo

Veja aqui a apropriada natureza da fé salvadora. Ela se apega a Cristo e Seu sacrifício pelos pecadores como feito conhecido pela Palavra da verdade. Ela diz: Aqui está uma carta de amor do céu sobre o glorioso evangelho do Filho de Deus, que relata o amor de Cristo e as mais fortes e maiores provas possíveis do mesmo. Eu vejo que esta carta é para mim, pois ela é dirigida aos pecadores, sim, até ao principal dos pecadores. Ela tanto convida quanto ordena-me a receber este Amável Ser Divino e acreditar sinceramente na suficiência de Seu sangue expiatório pelos meus pecados. Por isso, O tomo como Ele é oferecido gratuitamente pelo Evangelho, e confio em Sua própria palavra: “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (João 6:37). Esta fé não vem por sentimentos de meu amor a Cristo, mas pelo anúncio de Seu amor pelos pecadores (Romanos 5:8; 10:17). É verdade, o Espírito Santo, no dia do Seu poder, faz impressões sobre o coração pela Palavra. No entanto, o fundamento da fé não são essas impressões, mas o Evangelho em si mesmo. O objeto da fé não é Cristo operando no coração e suavizando-o, mas sim Cristo como Ele é apresentado para nossa aceitação na Palavra. O que nós somos chamados a ouvir não é Cristo falando secretamente dentro de nós, mas é Cristo que fala abertamente, objetivamente, sem nós.

Os Benditos Frutos da Fé Salvadora

Uma maldição mui terrível é pronunciada sobre todos os que “não amam ao Senhor Jesus Cristo” (1 Coríntios 16:22). Solene, em verdade, é perceber que essa maldição recai sobre a grande maioria dos nossos companheiros, mesmo nos países que têm a reputação de serem Cristãos. Mas por que algum pecador ama a Cristo? Alguém só pode fazê-lo, porque ele crê no amor de Cristo pelos pecadores. Ele percebe a maravilha e a preciosidade do mesmo; pois “a fé opera pelo amor” (Gálatas 5:6), mesmo pelo amor de Cristo, que se manifesta em nossa direção. Ela recebe ou toma o Seu amor para o coração. Em seguida, opera a paz na consciência, concede acesso consciente a Deus (Efésios 3:12), desperta alegria nEle, e promove a comunhão com e conformidade a Ele. Essa fé, implantada pelo Espírito Santo, que opera pelo amor – o reflexo de nossa apreensão e apropriação do amor de Cristo – mata nossa inimizade contra Deus e leva a nos deleitarmos com a Sua Lei (Romanos 7:22). Tal fé conhece, sob a autoridade da Palavra de Deus, que os nossos pecados – que eram a causa da nossa separação e alienação dEle – foram lavados pelo sangue expiatório de Cristo. Quão inefavelmente bendito é saber que na plenitude dos tempos, Cristo apareceu “para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Hebreus 9:26), e que Deus diz sobre todos os crentes “e jamais me lembrarei de seus pecados e de suas iniquidades” (Hebreus 10:17).

Sobre nossa confiança nos testemunhos Divinos do Evangelho dependem, em grande medida, tanto a nossa santidade prática quanto o nosso consolo. Nosso amor a Cristo e adoração a Ele crescerá ou diminuirá em proporção à nossa fé na Pessoa e obra de Cristo. Onde existe uma garantia pessoal do Seu amor, não pode deixar de haver uma união com os santos no céu em louvor a Cristo por lavar-nos de nossos pecados (Apocalipse 5:9-10). Mas muitos se oporão: “Eu ainda tenho tanto pecado em mim; e tantas vezes obtêm o domínio sobre mim, de modo que eu não me atrevo a acalentar a segurança de que Cristo me lavou dos meus pecados”. Se isso este é o seu caso, eu pergunto: Você se lamenta a respeito de suas corrupções, e sinceramente deseja ser para sempre livrar delas? Se assim for, isso é prova de que você tem o direito de se alegrar no sangue expiatório de Cristo. Deus vê quão apropriado é deixar o pecado em você, para que nesta vida você seja mantido humilde diante dEle e maravilhe-se mais em Sua longanimidade. É Sua designação que o Cordeiro seja agora comido “com ervas amargas” (Êxodo 12:8). Este mundo não é o lugar do seu descanso. Deus permite que você seja assediado por suas concupiscências, para que você olhe adiante mais ansiosamente pela libertação e descanso que esperam por você. Embora Romanos 7:14-25 descreva com precisão a sua experiência presente, Romanos 8:1 também declara: “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus!” (Romanos 8:1).

As Elevadas Posições e Privilégios Concedidos aos Cristãos em Virtude da União com Cristo

“E nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai”. Aqui está o terceiro motivo inspirador para a atribuição que se segue. Tendo reconhecido o endividamento dos santos pelo amor e sacrifício do Salvador, o apóstolo João agora celebra, na linguagem dos “espíritos dos justos aperfeiçoados” (Apocalipse 1:6; Hebreus 12:23), as elevadas dignidades que Ele lhes conferiu. Nós, que somos filhos do Altíssimo, na devida medida, somos feitos participantes das honras dAquele que é o Rei dos reis e nosso grande Sumo Sacerdote; e a apreensão deste fato evoca uma canção de louvor a Deus. Quando percebemos que o Senhor Jesus compartilha Suas próprias honras com Seus remidos, conferindo-lhes tanto dignidade real quanto sacerdotal proximidade de Deus, não podemos deixar de exclamar, com exultação: “a ele glória e poder para todo o sempre. Somos virtualmente feitos reis e sacerdotes quando Ele contraiu o cumprimento dos termos da aliança eterna, por este engajamento, fomos assim constituídos. Por compra fomos feitos reis e sacerdotes quando Ele pagou o preço de nossa redenção, pois foi por Seus méritos que Ele comprou esses privilégios para nós. Federalmente fomos feitos assim, quando Ele subiu às alturas (Efésios 4:8; 2:6) e entrou no interior do véu como nosso Precursor (Hebreus 6:19-20). De fato, nós somos feitos assim em nossa regeneração, quando nos tornamos participantes de Sua unção.

“E nos fez reis e sacerdotes para Deus”. Aqui nós temos o Redentor exaltando e enobrecendo Seus remidos. Isto pressupõe e decorre do nosso perdão, e é o resultado positivo da obediência meritória de Cristo à Lei de Deus (sem a qual Ele não poderia ter morrido no lugar dos pecadores). Aquele que nos amou não somente removeu nossas impurezas, mas também nos tem restaurado ao favor e comunhão Divinos. Além disso, Ele garantiu para nós uma recompensa gloriosa; Ele tomou o nosso lugar para que pudéssemos compartilhar o Seu. A fim de que possamos ser protegidos de certos erros insidiosos, que trouxeram não poucos dos filhos de Deus em cativeiro, é importante perceber que essas designações não pertencem apenas a uma classe muito seleta e elevada de Cristãos, mas também a todos os crentes. Também é necessário, para que não sejamos roubados pelo Dispensacionalismo, que compreendamos que essas dignidades pertencem a nós agora. Elas não estão adiadas até a nossa chegada no céu, e muito menos até ao amanhecer do milênio. Cada santo tem estas duas honrarias conferidas a ele de uma vez: ele é um sacerdote real, e um rei sacerdotal. Aqui vemos a dignidade e nobreza do povo do Senhor. O mundo olha para nós como miseráveis e desprezíveis, mas Ele fala sobre nós como “ilustres em quem está todo o meu prazer” (Salmos 16:3).

Quando Paulo diz em 2 Coríntios 1:21 que Deus “nos confirma convosco em Cristo, e o que nos ungiu, é Deus”, ele está indicando que Deus nos fez reis e sacerdotes; pois a palavra ungido é expressivo de dignidade. Reis e sacerdotes eram ungidos quando inauguravam em seus ofícios. Portanto, quando se diz que Deus ungiu todos os que estão em Cristo Jesus, ele dá a entender que Ele os qualificou e autorizou ao cumprimento desses cargos elevados. Ao elaborar um nítido contraste entre os crentes verdadeiros e falsos irmãos e falsos mestres, o apóstolo João diz: “E vós tendes a unção do Santo… E a unção que vós recebestes dele, fica em vós” (1 João 2: 20, 27). Temos uma participação na unção de Cristo (Atos 10:38), recebendo o mesmo Espírito com que Ele foi ungido (um belo tipo da unção de Cristo é apresentado em Salmos 133:2). A bem-aventurança dos eleitos aparece na medida em que são feitos reis e sacerdotes, em virtude do Nome em que eles são apresentados diante de Deus. Aqueles que “recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo” (Romano 5:17). Embora em todas as coisas Cristo tenha a primazia, sendo “o Rei dos reis”, pois Ele foi “ungido com óleo de alegria mais do que a teus [Seus] companheiros” (Salmos 45:7), ainda assim, os Seus companheiros são investidos com a realeza; e “qual ele é, somos nós também neste mundo” (1 João 4:17). Oh, deve a fé o apropriar-se desse fato, e pela graça conduzir-nos em conformidade com ele!

Aparentemente, há um contraste projetado entre as duas expressões, “os reis da terra” e “nos fez reis e sacerdotes para Deus”. Eles são reis, naturalmente, nós espiritualmente; eles quanto aos homens, nós quanto a Deus. Eles são apenas reis, mas nós somos ambos, reis e sacerdotes. O domínio dos monarcas terrestres é apenas passageiro; sua glória real desaparece rapidamente. Mesmo a glória de Salomão, que superou a de todos os reis da terra foi apenas de curta duração. Mas nós seremos co-regentes com um Rei, cuja fundação do trono (Apocalipse 3:21) é indestrutível, cujo cetro é eterno, e cujo domínio é universal (Mateus 28:18; Apocalipse 21:7). Devemos nos vestir com a imortalidade e ser investidos de uma glória que nunca se esmaecerá. Os crentes são reis, não no sentido de que eles tomam parte no governo do céu sobre a terra, mas como partícipes da vitória de seu Senhor sobre Satanás, o pecado e o mundo. Nisso os Cristãos também são distinguidos dos anjos, pois eles não são reis, nem jamais reinarão, pois eles não são ungidos. Eles não têm união com o Filho de Deus encarnado, e, portanto, eles não são “coerdeiros com Cristo”, como são os redimidos (Romanos 8:17). Assim, longe disso, todos eles são “espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação” (Hebreus 1:14). Dele é um lugar subordinado e uma tarefa subserviente!

Um Domínio Moral Exercido pelo Cristão

Cristo não apenas realizou uma grande obra para o Seu povo, mas Ele efetua uma grande obra neles. Ele não apenas os lava de seus pecados, os quais Ele odeia, mas Ele também transforma pelo Seu poder as pessoas deles, as quais Ele ama. Ele não os deixa como Ele os encontra inicialmente sob o domínio de Satanás, o pecado e o mundo. Não, mas Ele torna os reis. Um rei é aquele que é chamado para governar, que é investido de autoridade, e que exerce o domínio; e assim o fazem os crentes sobre os seus inimigos. É verdade que alguns dos sujeitos a que somos chamados para governar são fortes e turbulentos, ainda assim, somos “mais do que vencedores, por meio daquele que nos amou” (Romanos 8:37). O Cristão é “rei a quem não se pode resistir” (Provérbios 30:31). Embora ele seja muitas vezes superado em sua pessoa, contudo ele nunca deve ser superado em sua causa. Ainda há uma lei em seus membros guerreando contra a lei de seu espírito (Romanos 8:23), mas o pecado não terá domínio sobre ele (Romanos 6:14). Uma vez o mundo o mantinha em cativeiro, presumindo ditar a sua conduta, de modo que ele temia desafiar seus costumes e envergonhava-se de ignorar suas regras de conduta, mas agora “todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé” (1 João 5:4). Por meio do dom da graça Divina da fé, somos capazes de buscar a nossa porção e deleite nas coisas de cima. Observe bem as palavras de Thomas Manton sobre este assunto:

Rei é um nome de honra, poder e ampla possessão. Aqui nós reinamos espiritualmente, enquanto vencemos o diabo, o mundo e a carne, em alguma medida. É algo principesco estar acima dessas coisas inferiores e pisar tudo sob os nossos pés em uma santa e celeste dignidade. Um pagão poderia dizer: “Ele é um rei que não teme nada e não deseja nada”. Aquele que está acima das esperanças e temores do mundo, aquele que tem o coração no céu e está acima das ninharias temporais, dos altos e baixos do mundo, o mundo sob suas afeições; este homem é de um espírito real. O reino de Cristo não é deste mundo, nem o é o de um crente. “E para o nosso Deus nos fizeste reis e sacerdotes; e reinaremos sobre a terra” (Apocalipse 5:10), ou seja, de uma forma espiritual. É algo bestial atender às nossas concupiscências, por outro lado é algo majestoso ter a nossa conversação no céu e vencer o mundo para viver de acordo com a nossa fé e amor com um espírito nobre. Depois, reinaremos visível e gloriosamente quando nos assentarmos no trono com Cristo.

Os santos ainda julgarão o mundo, sim, e também os anjos (1 Coríntios 6:2-3).

A Superioridade do Auto-Governo sobre a Regra Secular

O trabalho que é atribuído ao Cristão como um rei é governar a si mesmo. “Melhor é o que tarda em irar-se do que o poderoso, e o que controla o seu ânimo do que aquele que toma uma cidade” (Provérbios 16:32). Como um rei o Cristão é chamado a mortificar a sua própria carne, resistir ao diabo, disciplinar seu temperamento, subjugar suas paixões e trazer cativo todo pensamento à obediência de Cristo (2 Coríntios 10:5). Essa é uma tarefa que dura por toda a vida. O Cristão não consegue realizá-la em sua própria força. É o seu dever buscar capacitação do alto, e recorrer à plenitude da graça que está disponível para ele em Cristo. O coração é o seu reino (Provérbios 4:23); e é sua responsabilidade fazerem a razão e a consciência, ambos formados pela Palavra de Deus, governarem os seus desejos de modo que a sua vontade seja sujeita a Deus. É exigido dEle ser o mestre de seus apetites e regulador de suas afeições, negar concupiscências ímpias e mundanas, e viver sóbria, justa e piedosamente neste mundo. Ele deve “de tudo se abster” (1 Coríntios 9:25). Ele deve subjugar sua impetuosidade e impaciência, recusar a vingar-se quando os outros o prejudicam, refrear suas paixões, “vencer o mal com o bem” (Romanos 12:21), e ter tal controle de si mesmo que ele se alegre com tremor (Salmos 2:11). Ele deve aprender o contentamento em cada estado ou condição de vida que Deus, em Sua sábia e boa providência tenha o prazer de colocá-lo (Filipenses 4:11).

Alguns monarcas terrenos têm não poucos súditos infiéis e indisciplinados que os invejam e os odeiam, que se irritam com seu cetro, e que querem depô-los. No entanto, eles ainda mantêm seus tronos. Da mesma maneira, o rei Cristão tem muitas e rebeldes concupiscências e traidoras disposições que se opõem e resistem continuamente ao seu governo, no entanto, ele deve buscar graça para contê-las. Em vez de esperar a derrota, é o seu privilégio ter a certeza: “Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece” (Filipenses 4:13). O apóstolo Paulo estava exercendo seu ofício real, quando ele declarou: “Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma” (1 Coríntios 6:12). É nisso ele nos deixou um exemplo (1 Coríntios 11:1). Ele também estava conduzindo-se como um rei quando ele disse: “Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão” (1 Coríntios 9:27). No entanto, como tudo nesta vida, o exercício do nosso ofício real é muito imperfeito. Ainda não temos entrado totalmente em nossas honras reais ou agido em nossa dignidade real. Ainda não recebemos a coroa, ou nos sentamos com Cristo em Seu trono, cujas cerimônias de coroação são essenciais para a manifestação completa de nosso reinado. No entanto, a coroa está guardada para nós, uma mansão (infinitamente superior ao Palácio de Buckingham) está sendo preparado para nós, e essa promessa é nossa: “E o Deus de paz esmagará em breve Satanás debaixo dos vossos pés” (Romanos 16:20).

Os Privilégios Sacerdotais e Deveres do Crente

Seguindo meu costume habitual, tenho me esforçado para fornecer o máximo de auxílio onde comentaristas e outros expositores forneceram o mínimo. Tendo procurado explicar em algum pormenor o ofício real do crente, menos necessita ser dito sobre o ofício sacerdotal. Um sacerdote é aquele a quem é dado um lugar de proximidade de Deus, quem tem acesso a Ele, que tem santo relacionamento com Ele. É o seu privilégio ser admitido à presença do Pai e ser dado sinais especiais de Seu favor. Ele tem um serviço Divino a executar. Seu ofício é um de grande honra e dignidade (Hebreus 5:4-5). No entanto, isso não se refere a nenhuma hierarquia eclesiástica, mas é comum a todos os crentes. “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real”. Os Cristãos são “o sacerdócio real” ordenado a “oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” (1 Pedro 2:5, 9). Eles são adoradores da majestade Divina, e trazem com eles um sacrifício de louvor (Hebreus 13:15). “Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens buscar a lei” (Malaquias 2:7). Como sacerdotes, eles devem ser intercessores por todos os homens, especialmente pelos reis e por todos os que estão em posição de autoridade (1 Timóteo 2:1-2). Mas o exercício pleno e perfeito de nosso sacerdócio está no futuro, quando, livres do pecado e dos temores carnais, veremos a Deus face a face e O adoraremos de forma ininterrupta.

Uma Doxologia Apropriada com Base em Quem Cristo é e no Que Ele fez

“A ele glória e poder para todo o sempre. Amém” [Apocalipse 1:6]. Este é um ato de adoração, uma atribuição de louvor, um suspiro de adoração ao Redentor a partir do coração dos redimidos. Cristãos variam muito em suas capacidades e realizações, e eles diferem em muitos pontos de vista e práticas menores. Mas todos eles se unem com o apóstolo nisso. Todos os Cristãos têm substancialmente as mesmas visões de Cristo e o mesmo amor por Ele. Onde quer que o Evangelho tenha sido salvificamente apreendido, ele não pode deixar de produzir este efeito. Primeiro, há um reconhecimento devoto do que o Senhor Jesus fez por nós, e, em seguida, uma doxologia prestada a Ele. Enquanto contemplarmos quem foi que nos amou – não um companheiro mortal, mas Deus – nós não podemos senão nos prostrar diante dEle em adoração. Ao considerarmos o que Ele fez por nós: derramou Seu sangue precioso, os nossos corações são inclinados em amor a Ele. Na medida em que percebemos como Ele concedeu tais dignidades maravilhosas sobre nós, fazendo-nos reis e sacerdotes, não podemos deixar de lançar nossas coroas aos Seus pés (Apocalipse 4:10). Quando esses sentimentos verdadeiramente dominam a alma, a Cristo será concedido o trono de nossos corações. Nosso desejo mais profundo será o de agradar a Deus e viver para Sua glória.

“A ele glória”. Esta é uma palavra que significa (1) brilho visível ou esplendor, ou (2) uma excelência de caráter que coloca uma pessoa (ou coisa) em uma posição de boa reputação, honra e louvor. A “glória de Deus” denota principalmente a excelência do Seu Ser Divino e as perfeições de Seu caráter. A “glória de Cristo” compreende Sua Divindade essencial, as perfeições morais de Sua humanidade, e o alto valor de todos os Seus ofícios. Secundariamente, as manifestações físicas da glória de Jeová (Êxodo 3:2-6; 13:21-22) e do Seu ungido (Mateus 17:1-9) são derivadas da grande santidade do Deus Triuno (Êxodo 20:18-19; 33:17-23; Juízes 13:22; 1 Timóteo 6:16). Cristo tem uma glória intrínseca como o Filho de Deus (João 17:5). Ele tem uma glória oficial como o Mediador Deus-Homem (Hebreus 2:9). Ele tem uma glória meritória como a recompensa de Seu trabalho, e isso Ele compartilha com Seus remidos (João 17:5). Em nosso texto, glória é atribuída a Ele, por cada uma das seguintes razões. Cristo é aqui magnificado tanto pela excelência não-derivada de sua Pessoa que O exalta infinitamente acima de todas as criaturas e pela Sua glória adquirida que ainda será exibida diante de um universo reunido [...]. Há uma glória que pertence a Ele como Deus encarnado, e isso foi proclamado pelos anjos sobre as planícies de Belém (Lucas 2:14). Há uma glória que pertence a Ele, em consequência de Seu ofício e obra de Mediador, e que pode ser devidamente celebrada apenas pelos remidos.

 

“E poder”. Isto, também, pertence a Ele em primeiro lugar por direito como o Deus eterno. Como tal o domínio de Cristo é não-derivado e supremo. Como tal, Ele tem soberania absoluta sobre todas as criaturas, estando o próprio diabo sob Seu domínio. Além disso, o domínio universal também é Seu por mérito. Deus fez “a esse Jesus”, a quem os homens crucificaram, “Senhor e Cristo” (Atos 2:36). Toda autoridade é dada a Ele, tanto no céu como na terra (Mateus 28:18). Isso foi prometido a Ele na aliança eterna como recompensa de Seu grande empreendimento. O reino mediatório de Cristo está fundamentado sobre a Sua morte sacrificial e ressurreição triunfante. Estas dignidades são Suas “para todo o sempre”, pois “Do aumento deste principado e da paz não haverá fim” (Isaías 9:7, cf. Daniel 7:13-14). Por meio de um fiel “Amém”, estabeleçamos o nosso selo à veracidade da declaração de Deus.

Bem-aventurado é isso, que antes de qualquer anúncio seja feito sobre os terríveis juízos descritos no Apocalipse, antes de uma trombeta da desgraça seja tocada, antes de um cálice da ira de Deus ser derramado sobre a terra, os santos (pela bênção inspirada de João) são primeiramente ouvidos louvando no cântico do Cordeiro:

“Aquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados, E nos fez reis e sacerdotes [não para nós mesmos, mas] para Deus e seu Pai [para a Sua honra]; a ele glória e poder para todo o sempre. Amém”!

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♦ Este texto é o Capítulo 14 do Livro A Guide to Fervent Prayer, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: A Guide to Fervent Prayer
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Senhor, Queríamos Ver a Jesus – Robert Murray M’Cheyne

“Ora, havia alguns gregos, entre os que tinham subido a adorar no dia da festa. Estes, pois, dirigiram-se a Filipe, que era de Betsaida da Galiléia, e rogaram-lhe, dizendo: Senhor, queríamos ver a Jesus. Filipe foi dizê-lo a André, e então André e Filipe o disseram a Jesus. E Jesus lhes respondeu, dizendo: É chegada a hora em que o Filho do homem há de ser glorificado. Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto. Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo odeia a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna. Se alguém me serve, siga-me, e onde eu estiver, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, meu Pai o honrará” (João 12:20-26).

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I. A maneira pela qual esses gregos buscaram ao Senhor Jesus.

1. Eles não vieram diretamente a Cristo, mas de uma indireta: “dirigiram-se a Filipe” (v. 21). Se eles tivessem sentido o peso intolerável do pecado que estava sobre eles, ou se eles tivessem visto a graça e a adequação do Senhor Jesus, eles teriam corrido aos Seus pés; mas sua preocupação era verdadeiramente muito leve. Quando os publicanos e pecadores foram despertados sobre suas almas, diz-se que se chegaram a Jesus. Eles não vão para Filipe, ou André, ou a qualquer homem, mas eles são atraídos para perto de Cristo. Eles viram que ele era a Fonte para as suas almas culpadas, e todo o mundo não poderia mantê-los afastados dEle. Quando a mulher que era uma pecadora soube que Jesus estava à mesa na casa do Fariseu, ela prostrou-se aos Seus pés. Ela não pediu licença, ela não conseguiu permanecer em pé, mas lançou a sua alma culpada aos Seus pés, os lavou com as suas lágrimas e enxugou-os com os cabelos da sua cabeça. Assim ainda é. Se você sentiu o peso do pecado como você deve senti-lo, se você sentiu a graça de Cristo como é devido, você romperia a multidão para chegar a Jesus. Você diria: “Dê-me caminho, para que eu possa ir a Ele. Ele me chama, Ele chama o principal dos pecadores. Eis-aqui, Senhor; lava-me no Teu sangue, senão eu morro”. Se você sentir a cor carmesim de sua alma, e crer na gratuidade e plenitude da Fonte, você não pedirá a licença de ninguém, mas irá direto a Jesus.

2. Eles pediram apenas para ver Jesus: “Senhor, queríamos ver a Jesus”. Isso mostra o quão pouco era a seriedade do desejo que eles tinham de serem salvos por Cristo, pela mesma causa Zaqueu subiu na figueira, para ver Jesus, para saber quem Ele era. Pela mesma causa Herodes desejava há muito tempo ver Jesus; pois ele esperava ver algum sinal feito por Ele; assim como você gostaria de ver algum malabarista ou cartomante, com uma curiosidade terrena, mundana. De alguns é dito: “Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes” (João 6:26). Ah! quão diferente quando os homens são verdadeiramente despertados pelo Espírito. Quando Jó estava sob preocupação de alma, seu clamor foi: “Ah, se eu soubesse onde o poderia achar! Então me chegaria ao seu tribunal” [Jó 23:3]. Quão diferente é o clamor da noiva: “Agarrei-me a ele, e não o larguei; eu sou do meu amado, e o meu amado é meu;” [Cânticos 3:4; 6:3]. Quão diferente é o clamor de Paulo: “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo, e seja achado nele” [Filipenses 3:8-9]. Oh! Irmãos, se vocês estão sob o ensino do Espírito, a mera visão exterior de Cristo não satisfará a vossa alma. É necessário ter uma visão do coração e deleite do coração dEle. Vocês devem provar e ver que o Senhor é bom. Muitos de vocês gostam de ouvir sobre Jesus, vocês gostam de ser entretidos com as refinadas descrições sobre Jesus; mas se vocês estão sob o ensino do Espírito, nada os satisfará, senão sentarem-se à Sua sombra, a serem achados nEle, para serem a pomba escondida por Sua própria mão nas “fendas das penhas, no oculto das ladeiras” [Cânticos 2:14], serem lavados em Seu sangue, e serem feitos novas criaturas por meio de Seu Espírito.

3. Uma razão de sua pequena preocupação era o temor do homem. A fúria dos inimigos de Cristo estava aumentando mais e mais, poucos dias antes eles chegaram à solene resolução de matá-lO. Não, nós é dito que consultaram como eles também poderiam matar a Lázaro, de tão sanguinários que eles haviam se tornado (v. 10). É-nos dito que muitos dos principais creram nEle; mas não O confessavam por causa dos Fariseus (v. 42). Porque amavam a glória dos homens mais do que a glória de Deus. Não pode haver dúvida, então, que o ardor e a raiva dos inimigos de Cristo amorteceram consideravelmente a preocupação destes gregos. Provavelmente foi isso o que fez com que eles solicitassem primeiro a Filipe. Isso os fez cautelosos em suas palavras: “Senhor, queríamos ver a Jesus”. Como realmente é dito: “O temor do homem leva a uma armadilha!”. O rugido do leão tem levado muitas almas para longe de Cristo. Não é este o caso entre vocês? “O que dirá a minha família; o que dirão os meus companheiros; o que o mundo dirá, se eu fosse a Cristo e renunciasse a tudo por Ele?”. Estes três rugidos do leão têm arruinado muitas almas. Quantos de vocês, por vezes, sentiram um desejo real por serem salvos? Talvez vocês caíram de joelhos e oraram sinceramente para serem libertos. Mas algum companheiro veio, algumas folias foram propostas, e vocês não tiveram a coragem de dizer: “Não”. Vocês gostariam de dizer: “eu comecei a buscar o Senhor, eu fui aos meus joelhos, eu tenho orado para que eu possa ser salvo”; mas vocês não conseguiram dizê-lo, a vossa língua ficou presa às suas mandíbulas; e assim, vocês voltaram ao seu vômito, e a chafurdar na lama. Ai! Vocês amaram mais a glória dos homens do que a glória de Deus. “Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?” [João 5:44]. Que coisa tola é temer a carranca de um verme do pó mais do que a carranca do Deus infinito! Temer o riso do escarnecedor mais do que a frase de Cristo: “Apartai-vos de mim, malditos”, “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo” [Mateus 10:28].

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II. A resposta de Cristo.

1. Ele lhes mostra que Ele tem que morrer antes que os homens O busquem em seriedade: “É chegada a hora em que o Filho do homem há de ser glorificado”. (v. 23). Há algo de muito profundo e solene nesta resposta de Cristo. Ele viu que esses gregos não tinham nenhum senso lancinante de sua necessidade dEle; e Ele explica aos discípulos que é apenas um vislumbre dEle como um Cristo crucificado que atrairá os homens a Ele. Como se Ele dissesse, eu sou como um grão de trigo, se este não for cair na terra e morrer, ele ficará sozinho; mas se for semeado, e morrer, dá muito fruto. Então, se Eu não morrer, os homens não serão atraídos a Mim; mas se Eu morrer pelos pecadores, e deitar-Me na sepultura por eles, então eles serão atraídos a Mim.

(1). A morte do Senhor Jesus é a visão mais despertadora no mundo. Por que essa amável Ser que era desde o princípio o resplendor da glória de Seu Pai, e a expressa imagem da Sua pessoa, degrada-Se a tal ponto de tornar-Se como um pequeno grão de trigo, que é escondido sob a terra e morre? Por que Ele se deita no frio sepulcro rochoso? Não foi que havia ira infinita e indescritível repousando sobre os homens? Será que Cristo choraria sobre Jerusalém, se não houvesse o inferno debaixo dela? Ele teria morrido sob a ira de seu Pai se não houvesse a ira vindoura? Oh! Pecadores confiados e levianos quanto ao Evangelho, ouvintes educados que dizem muitas vezes: “Senhor, queríamos ver a Jesus”, mas que nunca O encontram, vão para o Getsêmani, vejam as Suas agonias indizíveis; vão ao Gólgota, vejam o cálice da ira derramado sobre o Seu coração partido; vão ao sepulcro, vejam o grão de trigo morto colocado no chão. Por que todo esse sofrimento do Único impecável, se não houver ira vindoura sobre a desabrigada cabeça incrédula? Oh! O grão de trigo no chão é a visão mais despertadora no universo.

(2) Esta é a mais visão mais atraente: “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim” [João 12:32]. Aqueles pobres gregos não sentiram muito de sua necessidade de Cristo, mas ainda menos eles viram a Sua adequação para a necessidade deles. Se eles tivessem apenas visto que abrigo para os pecadores havia nas suas feridas, se eles tivessem visto quanto espaço havia para o principal dos pecadores, eles teriam rompido todas as dificuldades para chegarem a Jesus. Nada no mundo os teria mantido afastados de Cristo. O temor do homem teria sido como uma palha; eles não teriam clamado: “Senhor, queríamos ver a Jesus”, mas, “Leva-me tu; correremos após ti” [Cânticos 1:4]”, “Esconda-me nas fendas das rochas”, “faze-me assentar à sombra da macieira”. Foi essa visão que atraiu três mil para Jesus no dia de Pentecostes. O grão de trigo morrendo por nós é a verdadeira magnetita para atrair corações de ferro a Ele. Na magnetita natural, o ferro pode ser retirado novamente, mas a alma uma vez atraída a Cristo nunca mais pode ser afastada.

Oh! Orem por um vislumbre atraidor do Senhor Jesus Cristo. Alguns de vocês estão nesta condição. O Senhor Jesus está de um lado, Satanás do outro, e vocês no meio, e ambos estão atraindo vossas almas. Oh! Oremos para que o Senhor Jesus triunfe. Seus braços abertos na cruz estão chamando vocês, o ferimento no lado está convidando vocês. “Em mim tenhais paz” [João 16:33].

2. Que os homens devem se unir a Ele a qualquer custo (V. 25). Aqueles pobres gregos estavam sob o temor do homem. Eles estavam com medo que serem expulsos da sinagoga, ou talvez se serem chamados galileus ou nazarenos, ou talvez eles seriam ridicularizados, e perderiam a glória dos homens; e isso os fez muito cautelosos em sua abordagem ao Salvador. Agora, o Senhor Jesus mostra-lhes que esta não é a maneira que almas despertadas devem procurá-lo. Como se Ele dissesse: Vá e diga-lhes que ao vir a mim, eles estão vindo para a vida eterna, e, portanto, qualquer outra consideração deve ser posta de lado. Eu sou a única coisa necessária, Eu sou a pérola de grande valor. Aqueles que Me procuram deve deixar de lado tudo o que se interpõe no caminho. Mesmo se eles perderem a sua vida ao virem até Mim, eles encontrariam a vida eterna. “Quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á” [Mateus 10:39]. Aqueles que conhecem o valor real de Cristo farão tudo subordinado à sua buscar por Ele. Aqueles que assim não fizerem nunca encontra-lO-ão.

(1) Considerem quão precioso é Cristo: “Nele está a vida eterna”. NEle há perdão para o mais vil dos pecadores. NEle há doce paz de consciência, a Paz com Deus. NEle há descanso para a alma cansada, o Caminho para o Pai, uma Porta aberta para o rebanho de Deus. NEle há um Manancial de águas vivas, insondáveis riquezas, plenos suprimentos de graça e de verdade para as almas fracas e cansadas. NEle há absolvição no Dia do Juízo, e uma gloriosa coroa. Oh! vocês não deveriam deixar tudo por isso? Será que um desejo, ou um prazer, ou um jogo, ou o sorriso de um amigo, o afastará de tudo isso? “As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam” [1 Coríntios 2:9].

(2.) Considere quão triste é o seu caso sem Ele. O número de seus pecados é infinito: “Males sem número me têm rodeado” [Salmos 40:12]. Seu coração está tão cheio como sempre, pronto para brotar pecado por toda a eternidade. Deus está irado com você todos os dias. Não há refúgio, senão Cristo. Se você não estiver nEle, você nunca será salvo. Você estará fora da arca quando o dilúvio vier. Você baterá e clamará: Senhor! Senhor! mas será tarde demais. Deus será seu inimigo. O grande dia da Sua ira virá, e quem subsistirá? Alguns de vocês tem sentido alguma fagulha de preocupação; vocês nunca sentiram a milionésima parte do que é a verdade. Oh! Então, vocês deixarão que alguma miserável luxúria, ou orgulho, ou algo com aparência de amor, alguma Herodias, o mantenha fora de Cristo?

Seja compelido a apegar-se a Ele a qualquer custo. Se algum negócio vier entre, tomar muito tempo, perturbar os seus Sabaths, o impedir de vir a Cristo, abra mão disto. Se algum prazer lhe seve de embaraço, interrompe as suas convicções, o enfraquece em oração e leitura da Bíblia, vivifica o seu desejo pelo mundo e pelo pecado, renuncie a tal coisa. Se algum amigo estiver entre você e Cristo, se a companhia deles indispõe você a buscar a Cristo, retire de sua mente, se a conversa vã e ridícula deles o traz de volta ao mundo, deixe-os ir. Não importa se eles rirem e zombarem, pensarem que você é estranho, ridículo, o chamarem de metodista; não importa, uma coisa é necessária, Cristo é precioso, a eternidade está próxima. Se você não fizer isso, você perderá a sua alma. Como Paulo, eu considero tudo como perda.

3. Se queremos ser Cristãos, devemos nos entregar ao Seu serviço para sempre. Os pobres gregos diziam: “Senhor, queríamos ver a Jesus”. Jesus aqui diz-lhes que uma mera visão dEle não funcionará: “Se alguém me serve, siga-me”. Muitas pessoas estão dispostas a serem salvas do inferno; mas elas não estão dispostas a entregarem-se a Cristo para serem Seus servos e seguidores; mas todo aquele que está sob o ensino do Espírito, entrega-se para ser do Senhor. Assim foi com Mateus. “E disse-lhe: Segue-me. E ele, levantando-se, o seguiu” [Mateus 9:9]. Aquele que é verdadeiramente ensinado por Deus sente o pecado interior como um fardo maior do que o medo do inferno: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum” [Romanos 7:18]. “Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?” [Romanos 7:24]. Assim, aquela alma está disposta a ser serva de Cristo para sempre, disposta a ter a orelha furada à porta da casa de Cristo.

Isso desvelará os hipócritas. Você está disposto a ser um servo de Cristo, a segui-lO em deveres difíceis, a ser trazido sob as regras do Evangelho? Se não, você é um hipócrita. Considerem o custo de vir a Cristo.

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III.
A recompensa.

1. Vocês estarão com Cristo. Vocês podem ser expulsos por homens, pai e mãe; serem tratados como a escória de todas as coisas. “Hoje estarás comigo no Paraíso” [Lucas 23:43]; estarão com o Cordeiro no Monte Sião. Sentem-se coMigo no Meu trono: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste” [João 17:24].

2. O Pai vos honrará. Vocês perderão o louvor dos homens, talvez de alguns que vocês estimam; mas vocês ganharão a honra de Deus.

(1). Neste mundo. Vós sois um tesouro peculiar. Ele vos guiará com Seus olhos, ouvirá a vossa oração, estará com vocês nas tribulações, vos encherá com o Seu Espírito, dará aos Seus anjos ordens ao vosso respeito, estará com vocês na morte.

(2). Na eternidade. Ele vos receberá, mostrar-lhes-á a Sua salvação, enxugará as lágrimas de seus olhos, será o seu Deus e porção. Jesus vos confessará diante de Seu Pai: Essa alma Me seguiu.

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♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título Original: Sir, We Would See Jesus
♦ A
s citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida e Revisada Fiel)

♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


A Vida e o Ministério de Charles Spurgeon – Por John Piper

Palestra Inaugural sobre Spurgeon no Reformed Theological Seminary. Orlando, Flórida, 10 abril de 2013.

Charles Spurgeon era o tipo de Calvinista que teria celebrado a fundação do Instituto Nicole de Estudos Batistas [Nicole Institute of Baptist Studies] neste Seminário Teológico Reformado não-Batista [Reformed Theological Seminary], em Orlando. Uma das razões pelas quais podemos saber disso é que Spurgeon nomeou George Rogers para ser o primeiro diretor de seu Colégio de Pastores. Rogers era um Congregacional pedobatista. Ele não poderia nem mesmo ter sido um membro da igreja pastoreada pelo próprio Spurgeon, o Tabernáculo Metropolitano1.

Spurgeon era Batista, mas como alguns de nós, e talvez como Roger Nicole, ele nem sempre encontrou os seus mais profundos irmãos-de-alma entre sua própria denominação Batista. Ele colocou isto desta forma:

Se eu discordar de um homem em 99 pontos, mas acontecer de eu ser um com ele no batismo, isto nunca poderia fornecer um fundamento para a unidade, semelhantemente, como eu tenho unidade com outra pessoa por acreditarmos nos mesmos 99 pontos, e só acontecer de divergirmos sobre uma ordenança2.

Na verdade, no final de 1880, durante a Grande Controvérsia do Declínio sobre o liberalismo na União Batista, foram os evangélicos Anglicanos que apoiaram Spurgeon, enquanto ele foi difamado pela maioria dos Batistas mais liberais. Havia na vida e pregação de Spurgeon uma robustez, alegria, seriedade, exaltação de Cristo, uma estima da expiação, centralidade de Deus, de forma que ele sentia uma afinidade com quem tinha esses mesmos instintos, independentemente da denominação. Eis como ele descreveu seu Calvinismo:

Para mim, o Calvinismo significa a colocação do Deus eterno na cabeça de todas as coisas. Eu olho para tudo através de sua relação com a glória de Deus. Eu vejo Deus em primeiro lugar, e o homem muito abaixo nesta lista… Irmãos, se vivemos em sintonia com Deus, temos prazer de ouvi-lO dizer: “Eu sou Deus e não há outro”3.

Ele era um completo Calvinista, não pela adesão a algum sistema ou uma tradição ou denominação, mas porque ele pensava que o Calvinismo era simplesmente um pobre nome para o evangelho bíblico puro-sangue.

O Puritanismo, o Protestantismo, o Calvinismo [disse ele, são simplesmente] … nomes pobres que o mundo tem dado à nossa grande e gloriosa fé — a doutrina do apóstolo Paulo, o evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo4.

É por isso que ele estava livre para e não tinha vergonha de pregar todo o conselho de Deus, mesmo se este fosse chamado de Calvinismo, ele era o Evangelho. “As pessoas vêm a mim por uma coisa… Eu prego-lhes um credo Calvinista e uma moralidade Puritana. Isso é o que eles querem e isso é o que eles recebem. Se eles querem alguma outra coisa eles devem ir para outro lugar”5.

Mas ele estava tão focado na expiação por meio da cruz e na supremacia de Jesus Cristo, que ele podia sentir o aroma do novo nascimento em muitos lugares fora de seu círculo Calvinista.

Longe de mim sequer imaginar que entre os muros de Sião haja somente Cristãos Calvinistas ou que, aqueles que não compartilham das nossas ideias não serão salvos6. [...] Alegro-me em confessar que tenho certeza de que há alguns do povo de Deus mesmo na Igreja de Roma7.

No primeiro domingo no recém-construído Tabernáculo Metropolitano com 5.600 lugares, em Londres, Spurgeon definiu essas coisas em perspectiva. Era 1861, e Spurgeon tinha 27 anos de idade. Ele estava em sua igreja desde que ele tinha 19 anos e agora estava se mudando para um enorme edifício novo.

Eu gostaria de propor que o tema do ministério nesta casa, enquanto este púlpito estiver de pé e esta casa for frequentada por adoradores, seja a pessoa de Jesus Cristo. Eu nunca me envergonho de confessar-me um Calvinista; eu não hesito em levar o nome de Batista; mas se me perguntarem qual é o meu credo, eu respondo: “É Jesus Cristo”8.

Então, eu tenho certeza que ele ficaria satisfeito não só com a fundação do Instituto Nicole de Estudos Batista no RTS, mas também porque estamos aqui principalmente para magnificar a Jesus Cristo e Sua palavra, e não o homem, Charles Spurgeon.

Mas deixe-me dar-lhe apenas uma razão bíblica para fazer da vida deste homem a lente para olharmos para Jesus. Você pode pensar que eu iria para Hebreus 11, que é um grande argumento bíblico para amar biografia Cristã. Mas eu citarei em vez disso Filipenses 3:17: “Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes em nós, pelos que assim andam”. Não basta manter os olhos em Cristo. E não apenas manter seus olhos em Paulo, que imita a Cristo (1 Coríntios 11:1). Mas manter os olhos sobre aqueles que “andam de acordo com o exemplo que você tem em [Paulo]”. Então, primeiro há Cristo, depois Paulo, em seguida, aqueles que seguem o exemplo de Paulo, em seguida, os Filipenses, cada um sendo inspirados e guiados por aqueles que vieram primeiro.

E, certamente, não há nenhuma razão para pensar que esse processo de imitação e inspiração apropriada deve parar após a terceira geração que segue Cristo. Então, eu diria, onde quer que você veja uma vida vivida no poder de Cristo, de acordo com a palavra de Cristo, para a glória de Cristo “mantenha seus olhos sobre esta vida”. Spurgeon é uma dessas vidas e é isso que estamos fazendo.

Charles Haddon Spurgeon nasceu em 19 de junho de 1834 em Kelvedon, Essex, na Inglaterra o primeiro de 17 filhos. Ele foi convertido na idade de 16, notadamente em uma tempestade de neve por meio de um pregador leigo, e um ano mais tarde se tornou o pastor da Capela Waterbeach em Cambridge e nunca teve qualquer formação teológica de maneira formal. No entanto, ele foi, talvez, o pastor mais bem lido na Inglaterra. Os 5.103 volumes de Sua biblioteca pessoal foram comprados em 1906 por William Jewell College, em Liberty, Missouri, por $ 2.500, e, em seguida, em 2006, pelo Midwestern Baptist Seminary, em Kansas City, Missouri, por $ 400.000.

Cerca de três anos mais tarde, em 1854, com a idade de 19, ele começou seu ministério em New Park Street Church, Londres, com cerca de 200 pessoas. Dois anos depois, 1856, ele se casou com Susannah Thompson, que lhe deu dois filhos gêmeos, Charles e Thomas (que sucedeu ao pai como pastor após a morte deste). Ele pregou nesta igreja, que mais tarde passou a chamar-se Tabernáculo Metropolitano, por 38 anos e morreu com a idade de 57 anos em 1892 (quatro anos antes no nascimento de minha avó).

Spurgeon é considerado por muitos como um dos maiores pregadores desde os dias dos apóstolos. Ele havia pregado mais de 600 vezes antes que atingisse os 20 anos de idade. Naqueles tempos pré-rádio, pré-televisão e pré-internet, seus sermões vendiam cerca de 20.000 exemplares por semana sendo traduzidos para 20 idiomas. Os sermões em coleção preenchem 63 volumes equivalentes aos 27 volumes da nona edição da Enciclopédia Britânica, e “se destaca como o maior conjunto de livros escritos por um único autor na história do Cristianismo” 9. Não havia microfones e ele projetou sua voz de forma que mais de 5.000 pessoas pudessem ouvi-lo semana após semana.

Você pode pensar que seu filho seria uma testemunha tendenciosa, mas por outro lado, filhos de pastores são muito frequentemente críticos de seus pais. Não é um juízo distorcido quando Charles diz:

Não havia ninguém que pudesse pregar como o meu pai. Na variedade inesgotável, sabedoria graciosa, proclamação vigorosa, súplica amorosa e ensino lúcido, com uma infinidade de outras qualidades, ele deve, pelo menos em minha opinião, ser considerado como o príncipe dos pregadores10.

E certamente este não é um título ruim para alguém com tais dons extraordinários e notáveis ​​qualidades que o acompanharam na capacidade e realização em uma classe quase sozinho. E o que eu gostaria de fazer no tempo que temos é direcionar sua atenção para duas dessas qualidades que me inspiraram e que oro para que sejam instiladas nos pastores que estão sendo treinados aqui no RTS e por meio do Instituto Nicole de Estudos Batistas.

 

1. Spurgeon amava a verdade centralizada em Deus, que exalta a Cristo, saturada da Bíblia, e exultava sobre isso no púlpito.

Spurgeon definiu o trabalho do pregador da seguinte maneira: “Conhecer a verdade como deve ser conhecida, a amá-la como ela deve ser amada, e depois anunciá-la com o espírito certo, e em suas devidas proporções11”. Ele disse aos seus alunos “para serem pregadores eficazes vocês devem ser teólogos autênticos”12. Ele advertiu que “aqueles que rejeitam a doutrina Cristã são, quer estejam conscientes disso ou não, os piores inimigos da vida Cristã… [porque] as brasas da ortodoxia são necessárias para o fogo de piedade”13.

Dois anos antes de morrer, ele deu uma ilustração de como a verdade fundamental está no ministério e revela algum humor que marcou seu ministério de uma forma muito séria.

Alguns excelentes irmãos parecem pensar mais sobre a vida do que sobre a verdade; pois quando eu lhes aviso que o inimigo tem envenenado o pão dos filhos, eles respondem: “Querido irmão, estamos muito tristes por ouvir isso; e, para neutralizar o mal, vamos abrir a janela e deixar as crianças tomarem ar fresco”. Sim, abriremos a janela e lhes daremos o ar fresco, por todos os meios… Mas, ao mesmo tempo, isso deve ser feito sem, no entanto, deixar o outro por fazer. Prendam os envenenadores e abram as janelas também. Enquanto os homens estiverem pregando falsa doutrina, você pode falar o quanto quiser sobre aprofundar a sua vida espiritual, mas você irá falhar nisto14.

E posso testemunhar que, nos últimos dois meses de transição em nossa igreja, como o meu ministério oficial chegou ao fim, a expressão mais comum de gratidão é daquelas pessoas que dizem que as tempestades de sofrimento não viraram o barco de sua fé por causa do lastro centrado na verdade de Deus — da doutrina teocêntrica — fixada no fundo de seus barcos através da pregação da palavra de Deus. Mas é absolutamente crucial que os pregadores levem a sério três advertências: “Conhecer a verdade como ela deve ser conhecida, amá-la como ela deve ser amada, e depois anunciá-la com o espírito certo, e em suas devidas proporções”.

Paulo fala em 2 Tessalonicenses 2:10 daqueles que “perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem”. Quando pregadores percebem, como Spurgeon fez, que as pessoas perecem por não amarem a verdade, então eles se empenharão para conhecê-la, e amá-la, e proclamá-la na beleza das proporções bíblicas.

A fonte da verdade em todas as pregações de Spurgeon foi a Inspiração de Deus e a inerrância das Escrituras Cristãs. Ele levantou a Bíblia e disse:

Estas palavras são de Deus… Tu livro de grande autoridade de Deus, tu és uma proclamação do Imperador do Céu; longe esteja de mim exercitar minha razão em contradizer-te… Este é o livro que está livre de qualquer erro; antes é a pureza sem mistura, perfeita verdade. Por quê? Porque Deus o escreveu15.

Spurgeon não era apenas um pregador alicerçado na Bíblia, mas um pregador saturado da Bíblia. Minha paixão pelos pregadores jovens de hoje é que eles não pregam sermões que pairam um pouco acima do texto constantemente e fazem pontos que as pessoas não veem no texto, mas que eles explicam o que está no texto de forma clara e exultam sobre o que está no texto apaixonadamente, e que o façam de tal forma que as pessoas possam ver exatamente de onde tiraram o que pregam, as próprias frases, a própria lógica. Spurgeon tem uma famosa passagem em que ele implora para que os pregadores se saturem da Bíblia, não somente se baseiem na Bíblia.

Oh, que você e eu pudéssemos entrar no coração da Palavra de Deus, e ter essa Palavra em nós mesmos! Como eu vi um inseto sobre uma folha comendo-a, e consumindo-a, assim devemos fazer com a Palavra do Senhor; não rasteje sobre sua superfície, mas coma-a para até que ela tenha se apossado de nossas partes mais íntimas. É ocioso apenas deixar o olhar cair sobre a palavra… mas é uma coisa abençoada se alimentar na própria alma da Bíblia, até que, finalmente, você chegue a falar na linguagem bíblica, e seu próprio estilo seja formado nos modelos da Escritura e, o que é melhor ainda, o seu espírito seja aromatizado com as Palavras do Senhor.

Gostaria de citar John Bunyan como um exemplo do que quero dizer. Leia algo de sua autoria, e você verá que é quase como ler a própria Bíblia. Ele havia estudado a nossa Versão Autorizada [KJV]… até que todo o seu ser estivesse saturado com as Escrituras; e, embora seus escritos sejam encantadoramente cheios de poesia, contudo ele não pode dar-nos o seu Progresso do Peregrino —que é o mais doce de todos os poemas em prosa —, sem continuamente nos fazer sentir e dizer: “Ora, o homem é uma Bíblia viva!”. Escolha aleatoriamente qualquer passagem; e você descobrirá que o seu sangue é bíblico, a própria essência da Bíblia flui a partir dele16.

Eu oro para que RTS e o Instituto Nicole de Estudos Batistas sejam carinhosamente conhecido como Reformed Theological Seminary e como o Instituto Nicole de Estudos Batistas Saturados da Bíblia. Spurgeon é um grande exemplo de amor a toda a verdade bíblica e exultação sobre ela no púlpito.

 

2. Spurgeon amava as pessoas e trabalhou para ganhá-las e para edifica-las.

Parece que durante o seu ministério não havia uma semana que passasse sem que almas não fossem salvas através da pregação e publicação de seus sermões17. Ele e seus anciãos estavam sempre a “velar pelas almas” na grande congregação. “Um irmão”, disse ele, “ganhou para si o título de meu cão de caça, pois ele está sempre pronto para pegar os pássaros feridos”18.

Spurgeon nos deixou ver o desejo de seu coração pelo eterno bem das pessoas, quando disse:

Lembro-me de quando eu tenho pregado em momentos diferentes no país, e, por vezes, toda a minha alma agoniza pelos homens, todos os nervos do meu corpo se tencionam e eu poderia ter chorado meu próprio ser através dos meus olhos e levado todo o meu corpo para longe em uma torrente de lágrimas, se eu pudesse apenas ganhar almas” 19.

Ele foi consumido pela glória de Deus e pela salvação dos homens. Ele incorpora as palavras de Paulo em 2 Coríntios 12:15. “Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas”. E 1 Coríntios 9:22: “Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns”. Ele nunca foi levado a estar satisfeito com o que já tinha alcançado, mas sempre avançava (como Paulo em Filipenses 3:14) para uma maior santidade e fecundidade. “Satisfação com os resultados será a sentença de [morte] do progresso. Nenhum homem que é bom acha que ele não pode ser melhor. Ele não tem santidade caso pense que ele é santo o suficiente”20.

No ano em que completou 40 anos de idade, ele pregou uma mensagem para a conferência de seus pastores com o título de uma só palavra, “Avante!”, nela, ele disse:

Na vida de cada ministro deve haver vestígios de trabalho árduo. Irmãos, façam alguma coisa; façam alguma coisa; façam alguma coisa. Enquanto Comitês desperdiçam seu tempo sobre resoluções, façam alguma coisa. Enquanto sociedades e sindicatos estão fazendo constituições, vamos ganhar almas. Muitas vezes discutimos, e discutimos, e discutimos, enquanto Satanás só ri de nós… Vamos sair e trabalhar como homens21.

Parte de sua motivação na maneira incansável de perseguir a salvação dos pecadores era a sua crença fervorosa no futuro, a saber, a punição eterna e as glórias eternas do céu.

Medite com profunda solenidade sobre o destino do pecador perdido… evite todos os pontos de vista sobre o castigo futuro que o fazem parecer menos terrível, e assim deixe transbordar a sua ansiedade para salvar [almas] imortais da chama inextinguível… Pense muito também na felicidade do pecador salvo, e como o santo Baxter, derive argumentos ricos do “Descanso Eterno dos Santos”… não haverá nenhum temor de que você continue letárgico se estiver continuamente familiarizado com as realidades eternas22.

Quando o amor de Spurgeon pela verdade centralizada em Deus, saturada da Bíblia, que exalta a Cristo, alimentaram seu zelo por pecadores a perecer, uma avalanche de energia e ministério resultou disto.

Nenhum vivente sabe a labuta e as preocupações que eu tenho que suportar… Eu tenho que cuidar do Orfanato, tenho a carga de uma igreja com quatro mil membros, às vezes há casamentos e enterros para serem realizados, há o sermão semanal a ser revisto, a Espada e a Espátula para ser editada, e além de tudo isso, uma média semanal de cinco centenas de cartas a serem respondidas. Isso, no entanto, é apenas a metade do meu dever, pois existem inúmeras igrejas estabelecidas por amigos, com os assuntos dos quais eu estou intimamente ligado, para não falar dos casos de dificuldade que são constantemente referidos a mim23.

No seu 50º aniversário foi lida uma lista de 66 organizações que ele fundou e conduziu. Lord Shaftesbury estava lá e disse: “Esta lista de associações, instituídas por seu gênio, e supervisionados por seu cuidado, seriam mais do que suficientes para ocupar as mentes e os corações de cinquenta homens comuns”24.

O missionário David Livingstone, perguntou-lhe uma vez: “Como você consegue fazer o trabalho de dois homens em um único dia?”. Spurgeon respondeu: “Você esqueceu há dois em nós”25. Eu acho que ele quis dizer a presença do poder energizante de Cristo que lemos em Colossenses 1:29. Paulo diz: “para isto também trabalho, combatendo segundo a sua eficácia, que opera em mim poderosamente”. Oh, que cada pastor que veio até aqui aprendesse o segredo de laborar no poder em que Cristo poderosamente opera nele.

Spurgeon permanece como um testemunho do que acontece quando o amor pela centralidade de Deus, pela exaltação de Cristo, e por ser saturado pela verdade da Bíblia alimentam a chama do amor por pessoas — pessoas que estão perecendo sem a verdade — por Deus e por Cristo. Uma explosão de zelo, energia e criatividade em prol da igreja. Tudo isso com o objetivo de glorificar a Deus e trazer os pecadores para desfrutar a plenitude da alegria nEle.

Que Deus faça do Reformed Theological Seminary e do Instituto Nicole de Estudos Batistas um terreno fértil para esse tipo de amor pela verdade e pelas pessoas e para tal energia criativa para o ministério.

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Notas:

[1] Geoff Thomas, “O Progresso do Pregador” em Um Ministério Maravilhoso: Como Todo o Ministério de Charles Haddon Spurgeon Nos Fala Hoje, (Ligonier, PA: Soli Deo Gloria Publications, 1993), p. 61. Spurgeon disse: “preferia desistir de seu pastorado do que admitir qualquer homem para a igreja que não fosse obediente ao mandamento de seu Senhor [sobre o batismo].” Ibid. p. 43.
[2] Ibid. p. 61 (cf. Espada e a Espátula, XXIV, 1883, p. 83).
[3] Charles Haddon Spurgeon, Um Ministério Completo, (Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1960), p. 337.
[4] Um Ministério Completo, p. 160.
[5] Um Ministério Maravilhoso, p. 38.
[6] Um Ministério Maravilhoso, p. 65.
[7] C. H. Spurgeon: Autobiografia, vol. 2, (Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1973), p. 21.
[8] Bob L. Ross, Uma Biografia Ilustrada de C.H. Spurgeon, (Pasadena, TX: Pilgrim Publications, 1974), p. 66.
[9] Eric W. Hayden, “Você Sabia?” em História Cristã, Issue 29, Volume X, n º 1, p. 2.
[10] Autobiografia, vol. 2, p. 278.
[11] Charles Haddon Spurgeon, Um Ministério Completo, p. 8.
[12] Ibid.
[13] Um Ministério Maravilhoso, p. 128.
[14] Um Ministério Completo, p. 374.
[15] Um Ministério Maravilhoso, p. 47.
[16] Autobiografia, vol. 3, p. 268.
[17] Arnold Dallimore, Spurgeon, (Chicago: Moody Press, 1984), p. 198.
[18] Autobiografia, vol. 2, p. 76.
[19] Um Ministério Maravilhoso, pp. 49-50.
[20] Um Ministério Completo, p. 352.
[21] Um Ministério Completo, p. 55.
[22] Charles Spurgeon, Lições aos Meus Alunos, p. 315.
[23] Autobiografia, vol. 2, p. 192.
[24] Dallimore, Spurgeon, p. 173.
[25] Eric W. Hayden, “Você Sabia?” em História Cristã, Issue 29, Volume X, n º 1, p. 3.

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♦ Por John Piper. © 2014 Desiring God Foundation.
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Fonte: Website: desiringGod.org | Título Original: The Life and Ministry of Charles Spurgeon
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por William Teixeira | Revisão por Camila Almeida


Como Saber se Sou um Eleito de Deus ou A Manifestação da Eleição – Arthur Walkington Pink

Até agora temos permanecido principalmente no lado doutrinal da eleição; agora nos voltamos mais diretamente ao seu aspecto experimental e prático. Toda a doutrina da Escritura é uma unidade perfeita e harmoniosa, mas para nossa compreensão mais clara da mesma, ela pode ser considerada distintamente em suas partes componentes. Estritamente falando, é inadmissível falar de “doutrinas da graça”, pois há apenas uma grande e divina Doutrina da graça, embora o precioso diamante tenha muitas facetas em si. Nós não somos assegurados pela linguagem da Sagrada Escritura para empregar a expressão de doutrinas da eleição, regeneração, justificação e santificação, pois na realidade elas são apenas partes de uma doutrina; entretanto, não é fácil encontrar um termo alternativo. Quando o plural “doutrinas” é usado na Palavra de Deus, isso faz alusão ao que é falso e errôneo: “doutrinas dos homens” (Colossenses 2:22), “doutrinas de demônios” (1 Timóteo 4:1), “doutrinas várias e estranhas” (Hebreus 13:9) – “diversas”, porque não há acordo entre elas.

Ao contrário das doutrinas falsas e conflitantes dos homens, a verdade de Deus é um grande e consistente todo, e é uniformemente citado como “a doutrina” (1 Timóteo 4:16), “sã doutrina” (Tito 2:1). Sua marca distintiva é descrita como “a doutrina que é segundo a piedade” (1 Timóteo 6: 3) – a doutrina que produz e promove a piedade. Cada parte desta doutrina é intensamente prática e experimental em todos os seus aspectos. Não é mera abstração dirigida ao intelecto, mas, quando devidamente apreendida, exerce uma influência espiritual no coração e na vida. Assim, é com essa fase particular da doutrina de Deus, que está agora diante de nós. A bendita verdade da eleição é revelada não para especulação carnal e controvérsia, mas para produzir os belos frutos da santidade. A escolha é de Deus, mas os efeitos salutares estão em nós. É verdade que a doutrina deve ser aplicada pelo poder do Espírito Santo para a alma antes que esses efeitos sejam produzidos; pois aqui, como em todos os lugares, somos totalmente dependentes de Suas operações graciosas.

O primeiro efeito produzido na alma pela aplicação, pelo Espírito, da verdade da eleição Divina é a promoção da verdadeira humildade. O orgulho e a presunção agora recebem a sua ferida mortal, a auto-complacência é quebrada, e o sujeito desta experiência é abalado em seus próprios fundamentos. Ele pode, por anos passados ter feito uma profissão de fé Cristã, e não ter entretido quaisquer dúvidas sérias sobre a sinceridade e autenticidade da mesma. Ele pode ter tido uma forte e inabalável segurança de que ele estava peregrinando para o céu; e durante esse tempo ele era completamente ignorante da verdade da eleição. Mas que mudança veio sobre ele! Agora que ele aprende que Deus fez uma escolha eterna dentre os filhos dos homens, ele está profundamente preocupado para saber se ele é ou não um dos favoritos do céu. Percebendo algo das enormes questões envolvidas, e dolorosamente consciente de sua própria depravação total, ele fica cheio de temor e tremor. Isso é mais doloroso e inquietante, pois ele ainda não sabe que tais exercícios de alma são um sinal saudável.

É exatamente por causa da pregação da eleição, quando acompanhada pelo poder do Espírito Santo (e que pregação é mais projetada para ter Sua bênção do que a que mais magnifica a Deus e humilha o homem!?) produz tal angústia de coração, que é muitíssimo desagradável para aqueles que desejam estar “à vontade em Sião”. Nada é mais projetado para expor uma profissão vazia, para despertar as adormecidas vítimas de Satanás. Mas, infelizmente, aqueles que não têm nada melhor do que uma segurança carnal não desejam ter sua falsa paz perturbada, e, consequentemente, eles são os mesmos que ficam mais exaltados em seus protestos contra a proclamação da graça distintiva. Mas o uivo e vociferação de cães não é nenhuma razão para que os filhos de Deus sejam privados de seu pão necessário. E não importa o quão desagradável seja os primeiros efeitos produzidos nele pela recepção de coração desta verdade, não demorará muito para que a pessoa humilhada seja verdadeiramente grata por aquilo que faz com que ele cave mais profundamente e se certifique de que sua esperança está fundada sobre a Rocha Eterna.

O castigo Divino é uma coisa dolorosa; no entanto, para os que são exercitados nele, ele depois produz um fruto pacífico de justiça (Hebreus 12:11). Por isso, é uma coisa grave para nossa complacência o sermos rudemente despedaçados, mas se a consequência for que trocamos uma falsa confiança por uma segurança biblicamente fundamentada, temos de fato motivo para fervoroso louvor. Pois, descobrir que o propósito da graça de Deus é restrito a um povo eleito, é alarmante para quem imaginou que Ele ama todos os homens igualmente. Ser levado a pensar seriamente se eu sou um daqueles que Deus escolheu em Cristo antes da fundação do mundo, levanta uma questão que não é fácil de responder de forma satisfatória; e ser levado a investigar diligentemente o meu estado atual, examinar-me solenemente diante de Deus, é uma tarefa na qual nenhum hipócrita prosseguirá; ainda assim, é uma tarefa da qual o regenerado não retrocederá, pelo contrário, a buscará com zelo ardente e fervorosa oração a Deus por ajuda nisso.

Não é (como alguns tolamente supõem) que aquele que está agora tão seriamente preocupado com sua condição espiritual e destino eterno está em tal alarme porque ele duvida da Palavra de Deus. Longe disso, é somente porque ele acredita na Palavra de Deus que ele duvida de si mesmo, duvida da validade de sua profissão de fé Cristã. É porque ele acredita nas Escrituras quando elas declaram que o rebanho do Senhor é um “muito pequeno” (em grego, Lucas 12:32), ele está com medo de que ele não pertença a ele. É porque ele acredita em Deus, quando Ele diz: “Há uma geração que é pura aos seus próprios olhos, mas que nunca foi lavada da sua imundícia” (Provérbios 30:12), e por ele encontrar tanta sujeira em sua própria alma, que ele treme com medo de que isso seja verdade sobre ele. É porque ele acredita em Deus, quando Ele diz: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jeremias 17:9), que ele está profundamente exercitado para não ser fatalmente enganado. Ah, meu leitor, quanto mais firmemente cremos na Palavra de Deus, mais causa temos para duvidarmos de nós mesmos.

Obter a segurança de que eles receberam um chamado sobrenatural de Deus, que os trouxe da morte para a vida, é uma questão de interesse fundamental para aqueles que realmente valorizam suas almas. Aqueles a quem Deus concedeu um coração honesto abominam a hipocrisia, a recusam-se a tomar qualquer coisa como garantido, e muitos temem que eles ponham sobre si mesmos um veredicto mais favorável do que é justo. Outros podem rir de sua preocupação e zombar de seus temores, mas isso não os mobiliza. Muito está em jogo para um tal assunto ser leve e rapidamente descartado. Eles sabem muito bem que esse assunto é aquele que deve ser resolvido na presença de Deus, e se eles estiverem enganados, eles Lhe pedem para fazê-los conscientes disso. É Deus quem os feriu, e somente Ele pode curá-los; é Deus quem tem perturbado a sua complacência carnal, e ninguém senão Ele pode dar descanso espiritual real.

É possível que uma pessoa, nesta vida, realmente conheça a sua eleição eterna de Deus? Os Papistas respondem dogmaticamente que nenhum homem pode certamente conhecer sua própria eleição, a menos que seja autenticada por alguma revelação especial, imediata e pessoal de Deus. Mas isso é manifestamente falso e errôneo. Quando os discípulos de Cristo voltaram de sua viagem de pregação e relataram-lhe as maravilhas que haviam feito e estando animados que até mesmo os demônios se sujeitaram a eles, Ele lhes ordenou: “Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lucas 10:20). Não é perfeitamente claro nestas palavras de nosso Salvador que os homens podem alcançar um conhecimento seguro de sua eleição eterna? Certamente não podemos, nem iremos, nos alegrar com as coisas que são desconhecidas ou nem mesmo nas coisas incertas.

Será que Paulo não ordenou aos Coríntios: Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos” (2 Coríntios 13:5)? Aqui isso é certamente tomado como garantido que aquele que tem fé pode saber que ele a tem e, portanto, também pode conhecer a sua eleição, pois a fé salvadora é uma marca infalível da eleição: “e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48). Quem dera que mais ministros tomassem uma página do livro do apóstolo e exortasse os seus ouvintes ao real autoexame, é verdade, isso não aumentaria a sua atual popularidade, mas isso provavelmente resultaria em ação de graças de alguns dos seus ouvintes em um dia futuro. Outro dos apóstolos não exorta os seus leitores: “Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição” (2 Pedro 1:10)? Mas que força tal injunção possui se a segurança for inatingível nesta vida? Seria completamente inútil usar diligência se o conhecimento da nossa eleição fosse impossível sem que tivéssemos uma revelação extraordinária de Deus.

Mas como pode um homem vir a conhecer a sua eleição? Certamente não é ascendendo como se fosse para o céu, para ali pesquisar nos conselhos de Deus, e depois descer por si mesmo. Nenhum de nós pode obter acesso ao livro da vida do Cordeiro, os decretos de Deus são secretos. No entanto, é possível que os santos saibam que estão entre aquele ajuntamento a quem Deus predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho. Mas como? Não por alguma revelação extraordinária de Deus, pois em nenhum lugar a Escritura promete qualquer coisa para as almas exercitadas. Spurgeon coloca isso francamente quando disse: “Nós sabemos de alguns que imaginam ser eleitos por causa de uma visão que eles viram quando estavam dormindo, ou quando eles estavam acordados – pois os homens têm tido sonhos quando acordados; mas estas são de tanto valor quanto teias de aranha seriam para uma veste, elas serão de tanta utilidade a eles no dia do juízo, quanto as convicções de um ladrão seria para ele se ele estivesse precisando de uma reputação para encomendá-lo à misericórdia “(Sermão em 1 Tessalonicenses 1:4-6).

A fim de verificar a nossa eleição, temos de descer em nossos próprios corações, e, em seguida, subir de nós mesmos como se fosse pela escada de Jacó para o propósito eterno de Deus. É por meio dos sinais e testemunhos descritos nas Escrituras, que devemos procurar dentro de nós mesmos e, a partir deles descobrir o conselho de Deus concernente à nossa salvação. Ao fazer esta afirmação, não estamos esquecidos do comentário satírico com o que é provável encontrar-se em determinados locais. Há uma classe de Cristãos professos que não entretém quaisquer dúvidas sobre a sua salvação, que amariam dizer isso tanto quanto como olhar para um iceberg em busca de calor ou em um túmulo para encontrar sinais de vida, ou como a buscar dentro de nós mesmos as provas do novo nascimento. Mas não é semelhante blasfêmia sugerir que Deus o Espírito pode fazer a Sua residência em uma pessoa e ainda assim que não haja evidências definitivas de Sua presença.

Há dois testificadores para o crente a partir do que ele pode certamente aprender os conselhos eternos de Deus com respeito à sua salvação: o testemunho do Espírito de Deus e o testemunho de seu próprio espírito (Romanos 8:16). Por estes meios é que o Espírito de Deus fornece testemunho de uma consciência Cristã a partir da palavra, senão, antes por Sua aplicação das promessas do Evangelho, na forma de um silogismo: Todo aquele que crê em Cristo é escolhido para a vida eterna. Essa proposição está claramente estabelecida na Palavra de Deus, e é expressamente proposta por Seus ministros do evangelho. O Espírito de Deus acompanha a pregação deles com poder eficaz, para que os corações dos eleitos de Deus sejam abertos para receber a verdade, com os olhos iluminados para perceber a sua bem-aventurança, e suas vontades modificadas para renunciarem a todas as outras dependências e entregarem-se à misericórdia de Deus em Cristo.

Mas, surge a pergunta: como posso distinguir entre o testemunho do Espírito e a imitação ilusória de Satanás disso? Pois, assim como há uma segura persuasão do favor de Deus a partir de Seu Espírito, há também fraudes do Diabo pela qual ele lisonjeia e acalma os homens em seus pecados. Além disso, existe em todos os homens presunção natural, que é muitas vezes confundida com fé, na verdade, há muito mais desta fé-zombadora no mundo do que há da verdadeira fé. É realmente trágico encontrar que há multidões no mundo religioso de hoje, que são conduzidas pelo “fogo estranho” do entusiasmo selvagem, supondo que o entusiasmo de seus espíritos carnais e emoções são prova segura de que eles receberam o “batismo do Espírito” e, assim, estão seguros do céu. No outro extremo, há um grande número de pessoas que desdenha e desacredita de todos os sentimentos religiosos e fixa a sua fé em um: “Estou descansando em João 5:24”, e se vangloria de que eles não tiveram dúvida de sua salvação por muitos anos no passado.

Ora, o verdadeiro testemunho do Espírito pode ser discernido da presunção natural e enganação satânica por seus efeitos e frutos. Primeiro, o Espírito concede aos eleitos de Deus corações orantes. “E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles?” (Lucas 18:7). Observe quão diretamente, após fazer essa declaração, o Senhor Jesus passou a dar uma ilustração da natureza de sua oração. É verdade que os formalistas e hipócritas oram, mas muito diferente é esta oração deles do clamor daqueles que estão conscientes do pecado, sobrecarregados de culpa, que fazem parte do aflito povo de Deus, como se evidencia a partir do vívido contraste entre o fariseu e o publicano. Ah, não faremos esta oração que caracteriza os eleitos de Deus até que sejamos levados a sentir a nossa indignidade absoluta e merecimento do Inferno, nossa ruína e desventura, nossa miséria e dependência absoluta da graça soberana de Deus, então, começamos a “clamar” a Ele e isso, “de dia e de noite”, orar experimentalmente, orar com perseverança, orar com “gemidos inexprimíveis”, e, portanto, orar eficazmente.

Olhemos por um momento, para uma oração de um daqueles que pertencem ao povo de Deus, “Lembra-te de mim, Senhor, segundo a tua boa vontade para com o teu povo; visita-me com a tua salvação” (Salmos 106:4). Agora meu leitor, ou você quer buscar sinceramente este favor pelo qual o Senhor se lembra de Seu povo, ou você não quer. É somente quando somos levados para o lugar onde somos pressionados para baixo com um senso de nossa pecaminosidade e vileza que podemos dizer em nossas almas diante de Deus: “Oh, visita-me com a tua salvação”. Mas o salmista não parou por aí, nem mais nós devemos; ele passou a dizer: “Para que eu veja os bens de teus escolhidos, para que eu me alegre com a alegria da tua nação, para que me glorie com a tua herança” (v. 5). Os eleitos de Deus oram e buscam pelo que nenhum outro homem ora e busca: eles querem ver o bem dos escolhidos de Deus, buscam ser salvos com a sua salvação, e permanecer na condição de Sua aliança e fundamento eternos.

Um segundo efeito do testemunho do Espírito é que ele nos leva a nos submetermos à soberania de Deus. Não somente os eleitos de Deus oram por algo que nenhum outro homem ora, mas o fazem de uma forma diferente de todos os outros. Eles se aproximam do Todo-Poderoso não como iguais, mas como mendigos; eles fazem “pedidos” a Ele, e não exigências; e apresentam as suas petições em estrita subserviência à Sua vontade imperial. Quão completamente diferentes são as suas humildes petições da arrogância e do ditatorialismo de professos vazios. Eles sabem que não têm direitos sobre o Senhor, que eles não merecem misericórdia de Suas mãos, e, portanto, eles não levantam protestos contra a Sua afirmação expressa, “Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Romanos 9:15). Essa pessoa cujo coração é habitado pelo Espírito de Deus toma o seu lugar no pó, e diz com piedoso Eli: “Ele é o Senhor; faça o que bem parecer aos seus olhos” (1 Samuel 3:18).

Lemos em Mateus 20:3 sobre uma série de homens “que estavam ociosos no mercado”, o que entendemos significar que eles não estavam ativamente engajados no serviço do Diabo, mas que ainda não tinha entrado no serviço a Deus. Sua atitude era indicativa de um desejo de serem religiosos. Muito bem, disse o Senhor, vão trabalhar na minha vinha. Mas um pouco mais tarde, o Senhor da vinha exibiu Sua soberania, e eles ficaram muito descontentes. O Senhor deu ao último o mesmo que aos primeiros, e então murmuravam. O Senhor respondeu: “Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?” (v. 15). Isso foi o que os ofendeu; eles não queriam se submeter à Sua soberania, não obstante, Ele a exerceu. “Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?”. Ele perguntou e ainda pergunta a cada um daqueles que, no orgulho e incredulidade de seu próprio coração, se levanta contra a distintiva graça de Deus. Mas não é assim com os eleitos de Deus, eles se curvam diante de Seu trono e entregam-se inteiramente em Suas mãos.

Em terceiro lugar, os eleitos de Deus têm comunicado a eles um espírito filial, de forma que eles têm afeições de filhos obedientes ao seu Pai celestial. Isso inspira-os com um temor de Sua majestade, a fim de que eles estejam conscientes de todo caminho mau. Isso inclina os seus corações ao amor de Deus, de modo que eles desejam o gozo consciente de Seu rosto sorridente, estimando a comunhão com Ele acima de todos os outros privilégios. Esse espírito filial produz confiança para com Deus, de modo que eles suplicam as Suas promessas, contam com a Sua misericórdia, e confiam em Sua bondade. Sua elevada autoridade é respeitada e eles tremem da Sua Palavra. Esse espírito filial produz sujeição a Deus, de forma que eles desejam obedecê-lO em todas as coisas, e sinceramente se esforçam para andar de acordo com os Seus mandamentos e preceitos. É verdade que eles estão ainda muito longe de serem o que eles deveriam ser, e do que eles gostariam de ser, se seus sinceros anseios fossem realizados; no entanto, o seu fervoroso desejo é agradá-lO em todos os seus caminhos.

“O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Romanos 8:16). O ofício de uma “testemunha” é testemunhar ou apresentar evidência com a finalidade de produção de prova, seja de inocência ou culpa. Isso pode ser visto a partir de: “Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” (Romanos 2:15). Embora os Gentios não tinham recebido uma revelação escrita de Deus (como foi o caso com os Judeus), no entanto, eles eram Suas criaturas, responsáveis a Ele, sujeitos à Sua autoridade, e ainda serão julgados por Ele. Os fundamentos em que a sua responsabilidade repousa são: a revelação que Deus fez de Si mesmo na natureza que os torna “inescusáveis” (Romanos 1:19-20) e da obra da lei escrita em seus corações, que é a racionalidade ou “a luz da natureza”. Seus instintos morais os instruem na diferença entre o certo e o errado e alertam para um dia futuro de acerto de contas. Enquanto a sua consciência “testemunha”, fornece evidência de que Deus é o seu governador e juiz.

Agora, o Cristão tem uma consciência renovada, e isso fornece a prova de que ele é uma pessoa renovada e, consequentemente, um dos eleitos de Deus. “Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente” (Hebreus 13:18), a inclinação de seu coração era para Deus e obediência a Ele. Não apenas o Cristão sinceramente deseja honrar a Deus e ser honesto com seus companheiros, mas ele faz um verdadeiro esforço para isso: “E por isso procuro sempre ter uma consciência sem ofensa, tanto para com Deus como para com os homens” (Atos 24:16). E é o ofício de uma boa consciência testemunhar favoravelmente para nós e a nós. A isso o Cristão pode recorrer. Paulo fez isso uma e outra vez, por exemplo, em Romanos 9:1 nós o encontramos declarando: “Em Cristo digo a verdade, não minto (dando-me testemunho a minha consciência no Espírito Santo)”, o que significa que a sua consciência testemunhou a sua sinceridade no assunto. Assim, vemos mais uma vez como a Escritura interpreta a Escritura: Romanos 2:15 e 9:1 definem o significado de “nosso espírito carregando o testemunho” – produzindo evidência, estabelecendo a veracidade de um caso.

Romanos 8:16 declara que o nosso espírito (suprido pelo Espírito Santo) fornece prova que somos “filhos de Deus”, e, como o apóstolo prossegue em mostrar que se somos filhos somos “logo herdeiros” (v. 17) e “escolhidos de Deus” (v. 33). Agora, este testemunho de nosso espírito é o testemunho do nosso coração e consciência, purificados e santificados pelo sangue de Cristo. Isso testifica de duas maneiras, por sinais interiores em si mesmos, e por provas externas. Como isso é tão pouco compreendido atualmente, devemos nos estender sobre este assunto. Esses sinais internos são certas graças especiais implantadas em nosso espírito no novo nascimento, pelo que uma pessoa pode ter, certamente, a certeza de sua adoção Divina, e, portanto, de sua eleição para a salvação. Esses sinais relacionam-se primeiro aos nossos pecados, e, segundo à misericórdia de Deus em Cristo. E por uma questão de clareza, consideraremos o primeiro em conexão com os nossos pecados passados, presentes e futuros.

O testemunho ou sinal em nosso “espírito” ou coração, que diz respeito aos pecados passados é a “tristeza segundo Deus” (2 Coríntios 7:10), que é realmente uma graça mãe de muitos outros dons e graças de Deus. A natureza dela pode ser melhor concebida, se a compararmos com o seu oposto que é a tristeza segundo o mundo que emana do pecado, e nada mais é do que o terror de consciência e de uma apreensão da ira de Deus por causa da consciência do pecado; ao passo que a tristeza segundo Deus, embora seja de fato ocasionada por nossos pecados, nasce de uma dor de consciência causada por uma sensação daquela bondade e graça de Deus. A tristeza do mundo consiste em horror somente em relação ao castigo, ao passo que a tristeza segundo Deus é tristeza pelo pecado como pecado, que é aumentada pela percepção de que não haverá punição pessoal para ele, desde que tal punição foi infligida a Cristo em meu lugar. A fim de que ninguém engane-se em discernir esta “tristeza segundo Deus”, o Espírito Santo em 2 Coríntios 7:11 deu sete marcas pelas quais ela pode ser identificada.

A primeira marca é: “Porque, quanto cuidado não produziu isto mesmo [“tristeza segundo Deus”] em vós”. A palavra para “cuidado” significa em primeiro lugar “pressa” e, em seguida, diligência – é o oposto de negligência e de indiferença. Não existe apenas lamentação, mas prosseguir para o esforço com uma vontade, de modo a corrigir a má conduta. Em segundo lugar, “que apologia”: a palavra Grega significa “desculpar-se”, buscando o perdão – é o inverso da auto-atenuação. Em terceiro lugar, sim, “que indignação” em vez de indiferença, o penitente fica extremamente irado consigo mesmo por cometer tais delitos. Quarto, “que temor”, para que não haja qualquer repetição do mesmo, é uma ansiedade de espírito contra mais uma queda. Em quinto lugar, “que saudades” [ou “que desejos veementes” na KJV – N. do R.], pela Divina ajuda e força contra qualquer recorrência no mesmo. Sexto, “que zelo”, no cumprimento dos deveres sagrados que são o oposto daqueles pecados. Sétimo, “que vingança!”, sobre si mesmo, por diária mortificação de seus membros. Quando um homem encontra esses frutos em si mesmo, ele não precisa duvidar da “piedade” de seu arrependimento.

O testemunho em nosso espírito com respeito aos pecados atuais é a resistência feita pela nova natureza contra a velha, ou o princípio da santidade contra aquele princípio do mal (cf. Gálatas 5:17). É próprio do regenerado na medida em que eles são criaturas duplas: filhos dos homens e filhos de Deus. É muito mais do que os controles de consciência que todos os homens, bons e maus, encontram em si mesmos quantas vezes ofendem a Deus. Não, isso é aquele esforço e luta da mente, afeições e com eles mesmos, sendo que na medida em que são renovados e santificados eles conduzem o homem de uma maneira, e como eles ainda são corruptos, levam-no para o lugar contrário. É esta guerra dolorosa e prolongada que o Cristão descobre estar acontecendo dentro de si, é que evidencia que ele seja uma nova criatura em Cristo. Se ele analisa e recorda o passado, ele nada encontrará como isso antes de sua experiência de regeneração.

Tudo no natural prenuncia realidades espirituais, que nós apenas tivéssemos olhos para ver e entendimentos para interpretá-los corretamente. Existe uma doença chamada ephialtes (pesadelo) que faz com que suas vítimas, quando estão quase dormindo, sintam-se como se algum peso pesado estivesse colocado sobre o seu peito, levando-os para baixo; e eles se esforçam com as mãos e os pés, com todas as suas forças, para remover esse peso, mas não conseguem. Tal é o caso do Cristão genuíno: ele está consciente de algo dentro que o arrasta para baixo, que corta as asas da fé e esperança, que dificulta suas afeições sendo estabelecidas sobre as coisas do alto. Isso o oprime e ele luta contra isso, mas em vão. Isso é a “carne”, suas corrupções inatas, o pecado interior, contra a que todas as graças da nova natureza se esforçam e lutam. É um fardo intolerável que perturba seu descanso, e impede-o de fazer as coisas que ele gostaria.

O sinal em nosso espírito que relaciona-se aos pecados futuros é um grande cuidado para evitá-los. Que isso é uma marca dos filhos de Deus aparece em: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca” (1 João 5:18). Observe cuidadosamente o tempo do verbo, não é “ele não peca”, mas “não peca”, como uma prática regular e curso constante. A partir disso ele “conserva-se a si mesmo”. Este cuidado consiste não apenas na ordenação de nossa conduta exterior, mas se estende aos próprios pensamentos do coração. Foi a isso que o apóstolo se refere quando disse: “Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão” (1 Coríntios 9:27), não o seu corpo físico, mas o corpo do pecado dentro dele. Quanto mais somos conscientes de maus pensamentos e imaginações ilícitas, mais nós estabelecemos um julgamento sobre os nossos motivos, menos provável é que o nosso comportamento externo seja desagradável a Deus.

Passamos agora a considerar os testemunhos ou sinais no espírito do Cristão com relação à misericórdia de Deus, os sinais que evidenciam que ele seja um dos eleitos de Deus. O primeiro é quando um homem sente-se ser muito sobrecarregado e profundamente perturbado com a culpa e contaminação de suas iniquidades, e quando ele apreende o severo desprazer de Deus em sua consciência devido a eles. Isso supera em muito quaisquer males físicos ou calamidades temporais a que ele esteja sujeito. O pecado é agora o seu maior fardo de todos, tornando-o incapaz de desfrutar de prazeres mundanos ou saborear a associação com companheiros mundanos. Agora é que ele sente sua urgente necessidade de Cristo, e anela por Ele como o cervo brama pela corrente das águas. Ambições carnais e esperanças mundanas se desvanecem em insignificância absoluta diante deste anseio irresistível pela reconciliação com Deus através dos méritos do Redentor. “Dá-me a Cristo, senão eu morro”, é agora o seu clamor agonizante.

Agora, para todas essas almas enfermas pelo pecado, com consciências atormentadas, convencidas do pecado pelo Espírito, Cristo fez algumas grandiosíssimas e preciosas promessas, promessas que não se relacionam a ninguém, senão aos eleitos vivificados por Deus. “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” (João 7:37-38). Isso não é exatamente adequado às necessidades profundas de quem sente as chamas do inferno em sua consciência? Ele tem fome e sede de justiça, porque ele sabe que não tem nada de si mesmo. Ele tem sede de paz, pois ele não tem nenhuma, de dia ou de noite. Ele tem sede de perdão e purificação, pois ele vê-se como sendo um leproso criminoso. Então, vinde a Mim, diz Cristo, e eu atenderei a todas as suas necessidades. “A quem quer que tiver sede, de graça lhe darei da fonte da água da vida” (Apocalipse 2 1:6). E observe que se segue, assim, à sua vinda a Cristo: “Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna” (João 4:14).

O segundo sinal é uma nova afeição que é implantada no coração pelo Espírito Santo, pelo que um homem assim estima, valoriza e estabelece um preço tão alto em relação ao sangue e a justiça de Cristo que ele considera as coisas mais preciosas do mundo apenas como escória e esterco em comparação aqueles. Essa afeição foi evidenciada por Paulo (veja Filipenses 3:7-8). Agora, é verdade que quase todos os professos dirão que eles valorizam a Pessoa e a obra de Cristo acima de todas as coisas deste mundo, quando o fato é que a grande maioria deles tem o ânimo Esaú, preferindo um prato de lentilhas à porção de Jacó. Com pouquíssimas exceções aqueles que carregam o nome de Cristãos preferem muito mais as panelas de carne do Egito do que as bênçãos de Deus na terra prometida. Suas ações, suas vidas o demonstram, pois, onde está o tesouro de um homem, ali está o seu coração.

Que nenhum homem possa enganar-se em relação a este sinal particular da regeneração e da eleição, Deus nos deu duas marcas de identificação e comprovação. Em primeiro lugar, quando há uma genuína valorização e deleite em Cristo acima de todos os outros objetos, há um amor sincero pelos Seus membros. “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” (2 João 3:14), ou seja, tais que são membros do corpo místico de Cristo, e porque eles assim o são. Aqueles que são valiosos para Deus devem ser valiosos para o Seu povo. Não importa que diferenças possam haver entre eles, na nacionalidade, posição social, temperamento pessoal, há um vínculo espiritual que os une. Se Cristo estiver habitando em meu coração, então meus afetos serão necessariamente inclinados a todos em quem eu percebo, embora fracamente, os contornos de Sua santa imagem. E na medida em que eu permito que o espírito de animosidade me afaste deles, a evidência de minha eleição será obscurecida.

A segunda marca que evidencia uma verdadeira valorização de Cristo é um amor e anelo por Sua vinda, quer seja pela morte ou por Seu segundo advento. Embora a natureza retroceda da dissolução física, e embora o pecado que habita no Cristão faça-o desconfortável com a ideia de ser levado à presença imediata do Santo de Deus, no entanto, os atos da nova natureza elevam a alma acima desses obstáculos. Um coração renovado não pode ficar satisfeito com a sua comunhão presente, intermitente, e imperfeita com o seu Amado. Ela anseia por comunhão plena e completa com Ele. Este foi claramente o caso com Paulo: “tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor” (Filipenses 1:23). Que isso não era peculiar a si mesmo, mas algo que é comum a toda a eleição da graça, aparece a partir de sua palavra: “Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda” (2 Timóteo 4:8).

Em seguida, voltamos para o sinal externo de nossa adoção. Esta é a obediência evangélica, segundo a qual o crente sinceramente se esforça para obedecer aos mandamentos de Deus em sua vida diária. “E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos” (1 João 2:3). Deus não julga a desobediência pelo rigor da Lei pois, então, isso não seria sinal de graça, mas um meio de condenação. Antes, Deus estima e considera esta obediência de acordo com o teor da nova aliança. Quanto àqueles que O temem o Senhor declara: “poupá-los-ei, como um homem poupa a seu filho, que o serve” (Malaquias 3:17). Deus preza as coisas feitas não por seus efeitos ou por fazê-las de algum modo, mas pela afeição de quem as faz. É para o coração que Deus olha principalmente. E, no entanto, para que ninguém se engane quanto a este ponto, que as seguintes qualificações sejam ponderadas, em oração.

Essa obediência externa, que Deus requer de Seus filhos, e que, por amor a Cristo, Ele aceita deles, não é aquela que tem relação apenas a alguns dos mandamentos Divinos, mas a todos sem exceção. Herodes ouviu o Batista de bom grado, e fez muitas coisas (Marcos 6:20), mas se desviou da observância ao sétimo mandamento que o ordenava a deixar a mulher de seu irmão Filipe. Judas deixou o mundo por Cristo, e tornou-se um pregador do evangelho, mas ele não conseguiu mortificar a concupiscência da cobiça, e pereceu. Pelo contrário Davi exclamou: “Então não ficaria confundido, atentando eu para todos os teus mandamentos” (Salmos 119:6). Aquele que se arrepende de um pecado verdadeiramente, se arrepende de todos os pecados, e aquele que vive em algum pecado conhecido, sem arrependimento, de fato não se arrepende de nenhum pecado em absoluto.

Mais uma vez, para nossa obediência externa ser aceitável a Deus, deve estender-se a todo o curso da vida de um Cristão após a conversão. Nós não devemos julgar a nós mesmos (ou qualquer outra pessoa) por algumas ações ocasionais, mas pelo teor geral de nossas vidas. Como o curso da vida de um homem é, tal é o próprio homem; embora ele, por causa do pecado que ainda habita nele, falhe nesta ou naquela ação particular, ainda assim isso não prejudica sua condição diante de Deus, desde que ele renove seu arrependimento por suas ofensas – não repousando em qualquer pecado. Finalmente, é necessário que esta obediência externa proceda de todo o homem, tudo o que está dentro dele expressa louvor a Deus. No novo nascimento todas as faculdades da alma são renovadas, e, doravante, devem ser empregadas no serviço de Deus, como anteriormente foram no serviço ao pecado.

Seja dito mais uma vez que é mui importante que o Cristão seja bastante claro à exatidão do que o seu espírito testemunha. Isso não é para qualquer melhoria em sua natureza carnal, nem para o pecado ser menos ativo dentro dele; antes, é para o fato de que ele é um filho de Deus, como é evidente a partir de seu coração buscando por Ele, anelando por ter comunhão com Ele, e seu sincero esforço para agradá-lO. Assim como um filho carinhoso e obediente tem dentro de seu próprio peito a prova da relação peculiar que ele representa para o pai, assim, as inclinações filiais e aspirações do crente provam que Deus é o seu Pai celestial. É verdade que ainda há muito nele que constantemente se levanta contra Deus, no entanto, há algo mais que não havia nele por natureza.

Aqui, anteciparemos uma objeção: alguns dizem que é um pecado para o Cristão questionar sua aceitação diante de Deus, porque ele ainda é tão depravado, ou duvidar de sua salvação, porque ele pode perceber pouca ou nenhuma santidade interior. Eles dizem que tal dúvida é colocar a verdade e a fidelidade de Deus em dúvida, pois Ele nos assegurou de Seu amor e Sua prontidão para salvar todos os que creem em Seu Filho. Eles negam que é nosso dever examinar os nossos corações e dizem que nunca obteremos qualquer garantia ao fazê-lo; que devemos olhar para Cristo, e descansar em Sua pura Palavra. Mas este é um erro grave. Nós descansamos em Sua Palavra quando procuramos essas evidências que a própria Palavra descreve como as marcas de um filho de Deus. Disse o apóstolo: “Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência” (2 Coríntios. 1:12). “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade. E nisto conhecemos que somos da verdade, e diante dele asseguraremos nossos corações” (1 João 3:18-19).

Mas, apesar das evidências que o Cristão tem de sua filiação Divina, ele descobre que não é questão fácil ter a certeza de sua sinceridade ou estabelecer conforto sólido em sua alma. Suas disposições são intermitentes, as suas formas variáveis. É neste exato ponto que o bendito Espírito de Deus ajuda as nossas fraquezas. Ele acrescenta Seu testemunho ao testemunho de nossa consciência renovada, de modo que, por vezes, o Cristão tem a garantia de sua salvação, e pode dizer: “Em Cristo digo a verdade, não minto (dando-me testemunho a minha consciência no Espírito Santo)” (Romanos 9:1).

“A única forma designada por Deus pela qual podemos chegar a uma apreensão de um interesse na eleição é pelos frutos desta em nossas próprias almas. Também não é lícito para nós perguntarmos a Ele ou por qualquer outra maneira”. Com estas palavras do criterioso John Owen estamos em pleno acordo. De nossa parte, não nos atreveríamos a colocar qualquer dependência de uma esperança eterna em qualquer sonho ou visão que tenhamos recebido, ou qualquer voz que tenhamos ouvido. Mesmo que um ser celestial aparecesse diante de nós e declarasse que ele havia visto o nosso nome escrito no livro da vida do Cordeiro, não devemos colocar nenhuma credibilidade nisso, pois não teríamos nenhum meio de saber se ele não pode ser o próprio Diabo que “se transfigura em anjo de luz” (2 Coríntios 11:14) vindo para nos enganar. Nossa eleição deve ser certificada para nós pela infalível Palavra de Deus, e ali temos um firme fundamento sobre o qual descansar nossa fé.

A obrigação que o evangelho coloca sobre nós para acreditarmos em qualquer coisa relaciona-se à ordenação delas mesmas e ordenação de nossa obediência. Quando é declarado pelo evangelho que Cristo morreu pelos pecadores, não sou imediatamente obrigado a crer que Cristo morreu por mim em particular – isso seria inverter a ordem Divina do evangelho. A grandiosa e simples mensagem do evangelho da graça de Deus é que Cristo Jesus veio ao mundo para adquirir um caminho de salvação para perdidos, que Ele morreu pelos ímpios, que Ele tão perfeitamente satisfez as reivindicações da justiça Divina que Deus pode retamente justificar cada pecador que verdadeiramente crê em Seu Filho, Jesus Cristo (Romanos 3:26). Consequentemente, uma vez que me encontro como sendo membro dessa classe, desde que eu reconheço que sou um pecador, uma pessoa ímpia, perdida, então eu tenho plena garantia para crer nas boas novas do evangelho. Assim, o evangelho exige de mim a fé e a obediência e tenho a obrigação de obedecê-los completamente.

Até que eu creia e obedeça ao evangelho não estou sob nenhuma obrigação de crer que Cristo morreu por mim em particular; mas tendo feito isso, sou assegurado de desfrutar dessa garantia. Da mesma maneira, eu sou obrigado a crer na doutrina da eleição em minha primeira audição do evangelho, porque está ali claramente declarada. Mas quanto à minha própria eleição pessoal, eu não posso crer biblicamente, nem sou obrigado a crer nela de qualquer outra forma, senão à medida que Deus a revela por seus efeitos. Nenhum homem pode justamente não crer ou negar a sua eleição até que ele esteja em uma condição em que é impossível que os efeitos da eleição sejam operados nele. Enquanto ele é um homem ímpio não pode ter nenhuma evidência de que ele seja eleito; portanto, que ele não tenha nenhuma evidência de que ele não é eleito, enquanto é possível que ele seja santificado. Assim, se os homens são eleitos ou não, não é isso que Deus chama qualquer pessoa a imediatamente estar familiarizado; antes, a fé, a obediência e a santidade são requeridos de nós primeiramente.

Antes de prosseguirmos, que seja salientado que os eleitos são normalmente encontrados onde os ministros de Cristo trabalham muito. Paulo disse: “Portanto, tudo sofro por amor dos escolhidos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus com glória eterna” (2 Timóteo 2:10). Isso ilustra o princípio: o apóstolo sabia que em seus trabalhos evangélicos, ele estava sendo utilizado na execução do propósito de Deus em levar a mensagem de salvação para o Seu povo. Para esse fim o apóstolo foi sustentado pela providência Divina e dirigido pelo Espírito do Senhor. Tome uma breve amostra do método em que ele foi Divinamente guiado. Em sua segunda viagem de anúncio das boas novas em terras pagãs, Paulo tinha passado pela Frígia e região da Galácia e gostaria de pregar a palavra na Ásia, mas foi “impedido pelo Espírito Santo” (Atos 16:6), por que razão? Apenas por que Deus não tinha nenhum dos seus eleitos ali, ou se tivesse, o tempo ainda não havia chegado para a sua libertação espiritual.

O apóstolo então intentou ir para Bitínia, mas novamente nos é dito, “o Espírito não lho permitiu” (Atos 16:7). Isso é muito impressionante de fato, embora parece fazer pouca ou nenhuma impressão sobre as pessoas atualmente. Em seguida, lemos: “E, tendo passado por Mísia [quão solene!], desceram a Trôade”. Ali o Senhor apareceu-lhe numa visão direcionando-o a ir para a Macedônia e, a partir disso, ele certamente entendeu que Ele o chamou para pregar o evangelho ali. Ele então entrou naquele país e proclamou a boa nova e, em consequência, os eleitos de Deus em Tessalônica obtiveram salvação. Mais tarde, ele chegou a Corinto, onde se encontrou com muita oposição, e com pouco sucesso. Ele parece ter estado a ponto de partir, quando o Senhor lhe apareceu, fortaleceu o seu coração, e assegurou-lhe: “tenho muito povo nesta cidade” (Atos 18:10). Como resultado, ele permaneceu ali 18 meses e à Igreja de Corinto foi formada.

Este grande princípio de assim o Senhor direcionar os Seus servos, de modo que Seus eleitos são levados ouvir o Seu evangelho a partir de seus lábios, recebe muitas marcantes ilustrações nas Escrituras. A maneira notável pela qual Filipe foi conduzido com a Palavra de salvação ao eunuco Etíope, e Pedro, com a mesma Palavra para Cornélio e sua companhia, são casos deste ponto. Outro exemplo, talvez mais impressionante ainda, é a maneira pela qual os apóstolos obtiveram acesso ao carcereiro de Filipos com a Palavra da vida, que, por causa de sua vocação, provavelmente descobriria ser impossível ouvir a pregação pública deles. De modo muito bendito esses casos exemplificam as palavras do Salvador que, ao referir-se que ao grupo de pessoas que o Pai lhe dera nas terras dos Gentios, declarou: “Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz” (João 10:16), ouvem a Sua voz através de Seus servos e são vivificados pelo poder do Seu Espírito.

O Senhor Jesus nunca, contudo, enviou os Seus servos para o labor onde Ele não tinha um povo, que sendo dado a Ele pelo Pai, deve ser trazido por Ele ao rebanho. E Ele nunca assim os enviará. Mas onde Ele tem um povo, Ele dirigirá para ali os Seus servos, para chamar as pessoas para Si, e eles dirão como o velho Paulo: “tudo sofro por amor dos escolhidos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus com glória eterna” [2 Timóteo 2:10]. Apenas o Dia vindouro revelará plenamente o quanto – por Sua graça sustentadora – eles tanto suportaram para que os eleitos fossem salvos. Os eleitos, então, devem ser encontrados onde os ministros fiéis de Cristo trabalham muito. Agora, meu leitor, se você tem o privilégio de viver em um lugar assim, então, em seu próprio meio você pode olhar para o povo favorecido de Deus. O dia da oportunidade de ouro agora é seu, e é seu dever sagrado responder e entregar-se ao apelo feito pelos servos de Cristo.

Agora, passemos para algo ainda mais específico. Deus não somente envia Seus servos para aqueles lugares onde Sua providência estabeleceu alguns dos Seus eleitos, mas Ele reveste a Sua palavra com poder e torna Sua obra eficaz. “Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus; porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza, como bem sabeis quais fomos entre vós, por amor de vós” (1 Tessalonicenses 1:4-5). Essa passagem é muito mais direta ao ponto, e cada cláusula nela chama a nossa mais cuidadosa atenção. Ela nos diz como o apóstolo se certificou de que os santos de Tessalônica estavam entre os escolhidos de Deus, e como por paridade de razão, eles também podem conhecer e se alegrar em sua eleição. Esses detalhes foram Registrados para a nossa instrução, e se o Senhor se agradar de nos conceder uma compreensão espiritual deles, estaremos em fundamento seguro e certo. Mas, para isso, temos que ponderar em oração nestes versículos, palavra por palavra.

“Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus”. Como o apóstolo conhecia que a eleição deles era de Deus? Que seja mais particularmente observado que essa segurança dele não foi obtida por qualquer revelação imediata do céu, e nem por uma visão sobrenatural ou mensagem angelical, nem pelo próprio Senhor, informando-o diretamente para este efeito. Não, antes isso foi pelo que ele testemunhou em e a partir deles. Foi pelos frutos visíveis de sua eleição, que ele percebeu que eles eram “irmãos amados”. Em outras palavras, ele rastreou esses efeitos da graça que foram forjados neles em sua conversão até a sua origem no eterno propósito de misericórdia de Deus. Aqueles pequeninos riachos de graça em seus corações oram rastreados pelo apóstolo até o oceano do amor eterno de Deus a partir do qual procediam. Nesse sentido, ele indicou-nos o caminho que devemos seguir, o método que devemos perseguir a fim de verificar a nossa predestinação para a glória.

“Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder”. Todos os que fingem pregar o evangelho, na verdade não o pregam. Admitir que eles o fazem, seria admitir que há muitos evangelhos diferentes, pois há partidos e sentimentos na Cristandade, todos reivindicando ser deles o verdadeiro evangelho, com a exclusão de todos os outros. É, portanto, uma questão da mais alta importância que cada um de nós saiba o que o evangelho de Cristo realmente é, e isso deve ser aprendido com as Sagradas Escrituras, sob a orientação de Deus, o Espírito. Existem numerosas falsificações dele no mundo de hoje, e sua fraudulência só pode ser descoberta através de pesa-los nas “balanças do Santuário”. Igualmente necessário e importante é que nós verifiquemos como o evangelho deve ser recebido por nós se a alma deve ser permanentemente beneficiada por ele, pois de acordo com o apóstolo, há uma dupla recepção do evangelho.

“Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras”. Pois quando o evangelho vem a nós somente em palavras é por que Deus o deixou em sua eficácia natural, ou a força de seus argumentos e persuasão sobre a mente humana. Multidões, em muitos lugares ouviram o evangelho, mas continuam em idolatria e em injustiça, não obstante a profissão que muitos deles fazem. Quando o evangelho vem a nós “somente em palavras” ele atinge o intelecto e a compreensão, mas não faz nenhuma impressão real na consciência e no coração. Consequentemente, ele produz apenas uma fé fingida e presunçosa, uma fé que é inferior até mesmo a que os demônios têm, pois eles “creem, e estremecem” (Tiago 2:19). É apenas quando o evangelho vem a nós “no poder e no Espírito Santo” é que ele é recebido com uma fé verdadeira e salvadora. Quão necessário é, então, testar-nos neste ponto.

Há dois extremos em que os homens caem por falta do correto recebimento da Palavra de Deus. Em um, supõe que possui tanto a vontade e poder de realizar obras de justiça suficientes para recomendar-lhe ao favor de Deus, e por isso se lê que eles têm “zelo… mas não como convém” (Gálatas 4:17). Ele jejua, ora, dá esmola, frequenta a igreja, etc.; e onde ele acha que falha ou fica aquém, ele clama aos méritos de Cristo para suprir a sua deficiência. Isso é apenas tomar um pedaço de veste nova (Expiação de Cristo) e aplicar em seu manto uma justiça legal, esperando assim apaziguar a consciência pesada. Ele continua suas performances religiosas durante todo o ano, mas nunca alcança um conhecimento vital e experimental do evangelho. Todo o seu serviço são obras, porém mortas.

O outro extremo é o inverso disso, mas igualmente perigoso. Em vez de labutar ao ponto de cansar-se, estes não se esforçam de maneira alguma. Estando mais ou menos conscientes, visto que todos os homens naturais estão conscientes, que são pecadores, e ouvindo sobre a salvação gratuita por Jesus Cristo, eles prontamente caem nisso, a saber, O recebem em suas mentes, mas não em suas consciências. Uma fé superficial e presunçosa é gerada, e por um único salto eles chegam a uma suposta garantia do céu. Mas, diz Salomão, “A herança que no princípio é adquirida às pressas, no fim não será abençoada” (Provérbios 20:21). Essas pessoas são grandes oradores, possuem grande parte de sua liberdade a partir da lei, mas são eles mesmos escravos do pecado. Eles estão sempre aprendendo, mas nunca podem chegar ao conhecimento da verdade. Eles riem daqueles que têm dúvidas e medos, mas ele próprios têm a maiores motivos de todas para temer.

Agora, em contraste marcante de ambas essas classes, são os que recebem o evangelho não somente em palavras “mas em poder, e no Espírito Santo”. Este é um caminho do meio entre esses dois extremos, e um que está escondido de todo não-regenerado, pois “ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Coríntios 2:14). Quando Deus começa a “obra da fé com poder” (2 Tessalonicenses 1:11), e leva a alma neste caminho do meio, ela pode, a princípio nem ver nem compreender isso. Como foi com o pai de todos os que creem, assim é com todos os seus filhos: quando Abraão foi eficazmente chamado, ele “saiu, sem saber para onde ia” (Hebreus 11:8). Os nascidos do Espírito são levados adiante por “veredas que não conheceram” (Isaías 42:16), e até que as trevas sejam transformadas em luz perante eles e as coisas tortas sejam endireitadas, eles não conseguem entender o caminho do Espírito; mas quando isso é feito, então, a estrada é “aplainada” para eles (Isaías 62:10).

A pergunta mais importante, então, é: o evangelho veio a mim somente em palavras, ou em poder salvador? Se veio somente em palavras, então, ele foi recebido sem angústia, nem tribulação ou aflição de consciência, pois estas são as marcas comuns do poder Divino operando na alma do pecador. Quando a Palavra de Deus vem até nós “em poder”, ela vem como uma “espada de dois gumes” (Hebreus 4:12), tendo o mesmo efeito sobre o coração como uma espada tem quando é empurrada para dentro do corpo. Se a ferida for profunda, a dor e sofrimentos serão muito intensos. Então, quando a Palavra de Deus penetra “até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração”, produz angústia real e aflição profunda. Disse Jó: “Porque as flechas do Todo Poderoso estão em mim, cujo ardente veneno suga o meu espírito; os terrores de Deus se armam contra mim” (6:4). E assim, também, Davi exclamou: “Porque as tuas flechas se cravaram em mim, e a tua mão sobre mim desceu” (Salmos 38:2).

Foi assim na experiência de Paulo. Antes que o Espírito aplicasse a lei ao seu coração, ele estava vivo aos seus próprios olhos, embora morto aos olhos de Deus; mas quando o mandamento veio a ele no poder Divino, reviveu o pecado, e ele morreu – em sua própria estima (Romanos 7:9). O fato é que ele, como qualquer outro Fariseu, supunha que a lei não ia além do que a letra externa, ao passo que ele se considerava inocente. Mas quando as elevadas demandas da Lei e sua espiritualidade esquadrinhadora foram dadas a conhecer a ele, e que ela alcançava os próprios pensamentos e intenções do coração, e desvelou a ele as profundezas terríveis de depravação nele que antes estavam escondidas. Ele descobriu que a lei era espiritual, mas ele mesmo era carnal, vendido sob o pecado. Ele descobriu – como pouquíssimos o fazem – que o coração dele estava no mesmo estado descrito por Cristo em Marcos 7:21-22. Ele foi obrigado a acreditar no que Cristo declarou ali, porque agora ele via e sentia o mesmo dentro de si mesmo.

O primeiro ato de fé traz um homem a acreditar que ele está no mesmo estado que a Escritura declara que ele está; em inimizade contra Deus (Romanos 8:7), sendo um filho da ira (Efésios 2:3), sob a maldição de uma lei violada (Gálatas 3:10), levado cativo pelo diabo (2 Timóteo 2:26). Um pesado fardo do pecado reside em sua consciência (Salmos 38:4), sendo uma fonte ativa de iniquidade como o mar bravo, lançando a sua lama e lodo (Isaías 57:20), que confunde todos os esforços de um braço de carne, trazendo-o em terrível escravidão: “as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam” (Isaías 64:6). Ele encontra-se de mãos e pés amarrados com as cordas do seu pecado, e ele clama fervorosamente a Deus para ter piedade dele, e segundo a sua grande misericórdia, liberte-o. Ele agora não precisa de nenhumas formas estabelecidas de oração, mas de dia e de noite ele clama: “Deus, tem misericórdia de mim, pecador”.

E como é que o Senhor o liberta? Pelo evangelho vindo até ele “no poder e no Espírito Santo”. Deus expõe a ele em uma nova luz, os sofrimentos e a morte de Seu Filho, por meio de quem Sua justiça foi satisfeita, Sua lei magnificada, Sua ira aplacada, e foi aberto um caminho de reconciliação entre Deus e os pecadores. É o ofício do Espírito operar a fé no coração e aplicar o sangue expiatório e justiça de Cristo à consciência, pelo que o peso do pecado e da morte é removido, o amor de Deus é feito conhecido, a paz é transmitida para a alma e alegria para o coração. Assim, o mesmo instrumento que feriu, traz a cura. Por isso o apóstolo aqui acrescenta: “Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza” – garantia de sua veracidade e autoridade Divina, de sua perfeita adaptabilidade e adequação ao nosso caso, de sua bem-aventurança inefável.

“Lembro-me, também, quando a verdade veio ao meu coração, e me fez saltar de muita alegria, pois ela levou toda o meu fardo para longe; ela me mostrou o poder de Cristo para salvar. Eu conhecia a verdade antes, mas agora eu a sentia. Fui a Jesus, assim como eu estava, eu toquei a orla de Suas vestes, eu fui curado. Encontrei agora que a Palavra não era uma ficção – que era a única realidade. Eu tinha escutado dezenas de vezes, e aquele que falava era como aquele que tocava uma melodia com um instrumento; mas agora Ele parecia estar lidando comigo, colocando Sua mão direita em meu coração. Ele me trouxe primeiro ao trono de juiz de Deus, e ali estava eu e ouvi o barulho dos trovões; então Ele me trouxe para o propiciatório, e eu vi o sangue aspergido sobre ele, e eu fui para casa triunfante porque o pecado foi lavado” (C. H. Spurgeon).

“Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus” (1 Tessalonicenses 1:4). Como o apóstolo sabe que esses Tessalonicenses estavam entre os eleitos de Deus? Os próximos versículos nos dizem: pelos frutos visíveis da mesma que ele percebeu neles. Discernindo em suas vidas esses efeitos da graça que foram operadas neles em sua conversão, ele rastreou até o próprio eterno propósito de misericórdia de Deus relativo a eles. E, meu leitor, a maneira pela qual Paulo sabia que os crentes de Tessalônica eram “eleitos desde o princípio para a salvação” (2 Tessalonicenses 2:13) deve ser o método pelo qual cada Cristão, hoje, deve verificar sua eleição de Deus.

“Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo” (1 Tessalonicenses 1:5). Tudo gira sobre como o (verdadeiro) Evangelho é recebido por nós: se é apenas apreendido pelo intelecto, ou se ele realmente atinge a consciência e o coração para somente então ser recebido com uma fé salvadora. Quando a Palavra de Deus vem até nós “em poder”, se trata de “uma espada de dois gumes” – cortando, ferindo, causando dor e angústia profundas. Quando a Palavra vem a nós em poder não é devido a qualquer aprendizado ou eloquência do pregador, nem a qualquer compaixão que ele possa empregar. O fato de que as emoções dos seus ouvintes são profundamente tocadas de forma que eles sejam levados às lágrimas, não é prova alguma de que o evangelho é chegado a eles em termos de eficácia Divina, as paixões da criatura são frequentemente agitadas por atuações no palco e milhares são comovidos a chorar no teatro. Tal emocionalismo superficial é apenas evanescente, não tendo efeitos duradouros e nem espirituais. O teste é saber se estamos quebrantados e prostrados diante de Deus.

O mesmo pensamento é expresso novamente no versículo seguinte, como sendo através deste detalhe especial que nós mais precisamos nos testar: “recebendo a palavra em muita tribulação, com gozo do Espírito Santo” (v. 6). Como isso expõe a inutilidade do “evangelismo” leve e espumoso dos nossos dias! Quão solene é lembrar que Cristo descreveu o ouvinte representado pela terra pedregosa como “o que ouve a palavra, e logo a recebe com alegria; mas não tem raiz em si mesmo” (Mateus 13:20-21). Muito diferente ocorreu com aqueles que foram convertidos no dia de Pentecostes, pois a primeira coisa registrada sobre eles é que “compungiram-se em seu coração” (Atos 2:37). Dores de parto precedem o nascimento e, então, vem a alegria (veja João 16:21). Estas são as perguntas que devem ser considerados e respondidas diante de Deus: a Palavra repreendeu-me e condenou-me? Ela me retirou de minha auto-complacência e justiça própria? Ela abateu as minhas esperanças, e me levou a permanecer como um criminoso autocondenado diante do propiciatório?

“As pessoas vêm ouvir sermões neste lugar e, então saem e dizem, “você gostou?” – como se isso significasse algo para alguém – “você gostou?” E um diz, “Ah, sim, gostei muito”. E outro diz, “Ah, não tanto”. Você acha que vivemos na respiração de suas narinas? Você acredita que os, se realmente são dEle, se importam com o que pensam deles? Não, na verdade, mas se por acaso você responder, “eu gostei do sermão”, eles estarão inclinados a dizer, “então nós devemos ter sido infiéis, pois de outra maneira você estaria com raiva, nós devemos ter sido levados por alguma coisa, ou então a Palavra teria cortado sua consciência como as bordas afiadas de uma faca! Você teria dito, “eu não penso se gostei ou não – eu estava pensando como eu gostava de mim e sobre o meu estado diante de Deus. “Este era o assunto em que refletia, não se o pregador pregava bem, mas se eu estava aceito em Cristo, ou se era um rejeitado”. Meus queridos ouvintes, vocês estão aprendendo a ouvir desse jeito? Se não estão, se ir à igreja ou à capela para vocês é como ir a um jogo, ou como ouvir um orador que fala sobre assuntos temporais, então vocês não têm a evidência da Eleição – a Palavra não chegou às vossas almas com poder.” (C. H. Spurgeon, Eleição: Defesa e Evidências, Sermão Nº 2920)

Entre as porções citadas acima a partir de 1 Tessalonicenses 1:5-6 há dois outros elementos: em primeiro lugar, “em muita certeza”. Quando a Palavra vem a nós, no poder de conversão para a alma de um homem, todas as suas dúvidas sobre a sua autenticidade e autoridade são removidas, e ele não precisa de argumentos humanos para convencê-lo de que seu autor é Deus. Todo o ceticismo dos racionalistas e críticos mais elevados será dissipado como a névoa diante do sol nascente, se o Espírito tiver o prazer de aplicar eficazmente a Palavra aos seus corações. Aqueles que têm sido levados a sentir a sua extrema necessidade de Cristo e percebido Sua perfeita adequação à sua condição desesperada, tem “muita certeza” do que o evangelho afirma sobre Sua Pessoa e obra. Não importa o que tenha sido o caso com eles anteriormente, agora, eles não têm dúvida sobre a Sua Divindade absoluta, Seu nascimento virginal, Sua morte vicária, Sua dignidade preeminente como profeta, sacerdote e rei. Essas coisas muito importantes são estabelecidas para ele, firmadas para sempre e ele declarará a si mesmo de forma positiva e dogmática que chocará a sensibilidade do arrogante.

Mais uma vez, é dito: “E vós fostes feitos nossos imitadores, e do Senhor” [1 Tessalonicenses 1:6]. Aqui está outra marca de eleição: os que são escolhidos pelo Senhor desejam ser como Ele. “E vós fostes feitos nossos imitadores”, não significa que eles disseram: “Eu sou de Paulo, eu sou de Silas, estou de Timóteo”, mas que eles imitaram esses evangelistas eminentes na medida em que eles seguiam o exemplo que Cristo nos deixou. Ah, este é o teste, meus leitores. Será que somos parecidos com Cristo? Ou nós honestamente desejamos ser assim? Então, isso é uma evidência segura de nossa eleição. Será que vivemos de toda a palavra de Deus (Mateus 4:4)? – Cristo assim o fez. Levamos tudo a Deus em oração? – Cristo assim o fez. Oramos a Deus para abençoar os que nos maldizem? Não é que sejamos sem pecado, perfeitos; mas nós, embora muitas vezes “de longe”, realmente seguimos a Cristo? Se seguimos, não é ostentação orgulhosa reconhecê-lo, nem é auto-justificação derivar daí conforto, contanto que também soframos com nossas muitas deficiências e lamentemos sobre os nossos pecados.

“Com gozo do Espírito Santo”, observe a linguagem qualificadora, não é alegria carnal, mas alegria espiritual. E observe também, que esta conclui a lista, pois é sempre o modo do Senhor reservar o melhor vinho para o final. Infelizmente, como alguns professos nada sabem, experimentalmente, sobre esta alegria profunda e espiritual. A religião da grande maioria consiste em um atendimento servil a formas em que eles não se deleitam. Quantos vão para algum lugar de adoração, simplesmente porque não é respeitável ficar longe, ainda que muitas vezes gostariam que fosse. Não é assim com o Cristão, quando ele está em seu juízo perfeito: ele vai cultuar ao Senhor, para ouvir a voz de seu Amado, procurando um sinal ter seu amor por Ele revigorado, desejando aproveitar o sol de Sua presença. E quando ele é favorecido com a visita de Cristo, ele exclama com Jacó: “Este não é outro lugar senão a casa de Deus”, uma antecipação do céu [Gênesis 28:17].

E agora na elaboração de uma conclusão de nossas observações sobre este aspecto fascinante do assunto, ainda há um outro versículo em que devemos ponderar: “Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição” (2 Pedro 1:10). Essas palavras foram terrivelmente distorcidas por propagadores de erros. Inimigos da verdade perverteram-nas dizem que elas significam que o decreto Divino sobre a salvação é apenas provisório, condicional aos esforços do próprio pecador. Eles negam que a predestinação de qualquer homem para a vida eterna é absoluta e irrevogável, insistindo que é subordinada à nossa própria diligência pessoal. Em outras palavras, o próprio homem deve decidir e determinar se o desejo de Deus em relação a Ele deve ser realizado ou não. Não somente tal conceito é totalmente estranho ao ensinamento da Sagrada Escritura, mas dizer que a ratificação e realização do propósito eterno de Deus é deixado dependente de algo próprio da criatura, é pura blasfêmia; e se fosse verdade, não apenas tornaria nossa eleição incerta, mas totalmente sem esperança.

“Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição”. Estas palavras também têm apresentado um problema real para não poucos do povo de Deus. Eles têm estado dolorosamente perplexos para compreender como alguma diligência da sua parte poderia fazer firme a vocação e eleição de Deus; e mesmo quando essa dificuldade é esclarecida, eles ficam quase perdidos quanto a saber de que forma a sua diligência é proveitosa. Ah, meus amigos, Deus muitas vezes Se expressou nas Escrituras, de tal forma a testar a nossa fé, humilhar os nossos corações e nos levar aos joelhos. Talvez possa proporcionar mais ajuda se nos concentrarmos nos seguintes pontos. Em primeiro lugar, as pessoas em particular aqui abordadas. Em segundo lugar, a ordem incomum de “vocação e eleição. Em terceiro lugar, o que é o “procurar” aqui requerido. Em quarto lugar, em que sentido nós podemos fazer a nossa vocação e eleição “firme”?

Em primeiro lugar, as pessoas abordadas. Se este princípio simples for apenas devidamente compreendido, que massa de exposições erradas seriam evitadas. É a má aplicação da Escritura que é responsável por tanta interpretação defeituosa. Quando o pão dos filhos é lançado aos cachorrinhos, os primeiros são roubados e aos últimos é dado o que o que eles não conseguem digerir. Tome uma exortação dirigida aos crentes e apropriar-se dela, ou melhor, apropriar-se indevidamente dela para os incrédulos, é uma ofensa indesculpável, ainda assim, tal coisa muitas vezes tem sido feita com o versículo diante de nós. Não há dificuldade alguma em determinar os destinatários da presente ordem Divina. O versículo de introdução da epístola nos diz que o apóstolo está aqui escrevendo para aqueles que “conosco alcançaram fé igualmente preciosa”, de modo que eles eram crentes; enquanto no próprio versículo eles são denominados “irmãos” e exortados como tais.

Esta exortação, então, é dirigida a santos vivos e não aos pecadores mortos. Ensinar que o não-regenerado pode fazer algo para garantir a sua vocação e eleição, não é somente uma ignorância colossal, mas isso faz da Palavra de Deus mentira. Quando eles estão pregando uma mensagem Divina, o primeiro dever dos ministros de Deus é traçar definitivamente a linha de demarcação entre a Igreja e o mundo, é a falha neste ponto que faz com que tantos filhos do Diabo reivindiquem o relacionamento com o povo de Deus. Atenção para o contexto sempre deixará claro a quem pertence uma passagem, se aos filhos dos homens, em geral, ou aos filhos de Deus, em particular. A maneira mais simples e mais eficaz de evidenciar isso para seus ouvintes, é que eles delineiem cuidadosamente as características (as marcas de identificação) de um e de outro, observe como o apóstolo seguiu este próprio curso nos primeiros quatro versículos da epístola.

Em segundo lugar, a ordem incomum que se encontra aqui: “vossa vocação e eleição”. Embora à primeira vista isso represente uma dificuldade, contudo um estudo mais aprofundado mostrará o que realmente fornece uma importante chave para a abertura desta exortação. O que intriga o leitor atento é, por que “vocação” vem antes de “eleição”, pois como temos procurado mostrar tão longamente nos capítulos anteriores, o chamado eficaz é a consequência da eleição, como também é a manifestação da mesma. Como Romanos 8:28 declara, os crentes são “chamados segundo o seu propósito”, ou seja, o chamado é o cumprimento do propósito de Deus. Assim também em Romanos 8:30 é dito: “E aos que predestinou a estes também chamou”. Semelhantemente é dito que Deus “nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” (2 Timóteo 1:9). Por que, então, essas duas coisas estão invertidas na passagem que estamos considerando agora?

Deve ser observado atentamente que Romanos 8:28, 30 e 2 Timóteo 1:9 estão tratando dos atos de Deus, ao passo que 2 Pedro 1:10 menciona vocação e eleição, em conexão com a nossa diligência. É somente por devidamente observar tais distinções que nós podemos esperar chegar a um entendimento correto de muitos dos detalhes das Escrituras Sagradas. Em Romanos 8, o apóstolo está propondo doutrina, enquanto que em 2 Pedro 1:10 ele está fazendo uma exortação, e há uma diferença marcante entre essas coisas. Quando os caminhos de Deus estão sendo expostos, eles são apresentados em sua ordem natural ou lógica (como em Romanos 8:30), mas quando a experiência Cristã está sendo tratada, a ordem em que apreendemos a verdade é a que é seguida. Assim, é aqui: devemos ter a certeza de que fomos os destinatários de um chamado eficaz, pois isso, por sua vez, fornecerá a prova da nossa eleição. A ordem dos pensamentos de Deus para conosco foi, eleição e, em seguida, chamado; mas em nossa experiência apreendemos o chamado antes da eleição.

Em terceiro lugar, o que é o “procurar” aqui necessário? Há multidões que imaginam ter recebido um chamado eficaz de Deus, mas isso é apenas fantasia; em vez de em oração e com diligência dedicarem-se ao dever aqui ordenado, eles se dão o benefício da dúvida. Provavelmente, muitos são bastante sinceros em sua suposição, mas eles estão sinceramente enganados, sendo desviados por seus corações enganosos. Está longe de ser o suficiente adotar a doutrina da eleição como um artigo do nosso credo. Como alguém laconicamente o colocou:

Embora a eleição de Deus seja uma verdade,
Pequeno conforto ali eu vejo,
Até que me seja dito pela boca do próprio Deus,
Que Ele me escolheu.

E eu não tenho o direito ou autorização para esperar que Ele alguma vez fará tal coisa, até eu ter cumprido com os seus requisitos do versículo agora diante de nós.

Isso a que sou aqui exortado é a primeiro certificar-me de minha “vocação” de Deus. Isso deve ser feito por meio de acumular e fortalecer a minha prova de que eu sou Seu filho, nascido de novo; e que, por sua vez, é realizado por cultivar o caráter e a conduta de um santo. E como isso deve ser alcançado? Ao utilizar os meios de graça que Deus providenciou como a leitura diária das Escrituras com meditação espiritual das mesmas; pela oração secreta e fervorosa por socorro Divino e graça; cultivando a comunhão com o povo de Deus, conforme a Sua providência o permita; mantendo vigilância fiel sobre nossos corações, desaprovando tudo o que é profano; pela estrita negação do eu e mortificação dos nossos membros. Mas receberemos mais ajuda neste momento, se atendemos a algo ainda mais específico no contexto.

Nos versículos 5-7 somos exortados: “E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, e à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a piedade, e à piedade o amor fraternal, e ao amor fraternal a caridade”. Agora, o versículo 10 expressa o mesmo dever, mas com palavras diferentes. Há um paralelismo marcante neste capítulo, e é observando a repetição (em variação de pensamento) que encontramos a chave principal para o nosso versículo. Nos versículos 5-7 temos uma exortação, e no versículo 8 nos é mostrado o resultado de dar atenção a ele. No versículo 10, também temos uma exortação semelhante, e, em seguida, no verso 11, o resultado de seu cumprimento é mostrado. Assim, o nosso texto deve ser interpretado à luz do seu contexto. Qual é o “procurar” aqui necessário? Do que ele consiste? Os versículos 5-7 nos dizem. É por cultivar as graças espirituais neles mencionadas, de modo que eu possa verificar a minha vocação e eleição.

Em quarto lugar, em que sentido é que devemos fazer a nossa vocação e eleição “firme”? Primeiro, observe que não é “segura”, elas já estão asseguradas para cada santo pela imutabilidade do propósito Divino, pois “os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” (Romanos 11:29). Isso não é fazer a nossa vocação e eleição firme em relação a Deus, mas em relação ao homem. Nem é algo futuro que está aqui em vista, é o gozo presente para nós mesmos de nossa vocação e eleição, e o evidenciar da mesma aos nossos irmãos. Ao prestar atenção à exortação dos versículos 5-7 devo provar a minha vocação e eleição, e demonstrar o mesmo para a Igreja. Um homem pode me dizer que acredita na eleição e está seguro que ele foi chamado por Deus, mas a menos que eu possa ver em seu caráter e conduta as graças espirituais dos versículos 5-7, então eu tenho que dizer a ele (como Paulo disse aos Gálatas). “Estou perplexo a vosso respeito” [Gálatas 4:20]. Aqui, então, está o significado: façam firmes sua vocação e eleição em sua própria consciência, e façam aos outros o bom caráter da sua profissão de fé, caminhando como um filho de Deus.

Finalmente, duas consequências de cumprir essas exortações são apontadas. Em primeiro lugar, “porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis” (v. 10). Aqueles que empregam toda a diligência para cultivar as graças espirituais mencionadas nos versículos 5-7 (tornando assim a sua vocação e eleição firme, tanto para si mesmos e para seus irmãos), nunca deve cair do lugar de comunhão com Deus; nunca cairão da verdade em falsa doutrina e erro; nunca deve cair em pecados graves, e assim desonrar sua profissão Cristã; nunca cairão em um estado de apostasia, de modo que eles percam seu gosto pelas coisas espirituais; nunca cairão sob a dolorosa disciplina de Deus; nunca cairão em um desânimo, de modo a perder toda a segurança; nunca cairão em uma condição de inutilidade espiritual. Mas, em segundo lugar, “Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (v. 11), isso, experimentalmente, aqui, e plena e honrosamente no futuro. Este é o resultado e a recompensa de “procurar”, a palavra Grega para “concedida” no versículo 11 é a mesmo que “acrescentai” no versículo 5!

E agora, em resumo. Como pode um crente verdadeiro saber se ele é um dos eleitos de Deus? Ora, o próprio fato de que ele é um Cristão genuíno o evidencia, pois uma crença em Cristo é a consequência segura de Deus tê-lo ordenado para a vida eterna (Atos 13:48). Porém, para ser mais específico. Como posso conhecer a minha eleição? Em primeiro lugar, pela Palavra de Deus tendo chegado em poder Divino à alma, de forma que a minha auto-complacência é quebrada e minha justiça própria renunciada. Em segundo lugar, pelo Espírito ter me convencido de minha condição lamentável, de culpado e perdido. Em terceiro lugar, por ter me revelado a adequação e suficiência de Cristo para atender o meu caso desesperado, e por uma concessão Divina de fé, levando-me a lançar mão de e descansar sobre Ele como minha única esperança. Em quarto lugar, pelas marcas da nova natureza dentro de mim: o amor a Deus, um apetite pelas coisas espirituais, um anelo por santidade, uma busca por conformidade com Cristo. Em quinto lugar, pela resistência que a nova natureza faz à velha natureza, levando-me a odiar o pecado e abominar-me por isso. Em sexto lugar, por diligentemente evitar tudo o que é condenado pela Palavra de Deus, e por sinceramente arrepender-me e humildemente confessar cada transgressão. A falha neste ponto mui certa e rapidamente trará uma nuvem escura sobre a nossa segurança, fazendo com que o Espírito retenha o Sua testemunho. Em sétimo lugar, empregando toda a diligência para cultivar as graças Cristãs, e usando todos os meios legítimos para essa finalidade. Assim, o conhecimento da eleição é cumulativo.

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♦ Este texto é o capítulo 9 do livro The Doctrine of Election, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: The Doctrine of Election
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Graça e Paz Multiplicadas Pelo Conhecimento de Deus e de Jesus, Nosso Senhor – Arthur Walkington Pink

“Graça e paz vos sejam multiplicadas, pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor; visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude.” (2 Pedro 1:2-3)

Nenhum estudo aprofundado das orações dos apóstolos, ou das orações da Bíblia como um todo, seria completa sem um exame das bênçãos com que os apóstolos (com exceção de Tiago), antecederam as suas epístolas. Essas saudações iniciais eram muito diferentes do mero ato de cortesia, como quando o comandante dos soldados Romanos em Jerusalém escreveu uma carta nestes termos: “Cláudio Lísias, a Félix, potentíssimo presidente, saúde” (Atos 23:26). Os seus discursos introdutórios eram muito mais do que uma formalidade cortês, sim, do que as expressões de um desejo gentil. Sua “Graça a vós e paz” era uma oração, um ato de adoração, em que Cristo era sempre abordada em união com o Pai. Isso significa que um pedido por essas bênçãos foi feito diante do trono. Tais bênçãos evidenciavam a afeição calorosa que os apóstolos tinham por aqueles a quem escreveram, e demonstravam os seus desejos espirituais em nome deles. Ao colocar estas palavras de bênção no início de sua epístola, o apóstolo Pedro manifesta poderosamente como seu próprio coração foi afetado pela bondade de Deus para com seus irmãos.

Aquilo que agora envolve a nossa atenção pode ser considerado sob os seguintes tópicos. Primeiro, olharemos para a essência da oração: “graça e paz”, essas são as bênçãos suplicadas a Deus. Em segundo lugar, devemos ponderar a medida desejada de sua concessão: “vos sejam multiplicadas”. Em terceiro lugar, contemplaremos o meio de sua comunicação: “pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor”. Em quarto lugar, examinaremos o motivo que levou o pedido: “Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade” (v. 3). Antes de preencher esse esboço ou fazer uma exposição desses versículos, apontaremos o que está implícito por meio desta oração (especialmente para o benefício de jovens pregadores, para quem é especialmente vital aprender como um texto deve ser ponderado)

As Implicações Vitais desta Bênção

Na busca do apóstolo por Deus quanto a tais bênçãos como estas para os santos, as seguintes lições vitais são ensinadas por implicação: (1) que ninguém pode merecer qualquer coisa das mãos de Deus, pois a graça e mérito são opostos; (2) que não pode haver paz verdadeira à parte da Divina Graça “Não há paz para os ímpios, diz o meu Deus” (Isaías 57:21). (3) que, mesmo o regenerado permanece em necessidade, constante precisão, da graça de Deus; e (4) o regenerado, portanto, deve ser vil aos seus próprios olhos. Se quisermos receber mais de Deus, então devemos apresentar os nossos corações a Ele como vasos vazios. Quando Abraão estava prestes a fazer súplica ao Senhor, ele humilhou a si mesmo como “pó e cinza” (Gênesis 18:27); e Jacó reconheceu que ele não era digno da menor de Suas misericórdias (Gênesis 32:10). (5) Tal pedido como o que Pedro está fazendo aqui é uma confissão tácita da total dependência dos crentes sobre a bondade de Deus, de forma que somente Ele é capaz de suprir as suas necessidades. (6) Ao pedir que a graça e paz fossem multiplicado a eles, o reconheci-mento é feito que não só o início e continuidade deles, mas também o seu crescimento procede da boa vontade de Deus. (7) Por isso, intimação é dada: “abre bem a tua [nossa] boca” (Salmos 81:10) para Deus. Sim, é um mal sinal o contentar-se com pequena graça. “Nunca foi bom aquele que não deseja crescer mais”, diz Manton.

 O Caráter Especial da Segunda Epístola

Uma palavra também precisa ser dito sobre o caráter do livro em que esta oração particular é encontrada. Como toda segunda Epístola, esta trata de um estado de coisas em que o falso ensino e apostasia tinham um lugar mais ou menos proeminente. Uma das principais diferenças entre as duas epístolas é esta: enquanto que em sua primeira Epístola, o propósito principal de Pedro era fortalecer e confortar os seus irmãos em meio ao sofrimento a que estavam expostos devido ao mundo profano (pagão) (veja o capítulo 4), e ele agora graciosamente os adverte (2 Pedro 2:1; 3:1-4) e confirma (2 Pedro 1:5-11; 3:14) contra um perigo pior do que o mundo professo, a partir daqueles dentro da Cristandade, o qual os ameaçava. Em sua primeira Epístola, Pedro tinha representado o seu grande adversário, o diabo, como um leão que ruge (1 Pedro 5:8). Mas aqui, sem nomeá-lo diretamente, ele retrata Satanás como um anjo de luz (mas, na realidade, a serpente sutil), que já não está perseguindo, mas buscando corrompê-los e envenená-los por meio de falsos ensinamentos. No segundo capítulo, esses falsos mestres são denunciados (1) como os homens que haviam negado o Senhor que os resgatou (v. 1), e (2) como licenciosos (vv. 10-14, 19), que dão liberdade aos seus apetites carnais.

O apóstolo Pedro dirige sua epístola “alcançaram fé igualmente preciosa pela justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” (2 Pedro 1:1, as palavras ordenadas aqui de acordo com o texto grego e VKJ, nota marginal). A palavra fé aqui refere-se a esse ato da alma através do qual a verdade divinamente revelada é salvifícamente apreendida. Sua fé é declarado ser “preciosa”, pois é um dos dons escolhidos de Deus e o fruto imediato do poder regenerador do Seu Espírito. Isto é enfatizado na expressão “alcançaram” (lagchanō, Nº 2975, em Strong e Thayer). É a mesma palavra Grega encontrada em Lucas 1:9: “coube-lhe em sorte entrar no templo do Senhor para oferecer o incenso”. Ela aparece novamente em João 19:24: “Não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ela”. Assim, esses santos foram lembrados de que eles deviam a sua fé salvadora não a qualquer sagacidade superior da parte deles, mas apenas às distribuições da graça. Isso ocorreu com eles, como com o próprio Pedro. A revelação foi feita a eles: não pela carne e sangue, mas pelo Pai celestial (Mateus 16:17). Na distribuição de favores de Deus uma bendita porção havia caído para eles, mesmo “a fé dos eleitos de Deus” (Tito 1:1). Eles a quem Pedro se dirige são os Gentios, e o nós em que ele se inclui são os Judeus. Sua fé tinha por objeto a perfeita justiça de Cristo, seu Fiador, pois as palavras “pela justiça do” são, provavelmente, melhor traduzidas e compreendidas “na justiça do” Divino Salvador.

A Substância da Bênção de Pedro

Tendo assim descrito seus leitores por sua posição espiritual, Pedro acrescenta sua bênção apostólica: “Graça e paz vos sejam multiplicadas”. A combinada bênção apostólica e saudação (que contém os elementos, graça e paz) é essencialmente o mesmo que a empregada por Paulo em dez de suas Epístolas, bem como por Pedro em 1 Pedro. Em 1 e 2 Timóteo e Tito, Paulo acrescentou o elemento misericórdia, como o fez João em João 2. Judas usou os elementos misericórdia, paz e amor. Assim, nós aprendemos que os apóstolos, ao pronunciarem bênçãos ditada pelo Espírito sobre os crentes a quem escreveu, combinaram a graça, a palavra de ordem na era da Nova Aliança (João 1:14,17) com a paz, a distintiva bênção Hebraica. Quem leu o Antigo Testamento com atenção se lembrará com que frequência a saudação “a paz esteja contigo”, ou algo semelhante é encontrada (Gênesis 43:23; Juízes 6:23; 18:6; etc.) “Haja paz dentro de teus muros, e prosperidade dentro dos teus palácios” (Salmos 122:7), clama Davi, enquanto ele contempla com expectativa as bênçãos espirituais e temporais que ele deseja para Jerusalém e, portanto, a favor de Israel (cf. vv. 6, 8, bem como todo o Salmo). Este texto mostra que a palavra paz era um termo genérico para designar o bem-estar. Desde a sua utilização pelo Salvador ressuscitado em João 20:19, concluímos que era um resumo de inclusão de toda bênção. Nas Epístolas e Livro do Apocalipse [...] os termos graça e/ou paz são frequentemente usados ​​em saudações e bênçãos conclusivas. A palavra paz é usada de maneiras diversas por oito vezes (Romanos 16:20; 2 Coríntios 13:11; Efésios 6:23; 1 Tessalonicenses 5:23; 2 Tessalonicenses 3:16; Hebreus 13:20; 1 Pedro 5:14; 3 João 14), seis dessas vezes em maior ou menor proximidade com a palavra graça, que é usada dezoito vezes (Romanos 16:20, 24; 1 Coríntios 16:23; 2 Coríntios 13:14; Gálatas 6:18; Efésios 6:24; Filipenses 4:23; Colossenses 4:18; 1 Tessalonicenses 5:28; 2 Tessalonicenses 3:18; 1 Timóteo 6:21; 2 Timóteo 4:22; Tito 3:15; Filemom 1:24; Hebreus 13:25; 1 Pedro 5:10; 2 Pedro 3:18; Apocalipse 22:21). Obviamente, a cláusula “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja convosco”, ou alguma variação disso, é a mais característica bênção conclusiva empregada pelos apóstolos. À luz da sua compreensão das realidades gloriosas da era do Evangelho (Atos 10, 11, especialmente vv. 1-18), é evidente, por esta bênção, que o apóstolo Pedro vê e abraça tanto Judeus crentes e Gentios crentes, como unidos no compartilhamento da plena bênção de grande salvação de Deus.

Tendo um desejo sincero pelo bem-estar deles, Pedro pediu para os santos as mais preciosas bênçãos que lhes poderiam ser conferidas, para que eles pudessem ser moral e espiritualmente enriquecidos, tanto interna como externamente. “Graça e paz” contém a soma das dádivas do Evangelho e o suprimento de todas as nossas necessidades. Juntas, elas incluem todos os tipos de bênçãos, e, portanto, elas são as coisas mais abrangentes que podem ser solicitadas a Deus. Elas são os mais valiosos favores que podemos desejar para nós mesmos, e para os nossos irmãos! Elas devem ser solicitadas por meio da fé, da parte de Deus nosso Pai, em confiança na mediação e os méritos de nosso Senhor Jesus Cristo. “Graça e paz” são a própria essência, assim como o todo, da verdadeira felicidade de um crente nesta vida, o que explica o desejo do apóstolo de que seus irmãos em Cristo pudessem abundantemente participar delas.

Pedro Ora para que seus Irmãos Cresçam na Graça

A graça não deve ser entendida no sentido do distintivo favor redentor de Deus, pois estes santos já eram objetos desta graça; nem isso deve ser tomado como um princípio espiritual dentro da natureza, pois este foi dado a eles no novo nascimento. Antes, isso se refere a uma maior manifestação da natureza espiritual e semelhança divina que alguém recebeu de Deus e uma dependência maior e mais alegre sobre o Doador (2 Coríntios 12:9). Também se refere aos dons divinos que induzem a esse crescimento. Falando de Cristo, o apóstolo João declara: “E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por [“sobre”, margem da American Standard Version] graça” (João 1:16). Matthew Poole comenta da seguinte forma:

E graça por graça: temos recebido não gotas, mas graça sobre graça; não somente o conhecimento e instrução, mas o amor e a graça de Deus, e os hábitos espirituais, na proporção do favor e da graça que há em Cristo (permitindo nossa pequena capacidades); recebemos a graça livremente e com abundância, tudo a partir de Cristo, e por causa dEle; pelo que vemos o quanto a alma que recebe a graça é obrigada a reconhecer e adorar a Cristo, e pode ser confirmada no recebimento de mais graça, e de esperanças de vida eterna. (itálicos pelo autor)

É evidente a partir de 1 Pedro 4:10 que a graça de Deus é multiforme, sendo dispensada aos Seus santos em várias formas e medidas de acordo com as suas necessidades, mas para a edificação não somente do indivíduo, mas do Corpo de Cristo como um todo (Efésios 4:7-16). No próprio final desta Epístola, Pedro ordena aos seus leitores, dizendo: “Antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo” (2 Pedro 3:18; cf. Efésios 4:15). Assim, vemos a adequação da oração de Pedro, que Deus exerceria ainda mais Sua benignidade para com eles. Vemos também a necessidade da nossa oração, desta mesma forma, para nós mesmos e para os outros.

Assim, vemos que, embora o significado fundamental e referência da graça é o favor redentor de Deus, gratuitamente concedido, ainda assim o termo é frequentemente usado em um sentido mais amplo para incluir todas essas bênçãos que fluem da Sua bondade soberana. Desta forma é que a graça deve ser entendida nas bênçãos apostólicas: a oração para a contínua e crescente manifestação da expressão da boa obra que Ele já começou (Filipenses 1:6). “Graça e paz”. Os dois benefícios são adequadamente unidos, pois um nunca é encontrado sem o outro. Sem graça conciliadora, não pode haver paz sólida e duradoura. A primeira é a boa vontade de Deus para conosco; a última é a Sua grande obra em nós. Na proporção em que a graça é comunicada, a paz é apreciada: a graça santifica o coração; a paz conforta a alma.

Embora a Paz Comece com a Justificação, Ela é Mantida pela Nossa Obediência

A paz é um dos principais frutos do Evangelho, enquanto é recebida em um coração crente, sendo aquela tranquilidade de espírito que advém da sensação de nossa aceitação da parte de Deus. Não é uma objetiva, mas uma paz subjetiva que está aqui em vista. “Paz com Deus” (Romanos 5:1) é fundamentalmente judicial, sendo o que Cristo fez por Seu povo (Colossenses 1:20). Ainda assim, a fé transmite uma resposta à consciência a respeito de nossa reconciliação com Deus. Na proporção em que a nossa fé repousa sobre a paz feita com Deus pelo sangue de Cristo, e de nossa aceitação nEle, será a nossa paz interior. Em e através de Cristo, Deus está em paz com os crentes, e o feliz efeito desta em nossos corações é uma perceptível “justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Romanos 14:17). Mas não estamos em uma capacidade para receber e desfrutar as bênçãos até que nos rendamos ao Senhorio de Cristo e levemos o Seu jugo sobre nós (Mateus 11:29, 30). É necessário, portanto, que Paulo diga: “E a paz de Deus, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine em vossos corações” (Colossenses 3:15). Este é o tipo de paz pelo que apóstolos oraram em favor de seus irmãos. Esta paz é o fruto de uma segurança bíblica do favor de Deus, o qual, por sua vez, vem da manutenção da comunhão com Ele por uma caminhada obediente. É também a paz conosco. Estamos em paz conosco quando a consciência deixa de acusar-nos, e quando nossos afetos e vontades submetem-se a uma mente iluminada. Além disso, inclui a concórdia e amizade com os nossos irmãos em Cristo (Romanos 5:5-6). Que excelente exemplo nos foi deixado pela igreja em Jerusalém: “E era um o coração e a alma da multidão dos que criam” (Atos 4:32).

A Medida de Concessão Desejada: A Multiplicação de Graça e Paz

Graça e paz são a presente herança do povo de Deus, e delas Pedro desejava que eles fruíssem muitíssimo mais do que um simples gole ou prova. Como 1 Pedro 3:18 indica, ele desejava que eles “crescessem na graça”, e que eles fossem cheios de paz (cf. Romanos 15:13); assim, ele fez solicitação nesse sentido. “Graça e paz vos sejam multiplicadas”. Por essas palavras Pedro apela a Deus para visitá-los com ainda maiores e mais abundantes demonstrações de Sua bondade. Ele ora não somente para que Deus possa conceder a eles mais e maiores manifestações da Sua graça e paz, mas também que as fracas capacidades deles compreendessem que o Deus fizera por suas almas poderia ser grandemente ampliado. Ele ora para que uma oferta abundante de graça e de paz seja conferida a eles. Eles já foram os participantes favorecidos desses favores divinos, mas o pedido foi feito por um aumento abundante desses benefícios. As coisas espirituais (ao contrário das materiais) não saciam no gozo delas, e, portanto, não podemos ter em demasia delas. As palavras “paz vos sejam multiplicadas” indicam que há graus de segurança sobre a nossa condição em relação a Deus, e que nós nunca deixaremos de ser dependentes da livre graça. As dimensões deste pedido nos ensinam que é nosso privilégio pedir a Deus, não somente por mais graça e paz, mas por uma ampliação das mesmas, pelo que Deus é mais honrado quando fazemos as maiores solicitações de Sua graça. Se nossos espíritos são estreitados em seu deleite de graça e paz de Deus, é devido à insignificância de nossas orações e nunca por qualquer avareza nEle.

O Meio pelo Qual a Graça e Paz são Transmitidas

“Pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor”. O leitor atento, que não é muito lento em comparar Escritura com Escritura, terá observado uma variação da saudação usada por Pedro em sua primeira epístola (1 Pedro 1:2). Lá, ele orou: “Graça e paz vos sejam multiplicadas”. A adição (“pelo conhecimento de Deus” etc.) feita aqui é significativa, de acordo com a mudança de propósito de Pedro e adequação ao seu objetivo atual. O estudante também pode ter notado que o conhecimento é uma das palavras de destaque desta epístola (veja 2 Pedro 1:2,3,5,6,8; 2:20; 3:18). Devemos considerar também a frequência com que Cristo é designado “nosso Senhor” ou “nosso Salvador” (2 Pedro 1:1,2,8,11,14,16; 3:15,18), pelo que Pedro traça um contraste acentuado entre os verdadeiros discípulos e os falsos professos do Cristianismo, os quais não se submeterão ao cetro de Cristo. Esse “conhecimento de Deus” aqui mencionado não é natural, mas um conhecimento espiritual, não especulativo, mas experiencial. Nem é simplesmente um conhecimento do Deus da criação e da providência, mas de um Deus que está em aliança com os homens através de Jesus Cristo. Isto é evidente a partir de seu ser mencionado em conexão com as palavras “e de Jesus nosso Senhor”. É, portanto, um conhecimento evangélico de Deus que está aqui em vista. Não pode haver conhecimento salvífico, exceto em e através de Cristo, mesmo como o próprio Cristo declarou: “ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mateus 11:27).

Na medida em que esta oração foi para que a graça e paz fossem “multiplicadas” aos santos “pelo [ou no] conhecimento de Deus”, havia uma tácita indicação de que eles tanto manteriam e progrediriam nesse conhecimento. Calvino comenta da seguinte forma:

Através do conhecimento, literalmente, no conhecimento; apenas a preposição en [Nº. 1722, em Strong e Thayer] muitas vezes significa “através de” ou “com”: ainda assim, ambos os sentidos podem se adequar ao contexto. Estou, no entanto, mais disposto a adotar o primeiro. Pois, quanto mais alguém avança no conhecimento de Deus, todo o tipo de bênção aumenta também igualmente, com a percepção do amor Divino.

O conhecimento espiritual e experiencial de Deus é o grande meio pelo qual todas as influências da graça e paz são transmitidas para nós. Deus trabalha em nós, como criaturas racionais de uma forma que está de acordo com a nossa natureza intelectual e moral, com o conhecimento precedendo todo o mais. Assim como não há paz verdadeira à parte da graça, assim não há nenhuma graça ou paz sem um conhecimento salvífico de Deus; e nenhum tal conhecimento de Deus é possível, senão em e através de “Jesus, nosso Senhor”, pois Cristo é o Meio através do qual todas as bênçãos são transmitidas aos membros do Seu Corpo místico. Quanto mais janelas há em uma casa, mais luz solar entra nela; deste modo, quanto maior o nosso conhecimento de Deus, maior é a nossa medida de graça e paz. Todavia, o conhecimento evangélico do santo mais maduro é apenas fragmentário e frágil e, portanto, requer o aumento contínuo pela bênção Divina sobre aqueles meios que foram nomeados para seu aperfeiçoamento e fortalecimento.

A Realização Divina que Moveu Pedro à Oração

“Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude” (v. 3). Nisso o apóstolo encontrou a motivação para fazer a solicitação acima. Foi porque Deus já havia operado tão maravilhosamente nestes santos que ele foi levado a solicitar que Ele continuasse a lidar generosamente com eles. Também podemos considerar este terceiro versículo como sendo trazido para incentivar a fé daqueles Cristãos: uma vez que Deus havia feito tão grandes coisas por eles, eles devem esperar suprimentos mais liberais da parte dEle. Observe que o motivo inspirador foi puramente evangélico, e não legal ou mercenário. Deus havia concedido a eles tudo o que era necessário para a produção e preservação da espiritualidade em suas almas, e o apóstolo desejava vê-los mantidos em uma condição saudável e vigorosa. O poder divino é o fundamento da vida espiritual, a graça é o que a suporta, e a paz é a atmosfera em que ela vive. As palavras “tudo o que diz respeito à vida e piedade” também podem ser entendidas como referindo-se, finalmente, à vida eterna na glória: o direito a ela, uma aptidão para ela, e uma garantia dela, que já haviam sido concedidos a eles.

Finalmente, é essencial para o nosso crescimento Cristão perceber que o conteúdo do versículo 3 deve ser considerado como o fundamento da exortação nos versículos 5 a 7. Assim, o suprimento solicitado no versículo 2 deve ser considerado como a capacitação necessária para toda frutificação espiritual e boas obras. Vamos, então, exercer a maior diligência para permanecer em Cristo (João 15:1-5), tanto em nossas orações e em todos os nossos pensamentos, palavras e ações.

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♦ Este texto é formado pelo Capítulo 10 do Livro A Guide to Fervent Prayer, por A. W. Pink. Editado.
Fonte: Pbministries.org | Título Original: A Guide to Fervent Prayer
As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
Tradução por Amanda Ramalho | Revisão por Camila Almeida


A Vida e os Labores de Patrick Hues Mell – C. Ben Mitchell

[Jornal Founders 76 • Primavera de 2009 • pp. 17-32]

 Como os homens e mulheres de Hebreus onze, existiram Batistas do Sul pouco conheci-dos de nossa geração “dos quais o mundo não era digno” (Hebreus 11:38). Um destes homens era Patrick Hues Mell.

Nascimento e Primeiros Anos

Nascido em 19 de julho de 1814, Patrick era filho do Major Benjamin Mell de Laurel Hill, Georgia, e Cynthia Sumner Mell, da Carolina do Sul. Sabemos pouco sobre os primeiros anos de Patrick, exceto que ele era o segundo de oito filhos. O pai do jovem Patrick era um homem muito rico, “simpático por natureza, e excessivamente generoso” [1]. Ele era tão generoso que que deu a maior parte de sua fortuna, deixando muito pouco à família após a sua morte, em 1828; três anos mais tarde a senhora Mell morreu, deixando Patrick, com dezessete anos, responsável por toda a família.

Sendo ainda um mero jovem inexperiente, ele foi forçado a confiar exclusivamente em seu talento natural para fornecer um meio de sustento para si e para os irmãos e irmãs dependentes. Ele abriu mão do pequeno restante de sua parte da propriedade para o sustento de seus irmãos e irmãs, e começou com a determinação de obter uma boa educação, e, na medida do possível, recuperar a posição social e propriedade que havia sido perdida pela adversidade de seu pai [2].

Neste ponto, Mell começou a sua carreira de acadêmico, que perdurou por toda a sua vida. Aos dezessete anos, ele ensinou em uma escola primária, em uma cabana de madeira com chão de terra em sua cidade natal, Walthourville, Geórgia, (cerca de 50 km ao sudoeste de Savannah).

Embora o pai de Patrick nunca tenha professado o Cristianismo, os primeiros anos de Mell não foram desprovidos de impressões espirituais. Dr. John Jones, um colega de classe, e mais tarde um ministro Presbiteriano, contou sobre a educação de Mell:

Sua mãe era uma mulher de notável individualidade de caráter, intelectual e verdadeiramente uma mulher de Deus, criada no modo estrito do antigo Congregacionalismo, e, sem dúvida, perfeitamente familiarizada com o Breve Catecismo de Westminster [3].

Um Trecho de uma carta da senhora Mell ao seu filho demonstra sua grande preocupação pela alma dele (deve-se notar que por esta altura Mell, evidentemente, tinha aspirações ao ministério do Evangelho):

Meu querido filho:

É tempo de que você e eu devemos nos comunicar com frequência, intimidade e confidencialidade. Se isso não deve ser esperado pelo momento em que você chegou aos quinze anos, quando deve ser procurado? Em uma consideração, eu tenho mais ansiedade, mesmo pavor, em seu nome do que por qualquer um dos meus filhos. Sinceramente, como eu desejo que um filho meu seja ministro, ainda assim tremo com a ideia de educar e dedicar um filho à profissão sagrada sem provas previamente satisfatórias de que a sua alma esteja bem com Deus. Meu coração arde por vê-lo em todos os sentidos da palavra como um verdadeiro Cristão. Você deve exercer um zelo sobre si mesmo, para que as ninharias deste mundo não amorteçam os seus sentimentos sobre as grandes questões; que são: quais são as probabilidades de minha salvação, o que eu fiz ou devo fazer para ser salvo? Lembre-se: os que são de Cristo crucificaram suas paixões e concupiscências, crucifique as suas. [4]

O coração da senhora Mell tanto anelava pela salvação de seu filho, que ela também escreveu a ele no dia seguinte:

Digo isso com ansiedade, e escrevo com temor, mas eu o digo com fervorosas orações pela verdadeira conversão de sua alma a Deus, e com alguma esperança de que Ele ouvirá a petição que tenho me esforçado para oferecer por você há muitos anos. Eu repetirei: Eu nunca poderei consentir que você estude para o ministério até que eu tenha alguma prova satisfatória de que seu coração foi convertido a Deus, em santa coerência e constância de caráter. [5]

A senhora Mell não viveu para ver seu filho convertido, pois em 1831 o Senhor a levou. No entanto, as sementes de suas orações não foram semeadas em vão. No verão de 1832, Mell foi batizado na Igreja Batista do Norte Newport, Liberty County, Georgia, pelo pastor, Josiah Samuel Law. No ano seguinte, devido à beneficência de um cavalheiro rico, George W. Walthour, Mell conseguiu entrar na turma de calouros de Amherst College, em Massachusetts. Vários eventos em Amherst testemunham que, embora batizado, Mell não era convertido.

Em Amherst, as coisas não iam bem entre o menino do Sul e seus mentores do Norte. Um deles, especialmente desagradável para Pat Mell, era um Professor, chamado Fiske. O sangue de Pat ferveu num domingo, quando Fiske estava pregando. Ele fez alguns comentários depreciativos sobre os sulistas. Pat saiu do santuário e foi condenado por conduta desordeira. O problema surgiu novamente quando Pat se recusou a divulgar para o corpo docente os nomes de alguns de seus colegas estudantes que estavam sendo acusados de violar as regras do colégio. Ameaçado de expulsão, ele estava determinado a não se intimidar e se manteve firme até o fim. Embora ele não quisesse ceder, a faculdade decidiu não expulsá-lo [6].

Mas, sem notificar para Mell, Dr. Fiske escreveu ao benfeitor de Pat acusando o jovem Mell de desperdiçar dinheiro, fazendo com que o Sr. Walthour retirasse o seu apoio ao jovem estudante. Assim, Mell não conseguiu mais permanecer em Amherst. Com pouco mais de cinco dólares no bolso, em 1835, Mell andou 25 milhas até Springfield, onde ele foi capaz de garantir uma posição de ensino.

Os próximos quatro anos foram repletos de inquietação para Pat Mell. Mesmo assim, seu espírito dinâmico e senso de humor o guardaram do total desespero. De Springfield ele se mudou para Hartford, Connecticut, onde se tornou diretor associado na Escola East Hartford. Um ano depois, em 1837, Mell voltou para sua casa no Sul e em pouco tempo conseguiu uma diretoria na Escola Perry Mill, em Tatnall County, Geórgia. No ano seguinte, mudou-se para Montgomery County, onde lecionou na escola Ryal até que, em fevereiro de 1839, foi-lhe oferecido o cargo de diretor da Escola Oxford Clássica e de Inglês (que era uma escola preparatória para Emory College).

Conversão e Chamada para o Ministério

Embora incomodado, inquieto e sob pressão por vários anos de trabalho e luta, uma sábia Providência estava assistindo o jovem. Um Deus misericordioso o segurou na palma de Sua soberana mão. Uma carta escrita em fevereiro de 1939, a Josiah Samuel Law, que o batizara oito anos antes, revela que enquanto em Oxford, as orações de sua mãe deram frutos na vida de seu filho.

Reverendo e Prezado Senhor:

Você tem, sem dúvida, estado acautelado por suas próprias observações, e a partir do testemunho de outros, apesar de você não ter recebido nenhuma confissão minha sobre o fato, que tenho sido há alguns anos passados descuidado no que diz respeito aos interesses da eternidade, e um apóstata da fé que eu professei. Quando eu desisti de minha esperança, eu estava ausente do Estado e o informei sobre isso, enquanto eu pensei (erroneamente, desde então fui informado), que havia somente duas maneiras, de acordo com as regras da igreja, pelas quais minha conexão com ela poderia ser dissolvida: uma por uma demissão em situação regular, se eu desejasse unir-me a outro corpo, e outra pela excomunhão. E, eu suponho que a última deve ser administrada somente quando o membro violou quaisquer das regras óbvias de moralidade, ou pelo menos segundo o que a Igreja instituiu para regular sua conduta exterior. Meu objetivo ao escrever-lhe no momento é saber se o meu nome ainda está nos livros da igreja, para que eu possa ser capaz de descobrir qual pode ser o meu dever sob as circunstâncias…

O Senhor lidou misericordiosamente comigo e teve o prazer de trazer-me das distâncias mais terríveis da incredulidade a humilhar-me aos pés da Cruz. E eu acho que posso dizer que tenho a mais firme crença de humildemente descansar em Suas promessas, que Ele, pelo amor de Cristo, perdoou todos os meus pecados. É quase mais do que posso compreender, e quando penso em quem eu sou e o que eu tenho sido e como eu brinquei com este assunto, eu fico cheio de maravilha que eu possa, possivelmente, chegar a um tal estado de espírito a ponto de crer que eu passei da morte para a vida.

Quando eu me uni à igreja, eu ignorava completamente a religião que eu professava. Isso eu digo não para limpar-me da imputação de instabilidade, nem em qualquer medida como uma desculpa, mas como um fato horrível que eu professei crer em um Deus de Quem eu não sabia nada…

Vivendo pela fé em Cristo, lançando mão de Suas promessas e confiando nEle para o seu cumprimento. Embora tenha lido muitas vezes e ouvido mais outras vezes — surpreendente como isso possa parecer-lhe, e não posso surpreendê-lo mais do que a mim mesmo agora —, eu nunca apreendi qualquer ideia como parte do plano do evangelho e, em vez de buscar o testemunho do Espírito de Deus, que pode testemunhar ao meu espírito que eu nasci de novo, eu olhei para os meus próprios sentimentos instintivos para a prova da minha aceitação para com Deus, sentimentos sobre uma história patética, representações teatrais e harmonia de som, desde então produzidos muitas vezes. E eu estava seguro de que tudo estava certo se eu tivesse sucesso em estimular aqueles sentimentos ao levantar de minha cama pela manhã e ao deitar à noite, especialmente se eu pudesse tê-los acompanhado de algumas lágrimas. Essa, Senhor, era a minha religião. Este foi o alicerce de areia em que eu edifiquei, e não foi de se admirar que as ondas do mundo, batendo em minha casa, a derrubassem. Os confortos da religião eram para mim, apenas um nome. Eu buscava a face Deus, e não porque eu O amava, mas porque eu O temia. Eu olhava para Ele não como alguém que podia sorrir para mim e abençoa-me também, mas como um Deus irado que me puniria por meus pecados. Renunciei ao mundo não porque eu vi a sua vaidade em comparação com as coisas eternas, mas porque eu me senti compelido por motivos de segurança; e eu sou obrigado a acreditar — embora eu não consentiria em confessar a mim mesmo na época — que se eu tivesse a garantia de que eu não tinha nada a temer quanto à justa indignação de Deus, eu nunca teria renunciado a eles e me unido ao Seu povo. Assim era o meu estado religioso quando saí de casa para a faculdade. E agora, eu fui colocado em meio a novos cenários e novos associados, a minha atenção e interesse foram absorvidos por outros assuntos. Deus e as coisas da eternidade tornaram-se cada vez menos interessantes para mim, os meus esforços para criar uma boa condição de sentimento tornaram-se cada vez menos árduos, com intervalos frequentes. Da indiferença quanto à salvação de minha alma, eu deslizei por uma corrente imperceptível a um desgosto sobre o assunto, até uma antipatia sobre ele e, finalmente, aberta e alegremente lancei fora as restrições que a minha religião impôs a mim e me enterrei no mundo. A incapacidade de obter aquela mudança de coração que a Bíblia falou, me induziu a questionar sua realidade e a acreditar que a princípio ela teve a sua existência apenas na calorosa imaginação de entusiastas, e então, que era uma fábula engenhosamente inventada por sacerdotes para enganar os símplices e perpetuar o seu poder. E, assim, a Bíblia passou a ser vista como uma impostura e o povo de Deus como enganadores e enganados, e apenas restou para eu consumar a minha incredulidade, o duvidar da existência de um Deus. Sim, com meus olhos virados para o céu, que declaram a Sua glória, e abertos sobre o belo mundo físico em torno de mim, que revela a obra de Sua mão, eu disse em meu coração, e me alegrei por poder dizer que: não há Deus. Mas, meu misericordioso Pai Celestial me perdoou deste pecado.

Quando penso nas terríveis profundezas de incredulidade em que eu lutei, fico cheio de assombro pela longanimidade e misericórdia de Deus, em que Ele, subitamente, não tenha me cortado ou tenha me dado mais dureza de coração e cegueira de espírito para acreditar em uma mentira. E, agora, todo o meu coração estava absorvido nas coisas deste mundo. Deus e a religião não eram cogitados, exceto para serem blasfemados e zombados, mas não abertamente; pois motivos de prudência me levaram a esconder meu estado, para que eu não chocasse as mentes dos homens e, assim, foi posta uma barreira no caminho das minhas perspectivas temporais. A ambição agora tomava posse de toda a minha alma, um desejo de superar meus companheiros em estado mental — não tanto que eu fosse capaz de fazer melhor, a ponto de me poder me destacar para que todos pudessem contemplar. Isso, a saber, um desejo de tornar-me grande no mundo, fora um princípio comigo desde a minha lembrança mais remota, embora eu tivesse o bom senso de esconder isso dos meus conhecidos em geral, e muitas vezes quando eu era um pobre menino destituído até mesmo das necessidades da vida, eu poderia deliciar-me imaginado sobre um futuro de grandeza e triunfo, nas quais eu pudesse ser o ator. Estes eram apenas sonhos, é verdade, mas sonhos que expulsavam de meus pensamentos cada coisa que não ministrava a eles. E no momento em que estou falando sobre a minha mente ter se tornado tão espiritualmente obscurecida, que eu, se pudesse ter conseguido fama, realmente acredito que estaria disposto a renunciar, sem o menor pesar do coração, desde então e para sempre, a todo interesse na expiação de Cristo, cuja existência eu duvidava. Tal era o meu estado, quando há um pouco mais que um ano eu voltei para casa.

Mas, eu estendi isso a um comprimento impróprio. Resta-me relacionar tão brevemente quanto possível, os meios pelos quais os meus pensamentos foram novamente conduzidos para as coisas da eternidade. E aqui eu não tenho nenhum sinal de interposição para relacionar, nenhuma ocorrência para indicar como tendo sido fundamental para despertar-me a um senso de minha terrível condição. Mas aprouve a Deus que eu fosse colocado em uma situação onde eu pude estar frequentemente sozinho; onde, por influência de Seu Espírito Santo, Ele pôde converter meus pensamentos interiores e a voz mansa e delicada da consciência pôde ser ouvida. O mundo, também, anterior a isso, começou a assumir um aspecto mui diferente aos meus olhos. As circunstâncias que aconteciam, as quais me afetaram, e somente elas de fato, e fizeram uma profunda impressão em mim. A experiência me mostrou que o afeto de amigos, mesmo que me desejassem o bem, poderia facilmente ser perdido, e que da parte do mundo, eu tinha a mesma probabilidade de receber censura por aquilo que merecia elogios, como o contrário. Durante a minha ausência da Geórgia, o tempo não dedicado ao exercício das minhas funções fora gasto em diversões ou em companhia daqueles que eu possuía um comando ilimitado, e, assim, os pensamentos sobre a religião não tinham a oportunidade de se introduzirem sobre mim. Mas depois de meu regresso eu me envolvi em negócios, na época, muito contra o meu próprio consentimento, em uma parte do país que está muito mal resolvida, onde não havia um único jovem da minha idade com quem eu poderia me associar; adicionado a isso havia o fato de que eu não estava em condições de ocupar o meu tempo de férias com os livros. Assim, em certas horas, todos os dias, eu estive sozinho, comigo mesmo. Durante estes períodos Deus agradou-Se em estar perto de mim e de induzir uma tal linha de pensamento como a mostrar-me a vaidade das coisas terrenas, e a importância do peso das coisas da eternidade. As objeções que eu sustentava contra a existência de um Deus e sobre a autenticidade das Escrituras, agora que tinha a oportunidade de pensar com calma e sem interrupção, perderam o seu peso. Mais particularmente de modo que eu não tinha oportunidade de assinalar as inconsistências de Cristãos professos, e raramente ouvia o evangelho pregado. Nesta parte de minha experiência não há nada distinto em destaque que eu possa referir como a causa de qualquer resultado do que se seguiu. Comecei dando aulas naquele lugar confessadamente com a crença de que toda a Bíblia era uma fábula e, que mesmo se fosse verdadeira, ela nunca mais receberia a minha atenção. E os meus passos que eram imperceptíveis para mim no momento e não podiam ser rastreados, agora eram levados a renunciar a todas as minhas dúvidas e sentir que, mesmo para mim, a questão tinha um interesse. Porém, não obstante, por mais de um ano eu brinquei com o assunto. Havia aquela dúvida que eu tinha que resolver, aquele mistério para o qual eu tinha que olhar, e eu tentei me satisfazer dizendo que a religião era um assunto que eu não conseguiria entender. Então, talvez cedendo à influência do momento em que me retirava para um lugar privado e tentava orar, um porque eu não recebia uma manifestação milagrosa da presença de Deus no meu coração eu desistiria em desespero e, talvez, no momento seguinte, com um entusiasmo que poderia me surpreender, eu conseguiria unir-me com o insensato ao lançar ridículo sobre a Bíblia e sobra a Religião.

Mas, para não multiplicar as palavras. Eu continuei nesse estado terrível até cerca de três semanas atrás, quando Deus Se agradou em trazer-me como uma criança ao pé da cruz, e fui levado a rogar-Lhe que me salvasse em seu próprio caminho. Eu sei que sou fraco e incapaz de perseverar se eu depender de mim mesmo; mas Cristo é forte e Ele me disse em Sua palavra, que a Sua graça me basta. Permita-me pedir-lhe para fazer parte de suas orações, assim como eu não tenho nenhuma dúvida de que eu já faço. Ore por mim, para que eu não mais me iluda, mas para que eu possa edificar sobre a Rocha Cristo Jesus [7].

E assim, podemos aprender a partir de sua própria pena como a graça redentora alcançou Pat Mell. A prova de que aquela mudança de coração era real veio no desejo de Pat para dar toda as suas forças ao serviço do Rei dos reis e Senhor dos senhores. Certamente as palavras de sua querida mãe ecoavam em sua mente: “Eu nunca poderei consentir que você estude para o ministério até que eu tenha alguma prova satisfatória de que seu coração foi convertido a Deus, em santa coerência e constância de caráter”. O restante da vida de Mell foi uma vívida ilustração de constância e diligência que acompanham um verdadeiro chamado para o ministério. Ao escrever ao Pastor Law sobre as suas aspirações para o ministério da Palavra, Mell reconheceu: “Eu sei que eu não sou apto para o cargo; mas a preparação do coração é com Deus e Ele pode me qualificar para isso” [8]. Esta crença de que só Deus pode qualificar e capacitar um homem para o ministério do Evangelho esteve gravada profundamente no coração de Mell. Em seu primeiro discurso a uma turma de formandos (1843) na Universidade de Mercer, Mell disse:

Seus corações devem ser profundamente imbuídos do espírito do Evangelho. Vocês não devem apenas entender, mas sentir essas verdades; não apenas recomendá-las aos outros, mas amá-las vocês mesmos, e ademais, vocês devem pregá-las e se esforçarem em humilde dependência do auxílio do Todo-Poderoso [9].

Mell também cria que, para alguns homens, ele mesmo, em especial, a formação teológica formal fazia parte dos meios Divinos usados para preparar Seus ministros. Embora mais educação fosse o objetivo de Mell, Deus já estava guiando-o para um ministério e fornecendo-lhe os materiais espirituais e intelectuais necessários para fazer-lhe um homem de Deus e um pregador de grande poder.

No final da primavera de 1840, menos de um ano após o seu chamado, Mell começou a pregar na comunidade Oxford sob a licença de North Newport Church of Liberty County. Durante os dias de semana Mell ensinava na escola preparatória e no Dia do Senhor ele pregava em lugares carentes e em torno de Oxford.

Seu Pastorado e Carreira em Mercer

Em 1840, Mell casou-se com Lurene Howard Cooper, uma de suas ex-alunas da Academia Ryal em Montgomery County, Geórgia. Sua união de 20 anos foi abençoada com oito filhos e um amor que era visto neles tanto na adversidade quanto no sucesso.

Em 17 de fevereiro de 1841, tendo sido fortemente apoiado pelo ex-governador da Geórgia, George M. Troup, P. H. Mell foi eleito para ocupar a cadeira de Línguas Antigas da Universidade de Mercer, então localizada em Penfield, por volta de 35 milhas de Athens. Em outubro do mesmo ano, Mell foi ordenado ao ministério pela North Newport Church, sob a imposição das mãos de B. M. Sanders, W. H. Stokes e Otis Smith (então presidente da Universidade de Mercer). Sua ordenação foi solicitada pela Igreja Batista Greensboro que Mell pastoreou pelos dez anos seguintes. W. H. Stokes pregou o sermão de ordenação a partir do texto de 2 Timóteo 4:2: “Que pregues a palavra”. E, Mell pregou a Palavra. Um contemporâneo disse sobre Mell:

Como pregador Dr. Mell é forte, capaz, argumentativo e doutrinariamente são, mantendo a sua audiência fascinada pela clareza das suas afirmações e a força de seu raciocínio. Seus argumentos, fundamentados em premissas sólidas, chegam a conclusões inevitáveis. Sobre as grandes Doutrinas do Cristianismo e especialmente os (chamados) “cinco pontos” na teologia, ele é especialmente capaz. Sobre as Doutrinas distintivas de sua denominação, ele é particularmente forte e conclusivo, sempre refutando aqueles que colocam-se em oposição a ele [10].

Quando, um ano depois, se dirigiu à turma de graduandos de Mercer, Mell expressou sua avaliação pessoal sobre grande parte da pregação contemporânea:

A demanda pela pregação que animará, de uma vez, todas as faculdades da mente e do coração, é limitada, e lamento confessar que a oferta cai ainda aquém da demanda. As pessoas facilmente se satisfazem, e são conformadas, quando, semana após semana, elas ouvem os mesmos princípios iniciais da doutrina de Cristo exclamados aos seus ouvidos; e o pregador, tomando licença disso, para saciar sua indolência, continua a substituir o som pela substância, e busca criar a mesma inconstância em sua audiência [11].

Mas, para esses jovens pregadores, ele passou a dizer:

Impregnem-se, por si mesmos na mente inesgotável da verdade do Evangelho. Isso é necessário para a sua ampla e permanente utilidade, e, como ministros instruídos, vocês são obrigados a fazê-lo [12].

Os anos do professor Mell em Mercer foram gastos, de modo geral, em utilidade e felicidade. De acordo com o eminente Presidente John Leadley Dagg, sobre Mell, a sua “juventude, saúde e corpo vigoroso o habilitaram a ocupar o cargo de disciplinador com notável sucesso” [13]. Foi enquanto trabalhava como disciplinador da Universidade de Mercer que Mell recebeu dos alunos o apelido de “Velho Pat”. Pode-se pensar que o cargo de disciplinador em uma escola para pastores Batistas seria uma tarefa de relativa facilidade e segurança. Este não foi o caso. Em uma noite o Professor Mell foi despertado pelo barulho de estudantes universitários bêbados na rua de Penfield. Esses alunos, armados com porretes, ameaçaram bater no Professor Mell por expor previamente alguns delitos às autoridades universitárias. Assim que Mell foi capaz de ver seus rostos, ele se anunciou, chamou-os pelo nome, e ordenou-lhes que fossem para os seus quartos e que se dirigissem na manhã seguinte ao escritório do Presidente. Quando ele se virou para ir embora, um dos estudantes lançou o pesado porrete na direção da cabeça de Mell. Passando ao lado de sua cabeça, o porrete atingiu fortemente o seu ombro, paralisando temporariamente o braço de Mell. No dia seguinte, o jovem, sóbrio e percebendo o que fizera, deixou a universidade sem esperar ser expulso.

Em outra ocasião, a vida de Mell foi salva pela pólvora umedecida pela chuva, quando um estudante bêbado colocou uma pistola no peito do “Velho Pat” e puxou o gatilho três vezes. A tarefa de disciplinar não ocorria sem seus perigos. Ainda assim, Mell serviu bem nessa função.

De 1848 até algum momento em 1880, Mell, juntamente com suas responsabilidades de ensino, pastoreou duas, às vezes, três igrejas. Quando em 1857 Mell assumiu o cargo de Professor de Línguas Antigas da Universidade da Geórgia, seu contrato foi feito “com a condição de que seus deveres de professor não interferissem em suas relações com as igrejas que ele pastoreava” [14]. Em 1848, enquanto ainda estava pastoreando a Igreja Greensboro, Mell também assumiu a Bairdstown Church in Green County. Em 1852, ele foi convocado a assumir o comando da Igreja Antioch em Oglethorpe County, também. Percebendo que estas duas últimas igrejas ocupariam todo o seu tempo, ele foi obrigado a desfazer seu pastorado de dez anos em Greensboro.

Mell foi um pastor fiel e capaz, bem como um poderoso pregador. Um dos membros da Igreja Antioch escreve, depois vinte e seis anos de pastorado da Mell ali:

Fiquei impressionado que ao mesmo tempo ele era um pacificador, no melhor e mais pleno sentido do termo. Ele não procurou harmonizar discórdias, deixando alguns pontos do caso despercebidos, outros apenas suavizados ou cobertos para que fermentassem e irrompessem em toda a sua fúria; seu plano era o melhor; cada ponto em disputa era reunido aos seus próprios méritos e sobre princípio, pelo que poderia ser ajustado, e a paz e harmonia asseguradas sobre uma base sólida [15].

Outro disse sobre as suas habilidades pastorais:

Quanto à sua capacidade ministerial e utilidade, o sucesso com que seus esforços foram coroados são respostas suficientes mesmo para as críticas mais exigentes a que o seu ministério pudesse ser sujeito. Como pastor, em minha opinião, eu ainda não encontrei alguém igual. Minha relação amável e respeito por ele, no passado, foram ocasiões para a observação de que eu o admirava, e eu pensei que gostaria ter o mesmo destino que ele após a morte. Em nossos serviços memoriais, eu referia esta declaração, e comentei que meu apego por ele permanecia inabalável, pois os meus amigos consideraram que o meu desejo era ir após ele quando eu morresse, porque eu imaginava que ele estaria muito perto do Salvador, mais próximo em posição, talvez, do que eu esperava que me seria concedido [16].

Mell não era apenas um pastor, disciplinador e professor universitário, mas também um autor. Ele segurava na mão uma pena pronta, cuja tinta fluiu de 1851 até perto de sua morte. O primeiro trabalho escrito de Mell foi o seu tratado sobre a Predestinação e Perseverança dos Santos. Como visto anteriormente, Mell era um expositor capaz e um destemido defensor dos “cinco pontos da teologia”. Sra. D. B. Fitzgerlad, um membro da Igreja Antioch, relembra:

Quando primeiramente convocado a assumir a igreja, Dr. Mell a encontrou em um triste estado de confusão. Ele disse que certo número de membros estava caindo no Arminianismo. Ele amava muito a verdade para soprar quente e frio ao mesmo tempo. Se esta era uma igreja Batista, deveria ter doutrinas peculiares a essa denominação pregadas nela. E com aquela ousadia, clareza e vigor de discurso que o marcava, ele pregou as doutrinas da predestinação, eleição, livre graça, etc. Ele disse que sempre foi o seu empreendimento pregar a verdade como ele a encontrou na Palavra de Deus, e deixar a questão ali, sentindo que Deus tomaria conta dos resultados [17].

Sua razão declarada para escrever Predestinação e Perseverança dos Santos (que apareceu pela primeira vez como uma série de artigos em The Christian Index) era responder a dois sermões impressos, pelo Reverendo Russel Reneau, que fora “amplamente distribuído através de partes da Geórgia e Tennessee, e tinha sido elogiado como uma refutação completa do Calvinismo” [18]. Mell envolveu-se neste debate escrito, porque ele acreditava que o coração do evangelho estava em jogo. Ele não acreditava que ele estava entrando em uma discussão mística sobre alguma controvérsia antiga. Essa era muito mais uma questão de “vida”.

Eu tenho estado pesaroso, por alguns anos passados, por parte de alguns de nossos ministros, em algumas localidades no Sul, com a disposição de renunciar às doutrinas da Graça, em suas ministrações públicas. Enquanto alguns tenham estado totalmente em silêncio sobre elas, e até mesmo as tenham pregado, contudo não ostensivamente, doutrinas não consistentes com elas, outros deram-lhes apenas um assentimento frio e indiferente, e alguns poucos as têm abertamente ridicularizado e denunciado. Isso, em muitos casos, resultou, sem dúvida, em uma carência de informação, e de uma apreensão, por causa disso, que as doutrinas da graça são sinônimas de Antinomianismo [19].

Que Mell não era nenhum formalista frio e que suas doutrinas não o levaram a qualquer tipo de fatalismo é visto em que aprouve ao Senhor enviar avivamento à Igreja Antioch, em 1852-1853. A partir deste avivamento, o segundo tratado de Mell fluíu, Batismo em Seu Modo e Sujeitos.

Esta publicação deve sua existência às seguintes circunstâncias: Durante o mês de agosto do ano passado, o Senhor abençoou a igreja Antioch, da qual eu sou o pastor, com um período de refrigério de Sua presença. Durante seu progresso, tivemos, por quase duas semanas, ocasião diária para administrar a ordenança do batismo. Como é meu costume, eu aproveitei a oportunidade oferecida para abordar as pessoas ao lado da água, sobre o assunto…

Dentro de uma milha de Antioch está situada a Casa de Encontro Metodista, chamada “Centre”. A próxima “Conferência Trimestral”, nomeou o mui estimável senhor Rev. Wm. J. Parks, o Presbítero Presidente, para pregar um sermão sobre o batismo… Isto nunca foi anunciado publicamente, creio eu, mas foi geralmente compreendido, que isto foi uma resposta às minhas observações ao lado da água [20].

 

Além de pregar sobre o assunto do batismo, Rev. Parks também distribuiu, no “Reino de Mell” (como a comunidade passou a ser conhecida), uma série de trabalhos sobre o batismo infantil. Como resultado, as igrejas Antioch e Bairdstown solicitaram, em uma conferência regular de negócios, que Mell publicasse seus “mui instrutivos discursos sobre o assunto do batismo”. Assim, mais uma vez vemos Mell lançado em controvérsia. Dizem-nos que o livro teve uma grande circulação e que foi fundamental para mudar vários Pedobatistas à fé e crença da denominação Batista [21].

Enquanto Mell nunca se desviou um centímetro da defesa da verdade, ele era muito cortês, no entanto, em relação àqueles que divergiam dele. A Escritura diz:

“E ao servo do Senhor não convém contender, mas sim, ser manso para com todos, apto para ensinar, sofredor; instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade” (2 Timóteo 2:24-25).

Que este foi o caso com o Pastor Mell é visto a partir da seguinte descrição, por seu filho:

Entre os que estavam sentados sob o seu ministério por dez, vinte e vinte e cinco anos haviam pessoas de outras denominações que eram tão calorosas e amigáveis como qualquer outro que ele tinha. Alguns irmãos metodistas participavam em todas as reuniões e conferências tão regularmente como aqueles de suas próprias ovelhas, e eram uma fonte de grande deleite para ele. Eles podiam balançar a cabeça com o que chamaram de “doutrina difícil”, mas eles poderiam apertar a mão dele mui cordialmente ao final do sermão e eles solicitavam um compartilhamento de suas visitas, tanto como faziam os membros de seu próprio rebanho [22].

Paulo e Barnabé em Mercer?

Os próximos anos seguintes a 1854 foram tumultuados para Mell, a Universidade Mercer e os Batistas da Geórgia. Em fevereiro de 1854, John Leadly Dagg deixou vir a público que ele pensou que havia chegado o momento em que ele seria liberado da presidência da Mercer. A oposição a este curso surgiu principalmente devido à apreensão sobre a dificuldade que surgiria na escolha de um sucessor [23]. A turbulência surgiu quase profeticamente. Uma declaração proposta sobre a devida razão da resignação de Dagg foi a sua “falta de força”. Dagg imediatamente registradou seu protesto a esta declaração imprecisa [24]. Mell, crendo que o motivo alegado para a demissão de Dagg faria “grande injustiça a um oficial capaz e fiel”, redigiu uma petição assinada por todos os professores (com exceção do Dr. N. M. Crawford, Professor de Teologia) pedindo que Dagg não fosse aposentado por conta de “falta de força”. No entanto, o Conselho de Curadores recebeu a renúncia de Dr. Dagg e logo depois elegeu o Professor Crawford para o cargo de Presidente.

Logo emergiram entre o Professor Mell e o Presidente Crawford uma diferença de opinião a respeito dos deveres pertencentes a cada um, o que resultou em afastamento, e suas resignações foram oferecidas ao Conselho [25].

O fim último desta triste disputa foi semelhante àquela que aconteceu entre Paulo e Barnabé, e resultou na ruptura entre ambos. Dr. Crawford foi reintegrado pela Diretoria; os Professores Mell, Dagg e Hillyer renunciaram; as coisas não começaram a se resolver até que chegou o ano de 1856. Há muito que pode ser dito sobre essa polêmica e muita coisa deve ser considerada conjecturas [26]. É suficiente dizer que o caráter de ninguém foi criticado durante a tempestade, especialmente o de Mell. No calor da batalha, o Professor Mell foi eleito moderador da Associação Batista da Geórgia e foi lhe oferecida a presidência do Mississippi College, a reitoria do Instituto Feminino Alabama, e foi convocado para exercer o pastorado da Primeira Igreja Batista de Savannah; destes, ele aceitou apenas o primeiro.

Depois de sua demissão como professor de Línguas Antigas da Mercer, os estudantes da Universidade ofereceram a seguinte homenagem ao seu amado professor.

Em uma reunião de vinte e nove estudantes da Universidade de Mercer, em Cicernian Hall, na quinta-feira à noite, dia 29 de novembro, as seguintes deliberações foram aprovadas por unanimidade:

CONSIDERANDO a relação agradável que Rev. P. H. Mell tem até agora sustentado com os estudantes da Universidade de Mercer, como professor de Línguas Antigas, sem mais delongas,

Resolvemos, que em sua aposentadoria, ele levará consigo os nossos melhores anelos para a sua felicidade futura e o desejo ardente de que em qualquer esfera que sua porção seja lançada, seu trabalho seja recompensado com o mesmo sucesso eminente que o acompanhou durante o seu vínculo com a Universidade Mercer.

Resolvemos, que, como um testemunho da alta estima e admiração que nós entretemos em relação a ele, tanto como homem quanto Professor laborioso e competente, nós lhe oferecemos um Bastão com a Ponta de Ouro, carregando a inscrição: Prof. P. H. Mell, dos estudantes da Universidade de Mercer.

Resolvemos, que os procedimentos acima devem ser publicados no Temperance Banner, Christian Index, e Tennessee Baptist.

A comoção foi feita, e prevaleceu por unanimidade, de forma que o encontro, no posterior sábado à noite, resolveu-se em uma Comissão como um todo, e en massa, fizeram a apresentação conforme a devida formalidade na residência privada de P. H. Mell [27].

Na Universidade da Geórgia

Enquanto as águas tumultuosas foram acalmadas, um ano se passou. Um pouco ferido pela batalha e certamente mui cansado, Mell foi eleito pelo Conselho de Administração para a cadeira de Línguas Antigas da Universidade da Geórgia, em 11 de dezembro de 1856. Ele ocupou este cargo até 1860, quando ele foi eleito para a cadeira de Ética e Metafísica e feito vice-Reitor da Universidade. Nesse ínterim, Mell foi eleito presidente da Convenção Batista da Geórgia, uma posição que ocupou por um total de 24 anos. Além disso, a Universidade Furman conferiu-lhe o grau de Doutor em Divindade em 1858. Tudo parecia tranquilo neste espaço de três anos, mas em 1860, Mell foi novamente empurrado para a batalha.

A publicação do seu terceiro grande tratado, Disciplina Eclesiástica Corretiva, despertou a ira de um número crescente de Landmarkistas na Convenção Batista do Sul. De acordo com seu filho, Mell foi solicitado por um número de líderes Batistas a “preparar uma obra sobre o tema [da disciplina na igreja] que pudesse dar uma concepção clara da relação existente entre as igrejas e a condição dos membros da igreja” [28]. Primeiramente publicado pela primeira vez como uma série de artigos nos principais jornais Batistas daquela época, Disciplina Eclesiástica Corretiva foi publicado posteriormente em forma de livro pela Southern Baptist Publication Society, em 1860. Embora não haja nada de esplêndido no tratado em si, que poderia levar a pensar que era uma polêmica contra o Landmarkismo e especialmente contra o tratamento recebido por R. B. C. Howell, da Primeira Igreja Batista de Nashville, ainda assim, sendo publicado logo após o problema de Nashville, todos sabiam o alvo em que Mell mirava. A publicação dos artigos de Mell iniciaram um debate jornalístico em quase todos os documentos confessionais do Sul. O Professor A. H. Worrell de Talladega, Alabama, publicou uma série de artigos intitulados “Revisão de Disciplina Eclesiástica Corretiva”, que procurou responder aos argumentos de Mell a partir de uma posição Landmarkista e somente acendeu as chamas da controvérsia. Embora alguns autores, como os homens caídos frequentemente costumam fazer, envolvem-se em assassinato de caráter, Mell permaneceu cortês e tentou sempre dirigir-se à questão, não à personalidade do autor.

Quando um escritor tentou defender a posição Landmarkista tomando verso após verso de seu contexto Bíblico, a única resposta de Mell foi:

Eu vejo que o meu irmão atacou minha última posição e citou certa Escritura para sustentar o seu ponto de vista. Agora pelo curso de raciocínio de meu querido irmão, eu posso provar algo a partir da Bíblia. Posso provar que o irmão deveria se enforcar. A Bíblia não diz “[Judas Iscariotes] retirou-se e foi-se enforcar”? (Mateus 27:5), e ela também não diz: “Vai, e faze da mesma maneira”? (Lucas 10:37); “O que fazes, faze-o depressa” (João 13:27) [29].

Assim, Mell foi um acérrimo defensor dos princípios Batistas e nunca deixou passar a oportunidade de falar a verdade em amor contra o erro. Ele tinha um grande senso do absurdo e ele manteve uma poderosa capacidade de usar a arma de sarcasmo para defender sua posição. A nitidez das armas do sarcasmo e da réplica rápida começaram ainda em seus primeiros anos. Como um jovem garoto, ele conheceu maltrato de seus vizinhos, em um caminho estreito em que um rapaz não permitia que Mell passasse. Ocupando a caminho, o agressor disse: “Eu nunca dei lugar a um tolo”. Mell simplesmente se afastou e respondeu, “eu dei” [30].

No ano seguinte à publicação Disciplina Eclesiástica Corretiva, a Guerra Civil estourou. Sendo um forte simpatizante com o Sul, Mell foi um dos primeiros a oferecer seus serviços para a defesa de sua terra natal. Na abertura da guerra uma companhia de guerreiros foi organizada, chamada de “Voluntários de Mell” (mais tarde, “Fuzileiros de Mell”). Enquanto os preparativos estavam sendo feitos para enviar os fuzileiros para a dianteira da batalha na Virgínia, a esposa de Mell morreu, forçando-o a renunciar a sua comissão. Não somente Mell perdeu sua esposa, mas também em 1862, em Antietam, na batalha mais sangrenta da guerra, Mell perdeu seu filho mais velho, Benjamin. A correspondência entre Mell e a família que assistiu seu filho antes de sua morte é muito comovente.

Mell casou-se em 24 de dezembro de 1861, com Eliza E. Cooper, de Scriven County, Geórgia, e foi pai de seis filhos. Em 1862, Observância do Sabath, foi publicado como um panfleto para ser distribuído entre os soldados.

Em 1863, duas posições muito importantes foram concedidas a Mell. Primeiro, ele foi eleito o coronel de milícias por parte dos cidadãos de Athens, Geórgia, com o objetivo de defender a parte norte do estado da invasão. Uma parte do comitê dos cidadãos de Athens, ao saber que Mell estava sendo considerado para a posição disse: “Ora, ele não sabe nada sobre assuntos militares”. A que outro membro respondeu: “Eu não me importo com isso, eu sou por Mell de qualquer maneira. Pois, um homem que pode administrar quatrocentos Batistas pode fazer qualquer coisa” [31]. O segundo acontecimento na vida de Mell foi sua eleição em 1863 para a presidência de uma denominação que ele ajudou a construir, a Convenção Batista do Sul. Mell, que reuniu-se com outros em Augusta, em 1845, ocupou a presidência da Convenção Batista do Sul por 17 anos. De 1863 a 1886, com exceção de oito anos de ausência por causa de enfermidade, Mell presidiu a convenção [32].

Em janeiro de 1866, com as cicatrizes da guerra gravadas em seu coração, Mell retomou as suas funções na Universidade da Geórgia. Embora não haja espaço aqui para relembrar suas conquistas, tenha certeza, Mell estava convencido de que não poderia haver separação entre o sagrado e o secular para o Cristão. Seus labores na Universidade foram realizados tão diligentemente para o Senhor como o labor que ele assumiu como pastor e líder Batista do Sul.

O Príncipe dos Parlamentares

Na Convenção Batista do Sul de 1867, reunida em Memphis, Tennessee, Mell foi solicitado (por uma resolução feita por J. P. Boyce) para elaborar um manual de prática parlamentar para o uso da denominação. Um ano depois, um Manual de Boas Práticas Parlamentares foi publicado e adotado pela CBS. Tão generalizada foi a aceitação desta obra, que muitos corpos legislativos adotaram o Manual de Mell, inclusive o poder legislativo da Geórgia. Como parlamentar e oficial Presidente do Tribunal, Mell se destacou, tanto que ele assumiu o título de “Príncipe dos Parlamentares”. Em Direito Parlamentar, um texto designado para as classes de autores no Seminário do Sul, F. H. Kerfoot reconhece:

Durante os primeiros dez anos que o autor ensinou esta matéria, usou como seu livro o manual de Práticas Parlamentares, pelo Presidente P. H. Mell. Ele é, em muitos aspectos, um excelente livro. E pode muito bem ser suposto que o uso dele durante tantos anos deve ter deixado sua impressão sobre o professor, e, portanto, sobre as páginas seguintes também [33].

Um visitante na Convenção Batista do Sul de 1866, comentou sobre as habilidades de Mell como parlamentar:

Pensamos que o Dr. Mell é o melhor oficial presidente que já vimos; e ouvimos muitos presentes na Convenção expressarem a mesma opinião. Ele entende perfeitamente os deveres do cargo, e age com aquela deliberação, rapidez e firmeza, mas com gentileza; ele segurava em verificação qualquer um que fosse indisciplinado, e permitia que o membro mais humilde e mais modesto da Convenção ganhasse a atenção do corpo. Nenhuma pressão dos negócios, ou emoção incidia quanto a tais reuniões, quando as perguntas inesperadas surgiam, poderiam, por um momento, desconcertá-lo. Ele impressionou a todos com a sua peculiar aptidão para o cargo que tão graciosamente ocupou [34].

O carisma pessoal de Mell como presidente e oficial ao presidir, foi visto quando:

Em uma certa reunião da Convenção Batista do Sul, Dr. Mell chamou um irmão para presidir o corpo devido a sua ausência temporária. Os negócios prosseguiram corretamente até que alguém fez um movimento que fez muitos levantarem-se, todos clamando pelo reconhecimento da cadeira. O Presidente irremediavelmente bateu na mesa por ordem, ordem, mas não havia nenhuma ordem. Dr. Mell foi enviado por alguém que reconheceu a importância de um homem calmo na cadeira. Ele voltou e tranquilamente assumiu a liderança da cadeira. Ele bateu levemente o martelo na mesa, e de imediato, como que por mágica, a desordem cessou, grupos de membros que formavam toda a casa e estavam conversando animadamente e em voz alta, dispersaram-se e sentaram-se, e o grande corpo se movia de forma suave e ordenada em seu empreendimento, como se fossem alguma grande porção de máquinas sob o controle de seu dono [35].

Talvez tenha sido esta grande popularidade como um parlamentar que tanto ofuscou seus dons e habilidades como pastor e teólogo, o que mais tem impedido de Mell ser conhecido em nossos dias.

O Ataque Nervoso de Mell

Os anos entre 1871 e 1873 foram muito problemáticos para Mell. O peso das igrejas sobre ele, os deveres da Universidade, as responsabilidades denominacionais, sua pena prolífica, tudo isso contribuiu para o que se tornou conhecido como o “ataque nervoso” de Mell. Em agosto de 1871, enquanto pregava em Bairdstown, Mell foi apreendido por um ataque que o deixou prostrado e quase acabou com sua vida. Por mais de um ano, ele foi incapaz de fazer qualquer trabalho ativo. Talvez isso foi um exemplo do que hoje chamamos de burnout ministerial. Muitas vezes Mell foi ouvido dizer: “Deixe-me desgastar, não enferrujar”.

Juntamente com todas as suas responsabilidades e deveres, não foi também seu grande fardo pelas almas dos homens que o levaram ao seu ataque? Vários dias antes de seu ataque debilitante, Mell estava no púlpito da igreja Antioch e pediu:

“Devo eu, deixá-los, como eu vos encontrei, fora de Cristo? Devem todos os meus argumentos, minhas súplicas, minhas orações, serem apenas tantas mós amarradas aos seus pescoços para arrastá-los para baixo rumo à perdição? Minhas palavras são claras. Já vos alertei sobre a justa indignação de Deus. Tenho vos cortejado com a doçura do amor de Cristo”. Levantando os olhos, solenemente, ele disse: “Deus é minha testemunha, não me esquivei de vos anunciar todo o conselho de Deus, mas, oh, como posso deixá-los. Para muitos de vocês, eu sinto, será apenas um pouco de tempo, até que tenhamos uma doce conversa em um mundo melhor, mas para vocês que têm resistido à força do Evangelho por tanto tempo, deverei permanecer em juízo contra vocês?” [36].

Embora impressionado pensando que o momento de sua própria morte estivesse próximo, Mell foi aliviado pela sua utilidade futura. Depois de sofrer por quase um ano, o médico de Mell prescreveu um cruzeiro. Após seu retorno, e com mais um ano de descanso, em 1874, Mell retomou seus labores na Universidade de Geórgia e ambas as igrejas, com ainda mais vigor do que antes.

Talvez essa experiência “atrás do deserto” proporcionou a Mell mais tempo para a oração e meditação, pois em 1876 o sua Doutrina da Oração foi publicada. Dois anos depois, Mell foi eleito Chanceller da Universidade, cargo que ocupou até sua morte em 1888. Sob a sua liderança, os administradores estabeleceram colégios filiais em várias cidades da Geórgia, a fundação de uma escola de tecnologia (agora Georgia Tech) foi aprovada, e uma estação experimental agrícola foi estabelecida. Um contemporâneo disse sobre a obra de Mell na Universidade:

A administração do chanceler Mell foi uma década de prosperidade para a Universidade. Ele trouxe para o ofício a longa experiência como professor universitário, fortes convicções do dever e da política de boa gestão, e a confiança da poderosa denominação a que pertencia [37].

Ao todo, Dr. Mell serviu na Universidade da Geórgia por 22 anos; na presidência da Convenção Batista do Sul por 17 anos, e na Convenção Batista da Geórgia por 24 anos. Seu ministério incluiu muitas igrejas e agências a mencionar, e suas obras escritas circularam amplamente na segunda metade do século XIX.

Doença e Morte

Em 12 de dezembro de 1887, Mell pregou o seu último sermão. Ele falou sobre a doutrina da eleição, a partir de 2 Tessalonicenses 2:13. No décimo quinto dia do mês, ele foi forçado a deixar de lado todos os seus deveres e buscar descanso, na parte sul da Geórgia. Neste dia, ele escreveu ao seu filho:

Minha saúde está ruim. Eu me gastei pelo meu excesso de trabalho. Meu médico me ordena o recesso. Muitos dos curadores exortam-me a descansar durante um mês; mas eu não posso fazê-lo, os meus colegas já estão sobrecarregados, e minhas aulas poderiam ser prejudicadas. Não há descanso para mim, senão na sepultura [38].

No dia vinte e seis de janeiro de 1988, Patrick Hues Mell encontrou seu descanso eterno nos braços de Seu amado Pai Celestial. Três dias antes de sua morte, ele foi ouvido dizer: “Tenho sido um maravilhoso filho da Providência, se não for da graça” [39]. Seu filho lembrou das últimas horas de Dr. Mell:

Em intervalos, ele dizia: “Eu entrego a minha alma para Deus em Cristo Jesus — a Deus seja a Glória”. “Uma vez que eu estive morto, mas agora estou vivo. No outro mundo eu sou totalmente compreendido e plenamente apreciado — totalmente compreendido e plenamente apreciado”. Ele proferiu estas palavras exatamente como escritas — repetindo a última parte da sentença. Parecia que aqueles que o assistiam foram autorizados a penetrar o véu que paira entre este e o outro mundo, e que ele realmente viu o sorriso compreensivo e de aprovação no rosto de seu amado Mestre.

Pouco antes de sua última respiração, ele disse: “Quase em casa?”. E fez um esforço para dizer algo mais, porém não conseguiu. Em seguida, ele tentou cruzar os braços sobre o peito e morreu tranquilamente — adormeceu nos braços de Jesus, por Quem ele havia combatido uma luta valorosa, e no final de longos anos de vida útil foi levado para o seu galardão [40].

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Notas:
[1] P. H. Mell, Jr., A Vida de Patrick Hues Mell (Louisville, KY: Baptist Book Concern, 1895), 8.
[2] Ibid., 10.
[3] Ibid., 12.
[4] Ibid., 13.
[5] Ibid., 15.
[6] Spencer B. King, Jr., “Patrick Hues Mell: Pregador, Pedagogo e Parlamentar”, História e Herança Batista 5 (Outubro de 1970): 187.
[7] P. H. Mell, Jr., A Vida de Mell, 33-39.
[8] Ibid., 41.
[9] P. H. Mell, “Discurso do Professor Mell, Pregado à Classe de Graduação do Último Dia de Formatura,” The Christian Index, 18 de agosto de 1843, 515.
[10] Samuel Boykin, História da Denominação Batista na Geórgia (Atlanta: The Christian Index, 1881), 382.
[11] “Discurso à Classe de Graduação”, 516.
[12] Ibid.
[13] A Vida de Mell, 48.
[14] Robert Preston Brooks, A Universidade da Geórgia (Athens, GA: The University of Georgia Press, 1956), 69.
[15] A Vida de Mell, 55.
[16] Ibid., 56-57.
[17] Ibid., 58-59.
[18] P. H. Mell, Predestinação e Perseverança dos Santos (Charleston, SC: Southern Baptist Publication Society, 1851; ed. reimp. Forth Worth, TX: The Wicket Gate, 1983), III.
[19] Ibid., IV.
[20] P. H. Mell, Batismo em Seu Modo e Sujeitos (Charleston, SC: Southern Baptist Publication Society, 1853), V.
[21] A Vida de Mell, de 56 anos.
[22] Ibid., 59.
[23] John L. Dagg, “Autobiografia” no Manual de Teologia e Ordem da Igreja (Harrisonburg, VA: Gano Books, 1982, ed. reimp.). 49.
[24] B. O. Ragsdale, História dos Batistas da Geórgia, Volume 1 (Atlanta, GA: O Comitê Executivo da Convenção Batista do Estado da Geórgia, 1932), 1:102.
[25] A Vida de Mell, 77.
[26] Para o cenário completo veja Ragsdale, História dos Batistas da Geórgia, 1:101-117 e Mell, A Vida de Mell, 76-102.
[27] The Christian Index, vol. 34, 13 de dezembro de 1855.
[28] A Vida de Mell, 109.
[29] Ibid., 114.
[30] King, “Pregador, Pedagogo e Parlamentar”, 191.
[31] A Vida de Mell, 144.
[32] É interessante notar que nos anos de ausência de Mell como presidente, J. P. Boyce presidiu a denominação, e também,
no ano da morte de Mell, em 1888, Boyce atuou como presidente da CBS.
[33] F. H. Kerfoot, Direito Parlamentar (Nashville, TN: Broadman Press, 1899), VI.
[34] A Vida de Mell, 153-54.
[35] Ibid., 159.
[36] Ibid., 179.
[37] Robert Preston Brooks, A Universidade da Geórgia, 79.
[38] A Vida de Mell, 249.
[39] Ibid., 249.
[40] Ibid., 251.

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♦ Fonte: Founders.org │Título Original: The Life and Labors of Patrick Hues Mell
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Somente as Igrejas Congregacionais se Adequam aos Propósitos de Cristo na Instituição de Sua Igreja – John Owen

Tendo feito um relato sobre a instituição e a ordem das igrejas evangélicas, que são de Instituição Divina, é necessário que nós também declaremos a sua adequação e suficiência a todos os propósitos para os quais o Senhor Jesus Cristo designou tais igrejas; porque, se há qualquer verdadeiro fim próprio dessa natureza que não pode ser alcançado em ou por qualquer instituição de igreja nesta ou naquela forma, deve-se admitir, então, que nenhuma tal forma é designada por Deus. Sim, é necessário não apenas que tal instituição como pretendida àquela origem divina seja não apenas não contraditória ou inconsistente com tal finalidade, mas que efetivamente conduza a ela, e em sua posição necessária a este propósito. Isso, portanto, é o que buscaremos agora investigar, ou seja, se esta instituição e forma de igrejas evangélicas em congregações individuais são adequadas a todos esses fins para os quais tais igrejas foram designadas; o que elas devem ser em consideração à sabedoria de Jesus Cristo, o seu autor e fundador, ou devem ser completamente descartadas de sua pretensão. Nem há qualquer argumento mais convincente contra qualquer pretensa instituição, regra, ou ordem de igreja do que esta que ser obstrutiva às almas dos homens em alcançar os fins apropriados de sua instituição como um todo. Posto que, de forma geral, o que estes propósitos são já foi anteriormente declarado; eu aqui não os repetirei, ou voltarei a abordá-los, mas apenas destacarei a consideração daqueles que são geralmente pleiteados como não possíveis nesta forma de igrejas em congregações locais, apenas, ou daqueles que pelo menos não são apropriadas à sua finalidade.

 

1. O primeiro destes é o amor mútuo entre todos os Cristãos, todos os discípulos de Cristo. Por discípulos de Cristo refiro-me somente àqueles que professam fé em Sua Pessoa e Doutrina, e O ouvem, ou são guiados por Ele somente, em todas as coisas que referem-se ao culto a Deus, e suas vidas nEle. Se houver alguns chamados Cristãos que nestas coisas escolhem outros guias, chamam a outros ministros, os ouvem em seus apontamentos, nós devemos cortá-los de nossa presente consideração; embora existam importantes funções exigidas de nós em relação a eles também. Mas o que se alega é necessário à constituição de um verdadeiro discípulo de Cristo. Para todos o Seu grande comando é o amor mútuo entre eles mesmos. Isso que Ele chama de uma maneira especial “o Seu mandamento” e “um novo mandamento”; como por outras razões, porque Ele havia dado o primeiro grande exemplo disso em Si mesmo, como também desvelou os motivos para isso e as razões para isso, sobre o que a humanidade anteriormente estava obscurecida até então. E tal peso Ele colocou sobre esse comando, que Ele declara que a manifestação da glória de Deus, Sua própria honra, e a evidência a ser dada ao mundo de que somos Seus discípulos, de fato dependem da nossa obediência a isso.

Expressar e exercitar esse amor, em todos os seus atos e deveres, entre os Seus discípulos, foi uma finalidade de Sua nomeação para que eles andassem em relação de igreja uns com os outros, neste amor que é o vínculo da perfeição. E a perda desse amor, como o de seu devido exercício, não é menos uma perniciosa parte da apostasia fatal das igrejas do que o é a perda da fé e adoração: pois, a esse respeito a Cristandade, como normalmente é chamada, se torna o maior palco de ódio, raiva, ira, derramamento de sangue, e desolações mútuas que há no mundo todo; de modo que não temos nenhuma maneira de responder à objeção dos Judeus ao argumentarem contra nós sobre as promessas Divinas de amor e paz no reino do Messias, mas pela admissão de todas essas coisas surge uma rebelião contra Seu governo e reino. Agora, esse amor em seu exercício é eminentemente preservado nesta finalidade de Igrejas particulares; pois,

(1) O princípio do ajuntamento deles em tais sociedades, além da fé em Cristo Jesus, é o amor para com todos os santos; pois a sua união, sendo com alguns deles, como tais, somente, eles devem ter um amor para com todos os que o são assim. E nenhum deles se ajuntaria em tais sociedades se o seu fazê-lo em qualquer coisa prejudicasse o seu amor por todos os discípulos de Cristo, ou o impedisse em qualquer de suas operações. E a comunhão destas igrejas entre si é, e deve ser, como a que todas elas se constituem como que um só corpo e uma igreja comum; como veremos posteriormente. E é um dever principal delas o estimularem-se, em todos os seus membros, a um exercício contínuo de amor para com todos os santos de Cristo, conforme a ocasião exigir; e se eles são defeituosos nesse amor católico, a culpa é deles, [sendo] contrária à regra e ao propósito de sua instituição.

(2) Para a expressão constante e exercício desse amor são necessários, [1] objetos presentes adequados a todos os atos e deveres do mesmo; [2] A descrição e prescrição desses atos e deveres; [3] Regras para os corretos desempenho e exercício deles; [4] O fim a ser alcançado em seu cumprimento. Todas estas coisas o Senhor Jesus providenciou aos Seus discípulos na constituição e regra dessas igrejas. E o devido atendimento a eles, Ele designou como o exemplo, julgamento e experiência do amor deles por todos os Seus discípulos; ao passo que eles podem pretender tal amor, ainda assim alega-se que eles não sabem como e nem onde se expressa-lo e exercê-lo, especialmente quanto aos variados deveres mencionados na Escritura como pertencentes a isso, Ele providenciou este caminho, em que não se pode ignorar os deveres de amor exigido deles, nem os objetos, normas adequadas, e fins para a sua prática. Exigiria muito tempo discorrer sobre essas coisas em particular. Eu apenas adicionarei (o que é facilmente defensável) que o amor evangélico jamais será recuperado e restaurado em sua glória primitiva até que as Igrejas ou congregações particulares sejam reformadas e convertidas ao exercício do amor sem fingimento que é exigido de todos os seus membros entre si; pois enquanto os homens vivem em inveja e malícia, detestarão e odiarão uns aos outros, ou enquanto eles vivem em uma negligência aberta de todos os deveres que o Senhor Jesus Cristo ordenou para que fossem observados em relação aos membros da sociedade a que eles pertencem, como um penhor e prova de seu amor por todos os Seus discípulos, tal coisa não pode ser alcançada. E assim é na maioria das assembleias locais, que, em meio a suas queixas de violação do amor e união, pela retenção da comunhão de alguns homens em algumas partes do culto divino com eles, ainda, além dos deveres comuns da civilidade e da vizinhança, não conhecem nem praticam qualquer coisa deste amor, alegria e comunhão espirituais que devem haver entre eles, como membros da mesma igreja.

Não nos vangloriamos de quaisquer realizações deste tipo, – nós sabemos o quão pouco alcançamos daquele amor ardente que floresceu nas primeiras igrejas; mas isso dizemos, que não há nenhuma maneira de recuperá-lo, senão por essa instituição e ordem de igrejas particulares que propomos, e, κατὰ τὴν δοθεῖσαν δύναμιν, real aderência a elas.

Mas, pretensões quanto ao contrário são pleiteadas com veemência, e os clamores quanto a este fim são altos e muitos: pois, esta forma, diz-se, de estabelecimento de congregações locais é aquilo que tem causado divisões intermináveis​​, e perdido todo o amor e afeição Cristã entre nós, sendo acompanhados de outras consequências perniciosas, como os adversários mais retóricos disso são malmente capazes de declarar; nem o próprio Tértulo poderia fazê-lo, se ele estivesse ainda vivo; pois, por esse meio, os homens não se encontrando, como costumavam fazer, na administração do sacramento e oração comum, todo o amor é perdido entre eles. Eu respondo:

[1] Essa objeção, tanto quanto eu sou capaz de observar, é maioritariamente gerida por aqueles que parecem saber muito pouco sobre a natureza e deveres daquele amor que o nosso Senhor Jesus Cristo ordena no evangelho, nem dão qualquer evidência considerável de seu viver, andar e agir no poder dele. E, quanto a que eles se imaginam sob esse nome, ao passo que é evidente a partir da prática comum que isso não se estende mais longe, senão até a passividade nas coisas civis e indiferentes, com algumas expressões de bondade em seus folguedos e festins, e outras sociedades joviais, em que não estamos interessados.

[2] Essa objeção reside não contra a coisa em si mesmo, absolutamente – a saber, que todas as igrejas de instituição Divina são congregacionais, o que, somente, é agora pleiteado – mas contra o ajuntamento de tais sociedades ou congregações nessa condição das coisas que agora prevalecem entre nós. Mas, enquanto isso depende de princípios ainda não declarados e confirmados, a consideração desta parte da oposição deve ser encaminhada a outro lugar. Direi apenas no momento, que este é o maior e mais potente motor na mão de Satanás, e dos homens de interesse secular corrupto, para reter toda a reforma da igreja fora do mundo.

[...]

[3] Não encontramos que uma participação conjunta nas mesmas ordenanças, ao mesmo tempo, no mesmo ambiente, é em si mesmo ou um efeito, ou evidência, ou dever do amor evangélico, ou qualquer outro meio para a preservação ou promoção do mesmo; pois isso foi diligentemente observado no Papado, quando todo o verdadeiro amor, fé e adoração evangélicos foram perdidos. Sim, esse tipo de comunhão e colaboração, adicionadas a uma dependência implícita na autoridade da igreja, foram substituídos em seu lugar; e multidões estiveram satisfeitas com elas, como aqueles que as estabelecem em sua negligência a todas as outras graças e seu exercício. E, eu gostaria que não fosse assim entre outros que supõem que eles têm todo o amor que lhes é exigido, se eles estiverem livres de tais variações escandalosas com seus próximos, a ponto de torná-los inadequados para a comunhão.

[4] Se este for o único meio de amor, como os homens o mantém em direção a qualquer um que não seja de sua própria comunidade, considerando que eles nunca se encontram no sacramento da Ceia do Senhor? E se eles podem viver em amor com os de outras comunidades, por que eles não o fazem com aqueles que tendo a mesma fé e sacramentos com eles, encontram-se para o exercício do culto Divino, em tais congregações como as que já descrevemos? Portanto –

[5] A divergência que pretensamente seria causada pela criação destas congregações particulares é uma parte daquela variância que Cristo veio trazer ao mundo: “Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; e assim os inimigos do homem serão os seus familiares” (Mateus 10:34-36). Ele foi o Príncipe da Paz; Ele veio para fazer a paz entre Deus e os homens, entre os próprios homens, Judeus e Gentios; Ele não ensinou nada, ordenou nada que em sua própria natureza tivesse a mínima incoerência com a paz, ou oferecesse semblante de desavença: mas Ele declara o que aconteceria e viria, por meio do pecado, das trevas, da incredulidade e inimizade quanto à verdade, o que continuaria em alguns sob a pregação do evangelho; enquanto outros de seus parentes mais próximos abraçariam a verdade e profissão dele. [...]. A mesma verdade evangélica pregada, os mesmos sacramentos administrados; e considerando que tanto os princípios da forma, e as pessoas deles que se reúnem em corporações distintas para a celebração do culto Divino, conduzem ao amor e à prática do mesmo em todas as suas funções conhecidas, todos os males que ocorrem nesta forma congregacional devem ser cobrados da inimizade, ódio, orgulho e interesse secular dos homens; o que não está em nosso poder sarar.

 

2. Outra finalidade do estabelecimento desta instituição é que a igreja seja a “coluna e firmeza da verdade” (1 Timóteo 3:15), ou seja, que ela deve ser o principal meio exterior de apoio, conservação, declaração pública e propagação da doutrina ou verdade do evangelho, especialmente em relação à Pessoa e ofícios de Cristo; que os apóstolos acrescentam à esta afirmação nas próximas palavras. A instituição de igreja que não corresponde a este propósito não é de instituição Divina; todavia, o ministério daquelas igrejas é eminentemente adequado.

Existem três coisas necessárias para cumprir este dever, ou exigidas para esta finalidade, para que a igreja seja a coluna e baluarte da verdade:

(1) Que ela preserve a verdade em si mesma, e na profissão de todos os seus membros, contra todos enganadores, falsos mestres e erros. Isso o apóstolo dá em encargo especial aos anciãos da igreja de Éfeso, acrescentando as razões disso (Atos 20:28-31). Isto é de uma forma especial confiado aos oficiais da igreja (1 Timóteo 5:20; 2 Timóteo 1:13-14). A isso o ministério dessas igrejas é próprio e adequado. A inspeção contínua que eles têm e devem ter quanto a todos os membros da igreja, adicionado àquela circunspecção e julgamento das doutrinas pregadas por eles mesmos a todo o corpo da igreja, adequa-os para este trabalho. Este é o meio fundamental (em questão, o único meio externo), que o Senhor Jesus Cristo determinou para a preservação da verdade do evangelho neste mundo, em que a Igreja é a coluna e firmeza da verdade. Eu desconheço como isso pode ser feito onde as igrejas adotam aquele modo de agir e constituir que os oficiais delas não podem ter inspeção imediata ou jurisdição tanto sobre o conhecimento, opiniões ou práticas dos membros de sua igreja, nem o corpo da igreja conhece, sobre algum fundamento evidente, o que o seu principal oficial crê e ensina. Por este meio a verdade foi preservada nas igrejas dos primeiros dois séculos, as quais não tinham oficiais, senão os que eram estabelecidos em igrejas locais, de modo que nenhum erro considerável foi introduzido dentre elas.

(2) Que cada igreja cuide para que a mesma verdade seja plenamente conservada, bem como a profissão dela, em todas as outras igrejas. Sua comunhão entre si (e sobre isso, posteriormente) é construída sobre a sua ὁμολογία comum, ou a profissão da mesma fé. Este, portanto, é seu dever, e sempre foi a sua prática, cuidar para que a verdade seja plenamente preservada; pois caso houvesse uma mudança na fé de qualquer um deles, eles sabiam que seria a dissolução da sua comunhão. Portanto, quando qualquer coisa dessa natureza ocorria, assim como houve na igreja de Antioquia na pregação sobre a necessidade da circuncisão e observância da lei, por meio de que as almas de muitos dos discípulos foram subvertidas, a igreja em Jerusalém, ao ser notificada e tomar conhecimento sobre isso, ajudou-os com as suas advertências e conselho. E nos diz Eusébio, que, após a primeira promulgação das heresias e frenesis de Montano, os fiéis, ou igrejas na Ásia, reuniram-se com frequência em diversos lugares para examinar suas pretensões e condenar seus erros; pelo que as igrejas na Frígia foram preservadas (Hist. Eclesiástica, livro V. cap. 14). Assim, o mesmo foi feito depois, no caso de Samosatenus em Antioquia, em que a igreja foi libertada da infecção de sua heresia perniciosa (livro VII. cap. 27, 28, 29). E esse cuidado ainda compete a cada Igreja local, caso ela demonstre ser a coluna e firmeza da verdade. E da mesma maneira Epifânio, relatando sobre a origem da heresia do Noetus, um Patripassiano1, afirma que os santos presbíteros da Igreja o chamaram e perguntaram a opinião dele várias vezes; pelo que, sendo convencido antes do presbitério sobre os enormes erros, ele foi expulso da igreja: “Ἀλλὰ μεταξὺ τούτων (when he began to disperse his errors) ἀπὸ τῆς περὶ αὐτὸν ἐνηχήσεως οἱ μακάριοι πρεσβύτεροι τὴς ἐκκλησίας προσκαλεσάμενοι αὐτὸν ἐξητάζον περὶ τούτων ἁπάντων· — ὁ δὲ τὰ πρῶτα ἠρεῖτο ἐπὶ τοῦ πρεσβυτερίου ἀγόμενος, Epiphanius, Hæres. cont. Noet. Hær [Epifânio, Contra as Heresias]. xxxviii. seção 57.

Assim é que a doutrina da igreja, quanto ao seu conteúdo, foi preservada completa durante os dois primeiros séculos, e um pouco depois. Na verdade, como quando os Israelitas saíram do Egito, veio junto com eles uma “muita mistura de gente” (Êxodo 12:38), que caiu por “cobiçar” a carne quando eles chegaram ao deserto (Número 11:4), para o perigo de toda a congregação. semelhantemente, quando o Cristianismo foi primeiramente pregado e recebido no mundo, além daqueles que abraçaram sinceramente, e foram acrescentados à igreja, havia uma grande mistura de Judeus obstinados, como os Ebionitas; de Gregos filosóficos, como os Valentinianos e Marcionitas; de impostores evidentes, como Simão, o Mago e Menandro; os quais, todos eles, fingiram ser Cristãos, mas caíram em concupiscência, e extremamente perturbaram e deixar as igrejas perplexas esforçando-se para seduzi-las às imaginação deles. No entanto, nenhuma das suas abominações poderia forçar uma entrada em suas próprias igrejas, as quais, por manter a sua instituição, foram preservadas. Mas quando esta instituição e ordem da igreja foi alterada, e outra gradualmente introduzida em seu lugar, erros e heresias obtiveram novas vantagens, e entraram nas próprias igrejas, as quais antes embora as atacassem eram frustradas, pois:

[1] Quando a prerrogativa e preeminência de uma única pessoa na igreja começou a estar em estima, não poucos falharam em suas tentativas de igualá-lo, retaliando eles mesmos a igreja, fazendo de seu trabalho o o inventar e propagar heresias perniciosa. Assim fez Thebuthis em Jerusalém (Eusébio, livro IX, cap. 22); e Valentinus, Tertul e Valentine (cap. IV); e Marcion em Roma (Epifânio. Haeres. XIII). Montano caiu em sua velhice na mesma consideração; assim o fez Novaciano em Roma (Eusébio, livro VI. cap. 43, e Ário em Alexandria. Por isso há aquela censura deles, por Lactâncio, livro IV. cap. 30: “Ii quorum fides fuit lubrica, cum Deum nosse se et colere simularent, augendis opibus et honori studentes, sacerdotium máximo affectabant, et uma victi potioribus, secedere cum suffragatoribus maluerunt, quam eos ferre præpositos quibus concupierant ipsi ante præponi”.

[2] Quando qualquer um de seus bispos da nova constituição, seja patriarcal ou diocesana, caía em heresias, o que fizeram com frequência, chegando a incorrer nelas muitas vezes, tinham muitas vantagens para difundir o seu veneno para o corpo inteiro de suas igrejas, e certos interesses políticos para a sua promoção, de modo que as próprias igrejas foram completamente infectadas com estas heresias. É verdade, o corpo das pessoas em muitos lugares se opuseram a eles, retiraram-se e separaram-se deles; mas não se pode negar, contudo, que esta foi a primeira forma e os meios através dos quais as igrejas deixaram de ser a coluna e firmeza da verdade. Tantos erros destrutivos foram recebidos dentro delas, que elas foram atacadas exteriormente somente enquanto elas se firmaram na primeira instituição. E se não tivessem as igrejas, no decorrer do tempo, completamente perdido seu estado e ordem primitivos, por aglomerarem-se em um papado, sob a dissimulação da igreja ser universal, a fé em si nunca poderia ter sido tão completamente corrompida, depravada e perdida entre eles, como ela foi, em consequência disso.

(3) Propagar o evangelho é da mesma maneira necessário a ela. Isso, eu reconheço, mais imediatamente diz respeito ao dever de pessoas em qualquer ordem de igreja do que a própria ordem em si; pois esse deve ser o trabalho de algumas pessoas em particular, que se dedicam aos seus ministérios, como era nas primeiras igrejas, 3 João 5-8.

Semelhantemente pode ser dito de qualquer outra finalidade reconhecidamente pública da instituição de igrejas. Se a forma como defendida não for consistente com todas elas, e os meios adequados para os atingir, se não forem adequadas ao seu cumprimento, que sejam descartadas. Insistirei somente em mais uma.

 

3. Nosso Senhor Jesus Cristo deu essa instituição às Suas igrejas, estabeleceu-as nessa ordem, como que o Seu interesse, reino e religião fossem propagados ao mundo, sem prejuízo ou desvantagem a nenhum dos interesses legítimos dos homens, especialmente, sem qualquer oposição ou até interferência com a autoridade ou o magistrado civil, que é ordenação de Deus; e nenhuma forma de igreja que assim o faz é de Sua instituição. Portanto, devo declarar brevemente quais são os princípios daqueles desta forma, nestas coisas, que são os princípios da forma em si que eles professam:

(1) A primeira asserção geral quanto à essa finalidade é esta: O Senhor Jesus Cristo não ensinou nenhuma doutrina, nem nomeou qualquer ordem em Sua igreja, nem deu-lhe algum poder, que se opõem ou sejam inconsistentes com qualquer governo justo neste mundo, de que espécie for, sobre aqueles a quem o governo é distribuído em razão e prática. Sua doutrina, na verdade, se opõe a toda injustiça em e sobre todos os homens, magistrados e outros; mas não se opõe à regra legal de magistrados que são homens injustos. E esta oposição é apenas doutrinária, confirmada com promessas e ameaças de coisas eternas, recusando-se e desprezando todos os auxílios exteriores de força e contenção. Esta regra nós consentimos ao julgamento de todas as igrejas e sua instituição, se elas estão de acordo com a mente de Cristo.

Mas, enquanto o Senhor Jesus Cristo não ensinou e nem ordenou, nada que seja contrário ou inconsistente com qualquer tipo de governo que seja justo. Se governantes ou magistrados proibirem a observância do que Ele comandou, designou e nomeou, então, pesa sobre Ele ou sobre a Sua forma, de modo que Seus discípulos não podem, não ousam e nem irão cumprir essa proibição, e serão acusados por isso de sedição e de oposição aos governantes, assim, eles tratam de forma negativa o próprio Cristo, pelo que eles prestarão contas; pois, ao passo que “todo o poder lhe é dado no céu e na terra” [Mateus 28:18], todas as nações são a Sua herança, todas as pessoas estão à Sua disposição absoluta, e é o Seu prazer estabelecer o Seu reino na terra, sem o que a própria Terra não teria continuado. Ele não poderia lidar mais gentilmente com os governantes justos deste mundo (e Ele fez isso porque o governo justo é a ordenança de Deus) do que ao ordenar todas as coisas assim, que se eles recebem a Sua lei e doutrina ou não, nada deve ser feito em oposição a eles ou à regra deles.

[...]

(2) Em particular, o Senhor Jesus Cristo não ordenou nenhum poder ou ordem em Sua igreja, nenhum ofício ou dever, que permaneça em necessidade da autoridade, sanção ou força civil para preservá-lo, ou torná-lo eficaz quanto à sua finalidade apropriada. É suficiente retirar qualquer coisa de uma pretensão de ser um desígnio de Cristo em Sua igreja, se isso não for suficiente ao seu próprio fim adequado, sem a ajuda do magistrado civil. Qualquer instituição de igreja que é constituída pela autoridade humana, ou não pode funcionar sem ela, não é pertence a Cristo. Essa ordenança que existe em sua própria natureza Divina, ou melhor, que assim se auto supõe, na medida em que não é eficaz à finalidade sem o auxílio da autoridade humana, não é de Cristo, pois Ele não precisa disso. Ele não pedirá a assistência da autoridade civil para governar sobre as consciências dos homens, no que diz respeito ao seu viver para Deus e ao vir para o gozo dEle mesmo.

A forma de exigir a sanção da autoridade civil quanto às ordens e determinações eclesiásticas começou com a utilização de conselhos gerais nos dias de Constantino; e quando isso era desenvolvido e aprovado, na medida em que era determinado nos sínodos, seja quanto à doutrina ou quanto ao governo da igreja, deveria ser confirmado pela autoridade imperial, com penalidades em tudo o que pudesse contradizer tais determinações. É lamentável considerar que destruição mútua foi feita entre os Cristãos baseados sobre os vários sentimentos de sínodos e imperadores. No entanto, esta forma agradou os dirigentes da igreja tão bem, e – como eles pensavam –, os aliviou de tantos problemas, que até agora foi incrementado entre eles, de forma que finalmente, eles não deixaram nenhum poder sobre a religião ou sobre as pessoas religiosas em relação ao magistrado civil, senão o que deveria ser exercido na execução dos decretos e determinações da igreja.

É necessário, a partir desta instituição de igrejas independentes, que elas tenham a sua subsistência, continuação, ordem e eficácia de tudo o que elas realizam e fazem como igrejas, a partir do próprio Cristo; pois, enquanto tudo o que somos e fazemos é celestial, espiritual, e não é deste mundo, assim, isso não se estende a nenhuma de todas as coisas que estão sob o poder do magistrado (ou seja, a vida e os corpos dos homens, e todos os interesses civis pertencentes a eles), e nada influencia, senão o que nenhum poder de todos os magistrados sob o céu podem alcançar (ou seja, as almas e as consciências dos homens), nenhum problema pode surgir disso a algum dos governantes do mundo, nenhuma contestação sobre o que eles devem e o que não devem confirmar; o que têm causado grandes transtornos entre muitos.

(3) Em especial, também, não há nem pode haver nesta instituição de igreja a menor pretensão de poder ou autoridade a ser desempenhada em direção ou sobre as pessoas de reis ou governantes, o que poderia contestar o seu direito ou impedir o exercício de sua justa autoridade; pois, como Cristo não concedeu tal poder à igreja, assim, é impossível que qualquer pretensão disso seja estabelecida em uma congregação particular, especialmente sendo reunidas sobre este princípio. De forma que não há nenhum poder eclesiástico propriamente dito, senão que é assim estabelecido, e a isso nenhuma concordância, acordo ou associação de muitas igrejas podem adicionar um novo, maior, ou outro poder ou autoridade para elas além do que elas tinham antes isoladamente. [...].

Estes princípios, eu digo, são suficientes para assegurar a religião Cristã, e o estado, ordem e poder das igrejas instituídas nela, a partir de todas as reflexões sobre a inconsistência com o governo civil, ou de homens influentes buscando sua mudança ou ruína.

A soma é: Permita que a estrutura exterior e ordem do governo justo seja de que tipo for, não tenha nada inconsistente com ele, nada estabelecido sobre ele, nada fazendo em oposição a ele, pois isto é designado por Jesus Cristo, ou pertence à instituição de igreja que Ele ordenou e estabeleceu.

Apenas dois aspectos devem ser adicionados a estes princípios: que nós não podemos ver a distinção entre o estado civil e a igreja de forma a torná-los indiferentes um ao outro; pois,

Em primeiro lugar, é o dever inquestionável dos soberanos e governadores do mundo, sobre a pregação do evangelho, receberem a sua verdade e prestarem obediência aos seus mandamentos. E considerando que todo poder e ofícios devem ser indicados por Deus, de quem são todas as normas dos ministros, eles são obrigados, no exercício das suas funções, a aprovar, suprir e proteger a profissão e professores da verdade, ou seja, a Igreja – e isso de acordo com os graus e medidas que julgarem necessárias.

Em segundo lugar, é dever da igreja, materialmente considerada, isto é, de todos aqueles que são membros desta organização, em qualquer reino ou comunidade, ser útil e subserviente, mesmo como Cristãos, a essa regra, que está sobre eles como os homens, em todas as formas e por todos os meios, que as leis, usos e costumes dos países aos quais eles pertencem. Todavia estas coisas são frequentemente faladas.

Há outras diversas considerações pelo que pode ser evidenciado que esta ordem e instituição de igrejas evangélicas não apenas são consistentes com todos os governos justos no mundo (digo, que é assim em sua constituição, embora, como todas as outras formas, ela é suscetível à má administração), porém ela é mui útil e subserviente à sua justa administração, sendo absolutamente incapaz de mistura em si, como tal, em qualquer dessas ocasiões de assuntos do mundo ou estatais que possam criar a menor dificuldade ou problema aos governantes.

Com os demais, não é assim. Sabe-se que a própria constituição da igreja papal, como se afirma nos cânones, é incompatível com os justos direitos dos reis e governantes, e frequentemente, no exercício de seu poder, destrutivo às suas pessoas e domínios. E nisso concordou o prelatício da instituição da igreja da Inglaterra, enquanto ela continuou em comunhão com eles, e apegou-se a sua dependência em relação à Igreja Romana; pois, embora, eles tiveram todo o seu poder original a partir dos reis deste reino – como os registros e as leis disso expressamente afirmam: “que a Igreja da Inglaterra foi fundada em episcopado pelo rei e pelos seus nobres”, ainda assim, eles alegaram essa adição de poder e autoridade, em virtude de seu ofício de onipotência papal, na medida em que eles eram líderes em detrimento do governo desta nação, sob o pretexto de manter o que eles chamavam de “direitos da Igreja”. [...].

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[1] Patripassiano:Um monaquiano. Alguém que nega distinção entre as três Pessoas em um só Deus, e afirma que há apenas uma Pessoa divina, que em sua natureza eterna foi denominado o Pai, mas na sua encarnação o Filho, e que o Pai sofreu na paixão como e no Filho. O termo ocorre pela primeira vez na literatura em um tratado de Tertuliano sobre o assunto 200 d. C. [Fonte: Century Dictionary and Cyclopedia, via Finedictionary.com – N. R.]

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♦ Este texto é o Capítulo 6 do Livro Inquiry into the Original, Nature, Institution, Power, Order, and Communion of Evangelical Churches, por John Owen. Editado.
♦  Fonte: CCEL.org | Título: Inquiry into the Original, Nature, Institution, Power, Order, and Communion of Evangelical Churches
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Graça, Eleição e Glória – Arthur Walkington Pink

“E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória, depois de havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça. A ele seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém.” (1 Pedro 5:10-11)

“E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou”. No último capítulo (utilizan-do a análise de Thomas Goodwin) foi apontado que este título mui abençoado tem relação com o que Deus é em Si mesmo, o que Ele é em Seu propósito eterno, e o que Ele é em Suas atuações em relação ao Seu povo. Aqui, nas palavras que acabamos de citar, vemos as três coisas unidas em uma referência ao chamado eficaz de Deus, pelo que Ele traz uma alma das trevas da natureza para a Sua própria maravilhosa luz (1 Pedro 2:9). Esta especial chamada interior do Espírito Santo, que produz imediata e infalivelmente arrependimento e fé em seu objeto, fornece, assim, a primeira prova evidente ou exterior que o novo crente recebe de que Deus é, em verdade, para ele “o Deus de toda graça”. Embora esta não tenha sido a primeira saída do coração de Deus para ele, no entanto, está é a prova de que o Seu amor fora estabelecido sobre ele desde a eternidade. “E aos que predestinou a estes também chamou” (Romanos 8:30). Deus tem “elegido desde o princípio [o Seu povo] para a salvação” (2 Tessalonicenses 2:13-14). No devido tempo, Ele opera a salvação deles pelas operações invencíveis do Espírito, que capacita e faz com que eles creiam no Evangelho. Eles creem através da graça (Atos 18:27), pois a fé é o dom da graça Divina (Efésios 2:8), e ela é dada a eles, porque eles pertencem à “eleição da graça” (Romanos 11:5). Eles pertencem a essa eleição favorecida porque o Deus de toda a graça, desde a eternidade passada, os escolheu para serem os monumentos eternos da Sua graça.

A Regeneração é o Fruto da Eleição, Não a Sua Causa

Que foi a graça que havia no coração de Deus, que O levou a chamar-nos é evidente a partir de 2 Timóteo 1:9: “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos”. A regeneração (ou chamada eficaz) é a consequência e não a causa, da predestinação Divina. Deus resolveu nos amar com um amor imutável, e este amor designou que fôssemos participantes de Sua glória eterna. Sua boa vontade por nos O moveu de modo infalível a realizar todas as resoluções da Sua livre graça para conosco, de modo que nada pode impedi-lo, embora no exercício de Sua graça Ele sempre aja de uma maneira que seja consistente com as Suas demais perfeições. Ninguém magnifica a graça de Deus mais do que Goodwin; no entanto, quando perguntado: “Será que a prerrogativa Divina da graça significa que Deus salva os homens, mesmo que eles continuem a serem o que quiserem?”, ele respondeu:

Deus me livre. Nós negamos tal soberania assim compreendida, como se ela salvasse qualquer homem sem regra, muito menos contra regra. O próprio versículo que fala de Deus como “o Deus de toda graça” em relação à nossa salvação acrescenta “que nos chamou”, e nosso chamado é um chamado santo (2 Timóteo 1:9). Embora o fundamento do Senhor permaneça, ainda assim é acrescentado: “e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade” (2 Timóteo 2:19), ou ele não pode ser salvo.

Ajuda-nos a obter uma melhor compreensão deste título Divino: “o Deus de toda graça”, se o compararmos com outro encontrado em 2 Coríntios 1:3: “o Deus de toda a consolação”. A principal distinção entre os dois está em sendo este último mais restrito ao aspecto da dispensação da graça de Deus, como as palavras que se seguem mostram: “Que nos consola em toda a nossa tribulação” (2 Coríntios 1:4). Como “o Deus de toda a consolação”, Ele não somente é o Doador de toda a real consolação e o Sustentador em todas as tribulações, mas também o Doador de todos os confortos temporais ou misericórdias. Pois, qualquer refrigério natural ou benefício que nós derivamos de Suas criaturas é devido somente a Sua bênção para nós. Da mesma forma, Ele é o Deus de toda a graça: graça buscadora, graça vivificante, graça perdoadora, graça purificadora, graça da provisão, graça da restauração, graça da preservação, graça da glorificação –graça de todo tipo, e em plena medida. No entanto, embora a expressão “o Deus de toda a consolação” sirva para ilustrar o título que estamos aqui considerando, no entanto, fica aquém daquele. Pois, as dispensações da graça de Deus são mais extensas do que as de Seu conforto. Em certos casos, Deus dá a graça onde Ele não dá conforto. Por exemplo, a Sua graça iluminadora traz consigo as dores da convicção do pecado, o que às vezes duram uma temporada longa antes que qualquer alívio seja concedido. Além disso, sob Sua vara de correção, a graça sustentadora é concedida, onde o conforto é retido.

Deus Dispensa todos os Tipos de Graça Precisamente de Acordo com a Necessidade

Não apenas há em Deus todos os tipos concebíveis de graça disponíveis para nós, mas Ele sempre a concede justamente na hora de nossa necessidade; pois, nessa ocasião, o Seu favor concedido gratuitamente obtém a melhor oportunidade em que mostrar-se. Somos livremente convidados a chegar com confiança ao trono da graça, para que possamos “alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hebreus 4:16), ou como Salomão o expressou, que o Senhor Deus sustentasse a causa de Seu povo Israel “a cada qual no seu dia” (1 Reis 8:59). Esse é o nosso gracioso Deus, ministrando a nós em todos os momentos, assim como em todas as questões. O apóstolo Paulo declara (falando para os crentes): “Não veio sobre vós tentação, senão humana [ou seja, apenas tal que é comum à natureza humana decaída, pois o pecado contra o Espírito Santo só é cometido por tais que têm como que uma afinidade incomum com Satanás e seus maus desígnios para impedir o reinado da graça de Cristo]; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar” (1 Coríntios 10:13). O Senhor Jesus Cristo declarou: “Todo o pecado e blasfêmia [com exceção exatamente da mencionada acima] se perdoará aos homens” (Mateus 12:31). Pois, o Deus de toda graça opera arrependimento e perdoa todos os tipos de pecados, aqueles cometidos após a conversão, bem como aqueles antes, como os casos de Davi e Pedro demonstram. Diz Ele: “Eu sararei a sua infidelidade, eu voluntariamente os amarei” (Oséias 14:4). Plena causa cada um de nós tem para dizer ternamente a partir da experiência: “a graça de nosso Senhor superabundou” (1 Timóteo 1:14).

A Prova Infalível de Sua Abundante Graça em Direção Àqueles que São Seus

“E o Deus de toda a graça… nos chamou à sua eterna glória”. Aqui está a maior e mais grandiosa prova de que Ele é realmente o Deus de toda graça para o Seu povo. Nenhuma evidência mais convincente e bendita é necessária para manifestar a boa vontade que Ele tem por eles. A graça abundante que há em Seu coração em relação a eles e o propósito beneficente que Ele tem para eles são feitas claramente evidentes aqui. Eles são “os [únicos] chamados de acordo com o seu propósito” (Romanos 8:18), a saber, aquele “eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” (Efésios 3:11). O chamado eficaz que traz da morte para a vida é a primeira abertura irrompendo a graça eletiva de Deus, e é a base de todos os atos de Sua graça por eles, posteriormente. É então que Ele começa aquela Sua “boa obra” naqueles em que Ele finalmente completará no “dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1:6). Por meio disso, eles são chamados a uma vida de santidade aqui e a uma vida de glória no porvir. Na cláusula “nos chamou à sua eterna glória”, somos informados sobre aqueles de nós que uma vez já foram “por natureza filhos da ira” (Efésios 2:3), mas agora, pela graça de Deus são “participantes da divina natureza” (2 Pedro 1:4), também serão participantes da glória eterna de Deus. Embora o chamado eficaz de Deus não os traga para a posse real disso, de uma vez, ainda assim, os qualifica totalmente e capacita-os a participar de Sua glória para sempre. Assim, o apóstolo Paulo diz aos Colossenses que está “Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz” (Colossenses 1:12).

Mas, olhemos para além do mais delicioso dos fluxos de graça para a sua Fonte comum. É a infinita graça que há na natureza de Deus, que se compromete a fazer bom o Seu propósito beneficente e que fornece continuamente estes fluxos. Deve ser bem observado que quando Deus proferiu essa grande carta da graça “[Eu] me compadecerei de quem eu me compadecer”, Ele a prefaciou com estas palavras: “Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do Senhor diante de ti” (Êxodo 33:19). Toda esta graça e misericórdia que está no próprio Jeová, e que deve ser feita conhecida de Seu povo, era para atrair a atenção de Moisés antes que a sua mente se voltasse a considerar a soma dos Seus decretos ou graça designada. O verdadeiro oceano de bondade que está em Deus está empenhado em promover o bem de Seu povo. Foi essa bondade que Ele fez passar diante dos olhos de Seu servo. Moisés foi animado pela contemplação de uma riqueza tão ilimitada de benevolência, tanto que ele estava completamente certo de que o Deus de toda graça seria realmente gracioso para aqueles a quem Ele escolheu em Cristo antes da fundação do mundo. E é esta graça essencial enraizada no próprio ser de Deus que deve ser o primeiro objeto da fé; e quanto mais a nossa fé é direcionada para a mesma, mais nossas almas serão sustentadas na hora da tribulação, convencidas de que tal Pessoa não falhará conosco.

O Argumento em que Pedro Baseia Sua Petição

Em quarto lugar, examinemos o fundamento sobre o qual o apóstolo Pedro baseia sua petição: “E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória”. Esta cláusula é, sem dúvida, trazida para engrandecer a Deus e para exemplificar Sua maravilhosa graça. Ainda assim, considerada separadamente, em relação à oração como um todo, é o apelo feito pelo apóstolo em apoio à petição que segue. Ele estava fazendo pedido para que Deus aperfeiçoe, confirme, fortaleça e estabeleça os Seus santos. Isso foi equivalente a dizer: “Desde que Tu já fizeste o maior, conceder-lhes o menor; vendo que eles devem ser participantes da Tua glória eterna em Cristo, dê-lhes o que eles precisam enquanto permanecerem neste mundo passageiro”. Se nossos corações fossem mais engajados com quem nos chamou, e com o que Ele nos designou, não só nossas bocas se abririam mais, mas seríamos mais confiantes de serem cheias de louvores a Deus. Ele não é outro senão Jeová, que está sentado no Seu trono resplandecente, cercado pelas adoradoras hostes celestes, Quem em breve dirá a cada um de nós: “Vinde a Mim e deleite-te em Minhas perfeições”. Você pensa que Ele reterá qualquer coisa que seja verdadeiramente para o seu bem? Se Ele me chamou para o céu, há alguma coisa necessária na terra que Ele me negará?

Que apelo poderosíssimo e predominante é este! Em primeiro lugar, é como se o apóstolo dissesse: “Tu tens atentado para as obras das Tuas mãos. Tu realmente os chamaste das trevas para a luz, mas eles ainda são terrivelmente ignorantes. É Teu gracioso prazer que eles passem a eternidade em Tua presença imediata no alto, mas eles estão aqui no deserto, e estão rodeados de fraquezas. Então, tendo em vista tanto um quanto o outro, continue todas as outras obras da graça em direção a eles e neles, que são necessárias a fim de trazê-los para a glória”. O que Deus já fez por nós, não somente deve ser um motivo de confiante expectativa do que Ele ainda fará (2 Coríntios 1:10), mas isso deve ser usado por nós como um argumento ao fazer nossos pedidos a Deus. “Visto que Tu me regeneraste, faça-me agora crescer na graça. Visto que puseste em meu coração um ódio ao pecado e uma fome de justiça, intensifica os mesmos. Posto que Tu me fizeste um ramo da Videira, faça-me um ramo mui frutífero. Pois que mi uniste ao Teu Filho amado, permita-me manifestar os Seus louvores, para honrá-lO em minha vida diária, e, portanto, para recomenda-lO àqueles que não O conhecem”. Entretanto, estou antecipando um pouco o próximo ponto.

O Nosso Chamado e a Justificação são Motivos de Grande Louvor e Expectativa

Nesta obra única do chamado, Deus Se mostrou ser o Deus de toda graça para você, e isso deve grandemente fortalecer e confirmar a sua fé nEle. “Aos que chamou a estes também justificou” (Romanos 8:30). A justificação é composta de duas coisas: (1) Deus perdoando-nos e declarando-nos ser “inocentes”, como se nunca tivéssemos pecado; e (2) Deus nos declarando ser “justos”, exatamente como se tivéssemos obedecido perfeitamente a todos os Seus mandamentos. Para estimar a plenitude de Sua graça no perdão, você deve calcular o número e a atrocidade de seus pecados. Eles eram mais do que os cabelos da sua cabeça; pois você “nasce como a cria do jumento montês” (Jó 11:12), e desde as primeiras auroras da razão, toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente (Gênesis 6:5). Quanto à criminalidade, a maioria de seus pecados foram cometidos contra a voz da consciência, e consistiam em privilégios desprezados e misericórdias abusadas. No entanto, a Sua Palavra declara que Ele lhe perdoou “todas as ofensas” (Colossenses 2:13). Como isso deve derreter o seu coração e levá-lo a adorar “o Deus de toda graça”. Como isso deve fazê-lo plenamente convencido de que Ele continuará a lidar com você não de acordo com as suas transgressões, mas segundo a Sua própria bondade e benignidade. É verdade, Ele ainda não o livrou da corrupção que habita no teu interior, mas isso concede nova ocasião para Ele mostrar a Sua paciente graça para com você.

Embora maravilhoso como é tal favor, ainda assim o perdão dos pecados é apenas metade do lado legal da nossa salvação, e a parte negativa e inferior dela. Embora, por um lado, tudo que estava registrado contra mim no que diz respeito ao débito tenha sido apagado, contudo, por outro lado, não há um único item em meu crédito. Desde a hora do meu nascimento até o momento da minha conversão nenhuma boa ação foi registrada na minha conta, pois nenhuma das minhas ações ocorreu em um princípio puro, não sendo realizada para glória de Deus. Fluindo de uma fonte suja, os fluxos de minhas melhores obras eram poluídos (Isaías 64:6). Como, então, Deus poderia me justificar, ou declarar-me ter alcançado o padrão exigido? Esse padrão é uma conformidade perfeita e perpétua à Lei Divina, pois nada menos assegura a sua recompensa. Aqui, novamente as riquezas maravilhosas da graça Divina aparecem. Deus não somente apagou todas as minhas iniquidades, mas creditou em minha conta uma justiça plena e sem falhas, tendo imputado a mim a perfeita obediência de Seu Filho encarnado: “Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo [...] Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos [ou seja, legalmente constituídos] justos” (Romanos 5:17, 19). Quando Deus efetivamente lhe chamou, o revestiu “com o manto de justiça [de Cristo]” (Isaías 61:10), e essa veste concede a você um direito inalienável à herança (Romanos 8:17).

A Glorificação, Desde o Princípio, Era o Objetivo Final de Deus Para Nós

“Que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória”. Quando Deus regenera uma alma Ele lhe dá fé. Ao exercer fé em Cristo, aquilo que a desqualificava para a glória eterna (ou seja, a sua contaminação, culpa e amor ao pecado) é removida, e um título seguro para o céu é concedido. O chamado eficaz de Deus é tanto a nossa qualificação para quando um pagamento pela glória eterna. Nossa glorificação era o grande objetivo que Deus tinha em vista desde o princípio, e tudo o que Ele faz por nós e opera em nós aqui, são apenas os meios e os pré-requisitos para esta finalidade. Depois de Sua própria glória nisso, a nossa glorificação é o propósito supremo de Deus ao eleger-nos e chamar-nos. “Por vos ter Deus elegido desde o princípio… para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Tessalonicenses 2:13-14). “E aos que predestinou… também glorificou” (Romanos 8:30). “Não temais, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino” (Lucas 12:32). “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mateus 25:34). Cada um desses textos estabelece o fato de que o povo crente em Cristo deve herdar o reino celestial e eterna glória da parte do Deus Triuno. Nada menos do que isso foi em que o Deus de toda graça estabeleceu o Seu coração como a porção de Seus filhos amados. Assim, quando a nossa eleição é feita manifesta inicialmente por Seu chamado eficaz, Deus é tão decidido quanto a essa glória que Ele imediatamente nos concede um título a ela.

Goodwin deu um exemplo notável do que acabamos de dizer, a partir do relacionamento de Deus com Davi. Enquanto Davi era apenas um simples menino pastor, Deus enviou Samuel para ungi-lo rei abertamente diante de seu pai e irmãos (1 Samuel 16:13). Por esse ato solene Deus o investiu com um direito visível e irrevogável ao reino de Judá e Israel. Deus adiou por muitos anos a sua posse real do trono do reino, no entanto, seu título Divino ao mesmo foi dado em Sua unção, e Deus Se ocupou em fazer isto firme, jurando não Se arrepender. Então Deus suportou Saul (uma figura de Satanás), que ordenou todas as forças militares de seu reino e a maioria de seus súditos, para fazer o seu pior. Deus fez isso para demonstrar que nenhum conselho Seu pode ser frustrado. Embora por um período Davi esteve exposto como uma perdiz nas montanhas e tinha que fugir de um lugar para outro, no entanto, ele foi milagrosamente preservado por Deus e, finalmente, trazido ao trono. Assim, na regeneração, Deus nos unge com o Seu Espírito, nos separa e nos concede um título para a glória eterna. E embora posteriormente, Ele deixe os inimigos ferozes soltos contra nós, deixando-nos a enfrentar as mais difíceis lutas e contendas com eles, ainda assim a Sua poderosa mão está sobre nós, nos socorrendo, fortalecendo e restaurando quando somos temporariamente vencidos e levados cativos.

Não Há Nada de Transitório em Relação à Glória Para a Qual Somos Chamados

Deus não nos chamou para uma [glória] evanescente, mas para uma glória eterna, dando-nos um título a ela no novo nascimento. Naquele momento, uma vida espiritual foi comunicada à alma, uma vida que é indestrutível, incorruptível e, portanto, eterna. Além disso, nessa ocasião recebemos “o Espírito de glória” (1 Pedro 4:14) como “o penhor da nossa herança” (Efésios 1:13-14). Além disso, a imagem de Cristo está sendo progressivamente moldada em nossos corações durante esta vida, o que o apóstolo Paulo chama ser “transformados de glória em glória “(2 Coríntios 3:18). Assim, nós não somente somos feitos “idôneos para participar da herança dos santos na luz” (Colossenses 1:12), mas é-nos, então, concedido um direito eterno de glória. Porque pela regeneração ou chamado eficaz, Deus nos gera para a herança (1 Pedro 1:3-4); um título desta nos é dado nesse momento, o qual é válido para sempre. Esse título é nosso, tanto pela estipulação do pacto de Deus quanto pela herança testamentária do Mediador (Hebreus 9:15). “E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e coerdeiros de Cristo”, diz Paulo (Romanos 8:17). Thomas Goodwin o resume da seguinte forma:

Coloque essas três coisas juntas: em primeiro lugar, que essa glória a que somos chamados é em si mesma eterna; segundo, que a pessoa que é chamada tem um nível de glória que começou nela, a qual nunca morrerá ou perecerá; terceiro, que ela tem o direito à eternidade, e isso a partir do momento de seu chamado, e o argumento está completo.

Essa “glória eterna” são “as abundantes riquezas da sua graça” que Ele derramará sobre o Seu povo nos séculos vindouros (Efésio 2:4-7), e como esses versículos nos dizem, mesmo agora, nós, jurídica e federalmente, nos assentamos “nos lugares celestiais, em Cristo Jesus”.

“Que [em Cristo Jesus] nos chamou à sua eterna glória”. Deus não somente nos chamou para um estado de graça, “esta graça na qual estamos firmes”, mas a um estado de glória, glória eterna, Sua glória eterna, de modo que “nos gloriamos na esperança da glória de Deus” (Romanos 5:2). Essas duas coisas estão inseparavelmente ligadas: “o Senhor dará graça e glória” (Salmos 84:11). Embora sejamos as pessoas que serão glorificadas por isso, é a Sua glória que é colocada em cima de nós. Obviamente assim, pois somos criaturas totalmente miseráveis e vazias, as quais Deus encherá com as riquezas da Sua glória. Na verdade é “o Deus de toda graça” que faz isso por nós. Nem criação nem providência, nem mesmo o Seu lidar com os eleitos nesta vida, mostram plenamente a abundância de Sua graça. Somente no céu sua altura máxima será vista e apreciada. É lá que a manifestação definitiva da glória de Deus será feita, ou seja, a própria honra e glória inefável com o qual Divindade investe a Si mesmo. Não apenas contemplaremos aquela glória para sempre, mas ela será comunicada para nós. “Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai” (Mateus 13:43). A glória de Deus encherá tão completamente e irradiará nossas almas que ela irradiará de nossos corpos. Então, o propósito eterno de Deus será plenamente cumprido. Nessa ocasião, todas as nossas esperanças mais queridas serão perfeitamente realizadas. Então, Deus será “tudo em todos” (1 Coríntios 15:28).

A Glória Eterna é Nossa Por meio de Nossa União com Cristo

“Que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória”. A primeira parte desta cláusula é melhor traduzida “em Cristo Jesus”, o que significa que o nosso chamado para fruir da glória eterna de Deus existe em virtude de nossa união com Cristo Jesus. A glória pertence a Ele, que é a nossa Cabeça, e é comunicada a nós somente porque somos Seus membros. Cristo é o primeiro e grande Proprietário dela, e Ele a compartilha com aqueles a quem o Pai deu a Ele (João 17:5, 22, 24). Cristo Jesus é o centro de todos os conselhos eternos de Deus, os quais são “segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” (Efésios 3:11). Todas as promessas de Deus “são nele [Cristo] sim, e por ele o Amém” (2 Coríntios 1:20). Deus nos abençoou com todas as bênçãos espirituais em Cristo (Efésios 1:3). Somos herdeiros de Deus, porque somos coerdeiros com Cristo (Romanos 8:17). Como todos os propósitos da graça Divina foram formados em Cristo, assim, eles são efetivamente executados e estabelecidos por Ele. Pois, Zacarias, enquanto bendizendo a Deus por ter “levantado uma salvação”, acrescentou, “Para manifestar misericórdia a nossos pais, e lembrar-se da sua santa aliança” (Lucas 1:68-72). Estamos “conservados por Cristo Jesus” (Judas 1). Desde que Deus nos chamou “para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor” (1 Coríntios 1:9), ou seja, para participar (na devida proporção) de tudo o que Ele é participante em Si mesmo, Cristo nosso Coerdeiro e Representante entrou em posse dessa herança gloriosa e em nossos nomes está guardando-a para nós (Hebreus 6:20).

Toda a Nossa Esperança Está Vinculada Somente a Cristo

Parece bom demais para ser verdade que “o Deus de toda graça” é o seu Deus? Há momentos em que você dúvida se Ele, pessoalmente, te chamou? Será que ultrapassa a sua fé, leitor Cristão, que Deus, em verdade, chamou você à Sua glória eterna? Então permita-me deixar este pensamento de encerramento a você. Tudo isso é por e em Cristo Jesus! Sua graça está estesourada em Cristo (João 1:14-18), o chamado eficaz vem por Cristo (Romanos 1:6), e a glória eterna é alcançada por meio dEle. O Seu sangue não foi suficiente para comprar bênçãos eternas para pecadores merecedores do inferno? Então, não olhe para sua indignidade, mas, para a infinita dignidade e méritos dAquele que é o Amigo de publicanos e pecadores. Se a nossa fé compreende ou não, infalivelmente segura é que esta Sua oração será respondida: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória” (João 17:24). Essa contemplação não será transitória, como a que os apóstolos apreciaram no monte da transfiguração, mas eterna. Como muitas vezes tem sido apontado, quando a rainha de Sabá contrastou sua breve visita à corte de Salomão com o privilégio daqueles que residiam ali, ela exclamou: “Bem-aventurados os teus homens, bem-aventurados estes teus servos, que estão sempre diante de ti” (1 Reis 10:8). Essa será a nossa porção feliz ao longo dos séculos sem fim.

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♦ Este texto é formado pelo Capítulo 8 do Livro A Guide to Fervent Prayer, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: A Guide to Fervent Prayer
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


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