Pecado Imensurável – Charles Haddon Spurgeon

Sermão Nº 299, Pregado na manhã de Sabath, 12 de fevereiro de 1860.
Por C. H. Spurgeon, em Exeter Hall, Strand.

“Quem pode entender os seus erros?” (Salmo 19:12)

O que sabemos é como nada em comparação com o que nós não sabemos. O mar de sabedoria lançou de si uma concha ou duas sobre a nossa praia, mas as suas vastas profundezas nunca foram conhecidas a cada passo do pesquisador. Mesmo as coisas naturais que conhecemos são apenas matérias superficiais. Aquele, que mais tem viajado o vasto mundo e decido às suas minas mais profundas, ainda assim deve estar ciente de que ele tenha visto, somente uma parte da mera crosta deste mundo; que, em relação ao seu vasto centro, seus fogos misteriosos e segredos de fundição, a mente do homem não os tem ainda concebido! Se você vai olhar para cima, o astrônomo irá dizer-lhe sobre as estrelas não descobertas, que a grande massa de mundos que formam a Via Láctea e as massas abundantes de nebulosas, que esses grandes grupos de mundos desconhecidos, infinitamente excedem o pouco que podemos explorar, como uma montanha excede um grão de areia! Todo o conhecimento que os homens mais sábios podem, eventualmente, atingir em toda uma vida não é mais do que aquilo que a criança pode retirar do mar, com sua pequena xícara, em comparação à imensidão das águas que enchem os seus canais até a borda. Pois, quando nos tornamos mais sábios, temos que vir para o limiar do co-nhecimento, que não demos, senão um passo nessa corrida da descoberta que vamos ter de perseguir por toda a eternidade. Este é igualmente o caso no que diz respeito às coisas do coração e às coisas espirituais, que diz respeito a este pequeno mundo chamado homem. Não sabemos nada sobre as coisas, senão superficialmente. Se eu falar com você sobre Deus, de Seus atributos, de Cristo, de Sua Expiação, ou de nós mesmos e do nosso pecado, devo confessar que ainda não conhecemos nada, senão o exterior; que não podemos compreender o comprimento, a largura, a altura de qualquer um desses assuntos!

O assunto desta manhã: nosso próprio pecado e o erro dos nossos próprios corações, é aquele que às vezes pensamos que conhecemos, mas do qual podemos sempre ter a certeza de que só começamos a conhecer, e que, quando nós aprendermos o máximo que alguma vez conheceremos na terra, a questão ainda será pertinente: “Quem pode entender os seus erros?” Agora, nesta manhã me proponho em primeiro lugar, muito bre-vemente, de fato, a explicar a questão; em seguida, em maior extensão impressioná-la em nossos corações; e, finalmente, vamos aprender as lições que ela nos ensina.

 

I. Primeiro, então, deixe-me EXPLICAR A PERGUNTA: “Quem pode entender os seus erros?”

Todos nós reconhecemos que temos erros. Certamente não somos tão orgulhosos a ponto de imaginarmos que somos perfeitos. Se pretendemos perfeição, somos completamente ignorantes, pois cada profissão da perfeição humana surge da perfeita ignorância! Qualquer noção de que somos livres do pecado deve ao mesmo tempo ensina-nos que abundamos no mesmo. Pois ao justificar a minha vangloria de perfeição, devo negar a Palavra de Deus, esquecer a Lei e exaltar a mim mesmo acima do testemunho da Verda-de de Deus! Por isso, eu digo, nós estamos dispostos a confessar que temos muitos erros, mas quem de nós pode entendê-los? Quem sabe com precisão o quanto uma coisa pode ser errada mas, nós imaginamos ser uma virtude? Quem entre nós pode definir o quanto de maldade está misturado com a nossa retidão, o quanto de injustiça com a nossa justiça? Quem é capaz de detectar os componentes de cada ação, de modo a ver a proporção de motivo que a constituiria certa ou errada? Seria realmente um homem as-tuto aquele que é capaz de desmascarar uma ação e dividi-la nos motivos essenciais que são seus componentes. Onde achamos que estamos certo, quem sabe, não estejamos errados? Mesmo onde com o escrutínio mais rigoroso, chegamos à conclusão de que fizemos uma coisa boa, quem entre nós pode ter certeza de que não foi enganado? Não pode a boa aparência estar tão desfigurada com motivação interna, a ponto de se tornar um mal real?

Quem pode entender os seus erros, de modo a sempre detectar uma falha quando é cometida? As sombras do mal são perceptíveis a Deus, mas nem sempre perceptíveis para nós. Nossos olhos ficaram tão cegos e sua visão tão arruinada pela queda, que a absoluta tenebrosidade do pecado nós podemos detectar, mas os tons de sua escuridão somos incapazes de discernir. E ainda assim a menor sombra de pecado é perceptível a Deus e cada sombra nos separa do Perfeito e nos faz ser culpados de pecado. Quem entre nós não tem esse método apurado de julgar a si mesmo, de modo que ele deve ser capaz de descobrir o primeiro traço de mal? “Quem pode entender os seus erros?” Certamente ninguém reclamará uma sabedoria tão profunda como esta. Mas passemos às questões mais comuns por que, talvez, nós possamos entender melhor o nosso texto. Quem pode discernir o número de seus erros? A mente mais poderosa não poderia contar os pecados de um único dia! Tal qual a multidão de faíscas de uma fornalha, assim são inumeráveis as iniquidades de um único dia. Podemos antes contar os grãos de areia da praia do mar, do que as iniquidades da vida de um homem. Uma vida mais purificada e limpa é ainda tão cheia de pecado como o mar é cheio de sal; e quem é aquele que pode pesar o sal do mar, ou pode detectá-lo, uma vez que se mistura com cada partícula de água? Mas se ele pudesse fazer isso, ele não poderia dizer quão grande quantidade de mal satura toda a nossa vida e quão inúmeras são as ações, pensamentos e palavras de desobediência que nos afastam da Presença de Deus e fazem com que Ele abomine as criaturas que Suas próprias mãos fizeram!

Mais uma vez, mesmo se pudéssemos contar o número de pecados humanos, quem, então, poderia estimar sua culpa? Perante a mente de Deus a culpa de um pecado é indescritível e nós estupidamente chamamos de coisa pequena, a culpa de um pecado mereça Seu desprazer eterno! Até que uma iniquidade seja lavada com sangue, Deus não pode aceitar a alma e levá-la ao Seu coração como Seu próprio filho. Embora Ele tenha feito o homem e seja infinitamente benevolente, ainda assim o Seu senso de justiça é tão forte, severo e inflexível, que para fora Sua presença, Ele lançará o Seu filho que-rido, se um único pecado permanecer sem perdão! Quem, então, entre nós pode dizer a culpa da culpa, a hediondez da ingrata rebelião que a homem iniciou e continuou contra o seu Criador sábio e compassivo? O pecado, como o inferno, é um poço sem fundo! Oh, irmãos e irmãs, jamais viveu um homem que realmente soube como ele era culpado! Se tal ser pudesse estar plenamente consciente de toda a sua culpa, ele carregaria o inferno em seu coração. Não, penso muitas vezes que dificilmente os condenados ao inferno podem conhecer toda a culpa de sua maldade, ou então até mesmo o seu forno seria aquecido sete vezes mais do as chamas de Tofete, seria ampliado para uma profundida-de imensurável! O inferno que está contido em um único mau pensamento é indescritível e inimaginável! Só Deus conhece a escuridão, o horror das trevas, que está condensado em um mau pensamento!

Outrossim, eu penso que o nosso texto queria transmitir-nos esta ideia. Quem pode en-tender o agravamento peculiar de sua própria transgressão? Ora, respondendo à pergun-ta por mim, eu sinto que, como ministro de Cristo eu não consigo entender os meus erros. Colocado onde multidões ouvem a Palavra através de meus lábios, minhas responsabili-dades são tão tremendas que no momento em que eu penso nelas, uma montanha cai sobre a minha alma! Houve momentos em que eu quis imitar Jonas e tomar um navio e fugir para longe da obra que Deus tem confiado a mim, porque sou consciente de que eu não sirvo como devo. Quando eu tenho pregado mais sinceramente, eu vou para o meu quarto me arrepender por eu ter pregado de maneira tão fria. Quando eu choro por vossas almas e quando eu agonizo em oração, eu ainda estou consciente que eu não lutei com Deus, como eu deveria ter lutado e que eu não tenho sentido pelas vossas almas como eu deveria sentir. Os erros que um homem pode cometer no ministério são incalculáveis! Não há inferno, eu penso, que deve estar quente o suficiente para o homem que é infiel aqui! Não pode haver uma maldição horrível demais para ser arremessada sobre a cabeça do homem que leva os outros a se desviarem quando ele deveria guiá-los no caminho da paz, ou que lida com as coisas sagradas como se fossem coisas que não têm peso e são de pequena importância. Traga aqui qualquer ministro de Cristo que vive e se ele está realmente cheio do Espírito Santo, ele irá dizer-lhe que quando ele está aba-tido pela solenidade de seu ofício, ele desistiria da obra, se ele se atrevesse; que se não fosse por algo superior, impulsos misteriosos que o impulsionam para a frente, ele tiraria a mão do arado e abandonaria o campo de batalha. Senhor tenha misericórdia de seus ministros, pois, mais do que todos os outros homens, nós precisamos de misericórdia!

E agora eu tomo qualquer outro membro da minha igreja, e qual é a sua posição na vida, qualquer que seja sua educação, ou as providências peculiares através do qual vocês passaram, eu vou insistir nisso de que há algo de especial sobre o seu caso, que faz seu pecado um tal pecado que não se pode entender como é vil! Talvez você tenha tido uma mãe piedosa que chorou por você na sua infância e te dedicou a Deus, quando você estava em seu berço. Seu pecado é duplamente pecado! Há nisso uma tonalidade escarlate que não pode ser encontrada em um criminoso comum. Você tem sido dirigido desde a tua mocidade no caminho da justiça e tem se desviado, cada passo que você deu não foi um passo para o inferno, mas um passo lá! O seu pecado é mais grave do que o dos outros. Outras dezenas de homens correm apressadamente, mas onde há um centavo depositado para outros pecadores, há libras colocadas em sua conta, pois você conhece o seu dever, mas você não o cumpre. Aquele que rompe do seio de uma mãe para o inferno, vai para as suas profundezas! Não há no inferno nenhum grau de tortura ou profundeza que deva certamente ser reservado para o homem que pisoteia as orações de uma mãe, para sua própria perdição. Ou você pode nunca ter de prestar conta por isso; mas você pode ter um agravamento igual. Você que tem estado no mar, senhor, Muitas vezes você este em perigo de naufragar. Você teve livramentos milagrosos. Agora, cada um desses naufrágios foi um aviso para você. Deus te trouxe até as portas da morte e você prometeu que se Ele salvasse a sua alma miserável você levaria uma vida nova, que você começaria a servir ao seu Criador. Você mentiu para o seu Deus! Seus pecados antes de proferir esse voto foram malignos o suficiente; mas agora você não apenas quebra a Lei, mas a própria aliança que voluntariamente você fez com Deus na hora da aflição! Talvez alguns de vocês, tenham caído de um cavalo, ou tenham sido atacados por febre, ou de outras formas foram levados até às portas da morte, que solenidade está ligada à sua vida agora! Ele que vestiu a balaclava e ainda voltou vivo, aquele que teve sua vida poupada, onde centenas morreram, deve a partir desse momento se considerar um homem de Deus, salvo por uma providência singular para fins singulares! Mas, também, tiveram seus escapes, se não são tão surpreendentes, ainda assim casos certamente tão especiais da bondade de Deus! E agora, a cada erro que você cometer torna-se indescritivelmente mau e sobre você eu posso dizer: “Quem pode entender os seus erros?”

Mas eu poderia esgotar a congregação, trazendo um por um. Aí vem o pai; senhor, os seus pecados serão imitados por seus filhos! Você não pode, portanto, compreender os seus erros, porque são pecados contra sua própria prole, você peca contra as crianças que procederam de suas próprias entranhas! Aqui está o magistrado; senhor, os vossos pecados são de uma cor peculiar, pois, estando em sua posição, seu caráter é visto e conhecido, e faça o que você fizer se tornará a desculpa de outros homens. Trago um outro homem que não possui nenhum ofício no Estado e que, talvez, é pouco conhecido entre os homens, mas, senhor, recebemos a graça especial de Deus; você teve rico gozo da luz do semblante de seu Salvador. Você tem sido pobre, mas Ele te fez rico, rico em fé! Agora, quando você se rebelou contra Ele, os pecados dos favoritos de Deus são pecados de fato! Iniquidades cometidas pelo povo de Deus tornam-se tão grandes como o alto Monte Olimpo e alcançam as próprias estrelas! Quem de nós, então, pode entender os seus erros, seus agravos especiais, seu número e sua culpa? Senhor, sonda-nos e conhece os nossos caminhos!

 

II. Tenho, portanto, tentado brevemente explicar o meu texto; agora eu buscarei IMPRESSIONÁ-LO NO CORAÇÂO, como Deus, o Espírito Santo me ajudar.

Antes que um homem possa entender os seus erros existem vários mistérios que ele deve saber. Mas cada um desses mistérios, em minha opinião, está além de seu conheci-mento e, consequentemente, a compreensão de toda a profundidade da culpa do seu pecado deve estar muito além do poder humano. Agora, o primeiro mistério que o homem deve entender é a Queda. Até que eu saiba o quanto todos os meus poderes estão degra-dados e depravados, quão completamente a minha vontade está pervertida e meu juízo desviou-se da retidão, quão real e essencialmente ímpia minha natureza se tornou, não pode ser possível que eu conheça toda a extensão da minha culpa. Aqui está um pedaço de ferro colocado sobre a bigorna. Os martelos são brandidos sobre ela vigorosamente. Milhares de faíscas estão espalhadas por todos os lados. Suponha que seja possível contar cada centelha, que cai da bigorna; ainda que pudéssemos adivinhar o número de faíscas produzidas, quantas ainda se encontram latentes e escondidas na massa de ferro? Agora, irmãos e irmãs, a sua natureza pecaminosa pode ser comparada com a barra de ferro aquecida. As tentações são os martelos; seus pecados as faíscas. Se você pudesse contá-los (o que você não pode), ainda assim quem poderia contar a multidão de iniquidades em gestação, ovos do pecado que jazem adormecidos em suas almas? No entanto, você deve saber isso antes de saber toda a pecaminosidade de sua natureza! Nossos pecados visíveis são como pequena amostra que o fazendeiro traz para o mercado. Há celeiros cheios em sua casa. As iniquidades que vemos são como as ervas daninhas sobre a superfície do solo; mas foi-me dito, e de fato o tenho visto, que se você cavar seis pés na terra e revolver o solo fresco, ali será encontrada no solo a seis pés de profundidade, as sementes das ervas daninhas nativas à terra.

E assim, não devemos pensar apenas nos pecados que crescem na superfície, mas se pudéssemos revolver o nosso coração até seu núcleo e cerce, iríamos encontrá-lo como totalmente envolvido com o pecado como cada pedaço de podridão está com vermes e putrefação! O fato é que o homem é uma massa cheirando a corrupção. Toda a sua alma é, por natureza, tão degradada e tão depravada, que nenhuma descrição pode ser dada a ela, pois nem mesmo línguas inspiradas podem dizer plenamente quão vil e infame ele é! Um antigo escritor disse uma vez da iniquidade interior como sendo um aquífero que está escondido nas profundezas da terra, Deus já rompeu as fontes do grande abismo e, então, eles cobriram as montanhas vinte côvados para cima. Se Deus retirasse Sua Gra-ça restringidora e abrisse em nossos corações todas as fontes do grande abismo da nossa iniquidade, seria uma inundação tão espantosa que cobriria os mais altos cumes das nossas esperanças e todo o verme dentro de nós seria afogado em temor e deses-pero! Nenhuma coisa viva poderia ser encontrada neste mar de mal. Isso cobriria tudo e engoliria toda a nossa humanidade! Ah, diz um velho provérbio: “Se o homem tivesse que usar seus pecados na testa, ele puxaria o chapéu por sobre os olhos”. Aquele velho romano que disse que gostaria de ter uma janela para o seu coração, para que todo homem pudesse ver seu interior, não se conhecia, pois se ele houvesse tido tal janela, ele logo teria implorado por um par de persianas e ele as teria mantido fechadas, tenho certeza que ele nunca teria visto o seu coração, pois ele teria sido levado à loucura delirante! Deus, portanto, poupa todos os olhos, exceto os Seus próprios desta visão desesperadora: um coração humano desvelado. Grande Deus, aqui nós fazemos uma pausa e cla-mamos: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe. Eis que amas a verdade no íntimo, e no oculto me fazes conhecer a sabedoria. Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais branco do que a neve” [Salmos 51:5-7].

A segunda coisa que será necessária entendermos, antes que possamos compreender os nossos erros é a Lei de Deus. Se eu apenas descrever a Lei, por um momento, você muito facilmente verá que você nunca pode esperar, por qualquer meio compreendê-la totalmente. A Lei de Deus, como lemos nos Dez Grandes Mandamentos, parece muito simples, muito fácil. Quando chegamos, no entanto, a colocar até mesmo seus preceitos expostos em prática, descobrimos que é quase impossível para nós mantê-los plenamente. A nossa surpresa, no entanto, aumenta, quando descobrimos que a lei não signifi-ca apenas o que diz, mas que tem um significado espiritual, uma profundidade oculta na letra que à primeira vista nós não descobrimos. Por exemplo, o mandamento: “Não cometerás adultério”, significa mais do que o simples ato, ele se refere à fornicação e a impureza de qualquer forma, tanto no ato, quanto na palavra e no pensamento. Não, para usar a própria exposição de nosso Salvador: “Qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela” [Mateus 5:28]. É assim, com cada Mandamento – a letra nua não é nada comparada com todo o significado grandioso e rigidez severa da regra. Os Mandamentos, se assim posso dizer, são como as estrelas, quando vistas a olho nu, parecem ser pontos brilhantes, mas se pudéssemos nos aproximar deles, veríamos que eles são mundos infinitos, maiores até mesmo do que o nosso sol, de tão grandiosos que são. Assim é com a Lei de Deus: parece ser somente um ponto luminoso, porque a vemos à distância, mas quando chegamos mais perto onde Cristo permaneceu e estimou a Lei, como Ele a via, então nós encontramos que ela é grande, incomensurável! “O teu mandamento é amplíssimo” [Salmos 119:96]. Pense em seguida, por um momento na espiritualidade da Lei, em sua extensão e rigor. A Lei de Moisés condena por ofensa, sem esperança de perdão e o pecado, como uma pedra de moinho, é amarrado ao redor do pescoço do pecador e lançado nas profundezas. Porém, muito mais a Lei trata de pecados de pensamento, imaginar o mau é pecado! Do fluir do pecado através do coração sai a mancha de impureza por trás dele. Esta Lei, também, estende-se a cada ato, nos acompanha ao nosso quarto de dormir, vai conosco para a nossa Casa de Oração, e se descobre mesmo o menor sinal de hesitação do estreito caminho da integridade, ela nos condena! Quando pensamos na Lei de Deus, podemos com razão ficarmos sobrecarregados com horror, e nos sentando dizer: “Deus, tem misericórdia de mim, pois guardar esta Lei está totalmente fora do meu poder; até mesmo conhecer a plenitude do seu significado não está dentro da capacidade finita. Portanto, grande Deus, purifique-nos de nossas falhas secretas, salve-nos por Sua Graça, pois pela Lei nunca poderemos ser salvos”.

Nem mesmo ainda se você soubesse dessas duas coisas, você seria capaz de responder a essa pergunta; pois para compreender os nossos próprios erros, devemos ser capazes de compreender a perfeição de Deus. Para se ter uma ideia completa de como o pecado é sombrio, você deve saber como Deus é brilhante. Vemos as coisas por oposição. Você terá em um momento que apontar para uma cor que parece perfeitamente branca; ainda é possível que algo seja ainda mais branco; e quando você acha que já chegou à própria perfeição de brancura, você descobre que ainda há nela uma sombra e que algo pode ser encontrado para branqueá-la elevando sua pureza. Quando nos colocamos em comparação com os Apóstolos, descobrimos que não somos o que deveríamos ser. Mas se pu-déssemos nos colocar, lado a lado com a pureza de Deus, oh que manchas! Oh quantas contaminações encontraríamos em nossa superfície! O Deus Imaculado está diante de nós e como o fundo brilhante revela a escuridão de nossas almas iníquas! Antes que você possa conhecer a sua própria corrupção, os olhos devem olhar para a glória inexprimível do caráter Divino. Perante ele nem os céus são puros, que encontra loucura nos anjos, você deve conhecê-lO antes que você possa conhecer a si mesmo! Não espere, então, que você alcance um perfeito conhecimento das profundezas do seu próprio pecado!

Mais uma vez, aquele que quer entender os seus erros em toda a sua hediondez deve conhecer o mistério do Inferno. Devemos caminhar até aquele monte queimando, ficar no meio da chama ardente; não, senti-lo! Devemos sentir o veneno da destruição, pois faz o sangue ferver em cada veia. Temos de ter os nossos nervos convertidos em estradas de fogo, ao longo do qual os pés quentes da dor devem viajar, correndo como relâmpagos. Devemos conhecer a extensão da eternidade e, em seguida, a agonia indescritível da ira eterna de Deus, que habita nas almas dos perdidos, antes que possamos conhecer o caráter terrível do pecado! Você pode mensurar melhor o pecado pela punição. Dependendo disto, Deus não submeterá suas criaturas a uma dor maior do que a justiça absolutamente demanda. Não existe tal coisa como tortura soberana ou inferno soberano. Deus não tortura sua criatura como um tirano; Ele vai dar a ela, somente o que ela merece e, talvez, até mesmo quando a ira de Deus é mais feroz contra o pecado, Ele não pune o pecador, tanto quanto o seu pecado poderia merecer, mas apenas o quanto ele exige. De qualquer forma, não haverá um grão a mais de absinto no copo dos perdidos do que a pura Justiça absolutamente requer! Então, oh meu Deus, se Tuas criaturas devem ser lançadas no lago que arde com fogo e enxofre, se é para um poço sem fundo que as almas perdidas devem ser conduzidas, então que coisa horrível o pecado deve ser! Eu não posso entender esta tortura, por isso eu não consigo entender a culpa que a merece. No entanto, estou consciente de que a minha culpa a merece, ou então Deus não teria me ameaçado com ela, porque Ele é justo e eu sou injusto. Ele é santo, justo e bom, e Ele não me puniria por meus pecados mais do que os meus pecados absolutamente merecem.

Ainda outra vez, um último esforço para impressionar essa questão do meu texto em nossos corações. George Herbert diz mui docemente: “Aquele que quiser conhecer o pecado, deixe-o olhar para o monte das Oliveiras, e ele verá um Homem tão espremido com a dor que toda a Sua cabeça, Seu cabelo, Suas vestes estavam ensanguentadas. O pecado era aquela força e impiedade que infligiu dor para perseguir seu sustento através de cada veia.” Você tem que ver Cristo, suando, por assim dizer, grandes gotas de san-gue! Você precisa ter uma visão dEle com o cuspe escorrendo pelo Seu rosto, com as costas rasgadas pelo chicote amaldiçoado. Você deve vê-lO indo em Sua jornada dolorosa por Jerusalém. Você deve contemplá-lO a desmaiar sob o peso da cruz. Você deve vê-lO como os cravos são conduzidos através de Suas mãos e através de Seus pés. Seus olhos cheios de lágrimas devem assistir a agonia das sombrias agonias da morte. Você deve beber da amargura do absinto misturado com fel. Você deve estar na escuridão com sua própria alma triste até à morte. Você deve gritar terrivelmente assustando a terra: “Lama Sabactâni”, você também, deve, como Ele fez, sentir toda a pesada ira do Deus Todo-Poderoso. Você deve ser moído entre as mós superiores e inferiores de ira e vingança; você deve beber o cálice até às últimas borras e como Jesus bradar: “Está consumado”, ou de outra forma você nunca poderá conhecer todos os seus erros e entender a culpa do seu pecado. Mas isso é claramente impossível e indesejável. Quem quer sofrer como o Salvador sofreu; suportar todos os horrores que Ele suportou? Ele, bendito seja o Seu nome, sofreu por nós! O cálice está vazio! A Cruz ergue-se não mais para nós morrermos nela! Extinta está a chama do inferno para sempre para o verdadeiro crente! Deus não mais está irado com o Seu povo, pois Ele aniquilou o pecado pelo sacrifício de Si mesmo! No entanto, eu digo novamente, antes que possamos entender o pecado, devemos conhecer toda aquela terrível ira de Deus, que Jesus Cristo suportou! Quem, então, pode entender os seus erros?

 

III. Espero ter a sua atenção paciente, apenas mais alguns momentos enquanto eu faço a aplicação prática, passando às lições que são tiradas de um assunto como este.

A primeira lição é: eis a loucura de toda a esperança da salvação pela nossa própria justiça. Venham aqui, os que confiam em si mesmos. Olhem para o Sinai, completamente em chamas, tremor e desespero! Vocês dizem que têm boas obras. Infelizmente, suas boas obras são más, não têm vocês sido maus? Vocês negam que já pecaram? Ah, meu ouvinte, você está tão obcecado a ponto de declarar que todos seus pensamentos foram castos, todos os seus desejos celestiais, todas as suas ações puras? Oh, homem, se tudo isso fosse verdade, se você não tivesse pecados de comissão, ainda que seria de seus pecados de omissão? Você já fez tudo o que Deus e que seu irmão poderiam requerer de você? Oh estes pecados de omissão! O faminto que você não tenha alimentado, o nu que você não tenha vestido, os doentes e os que estão na prisão, que você ainda não visitou, lembre-se que era por pecados como estes que os bodes foram encontrados na mão esquerda, finalmente! Não pelo que fizeram, mas pelo que não fizeram, pois pelas coisas que eles deixaram de fazer esses homens foram lançados no lago de fogo! Oh, meu ouvinte, acabe com sua jactância! Retirem as plumas de vossos capacetes, vós rebeldes, e venham com a vossa glória arrastando na lama, e com sua roupa brilhante manchada, e agora confessem que vocês não têm nenhuma justiça própria, que vocês são todos imundos e cheios de pecado!

Se apenas uma lição prática fosse aprendida, seria suficiente para compensar a reunião desta manhã e uma bênção seria transmitida para todo o espírito que tivesse aprendido. Mas agora chegamos a outra: quão vãs são todas as esperanças de salvação por nossos sentimentos. Temos um novo legalismo contra o qual lutar em nossas Igrejas cristãs. Há homens e mulheres que acham que não devem crer em Cristo até que eles sintam seus pecados até um ponto demasiado angustiante! Eles acham que devem sentir um certo grau de tristeza, um alto grau de senso de necessidade, antes que possam vir a Cristo. Ah, Alma, se você nunca pudesse ser salva até que você conhece toda a sua culpa, você nunca seria salva, pois jamais pôde conhecer isso! Eu lhe mostrei a absoluta impossibili-dade de ser capaz de descobrir as alturas e profundidades inteiras de seu próprio estado perdido. Oh homem, não tente ser salvo por seus sentimentos! Venha tome a Cristo como Ele é, venha a Ele assim como você está! “Mas, senhor, posso ir? Eu não sou convidado para ir”. Sim, você é: “Quem quiser, venha”. Não acredito que os convites do Evangelho são dados apenas para alguns. Eles são, alguns delas, convites ilimitados. Este é o dever de todo homem crer no Senhor Jesus Cristo. É o dever sagrado de cada homem confiar em Cristo, e não por causa de qualquer coisa que o homem é ou não é, mas porque ele é ordenado a fazê-lo! “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo” [1 João 3:23]:

“Oh, acredite na promessa verdadeira,
Deus para você, Seu Filho deu”.

Confie agora em Seu precioso sangue, e você será salvo e você verá Sua face no céu! Não espere ser salvo pelo sentimento, pois sentimentos perfeitos são impossíveis e um perfeito conhecimento da nossa própria culpa está muito além do nosso alcance! Venha, então, a Cristo, de coração duro como você está, e tome-o como para ser o Salvador do seu coração duro. Venha, pobre consciência de pedra, pobre alma gelada, venha como você está! Ele vai aquecê-la, Ele derreterá você:

“A verdadeira crença e o verdadeiro arrependimento,
Toda Graça que nos traz para perto;

Sem dinheiro,
Venha a Jesus Cristo e compre.”

Entretanto, novamente, há outra doce inferência, e certamente esta poderia muito bem ser a última, que graça é esta que perdoa o pecado, o pecado tão grande que a maior capacidade não pode compreender sua atrocidade? Oh, eu sei que os meus pecados vão desde o leste até o oeste, buscando elevarem-se até aos céus eternos como montanhas apontam para o Céu. Mas, então, bendito seja o nome de Deus, o sangue de Cristo é maior do que o meu pecado! Essa inundação sem limites do mérito de Jesus é mais profunda do que as alturas das minhas iniquidades! Meu pecado pode ser grande, mas o Seu mérito é ainda maior. Eu não consigo conceber a minha própria culpa, muito menos expressá-la, mas o sangue de Jesus Cristo, Filho amado de Deus, nos purifica de todo pecado! Há infinita culpa, mas há infinito perdão! Iniquidades sem limites, mas méritos ilimitados a ultrapassam totalmente! E se os seus pecados foram maiores do que a largura do céu, Cristo é maior do que o Céu! O céu dos céus não pode contê-lO. Se os seus pecados eram mais profundos do que o inferno sem fundo, ainda assim a Expiação de Cristo é ainda mais profunda, pois Ele desceu mais profundo do que jamais nenhum homem mergulhou, nem mesmo os homens condenados em todo o horror de sua agonia, pois Cristo foi até o fim da punição e mais profundo seus pecados nunca poderão mergulhar! Ah, o amor sem limites, que cobre todos os meus defeitos! Meu pobre ouvinte, creia em Cristo agora. Deus te ajude a crer! Que o Espírito agora lhe capacite a confiar em Jesus! Você não pode salvar a si mesmo. Todas as suas esperanças de auto-salvação são ilusórias. Desista delas agora; venha e tome a Cristo! Justamente como você está, caia em Seus braços. Ele vai levá-lo. Ele te salvará. Ele morreu para fazer isso e Ele vive para realizá-lo. Ele não lançará fora o espírito que se lança em Suas mãos e faz dEle seu tudo em Todos.

Eu penso que não devo detê-lo por mais tempo. O assunto demanda uma mente muito maior do que a minha e melhores palavras do que eu possa reunir agora. Mas se tiver lhe atingido, eu sou grato a Deus. Deixem–e repetir uma e outra vez o sentimento que eu desejo que todos vocês recebam, é apenas este: somos tão vis que nossa vileza está além da nossa própria compreensão, mas, no entanto, o sangue de Cristo tem infinita eficácia, e quem crê no Senhor Jesus é salvo, sejam seus pecados muitíssimos, ainda assim aquele que crê não será perdido, sejam seus pecados mui poucos.

Deus abençoe a todos vocês, por amor de Cristo.

 

[Adaptado de The C. H. Spurgeon Collection, Version 1.0, Ages Software. Veja todos os 63 volumes de sermões CH Spurgeon em Inglês Moderno, e mais de 525 traduções em espanhol, acesse: www.spurgeongems.org]

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♦ Fonte: SpurgeonGems.org | Título Original: Sin Immeasurable
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Traduçãoe por William Teixeira │ Revisão Capa por Camila Almeida


O que é um Avivamento? – Charles Haddon Spurgeon

Extraído de A Espada e a Espátula, dezembro de 1866.

A palavra “avivamento” é tão familiar em nossas bocas como uma palavra caseira. Estamos constantemente falando e orando por um “avivamento”; não seria tão bom sabermos o que queremos dizer com isso? Sobre os samaritanos nosso Senhor disse: “Vós adorais o que não sabeis” [João 4:22], que Ele não tenha que nos dizer: “Não sabeis o que pedis”. A palavra “avivar” veste seu significado sobre sua fronte; seu significado vem do Latim, e pode ser interpretado assim: viver de novo, receber novamente uma vida que quase expirou; reacender a chama da centelha vital que quase foi extinta.

Quando uma pessoa foi arrastada para fora de um lago após quase afogar-se, os espectadores têm medo de que ela esteja morta, e são ansiosos para saber se a vida ainda perdura. Os meios apropriados são usados para restaurar a animação; o corpo é esfregado, os estimulantes são administrados, e se pela Providência de Deus a vida ainda permanece no pobre barro, o homem resgatado abre os olhos, senta-se e fala, e aqueles em torno dele se alegram de que ele reviveu. Uma jovem tem um desmaio, mas depois de um tempo ela retorna à consciência, e nós dizemos “ela revive”. A luz tremulante da vida em homens moribundos de repente reacende, em intervalos, com brilho incomum, e aqueles que estão assistindo ao redor da cama doente dizem sobre o paciente “ele revive”.

Nestes dias, em que os mortos não estão milagrosamente restaurados, nós não espera-mos ver o avivamento de uma pessoa que está totalmente morta, e nós não poderíamos falar sobre reviver uma coisa que nunca viveu antes. É claro que o termo “avivamento” só pode ser aplicado a uma alma vivente, ou que já viveu alguma vez. Pois, ser avivado é uma benção que só pode ser apreciada por aqueles que têm algum grau de vida. Aqueles que não têm vida espiritual não são, e não podem ser, no sentido mais estrito do termo, os sujeitos de um avivamento. Muitas bênçãos podem vir para o não-convertido em com sequência de um avivamento entre os Cristãos, mas o próprio avivamento tem relação apenas com aqueles que já possuem vida espiritual. Deve haver vitalidade em algum grau, antes que possa haver uma ativação da vitalidade, ou, em outras palavras, um avivamento.

Um verdadeiro avivamento deve ser buscado na igreja de Deus. A pérola do avivamento só pode ser encontrada no rio da vida graciosa. Foi dito que um avivamento deve começar com o povo de Deus; isso é muito verdadeiro, mas não é toda a verdade, pois o próprio avivamento deve terminar bem como começar ali. Os resultados do avivamento se estenderão para o mundo exterior, mas o avivamento, estritamente falando, deve estar dentro do círculo da vida, e deve, portanto, essencialmente, ser apreciado pelos possuí-dores da piedade vital, e somente por eles. Não é esta uma visão sobre o avivamento bastante diferente daquela que é comum na sociedade; mas não é algo manifestamente correto?

É um fato triste que muitos dos que são espiritualmente vivos precisam grandemente reviver. Um homem com boa saúde em cada parte de seu corpo, em uma condição vigo-rosa, não precisa reviver. Ele requer sustento diário, mas reviver seria muito inadequado. Se ele ainda não alcançou a maturidade, o crescimento será mais desejável, mas um robusto jovem saudável não carece reviver, isso seria desperdício sobre ele. Quem pensa em reviver o sol do meio-dia, o mar em sua inundação ou o ano em seu auge? A árvore plantada junto aos ribeiros de águas, carregada com frutas não precisa estimular a nossa ansiedade pelo seu avivamento, pois sua fecundidade e beleza encantam a cada um. Essa deve ser a condição constante dos filhos de Deus. Alimentados e deitados em pastos verdejantes e conduzidos às águas tranquilas eles não devem sempre estar clamando, “Emagreço, emagreço, ai de mim!” [Isaías 24:16]. Sustentados por graciosas promessas e enriquecidos com a plenitude que Deus entesourou em Seu Filho amado, suas almas devem prosperar e estar em saúde, e sua piedade não deve precisar reviver. Eles devem aspirar por uma bênção maior, uma misericórdia mais rica, do que um mero avivamento. Eles já têm as fontes baixas; eles devem seriamente buscar as fontes altas. Eles devem estar solicitando o crescimento na graça, o aumento de força, para maior sucesso; eles devem ter escalado e subido do período em que eles precisam estar constantemente clamando: “Não tornarás a vivificar-nos”? [Salmos 85:6]. Pois, o fato de uma igreja estar constantemente precisando de avivamento é uma indicação de muito pecado, pois se ela fosse sã, diante do Senhor, permaneceria na condição em que um avivamento ergueria seus membros. A igreja deve ser um campo de soldados, e não um hospital de inválidos. Mas há excessivamente grande diferença entre o que deveria ser e o que é, e, consequentemente, muitos do povo de Deus estão em um estado tão triste que a oração muito mais apropriada para eles é por avivamento. Alguns cristãos estão, espiritualmente, apenas quase mortos. Quando um homem desceu em um tonel ou em um poço cheio de ar contaminado, sim, não se maravilhe de que quando ele for retirado mais uma vez, ele esteja meio morto, e necessita urgentemente ser reavivado. Alguns cristãos, para a sua vergonha isso falo, descem em tal companhia mundana, e em tais princípios profanos, e tornam-se tão carnais, que, quando são erguidos, pela graça de Deus, de sua posição de retrocesso, eles carecem de avivamento, e precisam mesmo que a sua respiração espiritual seja como que novamente soprada em suas narinas pelo Espírito de Deus.

Quando um homem decide ficar com fome, continuando por muito tempo sem comida, quando ele está, dia após dia, sem um pedaço de pão entre os lábios, nós não nos maravilhamos que o cirurgião, encontrando-o em extremos e diga: “Este homem enfraqueceu seu organismo, ele está muito fraco, e precisa reviver”. Claro que ele precisa, pois ele impôs esta dieta a si mesmo, trazendo sobre si um estado de fraqueza. Não existem centenas de cristãos — é vergonhoso que isso seja assim! — que vivem dia após dia sem se alimentar da verdade da Bíblia? Deve ser adicionado, sem real comunhão espiritual com Deus? Eles nem sequer assistem aos serviços noturnos semanais, e eles são ouvintes indiferentes no dia do Senhor. É extraordinário que eles precisem reviver? Não é verdade de que eles fazem esta carência ser muito mais desonrosa para si mesmos e angustiante para seus irmãos verdadeiramente espirituais?

Há uma condição de espírito que é ainda mais triste do que qualquer uma das duas acima mencionadas; é um declínio profundo, gradual, mas certo de todos os poderes espirituais. Olhem para o homem tuberculoso, cujos pulmões estão deteriorando, e em quem a energia vital está diminuindo; é doloroso ver o desfalecimento que ele experimenta após o esforço, e o abatimento geral que se espalha sobre o seu corpo debilitado. Muito mais triste para o olho espiritual é o espetáculo apresentado por tuberculosos espirituais que em alguns lugares se encontram, em todos os lados. O olho da fé é fraco e escurecido, e raramente pisca com santa alegria; o semblante espiritual é oco e afundado com dúvidas e medos; a língua de louvor está parcialmente paralisada, e tem pouco a dizer para Jesus; a forma espiritual é letárgica, e seus movimentos estão longe de ser vigorosos; o homem não está ansioso para fazer qualquer coisa por Cristo; um horrível entorpeci-mento, uma terrível insensibilidade veio sobre ele; ele é na alma como um preguiçoso em dias quentes de verão, que acha ser trabalho árduo o deitar na cama e afastar as moscas do rosto. Se esses tuberculosos espirituais odeiam o pecado, eles fazem isso tão fracamente que alguém poderia temer que eles antes o amam. Se eles amam a Jesus, é tão friamente que é um ponto de questão saber se eles amam de algum modo. Se eles can-tam os louvores de Jeová, isso é muito triste, como se os aleluias fossem hinos fúnebres. Se eles lamentam por causa do pecado é apenas com o coração meio quebrantado, e sua dor é superficial e pouco prática. Se eles ouvem a Palavra de Deus, nunca são agitados por ela; o entusiasmo é um luxo desconhecido. Se eles se deparam com uma verdade preciosa, não percebem nada de especial nela [...]. Eles atiram-se para trás sobre o sofá encantado da preguiça, e enquanto eles estão cobertos de trapos, sonham sobre riquezas e grande aumento de bens. É uma coisa muito triste, quando os Cristãos se enquadram nesta situação; então na verdade eles precisam de avivamento, e eles devem tê-lo, pois “toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco” [Isaías 1:5]. Todo aquele que ama as almas deve interceder por mestres em declínio, para que as visitações de Deus possam restaurá-los; que o Sol da justiça possa surgir sobre eles trazendo a cura sob as suas asas.

Quando o avivamento vem a um povo que está no estado assim descrito brevemente, ele simplesmente leva-os à condição em que eles sempre deveriam ter estado; ele vivifica-os, dá-lhes uma nova vida, estimula as brasas do fogo quase apagado, e coloca respiração celestial nos pulmões lânguidos. A alma doentia que antes era insensível, fraca e triste, tornar-se sincera, vigorosa e feliz no Senhor. Este é o fruto imediato do avivamento, e parece bem a todos os que são crentes que busquem essa bênção para os apóstatas, e para nós mesmos se estamos em declínio na graça.

Se o avivamento se limita aos homens que vivem, podemos ainda observar que ele deve resultar da proclamação e recepção da verdade viva. Nós falamos sobre “piedade vital”, e a piedade vital deve subsistir sobre a verdade vital. A piedade vital não é avivada nos Cristãos por mera excitação, por reuniões lotadas, pelo bater do pé, ou o percutir do coxim do púlpito, ou pelos gritos delirantes do zelo ignorante; estes são o estoque no co-mércio de avivamentos entre as almas mortas, mas para avivar os santos, outros meios são necessários. Emoção intensa pode produzir um avivamento carnal, mas como isso pode operar sobre o espiritual, pois, o espiritual demanda outro alimento além do que estes guisados nas panelas do mero entusiasmo carnal. O Espírito Santo deve vir para o coração vivo através da verdade viva, e assim trazer o alimento e estimulante para o espí-rito enfraquecido, pois, somente assim ele pode ser revivido. Isso, então, leva-nos à conclusão de que, se quisermos obter um avivamento, devemos ir diretamente para o Espírito Santo por ele, e não recorrer à máquina do fazedor-profissional-de-avivamento. A verdadeira centelha vital de fogo celeste vem do Espírito Santo, e os sacerdotes do Senhor devem tomar cuidado com o fogo estranho. Não há vitalidade espiritual em nada, a não ser que o Espírito Santo seja tudo em todos na obra; e se a nossa vitalidade caiu próxima ao zero, ela só pode ser avivada por aquele que primeiro a acendeu em nós. Temos de ir para a cruz e olhar para o Salvador morrendo, e esperar que o Espírito Santo renove a nossa fé e vivifique todas as nossas graças. Nós devemos nos alimentar de novo, pela fé, da carne e do sangue do Senhor Jesus, e assim o Espírito Santo reesta-belecerá a nossa força e nos dará um avivamento. Quando os homens na Índia adoecem nas planícies, eles escalam os montes e respiram o ar mais estimulante das regiões superiores; precisamos chegar mais perto de Deus, e nos banhar no céu, e a piedade avivada será o resultado certo.

Quando um ministro obtém esse avivamento, ele prega de maneira muito diferente de sua antiga forma. É um trabalho muito duro pregar quando a cabeça dói e quando o corpo está lânguido, mas é uma tarefa muito mais difícil quando a alma está insensível e sem vida. É triste, triste trabalho; sofrida, dolorosa, terrivelmente triste; é absolutmanete triste, se nós não sentimos que isso seja triste, se nós podemos ir pregar e nos mantermos descuidados sobre as verdades que pregamos, indiferentes quanto a saber se os homens são salvos ou perdidos! Que Deus guarde cada ministro de permanecer em tal estado! Pode haver um objeto mais miserável do que um homem que prega em nome de Deus, verdades que ele não sente, e que ele está consciente que nunca impressionaram o seu próprio coração? Ser um mero sinaleiro, apontando para a estrada, contudo nunca se movendo na mesma, é uma porção contra a qual cada coração maçante pode pelitear noite e dia.

Se esse avivamento for concedido a diáconos e presbíteros, que homens diferentes isso os fariam! Oficiais da igreja sem vida, mornos não são de mais valor a uma igreja, do que uma tripulação de marinheiros seria a uma embarcação, se todos estivessem desmaiados em seus dormitórios, quando fossem requeridos para içar as velas ou abaixar os botes. Oficiais da Igreja que precisam reviver devem ser temerosos pesos mortos sobre uma comunidade Cristã. Há a incumbência sobre todos os Cristãos que estejamos completamente despertos para os interesses de Sião, mas sobre os líderes acima de tudo. Súplica especial deve ser feita pelos amados irmãos que ocupam ofícios, para que sejam cheios do Espírito Santo.

Aqueles que trabalham nas escolas dominicais, distribuidores de folhetos, e outros trabalhadores de Cristo, que pessoas diferentes eles se tornam quando a graça é vigorosa, em relação ao que eles são quando sua vida treme nas bases! Que forragem doentia em um celeiro, toda empalidecida e insalubre, são os trabalhadores que têm pouca graça; como salgueiros junto aos ribeiros de água, como gordura com canas e juncos em vales bem irrigados, são os servos de Deus que vivem em Sua presença. Não é à toa que o nosso Senhor disse: “Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca” [Apocalipse 3:16], pois quando o coração do Cristão sincero está cheio de fogo é repugnante falar com pessoas mornas. Os amantes calorosos de Jesus não sentiram que quando foram desencorajados por pessoas fracas e duvidosas, que podiam ver um leão no caminho, como se eles pudessem colocar-se em rapidamente e passar por cima deles? Cada ministro sério tem conhecido momentos em que ele sentiu que cora-ções frios são tão intoleráveis quanto o zangão na colmeia é para as abelhas operárias. Professos descuidados são tão fora de lugar quanto a neve na colheita, entre os Cristãos que verdadeiramente vivem. Como vinagre para os dentes e fumaça para os olhos são esses preguiçosos. Tão bom é estar preso a um corpo morto quanto ser forçado à união com os professos sem vida; eles são um fardo, uma praga e abominação. Você vai a um destes irmãos frios após uma séria reunião graciosa de oração, e diz com santa alegria: “Oh, que reunião agradável tivemos!” “Sim”, ele diz desanimado e deliberadamente, como se fosse um esforço dizer: “havia um bom número de pessoas”. Como suas palavras congeladas irritam o ouvido! Você se pergunta: “Onde o homem tem estado? Ele não está consciente de que o Espírito Santo esteve conosco?” Não fala o nosso Senhor dessas pessoas como sendo vomitadas de Sua boca, somente porque Ele próprio é totalmente sincero, e, consequentemente, quando Ele Se encontra com pessoas mornas Ele não as suporta? Ele diz: “quem dera foras frio ou quente!” [v. 15], ou totalmente avesso ao bem ou sério quanto a isso. É fácil ver o seu significado. Se você ouvisse um homem ímpio blasfemar após uma reunião séria, você lamentaria, mas você sentiria da parte de tal homem que isso não era uma coisa para torná-lo nauseabundo, porque ele somente falou segundo sua natureza, mas quando você se encontrar com um filho de Deus, que é morno, como você pode suportar isso? É repugnante, e faz com que o espírito interior sinta os horrores da náusea mental.

Desde que um verdadeiro avivamento, em sua essência, pertence somente ao povo de Deus, ele sempre traz consigo uma bênção para as outras ovelhas que ainda não são do aprisco. Se você deixar cair uma pedra em um lago, o anel amplia continuamente, até que a margem mais distante do lago sinta a influência. Que o Senhor avive um crente e muito em breve a sua família, seus amigos, seus vizinhos, recebem uma porção do benefício; pois, quando um cristão é avivado, ele ora com mais fervor pelos pecadores. A oração anelante, amorosa pelos pecadores, é uma das marcas de um avivamento no coração renovado. Uma vez que a bênção é solicitada aos pecadores, a bênção vem dAquele que ouve as orações de Seu povo; e, portanto, o mundo ganha pelo avivamento. Logo, o Cris-tão avivado fala a respeito de Jesus e do Evangelho; ele semeia a boa semente e a boa semente de Deus nunca é perdida, pois ele disse: “ela não voltará para mim vazia” [Isaías 55:11]. A boa semente é semeada nos sulcos, e em alguns corações dos pecadores Deus prepara o solo, de modo que a semente brota em uma gloriosa colheita. Assim, com a conversa zelosa dos crentes, outra porta de misericórdia se abre para os homens.

Quando os Cristãos são avivados, eles vivem de forma mais consistente, eles fazem suas casas mais santas e mais felizes, e isso leva o ímpio a invejá-los, e a inquirir por seu se-gredo. Os pecadores, pela graça de Deus, anelam ser como tais santos animados e felizes; suas bocas salivam pela alegria que há neles, pelo seu maná escondido, e esta é outra bênção, pois leva os homens a procurarem o Salvador. Se um homem ímpio pisa em uma congregação onde todos os santos são avivados, ele não dormirá sob o sermão. O ministro não o deixará fazer isso, pois o ouvinte percebe que o pregador sente o que ele está pregando, e tem o direito de ser ouvido. Este é um ganho claro, pois agora o homem escuta com profunda emoção; e acima de tudo, o poder do Espírito Santo, que o pregador recebeu em resposta à oração, vem sobre a mente do ouvinte; ele é convencido do pecado, da justiça e do juízo vindouro, e os Cristãos que estão à espreita em torno dele apressam-se a contar-lhe sobre o Salvador, e apontar-lhe o sangue redentor, de modo que, embora o avivamento a rigor, seja com o povo de Deus, contudo o resultado dele ninguém pode limitar. Irmãos, busquemos um avivamento durante o presente mês, que o ano possa fechar com chuvas de bênção, e que o novo ano possa começar com bênção abundante. Vamos nos comprometer a formar uma união em oração, uma união sagrada de suplicantes, e que Deus faça por nós de acordo com a nossa fé.

Pai, por Tua bênção prometida,
Nós ainda suplicamos diante do Teu trono;
Pelo tempo de doce refrigério
Que somente de Ti pode vir.
Bênçãos escolhidas Tu tens dado,
Mas, nestas nós não nos acomodaremos,
Ainda há bênçãos escondidas conTigo,
Derrame-as, e nos abençoe.
Desperte os Teus filhos adormecidos, acorde-os,
Ordene-os a ir à Tua colheita;
Faça com que eles sejam bênçãos, oh Pai,
Ao redor de seus passos faça com que a bênção flua.
Que nenhum vilarejo seja esquecido,
Que Tuas chuvas desçam sobre todos;
Que em alguém entoe um hino abençoado,
Que miríades possam, em triunfo, harmonizarem-se.

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♦ Fonte: Spurgeon.org | Título Original: What is a Revival?
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


O Terrível Estado Dos Não-Convertidos – Jonathan Edwards

“Então, o carcereiro, tendo pedido uma luz, entrou precipitadamente e, trêmulo, prostrou-se diante de Paulo e Silas. Depois, trazendo-os para fora, disse: Senhores, que devo fazer para que seja salvo?” (Atos 16:29,30)

Temos aqui e no contexto um relato da conversão do carcereiro, que é uma das mais notáveis nas Escrituras. Ele, anteriormente, parece não apenas ter estado completamente insensível às coisas da religião, mas ter sido um perseguidor, tendo perseguido estes mesmos homens, Paulo e Silas, embora agora venha a eles de forma tão urgente, perguntando-lhes o que devia fazer para ser salvo. Lemos no contexto que todos os magistrados e multidões da cidade juntaram-se a uma em um tumulto contra Paulo e Silas, arrebatando-os, e lançando-os na prisão, encarregando o carcereiro da sua guarda. Imediatamente ele os lançou na prisão interior, e prendeu seus pés ao tronco. E é provável que não tenha agido assim meramente como um servo ou instrumento dos magistrados, mas que tenha se juntado com o resto do povo na sua fúria contra os apóstolos, e que assim o fez induzido por sua própria vontade, bem como pelas ordens dos magistrados, o que o fez executar suas ordens com tal rigor.

Mas quando, à meia noite, Paulo e Silas oravam e cantavam louvores, repentinamente houve um grande terremoto, e Deus abriu de forma tão maravilhosa as portas da prisão, e todas as cadeias foram afrouxadas, o carcereiro ficou extremamente aterrorizado, e, em uma espécie de desespero, estava prestes a se matar. Mas Paulo e Silas gritaram para ele: “Não te faças mal algum, pois estamos todos aqui”. Então, pediu uma luz, e saltou dentro [ARC], como temos o relato no texto. Podemos observar:

1. O objeto de sua preocupação. Ele está ansioso acerca de sua salvação: está aterrorizado por sua culpa, especialmente por sua culpa no maltrato destes ministros de Cristo. Está preocupado em escapar desse estado de culpa, o estado miserável que se encontrava devido ao pecado.

2. O senso que tem do horror do seu estado atual. Isto ele manifesta de diversas ma-neiras:

 1. Por sua grande pressa em escapar desse estado. Por seu afã em inquirir o que deve fazer. Ele parece estar tolhido pela mais premente preocupação, sensível à sua presente necessidade de libertação, sem qualquer adiamento. Antes, estava quieto e seguro em seu estado natural; mas agora seus olhos foram abertos, está na mais urgente pressa. Se a casa estivesse em chamas sobre sua cabeça, não poderia ter sido mais diligente, ou estar mais apressado. Se apenas tivesse andado, poderia logo ter chegado a Paulo e Silas, para perguntar-lhes o que devia fazer. Mas estava em grande pressa para andar apenas, ou correr, pois saltou; pulou para o lugar em que estavam. Ele fugia da ira. Fugia do fogo da justiça divina, e por isso apressava-se, como alguém que foge pela sua vida.

 2. Pelo seu comportamento e gesto diante de Paulo e Silas. Ele se prostrou. Que tenha se prostrado diante daqueles a quem havia perseguido, e atirado à prisão interior, e prendido os pés ao tronco, mostra qual era o estado de sua mente. Mostra alguma grande perturbação, que o alterou de tal maneira que o levou a isto. Estava, por assim dizer, despedaçado pela perturbação de sua mente, em um senso do horror de sua condição.

 3. Sua maneira urgente de inquiri-los acerca do que devia fazer para escapar desta condição miserável: “Senhores, que devo fazer para ser salvo?” Estava tão perturbado, que foi levado a se dispor a qualquer coisa; ter a salvação em qualquer termo, e por qualquer meio, mesmo que difícil; foi levado, por assim dizer, a escrever uma fórmula, e entregá-la a Deus, para que Ele prescrevesse seus próprios termos.

DOUTRINA: Os que estão em um estado natural, estão em uma condição terrível.

Isto me esforçarei para provar por uma consideração particular do estado e condição das pessoas não regeneradas.

 

I. Quanto a seu estado atual neste mundo.

II. Quanto as suas relações com o mundo futuro.

 

I. A condição daqueles que não são convertidos é terrível no mundo presente.

 Primeiro. Devido ao estado depravado de suas naturezas. Os homens, quando vêm ao mundo, têm naturezas terrivelmente depravadas. O homem, em seu estado primitivo, era uma peça nobre de habilidade Divina; mas, pela Queda, está horrivelmente desfigurado. É triste pensar que uma criatura tão excelente deva estar tão arruinada. O horror desta condição, na qual se encontram os não-convertidos neste respeito, prova-se pelo seguinte:

1. O horror de sua depravação evidencia-se pelo fato de serem tão insensivelmente cegos e ignorantes. Deus deu ao homem a faculdade da razão e do entendimento, que é uma nobre faculdade. Por ela, ele se diferencia de todas as outras criaturas inferiores. É exaltado em sua natureza acima delas, e é, neste aspecto, semelhante aos anjos, capacitado a conhecer a Deus, e conhecer as coisas eternas e espirituais. Deus lhe deu entendimento para este fim, para que O pudesse conhecer, e conhecer as coisas celestiais, e o fez capaz de compreendê-las como quaisquer outras. Mas o homem degradou a si mês-mo, e perdeu sua glória neste respeito. Tornou-se ignorante da excelência de Deus à maneira das próprias feras. Seu entendimento está cheio de obscuridade; sua mente está cega; está completamente cego para as coisas espirituais. Os homens são ignorantes de Deus, e ignorantes de Cristo, ignorantes do caminho da salvação, ignorantes de sua própria felicidade, cegos em meio a mais brilhante e clara luz, ignorantes sob todas as formas de instrução. Rm 3:17: “Desconheceram o caminho da paz”. Is 27:11: “Não é povo de entendimento”. Jr 4:22: “O meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não inteligentes”. Sl 95:10, 11: “É povo de coração transviado, não conhece os meus caminhos. Por isso, jurei na minha ira: não entrarão no meu descanso”:1 Co 15:34: “Alguns ainda não têm conhecimento de Deus; isto digo para vergonha vossa”.

Há um espírito de ateísmo prevalecendo nos corações dos homens; uma estranha disposição para duvidar da própria existência de Deus, e do outro mundo, e de qualquer coisa que não possa ser vista com os olhos físicos. Sl 14.1: “Diz o insensato no seu coração, não há Deus”. Não percebem que Deus os vê, quando pecam, e os chamará a prestar contas por isso. E, portanto, se podem esconder os pecados dos olhos dos homens, não se preocupam, e são ousados em cometê-los. Sl 94:7-9: “E dizem: O SENHOR não o verá; nem para isso atentará o Deus de Jacó. Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios? Aquele que fez o ouvido, não ouvirá? E o que formou o olho, não verá? [ARC]” Sl 73:11: “E diz: Como sabe Deus? Acaso, há conhecimento no Altíssimo?” São tão insensivelmente incrédulos das coisas futuras, do céu e do inferno, que comumente preferem correr o risco da condenação a ser convencidos. São estupidamente insensíveis da importância das coisas eternas. Como é difícil levá-los à fé, e dar-lhes real convicção de que ser feliz por toda a eternidade é melhor que todos os outros bens; e ser miserável por toda eternidade, debaixo da ira de Deus, é pior que todo mal. Os homens mostram-se insensíveis o suficiente nas coisas temporais, mas muito mais nas espirituais. Lc 12:56: “Hipócritas, sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu e, entretanto, não sabeis discernir esta época?” São muito engenhosos para o mal; mas rudes naquelas coisas que mais os importam. Jr 4:22: “São sábios para o mal e não sabem fazer o bem”. Os ímpios se mostram mais tolos e insensíveis para o que lhes é melhor, do que os brutos. Is 1:3: “O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende”. Jr 8:7: “Até a cegonha no céu conhece as suas estações; a rola, a andorinha e o grou observam o tempo da sua arribação; mas o meu povo não conhece o juízo do SENHOR”.

2. Não há bem algum neles. Rm 7:18: “Em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum”. Não há neles nenhum princípio que os disponha a qualquer coisa boa. Os não-convertidos não têm princípio mais elevado em seus corações do que o amor-próprio. E nisso não excedem os demônios. Estes amam a si mesmos, e sua própria felicidade, e te-mem sua própria miséria. E não vão mais longe. Seriam tão religiosos quanto os melhores dos não-convertidos, se estivessem nas mesmas circunstâncias. Seriam tão moralistas, e orariam com o mesmo fervor a Deus, e sofreriam o mesmo tanto pela salvação, se houvesse oportunidades semelhantes. E, assim como não há bom princípio nos corações dos não-convertidos, também nunca há quaisquer bons exercícios do coração, nunca um bom pensamento, ou mover de coração neles. Particularmente, neles não há amor por Deus. Jamais tiveram o mínimo grau de amor pelo Ser infinitamente glorioso. Jamais tiveram o mínimo respeito verdadeiro pelo Ser que os criou, e em cujas mãos está sua respiração, e de quem procedem todas as suas misericórdias. Conquanto, às vezes, possam parecer fazer coisas por respeito a Deus, e vistam o rosto como se O honrassem, e altamente O estimassem, tudo não passa de hipocrisia. Mesmo que haja um exterior limpo, são como sepulcros caiados; por dentro não há nada senão putrefação e podridão. Não têm amor por Cristo, o glorioso Filho de Deus, que é tão digno de seu amor, e que mostrou graça tão maravilhosa pelos pecadores ao morrer por eles. Jamais fizeram qualquer coisa por respeito verdadeiro ao Redentor do mundo, desde que nasceram. Jamais produziram quaisquer frutos a esse Deus que os criou, e em quem vivem, movem-se e tem seu ser. Jamais responderam de alguma forma ao fim para o qual foram criados. Têm, até agora, vivido completamente em vão, e sem nenhum propósito. Jamais obedeceram com sinceridade a um mandamento de Deus; nunca moveram um dedo motivados por um espírito verdadeiro de obediência a Ele, que os fez para servi-lO. E quando pareceram, externamente, concordar com os mandamentos de Deus, em seus corações não o fizeram. Jamais obedeceram movidos por um espírito de sujeição a Deus, ou por qualquer disposição em obedecê-lO, mas meramente foram levados a isso pelo medo, ou de alguma forma influenciados por seus interesses mundanos. Jamais deram a Deus a honra de nenhum de Seus atributos. Nunca Lhe deram a honra de Sua autoridade, obedecendo-Lhe. Jamais Lhe deram a honra por Sua soberania, submetendo-se a Ele. Jamais Lhe deram a honra de Sua santidade e misericórdia, amando-O. Nunca Lhe deram a honra por Sua suficiência e fidelidade, confiando nEle; mas olharam para Deus como Alguém indigno de ser crido e confiado, e o trataram como se fosse um mentiroso: 1 Jo 5:10: “Aquele que não dá crédito a Deus o faz mentiroso”. Eles jamais agradeceram de coração a Deus por uma simples misericórdia recebida em toda sua vida, embora Ele os tenha sustentado, e tenham vivido debaixo de Sua liberalidade. Jamais agradeceram genuinamente a Cristo por ter vindo ao mundo, e morrido para lhes dar a oportunidade de serem salvos. Jamais lhe mostrariam alguma gratidão a ponto de recebê-lO, quando bateu em suas portas; mas sempre lha fecharam, embora tenha batido sem nenhum outro propósito senão o de oferecer-Se para ser seu Salvador. Jamais tiveram qualquer desejo verdadeiro por Deus ou Cristo em toda a sua vida. Quando Deus se ofereceu para ser sua porção, e Cristo, para ser o amigo de suas almas, não os desejaram. Jamais quiseram ter Deus e Cristo como sua porção. Prefeririam, ao contrário, estar sem eles, se pudessem evitar o inferno sem Sua companhia. Jamais tiveram um pensamento honroso sobre Deus. Sempre estimaram as coisas terrenas antes dEle. E, apesar de tudo o que ouviram nos mandamentos de Deus e de Cristo, sempre preferiram um pequeno ganho mundano ou um prazer pecaminoso a eles.

3. Os não-convertidos estão em uma condição terrível devido à horrível impiedade que há neles.

1. O pecado possui uma natureza terrível, e isso se dá porque é cometido contra um Deus infinitamente grande e santo. Há na natureza do homem inimizade, desprezo e rebelião contra Deus. O pecado se levanta como um inimigo do Altíssimo. É terrível para a criatura ser inimiga do Criador, ou ter no coração algo como uma inimizade, como ficará bem claro, se considerarmos a diferença que há entre Deus e a criatura, e como as criaturas, comparadas a Ele, são como o pó da balança, como nada, menos do que nada, um vácuo. Há um mal infinito no pecado. Se víssemos a centésima parte do mal que há no pecado, isso nos tornaria sensíveis que aqueles que têm qualquer pecado, ainda que seja mínimo, estão em uma condição terrível.

2. Os corações dos não-convertidos estão completamente cheios de pecado. Se tivessem apenas um pecado neles, seria suficiente para tornar suas condições muito terríveis. Mas têm não apenas um pecado, mas todo tipo de pecado. Há todo tipo de desejo carnal. O coração é um mero poço de pecado, uma fonte de corrupção, de onde emerge todo tipo de regatos imundos. Mc 7:21, 22: “Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura”. Não há um desejo maligno no coração do diabo, que não esteja no coração do homem. Os homens naturais são à imagem do diabo. A imagem de Deus é demolida, e a imagem do diabo é estampada nele. Deus graciosamente se agrada em restringir a impiedade dos homens, especialmente pelo temor e respeito que têm pelos seus créditos e reputações, e pela educação. Não fosse tais restrições, não haveria tipo de impiedade que os homens não cometeriam, quando lhes viessem ao encontro. A prática daquelas coisas que os homens agora, à simples menção, prontamente ficam chocados quando ouvem o relato, seria comum e geral; e a terra seria um tipo de inferno. Se não temesse, o que o homem natural não faria? Mt 10:17: “acautelai-vos dos homens”. Os homens têm não apenas todo tipo de luxúria, e disposições ímpias e perversas em seus corações, mas as têm em um grau desesperador. Não há apenas o orgulho, mas um grau fantástico dele: orgulho tal que o dispõe a colocar-se acima até mesmo do trono do próprio Deus. Os corações dos não-convertidos são meras sarjetas de sensualidade. O homem se tornou como as feras ao colocar sua felicidade nas diversões sensuais. O coração está cheio das paixões mais repugnantes. Suas almas são mais vis e abomináveis que a de qualquer réptil. Se Deus abrisse uma janela no coração, de forma que pudéssemos contemplar o seu interior, seria o espetáculo mais repugnante que já se viu sob nossos olhos. Não há apenas malícia nos corações dos homens naturais, mas uma fonte dela. Os homens merecem, portanto, a linguagem aplicadas a eles por Cristo em Mateus 3.7: “Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?” e Mt 23:33: “Serpentes, raça de víboras!” Eles, não fosse pelo medo e outras restrições, não apenas cometeriam toda sorte de pecado, mas a que grau, a que distância não procederiam! O que impede um homem natural de abertamente blasfemar contra Deus, como faz qualquer um dos demônios; sim, de destroná-lo, se fosse possível, e não houvesse o medo e outras restrições no caminho? Sim, não aconteceria isto com muitos dos que agora aparecem com um rosto justo, falando muito de Deus, e com muitas pretensões de adorá-lO e servi-lO? A grande impiedade dos homens naturais aparece abundantemente nos pecados que cometem, não obstante todas estas restrições. Todo homem natural, se refletir, pode ver o suficiente para mostrar-lhe como é excessivamente pecador. O pecado flui do coração com tanta constância como a água flui de uma fonte. Jr 6:7: “Como o poço conserva frescas as suas águas, assim ela, a sua malícia”. E esta impiedade, que abunda desta maneira nos corações, tem domínio sobre eles. São escravos dela: Rom 7:14: “eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado”. Estão de tal maneira debaixo do pecado, que são conduzidos por suas luxúrias em um curso contra suas próprias consciências, e contra seu próprio interesse. Apressam-se em direção à própria ruína, e isso ao mesmo tempo em que suas próprias razões lhes advertem que isto provavelmente será sua perdição. 2 Pedro 2.14: “Insaciáveis no pecado”. Devido ao fato dos ímpios estarem de tal maneira sob o poder do pecado, o coração humano é descrito como desesperadamente corrupto em Jr 17.9 e Ef 2.1 diz: “[estáveis] mortos nos vossos delitos e pecados”.

3. Os corações dos não-convertidos são terrivelmente endurecidos e incorrigíveis. Nada, a não ser o poder de Deus, os moverá. Apegar-se-ão ao pecado, e continuarão nele, aconteça o que acontecer. Pv 27:22: “Ainda que pises o insensato com mão de gral entre grãos pilados de cevada, não se vai dele a sua estultícia”. Não há nada que abale seus corações, e nada que os leve à obediência: quer sejam misericórdias ou aflições, ameaças ou chamados e convites da graça, reprovação ou paciência e longanimidade, ou conselhos e exortações paternais. Is 26:10: “Ainda que se mostre favor ao perverso, nem por isso aprende a justiça; até na terra da retidão ele comete a iniquidade e não atenta para a majestade do SENHOR”.

Em segundo lugar: O estado relativo dos não-convertidos é terrível. Isso será evidente se considerarmos:

1. Seu estado relativo com respeito a Deus; e isso porque:

1. Eles estão sem Deus no mundo. Não têm interesse ou parte com Deus: Ele não é o Deus deles. Ele próprio declarou que não o seria (Os 1:9). Deus e os crentes têm uma re-lação pactual mútua e direito um ao outro. Eles são seu povo, e Ele é o Deus deles. Mas não é o Deus pactual daqueles que estão em um estado natural. Há uma grande alienação e estranhamento entre Deus e os ímpios: Ele não é seu pai e porção, não têm nada com que possam questioná-lo, não têm direito a nenhum de seus atributos. O crente pode reivindicar um direito no poder de Deus, em Sua sabedoria e santidade, Sua graça e amor. Tudo é renovado para ele, em seu benefício. Mas o não-convertido não pode reivindicar direito algum a qualquer das perfeições de Deus. Não têm Deus para defendê-los e protegê-los neste mundo mau: para defendê-los do pecado, de Satanás ou de qualquer mal. Não têm Deus para guiá-los e orientá-los em quaisquer dúvidas ou dificuldades, para confortá-los e apoiar suas mentes nas aflições. Estão sem Deus em todos as suas ocupações, em todos os negócios que realizam, em seus assuntos familiares, e em todas os seus projetos pessoais, nas suas preocupações exteriores e nas preocupações de suas almas.

Como poderia uma criatura ser mais miserável do que estando separada de seu Criador, e não ter um Deus a quem possa chamar de seu? É miserável, de fato, aquele que vagueia pelo mundo, sem um Deus para velar por si, e ser seu guia e protetor, e abençoá-lo nos seus afazeres. A própria luz da natureza ensina que o Deus de um homem é seu tudo. Jz 18:24: “Os deuses que eu fiz me tomastes; que mais me resta?” Não há senão um Deus, e não têm direito algum a Ele. Estão sem aquele Deus, cuja vontade deve determinar sua inteira existência, tanto aqui quanto na eternidade. Que os não-convertidos estão sem Deus mostra que estão sujeitos a todo tipo de mal. Estão sujeito ao poder do diabo, ao poder de todo tipo de tentação, pois não têm Deus para protegê-los. Estão sujeitos a ser seduzidos e enganados pelas opiniões errôneas, e a abraçarem doutrinas condenadas. Não é possível enganar os santos desta maneira. Mas os não-convertidos podem ser enganados. Podem tornar-se papistas, ou pagãos ou ateus. Nada que tenham pode livrá-los disso. Estão sujeitos a ser entregues à dureza judicial de Deus no coração. Eles a merecem, e, uma vez que Deus não é o seu Deus, não têm certeza se não lhes aplicará esse terrível julgamento. Como estão sem Deus no mundo, estão sujei-tos a cometer todo tipo de pecado, e, até mesmo, o pecado imperdoável. Não podem ter certeza se não vão cometê-lo. Estão sujeitos a construir uma falsa esperança do céu, e, com essa esperança, irem ao inferno. Estão sujeitos a morrer insensíveis e estúpidos, como muitos morrem. Estão sujeitos a morrer da mesma maneira que morreram Judas e Saul, sem temor do inferno. Não estão seguros disso. Estão sujeitos a todo tipo de engano, uma vez que estão sem Deus. Não podem dizer o que poderá lhes suceder, nem quando estão seguros de qualquer coisa. Não estão seguros nem por um momento. Dez mil enganos fatais podem recair sobre eles, e torná-los miseráveis para sempre.

Os que têm Deus por seu Deus estão livres de tais males. Não é possível que recaiam sobre eles. Deus é seu Deus pactual, e têm sua promessa fiel de ser seu refúgio. Mas quantos enganos há que não possam recair sobre os não-convertidos? Quaisquer esperanças que tiverem poderão ser desapontadas. Qualquer perspectiva ingênua que possa aparentemente haver de sua conversão e salvação, pode desvanecer. Podem fazer grandes progressos em direção ao reino de Deus, e, ainda assim, falhar no final. Podem parecer estar em um estado deveras esperançoso de serem convertidos, e, ainda assim, jamais o serem. Um homem natural não tem segurança alguma. Não está seguro de bem nenhum, nem de escapar de qualquer mal. É, portanto, terrível a condição na qual se encontra o não-convertido. Os que estão no seu estado natural estão perdidos. Desviaram-se de Deus, e são como ovelhas perdidas, que se desviaram do seu pastor. São pobres criaturas desamparadas, em um deserto cheio de uivos, sem pastor para protegê-las ou guiá-las. Estão desolados, e expostos a inúmeros enganos fatais.

2. Estão não apenas sem Deus, mas a Sua ira permanece sobre eles, João 3.36: “O que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus”. Não há paz entre Deus e eles, mas Deus está irado com eles, diariamente. Não está apenas irado, mas o está num grau terrível. Há um fogo aceso na ira de Deus: ela está em chamas. A ira permanece sobre eles, que, se fosse ela executada, os lançaria no mais profundo inferno, e os tornaria miseráveis por toda eternidade. Provocaram o Santo de Israel à ira. Deus sempre esteve irado com eles, desde que começaram a pecar: tem sido provocado diariamente, e mais e mais, a cada hora. A chama de sua ira está conti-nuamente ardendo. Provocaram a Deus mais do que muitos no inferno, e com maior frequência. Aonde quer que vão, convivem com a terrível ira de Deus sobre si. Comem, bebem e dormem debaixo de Sua ira. Como é terrível, portanto, a condição em que estão! É muito triste para a criatura ter a ira do seu Criador sobre si. Essa ira de Deus é algo infinitamente terrível. A ira de um rei é como o rugido de um leão; mas o que é a ira de um rei, que não é senão um verme do pó, comparada à ira do Deus infinitamente grande e terrível? Como é horrível estar debaixo da ira do Ser Primeiro, o Ser dos seres, o grande Criador e poderoso dono dos céus e da terra! Como é terrível para uma pessoa estar debaixo da ira de Deus, que lhe deu o ser, e em quem se move e existe, que é onipre-sente e sem o qual ela não pode dar um passo, nem um suspiro! Os não-convertidos, além de estarem debaixo de ira, estão debaixo de maldição. A ira e a maldição de Deus estão continuamente sobre eles. Não podem ter um conforto razoável, portanto, em qualquer de suas diversões, pois nada sabem, senão que elas lhes são dadas em ira, e serão amaldiçoados por elas, e não abençoados. Como é dito em Jó 18.15: “Espalhar-se-á enxofre sobre a sua habitação”. Como podem, então, ter algum conforto em suas refeições, ou posses, quando nada sabem senão que isso lhes é dado para prepará-los para a execução?

 

II. O estado relativo deles se mostrará terrível, se considerarmos como estão relacionados ao diabo.

1. Os que estão em um estado natural são filhos do diabo. Assim como os santos são filhos de Deus, os ímpios são filhos do diabo: 1 Jo 3:10: “Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo” Mt 13:38, 39: “o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do reino; o joio são os filhos do maligno; o inimigo que o semeou é o diabo”. Jo 8:44: “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos”. São, por assim dizer, descendência do diabo; procedem dele: 1 Jo 3:8: “Aquele que pratica o pecado procede do diabo”. Assim como Adão gerou um filho à sua semelhança, os ímpios são à imagem e semelhança do diabo. Eles reconhecem esta relação, e se consideram filhos do diabo, consentindo que ele seja seu pai. Sujeitam-se a ele, ouvem os seus conselhos, como os filhos ouvem os conselhos de um pai. Ele os ensina a imitá-lo, e a fazer como ele faz, assim como as crianças aprendem a imitar seus pais. Jo 8:38: “Eu falo das coisas que vi junto de meu Pai; vós, porém, fazeis o que vistes em vosso pai”. Como é terrível este estado! Como é horrível ser um filho do diabo, o espírito das trevas, o príncipe do inferno, esse ímpio, maligno e cruel espírito! Ter alguma relação com ele é mui terrível. Seria considerado algo medonho e assustador o mero encontro com o diabo, aparecendo ele em uma forma visível para alguém. Como é terrível, então, ser seu filho; como é assustador para qualquer pessoa ter o diabo por seu pai!

2. Eles são cativos e servos do diabo. O homem, antes da queda, estava em um estado de liberdade; mas, agora, caiu nas mãos de satanás. O diabo foi vitorioso, e o tomou cativo. Os homens naturais estão em posse de satanás, e estão sob seu domínio. São conduzidos por ele em sujeição a sua vontade, para seguirem suas instruções, e fazerem o que ele ordena, 2 Tm 2:16: “Tendo sido feitos cativos por ele para cumprirem a sua vontade”. O diabo governa sobre os ímpios. São todos seus escravos, e o servem com trabalhos forçados. Isto mostra que sua condição é terrível. Os homens consideram um estado de vida infeliz ser um escravo; e, especialmente, ser escravo de um senhor mau, de alguém que seja duro, implacável e cruel. Quão miseráveis consideramos aqueles que caíram nas mãos dos turcos, ou outras nações bárbaras semelhantes, sendo destinados a mais baixa e cruel escravidão, e tratados pior do que o gado! Mas o que é ser tomado cativo pelo diabo, o príncipe do inferno, e ser escravo dele? Não seria melhor ser escravo de qualquer um na terra a ser seu escravo? O diabo é, de todos os senhores, o mais cruel, e trata os seus servos da pior maneira. Coloca-os na realização dos mais vis serviços, os mais desonrosos no mundo. Nada é mais desonroso que a prática do pecado. O diabo põe seus servos para realizar obras que os degrada abaixo da dignidade da natureza humana. Devem tornar-se semelhantes às feras para fazer esse serviço e servir às suas concupiscências imundas. E, além da vileza do trabalho, é um trabalho árduo. O diabo os escraviza às custas de sua própria paz de consciência, e, com frequência, às custas de suas reputações, de suas posses, e encurtando seus dias. O diabo é um senhor cruel, pois o serviço a que submete seus escravos os destrói. Ele os põe em trabalhos forçados, dia e noite, para trabalharem em suas próprias ruínas. Jamais pretende lhes recompensar por suas lidas, mas estas servem para edificar sua destruição eterna. Serve para acumular combustível e chamas de fogo para eles mesmos serem atormentados por toda a eternidade.

3. A alma de um não-convertido é a habitação do diabo. Ele é não apenas pai deles, e seu chefe, mas habita neles. É terrível para um homem ter o diabo nas cercanias, visitando-o com frequência. Mas é ainda mais terrível tê-lo habitando com um homem, e aceitar sua habitação; e é ainda terrível tê-lo consigo, habitando no coração. Mas é isto que ocorre com o não-convertido. Ele tem o diabo habitando no seu coração. Assim como a alma de um justo é a habitação do Espírito de Deus, a alma de um ímpio é a habitação de espíritos imundos. Assim como a alma de um justo é o templo de Deus, a alma do ímpio é a sinagoga de Satanás. Ela é chamada na Escritura de casa de Satanás, e palácio de Satanás, Mt 12:27: “Ou como pode alguém entrar na casa do valente”, querendo dizer, o diabo. E Lc 11:21: “Quando o valente, bem armado, guarda a sua própria casa, ficam em segurança todos os seus bens”. Satanás não apenas vive, mas reina, no coração do ímpio. Não apenas fez sua morada lá, mas estabeleceu seu trono. O coração de um ímpio é lugar de encontro do diabo. As portas do seu coração estão abertas aos demônios. Têm livre acesso a ele, embora esteja fechado para Deus e Jesus Cristo. Há muitos demônios, sem dúvidas, que se relacionam com um ímpio, e seu coração é lugar de encontro deles. A alma de um ímpio é, como se diz da Babilônia, a habitação dos demônios, e a casa de todo espírito imundo, e um ninho de toda ave imunda e odiosa. Assim, terrível é a condição de um homem natural por causa da relação em que ele está com o diabo.

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♦ Fonte: CCEL.org │ Título Original: Natural Men in a dreadful Condition
♦ Fonte: JonathanEdwardsSelecionados.blogspot.com.br
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ARA (Almeida Revista e Atualizada).
♦ Tradução por Tiago Cunha │ Revisão por William Teixeira


O Sepultamento e a Ressurreição de Jesus Cristo – João Calvino

“E estavam ali, olhando de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galiléia, para o servir; Entre as quais estavam Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu. E, vinda já a tarde, chegou um homem rico, de Arimatéia, por nome José, que também era discípulo de Jesus. Este foi ter com Pilatos, e pediu-lhe o corpo de Jesus. Então Pilatos mandou que o corpo lhe fosse dado. E José, tomando o corpo, envolveu-o num fino e limpo lençol, E o pôs no seu sepulcro novo, que havia aberto em rocha, e, rodando uma grande pedra para a porta do sepulcro, retirou-se” (Mateus 27:55-60)

Vimos acima como o nosso Senhor Jesus declarou o fruto e o poder da Sua morte ao pobre ladrão, que certamente parecia ser, por assim dizer, uma alma condenada e perdi-da. Agora, se todos aqueles que anteriormente foram ensinados no Evangelho, e que tenham tido alguma prova deste, fossem alienados ao ver o Filho de Deus morrer, parece que a pregação do Evangelho teria sido vã e inútil. Além disso, sabemos que os Apósto-los haviam sido eleitos para a condição de serem, por assim dizer, as primícias da Igreja. Alguém poderia, então, ter pensado que esta eleição fora uma coisa decepcionante, o fato deles terem sido escolhidos para tal ofício e condição. Por esta razão, é aqui declarado para nós que, embora os Apóstolos tenham fugido e que nisto mostraram uma vil covardia, São Pedro tinha até negado ao nosso Senhor Jesus e foi, por assim dizer, afastado de toda a esperança de salvação, de fato, sendo digno de ser reputado como um membro podre; contudo, Deus não permitiu que a doutrina que haviam recebido anteriormente fosse extinta e totalmente abolida. É verdade que São Mateus coloca mais fé na constância de mulheres do que de homens. Isso é para que possamos aprender a magnificar ainda mais a bondade de Deus, que aperfeiçoa o seu poder em nossa fraqueza. Isso é também o que São Paulo diz, que Deus escolheu as coisas fracas deste mundo, a fim de que aqueles que imaginam-se fortes possam abaixar a cabeça e não gloriarem-se em absolutamente nada (1 Coríntios 1:19-31.) Se fosse aqui falado de homens e de sua magnanimidade, e que eles tinham seguido o nosso Senhor Jesus Cristo à morte, alguém poderia considerar isso como uma coisa natural. Mas quando mulheres são guiadas pelo Espírito de Deus, e há nelas mais ousadia do que nos homens, na verdade, do que naqueles que foram eleitos para anunciar o Evangelho para todo o mundo, nisto nós reconhecemos que Deus estava operando e que é a Ele que o louvor deve ser atribuído.

Agora diz-se especialmente: “E estavam ali [...] muitas mulheres que tinham seguido Jesus [...] para o servir”. O que é para melhor declarar a inclinação que elas tinham ao se beneficiar por meio do Evangelho. Pois não era pouca excelência que elas tenham deixado as suas casas para caminhar aqui e ali, de fato, com grande esforço e mesmo com vergonha. Porque sabemos qual foi a condição de nosso Senhor Jesus Cristo enquanto Ele andou no mundo. Ele diz que as raposas têm covis e pequenos pássaros são capazes de construir seus ninhos, mas Ele não tem onde reclinar a cabeça (Mateus 8:20, Lucas 9:58). Vemos, por outro lado, que estas mulheres tinham os meios para alimentarem-se pacificamente e em seu conforto. Quando, então, elas caminham assim, sem serem capazes de encontrar alojamento, exceto com dificuldade, elas têm que prosseguir sem comida e bebida, elas são sujeitas a muitas zombarias, elas são levadas para longe e injuriadas por toda parte, e ainda assim elas elevam-se acima de tudo isso e suportam isso em paciência, nós podemos facilmente julgar como Deus lhes havia fortalecido. No entanto, com a morte elas ainda declaram a esperança que elas tinham em nosso Senhor Jesus Cristo. Pois, embora elas estejam confusas, contudo se elas tivessem suposto que nosso Senhor havia perecido definitivamente, elas poderiam ter julgado que Ele falhara completamente. Pois Ele tinha falado com elas sobre o Reino de Deus, que deveria ser restaurado por Seus meios. Ele havia falado com elas sobre a perfeita bem-aventurança e sobre a salvação que Ele realizaria. E onde estão todas essas coisas? Vemos, então, como essas pobres mulheres apesar de terem ficado perplexas e por mais que elas estivessem preocupadas, sem saber qual seria o resultado da vida de Nosso Senhor, no entanto, foram sustentadas por Sua autoridade. E mesmo assim Ele faz com que, no final, elas reconheçam e julguem que Ele não prometera nada em vão. Elas, então, esperaram aquela promessa da ressurreição, embora de acordo com os homens elas poderiam ter julgado de forma totalmente contrária. No entanto, vemos como a fé delas foi exercitada, a fim de que não sejamos incomodados além da medida, se na aparência, parece que somos abandonados por Deus, e que todas as promessas do Evangelho estão, por assim dizer, abolidas, isso acontece para que nós persistamos. Pois estas mulheres dão testemunho contra nós, e para nossa grande condenação, se falharmos em tais combates. Será que desejamos um exemplo mais rude do que o que elas sofreram? No entanto, elas foram verdadeiramente vitoriosas por meio da fé.

Então, armemo-nos quando somos alertados sobre os ataques que Satanás faz contra nós, para que estejamos armados para resistir ao golpe, e mostremos que somos tão apoiados pelo poder de nosso Senhor Jesus Cristo que, embora não possamos perceber à primeira vista o cumprimento do que é dito a nós, não podemos deixar de descansar nEle, e trazer a Ele esta homenagem e reverência, que Ele mostrar-se-á fiel por fim. E nós precisamos ser assim provados ao limite. Pois caso contrário, seríamos muito delicados, e até mesmo a nossa fé seria amortecida, ou talvez pudéssemos imaginar um paraíso terrestre, e nós não poderíamos elevar os nossos sentidos alto o suficiente para renunciar a este mundo. Como também nós podemos ver isso melhor na pessoa da mãe de João e Tiago. Sabemos que anteriormente ela havia sido impulsionada por tal ambição que desejava que nosso Senhor estivesse sentado em Seu trono real, e que Ele tivesse ali somente pompa e bravura, e que seus dois filhos estivessem ali como dois oficiais de Nosso Senhor. “Dize”, disse ela, “que estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu reino” [Mateus 20:21]. Oh, que mulher tola! Que está atenta apenas à glória e que desejava ver um triunfo terreno em seus filhos. Agora, aqui há outra e mui diferente experiência. Pois ela vê nosso Senhor Jesus pendurado na cruz, em tal vergonha e desgraça quando todo o mundo se opõe a Ele, e Ele está mesmo ali, por assim dizer, amaldiçoado por Deus. Assim, nós vemos isso, quando seremos levados em tal confusão que nossos espíritos ficarão surpresos com o terror e angústia, mas isto significa que Deus nos retira de todos os afetos terrenos, a fim de que nada possa nos impedir de sermos erguidos ao céu e à vida espiritual a que devemos aspirar. E nós não podemos fazê-lo, a menos que sejamos expurgados de tudo o que nos impede nesta terra. Isso, então, em resumo, é o que temos que lembrar a respeito dessas mulheres.

No entanto, isso não quer dizer que ali não havia também homens, mas a intenção do Espírito Santo foi colocar diante de nossos olhos aqui tal espelho, a fim de que possamos saber que é Deus quem conduziu essas mulheres pelo poder do Espírito Santo, e Ele quis declarar o Seu poder e Sua graça, escolhendo instrumentos tão fracos de acordo com o mundo. Semelhante também é visto em Nicodemos e José. É verdade que São Mateus, São Marcos e São Lucas apenas falam de José, que veio a Pilatos e Nicodemos, tomou coragem, vendo que ele tinha tal líder. É verdade que Nicodemos era um mestre de gran-de estima. José era um homem rico em bens materiais, na verdade, também um membro do conselho. No entanto, olhemos para ver se havia neles um tal zelo, a ponto de se exporem à morte por nosso Senhor Jesus, e de fato se durante a Sua vida eles deixaram as suas casas para seguí-lO. Não absolutamente. Mas quando se trata da morte Deus, isso os move e os incita para além de toda a expectativa humana. Vemos, então, que Deus operou aqui uma mudança estranha e admirável, quando concedeu tal ousadia para José e Nicodemos, que não temiam a ira de todas as pessoas, quando eles vieram sepul-tar o nosso Senhor Jesus. Anteriormente Nicodemos havia vindo de noite, com medo de ser estigmatizado com infâmia. Agora, ele enterra o nosso Senhor Jesus, de fato, quando Ele chegou ao extremo. Deus, então, teve que lhe dar um novo ânimo, pois ele mesmo havia escondido, e, de fato, nenhumas sombras haviam sido suficientemente escuras para ele, vendo sua timidez e covardia, a menos que Deus houvesse corrigido esse defeito nele. Em resumo, vemos como a morte de nosso Senhor Jesus o beneficiou, e que Ele já, nesta ocasião, mostrou as graças de Seu Espírito Santo sobre essas pobres pessoas que anteriormente nunca tinham ousado fazer uma declaração de sua fé. Agora, eles não somente falam pela boca, mas o que eles fazem mostra que eles preferem ser tidos por execráveis diante de todo o mundo e ainda serem discípulos de Jesus Cristo, do que perder o que haviam obtido; ou seja, a salvação gratuita que tinha sido oferecida a eles.

É também por isso que se diz que José esperava o Reino de Deus. Por esta palavra é declarado a nós que estamos separados de Deus e banidos de Seu reino, até que Ele nos reúna para Si mesmo por Seu povo. Vemos, então, quão miserável é a condição dos homens, até que o Senhor Jesus os chame para Si, para dedicá-los ao Seu Pai. E se estamos separados deste bem, miséria e confusão estão sobre nós! Foi uma grande virtude, então, esperar o Reino de Deus, porque os Judeus haviam corrompido isso, e as ocasiões disso estavam em grande acordo com o mundo. Pois os profetas haviam declarado, quando o povo voltou da Babilônia, que Deus seria de tal modo o Seu Redentor que haveria um reino florescente em toda a dignidade, que o templo seria construído em maior glória do que antes, que, em seguida, eles desfrutariam de todos os benefícios, e que esta seria uma vida feliz, que todos teriam descanso e que a única preocupação seria a de fruir a Deus, e bendizer o Seu nome, e dar-Lhe louvor. Isso é o que os profetas haviam prometido. Mas, qual é a condição do povo? Eles são consumidos e devorados por seus vizinhos, eles são aferroados, eles são injuriados. Às vezes, há tanta tirania que o sangue inocente é derramado por toda a cidade, o livro da Lei é queimado, e eles são proibidos de ter uma única leitura do mesmo, sob pena de morte. Tais grandes crueldades são praticadas, de forma que é horrível pensar sobre isso. O templo está cheio de contaminação. A casa de Davi, o que aconteceu com ela? Foi totalmente abatida e a condição das coisas vai continuamente de mal a pior. Então, alguém não estaria surpreendido, se em um povo tão rude e dado aos seus apetites e afetos, eram pouquíssimos os que mantiveram a verdadeira religião e que não haviam perdido a coragem; como podemos ver também que o número de pessoas que suportaram com paciência e que eram firmes na fé era muito pequeno e raríssimo. Isso é dito sobre Simeão, dito sobre Ana, a profetisa, dito de José. Mas por quê? Em uma multidão tão grande, entre os Judeus, em um país tão populoso, o Espírito Santo coloca diante de nós quatro ou cinco como algo que não era nada habitual, e dá testemunho de que essas pessoas estavam esperando o Reino de Deus. Isso acon-teceu para que possamos aprender, quando tudo estiver e nos momentos de desespero, a mantermos os olhos fixos em Deus. E na medida em que a Sua verdade é infalível e imutável, permaneçamos firmes até o fim, e superaremos todas as dificuldades, escândalos e perplexidades do mundo, e ainda que gemamos, não deixemos de aspirar ao que o nosso Senhor nos chamou, isto é, a esperar pacientemente que o Seu Reino seja estabelecido em nós, e que ainda possa nos bastar ter o Penhor que Ele nos concede, o Seu Espírito Santo, por Quem nos sustentamos o testemunho da adoção gratuita pela qual Ele nos fez um. Quando Deus declara que Ele nos segura e nos considera como Seus filhos, e quando isso está gravado em nossos corações pelo Espírito Santo, quando temos diariamente a doutrina do Evangelho que ressoa e soa em nossos ouvidos, sejamos confirmados na fé e não falhemos de modo algum, mesmo que as coisas sejam tão con-fusas que não se possa imaginar como poderia ser pior. Isso, então, em resumo, é o que temos que lembrar a partir dessa passagem.

Agora também é necessário notar o que São João registra antes que o nosso Senhor Jesus fosse retirado da cruz: a saber, que eles traspassaram o Seu lado para ver se Ele já havia entregado o espírito. Pois eles não haviam apressado a Sua morte como eles fizeram com os dois ladrões. Mas vendo que parecia que Ele já havia falecido, chegaram a sonda-lO com um golpe de lança, e, em seguida, eles sabiam que Ele morrera, e assim, os guardas se deram por satisfeitos. Agora, é verdade que esta, se o testemunho da lei não foi adicionado, parece-nos uma declaração um tanto fria. Mas São João quis nos conceder uma prova de que o nosso Senhor Jesus era o verdadeiro Cordeiro pascal, já que pela providência e conselho admirável de Deus, Ele fora preservado de todas as mutilações. Por isso se diz no capítulo 12 de Êxodo que eles deveriam comer o cordeiro pascal, mas que os ossos não deveriam ser quebrados, e que eles deveriam permanecer todos íntegros (Êxodo 12:8, 9, 46.) Por que era importante que Jesus Cristo não tivesse os Seus ossos quebrados? Pois este era o costume comum, como vemos. Eles não queriam poupá-lO, e Ele estava no meio dos ladrões, para ser tido, por assim dizer, como o mais detestável, para ser reputado o principal entre os homens e os criminosos ímpios. Vemos, então, que Deus estava aqui em operação quando Ele reteve as mãos dos guardas, e até que Seu Filho expirasse, a fim de ser preservado, e para que tenhamos aqui um sinal evidente que era nEle que a verdade desta antiga figura tinha que ser cumprida. Assim, então, é preciso notar que o Filho de Deus foi preservado de toda quebra de Seus ossos, a fim de que possamos nos apegar a Ele como nosso cordeiro pascal, Quem nos preservar da ira de Deus, quando somos marcados com o Seu sangue. Pois devemos concluir que, se Ele é a nossa Páscoa devemos ser aspergidos pelo Seu sangue, pois sem isso, não nos aproveita nada que ele tenha sido derramado. Mas quando O aceitamos com este sacrifício, também encontramos ali a remissão dos nossos pecados, sabendo que até que Ele nos lave e nos purifique, somos cheios de contaminação. Então, nós somos aspergidos pelo Seu sangue, por meio dessa aspersão que é feita em nossas almas pelo Espírito Santo. Então somos purificados e Deus nos aceita por Seu povo, e estamos seguros; embora a Sua ira e Sua vingança esteja sobre todo o mundo, contudo Ele nos considera em piedade e nos têm como Seus filhos. Isso, então, é o que temos que lembrar a partir dessa passagem, quando se diz que os ossos de nosso Senhor Jesus não foram quebrados, a fim de que possamos conhecer que o que foi declarado por uma figura na Lei, foi ratificado em Sua pessoa.

No entanto, é dito também: “e logo saiu sangue e água. E aquele que o viu testificou, e o seu testemunho é verdadeiro” [João 19:34-35]. Quando vemos que a água e sangue assim saíram, isso deve lembrar-nos de nossa purificação e o acordo para limpar os nossos pecados, de fato, por Seu sacrifício, como São João fala em sua Carta Canônica (1 João 1:7). É verdade que o sangue será capaz de coagular após a morte, isso ocorre por natureza, e com o sangue, a água pode vir, isto é, a maior parte do fluido, uma vez que a cor e a parte mais grossa do sangue terá coagulado. Mas São João declarou que embora isso ocorra, Deus quis mostrar nisso que a morte de Seu Filho nos beneficia: a saber, em primeiro lugar, que pelo derramamento de sangue Ele é satisfeito conosco, como é dito que nenhuma remissão dos pecados é possível sem derramamento de sangue. Por isso é que desde o princípio do mundo sacrifícios foram oferecidos. Deus certamente declarou que Ele seria propício a todos os pobres pecadores que tivessem esperança nEle; mas Ele desejou que os sacrifícios fossem adicionados, como se Ele dissesse que a remissão dos pecados seria dada gratuitamente aos homens, porque eles de si mesmos não poderiam trazer nada de si próprios, mas que haveria o Mediador para solucionar este problema. Assim é como o sangue que fluiu do lado de nosso Senhor Jesus Cristo é o testemunho de que o sacrifício que Ele ofereceu é a recompensa por todas as nossas iniquidades, para que sejamos absolvidos diante de Deus. É verdade que devemos sempre nos sentir culpado daquele sangue, ou seja, que nos humilhemos e que sejamos conduzidos a um verdadeiro arrependimento, e que retiremos de nós toda presunção. Mas, isso possa ser, somos assegurados de que Deus nos considera inocentados e absolvidos pelo nome de Seu Filho, quando chegamos a reconhecer nossas falhas e ofensas. E por quê? Na medida em que o sacrifício de Sua morte é suficiente para apagar a memória de todas as nossas transgressões. Ora, não é a água que implica purificação. Para que, então, sejamos lavados de todas as nossas máculas, reconheçamos que o nosso Senhor Jesus desejou que a água fluísse de Seu lado para declarar que realmente Ele é a nossa pureza e que não devemos buscar qualquer outro remédio para lavar qualquer de nossas manchas. Isso, então, é como Ele veio com água e com sangue, e por este meio, significa que temos toda a perfeição da salvação nEle, e não devemos vagar aqui ou ali, para que sejamos ajudados de um lado e outro.

Na verdade, quando olhamos mais de perto, veremos que há uma notável semelhança entre o sangue e a água que fluiu do lado de nosso Senhor Jesus Cristo, e os Sacra-mentos da Igreja, pelo que nós temos a prova e selo do que foi feito em Sua morte. Por ter suportado o que era necessário para a nossa salvação, tendo plenamente satisfeito Deus Seu Pai, tendo nos santificado, tendo adquirido para nós a justiça plena, Ele dese-java que tudo isso fosse testemunhado nos dois sacramentos que Ele instituiu, os dois sacramentos. Pois, nenhuns outros instituídos em Sua Palavra, a saber, do que o Batismo e a Ceia do Senhor. Todo o restante é apenas imaginação frívola que veio da audácia e ousadia dos homens. Contemplem, então, o nosso Senhor Jesus Cristo, que mostra o poder da Sua morte e paixão, tanto no batismo como na Sua Santa Ceia. Pois no Batis-mo, temos o testemunho de que Ele lavou e nos purificou de toda a nossa contaminação, de forma que Deus nos recebeu em graça, como se viéssemos diante dEle puros e limpos. Agora reconheçamos que a água do Batismo não tem esse efeito. Como pode um elemento corruptível ser suficiente para a lavagem e purificação de nossas almas? Mas isso acontece na medida em que a água fluiu a partir do lado de nosso Senhor Jesus Cristo. Passemos, então, para Aquele que foi crucificado por nós, se quisermos que o Batismo seja útil para nós, se quisermos experimentar o fruto dele, que a nossa fé seja dirigida ao nosso Senhor Jesus Cristo, que deseja que busquemos todos os elementos de nossa salvação nEle, sem divagarmos e nos inclinarmos aqui e ali. E, em seguida, na Santa Ceia, temos testemunho de que Jesus Cristo é o nosso alimento. E sob o pão, Ele nos representa o Seu corpo, sob o vinho Seu sangue. Esta, então, é a perfeição completa da salvação, quando estamos assim purificados, e Deus nos aceita como se tivéssemos apenas integridade e justiça em nós e por isso somos absolvidos diante dEle de sermos por mais tempo condenáveis, uma vez que nosso Senhor Jesus Cristo fez plenamente a satisfação por nós. Assim, então, é como devemos nos beneficiar com os Sacramentos, aplicar-nos com toda a nossa fé em nosso Senhor Jesus Cristo, e não nos voltando para qualquer criatura em absoluto. Essa também é a forma como devemos ter a certeza do que foi feito na morte e a paixão de Nosso Senhor Jesus, e que a nossa memória seja diariamente atualizada ao nos mostrar Deus o quanto Ele valoriza o fato de que do lado de nosso Senhor Jesus Cristo procedeu sangue e água.

Portanto, isto é, em síntese, o que temos que lembrar sobre o relato de que o lado de nosso Senhor Jesus Cristo foi traspassado. Na verdade, também nesta palavra, quando se diz que a Escritura foi cumprida, que possamos reconhecer o que foi já dito mais lon-gamente, isto é, que todos foram governados pelo conselho secreto de Deus, e, apesar de que os guardas não soubessem o que estavam fazendo, mas Deus colocou em vigor e execução o que Ele havia pronunciado tanto por Moisés quanto por Seu Profeta Zacarias. Nós já vimos o testemunho de Êxodo. São João acrescenta também o do profeta Zacarias,

“[...] olharão para mim, a quem traspassaram” [Zacarias 12:10].

É verdade que Deus usa isso por força de expressão, pois Ele despreza os condenadores de Sua Palavra que foram endurecidos em cada rebelião e malícia. Ou talvez, Ele diz: “Parece que eles fazem a guerra contra os homens que pregam a Minha Palavra, e que podem impedi-los por estes meios. Agora é contra Mim que eles pelejam quando assim desprezam e rejeitam a Minha Palavra, isso é como se eles me ferissem por golpes de punhal; e assim eles verão Aquele a quem traspassaram”. Mas isso foi realmente cumprido na pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo; pois mesmo em Seu corpo humano Ele foi traspassado. Assim, então, é como Ele foi declarado o Deus vivo, que tinha falado em todos os tempos pelos Seus profetas, já que em Sua pessoa tudo o que havia sido prometido é visto.

Agora é dito, consequentemente, que José, tendo obtido a permissão de Pilatos para que o corpo de Jesus Cristo fosse retirado da cruz, e que fosse dado a ele para o sepultamen-to, tinha uma mortalha limpa e havia comprado também alguns unguentos aromáticos (de fato, por uma grande soma de dinheiro, como é dito por São João) de mirra e aloés, e que ele O sepultou em um sepulcro novo, que tinha feito para si mesmo, que fora escavado em rocha. Neste sepulcro, nosso Senhor Jesus Cristo já começou a mostrar o resultado de Sua morte, ou seja, Ele logo havia de vir na glória de Sua ressurreição, e Deus quis manifestá-lO completamente. Este, então, é ainda um testemunho infalível, que, entre tantas confusões do que lemos na narrativa que poderiam nos perturbar e agitar a nossa fé, percebemos que Deus sempre cuidou de Seu único Filho como a Cabeça da Igreja, e o Seu Bem-Amado, não somente a fim de que sejamos capazes de esperar nEle, mas para que esperemos confiantemente, pois somos membros do Seu corpo, de forma que o cuidado paternal de Deus também certamente será estendido para nós e para cada um daqueles que esperam nEle.

No entanto, pode-se perguntar por que o nosso Senhor Jesus Cristo desejava ser sepultado com tanto cuidado. Pois certamente parece que tal suntuosidade, como aloés, mirra, e tais coisas eram supérfluos. Na verdade, que bem é para uma pessoa morta que seja lavada ou ungida ou uma grande ostentação seja feita em homenagem a ela? Parece, então, que isso não estava em harmonia com o ensinamento do Evangelho, onde se diz que nós ressuscitaremos no último dia através do poder inestimável do nosso Deus. Assim, parece que toda essa pompa deveria ser rejeitada e esquecida. Consequentemente, pode-se julgar que José tinha uma devoção tola, o que tenderia a obscurecer a esperança da ressurreição. Mas temos que observar que os Judeus tinham tais cerimô-nias até que o nosso Senhor Jesus Cristo realizasse o que era necessário para a nossa salvação. Dentre os quais estavam o sepulcro, os sacrifícios, e lavagens, e as luzes do Templo, e todas as coisas semelhantes. Pois aquelas pessoas, como se fossem incultas, tinha que ser tratadas como crianças. É verdade que, por todo o mundo, o túmulo é considerado sagrado, e Deus quis que isso fosse gravado no coração dos homens, mesmo dos pagãos, a fim de que não houvesse nenhuma desculpa a todos os homens a se tornarem como brutos, não tendo nenhuma esperança de uma vida melhor. Os pagãos têm abu-sado disso. Mas, seja como for, eles serão reprovados por isso para o último dia, que eles tinham um grande cuidado em enterrar os mortos, de forma que não havia nenhuma nação tão bárbara de modo que eles negligenciassem o sepultar dos seus mortos. Eles não sabiam o motivo disso mais do que qualquer dos seus sacrifícios, mas foi uma condenação suficiente, quando permaneceram afastados da verdade de Deus e corromperam o testemunho que Ele lhes deu, a fim de atraí-los para a fé na vida celestial. Seja como for, o túmulo em si sempre foi, por assim dizer, um espelho da ressurreição. Porque os corpos são colocados na terra como que para jazerem por um tempo. Se não hou-vesse ressurreição de modo algum, seria muito bom jogá-los fora, a fim de que eles fossem comidos por cães ou por animais selvagens. Mas eles foram enterrados honrosamente, para mostrar que eles não pereceriam absolutamente, embora eles entrassem em decadência. Especialmente os Judeus tinham algumas cerimônias. É verdade que os Egípcios os superaram de várias maneiras, mas estas eram apenas fanfarras ao fazerem uma grande festa de luto, ao lamentarem-se, cortando o seu cabelo. Os egípcios, então, fizeram isso, mas o diabo os tinha enfeitiçado para que eles pervertessem toda a ordem. Quanto aos Judeus, que fizeram uso da sepultura, isso foi para confirmá-los na fé da ressurreição.

Então, seguindo o que eu comecei a dizer, nosso Senhor Jesus estava disposto a ser sepultado de acordo com o costume antigo, porque Ele ainda não tinha cumprido toda a nossa salvação com respeito à ressurreição. É verdade que o véu do Templo rasgou-se em Sua morte. E por meio disso, Deus mostrou que era chegado o fim e perfeição de todas as coisas, e que as figuras e as sombras da Lei já não permaneciam. No entanto, isso ainda não era evidente para o mundo, e não havia ninguém que fosse capaz de reconhecer que, em Jesus Cristo, todas as figuras da Lei haviam chegado ao fim. Por esta causa, então, Ele ainda desejava ser sepultado. Agora nós sabemos que na ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo a vida foi adquirida para nós, de modo que devemos ir direto a Ele, não procurando outros meios para nos conduzir além daqueles que Ele nos designou. Já dissemos que Ele nos deu dois sacramentos para nos servir como confirmação completa. Se a forma de sepultamento que os Judeus observavam fosse necessária para nós, não há dúvida em absoluto que Jesus Cristo desejaria somente que isso se mantivesse permanente em Sua Igreja. Mas já não é necessário que a nossa atenção esteja presa por estes elementos terrenos e pueris. É-nos suficiente, então, termos uma forma simples de sepultamento, deixando estes unguentos aromáticos, que não tipificam a ressurreição, que foi manifestada em nosso Senhor Jesus Cristo. Nós apenas nos separaríamos dEle, se quiséssemos ter tal instrução inferior. Pois vemos que São Paulo diz:

“Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus” (Colossenses 3:1),

e devemos estar unidos ao nosso Senhor Jesus (1 Coríntios 6:17). Cheguemos até Ele, não estejamos envolvidos em qualquer coisa que possa distrair-nos, impedir-nos, ou retardar-nos de estarmos unidos a Ele como a nossa Cabeça, pois é dito que o Seu corpo era o Templo de Deus. Isso, então, em resumo, é o que temos que lembrar sobre a sepultura.

Há ainda a considerar que Ele foi colocado em um sepulcro novo, isto não foi feito à parte da providência especial de Deus, pois Ele bem poderia ter sido colocado em um sepulcro que tinha servido por muito tempo. Também José de Arimatéia tinha seus antepassados, e, geralmente, em tais casas ricas e opulentas há um sepulcro comum. Mas Deus previu isso a partir de outro ponto de vista, e quis que o nosso Senhor Jesus fosse colocado em um sepulcro novo, no qual nenhuma pessoa ainda havia sido posta. Pois, absolutamente, também não foi sem motivo que Ele é chamado de as primícias da ressurreição e o primogênito dentre os mortos. No entanto, pode-se dizer que muitos morreram e foram feitos participantes da vida antes de nosso Senhor Jesus Cristo. Lázaro tinha sido ressuscitado. E também sabemos que Enoque e Elias foram levados sem morte natural, e foram reunidos em vida incorruptível. Mas tudo isso dependia da ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. Devemos, então, nos apegarmos a Ele como as primícias. Na Lei os frutos de um ano eram dedicados e consagrados a Deus, quando eles traziam apenas um punhado de trigo no altar, e um cacho de uvas. Quando, então, isso era oferecido a Deus, era uma consagração geral de todos os frutos do ano. E quando também os primogênitos eram dedicados a Deus, isso declarava a santidade da linhagem de Israel, e que Deus o aceitou por Sua herança, pois Ele reservou em Si mesmo estar satisfeito com aquele povo, como um homem se contenta em seu patrimônio. Além disso, quando chegarmos ao nosso Senhor Jesus Cristo, reconheçamos que em Sua pessoa todos nós somos dedicados e oferecidos, a fim de que Sua morte possa nos dar a vida hoje, e que não sejamos mais mortais, como anteriormente. Isso, então, é o que temos que observar com relação ao sepulcro novo, que o sepulcro de nosso Senhor Jesus Cristo deve conduzir-nos à Sua ressurreição.

No entanto, olhemos para nós mesmos. Pois, embora tudo que deve ajudar a nossa fé foi cumprido na pessoa do Filho de Deus, embora tenhamos testemunho daquilo que deve ser suficiente para nós, ainda em nossa rudeza e fraqueza permanecemos muito longe de chegar ao nosso Senhor Jesus Cristo. E por esta razão que cada um de nós reconheça seus defeitos, para que alcancemos os remédios, e não percamos a coragem. Nós vemos o que Nicodemos e José fizeram. Agora, temos de considerar duas coisas para o nosso exemplo. A primeira é que eles ainda não estão claramente iluminados sobre o fruto da paixão e morte de nosso Senhor Jesus Cristo. Há, então, alguma crueza e sua fé ainda é muito pequena. A outra, que, no entanto, em tal extremo eles lutaram contra todas as tentações, e eles vieram buscar o nosso Senhor Jesus morto para colocá-lO no sepulcro, protestando que eles estavam esperando a bendita ressurreição que havia sido prometida a eles, e eles aspiravam por isso. Já que é assim, então, quando nós experimentamos alguma fraqueza em nós, que ainda não sejamos impedidos de tomar coragem. É verda-de que somos fracos, e Deus poderia nos rejeitar, se Ele nos tratasse em rigor. Mas quando experimentamos essas falhas, deixe-nos saber que Ele aceitará o nosso desejo, embora seja imperfeito. Além disso, hoje, uma vez que o nosso Senhor Jesus ressuscitou em glória, embora ainda tenhamos que suportar aqui muitas privações e misérias, e embora pareça que diariamente Ele é crucificado em Seus membros, como verdadeiramente o ímpio, tanto quanto está em seu poder, O crucifica; não desfaleçamos por conta disso, sabendo que não seremos decepcionados com o que nos é prometido no ensino do Evangelho, e, embora nós passemos por muitas aflições, contudo olhemos sempre para a nossa Cabeça. José e Nicodemos não tinham esta vantagem que nós temos hoje, em absoluto, ou seja, o contemplar do poder do Espírito de Deus, que se manifestou na ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. Ainda assim, nesta consideração, a fé deles não foi completamente amortecida.

Agora, uma vez que o nosso Senhor Jesus nos chama para Si mesmo, e com grande voz Ele declara-nos que Ele subiu ao céu, a fim de que todos nós nos reunamos ali, vamos persistir constantemente em buscá-lO e segui-lO, e não consideramos como uma coisa má o morrer com Ele para que sejamos partícipes da Sua glória. Agora São Paulo nos exorta a conformar-nos com Jesus Cristo, não somente no que diz respeito à Sua morte, mas também em relação ao seu sepultamento (Romanos 6:4, Colossenses 2:12). Porque há alguns que se contentam em morrer com o nosso Senhor Jesus por um minuto de tempo, mas com o tempo eles se cansam. Por esta razão, eu disse que nós devemos morrer, não somente uma vez, mas devemos sofrer pacientemente que sejamos sepultados continuamente, até o fim. Eu chamo de morte, quando Deus quer que nós resistamos assim por Seu nome. Porque, embora não estejamos, a princípio, arrastados para o fogo ou condenados pelo mundo, mas, quando somos aflitos, já é uma espécie de morte que tenhamos que suportar com paciência. Mas, porque não somos tão logo humilhados, temos que ser espancados por um longo tempo, e nisto devemos perseverar e persistir em paciência. Porque, assim como o diabo nunca deixa de planejar o que é possível para distrair-nos e corromper-nos, assim, durante toda a nossa vida não devemos deixar de lutar contra ele. Embora esta condição seja difícil e tediosa, esperemos pelo tempo que virá quando Deus nos chama para Si mesmo, e nunca deixemos de fazer a confissão de nossa fé, e nisto sigamos a Nicodemos, mas não em sua timidez. Quando ele veio anteriormente ao Senhor Jesus Cristo, ele ocultou-se, e ele não se atreveu a mostrar-se um verdadeiro discípulo, mas quando ele veio para sepultar o nosso Senhor Jesus, ele declarou e protestou que ele era do número e da comunidade dos crentes. Já que é assim, sigamos hoje tal constância. E, apesar de nosso Senhor Jesus, com a doutrina de Seu Evangelho, ser odiado pelo mundo, na verdade eles O seguiram em ódio, não deixemos de aderir a Ele. Reconheçamos mesmo que Ele sempre será toda a nossa felicidade e satisfação, quando Deus aceitará nosso serviço, e nos deixar saber que, se devemos definhar neste mundo, o fato de que o nosso Senhor Jesus veio na glória de Sua ressurreição não é absolutamente a fim de estar separado de nós, mas que na hora certa Ele nos reunirá para Si mesmo.

Além disso, alguém não deve ser surpreendido que o nosso Senhor Jesus ressuscitou dos mortos ao terceiro dia. Pois é muito apropriado que Ele tivesse algum privilégio acima da ordem comum da Igreja. Nisto também se cumpriu o que é dito no Salmo 16:

“Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” (Salmos 16:10)

O corpo de nosso Senhor Jesus Cristo, então, teve que permanecer incorruptível até o terceiro dia. Mas Seu tempo foi definido e estabelecido pelo conselho de Deus, Seu Pai. De nossa parte, não temos tempo determinado, com exceção do último dia. Por isso, esperemos até que tenhamos definhado enquanto isso agradar a Deus. No final, sabe-remos que na hora certa Ele encontrará meios para nos restaurar, depois que tenhamos sido totalmente aniquilados. Como também São Paulo nos exorta a isso, quando ele diz que Jesus Cristo é as primícias (1 Coríntios 15:20, 23). Isso é para retardar o zelo ardente com que às vezes somos fortemente tomados. Pois queremos voar sem asas, e nós nos ofendemos se Deus nos deixa neste mundo, e por que ao primeiro sinal de luta Ele não nos retire ao céu. Queremos ser levados para lá em uma carruagem de fogo, como Elias. Em resumo, queremos triunfar antes de ter lutado. Agora, para resistirmos a tal cupidez e esses desejos tolos, São Paulo diz que Jesus Cristo é as primícias, e temos que estar convencidos de que em Sua morte, temos uma garantia segura da ressurreição. Assim é, uma vez que Ele está sentado à direita de Deus Pai, exercitando todo o domínio tanto acima como abaixo; contudo Sua majestade ainda não apareceu, e nossa vida deve estar escondido nEle, para que estejamos ali como pobres pessoas mortas, e que, enquanto vivermos neste mundo sejamos como pobres pessoas perdidas. No entanto, é adequado para nós sofrermos tudo isso até que o nosso Senhor Jesus venha. Pois, em seguida, a nossa vida será manifestada nEle, ou seja, no momento adequado.

 

Este, então, é o que temos que observar com relação ao sepulcro de nosso Senhor Jesus Cristo, até que cheguemos ao fim, que nos mostrará que Ele não somente fez propiciação por todos os nossos pecados, mas também tendo obtido a vitória, Ele adquiriu para nós a perfeição de toda a justiça, pela qual somos hoje aceitáveis a Deus, para que tenhamos acesso a Ele, e para invocá-lO em nome de Cristo. E nessa confiança que nos curvemos em humilde reverência diante de Sua Majestade Santa, oremos a Ele para que Ele possa nos receber em misericórdia; que embora sejamos pobres e miseráveis, nós não deixemos de ter o nosso refúgio em Sua misericórdia. Apesar de que dia a dia provoquemos a Sua ira contra nós, e embora justamente mereçamos a ser rejeitados por Ele, possamos esperar, no entanto, que Ele mostre o fruto e o poder da morte e paixão que Seu único Filho sofreu, por que nós fomos reconciliados, e que não duvidemos que Ele é sempre Pai para nós, principalmente quando Ele nos fará o favor de mostrar que somos verdadeiramente Seus filhos. Que possamos a declarar isso em verdade, de tal forma que não pedimos nada, exceto que sejamos completamente Seus, como também Ele nos comprou por tal preço, e com razão que sejamos totalmente reformados para o Seu serviço. Na medida em que nós somos tão fracos que não sabemos como realizar a centésima parte do nosso dever, que Ele ainda opere em nós pelo Seu Espírito Santo, porque sempre a fraqueza da nossa carne carrega consigo tantas pelejas e lutas que apenas podemos arrastar-nos para frente, em vez de andarmos corretamente.

Que possa agradar-Lhe retirar-nos de tudo isso, e que possamos ser unidos a Ele.

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♦ Fonte: Monergism.com
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida e Fiel)

♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira

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O Poder do Não-Conformismo – Charles Haddon Spurgeon

Extraído de A Espada e a Espátula, Julho de 1876.

A NÃO-CONFORMIDADE na Inglaterra foi, a princípio, um protesto contra os erros da igreja estabelecida por lei, na atualidade é um protesto contra a criação de qualquer igreja pelo estado, seja qual for. Na área liberal de seu protesto ele é levado a usar outras armas além das empregadas no início, e dar maior destaque do que uma vez já fez por questões outrora consideradas como de pequena importância: nosso temor é que as armas mais baixas coloquem as mais nobres para fora da moda, e os objetivos secundários ofusquem as intenções primárias. Pensamos ser correto lutar seriamente contra a aliança profana entre a igreja e o estado, e usar o poder político com o que somos confiados para promover os princípios da igualdade religiosa. Que o melhor sucesso atenda aos esforços daqueles que dedicam as suas vidas a esse objeto em sua própria maneira. Desejamos que Deus lhes dê êxito, com todo o nosso coração. Ainda assim, o poder real da não-conformidade nunca será aumentado nos palanques; ele poderá ser exibido lá de tempos em tempos para fins nobres, mas ele não é conquistado nem promovido ali. Ministros fazem bem em votarem, e expressarem as suas opiniões para a orientação de seu povo, mas na proporção em que a pregação se torna política, e o pastor afunda o espiritual no temporal, a força é perdida e não adquirida. Os Romanistas obtêm o poder por várias manobras e dispositivos que não usaríamos nem se pudés-semos; seu reino é deste mundo, e eles não são lentos para usar todos os métodos dos filhos deste mundo para a obtenção de seus objetivos; os Dissidentes nunca serão poderosos desta forma. Esperamos que nunca haverá uma charanga Não-conformista na Câmara dos Comuns, pronta a aliar-se com qualquer uma das partes, a fim de obter revigorantes privilégios para o seu clã, nem os homens em ofício serão secretamente influenciados e induzidos a apadrinhar os Dissidentes pela esperança de acalmar socie-dades secretas de não-conformistas rebeldes. A Igreja da Inglaterra também não tem escrúpulos para os seus próprios fins ao aliar-se com os partidários do comércio de bebi-das, e escrever sobre as suas bandeiras “Cerveja e Bíblia”, a este ponto é de se esperar que os Dissidentes nunca virão; nem isso jamais será suportada pelo interesse territorial, a nobreza, e o grande exército de pessoas cujas posições são mais ou menos misturadas com a conservação das coisas como elas são. Nós estamos em grande medida excluídos do uso de instrumentos que os outros possuem em abundância, e é bom que seja assim, pelo menos nós pensamos que isso seja bom, e muitos outros concordam conosco nesta opinião.

Nossos antepassados deixaram a Igreja da Inglaterra por causa dos graves erros de seu livro de orações, a sua forma de governo da igreja, e sua forma de procedimento eclesiástico. Sobre fundamentos espirituais, eles a deixaram, e sofreram a perda de todas as coisas. Eles não poderiam ser verdadeiros homens e assinar as doutrinas dela, nem pastores honestos, se eles sancionassem a frouxidão de disciplina dela, nem fiéis às suas convicções, se rendessem fidelidade aos seus prelados. Sua piedade, tanto quanto o seu credo os expulsou, e lhes fez um poder na terra, apesar da perseguição que eles sofreram. Pouquíssimo deles se opuseram a uma igreja-estatal, como tal; provavelmente a maioria deles concordou com uma ideal igreja da nação, embora a personificação real disso fosse desagradável para eles; nisto os temos ultrapassado, e nós devemos ser gratos por nossa maior luz. Mas a estreiteza de seu protesto pode muito ter tendido a aumentar a sua força. Eles fixaram os seus olhos sobre os males doutrinais e práticos de primeira grandeza, e voltaram a sua energia indivisível nessa direção; nós não obscurecemos o que nós adicionamos, mas anelamos as primeiras coisas originais que foram mais tenazmente sustentadas. A espiritualidade da mente era a arma do Puritano contra a formalidade religiosa, o ensino doutrinário era o seu escudo contra o Papado; por meio da disciplina vigilante na igreja, eles protestaram contra a maioria estabelecida; e por uma manutenção cuidadosa da devoção familiar, cada um sendo um sacerdote em sua própria casa, eles substituíram os serviços diários do campanário e as pretensões do sacerdote da paróquia. A vida e o poder do evangelho fizeram da casa de reunião, o recanto de homens piedosos, e tornaram impossível que o pároco pago pelo Estado com informantes, oficiais de justiça e magistrados do condado em suas costas acabassem com a Dissi-dência. Estes santos homens não tinham influência na cabine de votação, mas eles eram poderosos no propiciatório; eles não estavam em lugar nenhum no dia da eleição, mas eles iam por toda parte pregando a Palavra. Daí veio o seu reconhecido poder, e daí deve vir também o nosso.

Infelizmente, houve momentos de praga miserável, quando o Não-conformismo tornou-se respeitável, intelectual, frio e mundano. Sua grande antagonista e ele mesmo igualmente sentiram o poder mortal do Arianismo, e então é verdade que ele procurou justificar a sua posição, e apelou para os direitos do homem em vez de apelar para a verdade de Deus. Pequeno o suficiente foi o seu sucesso. A ascensão do Metodismo sob Whitefield e Wesley fizeram mais pelo Não-conformismo do que todos os agitadores que já viveram pela liberdade religiosa. O objetivo almejado era a glória de Deus e a conversão das almas, o fim obtido foi o despertar das igrejas e o avivamento da doutrina evangélica, mas como uma consequência mais remota, toda a posição de Dissidentes foi elevada, e tornou-se impossível retê-los. Como uma força vulcânica que não pode ser mantida sob controle, mas move todas as coisas de acordo com sua vontade, o poder vital da piedade causou uma agitação geral, e atirou ao chão as instituições de perseguição que pareciam estar construídas sobre uma rocha. A despertada igreja Deus começou novamente a buscar primeiro o reino de Deus e a Sua justiça, e as outras coisas foram adicionados a ela, aquelas pelas quais ela mal esperava. Ela não mais agarrou a arma de madeira do mero intelecto, mas tomou por Sua palavra de ordem “Espada do Senhor, e de Gideão” [Juízes 7:20], e as suas vitórias foram certas.

Neste momento julgamos necessário insistir que o poder real do Não-conformismo ainda deve ser encontrado na verdadeira doutrina, vida santa, zelo ardente e fé simples. Busquem, por todos os meios, aquela reforma que dará igualdade religiosa a todos os homens, mas não negligenciem o mais importante; “deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas” [Mateus 23:23]. Se nossos púlpitos se tornarem infectados com erros que obscureceram a expiação, se nossos membros tornarem-se mundanos e mornos, e se a vida de piedade e de poder da oração tornam-se fracos em nossas igrejas, a força essencial da Não-conformidade terá findado. As assinaturas para a Sociedade de Libera-ção podem não ser diminuídas por uma geração, e os fundos de nossas várias institui-ções podem até mostrar um aumento, mas o verme está na raiz, e em pouco tempo certamente aparecerá, se a espiritualidade estiver em decadência e a verdade for subestimada. Nada pode servir aos propósitos da nossa igreja semi-papal tanto quanto a Dissidência não-espiritual. “Fui levado a uma igreja paroquial”, disse-nos um Batista devoto, noutro dia “porque o único lugar dissidente perto de mim era uma capela independente, onde o ministro não pregava o evangelho como eu estava acostumado a ouvi-lo; não, nem evangelho de modo algum. Eu encontrei mais alimento para a minha alma ouvindo um clérigo evangélico do que na capela, e assim que eu fui para a igreja, extremamente contra a minha vontade”. Ouvimos os outros dizerem, “As pessoas da capela Batista estavam tão mortas, e de tão elevada doutrina, que eu não conseguia me unir a eles. Fui a vários quilômetros para ouvir um pároco auxiliar piedoso em uma pequena igreja, e embora em me desagrade bastante de uma forma de oração, eu a aturo por causa do evangelho que o bom homem pregou”. Essas coisas não deveriam ocorrer; mas tememos que elas estejam se tornando muito comuns.

Quando a antiga fé ortodoxa é pregada com o Espírito Santo enviado do céu, e os erros são apontados claramente e a verdade declarada, nosso povo se torna Dissidente na espinha dorsal; mas nenhum verdadeiro homem de Deus sacrificará as doutrinas vitais da Palavra de Deus, e o bem de sua alma e a esperança de ver os seus filhos convertidos, pelo que é uma questão importante, contudo, ainda assim, uma questão secundária. Tememos que em determinados bairros Não-conformistas há a necessidade de clamar, “Salve-me de meus amigos”. A “cultura moderna” está minando a estrutura que eles professam construir, os pretendentes à pregação intelectual estão nublando o evangelho que eles deveriam proclamar, e os senhores de gosto estético estão imitando o ritualismo contra o qual protestar deveria ter sido o seu primeiro empreendimento. Confessamos que não entendemos de modo algum por que certas pessoas estão conosco, eles estariam mais apropriadamente do lado oposto. Um Não-conformista, e ainda usa uma liturgia! Se um homem pode trazer a sua mente a um serviço litúrgico é um mero capricho que o faz buscar uma melhoria nesta nossa Igreja Nacional. Um Dissidente que não sabe por que ele discorda, e somente o faz por motivos políticos, ou a partir da força da educação, é uma fraqueza para aqueles com quem ele é contado; mas um Dissidente que realmente leva os outros para a própria igreja da qual ele professa a dissidência é muito pior, ele é um traidor no acampamento e não deveria ser suportado. Se tivéssemos um decreto contra as partes aqui pretendidas, nós não nos alongaríamos em encontrá-los.

Precisamos neste momento fazer o nosso protesto espiritual e doutrinal mais claro do que tem sido. Uma sociedade poderosa representa nossas demandas políticas, mas não temos nenhuma organização que exista para promover os nossos projetos muito mais elevados. Por que isso? A Dissidência está representada politicamente, mas não doutrinariamente. Como este vem a ser o caso? Certamente o segundo é de longe o mais impor-tante. Se a atual igreja Anglicana fosse dissolvida amanhã, deveríamos conscientemente nos apartar dela mais do que nunca, pois as nossas diferenças são solenes, graves e vitais; e não somos confinados em absoluto ao seu ser uma igreja estatal. É uma pena que este fato seja tão pouco lembrado. Como é que os Não-conformistas são tão pouco instruídos nos grandes princípios religiosos que justificam sua posição distintiva? Como é que eles preocupam-se tão pouco em instruir os outros nos mesmos? É mais agradável falar de política do que pregar a Cristo? Há mais encantos em guerrear contra a carne e o sangue do que em lutar com as hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais? Nosso chamado é para sermos Dissidentes fora de moda, para sermos Protestantes doutrinais, para sermos piedosos Não-conformistas em relação ao mundo, para a mais profunda piedade e para a doutrina mais sã; devemos obtê-los ou a causa sucumbirá, e merecerá a ruína. A vida de Deus na alma é uma força que nada pode confundir, e isso tem o poder, como o da espada flamejante do querubim às portas do Éden, para girar em todos os sentidos: “Não há outra semelhante; dá-ma” [1 Samuel 21:9].

Nós podemos ser mal interpretados neste artigo, e alguns podem supor que somos inconstantes em nosso fundamento, mas eles errarão muito se eles pensarem assim. Antes, nós solicitamos que cada Cristão exercite o direito de voto e use os seus privilégios políticos como diante dos olhos de Deus, e ainda o fazemos com a mesma energia; mas isso não é de forma alguma tão vital, ou tão essencial para os melhores interesses do Não-conformismo como a solidez na fé, e a profundidade da piedade. Nós valorizamos a agência que protesta contra a injustiça de patrocinar uma seita, mas acreditamos que isso não é tudo; deveria haver uma ponderosa organização para objetivos espirituais, cujo empreendimento deve ser expor os pecados originais do corpo Anglicano, e evidenciar os crescentes erros dentro de seu âmbito. Se alguma vez foi necessário fazer este trabalho, é agora. Isso colocaria o machado à raiz da árvore, e realizaria muito mais no sentido de desestabilização do que qualquer outra agência que se possa imaginar, com a única exceção da própria Igreja, que está fazendo todo o possível para a sua própria derrota. De nossa parte, gostaríamos de ver uma vigorosa e evangélica igreja Episcopal nesta terra, livre do Estado, e purgada do Papado; não temos inimizade em nosso coração por qualquer ramo da verdadeira igreja de Cristo, antes desejamos vê-los florescer e encher a terra com fruto; mas a presente miscelânea deve ser encerrada ou reparada. Isso não pode ser descrito por qualquer termo, isso é bom e mau, é luz e trevas, é Papado e Protestantismo, e ao mesmo tempo o mal neutraliza o bem, o bem auxilia o mal a fazer o seu trabalho pernicioso. Oh! Senhor, por quanto tempo! Almas estão sendo arruinadas, vendidas pelo ensino da alta igreja geral, e a igreja baixa empresta a ajuda de sua asso-ciação ao trabalho mortal, isso comove a nossa própria alma. Se o partidarismo não termi-nar não teremos feito nada; mas o evangelho de Deus, o bem das almas, a honra de Jesus, todos demandam de nós que esta corporação maligna não siga sem repreensão, mas deve ser resistida com a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus. Não há nin-guém que pense conosco, e esteja capaz e disposto a fazer de nossa sugestão um fato?

Nossa Luta

“… irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo. Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais”.

A vida Cristã é repleta de paradoxos. Um deste é que não há povo mais pacífico, trajado de um espírito manso e quieto, que é precioso diante do Seu Deus, como o Povo Cristão; mas também, não há um Povo nesta terra que seja convocado a lutar uma guerra mais feroz, vigorosa e constante, quanto os amados Cristãos. Todavia, somos lembrados que “não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais”. E isso, confiando apenas na força e Vitória já conquis-tada por Seu Senhor e Capitão, portanto irmãos, “tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes”.

Se há um “dia mau” são estes em que vivemos. Uma luta pela Verdade está sendo trava-da, e precisamos estar sempre combatendo toda espécie de males que tentam atacar a Prescrição da Palavra de Deus para nossa fé e prática, e assim, buscam desonrar ao nosso Senhor e Rei Jesus.

Os inimigos, a nossa própria carne, o diabo, e o mundo.

Nossa vitória, garantida por Jeová.

Nosso uniforme, a veste puríssima de justiça nos dada pelas mãos de Emanuel.

Nossa arma, a Espada do Espírito,

Nosso Alvo e Prêmio, Cristo Jesus nosso Senhor.

O Caminho excelente a ser trilhado, o amor.

Sim, amor e verdade são como as pétalas de um botão de flor, tire apenas uma, e o todo é feito feio e arruinado. Se não for por amor à Verdade, e por amor a Jesus, irmãos, podemos ser “Não-conformistas” em relação ao Erro e ao mundo, mas os nossos corações não estarão conformados ao que o nosso Deus requer de nós, “que todas as nossas coisas sejam feitas com amor”, e que O amemos “de todo coração, e de toda alma, e de TODAS AS FORÇAS”. Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes”.

Esta breve exortação do Sr. Spurgeon fez-me pensar em muitas coisas, e especialmente lembrar de um texto querido, que em certo momento assim diz:

O verdadeiro conhecimento de Deus deve gerar não apenas instrução, sabedoria e ciência do Altíssimo, mas principalmente amor. O homem ama a Cristo, e por meio deste amor que produz obediência e conformação com a Sua santa vontade, glorifica a Deus, que é o fim último de toda a criação (1 Pedro 4:11). [...] Conheça a Cristo e ame-O. Este amor te controlará e fará proezas. Proezas de amor”.

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“A vida de Deus na alma é uma força que nada pode confundir, e isso tem o poder, como o da espada flamejante do querubim às portas do Éden, para girar em todos os sentidos: “Não há outra semelhante; dá-ma” [1 Samuel 21:9]”.

Que o Povo Cristão floresça, e encha a terra com frutos excelentes para o Seu Deus. Faça assim, Senhor, derrame de Seu orvalhar celestial, enche-nos do amor a Ti e ao Evangelho, vivifica-nos para que Te busquemos, que lutemos, em Teu Nome façamos proezas de amor, e vençamos, em, por e para Cristo Jesus.

Amém!

 

EC, 02 de Agosto de 2014.

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♦ Fonte: Spurgeon.org | Título Original: The Power of Nonconformity
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


O Mistério da Piedade – João Calvino

“E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória” (1 Timóteo 3:16)

São Paulo exortou Timóteo a comportar-se em seu ofício; mostrando-lhe que honra Deus lhe tinha concedido, em que Ele o estabeleceu para governar a Sua casa. Mostrou-lhe também que o próprio ofício era honroso; porque a Igreja sustém a verdade de Deus neste mundo, e que não há nada mais precioso, ou que mais deve ser buscado do que conhecer a Deus, e adora-lO e servi-lO, e ser irrepreensível em Sua verdade, para que possamos, assim, alcançar a salvação. Tudo isso é mantido seguro para nós: e assim, tão grande tesouro é entregue ao nosso cuidado, por meio da igreja; de acordo com as pa-lavras de São Paulo. Esta verdade é mui digna de ser mais altamente estimada do que é.

Que coisa misteriosa é essa, e quão maravilhosa é a questão: que Deus manifestou-Se em carne, e tornou-Se homem! Será que isso até agora não ultrapassa o nosso entendi-mento, de forma que quando somos informados disso, ficamos assombrados? No entanto, não obstante, temos uma prova plena e suficiente, que Jesus Cristo sendo feito homem, e sujeito à morte, é também o Deus verdadeiro, que fez o mundo e vive para sempre. Disso, o Seu poder celestial nos dá testemunho. Mais uma vez, temos outras provas: a saber, Ele foi pregado aos gentios; que antes estavam banidos do reino de Deus, e esta fé teve o seu curso em todo o mundo, a qual naquele tempo estava limitada entre os Judeus; e da mesma forma Cristo Jesus foi elevado às alturas, e entrou na glória, e está assentado à destra de Deus Pai.

Se os homens desprezam estas coisas, sua ingratidão será condenada, porque os próprios anjos por isso chegaram ao pleno conhecimento daquilo que antes eles não conheciam. Porque aprouve a Deus esconder deles os meios de nossa redenção, a fim de que a Sua bondade seja maravilhosíssima a todas as criaturas: assim, percebemos o sentido do que escreve São Paulo. Ele chama a igreja de Deus de o baluarte da Sua verdade; ele também demonstra que esta verdade é como um tesouro, devendo ser altamente estimada por nós. E por que isso? Observemos o conteúdo do Evangelho; Deus humilhou-Se, de tal maneira, que Ele tomou sobre Si nossa carne; para que nós nos tornássemos Seus irmãos. Quem é o Senhor da glória, para que Ele tanto humilhasse a Si mesmo como a juntar-se a nós, e tomar sobre Si a forma de servo, até mesmo a sofrer a maldição que era devida a nós? São Paulo compreendeu todas as coisas que Jesus Cristo recebeu em Sua pessoa; a saber, que Ele esteve sujeito a todas as nossas fra-quezas, mas, sem pecado.

É verdade que não há nenhum defeito nEle, antes toda pureza e perfeição. Ainda assim é: Ele tornou-se fraco como nós somos, para que Ele pudesse ter compaixão e ajudar a nossa fraqueza; como está estabelecido na epístola aos Hebreus (4:15). Aquele que não tinha pecado sofreu a punição a nós devida; e foi, por assim dizer, maldito de Deus o Pai, quando Ele Se ofereceu em sacrifício: de modo que através de Seus meios nós fôssemos bem-aventurados; e que Sua graça, antes oculta a nós, fosse derramado sobre nós. Quando consideramos essas coisas, não temos ocasião para estar maravilhados? Nós consideramos que Ser Deus é? Nós podemos, em nenhuma sabedoria alcançar a Sua majestade, que contém todas as coisas em Si; a qual mesmo os anjos adoram.

O que há em nós? Se lançarmos os nossos olhos sobre Deus, e, em seguida, adentramos em uma comparação, ai de mim! Chegaremos perto dessa altura que sobrepuja os céus? Não, antes podemos ter qualquer familiaridade com isso? Pois não há nada senão podridão em nós; nada, a não ser o pecado e a morte. Então deixem vir o Deus vivo, a fonte da vida, de glória eterna, e de poder infinito; e não apenas aproximar-se de nós, de nossas misérias, nossa desventura, nossa fragilidade, e este abismo sem fundo de toda iniquidade, que há nos homens; deixem que não somente a majestade de Deus se aproxime disso, mas que Ele Se una a isso, e faça-Se um com isso, na Pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo! O que é Jesus Cristo? Deus e homem! Mas como Deus e homem? Que diferença há entre Deus e o homem? Sabemos que não há nada em nossa natureza, senão miséria e desventura; nada senão um abismo sem fundo de odor fétido e infecção; e ainda assim, na pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo, nós vemos a glória de Deus que é adorada pelos anjos, e também a fraqueza do homem; e que Ele é Deus e homem. Não é isto algo secreto e oculto, digno de ser estabelecido em palavras, e da mesma forma suficiente para arrebatar os nossos corações! Os próprios anjos nunca poderiam ter pensado sobre isso, como aqui é observado por São Paulo. Considerando isso, aprouve ao Espírito Santo expressar a bondade de Deus, e mostrar-nos que devemos estimar isso como tão preciosa joia, cuidemos de nossa parte para que não sejamos ingratos, e tenhamos as nossas mentes caladas, de tal maneira que não provaremos disso, se não pudermos completa e perfeitamente compreendê-lo.

É o suficiente para nós para ter algum pouco conhecimento sobre este assunto; cada um deve contentar-se com a luz que lhe é dada, considerando a fraqueza de nosso julgamen-to; e anelando pelo dia em que o que agora vemos em parte, será total e perfeitamente revelado a nós. Ainda assim, não obstante, nós devemos empregar nossas mentes e os estudos neste caminho. Por que São Paulo chama isso de um mistério de fé, que Jesus Cristo, que é Deus eterno, manifestou-Se em carne? É como se ele dissesse, quando somos unidos a Deus, e feitos um só corpo com o Senhor Jesus Cristo, devemos contemplar o fim para o qual fomos criados; a saber, que possamos conhecer que Deus está unido e feito um conosco na Pessoa de Seu Filho.

 

Assim, devemos concluir que nenhum homem pode ser um Cristão, a menos que ele conheça este segredo que é descrito por São Paulo. Devemos agora examinar, e questionar homens e mulheres se eles conhecem o que significam essas palavras, que Deus foi manifestado em carne, malmente um a cada dez poderia produzir tão boa resposta quanto a que seria esperada de uma criança. E, no entanto, não precisamos nos maravilhar com isso; pois vemos que negligência e desprezo há na maior parte da humanidade. Nós mostramos e ensinamos diariamente em nossos sermões, que Deus tomou sobre Si a nossa natureza; mas como os homens de fato nos ouvem? Quem há aqui que se aflija sobremaneira para ler a Escritura? Há pouquíssimos que observam essas coisas; cada homem está ocupado com seu próprio negócio.

Se há um dia da semana reservado para a instrução religiosa, quando eles passaram seis dias em seu próprio negócio, eles estão aptos para passar o dia que é separado para o culto, em jogo e passatempo; alguns vagueiam ao redor dos campos, outros vão para as tabernas para beber em grandes tragos; e há, sem dúvida, neste momento, muitos como os últimos mencionados aqui enquanto eles estão reunidos em nome de Deus. Portanto, quando vemos tantos evitando e fugindo dessa doutrina, podemos nos maravilhar que haja tal brutalidade, de modo que não conheçamos os rudimentos do Cristianismo? Esta-mos aptos a considerar como uma língua estranha, quando os homens nos dizem que Deus Se manifestou em carne.

Todavia esta sentença não pode ser retirada do registro de Deus. Nós não temos nenhuma fé, se não sabemos que o nosso Senhor Jesus Cristo está unido a nós, para que nos tornemos Seus membros. Parece que Deus nos compele a pensar sobre este mistério, vendo que somos tão sonolentos e apáticos. Vemos como o diabo incitou aque-les antigos rixosos para que negassem a humanidade de Jesus Cristo e Sua Divindade, e, por vezes, misturaram a ambos; para que não percebêssemos as duas naturezas distintas nEle, ou então para nos levar a crer que Ele não é o homem que cumpriu as promessas da lei; e, consequentemente, descendeu da linhagem de Abraão e Davi.

É realmente o caso, que tais erros e heresias como havia na igreja de Cristo, no início, estão estabelecidas nestes dias? Observemos bem as palavras que são utilizadas aqui por São Paulo: Deus se manifestou em carne. Quando ele chama Jesus Cristo de Deus, ele admite esta natureza que Ele tinha antes que o mundo existisse. É verdade, há somente um Deus, mas nesta única essência devemos compreender o Pai, e uma sabe-doria que não pode ser separada dEle, e uma virtude eterna, que sempre esteve, e sempre estará dEle.

Assim, Jesus Cristo era verdadeiramente Deus! Como Ele era a sabedoria de Deus antes que o mundo fosse feito, e antes da eternidade. Diz-se que Ele se manifestou em carne. Pela palavra carne, São Paulo nos dá a entender que Ele era verdadeiro homem, e tomou sobre Si a nossa natureza. Pela palavra manifesto, Ele mostra que nEle havia duas naturezas. Mas não devemos pensar que há um Jesus Cristo que seja Deus, e um outro Jesus Cristo, que seja homem! Mas devemos somente compreendê-lO como Deus e homem. Distingamos, então, as duas naturezas que há nEle, para que saibamos que o Filho de Deus é nosso Irmão. Deus suporta as antigas heresias, que em tempos passados conturbaram a igreja, para produzir mais uma vez um movimento, em nossos dias, para estimular-nos à diligência. O diabo prossegue prestes a destruir este artigo de nossa crença, sabendo que esse é o principal suporte e esteio de nossa salvação.

Se não tivermos esse conhecimento que São Paulo fala, o que será de nós? Estamos todos no abismo da morte. Não há nada além de morte e condenação em nós, até que saibamos que Deus desceu para buscar-nos e salvar-nos. Até que sejamos assim ensinados, somos fracos e miseráveis. Portanto, o diabo andou fazendo tudo que pôde para abolir este conhecimento, para estraga-lo e misturá-lo com mentiras, para que ele pudesse arruinar isso completamente. Quando nós vemos tal majestade em Deus, como ousamos presumir nos aproximar dEle, vendo que somos cheios de miséria! Devemos recorrer a esta conexão da majestade de Deus, e do estado de natureza do homem, juntamente.

Façamos o que pudermos, nós nunca teremos qualquer esperança, ou seremos capazes de lançar mão da generosidade e bondade de Deus, de forma a retornar a Ele, e invocá-lO, até que conheçamos a majestade de Deus que está em Jesus Cristo; e também a fraqueza da natureza humana, que ele recebeu de nós. Estamos totalmente desprovidos do reino dos céus, o portão está fechado contra nós, de modo que não podemos entrar nele. O diabo tem aplicado toda a sua astúcia para perverter esta doutrina; vendo que a nossa salvação está fundamentada nela. Devemos, portanto, estar tanto mais confirmados e fortalecidos na mesma; para que nunca sejamos abalados, mas permaneçamos firmes na fé, que está contida no evangelho.

Antes de tudo, temos esta observação, que nunca conheceremos que Jesus Cristo é nosso Salvador, até que saibamos que Ele era Deus desde a eternidade. Aquilo que foi escrito ao Seu respeito por meio de Jeremias, o profeta, necessita ser cumprido: “Mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me entender e me conhecer, que eu sou o Senhor” (Jeremias 9:24). São Paulo demonstra que isto deve ser aplicado à Pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo, e por isso ele protesta que não se propôs a saber qualquer doutrina ou conhecimento, apenas para conhecer a Jesus Cristo.

Novamente, como é possível que tenhamos a nossa vida nEle, a menos que Ele seja o nosso Deus, e nós sejamos mantidos e preservados pela Sua virtude? Como podemos colocar a nossa confiança nEle? Porque está escrito: “Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor!” (Jeremias 17:5). Mais uma vez, como podemos ser preservados da morte, exceto pelo poder infinito de Deus? Mesmo que a Escritura não desse nenhum testemunho da Divindade de Jesus Cristo, é impossível que nós O reconheçamos como nosso Salvador, a não ser que admitamos que Ele possui toda a majestade de Deus; a não ser que nós reconheçamos que Ele é o verdadeiro Deus; porque Ele é a sabedoria do Pai através do qual o mundo foi feito, preservado e mantido em sua existência. Portanto, estejamos completamente resolvidos neste momento, sempre que falamos de Jesus Cristo, para que elevemos nossos pensamentos ao alto, e adoraremos essa majestade que Ele tinha desde a eternidade, e esta essência infinita que Ele desfrutou antes que Ele Se vestisse em humanidade.

Cristo foi manifestado em carne, isto é, tornou-se homem; semelhante a nós em tudo, mas sem pecado (Hebreus 4:15). Onde ele diz, mas sem pecado, ele quer dizer que o nosso Senhor Jesus era sem culpa ou defeito. No entanto, não obstante, Ele não se recusou a carregar os nossos pecados: Ele tomou esse fardo sobre Si, para que nós, por Sua graça, fôssemos aliviados. Não podemos conhecer a Jesus Cristo como sendo um mediador entre Deus e o homem, a não ser que O contemplemos como homem. Quando São Paulo anelou encorajar-nos a clamar por Deus em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, ele expressamente Lhe chama de homem. São Paulo diz: “Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1 Timóteo 2:5). Sob esta consideração, podemos, em Seu nome, e por Suas mediações vir familiarmente a Deus, sabendo que somos Seus irmãos, e Ele é o Filho de Deus. Vendo que não há nada, senão pecado na humanidade, precisamos também encontrar justiça e vida em nossa carne. Portanto, se Cristo não Se tornou verdadeiramente o nosso irmão, se Ele não foi feito homem semelhante a nós, em que condições estamos? Consideremos agora a Sua vida e paixão.

Diz-se (falando de Cristo), “Mas agora na consumação dos séculos uma vez se mani-festou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Hebreus 9:26). E por que isso? São Paulo nos mostra a razão em Romanos 5:18: “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida”. Se não conhecemos isso, que o pecado que foi cometido em nossa natureza, foi reparado em própria idêntica natureza, em que situação nós estamos? Sobre que fundamento nós mesmos podemos permanecer? Portanto, a morte de nosso Senhor Jesus Cristo não poderia beneficiar-nos minimamente, a menos que Ele fosse feito homem, semelhante a nós.

Novamente, se Jesus Cristo fosse apenas Deus, poderíamos ter alguma certeza ou promessa em Sua ressurreição, de que devemos um dia ressuscitar novamente? É verdade que o Filho de Deus ressuscitou; quando ouvimos dizer, que o Filho de Deus tomou sobre Si um corpo semelhante ao nosso, veio da geração de Davi, que Ele ressuscitou (vendo que a nossa natureza é por si só corruptível), e é elevado nas alturas à glória, na Pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo “somos levados a assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus” (Efésios 2:6). Por isso, aqueles que procuraram reduzir a nada a natureza do homem, na Pessoa do Filho de Deus, devem ser os mais abominados. Pois, o diabo levantou-se nos tempos antigos alguns indivíduos que declararam que Jesus Cristo manifestou-Se em forma de homem, mas não tinha a verdadeira natureza de homem; esforçando-se, assim, para abolir a misericórdia de Deus para conosco, e destruir completamente a nossa fé.

Outros imaginaram que Ele trouxe um corpo com Ele do céu; como se Ele não participasse de nossa natureza. Declarou-se que Jesus Cristo tinha um corpo desde a eternidade; composto por quatro elementos; de forma que a Deidade estava, naquele tempo, em uma forma visível, e que sempre que os anjos apareceram, era o Seu corpo. Que insensatez é fazer tal alquimia, para formar um corpo para o Filho de Deus! O que devemos fazer com aquela passagem que diz: “Porque, na verdade, ele não tomou os anjos, mas tomou a descendência de Abraão. Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo” (Hebreus 2: 16-17).

Diz-se. Ele tomou sobre Si a nossa carne, e tornou-se nosso irmão. Sim, e que Ele foi feito semelhante a nós, para que pudesse compadecer-Se de nós, e ajudar as nossas fraquezas. Ele foi feito a descendência de Davi, para que pudesse ser conhecido como o Redentor que foi prometido, a quem os pais esperaram em todas as épocas. Lembremo-nos do que está escrito: o Filho de Deus Se manifestou em carne; ou seja, Ele tornou-Se de fato homem, e nos fez um com Ele; de modo que agora podemos chamar Deus de nosso Pai. E por que isso? Porque somos do corpo de Seu Filho Único. Mas, como so-mos de Seu corpo? Porque Ele Se agradou em juntar-Se a nós, para que fôssemos participantes de Sua substância.

Nisto vemos que não é uma vã especulação, quando os homens dizem-nos que Jesus Cristo revestiu-se de nossa carne, para mais perto devemos chegar, se queremos ter um verdadeiro conhecimento da fé. É impossível que confiemos nEle corretamente, a menos que compreendamos sua humanidade; devemos também conhecer a Sua majestade, antes que possamos confiar nEle para a salvação. Devemos saber, ainda, que Jesus Cristo é Deus e homem, e semelhantemente que Ele é apenas uma Pessoa.

Aqui, novamente, o diabo tenta atiçar as brasas da contenda, ao perverter ou dissimular a doutrina que São Paulo nos ensina. Pois tem havido hereges que têm se esforçado para sustentar que a majestade e Divindade de Jesus Cristo, a Sua essência celeste, foram imediatamente transformadas em carne e humanidade. Assim alguns dizem, com muitas outras blasfêmias malditas, que Jesus Cristo tornou-se homem. O que se seguirá neste ponto? Deus deve renunciar a Sua natureza, e Sua essência espiritual deve ser transfor-mada em carne. Eles vão mais longe e dizem que Jesus Cristo já não é mais homem, mas Sua carne tornou-se Deus.

Estes são maravilhosos alquimistas, para produzir tantas novas naturezas de Jesus Cristo. Assim, o diabo levantou esses sonhadores em tempos passados, para perturbar a fé da Igreja; os quais são agora renovados em nosso tempo. Por isso, observemos bem o que São Paulo nos ensina nesta passagem; pois ele nos oferece uma boa armadura, para que possamos nos defender contra tais erros. Se quisermos contemplar a Jesus Cristo em Seu verdadeiro caráter, vejamos nEle essa glória celestial, que Ele tinha desde a eternidade, e em seguida, venhamos à Sua humanidade, que foi descrita até aqui; para que possamos distinguir as Suas duas naturezas. Isso é necessário para nutrir a nossa fé.

Se buscamos obter vida em Jesus Cristo, devemos entender que Ele tem toda a Divinda-de nEle; porque está escrito: “Porque em ti está o manancial da vida; na tua luz veremos a luz” (Salmos 36:9). Se quisermos estar guardados contra o diabo, e resistir às tentações de nossos inimigos, devemos saber que Jesus Cristo é Deus. Para ser breve, se quisermos colocar toda a nossa confiança nEle, devemos saber que Ele possui todo o poder, o qual Ele não poderia ter, a menos que Ele fosse Deus. Quem é Aquele que tem todo o poder? É Aquele que se tornou o frágil e fraco; Filho da virgem Maria; Aquele que esteve sujeito à morte; Aquele que levou os nossos pecados: Ele é este que é a fonte da vida.

Nós temos dois olhos na nossa cabeça, cada um desempenhando a sua função, mas quando olhamos firmemente sobre algo, a nossa visão, que é separada em si mesma, une-se, e torna-se uma; e é totalmente ocupada em contemplar o que está diante de nós, desta forma, existem duas diferentes naturezas em Jesus Cristo. Há algo no mundo mais diferente do que o corpo e alma do homem? Sua alma é um espírito invisível que não pode ser visto ou tocado; que não tem nenhuma dessas paixões carnais. O corpo é uma massa informe corruptível, sujeito à podridão; uma coisa visível que pode ser tocada: o corpo tem as suas propriedades, as quais são totalmente diferentes daquelas da alma. E, assim, questionamos: o que é o homem? Uma criatura, formada de corpo e alma. Se Deus usou de tal feitura em nós, quando Ele nos fez de duas naturezas diversas, por que deveríamos achar estranho, que Ele empreendeu um milagre muito maior em Jesus Cristo? São Paulo usa essas palavras: “se manifestou”, para que possamos distinguir Sua Divindade de Sua humanidade; para que possamos recebê-lO como Deus manifestado em carne; isto é, Aquele que é verdadeiramente Deus, e ainda assim fez-Se um conosco: portanto, somos os filhos de Deus; sendo Ele nossa justificação, somos libertos do fardo de nossos pecados. Considerando que Ele nos purificou de toda a nossa miséria, nós temos riquezas perfeitas nEle; em suma, considerando que Ele submeteu-Se à morte, estamos agora assegurados da vida.

São Paulo acrescenta: “Foi justificado no espírito”. A palavra “justificado” é muitas vezes utilizada na Escritura, como aprovado. Quando se diz, “Ele foi justificado”, não é que Ele tornou-se justo, não é que Ele foi absolvido pelos homens, como se fossem seus juízes, e que Ele se obrigou a dar-lhes uma explicação; não, não; não existe tal coisa; mas isto é quando a glória é dada a Ele, a qual Ele merece, e nós O confessamos ser o que realmente Ele é. O que é dito é isso: o evangelho é justificado quando os homens o recebem, em obediência, e por meio da fé, submetendo-se à doutrina que Deus ensina; assim neste lugar, diz-se que Jesus Cristo foi justificado no espírito.

Não devemos nos contentar, olhando para a presença corporal de Jesus Cristo, que era visível, mas temos de olhar mais alto. São João diz que Deus se fez carne; ou a Palavra de Deus, que é o mesmo. A Palavra de Deus, que era Deus antes da criação do mundo, se fez carne; isto é, se uniu à nossa natureza; de modo que o Filho da virgem Maria é Deus; sim, o Deus eterno! Seu infinito poder foi ali manifestado; que é um seguro testemunho de que Ele é verdadeiro Deus! São Paulo diz: Jesus Cristo, nosso Senhor nasceu da descendência de Davi; Ele também acrescenta: Ele foi declarado ser o Filho de Deus (Romanos 1).

Não é o suficiente para nós que O contemplemos com nossos olhos naturais; pois, neste caso, nós não subiremos mais alto do que o homem, mas quando vemos, que por meio de milagres e prodígios, Ele mostra a Si mesmo como sendo o Filho de Deus, isto é um selo e prova que, humilhando a Si mesmo, Ele não excluiu a Sua majestade celestial! Portanto, podemos ir a Ele como nosso irmão, e ao mesmo tempo adorá-lO como o Deus eterno; por meio de quem fomos feitos, e por quem somos preservados.

Se não fosse por isso, não poderíamos ter nenhuma igreja; se não fosse isso, não poderí-amos ter nenhuma religião; se não fosse isso, não teríamos nenhuma salvação. Seria melhor para nós que fôssemos animais irracionais, sem razão e compreensão, do que estivéssemos destituídos desse conhecimento: a saber, que Jesus veio e uniu a Sua Divindade à nossa natureza, que era tão desventurada e miserável. São Paulo declara que isso é um mistério; para que não possamos ir a ele com orgulho e arrogância, como muitos fazem, os quais desejam ser julgados sábios; isto tem produzido o aparecimento de muitas heresias. E, de fato, o orgulho sempre foi a mãe das heresias.

Quando ouvimos esta palavra: “mistério”, lembremo-nos de duas coisas: em primeiro lugar, que nós aprendamos a nos mantermos sob os nossos sentidos, e não nos gloriemos possuirmos conhecimento e capacidade suficientes para compreender tão vasto assunto. Em segundo lugar, aprendamos a ir além de nós mesmos, e a reverenciar esta majestade que excede todo o nosso entendimento. Não devemos ser lentos nem sonolentos; mas considerar essa doutrina, e nos esforçarmos para que nos tornemos instruídos nela. Quando adquirirmos algum pouco conhecimento sobre ela, devemos nos esforçar para beneficiar-nos com isso, todos os dias de nossa vida.

Quando nós obtivermos esse conhecimento, de forma que o Filho de Deus esteja unido a nós, deveríamos lançar nossos olhos naquilo que é tão altamente estabelecido nEle; isto é, a virtude e o poder do Espírito Santo. Então, Jesus Cristo não apenas evidenciou-se como homem, mas mostrou-se de fato que Ele era o Deus Todo-Poderoso, visto que toda a plenitude da Divindade habitou nEle. Se uma vez conhecermos isso, bem podemos perceber que não é sem razão que São Paulo diz que todos os tesouros da sabedoria estão escondidos em nosso Senhor Jesus Cristo.

Quando uma vez lançarmos mão das promessas deste Mediador, e conheceremos a altura e profundidade, o comprimento e a largura, sim, e tudo que é necessário para nos-sa salvação, para que possamos firmar a nossa fé nEle, como sobre o único verdadeiro Deus; e também contemplá-lO como nosso irmão; que não somente aproximou-Se de nós, mas uniu-Se e juntou-Se a nós de tal maneira, que Ele Se tornou de mesma substância. Se viermos a isso, saibamos que chegamos à perfeição da sabedoria, que é falada por São Paulo em outro lugar; de modo que podemos nos alegrar plenamente na bondade de Deus; pois, aprouve a Ele nos iluminar com o brilho de Seu evangelho e nos atrair para o Seu reino celestial.

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♦ Fonte: ReformedSermonArchives.com
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida e Fiel).

♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Doxologia de Judas – Charles Haddon Spurgeon

Sermão Nº 2994, Publicado na quinta-feira, 28 de Junho, 1906.
Pregado por C. H. Spurgeon, na noite do Dia do Senhor, 7 de Novembro de 1875.
No Tabernáculo Metropolitano, Newington.

 

“Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória, ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém!” (Judas 1:24-25)

Os escritos de Paulo abundam em doxologias. Vocês as encontrarão espalhadas em diferentes formas por todas as suas Epístolas. Mas ele não é o único Apóstolo que pausa assim para magnificar o nome de Deus. Aqui está “Judas, não o Iscariotes”, mas o Judas fiel que escreveu uma Epístola que parece em tudo flamejante como um raio, que queima tão terrivelmente contra certas condições de pecadores. Quase toda a palavra que Judas escreve parece têm o estrondo do trovão nela, ele parece ser mais parecido com Ageu, do Antigo Testamento do que com o Judas do Novo. Ainda assim, ele não pôde concluir a sua curta Epístola antes de incluir alguns relatos de louvor a Deus!

Aprendam com isso, queridos amigos, que o pecado do homem, se somos alguma vez chamados para denunciá-lo, deve conduzir-nos a adorar a bondade e a glória de Deus. O pecado contamina o mundo, por isso depois de ter feito o seu melhor para varrê-lo para fora, resolvam isto, a saber, na mesma medida em que o homem tem desonrado o nome de Deus vocês procurarão engrandecer esse nome. É verdade que vocês não podem de fato reparar o mal que foi feito, mas, de qualquer forma, se o fluxo de pecado foi aumentado, vocês podem aumentar o fluxo de louvor leal e reverente! Cuidem para que vocês o façam. Judas não está satisfeito por ter repreendido os filhos dos homens por seu pecado, então ele vira-se para glorificar o seu Deus!

Observem que estas doxologias, onde quer que as encontremos, não são todas iguais. Elas são apresentadas ao mesmo Deus e oferecidas com o mesmo espírito, mas há ra-zões dadas para a doxologia em um caso que não são dadas em outra. Nosso texto da manhã disse-nos sobre o que Deus é capaz de fazer e assim o faz. Ambos começam louvando a capacidade de Deus, mas enquanto Paulo falou sobre a grandeza desta capacidade no que ela pode fazer por nós, Judas fala da grandeza desta capacidade no que nos preserva de cair e nos aperfeiçoa para que possamos ser apresentados irrepreen-síveis diante da Presença da Glória de Deus. Consideremos, em uma forma de adoração em mente, sobre este sublime assunto.

 

I. Primeiro, ADOREMOS AQUELE QUE PODE NOS GUARDAR DE TROPEÇAR.

Dirijo-me agora, é claro, apenas para o próprio povo de Deus. Quando será que veremos uma congregação em que será desnecessário fazer tal observação como essa? Eu não posso convocar alguns de vocês para adorar a Deus por guarda-los de tropeçar, pois, infelizmente, vocês ainda não aprenderam a ficar de pé! A Graça de Deus ainda nunca foi aceita por vocês. Vocês não estão na Rocha Eterna, vocês ainda não se estabeleceram na peregrinação celestial. Este é um estado miserável para vocês estarem, no qual vocês não podem adorar Àquele a quem os anjos adoram. É um triste estado de coração para qualquer homem estar! Ser excluído – autoexcluído – das aclamações gerais de alegria na presença de Deus, porque vocês não sentem tanta alegria e não podem, portanto, unirem-se em tais aclamações!

Mas para o povo de Deus, eu tenho que dizer isto. Queridos irmãos e irmãs, necessitamos de preservação, portanto, adorem Aquele que pode guardar-nos! Como almas salvas, precisamos de preservação da apostasia final. “Oh”, alguém diz, “Eu pensei que você nos ensinou que aqueles que são uma vez salvos jamais finalmente apostatam”. Eu realmente acredito nesta doutrina e deleite-me em pregá-la, mas é verdade que os salvos apostatariam – todos eles – se o Senhor não os guardasse! Não há estabilidade em qualquer cristão, considerado em si mesmo. É a graça interior de Deus que lhe permite ficar em pé. Eu acredito que a alma do homem é imortal, mas não em si, mas apenas pela imortalidade que Deus concede a ela a partir de Sua imortalidade essencial. Assim é com a nova vida nova que está dentro de nós. Ela jamais perecerá, mas esta só é eterna porque Deus continua a mantê-la viva. Sua perseverança final não é o resultado de qualquer coisa em si mesmo, mas o resultado da Graça que Deus continua a conceder-lhes e de Seu propósito eterno que primeiro escolheu vocês e de Sua onipotência, que ainda os mantêm vivificados. Ah, meus irmãos e irmãs, os santos mais brilhantes do planeta cairiam no mais profundo inferno se Deus não os guardasse de cair! Por isso, louvai-O, oh vós, estrelas que brilham no céu da Igreja, pois vocês se extinguiriam com um cheiro pernicioso, como as lâmpadas o fazem por falta de óleo, se o Senhor não mantivesse a vossa chama celeste queimando! Glória a este Preservador de Sua Igreja, que guarda os Seus amados até o fim!

Mas, há outras maneiras de tropeçar além de cair final e fatalmente. Ai de mim, irmãos e irmãs, todos estamos sujeitos a cair em erros de doutrina. O homem mais bem ensinado, à parte de Orientação Divina, é capaz de se tornar o maior tolo possível! Há uma estranha fraqueza que às vezes vem sobre os espíritos nobres e que os torna enfeitiçados por uma novidade errônea, ainda que eles imaginem ter descoberto alguma grande verdade de Deus. Homens de mentes interrogadoras e receptivas são frequentemente atraídos para fora das veredas antigas, dos bons velhos caminhos; e enquanto eles pensam que estão buscando a verdade, eles estão sendo induzidos ao erro condenável! Somente é preser-vado, como de seus pensamentos e opiniões doutrinárias, aquele a quem Deus mantém, pois há erros que, se fosse possível, enganariam até os escolhidos! E há homens e mulheres andando sobre este mundo com línguas suaves e argumentos plausíveis, que carregam palavras doces em seus lábios, apesar de que espadas estejam escondidas atrás das costas! Bem-aventurados os que são preservados desses lobos em pele de cordeiro! Senhor, só Tu pode nos preservar dos erros perniciosos dos tempos, pois Tu és “o único Deus sábio, Salvador nosso”.

E, queridos amigos, nós precisamos ser guardados de um espírito maligno. Eu não sei que devo preferir: ver um querido irmão Cristão meu cair em erro doutrinário, ou em um espírito não-cristão. Eu não preferiria ambos, porque eu acho que essa é uma regra de segurança: entre dois males, não escolha nenhum! É triste ouvir algumas pessoas falarem como se eles, somente, estivessem corretos, e todos os outros cristãos estivessem errados. Se existe algo que é a própria essência e a alma do Cristianismo, é o amor fraternal, mas o amor fraternal parece ser completamente esquecido por essas pessoas. E outros cristãos que, no julgamento da sobriedade, são tão sérios e tão sinceros e tão úteis quanto eles mesmos, estão estabelecidos como pertencentes a uma espécie de sistema Babilônico – eu malmente sei o que eles não o chamam, mas eles o dão todos os tipos de nomes ruins – e pensa-se que isso seja um alto estilo de Cristianismo! Queira Deus que seja perdoado o homem que pensou que fosse um propósito digno da sua vida fundar uma seita, cuja característica distintiva seja não ter comunhão com outros cristãos! O dano que o homem tem feito é absolutamente incalculável! E eu só posso orar para que na Providência de Deus, alguma parte disso morra com ele.

Oh, irmãos e irmãs, eu vos ordeno, sejam quais forem os erros que vocês cometam, não errem sobre esta única coisa, que, mesmo que vocês tenham todo o conhecimento, e não tiverem amor, nada disso vos aproveita para nada! Mesmo se vocês tivessem um credo perfeito e soubessem que seus modos de adoração eram absolutamente Apostólicos, ainda assim, se vocês também absorveram essa ideia que vocês não poderiam adorar com todos os outros Cristãos e que eles estavam completamente fora de vosso arraial, o vosso erro seria muito pior do que todos os outros erros juntos, pois, estar errado no coração é ainda pior do que estar errado na cabeça! Gostaria de tê-los fiéis à Verdade de Deus, mas, acima de tudo, gostaria de tê-los fiéis ao Amor de Deus! Meu irmão, eu acho que você está equivocado sobre este assunto ou aquele, mas você ama o Senhor Jesus Cristo? Se assim for, eu te amo. Não tenho dúvidas de que eu também, estou enganado sobre algumas coisas, mas, por isso, não retire a sua mão e diga que você não pode ter comunhão comigo! Eu tenho comunhão com meu Pai que está no Céu e com Seu Filho, Jesus Cristo, e com o Seu bendito Espírito. E eu acho que isso se torna um mal a você, se você se denomina um filho do mesmo Deus, o recusar-se a ter comunhão comigo quando eu tenho comunhão com Ele! Deus te salve desse espírito maligno, mas você pode facilmente cair nele, a menos que o Senhor o guarde. Seu muito zelo pela Verdade de Deus pode levá-lo a um esquecimento do Amor cristão! E se isso acontecer, será uma triste pena. Oh Senhor, guarda-nos de cair neste caminho!

Entretanto há tropeços de outro tipo que podem acontecer ao mais brilhante cristão. Quero dizer, quedas em pecado exterior. Enquanto vocês leem toda a Epístola de Judas, verão que apóstatas alguns professos se tornaram e vocês serão levados a clamar: “Senhor, livra-me de cair!” E se vocês fossem o pastor de uma grande igreja como a minha, vocês veriam o suficiente para convencê-los de que traidores como Judas não estão todos mortos, que em meio aos fiéis, os infiéis ainda são encontrados; que há peixe ruim a ser jogado fora, assim como bom peixe para ser preservado. E cada vez que executamos um ato de disciplina, cada vez que temos que lamentar a queda de alguém que parecia um irmão, podemos agradecer a Deus por termos sido guardados e podemos cantar esta doxologia: “Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, seja a glória e o poder para sempre.”

E, queridos amigos, há uma maneira de cair, da qual as pessoas não são tantas vezes recuperadas como quando caem em pecado evidente. Quero dizer, caindo em negligência quanto aos deveres naturais ou cristãos. Conheci professos que têm sido muito negligentes em casa; crianças que não eram obedientes aos seus pais; maridos que não amavam suas esposas como deveriam; esposas que estavam muito à vontade nesta e naquela reunião, mas muito negligentes de suas domésticas funções. E, observem vocês, quando este é caso, é algo a lamentar, pois o cristão deve ser absolutamente confiável em tudo o que tem que fazer! Eu não daria dois centavos por sua religião, se você é um comerciante, mas não é justo em seus negócios! Eu não me importo se você pode cantar como Davi, ou pregar como Paulo, se você não pode medir um metro de material com o número adequado de centímetros, ou se suas escalas não pesam corretamente, ou se os seus negócios geralmente não são feitos de forma honesta e verdadeira, é melhor você não fazer nenhuma profissão de religião! A separação do que é chamado “religioso” do “secular” é um dos maiores erros possíveis. Não existe tal coisa como uma religião de domingos, de capelas e de igrejas. No mínimo, embora haja tal coisa, ela não é digna de se ter. A religião de Cristo é uma religião de sete dias na semana, uma religião para todos os lugares e para todos os atos! E ela ensina aos homens que quer comam ou bebam, quer façam qualquer outra coisa, façam tudo em nome do Senhor Jesus Cristo e para a glória de Deus! Eu oro para que vocês sejam guardados de se apartarem desta religião, e para que vocês sejam guardados até o alvo de servir ao Senhor em todas as coisas e observando diligentemente as pequenas coisas comuns da vida diária.

E vocês sabem, queridos amigos, há outro tipo de queda, que é quando o coração fica gradualmente frio, quando o cristão se afasta pouco a pouco, quando a vida tornar-se mais ou menos incompatível com a profissão. Oh, quantos professos entram neste esta-do! Eles são como pessoas que não estão tão bem quanto costumavam estar. Eles não sabem quando eles começaram a se sentir piores, isto foi há meses e todos os dias eles estiveram mais fracos, mesmo agora vocês podem ver os seus ossos, embora uma vez que eles estiveram cheios de carne. Agora, eles descobrem que, enquanto uma vez eles poderiam ter caminhado 10 milhas sem fadiga, meia milha ou menos os cansa! Seu apetite, também, tem gradualmente desaparecido. Eles mal sabem como. Ah, estes são os enfermos com os quais o médico tem mais problemas do que ele tem com aqueles que são subitamente tomados por uma doença bem conhecida! E este declínio gradual da saúde espiritual, não vem todo de uma vez, mas, pouco a pouco, é um dos mais peri-gosos males e temos necessidade de clamar continuamente: “Senhor, guarda-nos disto!” E, para louvar o Seu nome que Ele seja assim capaz de guarda-nos!

Assim, eu lhes mostrei que precisamos de preservação, irmãos e irmãs, ninguém, senão o Senhor pode nos guardar. Nenhum homem pode guardar-nos. Sem a graça de Deus, ele certamente falhará! E nenhum lugar pode nos guardar. Algumas pessoas pensam que se eles pudessem entrar em tal e tal família, eles poderiam evitar o pecado, mas elas estão enganadas. Em cada posição que o homem ocupa, ele encontrará a tentação. Ouvimos do eremita que esperava livrar-se de todo o pecado, vivendo em uma caverna. Ele levou consigo o seu pequeno pão marrom e seu jarro de água, mas ele mal tinha en-trado na caverna antes que ele derrubasse o seu jarro e entornasse a água. Foi um longo caminho para o bem e ele ficou tão zangado consigo mesmo por haver feito isso, e assim ele logo descobriu que o diabo poderia entrar em uma caverna mais rápido do que ele! Então ele pensou que poderia muito bem voltar e enfrentar as provações da sociedade comum. Há uma história que eles contam, na Escócia, de uma família que era esbanja-dora e, portanto, não obtinha êxito. Porém eles pensaram que era um dos “duendes” que os impediam de progredir, então eles decidiram “emigrar”. Eles colocaram todas as suas coisas em um carro, mas enquanto eles estavam prestes a começar, eles ouviram um barulho que os fez clamar, “O duende está na batedeira!” Então, onde quer que a batedeira fosse, os duendes iriam também. E vocês podem remover sempre que quiserem e pensarem: “Se eu entrar em tal posição, vou fugir da tentação, mas você encon-trará que “o duende está na batedeira”, e ele o seguirá onde quer que vá! Vocês não podem ser impedidos de cair escolhendo outra situação. É melhor ficar onde está, irmão, e lutar contra o diabo ali, pois, talvez o próximo lugar que você escolha como o cenário par ao combate não seja tão adequado quanto o que você tem agora.

“’Ah’, alguém diz: ‘Eu gostaria de poder chegar até
A pousada em algum vasto deserto,
Algumas ilimitadas contiguidades de sombra
Onde rumor da opressão e do engano,
Da batalha mal sucedida ou bem sucedida,
Nunca pudessem me alcançar de novo.”

Sim, sim. Mas esse não é o caminho para vencer o pecado, não é? Suponha que a batalha de Waterloo esteja apenas começando e aqui está um soldado que quer conquistar uma vitória. Então, ele foge e fica fora de Bruxelas e esconde-se em um porão! É provável que ele seja contado entre os heróis do dia? Não, irmãos e irmãs, e se há algum pecado a ser superado neste mundo, não há crédito para o homem que diz: “Eu vou me esconder em algum lugar fora do mundo”. Não, não, meu irmão, aceite o quinhão que Deus providenciou para você! Tome seu lugar nas fileiras de Seus soldados e qualquer tentação que venha, olhe acima para Aquele que é poderoso para guardá-lo de cair, mas não sonhe em fugir, pois esta é a maneira mais fácil de cair, isto é ser derrotado antes que a batalha comece! Ninguém a não ser Deus pode guardá-lo. Você pode se juntar a qualquer igreja que quiser. Você pode usar um chapéu de aba larga e dizer “tu” e “ti”. Você pode encontrar-se com aqueles que partem o pão e que não pregam nada além do Evangelho da Graça de Deus. Você pode habitar entre as melhores pessoas que já viveram, mas você ainda será tentado! Nem o lugar, nem as pessoas, nem as maneiras, nem os costumes podem guarda-lo de cair – somente Deus pode fazê-lo!

Mas aqui está a misericórdia, Deus pode fazê-lo. Observe como a doxologia de Judas expressa isso: “Ao único Deus sábio, Salvador”. É somente porque Ele é sábio, de modo que Ele por si só é capaz de nos guardar de cair. Ele o faz, ensinando-nos a Verdade, ao nos alertar contra o pecado secreto e por Sua direção providencial. Às vezes, Ele nos guarda da tentação. Em outros momentos, Ele permite que a tentação venha a nós para que a superemos, e assim possamos estar mais fortes para enfrentar outra. Muitas vezes Ele nos livra da tentação, deixando que a aflição venha sobre nós. Muitos homens têm sido guardados de cair em pecado ao serem esticados sobre uma cama de doença. Se não fosse a perda do olho, ele teria contemplado a vaidade. Se não fosse pelo osso quebrado, ele teria corrido nos caminhos da impiedade. Nós pouco sabemos quanta preservação de queda devemos às nossas perdas e cruzes! A história de Sir James Thornhill, pintando o interior da cúpula da São Paulo é provavelmente bem conhecida. Quando ele finalizou um dos compartimentos, ele estava andando para trás, a fim de que ele pudesse ter uma visão completa do mesmo e assim foi quase até a borda do andaime e teria caído se ele tivesse dado mais um passo, porém um amigo, que viu seu perigo, sabiamente aproveitou uma de seu pincel e passou um pouco de tinta sobre a pintura. O artista irado, correu para salvar sua pintura e assim salvou sua própria vida! Nós temos toda a vida pintada, que imagem encantadora fizemos dela! E à medida que a admirá-vamos, nós nos distanciamos para mais e mais longe de Deus e da segurança, e fomos para cada vez mais perto da perigosa tentação! Mas, quando a tribulação chegou, arruinou a imagem que havíamos pintado e assim, embora dificilmente saibamos o motivo, nós fomos para frente e fomos salvos, Deus nos guardou de cair por meio do problema que Ele nos enviou!

Deus muitas vezes nos impediu de cair por um sentimento amargo de nosso pecado passado. Nós não nos atrevemos a chegar novamente perto do fogo por nossas antigas queimaduras ainda mal curadas. Tenho notado também, no meu caso, que quando o de-sejo pelo pecado veio com força, a oportunidade para o pecado não estava presente e quando a oportunidade do mal está presente, então, pela graça de Deus, o desejo estava ausente. É maravilhoso como Deus impede que essas duas coisas se encontrem, e assim guarda o Seu povo de cair.

Acima de tudo, é pelo Espírito Divino que Deus nos leva como que sobre asas de águia. O Espírito nos ensina a odiar o pecado e a amar a justiça e por isso somos diariamente guardados de cair.

Irmãos e Irmãs, juntem-se a mim, adorando ao Senhor, pois Ele nos guardará até o fim. Já entregamos as nossas almas nas mãos de Jesus? Então, nossas almas estão seguras para sempre! Estamos confiando nEle para nos guardar até o dia da Sua vinda? Se assim for, Ele nos guardará, nenhum carneiro ou ovelha do Seu rebanho será, por qualquer possibilidade, destruído pelo lobo, ou pelo urso, ou pelo leão que ruge desde o Inferno! Eles todos devem ser dEle, no dia em que eles passarem sob as mãos dAquele que lhes conta!

 

II. AGORA, em segundo lugar, ADOREMOS A ELE, PORQUE ELE, POR FIM, NOS APRESENTARÁ “IRREPREENSÍVEIS, COM ALEGRIA, PERANTE A SUA GLÓRIA.”

Chegará um dia, irmãos e irmãs, quando seremos apresentados nos tribunais de Deus como Seus cortesãos, ou então, seremos expulsos de Seu Tribunal, como rebeldes contra a Sua autoridade. Nós esperamos com expectativa confiante que seremos apresentados como amigos de Cristo, a Deus, ao Pai, e isso é, de fato, um motivo de adoradora gratidão!

Vocês notaram como Judas o expressa? Para “apresentar-vos irrepreensíveis”. Não haverá ninguém no céu, senão aqueles que são irrepreensíveis. Não entrarão de modo algum naqueles santos cortejos nada que contamine. O céu é perfeitamente puro e se vocês e eu alguma vez chegaremos lá, devemos ser puros como a neve. Nenhuma mácula de pecado deve estar sobre nós, ou então não poderemos ficar entre os cortesãos de Deus. De Seu Trono flamejante brotaria colunas de fogo devorador sobre qualquer alma culpada que se atrevesse se apresentar nas cortes do Altíssimo, se tal situação fosse possível! Mas somos impuros; impuros quanto aos nossos atos e, o pior de tudo, impuros quanto à nossa própria natureza! Como, então, podemos alguma vez esperar estar ali? Ainda assim, queridos irmãos e irmãs, a nossa confiança é que estaremos. Por quê?

Não é porque Cristo é capaz de nos apresentar irrepreensíveis ali? Venha, cristão, pense por um minuto em quão impecável Cristo o fez tanto quanto o seu pecado passado é considerado. No momento em que você acreditou nEle, você estava tão completamente lavado em Seu precioso sangue que nenhuma mancha de pecado permaneceu sobre você. Tente perceber que qualquer que tenha sido a sua vida passada, agora, se você crê em Jesus Cristo, você é purificado de toda a iniquidade, em virtude de Seu sacrifício expiatório e você está coberto por um manto imaculado de justiça em virtude de Sua vida bem-aventurada da perfeita pureza e obediência à vontade de Seu Pai. Agora você está sem culpa, na medida em que seu pecado passado é considerado, pois Ele lançou-os todos nas profundezas do mar, mas você sente que não é inculpável quanto à sua natureza.

“Oh”, você diz, “Eu sinto tudo o que é mal se erguendo, às vezes, dentro de mim”. Mas todo este mal está sob sentença de morte. Cristo o pregou em Sua Cruz. A crucificação é uma morte prolongada e mui dolorosa, e o culpado agoniza de dar o último suspiro. Mas os seus pecados tiveram seu golpe mortal. Quando Cristo foi pregado na cruz, os seus pecados foram pregados ali também, e nunca descerão novamente. Eles devem morrer, assim como Ele morreu. Será uma hora abençoada quando o pecado finalmente entregar seu espírito, quando não haverá mais nenhuma tendência para o pecado dentro de nossa natureza! Então, nós seremos apresentados irrepreensíveis diante do Trono de Deus!

“Isso pode alguma vez ocorrer?”, Pergunta alguém. Você bem pode fazer essa pergunta, irmão. Pode ser que alguma vez não seremos tentados por uma luxúria imunda, nem seremos perturbados por uma paixão desenfreada, nem sentiremos as paixões da inveja ou do orgulho novamente? Sim, certamente será! Cristo garantiu esta bênção para você. Seu nome é Jesus, o Salvador, “porque ele salvará o seu povo dos seus pecados” [Mateus 1:21]. Ele deve fazer e fará isso por todos os que confiam nEle. Alegrem-se que Ele fará isso, pois ninguém além de Deus pode fazer isso. Deve ser o “único Deus sábio, Salvador nosso,” que pode fazer isso, e Ele o fará! A vossa fé permite que vocês se imaginem como sendo irrepreensíveis diante do Trono de Deus? Bem, então, deem ao Senhor a glória que é devida a Ele por um ato tão maravilhoso da Graça quanto esse!

É assim vocês devem ser apresentados por Cristo em Glória. Há uma grande agitação em uma família quando uma filha deverá ser apresentada em um cortejo e pensa-se que isso seja um acordo grandioso. Mas um dia, você e eu que acreditamos em Jesus, seremos apresentados ao Pai. Que beleza radiante então vestiremos quando o próprio Deus olhará para nós e nos declarará sermos inculpáveis, quando não haverá motivo para tristeza remanescente, e, portanto, seremos apresentados com alegria! Deve ser assim, meu irmão! Deve ser assim, minha irmã! Portanto, não duvidem disso. Em quanto tempo isso ocorrerá, nós não podemos dizer; possivelmente, amanhã! Talvez, antes que o sol nasça novamente eu e você podemos ser apresentados por Cristo “com alegria, perante a sua glória”. Nós não podemos dizer quando isso ocorrerá, mas estaremos ali em Seu bom tempo. Seremos perfeitos! Seremos “aceitos no Amado” e, portanto, a Ele “seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém.”

 

III. Essa é a observação com a qual eu tenho que concluir meu discurso. POR CAUSA DESTAS DUAS GRANDIOSAS BÊNÇÃOS, A PRESERVAÇÃO FINAL E A APRESENTA-ÇÃO DIANTE DE SUA GLÓRIA, OFEREÇAMOS AO SENHOR AS NOSSAS MAIS ELEVADAS ATRIBUIÇÕES DE LOUVOR.

Judas diz: “agora, e para todo o sempre”. Bem, nós observaremos o “para todo o sempre” enquanto a eternidade desenrola-se, mas observaremos o louvor a Deus “agora”, neste momento! “Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder” agora! Venham irmãos e irmãs, pensem no que vocês devem a Ele, que os têm guardado até hoje e não os deixará! Pensem em onde vocês poderiam estar e considerem, posso dizer, aonde vocês costumavam estar em vosso estado não-regenerado. No entanto, vocês não estão ali agora, mas vocês estão aqui, sem justiça própria, diferidos de seus companheiros, dos outros homens inteiramente por meio da Graça de Deus! Vocês têm sido guardados, talvez por 20, 30, 40 anos, possivelmente há 50 anos! Bem, a Ele seja a glória! Deem-lhe a glória, agora mesmo!

 

Como vocês podem fazer isso? Bem, sintam isso em seus corações! Falem sobre isso para os seus vizinhos! Falem disso para os seus filhos! Digam a todos que vocês encontram que Deus bom, bendito e fiel Ele é, e assim deem-Lhe a glória agora. E sejam felizes e alegres. Vocês não podem melhor glorificar a Deus do que por uma vida calma, feliz. Deixem que o mundo saiba que vocês servem um bom Mestre. Se vocês estiverem com problemas, não deixem que ninguém veja que o problema toca o seu espírito, não, mais, não deixe que ele atribule o seu espírito. Descansem em Deus, considerem o mal como bem de Suas mãos e prossigam a louvá-lO. Vocês não sabem quanta coisa boa podem fazer e quão grandemente vocês podem glorificar a Deus se O louvarem em seus momentos sombrios. Os mundanos não se importam muito sobre o nosso Salmo cantado a menos que eles nos vejam na dor e na tristeza e observem que louvamos a Deus nessa ocasião. [...]. A alegria de alguns cristãos desaparece no desgaste da vida, ela não pode suportar lidar com as grosserias do mundo. Que não seja assim conosco, amados, mas louvemos, bendigamos e engrandeçamos o nome do Senhor, enquanto nós tivermos qualquer existência!

Eu sei que, ao falar assim, dirijo-me a apenas uma parte de minha congregação. Eu desejo que todo homem e mulher aqui agora estejam louvando ao Senhor, e tenho certeza de que vocês não poderiam ter uma melhor ocupação por toda a eternidade. Lembrem-se que se vocês não louvam a Deus, é impossível que vocês alguma vez entrem no Céu, pois essa é a principal ocupação dos Céus! E lembrem-se também que o louvor de seus lábios, até que esses lábios sejam divinamente purificados, seria como uma joia em focinho de porco, uma coisa completamente fora de lugar! Para vocês, caros ouvintes não salvos, a primeira coisa não é louvor, mas a oração; não, nem mesmo a oração em primeiro lugar, mas a fé: “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo”. E então, em fé, ore a oração que Deus aceita. Mas vocês devem primeiro crer em Jesus. “E o que significa crer em Jesus?”, você pergunta. Significa isto: seu pecado merece castigo, pois Deus, que é justo, deve punir o pecado, mas o Seu Filho veio ao mundo para sofrer no lugar daqueles que confiam nEle. E agora, Deus pode ser justo e justificador de toda alma que crê em Jesus! Na pessoa de Seu Filho, Deus está pendurado em um madeiro e morre a morte de um criminoso, você crerá no mérito daquela morte e no amor de Deus, que não poupou o Seu próprio Filho, a fim de que Ele possa poupar-nos? Você pode confiar em Jesus como seu Deus e Salvador? Você fará isso agora? Então, você está salvo!

O primeiro momento de assim confiar em Deus é, portanto, o início de uma nova vida, uma vida que irá expulsar a velha morte do pecado. No momento em que você, assim, confiar em seu Deus, você será colocado sobre uma nova base em relação a Ele, todo o seu aspecto em direção a Deus será transformado. O arrependimento tomará tal posse de seu espírito que você será acionado por novos motivos e influenciado por novos desejos! Na verdade, você será um novo homem em Cristo Jesus. Isto é ser salvo, salvo do amor ao pecado, salvo de retornar ao pecado, salvo de cair e tão completamente salvo, de for-ma que Cristo um dia lhe apresentará “irrepreensível, com alegria, perante a sua glória”. Que Deus faça isso por todos vocês, meus ouvintes, de acordo com as riquezas de Sua graça! Este é o último, melhor e mais forte desejo de meu coração: que todos vocês sejam salvos. Que todos possamos nos encontrar no céu, diante do Trono de Deus, para nunca mais nos separarmos!

Enquanto eu estiver fora, ouçam com toda a seriedade os outros arautos da Cruz, e orem ao Senhor para que abençoe as suas mensagens para a sua salvação, se a minha não tem sido tão abençoada. Eu oro para que, por alguma instrumentalidade, vocês todos sejam salvo no Senhor, com uma salvação eterna. Amém.

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Uma Exposição de C.H Spurgeon: da Epístola de Judas.

Verso 1. Judas. Isso quer dizer Judas, não o Iscariotes.

1. Servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago. Ele não diz, “e irmão de nosso Senhor”, pois sabemos que Tiago e Judas estavam, ambos, entre parente do Senhor segundo a carne. Mas agora, segundo a carne, ele não mais conhece a Cristo, mas está contente e feliz por ser conhecido como “o servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago”.

1. Santificados em Deus Pai. Pelo decreto da eleição, a definição dos eleitos é geralmente atribuída a Deus, o Pai.

1. Aos chamados [...] e conservados por Jesus Cristo. Temos aqui uma descrição muito abençoada de toda a obra da nossa salvação – separados pelo Pai, unidos a Cristo e preservados nEle – e então, no devido tempo, chamados pelo Espírito de Deus.

2. Misericórdia, e paz, e amor vos sejam multiplicados. As cartas cristãs devem estar cheias de amor e boa vontade. A dispensação cristã respira beneficência, é plena de bên-ção! “Misericórdia, e paz, e amor vos sejam multiplicados”. Que a Trindade Divina lhes conceda uma tripla bênção!

3. Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos. No sentido de ser uma vez dada aos santos, a fé dos cristãos não é algo variável. Não é uma coisa que muda de dia em dia, como alguns parecem supor, em vão imaginam que uma nova luz é concedida a cada nova geração. Não, a ver-dade de Deus foi dada uma vez, foi estereotipada, fixa e devemos guardá-la tão firmemente quanto Deus nos conceda.

4. Porque se introduziram alguns. Eles covardemente não confessaram a sua heresia quando eles vieram, eles não teriam sido autorizados a entrar, se o tivessem feito, mas furtivamente, subiram ao púlpito, professando ser pregadores do Evangelho, quando eles reconhecem, em tudo, que tinham a intenção de miná-lo. Os mais vis de todos os homens são aqueles que agem assim! “Há certos homens se introduziram com dissimulação”.

4. Que já antes estavam escritos para este mesmo juízo. Proscritos por Deus como traidores há muito tempo! Aqueles que não são corajosos de suas convicções, provável-mente, não têm convicções em absoluto, mas procuram minar a fé que eles professam sustentar.

4. Homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo. Antinomianos, que “convertem em dissolução a graça de Deus”, falsamente declarando que a Lei não tem força reguladora para a vida do cristão e dizendo que podemos fazer o mal para que venha o bem. E Socinianos, que negam “a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo”.

5. Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram. Se não temos fé real, nós podemos aparentar seguir um longo caminho para o céu, mas não entraremos na Canaã celestial.

6. E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia. Vejam, então, a necessidade da estabilidade, a necessidade de permanecer na fé e permanecer na prática da mesma, para que não nos tornemos como os israelitas, que, embora saíram do Egito, deixaram suas carcaças no deserto, ou como os anjos, que, embora estivessem na Presença de Deus na glória, caíram para as profundezas do abismo por causa de sua apostasia!

7, 8. Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno. E, contudo, também estes, semelhantemente adormecidos, contaminam a sua carne, e rejeitam a dominação, e vituperam as dignidades. Eles lançam fora todas as restrições; eles afirmam ter liberdade para fazer o que gostam e quando repreendidos, eles proferem palavras maledicentes contra aqueles que honestamente os repreendem!

9. Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda. A que isto se refere? Eu tenho certeza que não sei. Eu não posso pensar que se refere a qualquer coisa registrada no Antigo Testamento, mas a algum fato, conhecido por Judas, que aqui fala pela Revelação e o registra. Nós acreditamos nisso e aprendemos com isso que quando um arcanjo disputa com o diabo, ele não usa palavras duras mesmo contra ele, pois palavras duras são uma evidência de fraqueza da causa que eles costumam apoiar! Argumentos duros suavemente colocados, são armas real-mente eficazes, mas para alguns de nós, leva-se muito tempo para aprender isso e geralmente, em nossos dias de imaturidade, nós desgastamos nossa própria força pela violência que empregamos.

10 Estes, porém, dizem mal do que não sabem; e, naquilo que naturalmente conhecem, como animais irracionais se corrompem. É algo horrível quando o pecado de um homem passa por toda a extensão de seu conhecimento e ele peca até o nível de suas possibilidades!

11, 12. Ai deles! porque entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Coré. Estes são manchas. Estes são “espoliadores”, por isso podem ser entregues.

12. Em vossas festas de amor. Eles estragam as vossas festas de amor na Mesa da Comunhão. Estragam a sua comunhão quando se reúnem para adorar.

12. Banqueteando-se convosco, e apascentando-se a si mesmos sem temor. Alguns dos melhores cristãos que vêm à mesa do Senhor, chegam ali em grande temor e tremor. E eu conheci alguns que tiveram um direito inquestionável de estar ali, quase receosos em vir. No entanto, essas mesmas pessoas que têm um medo santo de que não venham mal, são aqueles que realmente deveriam vir. “Apascentando-se a si mesmos sem temor” é a marca daqueles que estão mais longe de Deus.

12. São nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte. Eles acreditam de acordo com o que lhes é dito pelo último homem que fala com eles, eles são facilmente persuadidos a esta ou aquela doutrina, ou a outra.

12. São como árvores murchas, infrutíferas. Eles parecem carregar frutos, mas eles caem antes que amadureçam.

12, 13. Duas vezes mortas, desarraigadas. Ondas impetuosas do mar. Eles não têm nada a dizer por Cristo, mas eles devem dizer alguma coisa, por isso são “ondas impetuo-sas do mar”.

 
13. Que escumam as suas mesmas abominações; estrelas errantes, para os quais está eternamente reservada a negrura das trevas. Estes são os falsos professos da religião, os membros da igreja para quem há assentos reservados no inferno! Este é um pensamento terrível: “para os quais está eternamente reservada a negrura das trevas”, não para os gentios, e não para os rejeitadores abertos do Evangelho, mas para tais como se arrastando descuidados nas igrejas, ensinam falsas doutrinas, vivem vidas profanas!

14, 15. E destes profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos; Para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram, e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele. Como Judas sabia que Enoque disse isso, eu não posso dizer, é outro exemplo da Inspiração Divina.

16. Estes são murmuradores, queixosos. Vocês conhecem o tipo de pessoas aqui mencionadas, nada os satisfaz. Eles estão descontentes, mesmo com o Evangelho. O Pão do Céu deve ser cortado em três pedaços e servido em guardanapos delicados, ou então eles não podem comê-lo! E muito em breve a sua alma abomina mesmo este pão leve. Não há nenhuma maneira pela qual um cristão possa servir a Deus de modo a agradá-los. Eles observarão buracos nos casacos de cada pregador e se o grande Sumo Sacerdote, Ele mesmo, estivesse aqui, eles encontrariam falha na cor das pedras de Seu peitoral!

16-19. Andando segundo as suas concupiscências, e cuja boca diz coisas mui arrogantes, admirando as pessoas por causa do interesse. Mas, amados, lembrem-se das palavras que foram preditas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo, como eles lhes disseram existiriam escarnecedores nos últimos tempos, que falariam segundo as suas ímpias concupiscências. Estes são os que causam divisões, sensuais, que não têm o Espírito. Pessoas que, se elas fazem uma profissão de fé em absoluto, devem estar continuamente dividindo igrejas e mantendo-se distantes dos outros, não tendo comunhão com ninguém, senão com aqueles que podem dizer “Chibolete” tão claramente quanto eles possam, e soar o “h” bastante alto.

20-22. Mas vós, amados, edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo, Conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna. E apiedai-vos de alguns, usando de discernimento. Alguns desses professos que não estão vivendo de forma consistente com a sua profissão, em quem vocês podem ver sinais e provas de pecado, ainda assim podem ter algum traço de arrependimento, alguma razão para esperar que eles abandonarão o mal quando enxergarem que isso seja mau, “apiedai-vos” deles.

23. E salvai alguns com temor, arrebatando-os do fogo, odiando até a túnica manchada da carne. Quando vocês tiverem que lidar com professos imundos, deve haver uma aversão e ódio ao seu pecado, mesmo quando há uma grande gentileza para com o pecador. Nunca devemos ser tão crentes no arrependimento do culpado como estando dispostos a relevar o seu pecado, pois o pecado é um grande mal, em qualquer caso, e o arrependimento não pode limpá-lo. E embora caiba a nós que sejamos ternos com o pecador, nunca devemos ser ternos com o pecado. Quão belamente termina esta breve e dolorosa Epístola! Tendo descrito a muitos que, depois de fazer uma confissão, ainda se desviam, Judas irrompe com essa jubilosa doxologia!

24, 25. Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória, Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém.

 

 

Hinos de “Nosso Próprio Hinário”: 441, 245, 160.

 

[Adaptado de The C. H. Spurgeon Collection, Version 1.0, Ages Software. Veja todos os 63 volumes de sermões CH Spurgeon em Inglês Moderno, e mais de 525 traduções em espanhol, acesse: www.spurgeongems.org]

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♦ Fonte: SpurgeonGems.org | Título Original: Jude’s Doxology
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Necessário Vos é Nascer De Novo – Thomas Boston

“Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo” (João 3:7)

Para sua convicção, pondere nestas poucas considerações:

A Regeneração é absolutamente necessária para qualificar você a fazer qualquer coisa realmente boa e aceitável a Deus.

Enquanto você não for nascido de novo, suas melhores obras são apenas pecados luminosos; pois apesar de que o conteúdo delas seja bom, elas são completamente corrompidas no desempenho.

Considere que sem regeneração não há fé, e “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hebreus 11:6).

Fé é uma ação vital da alma que nasceu de novo. O evangelista, demonstrando a diferente representação que o Senhor Jesus tinha para diferentes pessoas, dizendo que alguns O receberam, alguns O rejeitaram, aponta a graça regeneradora como a verdadeira causa desta diferença, sem a qual ninguém nunca O teria recebido. Ele nos diz que: “todos quantos o receberam”, foram aqueles “que nasceram de Deus” (João 1:11-13).

Os homens não regenerados podem presumir, mas eles não podem ter fé genuína. A Fé é uma flor que não cresce em solo natural. Assim como a árvore não pode crescer sem uma raiz, também um homem não pode crer sem uma nova natureza, da qual o princípio do crer é uma parte.

Sem regeneração as obras de um homem são obras mortas. Como é o princípio devem os ser também os efeitos: se os pulmões estão apodrecidos, a respiração será repugnante; e aquele que está morto em pecado suas obras, no mínimo, são apenas obras mortas. “Para os impuros e descrentes, nada é puro, são abomináveis, desobedientes e reprovados para toda boa obra” (Tito 1: 15-16).

Se nós pudéssemos dizer de um homem, que ele é mais irrepreensível em sua vida do que qualquer outro no mundo, que ele esmurra seu corpo com jejum e tem feito os seus joelhos soarem em contínua oração, se ele não é nascido de novo, esta exceção estragaria tudo. Como alguém diria: “Aqui há um corpo formoso, mas se a alma se esvai; é apenas uma massa morta”. Está é uma consideração mista. Você faz muitas coisas materialmente boas; mas Deus diz: “Pois em Jesus Cristo nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura” (Gálatas 6:15).

Se você não nasceu de novo:

(1) Toda a sua reforma é nada aos olhos de Deus. Você fechou a porta, mas o ladrão ainda está dentro da casa. Pode ser que você não seja o que uma vez já foi; apesar disso, você não é o que deveria ser, se é que alguma vez você deseja ver o céu, pois “se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (João 3:3).

(2) Suas orações são uma “abominação ao Senhor” (Provérbios 15:8). Pode ser que os outros admirem a sua seriedade; você chora como por sua vida; mas Deus descreve o abrir de sua boca como alguém que poderia descrever a abertura de uma sepultura cheia de podridão: “A garganta deles é um sepulcro aberto” (Romanos 3:13).

Outros são afetados com as suas orações, as quais parecem a eles como se fossem dirigidas aos céus; mas Deus as descreve como apenas uivos de um cachorro: “Não clamam a mim de coração, mas dão uivos nas suas camas” (Oséias 7:14)

Por que, pois, você ainda está “em fel de amargura e laço de iniquidade”. Todas as suas lutas contra o pecado em seu próprio coração e vida são nada. O orgulhoso Fariseu afligia seu corpo com jejuns, e Deus golpeia a sua alma, ao mesmo tempo com a sentença de condenação (Lucas 18). Balaão lutou com o seu temperamento ganancioso, até este nível, que embora ele amasse os pagamentos da injustiça, ainda ele não poderia obtê-las por amaldiçoar Israel, mas ele morreu a morte do ímpio (Números 31:8). Tudo o que você fizer, em um estado não regenerado, é para si mesmo, portanto, isto irá perecer com você como a um sujeito, que tendo abatido os rebeldes, colocou a coroa em sua própria cabeça, e perde todos os seus bons serviços e sua cabeça também.

Esteja convencido, então, de que você precisa nascer de novo. A Escritura diz que a Palavra é a semente; da qual a nova criatura é formada, portanto, preste atenção, e deleite-se nela, como se fosse a sua vida. Aplique a si mesmo à leitura da Escritura. Você que não pode ler, peça a outros para leiam as Escrituras para você. Espere diligentemente pela pregação da Palavra, como que pela Divina designação do especial meio de conversão; pois “aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação” (1 Coríntios 1:21).

Receba o testemunho da Palavra de Deus concernente à miséria do estado de não-regeneração, a malignidade disso, e a absoluta necessidade da regeneração. Receba este testemunho a respeito de Deus, como Aquele Santo e Justo que Ele é. Examine os seus caminhos através disto; a saber, os pensamentos de seu coração, as expressões de seus lábios, e o sentido de sua vida.

Olhe para trás através dos vários períodos de sua vida, veja os seus pecados a partir dos preceitos de Deus, e aprenda, a partir das ameaças destes, que você é responsável devido a estes pecados.

Pelo auxílio da mesma Palavra de Deus, veja a corrupção de sua natureza. Sendo estas coisas profundamente enraizadas em seu coração, eles podem ser a semente do temor e sofrimento, devido ao estado de sua alma, que são necessários para preparar e incitar você a buscar o Salvador. Fixe os seus pensamentos nEle, oferecido a você no Evangelho, como plenamente apropriado ao seu caso; tendo, pela Sua obediência até a morte, satisfeito perfeitamente a justiça de Deus, e conduzido em justiça eterna. Isto talvez ponha à comprove a semente da humilhação, anseio, esperança e fé; e incline você a estender a mão mirrada em direção a Ele, ao Seu próprio comando.

Permitam que estas coisas adentrem profundamente em seus corações, e os aperfeiçoe diligentemente. Lembre-se, seja quem você for, você precisa nascer de novo; ou então teria sido melhor que você nunca tivesse nascido. Pelo que, se algum de vocês viverá e morrerá em um estado não regenerado, você será inescusável, tendo sido bastante alertado sobre o seu perigo.

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♦ Fonte: EternalLifeMinistries.org | Título Original: “Ye Must Be Born Again” 
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Rebeca Almeida | Revisão por William Teixeira


Não é Judeu o que o é Exteriormente – Robert Murray M’Cheyne

“Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus” (Romanos 2:28-29).

A formalidade é, talvez, o pecado mais constante da mente humana. Ela pode ser encontrada entre todas as religiões; reina triunfante em cada mente natural; e ela constante-mente tenta voltar a usurpar o trono no coração de cada filho de Deus. Se fôssemos buscar a prova de que o homem caído está “sem entendimento”, que ele completamente caiu de sua primitiva clareza e dignidade de inteligência; que ele perdeu totalmente a imagem de Deus, no conhecimento, depois que ele foi criado; chamaríamos a atenção para esta estranha, irracional presunção, pela qual mais da metade do mundo está iludida para a sua ruína eterna; que Deus pode ser satisfeito com meras prostrações corporais e serviços; que é possível adorar a Deus com os lábios, quando o coração está longe dEle. É contra esse erro, o constante erro que assedia a humanidade, e preeminentemente erro que assedia a mente Judaica, a qual Paulo dirige as palavras diante de nós; e é muito notável que ele não condescende para discutir o assunto. Ele fala com toda a determinação e com toda a autoridade de alguém que não ficava atrás do próprio primeiro dos apóstolos, e ele coloca isso como uma espécie de primeiro princípio para o qual todos os homens de inteligência comum, previsto que ele sobriamente analisará a questão, devem ceder ao seu assentimento imediato, que “não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus”.

No seguinte discurso mostrarei mui brevemente, primeiro, que as observâncias externas não são de nenhum proveito para justificar o pecador; e, segundo, que as observâncias externas nunca podem permanecer no lugar da santificação para o crente.

 

I. As observâncias externas não são de nenhum proveito para justificar o pecador.

Em um discurso anterior tentei mostrar vários dos refúgios de mentiras para os quais a alma despertada correrá, antes que ela possa repousar persuadida a recorrer por si mesma à justiça de Deus; e em cada um deles, vimos que aquele que se cercou com faíscas de sua própria lenha, recebeu apenas isto da mão de Deus: deitar-se em tristeza. Primeiramente, a alma geralmente se contenta com pequenas visões da lei Divina, e diz: “Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade” [Mateus 19:20], mas quando a espiritualidade da lei se revela, então ela tenta escapar, minando toda a estrutura da lei; mas, quando isso não funciona, ela voa para as suas virtudes passadas, a fim de equilibrar as contas com os seus pecados; e então, quando isso também falha, ela começa uma obra de auto-reforma, a fim de subornar as tolices da juventude pelas sobriedades da velhice. Ai! Quão vãos são todos esses artifícios, inventados por um coração cego, instigados pelo inimigo maligno das almas.

Mas há outro refúgio de mentira, que eu ainda não descrevi, e para o qual a mente despertada muitas vezes recorre com avidez, a fim de encontrar a paz por causa dos chicotes da consciência e os azorragues da lei de Deus; e este é: uma forma de piedade. Ele se tornará um homem religioso, e certamente pensará que isso irá salvá-lo. Todo o seu curso de vida é agora alterado. Antes que isso ocorresse, ele negligenciou as ordenanças exteriores da religião. Ele não costumava se ajoelhar ao lado da cama; ele nunca costumou reunir seus filhos e servos ao redor dele para orar; ele nunca teve o costume de ler a Palavra em secreto, ou em família; ele raramente foi à casa de Deus, em companhia com a multidão que guardava o dia santo; ele não comia aquele pão que para o crente, é verdadeira comida, nem bebia do cálice que é verdadeira bebida.

Mas agora, todos os seus costumes são revertidos, todo o seu curso é alterado. Ele se ajoelha para orar, mesmo quando está sozinho; ele lê a Palavra com regularidade periódica; ele ainda levanta um altar para sacrifício da manhã e da tarde por sua família; seu semblante sóbrio sempre é aguardado em sua posição habitual na casa de oração. Ele olha para trás, agora, para o seu batismo com complacência e serenidade, e senta-se para comer o pão dos filhos à mesa do Senhor. Seus amigos e vizinhos todos observam a mudança. Alguns fazem uma brincadeira com ele, e para outros ele se torna motivo de alegria; mas uma coisa é óbvia, que ele é um homem transformado; e ainda assim, está longe de ser óbvio que ele é um novo homem, ou um homem justificado. Toda essa rotina de exercício corporal, se for iniciada antes que o homem esteja revestido da justiça Divina, é apenas outra maneira de buscar estabelecer a Sua justiça própria, para que ele não seja constrangido a se submeter a revestir-se da justiça de Deus. Não, tão completamente pervertido é o entendimento do não-convertido, que muitos homens são encontrados a perseverar em tal curso carnal de culto a Deus, enquanto, ao mesmo tempo, tão diligentemente perseveram em algum curso de iniquidade deliberada ou secreta.

Tais homens parecem considerar a observância exterior, não apenas como uma expiação pelos pecados passados, mas como um preço pago para comprar uma licença para pecar no futuro. Tal parece ter sido o refúgio de mentira, em que a pobre mulher de Samaria de bom grado teria se assentado, quando o bendito viajante, sentado ao lado do poço, despertou todos os anseios de seu coração, pelas palavras de investigação: “Vai, chama o teu marido, e vem cá” [João 4:16]. Sua mente ansiosa procurou aqui e ali por um refúgio, e encontrou. Onde? Em suas práticas religiosas “Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar” [João 4:20]. Ela empurra para longe a severa convicção de pecado por uma questão de suas observâncias externas; ela muda da ansiedade sobre a alma na ansiedade sobre o lugar onde se deve adorar; se deve ser no Monte Sião ou no Monte Gerizim. Oh! Se Ele somente resolvesse essa questão; se Ele somente dissesse a ela em qual destas montanhas Deus deve ser adorado, ela estaria disposta a adorar por toda a sua vida naquele lugar privilegiado. Se Sião fosse o lugar, ela deixaria a montanha nativa e adoraria ali, para que isso pudesse salvá-la. Oh! De quão bom grado ela teria encontrado aqui um refúgio para a sua alma ansiosa. Com que bondade Divina, então, o Salvador varre este refúgio de mentira, com a resposta: “Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai”, “Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” [João 4:21,24].

Agora é com o mesmo objeto, e com a mesma bondade, que Paulo aqui varre o mesmo refúgio de mentira de todas as almas ansiosas, com estas palavras decisivas: “porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus”.

Existe alguns de vocês a quem Deus despertou do sono mortal da mente natural? Ele tem retirado as cortinas, e feito a luz da verdade cair sobre o seu coração, revelando a verdadeira condição de sua alma? Ele fez você começar com os seus pés alarmados, para que você possa ir e prantear, enquanto você segue a buscar o Senhor, o seu Deus? Ele te fez trocar o despreocupado sorriso de alegria pelas lágrimas de ansiedade, e as gargalhadas da tolice, pelo brado de amarga angústia em relação à sua alma? Você está perguntando pelo caminho para Sião com o rosto dirigido para lá? Então, tome cuidado, eu te suplico, de sentar-se contente neste refúgio de mentira. Lembre-se de que não é um Judeu quem o é exteriormente; lembre-se que nenhuma observância exterior, nem orações, ou ir à igreja, ou leitura da Bíblia, jamais podem justificar-lhe diante dos olhos de Deus.

Estou bem ciente de que, quando a ansiedade pela alma adentra, então a ansiedade para assistir as ordenanças também adentrará. Assim como o cervo ferido vai além do rebanho, para sangrar e chorar sozinho, assim a alma ferida pelo pecado afasta-se de seus companheiros alegres, a prantear, e ler, e orar, sozinha. Ela desejará a Palavra pregada, e ansiará por mais e mais, mas lembre-se, ele não encontra a paz nesta mudança que opera em si mesmo. Quando um homem vai com sede ao poço, sua sede não é dissipada apenas indo ali. Pelo contrário, é aumentada a cada passo que ele segue. É pelo que ele retira do poço que sua sede é satisfeita. E exatamente assim, não é pelo mero exercício corporal da espera nas ordenanças que você alcança a paz; mas por meio de provar a Jesus nas ordenanças; cuja carne é verdadeira comida, e seu sangue, verdadeira bebida.

Se alguma vez, então, você estiver tentado a pensar que você está certamente seguro para a eternidade, porque tem sido levado a modificar o seu tratamento das ordenanças exteriores da religião, lembre-se, eu te suplico, da parábola da festa de casamento, onde muitos foram chamados; muitos foram convidados a entrar, mas poucos foram encontrados tendo as vestes de casamento. Muitos são trazidos dentro dos limites de ordenanças, e leem, e ouvem, isso pode ocorrer, com considerável interesse e ansiedade sobre todas as coisas que estão preparadas, as coisas do reino de Deus; mas destes muitos, poucos são persuadidos a abominarem os seus próprios trapos imundos, e a colocarem a veste de casamento da justiça do Redentor. E somente esses poucos devem sentar-se calmos a participar da festa, na alegria de seu Senhor; o restante ficará sem palavras, e serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro, pranto e ranger de dentes. Você pode ler a Bíblia e orar sobre ela até morrer; você pode esperar pela Palavra pregada todos os dias de Sabath, e sentar-se a cada sacramento até morrer; no entanto, se você não encontrar a Cristo nas ordenanças, se Ele não se revelar à sua alma na Palavra pregada, no pão partido e do vinho derramado; se você não for levado a unir-se a Ele, a olhar para Ele, crer nEle, a clamar em adoração interior: “Meu Senhor, e meu Deus”; “quão grande é a sua bondade! quão grande é sua formosura”; então a observância exterior das ordenanças é completamente inútil para você. Você veio para o poço da salvação, mas foi embora com o cântaro vazio; e, embora você possa estar agora orgulhoso e prepotente de seu exercício físico, você encontrará naquele dia que isso de pouco aproveitou, e que você ficará sem palavras diante do Rei.

 

II. As observâncias externas nunca podem permanecer no lugar de santificação para o crente.

Se é uma coisa comum para as mentes despertadas o buscar paz em suas observâncias externas, para fazer um “Cristo” delas, e descansar nelas como seus meios de aceitação diante de Deus, também é uma coisa comum para aqueles que foram trazidos a Cristo, e desfrutam da paz da crença, que coloquem meras observâncias externas no lugar do crescimento em santidade. Cada crente no meio de vocês sabe de quão bom grado o velho coração interior de vocês substituiria a audição de sermões, e a repetição de orações, no lugar daquela fé que opera pelo amor, e que vence o mundo. Agora, a grande razão pela qual o crente é muitas vezes tentado a fazer isso é que ele ama as ordenanças. Almas não-convertidas raramente se deliciam com as ordenanças de Cristo. Elas não veem em Jesus nem beleza nem formosura, elas escondem seus rostos dEle. Ora, vocês devem perguntar, então, eles não se deleitam em oração a Ele continuamente, em louvá-lO diariamente, em bendizê-lO? Por que vocês devem se maravilhar que a palavra da cruz é loucura para eles, que Seus tabernáculos não são amáveis aos seus olhos, para que eles abandonem suas assembleias juntamente? Eles nunca conheceram o Salvador, eles nunca O amaram; como, então, eles poderiam amar os memoriais que Ele deixou?

Quando vocês estão chorando pelo monumento cinzelado de um amigo que partiu, vocês não se admiram que a multidão descuidada passe sem uma lágrima. Eles não conheciam aquelas virtudes de seu amigo que partiu, eles não conhecem o perfume de sua memória. Exatamente assim, o mundo não se importa com a casa de oração, a água aspergida, o pão partido, o vinho derramado; pois nunca conheceram a excelência de Jesus. Mas com os crentes acontece algo muito diferente. Vocês foram Divinamente ensinados sobre a sua necessidade de Jesus; e, portanto, vocês se deleitam em ouvir a pregação sobre Cristo. Vocês já viram a beleza de Cristo crucificado; e, portanto, vocês amam o lugar onde Ele está visivelmente. Vocês amam o próprio nome de Jesus, é como unguento derramado; portanto, vocês podem juntar-se para sempre na melodia de Seus louvores. O dia de Sabath, sobre o qual vocês uma vez disseram: “Que canseira!” E, “Quando passará [...] para vendermos o grão”, é agora “deleitoso” e “honroso”, o dia mais doce de todos os sete. As ordenanças, que antes eram uma rotina maçante e enjoativa, agora são verdes pastos e águas tranquilas para a sua alma; e, certamente, esta é uma mudança bem-aventurada. Mas ainda assim, vocês estão no corpo, o céu ainda não está ganho, Satanás está em derredor; e uma vez que ele não pode destruir a obra de Deus em sua alma, contudo ele tenta estraga-la. Ele não pode conter o curso; portanto, ele tenta desviá-lo. Ele não pode reter a seta de Deus, e, portanto, ele tenta fazê-la desviar, e gastar a sua força em vão. Quando ele descobre que vocês amam as ordenanças, e é em vão tentá-los a abandoná-las, ele permite que vocês as amem: sim, ele ajuda vocês a amá-las cada vez mais. Ele se torna um anjo de luz, ele ajuda na decoração da casa de Deus, ele joga em torno de seus serviços uma beleza fascinante, apressa-lhes de uma casa de Deus para outra, de reuniões de oração à pregação do sermão, de sermões para os sacramentos. E por que ele faz tudo isso? Ele faz tudo isso apenas para que ele possa fazer disso toda a vossa santificação, para que as ordenanças exteriores sejam tudo em toda a sua religião, para que, em sua ansiedade de preservar a aparência, vocês possam deixar a essência.

Se houver um de vocês, então, em cujo coração Deus tem feito a surpreendente mudança de transforma-lo da aversão a amar as Suas ordenanças, deixe-me suplicar-te para ser zeloso de seu coração com zelo piedoso. Pare nesta hora, e veja se, na sua pressa e busca ansiosa das ordenanças, você não deixou o exercício dessa santidade, sem a qual os decretos são bronze que soa e como o címbalo que retine. Eu tenho uma mensagem de Deus para ti, está escrito: “Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus”. Não é um cristão quem o é exteriormente, nem é este batismo o que é meramente o lavar exterior do corpo, mas é um cristão quem o é interiormente, e verdadeiro batismo é o do coração, quando o coração é lavado de toda a imundícia da carne e do espírito; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus.

Lembre-se, eu te suplico, que as ordenanças são meios para um fim; elas são trampolins, pelo qual você pode chegar a um lugar de descanso. A sua alma está assentada nas ordenanças, e dizendo: É o suficiente? Você está tão satisfeito que você possa desfrutar das ordenanças de Cristo, que você não deseja realizações mais elevadas? Lembre-se da palavra que está escrita: “Este não é o seu descanso”. Você não diria ser um viajante tolo aquele que considerasse todas as pousadas a que ele veio como a sua casa; quem assume o seu descanso permanente, e em vez de preparar-se para a difícil jornada no dia seguinte, deve começar a considerar a facilidade e prazer da casa como seu tudo? Acautela-te, que você não seja esse viajante tolo. As ordenanças são destinadas por Deus para serem apenas pousadas e refeitórios onde o viajante rumo a Sião, cansado de fazer o bem, e fraco na fé, pode valer-se dele para ficar por uma noite, de forma que, sendo revigorado com pão e vinho, ele possa, com novo entusiasmo, avançar em sua jornada para casa, como sobre asas de águias.

Tomem, então, esta regra de vida junto com vocês, fundada sobre estas benditas palavras: “Porque não é judeu o que o é exteriormente”, de forma que se a sua religião exterior está ajudando em sua religião interior, se a sua audição de Cristo no dia de Sabath faz você crescer mais semelhante a Cristo por toda a semana, se as palavras de graça e alegria que você bebe na casa de Deus, levam seu coração a amar mais, e sua mão a fazer mais, então, e somente então, você está usando as ordenanças de Deus corretamente.

Não há uma alma mais miseravelmente enganada no mundo do que a alma dentre vós que, como Herodes, ouve o evangelho pregado com prazer, e ainda, como Herodes, vive em pecado. Você ama o dia de Sabath, você ama a casa de Deus, você gosta de ouvir Cristo pregado em toda a sua gratuidade e em toda a sua plenitude; sim, você acha que poderia ouvir para sempre se somente Cristo fosse o tema; você gosta de estabelecer-se em sacramentos, e comemorar a morte do seu Senhor. E isso é tudo; isso é toda a sua santidade? A sua religião termina aqui? Isso é tudo o que crer em Jesus fez por você? Lembre-se, eu te suplico, que as ordenanças de Cristo não são meios de entretenimento, mas meios de graça; e embora seja dito que os viajantes no vale de Baca cavaram poços, que foram preenchidos com a chuva do alto, ainda também é dito: “Vão indo de força em força” [Salmos 84:7]. Despertem, então, meus amigos, e não permitam mais que seja dito sobre nós, que nossa religião se limita à casa de Deus e ao dia de Sabath. Vamos tirar água com alegria desses poços, apenas a fim de que possamos viajar pelo deserto com alegria e força, o amor e esperança, abençoados para nós mesmos, e uma bênção para todos ao nosso redor. E se falamos, assim, para aqueles de vocês cuja religião não parece ir mais longe do que as ordenanças, que diremos para aqueles de vocês que contradizem o próprio uso e fim das ordenanças em suas vidas? É possível que vocês possam deliciar-se com o mundanismo, e vaidade, e cobiça, e orgulho, e luxúria? É possível que os próprios lábios, que são tão dispostos a cantar louvores, ou a se juntar em orações, também estejam prontos para falar palavras de malícia, maldade, inveja, amargura? Despertem, nós vos rogamos; não somos ignorantes dos ardis de Satanás. Para vocês, ele tem se tornado um anjo de luz.

Lembrem-se, está escrito: “Se alguém entre vós cuida ser religioso, e não refreia a sua língua, antes engana o seu coração, a religião desse é vã. A religião pura e imaculada para com Deus e Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo” [Tiago 1:26-27]. “Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus”. Amém.

 

 Sermão pregado perante o Presbitério de Dundee,
2 de Novembro de 1836. 

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♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título original: Not a Jew Which is One Outwardly
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Introdução à Doutrina da Depravação Humana – Arthur Walkington Pink

Este livro possivelmente encontre uma recepção decididamente mista. Alguns de nossos leitores provavelmente estarão muito decepcionados ao ver o título desta nova série, considerando o assunto bastante desinteressante e pouco edificante. Se assim for, eles são dignos de pena, e nós de bom grado acalentamos a esperança de que Deus possa abençoar esses conteúdos a eles. O remédio é proverbialmente desagradável, mas há momentos em que todos nós o consideramos necessário e benéfico. Outros serão gratos que, pela graça Divina, buscamos glorificar a Deus em vez de agradar a carne. E, certamente, o que mais glorifica a Deus é declarar “todo o Seu conselho, insistir no que coloca o homem em seu devido lugar diante dEle, e enfatizar as partes e aspectos da Verdade que a nossa geração mais necessita. Como procuraremos mostrar, o nosso tema é um de imensa importância doutrinal e de grande valor prático. Uma vez que é um assunto que ocupa um lugar tão proeminente na Palavra de Deus, nenhum pedido de desculpas é necessário para o nosso envolvimento em tal tarefa.

É nossa profunda convicção de que a questão vital que mais exige ser levantada atualmente é esta: O homem é uma criatura total e completamente depravada por natureza? Será que ele imediatamente entra no mundo completamente arruinado e desamparado, cego espiritualmente e morto em delitos e pecados? Como é a nossa resposta a essa pergunta, assim será nossos pontos de vista sobre muitos outros. É sobre a base deste fundo escuro que toda a Bíblia prossegue. Qualquer tentativa de modificar ou diminuir, repudiar ou suavizar o ensino da Escritura sobre isso é fatal. Coloque a questão de outra forma: O homem está agora, em tal condição de que ele não pode ser salvo sem a intervenção especial e direta do Deus Triuno em seu favor? Em outras palavras, há alguma esperança para ele além de sua eleição pessoal pelo Pai, sua redenção particular, por meio do Filho e as operações sobrenaturais do Espírito dentro de si? Ou, colocando-o ainda de outra maneira: Se o homem é um ser totalmente depravado, ele pode, eventualmente, dar o primeiro passo na questão de sua conversão a Deus?

A resposta da Escritura a essa pergunta torna evidente a inutilidade dos planos de reformadores sociais para “a elevação moral das massas”, os planos de políticos para a paz das nações, e as ideologias de sonhadores para embarcar em uma “era de ouro” para este mundo. É ao mesmo tempo patético e trágico ver muitos de nossos maiores homens colocando sua fé em tais quimeras. Divisões e discórdias, ódio e derramamento de sangue, não podem ser banidos enquanto a natureza humana for o que é. Mas durante o século passado, a tendência constante de uma Cristandade deteriorada foi subestimar o mal do pecado e superestimar as capacidades morais dos homens. Em vez de proclamar a hediondez do pecado, tem havido um alongar-se mais sobre seus inconvenientes, e o retrato humilhante da condição perdida do homem, conforme estabelecido na Sagrada Escritura tem sido obscurecido, senão destruído, por dissertações lisonjeiras sobre o progresso humano. Se a religião popular de “igrejas” – incluindo nove décimos do que é chamado de “Cristianismo Evangélico” – for testada neste ponto, será encontrado que se choca diretamente com condição caída, arruinada, e espiritualmente morta do homem.

Há, portanto, um necessário clamor hoje para que o pecado seja visto à luz da Lei de Deus e do Evangelho, de modo que sua pecaminosidade seja demonstrada, e as profundezas escuras da depravação humana expostas pelo ensinamento da Sagrada Escritura, para que possamos aprender o que é indicado por essas terríveis palavras: “mortos em delitos e pecados”. O grande objetivo da Bíblia é tornar Deus conhecido a nós, retratar o homem como ele aparece aos olhos de Seu Criador, e mostrar a relação de um para o outro. É, portanto, o empreendimento dos Seus servos, não apenas declarar o caráter e a perfeição Divina, mas também delinear a condição original e apostasia do homem, bem como o remédio Divino para a sua ruína. Até que nós realmente contemplemos o buraco do abismo em que, por natureza, estamos, nunca podemos apreciar devidamente tão grande salvação de Cristo. Na condição caída do homem, temos a terrível doença para a qual a Redenção Divina é a única cura, e nossa estimativa e avaliação das provisões da graça Divina serão necessariamente modificadas na proporção em que nós modificamos a necessidade que isso foi concebido para atender.

Foi verdadeiramente pontuado por um dos Puritanos que “A finalidade do ministério do Evangelho é trazer os pecadores a Cristo. Seu caminho para esse fim se encontra através do sentido de miséria deles sem Cristo. Os ingredientes desta miséria são a nossa peca-minosidade, original e atual; a ira de Deus, a qual o pecado nos expôs; e a nossa impotência para nos libertar tanto do pecado e da ira. Para que possamos, portanto, promover esta grande finalidade, devemos nos esforçar, conforme o Senhor nos ajudar, para conduzir você por esse caminho, pela percepção da miséria, a Ele, quem somente pode libertar você disso. Agora, acerca da origem de nossa miséria, sendo a corrupção de nossa natureza ou o pecado original, nós pensamos ser apropriado começar aqui, e, portanto, erguemos estas palavras como mui apropriadas ao nosso propósito: “Eis que eu nasci em iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (extraído da Introdução do Sermão de David Clarkson sobre o Salmo 51:5, por volta de 1660).

Este assunto é de fato um dos mais solenes, e ninguém pode apropriadamente escrever ou pregar sobre isso a não ser que o seu coração esteja profundamente impressionado por isso. Não é algo de que qualquer homem pode separar-se e discorrer nele como se ele não estivesse diretamente envolvido, e ainda menos como a partir de um nível mais elevado, olhando para baixo sobre aqueles que ele denuncia. Nada é mais incongruente e adoecedor para um jovem pregador do que levianamente recitar passagens da Escritura que retratam sua própria vileza natural. Ao contrário, elas devem ser lidas ou citadas com a maior gravidade. “Como nenhum coração pode suficientemente conceber, assim, nenhuma língua pode adequadamente expressar o estado de miséria e ruína em que o pecado lançou o miserável homem culpado. Em separando-o de Deus, ele lhe separou da única fonte de toda felicidade e santidade. Arruinou-lhe o corpo e a alma, em um preencheu com enfermidade e doença; no outro, desfigurou e destruiu a imagem de Deus na qual ela fora criada. Ele o fez amar o pecado e odiar a Deus” (J.C. Philpot).

A doutrina da depravação total é muito humilhante. Não é que o homem se inclinou para um lado e precisa de sustento, nem que ele seja apenas ignorante e necessite de instrução, nem que ele está caído e clama por um tônico, mas sim que ele está arruinado, perdido, morto espiritualmente. Por isso, ele está “sem força”, completamente incapaz de melhorar a si mesmo; exposto à ira de Deus, e incapaz de realizar uma única obra que possa encontrar aceitação dEle. Quase todas as páginas da Bíblia oferecem testemunho desta verdade. Todo o plano da Redenção toma isso por garantido. O plano de salvação ensinado nas Escrituras não poderia dar lugar a qualquer outra suposição. A impossibilidade de qualquer homem obter a aprovação de Deus pelas obras de Sua autoria aparece claramente no caso do jovem rico que veio a Cristo. Julgado pelos padrões humanos, ele era um modelo de virtude e religiosas realizações, mas, como todas as outras pessoas que confiam em esforços próprios, ele era ignorante da espiritualidade e rigor da Lei de Deus, e quando Cristo o coloca à prova, suas razoáveis expectativas foram sopradas ao vento, e “retirou-se triste” (Mateus 19:22).

É, portanto, uma doutrina das mais intragáveis. Isso não pode ser de outra forma, pois o amor não regenerado ouve sobre “a grandeza, a dignidade, a nobreza do homem”. O homem natural pensa muito de si mesmo e aprecia somente aquilo que é lisonjeiro. Nada lhe agrada mais do que ouvir o que exalta a natureza humana e elogia o estado da humanidade, mesmo que seja em termos que não apenas repudiam o ensino da Palavra de Deus, mas que são categoricamente desmentidas pela observação comum e experiên-cia universal. E há muitos que agradam a ele por seus generosos louvores sobre a excelência da civilização e o progresso constante da geração. Assim, desmentir o erro popular da “Evolução” é altamente desagradável para seus iludidos devotos. No entanto, o primeiro ofício dos servos de Deus é denegrir a soberba de tudo o que o homem se gloria, retira-lo de suas plumas roubadas, coloca-lo para baixo, no pó, diante de Deus. Embora tal ensino seja repugnante, ele deve cumprir fielmente seu dever, “quer ouçam quer deixem de ouvir” (Ezequiel 3:11).

Este não é um dogma sombrio inventado pela Igreja na “idade das trevas”, mas a verdade da Escritura Sagrada. Disse o muito citado George Whitefield: “Eu olharei para isso não meramente como uma doutrina das Escrituras, a grande Fonte da Verdade, mas como algo mui fundamental, a partir da qual eu espero que Deus não deixará com que nenhum de vocês sejam engodados”. É um assunto para o qual grande destaque é dado na Bíblia. Cada parte da Escritura tem muito a dizer sobre o terrível estado de degradação e escravidão que a queda trouxe ao homem. A corrupção, a cegueira, a hostilidade de todos os descendentes de Adão contra tudo que é de natureza espiritual são constantemente insistidas. Não apenas a completa ruína do homem é plenamente descrita, mas a sua impotência para salvar a si mesmo a partir da mesma. Nas declarações e denúncias dos Profetas, de Cristo e de Seus Apóstolos, a escravidão de todos os homens a Satanás e sua completa impotência para converter-se a Deus para libertação são repetidamente estabelecidos, não indireta e vagamente, mas enfaticamente e em grande detalhe. Esta é uma das centenas de provas de que a Bíblia não é uma invenção humana, mas uma comunicação do Três Vezes Santo.

Este é um assunto tristemente negligenciado. Não obstante o ensino claro e uniforme da Escritura sobre o mesmo, a condição arruinada do homem e a separação de Deus são apenas debilmente apreendidas e raramente ouvidas no púlpito moderno, e recebem pouco lugar mesmo naqueles que são considerados como os centros da ortodoxia. Em vez disso, toda a tendência do atual pensamento e ensino está no sentido oposto, e mesmo onde a hipótese darwiniana não foi aceita, as suas influências perniciosas são muitas vezes vistas. Em consequência do culpado silêncio do púlpito moderno, surgiu uma geração de frequentadores de igreja que é deploravelmente ignorante das verdades básicas da Bíblia, de modo que, talvez, um em mil teve alguma vez um conhecimento mental das cadeias de dureza e descrença que se ligam ao coração natural, ou do calabouço de trevas em que se encontram. Em vez de dizer fielmente aos seus ouvintes sobre o seu estado lamentável por natureza, milhares de pastores estão desperdiçando seu tempo, relatando as últimas notícias do Kremlin ou do desenvolvimento da bomba atômica.

Esta é, por conseguinte, uma doutrina de teste, especialmente de solidez do pregador na Fé. A ortodoxia de um homem sobre o assunto determina seu ponto de vista sobre muitas outras doutrinas de grande importância. Se sua crença aqui for Escriturística, então ele claramente perceberá como é impossível para os homens melhorarem a si mesmos, de que Cristo é a sua única esperança. Ele saberá que a menos que o pecador nasça de novo, não pode haver nenhuma entrada para ele no Reino de Deus. Nem ele entreterá a ideia de livre arbítrio da criatura caída ao bem. Ele será preservado de muitos erros. “Eu nunca conheci uma pessoa no limiar em direção ao Arminiano, ao Ariano, ao Sociniano, aos esquemas Antinomianos, sem que primeiro entre em diminutas noções sobre a depravação ou culpabilidade humanas” (Andrew Fuller). Disse o bem capacitado instrutor teológico J. M. Stifler: “Não pode ser dito demais que uma falsa teologia tem a sua fonte em visões inadequadas de depravação”.

É uma doutrina de grande valor prático, bem como de importância doutrinária. O funda-mento de toda verdadeira piedade encontra-se em uma visão correta de nós mesmos e de nossa vileza, e uma crença Escriturística de Deus e Sua graça. Não pode haver aborrecimento do eu ou arrependimento genuínos, sem a real apreciação da misericórdia salvífica de Deus, nem fé em Cristo, sem isso. Não há nada como um conhecimento desta doutrina tão bem calculado para desiludir o homem vaidoso e convencê-lo da inutilidade e podridão de sua justiça própria. Assim, o pregador que é sensível à praga de seu próprio coração sabe muito bem que ele não pode apresentar esta Verdade de tal forma a fazer com que seus ouvintes realmente percebam e sintam o mesmo, de modo a conduzi-los a renunciar o amor a si mesmos, e fazê-los renunciar para sempre a toda esperança neles mesmos. Portanto, em vez de confiar em sua fidelidade em apresentar a Verdade, ele se lançará em Deus, para que Ele aplique isso graciosamente em poder para aqueles que o ouvem e abençoe seus débeis esforços.

Esta é uma doutrina extremamente esclarecedora. Ela pode ser melancólica e humi-lhante, no entanto, ela lança uma torrente de luz sobre os mistérios que são de outra maneira insolúveis. Ela fornece a chave para o curso da história humana e mostra por que muito dela fora escrita com sangue e lágrimas. Ela fornece uma explicação para muitos problemas que severamente desconcertam e confundem o reflexivo. Ela revela por que a criança está propensa ao mal e tem de ser ensinada e disciplinada em tudo o que é bom. Ela explica por que cada melhoria no ambiente do homem, toda tentativa de educá-lo, todos os esforços dos reformadores sociais, são inúteis para efetuar qualquer melhoria radical em sua natureza e caráter. Ela explica o horrível tratamento que Cristo encontrou quando trabalhou tão graciosamente neste mundo, e por que Ele ainda é desprezado e rejeitado pelos homens. Ela permite que o próprio Cristão compreenda melhor o doloroso conflito que está sempre em ação dentro dele, e que lhe faz muitas vezes clamar, “Ó, miserável homem que eu sou!”

É, portanto, uma doutrina mui necessária, pois a grande maioria dos nossos companheiros são ignorantes da mesma. Os servos de Deus são muitas vezes considerados falar mui severa e dolorosamente sobre o estado terrível do homem através de sua apostasia de Deus, mas o fato é que é impossível exagerar na linguagem humana a escuridão e a contaminação do coração do homem ou a descrição da miséria e absoluto desamparo de uma condição tal como a Palavra da Verdade descreve nestas solenes passagens: “Mas, se ainda o nosso evangelho está encoberto, para os que se perdem está encoberto.

Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (2 Coríntios 4:3-4). “Por isso não podiam crer… [judicialmente] Cegou-lhes os olhos, e endureceu-lhes o coração, A fim de que não vejam com os olhos, e compreendam no coração, e se convertam, e eu os cure” (João 12:39-40). Isto é ainda mais evidente quando comparamos o estado das almas daqueles em quem um milagre da graça é operado – vejam Lucas 1:78-79.

Esta é uma doutrina salutar, uma que Deus usa para levar os homens aos seus sentidos. Enquanto imaginamos que nossas vontades têm poder para fazer o que é agradável a Deus, nunca abandonamos a dependência do eu. Não que um mero conhecimento intelectual sobre a queda e ruína do homem seja suficiente para abandonar o orgulho. Apenas as poderosas operações do Espírito podem efetuar isso; ainda assim, Ele tem o prazer de usar a pregação fiel da Palavra para este fim. Nada, senão uma percepção sensível de nossa condição perdida nos coloca no pó diante de Deus.

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♦ Fonte: EternalLifeMinistries.org │ Título Original: The Doctrine Of Human Depravity – Introduction
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACRF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Rebeca Almeida │ Revisão por William Teixeira


A Primeira Carta aos Coríntios 12 significa A Igreja Universal ou Uma Igreja Local do Novo Testamento?

Por quase dez anos após sua regeneração, o escritor nunca duvidou de que o “corpo” mencionado em 1 Coríntios 12 fazia referência à “Igreja Universal”. Isto lhe foi ensinado por aqueles conhecidos como “Irmãos de Plymouth”, que são encontrados nas notas da Bíblia de Referência Scofield, e são amplamente aceitos pelos evangélicos e estudantes das profecias. Não até que Deus o trouxe para o meio dos Batistas do Sul (um grande privilégio pelo qual ele nunca será suficientemente agradecido) que ele ouviu pela primeira vez o ponto de vista acima posto em questão. Mas era difícil para ele considerar imparcialmente uma exposição que significava a refutação de um ensinamento recebido de homens altamente respeitados, para não falar do fato que ele teria que confessar ter tido um conceito totalmente errôneo por tanto tempo, e se permitiu ler 1 Coríntios 12 (e passagens similares) através dos óculos de outros homens. No entanto, nos últimos tempos, o escritor foi levado a fazer um estudo orientado pela oração e independente deste assunto para ele mesmo, e devido ao resultado ele é obrigado a renunciar ao seu primeiro conceito como totalmente insustentável e não bíblico.

A Versão Autorizada de 1 Coríntios 12:13 diz o seguinte: “Pois em um só Espírito, todos nós fomos batizados no corpo”, a respeito disto teremos mais a dizer mais tarde. Em 1 Coríntios 12 Dr. Scofield, em sua Bíblia de Referência, diz o seguinte: “O Capítulo 12 cuida do Espírito em relação ao corpo de Cristo. Essa relação é dupla: (1) O batismo com o Espírito forma o corpo, unindo os crentes a Cristo, Cabeça ressuscitado e glorificado, e uns aos outros (v. 12, 13). O símbolo do corpo assim formado é o corpo natural, humano (v. 12), e todas as analogias são livremente utilizadas (vs. 14-26). (2) Pois cada crente recebe uma capacitação espiritual e capacidade para o serviço específico”, etc. e etc. Em enfatizar a palavra “corpo” Dr. Scofield tem, sem dúvida, na mente “a Igreja Universal”. Caso haja qualquer dúvida sobre este ponto, é de uma só vez dissipada por uma referência às notas do Dr. Scofield em Hebreus 12:23: “A verdadeira igreja, composta de todo o número de pessoas regeneradas do Pentecostes até a Primeira Ressurreição (1 Coríntios 15:52), unidas a Cristo e pelo batismo com o Espírito Santo (1 Coríntios. 12:12-13), formam o Corpo do qual Ele é a Cabeça”. É de se notar que, em ambos os lugares o Doutor fala do “batismo com o Espírito”, mas em 1 Coríntios 12:13 não é feita de modo alguma menção a qualquer batismo “com” o Espírito Santo, tanto no Inglês como no Grego; tal é apenas uma invenção da imaginação do Doutor.

A Versão Revisada de 1 Coríntios 12:13 diz assim: “Pois em um só Espírito fomos todos nós batizados em um só corpo”. (1 Coríntios 12:13). Acreditamos que esta é muito melhor e uma tradução mais acurada do Grego do que a oferecida pela Versão Autorizada. Mas temos encontrado uma falha na tradução feita pela Versão Revisada também. A tradução da palavra “espírito” (pneumati) é totalmente enganosa, e, sendo assim, é quase impossível obter o verdadeiro significado do verso. Para o benefício daqueles que não leem o Novo Testamento em Grego, podemos dizer que na língua em que o Novo Testamento foi escrito originalmente não foram utilizadas letras maiúsculas, exceto no início de um livro ou parágrafo. Pneuma é sempre escrito em Grego com um “e” minúsculo, e é uma questão de exposição e interpretação, não de tradução, se um “e” ou “E” deve ser usado a cada instância onde a palavra para espírito é usada. Em muitos casos ela é traduzida com um “e” minúsculo: espírito (Mateus 5:3; Romanos 1:4; 1:9; 1 Coríntios 2:11; 5:3; etc.). Em outras passagens, onde o Espírito Santo de Deus é referido, uma ênfase é justamente empregada. Além disso, a palavra grega pneuma, por vezes, é usado não apenas para designar o Espírito Santo de Deus, e em outros, o espírito do homem (como contra-distinto de sua alma e corpo), mas também é empregada psicologicamente; lemos sobre “o espírito (pneuma) de mansidão” (1 Coríntios 4:21), e sobre o “espírito (pneuma) de temor” (2 Timóteo 1:7), etc. Mais uma vez, em Filipenses 1:27 lemos: “num mesmo espírito”. Aqui o “espírito” tem a força de unidade de pensamento, vontade, objetivo. Note-se que em Filipenses 1:27 a palavra grega para “num mesmo espírito” é precisamente a mesma em todos os aspectos, como a palavra Grega usada no início do 1 Coríntios 12:13, e em Filipenses 1:27 até mesmo os tradutores da Versão Autorizada [Neste caso Filipenses usamos a versão ACF] tem usado apenas um pequeno “s” para “espírito”, como eles certamente deveriam ter feito em 1 Coríntios 12:13. Uma outra consideração sobre o Grego: A preposição traduzida como “pois” em 1 Coríntios 12:13 é “en”, que é traduzida no Novo Testamento [na Versão Autorizada KJV em inglês] como “entre” [among] 114 vezes, “por” [by] 142, “com” [with] 139, “em” [in] 1.863 vezes. Mais qualquer comentário seria desnecessário.

“Em um só Espírito fomos todos nós batizados” deve ser a tradução de 1 Coríntios 12:13. O “batismo” aqui não é de modo algum o batismo do Espírito Santo, mas o batismo nas águas. Observe: sempre que lemos “batismo” no Novo Testamento, sem uma referência imediatamente anterior ou contexto que expressamente o defina (como em Gálatas 3:27; 4:5 Efésios, etc.), é sempre o batismo nas águas que está em vista.

“Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo” (ACF) que corpo? A “Igreja Universal” ou uma igreja local de Cristo? Nós alegamos que um estudo cuidadoso de 1 Coríntios 12 pode fornecer apenas uma resposta possível, a saber, uma igreja Batista local. Observe os seguintes pontos.

(1) A cabeça do “corpo” aqui descrita em 1 Coríntios 12 é vista como estando na terra, versículos 16 e 17. Ora, seria totalmente incongruente representar o Cabeça da igreja universal mística (supondo que tal coisa existisse, visto que até agora certamente ainda não existe) estando na terra, pois a cabeça dessa igreja que, no futuro, será a Igreja Universal de Cristo, está no céu, e no céu a Igreja Universal será reunida (ver Hebreus 12:22-24). Mas é perfeitamente cabível representar (na ilustração do corpo humano), a cabeça da igreja local como estando na terra, pois onde quer que uma igreja local do Novo Testamento se reúne para o culto ou para tratar dos negócios de Cristo, Ele está no meio deles (Mateus 18:20).

(2) Em 1 Coríntios 12:22-23, lemos sobre os membros do corpo que parecem ser “mais fracos”, e sobre aqueles “menos honrosos” e de membros “menos decorosos”. Agora, essas características dos membros do corpo humano ilustram com precisão as diferenças que existem entre os estados espirituais dos vários membros de uma assembleia local, mas a ilustração do “corpo” aqui falharia completamente se a “Igreja Universal” estivesse em vista, pois quando a Igreja Universal estiver reunida no céu cada membro será “semelhante a Cristo”, “transformado em corpo glorioso” [1 João 3:2 e Filipenses 3:21], e tais comparações como “mais fraco”, “menos honrosos”, “menos decoroso” como características dos membros, serão para sempre uma coisa do passado!

(3) Em 1 Coríntios 12:24, o apóstolo fala sobre o que Deus tem feito, a fim de que não haja divisão no corpo (v. 25). Agora deixe qualquer leitor imparcial perguntar, em que tipo de corpo um cisma (divisão) é possível? Certamente não na Igreja Universal pois é unicamente obra Divina, em que a responsabilidade humana e falha não entram. Quando a Igreja dos Primogênitos estiver reunida no céu, glorificada, “sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante” [Efésios 5:27], não haverá “cisma” ali. Mas na igreja a qual o apóstolo se refere em 1 Coríntios 12 estava havendo divisões (veja 1 Coríntios 11:18 e etc.) Portanto, isso é uma prova positiva de que é à igreja local, e não à Igreja Universal, que está sendo referida em 1 Coríntios 12.

(4) Em Coríntios 12:26 lemos: “se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele”. Ora, isso po-de ser verdade se nos referirmos a uma Igreja Universal? Certamente que não. É verdade que sempre que um crente em Cristo, na Índia ou na China (de quem eu nunca sequer tinha ouvido falar) “sofre” “todos os membros”, todos os crentes na América, “sofrem” com por isto ou com ele? Certamente que não. Mas é verdade, idealmente, e muitas vezes na experiência que quando um membro de uma igreja local “sofre” todos os membros daquela igreja local sofrem também. Devemos nos abster de acrescentar outros argumentos.

Suficiente tem sido apresentado, nós confiamos, para provar que o “corpo” referido em 1 Coríntios 12:13 é uma igreja local, e que o “corpo humano” é aqui utilizado para ilustrar a dependência mútua e relação existente entre seus vários membros. A partir deste fato estabelecido e incontestável várias conclusões se seguem:

Em primeiro lugar, o “batismo” pelo qual se entra “em” uma igreja do Novo Testamento é o batismo nas águas, pois o Espírito Santo não “batiza” alguém em uma assembleia local.

Em segundo lugar, não importa qual seja a nossa nacionalidade – Judeus ou Gentios – não importa qual seja a nossa posição social – escravo ou homem livre – todos os mem-bros da igreja local foram batizados “em um só espírito”, isto é, em um só pensamento, propósito, vontade, e há, portanto, a unidade de propósito a qual eles almejam, unidade de privilégio para fruírem, unidade da responsabilidade a cumprir. Além disso, é dito que todos têm “bebido de um Espírito”, isto é, eles são um e totalmente apropriados (simbo-lizado por “beber”) para esta unidade de espírito.

Em terceiro lugar, há apenas uma forma de entrada para uma igreja local do Senhor Jesus Cristo, e que é pelo “batismo” biblicamente executado por um administrador biblicamente qualificado e biblicamente autorizado, pois lemos “pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo”. Disto segue-se que ninguém, exceto aqueles que foram biblicamente “batizados” entraram “em” uma Igreja do Novo Testamento, todos os outros são membros de nada menos do que instituições criadas pelo homem. Daí a enorme importância de “preservar as ordenanças”, como eles foram entregues pelo próprio Cristo para Suas igrejas.

O escritor pediria desculpas por escrever em tal extensão (ele condensou tanto quanto lhe foi possível), mas acalenta a esperança de que a sua própria confissão pessoal com o qual começou este artigo influencie outros a examinar as Escrituras com mais diligência e a “examinar tudo” por si mesmos [1 Tessalonicenses 5:21], não aceitando o ensino de qualquer homem, não importa quem ele seja. Irmãos, almejemos ser “bereanos”.
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♦ Fonte do segundo artigo: PBMinistries.org | Título Original: Does First Corinthians 12 Mean The Universal Church or A Local New Testament Church?
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por William Teixeira │ Revisão por Camila Almeida


Igrejas de Deus – Arthur Walkington Pink

[Extraído de Estudos nas Escrituras (Studies in the Scriptures), Dezembro 1927, pp 277-281]

 

“Porque vós, irmãos, tornaram-se seguidores das igrejas de Deus que na Judéia estão em Cristo Jesus, porquanto também padecestes de vossos próprios concidadãos o mesmo que eles têm dos judeus” (1 Tessalonicenses 2:14).

A ignorância que prevalece no Cristianismo hoje acerca da verdade sobre as Igrejas de Deus é o mais profundo e mais geral erro sobre qualquer outro assunto bíblico. Muitos dos que são bastante coerentes evangelicamente e são bem ensinados sobre o que chamamos de os grandes fundamentos da fé, são bastante errôneos eclesiasticamente. Observe a terrível confusão que abunda a respeito do termo em si. Existem poucas palavras no idioma Inglês com uma maior variedade de significados do que “igreja”. O homem na rua entende por “igreja” o edifício em que as pessoas se reúnem para o culto público. Aqueles que conhecem melhor, aplicam o termo para os membros em comunhão espiritual que se reúnem naquele edifício. Outros usam este termo de uma forma confessional e falam da “Igreja Metodista” ou “Igreja Presbiteriana”. Também é empregada a nível nacional da instituição estatal-religiosa como “a Igreja da Inglaterra” ou “a Igreja da Escócia”. Para os papistas a palavra “igreja” é praticamente sinônimo de “salvação”, pois eles são ensinados que todos os que estão fora da “Santa Madre Igreja” estão eternamente perdidos.

Muitos daqueles que pertencem ao próprio povo do Senhor parecem ser estranhamente indiferentes sobre a mente de Deus no que concerne a este assunto. Alguém de cujos ensinamentos sobre a igreja nós diferimos muito, tem dito bem: “Triste é ouvir os homens dedicados no Evangelho, claros expositores da Palavra de Deus, que nos dizem que eles não se preocupam sobre a doutrina da Igreja; que a salvação é o tema de suma importân-cia; e o estabelecimento de cristãos nos fundamentos é tudo o que é necessário. Vemos homens dando capítulo e versículo para cada declaração, e permanecendo sobre a autoridade infalível da Palavra de Deus, silenciosamente fechando os olhos para os seus ensinamentos sobre a igreja, provavelmente relacionado com aquilo a que eles não podem reivindicar nenhuma autoridade provinda das Escrituras, e, aparentemente se satisfazem em levar outros para a mesma relação”.

O que constitui uma igreja do Novo Testamento? Que as multidões de Cristãos professos tratam esta questão como algo de menos importância, está bem claro. Suas ações mostram isso. Eles empregam pouca ou nenhuma diligência em descobrir isto. Alguns se contentam em ficar de fora de qualquer igreja terrena. Outros se unem a alguma igreja por considerações sentimentais, porque seus pais ou cônjuge pertenciam a ela. Outros se unem a uma igreja por motivos mais baixos ainda, como considerações comerciais ou políticas. Mas isso não deveria ser assim. Se o leitor é um Anglicano, deve sê-lo porque ele está totalmente convencido de que a sua é a igreja mais bíblica. Se ele é um Presbiteriano, ele deve ser assim, a partir de sua convicção de que sua “igreja” está mais de acordo com a Palavra de Deus; da mesma forma se ele é um Batista, Metodista e etc.

Há muitos outros que têm pouca esperança de chegar a uma resposta satisfatória à pergunta: O que constitui uma igreja do Novo Testamento? A terrível confusão que agora prevalece na Cristandade, as numerosas seitas e as denominações diferem tão amplamente tanto em relação à doutrina e à igreja, quanto em relação à ordem e ao governo, os têm desencorajado. Eles não têm tempo para examinar cuidadosamente as reivindicações das várias denominações que se opõem. A maioria dos Cristãos são pessoas ocu-padas que têm de trabalhar para ganhar a vida, e, portanto, eles não têm tempo livre necessário para investigar adequadamente os méritos escriturísticos dos diferentes sistemas eclesiásticos. Consequentemente, eles descartam o assunto de suas mentes como sendo algo muito difícil e complexo para que eles tenham a esperança de chegar a uma solução satisfatória e conclusiva. Mas isso não deveria ser assim. Em vez dessas diferenças de opinião nos desanimarem, deveriam estimular em nós um maior esforço para chegarmos à mente de Deus. É-nos dito para “comprar a verdade” [Provérbios 23:23], o que implica que são necessários esforço e sacrifício pessoal. Somos ordenados a “examinar todas as coisas” [1 Tessalonicenses 5:21].

Ora, deve ser óbvio para todos que deve haver um caminho mais excelente do que examinar os credos e artigos de fé de todas as denominações. O único método sábio e satisfatório para descobrir a resposta Divina à nossa pergunta, a saber, “o que constitui uma igreja do Novo Testamento?” é nos voltando para o próprio Novo Testamento e estu-dando cuidadosamente os seus ensinamentos sobre a “igreja”. Não o ponto de vista de algum homem piedoso; não aceitando o credo da igreja a qual os meus pais pertenciam; mas “examinando todas as coisas” por mim mesmo! O povo de Deus não tem o direito de organizar uma igreja seguindo padrões diferentes daqueles que governaram as igrejas na época do Novo Testamento. Uma instituição cujos ensinamentos ou governo são contrários ao Novo Testamento não é, certamente, uma “igreja” do Novo Testamento.

Agora, se Deus considerou de suficiente importância deixar registrado nas páginas da Revelação Inspirada o que a igreja do Novo Testamento é, então certamente deve ser suficientemente importante para cada homem ou mulher redimidos estudar esse registro, e não somente isso, mas se submeterem à sua autoridade e conformarem a sua conduta ao mesmo. Devemos, portanto, apelar para o Novo Testamento somente e buscar a resposta de Deus para a nossa pergunta.

 

1. Uma igreja do Novo Testamento é um corpo local de crentes. Muita confusão foi causada pelo emprego de adjetivos que não são encontrados no N.T. Se fosse perguntado a alguns Cristãos: “a que igreja vocês pertencem?”, eles responderiam: “Á grande igreja invisível de Cristo, uma igreja que é tão intangível como é invisível”. Quantos recitam o chamado Credo dos Apóstolos: “Creio na santa Igreja católica”, o que certamente não era um artigo no “credo” dos Apóstolos. Outros falam de “Igreja militante” e “Igreja triunfante”, todavia estes termos também não são encontrados nas Escrituras, e empregá-los somente cria dificuldade e confusão. No momento em que deixamos de “conservar o modelo das sãs palavras” (2 Timóteo 1:13) e empregar termos que não estão na Bíblia, só obscurecemos a nós mesmos e aos outros. Não podemos aperfeiçoar a linguagem do Santo Escrito. Não há necessidade de inventar termos extras; e fazê-lo é pôr em questão o vocabulário do Espírito Santo. Quando as pessoas falam de “a Igreja universal de Cristo” elas empregam outra expressão não bíblica e anti-escriturística. O que eles realmente querem dizer é “a família de Deus”. Esta última denominação inclui toda a companhia dos eleitos de Deus; mas a “Igreja” não faz isso.

Agora, o tipo de igreja que é enfatizado no Novo Testamento não é nem invisível nem universal, mas, antes, visível e local. A palavra grega para “igreja” é ekklesia e os que conhecem algo desta língua concordam que a palavra significa “uma Assembleia”. Agora, uma “assembleia” é uma companhia de pessoas que realmente se reúnem. Se eles nunca “se reúnem”, então fazemos mau uso da linguagem ao chamá-los de “uma Assembleia”. Portanto, como todo o povo de Deus nunca esteve ainda completamente reunido, não há hoje nenhuma “Igreja Universal” ou “Assembleia Universal”. Essa “Igreja” é ainda futura; porém ainda não possui existência concreta ou corporativa.

Para provar o que foi dito acima, examinemos as passagens onde o termo foi usado pelo próprio nosso Senhor durante os dias de Sua carne. Somente duas vezes nos quatro Evangelhos encontramos Cristo falando da “igreja”. A primeira é em Mateus 16:18, quando Ele disse a Pedro: “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. A que tipo de “igreja” estava o Salvador aqui se referindo? A grande maioria dos Cristãos entende esta passagem como se Ele estivesse se referindo à grande Igreja invisível, mística e universal, que inclui todos os redimidos. Mas seguramente eles estão errados. Se houvesse sido esse o seu significado Ele teria necessariamente que dizer: “Sobre esta pedra estou construindo a minha igreja”. Em vez disso, Ele usou o tempo futuro: “Sobre esta pedra edificarei”, o que mostra claramente que no momento em que ele falou, sua “igreja” não possuía existência, salvo no propósito de Deus. A “igreja” a que se referiu Cristo em Mateus 16:18 não podia ser universal, ou seja, uma igreja que inclui todos os santos de Deus, pois o tempo do verbo usado por Ele na ocasião claramente exclui os santos do Antigo Testamento! Assim, a primeira vez que a palavra “igreja” ocorre no N.T. não faz nenhuma referência a algo geral ou universal. Além disso, nosso Senhor não poderia estar se referindo à Igreja na glória, pois ali não haverá nenhum perigo oferecido pelas “as portas do inferno”! Sua declaração de que, “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”, deixa claro acima de qualquer dúvida que Cristo estava se referindo a Sua Igreja sobre a terra, e, portanto, a uma igreja visível e local.

O outro único registro que temos de nosso Senhor falando sobre a “igreja”, enquanto Ele estava na terra, é encontrado em Mateus 18:17: “E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano”. Agora, o único tipo de “igreja” para a qual um irmão poderia confessar sua “culpa” é uma visível e local. Tão óbvio é isto que não há necessidade me estender ainda mais sobre este ponto.

 No último livro do Novo Testamento, encontramos nosso Salvador novamente usando esse termo. Primeiro em Apocalipse 1:11 Ele diz a João: “o que vês, escreve-o num livro, e envia-o às sete igrejas que estão na Ásia”. Aqui, novamente, fica claro que o Senhor estava falando de igrejas locais. Em seguida, encontramos a palavra “igreja” é em seus lábios mais dezenove vezes no Apocalipse, e em cada passagem a referência é feita a igrejas locais. Sete vezes Ele diz: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”, e não “o que o Espírito diz à Igreja”, que é o que teria sido dito se a visão popular fosse correta. A última referência está em Apocalipse 22:16: “Eu, Jesus, enviei o meu anjo, para vos testificar estas coisas nas igrejas”. A razão para isso é que a Igreja de Cristo não possui ainda existência tangível e corporal, nem na glória nem sobre a terra; tudo o que Ele tem agora aqui são Suas “igrejas” locais.

Mais uma prova de que o tipo de “igreja” que é enfatizado no Novo Testamento é um tipo local e visível apelamos para outros fatos da Escritura. Lemos sobre “A igreja que estava em Jerusalém” (Atos 8:1). “A igreja que estava em Antioquia” (Atos 13:1), “A Igreja de Deus que está em Corinto” (1 Coríntios 1:2). Observe cuidadosamente que, apesar destas igrejas estarem ligadas ente si, ainda assim são definitivamente distintas de “todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor”! [1 Coríntios 1:2], Mais uma vez; lemos de “igrejas” no plural: “Assim, pois, as igrejas em toda a Judéia, e Galiléia e Samaria” (Atos 9:31), “As igrejas de Cristo vos saúdam” (Romanos 16:16), “às igrejas da Galácia” (Gálatas 1:2). Assim, vê-se que o que foi proeminente e dominante nos tempos do Novo Testamento foram as igrejas locais e visíveis.

2. Uma igreja do Novo Testamento é um corpo local de crentes batizados. Por “crentes batizados” queremos dizer cristãos que foram imersos em água. Ao longo do N.T., não há um único caso registrado de alguém que se tornou um membro de uma igreja de Jesus Cristo sem primeiro ter sido batizado; mas há muitos casos que apontam para isso, muitos indícios e provas de que aqueles que pertenciam às igrejas nos dias dos apóstolos foram Cristãos batizados.

Voltemo-nos primeiro à última cláusula de Atos 2:47: “E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar”. Outra versão diz corretamente: “aquele que ‘eram’ salvos”. Observe com cuidado ele não diz que “Deus”, ou “o Espírito Santo”, ou “Cristo”, mas “acrescentava o Senhor”. A razão para isso é a seguinte: “O Senhor” traz o pensamento da autoridade, e aqueles que Ele “acrescentou à igreja” haviam se submetido ao Seu senhorio. A maneira pela qual eles haviam se “submetido” é-nos contada em nos versos 41-42: “De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas” e etc. Assim vemos que nos primeiros dias desta dispensação “o Senhor acrescentou” à Sua igreja pessoas salvas que foram batizados.

Considere a primeira das epístolas, Romanos 12:4-5 demonstra que os santos em Roma eram uma igreja local. Volte agora a Romanos 6:4-5 onde encontramos o apóstolo dizendo aos e sobre estes membros da igreja em Roma: “De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida. Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição”. Assim vemos que os santos na igreja local em Roma eram crentes batizados.

Considere agora a igreja em Corinto. Em Atos 18:8, lemos: “muitos dos coríntios, ouvindo-o, creram e foram batizados”. Outra prova de que os santos de Corinto eram crentes batizados é encontrada em 1 Coríntios 1:13-14 e 10:2,6. 1 Coríntios 12:13 se traduzido corretamente e rigorosamente (esperamos tratar desta passagem separadamente em um artigo futuro) afirma expressamente que a entrada na assembleia local é pelo batismo em água.

Antes de passarmos para o próximo ponto, permita-nos dizer que uma igreja composta de crentes batizados é, obviamente, e, necessariamente, uma “igreja Batista” – De que mais poderia ser chamada? Este é o nome que Deus deu ao primeiro homem que chamou e comissionou a fazer qualquer batismo. Ele o nomeou “João, o Batista”. Consequentemente os verdadeiros “Batistas” não tem nenhuma razão para se envergonhar ou se desculpar pelo nome bíblico que eles carregam consigo. Se alguém pergunta: Por que o Espírito Santo não fala da “igreja batista em Corinto” ou “As igrejas batistas da Galácia”? Nós respondemos, por esta razão: não havia, naquela época, nenhuma necessidade para este adjetivo distintivo; não havia outro tipo de igrejas nos dias dos apóstolos, senão igrejas Batistas. Então, todas eram “Igrejas Batistas”; ou seja, todas eram compostas de crentes biblicamente batizados. São os homens que inventaram todas as outras “igrejas” (?) e denominações que existem agora.

 

3. Uma igreja do Novo Testamento é um corpo local de crentes batizados em relação organizada. Isto é necessariamente implícito no próprio termo, uma “Assembleia” é uma companhia de pessoas que se reuniram numa relação organizada, caso contrário, não haveria nada para distingui-lo de uma multidão ou turba. Uma prova clara disso é encon-trada em Atos 19:39: “E, se alguma outra coisa demandais, averiguar-se-á em legítima assembleia”. Estas palavras foram ditas pelo “escrivão da cidade” [Atos 19:35] para a multidão de Éfeso que perturbava a paz. Tendo “apaziguado a multidão”, e após ter afirmado que os apóstolos não eram nem ladrões de igrejas nem blasfemadores de sua deusa, lembrou a Demétrio e a seus companheiros que “há audiências e há procônsules”, e ordenou-lhes que “que se acusem uns aos outros”. A palavra grega para “assembléia” nesta passagem é ekklesia e a referência foi à corte Romana, isto é, uma organização governada por uma lei.

Mais uma vez, as figuras utilizadas pelo Espírito Santo em conexão com a “igreja” são pertinentes apenas à uma organização local. Em Romanos 12 e em 1 Coríntios 12 Ele emprega o “corpo” humano como uma analogia ou ilustração. Nada poderia ser mais ina-dequado para retratar alguma igreja “invisível” e “universal”, cujos membros estão espalhados por toda parte. O leitor dificilmente precisa ser lembrado de que não há uma organização mais perfeita na terra que cada corpo humano, cada membro em seu lugar designado, cada um cumprindo o seu próprio ofício e exercendo sua função distinta. Novamente, em 1 Timóteo 3:15 a igreja é chamada a “casa de Deus”. O termo “casa” nos fala de relações ordenadas: cada morador ter seu próprio quarto, a mobília deve ser disposta adequadamente e etc.

Outra prova de que a “igreja” do Novo Testamento é uma companhia local de crentes batizados compondo uma relação organizada é encontrada em Atos 7:38, onde o Espírito Santo aplica o termo ekklesia aos filhos de Israel – “a congregação (ekklesia) no deserto”. Agora, os filhos de Israel no deserto eram redimidos, separados e batizados, organizados em uma “Assembleia”. Alguns podem se surpreender com a afirmação de que eles foram batizados. Mas a Palavra de Deus é muito explícita quanto a este ponto. “Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar. E todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar” (1 Coríntios 10:1-2). Assim, também, eles estiveram organizados; eles tinham seus “príncipes” (Números 7:2) e “sacerdotes”, os seus “anciãos” (Êxodo 24:1) e “chefes” (Deuteronômio 1:15). Portanto, podemos ver a conveniência de aplicar o termo ekklesia à Israel no deserto, e descobrimos como sua aplicação a eles nos permite definir o seu significado exato. Ela nos mostra, assim, que uma “igreja” do Novo Testamento tem os seus oficiais, seus “anciãos” (que é o mesmo que “bispos”), “diáconos” (1 Timóteo 3:1,12), “tesoureiro” (João 12:6; 2 Coríntios 8:19), e “escrivão” – “número de nomes” (Atos 1:15 – versão King James) claramente implica um registo.

 

4. Uma igreja do Novo Testamento é um corpo local de crentes batizados numa relação organizada, pública e corporativa de adoração a Deus, seguindo as Suas prescrições. Para plenamente ampliar este tópico, seria necessário que citássemos consideráveis porções do N.T. Que o leitor examine com cuidado o livro de Atos e as Epístolas, com uma mente livre de preconceitos, e ele encontrará confirmação abundante. Buscando fazer o mais breve sumário possível disto, diríamos que uma igreja do Novo Testamento caracteriza-se: Primeiro, pela manutenção da “doutrina e comunhão dos apóstolos” (Atos 2:42). Em segundo lugar, por preservar e perpetuar o batismo bíblico e a Ceia do Senhor, isto é, “manter as ordenanças”, como elas foram entregues à igreja (1 Coríntios 11:2). Em terceiro lugar, mantendo uma santa disciplina: Hebreus 13:17; 1 Timóteo 5:20-21 e etc. Quarto, indo por todo o mundo e pregando o Evangelho a toda criatura (Marcos 16:15).

 

5. Uma igreja do Novo Testamento é independente de tudo, exceto de Deus. Cada igreja local é totalmente independente de quaisquer outras. Uma igreja em uma cidade não tem autoridade sobre uma igreja em outra cidade. Nem um número de igrejas locais pode de forma bíblica eleger um “comitê”, “presbitério” ou “papa” para assenhorear-se dos membros dessas igrejas. Cada igreja possui um governo próprio e interno, compare 1 Coríntios 16:3; 2 Coríntios 8:19. Por governo da igreja, queremos dizer que sua obra é administra-tiva e não legislativa.

A igreja do Novo Testamento deve fazer todas as coisas “decentemente e com ordem” (1 Coríntios. 14:40), e seu único guia oficial para “ordem” é as Escrituras Sagradas. Sua única norma infalível, sua última instância de recurso, pelo qual todas as questões de fé, doutrina e vida cristã devem ser julgadas e resolvidas, é a Bíblia, e nada mais que a Bíblia. Sua única cabeça é Cristo: Ele é seu Legislador, Recurso e Senhor.

 

A igreja local deve ser governada pelo que “o Espírito diz às igrejas”. Daí segue-se necessariamente que ela é completamente separada do Estado e deve recusar qualquer apoio dele. Embora seus membros sejam intimados pela Escritura para estarem sujeitos às potestades superiores (Romanos 13:1), eles não devem permitir qualquer imposição do Estado em matéria de fé ou prática.

A administração do governo de uma igreja do Novo Testamento reside em sua própria associação, e não em qualquer órgão ou ordem de homens especiais, dentro ou fora dela. A maioria dos seus membros decidem as ações da igreja. Isso fica claro a partir do original Grego usado em 2 Coríntios 2:6: “Basta-lhe ao tal (um irmão desordenado que havia sido disciplinado) esta repreensão feita por muitos”. A palavra grega para as duas últimas palavras é hupo ton pleiononPleionon é um adjetivo, no grau comparativo, e, literalmente significa: “pela maioria”, assim também é interpretado pelo Dr. Charles Hodge, em relação a quem há poucos mais espirituais e competentes eruditos em Grego. Os interlineares de Bagster interpretam isto como: “pela maior parte”, e à margem da Versão Revisada [King James Revised Version] aparece: “No grego: a mais”. O artigo definido nos obriga a interpretá-lo como “pela maior parte” ou “pela maioria”.

Em suma. A menos que você tenha uma companhia de pessoas regeneradas e crentes, biblicamente batizados, organizadas segundo os padrões do Novo Testamento, adorando a Deus segundo as Suas prescrições particularmente apontadas na comunhão com a doutrina e comunhão dos apóstolos, mantendo as ordenanças, preservando estritamente a disciplina, ativa no esforço evangelístico, não temos uma “igreja do Novo Testamento”, seja como for que ela se autodenomine. Mas uma igreja que possui essas características é a única instituição nesta terra ordenada, edificada e aprovada pelo Senhor Jesus Cristo. Assim, o escritor considera seu maior privilégio, depois de ser salvo, pertencer a uma de Suas igrejas. Que a graça divina me ajude a andar dignamente como membro de Sua Igreja!
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♦ Fonte do primeiro artigo: PBMinistries.org | Título Original: Churches of God
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por William Teixeira │ Revisão por Camila Almeida


Igrejas do Novo Testamento – Arthur Walkington Pink

[Este texto é composto por dois artigos cujos nomes no original em inglês são “Churches of God” e “Does First Corinthians 12 Mean The Universal Church or A Local New Testament Church?”. Extraído de Estudos nas Escrituras (Studies in the Scriptures), Dezembro 1927, pp 277-281]

 

“Porque vós, irmãos, tornaram-se seguidores das igrejas de Deus que na Judéia estão em Cristo Jesus, porquanto também padecestes de vossos próprios concidadãos o mesmo que eles têm dos judeus” (1 Tessalonicenses 2:14).

A ignorância que prevalece no Cristianismo hoje acerca da verdade sobre as Igrejas de Deus é o mais profundo e mais geral erro sobre qualquer outro assunto bíblico. Muitos dos que são bastante coerentes evangelicamente e são bem ensinados sobre o que chamamos de os grandes fundamentos da fé, são bastante errôneos eclesiasticamente. Observe a terrível confusão que abunda a respeito do termo em si. Existem poucas palavras no idioma Inglês com uma maior variedade de significados do que “igreja”. O homem na rua entende por “igreja” o edifício em que as pessoas se reúnem para o culto público. Aqueles que conhecem melhor, aplicam o termo para os membros em comunhão espiritual que se reúnem naquele edifício. Outros usam este termo de uma forma confessional e falam da “Igreja Metodista” ou “Igreja Presbiteriana”. Também é empregada a nível nacional da instituição estatal-religiosa como “a Igreja da Inglaterra” ou “a Igreja da Escócia”. Para os papistas a palavra “igreja” é praticamente sinônimo de “salvação”, pois eles são ensinados que todos os que estão fora da “Santa Madre Igreja” estão eternamente perdidos.

Muitos daqueles que pertencem ao próprio povo do Senhor parecem ser estranhamente indiferentes sobre a mente de Deus no que concerne a este assunto. Alguém de cujos ensinamentos sobre a igreja nós diferimos muito, tem dito bem: “Triste é ouvir os homens dedicados no Evangelho, claros expositores da Palavra de Deus, que nos dizem que eles não se preocupam sobre a doutrina da Igreja; que a salvação é o tema de suma importân-cia; e o estabelecimento de cristãos nos fundamentos é tudo o que é necessário. Vemos homens dando capítulo e versículo para cada declaração, e permanecendo sobre a autoridade infalível da Palavra de Deus, silenciosamente fechando os olhos para os seus ensinamentos sobre a igreja, provavelmente relacionado com aquilo a que eles não podem reivindicar nenhuma autoridade provinda das Escrituras, e, aparentemente se satisfazem em levar outros para a mesma relação”.

O que constitui uma igreja do Novo Testamento? Que as multidões de Cristãos professos tratam esta questão como algo de menos importância, está bem claro. Suas ações mostram isso. Eles empregam pouca ou nenhuma diligência em descobrir isto. Alguns se contentam em ficar de fora de qualquer igreja terrena. Outros se unem a alguma igreja por considerações sentimentais, porque seus pais ou cônjuge pertenciam a ela. Outros se unem a uma igreja por motivos mais baixos ainda, como considerações comerciais ou políticas. Mas isso não deveria ser assim. Se o leitor é um Anglicano, deve sê-lo porque ele está totalmente convencido de que a sua é a igreja mais bíblica. Se ele é um Presbiteriano, ele deve ser assim, a partir de sua convicção de que sua “igreja” está mais de acordo com a Palavra de Deus; da mesma forma se ele é um Batista, Metodista e etc.

Há muitos outros que têm pouca esperança de chegar a uma resposta satisfatória à pergunta: O que constitui uma igreja do Novo Testamento? A terrível confusão que agora prevalece na Cristandade, as numerosas seitas e as denominações diferem tão amplamente tanto em relação à doutrina e à igreja, quanto em relação à ordem e ao governo, os têm desencorajado. Eles não têm tempo para examinar cuidadosamente as reivindicações das várias denominações que se opõem. A maioria dos Cristãos são pessoas ocu-padas que têm de trabalhar para ganhar a vida, e, portanto, eles não têm tempo livre necessário para investigar adequadamente os méritos escriturísticos dos diferentes sistemas eclesiásticos. Consequentemente, eles descartam o assunto de suas mentes como sendo algo muito difícil e complexo para que eles tenham a esperança de chegar a uma solução satisfatória e conclusiva. Mas isso não deveria ser assim. Em vez dessas diferenças de opinião nos desanimarem, deveriam estimular em nós um maior esforço para chegarmos à mente de Deus. É-nos dito para “comprar a verdade” [Provérbios 23:23], o que implica que são necessários esforço e sacrifício pessoal. Somos ordenados a “examinar todas as coisas” [1 Tessalonicenses 5:21].

Ora, deve ser óbvio para todos que deve haver um caminho mais excelente do que examinar os credos e artigos de fé de todas as denominações. O único método sábio e satisfatório para descobrir a resposta Divina à nossa pergunta, a saber, “o que constitui uma igreja do Novo Testamento?” é nos voltando para o próprio Novo Testamento e estu-dando cuidadosamente os seus ensinamentos sobre a “igreja”. Não o ponto de vista de algum homem piedoso; não aceitando o credo da igreja a qual os meus pais pertenciam; mas “examinando todas as coisas” por mim mesmo! O povo de Deus não tem o direito de organizar uma igreja seguindo padrões diferentes daqueles que governaram as igrejas na época do Novo Testamento. Uma instituição cujos ensinamentos ou governo são contrários ao Novo Testamento não é, certamente, uma “igreja” do Novo Testamento.

Agora, se Deus considerou de suficiente importância deixar registrado nas páginas da Revelação Inspirada o que a igreja do Novo Testamento é, então certamente deve ser suficientemente importante para cada homem ou mulher redimidos estudar esse registro, e não somente isso, mas se submeterem à sua autoridade e conformarem a sua conduta ao mesmo. Devemos, portanto, apelar para o Novo Testamento somente e buscar a resposta de Deus para a nossa pergunta.

 

1. Uma igreja do Novo Testamento é um corpo local de crentes. Muita confusão foi causada pelo emprego de adjetivos que não são encontrados no N.T. Se fosse perguntado a alguns Cristãos: “a que igreja vocês pertencem?”, eles responderiam: “Á grande igreja invisível de Cristo, uma igreja que é tão intangível como é invisível”. Quantos recitam o chamado Credo dos Apóstolos: “Creio na santa Igreja católica”, o que certamente não era um artigo no “credo” dos Apóstolos. Outros falam de “Igreja militante” e “Igreja triunfante”, todavia estes termos também não são encontrados nas Escrituras, e empregá-los somente cria dificuldade e confusão. No momento em que deixamos de “conservar o modelo das sãs palavras” (2 Timóteo 1:13) e empregar termos que não estão na Bíblia, só obscurecemos a nós mesmos e aos outros. Não podemos aperfeiçoar a linguagem do Santo Escrito. Não há necessidade de inventar termos extras; e fazê-lo é pôr em questão o vocabulário do Espírito Santo. Quando as pessoas falam de “a Igreja universal de Cristo” elas empregam outra expressão não bíblica e anti-escriturística. O que eles realmente querem dizer é “a família de Deus”. Esta última denominação inclui toda a companhia dos eleitos de Deus; mas a “Igreja” não faz isso.

Agora, o tipo de igreja que é enfatizado no Novo Testamento não é nem invisível nem universal, mas, antes, visível e local. A palavra grega para “igreja” é ekklesia e os que conhecem algo desta língua concordam que a palavra significa “uma Assembleia”. Agora, uma “assembleia” é uma companhia de pessoas que realmente se reúnem. Se eles nunca “se reúnem”, então fazemos mau uso da linguagem ao chamá-los de “uma Assembleia”. Portanto, como todo o povo de Deus nunca esteve ainda completamente reunido, não há hoje nenhuma “Igreja Universal” ou “Assembleia Universal”. Essa “Igreja” é ainda futura; porém ainda não possui existência concreta ou corporativa.

Para provar o que foi dito acima, examinemos as passagens onde o termo foi usado pelo próprio nosso Senhor durante os dias de Sua carne. Somente duas vezes nos quatro Evangelhos encontramos Cristo falando da “igreja”. A primeira é em Mateus 16:18, quando Ele disse a Pedro: “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. A que tipo de “igreja” estava o Salvador aqui se referindo? A grande maioria dos Cristãos entende esta passagem como se Ele estivesse se referindo à grande Igreja invisível, mística e universal, que inclui todos os redimidos. Mas seguramente eles estão errados. Se houvesse sido esse o seu significado Ele teria necessariamente que dizer: “Sobre esta pedra estou construindo a minha igreja”. Em vez disso, Ele usou o tempo futuro: “Sobre esta pedra edificarei”, o que mostra claramente que no momento em que ele falou, sua “igreja” não possuía existência, salvo no propósito de Deus. A “igreja” a que se referiu Cristo em Mateus 16:18 não podia ser universal, ou seja, uma igreja que inclui todos os santos de Deus, pois o tempo do verbo usado por Ele na ocasião claramente exclui os santos do Antigo Testamento! Assim, a primeira vez que a palavra “igreja” ocorre no N.T. não faz nenhuma referência a algo geral ou universal. Além disso, nosso Senhor não poderia estar se referindo à Igreja na glória, pois ali não haverá nenhum perigo oferecido pelas “as portas do inferno”! Sua declaração de que, “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”, deixa claro acima de qualquer dúvida que Cristo estava se referindo a Sua Igreja sobre a terra, e, portanto, a uma igreja visível e local.

O outro único registro que temos de nosso Senhor falando sobre a “igreja”, enquanto Ele estava na terra, é encontrado em Mateus 18:17: “E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano”. Agora, o único tipo de “igreja” para a qual um irmão poderia confessar sua “culpa” é uma visível e local. Tão óbvio é isto que não há necessidade me estender ainda mais sobre este ponto.

 No último livro do Novo Testamento, encontramos nosso Salvador novamente usando esse termo. Primeiro em Apocalipse 1:11 Ele diz a João: “o que vês, escreve-o num livro, e envia-o às sete igrejas que estão na Ásia”. Aqui, novamente, fica claro que o Senhor estava falando de igrejas locais. Em seguida, encontramos a palavra “igreja” é em seus lábios mais dezenove vezes no Apocalipse, e em cada passagem a referência é feita a igrejas locais. Sete vezes Ele diz: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”, e não “o que o Espírito diz à Igreja”, que é o que teria sido dito se a visão popular fosse correta. A última referência está em Apocalipse 22:16: “Eu, Jesus, enviei o meu anjo, para vos testificar estas coisas nas igrejas”. A razão para isso é que a Igreja de Cristo não possui ainda existência tangível e corporal, nem na glória nem sobre a terra; tudo o que Ele tem agora aqui são Suas “igrejas” locais.

Mais uma prova de que o tipo de “igreja” que é enfatizado no Novo Testamento é um tipo local e visível apelamos para outros fatos da Escritura. Lemos sobre “A igreja que estava em Jerusalém” (Atos 8:1). “A igreja que estava em Antioquia” (Atos 13:1), “A Igreja de Deus que está em Corinto” (1 Coríntios 1:2). Observe cuidadosamente que, apesar destas igrejas estarem ligadas ente si, ainda assim são definitivamente distintas de “todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor”! [1 Coríntios 1:2], Mais uma vez; lemos de “igrejas” no plural: “Assim, pois, as igrejas em toda a Judéia, e Galiléia e Samaria” (Atos 9:31), “As igrejas de Cristo vos saúdam” (Romanos 16:16), “às igrejas da Galácia” (Gálatas 1:2). Assim, vê-se que o que foi proeminente e dominante nos tempos do Novo Testamento foram as igrejas locais e visíveis.

2. Uma igreja do Novo Testamento é um corpo local de crentes batizados. Por “crentes batizados” queremos dizer cristãos que foram imersos em água. Ao longo do N.T., não há um único caso registrado de alguém que se tornou um membro de uma igreja de Jesus Cristo sem primeiro ter sido batizado; mas há muitos casos que apontam para isso, muitos indícios e provas de que aqueles que pertenciam às igrejas nos dias dos apóstolos foram Cristãos batizados.

Voltemo-nos primeiro à última cláusula de Atos 2:47: “E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar”. Outra versão diz corretamente: “aquele que ‘eram’ salvos”. Observe com cuidado ele não diz que “Deus”, ou “o Espírito Santo”, ou “Cristo”, mas “acrescentava o Senhor”. A razão para isso é a seguinte: “O Senhor” traz o pensamento da autoridade, e aqueles que Ele “acrescentou à igreja” haviam se submetido ao Seu senhorio. A maneira pela qual eles haviam se “submetido” é-nos contada em nos versos 41-42: “De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas” e etc. Assim vemos que nos primeiros dias desta dispensação “o Senhor acrescentou” à Sua igreja pessoas salvas que foram batizados.

Considere a primeira das epístolas, Romanos 12:4-5 demonstra que os santos em Roma eram uma igreja local. Volte agora a Romanos 6:4-5 onde encontramos o apóstolo dizendo aos e sobre estes membros da igreja em Roma: “De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida. Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição”. Assim vemos que os santos na igreja local em Roma eram crentes batizados.

Considere agora a igreja em Corinto. Em Atos 18:8, lemos: “muitos dos coríntios, ouvindo-o, creram e foram batizados”. Outra prova de que os santos de Corinto eram crentes batizados é encontrada em 1 Coríntios 1:13-14 e 10:2,6. 1 Coríntios 12:13 se traduzido corretamente e rigorosamente (esperamos tratar desta passagem separadamente em um artigo futuro) afirma expressamente que a entrada na assembleia local é pelo batismo em água.

Antes de passarmos para o próximo ponto, permita-nos dizer que uma igreja composta de crentes batizados é, obviamente, e, necessariamente, uma “igreja Batista” – De que mais poderia ser chamada? Este é o nome que Deus deu ao primeiro homem que chamou e comissionou a fazer qualquer batismo. Ele o nomeou “João, o Batista”. Consequentemente os verdadeiros “Batistas” não tem nenhuma razão para se envergonhar ou se desculpar pelo nome bíblico que eles carregam consigo. Se alguém pergunta: Por que o Espírito Santo não fala da “igreja batista em Corinto” ou “As igrejas batistas da Galácia”? Nós respondemos, por esta razão: não havia, naquela época, nenhuma necessidade para este adjetivo distintivo; não havia outro tipo de igrejas nos dias dos apóstolos, senão igrejas Batistas. Então, todas eram “Igrejas Batistas”; ou seja, todas eram compostas de crentes biblicamente batizados. São os homens que inventaram todas as outras “igrejas” (?) e denominações que existem agora.

 

3. Uma igreja do Novo Testamento é um corpo local de crentes batizados em relação organizada. Isto é necessariamente implícito no próprio termo, uma “Assembleia” é uma companhia de pessoas que se reuniram numa relação organizada, caso contrário, não haveria nada para distingui-lo de uma multidão ou turba. Uma prova clara disso é encon-trada em Atos 19:39: “E, se alguma outra coisa demandais, averiguar-se-á em legítima assembleia”. Estas palavras foram ditas pelo “escrivão da cidade” [Atos 19:35] para a multidão de Éfeso que perturbava a paz. Tendo “apaziguado a multidão”, e após ter afirmado que os apóstolos não eram nem ladrões de igrejas nem blasfemadores de sua deusa, lembrou a Demétrio e a seus companheiros que “há audiências e há procônsules”, e ordenou-lhes que “que se acusem uns aos outros”. A palavra grega para “assembléia” nesta passagem é ekklesia e a referência foi à corte Romana, isto é, uma organização governada por uma lei.

Mais uma vez, as figuras utilizadas pelo Espírito Santo em conexão com a “igreja” são pertinentes apenas à uma organização local. Em Romanos 12 e em 1 Coríntios 12 Ele emprega o “corpo” humano como uma analogia ou ilustração. Nada poderia ser mais ina-dequado para retratar alguma igreja “invisível” e “universal”, cujos membros estão espalhados por toda parte. O leitor dificilmente precisa ser lembrado de que não há uma organização mais perfeita na terra que cada corpo humano, cada membro em seu lugar designado, cada um cumprindo o seu próprio ofício e exercendo sua função distinta. Novamente, em 1 Timóteo 3:15 a igreja é chamada a “casa de Deus”. O termo “casa” nos fala de relações ordenadas: cada morador ter seu próprio quarto, a mobília deve ser disposta adequadamente e etc.

Outra prova de que a “igreja” do Novo Testamento é uma companhia local de crentes batizados compondo uma relação organizada é encontrada em Atos 7:38, onde o Espírito Santo aplica o termo ekklesia aos filhos de Israel – “a congregação (ekklesia) no deserto”. Agora, os filhos de Israel no deserto eram redimidos, separados e batizados, organizados em uma “Assembleia”. Alguns podem se surpreender com a afirmação de que eles foram batizados. Mas a Palavra de Deus é muito explícita quanto a este ponto. “Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar. E todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar” (1 Coríntios 10:1-2). Assim, também, eles estiveram organizados; eles tinham seus “príncipes” (Números 7:2) e “sacerdotes”, os seus “anciãos” (Êxodo 24:1) e “chefes” (Deuteronômio 1:15). Portanto, podemos ver a conveniência de aplicar o termo ekklesia à Israel no deserto, e descobrimos como sua aplicação a eles nos permite definir o seu significado exato. Ela nos mostra, assim, que uma “igreja” do Novo Testamento tem os seus oficiais, seus “anciãos” (que é o mesmo que “bispos”), “diáconos” (1 Timóteo 3:1,12), “tesoureiro” (João 12:6; 2 Coríntios 8:19), e “escrivão” – “número de nomes” (Atos 1:15 – versão King James) claramente implica um registo.

 

4. Uma igreja do Novo Testamento é um corpo local de crentes batizados numa relação organizada, pública e corporativa de adoração a Deus, seguindo as Suas prescrições. Para plenamente ampliar este tópico, seria necessário que citássemos consideráveis porções do N.T. Que o leitor examine com cuidado o livro de Atos e as Epístolas, com uma mente livre de preconceitos, e ele encontrará confirmação abundante. Buscando fazer o mais breve sumário possível disto, diríamos que uma igreja do Novo Testamento caracteriza-se: Primeiro, pela manutenção da “doutrina e comunhão dos apóstolos” (Atos 2:42). Em segundo lugar, por preservar e perpetuar o batismo bíblico e a Ceia do Senhor, isto é, “manter as ordenanças”, como elas foram entregues à igreja (1 Coríntios 11:2). Em terceiro lugar, mantendo uma santa disciplina: Hebreus 13:17; 1 Timóteo 5:20-21 e etc. Quarto, indo por todo o mundo e pregando o Evangelho a toda criatura (Marcos 16:15).

 

5. Uma igreja do Novo Testamento é independente de tudo, exceto de Deus. Cada igreja local é totalmente independente de quaisquer outras. Uma igreja em uma cidade não tem autoridade sobre uma igreja em outra cidade. Nem um número de igrejas locais pode de forma bíblica eleger um “comitê”, “presbitério” ou “papa” para assenhorear-se dos membros dessas igrejas. Cada igreja possui um governo próprio e interno, compare 1 Coríntios 16:3; 2 Coríntios 8:19. Por governo da igreja, queremos dizer que sua obra é administra-tiva e não legislativa.

A igreja do Novo Testamento deve fazer todas as coisas “decentemente e com ordem” (1 Coríntios. 14:40), e seu único guia oficial para “ordem” é as Escrituras Sagradas. Sua única norma infalível, sua última instância de recurso, pelo qual todas as questões de fé, doutrina e vida cristã devem ser julgadas e resolvidas, é a Bíblia, e nada mais que a Bíblia. Sua única cabeça é Cristo: Ele é seu Legislador, Recurso e Senhor.

 

A igreja local deve ser governada pelo que “o Espírito diz às igrejas”. Daí segue-se necessariamente que ela é completamente separada do Estado e deve recusar qualquer apoio dele. Embora seus membros sejam intimados pela Escritura para estarem sujeitos às potestades superiores (Romanos 13:1), eles não devem permitir qualquer imposição do Estado em matéria de fé ou prática.

A administração do governo de uma igreja do Novo Testamento reside em sua própria associação, e não em qualquer órgão ou ordem de homens especiais, dentro ou fora dela. A maioria dos seus membros decidem as ações da igreja. Isso fica claro a partir do original Grego usado em 2 Coríntios 2:6: “Basta-lhe ao tal (um irmão desordenado que havia sido disciplinado) esta repreensão feita por muitos”. A palavra grega para as duas últimas palavras é hupo ton pleionon. Pleionon é um adjetivo, no grau comparativo, e, literalmente significa: “pela maioria”, assim também é interpretado pelo Dr. Charles Hodge, em relação a quem há poucos mais espirituais e competentes eruditos em Grego. Os interlineares de Bagster interpretam isto como: “pela maior parte”, e à margem da Versão Revisada [King James Revised Version] aparece: “No grego: a mais”. O artigo definido nos obriga a interpretá-lo como “pela maior parte” ou “pela maioria”.

Em suma. A menos que você tenha uma companhia de pessoas regeneradas e crentes, biblicamente batizados, organizadas segundo os padrões do Novo Testamento, adorando a Deus segundo as Suas prescrições particularmente apontadas na comunhão com a doutrina e comunhão dos apóstolos, mantendo as ordenanças, preservando estritamente a disciplina, ativa no esforço evangelístico, não temos uma “igreja do Novo Testamento”, seja como for que ela se autodenomine. Mas uma igreja que possui essas características é a única instituição nesta terra ordenada, edificada e aprovada pelo Senhor Jesus Cristo. Assim, o escritor considera seu maior privilégio, depois de ser salvo, pertencer a uma de Suas igrejas. Que a graça divina me ajude a andar dignamente como membro de Sua Igreja!

 

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A Primeira Carta aos Coríntios 12 significa A Igreja Universal ou Uma Igreja Local do Novo Testamento?

 

Por quase dez anos após sua regeneração, o escritor nunca duvidou de que o “corpo” mencionado em 1 Coríntios 12 fazia referência à “Igreja Universal”. Isto lhe foi ensinado por aqueles conhecidos como “Irmãos de Plymouth”, que são encontrados nas notas da Bíblia de Referência Scofield, e são amplamente aceitos pelos evangélicos e estudantes das profecias. Não até que Deus o trouxe para o meio dos Batistas do Sul (um grande privilégio pelo qual ele nunca será suficientemente agradecido) que ele ouviu pela primeira vez o ponto de vista acima posto em questão. Mas era difícil para ele considerar imparcialmente uma exposição que significava a refutação de um ensinamento recebido de homens altamente respeitados, para não falar do fato que ele teria que confessar ter tido um conceito totalmente errôneo por tanto tempo, e se permitiu ler 1 Coríntios 12 (e passagens similares) através dos óculos de outros homens. No entanto, nos últimos tempos, o escritor foi levado a fazer um estudo orientado pela oração e independente deste assunto para ele mesmo, e devido ao resultado ele é obrigado a renunciar ao seu primeiro conceito como totalmente insustentável e não bíblico.

A Versão Autorizada de 1 Coríntios 12:13 diz o seguinte: “Pois em um só Espírito, todos nós fomos batizados no corpo”, a respeito disto teremos mais a dizer mais tarde. Em 1 Coríntios 12 Dr. Scofield, em sua Bíblia de Referência, diz o seguinte: “O Capítulo 12 cuida do Espírito em relação ao corpo de Cristo. Essa relação é dupla: (1) O batismo com o Espírito forma o corpo, unindo os crentes a Cristo, Cabeça ressuscitado e glorificado, e uns aos outros (v. 12, 13). O símbolo do corpo assim formado é o corpo natural, humano (v. 12), e todas as analogias são livremente utilizadas (vs. 14-26). (2) Pois cada crente recebe uma capacitação espiritual e capacidade para o serviço específico”, etc. e etc. Em enfatizar a palavra “corpo” Dr. Scofield tem, sem dúvida, na mente “a Igreja Universal”. Caso haja qualquer dúvida sobre este ponto, é de uma só vez dissipada por uma referência às notas do Dr. Scofield em Hebreus 12:23: “A verdadeira igreja, composta de todo o número de pessoas regeneradas do Pentecostes até a Primeira Ressurreição (1 Coríntios 15:52), unidas a Cristo e pelo batismo com o Espírito Santo (1 Coríntios. 12:12-13), formam o Corpo do qual Ele é a Cabeça”. É de se notar que, em ambos os lugares o Doutor fala do “batismo com o Espírito”, mas em 1 Coríntios 12:13 não é feita de modo alguma menção a qualquer batismo “com” o Espírito Santo, tanto no Inglês como no Grego; tal é apenas uma invenção da imaginação do Doutor.

A Versão Revisada de 1 Coríntios 12:13 diz assim: “Pois em um só Espírito fomos todos nós batizados em um só corpo”. (1 Coríntios 12:13). Acreditamos que esta é muito melhor e uma tradução mais acurada do Grego do que a oferecida pela Versão Autorizada. Mas temos encontrado uma falha na tradução feita pela Versão Revisada também. A tradução da palavra “espírito” (pneumati) é totalmente enganosa, e, sendo assim, é quase impossível obter o verdadeiro significado do verso. Para o benefício daqueles que não leem o Novo Testamento em Grego, podemos dizer que na língua em que o Novo Testamento foi escrito originalmente não foram utilizadas letras maiúsculas, exceto no início de um livro ou parágrafo. Pneuma é sempre escrito em Grego com um “e” minúsculo, e é uma questão de exposição e interpretação, não de tradução, se um “e” ou “E” deve ser usado a cada instância onde a palavra para espírito é usada. Em muitos casos ela é traduzida com um “e” minúsculo: espírito (Mateus 5:3; Romanos 1:4; 1:9; 1 Coríntios 2:11; 5:3; etc.). Em outras passagens, onde o Espírito Santo de Deus é referido, uma ênfase é justamente empregada. Além disso, a palavra grega pneuma, por vezes, é usado não apenas para designar o Espírito Santo de Deus, e em outros, o espírito do homem (como contra-distinto de sua alma e corpo), mas também é empregada psicologicamente; lemos sobre “o espírito (pneuma) de mansidão” (1 Coríntios 4:21), e sobre o “espírito (pneuma) de temor” (2 Timóteo 1:7), etc. Mais uma vez, em Filipenses 1:27 lemos: “num mesmo espírito”. Aqui o “espírito” tem a força de unidade de pensamento, vontade, objetivo. Note-se que em Filipenses 1:27 a palavra grega para “num mesmo espírito” é precisamente a mesma em todos os aspectos, como a palavra Grega usada no início do 1 Coríntios 12:13, e em Filipenses 1:27 até mesmo os tradutores da Versão Autorizada [Neste caso Filipenses usamos a versão ACF] tem usado apenas um pequeno “s” para “espírito”, como eles certamente deveriam ter feito em 1 Coríntios 12:13. Uma outra consideração sobre o Grego: A preposição traduzida como “pois” em 1 Coríntios 12:13 é “en”, que é traduzida no Novo Testamento [na Versão Autorizada KJV em inglês] como “entre” [among] 114 vezes, “por” [by] 142, “com” [with] 139, “em” [in] 1.863 vezes. Mais qualquer comentário seria desnecessário.

“Em um só Espírito fomos todos nós batizados” deve ser a tradução de 1 Coríntios 12:13. O “batismo” aqui não é de modo algum o batismo do Espírito Santo, mas o batismo nas águas. Observe: sempre que lemos “batismo” no Novo Testamento, sem uma referência imediatamente anterior ou contexto que expressamente o defina (como em Gálatas 3:27; 4:5 Efésios, etc.), é sempre o batismo nas águas que está em vista.

“Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo” (ACF) que corpo? A “Igreja Universal” ou uma igreja local de Cristo? Nós alegamos que um estudo cuidadoso de 1 Coríntios 12 pode fornecer apenas uma resposta possível, a saber, uma igreja Batista local. Observe os seguintes pontos.

(1) A cabeça do “corpo” aqui descrita em 1 Coríntios 12 é vista como estando na terra, versículos 16 e 17. Ora, seria totalmente incongruente representar o Cabeça da igreja universal mística (supondo que tal coisa existisse, visto que até agora certamente ainda não existe) estando na terra, pois a cabeça dessa igreja que, no futuro, será a Igreja Universal de Cristo, está no céu, e no céu a Igreja Universal será reunida (ver Hebreus 12:22-24). Mas é perfeitamente cabível representar (na ilustração do corpo humano), a cabeça da igreja local como estando na terra, pois onde quer que uma igreja local do Novo Testamento se reúne para o culto ou para tratar dos negócios de Cristo, Ele está no meio deles (Mateus 18:20).

(2) Em 1 Coríntios 12:22-23, lemos sobre os membros do corpo que parecem ser “mais fracos”, e sobre aqueles “menos honrosos” e de membros “menos decorosos”. Agora, essas características dos membros do corpo humano ilustram com precisão as diferenças que existem entre os estados espirituais dos vários membros de uma assembleia local, mas a ilustração do “corpo” aqui falharia completamente se a “Igreja Universal” estivesse em vista, pois quando a Igreja Universal estiver reunida no céu cada membro será “semelhante a Cristo”, “transformado em corpo glorioso” [1 João 3:2 e Filipenses 3:21], e tais comparações como “mais fraco”, “menos honrosos”, “menos decoroso” como características dos membros, serão para sempre uma coisa do passado!

(3) Em 1 Coríntios 12:24, o apóstolo fala sobre o que Deus tem feito, a fim de que não haja divisão no corpo (v. 25). Agora deixe qualquer leitor imparcial perguntar, em que tipo de corpo um cisma (divisão) é possível? Certamente não na Igreja Universal pois é unicamente obra Divina, em que a responsabilidade humana e falha não entram. Quando a Igreja dos Primogênitos estiver reunida no céu, glorificada, “sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante” [Efésios 5:27], não haverá “cisma” ali. Mas na igreja a qual o apóstolo se refere em 1 Coríntios 12 estava havendo divisões (veja 1 Coríntios 11:18 e etc.) Portanto, isso é uma prova positiva de que é à igreja local, e não à Igreja Universal, que está sendo referida em 1 Coríntios 12.

(4) Em Coríntios 12:26 lemos: “se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele”. Ora, isso po-de ser verdade se nos referirmos a uma Igreja Universal? Certamente que não. É verdade que sempre que um crente em Cristo, na Índia ou na China (de quem eu nunca sequer tinha ouvido falar) “sofre” “todos os membros”, todos os crentes na América, “sofrem” com por isto ou com ele? Certamente que não. Mas é verdade, idealmente, e muitas vezes na experiência que quando um membro de uma igreja local “sofre” todos os membros daquela igreja local sofrem também. Devemos nos abster de acrescentar outros argumentos.

Suficiente tem sido apresentado, nós confiamos, para provar que o “corpo” referido em 1 Coríntios 12:13 é uma igreja local, e que o “corpo humano” é aqui utilizado para ilustrar a dependência mútua e relação existente entre seus vários membros. A partir deste fato estabelecido e incontestável várias conclusões se seguem:

Em primeiro lugar, o “batismo” pelo qual se entra “em” uma igreja do Novo Testamento é o batismo nas águas, pois o Espírito Santo não “batiza” alguém em uma assembleia local.

Em segundo lugar, não importa qual seja a nossa nacionalidade – Judeus ou Gentios – não importa qual seja a nossa posição social – escravo ou homem livre – todos os mem-bros da igreja local foram batizados “em um só espírito”, isto é, em um só pensamento, propósito, vontade, e há, portanto, a unidade de propósito a qual eles almejam, unidade de privilégio para fruírem, unidade da responsabilidade a cumprir. Além disso, é dito que todos têm “bebido de um Espírito”, isto é, eles são um e totalmente apropriados (simbo-lizado por “beber”) para esta unidade de espírito.

Em terceiro lugar, há apenas uma forma de entrada para uma igreja local do Senhor Jesus Cristo, e que é pelo “batismo” biblicamente executado por um administrador biblicamente qualificado e biblicamente autorizado, pois lemos “pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo”. Disto segue-se que ninguém, exceto aqueles que foram biblicamente “batizados” entraram “em” uma Igreja do Novo Testamento, todos os outros são membros de nada menos do que instituições criadas pelo homem. Daí a enorme importância de “preservar as ordenanças”, como eles foram entregues pelo próprio Cristo para Suas igrejas.

O escritor pediria desculpas por escrever em tal extensão (ele condensou tanto quanto lhe foi possível), mas acalenta a esperança de que a sua própria confissão pessoal com o qual começou este artigo influencie outros a examinar as Escrituras com mais diligência e a “examinar tudo” por si mesmos [1 Tessalonicenses 5:21], não aceitando o ensino de qualquer homem, não importa quem ele seja. Irmãos, almejemos ser “bereanos”.


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♦ Fonte do primeiro artigo: PBMinistries.org | Título Original: Churches of God
♦ Fonte do segundo artigo: PBMinistries.org | Título Original: Does First Corinthians 12 Mean The Universal Church or A Local New Testament Church?
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por William Teixeira │ Revisão por Camila Almeida


Gloriando-se Somente Na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo – João Calvino

“Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura. E a todos quantos andarem conforme esta regra, paz e misericórdia sobre eles e sobre o Israel de Deus. Desde agora ninguém me inquiete; porque trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja, irmãos, com o vosso espírito! Amém”. (Gálatas 6:14-18)

Nós vimos anteriormente que Paulo condenou aqueles cujo único desejo era o de estar assentados sobre o muro, a fim de agradar ao mundo, e escapar da perseguição. Pois, isso fê-los torcer o evangelho, e vemos inúmeros exemplos disso hoje. Considerando que a doutrina pura e a verdade de Deus são inaceitáveis para o mundo, mas estes homens ímpios são indignados contra ele, essas pessoas, eu digo, buscam encontrar alguma maneira de evitar o surgimento de um sentimento ruim e incorrer em ódio. Sendo assim, se tivéssemos hoje que entrevistar pessoas com pelo menos algum bom senso, nós difí-cilmente encontraríamos uma em cem delas que admitiriam que havia erros no Papado. A maioria diria que não devemos forçá-los a abandonar tudo e que seria suficiente que se livrassem de algumas de suas superstições mais descabidas e absurdas, mesmo que eles continuassem a nutrir muitas outras corrupções. Por quê? Porque, como já dissemos, eles desejam ser estimados e altamente creditados, e porque é tudo a mesma coisa para eles, visto que traem a pureza do evangelho, desde que possam permanecer isentos de perseguição. O que é que os motiva, senão o fato de que eles desejam ser valorizados e adquirir uma boa reputação? Agora, o diabo, que tem estimulado esse tipo de conflito desde os dias de Paulo, continua até hoje, e, portanto, precisamos nos armar com esta doutrina. O melhor remédio é o que Paulo propõe aqui: que rejeitemos toda glória, salvo a que há na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.

Para compreender isso claramente, devemos, em primeiro lugar, nos lembrar do que está escrito em Jeremias, e confirmado aqui por Paulo. Em outras palavras, de que toda a gló-ria do homem seja humilhada a fim de que Deus seja exaltado como Ele é digno (Jeremias 9:23-24). Na verdade, da mesma forma, está escrito que toda a sabedoria que os homens creem possuir não é nada, e não será tida em consideração; ela deve ser extinta, para que possamos recorrer a Deus, como Aquele que tem toda a abundância de coisas boas em Si mesmo (Isaías 29:14; 1 Coríntios 1:19). Reconheçamos, eu digo, que toda a sabedoria procede de Sua livre graça, de modo que somos iluminados pelo Espírito Santo, e, estando fracos, fortalecidos pela Sua força. Estando cheios de contaminação e de iniquidade, a justiça pode ser restaurada em nós de acordo com o Seu dom.

Agora, vamos para os meios. Não é o suficiente que saibamos que Deus é a nossa luz, que é a nossa justiça, que Ele é a nossa sabedoria, e que Ele é a nossa força; em outras palavras, que em Sua pessoa há perfeitas vida, alegria e felicidade. Isso é insuficiente, pois ainda é muito grande a distância entre Ele e nós. No entanto, precisamos saber como e por que meios podemos obter todas as graças que buscamos em Deus. Sabemos que todas elas são comunicadas a nós em Jesus Cristo, pois Ele veio aqui abaixo, anulou a Si mesmo, e foi crucificado por nós de boa vontade. Portanto, visto que temos que extrair tudo o que nos falta da parte do Senhor Jesus Cristo, podemos entender por que Paulo diz que ele apenas buscou gloriar-se na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo. Por quê? Porque ele sofreu uma morte cruel e amarga, e até mesmo se expôs ao julgamento de Deus em nosso favor, recebendo toda a nossa maldição, e desta forma foi dado a nós como a nossa sabedoria, justiça, santidade, força e tudo o que nos carecemos.

Portanto, em primeiro lugar, precisamos saber quem somos, para que possamos evitar toda jactância e permanecer, nós mesmos, no Senhor Jesus Cristo. Pois vemos muitas pessoas transbordando de orgulho que não têm quaisquer motivos para isso. Tudo o que elas imaginam ser verdade sobre si mesmas não é mais do que vento e fumaça. No entanto, porque eles não têm se examinado adequadamente para ver com o que eles realmente se assemelham, eles não têm buscado por Jesus Cristo; tais são esses hipócritas e falsificados, que estão inchados de presunção por causa de seus “méritos”. Portanto, como já disse, devemos considerar a nossa condição e ver a extensão desta miséria, até que o Senhor Jesus tenha piedade de nós. Isto é como nós podemos nos preparar para ir até Ele. Este é o primeiro ponto.

No entanto, isto não é tudo. Pois, há alguns que confessam que são pecadores, e que eles não são cheios de nada, a não ser vaidade, e ainda assim continuam a chafurdar na sua sujeira. Por quê? Porque eles não antecipam o juízo de Deus, e as suas mentes foram embaladas para dormir com o mundo. Todas essas pessoas buscadoras de prazer, que se entregam à embriaguez ou obscenidade, e similares, não podem desculpar a sua maldade e, de fato, elas deveriam ter vergonha disso, e ainda assim elas parecem ter prazer em pecados e continuam neles como que endurecidos. Por quê? Eles foram intoxicados pelo mundo, e cegados pelo diabo, de modo que eles não conseguem ver que um dia eles prestarão contas de si mesmos. Eles têm estupidamente crido que sempre permanecerão como estão, buscando as coisas más, e que eles nunca terão que suspirar e tremer, mas somente rir, como se buscassem deliberadamente mostrar desprezo por Deus. Assim, podemos ver como é que alguns são impedidos (na verdade, eles estão totalmente incapacitados) de chegar a Jesus Cristo, seja porque eles presumem ter a sua própria sabedoria, ou porque eles estão buscando uma falsa concepção que Satanás colocou em suas mentes, ou porque acham que eles são sábios o suficiente sem Jesus Cristo. Estas são as razões por que eles O desprezam. Outros, entre os quais há um número infinito, sabem que são pobres pecadores, e ainda assim não procuram um remédio. Por quê? Porque este mundo os tem em seu poder, e eles estão tão envolvidos com ele que não conseguem levantar os seus olhos ou suas mentes para o alto, a fim de buscar o remédio que foi providenciado em Jesus Cristo.

Devemos todos, portanto, estar mais preparados para meditar sobre o que eu disse, isto é, livrar-nos de todo o orgulho e presunção, e sentir tanta vergonha, de forma que não tenhamos descanso, até que encontremos alívio no Senhor Jesus Cristo. Que possamos abrir nossos olhos para ver a nossa depravação e sentir vergonha dela, e não somente isso, mas também reconhecer que esta vida não é nada, e que Deus nos colocou aqui como em uma jornada, para que Ele possa testar se estamos ou não seguindo-O. Que cada um de nós, pois, venha, de manhã e à noite, a considerar os nossos pecados, e que eles possam ser como aguilhões a nos aferroar e encorajar a nos achegarmos a Deus. Não podemos ser como os animais irracionais, amarrados a este mundo, mas que nossa necessidade nos conduza a vir ao Senhor Jesus Cristo. Isto é o que significa gloriar-se na cruz do Senhor Jesus Cristo.

Paulo fala especificamente da cruz aqui, porque ele procura derrubar e pisotear toda altivez no homem. Pois, nós sempre queremos ser “alguém” e por nós mesmos, e manter certa dignidade. Portanto, a fim de nos livrar de um tão perverso desejo, Paulo nos mostra que Jesus Cristo, o Filho de Deus, deve ser a nossa única causa de glória, porque Ele foi crucificado por nós. Na sequência desta ação, acrescenta que estaremos crucificados para o mundo e o mundo para nós, quando tivermos aprendido a nos gloriar somente na graça que o nosso Senhor Jesus Cristo nos proporcionou. Como? Aqueles que não estão crucificados para o mundo, isto é, aqueles que desejam ter uma posição de alguma autoridade, e serem importantes, e que solicitam ser tidos em honra e ser promovidos, em outras palavras, aqueles que estão distraídos aqui, ali e em todos os lugares por seus desejos, certamente ainda não conhecem o que é gloriar-se na cruz de Jesus Cristo, pois eles começam no ponto errado. Eles estão confusos dentro de si mesmos.

Portanto, Paulo pode dizer com confiança que, quando sua glória foi firmada sobre a cruz do Senhor Jesus Cristo, ele abandonou e deixou o mundo. Por ‘mundo’ ele quer dizer tudo o que agrada a nossa carne, para os homens que não pensam sobre Deus nem sobre a vida eterna, mas são dados à avareza ou ambição. Cada um é controlado por seus próprios instintos naturais, e nenhum olha para além deste mundo. Quando os homens seguem suas inclinações e quando Deus não lhes tocou pelo seu Espírito Santo ou os inclinou para Si mesmo, é verdadeiro dizer que, embora todos eles se extraviavam e vagueavam, ainda há uma grande variação em seus desejos, de modo que, quando examinamos o assunto, descobrimos que alguém está indo em uma certa direção, enquanto outro está puxando em direção completamente oposta. Assim, parece que os homens são muito diferentes uns dos outros. No entanto, eles são todos iguais em uma área, a saber, que eles querem ser importantes aos olhos do mundo, e estão entregues ao seu proveito pessoal ou prazer. Em outras palavras, eles estão tão enredados nas coisas daqui debaixo que não se importam de estar separados de Deus. Mas Paulo diz que, se toda a nossa glória está em Jesus Cristo, e conhecendo-a por meio de Sua cruz, Ele nos encaminhou a Deus, o Pai, e garantiu o reino dos céus para nós, então será fácil para nós nos retirarmos do mundo e nos desligarmos dele, por assim dizer. Por quê? Quem quer que tenha sido duramente atingido e sobrecarregado com um senso de seu próprio pecado certamente buscará a graça que lhe é oferecida em Jesus Cristo, e o mundo será considerado nada para ele.

De fato, nós tratamos todas as riquezas espirituais que Deus nos ofereceu e nos convida a compartilhar como se fossem nada, porque, em comparação com os enganos e tenta-ções de Satanás nós não as valorizamos de modo algum. O que é este mundo, quando o contemplamos como ele é? Nem um de nós vê o quão frágeis nossas vidas são, que elas são apenas vapor que passou e, em seguida, desaparece. Os homens ainda ardem com luxúria e são arrebatados e carregados assim. Quanto a Deus, Ele clama: “Miseráveis pessoas! Vocês têm menos senso do que crianças pequenas, em que vocês mesmos se ocupam com feixes de palha, lixo sem sentido, e todos os tipos de absurdo, e vinculam-se de todo o coração a estas coisas. No entanto, quando Eu lhes ofereço esta que é a felicidade perfeita, vocês a ignoram; para vocês não é importante”. Por isso, a razão pela qual somos tão frios e tão lentos para aceitar as riquezas que Deus nos oferece é que estamos preocupados com as coisas deste mundo. Na verdade, nós valorizamos este mundo mui altamente. O que nos leva a fazer isso? É porque nós não conhecemos que riquezas inestimáveis Deus está nos oferecendo.

Portanto, vamos unir essas duas coisas: ou seja, estejamos crucificados para o mundo e o mundo para nós, gloriando-nos somente em Jesus Cristo crucificado. Agora isso é mais fácil de dizer do que fazer, e mesmo assim cada um de nós, onde quer que estejamos, devemos nos esforçar para fazê-lo; uma vez que ouvimos esta doutrina, devemos colocá-la em prática. Porque, se nós queremos ser estimados e considerados Cristãos diante de Deus e de Seus anjos, temos que estar de acordo com o que Paulo nos diz aqui; de fato, se nós não fôssemos de disposição contrária, encontraríamos muitas oportunidades para agir assim, como eu já disse. Pois, todos aqueles que simplesmente olham para dentro de si mesmos e consideram o que eles realmente são, e em que condição eles estão enquanto ainda separados de Jesus Cristo, estarão atemorizados com a percepção da ira de Deus, que eles merecem. Eles sentirão que estão arruinados por seu estado maldito, e que seria melhor se a Terra os engolisse uma centena de vezes, ao invés de viver sob essa maldição por um único dia, como inimigos de Deus, que não podem escapar de Sua mão. Vamos, portanto, aprender a examinar a nós mesmos. Aqueles que desejam adornar-se de acordo com este mundo, especialmente as mulheres, olharão para um espelho com grande curiosidade e preocupação. Ainda assim, a nossa miséria e imundície não estarão refletidas ali, de modo a verdadeiramente nos humilhar diante de Deus, ou fazer-nos considerar em que nos gloriamos. Aquele que reconhece a sua vergonha e ignomínia, certamente, procura remediá-las, se é que o Espírito de Deus está operando dentro dele, e ele não está (como eu já disse) intoxicado por Satanás. Vamos, portanto, aprender a examinar a nós mesmos com sinceridade, sem lisonja, e quando reconhecermos nossa pobreza e miséria, venhamos ao Senhor Jesus Cristo. Uma vez que, por meio da cruz, toda arrogância, autoestima e jactância é abatida, estejamos verdadeiramente crucificados para o mundo e que ele não signifique nada para nós.

Agora, ao dizer que o mundo foi crucificado para ele e ele para o mundo, é certo que Paulo quer dizer a mesma coisa, mas ele quer reforçar que podemos de fato renunciar a este mundo e estar separados dele, por estarmos crucificados para nós mesmos no que diz respeito ao mundo. Isto significa que todos os nossos desejos repugnantes (que são muito fortes em nós e nos consomem como uma chama ardente, nos empurrando em uma direção, depois para outra), devem estar mortificados, pois sabemos que o Filho de Deus teve de sofrer tal morte vergonhosa em nosso lugar. Quem é aquele que procura ter seus triunfos e realizar seus corajosos feitos neste mundo, quando ele sabe que Aquele que é o chefe dos anjos, a Quem pertence toda a glória, majestade e autoridade, foi pendurado em um madeiro e foi amaldiçoado e odiado por nossa causa? Desta forma, todos os nossos desejos devem ser mortificados; portanto, que a paixão e morte de nosso Senhor Jesus Cristo sejam tão eficazes em nossos corações, de forma que os nossos desejos não tremam impacientemente dentro de nós como uma vez que eles fizeram. Este é o primeiro ponto.

Além disso, o mundo deve estar crucificado para nós. Como é isso? Em comparação com as riquezas espirituais que Jesus Cristo nos traz e que nós fruímos por meio dEle, podemos estimar as coisas deste mundo como palha e corrupção, uma vez que são todas corruptíveis. Ademais, tudo o que os homens cobiçam tão intensamente e com tanta determinação, de forma que eles se tornam completamente prejudicados por isso, nada mais são do que os laços que Satanás espalhou, a fim de capturá-los. Não são estas ilusões e enganos? Sim, isso é certíssimo. Sendo assim, aprendamos que o mundo não deveria ser nada para nós, e assim estejamos completamente persuadidos e seguros do fato que Deus é misericordioso para conosco, e nos reconhece como Seus filhos e herdeiros; Ele nos abençoou e sem a Sua bênção nós seríamos mui miseráveis. Por isso, nós devemos passar ligeiramente por este mundo e não estar ligados a ele ou retidos por qualquer coisa; este deve ser sempre o nosso objetivo. Sabemos que temos de nos apressar para o lugar ao qual Deus nos chamou, e se nos enredarmos por amor deste mundo, nos desviaremos de nosso Deus. Isto é o que devemos lembrar a partir desta passagem.

Neste ponto, Paulo acrescenta que “em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircun-cisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura”. É como se ele estivesse nos dizendo que aqueles que perturbavam a igreja em sua época foram motivados apenas por ambição. Porque, se a igreja não crescia, e ninguém recebia qualquer proveito de qualquer forma, como resultado do grande problema que eles despertaram, isso certamente prova que eles estavam apenas tentando substituir o Senhor Jesus Cristo. Pois, qual deve ser o nosso objetivo, senão ver o Filho de Deus reinando em nosso meio, e que sejamos governados pela Palavra de Seu Evangelho, e conheçamos o Seu poder, a fim de que todos nós, grandes e pequenos, coloquemos toda a nossa confiança nEle? Consequentemente, nós pretendemos ter toda a nossa vida transformada, para que possamos viver em obediência a Deus e nos submetamos à Sua Palavra, pois o templo espiritual de Deus é edificado sobre a fé e uma nova vida; a fé nos leva a prestar honra a Deus por todas as Suas riquezas, e recorrer a Ele, e anunciar os Seus louvores, a invocar Seu santo nome quando nos reunimos. É assim somos edificados para que nos tornemos o templo de Deus.

No entanto, nós devemos também nos renovarmos em nosso estilo de vida, e paciente-mente aprendermos a negar a nós mesmos e dedicar nossas vidas a Deus. Esta deve ser a mensagem daqueles que têm a responsabilidade de ensinar. Aqueles que não visam estas coisas revelam que não têm intenção de servir ao Senhor Jesus Cristo. Assim, Paulo declara que a única coisa importante é ser uma nova criatura em Jesus Cristo. Em outras palavras, devemos chegar ao ponto em que, como vimos em 2 Coríntios, sejamos novas criaturas, se quisermos ser considerados “em Jesus Cristo” (2 Coríntios 5:17). Porque, se alguém se gloria de que ele é mais eloquente, e outro que ele é muito inteligente, e outro que ele é um grande estudioso, e outro que tem boas maneiras, tudo isso não passa de vaidade. Aprendamos, portanto, a renunciar a nós e a este mundo, e a dedicar-nos Àquele que nos comprou para que pudéssemos ser livres. Pois é justo que Jesus Cristo, que nos comprou a tal preço deve nos possuir e regozijar-Se grandemente sobre nós. Isso não pode ser alcançado a menos que cada um de nós negue a si mesmo e rejeite tudo o que poderia lhe embaraçar entre os homens. Isso é o que precisamos observar.

Paulo fala aqui de circuncisão e incircuncisão, porque a disputa e o argumento que ele tinha (como vimos anteriormente) diz respeito à lei cerimonial, à qual aqui ele se refere através do exemplo da circuncisão. Pois os judeus procuravam reter todos os tipos e sombras que foram destinados apenas para durar por um tempo. Assim, Paulo, ridicularizando tudo isso, diz que o nosso Senhor Jesus Cristo veio, não para encorajar-nos a manter essas antigas figuras, mas, porque o véu do templo se rasgou em dois, e porque Ele é em si mesmo o corpo e a substância da todas as sombras que existiam sob a lei, agora devemos nos contentar com Ele, não sendo mais a circuncisão de qualquer valor.

Derivaremos maior proveito desta passagem se a aplicarmos ao que vemos hoje. Pois, no Papado, há muitos rituais sem sentido em que eles colocam toda a sua confiança, a fim de serem santos. Quando perguntamos aos papistas como eles podem merecer a graça de Deus e obter a remissão de seus pecados, eles se gabam de que eles têm a sua água benta, suas velas, seu incenso, seus órgãos e coros, suas peregrinações e isso e aquilo. Além disso, eles têm suas devoções tolas, que envolvem trotar de altar a altar e de capela a capela. Em seguida, eles devem, é claro, comprar um bom número de missas. Em suma, tudo o que os papistas se referem como o serviço de Deus não é nada mais do que um labirinto, ou um abismo de superstições que forjaram em suas próprias cabeças. Pas-semos agora a considerar de que estas coisas são dignas: Deus não fez nenhuma menção a elas; mas elas foram inventadas por homens, em cujos ouvidos Satanás sussurrou, a fim de corromper o verdadeiro serviço a Deus. No entanto, os papistas consideram que não pode haver nenhuma religião, nem fé, nem serviço a Deus, nem zelo, a menos que também sejam conduzidos por todo o seu disparate. Contudo, Paulo, falando das cerimônias que Deus havia ordenado na lei, diz que elas nada amis são. Por quê? Porque agradamos a Deus se O servimos com uma consciência pura, e O invocamos, tendo colocado nossa confiança nEle, sabendo que todas as coisas boas vêm dEle. Sim, vivamos reta e honestamente um com o outro, sabendo que o amor é o vínculo da perfeição, e o fim da lei; e dediquemo-nos também ao nosso Deus, de forma que vivamos de maneira pura e em toda a santidade, aguardando a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, como se diz em Tito (Tito 2:12-13). Este é o ponto inicial de santidade e perfeição, como declarado por Deus em Sua Palavra.

Entretanto, os papistas dirão, por outro lado: ‘O quê!? E que aniquilação em nossas adoráveis devoções? Serão todas elas abolidas? Seria melhor retirar Deus do céu!’, Isso revela a insensatez do papista. Vimos que Paulo expôs aqui, que, mesmo que os homens estejam tão equivocados sobre suas próprias invenções, de modo que acham que oferecem a Deus coisas maravilhosas, e estejam enredados por essas ninharias sem sentido, tudo é inútil. Quem declarou isso? Deus, pela boca de Paulo. O que, então, devemos ser? Novas criaturas. O que é uma nova criatura? Devemos começar por examinar nossas vidas e nos vermos como nada em e de nós mesmos. Então devemos oferecer a Deus os sacrifícios espirituais que devemos a Ele, apresentando-nos a Ele para que Ele possa ter piedade e misericórdia de nossa miséria, e nos socorra e ajude. Que possamos estar prontos para segui-lO como Ele nos chama, não tendo outra fonte de sabedoria, senão a Sua Palavra somente, sabendo que Ele não deseja ser servido com pompa ou com aparências exteriores refinadas e brilhantes que atraem o mundo. Ele Se agrada se dedicamos nossos pensamentos e afeições a Ele com sinceridade. Além disso, é nossa responsabilidade entender o que Paulo está dizendo aqui, e aplicar os seus ensina-mentos; pois é certo que aqueles que se recusam a deleitarem-se em seus pecados, e que olham para Deus, sabendo que eles devem comparecer diante de Seu trono de Juiz, abandonarão todo gloriar-se em si mesmos.

Além disso, eles reconhecerão o que Deus exige em Sua Palavra, e como Ele deseja ser servido, e no que Ele se deleita, de modo que eles não correrão o risco de serem enganados pelas bobagens sem sentido que os hipócritas buscam. Pois é mui certo que quando os papistas atormentam-se, a fim de servir a Deus (como vemos), é apenas para que Ele os considere inocentes, e para que eles possam escapar de Sua mão, e não sejam obrigados a servi-lO como Ele ordenou; pois eles desprezam toda a lei. Ainda assim, há muitas coisas que eles de fato consideram vital, e que eles desejam que Deus aceite. Mas (como já disse) o seu objetivo principal é crer que seu dever para com Deus foi cumprido, de modo que Ele não os oprimirá demais. Enquanto isso, eles seguem o seu próprio caminho, concedem a si mesmos uma grande licenciosidade e a absolvição de todos os seus pecados. Eles pensam que, desde que eles tragam algo a Deus (isto é, uma mera sombra), Ele não ousaria falar uma palavra contra eles e tem que permanecer em silêncio. Agora vimos a intenção de Paulo aqui.

Finalmente, ele acrescenta: “E a todos quantos andarem conforme esta regra, paz e misericórdia sobre eles e sobre o Israel de Deus”. Ao falar desta ‘regra’, ele indica que os homens podem acreditar no que quiserem, e, contudo, Deus não cederá a eles, pois Ele é imutável e não cede à tolice ou é dado a retroceder. Paulo nos diz que tal alteração é impossível. Seja o que for que aconteça, a regra que Deus estabeleceu permanece como é, imutável. Isso é algo que todos nós aceitamos na exterioridade das coisas. Por que não seria prontamente aceito o fato de que Deus é superior a nós? Nós ainda sentimos que dizer o contrário é blasfemar. Assim, todos temos a certeza de que Deus deve reinar, e que Sua lei deve ser nossa regra para viver; no entanto, ao mesmo tempo, vejam como os homens se permitem viver sem moderação! Cada pessoa inventa isso e aquilo, e logo depois espera que todos os outros apoiem as suas invenções. Todo mundo quer ter as suas próprias regras distintas. Embora possa ser verdade que nem todos no Papado seguem a regra de São Francisco, ou de São Domingos, ainda assim, não há uma única velha tola ou fanático no Papado que não tenha a sua própria regra. Assim como não há um único jovem que também não tenha a sua própria regra para viver. Pois todos dirão: ‘Esta é a maneira que eu faço minhas devoções’. E quando eles usam a palavra ‘devoção’, eles praticamente empurram a Deus para segundo plano, porque eles estão realmente dizendo: ‘eu devo ter a liberdade de fazer o que eu acho é bom, e Deus deve contentar-se com isso.’”

Que diabólica audácia os homens têm! Eles comprometem-se aqui e ali, eles falam descontroladamente, eles desviam-se para um lado e para o outro. É como se eles fizessem para si caminhos tortuosos e errantes, na esperança de que Deus torcerá as Suas regras e será flexível o suficiente a ponto de curvar-se para atender às suas próprias opiniões. Portanto, temos mais uma razão para observar com atenção o que é dito aqui, a saber, que todos os homens podem atormentar-se como quiserem, mas o governo de Deus permanece e seguirá o Seu próprio rumo e direção.

Qual é a regra? É que busquemos a perfeição que o nosso Senhor Jesus revela no Evangelho; não que possamos alcança-la durante a nossa vida, mas sim que não devemos nos afastar de uma forma ou de outra, para a direita ou para a esquerda, mas visar sempre o alvo que Deus nos revelou. É assim podemos ser novas criaturas, negando a nós mesmos e nos dedicando totalmente a Deus. Uma vez que este é o caso, tomemos a decisão de nos submeter a esta regra, e de conformar as nossas vidas a ela. Pois cada um de nós imediatamente dirige seus pés e pernas a correr aqui e ali; mas para não errar, é preciso aprender a se apegar a tudo o que Deus nos revela e nos ensina em Sua Palavra. Agora, quando Paulo pede que a paz e a misericórdia estejam sobre essas pessoas, é para declarar que, mesmo se tudo no mundo estupidamente nos condenasse, podemos ignorar isso e nos recusarmos a deixar que isso nos incomode, prosseguindo em nosso próprio curso. Se Deus é por nós, isto deve ser o suficiente. Porque, se nós somos abalados pelos tolos julgamentos deste mundo, e pelas opiniões que eles espalham sobre nós, não estamos prestando a Deus a honra que Lhe é devida. Se as pessoas dizem sobre nós: “Essas pessoas não estão vivendo uma boa vida”, e ficamos aborrecidos e procuramos estar de acordo com os seus gostos, certamente estaremos nos afastando de Deus.

Portanto, tomemos boa nota do que Paulo diz aqui, isto é, que se os homens nos conde-nam e encontram coisas para criticar-nos naquilo que fazemos (e é óbvio que o mundo nunca estará em harmonia com Deus), isso não deve significar nada para nós. Deveria nos bastar o fato de que Deus tem nos abençoado, e nos oferece a felicidade completa nesta palavra “paz”, mostrando que Ele terá piedade de nós, embora possamos ser miseráveis, e por mais que os outros possam cuspir em nosso rosto. Apesar de que não temos todas as virtudes que de nós são requeridas, ainda assim se o nosso objetivo é seguir a Deus, encontraremos que Ele é sempre misericordioso. Ele nos sustenta em nossa fraqueza e nos ajuda em nossa miséria. Se temos tudo isso, deveríamos estas satisfeitos. Por outro lado, embora o Espírito Santo abençoe aqueles que se submetem ao governo de Deus, nós também sabemos que Ele amaldiçoa, detesta e odeia todos aqueles que se desviam, e que fazem de suas próprias imaginações a sua lei. Eles buscam ter liberdade para seguir o que parece correto para eles, e endurecem-se contra a Palavra de Deus. Contudo, eles são valorizados pelo mundo, e por mais que eles estejam intoxicados com orgulho e presunção, pensando que são muito importantes, podemos ver que Deus ainda os considera detestáveis. Isso é o que precisamos lembrar: só há uma regra pela qual devemos viver e esta está contida no Evangelho.

Onde é que esta regra nos conduz? Ela assegurará que nós não ofereçamos a Deus o que parece correto para nós, ou o que temos forjado em nossas próprias cabeças. Em vez disso, apresentemo-nos inteiramente a Ele e à Sua Palavra. Reconheçamos que em Jesus Cristo temos toda a perfeição. Assim, nos contentemos com Ele somente, especialmente porque sabemos que Ele é misericordioso o suficiente para nos mostrar piedade, e nossas vidas serão abençoadas e felizes por meio dEle, se nós O seguirmos para onde ele nos chama. Por outro lado, seremos amaldiçoados se não seguirmos a regra que Paulo fala aqui, não importa que opinião o mundo tenha a nosso respeito, ou o quanto ele nos elogia.

Agora ele acrescenta “o Israel de Deus”, para provar que aqueles que servem a Deus espiritualmente, Ele sempre terá o prazer de reconhecer como o Seu povo. Pois os inimigos de Paulo, contra quem ele tem uma desavença em toda esta Epístola, queriam manter todas as cerimônias, pois lhes parecia que estas eram as marcas da verdadeira igreja, assim como os papistas atualmente querem manter o óleo sagrado e isso e aquilo. Mas os inimigos de Paulo tinham razões muito mais fortes do que os papistas, e o seu caso era relativamente mais importante. Ainda assim, Paulo continua a rejeitar tudo, e diz que Deus não se preocupa com nada disso. Se é verdade que Ele havia ordenado as sombras da Lei por um tempo, e elas tiveram a sua função, que era conduzir as pessoas para o Senhor Jesus Cristo, agora que temos a substância e a verdade nEle, devemos abandonar tudo. Nós temos uma razão ainda mais forte, portanto, para dizer que ‘o Israel de Deus’ não são os que aparecem em grande esplendor diante dos olhos dos homens, mas os que têm a verdadeira marca de Deus. Pois, quando os papistas nos falam da igreja, que deve incluir o Papa com suas três coroas, e os bispos, que se disfarçam para dissimular a sua farsa, assim como todo o seu esplendor, eles são como animais com chifres; os sacerdotes e os monges estão entre eles e eles também deslumbram os olhos dos símplices. Isto é no que a igreja de Deus consiste, de acordo com os papistas: em pompa e inutilidade frívola, absurda. Qual dos sacramentos? Não, eles precisam desta ou daquela coisa extra; em suma, eles têm as suas próprias marcas que parecem bastante aceitáveis para eles.

No entanto, nós devemos olhar para o Evangelho e o que encontramos ali? Toda simplicidade. Deus não quer que aqueles que pregam a Sua Palavra e administram os Seus sacramentos usem trajes ou façam tantas fanfarras. Ele também não quer que os sacramentos sejam contaminados por invenções humanas, pois todas estas são inúteis para Deus. Mantenhamos, portanto, a definição que Paulo oferece aqui sobre a verda-deira igreja, de modo que não nos deixemos abalar quando as pessoas nos dizem: “Olhem, nós temos muitas coisas bonitas aqui”. É verdade, se julgarmos de acordo com nossos sentidos naturais, pois somos carnais e terrenos, e, portanto, somos mais incli-nados a seguir o que parece belo aos nossos sentidos, todavia não devemos decidir por nós mesmos como servir a Deus; devemos nos apegar ao que Ele tem declarado, porque Seu decreto é irrevogável, e é aqui que nós devemos encontrar toda a nossa sabedoria, a saber, em Jesus Cristo. Isto só pode acontecer se nós O obedecermos, mas não antes disso. Assim, devemos reconhecer que devemos nos desligar das coisas exteriores que Ele ordenou na época da lei; mas antes nos contentar com Jesus Cristo e com a perfeição que está nEle.

Tenhamos a certeza de que percebemos outra coisa, diz ele, neste momento: “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja, irmãos, com o vosso espírito!” Ele expõe aqui que o mundo, devido à sua ingratidão, não tem nenhuma ideia das riquezas que são oferecidas em Jesus Cristo. O Evangelho é pregado com frequência suficiente, e ainda assim todos nós nos retiramos dele e nos afastamos, como se nós decidíssemos deixar o bom caminho que conduz à salvação e atirar-nos de cabeça na ruína e perdição. Qual é a razão para isso? É porque nossos espíritos estão vazios, e o diabo sempre ganha terreno; ele nos seduz, nos incomoda e nos faz exultar em vaidades. De fato, até que a graça de nos-so Senhor Jesus esteja em nosso espírito, nós somos como canas agitadas, sem estabi-lidade ou firmeza. Isto é o que nós precisamos almejar, que Deus não somente derrame a Sua graça sobre nós, mas que nós também a recebamos em nosso espírito e coração; o nosso espírito deve tornar-se o seu trono, e o lugar onde ela se enraíza, de modo que não estejamos ligados a esta terra, mas levantemos as nossas afeições e mentes a Deus.

Agora, porque nunca haverá um momento em que esta doutrina dissolva a contradição, Paulo aqui desafia aqueles que se levantam contra ele, e diz: “Desde agora ninguém me inquiete; porque trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus”. Quando ele fala das marcas de Jesus Cristo, ele as coloca em contraste com todos os arsenais dos príncipes, com todos os seus diademas e cetros, e tudo o que eles possuem para conceder-lhes importância, e para obter a adoração e reverência de todos. Quando um príncipe quer ser visto como estando no controle de sua propriedade, ele deve estar vestido de tal maneira que ninguém se atreva a olhar para ele com medo de ser fascinado. Eles fazem isso com mais frequência do que nunca, porque não há nada sobre eles digno de nota, e por isso precisam contar com estes meios emprestados; o mesmo é verdade para as pessoas do mundo que se dedicam à pompa e galhardia, e usam isso e aquilo para adquirir uma boa reputação. Em suma, o mundano usará todos os meios para fazer-se notável, embora estas coisas sejam vaidade em e de si mesmas. Porém, Paulo mostra que as marcas de nosso Senhor Jesus Cristo são, como sabemos, muito mais valiosas, e muito mais preciosas, tendo mais beleza em si mesmas do que tudo o que é valorizado pelo mundo.

No entanto, é preciso considerar o que se entende por “marcas”. Ele nos explicou isso anteriormente, quando disse que ele fora espancado várias vezes. Ele havia sido apedrejado em um lugar, preso em outro, e havia sofrido fome e sede (2 Coríntios 11:23-27). Em outras palavras, ele tinha sido considerado como repugnante e, portanto, fora rejeitado. De acordo com o mundo, devemos fugir de tal ignomínia. No entanto, Paulo diz que essas marcas valem mais do que toda a honra e esplendor que poderíamos desfrutar. Visto que ele carrega estas marcas, outros não devem “inquieta-lo”, impedindo-o de seguir seu curso e cumprir o seu dever.

Agora a intenção de Paulo nesta passagem foi, em primeiro lugar, mostrar que, se somos Cristãos e parte da verdadeira igreja de Deus, devemos obedecer a ordem de estarmos unidos uns aos outros. Como? Não com cada pessoa seguindo a sua própria imaginação; pois há de fato muitos que têm um espírito perverso que fazem com que seja impossível que eles cooperem com os outros. Essas pessoas procuram manter-se separadas de todos os outros, como cavalos selvagens, e é de se esperar que haja mosteiros e claus-tros para essas pessoas que se recusam a unir-se com outros de acordo com a prescrição dada à igreja. Assim, tendo-se separado em seu orgulho da companhia dos crentes, eles apenas podem realmente tornarem-se monges do diabo! Seja qual for o caso, sabemos por que eles se escondem: é porque o diabo os tem em suas garras e os possui. Ele simplesmente tenta convencê-los a viver separadamente dos outros, para que ele possa, eventualmente, desvia-los para longe de Deus por completo.

Em segundo lugar, Paulo nos mostra aqui que devemos procurar manter essa “regra”; o Senhor Jesus deve ser o nosso exemplo, e devemos procurar nos conformarmos à Sua imagem. Quando Ele fala, que possamos nos submeter ao Seu ensino, de modo que cada um de nós guarde as Suas ordens. Além disso, ajudemos uns aos outros. Pois nós podemos nos gabar da perseguição, ou isso ou aquilo, todos nós gostamos, mas a menos que nós procuremos ajudar outros e contribuir par ao progresso da edificação do templo espiritual, é certo que ainda estamos servindo a Satanás e somos como escravos que servem sob seu governo tirânico. Aprendamos a ter o mesmo sentimento uns para com os outros, à medida que nos submetemos ao nosso Senhor Jesus Cristo. Além disso, aqueles que são altruístas e fiéis em sua caminhada com Deus podem desprezar todas essas pessoas pomposas que querem elevar-se em seu orgulho, introduzindo isto ou aquilo; pois Jesus Cristo sempre reconhece suas marcas. Em outras palavras, embora possamos ser desprezíveis aos olhos do mundo, seremos sempre reconhecidos pelo Filho de Deus. Portanto, continuemos a caminhar, e deixem que aqueles que procuram nos prejudicar saibam que Deus os abaterá, como vimos anteriormente (Gálatas 5:12). É justo que Deus envie para a sua ruína que perturbam a unidade da igreja e se recusam-se a servir de acordo com a sua capacidade para o avanço do reino de nosso Senhor Jesus Cristo, por causa de seu orgulho e presunção. Isto é o que nós precisamos lembrar dessa passagem, se quisermos perseverar no gozo das riquezas que possuímos, que foram compradas por nós por tão alto preço, através da morte e paixão de nosso Senhor Jesus Cristo, e que são oferecidas para nós, diariamente através do Evangelho.

Agora prostremo-nos diante da majestade de nosso grande Deus, reconhecendo os nossos pecados, e orando para que eles nos entristeçam modo que tremamos e busquemos o Seu perdão. Então, sejamos transformados através de verdadeiro arrependimento e habilitados para a batalha contra todos os nossos vícios e todas as corrupções de nossa carne, até que Ele tenha nos libertado de todos eles, então, Ele nos vestirá em Sua justiça. Assim, todos nós digamos: “Todo-Poderoso Deus e nosso Pai celestial” e etc.

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♦ Fonte: ReformedSermonArchives.com
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida e Fiel).

♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Cristo, o Salvador que Engrandeceu a Lei – Robert Murray M’Cheyne

“Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver. Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do Senhor? Tu vês muitas coisas, mas não as guardas; ainda que tenhas os ouvidos abertos, nada ouves. O Senhor se agradava dele por amor da sua justiça; ele engrandecerá a lei, e a fará gloriosa.” (Isaías 42:18-21 – Tradução literal do verso 21)

 

I. O nome aqui dado aqui aos pecadores: “Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver”. Versículo 18. Essas palavras são aplicadas aqui, primeiro para os idólatras, mas elas são igualmente aplicáveis a todos os homens não-convertidos. Todos vocês que não são convertidos são naturalmente surdos. Vocês não ouvem a voz da Providência. Misericórdias e aflições vêm bater à vossa porta, mas vocês não as ouvem. Vocês não ouvem a voz de Cristo. É como o som de muitas águas, mas vocês são surdos, vocês não ouvem os Seus avisos e convites. Vocês não ouvem a voz dos pastores. Eles são atalaias a tocar a trombeta e avisar o povo, eles têm a língua erudita: mas vocês “são como a víbora surda, que tapa os ouvidos” (Salmos 58:4).

Cegos. Esta palavra é constantemente usada na Bíblia para descrever a estupidez das almas não-convertidas. Ministros não-convertidos são chamados de “condutores cegos” (Mateus 15:14). Jesus disse certa vez a um Fariseu, “Fariseu cego” (Mateus 23:26). E ainda: “Insensatos e cegos” (Mateus 23:17), “e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu” (Apocalipse 3:17).

Este é o verdadeiro estado de cada alma não-convertida. Você não vê a sua própria alma; sua depravação, sua culpa, sua condição perdida e arruinada. Você não vê o Sol, o glorioso Sol da Justiça, a Sua beleza, a Sua glória, Sua excelência: “não havia boa aparência nele, para que o desejássemos” (Isaías 53:2). Você não enxerga o seu caminho. Você não sabe em que você tropeça. O seu caminho conduz você para o inferno, mas você não o vê, nem o acredita.

Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai. Aqueles dentre vocês que estão surdos e cegos são geralmente os menos atentos na congregação. Vocês dizem: “o ministro não tem nada para mim”; e assim, vocês pensam em outra coisa para entreter a sua mente. Mas observem, Deus aqui fala com vocês: “Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai”. Aqueles dentre vocês que são descuidados, estúpidos, cegos, carnais, são os que deveriam participar, pois Deus vos chama. Quando vocês ouvirão, a não ser quando Deus está convidando vocês?

Mas vocês dizem: “esta é uma contradição; se eu sou surdo, como posso ouvir? Se eu sou cego, como eu posso olhar?” Resposta. Deixem que Deus resolva essa dificuldade. Apenas escutem e olhem para o alto. Não há realmente nenhuma dificuldade nisso. Ele disse a Ezequiel para pregar aos ossos secos: “Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor” (Ezequiel 37:4), e a João para pregar a homens como as pedras do Jordão. É enquanto nós estamos falando, e através das próprias palavras que falamos, que Deus concede a vida, e audição, e visão. Somente inclinem os seus ouvidos surdos em direção a Deus, e seus olhos cegos em direção a Jesus. Quem sabe, apenas alguma alma surda e cega pode agora, pela primeira vez, esteja olhando para Jesus?

 

II. O objeto apontado: “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensa-geiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do Senhor? Tu vês muitas coisas, mas não as guardas; ainda que tenhas os ouvidos aber-tos, nada ouves” – versículos 19 e 20. Cada expressão aqui, evidentemente, aponta para Cristo.

1. Meu servo. Este nome é constantemente dado a Cristo: “Eis aqui o meu servo”, Versículo 1. “Eis que o meu servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e mui sublime” (Isaías 52:13), “com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos” (Isaías 53:11), “Eu, porém, entre vós sou como aquele que serve” (Lucas 22:27). Ele tomou uma toalha e cingiu-Se, “tomando a forma de servo” (Filipenses 2:7). A razão disso é que Ele não veio para fazer a Sua própria vontade, mas a vontade dAquele que O enviou.

2. Meu mensageiro. Esse nome também é aplicado a Cristo: “Se com ele, pois, houver um mensageiro, um intérprete, um entre milhares” (Jó 33:23). E ainda: “o Senhor, a quem vós buscais; e o mensageiro da aliança, a quem vós desejais” (Malaquias 3:1). Ele é assim chamado porque Deus O enviou. Ele veio da parte de Deus, com uma mensagem de vida eterna para os pecadores.

3. Aquele que é perfeito. “Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita” (Deuteronômio 32:4). Quanto a Deus, a sua obra é perfeita. É apenas quanto a Cristo que estas palavras são plenamente verdadeiras. Ele não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em Sua boca. Ele não conheceu pecado. Ele era o santo Servo Jesus, o perfeito, perfeito aos olhos da Lei, perfeito aos olhos de Seu Pai, perfeito aos olhos de Sua Igreja: “tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, e feito mais sublime do que os céus” (Hebreus 7:26).

4. Cego e surdo: “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio?” Também o versículo 20: “Tu vês muitas coisas, mas não as guardas; ainda que tenhas os ouvidos abertos, nada ouves”. Isto descreve a maneira pela qual Ele passou através de Seu trabalho neste mundo. Igual ao versículo 2: “Não clamará, não se exaltará, nem fará ouvir a sua voz na praça”. Como em Salmos 38:13-14: “Mas eu, como surdo, não ouvia, e era como mudo, que não abre a boca. Assim eu sou como homem que não ouve, e em cuja boca não há reprovação”. Também Isaías 53:7: “Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca”. [...]. “Quem é cego, senão o meu servo?”

Ele foi cego aos Seus próprios sofrimentos. Ele Se apressou para Jerusalém, como se Ele não visse a cruz diante dEle. Ele a viu, mas não observou. Ele estava deitado no jardim do Getsêmani, como se Ele não visse as luzes e tochas daqueles que estavam vindo para prendê-lO. “Quem é cego, senão o meu servo?”

Ele foi surdo. Ele pareceu não ouvir a trama deles contra Ele, nem as suas acusações, pois Ele não respondeu uma palavra. “Disse-lhe então Pilatos: Não ouves quanto testificam contra ti? E nem uma palavra lhe respondeu, de sorte que o presidente estava muito maravilhado” (Mateus 27:13-14). Isso é o Senhor Jesus pacientemente suportando tudo por nós, de modo que vocês são ordenados a ouvir e olhar. Considerem-nO, examinem-nO. Nós ainda temos aprendido pouquíssimo de Cristo, irmãos; e vocês que estão sem Cristo não O conhecem em absoluto.

 

III. A obra de Cristo: “engrandeceu-o pela lei, e o fez glorioso”. Versículo 21. Essa é, em alguns aspectos, a descrição mais maravilhosa da obra de Cristo dada em toda a Bíblia. Ele é frequentemente dito ter cumprido a Lei. Assim, em Mateus 3:15: “porque assim nos convém cumprir toda a justiça”. E mais uma vez, Mateus 5:17: “Não cuideis que vim des-truir a lei ou os profetas: não vim abrogar, mas cumprir”. Mas aqui é dito, Ele “engrande-cerá a lei, e a fará gloriosa”. Ele veio para dar novo brilho e glória à santa Lei de Deus, para que todo o mundo pudesse ver e entender que a Lei é santa, justa e boa. Quando Deus escreveu a lei sobre o coração de Adão na sua criação, isso engrandeceu a lei. Ele mostrou ser uma lei grandiosa, santa e feliz, quando Ele a escreveu no seio de tão santa e feliz criatura, como o homem era então. Quando Deus falou a Lei do Monte Sinai, aquilo engrandeceu a Lei, e a fez gloriosa. Quando Ele a falou com Sua própria voz em tão terrível forma, quando Ele a escreveu duas vezes com Seu próprio dedo, isso a engrandeceu o suficiente, a ponto de fazer os nossos modernos violadores de Sabath tremerem ao apagá-la. Mas acima de tudo, quando Cristo morreu, Ele concedeu brilho e grandeza, glória e majestade, à lei de Deus, à vista de todos no mundo.

1. Por seus sofrimentos. Ele engrandeceu a santidade e a justiça da Lei, ao carregar a sua maldição. Quando Adão pecou, ele negou que a Lei era santa e justa. O diabo disse-lhe: “Certamente não morrereis” (Gênesis 3:4). Ele acreditou no diabo. Ele pensou que Deus não o faria morrer, ele pensou que Deus lançaria para trás a sua santa e restrita Lei. Ele não fará isso. Será que Ele destruirá as criaturas que Ele criou apenas pelo tomar de um fruto? Quando qualquer homem peca, ele nega a santidade da Lei de Deus. Quando um homem blasfema, ou quebra o Sabath, ou desonra seus pais, ou mente, ou rouba, ele diz em seu coração: Deus não verá, Deus não tomará conhecimento, Deus não me lançará no inferno por isso. Ele não acredita naquelas ameaças de Deus. Ele não acredita que a Lei é santa e justa. Se aqueles de vocês que vivem em pecado realmente acreditassem que cada pecado que vocês cometem os lançaria no lado da eternidade onde uma onda de fogo virá sobre os seus corpos e almas no inferno para sempre, vocês não pecariam como vocês o fazem; e, deste modo, vocês desonram a Lei, vocês a fazem pequena e desprezível, vocês se convencem de que a lei de Deus jamais será colocada em vigor. Assim, todo pecado é feito contra Deus: “contra ti, contra ti, somente pequei” [Salmo 51:4]. Ora, Deus enviou o Seu Filho ao mundo para engrandecer a Lei, morrendo sob sua maldição. Ele tomou sobre Si a maldição devida aos pecadores, e carregou-a em Seu corpo, sobre o madeiro, e, assim, provou que a lei de Deus não pode ser zombada.

Quando Deus expulsou o diabo e seus anjos no inferno, isso mostrou de uma maneira mui terrível a verdade de Suas ameaças, o terrível rigor de Sua lei. Se Deus tivesse lan-çado todos os homens para o inferno, Ele teria demonstrado a mesma coisa. Porém, muito mais quando Cristo inclinou a cabeça sob o golpe da maldição da Lei. Ele era uma pessoa de infinita dignidade e glória: “Deus bendito eternamente” (Romanos 9:5). Ele não teve por usurpação ser igual a Deus. Ele era muito exaltado sobre toda a bênção e louvor. Deus-homem; o único Ser que já esteve nesta terra que era Deus e homem. Ele foi o único que não tinha pecado pessoal. Ele era perfeito, não conheceu pecado, não cometeu pecado, era santo, inocente, imaculado e separado dos pecadores. Ele era infinitamente querido a Deus. Seu próprio Filho, o Seu Filho unigênito, aquele que estava no princípio com Deus, e era Deus; em cujo seio de amor do Deus incriado tinha fluído desde toda a eternidade. Foi Ele quem veio e curvou o pescoço para o jugo da Lei. Ele foi visto dos anjos. Anjos desejavam olhar para a terrível cena. Os olhos de milhões de mundos voltaram-se em direção ao Calvário. Quando Jesus morreu, Ele nos resgatou da maldição da Lei, fazendo-Se maldição por nós; e agora todos no mundo viram que Deus não pode ser zombado. Ele acrescentou brilho à santa Lei. Anjos e arcanjos viram, e tremeram enquanto eles contemplaram. Aquele que não poupou o seu Filho, não poupará nenhum outro.

Aprenda sobre a certeza do inferno para os que estão sem Cristo. Qual dentre vocês que está sem Cristo pode ter esperança de escapar da maldição da Lei, uma vez que Deus não poupou o Seu Filho? Se você decidiu, em sua mente, recusar a Cristo, então, você suportará o inferno. Você diz que é uma pessoa de grande espírito, de grande poder, de grande riqueza; mas ah! você não é igual ao Filho de Deus, e mesmo Ele não foi poupa-do. Você diz que seus pecados não são muitos, nem grosseiros, nem são tão ruins quato os de outros homens; ah! mas Cristo não conheceu pecado; Ele não tinha nenhum peca-do pessoal; todos eram pecados imputados. Quão certamente você sofrerá! Você diz que Deus tem sido bom para você, lhe concedeu muitas misericórdias; ah! lembre-se, Cristo era o Filho do Seu amor, e ainda assim a Lei exigia isso, Deus não poupou o Seu próprio Filho. Embora você fosse o anel de selar em Sua mão direita, contudo Ele arrancaria você dali; se você fosse um olho direito, ainda assim, Ele o arrancaria.

Aprenda a fugir do pecado. Todo pecado terá o seu castigo eterno. O pecado que você está cometendo, ou foi sofrido por e em Cristo, ou será sofrido por você no inferno. Você encherá o seu cálice de tormento até a borda? Se você não vier a Cristo, ao menos que você possa poupar-se de maior condenação.

2. Por sua obediência. Ele acrescentou brilho à benignidade da Lei, obedecendo-a. Quando Adão preferiu o serviço do diabo ao serviço de Deus, ele declarou que a Lei de Deus não era boa. O fruto parecia bom para se comer, e árvore desejável para dar entendimento, e assim ele comeu. E desta forma, [é] com todo pecador agora. Quando você prefere o pecado à santidade; quando você prefere jurar, ou quebrar o Sabath, ou ir com os ímpios, a servir a Deus com toda a humildade de espírito, então você diz: “a lei de Deus é escravidão. Não é bom estar sob ela. Não me faria feliz para guardá-la. Sou mais feliz em quebra-la do que eu seria em guardá-la. Não é bom amar a Deus com todo o meu cora-ção, e o meu próximo como a mim mesmo”. Agora, quando Cristo veio e obedeceu a Lei, desde o berço até o túmulo, quando o Filho de Deus veio e deleitou-Se em fazer a vontade de Deus, e teve a Lei sempre em Seu coração, amou a Deus com todo o Seu coração, e seu próximo como a Si mesmo, isso deu um novo brilho à Lei. Ele mostrou a todos no mundo que isso é a felicidade e principal bem da criatura: guardar a santa Lei de Deus.

Cristo era o Ser mais livre do universo, absolutamente livre, fazendo todas as coisas de acordo com o prazer de Sua própria vontade. Ele também era o mais sábio, único sábio. Ele conhecia a natureza das coisas; sabia o seu início e fim. Ele também tinha provado as alegrias do céu. Ele havia bebido desde toda a eternidade o rio dos deleites de Deus; havia desfrutado de tudo o que o Pai usufruia, a plenitude da alegria que está na presen-ça de Deus, e as delícias que estão em Sua mão direita, perpetuamente; e ainda assim, quando Ele Se apresentou em nossa natureza, tinha prazer na Lei de Deus segundo o homem interior; sim, a lei de Deus estava dentro de Seu coração. Todo o Livro dos Salmos testemunham a santidade dentro de Seu coração. Ele amava a Deus com todo o Seu coração, e alma, e mente, e força; Ele amava o seu próximo como a Si mesmo, sim, mais do que a Si mesmo; pois Ele deu a Sua própria vida pelas nossas. Ele foi submisso aos pais e aos governadores. Ele amava o santo Sabath. Ele engrandeceu a lei, e a fez gloriosa. Ele concedeu-lhe um novo brilho aos olhos de todos no mundo. Ele mostrou com uma nova clareza e brilho antes desconhecidos, que a principal felicidade da criatura é guardar toda a Lei.

Aprendam a verdadeira sabedoria daqueles dentre vocês que são novas criaturas, e que amam a santa Lei de Deus. Todos vocês que são realmente levados a Cristo são transformados em Sua imagem, de modo que vocês amam a santa Lei de Deus. “Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus” [Romanos 7:22]. “Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração” [Salmos 19:8]. O mundo diz: “que escravo você é! você não pode ter um pouco de diversão no Sabath, uma caminhada ou festa do chá no Sabath; você não pode ir a um baile ou teatro; você não pode desfrutar dos prazeres da gratificação sensual; você é um escravo”. Eu respondo: Cristo não teve nenhum desses prazeres. Ele não os quis, nem nós. Ele sabia o que era realmente sábio, e bom, e feliz, e Ele escolheu a santa Lei de Deus. Ele era o mais livre de todos os seres, e ainda assim, Ele não conheceu pecado. Somente faça-me livre como Cristo é livre; isso é tudo que eu peço. “Muita paz têm os que amam a tua lei, e para eles não há tropeço” [Salmos 119:165].

 

IV. O efeito: “O Senhor se agradava”.

1. Com Cristo. Deus se agrada com Cristo por muitas razões. (1) Porque Ele é a Sua imagem: “O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa” [Hebreus 1:3]. (2) Porque ele é Amorável. (3) Pela Sua morte: “Por isto o Pai me ama” [João 10:17]. Ele O ama com um pleno amor; Ele derrama o amor de todo o Seu coração; um amor sem nuvens; luz do sol, sem uma nuvem; um amor eterno.

2. Com todos os que estão em Cristo. Seja quem for dentre vocês que estiver disposto a abandonar a sua própria justiça, e tomar a Cristo como seu Fiador, Deus não apenas perdoa, mas permanece bem satisfeito com você por causa da justiça dEle. O mesmo amor com que Ele ama a Cristo, Ele derramará sobre você; e, oh! quem pode admirar, quando você realmente pensa sobre a justiça do Senhor Jesus que engrandece a Lei? É um oceano de justiça Divina, e aqueles que estão mergulhados nele estão, por assim dizer, absortos em justiça divina. É uma atmosfera de luz, pronta a envolver a alma, de modo que o pecador pode ser totalmente coberto, e, assim, tornar-se divinamente justo, e infinitamente agradável a Deus.

Convite. Aquele que efetuou esta justiça convida a todos para que obtenham o benefício da mesma. Para vocês que não têm nenhuma preocupação: “Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai”. “A vós, ó homens, clamo; e a minha voz se dirige aos filhos dos homens” [Provérbios 8:4]. Vocês que estão cansados, Ele ainda convida mais ternamente: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos” [Mateus 11:28]. “Ó VÓS, todos os que tendes sede, vinde às águas” [Isaías 55:1]. Se você vier hoje a Cristo, você não precisa ter medo de que a majestade infinita de Deus será contra você; porque o Senhor se agrada por causa da Sua justiça, porque Ele engrandeceu a Lei, e a fez gloriosa. Amém.

 

Dundee, 6, Março 1842.

 

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♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título original: Christ, A Law-Magnifying Saviour
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Cristo Tornou-Se Pobre pelos Pecadores – Robert Murray M’Cheyne

“Porque já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, por amor de vós se fez pobre; para que pela sua pobreza enriquecêsseis.” (2 Coríntios 8:9)

Nestas palavras, é exposta diante de vocês a maravilhosa graça do Senhor Jesus Cristo. No pão partido e no vinho derramado vocês verão hoje a mesma coisa perante os seus olhos. Diante de seus olhos Jesus Cristo deve ser, no dia de hoje, evidentemente mostrado crucificado. Esta é a visão mais despertadora em todo este mundo. Oh! Orem para que muitos pecadores descuidados sejam hoje levados a olhar para Aquele que traspassaram, e a lamentar. Esta é a visão mais concessora de paz neste mundo! Oh! orem para que o Espírito Santo seja derramado sobre almas despertadas, para que olhem para Jesus crucificado e sejam salvos. Esta é a visão mais santificadora neste mundo. Oh! orem para que todos os filhos de Deus olhem para este gracioso Salvador, até que eles sejam transformados em Sua imagem.

 

I. O Senhor Jesus era rico.

As riquezas aqui mencionadas não são as riquezas que Ele agora possui como Mediador, mas a riqueza que Ele tinha com o Pai antes que o mundo existisse. Ele era pleno de todas as riquezas.

1. Ele era rico no amor e admiração de todas as criaturas. Todas as santas criaturas O amavam e adoravam. Isso é mostrado na Isaías 6: eu vi também ao Senhor assentado sobre um alto e sublime trono; e a cauda do seu manto enchia o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas; com duas cobriam os seus rostos, e com duas cobriam os seus pés, e com duas voavam. E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória. E os umbrais das portas se moveram à voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça”. João 7:41 nos diz: “Isaías disse isto quando viu a sua glória e falou dele”.

Foi da vontade de Deus desde toda a eternidade que toda criatura honre o Filho como honra o Pai. Os serafins resplandecentes prostravam-se diante dEle. Os mais elevados anjos encontravam a sua maior alegria em sempre contemplar o Seu rosto. Ele era o seu Criador. “Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele” [Colossenses 1:16] e, portanto, era pouco admirar que eles derramavam as suas perpétuas adorações diante dEle. Agora, há uma grande alegria em ser amado por uma santa criatura; isso enche o coração de alegria verdadeira; mas toda santa criatura amava Jesus com todo o seu coração e força. Isto, então, era parte de Suas riquezas, parte de Sua infinita alegria.

2. Ele era rico no amor do Pai. Isto é mostrado em Provérbios 8:22, 30: O Senhor me pos-suiu no princípio de seus caminhos, desde então, e antes de suas obras”; “Então eu estava com ele, e era seu arquiteto; era cada dia as suas delícias, alegrando-me perante ele em todo o tempo”. Ser amado por Deus é a mais verdadeira de todas as riquezas. O amor das criaturas é apenas um amor pobre que logo pode perecer; mas o amor de Deus é um amor imortal, imutável. As criaturas podem nos amar, e ainda assim não serem capazes de nos ajudar; mas o amor de Deus é uma porção que nos traz contentamento.

Mas, ninguém nunca fruiu do amor de Deus, como Jesus o fez. É verdade, o amor de Deus pelos santos anjos é infinito; e ele diz, em João 7: 26, que Ele ama os crentes com o mesmo amor com que Ele ama a Cristo: “para que o amor com que me tens amado esteja neles”, ainda assim, há uma diferença infinita entre os crentes e Cristo, de forma que eles podem conter apenas algumas gotas do amor de Deus; eles são apenas vasos, eles não podem abrir a sua boca o suficiente. Mas Jesus podia conter todo o oceano infinito do amor de Deus. No Filho havia um objeto digno do amor infinito do Pai; e se o amor do Pai é infinito, deste modo o seio do Filho era infinito também. Desde toda a eternidade, houve o fluir do amor infinito do seio do Pai no seio do Filho: “O Pai ama o Filho”; “alegrando-Se perante Ele em todo o tempo”. Esta era a maior riqueza do Senhor Jesus. Este era o tesouro infinito de Sua alma. Se um homem tem o amor de Deus, ele pode muito bem carecer de todas as outras coisas. Se um homem carece de alimento e vestuário; se ele é como Lázaro à porta do homem rico, cheio de feridas; ainda assim, se ele estiver repousando no amor de Deus, ele é verdadeiramente rico. Muito mais o bem-amado Filho de Deus, o Unigênito do Pai, era rico no pleno derramamento do amor do Pai desde toda a eternidade.

3. Ele era rico em poder e glória. Ele foi o Criador de todos os mundos: “sem ele nada do que foi feito se fez” [João 1:3]. Ele era o preservador de todos os mundos: “todas as coisas subsistem por ele” [Colossenses 1:17], e permanecem juntas. Todos os mundos, portanto, eram seus domínios; ele era o Senhor de tudo. Ele podia dizer: “Porque meu é todo animal da selva, e o gado sobre milhares de montanhas. Conheço todas as aves dos montes; e minhas são todas as feras do campo. Se eu tivesse fome, não to diria, pois meu é o mundo e toda a sua plenitude” (Salmos 50:10-12). Todas as terras cantavam em alta voz para Ele: o mar rugia Seu louvor, os cedros se curvavam diante dEle em humilde adoração. Não, Ele poderia dizer: “Tudo quanto o Pai tem é meu” (João 16:15), e Ele poderia falar com Seu Pai da glória, com o qual Ele estava antes que o mundo existisse. Seja qual for o poder, glória, riqueza, bem-aventurança, que o Pai tivesse, habitava com igual plenitude no Filho; pois Ele era em forma de Deus, e embora isso, não teve por usurpação ser igual a Deus [Filipen-ses 2:6]. Esta era a riqueza do Senhor Jesus.

Oh, irmãos! Vocês podem confiar a sua salvação em tal Ser? Vocês ouvem que foi Ele quem se comprometeu a ser o Fiador dos pecadores, e morreu por eles. Vocês podem confiar a sua alma nas mãos de tal Pessoa? Ah! Certamente se tão rico e glorioso Ser comprometeu-se por nós, Ele não falhará, nem será quebrantado, “até que ponha na terra a justiça; e as ilhas aguardarão a sua lei” [Isaías 42:4].

 

II. Cristo tornou-Se pobre.

Ele, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus; mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz [Filipenses 2:6-8]. Ele Se tornou pobre em todas as coisas, sendo Ele rico.

1. Pelo seu nascimento. (1) Ele deixou a adoração das criaturas. Ele deixou os aleluias do mundo celestial para a manjedoura de Belém. Nenhum anjo se curvou diante do menino Salvador; nenhum serafim velou a face e os pés diante dEle. O mundo não O conheceu. Alguns pastores dos campos de Belém vieram e se ajoelharam diante dEle, e os homens sábios viram e adoraram o Rei recém-nascido; apenas os mais desprezados O viram. Sua mãe O envolveu em panos e O deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria: “Ele se fez pobre”. (2) Ele deixou o amor de Deus. No momento em que o bebê nasceu, Ele se tornou o Fiador de um mundo culpado. Ele nasceu de uma mulher, nascido sob a lei. A lei se apoderou dEle, mesmo na infância, como o nosso Fiador. Do berço para a cruz Ele esteve suportando os pecados de muitos; e, portanto, Ele diz: “Estou aflito, e prestes tenho estado a morrer desde a minha mocidade; enquanto sofro os teus terrores, estou perturbado” (Salmos 88:15). Ah! que mudança houve aqui, da infinita alegria do amor do Pai para a miséria e o terror da carranca de Seu Pai: “Ele se fez pobre”. (3) Ele deixou o poder e a glória que Ele tinha. Em vez da carência de nada, Ele se tornou um bebê indefeso, carente de tudo. Em vez de dizer: “Se eu tivesse fome, não to diria”, Ele agora precisava do leite do seio de Sua mãe. Em vez de sustentar mundos com o Seu braço, Ele precisava agora de ser sustentado, ser envolto em panos, e deitado em uma manjedoura, visto pelo terno olhar de uma mãe: “Ele sendo rico, e se fez pobre”.

2. Em Sua vida. Aquele que era adorado por miríades do céu foi desmerecido. Poucos criam nEle; eles o chamavam de glutão, bebedor de vinho, enganador. Uma vez, eles tentaram lança-lo do despenhadeiro, muitas vezes eles planejaram matá-lO. Aquele que antes recebera o pleno amor de Deus, agora recebia a plena carranca. A nuvem tornava-se a cada dia mais escura sobre a sua alma. Muitos dos montes e vales deste mundo ecoaram com seus brados e amarga agonia. O Getsêmani foi regado com o sangue dEle. Ele que tinha todas as coisas como o Seu domínio, agora carecia de tudo. Certas mulheres o serviam com os seus bens (Lucas 8:3). Ele não tinha dinheiro para pagar o tributo, e um peixe do mar teve que trazê-lo para ele (Mateus 17:27). As criaturas que procederam de Sua mão tinham uma cama mais quente do que Ele: “As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mateus 8:20). Cada um foi para sua própria casa; Jesus foi para o Monte das Oliveiras. E mais uma vez, nos é dito, enquanto eles navegaram, Jesus estava dormindo sobre um travesseiro. Outra vez ele se sentou exausto no poço, e disse: “Dá-me de beber” [João 4:7]. Aquele que era Deus sobre todos, bendito para sempre, poderia dizer: “Mas eu sou verme, e não homem” [Salmos 22:6]. “Ele se fez pobre”.

3. Na sua morte, acima de tudo, Ele tornou-Se pobre.

(1) Uma vez, Seu ouvido foi preenchido com as santas músicas dos anjos, cantando Seus puros louvores: “Santo, Santo, Santo”, agora seus ouvidos são cheios com brado de Suas criaturas: “Não este homem, mas Barrabás”; “Crucifica-o, crucifica-o”. Uma vez, cada face estava velada diante dEle; agora os governantes O ridicularizam, soldados zombam dEle, ladrões escarnecem dEle. Eles blasfemavam, eles meneavam a cabeça, deram-lhe a beber vinagre. “Ele se fez pobre”, de fato. (2) Uma vez Deus O amou, sem nenhuma nuvem no meio; agora nenhum raio de amor Divino caíra sobre a Sua alma: mas ao invés disso, um fluxo de ira infinita. Aquele que disse uma vez: “O Senhor me possuiu [...] era cada dia as suas delícias”, agora bradou: “Eloí, Eloí, lamá sabactâni”. Ah! isto era pobreza, de fato. (3) Uma vez, Ele criara inumeráveis mundos, deu vida a tudo, ele era o Príncipe da vida; mas agora, inclinando a cabeça, entregou o espírito. Deitou-Se na sepultura entre os vermes. Ele se tornou um verme, e não homem.

Ah! Isso é o que está diante de vocês no pão e vinho hoje; o Filho de Deus fez-Se pobre. Ele toma o simples pão, para mostrar a vocês que é um pobre homem que está diante de vocês; pão partido, para mostrar que Ele é um Salvador crucificado. Ah! Pecadores, enquanto vocês olham para esses simples elementos, se lembrem dos sofrimentos de quem era o Senhor da glória, e que morreu pelos pecadores. “Fazei isto em memória de Mim”.

III. Para que fim? “Sendo rico, por amor de vós se fez pobre”. Por causa de quais pessoas? “Por amor de vós”. Corinto era uma das cidades mais perversas que já existiram na face do mundo. Ficava entre dois mares; de modo que aquela luxúria fluida de leste a oeste. Estes Coríntios haviam sido salvos das abominações mais profundas, como vocês aprendem a partir de 1 Coríntios 6:11: “E é o que alguns têm sido”, e, ainda assim, foi por amor dos tais que o Senhor da glória fez-Se pobre; “por amor de vós”. Da mesma forma, Paulo, escrevendo aos Romanos: “Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios” (5:6). Ah! Vejam que nomes são aqui dados para aqueles por quem Cristo morreu: “fracos”, incapazes de crer ou ter um pensamento correto; “Ímpios”, vivendo como se Deus não existisse; “pecadores”, quebrando a santa lei de Deus; “inimigos”, que aborrecem e se opõem a um santo Deus de amor.

Oh, irmãos! Esta é uma boa notícia para o mais perverso dos homens. Há alguns de vocês que acham que vocês são como um animal diante de Deus, ou todo cobertos de pecado, como um demônio? Alguns de vocês têm vivido nas abominações de Corinto. Alguns de vocês são como os Romanos: sem força, ímpios, pecadores e inimigos; por amor de vós Cristo fez-Se pobre. Ele deixou a glória por almas tão vis quanto vocês. Ele deixou as canções dos anjos, o amor de Seu pai, e as glórias do céu, por exatamente tais vermes como eu e você. Ele morreu pelos ímpios. Não tenham medo, pecadores, em lançar mão dEle. Foi por amor de vós que Ele veio. Ele não, Ele não pode lançar vocês fora.

Oh, pecadores! Vocês são verdadeiramente pobres; mas Ele lhes enriqueceu. Toda a riqueza que Ele deixou, Ele está pronto para conceder a vocês. Ele vos tornará ricos no amor de Deus, ricos naquela paz que excede todo o entendimento, se vocês realmente lançarem mão dEle. A ira de Deus passará longe de vocês, e Ele vos amará voluntaria-mente. O amor com que Deus ama a Cristo estará em vocês. Ele vos fará ricos em santidade. Ele vos encherá com toda a plenitude de Deus. Ele vos fará ricos na eternidade. Vocês contemplarão a Sua glória; vocês entrarão no Seu gozo; vocês sentarão com Ele em Seu trono.

 

IV. A graça em tudo isso: “Porque já sabeis a graça”. Há muito a ser visto nesta obra incrível. Há profunda sabedoria, “a sabedoria de Deus, oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória” [1 Coríntios 2:7], há um poder, o poder de Deus para a salvação; mas acima de tudo, a graça deve ser vista nisto do início ao fim. “Porque já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo”.

Quando Jesus lavou os pés dos discípulos, quando Ele veio a Pedro, Pedro disse: “Senhor, tu lavas-me os pés a mim?” [João 13:6]. Três coisas o maravilharam: 1. O Ser glorioso que Se ajoelhou diante dele: “Tu”. 2. A ação humilde que Ele estava prestes a executar: “Tu lavas”. 3. O desgraçado vil cujos pés estavam prestes a ser lavados: “os pés a mim”. Ele ficou maravilhado com a graça do Senhor Jesus. Assim, nesta obra maravilhosa, vocês podem ver uma graça tripla: 1. O Ser glorioso que tomou o lugar dos pecadores: “Sendo rico”. 2. A profundidade a que Ele se inclinou: “Se fez pobre”. 3. Os miseráveis, cujas almas deveriam ser lavadas: “Por amor de vós”. Ah! Bem, vocês podem se maravilhar neste dia, e clamar: “Senhor, tu lavas-me a alma a mim?”

 

V. Por último, o pecado e o perigo de não conhecer.

1. Eu gostaria de falar com aqueles que não conhecem a graça do Senhor Jesus. Temo que a maioria de vocês ainda não conhece a Cristo: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura” [1 Coríntios 2:14]. Ah, irmãos! Pensem neste dia a quem é que vocês estão estimando levemente. Vocês já viram o filho de um rei deixar as suas vestes, e sua glória, e tornar-se um homem pobre, e morrer na miséria; e tudo isso por nada? Vocês acham que o Senhor Jesus deixou o amor de Seu pai, e a adoração dos anjos, e tornou-Se um verme, e morreu sob a ira, e tudo isso sem nenhum propósito? Será que não há ira repousando sobre vocês? Vocês não têm necessidade de Cristo? Ah! Por que, então, vocês não fogem para Ele?

“Pecadores ingratos!

De onde vem este desprezo pela sofredora graça de Deus?

E de vem onde esta loucura, estes insultos

Ao Todo-Poderoso, que lanças em Seu rosto?”

Ah! Lembrem-se, enquanto vocês não vierem a Cristo, vocês estão desprezando a graça do Senhor Jesus, e pecando contra o amor de Deus. Quem de vocês faz uma demonstração de vir a Cristo? Quem de vocês fingem isso ao vir à mesa dEle, e prestando honra aos pobres pão e vinho? O pobre Papista adora o pão, enquanto ele nega o Salvador; e assim vocês podem desperdiçar a sua honra ao pão e vinho, enquanto vocês estão o tempo todo rejeitando e desprezando a graça do Senhor Jesus.

2. Eu gostaria de dar boas-vindas aos pobres pecadores a Jesus Cristo. Ele Se fez pobre por tais como vocês. Ele não veio para aqueles que são “ricos, enriquecidos, e de nada tenham falta” [Apocalipse 3:17]. Não digam que vocês são muito vis para tal Salvador. Se vocês têm todas as contaminações de Corinto, todo o coração ímpio de um Romano, Ele veio com o propósito de salvar tais como vocês. Vocês são as próprias almas que Ele veio buscar e salvar. Sua salvação é toda de graça. Livre Favor para aqueles que merecem o inferno! Não neguem a graça do Senhor Jesus. É falsa humildade que mantém qualquer afastamento de Cristo; pois, “Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam” [Romanos 10:12]. “Ó vós, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” [Isaías 55:1].

3. Para vocês que conhecem a Jesus, e Sua graça. Oh! Estudem-nO mais. Vocês passarão a eternidade contemplando a Sua glória; dedicando o tempo em consideração de Sua graça. Que vocês possam conhecer sua própria vileza, para que abominem a si mesmos, que vocês vejam que pobre criatura merecedora do inferno vocês são, oh! estudem a graça do Senhor Jesus. Que a vossa paz seja como um rio, cheio, profundo e duradouro, aprendam mais sobre a graça do Senhor Jesus. Venham e declarem com alegria à mesa do Senhor tudo o que Ele tem feito por vossa alma. Oh! Aprendam mais. Poucos sabem muito de Cristo. Vocês têm infinitamente mais a aprender do que vocês já sabem.

 

São Pedro, 18 de Abril de 1841.

 

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♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título original: Christ Became Poor for Sinners
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Neste Monte – Robert Murray M’Cheyne

“E o Senhor dos Exércitos dará neste monte a todos os povos uma festa com animais gordos, uma festa de vinhos velhos, com tutanos gordos, e com vinhos velhos, bem purificados. E destruirá neste monte a face da cobertura, com que todos os povos andam cobertos, e o véu com que todas as nações se cobrem. Aniquilará a morte para sempre, e assim enxugará o Senhor DEUS as lágrimas de todos os rostos, e tirará o opróbrio do seu povo de toda a terra; porque o SENHOR o disse” (Isaías 25:6-8).

Estas palavras ainda devem ser cumpridas na segunda vinda do Salvador. É verdade que o Senhor dos Exércitos tem há muito tempo preparado esta festa, e enviou os seus servos, dizendo: “Vinde, que já tudo está preparado” [Lucas 14:17]. Mas é tão verdadeiro, que o véu que está espalhado sobre todas as nações ainda não está retirado; e Paulo nos diz claramente, em 1 Coríntios 15:54, que é na manhã da ressurreição que estas palavras devem ser totalmente cumpridas: “Tragada foi a morte na vitória”.

Ainda, estas palavras têm sido, em alguma medida, cumpridas sempre que houve uma manifestação peculiar do Espírito em qualquer lugar. Muitas vezes, em temporadas sacra-mentais em nossa própria terra, essas palavras foram cumpridas. Deus fez de Cristo um banquete de animais gordos para as almas famintas. O véu da incredulidade foi arrancado de muitos corações, e as lágrimas enxugadas de muitos olhos. É meu humilde, mas sincero desejo que no próximo dia de Sabath [A Comunhão de Sabath] possa ser um dia assim neste lugar. Quero estimular todos vocês que são filhos de Deus à oração secreta e pública, para que possa ser assim; e eu, portanto, escolhi essas palavras para despertar-vos a orar.

I. Considerem a Festa. II. O rasgar do véu. III. Os efeitos disso.

 

I. A festa.

1. Onde ela está? Resposta. “Neste monte”. (1). Moriá? Ah! Foi aqui que Abraão ofereceu Isaque. Foi aqui que o cordeiro pascal costumava ser morto. Foi aqui que Jesus levantou-se e clamou: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba” [João 7:37]. (2). Monte das Oliveiras? Foi aqui que Jesus disse: “Eu sou a videira verdadeira” [João 15:1]. Foi aqui que Jesus teve o cálice da ira posto diante dEle, naquela noite em que foi traído. (3). Monte Calvário? Foi aqui que eles crucificaram a Jesus e os dois ladrões, um em cada mão. Foi aqui que os transeuntes menearam a cabeça, os príncipes dos sacerdotes escarneciam, e os ladrões lhe lançavam o mesmo em rosto. Foi aqui que houve três horas de trevas. Foi aqui que traspassaram as Suas mãos e pés. Foi aqui que Deus abandonou o Seu próprio Filho. Foi aqui que a infinita ira foi colocada sobre um Salvador infinito: “E o Senhor dos Exércitos dará neste monte a todos os povos uma festa com animais gordos”.

Para as almas ansiosas. O mundo tenta animá-los; eles propõem que vocês vão em sua companhia, vejam mais do mundo, desfrutem do prazer, e se afastem desses pensamentos enfadonhos. Eles espalharam uma festa para vocês em algum salão iluminado, com lâmpadas brilhantes, com flauta e tamborim, e vinho em seus banquetes. Oh! alma ansiosa, fuja destas coisas: lembre-se da mulher de Ló. Se você está ansioso pela sua alma, fuja das festas do mundo. Feche os seus ouvidos, e corra. Olhe aqui como Deus tenta animá-lo: Ele também prepara uma festa; mas onde? No Calvário. Não há luz; é tudo escuridão em volta da cruz; nenhuma música, apenas o gemido de um Salvador agonizante: “Eli! Eli! Meu Deus! Meu Deus!” Oh! alma ansiosa, é ali que você encontrará paz e descanso: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” [Mateus 11:28]. A hora mais escura que já existiu neste mundo oferece luz para a alma cansada. A visão da cruz traz consigo a visão da coroa. Aquele suspiro agonizante, que fez as pedras fenderem-se, por si só pode rasgar o véu, e te dar a paz. O Lugar da Caveira é o lugar da alegria.

2. O que é isso? Um banquete de animais gordos, de vinhos velhos. (1.) Uma festa. Não é uma refeição, mas um banquete. Em uma refeição, é bom se há o suficiente para todos que se sentam ao redor da mesa, mas em uma festa, deve haver mais do que suficiente; há uma abundância liberal. O Evangelho é comparado a um banquete: “Vinde, comei do meu pão, e bebei do vinho que tenho misturado” [Provérbios 9:5].

Mais uma vez, em Cântico dos Cânticos: “Levou-me à casa do banquete, e o seu estandarte sobre mim era o amor. Sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs, porque desfaleço de amor”. Mais uma vez, em Mateus 22:4: “Dizei aos convidados: Eis que tenho o meu jantar preparado, os meus bois e cevados já mortos, e tudo já pronto; vinde às bodas”.

Assim é em Jesus; há pão suficiente e de sobra. Ele veio para que tenhamos vida, e a tenhamos em abundância. Há uma festa em um Jesus crucificado. Sua morte em lugar dos pecadores é o suficiente, e mais do que suficiente, para responder pelos nossos pecados.

Isso não é apenas igual a minha morte, mas glorifica muito mais a Deus e Sua santa lei, do que se eu tivesse sofrido uma centena de mortes: “Consolai, consolai [...] que já recebeu em dobro da mão do Senhor, por todos os seus pecados” [Isaías 40:1-2]. Sua obediência em lugar dos pecadores é o suficiente, e mais do que suficiente para cobrir nossa nudez. Não é apenas igual à minha obediência, mas glorifica muito mais a Deus do que se eu nunca tivesse pecado. Sua vestimenta não apenas veste a alma descoberta, mas a veste da cabeça aos pés; de modo que nenhuma vergonha aparece; somente Cristo aparece, a alma está escondida. Seu Espírito não é apenas o suficiente, porém mais do que suficiente, para nos fazer santos. Há um bem em Cristo que nunca pode esgotar – permanecem rios de graça que nunca podem secar.

Cristãos, aprendam a alimentar-se mais de Cristo: “Comei, amigos, bebei abundantemente, ó amados” [Cânticos 5:1]. Quando vocês são convidados a uma festa, não há maior afronta que vocês possam colocar sobre o anfitrião do que estar contentes com uma migalha debaixo da mesa. No entanto, esta é a forma como os cristãos de nossos dias afrontam o Senhor da glória. Oh, quão poucos parecem se alimentar muito em Cristo! Quão poucos parecem revestir-se de Sua veste branca! Quão poucos parecem beber profundamente em Seu espírito! A maioria está contente agora e, depois, com um vislumbre de perdão, uma migalha da mesa e uma gota de Seu Espírito. Despertem, queridos amigos! “Estas coisas vos escrevemos, para que o vosso gozo se cumpra” [1João 1:4].

(2.) Um banquete de animais gordos, de vinhos velhos.

Os animais gordos cheios de medula pretendem representar as iguarias mais ricas e nutritivas; e os vinhos velhos, bem refinados, representam os vinhos mais antigos e ricos; de modo que, não só existe abundância nesta festa, mas a abundância do melhor. Ah! Pois assim é em Cristo. Em primeiro lugar, há o perdão de todos os pecados passados. Ah! Esta é a mais rica de todas as delícias para uma alma oprimida. Como águas frescas para uma alma cansada, assim são as boas novas vindas de terra distante [Provérbios 25:25]. Uma boa consciência é um banquete contínuo. Oh! pecador cansado, prove e veja. “Desejo muito a sua sombra, e debaixo dela me assento; e o seu fruto é doce ao meu paladar” [Cânticos 2:3]. Estas são as maçãs pelas quais uma alma cansada clama: “Confortai-me com maçãs, porque desfaleço de amor” [Cânticos 2:5]. Em segundo lugar, há os sorrisos do amoroso Pai. O próprio Pai conhece você. Oh, passar da carranca de um Deus irado para o sorriso de um Pai amoroso! Isso é uma festa para a alma; isto é passar da morte para a vida. Em terceiro lugar, os derramamentos do Espírito na alma. Ah! É isso que consola a alma. Este é o óleo de alegria, que faz com que o rosto brilhe. Isso faz com que o cálice transborde. Este é o pleno bem se elevando dentro da alma, ao mesmo tempo confortando e purificando. Queridos amigos, não se encham de vinho, no qual há devassidão; mas enchei-vos do Espírito. Estes são os frascos que permanecem na alma. Que você esteja no Espírito no Dia do Senhor.

(3.) Para quem é isso? A todos os povos. “O evangelho de Cristo [...] é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” [Romanos 1:16]. “Ide por todo o mundo, e pregai o Evangelho a toda criatura” [Marcos 16:15]. [...]. Não há uma criatura a quem podemos reter a mensagem: “Tudo já pronto; vinde às bodas”.

Queridas Almas ansiosas, por que vocês continuam longe de Cristo? Vocês dizem que Cristo está longe de vocês; ai! Ele tem estado à sua porta todos os dias. Cristo é tão livre para vocês como para os que sempre vêm até Ele. Venham com fome, venham vazios, venham pecaminosos, venham como vocês estão, e alimentem-se do glorioso Jesus. Ele é uma festa para a alma faminta.

Caras almas mortas, que nunca sentiram um pulsar de ansiedade, que nunca proferiram um sincero clamor a Deus, esta mensagem é para vocês. A festa é para todas as pessoas. Cristo é tão livre para vocês, como para qualquer outro: “Até quando, ó simples, amareis a simplicidade?” “E o Espírito e a esposa dizem: Vem” [Apocalipse 22:17].

 

II. O rasgar do véu.

1. Observem que há um véu sobre cada coração natural, um véu de espessura impenetrável. (1). Houve um véu no templo na entrada para o santo dos santos, de modo que nenhum olho podia ver a beleza do Senhor no interior (2). Houve um véu sobre o rosto de Moisés, quando desceu do monte, pois algo do resplendor de Cristo brilhou em seu rosto. Quando o véu caiu, eles não podiam ver a sua glória. (3). Assim, há um véu sobre os corações dos Judeus até hoje, quando Moisés e os profetas são lidos para eles. (4). Semelhantemente, há um véu sobre os seus corações de muitos de vocês que estão em seu estado natural; um véu espesso, impenetrável; seu nome é incredulidade. O mesmo véu que escondia a beleza da terra prometida de Israel em Cades-Barnéia, aos “que não puderam entrar por causa da sua incredulidade” [Hebreus 3:19], este véu está posto sobre os seus corações neste dia.

Aprenda o grande motivo de sua indiferença em relação a Cristo. O véu está posto sobre o seu coração. Deus pode prover todas as riquezas de Seu peito sobre a mesa: as inson-dáveis riquezas de Cristo; ao mesmo tempo, enquanto esse véu estiver sobre ti, você não se moverá. Você não vê nenhuma beleza nem formosura em Cristo: “olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos” (Isaías 53:2). “O homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Coríntios 2:14).

2. Quem rasga o véu? Resposta. O Senhor dos Exércitos; quem faz a festa é aquele que rasga o véu. Ah! é uma obra de Deus tirar essa cobertura. Nós podemos argumentar com vocês até meia-noite, dizendo-lhes do seu pecado e miséria, podemos trazer todas as palavras mais doces na Bíblia para mostrar que Cristo é mais belo do que os filhos dos homens; vocês ainda voltarão para casa e dirão: “Nós não vemos nenhuma beleza nEle”. Mas Deus pode tirar o véu; às vezes Ele faz isso em um momento, às vezes lentamente; então Cristo é revelado, e Cristo é precioso. Não há um de vocês tão mergulhado em pecado e mundanismo, tão desgraçado e leviano nas coisas de Deus, se o seu coração fosse atingido pela visão de um desvelado Salvador. Oh! Pleiteemos essa promessa com Deus: “E destruirá neste monte a face da cobertura, com que todos os povos andam cobertos, e o véu com que todas as nações se cobrem”. Venha e faça-o, Senhor. “Derramarei o meu Espírito sobre vós”. Derrame rapidamente, Senhor.

3. Onde? “Neste monte”. No mesmo lugar onde Ele faz a festa; Ele leva a alma ao Calvário. Ah, sim; é na visão do Salvador crucificado que Deus retira cada véu.

Almas ansiosas, esperem perto da cruz. Meditem sobre Cristo, e este crucificado. É ali que Deus rasga o véu. Estejam frequentemente no Getsêmani, estejam muitas vezes no Gólgota. Oh! Que no próximo Sabath Ele possa revelar-Se a todos no partir do pão. Tão fácil para mil almas quanto para uma alma!

 

III. Efeitos.

1. Triunfo sobre a morte. (1). Mesmo aqui, isso é cumprido. Muitas vezes, o medo da morte é tirado naqueles que tremiam diante dela. A alma que realmente teve o véu retirado pode atravessar o vale, se não cantando, pelo menos, humildemente confiando, e pode dizer no final: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito!” Ah! Nada além de uma visão real de Cristo pode gerar alegria na hora da morte. As pessoas do mundo podem morrer estupida e insensivelmente; mas somente o cristão sem véu pode sentir na morte que a dor aguda é retirada. (2). Na ressurreição. Quando seremos semelhantes a Cristo em corpo e alma: “E deu o mar os mortos que nele havia; e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia” [Apocalipse 20:13]. “E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória” [1 Coríntios 15:54].

Caros amigos, que cenas solenes estão diante de nós! Ah! Nada além de uma visão de Cristo como nosso próprio Fiador e Redentor pode nos defender, na visão de sepulturas abertas e mundos vacilantes. Devemos lembrar Suas próprias palavras, e permanecer nelas: Eu os resgatarei da morte. Oh, morte, eu serei teu infortúnio; Oh, túmulo, eu serei tua destruição. “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles este-jam comigo, para que vejam a minha glória” [João 17:24].

2. Triunfo sobre a tristeza. (1). Mesmo aqui Deus enxuga as lágrimas de convicção, as lágrimas de pecado e vergonha, ao revelar a Cristo. A obra da graça sempre começa em lágrimas; mas quando Deus leva a alma para o Calvário, vejam aqui: Ali os teus pecados são colocadas sobre Emanuel; ali o Cordeiro de Deus está lhes tirando-os; ali está todo o inferno que havias de padecer. Oh, quão docemente Deus enxugará as lágrimas! Almas ansiosas, que Deus faça isso por vocês no próximo dia de Sabath! (2). Cumprimento completo, depois. Haverá sempre lágrimas aqui, por causa do pecado, da tentação, da tristeza; mas ali “nunca mais terão fome, nunca mais terão sede; nem sol nem calma alguma cairá sobre eles. Porque o Cordeiro que está no meio do trono os apascentará, e lhes servirá de guia para as fontes vivas das águas; e Deus limpará de seus olhos toda a lágrima” [Apocalipse 7:16-17].

3. Triunfo sobre reprovações. Mesmo aqui, Deus ergue o Seu povo acima das reprovações; Ele os capacita a abençoar, e não amaldiçoar: “Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem” [Mateus 5:44]. Mas ali haverá triunfo completo. Ele purificará o nosso caráter. Aqui podemos suportar reprovações por todo o caminho! Aqui os Cristãos são ofendidos, desprezados, pisoteados; mas Deus os reconhecerá como as Suas joias, por fim. O mundo estará aterrorizado.

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♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título Original: And in this Mountain
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Confiai no Senhor – Robert Murray M’Cheyne

“Confia no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento”. (Provérbios 3:5)

Quando uma alma despertada é trazida a Deus, para crer em Jesus, ela frui pela primeira vez daquele estado calmo e abençoado de espírito que a Bíblia chama de paz em crença [Romanos 15:13]. Os sofrimentos da morte estavam alcançando-o, e as dores do inferno esperavam sobrepuja-lo; mas agora ele pode dizer: “Volta, minha alma, para o teu repouso” [Salmos 116:7]. Não é de se admirar que, quando este céu na Terra é efetivado inicialmente no seio uma vez ansioso, o jovem crente pode frequentemente imaginar que o céu já esteja ganho, e que ele deve se despedir do pecado e tristeza para todo o sempre. Mas, ai! Ele pode precisar apenas da passagem de um pequeno dia para convencê-lo de que o céu ainda não está adquirido, que, embora o Mar Vermelho tenha sido atra-vessado, ainda há um grande vociferante deserto a passar, e muitos inimigos a serem superados, antes que a alma entre na terra sobre a qual se diz que “todas as pessoas são justas”.

O primeiro sopro da tentação do exterior, ou a primeira ascensão da corrupção do interior, desperta ansiedades novas e estranhas no seio crente. Ele havia acabado de colocar a couraça da justiça do Redentor, mas esses vapores nocivos mancham e ofuscam o seu aço polido. Ai! Ele clama, que bem me fará estar livre de todas as acusações de pecados passados, se eu não estou seguro pelo levantar de novos acusadores nos dias por vir? Que bem o perdão dos pecados passados fazem-me, se, a cada passo de minha vida estou caindo em novo pecado?

O jovem crente nesse estado de espírito é como um viajante no meio de uma floresta perigosa. Ele foi trazido para um local de perfeita segurança para o presente. Ele pode ouvir o uivo dos lobos atrás dele, sem o mínimo de alarme, pois ele é levado a uma fortaleza, uma torre forte, onde é seguro; mas quando ele pensa em sua viagem além, quando ele se lembra de que ainda está no meio da floresta, e ainda longe de casa, ai! Ele não sabe como se mover; ele não sabe qual o caminho que o leva para a direita, e que o conduzirá ao erro. Quando a ovelha perdida foi encontrada pelo bom pastor, ela estava segura naquele momento, tão segura como se já estivesse no aprisco; e ainda assim estava, sem dúvida, em grande perplexidade, como voltar novamente, ela havia caminhado até agora sobre as montanhas, e nos vales, e através dos riachos, e através das matas espinhosos, de forma que era impossível que a ovelha desnorteada encontrasse o seu caminho de volta; e, portanto, é dito que o bom pastor colocou-a sobre o seu ombro, regozijando-se.

E exatamente assim é com a alma que é encontrada por Cristo. Lavada em Seu sangue, ela pode se sentir tão segura e tão em paz como se já estivesse no céu; mas quando ela olha para os mil enredamentos no meio dos quais ela vagueou, os maus hábitos, os maus companheiros que colocavam armadilhas para ela em cada mão, ai! Ela é forçada a clamar: Como hei de andar em um mundo como este? Eu pensei que estava salvo; mas, ai de mim! Eu apenas estou salvo para ser perdido novamente. Tão real e tão doloroso é esse estado de espírito, que alguns jovens crentes realmente queriam morrer para que pudessem se livrar dessas ansiedades atormentadoras. Mas há um longo caminho mais excelente apontado nas palavras diante de nós:

“Confia no Senhor de todo o teu coração,

E não te estribes no teu próprio entendimento

Reconhece-O em todos os teus caminhos,

E Ele endireitará às tuas veredas”

Esta é uma boa palavra para o crente aturdido; e “quão boa é a palavra dita a seu tempo” [Provérbios 15:23].

Em primeiro lugar, considerem o que é esta graça aqui recomendada: “Confia no Senhor de todo o teu coração”.

Quando o carcereiro de Filipos clamou: “que é necessário que eu faça para me salvar”, a resposta foi simples: “Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo” [Atos 16:30-31]. Sua grande ansiedade era escapar de debaixo da ira de Deus no terremoto; e, portanto, eles simplesmente apontaram para o sangrante Cordeiro de Deus. Ele olha para Jesus fa-zendo tudo o que deveríamos ter feito, e sofrendo tudo o que deveríamos ter sofrido; e enquanto ele olha, sua ansiedade é curada, e uma doce paz celestial brota interiormente, a paz em crença. Mas o inquiridor a quem se fala no texto é aquele que já tem a paz de um homem justificado, mas quer saber como ele pode desfrutar da paz de um homem santificado. Uma nova ansiedade surgiu dentro de seu seio, como a de que forma ele deve ordenar os seus passos no mundo; e, a menos que essa ansiedade também seja curada, deve-se temer que a sua alegria em crer será tristemente interrompida. Quão oportuna então, é a palavra que aponta de uma vez para o remédio! E quão maravilhosa é a simplicidade do método de salvação Evangélico, quando a alma é dirigida apenas para olhar novamente para Jesus: “Confia no Senhor de todo o teu coração”. Quando vocês vieram até nós, cansados e oprimidos pela culpa, nós apontamos Jesus para vo-cês; pois Ele é o Senhor justiça nossa. Quando vocês veem até nós, novamente, gemendo sob o poder do pecado interior, apontamos mais uma vez a Jesus; porque Ele é o Senhor, a nossa força. É a real marca de um falso e ignorante médico de corpos, quando a cada doente, qualquer que seja a doença, ele aplica o mesmo remédio. Mas é a real marca de um bom e fiel médico das almas, quando, a cada alma doente e que perece, em todas as fases da doença, ele traz um, o único remédio, o único bálsamo em Gileade.

Cristo foi ungido não apenas para curar os quebrantados de coração, mas também para proclamar a libertação aos cativos; de modo que se isso é bom e sábio para dirigir o pobre pecador de coração partido, que não tem nenhuma forma de justificar a si mesmo, a Jesus, como a sua justiça, isso deve ser tão bom e sábio para dirigir o pobre crente, gemendo sob o laço de corrupção, não tendo nenhuma forma de santificar-se, a olhar para Jesus como sua sabedoria, sua santificação, a sua redenção. Tu uma vez olhaste para Jesus como a tua Cabeça da aliança, levando toda a ira, cumprindo toda a justiça em teu lugar, e isso te deu a paz; bem, olhe novamente para o mesmo Jesus, a tua Cabeça da aliança, obtendo por seus méritos dons para os homens, até mesmo a promessa do Pai, de derramar-Se sobre todos os Seus membros; e deixe que isso também te dê a paz. “Confia no Senhor de todo o teu coração”. Tu olhaste para Jesus na cruz, e isso te deu a paz de consciência; olhe para Ele agora no trono, e isso te dará pureza de coração. Eu conheço apenas uma maneira pela qual um ramo pode ser tornar-se um ramo frondoso, saudável, frutífero; e esta é: estar enxertado na videira, e permanecer ali. E exatamente assim, eu conheço apenas uma maneira pela qual um crente pode ser feito um filho de Deus feliz, santo, frutífero; e esta é: crendo em Jesus, permanecendo nEle, andando nEle, sendo arraigado e edificado nEle.

E observem, é dito: “Confia no Senhor de todo o teu coração”. Quando vocês creem em Jesus para a justiça, vocês devem lançar fora todos os seus próprios clamores por perdão; sua justiça própria deve ser trapos imundos aos seus olhos; vocês devem vir vazios, para que vocês possam ir embora cheios de Jesus. E exatamente assim, quando vocês confiam em Jesus como a sua força, vocês devem abandonar todas as suas no-ções naturais de sua própria força; vocês devem sentir que as suas próprias resoluções, e votos e promessas, são tão inúteis para deter a corrente de suas paixões, como muita palha seria em deter a cachoeira mais poderosa. Vocês devem sentir que sua própria firmeza e varonilidade de disposição, que têm sido por tanto tempo o louvor de seus amigos, e o gabar-se de sua própria mente, são tão impotentes diante do sopro da tentação, como uma cana quebrada diante do furacão. Vocês devem sentir que não lutam contra a carne e o sangue, mas contra espíritos de poder gigantesco, em cujo alcance poderoso vocês são frágeis como uma criança; então, e só então, vocês irão, de todo o coração, confiar no Senhor, a sua força. Quando o crente está mais fraco, então é que ele está mais forte. A criança que conhece mais a sua absoluta fraqueza, confia mais completamente nos braços da mãe. A jovem águia que conhece, por meio de muitas quedas, a sua própria incapacidade de voar, consente em ser carregada na poderosa asa da mãe. Quando ele é fraco, então é forte; e somente assim o crente, quando ele descobriu, por meio de repetidas quedas, sua própria absoluta fraqueza, se agarra com simples fé no braço do Salvador, se apoia em seu Amado, através do deserto, e ouve com alegria a palavra: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” [2 Coríntios 12:9].

Mas em segundo lugar, considerem como esta graça de confiar impede o crente de estribar-se em seu próprio entendimento.

“Confia no Senhor de todo o teu coração,

E não te estribes no teu próprio entendimento”.

Deve ser dito por qualquer homem que tem uma consideração pela verdade, que o crente em Jesus põe de lado o uso de seu entendimento, e procura por miraculosa orientação do alto. A verdade é esta: ele confia em um poder Divino, iluminando o entendimento, e ele, portanto, segue os ditames da compreensão mais religiosamente do que qualquer outro homem.

Quando um homem vem a estar em Cristo Jesus, ele se torna uma nova criatura, não somente no coração, mas também no entendimento. A história do mundo, a história das missões, e a experiência individual, provam isso cabalmente; e pode não ser difícil apontar o que pode ser chamado de razões naturais para a mudança.

1. Quando um homem se torna um crente, um novo e não experimentado campo é aberto para que a compreensão penetre. É verdade que os homens não-convertidos fizeram mergulhos no caráter de Deus, Seu governo, Sua redenção. Mas o homem não-convertido nunca pode olhar para essas coisas com o amor de alguém interessado nelas; e, portanto, ele não pode conhecê-las em absoluto; pois Deus deve ser amado, a fim de ser conhecido. Mas, reconcilie um homem com Deus, e a inteligência brota com um poder não sentido anteriormente, e sente que esta é a vida eterna, conhecer a Deus e a Jesus Cristo a quem Ele enviou. E,

2. Quando um homem se torna um crente, ele adentra em cada busca impelido por afeições celestiais. Antes, não havia nada, senão motivos terrenos para impeli-lo a reunir o conhecimento; mas agora uma santa curiosidade é instilada em sua mente, e uma retentividade que ele nunca teve antes. Ele olha com novos olhos sobre os campos, as florestas, as montanhas, os largos rios resplandecentes, e diz: “Meu Pai fez todos esses”.

Mas, se estas são razões naturais para a mudança, há uma razão sobrenatural que é maior do que todas. A compreensão do crente é nova; pois o Espírito de Deus é agora um morador em seu seio. Ele se inclina sobre este convidado todo-poderoso. Confia no Senhor, o Espírito, com todo o seu coração e não se estribe em seu próprio entendimento. No profeta Oséias, o dom do Espírito é comparado com o orvalho: “Eu serei para Israel como o orvalho” [Oséias 14:5]. Agora, isso é particularmente verdadeiro, pois o orvalho umedece tudo onde cai; não deixa uma folha não visitada; não há uma pequena folha de grama em que suas gotas de diamante não desçam; cada folha e caule do arbusto é sobrecarregado com o acúmulo precioso; exatamente assim, isso é peculiarmente verdadeiro sobre o Espírito, que não há uma faculdade, não há um afeto, um poder, ou paixão da alma, em que o Espírito não desça; operando por todos, refrescando, revigorando, renovando, recriando tudo. E se estamos realmente em Cristo Jesus, permanecendo nEle pela fé, somos compelidos a esperar esse poder sobrenatural para operar através de nossa compreensão; pois se esta não for conduzida pelo Espírito, nós não somos dEle. Porém, mais implicitamente, nos estribamos neste Espírito de amor, não é claro como o dia que todos nós mais implicitamente seguimos a orientação do nosso entendimento? Nós não nos estribamos sobre o nosso próprio entendimento; pois nós nos estribamos no Espírito de graça e de sabedoria, que é prometido para nos guiar em toda a verdade, e guiar nossos passos no caminho da paz. Mas nós não lançamos fora o nosso próprio entendimento; porque é através desse entendimento somente que nós buscamos a orientação do Espírito.

Em um moinho onde o maquinário é todo movido por água, o funcionamento de todo o maquinário depende do suprimento de água. Cortem este suprimento, e os moinhos se tornam inúteis. Coloquem a água, e a vida e atividade é dada a todos. A dependência inteira é colocada sobre o fornecimento exterior de água; ainda assim, é óbvio que nós não jogamos fora o mecanismo através do qual o poder da água é exercido para empreender o trabalho. Exatamente assim, no crente, o homem inteiro é conduzido pelo Espírito de Cristo, senão ele não é dEle. A obra de cada dia depende do fornecimento diário do fluxo de vida do alto. Retirem este suprimento, e o entendimento torna-se uma massa informe de maquinário sombrio e inútil; pois a Bíblia diz que os homens não-convertidos têm o entendimento obscurecido. Restaurem o Espírito divino, e a vida e vivificação é dada a todos; o entendimento é feito uma nova criatura. Agora, porém toda a inclinação ou dependência aqui está sobre o fornecimento do Espírito, ainda é óbvio que não rejeitamos o maquinário da mente humana, mas sim o honramos muito mais do que o mundo.

Agora, por mais difícil que seja explicar tudo isso para o mundo, é belíssimo ver como realmente isso é efetuado pelo mais simples filho de Deus.

Se vocês pudessem ouvir algum simples crente caseiro em suas devoções matinais, quão simplesmente ele traz a si mesmo perdido e condenado, e em seguida, apega-se a Jesus, o divino Salvador! Quão simplesmente ele traz a si mesmo em escuridão, ignorância, incapacidade, a conhecer o seu caminho, incapaz de guiar seus pés, suas mãos, sua língua, ao longo de todo o dia, e, por isso, solicitando ao Espírito prometido que habite nele, que ande nele, que seja como o orvalho sobre a sua alma; e tudo isso com a seriedade de um homem que não vai embora sem a bênção; vocês veriam que santo desprezo um filho de Deus pode colocar em seu próprio entendimento, como um refúgio em que se apoiar. Mas, novamente, se vocês pudessem vê-lo em sua caminhada diária, no campo e no mercado, entre o mundo ímpio, e ver quão completamente ele segue a orientação de uma mente perspicaz e inteligente, vocês veriam com que santa confiança um filho de Deus pode fazer uso das faculdades que Deus lhe concedeu; vocês veriam a união da mais profunda piedade e mais severo cuidado; vocês conheceriam o significado dessas palavras: “Confia no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento”.

 

Presbitério de Dundee, 1836.

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♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título original: Trust in the Lord
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


As Ramificações da Depravação Humana – Arthur Walkington Pink

Parte 1

Enquanto me esforço para apresentar um quadro completo do homem caído como ele é retratado pelo lápis Divino nas Escrituras, é muito difícil evitar uma medida de sobreposição à medida que nos afastamos de um aspecto ou recurso do mesmo para outro, ou evitamos uma certa quantidade de repetição quando nos dedicamos a um retrato separado de cada um. No entanto, visto que este é o método que o Espírito Santo tem tomado em grande parte, um pedido de desculpas é pouco exigido daqueles que procuram seguir o Seu plano. Nos capítulos anteriores mostramos de uma forma mais ou menos geral a terrível devastação que o pecado operou na constituição humana; agora vamos considerar o mesmo, mais especificamente. Tendo apresentado as linhas gerais, resta-nos preencher os detalhes. Em outras palavras, a nossa tarefa imediata é a de refletir e descrever as várias partes da depravação humana de acordo como isso tem corrompido as diversas seções do nosso homem interior. Embora a alma, como o corpo, seja uma unidade, ela também tem um número de membros distintos ou faculdades, e nenhum deles ficou isento dos efeitos degradantes da apostasia do homem em relação ao seu Criador.

A depravação humana, consideramos, foi notavelmente exemplificada nos milagres de Cristo. Os vários distúrbios corporais que o Divino Médico curou durante Sua jornada na terra não eram apenas tantas prefigurações das maravilhas da graça que Ele realizou no reino espiritual em conexão com os redimidos, mas também foram muitas representações emblemáticas das doenças morais que afetam e afligem a alma do homem caído. O pobre leproso, coberto de feridas fétidas, solenemente retratou as corrupções horríveis do coração humano. O homem que nasceu cego, incapaz de contemplar as maravilhas e belezas das obras exteriores de Deus, expressa o estado ignorante da mente humana, que, por causa da escuridão que está sobre ela, não é capaz de descobrir ou aceitar as coisas do Espírito, não importa o quão simples e claramente elas sejam explicadas para ele. Os Membros lânguidos do paralítico prefiguraram a incapacidade da vontade para vir a Deus, sendo esta totalmente desprovida de qualquer poder para nos converter a Cristo. A mulher deitada acometida de febre, com desejos não naturais, delírio e etc. retratou o estado desordenado de nossas afeições. O homem possuído pelo demônio, habitando em meio aos túmulos, incapaz de ser devidamente contido, gritando e ferindo-se, esboçou as diversas atividades da consciência no não-regenerado.

A corrupção tem invadido cada parte da nossa natureza, espalhando-se por todo o ser complexo do homem. Assim como distúrbios físicos não poupam os membros do corpo, de modo muito semelhante o espírito do homem não escapou da devastação da depravação; no entanto, quem é capaz de compreendê-la em sua terrível amplitude e profundidade, comprimento e altura? Não são simplesmente as potências inferiores da alma que foram infetadas com esta praga do pecado, mas o contágio subiu para as regiões mais altas das nossas pessoas, poluindo as faculdades sublimes. Esta é uma parte do castigo de Deus. É um grande erro supor que o julgamento Divino sobre a deserção do homem está reservado para a próxima vida. A humanidade está fortemente penalizada neste mundo, tanto externa como internamente, uma vez que nele estão sujeitos a muitas dispensações adversas da providência: Externamente, em seus corpos, nomes, propriedades, relações e empregos e finalmente, com a morte física e dissolução. E Interiormente, pela cegueira de espírito, dureza de coração, paixões turbulentas, o roer de consciência. Embora estas últimas sejam pouco consideradas, em razão da sua estupidez e insensibilidade, contudo as visitas internas da maldição de Deus são muito mais terríveis do que as externas, e são consideradas como tal por aqueles que verdadeiramente temem ao Senhor e veem as coisas em Sua luz.

1. Cegueira de espírito. A mente é aquela faculdade da alma pela qual os objetos e as coisas são primeiramente conscientizados e apreendidos. Para distinguir o entendimento dela, o último é o que pesa, discrimina e determina o julgamento entre os conceitos formados na primeira, sendo o guia da alma, o seletor e rejeitador dessas noções que a mente recebeu. Ambos são igualmente perturbados pelo pecado, pois nos é dito que “os seus sentidos foram endurecidos” (2 Coríntios 3:14), e também lemos: “Entenebrecidos no entendimento” (Efésios 4:18). Como um abandonado de Deus, a Queda fechou completamente as janelas da alma do homem, mas ele pensa que não; sim, enfaticamente ele nega isso. Tanto os filósofos pagãos como os escolásticos do medievalismo admitiram que as afeições, na parte inferior da alma, foram um pouco contaminadas, mas insistiram que a faculdade intelectual era pura, dizendo que a razão ainda dirige e nos aconselha as melhores coisas. Quando nosso Senhor declarou: “Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem sejam cegos”, alguns dos fariseus que o ouviam, indignados perguntaram: “Também nós somos cegos?” (João 9:39-40).

Agora, não é estranho que a razão cega pense que pode ver, pois, enquanto ela julga todo o restante, ela é menos capaz de avaliar-se por causa da muita proximidade consigo mesma. Embora o olho de um homem possa ver a deformidade das mãos ou pés, não pode ver o que é subjetivo em si mesmo, a menos que tenha uma lente através do qual possa discerni-lo. Da mesma forma, até mesmo a natureza corrupta, por sua própria luz, reconhece a desordem na parte sensorial do homem, mas ela não pode discernir a corrupção que está no próprio espírito. A lente da Palavra de Deus é necessária para descobri-la, e até mesmo o espelho não é suficiente – a luz da graça divina tem de brilhar interiormente, a fim de expor e descobrir a imbecilidade da faculdade de raciocínio. E, portanto, é assim que a Sagrada Escritura lança a principal ênfase na depravação desta parte mais alta do ser do homem. Quando o apóstolo mostrou quão impuros são os incrédulos, embora estes conhecessem a Deus, ele asseverou, “antes o seu entendimento e consciência estão contaminados” (Tito 1:15). Acima de todas as suspeitas, estas partes deles foram contaminadas, especialmente desde que foram iluminados com alguns raios do conhecimento de Deus. Assim, em oposição a esta presunção, as faculdades superiores só são mencionadas, e enfatizadas com um “antes”.

Quão significativo e pleno o testemunho da Escritura é sobre essa característica solene que transparece a partir do seguinte: “Porquanto, tendo conhecido a Deus [tradicionalmente], não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos” (Romanos 1:20-21), a referência aqui é aos gentios, depois do dilúvio. Uma das maldições terríveis executadas sobre Israel, porque eles não deram ouvidos à voz do Senhor seu Deus, e se recusaram a observar os seus mandamentos, foi: “O Senhor te ferirá com loucura, e com cegueira, e com pasmo de coração; e apalparás ao meio-dia, como o cego apalpa na escuridão”, (Deuteronômio 28:28-29). De toda a humanidade, é dito: “Não há ninguém que entenda… e não conhecem o caminho da paz” (Romanos 3:11, 17); tão longe disso que “há um caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte” (Provérbios 14:12). “O mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria” (1 Coríntios 1:21). Apesar de todas as suas escolas, eles eram ignorantes dEle. “Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” (1 Timóteo 1:7). “Que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade” (2 Timóteo 3:7).

A escuridão natural que os cega dessas operações regulares que são direcionadas por seus sentidos exteriores é dupla: externa ou interna. Quando a noite cai, a menos que haja o auxílio de luz artificial, eles não podem mais realizar seu trabalho. Se eles forem cegos, então para eles é noite perpetuamente. Assim também é com a escuridão espiri-tual: objetiva e subjetiva – uma escuridão que está tanto sobre os homens quanto nos homens. A primeira consiste em uma falta desses meios pelos quais, somente, eles podem ser iluminados no conhecimento de Deus e das coisas celestiais. O que o sol é para a terra em relação as coisas naturais, assim a Palavra e a pregação do Evangelho são para as coisas espirituais (Salmo 19:1-4. Cf. Romanos 10:10-11). Esta escuridão está sobre todos a quem o Evangelho ainda não foi declarado ou sobre quem o despreza e rejeita. Ora, é a missão e a obra do Espírito Santo remover essa escuridão objetiva, e até que isso seja feito ninguém pode ver ou entrar no reino de Deus. Isso Ele faz enviando o Evangelho a um país, nação ou cidade. Ele não obtém entrada ali, nem é retido em qualquer lugar, por acidente ou por esforço humano, mas é dispensado de acordo com a vontade soberana do Espírito de Deus. Ele é Quem capacita, chama e envia homens para pregar, determinando os locais onde eles ministrarão, seja por Seus impulsos secretos ou pelas operações de Sua providência (Atos 16:6-10).

Entretanto sobre as mentes dos não-regenerados está a escuridão subjetiva com suas influências e consequências, o que é aqui mais imediatamente considerado. Esta não é uma mera coisa privativa, mas algo positivo, que consiste não apenas de ignorância, mas em uma doença maligna, com uma habitual disposição para mal. “É soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, blasfêmias, ruins suspeitas, perversas contendas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade seja causa de ganho; aparta-te dos tais” (1 Timóteo 6:4-5). Não são apenas as suas mentes que não assentem a sã doutrina, mas eles estão doentes e corruptos: “delira acerca de questões” [...] Esta destemperança da mente é também chamada de “comichão nos ouvindo por desejo de ouvir fábulas” (2 Timóteo 4:3-4). Ainda mais solenemente, a Escritura chama esta sabedoria controversa da qual o erudito deste mundo é tão orgulhoso, de: “terrena, animal e diabólica” (Tiago 3:15); tanto o versículo anterior quanto o seguinte mostram que toda inveja, malícia, mentira e dissimulação, embora encontrem-se também nas afeições e na vontade, estão enraizada na compreensão. Por isso, é que Deus deve dar “arrependimento” ou uma mudança de mente antes que haja um reconhecimento da Verdade e uma libertação do laço do diabo (2 Timóteo 2:25-26).

Esta escuridão do entendimento é a causa da rebelião que está nas afeições e, por esta é que os homens procuram assim desordenadamente os prazeres do pecado; mas, porque suas mentes não conhecem a Deus e são estranhas a Ele e não podem ter comunhão com Ele? Porque toda a amizade e companheirismo são fundamentados no conhecimento. Para ter comunhão com Deus, é necessário o conhecimento de Deus, e, consequentemente, a principal coisa que Deus faz quando Ele dá admissão no Pacto da Graça é ensinar os homens a conhecê-lO (Jeremias 31:33-34): Por outro lado, os homens estão afastados dEle por ignorância (Efésios 4:17-19). A escuridão da mente não é apenas a raiz de todo o pecado, mas é a causa da maioria das corrupções na vida dos homens. Assim vemos que Paulo menciona “sabedoria carnal”, como a antítese do princípio da graça (2 Coríntios 1:12). Pela mesma razão, sobre os homens é dito: “são filhos néscios, e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” (Jeremias 4:22). Que esta é a causa da maior parte da maldade que há no mundo Isaías 47:10 deixa bem claro: “a tua sabedoria e o teu conhecimento, isso te fez desviar”. Raciocínios corruptos e falsos julgamentos das coisas são os principais motivos de todo o nosso pecado. O orgulho tem o seu lugar de primazia na mente, como Colossenses 2:18 demonstra.

Que essa escuridão é forte e influente, transparece na dinâmica da expressão registrada em Colossenses 1:13: “O qual nos tirou da potestade das trevas” – a palavra significando aquilo que vacila ou dominado. Isso preenche a mente com inimizade contra Deus e contra todos os seus caminhos, e leva à vontade no sentido contrário, de modo que, em vez das afeições serem postas nas coisas de acima, os não-regenerados “só pensam nas coisas terrenas” (Filipenses 3:19). Essa é a sua inclinação habitual. Ele pensa nas coisas da carne (Romanos 8:5), buscando atender aos objetivos sensuais para a gratificação do corpo. Ele preenche a mente com fortes preconceitos contra as coisas espirituais propostas no Evangelho. Esses preconceitos são chamados de “fortalezas” e “conselhos [ou “raciocínios”], e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus” (2 Coríntios 10:4-5), que são destruídos e expressos e derrubados no dia do poder de Deus, levando as almas à sujeição voluntária a Ele. Os pecados da mente são os mais permanentes, pois quando o corpo se decompõe e suas concupiscências murcham, os pecados da mente são tão vigorosos e ativos na velhice como na juventude. Posto que o entendimento é a parte mais excelente do homem, a sua corrupção é pior do que a das outras faculdades: “Se… a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!” (Mateus 6:23).

Temerosos de fato são os efeitos dessa escuridão. Suas faculdades se mostram incapazes de discernir as coisas espirituais ou de recebê-las, pelo que há uma total incapacidade no que diz respeito a Deus e as formas de agradá-lO. Não importa o quão bem dotado intelectualmente o homem não-regenerado seja, ou a extensão de seu saber e aprendizado, ou quão hábil em relação às coisas naturais, em assuntos espirituais ele é desprovido de inteligência até que ele seja renovado no espírito de sua mente. Como uma pessoa que não tem o poder de ver é incapaz de ficar impressionada com os raios mais fortes de luz quando refletidos sobre ele, e não pode formar qualquer ideia real da aparência das coisas, de modo semelhante o homem natural, por causa desta cegueira de espírito, é incapaz de discernir a natureza das coisas celestiais. Disse Cristo aos judeus de sua época: “Ah! se tu conhecesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz pertence! Mas agora isto está encoberto aos teus olhos” (Lucas 19:42). As coisas celestiais estão ocultas de sua percepção tão eficazmente como as coisas que são propositadamente escondidas de olhares indiscretos. Mesmo que um homem tivesse o desejo de descobri-las, ele iria procurar em vão por toda a eternidade, a menos que Deus quisesse revelá-las, como fez a Pedro (Mateus 16:17).

A cegueira espiritual que está sobre a mente do homem natural não só impossibilita de fazer a primeira descoberta das coisas de Deus, mas, mesmo quando elas são publicadas e postas diante de seus olhos, como claramente estão na Palavra da Verdade, ele não pode discerni-las. Quaisquer que sejam as noções que ele possa formar delas, elas são dissonantes à sua natureza, e os pensamentos que ele concebe em relação a elas são o inverso do que de fato são, a mais alta sabedoria eles consideram como loucura, e os objetos mais gloriosos em si são desprezados e rejeitados. “Vede, ó desprezadores, e espantai-vos e desaparecei; porque opero uma obra em vossos dias, ora tal que não crereis, se alguém vo-la contar” (Atos 13:41). Os versículos anteriores mostram que Paulo claramente lhes havia pregado a Cristo e Seu Evangelho, e, em seguida, concluído com uma advertência para que vigiassem para que não viesse sobre eles o que foi dito pelo profeta. Assim, não é a apresentação clara da Verdade que irá convencer os homens. Embora claramente proposta, a Verdade ainda pode ser obscura para eles: “Mas, se ainda o nosso evangelho está encoberto, para os que se perdem está encoberto. Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos” (2 Coríntios 4:3-4). Seus entendimentos precisam ser divinamente abertos para que possam compreender as Escrituras (Lucas 24:45)!

Os objetos desta escuridão são espiritualmente insensíveis e tolos. Isso é o que os impede de fazer um verdadeiro exame de seus corações. Eles veem apenas o homem exterior, e não sentem a ferida mortal que está por dentro. Há um mar de corrupção, mas é imperceptível. A santidade, beleza e retidão de sua natureza já se foram, mas eles estão mui despreocupados. Eles são miseráveis e pobres, cegos e nus, mas são totalmente inconscientes disso. Isso é o que faz com que os não-regenerados prossigam em um curso de rebelião contra o Senhor, e ao mesmo tempo concluam que todas as coisas estão bem com eles. Assim, eles vivem de forma segura e feliz. Como se a bondade de Deus não os quebrantasse, nem os Seus mais dolorosos juízos os movem a consertarem os seus caminhos. Muito longe disto, eles são semelhantes ao ímpio rei Acaz, de quem está registrado: “E ao tempo em que este o apertou, então ainda mais transgrediu contra o Senhor” (2 Crônicas 28:22); quão louca e desafiadoramente as massas se comportaram durante a batalha da Grã-Bretanha! Então, mesmo agora, enquanto a paz de todo o mundo está tão seriamente ameaçada: “Senhor, a tua mão está exaltada, mas nem por isso a veem” (Isaías 26:11).

Este espaço vai permitir-nos de mencionar apenas um outro efeito, e é o que está em Efésios 4:17: “A vaidade de sua mente”. As coisas na Escritura são ditas ser vãs quando são inúteis e infrutíferas; em Mateus 15:9, significa “sem propósito”. Por isso, os ídolos das nações e os ritos utilizados na sua adoração são chamados de coisas vãs (Atos 15:15). Em 1 Samuel 12:21, coisas vãs seriam aquelas “que nada aproveitam”. Isto também é sinônimo de loucura, pois em Provérbios 12:11, os homens vãos são todos como aqueles que são “faltos de juízo”. Em Jeremias 4:14, coisas vãs estão unidas com “maldade”, assim homens vãos pecaminosos e filhos de Belial são sinônimos (2 Crônicas 13:7). Esta vaidade da mente induz o homem natural a perseguir sombras e perder a substância, a envolver-se com invenções em vez de realidades, a preferir a mentira ao invés da verdade. Isso é o que leva os homens a seguirem a moda e se deleitarem com os prazeres de um mundo vão. Esta vaidade pecaminosa da mente está em todos os tipos de pessoas e idades agindo em si mesma com imaginações insensatas, pelo que cuidam de agradar à sua carne e às suas concupiscências. Ela se manifesta em um ódio de pensar sobre as coisas sagradas, de forma que, quando sob a pregação da Palavra a mente vagueia como uma borboleta no jardim. Ela “apascenta de estultícia” (Provérbios 15:14), e tem uma curiosidade inquietante para saber de dos outros.

2. Dureza de coração. O coração é o centro do nosso ser moral, do qual fluem as fontes da vida (Provérbios 4:23, cf. Mateus 12:35). A natureza deste é ao mesmo tempo indicada por ele ser descrito como um “coração de pedra” (Ezequiel 11:19). A figura é muito adequada. Como uma pedra nada mais é que um produto da terra, assim tem a propriedade da terra, pesada e com tendência a cair. Assim, é com a mente natural: as afeições dos homens são totalmente postas sobre o mundo, e se Deus fez o homem reto, com a cabeça erguida, agora a alma está abatida até o pó. A maldição física pronunciada sobre a serpente também é cumprida em sua semente, pois as coisas sobre as quais eles se nutrem tornam às cinzas, assim, que aquele pó é o alimento deles (Isaías 65:25). O pecado deixa o coração do homem tão calejado que, para com Deus, é sem amor e sem vida, frio e insensível. Essa é uma razão pela qual a lei moral foi escrita em tábuas de pedra: para representar emblematicamente o tipo de coração que os homens tinham, como é claramente implícito o contraste apresentado em 2 Coríntios 3:3. O coração de pedra é tolo e inflexível.

O coração do regenerado também é comparado a uma “rocha” (Jeremias 23:29), e uma “pedra de diamante” (Zacarias 7:12), que é mais duro do que uma pederneira. Semelhantemente também os não-regenerados são chamados de “duros de coração” (Isaías 46:12), e em Isaías 48:4, Deus diz: “Porque eu sabia que eras duro, e a tua cerviz um nervo de ferro, e a tua testa de bronze”. Esta dureza é frequentemente atribuída ao pescoço (“dura cerviz”), esta é uma figura da obstinação do homem extraída a partir do exemplo dos bois indomados que não aceitam o jugo. Esta dureza se evidencia por uma completa ausência de sensibilidade espiritual, pois eles não se importam com a bondade de Deus, não têm temor de Sua autoridade e majestade, e não temem a sua ira e vingança, uma apresentação das alegrias do céu ou dos horrores do inferno não lhes causam nenhuma impressão. Como o antigo Profeta lamentou: “Ó vós que afastais o dia mau” (Amós 6:3), rechaçando-os de seus pensamentos como um assunto desagradável sobre o qual meditar. Eles não têm nenhum sentimento de culpa, nem consciência de ter ofendido o seu Criador, nem se assombram por Sua ira permanecer sobre eles, antes estão seguros e à vontade em seus pecados. Até o momento em que o pecado se torne um fardo para eles, ele é a substância e deleite do desfrute de seus prazeres temporais.

Parte 2

Essa dureza de coração a que se fez referência no encerramento do nosso último capítulo é a perversidade e obstinação da natureza do homem caído, o que faz com que ele resolva continuar no pecado, sem se importar com as consequências do mesmo. A dureza de Coração faz com que ele aborreça ser repreendido pela sua própria loucura, e que se recuse a abandona-la, não importa quais métodos sejam ordenados e usados para isso. O Profeta fez menção a isso em seus dias, para se referir àqueles que haviam sido advertidos ​​por juízos violentos, e estavam naquele tempo sob as repreensões mais solenes da Providência, Deus tinha a dizer sobre eles, “Não me querem dar ouvidos a mim; pois toda a casa de Israel é de fronte obstinada e dura de coração” (Ezequiel 3:7). Assim também o Senhor Jesus se queixou: “Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes” (Mateus 11:17). As súplicas mais comoventes e postulações cativantes não moverão o não-regenerado a aderir ao que é absolutamente necessário para sua paz presente e felicidade final. “São como a víbora surda, que tapa os ouvidos, para não ouvir a voz dos encantadores, do encantador sábio em encantamentos” (Salmo 58:4-5; e cf. Atos 8:57).

Os corações dos regenerados são flexíveis e maleáveis, facilmente dobrados à vontade de Deus, mas os corações dos ímpios são tão apegados aos seus desejos a ponto de serem inatingíveis por qualquer apelo. Há uma disposição tão firme contra as coisas celestiais que permanecem indiferentes às ameaças mais alarmantes e trovões. Eles nem são convencidos pelos argumentos mais convincentes nem vencidos pelos incentivos mais tentadores. Eles são tão viciados na autossatisfação que eles não podem ser persuadidos a tomar o jugo de Cristo sobre eles. Em Zacarias 7:11-12, é dito: “Eles, porém, não quiseram escutar, e deram-me o ombro rebelde, e ensurdeceram os seus ouvidos, para que não ouvissem. Sim, fizeram os seus corações como pedra de diamante, para que não ouvissem a lei, nem as palavras que o Senhor dos Exércitos enviara pelo seu Espírito por intermédio dos primeiros profetas; daí veio a grande ira do Senhor dos Exércitos”. Eles são menos suscetíveis a serem forjados pelo pregador para receber qualquer impressão de santidade do que o granito é para ser gravado pela ferramenta do artífice. Eles desprezam ser controlados e se recusam a receber admoestação. Eles são “uma geração contumaz e rebelde” (Salmo 78:8), não estando sujeitos nem à lei e nem ao Evangelho. As doutrinas do arrependimento, da autonegação e do andar com Deus, não encontram entrada em seus corações.

3. Afeições desordenadas. Alguns escritores ampliam mais e outros menos o escopo do termo “afeições”, e talvez seja um ponto discutível tanto teológica quanto psicologicamente se a natureza do desejo deve ser incluída ou considerada separadamente no âmbito das afeições. No sentido mais amplo, em relação às afeições pode-se dizer que são a faculdade sensível da alma. Assim como o entendimento é o poder que julga e discerne as coisas, assim as afeições fascinam e dispõem a alma a favor ou contra os objetos contemplados. É pelas afeições que a alma torna-se satisfeita ou insatisfeita com o que é percebido pelos sentidos corporais ou contemplado pela mente e, assim, movida a aprovar ou rejeitar. Como distinguir os dois? A vontade é essa faculdade que executa a decisão final da mente ou o desejo mais forte das afeições, o que motiva a ação. Posto que as afeições pertencem ao lado sensível da alma, estamos mais conscientes de suas agitações do que dos atos de nossas mentes ou vontades. Neste capítulo vamos empregar o termo na sua mais ampla latitude, incluindo os desejos, pois o que os apetites são para o corpo as afeições são para a alma.

Goodwin comparou o desejo natural ao estômago para o corpo. É um vazio completo, feito para receber o que vem de fora, ansiando por um objeto satisfatório. Sua linguagem universal é: “Quem nos mostrará o bem?” (Salmo 4:6). Agora o próprio Deus é o bom chefe do homem, o único que pode pagar a real, duradoura e plena satisfação. No início Ele o criou à Sua própria semelhança; assim como a agulha da bússola sempre se move para o norte, deste modo a alma tocada com a imagem Divina deve levar o entendimento, afeições e vontade, para Ele mesmo. Ele também colocou a alma em um corpo material, e que, neste mundo, arranjando-os um ao outro, lhes forneceu todos os elementos necessários e adequados para cada parte do complexo ser do homem. O desejo natural levou a alma à criatura, mas apenas como um meio de desfrutar de Deus. As maravilhas da obra de Deus foram feitas para serem admiradas, mas, principalmente, como a indicação de Sua sabedoria. A comida deveria ser usada e apreciada, apenas a fim de aprofundar a gratidão pela bondade do Doador e fornecer força para servi-lO. Mas, infelizmente, quando o homem apostatou, seu entendimento, afeições e vontade se divorciaram de Deus e o exercício destes passou a ser dirigidos somente pelo amor-próprio.

Originalmente, o Senhor sustentou e dirigiu a ação das afeições humanas para Si mesmo. Então, Ele reteve o poder, e deixou os nossos primeiros pais por conta própria em sua condição de criatura e, em consequência seus desejos vaguearam buscando alegrias proibidas. Eles procuraram a sua felicidade não na comunhão com o seu Criador, mas na relação com a criatura. Tal como os seus filhos, desde então, eles adoraram e serviram mais a criatura do que o Criador. O resultado foi desastroso em extremo: eles se apartaram do Santo. Isso foi enfaticamente evidenciado por sua tentativa de esconder-se dEle, se o prazer deles estivesse em Deus como seu principal bem, o desejo de ocultação não poderia ter possuído suas mentes. E, como aconteceu com Adão e Eva, assim tem sido com todos os seus descendentes. Muitos provérbios expressam esta verdade geral: “O fluxo não pode subir mais alto do que a fonte”. “Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos?” [Mateus 7:16] [...] A linhagem do pai da família humana produz descendentes de sua própria natureza. “E, todavia, dizem a Deus: Retira-te de nós; porque não desejamos ter conhecimento dos teus caminhos” (Jó 21:14), isto é o que os corações e as vidas de todos os não-regenerados dizem ao Todo-Poderoso.

O centro natural da alma do homem não caído, tanto para seu descanso e prazer, era o Único que lhe deu existência e, portanto, Davi diz: “Volta, minha alma, para o teu repouso” (Salmo 116:7). Mas o pecado tem levado os homens a “recuar” de segui-lO, e “apartar-se do Deus vivo” (Hebreus 10:38, 3:12). Deus não deveria apenas ser a porção deleitosa daquele a quem Ele fez à Sua imagem, mas também o fim último de todos os seus movimentos e ações, e seu objetivo deveria ser o de glorificá-lO e agradá-lO em todas as coisas. Mas ele deixou “o manancial de águas vivas” (Jeremias 2:13), a primavera infinita e perpétua de conforto e alegria. E agora as inclinações e desejos da natureza do homem são totalmente retirados de Deus, tudo e qualquer coisa é mais agradável para ele do que Deus, que é a soma de toda excelência; ele faz das coisas temporais e sensuais o seu bem principal, e o agradar de si mesmo o seu fim supremo. É por isso que as suas afeições são denominadas “ímpias concupiscências” (Judas 18), eles estão todos alienados de Deus. Eles não gostam da Sua santidade, não possuem nenhum desejo de comunhão com Ele, nenhum desejo de tê-lO em seus pensamentos.

Mas o que acaba de ser pontuado (a aversão de nossas afeições por Deus) é apenas a parte privativa, o positivo é a sua conversão para outras coisas. Foi disto que Deus acusou a Israel, “Porque o meu povo fez duas maldades: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm águas” [Jeremias 2:13]. Apegando-se a pobres ninharias que não lhes dão nenhuma satisfação. A criatura é preferida antes do Criador, pois toda a preocupação do homem natural está voltada para como viver à vontade no mundo, e não para honrar e deleitar-se em Deus. Assim eles observam “falsas vaidades” e “deixam a sua misericórdia” (Jonas 2:8), pois, quanto ao seu vazio, elas são vãs, e em relação às suas expectativas, “falsas vaidades”. Eles estão enganados por uma demonstração de vaidade, e o resultado é aflição de espírito, por causa da frustração de suas esperanças. Assim como o amor de Deus derramado nos corações dos redimidos não busca eles próprios (1 Coríntios 13:5), assim o amor-próprio não faz nada além disso, a saber: “todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância, cada um por sua parte” (Isaías 56:11).

Os desejos do não-regenerado não estão apenas apartados de Deus e fixados nas criaturas, mas isso de forma excessiva e ávida. Assim, lemos de “afeições desordenadas” (Colossenses 3:5), o que significa tanto imoderadas quanto anormais, um espírito de gula e um desejo por coisas que são contrárias a Deus: “cobiçando as coisas más” (1 Coríntios 10:6). O primeiro é o pecado de intemperança, este último tendo “prazer na injustiça” (2 Tessalonicenses 2:12). O corpo é valorizado mais do que a alma, visto que todos os esforços do homem natural são direcionados para fazer provisão para a carne e para satisfazer as suas concupiscências, enquanto ele pensa pouco e cuida menos ainda de seu espírito imortal. Quando a Providência sorri sobre seu trabalho, sua linguagem é: “Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga” (Lucas 12:19). Seus pensamentos se elevam para uma vida superior no futuro. Eles estão muito mais preocupados com a roupa e com o adorno do homem exterior do que com o cultivo de um espírito manso e tranquilo, que aos olhos de Deus é de grande valor (1 Pedro 3:4). A Terra é preferida antes do Céu, as coisas temporais antes do que as eternas. Embora a morte e a sepultura possam colocar um fim a tudo o que tiveram aqui muito mais cedo do que imaginam, ainda assim os seus corações estão tão fixados sobre essas coisas que eles se alegram certos de que não serão privados dessas coisas.

Assim é que as afeições, que no princípio eram servas da razão, agora ocupam o trono. Aquela que é a glória da natureza humana elevando-a acima dos animais do campo é presa agora aqui e acolá pela rude turba de nossas paixões. Deus colocou no homem um instinto de felicidade para que ele encontrasse a felicidade nEle, mas agora este instinto se arrasta no pó e se derrama sobre cada vaidade. Os conselhos e as invenções da mente estão engajados para a realização dos desejos carnais do homem. Não somente as suas afeições não se deleitam nas coisas espirituais como possuem forte preconceito contra elas, pois as suas afeições correm diretamente para a gratificação de sua natureza corrupta. Seus desejos são fixados sobre mais riqueza, mais honra mundana e poder, mais alegria carnal, e porque o Evangelho não contém nenhuma promessa de tais coisas ele é desprezado. Porque inculca a santidade, a mortificação da carne, a separação do mundo e o resistir ao Diabo o Evangelho torna-se muito desagradável para eles. Pois apartar as afeições daquelas coisas materiais e temporais das quais ele fez o seu principal bem, e convertê-las às coisas espirituais invisíveis e às coisas eternas, distancia a mente carnal do Evangelho, pois este não oferece nada que atraia o homem natural mais do que os ídolos que estão no âmago de seus corações. Portanto, renunciar à sua justiça própria e fazer-se dependente de Outro é igualmente desagradável para seu orgulho.

As afeições não estão apenas alienadas e opostas às exigências sagradas do Evangelho, mas também opostas ao seu mistério. Esse mistério é o que as Escrituras denominam: a sabedoria oculta de Deus, e, o homem natural não somente é incapaz admira-lo e adorá-lo, mas considera-o com desprezo e contumácia. Ele olha para todas as partes de sua declaração como noções vazias e ininteligíveis. Esse preconceito tem prevalecido sobre os sábios e entendidos deste mundo em todas as épocas, e nunca tão eficazmente do que em nosso dia mau. A maior sabedoria de Deus parece loucura para todos os que andam inchados pelo orgulho de sua própria inteligência, e o que é loucura para eles é desprezado e escarnecido. Aquilo que direciona à fé mais do que a razão é repulsivo. Pois, “não te estribes no seu próprio entendimento, mas confie no Senhor de todo o coração”, é um “duro discurso” para aqueles consideram-se como tendo grande intelecto. Renunciar às suas próprias ideias, abandonar seus pensamentos (Isaías 55:7) e tornar-se como “crianças pequenas”, e dizer que sem isto eles de modo algum entrarão no reino dos céus é muitíssimo abominável para eles. Não pequena parte da depravação do homem consiste na sua disponibilidade para abraçar esses preconceitos, a aderir a eles perniciosamente, sendo totalmente impotentes para livrarem-se deles.

O estado desordenado de nossas afeições é visto no fato de que as ações do homem natural são reguladas muito mais por seus sentidos do que pela sua razão. Sua conduta consiste principalmente na resposta aos clamores de suas concupiscências ou invés dos ditames da razão. Os desejos de crianças são inclinados e velozes para qualquer desvio que leve à corrupção, mas lentos para exercitarem-se em fazer qualquer bem; daquele dificilmente podem ser contidos, para estes devem ser obrigados. Que as afeições estão alienadas de Deus se manifesta cada vez que Sua vontade se opõe aos nossos desejos. Esta doença aparece muito nos objetos nos quais nossas diversas afeições são colocadas. Em vez do amor estar posto em Deus, ele está centrado no mundo e na adoração de ídolos. Em vez de dirigir ódio contra o pecado, elas se opõem à santidade. Em vez de alegrar-se e encontrar o seu deleite nas coisas espirituais, gastam-se naquelas que em breve passarão. Em vez de temer agir de maneira que desagrade ao Senhor, ele teme mais as carrancas de seus companheiros. Se há dor, é pela frustração de nossos prazeres e esperanças, e não por causa da nossa desobediência. Se há compaixão, é exercida sobre si mesmo, e não em relação aos sofrimentos dos outros.

Agora nos resta salientar que a primeira ambição dos nossos desejos é o próprio mal. As paixões ou desejos são os movimentos da criatura dirigidos por sua natureza, para uma inclinação aos objetos que promovam o seu bem, e uma aversão àqueles que são nocivos. E, assim, eles são para a alma o que as asas são para o pássaro e as velas são para o navio. O desejo está sempre em busca da satisfação, e se é para ser satisfeito deve ser regulado pela razão correta. Mas, infelizmente, a razão foi destronada e as paixões e inclinações do homem estão sem lei, e, portanto, Suas primeiras aspirações pelos objetos proibidos são essencialmente más. Estes eram, como Mateus 5 demonstra, negados pelos rabinos, que restringiram o pecado a uma transgressão aberta e externa. Mas o nosso Senhor declarou que a raiva injustificável contra o outro se constitui um assassinato, e que olhar para uma mulher e cobiçá-la era uma violação do sétimo mandamento, que pensamentos impuros e imaginações devassas eram nada menos do que adultério. Por isso, é que a Escritura fala de “concupiscências do engano” (Efésios 4:22), “concupiscências loucas e nocivas” (1 Timóteo 6:9), “paixões mundanas” (Tito 2:12), “concupiscências carnais, que combatem contra a alma” (1 Pedro 2:11) e ”paixões pecaminosas” (Judas 18).

Mesmo a primeira agitação de desejo por algo mau, a menor irregularidade nos movi-mentos da alma é pecado. Isso fica claro a partir do mandamento universal: “Não cobiçarás”, ou desejar qualquer coisa que Deus proibiu. Esse anseio irregular e maligno é chamado de “concupiscência” em Romanos 7:8 “no qual o apóstolo incluiu o desejo mental bem como o sensual” (Calvino). A palavra grega é geralmente traduzida como “desejos”; em 1 Tessalonicenses 4:5, este é encontrado em uma forma intensificada: “a paixão da concupiscência”. Estas concupiscências da alma são seus movimentos iniciais, muitas vezes, inesperados por nós mesmos, que precedem o consentimento da mente, e são designados “a vil concupiscência” (Colossenses 3:5). Eles são as sementes de onde brotam nossas más obras, as ambições originais da corrupção que habita em nós. Elas são condenadas pela lei de Deus, pois o décimo mandamento proíbe as primeiras inclinações das afeições para o que pertence a outrem, de modo que o desejo que inicia-se, antes da aprovação da mente ser obtida, é pecado, e precisa ser confessado a Deus. Gênesis 6:5 declara sobre o homem caído que “toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente”, pois pecados enquanto na sua fase embrionária, contaminam a alma, sendo o contrário à pureza que a santidade de Deus exige.

O que tem sido demostrado acima é repudiado pelos católicos romanos, pois enquanto eles concordam que os desejos da carne são a matéria do pecado, ou nos quais o pecado se origina, eles não vão admitir os mesmos como sendo essencialmente maus. O Concílio de Trento negou que o movimento original da alma tende para o mal é próprio do pecador, afirmando que estes só se tornam assim, quando são consentidos ou cedidos. Semelhantemente, a maioria dos arminianos (que em muitas de suas crenças são um com os papistas) limitam o pecado a um ato da vontade. Agora é livremente confessado por todos os Calvinistas em alto e bom som que a mente entretém-se inicialmente com o desejo do mal e este é mais um grau de pecado, e que o assentimento real ao mesmo é ainda mais hediondo; mas os arminianos, enfaticamente argumentam se o impulso original também é mau aos olhos de Deus. Se o impulso original é inocente (em si mesmo), como poderia sua gratificação ser pecado? Os motivos e excitações não sofrem qualquer alteração em sua natureza essencial em consequência de ser consentida ou incentivada. Não pode ser errado atender impulsos inocentes. O Senhor Jesus nos ensina a julgar a árvore pelos seus frutos, se os frutos forem corruptos, assim também é a árvore que a produz.

Em Romanos 7:7, o termo é efetivamente atribuído ao pecado: “Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás [ou desejarás]”, pois no grego a mesma palavra é empregada para ambos os termos. Aqui, então, o pecado e os desejos são usados ​​alternadamente, qualquer não-conformidade interior com a Lei é pecaminosa. Paulo estava ciente desse fato quando o mandamento foi aplicado com poder, assim como o sol que brilha em um monte de excremento faz exalar seu fedor. Os homens podem negar que o próprio desejo pelo que é proibido é culpável, mas a Escritura afirma que até mesmo as imaginação são más, os brotos da maldade, pois elas são contrárias a essa retidão de coração que a Lei exige. Observe quão terrível é esta lista que Cristo enumerou com as coisas que procedem do coração, sendo iniciada com “maus pensamentos” (Mateus 15:19). Nós não podemos conceber qualquer inclinação ou propensão para o pecado em um ser absolutamente santo; certamente não havia nenhuma no Senhor Jesus: “se aproxima o príncipe deste mundo, e nada tem em mim” (João 14:30), nada que fosse capaz de responder às suas solicitações vis, nenhum movimento de seus apetites ou afeições dos quais ele poderia tirar proveito. Cristo estava inclinado apenas para o que é bom.

Porque, quando estávamos na carne [ou seja, enquanto os cristãos estavam em seu estado não-regenerado], as paixões dos pecados [literalmente, as afeições do pecado, ou o princípio de nossas paixões], que são pela lei, operavam em nossos membros [as faculdades da alma, bem como do corpo] para darem fruto para a morte” (Romanos 7:5). Essas “afeições do pecado” são os fluxos imundos que fluem da fonte poluída de nossos corações. Eles são os primeiros sinais de nossa natureza decaída, os quais precedem os atos explícitos de transgressão. Eles são os movimentos ilegais de nossos desejos antes de examinarmos e consentirmos com os pensamentos pecaminosos da mente. “Mas o pecado [corrupção que habita em nós], tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência [ou concupiscência do mal]” (Romanos 7:8). Atente bem que para a expressão “operou em mim”, havia uma disposição poluída ou propensão para o mal operando, distinta da fonte das obras que ele produziu. O pecado que habita em nós é um princípio poderoso, constantemente exerce uma má influência, estimulando sentimentos profanos, despertando a avareza, a inimizade, maldade e etc.

Parte 3

Julgamos de tal importância o que foi abordado no final do nosso último capítulo, e que tão pouco o mesmo é apreendido e compreendido hoje, que agora adicionaremos mais algumas palavras a ele. A ideia popular que prevalece agora é que nada é pecado, exceto uma transgressão aberta e externa, mas tal conceito está muito aquém do exame e do ensino humilhante da Sagrada Escritura. Ela afirma que a fonte de toda a tentação está dentro do próprio homem caído, é a depravação de seu próprio coração, que o induz a ouvir o Diabo ou ser influenciado pelo desregramento dos outros. Se assim não fosse, então há solicitações que induzem ao delito não teriam qualquer força, pois não haveria nada dentro dele para que fosse estimulado, nada a que essas solicitações correspondes-sem ou sobre as quais elas pudessem exercer qual poder. Um exemplo do mal seria rejeitado com horror se fôssemos interiormente puros. Deve haver um desejo insatisfeito para o qual a tentação recorra. Onde não há nenhum desejo por comida, uma mesa bem farta não possui poder de sedução. Se não há amor à aquisição, o ouro não pode atrair o coração. Em todos os casos a força da tentação está no poder que ela exerce sobre alguma propensão de nossa natureza caída.

Aqui reside a singularidade da Bíblia; a saber, a sua altíssima espiritualidade, insistindo que qualquer inclinação interior, a menor atração da alma para longe de Deus e de Sua vontade é pecaminoso e culpável, não importando se a ação é realizada ou não. Ela revela que a primeira aspiração do pecado em si é o de afastar a alma daquilo que ela deveria estar fixada, por meio de um desejo anormal por algum objeto estranho que parece prazeroso. Quando nossas corrupções nativas são convidadas por algo externo que promete prazer ou lucro, e as paixões são atraídas pelo mesmo, então a tentação começa, e o coração é atraído após isto. Desde que o homem caído é mormente influenciado por seus desejos, estes imperaram tanto sobre a sua mente quanto sobre a sua vontade. Tão poderosos são que governam toda a sua alma; por isso é que o apóstolo disse: “vejo nos meus membros outra lei” (Romanos 7:23), pois tais desejos são imperiosos, dominando todo o homem. É pelo fato de que suas cobiças são tão violentas que os homens incorrem tão loucamente no pecado: “andam-se cansando em proceder perversamente” (Jeremias 9:5). Tiago 1:14-15 traça a origem de todo o nosso pecado, e é para esta passagem que agora nos voltamos.

“Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte”. Essas palavras mostram que o pecado invade o espírito gradualmente, e descreve as várias etapas dele ser consumado no ato exterior. Esta passagem revela que a causa da concepção de todos os pecados reside na alma de cada um, ou seja, em suas concupiscências, que ele tem dentro de si mesmo tanto a provisão quanto o estímulo para isso. Justamente sobre isto Goodwin declara: “Você nunca pode chegar a ver o quão profundamente e quão abominável criatura corrupta você é, até que Deus abra os seus olhos para que você veja as suas concupiscências”. O velho homem “se corrompe pelas concupiscências do engano” (Efésios 4:22).

A cobiça é tanto o útero quanto a raiz de toda a maldade que há sobre a terra. Diz o Apóstolo ao povo de Deus “havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência que há no mundo” (2 Pedro 1:4) “A corrupção”, é a praga arruinando e destruindo toda a humanidade. “Que… há no mundo”, como veneno no copo, como a podridão na madeira, como uma peste que contamina o ar e a qual não se pode erradicar. Ela contamina todas as partes de um homem seja física, mental ou moral; e todos os relacionamentos de sua vida, sejam na família, sociedade ou país.

“Cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência”. Quando os homens são tentados eles procuram normalmente lançar o ônus sobre Deus, sobre o Diabo, ou sobre os seus companheiros; ao passo que a culpa recai inteiramente sobre si mesmos. Primeiro, suas afeições estão afastadas do que é bom e eles são incitados a uma conduta ilícita por suas inclinações corruptas, sendo atraídos por uma isca que Satanás ou o mundo chacoalhe diante dele. “Concupiscência” aqui significa um anseio ou desejo de obter alguma coisa, e é tão forte a ponto de atrair a alma para um objeto proibido. A palavra grega para “afastadas” significa forçosamente impelido, uma violência impetuosa do desejo que cobiça alguma coisa sensual ou mundana exigindo gratificação. Estas nada são senão uma espécie de vontade própria, um anseio por aquilo que Deus não concedeu, decorrente do descontentamento em relação à nossa presente condição ou porção. Mesmo que esse desejo seja passageiro e involuntário, sim, contra o nosso melhor julgamento, ainda assim, é pecaminoso, e quando consentido produz uma culpa ainda mais profunda.

“E engodado”. A atração pela irregularidade e veemência do desejo, a sedução acontece pela contemplação do objeto. Mas esse mesmo engodo é algo pelo qual nós somos culpados. É porque não conseguimos resistir, abominamos e rejeitamos a primeira investida do desejo ilícito, e em vez disso, o entretemos e o encorajamos, de forma que a isca pareça tão atrativa. As promessas tentadoras de prazer ou lucro, são o “o engano do pecado” (Hebreus 3:13) atuando no que nos seduz. Em seguida, o mal lhe é doce na boca, e ele o esconde debaixo da sua língua (Jó 20:12). “Depois, havendo a concupiscência concebido”: prazer antecipado é valorizado, e tendo em vista o mesmo a mente consente plenamente. O ato pecaminoso está presente em embrião, e os pensamentos estão envolvidos em maquinar formas e meios de gratificação. “Dá à luz o pecado” por um decreto da vontade, o que antes era contemplado agora é realmente perpetrado. Justamente sobre isto Thomas Manton diz: “O pecado não conhece outra mãe exceto o nosso próprio coração”. “E o pecado, sendo consumado, gera a morte”: assim o seu salário é pago e colhe-se o que foi semeado, a condenação sendo o resultado final. Tal é o progresso do pecado dentro de nós, e esses seus diversos graus de enormidade.

4. Consciência corrompida. Se há uma faculdade da alma do homem mais do que qualquer outra da qual poderia ser pensado ter retido a imagem original de Deus sobre ela, esta certamente é a consciência. Tal ponto de vista, de fato, foi amplamente difundido. Então eles decididamente eram desta opinião, não poucos dos filósofos mais renomados e moralistas afirmaram que a consciência não é nada menos do que a própria voz Divina falando na câmara interior do nosso ser. Mas, sem de forma alguma minimizar a grande importância e o valor deste monitor interno, seja no seu ofício ou em suas operações, deve ser declarado enfaticamente que tais teóricos erraram, que mesmo essa faculdade não escapou da ruína comum que atingiu todo o nosso ser. Isto é evidente a partir do claro ensino da Palavra de Deus sobre isto. Escritura fala de uma “fraca consciência” (1 Coríntios 8:12), dos homens “tendo cauterizada a sua própria consciência” (1 Timóteo 4:2), e é dito que a sua “consciência está contaminada” (Tito 1:15), que eles têm “má consciência” (Hebreus 10:22). A demonstração disto é feita no que se segue.

Aqueles que afirmam que há algo essencialmente bom no homem natural insistem que a sua consciência é uma inimiga para o mal e uma amiga para a santidade. Eles apontam e ressaltam o fato de que a consciência produz uma convicção interior contra ilegalidade, uma luta no coração contra o pecado, uma relutância este. Eles chamam a atenção para o fato de que faraó reconheceu seu pecado (Êxodo 10:16), e que Dario “ficou muito penalizado” por seu ato injusto de condenar Daniel a ser lançado na cova dos leões (6:14). Alguns têm mesmo ido tão longe a ponto de afirmar que a oposição aos maiores e mais grosseiros crimes se encontra a princípio em todos os homens diferindo pouco ou nada desse conflito entre a carne e o Espírito descrito em Romanos 7:21-23. Mas tal sofisma é facilmente refutado. Em primeiro lugar, embora seja verdade que o homem caído possui uma noção geral de certo e errado, e seja capaz, em alguns casos de discernir entre o bem e o mal, contudo enquanto ele permanece não-regenerado este instinto moral nunca faz com que ele se deleite cordialmente no bem ou realmente abomine o mal; e em qualquer medida que possa aprovar o bem ou reprovar o mal, isto não se deriva de nenhuma consideração por Deus que porventura ele possua.

A consciência só é capaz de trabalhar de acordo com a luz que tem, e uma vez que o homem natural não pode discernir as coisas espirituais (1 Coríntios 2:14), isso é inútil em relação a elas. Quão fraca é a sua luz! É mais parecida com a de uma vela brilhando do que com os raios do sol, apenas suficiente para fazer a escuridão visível. Devido à estultícia que se encontra em seu entendimento, a sua consciência é terrivelmente ignorante. E quando ela o faz descobrir o que lhe é hostil, fá-lo débil e ineficazmente. Em vez de esclarecer, na maioria das vezes confunde. Como isso é manifesto no caso das nações! A consciência dá-lhes um sentimento de culpa e, em seguida, os leva a praticar os ritos mais abomináveis ​​e muitas vezes desumanos. Ela os induz a inventar e propagar as deturpações mais ímpias da Divindade. Como um bálsamo para a sua consciência, eles muitas vezes fazem os próprios objetos de sua adoração os precedentes e patronos de seus vícios favoritos. O fato é que a consciência é tão tristemente deficiente a ponto de ser incapaz de cumprir o seu dever até que Deus a ilumine, desperte e renove.

Suas operações são igualmente defeituosas. A consciência não é defeituosa apenas na visão, mas a sua voz também é muito fraca. Quão fortemente ela deveria censurar-nos por nossa surpreendente ingratidão para com o nosso grande Benfeitor! Quão alta deveria ser a voz para opor-se contra a negligência estúpida de nossos interesses espirituais e bem-estar eterno. No entanto, ela não faz nem uma coisa nem outra. Embora ele ofereça alguns avisos sobre inocorrências grosseiras no pecado, não faz resistência aos trabalhos mais sutis e secretos da corrupção que em nós habita. Se ela demanda o cumprimento do dever, ignora a parte mais importante e espiritual do mesmo. Pode ser desconfortável se não conseguirmos passar a mesma quantidade de tempo todos os dias na oração secreta, mas está pouco preocupada com a nossa reverência, humildade, fé e fervor nela. Aqueles que viviam nos dias do Profeta eram culpados de oferecer a Deus sacrifícios defeituosos, ainda assim suas consciências nunca lhes perturbaram em relação a isto (Malaquias 1:7-8). A consciência pode ser muito escrupulosa no cumprimento dos preceitos dos homens ou nossas predileções pessoais, e ainda totalmente negligente naquelas coisas que o Senhor ordenou, como os Fariseus que não comiam enquanto suas mãos permanecessem cerimonialmente impuras, porém, desconsideravam o que Deus havia ordenado (Marcos 7:6-9).

A consciência é terrivelmente parcial: desconsiderando pecados favoritos e desculpando aqueles que mais de mais perto nos rodeiam. Todas essas tentativas de atenuar as nossas faltas são fundadas na ignorância de Deus, de nós mesmos e do nosso dever; caso contrário, a consciência nos daria o veredito de culpados. A consciência muitas vezes se junta às nossas concupiscências para incentivar um ato perverso. Saul disse que ele não ofereceria o sacrifício até que Samuel chegasse, mas para agradar as pessoas e impedir que elas o abandonassem, ele o fez. E quando esse servo de Deus o repreendeu o rei procurou justificar seu crime dizendo que os filisteus estavam reunidos contra Israel, e que ele não se atreveu a atacá-los antes de fazer súplicas a Deus, e acrescentou: “constrangi-me, e ofereci holocausto” (1 Samuel 13:8-12). A consciência se esforçará para encontrar alguma consideração com a qual apaziguar-se e, em seguida, aprovar o ato de maldade. Mesmo quando repreende certos pecados, ela encontrará motivos e arranjará incentivos para praticá-lo. Assim, quando Herodes estava prestes a cometer o assassinato covarde de João Batista, que era contra as suas convicções, a sua própria consciência veio em seu auxílio, e pediu-lhe para seguir em frente, instando que ele não deveria violar o juramento que ele havia feito diante de outros (Marcos 6:26).

A consciência frequentemente ignora grandes pecados enquanto condena outros menores, como Saul era severo com os israelitas em relação à violação da lei cerimonial (1 Samuel 14:33), mas não teve nenhum escrúpulo de matar oitenta e cinco sacerdotes do Senhor. A consciência ainda vai inventar argumentos que favorecem – sim, até mesmo que autorizam – os atos mais ultrajantes e, portanto, ela não é apenas um advogado corrupto pleiteando a causa do mal, mas um juiz corrupto que justifica o ímpio. Assim, aqueles que clamavam pela crucificação de Cristo o fizeram sob o pretexto de que era lícita e necessária: “Nós temos uma lei e, segundo a nossa lei, deve morrer, porque se fez Filho de Deus” (João 19:7). Não é de admirar que o Senhor diz a respeito dos homens que “ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas” (Isaías 5:20). A consciência nunca move o homem natural a reder ações de graças e reconhecimento a Deus; nunca o convence da culpa pesada da ofensa de Adão, que jaz sobre a sua alma, nem de sua falta de fé em Cristo; e assim a consciência permite que os pecadores durmam em paz em meio a sua terrível incredulidade, mas estes não são um sono e paz sólidos, pois não há razão ou motivo para isso: é, antes, uma segurança falsa e estúpida. Deus a seu respeito: “Eles não dizem no seu coração que eu me lembro de toda a sua maldade” (Oseias 7:2).

Suas acusações são ineficazes, pois não produzem bons frutos, não produzem mansidão e humildade, nem arrependimento genuíno, mas sim um medo sensível de Deus como um juiz severo ou um ódio como inimigo inexorável. As suas acusações não são apenas ineficazes, mas muitas vezes elas são muito errôneas. Por causa da escuridão que está sobre sua compreensão, a percepção moral do homem natural erra muito. Como Thomas Boston disse da consciência corrupta: “Por isso, ela é frequentemente como um cavalo louco e furioso, que violentamente derruba, o seu cavaleiro, e todos que entram em seu caminho”. Um terrível exemplo disto aparece na previsão de nosso Senhor em João 16:2, que recebeu cumprimento repetido em Atos: “Expulsar-vos-ão das sinagogas; vem mesmo a hora em que qualquer que vos matar cuidará fazer um serviço a Deus”. Da mesma maneira Saulo de Tarso, depois de sua conversão, reconheceu: Bem tinha eu imaginado que contra o nome de Jesus Nazareno devia eu praticar muitos atos” (Atos 26:9). Aqui fazer do “amargo, doce e do doce, amargo” foi o caso! O guia menos confiável é a consciência não-renovada.

Mesmo quando a consciência do não-regenerado é despertada pela mão imediata de Deus e é ferida com convicções profundas e dolorosas de pecado, tão longe está a alma de mover-se em busca da misericórdia de Deus através do Mediador, antes enche-se de tremor e consternação. Como Jó 6:4, declara, quando as flechas do Todo-Poderoso estão cravadas nele, o veneno delas embebe seu espírito, e os terrores de Deus o assaltam. Até então tal pessoa tinha feito um grande esforço para abafar as acusações de seu juiz interior, e agora ele iria fazê-lo de bom grado, mas não pode. Em vez disso, a consciência se enfurece e murmura, colocando todo o homem em uma consternação terrível, à medida que é aterrorizado por um senso da ira de um Deus santo e está com medo do ardor do fogo que há de devorar os Seus adversários. Isso o enche de tal horror e desespero que, em vez de se voltar para o Senhor que ele se esforça para fugir dEle. Assim foi o caso de Judas, que, quando foi levado a perceber a gravidade de sua terrível e vil ação, saiu e enforcou-se. Que esta violência do pecado dentro do homem natural o leva a desviar-se de Cristo ao invés de para Cristo, foi demonstrada pelos Fariseus em João 8:9, que, “redarguidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos”.

5. Incapacidade da Vontade. Deixamos isso por último, porque a vontade não é o senhor, mas o servo das outras faculdades, executando a convicção mais forte da mente ou o co-mando mais imperioso de nossas paixões, pois pode haver apenas uma influência dominante na vontade em um e mesmo tempo. A excelência da vontade do homem consistia, originalmente, em seguir a orientação da reta razão e submeter-se à influência de autoridade apropriada. Mas no Éden a vontade do homem rejeitou a primeira, e se rebelou contra a última, e em consequência da Queda sua vontade tem estado desde então sob o controle de um entendimento que prefere antes as trevas do que a luz e de afeições que desejam mais o mal do que o bem. E assim é que os prazeres fugazes do bom senso e os interesses mesquinhos do tempo excitam nossos desejos, enquanto os deleites duradouros da piedade e as riquezas da imortalidade recebem pouca ou nenhuma atenção. A vontade do homem natural é influenciada por suas corrupções, pois suas inclinações gravitam na direção oposta ao seu dever e, portanto, ele está completamente cativo ao pecado, impelido por suas paixões. Não é apenas que os não-regenerados não estão dispostos a buscar a santidade, eles inveteradamente a odeiam.

Desde que a vontade transformou-se em uma traidora de Deus e apresentou-se ao serviço de Satanás, ela foi completamente incapacitada para fazer o bem. Disse o Salvador: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer” (João 6:44). E por que ele não pode vir a Cristo por suas próprias forças naturais? Porque ele não somente tem inclinação para fazer isso, mas porque o Salvador é um objeto que o repele, Seu jugo não é bem-vindo, Seu cetro é repulsivo. Em relação às coisas espirituais a condição da vontade é como a da mulher em Lucas 13:11, ela “andava curvada, e não podia de modo algum endireitar-se”. Se tal for o caso, então como pode ser dito que o homem é capaz de agir voluntariamente? Pois ele escolhe livremente o mal, e isso porque “a alma do ímpio deseja o mal” (Provérbios 21:10), e ele sempre realiza esse desejo, exceto quando impedido pelo governo Divino. O homem é o escravo de suas corrupções, nascido como um potro selvagem, desde a mais tenra infância ele é avesso à restrição. A vontade do homem é uniformemente rebelde para com Deus; quando a Providência frustra seus esforços, em vez de se curvar em humilde resignação, ele se aborrece com inquietação e age como um touro selvagem em uma rede. Somente o Filho pode “libertá-lo” (João 8:36), e há “liberdade” somente onde está o Espírito do Senhor. (2 Coríntios. 3:17).

Aqui, então, estão as ramificações da depravação humana. A Queda cegou a mente do homem, endureceu o seu coração, desordenou as suas afeições, corrompeu a sua consciência, diminuiu a capacidade de sua vontade, e deste modo não há “coisa sã” nele (Isaías 1:6), “não habita bem algum” em sua carne (Romanos 7:18).

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♦ Este texto  é o capítulo 10, “Suas Ramificações” do Livro The Total Depravity of Man, por A. W. Pink. Editado.

♦ Fonte: EternalLifeMinistries.org | Título Original: The Total Depravity of Man
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por William Teixeira │ Revisão por Camila Almeida


As Impressões de Homens Naturais são Passageiras – Robert Murray M’Cheyne

“Que te farei, ó Efraim? Que te farei, ó Judá? Porque a vossa benignidade é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa” (Oséias 6:4)

Doutrina. As impressões de homens naturais são passageiras.

Com estas palavras, Deus se queixa de que Ele não sabia o que fazer com Israel, visto que as suas impressões eram tão passageiras. Ele diz, versículo 5, que os havia abatido pelos profetas, matado pelas palavras de Sua boca e que os Seus juízos estavam saindo como luz. Ao mesmo tempo Deus lhes enviou graves mensagens de alerta sobre ira vindoura; em seguida, mensagens de amor e graça, tão brilhantes e tão numerosas como os raios do sol. Eles estavam pouco impressionados por elas; as nuvens da aflição começaram a se aglomerar sobre sua cabeça, o orvalho da tristeza pareceu escorrer em suas faces, mas logo secou. Era como a nuvem da manhã e orvalho que cedo passa. Assim é com todas as pessoas não-convertidas nesta congregação que finalmente perecerão. Deus enviou-lhes mensagens de alerta, abateu-lhes pelos profetas e os matou pelas palavras de Sua boca. Ele enviou-lhes também doces mensagens de encorajamento; seus julgamentos têm sido como a luz que sai. Eles pensam e estão impressionados por um pouco, mas logo isso se desvanece. “Que te farei, ó Efraim?…”.

I. O fato de que as impressões dos homens naturais passam.

1. Este fato se prova pelas Escrituras. As Escrituras estão repletas de exemplos disso. (1.) A mulher de Ló. Ela era um bom caso de alguém despertado. Os rostos ansiosos dos dois homens angelicais, suas terríveis palavras e mãos misericordiosas, causaram uma profunda impressão sobre ela. A ansiedade de seu marido também, e suas palavras aos seus genros, adentraram em seu coração. Ela fugiu com passos ansiosos; mas quando a manhã raiou, seus pensamentos ansiosos começaram a declinar. Ela olhou para trás e tornou-se uma estátua de sal. (2.) Israel no Mar Vermelho. Quando Israel foi levado através das profundezas das águas em segurança, e quando viram seus inimigos se afogarem, então, eles cantaram louvores a Deus. Seus corações foram muito afetados por essa libertação. Eles cantavam: “O Senhor é a minha força, e o meu cântico; ele me foi por salvação” [Êxodo 15:2]. Eles cantaram o Seu louvor, mas logo se esqueceram das Suas obras. Em três dias eles estavam murmurando contra Deus por causa das águas amargas. (3.) Uma vez um jovem veio correndo para Jesus e ajoelhou-se a seus pés, dizendo: “Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?” [Lucas 18:18]. Um flash de convicção tinha passado sobre a sua consciência; ele agora estava ajoelhado aos pés de Cristo, mas ele nunca mais tornou-se a ajoelhar-se ali, antes retirou-se triste. Sua benignidade era como a nuvem da manhã. (4.) Certa vez Paulo pregou perante Félix, o governador Romano, e, tratando ele da justiça, e da temperança, e do juízo vindouro, Félix, ficou espavorido. A pregação do evangelho fez tremer o orgulhoso Romano em seu trono, mas isso salvou a sua alma? Ah, não! “Por agora vai-te, e em tendo oportunidade te chamarei” [Atos 24:25]. Sua benignidade era como a nuvem da manhã. (5.) Mais uma vez, Paulo pregou perante o rei Agripa e sua bela esposa Berenice, juntamente com todos os capitães e principais da cidade. A palavra perturbou o coração de Agripa, e uma lágrima brotou de seu olho real, por um momento ele pensou em deixar tudo por Cristo: “Por pouco me queres persuadir a que me faça cristão!” [Atos 26:28]. Mas ah! sua benignidade era como a nuvem da manhã e orvalho da madrugada. Em todos estes as nuvens formaram sobre eles, por um momento, o orvalho brilhou em seus olhos, mas logo elas passaram e deixaram corações de pedra para trás.

2. Este fato é provado pela experiência. A maioria dos homens sob a pregação do Evangelho tem seus períodos de despertamento. Se as impressões de homens naturais fossem permanentes, então a maior parte deles seria salva, mas sabemos que este não é o caso. Poucos há que a encontrem. Talvez eu não estivesse muito errado se dissesse que não pode haver dez homens adultos nesta congregação que nunca experimentaram qualquer preocupação com a sua alma, e ainda assim temo que possa haver centenas de pessoas que perecerão finalmente.

(1.) Quantos tiveram um tempo de despertamento na infância, quando estiveram sob a oração de uma mãe crente, ou advertidos por um pai crente, ou ensinados por um professor de Escola Dominical fiel? Quantos tiveram impressões profundas na Escola Dominical? Mas elas já passaram como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada.

(2.) Na sua primeira comunhão, quando eles falaram pela primeira vez com um ministro sobre a suas almas, e ouviram suas perguntas penetrantes e avisos fiéis, quando eles tiveram o seu testemunho de sua mão, quando receberam pela primeira vez o pão e o vinho, e sentaram-se à mesa do Senhor, eles tremeram, lágrimas brotaram de seus olhos e eles foram para casa orar; mas logo que se ausentaram, o mundo, os prazeres e cuidados envolveram suas mentes, e tudo se foi como a nuvem e o orvalho.

(3). A primeira doença. Quantos, deitados em uma cama de doença, são levados a olhar para a beira da sepultura? Eles tremem à medida que pensam como eles estão despreparados para morrer; e agora eles começam a fazer votos e resoluções: “se o Senhor me poupar, vou evitar maus companheiros, vou orar e ler a Bíblia” e etc. Entretanto, eles não melhoram, mais rápido do que as promessas e resoluções são esquecidas, como a nuvem e o orvalho.

(4.) A primeira morte na família. Que profunda impressão isto leva um coração a sentir. Aquela amável roda que se reunia em volta do fogo é quebrada e jamais será completa novamente. Agora, eles começam a orar, a voltarem-se para Aquele que pune. Talvez ajoelhados ao lado do corpo frio, eles prometem não voltar ao pecado e loucura. Ou, seguindo o corpo para a sepultura, enquanto muitas lágrimas estão nos olhos, eles prometem enterrar todos os seus pecados e loucuras no túmulo de seu amado. Mas tão logo haja alguma mudança sobre eles, as lágrimas secam e a oração é esquecida. O mundo retoma o seu lugar novamente e volta a reinar sobre eles. Sua benignidade é como a nuvem da manhã.

(5). Em um momento de despertamento, muitos recebem impressões profundas. Alguns estão alarmados ao ver outros alarmados, os quais não são piores do que eles. Muitos têm seus sentimentos agitados, seus afetos movidos. Muitos são levados a desejar a conversão, a clamar e a orar. O Sr. Edwards menciona que mal havia um indivíduo em toda a cidade indiferente; havia sinais da promessa de Deus em todas as casas. Assim acontece aqui e, ainda assim, quando o tempo passa, rapidamente eles afundam de volta na antiga indiferença. Sua benignidade é como a nuvem da manhã.

Queridos amigos, vós sois as minhas testemunhas. Eu não sei, mas eu acredito que eu não estou errado em afirmar que, de longe, a maioria de vocês tem estado sob remorso em algum momento ou outro, e ainda assim Deus e suas próprias consciências sabem o quanto essas impressões têm enfraquecido. Assim como a nuvem da manhã se desfaz no cume da montanha e o orvalho seca-se sobre a rocha e ela permanece como rocha, assim as suas impressões têm passado e deixado seu coração rochoso como era antes. Assim acontece com aqueles que se perdem. O caminho para o inferno está cheio de boas intenções, o inferno está povoado com aqueles que uma vez choraram e oraram por suas almas. “Que te farei, ó Efraim?”.

3. Permita-nos mostrar as etapas do desaparecimento destas impressões. Quando um homem natural está sob preocupação, ele começa a fazer um uso muito diligente dos meios da graça.

(1.) Oração. Quando um homem está com temor do inferno ele começa a orar, e muitas vezes ele tem muitas comoções e doces sentimentos em oração. Enquanto duram suas últimas impressões, ele pode ser muito constante em seu dever. Mas ele sempre clamará a Deus? Quando sua preocupação cessa, sua oração secreta cessa também. Não toda de uma vez, mas aos poucos ele desiste da oração secreta. Uma vez que ele sai em companhia, outra vez é impedido por passar muito tempo no negócio, outra vez por que ele está dormindo, e assim gradualmente ele desiste da oração secreta por completo. “Que te farei, ó Efraim?”.

(2.) Ouvindo a Palavra. Quando um homem é despertado pela primeira vez, ele se achega bem para a pregação da Palavra. Ele sabe que Deus abençoa especialmente a pregação da Palavra, que agrada a Deus pela loucura da pregação salvar os que creem. Ele é um ouvinte cativo; ele bebe das palavras do ministro; ele se anima na Palavra; se houver pregação durante a semana pela noite, ele deixa seu trabalho a fim de estar lá. Mas, quando a sua preocupação se desgasta, ele começa a enfastiar-se dos dias da semana, depois do Sabath, então talvez ele procure um ministério mais descuidado, onde ele possa dormir até a morte e o julgamento. Ah, este tem sido o curso de milhares neste lugar. “Que te farei, ó Efraim?”.

(3). Pedindo conselho aos ministros. Quando as almas estão sob remorso, elas costumam pedir conselho dos pastores de Cristo. “Os filhos de Israel virão, eles e os filhos de Judá juntamente; andando e chorando virão, e buscarão ao Senhor seu Deus” [Jeremias 50:4]. Eles vão aos guardas, dizendo: Vistes aquele a quem ama a minha alma? Este é um dos deveres do pastor fiel, pois “os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens buscar a lei porque ele é o mensageiro do Senhor dos Exércitos” [Malaquias 2:7]. Mas, quando a preocupação é dissipada, isso esvanece. Muitos vêm uma vez e nunca mais voltarão. “Que te farei, ó Efraim?”.

(4). Evitando o pecado. Quando um homem está sob convicções, ele sempre evita o pecado aberto, foge dele com todas as suas forças. Ele reforma sua vida; sua alma é varrida e adornada. Mas quando a sua preocupação passa, suas concupiscências revivem, ele volta como um cão ao seu vômito e como a porca que foi lavada volta a chafurdar na lama. Se houvesse alguma preservação das impressões de homens naturais, qualquer que fosse, eles se tornariam santos, mas, pelo contrário, eles tornam-se cada vez piores, sete demônios entram naquele homem; e o último estado dele é pior do que o primeiro [Lucas 11:26]. “Que te farei, ó Efraim?”.

 

II. Razões pelas quais as impressões dos homens naturais passam.

1. Eles nunca são levados a se sentirem verdadeiramente perdidos. As feridas dos homens naturais são geralmente superficiais. Às vezes é apenas um vislumbre do terror que os alarma. Muitas vezes é o senso de que cometeram algum grande pecado. Às vezes é só simpatia com outras pessoas, eles fogem porque outros fogem. Eles são muitas vezes levados a dizer: “eu sou um grande pecador, temo que não haja misericórdia para mim”. Contudo, eles não são levados a se sentir arruinados, sua boca não está tapada, eles não cobrem o lábio como o leproso. Eles imaginam que um pouco de oração, sofrimento, arrependimento, reforma, funcionarão, se eles pudessem apenas mudar suas maneiras. Eles não são levados a ver que tudo o que fazem de nada serve para justificá-los. Se eles houvessem sido levados a sentir o seu estado completamente perdido e sua necessidade da justiça de Outro, eles nunca poderiam descansar no mundo novamente.

2. Eles nunca viram a beleza de Cristo de Cristo. Um vislumbre de terror pode levar um homem aos joelhos, mas não o levará a Cristo. Ah! não, o amor deve atrair. Um homem natural, segundo a preocupação, não vê beleza nem desejabilidade que há em Cristo. Ele não é levado a olhar para Aquele a quem traspassaram e a lamentar. Quando alguma vez um homem recebe uma visão da excelência suprema e doçura de Cristo; quando ele vê Sua plenitude para o perdão, paz e santidade ele nunca retrocederá. Ele pode estar em perigo e em trevas, mas ele se levantará e irá para cidade, procurar por Aquele a quem Sua alma ama. O coração que tem visto uma vez Cristo está enfermo de amor por Ele, e nunca pode descansar nem se ocupar apenas um pouco dEle.

3. Ele nunca teve ódio ao pecado em seu coração. As impressões de homens naturais são geralmente de terror. Eles sentem o perigo do pecado, e não a imundícia dele. Eles sentem que Deus é justo e verdadeiro, que a lei deve ser reivindicada, que a ira de Deus virá. Eles veem que há um inferno em seus pecados; mas eles não consideram seus pecados como um inferno. Eles amam o pecado; eles não têm nenhuma mudança de natureza. O Espírito de Deus não habita neles; e, portanto, a impressão esmaece facilmente. Aqueles que são levados a Cristo, são levados a ver a torpeza do pecado. Eles clamam: Eis que eu estou perdido, mas, eis que sou vil. Enquanto o pecado está em seu peito, eles continuam a fugindo para a cruz de Cristo.

4. Eles não têm promessas para manter as suas impressões. Aqueles que estão em Cristo têm doces promessas. “Porei o meu temor nos seus corações” [Jeremias 32:40]. “Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará” [Filipenses 1:6]. Mas os homens naturais não têm interesse em tais promessas e assim, no momento da tentação, as suas ansiedades facilmente passam.

III. A tristeza do seu caso.

1. Deus lamenta sobre o seu caso. “Ó, Efraim”. Deve ser um caso verdadeiramente triste aquele que leva Deus a lamentar por ele. Quando Cristo chorou sobre Jerusalém, ele mostrou que ela estava em um caso desesperado, porque esse olho que chorou viu claramente o que estava por vir; e, consequentemente, em poucos anos, aquela amável cidade era um amontoado em ruínas, e multidões daqueles que estavam então vivos, estão agora no inferno, e seus filhos errantes. Quando Cristo olhou ao redor para os Fariseus enraivecidos, perturbado com a dureza dos seus corações, Ele mostrou que seu caso era desesperador, Ele não lamentaria sem motivo. Então aqui você pode ter certeza de morte, pois o caso dos homens naturais que perdem suas impressões é muito desesperador, inferimos a partir destas palavras de Deus: “Ó, Efraim”.

2. Deus não tem novo método de despertamento. Deus fala como sempre para o perdido, sobre o que fazer, e lhe mostra que já não resta mais sacrifício pelos pecados. Você já ouviu todas as verdades despertadoras na Bíblia, toda palavra triunfante e verdades consoladoras. Você tem estado no Sinai, e no Getsêmani, e no Calvário; o que mais te hei de fazer? Estes têm lhe têm pressionado para a casa de cima por providências Divinas, em aflição, ao lado da cama da morte, e em um momento de grande despertar. Você passou por um período em que era dez vezes mais provável que você se convertesse do que qualquer outro, mas você está afundando novamente. Ah! passou-se a colheita, findou o verão e você não está salvo. Deus não tem mais flechas em sua aljava, nem novos argumentos, nenhum outro inferno, nenhum outro Cristo.

3. Nenhum bem se deriva de suas impressões passadas. Quando a nuvem se esvazia no cume da montanha, e o orvalho destila na rocha, a montanha permanece tão grande como antes e a rocha tão dura como sempre; mas quando as convicções desaparecem do coração de um homem natural, estas deixam a montanha dos seus pecados muito maior e seu coração rochoso muito mais duro. É menos provável que este homem algum dia seja salvo. Assim como o ferro é endurecido por ser fundido e esfriado de novo, assim como uma pessoa que é acometida por recaídas da febre que são piores do que as que ocorreram anteriormente. (1.) Agora, você está mais velho e a cada dia é menos provável que você seja salvo; o seu coração está acostumado com a sua antiga forma de pensar e sentir; os joelhos da idade não conseguem aprender facilmente a dobrarem-se. (2.) Você ofendeu o Espírito; você perdeu a sua oportunidade; você resistiu ao Espírito Santo; as convicções não estão em seu próprio poder, o Espírito tem misericórdia de quem Ele quer ter misericórdia. (3.) Você entrou num estado de pôr de lado as convicções. A pálpebra se fecha naturalmente quando qualquer objeto está vindo em sua direção, assim é com o coração de um fim em prática mundana e convicções impeditivas.

4. Quando estiver indo para o inferno, você desejará nunca ter tido convicções, elas farão a sua punição ser muito maior. Eu quero agora suplicar a todos os que têm quaisquer impressões a não deixa-las passar. É uma grande misericórdia viver sob um ministério evangélico, ainda maior viver numa época de avivamento e ainda maior haver Deus derramando o Espírito em seu coração, despertando a sua alma. Não negligencie isso, não volte para trás, lembra-te da mulher de Ló. Fuja pela tua vida; não olhes para trás de ti; não te detenhas em toda a planície. Fuja para o monte para que não pereças.

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♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título original: The Impressions of Natural Men are Fading
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por William Teixeira │ Revisão por Camila Almeida


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