Compaixão de Cristo pelas Multidões – Robert Murray M’Cheyne

[Baixe o e-book desse sermão, em formato PDF, clicando AQUI]

“E percorria Jesus todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas deles, e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo. E, vendo as multidões, teve grande compaixão delas, porque andavam cansadas e desgarradas, como ovelhas que não têm pastor. Então, disse aos seus discípulos: A seara é realmente grande, mas poucos os ceifeiros. Rogai, pois, ao Senhor da seara, que mande ceifeiros para a sua seara” (Mateus 9:35-38).

 

I. “E, vendo as multidões, teve grande compaixão delas”. A partir de Mateus 4:23, aprendemos que quando inicialmente Jesus começou no ministério, a Galiléia foi o cenário de seus labores: “E percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas suas sinagogas e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo”. E aprendemos também (versículo 25), que seguia-O uma grande multidão. Os capítulos 5, 6 e 7 contêm uma amostra do que Ele ensinou e pregou; os capítulos 8 e 9, a maneira com que Ele curou; e agora, no versículo 35, somos informados de que Ele tinha ido a todas as cidades e aldeias da Galiléia; Ele terminara Sua investigação, e “vendo as multidões, teve grande compaixão delas”. A Galiléia era naquele tempo um país densamente povoado, suas cidades e aldeias fervilhavam de habitantes, de modo que ela tem o nome de “Galiléia dos gentios”, ou populosa Galiléia. O que eu desejo que vocês observem, então, é que esta era uma avaliação real das cidades populosas, das aldeias super povoadas, das multidões que o seguiam; foi uma visão real e investigação dessas coisas, que moveram a compaixão do Salvador. Seu olhar afetou Seu coração: “vendo as multidões, teve grande compaixão delas”.

1. Isso mostra que Cristo era verdadeiramente homem. Toda a Bíblia mostra que Cristo era verdadeiramente Deus, “que ele estava com Deus e era Deus” [João 1:1], que era “Deus sobre todos, bendito para sempre” [Romanos 9:5]. Mas este evento mostra que Ele era também verdadeiramente homem. Esta é uma propriedade humana, a saber, ser afetado com o que ele vê. Quando vocês se sentam perto do fogo em uma noite de inverno, quando vocês ouvem o barulho da tempestade impiedosa, a chuva e o granizo caindo contra à janela, quando vocês pensam em alguns desabrigados, andarilhos sem lar; o vosso coração fica um pouco emocionado, vocês dão um breve suspiro, e proferem uma breve expressão de simpatia. Mas se o viajante chega à sua porta, se vocês abrem a porta, e o veem, todo molhado e tremendo, a visão afeta o coração; o vosso coração derrama-se em uma compaixão mil vezes maior, e vocês o convidam a sentar-se diante do fogo.

Quando a plena flor da saúde está sobre o seu rosto, se vocês ouvem sobre uma pessoa doente, vocês são pouco afetados; mas se vocês vão e a veem, se vocês levantam o trinco da porta, e entra, com passo calmo, e veem o rosto pálido, os olhos lânguidos, o peito pesado, então, o olhar afetou o coração, e a vossa compaixão flui como um rio caudaloso. Esta é a humanidade, esta é a maneira com o homem, esta foi a maneira com Cristo: “vendo… teve grande compaixão”. Uma vez eles O levaram ao túmulo de um amigo amado. Eles disseram: “Vem e vê”; e está escrito: “Jesus chorou” [João 11:34-35]. Outra vez, Ele estava andando sobre um jumentinho através do Monte das Oliveiras, o monte nos arredores de Jerusalém; e quando Ele chegou à curva da estrada, onde a cidade irrompeu na visão, “vendo a cidade, chorou sobre ela” [Lucas 19:41]. É exata-mente assim, aqui. Ele tinha andado nas cidades e aldeias da Galiléia; Ele havia visto as pobres multidões dispersas, acelerando para uma eternidade arruinada: “vendo as multidões, teve grande compaixão delas”.

Deixem-me falar aos crentes. Jesus é o vosso irmão mais velho. Ele diz a vocês como disse José a seus irmãos: “Eu sou José, vosso irmão” [Gênesis 45:4]. Em todas as vossas aflições Ele é afligido. Porque Ele não é um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado [Hebreus 4:15]. Alguns de vocês têm filhos pequenos doentes, e ardendo em febre. Jesus se compadece deles; pois Ele foi uma vez uma criancinha. Filhinhos, se vocês tomassem Jesus por Salvador, então vocês poderiam levar todas as suas dores a Ele; pois Jesus sabe o que é ser uma criança pequena. Crentes crescidos, vocês conhecem as dores do cansaço e da fome, e sede, e nudez. Contem essas coisas para Jesus; pois Ele as conhece também. Vocês conhecem aquelas dores de peso interior, de um coração desfalecido, cheio de tristeza até a morte, da face oculta de Deus; Jesus as conheceu também. Vão para Jesus, então, e Ele curará todos eles.

2. Isso mostra que os cristãos devem ir e ver. Muitos cristãos se contentam em ser cristãos para si mesmos; em abraçar o Evangelho para si mesmos; a sentar-se em seu próprio quarto, e banquetear-se disto sozinhos. Cristo não fez isso. É verdade que Ele amava muito ficar sozinho. Ele disse uma vez aos Seus discípulos: “Vinde vós, aqui à parte, a um lugar deserto, e repousai um pouco” [Marcos 6:31]. Muitas vezes passava a noite inteira em oração na montanha solitária; mas é também verdade que Ele andou continuamente. Ele foi e viu, e, em seguida, teve compaixão. Ele não escondeu a Si mesmo a partir de Sua própria carne. Vocês devem ser semelhantes a Cristo. Vossa palavra deve ser: “Vá e veja”. Vocês devem ir e ver os pobres; e, em seguida, vocês se compadeceram deles. Lembrem-se do que Jesus diz a todo o Seu povo: “adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver” [Mateus 25:36]. Não vos enganeis, meus queridos amigos; é fácil dar uma fria ninharia de caridade na porta da igreja, e pensar que essa é a religião de Jesus. Mas, “A religião pura e imaculada para com Deus e Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo” [Tiago 1:27].

 

II. O que foi que Jesus viu.

1. Ele viu as multidões. Ele tinha ido através das sobrecarregadas cidades e populosas aldeias da Galiléia; e oh, quantas faces ele tinha visto! Isso O entristeceu. Há algo de muito triste para um cristão ao olhar para uma multidão. Permanecer nas ruas apinhadas de uma grande metrópole, e ver o fluxo de seres humanos que correndo adiante para a eternidade, traz uma tristeza horrível sobre o espírito. Mesmo o permanecer na casa de Deus, e olhar para a densa massa de fiéis reunidos, enche o seio de todo verdadeiro cristão com uma tristeza lamentável.

Por que isso? Porque a maioria das almas estão perecendo. Ah! Foi isso que encheu o seio do Redentor com compaixão. De todas as multidões agitadas que apressam-se pelas ruas de sua cidade, de todas as imensas multidões que emanam de suas fábricas lotadas; ah! Quão poucos ficarão à mão direita de Jesus. Não, para aproximar-se mais ainda, das centenas agora, diante de nós nesta casa de Deus, almas confiadas aos meus cuidados e manutenção; dispostos e ansiosos como vocês são para ouvir, ainda assim, quão poucos creem em nosso relato, quão poucos serão para mim um coroa de alegria e regozijo no dia do Senhor Jesus!

Apenas pensem em quão terrível, meus amigos, se há uma alma aqui que deve perecer, um corpo e alma conosco, em saúde e força hoje, que deve estar com demônios em um curto espaço de tempo, sentindo o verme, e as chamas, e o ranger de dentes. Se houves-se apenas um em toda a cidade, eu acho que seria o suficiente para entristecer a alma. Mas, ah! A Bíblia não diz: “Muitos são chamados, mas poucos escolhidos”? [Mateus 22:14]. Ah! então, vocês saberão por que Jesus foi movido de compaixão; e, certamente, vocês nunca olharão para uma multidão, a não ser que o mesmo sentimento suba em vosso peito.

2. Ele viu a fraqueza das multidões. Talvez por fome, homens miseráveis, fracos, frágeis! Há algo mais comovente na visão de homens fracos, quando eles estão em uma condição de não-convertidos. O que seria uma aranha, se fosse lançada em uma de suas grandes fornalhas? Seria como se não fosse nada; tão fraca, tão miserável, tão incapaz de resistir à chama ardente. Exatamente assim foi a visão que Jesus contemplou, pobres homens frágeis, apodrecendo por falta de alimento, e ainda a perecer por falta de conhecimento; e ele pensou: Ai! Se eles são incapazes de suportar um pouco de carência física, como eles suportarão a ira de Meu Pai, quando eu os pisarei na Minha ira, e os esmaguei no Meu furor? Oh! Não admira que Jesus estivesse triste. Pensem nisso, vocês que são mui débeis e frágeis, incapazes de suportar a fome ou alguma doença. Pensem em que cria=-tura miserável vocês são em uma febre, quando vocês precisam de alguém para virá-los em sua cama; como vocês suportarão morrer sem Cristo, e cair nas mãos do Deus vivo? Se vocês não podem contender com Deus agora, como é que vocês pensam que lutarão com Ele depois que vocês morrerem?

3. Ele os viu dispersos. Quando as ovelhas foram expulsas do rebanho, elas não vão todas em um rebanho; mas elas ficam espalhadas por sobre as montanhas; elas correm cada uma para o seu próprio caminho. Isto é o que Jesus viu nas multidões; todos esta-vam dispersos, seguindo cada um o seu próprio caminho. Nas cidades e aldeias, Ele viu homens, cada um buscando coisas diferentes. Um grupo de homens estava indo atrás de dinheiro, fazendo disso o seu principal bem, trabalhando dia e noite em seu trabalho; e contudo não desfrutando do dinheiro que eles juntaram. Outro grupo estava atrás de prazer, a dança, a música, a flauta e o tamborim. Outro grupo estava atrás de alegrias de obscura farra, seus ventres eram os seus deuses, e eles se gloriavam em sua vergonha. Como o sanguessuga, eles diziam: “Dá, Dá”. Outros buscavam coisas ainda mais sombrias e mais abomináveis, as quais até dizê-lo é torpe. Jesus viu tudo – o coração de todos – e teve compaixão; porque todos eles estavam assim dispersos, ninguém buscando a Deus. Observem, Jesus não estava irado; Jesus não ameaçou; Jesus, teve compaixão.

Deixem-me falar com os não-convertidos. Vocês estão espalhados, cada um em seu próprio caminho. Cada um de vocês tem sua caminhada favorita na vida, o seu passeio favorito. Vocês todos seguem caminhos diferentes; e ainda assim, todos estão longe de Deus. Eu não sei o que o seu coração mais gosta; mas isto eu sei, que você gosta de ir para longe de Cristo e de Deus. O olho de Cristo está sobre todos vocês, suas histórias, seus corações. Ele conhece todos os passos que você tomou, cada pecado que você cometeu, cada desejo que reina em seu coração. Seu olho está agora sobre esta assembleia. Farei-lhe uma pergunta. O que Jesus sente quando olha para você? Alguns dirão, Raiva, alguns dirão, Vingança. O que a Bíblia diz? Compaixão. Cristo se compadece de você, ele não quer que você se perca. Oh! A terna compaixão de Jesus. Ele mui gostaria de reunir vocês, como a galinha ajunta os seus pintinhos; mas você não quer.

4. Como ovelhas que não têm pastor. Isso foi a coisa mais triste de todas. Se as ovelhas fossem conduzidas para fora do aprisco, fracas e dispersas pelos montes, e se houvesse um número de pastores para buscar as perdidas, e trazê-las de volta ao aprisco, a visão não é de forma alguma tão dolorosa; mas quando elas são ovelhas que não têm pastor, então o caso é desesperador. Assim foi com o povo da Galiléia nos dias de Cristo. Se eles tivessem tido pastores segundo o coração de Deus, então o seu caso não teria sido tão ruim; mas eles eram como ovelhas que não tinham pastor. Isso entristeceu Jesus.

Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre. Assim como Ele passou pelas cidades e aldeias da Galiléia, vendo as multidões, assim Ele agora percorre as cidades e aldeias de nossa amada terra; e, oh! Se seu coração encheu-se de compaixão pelos milhares da Galiléia, com certeza isso deve romper em mais intensa compaixão pelas dezenas de milhares da Escócia. Pode haver alguns de vocês que podem olhar friamente e descuidados para os cinquenta mil de Edimburgo que nunca cruzam o limiar da casa de Deus. Pode haver alguns de vocês que podem ouvir impassíveis sobre os oitenta mil de Glasgow, que não conhecem nem a melodia dos salmos nem a voz da oração. Pode haver alguns de vocês que podem olhar para os semblantes abatidos e feridos das populações sofridas de sua própria cidade, milhares que demonstram, por suas roupas, e ar, e aberta libertinagem, que são estranhos à mensagem do Salvador anunciado. Alguns de vocês podem olhar para eles, e nunca derramaram uma lágrima de compaixão, nunca sentiram uma oração subindo de seus lábios; Mas há Alguém acima destes céus, cujo coração bate em Seu peito ao vê-los; e se houvessem lágrimas no céu, aquele terno Salvador choraria; pois Ele contempla as multidões fracas e dispersas, e, oh! O pior de tudo, como ovelhas que não têm pastor.

Alguns de vocês não têm compaixão das multidões. Alguns de vocês pensam que temos ministros suficientes. Vejam aqui, quão contrários vocês são a Cristo. Vocês não têm o Espírito de Cristo em vocês, vocês não são dEle. Alguns de vocês conhecem o Senhor Jesus, e tremem diante da Sua Palavra. Façam com que esta mentalidade, que também esteve em Cristo, esteja em vocês: “De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” [Filipenses 2:5]. Cristo teve compaixão das multidões; e, oh! vocês não terão nenhuma? Cristo entregou-Se por eles; o que vocês darão? Certamente as pedras da casa se levantarão contra vocês no juízo, e os condenarão, se vocês não forem como Cristo nisto: “De graça recebestes, de graça dai” [Mateus 10:8].

 

III. O remédio.

1. Mais ceifeiros. “A seara é realmente grande, mas poucos os ceifeiros”. Cristo olhou para as cidades da Galiléia, como para uma grande seara, campo após campo, prontos para a ceifa. Ele e os seus apóstolos pareciam um pequeno grupo de ceifeiros. Mas o que são eles diante de tal seara? O milho maduro será agitado, e derrama o seu fruto no chão, antes que possa ser cortado e colhido. A palavra de Cristo, então, é: “Rogai, pois, ao Senhor da seara, que mande ceifeiros para a sua seara”.

Há uma semelhança impressionante entre o dia de hoje e o dia de Cristo. (1) As nossas cidades e aldeias são lotadas como os da Galiléia, e o pequeno grupo de ministros fiéis são, de fato nada diante da seara. (2) As pessoas estão solícitas a ouvir. Aonde quer que homens de Deus tenham sido enviados, eles reuniram em torno deles uma multidão, ansiosos para ouvir as palavras de vida eterna. A colheita está madura, pronta para ser recolhida. Oh! então, não digam que este é um plano de concepção do homem, não digam que estamos buscando enriquecer os ministros, não digam que estamos buscando nossos próprios interesses. Estamos fazendo o que Cristo nos ordena fazer: “Rogai, pois, ao Senhor da seara, que mande ceifeiros para a sua seara”.

2. Ceifeiros enviados por Deus. (1) Isso mostra que devemos procurar os ministros ordenados, homens enviados ou designados por Deus. Algumas pessoas bem intencionadas estão satisfeitas se conseguirmos cristãos privados, ou homens não ordenados, para fazer o trabalho do ministério. Esta é uma armadilha profunda que Satanás conduz aos homens de bem. Será que toda a Bíblia não testemunha que nenhum homem toma esta honra para si mesmo, senão aquele é chamado por Deus, como Arão? E mesmo Cristo não glorificou a Si mesmo fazendo-se um sumo sacerdote. Ai daqueles que correm sem, no entanto, haverem sido enviados! Foi um bom desejo de Uzá o segurar a arca; ainda assim, Uzá morreu por isso.

2. Ministros convertidos. Se os homens não podem ser afetados sem Sua chamada exterior, muito menos sem uma chamada interior. Havia uma multidão de ministros nos dias de Cristo. Em cada esquina da rua que vocês poderiam tê-los conhecido, mas eles eram líderes cegos. Assim, podemos ter abundância de ministros levantados entre nós, e ainda assim sermos como ovelhas que não têm pastor.

Ah! Vocês que conhecem a Cristo, e O amam; vós, Jacós, que lutam com Deus, até a luz da manhã, lutai, vós, com Deus por isso. Não O deem descanso até que Ele o conceda. Eu tenho uma doce persuasão em meu próprio peito, que se continuarmos na fé e na oração, e na reconstrução dos altares de Deus que estão assolados, Deus ouvirá o clamor de seu povo, e lhes concederá mestres de acordo com o Seu próprio coração, e que nós ainda veremos dias, como nunca antes brilharam sobre a Igreja da Escócia, quando os nossos mestres não serão mais retirados a cantos; quando o grande Pastor pessoalmente abençoará o pão, e o dará aos subpastores, e eles hão de oferecer às multidões, e todos comerão, e serão fartos.

 

São Pedro, 12 de Novembro de 1837.


.
__________
♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título original: Christ’s Compassion of the Multitudes.

♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida
♦ Revisão por William Teixeira


A Boa Maneira de Diante do Senhor – Robert Murray M’Cheyne

[Baixe o e-book desse sermão, em formato PDF, clicando AQUI]

“Com que me apresentarei ao Senhor, e me inclinarei diante do Deus altíssimo? Apresentar-me-ei diante dele com holocaustos, com bezerros de um ano? Agradar-se-á o Senhor de milhares de carneiros, ou de dez mil ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto do meu ventre pelo pecado da minha alma? Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?” (Miquéias 6:6-8)

 

Doutrina. A boa maneira de vir diante do Senhor.

A pergunta de uma alma despertada. “Com que me apresentarei ao Senhor?” Um homem não despertado nunca se faz essa pergunta. Um homem natural não tem nenhum desejo de vir diante ou de curvar-se diante de Deus, o Altíssimo. Ele não gosta de pensar em Deus. Ele prefere pensar em qualquer outro assunto. Ele facilmente se esquece o que lhe é dito a respeito de Deus. Um homem natural não tem memória para as coisas Divinas, porque ele não tem coração para elas. Ele não tem nenhum desejo de vir diante de Deus em oração. Não há nada que um homem natural odeie mais do que a oração. Ele preferiria muito mais gastar meia hora todas as manhãs em exercício corporal ou no trabalho duro do que na presença de Deus. Ele não tem nenhum desejo de vir diante de Deus quando ele morre. Ele sabe que deve comparecer diante de Deus, mas isso não lhe traz alegria. Ele preferiria afundar no nada; ele preferia nunca ver o rosto de Deus. Ah! meus amigos, é esta a vossa condição? Quão certamente vocês podem saber que têm “a inclinação da carne é inimizade contra Deus” [Romanos 8:7]. Vocês são como Faraó; “Quem é o Senhor, cuja voz eu ouvirei?” [Êxodo 5:2]. Vocês dizem a Deus: “Retira-te de nós; porque não desejamos ter conhecimento dos teus caminhos” [Jó 21:14]. Oh! que estado terrível é não ter nenhum desejo por Aquele que o manancial de águas vivas!

 

I. Eis a questão que traspassa cada alma despertada.

1. Uma alma desperta sente que sua maior felicidade é vir diante de Deus. Este foi a felicidade de Adão antes da Queda. Sentia-se como uma criança sob o olhar de um pai amoroso. Sua maior alegria era comparecer diante de Deus, ser amado por Ele, ser como um outeiro ao raio de sol, deleitar-se continuamente com a luz do sol de Seu amor, nenhuma nuvem ou véu havia entre os dois. Esta é a alegria dos santos anjos, vir diante do Senhor e se curvarem diante do Deus Altíssimo. Em Sua presença há plenitude de alegria. “Os anjos sempre veem a face de meu Pai” [Mateus 18:10]. A qualquer mensagem de amor eles voam, eles ainda sentem que Seu olhar de amor está sobre eles; esta é a sua alegria diária, a cada hora. Esta é a verdadeira felicidade de um crente. Ouça Davi no Salmo 42: “Assim como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus! A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus?” Ele não está suspirando pelos dons de Deus, nem por Seus favores ou confortos, mas suspirando por Ele mesmo. Um crente anseia por Deus, por vir à Sua presença, por sentir o Seu amor, por sentir-se próximo a Ele em secreto, por sentir no meio da multidão que Ele está mais próximo do que todas as criaturas. Ah! queridos irmãos, vocês já provaram esta bem-aventurança? Há um maior descanso e consolo em uma hora na presença de Deus do que em uma eternidade na presença do homem. Pois estar em Sua presença, de acordo com o Seu amor, sob Seu olhar, é o céu, onde quer que seja. Deus pode te fazer feliz em qualquer circunstância. Sem Ele nada pode te fazer feliz.

2. Uma alma desperta sente dificuldades no caminho. “Com que”, etc. Há duas grandes dificuldades.

(1) A natureza do pecador. “Com que me apresentarei”, e etc. Quando Deus realmente desperta a alma, Ele mostra a vileza e odiosidade de si mesmo. Ele dirige o olho para o interior. Ele mostra-lhe que toda a imaginação de seu coração foi somente má continuamente; que todos os membros do seu corpo, ele tem usado a serviço do pecado; que ele tratou Cristo de uma maneira vergonhosa; que pecou tanto contra a lei quanto contra o amor; que ele manteve a porta do seu coração cerrada contra o Senhor Jesus, até que Sua cabeça ficou cheia de orvalho, e os Seus cabelos das gotas da noite. Oh! irmãos, se Deus já se revelou a vocês, vocês se espantariam que esse pedaço de inferno e pecado tivesse sido permitido respirar por tanto tempo; que Deus houvesse tido paciência com vocês até o dia de hoje. Seu grito será: “Com que me apresentarei ao Senhor?” Embora todo o mundo deva comparecer diante dEle, como eu posso?

(2) A natureza de Deus. “O Deus altíssimo”. Quando Deus realmente desperta a alma geralmente lhe revela algo de Sua própria santidade e majestade. Assim, Ele lidou com Isaías, “Eu vi também ao Senhor assentado sobre um alto e sublime trono; e a cauda do seu manto enchia o templo. Serafins estavam por cima dele… e clamavam uns aos outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória… Então disse eu: Ai de mim! Pois estou perdido” [Isaías 6:1-5]. Quando Isaías viu que Deus era tão grande Deus e tão santo, sentiu-se arruinado. Ele sentiu que não poderia estar na presença de um Deus tão grande. Oh irmãos! vocês já tiveram um vislumbre da alteza e santidade de Deus, de modo a se lançarem aos Seus pés? Oh! ore por tal revelação de Deus, como a que Jó teve: “Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te veem os meus olhos. Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza”. [Jó 42:5-6]. Ai! Temo que a maioria de vocês nunca vão conhecer o Deus com quem terão que tratar, até que vocês estejam culpados e sem palavras diante de Seu grande trono branco. Oh! que vocês orem por uma revelação dEle agora, que vocês possam clamar: “Com que me apresentarei ao Senhor, e me inclinarei diante do Deus altíssimo!?”

(3) A ansiedade da alma desperta a leva perguntar: “Com que?” Ah! esta é uma questão dolorosa. É a pergunta de alguém que tem sido levado a sentir que “uma só coisa é necessária” [Lucas 10:41]. Ele daria qualquer uma de suas posses para obter paz com Deus. Se ele tivesse mil carneiros ou de dez mil ribeiros de azeite ficaria feliz em dar-lhes. Se a vida de seus filhos, os objetos mais queridos nesta terra, pudesse alcançá-la ele iria dá-las. Se ele tivesse mil mundos, ele daria tudo por uma participação em Cristo. Ai de vós que estão à vontade em Sião. Ai daqueles de vocês que nunca se fizeram esta pergunta: “Com que me apresentarei diante do Senhor?”, Ah! tolos que tratam levianamente as coisas eternas! Pobres borboletas, que voam de flor em flor, e não consideram a eternidade escura que está diante de vocês! Prepare-se para encontrar com o teu Deus, ó Israel! Vocês se apressam para a morte e para o julgamento, mas nunca perguntam: Qual veste deve cobrir-me quando eu estiver de pé diante do grande trono branco? Se vocês estivessem indo a comparecer perante um monarca terreno, vocês perguntariam antes, com que devo me vestir? Se vocês estivessem para ser julgados em um tribunal terreno vocês se assegurariam de um advogado. Como é então que vocês se apressam tão rapidamente para o tribunal de Deus, e nunca fazem esta pergunta: Com que me apresentarei? “Se o justo apenas se salva, onde aparecerá o ímpio e o pecador?” [1 Pedro 4:18].

II. A resposta de paz para a alma desperta. “Ele te declarou, ó homem, o que é bom”. Nada do que o homem pode trazer com ele irá justificá-lo diante de Deus. O coração natural está sempre se esforçando para trazer algo para ser um manto de justiça diante de Deus. Não há nada que um homem não faria, nada que ele não sofreria, se ele apenas pudesse cobrir-se diante de Deus. Lágrimas, orações, deveres, reformas, devoções – o coração fará de tudo para ser justo diante de Deus. Mas toda esta justiça é trapo imundo. Pois,

1. O coração permanece numa enorme profundidade de corrupção. Tudo em que esse coração tem qualquer contato está poluído e vil. Estas mesmas lágrimas e orações precisam ser lavadas.

2. Mesmo supondo que esta justiça fosse perfeita, ela não poderia cobrir o passado. Ela tem valia apenas durante o tempo em que foi praticada. Os pecados antigos e os pecados da juventude ainda permanecem descobertos.

Oh! queridos irmãos, se Jesus deverá justificar vocês, Ele deve fazer o que Ele fez com Josué em Zacarias 3:4: “Tirai-lhe estas vestes sujas”; e, “te vestirei de vestes finas”. Somente a mão de Jesus pode tirar suas vestes sujas. Somente a mão de Jesus pode vesti-lo com veste finas.

Cristo é o bom caminho. “Ele te declarou, ó homem”, etc. “Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas” [Jeremias 6:16]”. Cristo é o bom caminho para o Pai. 1. Porque ele é perfeitamente adequado. Ele atende perfeitamente o caso do pecador; para todo o pecado do pecador, Ele tem uma ferida; para cada nudez, Ele tem uma cobertura; para cada vazio, Ele tem uma fonte. Não há temor de que Ele não irá receber o pecador, porque Ele veio ao mundo com o propósito de salvar os pecadores. Não há temor, apenas o Pai se agradará de nós nEle, pois o Pai O enviou, colocou a nossa iniquidade sobre Ele, O ressuscitou dentre os mortos, e lhe encaminha para Ele. “Ele te declarou, ó homem, o que é bom”. 2. Ele é muito livre. “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” [Romanos 5:19]. Assim como a maldição por meio de Adão é extensiva, assim a oferta de perdão por meio de Jesus se estende. Aqui está uma boa notícia para o mais vil dos homens. Você pode estar tão completa e livremente coberto quanto aqueles que nunca pecaram, como você tem feito. “Ele te declarou, ó homem, o que é bom”. 3. Deus é muito glorificado por Ele. Todos os outros “caminhos” de salvação glorificam o homem; mas este Caminho glorifica a Deus, portanto, é bom. Esta é a boa e melhor forma de glorificar ao Cordeiro. O caminho da justiça por Jesus é bom, considerando isso, Jesus recebe todo o louvor. A Ele seja a glória. É por fé para que possa ser pela graça. Se um homem pudesse justificar-se, ou se ele pudesse crer por si mesmo e trazer a justiça de Cristo sobre a sua alma, a este homem seria a glória. Mas quando um homem está morto aos pés de Jesus, e Jesus estende o Seu manto branco sobre ele por livre soberana misericórdia, então Jesus recebe todo o louvor.

Você já escolheu o caminho de ser justificado? Este é o caminho que Deus tem mostrado desde a fundação do mundo. Ele mostrou no cordeiro de Abel, e em todos os sacrifícios, e por todos os profetas. Ele mostra isso, por meio de Seu Espírito, ao coração. Esse bom caminho foi revelado a você? Se sim, você considerará tudo como perda, por causa da sublimidade deste conhecimento. Oh, doce caminho Divino para justificar um pecador! Oh, que todo o mundo soubesse apenas isso! Oh, que víssemos mais disto! Oh, que você pudesse fazer uso disto! “Andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas”.

 

III. As exigências de Deus em relação ao justificado. Quando Jesus curou o homem impotente no tanque de Betesda, disse-lhe: “Eis que já estás são; não peques mais, para que não te suceda alguma coisa pior” [João 5:14]. E, novamente, quando ele cobriu o pecado do adultério em João, Ele disse: “Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais” [João 8:11]. Então, aqui, quando ele mostra o bom caminho da justiça, ele acrescenta: “O que o Senhor pede de ti?”

1. Deus requer santidade de Seus remidos. Se vocês são Seus irmãos, Ele fará de vocês justos e santos.

Primeiro, Ele exige que você pratique a justiça, que seja justo em suas relações com outros homens. Este é um de Seus próprios atributos gloriosos. Ele é um Deus justo. “Não fará o Juiz de toda a terra?” “Ele é a minha rocha e nele não há injustiça” [Salmos 92:15]. Você veio a Ele por Jesus? Ele requer que você reflita a Sua imagem. Você é Seu filho? Então você deve ser como Ele. Oh! irmãos, sejam exatos em suas transações. Sejam como o Seu Deus. Acautelem-se contra a desonestidade, contra a trapaça nos negócios. Acautelem-se de valorizar os seus bens ao venderem, e desvaloriza-los ao comprá-los. “Nada vale, nada vale, dirá o comprador, mas, indo-se, então se gabará” [Provérbios 20:14]. Não será assim entre vós. Deus exige que vocês façam justiça.

Segundo, Ele exige que você ame a benignidade. Esta é um dos mais brilhantes atributos do caráter de Cristo. Se você está em Cristo, beba profundamente do Seu espírito; Deus exige que você seja misericordioso. O mundo é egoísta, impiedoso. Uma mãe não-convertida não é benigna para com a alma de seu próprio filho. Ela pode vê-lo cair no inferno sem piedade. Oh! crueldade infernal a dos homens não-convertidos. Não será assim com vocês. Sede misericordiosos como o vosso Pai celeste é misericordioso.

Terceiro, Ele exige que você ande humildemente com o seu Deus. Cristo diz: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”. Se Deus cobriu todos os seus pecados sombrios, rebeliões, transgressões, desvios, após isto nunca mais abra a boca, exceto em humilde louvor. Deus requer isto de vossas mãos. Ande com Deus, e ande humildemente.

2. Lembre-se este é o propósito de Deus para justificar você. Ele amou a Igreja e Se entregou por ela, para a santificar, purificando-a. Este foi o seu grande propósito, levantar um povo peculiar para servi-lO, e lhe conferir a Sua semelhança, neste mundo e na eternidade. Para isso, ele deixou o céu; Para isso, ele gemeu, sangrou, morreu: para torna-lo santo [...].

3. Tudo o que Ele exige, Ele dá graça para executar. Cristo não somente é o bom como o nosso caminho para o Pai, mas Ele também é a nossa fonte das águas vivas. Fortifica-te na graça que há em Cristo Jesus. Há o suficiente em Cristo para suprir a necessidade de todo o Seu povo. Um velho ministro disse: “uma criança pode levar um pouco de água do mar em suas duas mãos, e pouco assim é o que retiramos de Cristo. Há insondáveis ​​riquezas nEle.

Fortifica-te na graça que está nEle. Viva negando a si mesmo, viva com Ele. Vá e diga a Ele, que posto que Ele requer tudo isso de ti, Ele deve dar-te a graça de acordo com a sua necessidade. O meu Deus, segundo as Suas riquezas, suprirá todas as vossas necessidades em glória, por Cristo Jesus. Ele tem lhe mostrado o que é bom, o próprio justo Emanuel; agora se incline sobre Ele, obtenha vida dAquele que nunca morrerá, obtenha com Ele água viva que nunca secará. Deixe Sua mão segurá-lo no meio das ondas deste mar tempestuoso; deixe Seu ombro levá-lo ao longo dos espinhos deste deserto. Olhe para Ele tanto para a santificação quanto para a justificação.

Assim você caminhará perto de Deus,
Calma e serenidade serão sua Bandeira;
A puríssima luz marcará o caminho
Que leva você ao Cordeiro.

.
__________
♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título original: The Good Way of Coming Before the Lord
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por William Teixeira
♦ Revisão por Camila Almeida


Ide e Fazei Discípulos, Batizando-os… – John Piper

14 novembro de 1982, por John Piper

“E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”. (Mateus 28:18-20)

Eu pensei que a melhor coisa que eu poderia fazer em uma breve meditação, em prepa-ração para o batismo desta manhã seria dar uma exposição simples, direta da passagem em que Jesus nos ordenou batizar.

 

Batismo é Normativa na Comunidade da Igreja

Batismo é um requisito para ser membro da igreja em Bethlehem. A razão para isso é que o Novo Testamento faz do batismo uma parte normativa de tornar-se um Cristão. Jesus disse: “Fazei discípulos… batizando-os”. O que provavelmente poderia ser parafraseado assim: “Eu intenciono como uma parte normativa de tornar-se um discípulo, o ser batizado”. E isso é exatamente o que a igreja primitiva fez. Em Atos 2:41 diz-se que depois do primeiro sermão de Pentecostes de Pedro: “De sorte que foram batizados”. E 25 anos depois, quando Paulo escreveu à igreja em Roma, onde ele nunca esteve antes, ele presumiu que todos os Cristãos foram batizados. Ele disse em Romanos 6:1-3: “Que diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde? De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele? Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?” Em outras palavras, Paulo admite sem qualquer pergunta ou explicação, que todos os crentes em Roma sabiam o que é o batismo e que eles haviam sido batizados, e ele apela para o significado deste batismo como a base de sua instrução ética a todos os Cristãos. Assim, Jesus fez do batismo uma parte normativa de tornar-se um Cristão em Mateus 28:19, e os apóstolos cumpriram isso. É por isso que o batismo é um requisito para ser membro da igreja aqui em Bethlehem.

.

Jesus Tem Todo o Poder

Então, olhemos para o contexto em que Jesus fez esta exigência. Antes de dizer-nos para fazer qualquer coisa por Ele, versículo 19, Ele nos diz o que Ele pode fazer por nós no versículo 18. “É-me dado todo o poder”. “Poder” significa o direito e a autoridade para fazer alguma coisa. Então Jesus quer dizer que Ele tem direito absoluto e todo o poder para fazer o que quiser no céu e na terra. Não há autoridade no céu que pode colocar a vontade de Jesus em questão, e não há poder na terra que pode colocar a vontade de Jesus em questão. E nenhum poder na terra ou no céu pode frustrar a Sua vontade, quando Ele exerce todo o seu poder para alcançá-la. “É-me dado todo o poder”.

Sem esta declaração da autoridade de Jesus, nunca poderíamos nos aventurar com confiança para fazer discípulos. Em que fundamento possível nós temos o direito de dizer a alguém que eles deveriam mudar todo o seu modo de pensar e agir e se tornarem um discípulo de Jesus Cristo? Somente uma coisa poderia justificar tal remoto proselitismo por todo o mundo: que Jesus Cristo ressuscitou dentre os mortos e foi-Lhe dada uma autoridade absoluta sobre as forças naturais e sobrenaturais, de forma que cada ser humano e ser angelical prestarão conta a Ele. Se Jesus tem esse tipo de autoridade, então nós, Cristãos, não apenas temos o direito, mas somos compelidos por amor a dizer às outras pessoas que convertam-se e tornem-se Seus discípulos. E Jesus tem esse tipo de autoridade, ou então, Ele é um enganador ou este livro (a Bíblia) tanto distorce o Seu retrato que não sabemos quem Ele era. Mas, chamar Jesus de um enganador e chamar este Livro de uma distorção são duas acusações injustificadas. Portanto, este Homem tem toda a autoridade no céu e na terra; mais do que o presidente Reagan, mais do que o Sr. Andropov, mais do que o complexo militar-industrial, mais do que todos os presidentes de todas as empresas do mundo juntas. Ele é o soberano absoluto do universo, e de uma forma ou de outra, todo joelho se dobrará a Ele.

E, portanto, notem a palavra no versículo 19, portanto, aqueles que dobram o joelho de fidelidade à Sua autoridade, têm com Ele o direito e o poder de ir e fazer discípulos em todos os lugares. A ordem para ir fazer discípulos não é arbitrária. É razoável. Jesus não disse: “Façam isso porque eu vos disse, e é isso”. Ele disse: “Façam isso porque toda a autoridade é Minha”. Nada é mais razoável e mais amoroso do que pleitear com as criaturas rebeldes sobre Jesus Cristo, para que elas sejam transformadas e deem a sua devoção ao Rei dos reis, que terá a última palavra neste mundo.

 

Sobre Toda a Terra

E observem também no versículo 19, uma vez que a autoridade de Cristo se estende por toda a terra, temos de ir a todas as nações, todas as etnias do mundo. Não existe uma cultura e nenhuma religião além da autoridade de Jesus e, portanto, nenhuma cultura e nenhuma religião além da Grande Comissão. O grande combate para a ortodoxia bíblica na década de 80 será o universalismo, o ensinamento de que todos os homens são salvos se eles confiam em Cristo ou não, ou pelo menos que todas as religiões são caminhos legítimos para a salvação. A tolerância e o pluralismo serão as virtudes mais elogiadas da nossa década. Mas sobre tudo isso, permanece uma Palavra de julgamento na boca de Jesus Cristo: “É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações”. Não Americanismo, não a tecnologia Ocidental, não o capitalismo, mas Jesus Cristo é exaltado sobre todas as culturas e todas as religiões. Com Sua autoridade absoluta, Ele reivindica autoridade absoluta sobre todas as pessoas em todos os lugares. Essa é a base de todas as missões, nacionais e fronteiriças.

 

Discipulado e Morte para o Eu

E observem também no versículo 19 que a nossa missão é a de “fazer discípulos” de Jesus. “Ide e fazei discípulos”. A palavra mais importante que eu acho que Jesus alguma vez disse sobre como se tornar um discípulo foi em Lucas 14:27: “E qualquer que não levar a sua cruz, e não vier após mim, não pode ser meu discípulo”. Carregar uma cruz não significa, principalmente, ter tempos difíceis. Significa ir ao Gólgota. Significa morrer com Cristo, morrendo para as antigas atitudes de inveja, contendas, ciúme, raiva, egoísmo e orgulho; e voltar-se para seguir a Jesus em novidade de vida. Quando fazemos discípulos, ordenamos às pessoas a vir e morrer para seus velhos caminhos destrutivos, e viver para Jesus, que os amou e Se entregou por eles.

 

Batizados na Morte de Jesus

Isso nos leva ao comando para batizar no versículo 19. O significado do batismo se desenvolve a partir deste significado do discipulado. Se tornar-se um discípulo de Jesus significa morrer para sua velha vida e andar em novidade de vida com Cristo, como Jesus ensinou, então é quase inevitável que o ato simbólico desta conversão venha a significar uma morte e ressurreição. E isso é exatamente o que ocorreu. Paulo diz em Romanos 6:3-4: “Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte? De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida. Então, Jesus ordena o batismo como uma parte normativa de fazer discípulos, porque o batismo significa, em uma forma exterior, o que significa tornar-se um discípulo: a morte da auto-confiança e uma nova vida de fé seguindo Jesus.

Quando diz-se no versículo 19 que devemos batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, eu penso que o ponto é que cada membro da Trindade é ativo na conversão que o batismo significa. Quando uma pessoa se torna um discípulo de Jesus, ela se relaciona de uma maneira nova com toda a Divindade. O Pai se torna nosso Pai celestial, o Filho, nosso Senhor, o Espírito nosso capacitador, habitando interiormente. E no ato do batismo, nos submetemos a todos os Três, e nós juramos lealdade a toda a Trindade.

 

Ensinando e Guardando Todos os Seus Mandamentos

O versículo 20 mostra que fazer discípulos significa mais do que alcançar conversões e batismos. “Ensinando-os a guardar”. A conversão e o batismo são essenciais, mas assim é o ensino prolongado do que Jesus ensinou. A nova vida de um discípulo é uma vida de obediência aos mandamentos de Jesus, ou não é uma nova vida de modo algum. É inútil reconhecer o senhorio de Cristo no batismo e depois ignorar Seus mandamentos. Assim, todos os discipuladores devem ser professores e os discípulos devem ser aprendizes contínuos.

Mas ensinar as pessoas a obedecerem a Cristo não é fácil. Obedecer a Cristo em tudo o que Ele ordenou é mais difícil ainda. Isso exige um tremendo poder espiritual. E Cristo foi tão gracioso de modo a deixar-nos com uma palavra de conforto e poder: “eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (v. 20). A razão pela qual essa promessa é repleta com o poder é que a Pessoa que a fez tem todo o poder no céu e na terra (v. 18). Ele não é poderoso e distante. Nem Ele é presente e fraco. Mas Ele está conosco, e Ele é todo-poderoso, para sempre. A Grande Comissão é envolvida em poderosa graça, e assim, nós também o somos.

Enquanto batizamos nesta manhã, dediquemo-nos novamente a obedecer a Jesus e fazer discípulos. Mas vamos fazê-lo, lembrando que somos envolvidos em graça: a promessa da Sua autoridade absoluta e poder, de um lado, e a promessa de Sua constante presença no outro.

.
__________
♦  By John Piper. © 2014 Desiring God Foundation. Website: DesiringGod.org. | Título Original: Go and Make Disciples, Baptizing Them…
♦  Tradução: Camila Almeida

♦  Revisão: William Teixeira


Sobre os Batistas e o Batismo Cristão – John Harvey Grime

[Extraído de Sangue antes da Água, Cristo antes da Igreja, por J. H. Grime]

 O primeiro Batista que este mundo já viu foi comissionado no Céu. “Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João” (João 1:6). Ele veio para preparar um povo prepa-rado para o Senhor (Lucas 1:17). Ele os fez prontos por pregar o arrependimento e fé. (Mateus 3:2, Atos 19:4.) “Para dar ao seu povo conhecimento da salvação, Na remissão dos seus pecados” (Lucas 1:77). E “batizando-os com água” (João 1:31,33). Este que foi especialmente comissionado e enviado do Céu, para o fim especial de preparar um povo, do qual o Senhor construiria a Sua igreja, a Bíblia nos diz, ele era um “Batista”.

Este Batista teve a honra de batizar nosso Senhor (Marcos 1:9), e Ele, o Senhor, foi o fundador e construtor da igreja (Mateus 16:18). Este Batista não apenas batiza a Cabeça e Construtor da igreja, mas ele batizou o material com o qual a igreja foi constituída. Os Apóstolos foram os primeiros estabelecidos na igreja (1 Coríntios 12:28). Isso foi feito em um monte na Galiléia, não muito longe de Carfanaum, há cerca de 32 anos depois de Cristo [...] Em Lucas capítulo 6, você encontrará a organização registrada, com uma lista da membresia e seguida pelo discurso de posse, comumente chamado de “O Sermão do Monte”.

Suponha que um pregador Batista de hoje deve batizar o pregador e uma série de outras pessoas e aquele pregador batizado por um Batista deve tomar as pessoas batizadas por um Batista e constituí-las em uma igreja, que tipo de igreja esta seria? Você disse: uma igreja Batista?

A única pergunta: Aquela igreja constituída por Cristo a partir do material “preparado” por João Batista é existente hoje? E ela existiu através dos tempos a partir de então até o presente momento? Se sim por que nome ou nomes? O mestre disse: “As portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16:18). O profeta disse: “O reino (criado nos dias de Césares) não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos esses reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre” (Daniel 2:44). Paulo disse: “A esse glória na igreja, por Jesus Cristo, em todas as gerações, para todo o sempre. Amém” (Efésios 3:21). Será que Cristo, Daniel e Paulo dizem a verdade? Se sim, então não houve um tempo desde que Cristo primeiro estabeleceu os apóstolos na igreja (1 Coríntios. 12:28), no monte (Lucas 6:13-16), até o presente, senão o que a igreja assim existiu, para dar glória a Deus.

 

Quando você nos distingue…

Pela nossa obra — nós somos Batistas.

Pelas nossas inclinações mentais — nós somos Discípulos.

Por nossas inclinações do coração — nós somos Crentes.

Em nossa relação uns aos outros — nós somos Irmãos.

Em nossa relação com Deus — nós somos Filhos.

Em nossa relação com o Espírito Santo — nós somos Santificados.

Em nossa relação com o Pacto — nós somos Eleitos.

Em nossa relação com Cristo, passivamente — nós somos Redimidos.

Em nossa relação com Cristo, ativamente — nós somos Cristãos.

Em nossa relação com a igreja — nós somos, Família da Fé.

Alegramo-nos com todos esses títulos. Regozijamo-nos também que temos um Deus digno de servir, um Evangelho digno de ser pregado, uma religião digna de desfrutar, um Jesus digno de louvar, um Cristo digno de confiança, um Senhor digno de obediência, uma igreja digna de sustentar.

Belas lições no Batismo Cristão

Nós entramos em Cristo, literalmente, pela criação (Efésios 2:10, 2 Coríntios 5:17; Gálatas 6:15). Nós entramos nEle figurativamente pelo Batismo [...]. Em Gálatas 3:27, começando com o versículo 26. “Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus”. Se acreditarmos na Bíblia, isso resolve para sempre a questão de nossa infância espiritual na fé. A criança que está sendo agora nascido, necessita ser vestida. Por isso, o próximo versículo diz. “Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo”. Nós não vestimos uma criança antes de nascer, nós também não a nascemos por vesti-la. Mas depois que ela nasce, nós a vestimos. Uniformes não fazem um soldado. Mas, depois que ele se torna um soldado esperamos que ele vista o uniforme e entre nas fileiras. Então, quando uma pessoa se torna um filho de Deus pela fé e a nova criação (Gálatas 8:26, Efésios 2:8-10), ela deveria revestir-se em Cristo abertamente ao mundo no batismo e tomar a sua posição com a igreja.

Se nós “cremos em Cristo” estamos descansando na “Rocha Eterna”, o fundamento que não falha. O que mais poderíamos desejar? De que mais precisamos? O caráter da fé [...] é tal que não pode existir, a não ser para “crer em Cristo”, “crer no Cristo”. Não pode haver qualquer fé evangélica além de Cristo como o objeto [...]. Como todos devemos admitir que a fé vem antes do batismo, portanto, o “crente em Cristo”, está realmente nEle, e como uma profissão aberta para o mundo, ele está agora, em símbolo, batizado nEle.

Olhando para trás, o batismo simboliza o sepultamento e ressurreição de nosso Senhor: “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados” (1 Coríntios 15:17).

No presente, ele simboliza a nossa morte para o pecado, e nossa ressurreição para uma nova vida. “De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida. Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição” (Romanos 6:4-5).

No futuro, ele simboliza a ressurreição daqueles há muito sepultados em seus túmulos. “Se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que se batizam eles então pelos mortos?” (1 Coríntios 15:29).

 

“Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo” (1 Pedro 1:5). “E farei com eles uma aliança eterna de não me desviar de fazer-lhes o bem; e porei o meu temor nos seus corações, para que nunca se apartem de mim” (Jeremias 32:40).

Quão belo! Quão consolador! Quem desejaria arrastar esta linda, jubilosa essência, e profunda ordenança prescrita, para o lamaçal do legalismo? Que o Senhor nos ajude, que todos apreciemos a Sua graça abundante, e desfrutemos mais e mais de Suas ordenanças simbólicas.

.
_______
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: Blood Before Water And Christ Before the Church
♦ Tradução: Camila Almeida
♦ Revisão: William Teixeira


A Revisão Revisada – David Kingdon

[Uma Resposta de David Kingdon a uma crítica (“revisão”) feita ao seu Clássico Os Filhos de Abraão, pelo Dr. John R. de Witt]

O artigo a seguir apareceu no Outono de 1977, publicado pela Baptist Reformation Review (Vol 6, Nº 3, pp. 35-42).

A maioria de vocês não leu a revisão de Dr. John R. de Witt sobre o livro de David Kingdon, “Filhos de Abraão”, Carey Publications, Haywards Heath, Sussex, Inglaterra. O artigo de revisão de Dr. de Witt veio a público no inverno de 1975, publicado por West-minster Theological Journal. Esta revisão do artigo de revisão do Dr. de Witt foi publicado em Setembro-Outubro de 1977, distribuído por Reformation Today (Reforma Hoje). Pedimos àqueles que leem Reformation Today, que nos perdoem a duplicação, mas acreditamos que este artigo também deve ser divulgado nos Estados Unidos.

 

A Revisão Revisada

David Kingdon, Pretoria, África do Sul

Não é sempre que um livro de cem páginas recebe uma revisão de dezessete grandes páginas de letras pequenas. Esse tem sido meu privilégio(!). No Inverno de 1975, publicado pela Westminster Theological Journal, Dr. John R. de Witt contribui com um artigo de revisão intitulado “Os Filhos e o Pacto da Graça”, sobre o meu livro “The Children of Abraham” (Os Filhos de Abraão) (Carey Press, 1973).

Certos aspectos de meu livro causam em Dr. de Witt tal angústia que ele sente que é necessário administrar uma repreensão pública a mim. Em especial à minha falta de respeito aos “homens santos e piedosos” (p. 248), equivalente à “leviandade” e descuido a ponto de precisar ser contrariado e repreendido. Dr. de Witt também desafia o meu uso de palavras tais como “exaltação” e “diatribe”. [Diatribe: crítica severa]

 

Críticas Insignificantes

Antes de que eu me arrependa com saco e cinzas, precisa-se verificar se as críticas de De Witt são justificadas. De que maneira eu sou culpado de desrespeito quando eu uso a palavra “exaltação” na seguinte frase: “quase se pode sentir a exaltação do Professor Murray enquanto ele lança o seguinte desafio para os Batistas”? De Witt estabelece o seu caso, para a sua satisfação, com a seguinte declaração: “Qualquer pessoa minimamente familiarizada com o professor John Murray sabe que ele tomaria tal assunto com a maior seriedade, e ele não é um homem que sente exaltação barata enquanto ele estabelece o seu caso. Seu interesse não é de um partidário, mas o da verificação da verdade” (p. 246, itálico feito por mim).

Agora, vejamos o que De Witt fez. Ele inseriu a palavra prejudicial “barata” em seu argumento, o que implica que eu acuso o falecido Professor Murray de abrigar uma emoção indigna. Eu não faço nada do tipo, pois o Breve Dicionário Oxford de Inglês define exaltação como “elevação de espírito decorrente de sucesso” ou “elevação do espírito”, o que é aceito como o uso atual de costume. Ora, não há uma insinuação aqui que exaltação seja uma emoção “barata”. Dr. de Witt também não deixa claro por que um teólogo que tem certeza de seu fundamento, como o professor Murray tinha sobre a questão do batismo, não deve sentir-se exaltado. E como sentir exaltação estabelece que o interesse de um homem é a de um partidário, indiferente quanto à apuração da verdade? Eu sinto exaltação enquanto eu prego as Doutrinas da Graça, precisamente porque elas são verdadeiras. Espero que o Dr. de Witt o faça também.

Dr. de Witt também objeta o meu emprego da palavra “diatribe”, quando eu comento sobre uma citação do livro de Pierre Marcel sobre o batismo. Ele oferece o que ele descreve como a atual definição de uma diatribe como “um discurso amargo ou abusivo”. Ele não especifica a sua origem, mas em resposta eu especificarei a minha. O Breve Dicionário Oxford de Inglês define uma diatribe como “uma tese dirigida contra alguma pessoa ou trabalho; uma crítica amarga e severa, uma invectiva”. Agora, o que eu quis transmitir pela utilização da palavra diatribe foi a primeira parte da definição. Para minha mente, Marcel monta um ataque forte sobre aqueles que, a seu ver, dividem o Pacto. Dr. de Witt escolheu a pior definição possível, a fim de definir a minha observação sob a pior luz possível.

Ele também encontra como questão de queixa que eu digo, em resposta às censuras de Marcel, que os pedobatistas em seus melhores momentos, ou seja, quando eles não estão defendendo o batismo infantil, falam de uma participação exterior e interior na aliança, acrescentando que “não há outra interpretação que faça sentido”. De acordo com De Witt, eu deveria ter dito que não há outra interpretação que faça sentido para mim. No entanto, ele ignora a nota de rodapé na página 37, em que cito Thomas Shepard, um pedobatista convicto, no sentido de “que muitos dos que estão dentro, ou em relação interior à aliança, os filhos do diabo, são exteriormente, ou em relação exterior à aliança, filhos de Deus”. Posso assegurar De Witt que muitas dessas declarações de semelhante significação poderiam ser citadas a partir dos escritos de teólogos reformados. Todavia, mais ao ponto, pode Witt desenvolver uma interpretação de Gálatas 4:21-31, que negue a existência de uma participação externa bem como interna na Aliança, e que não faça sentido? Ambos, Ismael e Isaque receberam o rito da circuncisão, mas só Isaque partici-pou interiormente das bênçãos da aliança. Até que ele o possa, De Witt não deve se opor onde eu digo que “não há outra interpretação que faça sentido”.

Também preocupa De Witt, que eu fale de “menor denominador comum” abordando toda a questão da unidade dos Cristãos. Ele escolheu me interpretar no sentido de que eu pen-so levianamente sobre a unidade que existe entre irmãos reformados tanto de convicções Batista e não-batistas. Eu não acho nada do tipo. Meu comentário foi dirigido contra aqueles que pensam fazer avançar a causa da unidade por encobrir certas diferenças. Estes que eu especifico em uma frase que Witt evita citar, como sendo sobre a doutrina da Igreja, e os sujeitos e modo de batismo (p. 13).

Eu, portanto, dificilmente acho que uma leitura honesta do meu comentário levaria De Witt a concluir que: “Ao falar assim de nossa unidade essencial, Kingdon desferiu um golpe, e não contra a unidade entre o verdadeiro povo de Deus, mas para a desunião, e, nessa medida, ele fez desserviço à Igreja como um todo e para o seu próprio parentesco em particular (p. 241)”. Deixe-me fazer a De Witt a seguinte pergunta: será que ele está preparado para ser membro de uma igreja que permita que seus membros, no funda-mento da caridade cristã, escolham entre o batismo infantil ou o batismo dos crentes? entre uma doutrina da Igreja que exclui os filhos dos crentes, como tal, ou a doutrina da Igreja que os inclua? Eu suspeito que não, porque as convicções de consciência de De Witt são tão profundas quanto as minhas, e ele reconhece que as nossas diferenças impedem o gozo de plena unidade eclesiástica.

De Witt também confessa sentir “algo parecido com consternação” que eu “afirmo a existência de uma tradição Batista Calvinista, como se isso possuísse uma individualidade muito própria e fosse auto-originada e autossustentável” (p. 241). Eu presumo que De Witt está ciente de que existem Batistas arminianos que creem que a única tradição teológica da história Batista é o Arminianismo. Certamente ele gostaria que eles fossem iluminados! Além disso, seus antecessores teológicos não têm sido lentos para lançar o epíteto “Anabatistas” indiscriminadamente a todos os Batistas, sejam reformados ou de outra forma. Nem tinham alguma hesitação ensinar que os “Anabatistas” deviam ser condenados à morte por praticar o batismo de crentes. À luz desses fatos, acho que eu posso ser perdoado se eu afirmo a existência de uma tradição Batista especificamente Calvinista. No entanto, eu desafio De Witt a produzir um fragmento de evidência de meu livro que prove que eu considero a tradição Batista Calvinista como possuindo uma individualidade muito própria e que é auto-originada e autossustentável. Estou muito feliz em reconhecer nossa dívida para com a teologia reformada em geral, mas eu não vejo como tal dívida diz contra a existência de uma distinta tradição Batista Calvinista. Isso não mais fala contra a existência de uma tradição do que o significado do termo “Presbiterianos Sulistas” diz contra a existência de uma tradição distinta dentro do Presbiterianismo nos Estados Unidos.

É uma pena que eu tive que gastar tanto tempo com assuntos de menor importância (e melhor poderia ter sido gasto), mas infelizmente, muito da revisão de De Witt é tomada com críticas destrutivas do tipo que eu já mencionei. Portanto, muito do que me parece resultar de sua tentativa de estabelecer o que eu descreveria como uma cortina de fumaça teológica que esconde o seu fracasso, de modo geral, no enfrentamento das principais disputas de meu livro.

 

Críticas Principais

Venho agora para as principais críticas De Witt ao meu livro. Elas são duas. Em primeiro lugar, ele afirma que eu me contradigo ao afirmar, por um lado, que “a circuncisão pode relativamente ser considerada a contraparte do Antigo Testamento, em relação ao batismo cristão” (p. 29), enquanto de outro, que eu insisto que a circuncisão e o batismo não têm o mesmo significado (pp. 33-34). De acordo com De Wit, assim, eu tiro com uma mão o que concedi com a outra. E, ainda que aflige a ele dizer isso, estou na triste companhia daqueles “que empregam a terminologia da fé Cristã histórica”, mas “em vez derramar um conteúdo inteiramente novo, satisfaço-me em palavras antigas, de modo que, finalmente, nada mais resta do que era inicialmente pretendido”.

Em segundo lugar, De Witt argumenta que porque eu nego que os filhos dos crentes, como tais, já não têm significância pactual, segue-se que eu nego que Deus opera ao longo das linhas de gerações, e que, portanto, eu sou culpado, por fim, de manter o velho atomismo de uma doutrina puramente individualista da conversão. Ele acha significante que eu tratasse o assunto do batismo, sem uma única referência às passagens familiares, e ele vê essa omissão como prova de minha “incapacidade de ver o princípio do pacto, o princípio orgânico da obra de Deus por meio de linhas de gerações” (p. 254).

Analogia entre a Circuncisão e Batismo

Que há uma analogia entre a circuncisão e o batismo eu sustento no segundo capítulo, contra aqueles que, por vários motivos, negam que exista. Então, eu estou feliz em dizer que “é evidente que o batismo tem significado próximo ao significado simbólico da circuncisão” (p. 29). Mas, tendo feito assim, eu prossigo a dizer que “agora temos de investigar o significado preciso e importância desta analogia” (p. 29). Depois de examinar Gênesis 17:1-14 e passagens do Novo Testamento que interpretam a circuncisão, aponto que tanto a promessa da nova aliança (Jeremias 31:31-34) e o batismo de João indicam que o princípio da conexão do nascimento foi revogado. (Se a minha omissão das passagens familiares é significativa para De Witt, o seu silêncio sobre o que eu tenho a dizer a respeito do batismo de João é ainda mais significativo).

É claro que De Witt pensa que porque eu admito que há uma analogia entre a circuncisão e o batismo, há ali, portanto, uma identidade de significado entre os dois ritos, e, assim, os bebês devem ser batizados, pois bebês eram circuncidados sob a antiga dispensação. Tivesse De Witt lido o meu livro com mais cuidado do que ele parece ter feito, ele teria visto na página 45 uma rejeição à noção de que é possível falar de “uma analogia entre o batismo e a circuncisão em termos de identidade completa”. Em outras palavras, para usar a linguagem filosófica, eu nego que entre circuncisão e batismo exista uma relação unívoca. Ao contrário, eu afirmo que há uma relação analógica, ou seja, que o significado espiritual da circuncisão, enquanto levado para o batismo, é muito transcendido por este.

Por que De Witt mantém uma identidade entre a circuncisão coma um batismo, ele argumenta que os filhos dos crentes devem ser batizados. Defendo o contrário, que isso não é assim. A circuncisão tinha, como o batismo não tem, uma referência física e nacional (veja página 31). Como tal, foi administrada para a geração orgânica, porque, no Antigo Testamento, o status da aliança era passado de geração em geração por nascimento físico. No entanto, na dispensação do Novo Testamento, esse não é mais o caso, pois é somente os que são de Cristo, que são descendentes de Abraão (Gálatas 3:29). Em outras palavras, o status da aliança agora depende da união com Cristo.

Patrick Fairbairn aponta para a diferença na situação entre as dispensações do Antigo e Novo Testamento:

A diferença na forma exterior em cada caso, era condicionada pelas condições do tempo. Na circuncisão ela diz respeito à propagação da descendência, como se fosse através da produção de uma semente da bênção que o pacto, na sua forma preparatória, deveria alcançar a sua realização. Mas quando a semente nesse sentido alcançou o seu ponto culminante em Cristo, e os objetos do pacto não eram mais dependentes da propagação nacional da semente, mas deveria ser conduzida por meios espirituais e influências utilizadas em conexão com a fé de Cristo, a ordenança externa foi adequadamente alterada, de modo a expressar simplesmente uma mudança de natureza e estado no indivíduo que a recebeu. Sem dúvida, a forma do Novo Testamento desconhece distintamente a ligação entre pais e filhos; deveríamos dizer, em si mesma não reconhece esta ligação em absoluto; tal deveria ser francamente admitido por quem desaprova a prática do batismo infantil, e, ser aceito por todos, cujo objetivo é apurar a verdade, em vez de lutar por uma opinião. (Patrick Fairbairn: A Tipologia da Escritura, edição Oliphants, 1953, Vol 1, pp. 313-314, itálicos meus, exceto o último).

Para ser justo com Fairbairn, deve-se salientar que ele prossegue em argumentar o caso de batismo de infantes, alegando que “seria estranho se a liberdade… de ter filhos deles trazidos por uma ordenança de iniciação, sob o vínculo da aliança, não pertencesse aos pais sob o Evangelho” (p. 315). No entanto, ele conclui que “uma vez que esta é uma questão de inferência ao invés de promulgação positiva, aqueles que não se sentem justificados para fazer tal aplicação do princípio da ordenança do Antigo Testamento para o Novo, devem, sem dúvida, ser autorizados à sua liberdade de pensamento e ação…”. (p. 315). Agora, a questão-chave que Fairbairn expõe é esta: Se a circuncisão “diz respeito à propagação da descendência”, porque a partir dela surgiria “a semente da benção”, em que o pacto “em sua forma preparatória, deveria atingir a sua realização”, então, o princípio da aplicação do sinal e selo do pacto para bebês foi destinado a ser transportado para a era da nova aliança? Ou, para colocar a questão de outra forma:

A aplicação do sinal e selo para infantes sob a antiga dispensação foi fundada em um princípio permanente do pacto da graça, ou foi considera em um aspecto típico daquela nova dispensação? Se o primeiro for o caso, podemos esperar algum paralelo na nova dispensação, mas, se for o último, então não pode haver nenhuma suposição prévia de que a prática será transferida para a nova dispensação. (Stuart Fowler: Batismo Cristão. Uma Resposta Reformada a um Pedobatismo Reformado, Baptist Reformed Publications, Macleod West, Victoria, Australia, 1968, p. 12).

Dr. de Witt simplesmente assume que a aplicação do sinal e selo para crianças sob a antiga dispensação está fundada em um princípio permanente do pacto da graça. Assim, por exemplo, ele diz que “há certamente algo de muito errado e muito confuso sobre a contenda de que, juntamente com uma parte do que foi prometido (a terra de Canaã) uma parte daqueles a quem toda a promessa foi feita também alcance ao longe (os filhos pequenos dos crentes)” (p. 251). No entanto, a questão que De Witt não enfrenta é esta: Se parte do que foi prometido tinha um significado típico, não teria a descendência de Abraão um significado típico também?

É minha disputa que o princípio de aplicar o sinal do pacto da circuncisão em crianças do sexo masculino (um ponto não suficientemente considerado na apologética pedobatista) foi de significação típica, e, portanto, já não continua em vigor sob a nova dispensação.

Algumas das evidências de que a descendência de Abraão teve um significado típico são as seguintes. Primeiro, a circuncisão foi administrada ao órgão masculino da geração, apontando para o fato de que a promessa incluía a propagação de uma semente natural eleita para ser o portador dos oráculos de Deus, e da qual surgiria o Redentor. Que o sinal do pacto não foi administrado a crianças do sexo feminino, nem a eunucos, apoia esta interpretação. Em segundo lugar, o apóstolo Paulo afirma claramente que a descendência de Abraão tem um significado típico quando ele declara que, antes de tudo, é Cristo a semente que está em vista: “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo” (Gálatas 3:16). A consequência que se segue é que todos que são de Cristo, unidos com Ele no pacto eterno da redenção, e manifestos por uma fé salvadora, são abraçados dentro da semente da aliança (Gálatas 3:29, Romanos 4:13-16; Romanos 9:8).

Na aliança feita com Abraão “a herança eterna, espiritual de uma semente espiritual eleita foi representada na forma típica a partir de uma semente natural eleita a quem foi concedida, uma herança terrena temporal. Foi com base em uma tal relação típica que o sinal e selo do pacto foi aplicado, e não em qualquer prova de pertencimento à semente espiritual, apenas a todos aqueles que pertenciam à semente típica, natural” (Stuart Fowler, obra citada, p. 12).

Quando Cristo, a substância, surgiu, a necessidade de representar uma semente espiri-tual esperando uma herança espiritual sob o tipo da semente natural esperando uma herança temporal, se foi. Como consequência, a circuncisão, o sinal externo e selo da aliança feita com Abraão, não era mais apropriado, e assim foi abolida. No entanto, existe uma outra consequência, e isso é fundamental para todo o debate. Se foi o objetivo do pacto Abraâmica expor sob a forma típica de uma semente natural eleita, a semente espiritual de quem as bênçãos espirituais da aliança da graça pertencem, então seria de esperar que, quando o sinal da nova aliança, o batismo, foi introduzido, a estipulação de que o mesmo seja aplicado àqueles que estão em uma relação natural com o povo da aliança seria abandonada, e que a partir de então, seria aplicado a todos aqueles que, ao exibirem as evidências da fé salvadora, são presumidos ser da semente de quem a aliança agora pertence propriamente.

A interpretação que o apóstolo Paulo dá ao conceito de “descendência de Abraão” estabelece o princípio de que a ordenança do batismo agora deve ser aplicada apenas para aqueles que mostram evidências críveis de estar em união com Cristo, pois somente aqueles em união com Ele são descendência de Abraão (Gálatas 3:29). Conclui-se, portanto, que seria fora de harmonia com o caráter da nova dispensação manter uma conexão natural de uma característica típica, como um pré-requisito para agora conceder o sinal e selo do batismo. Essa ligação foi apropriada para a antiga dispensação, mas não é apropriada a nova. O que não é necessário é um pré-requisito que mais clara e diretamente representa o caráter espiritual da aliança, a relação típica para a qual por tanto tempo apontou. O Novo Testamento não nos deixa dúvida de que tal não é outra além de uma profissão crível da fé em Cristo.

 

Linhas de Gerações

Resta agora avaliar a segunda maior crítica de De Witt. Desde que eu sustento que os filhos, como tais, já não têm significância pactual, segue-se, de acordo com De Witt, que eu nego que Deus opera ao longo das linhas de gerações, e que, portanto, eu sou culpado, por fim, de manter uma doutrina puramente individualista da conversão.

Esse tipo de crítica é frequentemente utilizado contra os Batistas, às vezes com justificativa. Mas ela é justificada, no meu caso? Creio que não. Pergunto ao Dr. de Witt, por que a lógica se segue que negar a inadequação de administrar o batismo a infantes é também negar que Deus opera ao longo das linhas de gerações? Eu acredito que Deus continua a operar, embora não exclusivamente, ao longo das linhas de gerações, mas eu falho em ver o porquê eu, ao rejeitar o batismo de infantes, sou obrigado a negar que Deus opera em famílias. Isso não se segue, mais do que se segue a partir da negação da Ceia do Senhor a infantes (que é a prática Reformada usual) que a solidariedade da família é controvertida. Se o Dr. de Witt sente (como eu suponho que ele sente) que aos infantes deve ser negada a Ceia do Senhor, até que eles façam uma profissão de fé confiável, sem ver isso como envolvendo uma negação de que Deus opera ao longo das linhas de gerações, por que ele argumenta que, quando o batismo é negado aos infantes, pela mesma razão, não é necessariamente implícita a afirmação de que Deus não opera ao longo de linhas de gerações? Este ponto é o mais convincente em que as crianças Israelitas (Êxodo 12:26-27; cf. Deuteronômio 6:20ss) participavam da Páscoa, como crianças Judias fazem hoje. Se o argumento da solidariedade familiar é válido no caso do batismo infantil certamente ele deve ser bom no caso da administração da Ceia do Senhor aos infantes, como um recente escritor Reformado tem visto claramente.

Um dos grandes argumentos antipedobatistas sempre foi aquele de que o raciocínio admitiria as crianças à comunhão, que é uma conclusão a que os pedobatistas resistem, assim, colocando em questão as suas próprias premissas. A isto respondemos que nós não resistimos à conclusão de todo, mas totalmente admitimos que, por princípio, admitimos todos os batizados à Santa Comunhão. (Ensaios Evangélicos sobre Igreja e Sacramentos, ed. Colin Buchanan, S. P. C. K., Londres, 1972, p. 58).

Buchanan apreciou o que poucos teólogos Reformados parecem ser capazes de compreender, ou seja, se a solidariedade da família é um motivo para não negar o batismo às crianças, é também um motivo para não negar-lhes a participação à Ceia do Senhor também.

Outro ponto surge. Se por, não praticar o batismo infantil, sendo um Batista Reformado eu fiquei com a “mesma concepção atomista” (p. 252), como aquilo contra o que eu protesto no início de meu livro: a recusa De Witt de permitir a comunhão infantil não é também baseada em um conceito atomista e individualista de conversão? Eu aponto isso simplesmente para ilustrar o quão cuidadoso Dr. de Witt deve ser antes de lançar tais termos como “individualista” e “atomística”, para sugerir que todo o pensamento corporativo está do seu lado e todo o individualista do meu!

Dr. de Witt vê grande importância no fato de que eu não lidar com os chamados “batismos de famílias” registrados no Novo Testamento. Isso ele interpreta como mais uma prova da minha “incapacidade de ver o princípio do pacto, o princípio orgânico de Deus operando através de linhas de gerações” (p. 254). Isso não é, de fato, nada do tipo. Eu simplesmente não compartilho a confiança dele que os batismos de famílias provam o seu caso. Nisso, é claro, eu não estou sozinho, nem isso é apenas uma conclusão confessional com os Batistas de um lado e os que não são Batistas, por outro, como De Witt bem sabe. A controvérsia bem conhecida entre Kurt Aland e Joachim Jeremias, a anterior disputa contra a relevância dos batismos de famílias para o batismo infantil, e a último desta, é resumida por um recente escritor Anglicano da seguinte forma: “Jeremias e Cullman [sic] de um lado e Aland e Beasley-Murray, por outro têm sido ferozmente travados em luta sobre esta questão em particular, de forma que a maioria de nós pode ser perdoada se reagirmos dizendo que seja quem estiver mais correto, claramente tiveram que provar um caso muito difícil, a partir de evidência altamente discutível” (Neville Cryer: Por que rito? Batismo Infantil em uma Situação Missionária, A.R. Mowbry e colaboradores, Londres, 1969, p. 56).

Assim, o Dr. de Witt não está em um terreno tão forte quanto ele acha, quando ele dá a impressão de que os “batismos de famílias” do Novo Testamento provam o seu caso.

Salvação infantil

Finalmente, o Dr. de Witt fala com uma confiança sobre a salvação dos filhos de crentes que, deve ser salientado, não é de forma alguma compartilhada por todos aqueles que sustentam a prática do batismo infantil. Os filhos são “os objetos especiais do amor pactual de Deus”, com a implicação, a partir da citação de Salmos 103:17-18, e em Atos 2:39, que todos serão salvos. Mas se há duas sementes de Abraão, o protótipo pai crente, como pode haver tanta certeza? Pode De Witt mostrar que existe agora, apenas uma semente eleita a partir de pais Cristãos? Deus agora revogou o princípio de que a partir do pai dos crentes existe uma descendência dupla, filhos da carne e filhos da promessa? Se sim, onde no Novo Testamento nós o encontramos revogado? E se não está revogado, então, com base no argumento De Witt sobre o silêncio, isso deve ainda ser considerado continuar em vigor, com a consequência de que a sua certeza está equivocada.

Vale ressaltar que Herman Hoeksema, um valente defensor do batismo infantil, não compartilha da confiança do Dr. de Witt sobre a salvação de todos os filhos de crentes que morrem na infância. Em sua discussão sobre a questão, ele afirma o seguinte:

Em razão do fato de que o Senhor estabelece Sua aliança na linhagem de sucessivas gerações, os crentes confessam em gratidão ao Senhor que Ele os considera dignos de levar adiante a verdadeira semente da aliança. Esta semente da aliança, no entanto, não consiste de todas as crianças que nascem deles, mas apenas dos filhos da promessa. Certo é, que os crentes também trazem outra semente. Agora, neste lado da morte e a sepultura, laços carnais podem chamar-nos, de modo que dizemos que queremos ver todos os nossos filhos salvos, e não desejamos que a nossa própria carne e sangue se perca. Mas, em última análise, também a este respeito os justos devem viver a sua fé, e não a partir de sua carne… Com objetiva certeza, portanto, não há nada mais a ser dito sobre as crianças que morrem em sua infância do que o Senhor salva sua descendência de nossa semente (Herman Hoeksema: Crentes e Sua Descendência, Reformed Free Publishing Association, Grand Rapids, 1971, pp. 157-158).

Devo concluir esse comentário expressando meu lamento que o Dr. de Witt achou conveniente traçar um paralelo entre os que professam aceitar a terminologia da fé Cristã histórica, apenas, em vez derramar um conteúdo inteiramente novo em velhas palavras, e meu próprio tratamento dos conceitos de teologia pactual. De alguém que professa se preocupar com a unidade dos irmãos Reformados tal acusação é condenável, assumindo isso como sendo desonestidade deliberada de minha parte, que coloca entre parênteses meus argumentos com os truques de confiança intencionais de muitos modernos “re-intérpretes” da fé Cristã. Só podemos expressar a sensação de choque e tristeza que tal acusação foi permitida aparecer em tão respeitável publicação como a Westminster Theological Journal.

 

Conclusão Interessante por Teólogo Radical

Em seu último livro, “The Church in the Power of the Spirit” [A Igreja no Poder do Espírito, de Harper and Row], Jurgen Moltmann faz uma sugestão muito controversa. Diz a revista Time: “Em um aspecto da doutrina, Moltmann chegou a uma conclusão radical para um teólogo nutrido em uma igreja estatal. Ele argumenta que o batismo infantil deveria ser extinto porque significa vinculos com a ‘família, nação e sociedade’ tanto quanto a identi-ficação de uma pessoa com Cristo. A igreja, segundo ele, deve batizar apenas aqueles que ‘confessam a sua fé’. Se Moltmann houvesse adicionado total imersão em água, um Batista do Sul teria se sentido em casa” (09 de maio de 1977).

.
__________
♦  Fonte: SearchingTogether.org | Título Original: A Review Reviewed

♦  Tradução: Camila Almeida
♦  Revisão: William Teixeira


Quão Antigo o Batismo Infantil é? – John Piper

06 de maio de 1997 por John Piper
Série: Artigos Provai e Vede

A primeira menção explícita de “batismo” infantil na história da igreja é do pai da igreja na África, Tertuliano, que viveu cerca de 160 D.C a cerca de 220. Ele nasceu em Cartago, estudou em Roma para uma carreira legal e foi convertido ao Cristianismo por volta de 195. Ele foi o primeiro teólogo Cristão a escrever em latim e exerceu influência significativa através de suas obras apologéticas.

A obra, de batismo (A respeito do batismo) foi escrita, evidentemente, entre 200 e 206. Nele Tertuliano questiona a sabedoria em conceder o batismo às crianças. Ele diz:

De acordo com a condição e disposição de todos, e também sua idade, o adiamento do batismo é mais proveitoso, especialmente no caso de crianças pequenas. Pois, por que é necessário – se [o próprio batismo] não é necessário – que os responsáveis sejam empurrados ao perigo? Pois eles podem tanto falhar em sua promessa com a morte, ou podem ser confundidos a comprovarem tratar-se de uma criança de disposição perversa [...] Aqueles que compreendem o peso do batismo antes temerão o recebimento do mesmo, do que o adiamento dele. Uma fé íntegra é segurança de salvação! (Do Batismo, cap. XVIII).

O que vemos aqui é a primeira testemunha explícita do batismo infantil que não assume que ele é um mandamento [no sentido de ser algo entregue]. Em outras palavras, na virada do século III ele não é um tido por garantido, como ele é 200 anos mais tarde, quando Santo Agostinho aborda o assunto. Tertuliano fala como alguém falaria se a prática estivesse em disputa, possivelmente como um desenvolvimento mais recente.

Quando olhamos para o Novo Testamento, o mais parecido com o batismo infantil que encontramos é a referência a três “famílias” que estão sendo batizadas. Em 1 Coríntios 1:16, Paulo diz: “E batizei também a família de Estéfanas; além destes, não sei se batizei algum outro”. Em Atos 16:15, Lucas relata sobre a nova convertida, Lídia, “E, depois que foi batizada, ela e a sua casa, nos rogou, dizendo: Se haveis julgado que eu seja fiel ao Senhor, entrai em minha casa, e ficai ali. E nos constrangeu a isso”, e em Atos 16:33, Lucas nos diz que depois do terremoto na prisão de Filipos, o carcereiro “E, tomando-os [Paulo e Silas] ele consigo naquela mesma hora da noite, lavou-lhes os vergões; e logo foi batizado, ele e todos os seus [familiares]”.

É significativo que em relação à família do carcereiro de Filipos, Lucas relata em Atos 16:32, pouco antes de mencionar o batismo da família do carcereiro, “E [Paulo e Silas] lhe pregavam a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa”. Esta parece ser a forma de Lucas dizer que ouvir e crer na palavra é um pré-requisito para o batismo. Toda a casa ouviu a palavra e toda a família foi batizada. Em qualquer caso, não existe qualquer menção a lactentes em qualquer um destes três exemplos de batismos de casas, e é um argumento do silêncio dizer que ali deve ter havido crianças pequenas. Seria como dizer que aqui em Bethlehem, a referência à casa de Ross Anderson, Don Brown, Dennis Smith, David Michael ou David Livingston, ou dezenas de outras devem incluir crianças, e elas não incluem.

No entanto, a partir desses textos, Joachim Jeremias, que escreveu um dos livros mais influentes na defesa do batismo infantil, concluiu: “É característico que Lucas poderia relatar o assunto assim. Pois assim fazendo, ele dá expressão ao fato de que “a solidariedade da família no batismo e não a decisão individual do membro singular ‘foi a consideração decisiva’” (Batismo Infantil nos Primeiros Quatro Séculos, 1960, p. 23, citando Oscar Cullman, Batismo no Novo Testamento, 1950, p. 45). Eu prefiro dizer que todo o fluxo do Novo Testamento, e muitos ditos particulares, é na direção oposta: é precisamente o indivíduo em sua relação com Cristo, que é decisivo no Novo Testamento, ao invés de solidariedade na carne. “Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” (Romanos 9:8).

Pastor John

.
__________
♦ By John Piper. © 2014 Desiring God Foundation. Website: DesiringGod.org. | Título Original: How Old Is Infant Baptism?
♦ Tradução: Camila Almeida

♦ Revisão: W. Teixeira


O Batismo Infantil e a Comunidade da Nova Aliança – John Piper

1. Em todas as ordens e exemplos de batismo no Novo Testamento, o arrependimento e fé precedem o batismo.

Atos 2:37-38, 41:

37 “E, ouvindo eles isto, compungiram-se em seu coração, e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, homens irmãos? 38 E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo… 41 de sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas”.

2. Não há casos de batismo de infantes na Bíblia.

E sobre batismos de casas (Atos 16:15, 33, 1 Coríntios 1:16)?

Este é um argumento extraído a partir do silêncio, a saber, que bebês foram incluídos nessas três ocasiões. Além disso, em Atos 16:30-33 Lucas aponta que a Palavra de Deus foi anunciada a todos aqueles que foram batizados, isso sugerindo que nenhuma criança, mas somente aqueles que poderiam ouvir a Palavra, foram batizados.

Atos 16:30-34:

30 “E, tirando-os para fora, [o carcereiro] disse: Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar? 31 E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa. 32 E lhe pregavam a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa. 33 E, tomando-os ele consigo naquela mesma hora da noite, lavou-lhes os vergões; e logo foi batizado, ele e todos os seus. 34 E, levando-os à sua casa, lhes pôs a mesa; e, na sua crença em Deus, alegrou-se com toda a sua casa”.

3. Batismo é descrito por Paulo como uma expressão de fé.

Colossenses 2:11-12:

11 “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, pela circuncisão de Cristo; 12 Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos”.

Assim, o batismo é uma expressão de fé, e a ressurreição com Cristo, que acontece no batismo, ocorre em virtude do batismo ser uma expressão de fé, o que infantes não podem desempenhar.

4. Batismo é descrito por Pedro como um apelo a Deus pela pessoa que está sendo batizada.

1 Pedro 3:18-21:

18 “Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito; 19 No qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão; 20 Os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água; 21 Que também, como uma verdadeira figura, agora vos salva, o batismo, não do despojamento da imundícia da carne, mas da indagação de uma boa consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo”.

Batismo salva no sentido de que é a expressão externa de um apelo interior a Deus, e não como um mero ritual em água. Ele salva da forma que a confissão dos lábios salva em Romanos 10:9, na medida em que a confissão dos lábios é uma expressão da fé do coração.

Mas, e sobre o sinal do pacto feito com os filhos de Israel na Antiga Aliança?

Gênesis 17:7-10:

7 “E estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência depois de ti em suas gerações, por aliança perpétua, para te ser a ti por Deus, e à tua descendência depois de ti. 8 E te darei a ti e à tua descendência depois de ti, a terra de tuas peregrinações, toda a terra de Canaã em perpétua possessão e ser-lhes-ei o seu Deus. 9 Disse mais Deus a Abraão: Tu, porém, guardarás a minha aliança, tu, e a tua descendência depois de ti, nas suas gerações. 10 Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós, e a tua descendência depois de ti: Que todo o homem entre vós será circuncidado”.

Catecismo de Heidelberg:

[Crianças de pais Cristãos] assim como os adultos, pertencem à aliança e à igreja de Deus [...] Assim as crianças, por meio do batismo como sinal da aliança, devem ser enxertadas na igreja de Cristo e distinguidas dos filhos dos incrédulos. Na velha aliança isso era feito pela circuncisão, que, na nova aliança, foi substituída pela instituição do batismo. [ Fonte: Heidelberg-Catechism.com]

Diretriz de Westminster para o Culto Público Deus:

A semente e a posteridade dos fiéis nascidos dentro da Igreja têm por seu nascimento uma participação na aliança e direito ao selo dela e aos privilégios externos da igreja sob o evangelho, não menos que os filhos de Abraão, no tempo do Velho Testamento…

Por que o batismo não é administrado aos filhos de pais Cristãos na Nova Aliança, como a circuncisão era administrada aos filhos de pais Judeus na aliança anterior?

5. Porque os membros da Nova Aliança não são definidos por descendência física, como eram os antigos membros da aliança, mas pela vontade de Deus, escrevendo Sua Lei em seus corações e chamando-os para Si mesmo e conduzindo-os ao arrependimento e à fé.

De acordo com esta delimitação do povo da aliança àqueles que são verdadeiramente nascidos de Deus, o novo sinal da aliança deve significar que uma pessoa é de fato parte dessa comunidade de regenerados da aliança, que é evidenciado pela fé.

Da mesma forma que uma mudança no sinal veio permitir que ambos, homens e mulheres, participem do sinal (o batismo em vez de circuncisão), tornando-o mais claro do que antes que mulheres e homens são iguais herdeiros da salvação (1 Pedro 3:7), assim também uma alteração nos receptores do sinal veio tornar mais claro que sob a Nova Aliança, o povo de Deus não é determinado em absoluto por descendência física, mas pela transformação espiritual, evidenciada na fé.

5.1. João Batista conclamou ao batismo aqueles que já possuíam o sinal da aliança, mostrando que um novo significado estava sendo dado ao sinal; já não apontando para a descendência física de Abraão, mas sim para a descendência espiritual, através da fé e do arrependimento.

Mateus 3:7-9:

7 “E, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? 8 Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; 9 E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão”.


5.2.
Jesus confirmou o ministério de João e definiu os filhos de Deus não como aqueles que nasceram de certos pais, mas os nascidos de Deus por meio da fé.

João 1:12-13:

“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”.

5.3. Paulo esclareceu que os filhos de Abraão, a quem a promessa foi feita, não eram os nascidos segundo a carne, mas os nascidos de acordo com a promessa. Os filhos da promessa e filhos da carne não são os mesmos.

Romanos 9:6-8:

6 “Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas; 7 Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. 8 Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência”.

Gálatas 3:6-7:

6 “Assim como Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. 7 Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão”.

5.4. Os filhos a quem a promessa é feita são os filhos que são “chamados”, e o chamado de Deus é livre e não vinculado a nenhuma família física.

Atos 2:39:

“Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar”.

.
__________
♦ By John Piper. © 2014 Desiring God Foundation. Website: DesiringGod.org. | Título Original: Infant Baptism and the New Covenant Community
♦ Tradução: Camila Almeida

♦ Revisão: William Teixeira


Uma Terra Muito Boa – Robert Murray M’Cheyne

[Baixe o e-book desse sermão, em formato PDF, clicando AQUI]

“E falaram a toda a congregação dos filhos de Israel, dizendo: A terra pela qual passamos a espiar é terra muito boa. Se o Senhor se agradar de nós, então nos porá nesta terra, e no-la dará; terra que mana leite e mel.” (Números 14:7-8)

Quando os filhos de Israel chegaram à fronteira da terra prometida, Moisés, sob a ordem de Deus, enviou doze homens para espiar a boa terra. Eles a espiaram por 40 dias, de um lado para o outro, e depois voltaram, trazendo um cacho de uvas, carregado por dois homens em uma vara, colhido do fecundo Vale de Escol. Mas dez dos espias trouxeram um mau relatório da terra. O terreno, segundo eles, era bom; mas os habitantes eram gigantes, e as cidades fortificadas até aos céus; e a conclusão que chegaram foi: “Não poderemos subir contra aquele povo, porque é mais forte do que nós” (versículo 31).

Josué e Calebe sozinhos tentaram acalmar o povo. Eles não negaram que os homens eram altos, e que as cidades eram fortificadas; mas apontaram para a coluna de nuvem, para responder a todas as objeções: “O Senhor está conosco”, e subjugaremos o povo tão facilmente como nós comemos pão. “A terra pela qual passamos a espiar é terra muito boa”.

Doutrina: Se Deus agradar-Se em uma alma, ele a trará para a boa terra.

.
I. Mostrar quem são aqueles em quem Deus Se deleita.

1. Deus não tem prazer na alma natural. “Se tu, Senhor, observares as iniquidades, Senhor, quem subsistirá?” [Salmos 130:3]. “Porque tu não és um Deus que tenha prazer na iniquidade, nem contigo habitará o mal”. [Salmos 5:4]. “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal” [Habacuque 1:13]. “Ó Deus, tu matarás decerto o ímpio”. Os filhos de Eli não deram ouvidos à voz de seu pai; porque o Senhor os queria matar. É a própria natureza de Deus o odiar e se afastar daquilo que é pecaminoso. Uma pessoa com um bom ouvido para a música não pode deliciar-se com algo desafinado e dissonante. É impossível em sua própria natureza. Assim, é impossível em Deus o deleitar-se em um pecador deliberado. Uma pessoa coberta com o pecado é totalmente contrária à natureza de Deus; e, portanto, quando os pecadores deliberados e Deus se encontrarem no julgamento, Deus não terá misericórdia, nem cederão os Seus olhos. Ele dirá: “Amarrai-o de pés e mãos, levai-o, e lançai-o nas trevas exteriores” [Mateus 22:13].

Oh! Vocês que se cobrem de pecado, pensem nisso. Vocês que estão descobertos aos olhos de Deus, preparem-se para encontrar o seu Deus. Como vocês entrarão na presença de alguém que abomina o pecado, quando Ele colocar os seus pecados mais secretos à luz de seu rosto, quando Ele trouxer à luz todas as obras ocultas das trevas, quando vocês darão conta de toda palavra torpe? Ah! Onde vocês aparecerão?

2. Ele Se deleita em alguém aspergido com o sangue de Cristo. Quando um pecador merecedor do inferno é iluminado no conhecimento de Cristo, quando ele crê no testemunho que Deus deu a respeito de Seu Filho, e com alegria consente que o Senhor Jesus seja seu Fiador, em seguida, o sangue de Cristo é, por assim dizer, aspergido sobre essa alma. Quando Arão e seus filhos foram separados para o sacerdócio, o sangue do cordeiro foi colocado sobre a ponta da orelha direita deles, e o dedo polegar da sua mão direita, e no dedo polegar do seu pé direito, para significar que eles foram mergulhados no sangue da cabeça aos pés; por isso, quando Deus olha sobre uma alma em Cristo, Ele a vê mergulhada no sangue do Salvador. Ele olha para a alma como tendo sofrido tudo o que Cristo sofreu; portanto, Ele Se deleita naquela alma. Seu senso de justiça é satisfeito. Deus tem um senso infinito de justiça. Seus olhos contemplam todas as coisas igualmente; agora, quando Ele vê o sangue de Seu Filho aspergido sobre qualquer alma, Ele vê que a justiça teve sua plena satisfação naquela alma, que os pecados desse homem foram mais plenamente punidos do que se ele mesmo os tivesse suportado eternamente.

Seu senso de misericórdia está satisfeito. Ele Se deleita na benignidade. Mesmo quando a justiça esteve clamando: “Ó Deus, tu matarás decerto o ímpio” [Salmo 139:19], Sua misericórdia estava anelando pelos pecadores, e Ele providenciou o resgate. E agora, quando o pecador se apegou ao resgate, a misericórdia é derramada em perdão. Deus Se deleita na misericórdia; Ele Se deleita em perdoar a alma. É doce notar como Jesus Se agrada em perdoar os pecados. Na mulher que lavou os Seus pés, como ele parece insistir nisso! “Os seus muitos pecados lhe são perdoados” [Lucas 7:47]. E mais uma vez Ele disse a ela: “Os teus pecados te são perdoados” [v. 48]; e de novo, pela terceira vez: “Vá em paz” [v. 50]. E assim Deus ama perdoar: “Há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende” [Lucas 15:10].

Um convite aos pecadores trementes a virem a Jesus. Alguns de vocês estão tremendo sob um sentido de estarem expostos à ira de Deus. Qual dos Seus mandamentos você não quebrou? Seu caso é de fato sombrio, seus medos são mui justos e razoáveis; e se você percebesse a sua condição totalmente, eles seriam dez mil vezes maiores. No entanto, aqui há uma fonte aberta para o pecado e a impureza. Se você apenas estiver disposto a vir ao Senhor Jesus, você não precisa manter-se mais por mais nenhum momento fora do favor de Deus. Você vê quão completamente seguro você estaria, se você tomasse deste sangue. Um Deus justo e misericordioso Se deleitará em você, para perdoar-te. É totalmente em vão que você tente a sua justiça própria; ela nunca fará com que Deus Se deleite em você, pois são trapos imundos diante dos Seus olhos, mas o sangue da expiação, o sangue do Cordeiro, fala de paz.

3. Deus Se deleita no santificado. Vocês se lembram, no livro do Apocalipse, quantas vezes Jesus diz: “Eu conheço as tuas obras”. Ele o diz com deleite, no caso de Esmirna: “Conheço as tuas obras, e tribulação, e pobreza (mas tu és rico)” [Apocalipse 2:9]. Quando Deus traz uma alma até Cristo, faz dela uma nova criatura; em seguida, Deus ama a nova criatura. Assim como quando Deus fez o mundo, ele viu tudo o que Ele havia feito, e agradou-Se, pois tudo era muito bom: assim, quando Deus faz uma nova criação no coração, Deus se deleita nele. Ele diz que tudo é muito bom.

Objeção. Minhas graças são todas imperfeitos. Elas não me agradam, como elas podem agradar a Deus? Eu não posso fazer as coisas que eu gostaria.

Resposta. Tudo isso é verdade; contudo, Deus ama a Sua obra na alma. Seu Espírito ora por você, vive em você, se move em você. Deus ama o trabalho de Seu próprio Espírito. Assim como você gosta das flores de seu próprio plantio, como você ama a um lugar em que você investiu muito, assim Deus ama os Seus filhos, e não por qualquer coisa deles mesmos, mas pelo que Ele tem feito por eles e neles. Eles são comprados por um alto preço, Ele os comprou com Seu próprio sangue. Ele os rega a cada momento, para que nada os prejudique; Ele os guarda de noite e de dia, e como Ele pode fazer qualquer outra coisa senão amá-los? Ele ama o lugar onde habita o Seu Espírito. Assim como Deus amou o templo: “Este é o meu repouso para sempre; aqui habitarei, pois o desejei” [Salmos 132:14], não por qualquer bem nele, mas porque era o lugar de Seus pés; porque Ele tinha feito tanto por ele; assim Deus ama os Seus Cristãos, somente porque Ele habita neles, e tem feito muito por eles. Assim como foi com a vara de Arão: era uma vara seca, como qualquer outra vara; mas Deus a fez brotar, e florescer renovos, e produzir amêndoas; e, portanto, Ele a fez ser guardada no santo dos santos. Assim, um cristão é uma árvore seca; mas Deus o faz dar frutos, e ama a obra de Suas próprias mãos. Caros cristãos, andem segundo o Espírito, e agradem a Deus mais e mais. Ele salva os contritos de espírito. Seu semblante contempla reto: “Eu amo aqueles que me amam” [Provérbios 8:17].

.
II. Deus trará todo o Seu povo para a glória. Há muitas dificuldades no caminho. (1) Assim foi com Israel. As cidades eram fortificadas e muito grandes; os habitantes eram gigantescos e fortes; eles caíram diante deles como gafanhotos. (2) Assim é com os filhos de Deus: eles têm muitos e grandes inimigos: o diabo e seus anjos, uma vez que o mais brilhante e o mais elevado das inteligências criadas, agora é o grande inimigo das almas. Ele está contra o cristão. O mundo está cheio de gigantes, todos opostos aos filhos de Deus. As perseguições dos ímpios, as seduções do prazer, estes são grandes inimigos no caminho. Há desejos gigantes no coração: a concupiscência dos elogios, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos, a soberba da vida. Diante destes a alma se sente como um gafanhoto, sem força: “Não poderemos subir contra aquele povo, porque é mais forte do que nós”.

Argumento. Se Ele Se agradar de nós, Ele nos fará entrar nessa terra. Ele é capaz: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” [Romanos 8:31]. (1) Deus é mais forte que Satanás. Satanás não é nada em Sua mão. É mais fácil para Deus esmagar Satanás debaixo dos nossos pés, do que para vocês esmagarem uma mosca. Deus é infinitamente mais forte do que Satanás. Satanás não pode impedir Deus de levar-nos à glória, além do que uma mosca pode, a qual vocês esmagam com o pé. “E o Deus de paz esmagará em breve Satanás debaixo dos vossos pés” [Romanos 16:20]. “Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” [Tiago 4:7]. (2) Mais forte do que o mundo. O mundo muitas vezes vem ao nosso encontro como homens armados; mas se Deus é por nós, quem será contra nós? “São eles nosso pão” [Números 14:9]. É tão fácil superar toda a oposição quando Deus está conosco, como a um homem com fome o comer pão. Foi Deus quem cingiu Ciro, embora ele não O conhecia. Assim, Ele ainda faz: os homens do mundo são uma vara na mão de Deus. Deus o coloca desta ou daquela maneira, para cumprir toda a Sua vontade; e quando Ele a cumprir, Ele os quebrará em pedaços, e os lançará no fogo. “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma” [Mateus 10:28]. Oh! Cristão, se você vive pela fé, você pode viver uma vida feliz! (3) Mais forte do que o nosso próprio coração. Há muitas Jericós em nosso próprio coração, fortificadas até aos céus, muitas fortalezas do pecado, muitas concupiscências gigantes que ameaçam nossas almas. “Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?” [Romanos 7:24]. “Se o Senhor se agradar de nós, então nos porá nesta terra”. Pela fé as muralhas de Jericó caíram depois de rodeadas por sete dias. Deus fez os muros de Jericó caírem por terra, por um simples sopro de vento, um ruído; assim Ele ainda é capaz. Acomodem isso em seus corações; não há Jericó em seus corações, que Deus não seja capaz de fazer cair em um momento. Vocês já viram um pastor carregando uma ovelha em seu ombro; ele se depara com muitas pedras no caminho, muitos espinhos, muitos córregos; ainda assim, a ovelha não sente nenhuma dificuldade; ela é carregada acima de tudo. Assim é com toda a alma que se rende a Deus: a única dificuldade é repousar em Seu ombro.

Aplicação para os jovens Cristãos. Vejam onde reside a vossa santificação: em Deus: “Porque em ti está o manancial da vida” [Salmos 36:9]. “A vossa vida está escondida com Cristo em Deus” [Colossenses 3:3. Sua santidade não depende de vocês, mas dEle. É uma lição difícil de aprender, que vocês não podem santificar a si mesmos, que vocês não podem superar estes gigantes, e escalar estas muralhas. Vocês aprenderam uma lição de humildade, que vocês não têm nenhuma justiça; que nada que vocês tenham feito ou farão, vos justificará. Agora, aprendam outra humilhante lição: que, mesmo quando perdoados, vocês não têm força. É a mais humilhante de todas as coisas: repousar, como uma ovelha, em Seus ombros; mas, oh! Isso é doce. Sejam como a vara de Arão, uma vara seca em si, até que Ele vos faça brotar, e florescer, e frutificar. Diga como Efraim: “Eu sou como a faia verde”, e ouçam Ele dizer: “de Mim é achado o teu fruto” [Oséias 14:8].

Para os Cristãos caídos. Alguns de vocês podem ter caído em pecado. O motivo foi apenas este: vocês se esqueceram de onde sua força residia. Não foi a força da paixão nem a força de Satanás, nem a sedução do mundo que vos fez cair, foi a incredulidade; vocês não repousaram em Sua mão.

Para os Cristãos idosos. Vocês chegaram à fronteira da terra prometida, e ainda assim, seus inimigos parecem gigantes, e as cidades fortificadas até aos céus, e vocês se sentem como um gafanhoto. Ainda assim, se o Senhor Se agradar de vocês, Ele os guardará no amor de Deus. Aquele que vos salvou da boca do leão, e das garras do urso, lhes poupará da mão deste Filisteu. Confiem em Deus até o fim.

Mesmo no vale da sombra da morte, olhem para trás, para todos os seus livramentos; olhem para todos os Ebenézers que vocês elevaram, e digam:

Depois de tanta misericórdia passada,
Podes Tu deixa-me naufragar, por fim?

.
__________
♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título original: An Exceeding Good Land
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida
♦ Revisão por William Teixeira


Homens em seu Estado Caído – John Newton

[Baixe o e-book desse sermão, em formato PDF, clicando AQUI]

Ouvimos falar muito nos dias de hoje sobre a dignidade da natureza humana. É bem verdade que o homem era uma excelente criatura quando ele saiu das mãos de Deus; mas se considerarmos esta questão, tendo em vista o homem caído, como depravado pelo pecado, como podemos nos juntar com o salmista, em nos admirarmos que o Grande Deus possa lembrar-se dele?

Caído como o homem está de seu estado de original felicidade e santidade, suas faculdades e habilidades naturais constituem prova suficiente de que a mão que o fez é Divina. Ele é capaz de grandes coisas. Sua compreensão, vontade, afeições, imaginação e memória são faculdades nobres e surpreendentes. Mas ao vê-lo sob uma luz moral, como um ser inteligente, incessantemente dependente de Deus, responsável diante dEle, e designado por Ele para um estado de existência em um mundo imutável; considerando esta relação, o homem é um monstro, uma criatura vil, baixa, estúpida, obstinada e maliciosa; não há palavras para descrevê-lo por completo. O homem, com toda sua inteligência e realizações alardeadas, é um tolo; enquanto ele está destituído da graça salvadora de Deus, a sua conduta, como a suas preocupações mais importantes, são as mais absurdas e inconsistentes, então, que idiota mais cruel; com relação às suas afeições e objetivos, ele se degrada muito abaixo das bestas; e pela malignidade e maldade de sua vontade, não pode ser comparado a nada tão adequadamente quanto com o diabo.

A questão aqui não é sobre este ou aquele homem, um Nero ou um Heliogábalo, mas sobre a natureza humana, toda a raça humana, com exceção dos poucos que nascem de Deus. Há de fato uma diferença entre os homens, mas é devida às restrições da Divina Providência, sem a qual a terra seria a própria imagem do inferno. Um lobo ou um leão, enquanto acorrentado, não pode fazer muito mal, como se fossem soltos, mas a natureza é a mesma em toda a espécie.

A educação e a preocupação, o medo e a vergonha, as leis humanas, o poder secreto de Deus sobre a mente, se combinam para formar muitas personalidades que são externamente decentes e respeitáveis; e até mesmo os mais abandonados estão sob uma restrição que os impede de manifestar uma milésima parte da maldade que está em seus corações.

Mas o próprio coração é universalmente enganoso e desesperadamente corrupto.

O homem é um tolo. Ele pode realmente medir a terra e quase contar as estrelas; ele é rico em artes e invenções da ciência e da política; e deverá então ele ser chamado de tolo? Os pagãos antigos, os habitantes do Egito, Grécia e Roma, foram eminentes neste tipo de sabedoria. Eles são até hoje estudados como modelos por aqueles que visam a excelência em história, poesia, pintura, arquitetura e outros esforços do gênio humano, que são adequados para polir as maneiras, sem melhorar o coração. Mas os seus filósofos mais admirados, os legisladores, os lógicos, oradores e artistas eram tão destituídos como loucos ou crianças daquele único conhecimento que merece o nome de verdadeira sabedoria. Dizendo-se sábios tornaram-se loucos (Romanos 1:22). Ignorantes a respeito de Deus, mas conscientes de sua própria fraqueza e da sua dependência de um poder acima dos seus próprios, e estimulados por um princípio interior de medo, do qual não conheciam nem a origem nem a aplicação correta, eles adoraram a criatura em vez do Criador, sim, colocaram a sua confiança em madeira e pedras, nas obras das mãos dos homens, em vaidades e quimeras. Uma familiaridade com a sua mitologia, ou fábulas religiosas se passa conosco, por um ramo considerável de aprendizagem, porque ele é desenhado a partir de livros antigos, escritos em línguas não conhecidas pelo vulgo; mas no ponto de certeza da verdade, podemos receber tanta satisfação de uma coleção de sonhos quanto a partir de dos delírios de lunáticos. Se, portanto, admitimos estes sábios admirando-os como uns espécimes toleráveis ​​de humanidade, não devemos confessar que o homem, em sua melhor condição, porém estando inteiramente sem a instrução do Espírito de Deus, é um tolo? Mas será que somos mais sábios do que eles? Nem um pouco, até que a graça de Deus nos faça assim. Nossas vantagens superiores mostram apenas a nossa loucura de uma forma mais marcante. Por que todas as pessoas são contadas como ​​tolos? Um tolo não tem bom senso; ele é regido totalmente pelas aparências, e prefere um casaco fino em relação às escrituras de uma grande propriedade. Ele não considera as consequências. Tolos às vezes ferem ou matam os seus melhores amigos, e pensam não terem feito mal nenhum. Um tolo não pode raciocinar, pois os argumentos são inúteis para ele. Ao mesmo tempo, se amarrado com uma palha, ele não ousa se mexer; em outro momento, talvez, ele dificilmente seja persuadido a se mover, embora a casa estivesse pegando fogo. São estas as características de um tolo? Então, não há tolo como o pecador, que prefere os brinquedos da terra à felicidade do céu, que é mantido em cativeiro pelos costumes do mundo, e tem mais medo das ameaças do homem, do que da ira de Deus.

Mais uma vez, o homem em seu estado natural é uma besta, sim inferior aos animais que perecem. Em duas coisas ele se assemelha fortemente aos animais: em olhar não para nada mais elevado do que a gratificação sensual, e no espírito de egoísmo o leva a considera a si mesmo e ao seu interesse próprio como seu adequado e mais alto fim; entretanto em muitos aspectos, ele afunda, infelizmente, abaixo deles. As paixões não naturais e a falta de afeição natural para com os seus descendentes são abominações não encontradas entre a criação irracional. Que diremos das mães destruindo seus filhos com suas próprias mãos, ou do ato horrível de suicídio!? Semelhantemente, homens são piores do que animais em sua obstinação; eles não tomarão advertência. Se um animal foge de uma armadilha ele será cauteloso para não se aproximar dela novamente, e em vão se estende a rede à vista de qualquer ave, porém o homem, embora seja muitas vezes repreendido, endurece a cerviz e corre em direção à sua própria ruína com os olhos abertos, e pode desafiar a Deus em sua face e expor-se à condenação.

Mais uma vez, vamos observar como o homem se assemelha ao Diabo. Há pecados espirituais e estes, em sua proeminência, a Escritura nos ensina a julgar o caráter de Satanás. Cada característica nesta descrição é um forte traço no homem; por isso, então o que o Senhor disse aos Judeus é de aplicação geral: “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai” [João 8:44]. O homem se assemelha a Satanás em orgulho; esta criatura fraca e estúpida valoriza-se quanto à sua sabedoria, poder e virtude, e falará sobre ser salvo por suas boas obras; mas se ele pode, o próprio Satanás não precisa se desesperar. Ele se assemelha a ele em malícia, e desta disposição diabólica muitas vezes procede o assassinato, e isto aconteceria diariamente se o Senhor não o restringisse. Ele deriva de Satanás, o espírito de ódio e inveja. Ele é frequentemente atormentado além do que se pode expressar por contemplar a prosperidade de seus vizinhos; e proporcionalmente satisfeito com suas calamidades, embora ele não obtenha nenhuma outra vantagem com isso além da gratificação deste princípio rancoroso. Ele expressa a imagem de Satanás em sua crueldade. Esse mal está ligado, até mesmo ao coração de uma criança. A disposição para ter o prazer de provocar dor nos os outros aparece muito cedo. Crianças, se deixadas a si mesmas, desde cedo sentem prazer em torturar insetos e animais. Que miséria é que a crueldade gratuita de homens inflige a galos, cães, touros, ursos e outras criaturas, a ponto de aparentarem não terem sido formados para nenhum outro fim senão para deleitarem os seus espíritos selvagens com seus tormentos! Se formamos nosso julgamento dos homens quando eles parecem mais satisfeitos, e não tendo nem raiva nem ressentimento para pleitear sua desculpa, é demasiado evidente, mesmo na natureza de suas diversões, quem eles são e a quem servem; e eles são os piores inimigos uns dos outros. Pense nos horrores da guerra, na ira dos de duelistas, nos morticínios e assassinatos com que o mundo está cheio, e então diga: “Senhor, que é o homem?” [Salmo 144:3]. Além disso, se o engano e a traição pertencem ao caráter de Satanás, então certamente o homem se assemelha ele. Não é a observação universal, e queixa de todas as idades, um comentário feito a respeito das palavras do profeta: “Não creiais no amigo, nem confieis no vosso guia; daquela que repousa no teu seio, guarda as portas da tua boca, pois cada um caça a seu irmão com a rede” [Miquéias 7:5, 2]. Quantos neste momento têm motivos para dizer com Davi: “As palavras da sua boca eram mais macias do que a manteiga, mas havia guerra no seu coração: as suas palavras eram mais brandas do que o azeite; contudo, eram espadas desembainhadas” [Salmos 55:21]. Mais uma vez, como Satanás, os homens estão ansiosos em tentar outros a pecar; não contentes em condenar a si mesmos, eles empregam todas as suas artimanhas e influência para seduzir tantos quantos eles possam a lhes seguirem para a mesma destruição. Por fim, na oposição direta a Deus e à bondade, na inimizade e desprezo ao Evangelho de Sua graça, e em um espírito de perseguição e amarga para com aqueles que o professam, o próprio Satanás dificilmente pode excedê-los. Aqui, na verdade, eles são seus agentes e servos voluntários; e porque o próprio Deus bendito está fora de seu alcance, eles trabalham para mostrar o seu despeito por Ele na pessoa de Seu povo.

Eu desenharei mais alguns contornos da imagem do homem caído, pois oferecer uma cópia exata dele, que possuísse cada aspecto do seu pleno agravamento de horror, e pintá-lo como ele é, seria impossível. Muito já foi observado para ilustrar a propriedade da exclamação: “Senhor, que é o homem?”, talvez alguns dos meus leitores possam negar ou atenuar este peso, e podem pleitear que não tenho descrito a humanidade, mas somente alguns dos mais depravados que mal merecem o nome de “homens”. Mas eu já tenho me precavido contra essa exceção. É a natureza humana que descrevo; e os indivíduos mais vis e perdulários não podem pecar além dos poderes e limites desta natureza que eles possuem em comum com o mais benigno e moderado. Embora possa haver uma diferença na fecundidade das árvores, no entanto, a produção de uma maçã, determina a natureza da árvore que a gerou, tão certamente como se tivesse produzido mil maçãs, assim, no presente caso, se admitimos que estas extravagâncias não são encontradas em todas as pessoas, isso seria suficiente confirmação do que eu antecipei, porém elas podem ser encontrados em qualquer um; a menos que pudesse também ser provado, que os que pareceram mais perversos do que outros, são de uma espécie diferente do restante. Mas eu não preciso fazer esta concessão, devem ser verdadeiramente insensíveis aqueles que não sentem dentro de si algo tão contrário às nossas noções comuns de bondade, como se quisessem talvez, antes submeterem-se a ser banidos da sociedade humana, a serem compelidos a estarem de boa fé ao desvelar cada pensamento e desejo que surgem nos corações de seus companheiros criaturas.

A natureza do homem caído corresponde à descrição que o apóstolo nos deu de sua sabedoria orgulhosa: é terrena, animal e diabólica [Tiago 3:15]. Tentei esboçar alguns aspectos gerais disto nas palavras anteriores; mas o auge de sua maldade não pode ser adequadamente estimado, a menos que nós consideramos suas atuações com relação à luz do Evangelho. Os Judeus eram extremamente perversos no momento da aparição de nosso Senhor sobre a terra, mas ainda assim é dito deles: “Se eu não viera, nem lhes houvera falado” (João 15:22), isto é, a luz e a força do Seu ministério os privou de toda desculpa para continuar no pecado, esta foi a ocasião de mostrar a sua malícia, da maneira mais agravada; e todos os seus outros pecados eram apenas provas ténues do verdadeiro estado do seu coração, se comparado com a descoberta que fizeram de si mesmos, por sua oposição pertinaz a Ele. Neste sentido, o que o apóstolo tem observado em relação à lei de Moisés, pode ser aplicado ao Evangelho de Cristo: Ele foi introduzido para que o pecado abundasse [Romanos 5:20]. Se quisermos calcular a toda a extensão da depravação humana e os efeitos mais fortes que ela é capaz de produzir, devemos selecionar nossos casos a partir da conduta daqueles a quem o Evangelho é conhecido. Os índios, que assam seus inimigos vivos, dão provas suficientes de que o homem é bárbaro para sua própria espécie; o que pode também ser facilmente demonstrado, sem ir tão longe de casa; mas a pregação do Evangelho descobre a inimizade do coração contra Deus de modos e graus de que selvagens ignorantes e pagãos não são capazes.

Pelo Evangelho, agora eu quero dizer não apenas a doutrina da salvação, uma vez que se encontra na Sagrada Escritura, mas a pregação pública e oficial desta doutrina que o Senhor Jesus Cristo tem comissionado aos Seus verdadeiros ministros; que, tendo sido eles mesmos, pelo poder da Sua graça, transportados das trevas para a maravilhosa luz, pelo seu Espírito Santo, capacitados e enviados para declarar aos seus companheiros pecadores sobre o que viram, sentiram e provaram da palavra da vida. Sua comissão é exaltar o Senhor somente, e denegrir a soberba de toda a vanglória humana. Eles devem expor o mal e o demérito do pecado, o rigor, a espiritualidade e a sanção da lei de Deus e a apostasia total da humanidade; e a partir dessas premissas demonstrar a absoluta impossibilidade de escapar da condenação do pecado por quaisquer obras ou empreendimentos de sua autoria; e, em seguida, proclamar a salvação plena e livre do pecado e da ira, pela fé no nome, sangue, obediência e mediação do Deus manifestado na carne; juntamente com uma denúncia da miséria eterna a todos os que irão finalmente rejeitar o testemunho que Deus deu de Seu Filho. Embora estes vários aspectos da vontade de Deus em relação aos pecadores, e outras verdades em conexão com eles, sejam claramente revelados e repetidamente incutidos na Bíblia; e que a Bíblia é encontrada em quase todas as casas, no entanto vemos, de fato, que ela é um livro selado, pouco lido, pouco compreendido, e, portanto, ainda menos considerado, exceto nos lugares que o Senhor se agrada de favorecer ministros que podem confirmar essas pessoas a partir de sua própria experiência, e que, por um senso de seu amor constrangedor e do valor das almas, estão motivados em fazer um fiel cumprimento de seu ministério e uma grande coisa pelas suas vidas; estes não visam adquirir riquezas, mas promover o bem-estar de seus ouvintes; são igualmente indiferentes às carrancas ou sorrisos do mundo; e não amam as suas vidas, contanto que possam ser sábios e bem sucedidos em ganhar almas para Cristo.

Quando o Evangelho, neste sentido da palavra, em primeiro lugar chega a algum lugar, embora as pessoas estejam vivendo em pecado, pode ser dito que elas pecam por ignorância; eles ainda não foram avisados ​​do perigo. Alguns estão bebendo a iniquidade como a água; outros mais sobriamente enterrando-se vivos nos cuidados e negócios do mundo; outros encontram um pouco de tempo para o que eles chamam de deveres religiosos e perseveram nisto apesar de serem estranhos à natureza ou ao prazer da adoração espiritual; em parte, eles pensam em barganhar com Deus e compensar tais pecados visto que eles não optam por abrir mão destes; e em parte porque gratifica o seu orgulho, e lhes proporciona (como pensam) alguma base para dizer: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens” [Lucas 18:11]. A pregação do Evangelho declara a vaidade e o perigo desses caminhos nos quais os pecadores escolhem. Ele declara, demonstra que embora pareçam diferentes dos outros eles estão igualmente distantes do caminho da segurança e da paz, e todos tendem para o mesmo desfecho: a destruição daqueles que persistem neles. Ao mesmo tempo em que se acautelam contra esse desespero no qual os homens seriam de outra forma mergulhados quando são convencidos de seus pecados, revelando o imenso amor de Deus, a glória e a graça de Cristo, e convidando todos a virem a Ele, para que possam obter perdão, vida e felicidade. Em uma palavra, isso mostra o abismo do inferno sob os pés dos homens, e abre a porta, e aponta o caminho para o céu. Vamos agora observar brevemente os efeitos que o Evangelho produz em quem não o recebe como o poder de Deus para a salvação. Estes efeitos são diversos, assim como os temperamentos e circunstâncias variam; mas todos eles podem nos levar a adotar a exclamação do Salmista: “Senhor, que é o homem?”

Muitos dos que ouviram o Evangelho, uma ou algumas vezes, não irão mais ouvi-lo; ele desperta seu desprezo, o ódio e raiva. Eles derramam desprezo sobre a sabedoria de Deus, desprezam sua bondade, desafiam o seu poder; e eles próprios parecem expressar o espírito dos Judeus rebeldes, que disseram ao profeta Jeremias em sua face: “Quanto à palavra que nos anunciaste em nome do Senhor, não obedeceremos a ti” [Jeremias 44:16]. Os ministros que pregam o Evangelho são contados como os homens que põem o mundo de cabeça para baixo; e as pessoas que o recebem, como tolos ou hipócritas. A palavra do Senhor é um fardo para eles, e eles a odeiam com um ódio perfeito. Quão fortemente a disposição do coração natural é manifestada pela confusão que muitas vezes ocorre nas famílias onde o Senhor se agrada em um ou dois daquela casa, enquanto o restante permanece em seus pecados! Professar, ou mesmo ser suspeito disso, ou aderir ao Evangelho de Cristo, é frequentemente considerado e tratado como o pior dos crimes, suficiente para anular os vínculos mais fortes da relação ou amizade. Os pais, após tal provocação, odiarão os seus filhos, e os filhos ridicularizarão seus pais; muitos concordam com a declaração de nosso Senhor, que a partir do momento em que um sentido do Seu amor tem envolvido seu coração para amá-lO mais uma vez, seus piores inimigos foram aqueles de sua própria casa; e que aqueles que expressaram o maior amor e carinho para com eles antes de sua conversão, agora dificilmente podem suportar vê-los.

A maior parte do povo, talvez continue a ouvir, pelo menos de vez em quando; e para aqueles que o fazem, o Espírito de Deus em geral, em um momento ou outro, é um testemunho para a verdade: as suas consciências são atingidas, e por algum tempo eles creem e tremem. Mas qual é a consequência? Nenhum homem que tomou veneno procura mais intensamente ou rapidamente um antídoto, do que estes buscam fazer alguma coisa para abafar e sufocar suas convicções. Eles buscam as companhias para beber ou para qualquer outra coisa, buscando alívio contra a intrusão indesejável de pensamentos graves; e quando eles conseguem recuperar sua antiga indiferença, eles se alegram, como se tivessem escapado de algum grande perigo. O próximo passo é ridicularizar as suas próprias convicções; e junto a isso, se percebem algum conhecido com as impressões que ele teve, usam todas as artimanhas e empregam todos os esforções, para que possam torná-los tão obstinados como eles mesmos. Para este propósito, eles espreitam como um passarinheiro ao passarinho, lisonjeiam ou injuriam, tentam ou ameaçam; e se eles podem, prevalecem, e se são a ocasião de “endurecimento de qualquer um em seus pecados” eles se regozijam e triunfam como se considerassem isso como seu próprio interesse e a sua glória, a saber, ver a ruína das almas de seus semelhantes.

Por ouvirem frequentemente o Evangelho eles recebem mais luz, e são compelidos a saber, quer queiram que não, que a ira de Deus paira sobre os filhos da desobediência. Eles levam uma picada em suas consciências, e, por vezes, sentem-se os mais miseráveis, e não podem, mas gostariam que nunca tivessem nascido, ou que fossem cães ou sapos, ao invés de criaturas racionais. No entanto, eles se endurecem ainda mais. Eles se determinam a serem feliz e estarem sossegados, se obrigam a usar um sorriso enquanto a angústia está presa em seus corações. Eles blasfemam o caminho da verdade, por ver as falhas dos professos, e com uma alegria maliciosa publicam suas falhas e os ofendem. Eles veem, talvez, como o ímpio morre, mas não ficam alarmados; eles veem o justo morrer, mas não são comovidos. Nem providências, nem ordenanças, nem misericórdias, nem julgamentos podem pará-los, pois eles estão determinados a prosseguir e morrer com os olhos abertos, ao invés de se submeterem ao Evangelho.

Porém nem sempre eles rejeitam abertamente as verdades do Evangelho. Alguns que professam aprova-las e recebê-las, por este meio descobrem os males do coração do homem, se possível, em uma luz ainda mais forte. Eles fazem de Cristo um ministro do pecado, e transformam a Sua graça em libertinagem. Como Judas, eles dizem: “Eu te saúdo, Rabi!” E O traem. Este é o mais alto grau de iniquidade. Eles perverter todas as doutrinas do Evangelho, da eleição eles tiram uma desculpa para continuar em seus maus caminhos; e defendem a salvação sem as obras, porque não amam a obediência. Eles exaltam a justiça de Cristo, mas se opõem à santidade pessoal. Em uma palavra, porque eles ouvem que Deus é bom estão determinados a persistir no mal. “Senhor, que é o homem?”.

Assim os pecadores obstinados e impenitentes vão de mal a pior, enganando e sendo enganados. A palavra que eles desprezam torna-se para eles um cheiro de morte para morte. Eles tomam diferentes cursos, mas em todos estão viajando para descer à cova; e, a menos que a misericórdia soberana impeça, em breve eles cairão para não mais se levantarem. O evento final normalmente é duplo. Muitos, depois de terem sido mais ou menos comovidos pela palavra, se acomodam às formalidades. Se a audição suprisse o lugar da fé, do amor e da obediência, eles iriam fazê-lo bem; mas aos poucos eles se tornam impassíveis ao sermão, as verdades que uma vez os atingiram, muitas vezes, perdem o seu poder ao serem ouvidas; e, assim, multidões vivem e morrem na escuridão, embora por muito tempo a luz tenha brilhado ao redor deles. Outros são mais abertamente entregues a um sentimento perverso. O desprezo do Evangelho produz infiéis, deístas e ateus. Eles estão cheios de um espírito de ilusão para acreditarem em uma mentira. Estes são escarnecedores, andando segundo as suas próprias concupiscências; pois onde os princípios da religião são abandonados, a conduta será vil e abominável. Tais pessoas zombam de si mesmas em suas dissimulações, e fortemente provam a verdade do Evangelho, enquanto elas disputam contra ele. Nós muitas vezes achamos que as pessoas deste tipo têm sido anteriormente objeto de fortes convicções; mas quando o espírito do mal pareceu se afastar por um tempo, e voltou novamente, o último estado desse homem é pior do que o primeiro.

Não é improvável que alguns dos meus leitores possam encontrar-se com seus próprios caráteres sob um ou outro dos vislumbres que dei da maldade desesperada do coração, em suas atuações contra a verdade. Que o Espírito de Deus possa compeli-los a ler com atenção, o seu caso é perigoso, mas eu espero que você não se desespere totalmente, pois Jesus é poderoso para salvar. Sua graça pode perdoar as ofensas mais graves, e subjugar os hábitos mais inveterados do pecado. O Evangelho que você até aqui desprezou, resistiu ou se opôs ainda é o poder de Deus para a salvação. O sangue de Jesus, sobre a qual até agora você tem pisoteado, fala melhor do que o sangue de Abel, e possui virtude para limpar aqueles cujos pecados são escarlate e carmesim, e para fazê-los brancos como a neve. Até agora você foi poupado; mas já é tempo de parar, baixar os braços da rebelião, e humilhar-se aos pés do Senhor Jesus Cristo. Se você fizer isso, você ainda pode escapar; mas se não, saiba com certeza que a ira vindoura cairá sobre você ao máximo; e você perceberá em breve, em sua consternação indizível, que terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo.

.
__________
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: Man in His Fallen Estate
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por William Teixeira
♦ Revisão por Camila Almeida


Jesus no Getsêmani – João Calvino

[Baixe o e-book desse sermão, em formato PDF, clicando AQUI]

“Então chegou Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani, e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar. E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo. E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres.” (Mateus 26:36-39)

Quando a Escritura fala-nos da nossa salvação, ela nos propõe três objetivos. Um deles é que nós reconheçamos o amor inestimável que Deus mostrou por nós, para que Ele seja glorificado por nós como Ele merece. Outro objetivo é que tenhamos tal abominação por nosso pecado como é apropriado, e que tenhamos vergonha o suficiente para nos humilhar diante da majestade do nosso Deus. O terceiro objetivo é que valorizemos a nossa salvação, de tal maneira que nos faça abandonar o mundo e tudo que diz respeito a esta vida frágil, e que sejamos muito felizes com essa herança que foi adquirida para nós a tal preço. Sobre isso é que devemos fixar a nossa atenção e aplicar às nossas mentes quando for mencionado para nós como o Filho de Deus nos redimiu da morte eterna e adquiriu para nós a vida celestial. Devemos, então, em primeiro lugar aprender a dar a Deus o louvor que Ele merece. De fato, Ele era bem capaz de nos resgatar das profundezas insondáveis ​​da morte de outra maneira, mas Ele quis mostrar os tesouros da Sua infinita bondade, quando Ele não poupou Seu único Filho. E nosso Senhor Jesus, nesta questão, quis nos dar uma garantia segura do cuidado que Ele tem por nós, quando Ele ofereceu-Se voluntariamente à morte. Pois nós nunca seremos profundamente tocados nem incendiados para louvar nosso Deus, a menos que, por outro lado, examinamos a nossa condição, e vejamos que somos tão afundados no inferno, e saibamos o que é ter provocado a ira de Deus e tê-lo como inimigo mortal e um juiz tão terrível e espantoso que seria muito melhor se o céu e a terra e todas as criaturas conspirassem contra nós do que nos aproximarmos de Sua majestade enquanto ele não está favorável a nós. Por isso, é muito necessário que os pecadores estejam com o coração partido com um sentimento e uma compreensão de suas faltas, e que eles necessariamente saibam que são piores do que miseráveis, para que eles possam ter um horror de sua condição, a fim de que desta maneira eles possam saber o quanto eles estão endividados e obrigados a Deus, que Ele teve pena deles, que Ele os vê em desespero, e que Ele foi gentil o suficiente para ajudá-los; não porque Ele vê neles qualquer dignidade, mas apenas porque Ele olha para sua miséria. Agora, o fato é que também (como já dissemos), estamos rodeados por muitas coisas aqui em baixo e que, quando Deus nos chamou a Si mesmo fomos segurados por nossas afeições e cobiça, por isso é necessário valorizar a vida celestial como ela merece, para que saibamos a quão grande custo ela foi comprada para nós.

E é por isso que está aqui narrado para nós que o nosso Senhor Jesus Cristo não só esteve disposto a sofrer a morte e ofereceu a Si mesmo como sacrifício para apaziguar a ira de Deus Seu Pai, mas, a fim de que Ele seja real e totalmente nossa garantia, Ele não Se recusou a arcar com as agonias que estão preparadas para todos aqueles cujas consciências os desaprovam e que sentem-se culpados de morte eterna e condenação diante de Deus. Notemos bem, então, que o Filho de Deus não se contentou apenas em oferecer a Sua carne e sangue, e submetê-los à morte, mas Ele quis em medida completa comparecer perante o tribunal de Deus, Seu Pai, em nome e pessoa de [...] pecadores, estando, então, pronto para ser condenado, na medida em que Ele carregou o nosso fardo. E não precisamos mais ter vergonha, uma vez que o Filho de Deus Se expôs a tal humilhação. Não é sem motivo que São Paulo nos exorta ao seu exemplo de não ter vergonha da pregação da Cruz; por mais tolo que possa ser para alguns e uma pedra de tropeço para muitos. Pois quanto mais nosso Senhor Jesus Se humilhou, mais nós vemos que as ofensas de que estamos em dívida para com Deus não poderiam ser abolidas a menos que Ele fosse humilhado até o último grau. E, de fato, sabemos que Ele foi feito fraco, a fim de que fôssemos fortalecidos pela Sua virtude, e que Ele está disposto a arcar com todos os nossos sofrimentos, exceto o pecado, para que Ele possa estar pronto hoje para nos ajudar. Pois se Ele não tivesse sentido em sua Pessoa os medos, as dúvidas e os tormentos que sofremos, Ele não seria tão inclinado a ser misericordioso para conosco, como Ele é. Diz-se que um homem que não sabe o que é fome nem sede não será movido pela compaixão ou humanidade para com aqueles que passam por isso, pois ele sempre teve a vida fácil e viveu em seus prazeres. Agora, é verdade que Deus, embora em Sua natureza Ele não carregue nenhuma das nossas paixões, não deixa de ser humano em relação a nós, porque Ele é a fonte de toda bondade e misericórdia. No entanto, a fim de que possamos ter a certeza de que o nosso Senhor Jesus conhece nossas fraquezas, a fim de aliviar-nos delas, e que possamos chegar muito mais corajosamente a Ele e possamos falar com Ele mais familiarmente, o Apóstolo diz que por causa disso Ele estava disposto a ser tentado como nós.

Assim, então, temos que perceber no texto que lemos que, quando o Senhor Jesus veio a este vilarejo do Getsêmani, e até mesmo no monte das oliveiras, que isso era para oferecer a Si mesmo como um sacrifício voluntário. E em que Ele quis cumprir o ofício e a carga que estavam comprometidos a Ele. Pois, por que Ele assumiu nossa carne e natureza, a não ser para reparar toda a nossa revolta por meio de Sua obediência, adquirir para nós a justiça plena e perfeita diante de Deus seu Pai? E ainda Ele chegou a apresentar-Se para a morte, porque não podemos ser reconciliados nem podemos apaziguar a ira de Deus, que tinha sido provocada pelo pecado, a não ser por Sua obediência.

Esta, então, é a razão que o Filho de Deus veio corajosamente para tomar o lugar onde Ele sabia que Judas iria encontrá-lo. E, assim, nós sabemos que era necessário, uma vez que o nosso pai Adão, por sua rebelião, arruinou a todos nós, que o Filho de Deus, que tem o controle soberano sobre todas as criaturas, deve submeter-Se e assumir a condição de servo, como também Ele é chamado tanto um Servo de Deus e de todos os Seus. E é também por isso que São Paulo, mostrando que devemos ter algum apoio para invocá-lO em plena confiança de que seremos ouvidos como Seus filhos, diz que pela obediência de nosso Senhor Jesus Cristo, somos reconhecidos como justos. Pois, isso é como um manto que cobre todos os nossos pecados e ofensas, de modo que algo que poderia nos impedir de obter a graça não é levado em conta diante de Deus. Mas, por outro lado, vemos que o preço de nossa redenção foi muito caro, quando o nosso Senhor Jesus Cristo está em tal agonia que Ele sofre os terrores da morte, de fato, até que o suor seja como gotas de sangue pela qual Ele está, por assim dizer, fora de si orando, que se fosse possível que Ele pudesse escapar de tal aflição. Quando vemos isso, é o suficiente para nos trazer ao conhecimento de nossos pecados. Não há possibilidade de embalar-nos para dormir aqui por lisonja quando vemos que o Filho de Deus está mergulhado em tal extremidade que parece que Ele está na profundidade do abismo. Se isso tivesse acontecido apenas para um homem justo, poderíamos sermos tocados, é claro, porque era necessário que um pobre inocente suportasse por nosso resgate como aconteceu com o Filho de Deus. Mas aqui está Aquele que é a fonte da vida, Quem se sujeita à morte. Aqui está Aquele que sustenta todo o mundo pelo Seu poder, Quem foi feito fraco a este ponto. Aqui está Aquele que resgata as criaturas de todo o medo, Quem tem que passar por tal horror. Quando, então, é declarado para nós que seria mais do que estúpido, se cada um de nós não meditasse sobre isso, e, sendo revoltado com suas falhas e iniquidades, não teria vergonha diante de Deus, ofegando e gemendo, e se até mesmo se por esses meios não fôssemos levados a Deus com arrependimento verdadeiro.

Agora é impossível que os homens tornem-se retamente convertidos a Deus a menos que eles estejam condenados em si mesmos e que tenham reconhecido o terror e a agonia da maldição que está preparada para eles, a menos que eles sejam restaurados pela graça de Deus. Mas, novamente, para melhor compreender o todo, é dito que o nosso Senhor Jesus levou apenas três dos seus discípulos e deixou a companhia há uma boa distância, e novamente, Ele não levou os três por todo o caminho com Ele, mas Ele orou a Deus, Seu Pai em segredo. Quando vemos isso, devemos notar que o nosso Senhor Jesus não tinha companheiro quando ofereceu a Si mesmo como um sacrifício por nós, mas sozinho Ele completou e cumpriu o que foi necessário para a nossa salvação. E mesmo que seja novamente melhor indicado para nós, quando os discípulos dormem, e nem sequer podem ser despertados, ainda que já houvessem sido avisados tantas vezes que a hora se aproximava em que nosso Senhor Jesus teria de sofrer para a redenção da humanidade, e que Ele lhes havia exortado por três ou quatro horas, nunca deixando de declarar-lhes que a Sua morte se aproximava. Por mais verdadeiro que tudo fosse, eles não deixam de dormir. Nisto é mostrado para nós como em um retrato vívido de que era necessário que o Filho de Deus suportasse nossos fardos, pois Ele não poderia esperar outra coisa. E isso é a fim de que nossa atenção seja fixada de forma a não vagar em pensamentos, como vemos os pobres incrédulos que não podem fixar a sua atenção sobre o nosso Senhor Jesus Cristo, mas que imaginam que eles devem ter protetores e defensores, como se houvesse muitos redentores. E nós vemos até mesmo as blasfêmias que são a regra neste perverso papado, que os méritos dos santos são para ajudar a morte e a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, para que, desta forma, sejamos libertados e absolvidos diante de Deus. Mesmo se houvesse, dizem eles, a remissão geral, tanto quanto a culpa do pecado original, bem como de nossos próprios pecados; ainda deve haver uma mistura e o sangue de Jesus Cristo, não é suficiente se não for complementado com o sangue dos mártires, e nós devemos ter o nosso refúgio neles, a fim de ter o favor de Deus. Quando o diabo tem, assim, se soltado devemos muito mais estar vigilantes para que nos apeguemos ao nosso Senhor Jesus Cristo, sabendo que somente nEle encontraremos a plena perfeição da salvação. E é por isso que é dito, nomeadamente, pelo profeta Isaías que Deus ficou maravilhado, vendo que não havia nenhuma ajuda em qualquer outro lugar.

Agora, é verdade que Deus bem sabia que somente Ele deveria aperfeiçoar a nossa salvação, mas é para que possamos nos envergonhar, e que não possamos ser hipócritas como se nós trouxéssemos alguma coisa para ajudar na remissão dos nossos pecados e fazer com que Deus nos receba em Sua graça e amor, para que não corramos de um lado para o outro para encontrar mediadores. Então, que tal ideia possa ser banida, diz-se que Deus tem usado o seu próprio braço, e que Ele já completou tudo por Sua justiça, e Ele não encontrou ninguém para ajudá-lo. Agora isso é declarado para nós com extrema clareza quando se diz que três dos discípulos, aqueles que eram a flor entre todos, estavam dormindo lá como pobres feras e que não havia nada mais do que a estupidez brutal neles, o que é uma monstruosidade contra a natureza ver que eles dormiam em um momento tão fatal. Em seguida, a fim de que a nossa confiança seja afastada de todas as criaturas e que seja totalmente centrada em nosso Senhor Jesus Cristo, se diz que Ele avançou para o combate. Além de dirigir a Deus, Seu Pai Ele também nos mostra o remédio para nosso alívio de todas as nossos agonias, para amenizar nossas dores, e até mesmo para nos elevar acima delas, mesmo que estejamos, por assim dizer, afundados sob elas. Pois se estamos perturbados e em agonia, sabemos que Deus não é chamado em vão de Pai da Consolação. Se, então, nós estamos separados de Deus, onde vamos encontrar a força, a menos que seja nEle? Vemos, no entanto, que Ele não quis Se poupar quando precisamos dEle. Por isso, é o Filho de Deus que nos conduz por Seu exemplo ao verdadeiro refúgio quando estamos em sofrimento e agonia.

Mas observemos também a forma de oração que Ele usa: “Pai, se é possível, afasta de mim esse cálice”, ou esta bebida, pois é uma figura de linguagem quer Ele fale de uma taça ou de um copo, tudo o mais porque a Escritura chama as aflições de bebidas amargas, a fim de que possamos saber que nada acontece por acaso, mas que Deus como um pai de família distribui a cada um de seus filhos a sua parte, ou como um mestre aos seus servos, assim, Deus mostra que é dEle e por Sua mão que eles são açoitados e aflitos, e também quando recebemos as coisas boas, que elas procedem de Sua imerecida bondade amorosa e Ele nos dá o tanto quanto Ele quer nos dar. Agora de acordo com esta forma de proceder, nosso Senhor Jesus diz que a morte é para Ele uma bebida tão amarga que Ele preferiria que fosse tirada dele, isto é, “se fosse possível.” É verdade que se poderiam levantar aqui muitas perguntas, pois isso poderia parecer que por um instante Jesus Cristo esquecera a nossa salvação, ou, ainda pior, que abandonando a luta Ele quis nos deixar em um estado perdido por conta do terror que Ele sentiu.

Agora, isso não estaria de acordo com o que dissemos. E até mesmo o amor que Ele nos mostrou seria muito obscurecido. Mas não temos de entrar em qualquer disputa tão sutil, porque sabemos que o sofrimento, por vezes, arrebata tanto o espírito de um homem que ele não pensa em nada; mas ele está tão pesaroso pelo sofrimento presente que ele deixa isso derrubá-lo e não se importa com os meios para poder restaurar a si mesmo. Quando, então, estamos, portanto, temporariamente fora de nós mesmos isso não quer dizer que todo o resto é completamente apagado de nossos corações e que não temos afeto. Como, por exemplo, aquele que vai pensar em alguma aflição da Igreja, especialmente uma aflição particular, vai orar a Deus como se o resto do mundo fosse para ele como nada. Agora isso quer dizer que ele tem se tornou desumano e que ele não se preocupa com seus irmãos que também têm necessidade de que ele deve orar por eles? Nem por isso, mas é que esse sentimento leva-o com tal veemência que todo o restante é cortado dele por um tempo. Moisés pede para ser retirado do livro da vida. Se quiséssemos criar polêmicas sobre isso diríamos que Moisés está blasfemado contra Deus por falar como se Ele fosse mutável. Pois aqueles a quem Deus escolheu para a vida eterna nunca podem perecer. Assim, parece que Moisés luta aqui contra Deus e que ele quer fazer Ele à nossa semelhança, cujo conselho e fala muda com frequência. E então que honra ele dá a Deus quando ele sabe que ele é um de Seus eleitos, e ele sabe que Deus o havia marcado desde a infância a ser comprometido com uma carga tão excelente como sendo um líder de Seu povo e ainda assim ele pede para ser, por assim dizer, rejeitado e exterminado por Deus? E a que isso leva? Pode-se, então, discutir muito. Mas a solução é fácil, em que Moisés, com um zelo tão ardente pela salvação das pessoas, vendo também a ameaça terrível que Deus havia pronunciado com a boca, esquece a si mesmo por um pouco de tempo e por um minuto, apenas pede que ele possa ajudar seu povo. Para este estado de espírito, nosso Senhor Jesus tinha sido levado. Pois se tivesse sido necessário que Ele sofresse uma centena de mortes, até mesmo um milhão, é certo que Ele teria sido preparado anteriormente. Mas porque que Ele quis, não tanto por Si como por nós, suportar as agonias que O mergulharam até aquele ponto, como vemos. O bastante sobre este assunto.

Agora para complementar. Se alguém perguntar como Jesus Cristo, que é inteiramente justo, que foi o Cordeiro sem mancha, e quem tem sido ainda a regra e espelho de toda a justiça, santidade e perfeição, tem uma vontade contraditória à de Deus; a resposta para isso é que Deus tem em Si mesmo toda a perfeição da retidão, enquanto que os anjos, por mais que estejam em conformidade com a vontade de Deus e são totalmente obedientes a Ele, no entanto, têm uma vontade independente. Pois, por mais que sejam criaturas, eles podem ter afeições que não pertencem por direito a Deus. Quanto a nós, que estamos cercados por essa massa de pecado, estamos tão sobrecarregados que estamos longe da vontade de Deus, pois em todos as nossas afeições há algum excesso, há ainda a rebelião manifesta muitas vezes. Mas se considerarmos o homem na sua integridade, ou seja, sem esta corrupção do pecado, mais uma vez, é certo que ele terá suas afeições à parte de Deus, e ainda assim eles não vão por conta disso ser viciosos. Como quando Adão ainda não era pervertido e ele persistiu na propriedade e condição em que ele tinha sido criado, aconteceu que ele sentia tanto quente e frio e que ele teve de suportar tanto ansiedades e medos e coisas semelhantes.

Foi assim que aconteceu com o nosso Senhor Jesus Cristo. Sabemos que em todos os seus sentimentos Ele não tinha nem mancha e nem defeito, que em tudo Ele foi governado por obediência a Deus, mas ainda assim Ele não estava impedido (porque Ele tomou a nossa natureza) de ser exposto tanto ao temor, e este horror de que é agora falado, e ansiedades, e coisas semelhantes. Nós não somos capazes de perceber isso em nós mesmos, como que em águas turbulentas, alguém não consegue distinguir nada. Assim, os afetos humanos nos fazem ir de um lado para o outro para nos dar essas emoções que precisam ser contidas por Deus. Mas, como os homens, sendo descendentes de Adão, são como um lamaçal, onde há mais e mais infecção misturada que não podemos contemplar o que esta paixão do nosso Senhor Jesus Cristo deve ter sido, se a julgarmos pela nossa própria pessoa. Pois mesmo se tivermos um bom objetivo e uma afeição correta, em si, e aprovada por Deus, ainda assim, sempre falta algo. Não é uma coisa boa e santa, quando um pai ama seus filhos? E aí pecamos novamente. Pois não há regra ou moderação, como é exigido. Pois, quaisquer virtudes que haja em nós, Deus nos mostra vícios nelas a fim de que todo o orgulho possa ser mais humilhado e que tenhamos ainda mais ocasião para inclinar nossas cabeças, até estarmos constrangidos com vergonha, já que até mesmo o bem é corrompido pelo o pecado que habita em nós e do qual estamos cheios em excesso.

Além disso, na medida em que nosso Senhor Jesus Cristo está em causa (como já disse) não devemos nos surpreender se Ele tinha (na medida em que Ele era homem) uma vontade diferente da de Deus Pai, mas por conta disso não devemos julgar que aqui houve qualquer vício ou transgressão nEle. E mesmo (como já observamos), nisso vamos ver o amor inestimável que Ele carregava por nós quando a morte era para Ele tão terrível e, no entanto, Ele se submeteu a ela por Seu próprio prazer. E mesmo que Ele não tivesse tido qualquer repugnância a ela, e mesmo que sem relutância Ele provasse do cálice, sem sentir qualquer amargura, que tipo de redenção teria sido essa? Pareceria como se tivesse sido apenas uma brincadeira, mas quando isso aconteceu que o nosso Senhor Jesus Cristo suportou tais agonias foi um sinal de que Ele nos amou a tal ponto que Ele esqueceu até de Si próprio e sofreu toda a tempestade que caiu sobre Sua cabeça, a fim de que pudéssemos ser libertos da ira de Deus.

Agora ainda falta notar que quando o Filho de Deus agonizava de tal maneira que não era porque Ele teve que deixar o mundo. Pois, se tivesse sido apenas a separação de corpo e alma, com os tormentos que ele teve de suportar em Seu corpo, isso não O teria levado a tal ponto. Mas é preciso observar a qualidade da sua morte e até mesmo rastrear sua origem. Pois a morte não é apenas para dissolver o homem, mas para fazê-lo sentir a maldição de Deus. Além do fato de que Deus nos leva para fora deste mundo e que somos aniquilados no que diz respeito a esta vida, a morte é para nós uma entrada, por assim dizer, para o abismo do inferno. Nós estaríamos alienados de Deus e destituídos de toda a esperança de salvação, quando é falado de morte para nós, a menos que tenhamos esse remédio – que o nosso Senhor Jesus Cristo a suportou por nossa causa, a fim de que agora, a ferida que estava ali não será fatal. Pois sem Ele nós estaríamos tão assustados com a morte que não haveria mais esperança de salvação para nós, mas agora o ferrão dela é quebrado. Mesmo o veneno é tão limpo que a morte ao nos humilhar, serve hoje como remédio e não é mais fatal, agora que Jesus Cristo engoliu todo o veneno que estava nela.

Isto, então, é o que devemos ter em mente, que o Filho de Deus ao clamar: “Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice”, considera não apenas o que Ele tinha que sofrer em Seu corpo, nem a desgraça dos homens, nem de deixar a terra (por isso foi fácil para Ele), mas Ele considerou que estava diante de Deus e diante do Seu trono judicial para responder por todos os nossos pecados, para ver ali todas as maldições de Deus que estão prontas para cair sobre nós. Pois, mesmo que haja apenas um único pecador, o que seria a ira de Deus? Quando se diz que Deus é contra nós, que Ele quer mostrar o Seu poder para nos destruir, ai! onde estamos, então? Agora era necessário que Jesus Cristo lute não só contra tal terror, mas contra todas as crueldades que alguém poderia infligir. Quando, então, vemos que Deus convoca todos aqueles que têm merecido a condenação eterna e que são culpados de pecado e que Ele está lá para pronunciar a sentença, como eles têm merecido, quem não conceberia em plena medida todas as mortes, dúvidas e terrores que poderiam estar em cada um? E que profundidade haverá nisso! Agora era necessário que o nosso Senhor Jesus Cristo, por Si mesmo, sem ajuda sustentasse tal fardo. Então, julguemos o sofrimento do Filho de Deus por sua verdadeira causa. Voltemos agora ao que nós já discutimos – que em um aspecto, podemos perceber o quão cara a nossa salvação foi a Ele e quão preciosas eram as nossas almas para Ele, quando Ele esteve disposto a ir a tal extremo por amor de nós; e sabendo o que merecíamos olhemos para o que teria sido a nossa condição – se não tivéssemos sido resgatados por Ele. E ainda alegremo-nos que a morte não tem mais poder sobre nós que possa nos machucar. É verdade que sempre estamos naturalmente temendo a morte e fugindo dela, mas ela nos faz pensar nesse benefício inestimável que foi adquirido para nós pela morte do Filho de Deus. Isto é, a fim de fazer-nos sempre considerar o que é a morte em si mesma, como ela envolve a ira de Deus, e é, por assim dizer, o abismo do inferno. Além disso, quando temos que lutar contra esse medo saibamos que nosso Senhor Jesus Cristo proveu por todos aqueles medos para que, em meio à morte, possamos estar diante de Deus com as cabeças erguidas.

É verdade que nós temos que nos humilhar diante de todas as coisas, como já disse, isso é muito necessário, a fim de que odiemos os nossos pecados e estejamos descontentes com nós mesmos para sermos tocado pelo juízo de Deus, para nos assustarmos com ele. Mas ainda temos de levantar a cabeça quando Deus nos chama para Si mesmo. E esta é também a coragem que é dada a todos os crentes! Assim, vemos que São Paulo diz, Jesus Cristo preparou uma coroa para todos aqueles que esperam por Sua vinda. Se, então, não temos mais esperança de vida ao vir perante o Juiz celestial, é certo que seremos rejeitados por Ele e que Ele não nos conhece, mesmo que Ele nos negará, por mais que professemos o Cristianismo.

Agora não podemos realmente esperar por nosso Senhor Jesus Cristo, a menos que tenhamos entendido e estivermos convencidos de que Ele assim lutou contra os terrores da morte que, no entanto, estamos libertos deles e que a vitória foi obtida por nós. E mesmo que nós temos que lutar para nos fazer sentir a nossa enfermidade, para nos fazer procurar refúgio em Deus, sempre, para nos conduzir a uma verdadeira confissão de nossos pecados, para que apenas o próprio Deus seja justo, ora, é verdade que temos a certeza que Jesus Cristo tanto combateu que Ele conquistou a vitória não para Si mesmo, mas para nós, e não devemos duvidar de que por meio dEle podemos agora superar todas as ansiedades, todos os medos, todas os desânimos, e que podemos invocar a Deus, sendo assegurados que sempre Ele tem Seus braços estendidos para nos receber para Si mesmo.

Isto, então, é o que devemos considerar: para que saibamos que não é um ensinamento especulativo que o nosso Senhor Jesus suportou os terrores horríveis de morte, porquanto Ele sentiu que estava lá diante do nosso Juiz e Ele era a nossa Garantia, de modo que hoje podemos em virtude de Sua luta, vencer sobre toda a nossa enfermidade e persistir constantemente invocando o nome de Deus, não duvidando em nenhum momento que Ele nos ouve, e que a Sua bondade está sempre pronta para nos receber para Si mesmo e que, por isso significa que vamos passar por ambas, vida e a morte, através da água e fogo, e vamos sentir que não é em vão que o nosso Senhor Jesus lutou para conquistar essa vitória para todos aqueles que vêm a Ele pela fé. Isso é, então, em uma palavra, o que temos que ter em mente.

Agora, no entanto, vemos como devemos lutar contra nossos afetos, e se não o fizermos, é impossível para nós movermos um dedo pelo que não provocaremos em plena medida a ira de Deus. Pois, contemplem o nosso Senhor Jesus Cristo, que é puro e íntegro, como já declarado. Se alguém perguntar qual era a Sua vontade, é verdade que era fraca como a vontade de um homem, mas não era viciosa como a vontade daqueles que estão corrompidos em Adão, pois não havia um único ponto do pecado nEle. Eis, então, um homem que está isento de todos os vícios. Mas, por mais que seja assim, ainda é necessário que Ele esvazie a Si mesmo e que Ele se esforce ao limite e que Ele, finalmente, renuncie a Si mesmo, e que Ele coloque tudo isso sob os pés, para render obediência a Deus, Seu Pai. Vejamos agora o que será de nós. Quais são os nossos afetos? E os nossos pensamentos? Todos esses são inimigos que lutam contra Deus, como diz; São Paulo. Aqui Deus declara que somos totalmente perversos e que tudo o que o homem pode imaginar, é apenas falsidade e vaidade. Mesmo a partir de nossa infância, mostramos que estamos envoltos na infecção completa do pecado. Filhinhos vindos ao mundo, embora a malícia não apareça, nem sempre deixam de ser pequenas serpentes cheias de veneno, malícia e desprezo. Nisto nós realmente percebemos o que está em nossa natureza, mesmo desde o início. E quando nos tornamos de idade, o que somos, então? Somos (como já disse), tão maus que nós não sabemos como conceber um único pensamento que não é, ao mesmo tempo rebelião contra Deus, de modo que não sabemos se nos aplicamos a isto ou aquilo, uma vez que sempre nos desviamos da verdadeira norma, mesmo se não chegarmos a um confronto com Deus de uma forma provocativa. Que luta, então, é necessária para chamar-nos de volta para o bem! Quando vemos que o nosso Senhor Jesus, em quem não havia nada além de sinceridade e retidão, teve que ser sujeito a Deus Seu Pai, até mesmo a renunciar a Si mesmo, não é importante que nós devamos nos entregar inteiramente a ele?

Então, aprendamos a lutar mais bravamente. Mas vendo que não somos capazes e que, em vez todos os nossos poderes e faculdades tendem para o mal e que não temos uma única partícula de bem em nossa natureza e que há uma tal fraqueza que seríamos vencidos uma centena de vezes a cada minuto, venhamos a Ele que se fez fraco para que possamos ser preenchidos com o Seu poder, como diz São Paulo. Em seguida, assim é que, então, o nosso Senhor Jesus Cristo renunciou a Si mesmo, para que possamos aprender a fazer o mesmo, se quisermos ser Seus discípulos. Vendo que não somos capazes de nós mesmos para ter sucesso nisso, mas que sempre tendemos a ir pelo caminho errado, oremos para que pela virtude do Seu Espírito Santo Ele possa governar em nós para nos fazer fortes. Como se diz, Ele sofreu na fraqueza de Sua carne, mas em virtude do Seu Espírito Ele foi ressuscitado dentre os mortos, a fim de que sejamos participantes da luta que Ele sofreu e que nós possamos perceber o efeito e a excelência de Seu poder em nós. Este, então, em resumo, é o que temos que lembrar quando se diz que Cristo renunciou toda a Sua vontade, a fim de submeter totalmente a Deus Seu Pai.

Agora, no entanto, temos sempre que lembrar que o Filho de Deus não veio aqui propor a Si mesmo para ser apenas um exemplo e um espelho, mas Ele quer nos mostrar quão preciosamente a nossa salvação Lhe custou. Pois o diabo, desejando obscurecer a infinita graça de Deus, que foi mostrada a nós em nossa redenção, disse que Jesus Cristo foi apenas, por assim dizer, o modelo de todas as virtudes. Contemplem como os fingidos lamuriosos em toda a visão Papal o balbuciam. Não somente eles não sabem como deduzir o que a obediência é, nem o que é auto-renúncia, mas eles dizem, o que o escritor do Evangelho diz de Jesus Cristo é, a fim de que possamos segui-lo e para que sejamos conformados com Ele. Agora isso é, com certeza, alguma coisa, mas não é tudo, nem mesmo a coisa principal. Pois um anjo poderia muito bem ter sido enviado para que pudéssemos tê-lo seguido, mas quando Jesus Cristo foi o Redentor do mundo Ele submeteu-se e foi objeto de sua livre e espontânea vontade a essa condição tão miserável, como vemos aqui. Devemos sempre reconhecer que não encontramos nada em nós que possa dar esperança de salvação. E, portanto, devemos buscar nEle o que nos falta. Pois nós nunca podemos obter a graça de Deus, nem nos aproximarmos dEle a menos que chegamos a Jesus Cristo como mendigos pobres, o que não pode ser feito até que tenhamos reconhecido a nossa pobreza e a nossa indigência, em resumo, que nos falta tudo.

Isto, então, é o que temos que ter em mente a fim de que, depois de ter ouvido que toda a perfeição da nossa vida é tornar-nos obedientes a Deus e depois a renunciar nossas afeições e pensamentos e toda a nossa natureza para estarmos de acordo com Ele, também depois de ter ouvido que devemos pedir a Deus o que nós não possuímos, saibamos que o nosso Senhor Jesus Cristo nos é dado não apenas como um exemplo, mas Ele plenamente declarou-nos que se estamos separados dEle nossa vida necessariamente é maldita e quando na morte vemos a profundidade de miséria, que veremos o poço da ira de Deus pronto a nos engolir e que não seremos apreendido com um único terror, mas com um milhão, e que todas as criaturas clamam por vingança contra nós. Portanto, temos de sentir tudo isso, então, a fim de reconhecermos os pecados e gemermos e sermos constrangidos em nós mesmos, e que tenhamos um desejo e a coragem de vir a Deus com uma verdadeira humildade e arrependimento e que devemos apreciar a bondade e a misericórdia de nosso Deus, como está visto aqui e que devemos ter a boca aberta para dar-Lhe um sacrifício de louvor, e que devemos ser afastados das artimanhas de Satanás, que tem suas redes espalhadas para nos manter no mundo, e que nós também deixemos nossas conveniências e nossos confortos, a fim de aspirar a essa herança que foi comprada para nós a tal preço.

E desde que no próximo dia do Senhor receberemos a Santa Ceia e porque Deus, depois de ter aberto para nós o Reino dos céus, apresenta-nos aqui um banquete espiritual para que sejamos ainda mais tocados por este ensinamento: De fato, quando nós comemos e bebemos diariamente para reestabelecermos nossas forças, Deus declara suficientemente para nós que Ele é o nosso Pai e que Ele cuida de nossos frágeis corpos terrestres, de modo que não se pode comer um pedaço de pão sem ter o testemunho de que Deus cuida de nós, mas, na Ceia do Senhor há uma razão especial. Porque Deus não enche nossos estômagos nela, mas Ele nos transporta para o Reino dos céus. Ele coloca diante de nós o nosso Senhor Jesus, seu Filho por comida e bebida. Jesus Cristo não está satisfeito apenas em receber-nos em Sua mesa, mas Ele quer ser em todos os aspectos a nossa comida. Ele nos faz sentir pelo efeito que Seu corpo é verdadeiramente carne para nós e Seu sangue bebida. Quando, então, vemos que o nosso Senhor Jesus nos convida tão gentilmente a Ele, não devemos ser o pior dos vilões, se não somos afastados daquilo que nos afasta Dele? E mesmo que nós venhamos arrastando o pé, não fiquemos tristes por causa de nossos vícios, a fim de nos aproximarmos de Deus e obrigar-nos na medida em que será possível para nós, estar separados deste mundo e aspirarmos ao Reino dos céus.

Então, que cada um observe que benefício a Santa Ceia deve conferir a nós. Pois vemos que o nosso Senhor Jesus nos chama a Ele para participar da Sua morte e paixão, que devemos desfrutar do benefício que Ele adquiriu para nós e, por isso, significa que devemos estar totalmente certos de que Deus declara que somos Seus filhos e que nós podemos reclamá-lO abertamente como nosso Pai. Tragamos uma fé verdadeira sabendo por que nosso Senhor Jesus foi enviado por Deus Pai, o que Seu oficio é, e como Ele ainda hoje é o nosso Mediador como Ele sempre foi. Além disso, vamos tentar ser tão unidos a Ele, que isso possa ser dito não apenas para cada um de nós, mas para todos em geral. Tenhamos concordância mútua e fraternidade em conjunto, uma vez que Ele sofreu e suportou a condenação que foi pronunciada por Deus Pai sobre todos nós. Por isso, vamos apontar para isso, e deixar que cada um venha aqui não só por si mesmo (como já disse), mas tente chamar a nossos companheiros para Ele, e deixe-nos assim exortar uns aos outros sobre caminhar firmemente, observando sempre que a nossa vida é como uma estrada que deve ser seguida até o fim, e que não devemos nos cansar no meio do caminho, mas vamos lucrar tanto no dia a dia, e vamos nos dar ao trabalho de nos aproximar daqueles que estão fora da estrada; que esta seja toda a nossa alegria, a nossa vida, a nossa glória e contentamento, e deixe-nos ajudar uns aos outros assim até que Deus nos reúna totalmente para Si mesmo.

Agora, prostremo-nos em humilde reverência diante da majestade do nosso Deus.

.
_________
♦ Fonte: Monergism.com
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida e Fiel).

♦ Tradução por Amanda Ramalho
♦ Revisão por Camila Almeida


O Peregrino Cristão ou A Vida do Verdadeiro Cristão: uma viagem para o Céu – Jonathan Edwards

[Baixe o e-book desse sermão, em formato PDF, clicando AQUI]

“E confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra. As pessoas que dizem tais coisas mostram que eles estão procurando um país próprio”. (Hebreus 11:13, 14)

O apóstolo está aqui estabelecendo as excelências da graça na fé, pelos efeitos gloriosos e resultado feliz disto nos santos do Antigo Testamento. Ele havia falado na parte anterior do capítulo particularmente, de Abel, Enoque, Noé, Abraão e Sara, Isaque e Jacó. Tendo enumerado essas instâncias, ele toma conhecimento de que “todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas, mas, vendo -as de longe, crendo-as e abraçando-as, confessaram que eram estrangeiros…” [Hebreus 11:13]. Nestas palavras, o apóstolo parece ter um respeito mais particular a Abraão e Sara, e a seus parentes, que vieram com eles de Harã, e de Ur dos caldeus, como aparece no versículo 15, onde o apóstolo diz, “E se, na verdade, se lembrassem daquela de onde haviam saído, teriam oportunidade de tornar”. Duas coisas podem ser observadas aqui:

1. Que estes santos confessaram de si mesmos: que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Assim, temos um relato particular a respeito de Abraão: “Estrangeiro e peregrino sou entre vós” [Gênesis 23:4]. E isso parece ter sido o sentimento geral dos patriarcas, pelo que Jacó diz a Faraó. “E Jacó disse a Faraó: Os dias dos anos das minhas peregrinações são cento e trinta anos, poucos e maus foram os dias dos anos da minha vida, e não chegaram aos dias dos anos da vida de meus pais nos dias das suas peregrinações” [Gênesis 47:9]. “Porque sou um estrangeiro contigo e peregrino, como todos os meus pais” [Salmos 39:12].

2. A inferência que o apóstolo tira daqui: que eles procuravam outro país como sua casa. “Porque, os que isto dizem, claramente mostram que buscam uma pátria” [Hebreus 11:14]. Confessando que eram estrangeiros, eles claramente declararam que este não é o seu país, que este não é o lugar onde eles estão em casa. E ao confessarem ser peregrinos, declararam claramente que esta não é a sua morada definitiva, mas que eles pertencem a algum outro país, que eles procuravam, e para o qual eles estavam viajando”.

SEÇÃO 1 – Que esta vida seja assim gasta, como sendo apenas uma jornada ou peregrinação em direção ao céu. Aqui eu observo:

1. Que não devemos descansar neste mundo e em seus prazeres, mas devemos desejar o céu. Devemos “buscar primeiro o reino de Deus”. [Mateus 6:33] Devemos acima de todas as coisas desejar uma felicidade celestial: estar com Deus, e habitar com Jesus Cristo. Embora rodeado de prazeres exteriores, e estabelecidos em famílias com amigos desejáveis e relacionamentos; embora tenhamos companheiros cuja amizade é agradável, e as crianças, em quem vemos muitas qualidades promissoras, embora vivemos com bons vizinhos, e sejamos geralmente amados onde conhecidos, ainda assim não devemos ter o nosso descanso nestas coisas como nossa porção. Devemos estar tão longe de descansar nessas coisas, a ponto de desejar deixar todas elas, no tempo devido de Deus. Devemos possuir, gozar e usá-los sem nenhum outro fim, mas estarmos prontos para deixá-los, sempre que somos chamados para isso, e para trocá-los de bom grado e alegremente pelo o céu. Um viajante não tem o hábito de descansar com o que ele encontra na estrada, ainda que seja confortável e agradável. Se ele passa por lugares agradáveis, prados floridos, ou bosques sombrios; ele não tem a sua satisfação nessas coisas, mas apenas tem uma visão transitória delas enquanto ele segue sozinho. Ele não está seduzido pelas aparências finas a ponto de adiar a ideia de prosseguir. Não, mas o fim de sua viagem está em sua mente. Se ele se encontra com acomodações confortáveis em um hotel, ele não entretém pensamentos de se estabelecer ali. Ele considera que estas coisas não são suas, mas que ele é um estranho ali, e quando ele tiver revigorado a si mesmo, ou permanecido por uma noite, ele seguirá adiante. E é agradável para ele pensar que um tanto do caminho já ficou para trás. Semelhantemente devemos desejar o céu mais do que os confortos e prazeres desta vida. O apóstolo menciona isso como uma consideração encorajadora, confortável para os cristãos, que eles se aproximam de sua felicidade. “A nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé” [Romanos 13:11]. Nossos corações devem estar desprendidos destas coisas, como o de um homem em uma viagem; que possamos tão alegremente partir delas, sempre que Deus chamar. “Isto, porém, vos digo, irmãos, que o tempo se abrevia; o que resta é que também os que têm mulheres sejam como se não as tivessem; e os que choram, como se não chorassem; e os que folgam, como se não folgassem; e os que compram, como se não possuíssem; e os que usam deste mundo, como se dele não abusassem, porque a aparência deste mundo passa” [1 Coríntios 7:29-31]. Estas coisas são apenas emprestadas a nós por um pouco de tempo, para servirem por um momento, mas devemos colocar nossos corações no céu, como nossa herança para sempre.

2. Devemos buscar o céu, viajando no caminho que leva até lá. Este é o caminho da santidade. Devemos escolher e desejar viajar para lá desta forma e não de outra; e nos separar de todos os apetites carnais que, como pesos, tenderão a nos atrapalhar. “Deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta” [Hebreus 12:1]. Não importando quão prazerosa a gratificações de qualquer apetite possa ser, temos de colocá-lo de lado, se for um obstáculo ou uma pedra de tropeço no caminho para o céu. Devemos viajar no caminho da obediência a todos os mandamentos de Deus, até mesmo do difícil, como também do fácil, renunciando a todas as nossas inclinações e interesses pecaminosos. O caminho para o céu é ascendente, devemos nos contentar em viajar montanha acima, ainda que seja difícil e cansativo, e contrário ao viés natural de nossa carne. Devemos seguir Cristo, o caminho ele viajou era o caminho certo para o céu. Nós devemos tomar a nossa cruz e segui-lO, em mansidão e humildade de coração, em obediência e amor, diligência para fazer o bem, e paciência sob as aflições. O caminho para o céu é uma vida celestial, uma imitação daqueles que estão no céu, em suas santas alegrias, amando, adorando, servindo e louvando a Deus e ao Cordeiro. Mesmo que pudéssemos ir para o céu com a satisfação de nossos desejos, devemos preferir um caminho de santidade e conformidade e as regras espirituais de abnegação do evangelho.

3. Devemos viajar neste caminho de maneira laboriosa. As viagens longas são percorridas com trabalho e fadiga, especialmente se por meio de um deserto. Pessoas em tal caso esperam não nada além de sofrer dificuldades e cansaço. Assim, devemos viajar neste caminho de santidade, remindo o nosso tempo e força, para superar as dificuldades e os obstáculos que estão no caminho. A terra que devemos atravessar é um deserto, há muitas montanhas, pedras e lugares ásperos que devemos passar por cima, e portanto, há uma necessidade de que devemos despender a nossa força.

4. Nossas vidas inteiras deveriam ser gastas em viajar nesta estrada. Devemos começar cedo. Isso deve ser a primeira preocupação, quando as pessoas se tornam capazes de agir. Quando estabelecido pela primeira vez no mundo, eles deveriam começar esta jornada. E nós devemos viajar com diligência. Este deve ser o trabalho de cada dia. Nós deveríamos com frequência pensar no final de nossa jornada, e fazer disso nosso trabalho diário: viajar no caminho que conduz a esse fim. Aquele que está em uma jornada, esta frequentemente pensando no lugar destinado, e é o seu cuidado diário e interesse prosseguir bem, e aproveitar o seu tempo para ficar mais perto do fim de sua jornada. Assim deve o céu estar continuamente em nossos pensamentos, e a entrada imediata ou passagem para ele, ou seja, a morte, deve estar presente conosco. Devemos perseverar neste caminho, enquanto vivemos. “Corramos com paciência a carreira que nos está proposta”. Embora a estrada seja difícil e trabalhosa, é preciso aguentar com paciência, e permanecer contente ao suportar dificuldades. Apesar da viagem ser longa, ainda assim não podemos parar de repente; mas suportar até que chegamos ao lugar que buscamos. Também não devemos desanimar com o comprimento e as dificuldades do caminho, como os filhos de Israel fizeram, desejando voltar para trás. Todo nosso pensamento e objetivo devem seguir avante até chegarmos.

5. Devemos estar crescendo continuamente em santidade, e, nesse aspecto chegando cada vez mais perto do céu. Devemos estar nos esforçando para chegarmos mais perto para o céu, sendo mais celestiais, nos tornando mais e mais como os habitantes do Céu, em relação à santidade e conformidade com Deus; e o conhecimento de Deus e de Cristo, em uma visão clara da glória de Deus, da beleza de Cristo e da excelência das coisas divinas, nos leva a chegarmos mais perto da visão beatífica. Devemos trabalhar para estar crescendo continuamente no amor divino – que esta possa ser uma chama crescente em nossos corações, até que eles sejam consumidos totalmente nesta chama –, em obediência e em uma vida celestial; para que possamos fazer a vontade de Deus na terra como os anjos fazem no céu; em conforto e alegria espiritual; em comunhão sensível com Deus e Jesus Cristo, nosso caminho deve ser como “a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito”. Devemos ter fome e sede de justiça, por crescimento da justiça. “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo” [1 Pedro 2:2]. A perfeição dos céus deve ser a nossa marca. “Uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” [Filipenses 3:13-14].

6. Todas as outras preocupações da vida devem ser inteiramente subordinadas a esta. Quando um homem está em uma jornada, todos os passos que ele toma são subordinados ao objetivo de chegar ao fim de sua jornada. E se ele traz dinheiro ou provisões consigo, é para supri-lo em sua jornada. Então devemos subordinar totalmente todos os outros interesses e todos os nossos prazeres temporais, por causa de estarmos viajando para o céu. Quando qualquer coisa que temos torna-se uma obstrução e obstáculo para nós, devemos abandoná-la imediatamente. O uso de nossos prazeres mundanos e posses devem ser com tal visão e de tal maneira a nos fazer avançar em nosso caminho para o céu. Assim, devemos comer e beber e vestir-nos, e melhorar a conversa e divertimento com os amigos. E em tudo quanto pretendermos, qualquer projeto em que estivermos envolvidos, devemos perguntar a nós mesmos se este projeto ou plano nos fará avançar no nosso caminho para o céu? E se não, devemos abandonar este nosso plano.

SEÇÃO 2 – Por que a vida do cristão é uma viagem, ou peregrinação?

1. Este mundo não é o nosso lugar permanente. Nossa permanência aqui é muito curta. Os dias do homem sobre a terra são como a sombra. Nunca foi o planejado por Deus que este mundo fosse a nossa casa. Deus também não nos deu essas acomodações temporárias para esse fim. Se Deus nos deu amplas propriedades, e filhos ou outros amigos agradáveis, não é com tal desígnio, a saber, que estejamos acomodados aqui, como se fosse uma morada estabelecida; mas com um desígnio de que devemos usá-los para o presente, e, em seguida, deixá-los em breve tempo. Quando somos chamados para qualquer negócio secular, ou encarregados do cuidado de uma família, se nós empregamos nossas vidas para qualquer outra finalidade, do que como uma viagem para o céu, todo o nosso trabalho será perdido. Se passamos a vida em busca de felicidade terrena: como riquezas ou prazeres sensuais; crédito e estima dos homens; alegrar-nos com os nossos filhos, e na perspectiva de vê-los bem educados e bem estabelecidos, etc. todas estas coisas serão de pouca significância para nós. A morte vai acabar com todas as nossas esperanças, e vai colocar um fim nestes prazeres. “Os lugares que nos conheciam, não nos conhecerão mais” e “o olho que nos viu, não nos verá mais”. Devemos ser levados para sempre de todas essas coisas, e é incerto quando isto acontecerá: pode ser logo depois que somos colocados na posse delas, e então, onde estará todos os nossos ocupações mundanas e prazeres, quando formos colocados na silenciosa sepultura?

2. Todo o mundo futuro foi projetado para ser a nossa morada estabelecida e eterna. Lá foi pretendido que nós fôssemos estabelecidos; e apenas o céu é uma habitação permanente e uma herança duradoura. O estado atual é curto e transitório; mas o nosso estado no outro mundo é eterno. E assim que chegarmos ali, não haverá alterações. Nosso estado no mundo futuro, portanto, sendo eterno, é de muito maior importância do que o nosso estado aqui, que todas as nossas preocupações neste mundo estejam totalmente subordinadas a isto.

3. Céu é aquele único lugar onde nosso mais elevado fim, e mais elevado bem, devem ser obtidos. Deus nos fez para Si mesmo. “Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas” [Romanos 11:36]. Por isso, então podemos alcançar nosso mais elevado propósito, quando somos levados a Deus, mas isso é por ser levado para o céu, para o trono de Deus, o lugar de sua presença especial. Há apenas uma união muito imperfeita com Deus a ser tida no mundo atual, um conhecimento muito imperfeito dEle no meio de muita escuridão; uma conformidade muito imperfeita a Deus, misturada com abundância de escórias. Aqui podemos servir e glorificar a Deus, mas de uma forma muito imperfeita; nosso serviço está misturado com o pecado, que desonra a Deus. Mas quando chegarmos ao céu, (se formos de fato) seremos levados a uma união perfeita com Deus, e teremos uma visão mais clara dEle. Lá seremos totalmente conformados com Deus, sem qualquer pecado remanescente, pois “assim como é o veremos” [1 João 3:2]. Devemos, então, servir a Deus perfeitamente; e glorificá-lo sobremaneira, até o máximo dos poderes e capacidade da nossa natureza. Então vamos perfeitamente desistir de nós mesmos a Deus; nossos corações serão ofertas puras e santas, apresentados em uma chama do amor Divino. Deus é o maior bem da criatura racional, e o desfrutar dEle é a única felicidade com que nossas almas podem ser satisfeitas. Pois ir para o céu, totalmente para desfrutar de Deus, é infinitamente melhor do que as acomodações mais agradáveis aqui. Pais e mães, maridos, esposas ou filhos, ou a companhia de amigos terrenos, são apenas sombras; mas o gozo de Deus é a substância. Esses são apenas raios; mas Deus é o sol. Estes são apenas córregos; mas Deus é a fonte. Estes são apenas gotas; mas Deus é o oceano. Por isso nos convém gastar esta vida apenas como uma jornada para o céu, como nos convém buscar o nosso mais elevado propósito e bem, o pleno trabalho de nosso viver, ao qual devemos subordinar todas as outras preocupações da vida. Por que devemos trabalhar, ou pôr em nosso coração, qualquer outra coisa além do que é nosso próprio fim e verdadeira felicidade?

4. Nosso estado presente, e tudo o que pertence a ele, é designado por Aquele que fez todas as coisas, para serem totalmente subservientes para o mundo vindouro. Este mundo foi feito como um lugar de preparação para outro. A vida mortal do homem foi-lhe concedida, para que pudesse estar preparado para seu estado permanente. E tudo o que Deus nos deu aqui é dado para essa finalidade. O sol brilha e a chuva cai sobre nós, a terra produz o seu fruto para nós, para esse fim. Assuntos civis, eclesiásticas e da família, e todos os nossos interesses pessoais, são projetados e ordenados em subordinação ao mundo futuro, pelo criador e ordenador de todas as coisas. Por isso, portanto, eles devem ser subordinados por nós.

SECÇÃO 3 – A Instrução conferida pela consideração de que a vida é uma viagem, ou peregrinação, em direção ao céu.

1. Esta doutrina pode nos ensinar a moderação em nosso luto pela perda de queridos amigos, que, enquanto viveram, otimizaram suas vidas para os propósitos corretos, se é que eles viveram uma vida santa, então suas vidas eram uma jornada para o céu. E por que deveríamos ser imoderados no luto, quando eles chegaram ao final de sua jornada? A morte, apesar de parecer para nós um aspecto terrível, é para eles uma grande bênção. Seu fim é feliz, e melhor do que o seu início. “O dia da sua morte é melhor para eles do que o dia de seu nascimento” [Eclesiastes 7:1]. Enquanto viviam, eles desejavam o céu, e o escolhiam antes do que este mundo, ou qualquer um dos seus prazeres. Eles sinceramente o desejavam, então por que devemos lamentar que tenham obtido isso? Agora eles chegaram à casa de seu Pai. Eles têm milhares de vezes mais confortos agora que eles chegaram em casa, do que eles tiveram em sua jornada. Neste mundo presente eles passaram por muito trabalho e labuta, como por um deserto. Houve muitas dificuldades no caminho; montanhas e lugares ásperos. Foi trabalhoso e cansativo percorrer o caminho, e eles tiveram muitos dias e noites cansativas. Mas agora eles chegaram ao seu descanso eterno “e ouvi uma voz do céu, que me dizia: Escreve: Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem dos seus trabalhos, e as suas obras os seguem” [Apocalipse 14:13]. Eles olham para trás, para as dificuldades e tristezas, e perigos da vida, regozijando-se de terem superado todos eles. Estamos prontos para encarar a morte como sua calamidade, e para lamentar, que aqueles que eram tão queridos por nós, estejam numa cova escura carcomidos por corrupção e vermes, tirados de seus queridos filhos, prazeres e etc. em circunstâncias terríveis, porém isso se dá por causa de nossa fraqueza – eles estão em uma condição feliz, inconcebivelmente abençoados. Eles não choram, mas se regozijam-se com extrema alegria: suas bocas estão cheias de canções alegres, e bebem em rios de prazer. Eles não encontram nenhuma tristeza pelo fato de trocaram suas alegrias terrenas, e a companhia dos mortais, pelo céu. Sua vida aqui na terra, embora nas melhores circunstâncias, foi marcada muitas adversidades e aflições, mas agora todas estas chegaram ao fim. “Nunca mais terão fome, nunca mais terão sede; nem sol nem calma alguma cairá sobre eles. Porque o Cordeiro que está no meio do trono os apascentará, e lhes servirá de guia para as fontes vivas das águas; e Deus limpará de seus olhos toda a lágrima” [Apocalipse 7:16-17]. É verdade que não mais os veremos neste mundo, mas devemos considerar que estamos viajando em direção a mesma paz, e por que devemos entristecer nossos corações porque eles têm chegado lá antes de nós? Estamos seguindo após eles, e esperamos, assim que chegarmos ao final de nossa jornada, estarmos com eles de novo, em melhores circunstâncias. Um grau de luto por parentes próximos quando falecidos não é incompatível com o cristianismo, mas muito conforme com ele, pois enquanto somos de carne e sangue, temos propensões e afeições animais. Mas temos justa razão para que nosso luto deva ser misturado com alegria. “Não quero, porém, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que já dormem, para que não vos entristeçais, como os demais, que não têm esperança” [1 Tessalonicenses 4:13]. Por isso não devemos sofrer como os gentios, que não tinham conhecimento de uma felicidade futura. Isso aparece pelo seguinte versículo: “Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que em Jesus dormem, Deus os tornará a trazer com ele”. [1 Tessalonicenses 4:14].

2. Se a nossa vida deveria ser apenas uma jornada para o céu; quão mal cultivam as suas vidas, aqueles que a gastam viajando para o inferno! Alguns homens passam a vida inteira, desde a sua infância até o dia da morte, descendo o amplo caminho para a destruição. Eles não só se aproximam para o inferno quanto ao tempo, mas a cada dia apressam-se para a destruição, eles estão mais assemelhados aos habitantes do mundo infernal. Enquanto outros avançam no caminho estreito e apertado para a vida, e laboriosamente viajam até o morro em direção a Sião, contra as inclinações e tendência da carne; estes correm com pés velozes para a morte eterna, este é o emprego de todos os deveres, com todos os homens ímpios; e todo o dia deles é gasto nisto. Assim que eles acordam de manhã, eles partem de novo no caminho para o inferno, e gastar seu tempo nele. Eles começam nos primeiros dias. “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” [Salmos 58:3] Eles se apegam a elas com perseverança. Muitos deles que chegam à velhice, nunca estão cansados delas; apesar de chegarem aos cem anos de idade, eles não vão deixar de viajar no caminho para o inferno até que eles cheguem lá. E todas as preocupações da vida estão subordinadas a este empreendimento. Um homem mau é um servo do pecado, seus poderes e faculdades estão empregados no serviço do pecado, e na aptidão para o inferno. E todas as suas posses são assim usadas por ele, para ser subserviente ao mesmo propósito. Homens gastam seu tempo entesourando ira para o dia da ira. Assim fazem todas as pessoas impuras, que vivem em práticas lascivas em segredo, todas as pessoas mal-intencionadas; todas as pessoas profanas, que negligenciam os deveres da religião. Assim fazem todas as pessoas injustas; e aqueles que são fraudulentos e opressivos em suas transações. Assim fazem todos os caluniadores e os maldizentes, todas as pessoas avarentas, que põe seus corações principalmente nas riquezas deste mundo. Assim fazem frequentadores de tavernas; e frequentadores das más companhias; e muitos outros tipos que poderiam ser mencionados. Assim, a maior parte da humanidade se apressa no amplo caminho para a destruição; que é, como também já foi, preenchido com a multidão que está indo no mesmo caminho em acordo. E eles estão todos os dias indo para o inferno neste largo caminho aos milhares. Multidões estão continuamente fluindo para dentro do grande lago de fogo e enxofre, como um poderoso rio que constantemente esvazia suas águas no oceano.

3. Assim, quando as pessoas são convertidas, eles já começam seu trabalho, e partem no caminho que eles devem prosseguir. Eles nunca até então, fizeram alguma coisa nesse trabalho no qual toda a sua vida deve ser gasta. Pessoas antes da conversão nunca dão um passo nessa direção. Assim um homem é posto inicialmente em sua jornada, quando ele é trazido para casa a Cristo; e tão longe ele está de ter feito o seu trabalho, que o seu cuidado e labuta em seu trabalho cristão é então iniciado; no qual ele deve passar o restante de sua vida. As pessoas fazem o mal, quando elas são convertidas e obtiveram uma esperança de estarem em boas condições, não se esforçam com tanto fervor como faziam antes, enquanto estavam despertados. Eles devem, daqui em diante e enquanto viverem, ser tão sérios e diligentes, tão vigilantes e cuidadosos como nunca; sim, devem aumentar cada vez mais. Não é uma desculpa justa, que agora eles obtiveram a conversão. Não deveríamos ser tão diligentes para que possamos servir e glorificar a Deus, enquanto que nós mesmos podemos ser felizes? E se temos obtido graça, devemos lutar mais para que possamos alcançar os outros graus que estão adiante, como fizemos para obter esse pequeno grau que alcançado. O apóstolo nos diz que ele esqueceu o que estava atrás, e avançou para o que estava à frente. Sim, aqueles que são convertidos, têm agora mais uma razão para lutar por graça; pois eles têm visto algo da sua excelência. Um homem que uma vez provou as bênçãos de Canaã, tem mais um motivo para marchar em sua direção do que tinha anteriormente. E aqueles que são convertidos, deve se esforçar para “fazer firme sua vocação e eleição” Todos aqueles que são convertidos não tem certeza absoluta disso; e aqueles que tem certeza, não sabem se sempre haverão de possuir certeza, e assim continuar buscando e servindo a Deus com a máxima diligência, é o caminho para ter certeza, e para tê-la mantida.

SEÇÃO 4. Uma exortação, assim viva a vida presente de modo que possa ser apenas um caminho para o céu. Trabalhe para obter tal disposição de espírito que você possa escolher o céu por herança e casa; e possa sinceramente esperar por isso, e estar disposto a trocar o mundo, e todos os seus prazeres, pelo céu. Trabalhe para ter o seu coração tão enlaçado pelo céu, e os prazeres celestiais, que você possa se alegrar quando Deus te chamar para deixar os seus melhores amigos e conforto terrestres pelo céu, para desfrutar de Deus e Cristo. Convença-se a viajar no caminho que leva ao céu, em santidade, abnegação, mortificação e obediência a todos os mandamentos de Deus, seguindo o exemplo de Cristo, em forma de uma vida celestial, ou imitação dos santos e anjos no céu. Que seja o seu trabalho diário, desde a manhã até a noite, e persevere nele até o fim, não deixe nada parar, desencorajar ou tirar você deste caminho. E deixe todas as outras preocupações serem subordinadas a isso. Considere as razões que foram mencionadas sobre o porquê você deve assim passar a sua vida; que este mundo não é o seu lugar de permanência, que o mundo futuro é para ser sua morada eterna; e que os prazeres e preocupações deste mundo são dados inteiramente em subordinação para o próximo mundo. E considere mais pelo motivo:

1. Quão digno é o céu de que a sua vida seja totalmente gasta como uma viagem em direção a ele. Para que melhor propósito você pode gastar a sua vida, se você respeita o seu dever ou o seu interesse? Que final melhor você pode propor para sua viagem do que obter o céu? Você é colocado neste mundo, com uma escolha que lhe é dada, você pode viajar no caminho que você quiser; e um caminho que leva para o céu. Agora, você pode direcionar o seu curso melhor do que este caminho? Todos os homens têm algum objetivo ou outro na vida. Alguns procuram, principalmente, as coisas do mundo; eles passam seus dias em tais atividades, mas não é o céu, onde há plenitude de alegria para sempre, muito mais digno de ser procurado por você? Como você pode melhor empregar sua força, usar seus meios e passar os seus dias do que viajando na estrada que leva ao gozo eterno de Deus; à Sua presença gloriosa; à nova Jerusalém celestial, ao monte Sião onde todos os seus desejos serão preenchidos, e não há jamais perigo de perder a sua felicidade? Nenhum homem está em casa neste mundo, se ele escolher o céu ou não; aqui ele nada é senão uma pessoa transitória. Que outro lugar você poderia escolher por sua casa que seria melhor do que o céu?

2. Esta é a maneira da morte ser confortável para nós. Para gastarmos nossas vidas, de modo a ser apenas uma jornada para o céu, é o caminho para ser livre da escravidão, e ter a perspectiva e premeditação da morte confortável. Será que o viajante pensa no fim de sua jornada com medo e terror? É terrível para ele pensar que ele está prestes a chegar ao final de sua jornada? Estiveram os filhos de Israel pesarosos, depois de quarenta anos de viagem no deserto, quando eles estavam prestes a chegar à Canaã? Esta é a maneira de participarmos deste mundo sem sofrimento. Será que o viajante lamenta quando ele chega em casa, para deixar seu bastão e carga de provisões que ele possuía para sustentá-lo pelo caminho?

3. Nada mais de sua vida será agradável pensar quando você estiver para morrer, do que tê-la gastado desta maneira. Se você não passou nada em sua vida dessa maneira, toda a sua vida vai ser terrível para você pensar, a não ser que você morra em alguma grande ilusão. Você vai ver, então, que toda a sua vida que foi gasta de outra forma está perdida. Você verá então a vaidade de todos os outros objetivos que você propôs para si mesmo. O pensamento do que você aqui possuía e gozava não será agradável, a menos que você possa pensar também que os tenha subordinado à esta finalidade.

4. Considere-se que aqueles que estão dispostos a viverem suas como uma viagem para o céu, podem obter o céu. O céu, ainda que alto e glorioso, é atingível para tais criaturas inúteis pobres como nós somos. Podemos alcançar essa região gloriosa que é a morada dos anjos, sim, a morada do Filho de Deus; e onde está a presença da glória do grande Jeová. E podemos tê-lo livremente, sem dinheiro e sem preço, se estamos dispostos a viajar no caminho que conduz a ele, e se nos convertermos do curso deste caminho em que vivemos, podemos e teremos o céu como o nosso lugar de descanso eterno.

5. Seja considerado que se nossas vidas não forem uma viagem para o céu, elas serão uma viagem para o inferno. Toda a humanidade, depois de haver estado aqui por um pouco, irá para um dos dois grandes destinos de todos os que partem deste mundo, a saber, um é o céu, para onde um pequeno número, em comparação, viaja; e o outro é o inferno, para onde vai a maior parte da humanidade. Este ou aquele deve ser o resultado de nosso curso neste mundo.

SECÇÃO 5 Vou concluir, dando algumas indicações:

1. Trabalhe para ter uma noção da vaidade deste mundo por conta da pouca satisfação que há para ser apreciado aqui; sua curta permanência e inutilidade para nos auxiliar quando mais necessitamos de ajuda, em um leito de morte. Todos os homens, que vivem qualquer tempo considerável no mundo, podem ver o suficiente para convencê-los de sua vaidade, se eles se derem ao trabalho de refletir. Sejam persuadidos, portanto, de exercer consideração, quando você ver e ouvir ao longo do tempo sobre a morte de outros. Trabalhe para transformar seus pensamentos deste e modo. Veja a vaidade do mundo sob essa lente.

2. Trabalhe para estar bastante familiarizado com o céu. Se você não está familiarizado com ele, você não será capaz de gastar a sua vida como uma viagem para lá. Você não será sensível de seu valor, nem vai esperar muito por ele. A menos que você esteja muito familiarizado em sua mente com este bem maior, será muito mais difícil para você ter o coração desprendidas destas coisas e usá-las apenas em subordinação a quaisquer outras coisas, e estar pronto para partir delas por causa daquele bem maior. Trabalhe, portanto, para obter um senso de perceptivo de um mundo celestial, para obter uma firme convicção de sua realidade e estar muito familiarizado com ele em seus pensamentos.

3. Busque o céu somente por Jesus Cristo. Cristo nos diz que Ele é o caminho, e a verdade, e a vida. Ele nos diz que Ele é a porta das ovelhas. “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens” [João 10:9]. Se, portanto, aprimorarmos nossa vida como uma viagem para o céu, devemos fazê-lo através dEle, e não por nossa própria justiça; esperando obtê-lo apenas por causa dEle, olhando para Ele, dependendo nEle, que o tem adquirido para nós por seu mérito. E somente dEle esperemos por força para caminhar em santidade, o caminho que conduz ao céu.

4. Que os cristãos ajudem uns aos outros nesta jornada. Há muitas maneiras em que os cristãos podem ajudar muito uns aos outros em seu caminho para o céu, como por conferência religiosa e etc. Portanto permita que sejam exortados a ir por esse caminho como se fosse em companhia, conversando juntos e ajudando uns aos outros. A companhia é muito desejável em uma viagem, mas em nenhuma outra tanto quanto nesta. Deixe-os irem unidos e não caírem pelo caminho, o que seria para embaraçar um ao outro; mas usem todos os meios possíveis para ajudarem uns aos outros, monte acima. Isso iria garantir uma viagem mais bem sucedida e uma reunião mais alegre na casa de seu Pai na glória.

.
__________
♦ Fonte: GraceGems.org │ Título Original: The Christian Pilgrim or “The True Christian’s Life a Journey Towards Heaven”
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ 
Tradução por Amanda Ramalho

♦  Revisão por William Teixeira


O Terrível Estado Dos Não-Convertidos – Jonathan Edwards

[Baixe o e-book desse sermão, em formato PDF, clicando AQUI]

“Então, o carcereiro, tendo pedido uma luz, entrou precipitadamente e, trêmulo, prostrou-se diante de Paulo e Silas. Depois, trazendo-os para fora, disse: Senhores, que devo fazer para que seja salvo?” (Atos 16:29,30)

Temos aqui e no contexto um relato da conversão do carcereiro, que é uma das mais notáveis nas Escrituras. Ele, anteriormente, parece não apenas ter estado completamente insensível às coisas da religião, mas ter sido um perseguidor, tendo perseguido estes mesmos homens, Paulo e Silas, embora agora venha a eles de forma tão urgente, perguntando-lhes o que devia fazer para ser salvo. Lemos no contexto que todos os magistrados e multidões da cidade juntaram-se a uma em um tumulto contra Paulo e Silas, arrebatando-os, e lançando-os na prisão, encarregando o carcereiro da sua guarda. Imediatamente ele os lançou na prisão interior, e prendeu seus pés ao tronco. E é provável que não tenha agido assim meramente como um servo ou instrumento dos magistrados, mas que tenha se juntado com o resto do povo na sua fúria contra os apóstolos, e que assim o fez induzido por sua própria vontade, bem como pelas ordens dos magistrados, o que o fez executar suas ordens com tal rigor.

Mas quando, à meia noite, Paulo e Silas oravam e cantavam louvores, repentinamente houve um grande terremoto, e Deus abriu de forma tão maravilhosa as portas da prisão, e todas as cadeias foram afrouxadas, o carcereiro ficou extremamente aterrorizado, e, em uma espécie de desespero, estava prestes a se matar. Mas Paulo e Silas gritaram para ele: “Não te faças mal algum, pois estamos todos aqui”. Então, pediu uma luz, e saltou dentro [ARC], como temos o relato no texto. Podemos observar:

1. O objeto de sua preocupação. Ele está ansioso acerca de sua salvação: está aterrorizado por sua culpa, especialmente por sua culpa no maltrato destes ministros de Cristo. Está preocupado em escapar desse estado de culpa, o estado miserável que se encontrava devido ao pecado.

2. O senso que tem do horror do seu estado atual. Isto ele manifesta de diversas maneiras:

1. Por sua grande pressa em escapar desse estado. Por seu afã em inquirir o que deve fazer. Ele parece estar tolhido pela mais premente preocupação, sensível à sua presente necessidade de libertação, sem qualquer adiamento. Antes, estava quieto e seguro em seu estado natural; mas agora seus olhos foram abertos, está na mais urgente pressa. Se a casa estivesse em chamas sobre sua cabeça, não poderia ter sido mais diligente, ou estar mais apressado. Se apenas tivesse andado, poderia logo ter chegado a Paulo e Silas, para perguntar-lhes o que devia fazer. Mas estava em grande pressa para andar apenas, ou correr, pois saltou; pulou para o lugar em que estavam. Ele fugia da ira. Fugia do fogo da justiça divina, e por isso apressava-se, como alguém que foge pela sua vida.

2. Pelo seu comportamento e gesto diante de Paulo e Silas. Ele se prostrou. Que tenha se prostrado diante daqueles a quem havia perseguido, e atirado à prisão interior, e prendido os pés ao tronco, mostra qual era o estado de sua mente. Mostra alguma grande perturbação, que o alterou de tal maneira que o levou a isto. Estava, por assim dizer, despedaçado pela perturbação de sua mente, em um senso do horror de sua condição.

3. Sua maneira urgente de inquiri-los acerca do que devia fazer para escapar desta condição miserável: “Senhores, que devo fazer para ser salvo?” Estava tão perturbado, que foi levado a se dispor a qualquer coisa; ter a salvação em qualquer termo, e por qualquer meio, mesmo que difícil; foi levado, por assim dizer, a escrever uma fórmula, e entregá-la a Deus, para que Ele prescrevesse seus próprios termos.

DOUTRINA: Os que estão em um estado natural, estão em uma condição terrível.

Isto me esforçarei para provar por uma consideração particular do estado e condição das pessoas não regeneradas.

I. Quanto a seu estado atual neste mundo.

II. Quanto as suas relações com o mundo futuro.

.
I. A condição daqueles que não são convertidos é terrível no mundo presente.

Primeiro. Devido ao estado depravado de suas naturezas. Os homens, quando vêm ao mundo, têm naturezas terrivelmente depravadas. O homem, em seu estado primitivo, era uma peça nobre de habilidade Divina; mas, pela Queda, está horrivelmente desfigurado. É triste pensar que uma criatura tão excelente deva estar tão arruinada. O horror desta condição, na qual se encontram os não-convertidos neste respeito, prova-se pelo seguinte:

1. O horror de sua depravação evidencia-se pelo fato de serem tão insensivelmente cegos e ignorantes. Deus deu ao homem a faculdade da razão e do entendimento, que é uma nobre faculdade. Por ela, ele se diferencia de todas as outras criaturas inferiores. É exaltado em sua natureza acima delas, e é, neste aspecto, semelhante aos anjos, capacitado a conhecer a Deus, e conhecer as coisas eternas e espirituais. Deus lhe deu entendimento para este fim, para que O pudesse conhecer, e conhecer as coisas celestiais, e o fez capaz de compreendê-las como quaisquer outras. Mas o homem degradou a si mesmo, e perdeu sua glória neste respeito. Tornou-se ignorante da excelência de Deus à maneira das próprias feras. Seu entendimento está cheio de obscuridade; sua mente está cega; está completamente cego para as coisas espirituais. Os homens são ignorantes de Deus, e ignorantes de Cristo, ignorantes do caminho da salvação, ignorantes de sua própria felicidade, cegos em meio a mais brilhante e clara luz, ignorantes sob todas as formas de instrução. Rm 3:17: “Desconheceram o caminho da paz”. Is 27:11: “Não é povo de entendimento”. Jr 4:22: “O meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não inteligentes”. Sl 95:10, 11: “É povo de coração transviado, não conhece os meus caminhos. Por isso, jurei na minha ira: não entrarão no meu descanso”:1 Co 15:34: “Alguns ainda não têm conhecimento de Deus; isto digo para vergonha vossa”.

Há um espírito de ateísmo prevalecendo nos corações dos homens; uma estranha disposição para duvidar da própria existência de Deus, e do outro mundo, e de qualquer coisa que não possa ser vista com os olhos físicos. Sl 14.1: “Diz o insensato no seu coração, não há Deus”. Não percebem que Deus os vê, quando pecam, e os chamará a prestar contas por isso. E, portanto, se podem esconder os pecados dos olhos dos homens, não se preocupam, e são ousados em cometê-los. Sl 94:7-9: “E dizem: O SENHOR não o verá; nem para isso atentará o Deus de Jacó. Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios? Aquele que fez o ouvido, não ouvirá? E o que formou o olho, não verá? [ARC]” Sl 73:11: “E diz: Como sabe Deus? Acaso, há conhecimento no Altíssimo?” São tão insensivelmente incrédulos das coisas futuras, do céu e do inferno, que comumente preferem correr o risco da condenação a ser convencidos. São estupidamente insensíveis da importância das coisas eternas. Como é difícil levá-los à fé, e dar-lhes real convicção de que ser feliz por toda a eternidade é melhor que todos os outros bens; e ser miserável por toda eternidade, debaixo da ira de Deus, é pior que todo mal. Os homens mostram-se insensíveis o suficiente nas coisas temporais, mas muito mais nas espirituais. Lc 12:56: “Hipócritas, sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu e, entretanto, não sabeis discernir esta época?” São muito engenhosos para o mal; mas rudes naquelas coisas que mais os importam. Jr 4:22: “São sábios para o mal e não sabem fazer o bem”. Os ímpios se mostram mais tolos e insensíveis para o que lhes é melhor, do que os brutos. Is 1:3: “O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende”. Jr 8:7: “Até a cegonha no céu conhece as suas estações; a rola, a andorinha e o grou observam o tempo da sua arribação; mas o meu povo não conhece o juízo do SENHOR”.

2. Não há bem algum neles. Rm 7:18: “Em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum”. Não há neles nenhum princípio que os disponha a qualquer coisa boa. Os não-convertidos não têm princípio mais elevado em seus corações do que o amor-próprio. E nisso não excedem os demônios. Estes amam a si mesmos, e sua própria felicidade, e temem sua própria miséria. E não vão mais longe. Seriam tão religiosos quanto os melhores dos não-convertidos, se estivessem nas mesmas circunstâncias. Seriam tão moralistas, e orariam com o mesmo fervor a Deus, e sofreriam o mesmo tanto pela salvação, se houvesse oportunidades semelhantes. E, assim como não há bom princípio nos corações dos não-convertidos, também nunca há quaisquer bons exercícios do coração, nunca um bom pensamento, ou mover de coração neles. Particularmente, neles não há amor por Deus. Jamais tiveram o mínimo grau de amor pelo Ser infinitamente glorioso. Jamais tiveram o mínimo respeito verdadeiro pelo Ser que os criou, e em cujas mãos está sua respiração, e de quem procedem todas as suas misericórdias. Conquanto, às vezes, possam parecer fazer coisas por respeito a Deus, e vistam o rosto como se O honrassem, e altamente O estimassem, tudo não passa de hipocrisia. Mesmo que haja um exterior limpo, são como sepulcros caiados; por dentro não há nada senão putrefação e podridão. Não têm amor por Cristo, o glorioso Filho de Deus, que é tão digno de seu amor, e que mostrou graça tão maravilhosa pelos pecadores ao morrer por eles. Jamais fizeram qualquer coisa por respeito verdadeiro ao Redentor do mundo, desde que nasceram. Jamais produziram quaisquer frutos a esse Deus que os criou, e em quem vivem, movem-se e tem seu ser. Jamais responderam de alguma forma ao fim para o qual foram criados. Têm, até agora, vivido completamente em vão, e sem nenhum propósito. Jamais obedeceram com sinceridade a um mandamento de Deus; nunca moveram um dedo motivados por um espírito verdadeiro de obediência a Ele, que os fez para servi-lO. E quando pareceram, externamente, concordar com os mandamentos de Deus, em seus corações não o fizeram. Jamais obedeceram movidos por um espírito de sujeição a Deus, ou por qualquer disposição em obedecê-lO, mas meramente foram levados a isso pelo medo, ou de alguma forma influenciados por seus interesses mundanos. Jamais deram a Deus a honra de nenhum de Seus atributos. Nunca Lhe deram a honra de Sua autoridade, obedecendo-Lhe. Jamais Lhe deram a honra por Sua soberania, submetendo-se a Ele. Jamais Lhe deram a honra de Sua santidade e misericórdia, amando-O. Nunca Lhe deram a honra por Sua suficiência e fidelidade, confiando nEle; mas olharam para Deus como Alguém indigno de ser crido e confiado, e o trataram como se fosse um mentiroso: 1 Jo 5:10: “Aquele que não dá crédito a Deus o faz mentiroso”. Eles jamais agradeceram de coração a Deus por uma simples misericórdia recebida em toda sua vida, embora Ele os tenha sustentado, e tenham vivido debaixo de Sua liberalidade. Jamais agradeceram genuinamente a Cristo por ter vindo ao mundo, e morrido para lhes dar a oportunidade de serem salvos. Jamais lhe mostrariam alguma gratidão a ponto de recebê-lO, quando bateu em suas portas; mas sempre lha fecharam, embora tenha batido sem nenhum outro propósito senão o de oferecer-Se para ser seu Salvador. Jamais tiveram qualquer desejo verdadeiro por Deus ou Cristo em toda a sua vida. Quando Deus se ofereceu para ser sua porção, e Cristo, para ser o amigo de suas almas, não os desejaram. Jamais quiseram ter Deus e Cristo como sua porção. Prefeririam, ao contrário, estar sem eles, se pudessem evitar o inferno sem Sua companhia. Jamais tiveram um pensamento honroso sobre Deus. Sempre estimaram as coisas terrenas antes dEle. E, apesar de tudo o que ouviram nos mandamentos de Deus e de Cristo, sempre preferiram um pequeno ganho mundano ou um prazer pecaminoso a eles.

3. Os não-convertidos estão em uma condição terrível devido à horrível impiedade que há neles.

1. O pecado possui uma natureza terrível, e isso se dá porque é cometido contra um Deus infinitamente grande e santo. Há na natureza do homem inimizade, desprezo e rebelião contra Deus. O pecado se levanta como um inimigo do Altíssimo. É terrível para a criatura ser inimiga do Criador, ou ter no coração algo como uma inimizade, como ficará bem claro, se considerarmos a diferença que há entre Deus e a criatura, e como as criaturas, comparadas a Ele, são como o pó da balança, como nada, menos do que nada, um vácuo. Há um mal infinito no pecado. Se víssemos a centésima parte do mal que há no pecado, isso nos tornaria sensíveis que aqueles que têm qualquer pecado, ainda que seja mínimo, estão em uma condição terrível.

2. Os corações dos não-convertidos estão completamente cheios de pecado. Se tivessem apenas um pecado neles, seria suficiente para tornar suas condições muito terríveis. Mas têm não apenas um pecado, mas todo tipo de pecado. Há todo tipo de desejo carnal. O coração é um mero poço de pecado, uma fonte de corrupção, de onde emerge todo tipo de regatos imundos. Mc 7:21, 22: “Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura”. Não há um desejo maligno no coração do diabo, que não esteja no coração do homem. Os homens naturais são à imagem do diabo. A imagem de Deus é demolida, e a imagem do diabo é estampada nele. Deus graciosamente se agrada em restringir a impiedade dos homens, especialmente pelo temor e respeito que têm pelos seus créditos e reputações, e pela educação. Não fosse tais restrições, não haveria tipo de impiedade que os homens não cometeriam, quando lhes viessem ao encontro. A prática daquelas coisas que os homens agora, à simples menção, prontamente ficam chocados quando ouvem o relato, seria comum e geral; e a terra seria um tipo de inferno. Se não temesse, o que o homem natural não faria? Mt 10:17: “acautelai-vos dos homens”. Os homens têm não apenas todo tipo de luxúria, e disposições ímpias e perversas em seus corações, mas as têm em um grau desesperador. Não há apenas o orgulho, mas um grau fantástico dele: orgulho tal que o dispõe a colocar-se acima até mesmo do trono do próprio Deus. Os corações dos não-convertidos são meras sarjetas de sensualidade. O homem se tornou como as feras ao colocar sua felicidade nas diversões sensuais. O coração está cheio das paixões mais repugnantes. Suas almas são mais vis e abomináveis que a de qualquer réptil. Se Deus abrisse uma janela no coração, de forma que pudéssemos contemplar o seu interior, seria o espetáculo mais repugnante que já se viu sob nossos olhos. Não há apenas malícia nos corações dos homens naturais, mas uma fonte dela. Os homens merecem, portanto, a linguagem aplicadas a eles por Cristo em Mateus 3.7: “Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?” e Mt 23:33: “Serpentes, raça de víboras!” Eles, não fosse pelo medo e outras restrições, não apenas cometeriam toda sorte de pecado, mas a que grau, a que distância não procederiam! O que impede um homem natural de abertamente blasfemar contra Deus, como faz qualquer um dos demônios; sim, de destroná-lo, se fosse possível, e não houvesse o medo e outras restrições no caminho? Sim, não aconteceria isto com muitos dos que agora aparecem com um rosto justo, falando muito de Deus, e com muitas pretensões de adorá-lO e servi-lO? A grande impiedade dos homens naturais aparece abundantemente nos pecados que cometem, não obstante todas estas restrições. Todo homem natural, se refletir, pode ver o suficiente para mostrar-lhe como é excessivamente pecador. O pecado flui do coração com tanta constância como a água flui de uma fonte. Jr 6:7: “Como o poço conserva frescas as suas águas, assim ela, a sua malícia”. E esta impiedade, que abunda desta maneira nos corações, tem domínio sobre eles. São escravos dela: Rom 7:14: “eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado”. Estão de tal maneira debaixo do pecado, que são conduzidos por suas luxúrias em um curso contra suas próprias consciências, e contra seu próprio interesse. Apressam-se em direção à própria ruína, e isso ao mesmo tempo em que suas próprias razões lhes advertem que isto provavelmente será sua perdição. 2 Pedro 2.14: “Insaciáveis no pecado”. Devido ao fato dos ímpios estarem de tal maneira sob o poder do pecado, o coração humano é descrito como desesperadamente corrupto em Jr 17.9 e Ef 2.1 diz: “[estáveis] mortos nos vossos delitos e pecados”.

3. Os corações dos não-convertidos são terrivelmente endurecidos e incorrigíveis. Nada, a não ser o poder de Deus, os moverá. Apegar-se-ão ao pecado, e continuarão nele, aconteça o que acontecer. Pv 27:22: “Ainda que pises o insensato com mão de gral entre grãos pilados de cevada, não se vai dele a sua estultícia”. Não há nada que abale seus corações, e nada que os leve à obediência: quer sejam misericórdias ou aflições, ameaças ou chamados e convites da graça, reprovação ou paciência e longanimidade, ou conselhos e exortações paternais. Is 26:10: “Ainda que se mostre favor ao perverso, nem por isso aprende a justiça; até na terra da retidão ele comete a iniquidade e não atenta para a majestade do SENHOR”.

Em segundo lugar: O estado relativo dos não-convertidos é terrível. Isso será evidente se considerarmos:

1. Seu estado relativo com respeito a Deus; e isso porque:

1. Eles estão sem Deus no mundo. Não têm interesse ou parte com Deus: Ele não é o Deus deles. Ele próprio declarou que não o seria (Os 1:9). Deus e os crentes têm uma relação pactual mútua e direito um ao outro. Eles são seu povo, e Ele é o Deus deles. Mas não é o Deus pactual daqueles que estão em um estado natural. Há uma grande alienação e estranhamento entre Deus e os ímpios: Ele não é seu pai e porção, não têm nada com que possam questioná-lo, não têm direito a nenhum de seus atributos. O crente pode reivindicar um direito no poder de Deus, em Sua sabedoria e santidade, Sua graça e amor. Tudo é renovado para ele, em seu benefício. Mas o não-convertido não pode reivindicar direito algum a qualquer das perfeições de Deus. Não têm Deus para defendê-los e protegê-los neste mundo mau: para defendê-los do pecado, de Satanás ou de qualquer mal. Não têm Deus para guiá-los e orientá-los em quaisquer dúvidas ou dificuldades, para confortá-los e apoiar suas mentes nas aflições. Estão sem Deus em todos as suas ocupações, em todos os negócios que realizam, em seus assuntos familiares, e em todas os seus projetos pessoais, nas suas preocupações exteriores e nas preocupações de suas almas.

Como poderia uma criatura ser mais miserável do que estando separada de seu Criador, e não ter um Deus a quem possa chamar de seu? É miserável, de fato, aquele que vagueia pelo mundo, sem um Deus para velar por si, e ser seu guia e protetor, e abençoá-lo nos seus afazeres. A própria luz da natureza ensina que o Deus de um homem é seu tudo. Jz 18:24: “Os deuses que eu fiz me tomastes; que mais me resta?” Não há senão um Deus, e não têm direito algum a Ele. Estão sem aquele Deus, cuja vontade deve determinar sua inteira existência, tanto aqui quanto na eternidade. Que os não-convertidos estão sem Deus mostra que estão sujeitos a todo tipo de mal. Estão sujeito ao poder do diabo, ao poder de todo tipo de tentação, pois não têm Deus para protegê-los. Estão sujeitos a ser seduzidos e enganados pelas opiniões errôneas, e a abraçarem doutrinas condenadas. Não é possível enganar os santos desta maneira. Mas os não-convertidos podem ser enganados. Podem tornar-se papistas, ou pagãos ou ateus. Nada que tenham pode livrá-los disso. Estão sujeitos a ser entregues à dureza judicial de Deus no coração. Eles a merecem, e, uma vez que Deus não é o seu Deus, não têm certeza se não lhes aplicará esse terrível julgamento. Como estão sem Deus no mundo, estão sujeitos a cometer todo tipo de pecado, e, até mesmo, o pecado imperdoável. Não podem ter certeza se não vão cometê-lo. Estão sujeitos a construir uma falsa esperança do céu, e, com essa esperança, irem ao inferno. Estão sujeitos a morrer insensíveis e estúpidos, como muitos morrem. Estão sujeitos a morrer da mesma maneira que morreram Judas e Saul, sem temor do inferno. Não estão seguros disso. Estão sujeitos a todo tipo de engano, uma vez que estão sem Deus. Não podem dizer o que poderá lhes suceder, nem quando estão seguros de qualquer coisa. Não estão seguros nem por um momento. Dez mil enganos fatais podem recair sobre eles, e torná-los miseráveis para sempre.

Os que têm Deus por seu Deus estão livres de tais males. Não é possível que recaiam sobre eles. Deus é seu Deus pactual, e têm sua promessa fiel de ser seu refúgio. Mas quantos enganos há que não possam recair sobre os não-convertidos? Quaisquer esperanças que tiverem poderão ser desapontadas. Qualquer perspectiva ingênua que possa aparentemente haver de sua conversão e salvação, pode desvanecer. Podem fazer grandes progressos em direção ao reino de Deus, e, ainda assim, falhar no final. Podem parecer estar em um estado deveras esperançoso de serem convertidos, e, ainda assim, jamais o serem. Um homem natural não tem segurança alguma. Não está seguro de bem nenhum, nem de escapar de qualquer mal. É, portanto, terrível a condição na qual se encontra o não-convertido. Os que estão no seu estado natural estão perdidos. Desviaram-se de Deus, e são como ovelhas perdidas, que se desviaram do seu pastor. São pobres criaturas desamparadas, em um deserto cheio de uivos, sem pastor para protegê-las ou guiá-las. Estão desolados, e expostos a inúmeros enganos fatais.

2. Estão não apenas sem Deus, mas a Sua ira permanece sobre eles, João 3.36: “O que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus”. Não há paz entre Deus e eles, mas Deus está irado com eles, diariamente. Não está apenas irado, mas o está num grau terrível. Há um fogo aceso na ira de Deus: ela está em chamas. A ira permanece sobre eles, que, se fosse ela executada, os lançaria no mais profundo inferno, e os tornaria miseráveis por toda eternidade. Provocaram o Santo de Israel à ira. Deus sempre esteve irado com eles, desde que começaram a pecar: tem sido provocado diariamente, e mais e mais, a cada hora. A chama de sua ira está continuamente ardendo. Provocaram a Deus mais do que muitos no inferno, e com maior frequência. Aonde quer que vão, convivem com a terrível ira de Deus sobre si. Comem, bebem e dormem debaixo de Sua ira. Como é terrível, portanto, a condição em que estão! É muito triste para a criatura ter a ira do seu Criador sobre si. Essa ira de Deus é algo infinitamente terrível. A ira de um rei é como o rugido de um leão; mas o que é a ira de um rei, que não é senão um verme do pó, comparada à ira do Deus infinitamente grande e terrível? Como é horrível estar debaixo da ira do Ser Primeiro, o Ser dos seres, o grande Criador e poderoso dono dos céus e da terra! Como é terrível para uma pessoa estar debaixo da ira de Deus, que lhe deu o ser, e em quem se move e existe, que é onipresente e sem o qual ela não pode dar um passo, nem um suspiro! Os não-convertidos, além de estarem debaixo de ira, estão debaixo de maldição. A ira e a maldição de Deus estão continuamente sobre eles. Não podem ter um conforto razoável, portanto, em qualquer de suas diversões, pois nada sabem, senão que elas lhes são dadas em ira, e serão amaldiçoados por elas, e não abençoados. Como é dito em Jó 18.15: “Espalhar-se-á enxofre sobre a sua habitação”. Como podem, então, ter algum conforto em suas refeições, ou posses, quando nada sabem senão que isso lhes é dado para prepará-los para a execução?

.
II. O estado relativo deles se mostrará terrível, se considerarmos como estão relacionados ao diabo.

1. Os que estão em um estado natural são filhos do diabo. Assim como os santos são filhos de Deus, os ímpios são filhos do diabo: 1 Jo 3:10: “Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo” Mt 13:38, 39: “o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do reino; o joio são os filhos do maligno; o inimigo que o semeou é o diabo”. Jo 8:44: “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos”. São, por assim dizer, descendência do diabo; procedem dele: 1 Jo 3:8: “Aquele que pratica o pecado procede do diabo”. Assim como Adão gerou um filho à sua semelhança, os ímpios são à imagem e semelhança do diabo. Eles reconhecem esta relação, e se consideram filhos do diabo, consentindo que ele seja seu pai. Sujeitam-se a ele, ouvem os seus conselhos, como os filhos ouvem os conselhos de um pai. Ele os ensina a imitá-lo, e a fazer como ele faz, assim como as crianças aprendem a imitar seus pais. Jo 8:38: “Eu falo das coisas que vi junto de meu Pai; vós, porém, fazeis o que vistes em vosso pai”. Como é terrível este estado! Como é horrível ser um filho do diabo, o espírito das trevas, o príncipe do inferno, esse ímpio, maligno e cruel espírito! Ter alguma relação com ele é mui terrível. Seria considerado algo medonho e assustador o mero encontro com o diabo, aparecendo ele em uma forma visível para alguém. Como é terrível, então, ser seu filho; como é assustador para qualquer pessoa ter o diabo por seu pai!

2. Eles são cativos e servos do diabo. O homem, antes da queda, estava em um estado de liberdade; mas, agora, caiu nas mãos de satanás. O diabo foi vitorioso, e o tomou cativo. Os homens naturais estão em posse de satanás, e estão sob seu domínio. São conduzidos por ele em sujeição a sua vontade, para seguirem suas instruções, e fazerem o que ele ordena, 2 Tm 2:16: “Tendo sido feitos cativos por ele para cumprirem a sua vontade”. O diabo governa sobre os ímpios. São todos seus escravos, e o servem com trabalhos forçados. Isto mostra que sua condição é terrível. Os homens consideram um estado de vida infeliz ser um escravo; e, especialmente, ser escravo de um senhor mau, de alguém que seja duro, implacável e cruel. Quão miseráveis consideramos aqueles que caíram nas mãos dos turcos, ou outras nações bárbaras semelhantes, sendo destinados a mais baixa e cruel escravidão, e tratados pior do que o gado! Mas o que é ser tomado cativo pelo diabo, o príncipe do inferno, e ser escravo dele? Não seria melhor ser escravo de qualquer um na terra a ser seu escravo? O diabo é, de todos os senhores, o mais cruel, e trata os seus servos da pior maneira. Coloca-os na realização dos mais vis serviços, os mais desonrosos no mundo. Nada é mais desonroso que a prática do pecado. O diabo põe seus servos para realizar obras que os degrada abaixo da dignidade da natureza humana. Devem tornar-se semelhantes às feras para fazer esse serviço e servir às suas concupiscências imundas. E, além da vileza do trabalho, é um trabalho árduo. O diabo os escraviza às custas de sua própria paz de consciência, e, com frequência, às custas de suas reputações, de suas posses, e encurtando seus dias. O diabo é um senhor cruel, pois o serviço a que submete seus escravos os destrói. Ele os põe em trabalhos forçados, dia e noite, para trabalharem em suas próprias ruínas. Jamais pretende lhes recompensar por suas lidas, mas estas servem para edificar sua destruição eterna. Serve para acumular combustível e chamas de fogo para eles mesmos serem atormentados por toda a eternidade.

3. A alma de um não-convertido é a habitação do diabo. Ele é não apenas pai deles, e seu chefe, mas habita neles. É terrível para um homem ter o diabo nas cercanias, visitando-o com frequência. Mas é ainda mais terrível tê-lo habitando com um homem, e aceitar sua habitação; e é ainda terrível tê-lo consigo, habitando no coração. Mas é isto que ocorre com o não-convertido. Ele tem o diabo habitando no seu coração. Assim como a alma de um justo é a habitação do Espírito de Deus, a alma de um ímpio é a habitação de espíritos imundos. Assim como a alma de um justo é o templo de Deus, a alma do ímpio é a sinagoga de Satanás. Ela é chamada na Escritura de casa de Satanás, e palácio de Satanás, Mt 12:27: “Ou como pode alguém entrar na casa do valente”, querendo dizer, o diabo. E Lc 11:21: “Quando o valente, bem armado, guarda a sua própria casa, ficam em segurança todos os seus bens”. Satanás não apenas vive, mas reina, no coração do ímpio. Não apenas fez sua morada lá, mas estabeleceu seu trono. O coração de um ímpio é lugar de encontro do diabo. As portas do seu coração estão abertas aos demônios. Têm livre acesso a ele, embora esteja fechado para Deus e Jesus Cristo. Há muitos demônios, sem dúvidas, que se relacionam com um ímpio, e seu coração é lugar de encontro deles. A alma de um ímpio é, como se diz da Babilônia, a habitação dos demônios, e a casa de todo espírito imundo, e um ninho de toda ave imunda e odiosa. Assim, terrível é a condição de um homem natural por causa da relação em que ele está com o diabo.

.
__________
♦ Fonte: CCEL.org/JonathanEdwardsSelecionados.blogspot.com.br │ Título Original: Natural Men in a dreadful Condition
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ARA (Almeida Revista e Atualizada).
♦ Tradução por Tiago Cunha
♦ Revisão por William Teixeira


Como Ser Uma Mulher de Deus? – Paul David Washer

[Baixe o e-book desse sermão, em formato PDF, clicando AQUI]

 

Estudo ministrado por Paul David Washer. Na Igreja do Salvador, Peru. Em Junho de 2012.

Introdução

Vivam conforme a Palavra de Deus, não somente na Igreja, mas também na família. A Igreja é fraca, muitas vezes por que a família é fraca, em vez de seguir o exemplo de Cristo, em vez de seguir os princípios bíblicos, temos aprendido do mundo, e por causa de nossa falta de conhecimento a família, e o crente, estão sendo destruídos. Na semana passada nós estudamos em Efésios, capítulo 5, Gênesis capítulo 1, sobre o papel do homem, o rol do homem na família, e de vez em quando vamos retornar a este tema, mas hoje vamos pensar mais nas mulheres. Na semana passada eu ensinei, exortei aos homens, e vou continuar fazendo-o, mas hoje vamos falar da esposa, e na semana que vem, se Deus quiser, vamos estudar sobre os pais e filhos, e se vocês puderem vir, devem vir, pois eu vejo atualmente que a família muitas vezes é como um circo, onde os filhos são os que lideram, que controlam e não deve ser assim.

A família deve ser o lugar de paz, o lugar de amor e o lugar de disciplina e obediência; quando os filhos correm, caminham, brincam, gritam como selvagens, há problemas na família, e o problema principal é o pai, sim, é o pai. Mas hoje, vamos falar mais do papel da esposa.

Vamos começar em 1 Pedro, capítulo 3, versículo 1-7:

Semelhantemente, vós, mulheres, sede sujeitas aos vossos próprios maridos; para que também, se alguns não obedecem à palavra, pelo porte de suas mulheres sejam ganhos sem palavra; considerando a vossa vida casta, em temor. O enfeite delas não seja o exterior, no frisado dos cabelos, no uso de joias de ouro, na compostura dos vestidos; mas o homem encoberto no coração; no incorruptível traje de um espírito manso e quieto, que é precioso diante de Deus. Porque assim se adornavam também antigamente as santas mulheres que esperavam em Deus, e estavam sujeitas aos seus próprios maridos; como Sara obedecia a Abraão, chamando-lhe senhor; da qual vós sois filhas, fazendo o bem, e não temendo nenhum espanto. Igualmente vós, maridos, coabitai com elas com entendimento, dando honra à mulher, como vaso mais fraco; como sendo vós os seus coerdeiros da graça da vida; para que não sejam impedidas as vossas orações.

Oremos irmãos:

Pai, nos apresentamos diante de Ti nesta tarde, em nome do Teu Filho Jesus Cristo. Senhor, nossa maior necessidade é sermos conformes à imagem de Teu Filho, não somente na igreja, Senhor, mas também na família. Senhor, temos aprendido tantas coisas anti-bíblicas. Ajuda-nos Senhor a crescer na sabedoria, a rejeitar os pensamentos mundanos e danosos, e receber como leite puro, Senhor, a sabedoria da Tua Palavra. Senhor ajuda-nos a sermos transformados, não conforme as doutrinas, heresias deste mundo, mas conforme a Palavra de Deus para que sejamos exemplos de Tua graça, não somente como homens ou mulheres, mas como matrimônios e famílias. Senhor, e agora ajuda-me também a falar em espanhol [Este texto foi transcrito de uma pregação em que Paul Washer fala espanhol], a comunicar, Senhor, as verdades da Tua Palavra; e Senhor, eu Te peço tudo isso em nome de Teu Filho, Jesus Cristo. Amém.

Submissão Bíblica

Versículo 1: “Semelhantemente, vós, mulheres, sede sujeitas aos vossos próprios maridos.”

Na semana passada nós estudamos um pouquinho sobre o que significa o homem ser o cabeça da família, o homem tem autoridade na família como cabeça, mas não como César, mas como o Senhor Jesus Cristo. Nós, como homens, como cabeças na família, devemos viver vidas mui sacrificantes, usando nossa autoridade, para abençoarmos as nossas famílias. Muitos homens atualmente usam os textos bíblicos para manipular e oprimir os demais, não devemos ser assim.

O que significa que sou cabeça, que tenho autoridade em minha família? que eu sou responsável, eu tenho que ler mais as Escrituras, eu tenho que orar mais, eu tenho que trabalhar mais, eu tenho que refletir mais a vida e glória de Cristo. É minha responsabilidade. Guiar a minha família, não somente por meio do ensino da Palavra de Deus, mas também por meio de meu exemplo.

É muito fácil pregar, por que as pessoas somente escutam às suas palavras, e, talvez, creem que você é um homem de Deus; é mais difícil discipular a crentes, no discipulado pessoal, pois podem ver algo da sua vida. Todavia, há algo mais difícil: viver dentro de sua família, pois ali todos os seus erros se manifestam.

Irmãos, novamente, vejam o que aconteceu, em somente cinco minutos; e vamos falar sobre a mulher, mas nos encontramos falando do homem. Por quê? É bíblico. A família depende do comportamento do homem. O que significa ser cabeça?

O que significa submeter-se ao seu esposo? Significa o seguinte: que deve honrá-lo, deve respeitá-lo, deve reconhecer que na família ele tem autoridade. Como o homem deve responder? Com amor, misericórdia e sacrifício.

Por exemplo, como eu disse na semana passada, se temos que tomar uma decisão na família, uma decisão importante, eu não vou tomar a decisão sozinho, assim, mas falarei com minha esposa, e se minha esposa e eu estamos de acordo, então vamos fazê-lo. Se ela não está de acordo, para mim é uma luz vermelha, devo orar mais, devo buscar mais conselho, devo orar mais com ela, e conversar mais com ela, até que cheguemos a um acordo. Mas, o que ocorre se não chegamos a um acordo, e temos que tomar a decisão? Então, é minha responsabilidade, tomar a responsabilidade, e tomar a decisão. E se estou correto em minha decisão, não devo gloriar-me dela, e se estou equivocado, ela não deve gloriar-se de mim.

Esposa, é muito difícil ser a autoridade em uma família. É muito difícil ser o homem na família. O homem tem que tomar muitas decisões, e o homem não é perfeito, ele se equivocará. Se você quiser prejudicar o seu marido, se quiser prejudicar a sua família, se quiser ocasionar danos aos seus filhos, então quando o seu esposo errar, você simples-mente tem que estar atrás dele, queixando-se, acusando-o, e fazendo com que a sua vida seja uma miséria. É difícil ser homem, é difícil ser a autoridade na família.

Quando o seu esposo erra, você deve animá-lo, respeitando-o, para que ele venha a ser conforme a imagem do Filho de Deus, para que ele chegue a ser o homem que deve ser; você não transformará o seu esposo por meio de critica-lo, por meio de pelejar contra ele, não deixe sua vida ser assim. Ele nunca chegará a ser como Cristo com uma esposa com um espírito crítico. Nunca.

Se você quiser que o seu esposo seja o homem que deve ser, você tem que ser um instrumento do Senhor, em sua transformação. E você só pode ser um instrumento, somente por meio de submeter-se às Escrituras, e portar-se como mandam as Escrituras.

Agora, diz: “Semelhantemente, vós, mulheres, sede sujeitas aos vossos próprios maridos”. A palavra “semelhantemente” aqui é muito importante, porque conecta este texto ao texto que o precede. No capítulo 2, Pedro está falando do sofrimento do Cristão e de como o Cristão deve responder ao sofrimento. Vamos ler a partir do versículo 20, do capítulo 2:

Porque, que glória será essa, se, pecando, sois esbofeteados e sofreis? Mas se, fazendo o bem, sois afligidos e o sofreis, isso é agradável a Deus. Porque para isto sois chamados; pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas. O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano. O qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente; Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados. Porque éreis como ovelhas desgarradas; mas agora tendes voltado ao Pastor e Bispo das vossas almas. Semelhantemente, vós, mulheres [...]”

Então, o que Pedro está nos ensinando? Primeiramente, ele está falando aos crentes que estiveram sofrendo coisas horríveis do governo Romano e também dos Judeus, até alguns haviam sido mortos como mártires. Em meio à perseguição, à forte perseguição, como os Cristãos devem responder? Não devemos pelejar, não devemos maldizer, não devemos nos contrapor aos que nos perseguem, mas sim devemos nos submeter à soberania de Deus, como Jesus ensinou em Mateus, capítulo 5, devemos orar pelos que nos perseguem, devemos bendizer aos que nos maldizem.

E agora, ele muda e diz: Esposas, façam o mesmo! Quando o seu esposo não se porta como um Cristão maduro, como você deve responder? Brigando? Faltando com o respeito? Discutindo fortemente com ele, como vocês fazem? Como deve responder? Se nós temos que nos submeter à perseguição, por parte das autoridades, dos que querem tomar nossas vidas, quanto mais nós devemos responder corretamente no matrimônio. E aqui é onde encontramos o problema. Deus não tem dado o que você merece. Deus não tem dado o lhe é divido. O que você merece? O inferno, a ira de Deus! As suas melhores obras merecem o quê? O inferno, a ira de Deus! Deus não tem dado o que você merece. O problema do matrimônio é: o esposo crê que deve dar à sua esposa o que ele pensa que ela merece. E a esposa responde ao esposo conforme o que ela pensa que ele merece. E, é a fonte de todas as nossas lutas.

Basicamente o homem diz: se a minha esposa me respeitar, eu a amarei. E a mulher diz: se o meu esposo me amar, eu me submeterei a ele. Isso é uma mentira. Estamos enganando a nós mesmos. Por quê? Você está dizendo que obedecerá se seu esposo, se a sua esposa age bem. Mas, Deus sempre age bem. Deus nunca falhou, e você recusa se submeter a Ele. Há algo que você tem que perceber, Deus é o centro do matrimônio, e eu devo me comportar de acordo com o que Ele me diz, e não conforme o que minha esposa merece.

O homem diz: “bem, quando a minha esposa me respeita, então eu a amarei”. Mas, aqui está o problema. A esposa sempre falhará. O respeito da esposa nunca será perfeito. Então, o homem sempre tem desculpa para não amar a sua esposa.

Da mesma forma, se uma mulher diz: “eu só respeitarei o meu marido quando ele me amar”. Mas, o amor dele sempre terá falhas. Sempre! E sempre a mulher terá desculpas para não respeitar o seu esposo.

Todavia, aqui está o que vocês têm que entender: é Deus quem está demandando estas coisas de vocês. É Deus. E Ele nunca deu desculpas para a sua desobediência. Eu tenho que amar a minha esposa, mesmo que me pareça que ela não merece. E ela, terá que respeitar-me quando, às vezes, quando não sou merecedor de seu respeito. E aqui está o problema: nós pensamos que por meio de reclamações, por meio de demandar os nossos direitos, que podemos arrumar os nossos matrimônios. Uma pergunta: alguma vez isso funcionou? Nunca, nunca. Você pode pensar em quantas vezes brigou com seu esposo, demandando os seus direitos, demandando que ele cumpra o que um esposo deve cumprir. Você ganhou algo? Nunca. Apenas mais uma briga, nada mais. Uma peleja, chegando a uma guerra. Em vez de demandar nossos direitos, o que devemos fazer? Devemos seguir a Palavra de Deus. Devemos obedecer a Deus.

Pelo porte, sejam ganhos sem palavra

Agora diz: “Semelhantemente, vós, mulheres, sede sujeitas aos vossos próprios maridos; para que também, se alguns não obedecem à palavra, pelo porte de suas mulheres sejam ganhos sem palavra”; Olhem, há pessoas que vem a esta igreja, matrimônios que vem a esta igreja, o homem e a mulher confessam a Cristo, dizem que não são incrédulos, mas sim que são crentes. Mas mesmo assim, a mulher não quer submeter-se ao seu esposo, por que ele não é um crente maduro, não é um crente perfeito, antes, tem muitas falhas, mas olhem o que Cristo nos ordena neste texto, Ele está dizendo: mesmo que o seu esposo seja incrédulo, você deve ganhá-lo não com suas palavras, não com seus argumentos, mas sim com seu comportamento. Mas, é muito mais fácil falar do que viver, não é? Aqui podemos ver, exatamente o oposto, o contrário do que fazemos.

Vamos dizer que um homem vem a mim, e tem uma chaga, uma ferida bem feia em sua testa, e ele diz: “Paul, veja, eu tenho ido a médicos, no Peru, nos Estados Unidos, e eles nada sabem sobre o meu problema, de onde vem a chaga, a única coisa que posso fazer agora é orar; você pode orar a Deus e pedir que lhe mostre por que eu tenho uma chaga em minha cabeça”. “Claro, irmão, eu vou orar, mas eu não somente vou orar, sou um homem muito prático; sem dizer nada, vou observar: uma [hora] da manhã, seu relógio toca, você se levanta e se golpeia na parede, e se deita novamente; às duas horas da manhã, o relógio toca de novo, você se levanta da cama, e se golpeia duas vezes na parede; ao meio dia, de novo, se golpeia doze vezes! Despois de observá-lo por vinte e quatro horas, sendo o “gênio” que sou, eu o digo: “Olhe, irmão, eu não sou médico, mas creio que encontrei o seu problema, é muito simples, só tem que deixar de se bater, e ficará curado”. Da mesma forma, muitos homens, muitas mulheres, vem à igreja, aos pastores, aos conselheiros dizendo: “tenho tantos problemas em meu matrimônio. Sempre mais problema e mais problema, com meu casamento, com meus filhos, com tudo”. Mas não é um mistério o motivo. Muitas vezes, irmãos, vocês estão vivendo de uma forma totalmente contrária, oposta às Escrituras.

E muitos vêm a mim, não para receber um conselho bíblico, mas sim para contar a sua história, e nada mais. E depois de compartilhar a Palavra de Deus com eles, não prestam atenção e voltam ao mesmo de novo. Irmãos, o problema é: precisamos nos submeter à Palavra de Deus. E você me diz: “O que ocorre se eu me submeto à Palavra de Deus e minha esposa não se submete?” Isto é um problema, mas não é o seu problema Diante de Deus, você está vivendo conforme a Sua Palavra, e agora está dando lugar a Deus para que Ele trabalhe em seu matrimônio. Vamos a Romanos 12:19: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor” Vamos prestar atenção a somente uma frase: “dai lugar à ira [de Deus]”. Deem lugar para que Deus trabalhe.

Eu gosto de castelos, especialmente da Europa e de outras partes do mundo; se estou pregando em um lugar onde há castelos, se posso, busco visitar os castelos. Mas, há algo interessante em quase todos os castelos: a primeira porta, no primeiro piso é gigante, aonde podem entrar vinte homens de uma vez. Porém, a escada, ao segundo piso, e a porta no segundo piso, é estreita, que só um homem de cada vez pode passar, e por quê? E qual é a razão? Se há um exército fora do castelo, vamos dizer, mil homens, e estão atacando o castelo, e eles derrubam a primeira porta, e entram, e os que estão dentro do castelo, o que fazem? Sobem ao segundo piso; mas vamos dizer que só há cinquenta homens no castelo, e mil homens entraram, mas aqui está a parte importante: a escada é tão estreita, que somente um inimigo de uma vez pode subir; então, só um homem com uma lança, pode defender todo o castelo, ele pode parar diante de da porta pequena, estreita com uma espada, e defender todo o castelo.

Assim, às vezes é o matrimônio, não é verdade? O homem crer ser o rei do castelo, sua esposa vem como um exército contra ele; ela derruba a primeira porta, ele corre e sobe ao segundo piso, e está ali, com sua lança, e sua mulher com sua espada de dois gumes, ou em outras palavras: a sua língua, isso é bíblico, e a mulher está pelejando com o seu esposo, dizendo em meio à peleja, “Senhor, ajuda-me”, e peleja, “Senhor, ajuda-me”, e peleja, “Senhor, por que não me ajuda?”, e segue pelejando, “Senhor, ajuda-me”, e o Senhor diz continuamente: “Dê-me lugar, dê-me lugar, somente um de cada vez pode pelejar com ele; e filha, se você quer prosseguir vivendo em desobediência, então pode pelejar toda a sua vida”. Como algumas das irmãs, escutando-me tem feito, seu matrimônio tem sido vinte anos de peleja, por quê? Sua língua, sua desobediência. Você não mudará o seu esposo por meio de corrigi-lo, por meio de criticá-lo, por meio de pelejar contra ele com a sua língua, e, geralmente, o homem responderá de suas formas: torna-se violento ou se distancia da casa, evita a sua mulher, simplesmente não quer mais brigar.

Eu sei que seu esposo tem a culpa, muitas vezes, mas você também tem a culpa, pois está vivendo em desobediência. Você crê que pode transformar o seu esposo por meio de sua língua, mas a Bíblia diz que você pode ser um instrumento nas mãos de Deus para a transformação de seu esposo por meio de sua conduta.

Na semana passada eu falei sobre a necessidade do homem de morrer para si mesmo, não é mesmo? Também há uma necessidade que a esposa morra para ela mesma, e que viva em obediência à Palavra de Deus. O texto diz: “Semelhantemente, vós, mulheres, sede sujeitas aos vossos próprios maridos; para que também, se alguns não obedecem à palavra, pelo porte de suas mulheres sejam ganhos sem palavra”. Deus, olhem, esta não é uma coincidência, e não estou tentando fazer uma piada, é simplesmente uma verdade deste texto, Deus conhece as mulheres. Ele conhece as mulheres. Olhem o que Ele diz: “ganhos sem palavra”. Ele sabe que a primeira arma que você usará em sua batalha contra o seu esposo é a sua língua. Palavras. Observem como somos, nós rimos do que Deus vê como um pecado gravíssimo, “ah, assim são as mulheres…”, e assim, vão para o inferno, isso é um pecado que destrói matrimônios, que destrói os filhos.

Homem, seus filhos estão aprendendo de você? Mulher, seus filhos estão aprendendo de você? Um conselho que dou aos meus filhos, pois já têm dez e oito anos, e nos últimos dois ou três anos oramos por suas esposas, e também lhes dou conselhos, bastantes conselhos com relação ao matrimônio, e uma coisa que sempre lhes ensino é: devem observar a mãe da moça, pois, geralmente, a moça se conforma ao caráter de sua mãe, e se a mãe não se submete ao seu esposo, esta moça não se submeterá a você; e se a filha não se submete ao seu pai, e não honra o seu pai, ela não te honrará, nem te respeitará. É assim.

Algo muito interessante que posso ensinar em outra oportunidade, quantas das mães aqui ensinaram Provérbios 31 às suas filhas? Levantem as mãos. Quantas das mulheres estudaram Provérbios 31? Levantem as mãos. Quantas mulheres ensinaram Provérbios 31 aos seus filhos? Você diz: “Provérbios 31 é para as moças”, não; foi escrita para um rapaz. Eu ensino Provérbios 31 aos meus filhos, aos meus filhos, Provérbios 31, para que vejam com que tipo de mulher eles devem casar.

Vocês podem ver quão anti-bíblicos podemos ser? Sempre em Provérbios 31, vocês pensam nas mulheres, nas filhas, mas Provérbios 31 foi escrito a um rapaz, a um moço, a um homem, para que escolha uma boa esposa.

Voltemos ao texto: “pelo porte de suas mulheres sejam ganhos sem palavra”. Pelo porte, conduta, atitude. Como você transformará o seu esposo? Por meio de suas palavras? Não! Nunca, Jamais! Por meio de sua conduta? Sim! Sua conduta! E uma parte da conduta é suportar e sofrer quando ele não se comporta bem. Capítulo 2 de 1 Pedro. Agora, mulheres, se eu chego a casa, cansado, cansadíssimo, por causa do ministério, e entro pela porta, e a casa não está bem ordenada, não tem comida, e me irrito, e digo à minha esposa: “mulher, olhe, estou trabalhando o dia todo, o que acontece? a casa está desorganizada, não tem comida”, e ela responde: “mas, quem é você?”, e já brigando comigo, e o que ocorre? Guerra. Guerra. E eu saio justificado. Mas se eu entro com mau gênio, fazendo acusações, sem escutar, sem pensar, e ela me responde como Cristo; o que ocorre? Sinto-me envergonhado.

Romanos, novamente 12:20: “Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer”. O seu esposo entra pela porta como um inimigo, deve brigar com ele? Não. Dê-lhe algo para comer, para que coma e não se queixe. “Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer, se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça”. Você lhe convencerá, ou melhor dizendo, Deus o convencerá, Deus o mostrará o seu pecado, e ele terá vergonha, por meio de que você aja biblicamente.

Olhem, eu conheço muitos pregadores que pregam na rua, ao ar livre, e podem estar pregando, pessoas podem estar lhe insultando, atitando objetos, vassoura, tudo… e o pregador se gloria que está sofrendo por Cristo. Mas, o mesmo pregador volta para casa, e sua esposa não se porta bem, ele se irrita e sai indignado, olhe a hipocrisia: podemos sofrer os ataques dos inimigos, como Cristo, mas, não podemos responder biblicamente às nossas esposas e suas debilidades?

O comportamento é o que dá vergonha ao pecador. Em Romanos 12:19 Deus diz: “Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor”. Na verdade, está falando de ira, mas, é muito interessante que Ele diz frase, também no contexto do versículo 20: “Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer, se tiver sede, dá-lhe de beber; porque [o que ocorrerá?], fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça”. Deus não somente operará com ira, mas, quem sabe, trabalhará com quebrantamento. Agora que você deixou de pelejar com seu esposo, o Senhor intervém e peleja com ele, para mostrar-lhe o seu pecado, e operar uma transformação em sua vida.

Conduta Casta e Respeitosa

Considerando o versículo 2, de 1 Pedro, capítulo 3: “Considerando a vossa vida casta, em temor”. Mulheres, na semana passada, eu falei com os esposos, dizendo que a maior necessidade das esposas é o amor, e a segurança do amor bíblico. Irmãs, a maior necessidade dos seus esposos é o respeito. Respeito. Se minha esposa me respeita, então, nada pode me desanimar; mas se ela não me respeita, então não consigo, chego a ser um homem muito fraco. A maioria das mulheres, a maioria das irmãs, não respeita os seus maridos; e visto que vivem em uma relação muito íntima com o seu esposo, vamos dizer, cinco, dez, quinze, vinte, trinta anos, você tem visto tantas falhas nele, mas em vez de perdoa-lo, você tem guardado cada falha, como se tivesse escrito em um livro, e sempre, sempre você vem a ele: “Veja, você está tratando disso, mas lembra-se que há dez anos você tentou o mesmo e falhou? Lembra-se de quinze anos atrás? Lembra daquilo?” Parabéns! Você está destruindo o seu esposo. “Parabéns”, irmã!

O homem sabe que falhou, ele sabe; é difícil tomar muitas decisões, é difícil conduzir uma família, o trabalho, ou o ministério, é difícil, e um homem comete muitas falhas, muitas vezes um homem senta-se a noite, sozinho, sabendo que falhou, e não é uma bênção quando sua mulher, vem todos os dias com o mesmo, por que ela, em vez de ser instrumento de Deus, agora é instrumento de Satanás, e não vem para dar vida, mas sim para matar e destruir.

Por trás de cada grande homem, há uma mulher que o respeita.

Nós estamos em uma cultura, a cultura Peruana, a minha cultura, nos Estados Unidos, não sabemos nada sobre respeito, não respeitamos nada. Não respeitamos as autoridades do governo, pois dizemos, e às vezes é verdade, que são tão corruptos; não respeitamos as autoridades nas igrejas, pois muitos são corruptos; então, não respeitamos o esposo, ou não respeitamos a esposa; não respeitamos os pais. Alguns dos filhos que vem aqui, se estivessem vivendo no tempo do Antigo Testamento, a comunidade lhes mataria, por sua falta de respeito aos seus pais. Não somos um povo, uma cultura que sabe como respeitar, mas como aprenderão? Somente ao ver o respeito entre um homem e uma mulher.

Homem, alguns de seus filhos não respeitam a mãe, e por quê? Você não respeita a sua esposa. E algumas de suas filhas e filhos não respeitam o pai, por quê? A mãe não respeita o pai, o seu esposo, gritando, queixando-se, falando com os filhos contra o papai. “Parabéns”. Vocês podem vir à igreja, mas têm uma família mundana. Não há nenhuma diferença. “Pelos seus frutos os conhecereis” [Mateus 7:20], não no culto, mas sim fora do culto. “Considerando a vossa vida casta, em temor”.

O Enfeite

Versículo 3: “O enfeite delas não seja o exterior, no frisado dos cabelos, no uso de joias de ouro, na compostura dos vestidos”. Sabe o que ocorre, irmãos, às vezes, antes de entrar em uma igreja, pois prego como pregador itinerante, muitas vezes, antes de entrar em uma igreja, eu tenho que orar para que o Senhor me guarde das irmãs e de sua maneira de se vestirem. Como eu prego na rua, devo orar assim, na rua, quando estou pregando, pois a rua está cheia de gente mundana, mulheres mundanas, mas quando alguém tem que ter cuidado na igreja, há problemas, e me parece que ninguém quer falar dessas coisas, mas eu sim, eu quero falar dessas coisas.

Irmãs, olhem, se a sua roupa é uma moldura para seu rosto, está bem; o rosto resplandece a glória de Deus; mas se a sua roupa é um molde para o seu corpo, você é sensual e Deus odeia o que você está fazendo, você é um tropeço aos demais, e a Bíblia diz que seria melhor que você nunca houvesse nascido.

A beleza é algo do SENHOR. A sensualidade é algo do Diabo. Beleza, excelência, inocência, formosura são palavras Bíblicas e boas. Sensualidade, luxo, extravagância, são palavras que não têm nada a ver com uma mulher bíblica.

Eu recordo que há um tempo, eu estava pregando na Romênia, em uma Universidade, e havia muitas pessoas no auditório, e no começo de minha pregação várias moças entraram, e no momento que as vi, as amei, eram moças, não sei, como de dezenove, vinte anos na Universidade, e senti como se fossem minhas filhas, eu tive um tristeza em meu coração, pois, o cabelo delas estava pintado de verde, prateado, e a roupas delas, uma tinha como que um prego atravessando o seu nariz, meninas punk, tatuagens por toda parte, outras moças tão sensuais; então eu estava pensando, “Senhor, como posso ajuda-las?” Então perguntei: “Quantas moças aqui viram o filme ‘Orgulho e Preconceito’? Quantas o viram? Quantos homens o viram? É homem, mas não tem que ter vergonha. Os demais viram, mas não querem dize-lo”. E eu perguntei às moças: “Depois de ver o filme, como vocês se sentiram?” E uma moça respondeu: “Bem, tristeza”. “Ah, sim, tristeza, por quê?” E ela disse: “Verdadeiramente, eu não sei, eu me senti triste, suja”. “Quer saber o motivo, filha? Esta é a razão: ‘Você vive em uma cultura que assassinou a verdadeira formosura, que matou a verdadeira beleza. Você vive em uma cultura sensual, pecaminosa, suja onde nem se vê beleza, mas sim, como dizem: sensualidade’”. No filme, as mulheres – não estou dizendo que atualmente as moças deveriam se vestir como elas – mas ali se nota algo casto, algo formoso, sem sensualidade. E então, vamos dizer, há um livro na mesa, e há um grupo de jovens, e uma moça de um lado, e um rapaz de outro, e há algo entre os dois, ainda que ninguém tenha dito anda, se observa, e a moça quer ver o livro, então estende a sua mão para pegar o livro, mas o rapaz faz o mesmo, simultaneamente, e quando as suas mãos se tocam, levemente, o rapaz se envergonha, e a moça também, e ela sai do lugar tão nervosa [risos]. Sabe o que é? Nós não conseguimos ter esse tipo de sentimento; olhem, somente encostando as suas mãos, o rapaz e a moça agora não podem quase respirar. Olhem no que nós chegamos a ser: animais, que se tocam, se agarram, se desvestem com os outros; nem posso caminhar na rua com os meus filhos, por causa das revistas e jornais, e propagandas, e até na praia não podemos ir. Nós não nos damos conta de quão contaminado está o mundo; não é como a história do sapo? Você pode ter uma panela com água fervente, e colocar um sapo, e o sapo salta, mas pode colocar o sapo em água fria e esquentar a água pouco a pouco, e o que ocorre? O sapo é cozinhado, nem tenta sair, pois ele se adapta às mudanças gradualmente. Nós nos adaptamos gradualmente às mudanças imorais, sujas e feias.

Todos atualmente estão falando sobre a necessidade de reformar a igreja, de transformar a igreja, mas, malmente as pessoas pensam, bem, agora temos boa doutrina com respeito à salvação, agora estamos conduzindo-nos biblicamente na igreja, temos disciplina, e todo o mais; irmãos, estes são os inícios de uma Reforma, temos que reformar, transformar tudo, conforme as Escrituras. Sabem que há uma maneira bíblica de cortejo? Como deve uma moça conhecer um rapaz? E vice-versa? Há uma maneira bíblica que antes era ensinada, agora não. Fazemos agora, igual, exatamente o que o mundo faz. Há tantas coisas nas Escrituras, não devemos dizer que somos uma igreja bíblica, a menos que vivamos biblicamente em toda a nossa vida!

Olhem, estou falando aos Cristãos, alguma vez já pensaram: “Nossa, Isso é tudo? É isso que é o Cristianismo? Eu vou à igreja, confio em Cristo, espero a Sua segunda vinda, mas basicamente a minha vida é igual aos do mundo, simplesmente não bebo, não cometo adultério, não cometo fornicação, não uso droga, mas basicamente a vida é igual, não?” Não, não é igual. A vida cristã é algo totalmente distinto da vida mundana, e o propósito da igreja é ensinar a cada indivíduo, a cada família, a cada matrimônio, como devem se portar conforme as Escrituras.

Irmãs, voltando ao texto, minha esposa e eu temos uma amiga que é muito bonita, ela é amiga de minha esposa, ela é muito formosa, ela poderia ter sido uma super modelo, sabem, ela também é uma mulher piedosa, e se ela entra em um lugar, os homens podem olhar e dizer: “É uma mulher formosa e nada mais, é uma mulher bonita, digna”. Há outras mulheres que não têm a beleza dela, entram em um lugar, no momento em que as veem, vocês têm que olhar para o outro lado, isso não é beleza, é sensualidade. E vocês, os homens, sabem a diferença assim, rápido. Não se pode fingir, o que está dentro do coração sairá. Nos dias atuais, é muito difícil. Eu tenho uma menina, de cinco anos, é uma bênção que minha esposa saiba costurar, pois quando vamos à loja comprar roupas, é horrível! E esses shows de crianças que há na televisão, sempre, aqui no Peru, como as apresentadoras se vestem?! Vocês querem que as suas filhas vejam algo assim? Quão (como posso dizer sem lhes ofender, bem eu terei que vos ofender), quão torpes somos!

Irmãos, temos que edificar famílias dignas, puras, inocentes, úteis para o Senhor, de corações puros. O texto diz: “O enfeite delas não seja o exterior, no frisado dos cabelos, no uso de joias de ouro, na compostura dos vestidos; mas o homem encoberto no coração; no incorruptível traje de um espírito manso e quieto, que é precioso diante de Deus”. E, será de grande estima diante dos homens de Deus. Rapazes, devem estudar bem este texto; se você se casa com uma moça sensual, pagará caro. Olhem, a beleza é algo do SENHOR.

Não se baseia no físico, se baseia no caráter dos dois, um propósito unido dos dois, uma mulher que tem caráter, uma mulher de Deus, é uma benção. A mulher de Provérbios 31, Uau! Sabem, eu prego muito, tenho muitos trabalhos, muitas coisas que tenho que fazer, minha esposa faz homeschooling, e eu ajudo, mas ela basicamente organizou o homeschooling, ela realiza tudo em casa. Os impostos? Eu não sei nem o que pagamos. Por quê? Minha esposa cuida as finanças. Ela é como gerente em todas as coisas da casa, para que eu possa ministrar, e não tenho que me preocupar. Ela paga as contas de luz, de água e etc., está administrando tudo. A maioria das mulheres me diz, as moças dizem: “quero casar-me, quero casar-me”, você está se preparando? Sabe cozinhar? Sabe administrar uma casa? Antes, as mães ensinavam estas coisas, agora não.

Nesta igreja, temos que aprender a reestruturar tudo, conforme as Escrituras, e não conforme o mundo. E o caráter de uma mulher é a maior bênção; um caráter piedoso, um caráter conforme a Cristo, é uma bênção inigualável, inigualável! Diz-se em Provérbios 31 diz que o homem não deve preocupar-se, por quê? Porque a mulher tem um caráter piedoso, segue os mandamentos de Deus, é uma mulher sábia, que pode administrar uma casa, até pode administrar o dinheiro, tudo! Caráter.

O vaso mais frágil

Versículo 7, pois precisamos terminar: “Igualmente vós, maridos, coabitai com elas com entendimento, dando honra à mulher, como vaso mais fraco”. O que significa? Primeiramente temos a palavra “honra”, a esposa deve honrar o seu esposo, mas o esposo deve coabitar com a sua esposa, dando honra a ela. O que significa que a mulher é o vaso mais fraco?

Há muitas interpretações, alguns dizem simplesmente que a mulher é mais débil, a mulher não é tão inteligente, sabemos que essa interpretação é falsa. Outra interpretação é que os vasos mais frágeis na casa, também são os vasos mais caros, mais belos; bem, pode ser esse significado, mas tenho minhas dúvidas. O que significa? No mundo Romano, a mulher não tinha muitos direitos, se um homem quisesse abusar de sua esposa, maltratar a sua esposa, ela não teria recursos; como também, como podemos ver no Novo Testamento, nos Evangelhos de Cristo, os Fariseus estavam divorciando-se de suas esposas, quase todos os dias, e uma mulher, depois de ser divorciada, não teria recursos, estaria basicamente abandonada. O que ele está dizendo é que por causa da sociedade, e por causa também do físico, pois o homem geralmente é mais forte do que sua esposa, ele pode oprimi-la, ele pode causar-lhe dano; ele está dizendo: reconhecendo a sua esposa como o vaso mais fraco, você não deve abusar de sua autoridade, mas, deve reconhecer que ela também é coerdeira da graça da vida, que é filha de Deus, e que um dia Deus o julgará com relação ao seu matrimônio, com respeito ao trato de Sua filha. Isso é algo que me atemoriza, me gera temor pensar. Uma coisa é administrar um ministério, outra coisa é cuidar de uma filha de Deus.

E diz: “para que não sejam impedidas as vossas orações”. Homem, pode ser que Deus não esteja escutando as suas orações, e não está respondendo as suas orações por causa de seu trato com a sua esposa; que todas as suas orações não estejam chegando ao trono de Deus, por causa do seu comportamento com sua esposa. É algo sério, algo sério.

Vida Cristã, Lar Cristão

Estou parado aqui, agora, reconhecendo que ainda nem comecei a ensinar sobre a família, nem comecei a ensinar sobre o matrimônio, os deveres do homem, e deveres da mulher, mas isso vos digo: muito do que dizemos, e muito do que fazemos aqui na igreja é artificial, por que em nossos lares não se vê o mesmo, é hipocrisia. E muitas vezes, mesmo sendo cristãos evangélicos, nós temos ideias de papistas. Eu notei que, voltando este mês ao Peru, eu notei que muitos de vocês, as suas vidas, giram em torno da igreja, das atividades da igreja, todo o espiritual se encontra dentro da igreja, e com os pastores, e com os irmãos, e muitos (eu não estou dizendo aqui, pois não vos conheço), muitos crentes usam a igreja como um meio de escaparem das responsabilidades do seu lar. Não devemos ser assim. Esta igreja tem um propósito: ensinar-nos, animar-nos, para que saíamos e vivamos a vida cristã, não somente na rua.

Por que é que eu sempre escuto que “devemos aprender na igreja para que possamos viver a vida cristã diante do mundo”, e nos esquecemos da família? Para mim, é fácil viver a vida cristã na igreja, no mundo; não é fácil, mas também não é tão difícil quanto viver a vida cristã no meu lar. Porém, a evidência mais genuína de um homem de Deus maduro, de uma mulher de Deus madura, é obediência aos mandamentos de Cristo no lar.

Na semana que vem, vamos ensinar sobre os filhos. Qual é a coisa que traz mais dano aos filhos, atualmente? Se pudéssemos encontrar uma só coisa que é causa dos problemas que temos atualmente com os filhos, o que seria? Os pais. Não é o governo, não é a escola, são os pais, e sua maneira anti-bíblica de criar os seus filhos, fazendo tudo o que se conforma aos nossos próprios pensamentos, em vez de agir conforme a Palavra de Deus. Então, no próximo Domingo, falaremos sobre os filhos, sobre o ensino, do amor, da disciplina. Disciplina, por que é visto que geralmente, em todos os lugares do mundo, atualmente, não há disciplina bíblica, e os filhos controlam tudo. Pois, vivemos em uma cultura que presta homenagem à juventude, tudo é para a juventude, e a juventude reina. Isaías, capítulo 3 diz que uma das maiores evidências do juízo de Deus é que Ele remove da cultura, remove do povo, o homem valente, o homem nobre, e os meninos oprimem os mais velhos, e as mulheres lideram; e isso é o que podemos ver em nossa cultura.

Vamos Orar:

“Santo Pai, Senhor, hoje foi muito difícil comunicar-me, mas Senhor, por favor, que as verdades que escutamos, que as apliquemos às nossas vidas, que sejamos conformes o Filho de Deus, e não somente na igreja, na rua, e no trabalho, mas também na família. Senhor, que os irmãos vejam a necessidade de não somente reformarem-se quanto à doutrina, mas também à vida. Ajuda-nos, Senhor, em nome de Cristo. Amém.”

.
__________
♦ Áudio transcrito da pregação original em espanhol por Camila Almeida, a partir deste vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=fsWfO96s0U4
♦ As citaçes bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel).

♦ Postado por: I´ll be Honest – Global. (https://www.youtube.com/user/ibhglobal)
♦ Revisado e editado por William Teixeira


Um Crente tem Prazer na Lei de Deus – Robert Murray M’Cheyne

 [Baixe o e-book desse sermão, em formato PDF, clicando AQUI]

“Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte? Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado” (Romanos 7:22-25).

Um crente deve ser conhecido, não só pela sua paz e alegria, mas por sua luta e angústia. Sua paz é peculiar: ela flui de Cristo, é uma paz santa e celestial. Sua guerra é também peculiar: é profunda, agonizante e não cessa até à morte. Se o Senhor quiser, muitos de nós têm a perspectiva de sentar à mesa do Senhor, no próximo Sabath. A grande pergunta a ser respondida antes de sentar-se é: eu já me refugiei em Cristo ou não?

Isto é algo que eu anseio saber,
Frequentemente isso faz meu pensamento ficar ansioso,
Eu amo o Senhor ou não?
Eu sou Seu, ou não sou?

Para ajudá-lo a resolver essa questão, eu escolhi o tema da guerra do cristão, para que você saiba assim se você é um soldado de Cristo, se você está realmente está combatendo o bom combate da fé.

.
I.
Um crente tem prazer na lei de Deus. O versículo 22: “segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus”.

1. Antes de um homem vir a Cristo, ele odeia a lei de Deus, toda a sua alma se levanta contra ela, Romanos 8:7: “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” [Romanos 8:7]. (1.) Homens não-convertidos odeiam a lei de Deus por causa da sua pureza: “A tua palavra é muito pura; portanto, o teu servo a ama” [Salmos 119:140]. Pela mesma razão, os homens do mundo a odeiam. A lei é o sopro da mente pura e santa de Deus. É infinitamente contrária a toda impureza e pecado. Cada linha da lei é contra o pecado, mas os homens naturais amam o pecado e, portanto, eles odeiam a lei, porque ela se oponha a eles em tudo o que eles amam. Como os morcegos odeiam a luz, e fogem dela, assim os homens não-convertidos odeiam a luz pura da lei de Deus, e fogem dela. (2.) Eles odeiam por sua amplitude. “O teu mandamento é amplíssimo” [Salmos 119:96]. Esta se estende a todas as suas ações exteriores, visíveis e invisíveis; estende-se a toda palavra frívola que proferirem os homens; ela se estende até os olhares de seus olhos; ele mergulha nas cavernas mais profundas do seu coração; condena as fontes mais secretas do pecado e luxúria que ali se aninham. Homens não-convertidos contendem com a lei de Deus por causa de seu rigor. Se ela se restringisse aos meus atos exteriores, então eu poderia tolerá-la; mas ela condena os meus pensamentos e desejos, e isto eu não posso evitar. Por isso os ímpios se levantam contra a lei. (3.) Eles a odeiam por sua perpetuidade. O céu e a terra passarão, mas nem um jota ou um til da lei de modo algum passará. Se a lei mudasse, ou deixasse de lado suas exigências, ou findasse, então os homens ímpios ficariam satisfeitos. Porém ela é imutável como Deus, está escrita no coração de Deus, em quem não há mudança nem sombra de variação. Ela não pode mudar a menos que Deus mude; ela não pode perecer, a menos que Deus pereça. Mesmo em um inferno eterno suas demandas e suas maldições serão as mesmas. É uma lei imutável, pois Ele é um Deus imutável. Por isso os ímpios têm um ódio imutável por esta santa lei.

2. Quando um homem vem a Cristo, tudo isso é mudado. Ele pode dizer: “Segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus”. Ele pode dizer com Davi: “Oh! quanto amo a tua lei! É a minha meditação em todo o dia” [Salmos 119:97]. Ele pode dizer com Jesus, no Salmo 40: “Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração”.

Há duas razões para isso:

Primeira, a lei não é mais uma inimiga. Se alguns de vocês estão tremendo sob um senso de seus pecados infinitos e pelas maldições da lei que vocês quebraram, fujam para Cristo e encontrareis descanso. Vocês descobrirão que Ele atendeu totalmente às exigências da lei como uma garantia para os pecadores, que Ele suportou completamente todas as suas maldições. Vocês serão capazes de dizer: “Cristo me resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por mim; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” [Gálatas 3:13]; Vocês não têm mais que temer por esta lei tremendamente santa, não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça. Vocês não têm que temer mais a lei agora do que terão após o Dia do Julgamento. Imaginem uma alma salva após o Dia do Julgamento, quando aquela terrível cena for passada, quando os mortos, grandes e pequenos, têm estado diante do grande trono branco; quando a sentença de desgraça eterna tiver caído sobre todos os não-convertidos, e eles afundaram no lago cujas chamas nunca são podem ser saciadas; essa alma redimida não diria: “não tenho nada a temer por causa desta santa lei; tenho visto suas taças derramadas, mas nem uma gota caiu sobre mim”. Assim você pode dizer agora, oh crente em Jesus. Quando você olhar para a alma de Cristo, marcada com raios de Deus; quando você olhar para o seu corpo, traspassado pelo pecado, você pode dizer: Ele foi feito maldição por mim; por que eu deveria temer esta lei santa?

Segunda, o Espírito de Deus escreve a lei sobre o coração. Esta é a promessa de Jeremias 31:33: “Depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” [Jeremias 31:33]. Vir a Cristo tira o seu medo da lei, mas é o Espírito Santo vindo ao seu coração que faz com que você ame a lei. O Espírito Santo não é mais indesejado e resistido neste o coração; ele vem o suaviza; ele tira o coração de pedra e coloca um coração de carne; e lá ele escreve a santa, santa, santa lei de Deus. Em seguida, a lei de Deus se torna doce para a alma; ela se deleita nela segundo seu homem interior. “A lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom” [Romanos 7:12]. Agora ela sinceramente deseja que cada pensamento, palavra e ação esteja de acordo com essa lei. “Quem dera que os meus caminhos fossem dirigidos a observar os teus mandamentos. Muita paz tem os que amam a tua lei, e para eles não há tropeço” [Salmos 119:6, 165]. O Salmo 119 se torna a respiração desse novo coração. Agora ele também deseja ver o mundo inteiro submetendo-se a esta lei pura e santa. “Rios de águas correm dos meus olhos, porque não guardam a tua lei” [Salmos 119:136]. Oh! que todo o mundo apenas soubesse que a santidade e a felicidade são um! Oh! que todo o mundo fosse uma santa família, alegremente submetendo-se às puras regras do Evangelho! Examine a si mesmo por isso. Você pode dizer: “tenho prazer na lei de Deus…”. Você se lembra quando você odiava a lei de Deus? Você a ama agora? Você anela pelo dia em que viverá plenamente sob ela, santo como Deus é santo, puro como Cristo é puro?

Oh! vinde, pecadores, e entreguem seus corações a Cristo, para que Ele possa escrever sobre eles a Sua santa lei! Você já esteve por tempo suficiente a lei do Diabo gravada em seu coração; venha você a Jesus, e Ele tanto te abrigará das maldições da lei quanto lhe dará o Espírito para escrever toda a lei em seu coração; Ele fará com que você a ame do fundo de sua alma. Pleiteia a promessa com Ele. Certamente você já experimentou os prazeres do pecado por muito tempo, venha então, e experimente os prazeres da santidade de um novo coração.

Se você morrer com o seu coração como ele está agora ele será marcado como um coração mau por toda a eternidade. “Quem é injusto, seja injusto ainda; e quem é sujo, seja sujo ainda” (Apocalipse 22:11). Oh! venha e receba o novo coração antes de morrer, pois se você não nascer de novo não poderá ver o reino de Deus!

.
II.
Um verdadeiro crente sente uma lei opondo-se em seus membros. Versículo 23: “vejo nos meus membros outra lei…”. Quando um pecador vem inicialmente a Cristo, muitas vezes ele pensa que agora dará um adeus eterno ao pecado: “agora eu nunca mais pecarei”. Ele já se sente na porta do céu. Mas um pequeno vento de tentação logo desvela o seu coração, e ele clama: “vejo nos meus membros outra lei”.

1. Observe o que ele chama: “outra lei”; uma lei inteiramente diferente da lei de Deus, uma lei claramente contrária a ela. No versículo 25 ele chama de a “lei do pecado”, uma lei que o ordena a cometer o pecado, que lhe pressiona com recompensas e ameaças, Romanos 8:2: “A lei do pecado e da morte”, uma lei que não só leva ao pecado, mas leva à morte, morte eterna: “O salário do pecado é a morte” [Romanos 6:23]. É a mesma lei que em Gálatas é chamada de “a carne”. Gálatas 5:17: “A carne cobiça contra o Espírito”, e etc. É o mesmo que em Efésios 4:22 é chamada de “velho homem”, que se corrompe pelas concupiscências do engano. A mesma lei que, em Colossenses 3:5, é chamada de “vossos membros”, “Mortificai, pois, os vossos membros…”. O mesmo que é chamado no versículo 24 de: “um corpo de morte”. A verdade então é que no coração do crente ainda permanece inteiramente os membros e o corpo de um velho homem, ou velha natureza; ali permanece a fonte de todos os pecados que têm contaminado o mundo.

2. Observe novamente o que sua lei está fazendo: “que batalha contra”. Esta lei nos membros não está descansando tranquila, mas em guerra, sempre batalhando. Nunca pode haver paz no peito de um crente. Há paz com Deus, mas constante batalha contra o pecado. Esta lei nos membros tem um exército de concupiscências ao seu comando, e ela ordena constante guerra contra a lei de Deus. Às vezes, de fato, um exército está deitado em emboscada, e eles ficam em silêncio até que o momento favorável venha. Assim, no coração os desejos frequentemente permanecem tranquilos até a hora da tentação, e então eles combatem contra a alma. O coração é como um vulcão, às vezes ele dorme e não produz nada mais do que um pouco de fumaça, mas o tempo todo o fogo está dormindo em baixo, e em breve vem à tona. Existem dois grandes combatentes na alma do crente. Há Satanás de um lado com a carne e todas as concupiscências em seu comando; e por outro lado, há o Espírito Santo com a nova criatura completamente ao seu comando. E assim, “a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” [Gálatas 5:17].

Satanás alguma vez é bem-sucedido? Na profunda sabedoria de Deus a lei dos membros, por vezes, leva a alma em cativeiro. Noé era um homem perfeito, e andava com Deus, e ainda assim ele foi levado cativo. Noé “bebeu do vinho, e embebedou-se” [Gênesis 9:21]. Abraão era “o amigo de Deus”, e ainda assim ele mentiu dizendo de Sara, sua mulher: “Ela é minha irmã”. Jó era um homem perfeito, temente a Deus e odiava o mal, e mesmo assim ele foi provocado a amaldiçoar o dia em que ele nasceu. E assim com Moisés, Davi, Salomão e Ezequias, e Pedro e os Apóstolos.

1. Você já experimentou essa batalha? É uma marca clara de filhos de Deus. A maioria de vocês, eu temo, nunca sentiu isso. Não me entendam mal, todos vocês já sentiram batalhas, por vezes, entre a sua consciência natural e à lei de Deus, mas essa não é a contenda no peito do crente. É uma guerra entre o Espírito de Deus no coração e o revestimento exterior do velho homem com os seus feitos.

2. Se algum de vocês está gemendo sob esta batalha, aprenda a ser humilhado por isso, mas não desanimado.

(1.) Seja humilhado sob ele. A intenção é fazer com que você vá ao pó e não se sinta nada mais do que um verme. Oh! que vil desgraçado você deve ser, que, mesmo depois de estar perdoado e ter recebido o Espírito Santo, seu coração ainda é uma fonte de toda maldade! Quão vil em suas aproximações mais solenes a Deus – na casa de Deus – em situações terrivelmente comoventes, assim como ajoelhado ao lado do leito de morte, você deve ainda ter em seu peito todos os membros da sua velha natureza. Permita que isto o humilhe.

(2.) Que isto lhe ensine a sua necessidade de Jesus. Você precisa do sangue de Jesus, tanto quanto no princípio. Você nunca pode estar diante de Deus em Si mesmo. Você tem que ir de novo e de novo para ser lavado; mesmo em seu leito de morte você tem que se esconder sob o Senhor, nossa justiça. Você também deve apoiar-se em Jesus. Somente Ele pode dominar em você. Aproxime-se cada vez mais todos os dias.

(3.) Não desanime. Jesus está disposto a ser um Salvador para você assim como Ele é capaz de salvá-lo até ao fim. Você acha que seu caso é muito ruim para Cristo o salvar? Todos aqueles que Cristo salvou possuíam um coração como o seu. Combata o bom combate da fé; tome posse da vida eterna, tome para si a resolução de Edwards: “nunca desistir nem abrandar minimamente, a minha luta contra as minhas corrupções, embora enfrente eventuais insucessos”, “a quem vencer, eu o farei coluna” [Apocalipse 3:12].

.
III.
Os sentimentos de um crente durante esta batalha.

1. Ele se sente miserável. Versículo 24, “Miserável homem que eu sou!” Não há ninguém neste mundo tão feliz como um crente. Ele veio a Jesus e encontrou descanso. Ele tem o perdão de todos os seus pecados em Cristo. Ele tem aproximação íntima de Deus como um filho. Ele tem o Espírito Santo habitando nele. Ele tem a esperança da glória. Nos tempos mais terríveis que pode estar calmo, pois ele sente que Deus está com ele. Ainda assim, há momentos em que ele clama: “Miserável homem que eu sou!” Quando ele sente a chaga do seu coração, quando ele sente o espinho na carne, quando o seu coração perverso é descoberto em toda a sua temerosa malignidade. Ah, então ele se se humilha clamando: “miserável homem que eu sou!” Um dos motivos disto é que o pecado descoberto no coração tira o sentimento do perdão. A culpa vem sobre a consciência e uma nuvem escura cobre a alma. “Como posso voltar para Cristo?” Ele suspira, “ai de mim! Pequei contra o meu Salvador”. Outra razão é a repugnância do pecado. Ele considera a si mesmo como uma víbora no coração. Um homem natural é muitas vezes miserável do seu pecado, mas ele nunca sente a sua repugnância; mas para a nova criatura isto é vil, de fato. Ah! irmãos, vocês conhecem alguma coisa sobre a miséria de um crente? Se vocês não conhecem, vocês nunca conhecerão a sua alegria. Se vocês não conhecem as lágrimas e gemidos de um crente, vocês nunca conhecerão o seu cântico de vitória.

2. Ele busca a libertação. “Quem me livrará?” Nos tempos antigos, alguns dos tiranos utilizavam um corpo morto como cadeia para seus prisioneiros, de modo que, onde quer que o prisioneiro fosse, ele teria que arrastar uma carcaça podre com ele. Acredita-se que Paulo aqui faz alusão a esta prática desumana. Seu velho homem ao qual ele via como uma carcaça podre e fétida, ao qual ele estava constantemente arrastando com ele. Seu profundo desejo é ser libertado dela. Quem nos livrará? Você se lembra de uma vez, quando Deus permitiu que um espinho na carne atormentasse o seu servo, um mensageiro de Satanás lhe esbofeteasse, Paulo foi levado de joelhos: “Três vezes orei ao Senhor para que se desviasse de mim” [2 Coríntios 12:8]. Oh! Esta é a verdadeira marca dos filhos de Deus! O mundo tem uma velha natureza; ele todos são velhos homens, mas isso não os leva aos seus joelhos. Como é com vocês, queridas almas? Será que o senso de vossa corrupção interior as leva ao trono da graça? Isso vos faz invocar o nome do Senhor? Vocês fazem como a viúva importuna, “Faze-me justiça contra o meu adversário”? Isso faz de vocês como o homem, vindo à meia-noite para pedir três pães? Faz de vocês como a mulher Cananéia clamando ao seguir após Jesus? Ah, lembrem-se, se a luxúria pode trabalhar em vosso coração e vocês quedam contentes com isso, vocês não são de Cristo!

3. Ele dá graças pela vitória. Verdadeiramente, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou; pois podemos dar graças antes que batalha esteja concluída. Sim, mesmo no ápice da batalha, podemos olhar para Jesus, e clamar: graças a Deus. No momento em que uma alma gemendo por causa da corrupção descansa os olhos em Jesus, naquele mesmo momento os gemidos são transformados em canções de louvor. Em Jesus você descobre uma fonte para lavar a culpa de todo o seu pecado. Em Jesus você descobre graça que te basta, graça para preservá-lo até o fim, e uma promessa certa de que o pecado deve em breve ser erradicado completamente. “Não temas, porque eu te remi; chamei-te pelo teu nome, tu és meu” [Isaías 43:1]. Ah, isso transforma nossos gemidos em cânticos de louvor! Quantas vezes um salmo começa com gemidos e termina com louvores! Esta é a experiência diária de todo o povo do Senhor. É a sua? Examine-se por isso. Oh! Se você não conhece as canções de louvor dos crentes, você nunca lançará sua coroa juntamente com eles aos pés de Jesus! Queridos crentes, contentem-se em gloriarem-se em vossas fraquezas, para que o poder de Cristo habite em vós.

.
__________
♦ Fonte:
Books.Google.com.br │ Título Original: A Believer Delights in the Law of God
♦ 
As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)

♦ Tradução por William Teixeira
♦ Revisão por Camila Almeida


Um Tratado Sobre o Amor de Deus – Bernardo de Claraval

[Baixe o e-book desse sermão, em formato PDF, clicando AQUI]

Prefácio

Ao mui ilustre senhor, Haimeric, cardeal-diácono e chanceler da Igreja Romana, Bernardo, abade de Claraval; vivo para o Senhor e morto em Cristo.

Até agora vocês estavam acostumados a me pedir orações, e não me propunham assuntos a tratar. Não que eu me sinta mais habilidoso para um do que para o outro; mas ao menos as orações convêm melhor a minha profissão, senão da forma como cumpro os deveres; mas quanto às questões a serem resolvidas, me parece que, para tratá-las, são necessárias duas coisas que, na verdade, me fogem completamente, isto é, quero falar em espírito e precisão. No entanto eu percebo com prazer, eu confesso, que vocês deixaram de lado as coisas da carne pelas do espírito, mas vocês deveriam ter se dirigido a alguém que oferecesse mais recursos do que eu. Esta desculpa, é verdade, é comum às pessoas capazes e igualmente às que não o são, e não é nada fácil saber se provém da modéstia ou da incapacidade, enquanto não tenha sido tentado em esforços no sentido solicitado. Portanto, vos peço receber o que me permite a minha mediocridade, pois não quero, permanecendo em silêncio, me fazer passar por um sábio. Todavia não tenho a intenção de satisfazer todas as vossas perguntas, eu responderei apenas, conforme a inspiração dada por Deus, àquela que vocês me fizeram sobre o amor de Deus; é a mais doce a ser estudada, a menos perigosa a ser tratada e a mais útil a ser ouvida; guardem as outras para os mais habilidosos que eu.

 

CAPÍTULO I

Porque e como amar a Deus?

1. Vocês querem então saber de mim por qual motivo e em que medida nós devemos amar a Deus? Pois bem, eu vos direi que o motivo do nosso amor por Deus, é Ele mesmo, e que a medida deste amor é amar sem medida¹. É explícito o bastante? Sim, talvez, para um homem inteligente; mas eu tenho que falar aos sábios e aos ignorantes, e se eu falei o suficiente para os primeiros, preciso levar em conta os segundos; é, portanto, para estes que desenvolvo meu pensamento, mergulhando mais fundo. Ora eu digo que temos dois motivos de amar a Deus pelo que Ele é; não há nada mais justo, nada mais vantajoso. De fato, esta pergunta: Porque devemos amar a Deus, se apresenta sob dois aspectos: Ou nos perguntamos a que ponto Deus merece o nosso amor, ou então qual é a vantagem que vemos em amá-Lo; para esta questão dupla, há apenas uma resposta: O motivo pelo qual devemos amar a Deus é o próprio Deus. E, aliás, se nós colocamos um ponto de vista de mérito, não há maior do que Deus de ter Se entregado a nós, mesmo sendo indignos; de fato, o que poderia Ele, tão Deus quanto é nos dar algo que valesse mais do que Ele? Se, portanto nos perguntamos qual o motivo que temos de amar a Deus, nós buscamos qual o direito que Ele se deu ao nosso amor, encontramos antes de qualquer coisa que Ele nos amou primeiro. Ele merece, portanto, que paguemos de volta, principalmente se considerarmos Quem é o que ama, quais são os que Ele ama e como Ele os ama. Qual é de fato aquele que nos ama? Não seria aquele a quem todo espírito dá este testemunho: “Tu és o meu Senhor, a minha bondade não chega à tua presença” [Salmos 16:2]? E este amor em Deus não seria a verdadeira caridade que não busca seus próprios interesses? Mas a quem se refere este amor gratuito²? O Apóstolo responde: “Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus” (Romanos 5:10). Deus nos amou com um amor sem interesses e Ele nos amou quando ainda éramos seus inimigos. Mas com qual amor Ele nos amou? São João responde: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho Unigênito” (João 3:16). São Paulo continua: “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós” (Romanos 8: 32); e este Filho diz Ele mesmo, falando Dele: “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” (João 15:13).

Eis os direitos do Santo Deus Soberano Grande e Poderoso que Se deu por amor aos homens pecadores, infinitamente pequenos e fracos. Mas, diremos, se

- É assim para o homem, não é a mesma coisa para os anjos: eu concordo; mas é porque isto não foi necessário: aliás, aquele que socorreu os homens na miséria, protegeu os anjos de uma miséria parecida e se o Seu amor pelos homens lhes permitiu que não permanecessem como estavam, Ele, por este mesmo amor impediu os anjos de se tornarem tal qual nós fomos.

CAPÍTULO II

O quanto Deus merece o amor do homem por causa dos bens do corpo e da alma: como devemos reconhecê-los; não devemos usá-los contra Aquele que no-los deu.

2. Qualquer um que entendeu o que está escrito acima também vê, eu acho, porque isto é, por qual motivo devemos amar a Deus. Se isto não é visto pelos infiéis, Deus tem como confundir a ingratidão deles nos bens, sem contar o quanto preenche o corpo e a alma. Não é Dele, de fato, que o homem tem recebido o pão que o alimenta, a luz que o ilumina: e o ar que ele respira? Mas seria loucura contar os bens que eu acabo de declarar inumeráveis e que me basta citar os mais importantes como o pão, o ar e a luz; se os coloco em primeiro lugar, não é porque os acho os mais excelentes, pois interessam somente ao corpo, mas são os mais necessários. Sobre os bens de primeira ordem, é na alma, nesta parte do nosso ser que vence sobre a outra, que nós devemos procurá-los; são a excelência, a inteligência e a virtude [...].

3. Estes três bens aparecem cada um sob dois aspectos ao mesmo tempo: a excelência aparece na prerrogativa própria à natureza humana e no temor que o homem inspirou sem cessar a todos os seres que vivem na terra; a inteligência, não só percebe a dignidade do homem, mas entende também que para estar em nós, todavia ela não vem de nós; enfim a virtude, em sua dupla tendência, nos faz por um lado buscar com fervor e de outro abraçar com força, uma vez encontrado, Aquele a quem queremos pertencer. Também de nada vale a inteligência sem a excelência que pode até prejudicar sem a virtude, como podemos provar com o seguinte raciocínio: Ninguém pode se gloriar do que tem, se ele não sabe que o tem; mas se, sabendo, ele ignora que o que ele tem não vem dele, ele se gloria, mas não o faz em Cristo, e é a ele que o apóstolo diz: “E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?” (1 Coríntios 4:7) Ele não diz simplesmente: “Por que te glorias?”, mas ele acrescenta: “Como se não o houveras recebido” para mostrar que ele é repreensível, não por se gloriar do que tem, mas de se gloriar como se não o tivesse recebido. Assim com razão esta glorificação é considerada vaidade, já que não se apoia no fundamento sólido da verdade. O apóstolo a distingue da verdadeira glória, dizendo: “Aquele que se gloria glorie-se no Senhor” (1 Coríntios 1:31), isso é, na verdade: porque Deus é a verdade.

4. Portanto há duas coisas que precisamos saber; primeiro o que nós somos, e depois que não o somos por nós mesmos; então nós não nos gloriamos de coisa nenhuma, ou a glória que estaremos nos atribuindo será vaidade; enfim, se nós mesmos não nos conhecemos, está escrito, nós seremos confundidos com o grupo de nossos semelhantes (Cânticos 1:6-7). É de fato o que acontece, porque quando um homem digno não conhece nem mesmo a sua posição, o comparamos com razão, por tal ignorância, aos animais que são como os companheiros de sua corrupção e de sua vida decadente neste mundo. Portanto, não se conhecendo a ela mesma, a criatura que a razão distingue dos bichos, começa a se confundir com elas, porque ela ignora sua própria glória que é totalmente interna, cede aos chamados de sua curiosidade e se preocupa somente com sua beleza exterior e sensível; ela se torna também igual às outras criaturas, porque não sente que recebeu algo a mais do que elas. Assim é necessário combater a ignorância que faz com que talvez nos subestimemos mais do que convém. Mas evitemos com mais cuidado ainda esta outra ignorância que leva a nos atribuir além do que nós temos, como acontece quando nos enganamos em nos imputar o bem, qualquer que seja ele, que vemos em nós mesmos. Mas o que precisamos odiar e fugir mais do que estes dois tipos de ignorância, é a presunção pela qual em conhecimento de causa e propósito deliberado nós nos gloriamos do bem que está em nós, como se viesse de nós, não temendo arrancar de outrem a glória que nós bem sabemos que não nos é devida pelas coisas que estão em nós, mas que não vêm de nós. No primeiro caso, nós não nos gloriamos de nada, no segundo nos gloriamos, mas não em Cristo, e no terceiro nós não pecamos mais por ignorância, mas nós usurpamos conscientemente, reivindicando para nós mesmos, o que pertence a Deus. Ora, esta audácia comparada à segunda ignorância parece tanto mais grave e mais perigosa; se uma desconhece a Deus, a outra o menospreza; mas comparada à primeira, parece ainda pior e mais detestável, se esta ignorância nos assemelha aos brutos, esta audácia nos associa aos demônios. Pois apenas o orgulho, o maior dos males, pode se servir dos bens que ele recebeu, como se ele não os tivesse recebido, e desviar em proveito próprio a glória que um benfeitor deve achar em seus benfeitos.

5. Também à excelência e à inteligência é preciso unir o fruto que é a virtude; é pela virtude que buscamos e possuímos o Autor liberal de todas as coisas, Aquele a quem devemos, em tudo, render a glória que Lhe pertence; de outra forma seriamos rudemente punidos por não ter feito o que sabíamos que deveríamos fazer. Por que isso? Porque aquele que age desta forma, não quis adquirir a inteligência para fazer o bem, mas ao contrário, meditou sobre a sua própria iniquidade (Salmos 36: 4-5), e ele tentou, como um servo infiel, desviar e até trazer a proveito próprio a glória que seu excelente Mestre deveria recolher em bens, sabendo ele mesmo perfeitamente, pela virtude da inteligência, que ele mesmo não era a fonte. É, portanto, bastante evidente que a excelência, sem a inteligência, é inútil, e que a inteligência, sem a virtude, nos leva a perdição. Mas para o homem que possui a virtude, não seria a inteligência maléfica e nem a excelência inútil, ele clama e louva a Deus ingenuamente nestes termos: “Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua benignidade e da tua verdade” (Salmos 115:1). O que significa: Senhor, nós não Te atribuímos nem a inteligência nem a excelência, nós atribuímos tudo ao Teu nome, porque é Dele que nós recebemos tudo.

6. Mas nós nos afastamos demais do nosso desígnio, querendo provar que mesmo os que não conhecem a Cristo, sabem bem pela lei natural, pelos bens do corpo e da alma, que devem amar, também eles, a Deus, por causa do próprio Deus. De fato, para resumir em algumas palavras o que dissemos acima, qual é o infiel que não sabe que recebeu somente Daquele que faz o Seu sol nascer sobre bons e também sobre os maus, e faz cair chuva sobre os santos e também sobre os ímpios, todos os bens necessários à sua vida, dos quais já falei, como o alimento, a luz e o ar? Qual o homem, tão ímpio quanto seja, que atribuirá a excelência particular à espécie humana, que ele vê brilhar em sua alma, a outro a não ser ao que disse em Gênesis: “Façamos o homem a nossa imagem e semelhança (Gênesis 1:26)?” Quem verá o autor da inteligência em outro que não Naquele que ensina tudo aos homens? E de que mão pensaria ele receber ou ter recebido o dom da virtude, se não do Deus das virtudes? O Senhor merece, portanto, ser amado, pelo o que Ele é, pelo infiel, ainda que pouco O conheça, assim mesmo que não conheça a Cristo; também aquele que não ama a Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas as suas forças, não tem desculpas [...]

CAPÍTULO III

Motivos que os Cristãos têm a mais que os infiéis para amar a Deus.

7. Os fiéis, ao contrário, sabem o quanto precisam de Jesus crucificado, mas mesmo admirando e recebendo o amor que Ele tem por nós, que está acima de todo conhecimento, não demonstram nenhuma confusão em dar nada além do que eles mesmos, por menor que sejam, em retorno a uma caridade e a uma condescendência tão grandes; mas é tão fácil para eles amar mais do que se sentirem eles mesmos mais amados; porque àquele a quem se dá menos amor, esse o sentirá também bem menos. Os Judeus não mais que os pagãos, não sentem a excitação pelos mesmos aguilhões do amor que oprime a Igreja e fazem com que ela diga: “Eu fui ferido por amor”; ou ainda: “Sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs, porque desfaleço de amor” (Cânticos 2: 5) [...] ela vê o Filho Unigênito do Pai carregando a sua cruz, o Deus de toda majestade atingido por golpes e cuspidas, o Autor da vida e da glória pregado, transpassado, cheio de opróbrios, dando por Seus amigos Sua alma abençoada. Vendo tudo isso, ela sente a espada de dois gumes do amor penetrar mais fundo em seu coração e ela clama: “Suste-ntai-me com passas, confortai-me com maçãs, porque desfaleço de amor”. As maças que a esposa introduzida no jardim de Seu amado tem prazer em colher da árvore da vida, têm gosto do maná do céu e a cor do sangue do Cristo. E então ela vê a morte golpeada até a morte e aquele que a fez, crescer o cortejo de seu Vencedor, ela ainda vê este subir triunfante, de debaixo da terra para sobre a terra e da terra para os céus, seguido de uma grande multidão de cativos, de modo que somente ao nome de Jesus, todo joelho se dobra nos céus, na terra e debaixo da terra (Filipenses 2:10). A terra, debaixo da antiga maldição, produzia somente espinheiros e abrolhos; rejuvenescida então por uma nova benção, é coberta de flores. Então a esposa lembra-se deste versículo: “O Senhor é a minha força e o meu escudo; nele confiou o meu coração, e fui socorrido; assim o meu coração salta de prazer, e com o meu canto o louvarei” (Salmos 28:7), recobra o ânimo com os frutos da paixão que ela colheu da árvore da cruz, e com as flores da ressurreição cujo perfume delicioso convida o amado a renovar as suas visitas.

8. Enfim ela exclama. “Eis que és formoso, ó amado meu, e também amável; o nosso leito é verde” (coberto de flores) (Cânticos 1:16). Falando deste leito, ela deixa claro o que deseja, e, acrescentando que ele está coberto de flores, ela mostra em que estão baseadas as suas esperanças; não é sobre as vantagens de sua pessoa, mas sobre a atração que as flores, colhidas em um campo abençoado por Deus, têm para o seu amado, porque é o que sentem por Cristo que quis ser concebido e alimentado em Nazaré. Este esposo celeste, atraído pelo perfume que emana delas, tem prazer em entrar no quarto do coração, quando o encontra cheio de frutas e perfumado pelo aroma das flores. E Ele vem apressadamente e tem prazer em morar na sua alma que Ele contempla em medita-ção, cuidadosamente dedicada e colhe os frutos de Sua paixão e cultiva as flores de Sua ressurreição.

Ora estes frutos da última colheita, isto é de todos os séculos que se foram sob o império da morte e do pecado, que amadureceram na plenitude dos tempos, são as lembranças de sua paixão. Mas é no esplendor de sua ressurreição que devemos ver as novas flores dos novos tempos que a graça faz reflorescer para um segundo verão; no final dos tempos, na ressurreição real, elas darão inumeráveis frutos: “Porque eis que passou o inverno; a chuva cessou, e se foi; aparecem as flores na terra, o tempo de cantar chega, e a voz da rola ouve-se em nossa terra” (Cânticos 2:11,12). Ela quer dizer, falando assim, que o verão apareceu com Aquele que fez derreter o gelo da morte para renascer em temperatura primaveril de uma nova vida, dizendo: “Eis que faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21:5). Seu corpo, semeado na morte, refloresceu na ressurreição, e, ao perfume que Dele emana, vimos logo nos nossos vales e planícies, o que estava árido, morto ou congelado, cobrir-se de verde, renascer em vida e retomar o calor.

9. O frescor destas flores. O renovar destes frutos e a beleza deste campo, de onde exalam os mais doces perfumes encantam também o Pai cujo Filho fez novas todas as coisas, e lhe inspiram esta exclamação: “Eis que o cheiro do meu Filho é como o cheiro do campo, que o Senhor abençoou” (Gênesis 27:27). Sim, um campo cheio de flores, pois é de Sua plenitude que recebemos tudo o que temos. Mas a Esposa, ao se agradar Dele, vem colher em simplicidade flores e frutos para adornar a morada íntima de sua consciência, para que ao chegar o seu Amado, seu pequeno leito do coração exale os perfumes mais suaves. Portanto, se nós queremos que Cristo faça repetidamente em nós Sua morada, é preciso que nossos corações estejam cheios da fiel lembrança da misericórdia e do poder cujas provas recebemos em Sua morte e em Sua ressurreição. É o pensamento de Davi, quando disse: “Deus falou uma vez; duas vezes ouvi isto: que o poder pertence a Deus. A ti também, Senhor, pertence a misericórdia” (Salmos 62: 11-12) Jesus Cristo provou superabundantemente, pois após morrer por nós por nossos pecados, Ele ressuscitou para nos justificar, subiu aos céus para nos proteger, e nos envia o Espírito Santo para nos consolar; e, mais tarde Ele voltará para a consumação da salvação. Ora eu vejo em Sua morte a prova da Sua misericórdia, na ressurreição a do Seu poder, e em todo o restante eu as encontro as duas reunidas.

10. Se a Esposa pede que a suportemos com flores aromáticas e que a fortaleçamos com frutos cheirosos, eu acho que é porque ela sente que o amor pode perder calor e força; mas ela só terá estímulos até ser introduzida no quarto de Seu amado, sentindo-se coberta de beijos há muito desejados e possa exclamar: “A sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e a sua mão direita me abrace” (Cânticos 2: 6). Mas então ela sentirá e verá por si mesma o quanto estas provas de amor que Seu Amado lhe dava da mão esquerda, para assim dizer, pois Ele as dava sem contar nos dias em que estava entre nós, cedem em doçura aos abraços da sua mão direita e os são inferiores, e ela entenderá suas palavras. “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita” (João 6: 63), e ela penetrará no sentido destas palavras: “Meu espírito é mais doce que o mel e minha herança mais agradável que o mel nas prateleiras”. Se em seguida dissermos: “A memória de meu nome passará de séculos em séculos” é para mostrar que os eleitos que ainda têm sede da presença do Esposo, têm ao menos a lembrança Dele para se conso-larem, enquanto durar este século, durante o qual as gerações passam e se sucedem. Se está escrito: “Proferirão abundantemente a memória da tua grande bondade” (Salmos 145:7), certamente ouve-se daqueles cujo o salmista disse anteriormente: “Uma geração louvará as tuas obras à outra geração” (Salmos 145:4). Portanto os que vivem na terra possuem para si somente a lembrança do Esposo, e os que nos céus reinam, se alegram de Sua presença; esta última é a glória dos eleitos que já chegaram à salvação, a outra é a consolação dos que ainda estão a caminho.

CAPÍTULO IV

Quais são os que acham consolo nas lembranças de Deus,

e são mais puros em sentir o amor por Ele.

11. Mas é interessante ver quais são os que encontram consolo na lembrança de Deus. Não são os homens corruptos que irritam Deus sem cessar e a quem Ele diz: “Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação” (Lucas 6: 24), mas os que podem gritar com verdade: “a minha alma recusava ser consolada” (Salmos 72:2); acreditaremos neles voluntariamente, se eles acrescentarem com o Salmista: “Mas eu me lembrei de Deus” e encontrei gozo nesta lembrança (Salmos 72:3). E de fato, é verdade que aqueles que ainda não gozam da presença do Amado, olham para o futuro, e que aqueles que desprezam cavar algumas consolações na torrente das coisas que passam, experimentam coisas abundantes na lembrança das que duram eternamente. Assim são aqueles que buscam o Senhor e a face do Deus de Jacó, ao invés de buscar seus próprios interesses. Para aqueles que suplicam a Deus e buscam a Sua presença com todo desejo, a lem-brança é doce; mas bem longe de saciar a sua fome, ela a faz crescer para o alimento que deve saciá-los. É o que antecipa este alimento que diz, falando dele: “Os que comem ainda terão fome”. É também isto o que diz aquele que disto se alimenta: “eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar [me terás mostrado a tua glória]” (Salmos 17:15). Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos (Mateus 5:6). E maldita serás, raça malvada e perversa, maldito és, povo tolo e insensato, que não amas a sua lembrança e teme a sua presença! Tens razão em temer, pois agora não queres escapar dos caçadores, pois “Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína” (1 Timóteo 6:9); não poderás jamais fugir a esta palavra dura, sim, muito dura e cruel: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno” (Mateus 25:41). Quão mais suave e mais doce é aquela que ouvimos repetir na Igreja, lembrando a paixão: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna” (João 6:54)! O que nos faz dizer: Aquele que honra a minha morte, e, seguindo meu exemplo mortifica a sua carne sobre a terra, terá a vida eterna; ou então, se comigo sofres, também comigo estarás no Reino. E, portanto ainda hoje, muitos, face a estas palavras, se retiram e se afastam dizendo, se não em palavras, mas pelo comportamento: “Duro é este discurso; quem o pode ouvir? (João, 6:60-61). Desta forma os homens que, ao invés de conserva-rem seu coração reto e puro e permanecerem fiéis a Deus, preferiram colocar suas espe-ranças nas riquezas incertas, não podem agora ouvir falar da cruz; a simples lembrança da paixão lhes parece de peso esmagador; quanto mais serão esmagadoras para estes as palavras do juiz: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mateus 25:41)? Elas esmagarão, como uma rocha aquele sobre o qual cairão. Mas os santos serão benditos; com o Apóstolo, eles não têm outra ambição senão “muito desejamos também ser-lhe agradáveis, quer presentes, quer ausentes” (2 Coríntios 5:9). E também ouvirão estas palavras: “Vindes benditos do meu Pai, etc”. Será então que aqueles que não guardaram seu coração reto, sentirão, porém tarde demais, o quanto doce e leve é o jugo e o fardo de Cristo, aos quais orgulhosamente retiraram seu coração endurecido, como se se tratasse de um jugo esmagador e um fardo pesado. Não podeis, ó malditos escravos do dinheiro, gloriar-vos na cruz do nosso Senhor Jesus Cristo e ao mesmo tempo colocar vossa esperança nos tesouros, suplicar por fortuna e experimentar o quanto o Senhor é doce; e então com certeza O temerão muito, quando O verdes, Aquele cuja lembrança não vos pareceu cheia de doçura.

12. E para a alma fiel, ela suspira com todas as suas forças após ter conhecido a Deus, e descansa suavemente em Sua lembrança; ela se gloria das ignomínias da cruz, enquanto não pode ver o Senhor face a face. Eis certamente o repouso e o sono que a Esposa, a colomba de Cristo, experimenta, esperando em meio aos bens que lhes são dados em herança; ela tem, agora, pela lembrança de Sua inefável doçura, ó Senhor Jesus, as asas brancas e prateadas da pureza e da inocência, e mais ainda, ela espera estar embriagada de felicidade quando ela avistar o esplendor em Sua face do ouro [...] e Sua sabedoria inundar de luz na glória e na felicidade dos santos. Portanto bem certa está de gloriar-se desde agora e de dizer: “A sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e a sua mão direita me abrace” (Cânticos 2:6). A mão esquerda do Esposo é a lembrança deste amor do qual ninguém mais pode igualar a grandeza e que O impulsionou a dar a vida por Seus amigos; Sua mão direita é a visão beatificada que Ele prometeu aos Seus e a alegria que os embriagará quando gozarem de Sua divina presença. Não é por acaso que esta visão divina e dêitica, esta inestimável felicidade da visão de Deus é representada pela mão direita, pois é desta mão que é mencionado de forma inefável: “tua mão direita há delícias perpetuamente” (Salmos 16:11). É por um motivo semelhante que a mão esquerda é como a sede desta admirável caridade da qual falamos mais acima e da qual não sabemos realmente nos lembrar; pois é nesta mão que a Esposa recosta a sua cabeça esperando que a iniquidade passe.

13. Não, não é por acaso que o Esposo coloca sua mão esquerda sob a cabeça da Esposa, para que ela possa se soltar e repousar o que podemos chamar de cabeça, isto é a profundidade de sua alma, para que ela não se enfraqueça e não se desvie para os desejos carnais deste tempo; pois a embalagem terrestre e corruptível do corpo é um fardo pesado para a alma e a faz entrar em depressão, da qual ela precisa sair, levando em consideração uma misericórdia da qual tínhamos tão pouco direito, um amor tão gratuito e tão bem provado, uma honra tão inesperada, uma bondade indulgente e uma doçura tão perseverantes e tão admiráveis. Como pela meditação cuidadosa de todas estas coisas, não se elevaria a elas o espírito que delas se alimenta, e não se desligaria de todo sentimento ruim? Que profunda impressão terá sobre ele, e como poderia não lhe inspirar desprezo por aquilo que podemos gozar somente se renunciarmos a todas estas grandes coisas? É pelo bom aroma que exalam como tantos perfumes deliciosos que a Esposa se apressa alegremente e se sente consumida de amor; quando ela se vê tão amada, lhe parece que ama tão pouco, ainda que fosse ela mesma todo amor, e ela tem razão de assim crer; de fato, que retorno pode um grão de poeira pagar por um amor tão grande vindo de tão alto, quando mesmo se consumiria ele inteiramente de amor e de reconhecimento? Não foi ela avisada pela Divina Majestade, não mostrou-se inteiramente ocupada em salvá-la? Porque “Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho Unigênito” (João 3:16). Ora obviamente é de Deus Pai que falamos aqui, e, quando foi dito: “porquanto derramou a sua alma na morte” (Isaias 53:12), trata-se aqui do Filho; quanto ao Espírito Santo lemos: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito” (João 14:26). Portanto Deus nos ama e nos ama com todo o Seu ser; pois a Trindade toda nos ama, se é permitido expressar assim, falando do Ser infinito e incompreensível no qual não há partes.

CAPÍTULO V

Obrigação de amar a Deus, particularmente para os cristãos.

14. Quando pensamos em tudo isto, podemos facilmente compreender porque devemos amar a Deus e quais os direitos que Ele tem ao nosso amor. Trata-se do infiel? Como ele não conhece o Deus Filho, ele está na mesma ignorância em relação ao Pai e ao Espírito Santo; e da mesma forma que ele não glorifica ao Filho, ele não saberia glorificar o Pai que O enviou e nem tampouco o Espírito Santo que é um dom do Filho; ele conhece Deus menos do que nós, portanto não é estranho que O ame menos; todavia, ele não ignora o fato de que se deve inteiramente Àquele que ele sabe que recebeu a vida. Mas e quanto a mim? Porque não posso ignorá-lO, não somente Deus me fez um ser sem que eu o merecesse; não somente Deus supre abundantemente as minhas necessidades, me consola com bondade e me governa com solicitude, mas mais ainda é o Autor da minha redenção e da minha salvação eterna; Ele é para mim um tesouro e fonte de glória. De fato está escrito; “Espere Israel no Senhor, porque no Senhor há misericórdia, e nele há abundante redenção” (Salmos 130:7), e “Nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção” (Hebreus 9:12), — “Porque o Senhor ama o juízo e não desampara os seus santos” (Salmos 37: 28). Ele nos enriquece; de fato, está escrito: “boa medida, recalcada, sacudida e transbordando” (Lucas 6:38). E ainda em outro escrito: “As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam (1 Coríntios 2:9)”. Ele nos enche de glória, pois, segundo o Apóstolo: “de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso” (Filipenses 3:20-21)”, e mais: “Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada” (Romanos 8:18). “Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente” (2 Coríntios 4:16-17).

15. Que daria eu, portanto, ao Senhor por tudo isto? A razão e a justiça obrigam-me apressadamente a me doar inteiramente Àquele de quem recebi tudo o que sou, e de consagrar todo o meu ser em amá-Lo. A fé me diz também a ter por Ele um amor tal que eu entendo melhor o quanto devo estimá-Lo mais do que a mim mesmo, pois se herdei de Sua magnificência tudo o que sou, eu Lhe devo também o Seu próprio dom. Enfim o dia da fé cristã não tinha ainda um Deus que se havia incorporado, não havia ainda morrido na cruz e nem descido ao sepulcro, nem subido aos céus ao lado de Seu Pai; digo, Ele não havia ainda rompido toda a extensão do Seu amor por nós, deste amor do qual tive a amabilidade de partilhar mais alto com vocês, o homem já havia recebido a ordem de amar O Senhor seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas as suas forças, isto é, de todo o seu ser, de todo amor que for capaz, como criatura dotada de força e inteligência. E não seria de forma alguma uma injustiça da parte de Deus de reivindicar Sua obra e Seus dons.

De fato, por que a obra não amaria aquele que a fez, já que recebeu o poder de amar, e, por que não O amaria com todas as suas forças se é somente Dele que ela as recebeu? Adicione a isso tudo que ele foi tirado do nada sem nenhum mérito anterior, para em seguida ser exaltado; a obrigação de amar a Deus vos parecerá de tanto mais evidente e seus direitos ao nosso amor tanto mais fundamentados. Aliás, não foi Ele ao cúmulo em Suas bênçãos e Suas misericórdias, quando nos salvou, quando estávamos semelhantes aos animais que perecem (Salmos 49:20)? De fato, pelo pecado fomos destituídos do nível de honra que era nosso, para nos tornarmos semelhantes ao boi que ara no campo, e a animais desprovidos de razão. Portanto, se devo me doar completamente ao meu Criador, o que mais não lhe deveria ao meu Restaurador, a tamanho Restaurador? Foi-Lhe muito menos fácil me restaurar do que me criar; pois, para dar vida não somente a mim, mas a toda a criação, dizem as Escrituras “pois mandou, e logo foram criados” (Salmos 148:5). Mas para restaurar o ser que, com uma única palavra, feito tão completo, quantas palavras não foram pronunciadas, quantas maravilhas Ele deve ter operado, quantos tratamentos cruéis, ou devo ir mais fundo ainda, quantos tratamentos indignos Lhe foram necessários sofrer!

“Que darei eu então ao Senhor, em reconhecimento por tudo que fez comigo (Salmos 116:12)?” Quando Ele me criou, me deu minha vida: mas a devolveu a mim mesmo quando se deu por mim; a concedeu-me uma vez, em seguida a devolveu, portanto, por mim, devo duas vezes. Mas o que darei eu a Deus por Ele? Pois, mesmo que eu pudesse me dar a mim mesmo mil vezes, que seria isto comparado a Deus?

CAPITULO VI

Recapitulação, sumário dos capítulos anteriores.

16. Reconheçamos então primeiramente em que medida merece Deus ser amado, ou melhor, vamos entender que deve ser sem medida. De fato, para resumir em poucas palavras, Ele nos amou primeiro, Ele tão grande e nós tão pequenos; Ele nos amou com excesso, tal como somos, e sem qualquer mérito nosso; por isso eu disse no começo que a medida do nosso amor por Deus deve ser sem medida ou exceder qualquer medida; aliás, já que este amor é imenso, infinito (pois assim é Deus) eu pergunto, quais seriam o termo e a medida de nosso amor por Ele? Além do mais, o nosso amor não é gratuito; é o pagamento de nossa dívida. Enfim, quando é o Ser imenso e eterno, o próprio amor por excelência, quando se trata de um Deus cuja grandeza é sem limites, a sabedoria incomensurável, a paz excedendo a todo sentimento e todo pensamento; quando, digo, é um Deus tal que nos ama, guardaremos em relação a Ele alguma medida em nosso amor? Eu Te amarei, portanto, Senhor, Tu que és a minha força e meu apoio, meu refúgio e minha salvação, Tu que és para mim tudo o que pode existir de mais desejável e mais amável. Meu Deus e meu sustento, eu Te amarei com todas as minhas forças, não tanto quanto mereces, mas certamente tanto quanto eu puder, se eu não puder o quanto deveria, pois é impossível para mim amá-lO mais do que todas as minhas forças. Poderei amá-lO mais somente quando receber o poder da Sua Graça, e ainda assim não será o quanto mereces. Teus olhos veem toda a minha insuficiência, mas eu sei que Tu escre-ves no Livro da Vida, todos aqueles que fazem o quanto podem, mesmo que não façam tudo o que devem. Eu já disse o suficiente, se não me engano, para mostrar como Deus deve ser amado, e por quais boas obras Ele mereceu o nosso amor. Eu digo, por quais boas obras, pois por excelência, quem a poderia entender, quem a poderia expressar, quem a poderia sentir?

CAPÍTULO VII

Vantagens e recompensas do amor de Deus.

As coisas da terra não podem satisfazer o coração do homem.

17. Vejamos agora quais vantagens existem para nós no amor de Deus. Sim vejamos, mas que relação entre o que veremos e o que é? No entanto, não podemos nos omitir, se bem que a nossa visão não pode englobar toda a verdade. Nós nos perguntamos acima por qual motivo e em qual medida deve-se amar a Deus, e dissemos que esta questão: “por quais motivos devemos amá-lO” apresenta-se sob dois pontos de vista, pois podemos entender desta forma, que direitos tem Deus sobre o nosso amor; ou então, que vantagem nós encontramos em amá-lO? Nós falamos da melhor forma que podíamos, senão de um modo digno de Deus, dos direitos que Ele possui sobre o nosso amor: faremos o mesmo em relação às vantagens que encontramos neste amor; pois, se nós devemos amar a Deus, sem nos preocupar com a recompensa, ainda assim somos recompensados por tê-lO amado. A verdadeira caridade não pode permanecer sem paga, e, no entanto não é nem um pouco mercenária, pois não busca seus próprios interesses (1 Coríntios 8:5); o amor é um movimento da alma e não um contrato; não se o pode adquirir em virtude de uma convenção, e também nada adquire por este meio; é totalmente espontâneo em seus movimentos e nos faz semelhantes a ele: enfim o verdadeiro amor encontra em si mesmo a sua satisfação. Sua recompensa é no sujeito amado; pois qualquer que seja o sujeito que dizemos amar, se o amamos em vista de outro, então é este que verdadeiramente amamos e não aquele cujo coração usa para atingi-lo. Por isso que Paulo não prega o Evangelho para ter o que comer, mas ele come para poder pregar o Evangelho; pois, o que ele ama, não é a comida que ele pega, mas o Evangelho que ele anuncia (1 Coríntios 9:18). O verdadeiro amor não busca recompensa, mas ele merece uma; é certo que não propomos àquele que ama uma recompensa por seu amor, mas ele merece ser recompensado e o será se continuar a amar. Enfim, em uma ordem de coisas menos elevadas, excitamos a fazê-las, com promessas de recompensas, não aos que acham que são algo, mas os que se doam com pesar. Quem jamais teve a vontade de oferecer a alguém uma recompensa para lhe fazer algo que realmente ansiava fazer? Certamente não damos dinheiro a um homem morrendo de fome e de sede, para incitá-lo a comer ou beber, e nem a uma verdadeira mãe, para que amamente o fruto do seu ventre, e não usamos de orações e promessas para incentivar alguém a cercar a sua plantação, a remoer a terra em volta das árvores ou elevar o muro de sua casa. Por uma razão mais forte ainda, aquele que ama a Deus, não teria ele necessidade de se sentir atraído por uma recompensa que não seja o próprio Deus; de outra forma não seria a Deus que ele amaria e sim a recompensa.

18. Está na natureza do homem o desejar, cada um conforme a sua tendência e sua percepção, o que lhe parece melhor do que aquilo que ele já possui, e de nunca estar satisfeito com algo que definitivamente não está de acordo com aquilo que ele queria. Citemos alguns exemplos: Se um homem que tem uma linda mulher, vê uma mais linda, seu coração a deseja, seu olhar arde em desejo; se ele tem uma vestimenta preciosa, ele deseja uma mais sumptuosa ainda; e com as riquezas que ele em, ele inveja os que têm mais do que ele. Não é comum vermos homens ricos em terras e em propriedades comprar novos campos, e, nos seus desejos sem fim, recuar constantemente os limites de seus domínios? Aqueles que moram na realeza, em vastos palácios, não cessam de acrescentar a cada dia novos edifícios aos antigos; tomados por uma inquieta curiosida-de, não param de construir e destruir, mudando o que está redondo para fazer quadrado. Se falarmos então de homens cheios de homenagens, não aspiram eles constantemente com todas as suas forças com uma ambição cada vez mais difícil de agradar por uma posição ainda mais elevada? Isto não tem fim, porque em todas estas coisas não conseguimos achar um ponto que seria propriamente dito o mais elevado e o melhor. Mas deveríamos estranhar que aqueles que não podem parar enquanto não possuírem o que tiver de maior e mais perfeito, não estejam nunca satisfeitos com o que for pior ou inferior? Mas o que eu acho insensato acima de qualquer expressão, é que desejamos sempre aquilo que não poderia jamais, não digo satisfazer, mas simplesmente adormecer os desejos ardentes. O que quer que seja que nós possuímos, nós não desejamos menos aquilo que ainda não temos e é sempre em relação ao que não temos que suspiramos mais e mais. E então o que acontece? O nosso coração, cedendo aos caprichos variados e enganosos do século, cansa-se inutilmente em sua corrida e não consegue se saciar; está sempre faminto e de nada vale o que já tem com aquilo que ainda lhe resta a ter; está bem mais atormentado pelo desejo do que lhe falta do que pela satisfação do que já tem. Não podemos ter tudo e aquilo que temos o adquirimos somente com esforço, o aproveitamos com temor e tendo a dolorosa certeza de perdê-lo um dia, mesmo não sabendo qual será este dia. Este é, portanto o caminho de uma vontade pervertida que pende ao bem soberano; é seguindo esta direção que ela se apressa em atingir o que a deve satisfazer; ou, melhor dizendo, é nestes desvios que a vaidade não se deixa vencer e a iniquidade se engana. Se queremos atingir um objetivo que nos propomos e enfim adquirir aquilo cuja possessão excede a todos os desejos, porque procurar de tantos outros lugares? Isto é se afastar do reto caminho, e a morte chegará bem antes de atingirmos o alvo desejado.

19. Em todos estes desvios se perdem os ímpios que procuram, por um movimento natural, a satisfazer seu apetite e negligenciam, como insensatos, os meios para conse-guir o que querem; quero dizer, a serem consumados e não consumidos. Ora, eles se consumem em vãos esforços e não conseguem chegar a uma felicidade consumida; pois, estão mais afeiçoados às criaturas do que ao Criador, e se voltam a todas elas e as experimentam umas após as outras, antes de pensar em tentar se dirigir ao Senhor que as criou. É aonde chegariam certamente, se pudessem um dia cumprir todos os seus de-sejos, ou seja, de possuir todo o universo, menos o seu Autor, e isto se faria em virtude mesmo da lei de suas concupiscências, que os faz esquecerem o que são, para almejar aquilo que não tem; senhores de tudo o que está no céu e na terra, não tardariam a considerar tudo isto insuficiente e procurariam por fim aquele que lhes falta ainda para que tenham tudo, ou seja, o próprio Deus. E então, finalmente experimentariam o repou-so; pois, se não o podemos achar além deste termo, não saberíamos também sentir a necessidade de ir além; qualquer um que ali se achasse não poderia deixar de exclamar [...] “Quem tenho eu no céu senão a ti? e na terra não há quem eu deseje além de ti” (Sal-mos 73:25)? e mais ainda: “Deus é a fortaleza do meu coração, e a minha porção para sempre” (Salmos 73:26). Eis, portanto, que falei mais alto, como chegaríamos ao sobe-rano bem, se pudéssemos antes provar de todos os bens que se encontram abaixo dele.

20. Mas é absolutamente impossível proceder desta maneira, a vida é curta demais para isso, falta-nos forças e a quantidade de pessoas que partilham o mesmo caminho é por demais considerável. Além do mais, qualquer um que queira tentar, de todas as criaturas, penará inutilmente, pois pelo longo caminho que se propõe a percorrer, não conseguiria chegar ao fim e experimentar tudo aquilo que deseja ardentemente em suas concupis-cências. Por que não fazer todas estas tentativas em espírito ao invés da realidade? Seria mais fácil e mais vantajoso; o espírito recebeu uma atividade e uma perspicácia maiores que as do coração, precisamente afim de poder estar adiante em tudo, para que o coração não tenha a imprudência de se apegar ao que o espírito, que vai mais rápido que ele, ainda não achou útil. [...] Está escrito: “Examinai tudo, retende o bem” (1 Tessalo-nicenses 5:21), afim de que o primeiro prepare o terreno ao outro, e que o coração se apegue somente em consequência do julgamento feito pelo espírito. Não podemos de outra forma subir ao monte do monte do Senhor (Salmos 24:3) e descansar em Seu santuário, pois é em vão que possuímos uma alma, isto é, uma alma racional, pois a exemplo dos animais nós a deixamos levar-se por impulso vindo dos sentimentos em-quanto a razão se cala e não oferece nenhuma resistência. Aqueles cuja a razão não esclarece o caminho, nem por isso correm menos, mas estão fora da reta, e, apesar dos conselhos do Apóstolo, não estão correndo de forma a conquistar a vitória (1 Coríntios 9:24); de fato, quando poderiam obtê-la, se a querem somente após ter conseguido todo o resto? Seria pegar um caminho cheio de desvios e engajar-se em um circuito sem fim de querer experimentar de tudo começando do começo.

21. Não é assim que o justo procede. Ferido pela desaprovação direcionada a todos aqueles que se engajaram nestes desvios, pois o caminho que conduz à perdição é largo e frequentado pela multidão, ele prefere o caminho real que não se desvia nem para a esquerda e nem para a direita, conforme as palavras do profeta; “O caminho do justo é todo plano; tu retamente pesas o andar do justo” (Isaías 26:7). De fato ele toma o caminho mais curto para evitar sabiamente os longos e inúteis desvios, e ele experimenta uma palavra tão simples quanto simplificadora, não desejar o que vemos, vender o que temos e o dar aos pobres, pois, bem-aventurados são certamente os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus (Mateus 5:3); bem sabe ele que todos os que correm no estádio não chegarão a mesma posição (1 Coríntios 9:24).

Enfim, porque o Senhor conhece e aprova o caminho dos justos (Salmos 1:6), e conhece também o do pescador que só pode perecer; vale mais o pouco que tem o justo, do que as riquezas de muitos ímpios (Salmos 37:16), pois, o sábio disse e o insensato o provou “quem amar o dinheiro jamais dele se fartará” (Eclesiastes 5:10), “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos” (Mateus 5:6); um espírito reto faz da justiça seu alimento vital e natural, quanto ao dinheiro, a alma não se alimenta mais do que o corpo do ar que respira. Se olhássemos para um homem, desesperado de fome, respirar fundo aspirando profundamente para matar a fome, o chamaríamos de tolo; assim são aqueles que pensam matar a fome da alma, quando a preenchem com coisas corporais que lhe dão de fato, mas o que importa isso para o espírito? Não se alimenta ele mais do que o corpo com coisas espirituais. “Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome” (Salmos 103:1); Ele te dá abundância de bens, e, ao mesmo tempo, te excita ao bem, te fixa no bem. Ele te provê, te sustenta, te abençoa abundantemente; Ele ascende em ti os desejos, e Ele próprio os incendeia.

22. Eu já disse, o motivo do amor de Deus é o próprio Deus, e estou certo em dizer isto, pois Ele é de fato a causa ao mesmo tempo eficiente e final do nosso amor. Pois é Ele quem faz nascer a ocasião para o amor, Ele é que o incendeia e ainda Ele o enche de desejos. Ele faz com que O amemos, ou melhor, Ele é tal que não que não tem como não ser alvo do nosso amor; Ele o é também de nossa esperança: se não esperássemos ter a alegria de amá-lO um dia, O amaríamos agora em vão. Seu amor prepara e abençoa o nosso. Em sua bondade excessiva Ele começa por prover em nós, e então nos cobra merecidamente de volta, e, futuramente, Ele nos reserva as mais doces esperanças. Ele é rico para todos os que O invocam; porém, em toda a sua riqueza, nada é mais valioso do que Ele.

Ele é [...] nossa recompensa, é alimento das almas santificadas e o regaste das que estão cativas. Se já és para a alma que te procura uma fonte de felicidade, o que serás, Senhor, para aquela que te achou? [...] Falamos sobre a consumação do amor a Deus, falemos agora quais são os começos.

CAPÍTULO VIII

Nós começamos por nos amar para nós mesmos;

é por nós o primeiro grau do amor.

23. O amor é um dos quatro³ sentimentos naturais que todo mundo conhece e que é por consequência inútil nomear. Ora o que é natural e o que seria justo, seria de, antes de qualquer coisa, amar o autor da natureza: também, o primeiro e maior mandamento é este: “Amarás o Senhor teu Deus” (Mateus 22:37). Mas a natureza é mole demais e muito fraca para tal preceito, por isso começa por amar-se a si mesma; é este amor que chamamos de carnal, e cujo homem se ama antes de qualquer outra coisa e para ele, assim está escrito: “Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual” (1 Coríntios 15:46). Não é em virtude de um preceito que as coisas acontecem desta forma, é fato da natureza. De fato, vemos alguém odiar a sua própria carne (Efésios 5:29)?

Mas se este amor, como de costume acontece, tiver muita liberdade, se ele se expandir um pouco além, se sair do campo da necessidade e se esparramar nos campos da sensualidade, como um rio cujas águas se enchem, e transbordam; de súbito então se levanta para contê-lo, o dique do preceito que nos ordena “amar o próximo como a si mesmo” (Mateus 22:39). Nada mais justo, aliás, que aquele que partilha conosco a natureza, partilhe também os sentimentos da qual ela é a fonte em comum? Se, portanto é pesado demais a um homem pensar, não digo às necessidades de seus irmãos, mas aos seus prazeres, que ele se modere ele mesmo no espaço dos seus próprios; ou então ele seria culpado. Que pense nele o quanto quiser, contanto que seja para os outros, o que é para si mesmo. Tais são, ó homem, o freio e a justa medida imposta pela lei do teu ser e da tua consciência para que não caia na armadilha de tuas concupiscências e não corras para a perdição, colocando os bens da natureza a serviço dos inimigos de tua alma, ou seja, das paixões. Mais vale partilhar com teu semelhante, ou seja, teu próximo do que com teu inimigo. Mas se, segundo o conselho do sábio, o homem renunciar às suas paixões, se contentar, segundo a doutrina do Apóstolo, com o alimento e as vestes (1 Timóteo 6:8), e se ele se resignar voluntariamente a amar menos as coisas da carne que combatem contra o espírito (1 Pedro 2:11), ele não terá dificuldade, penso eu, em dar a seu semelhante ao que ele recusa ao inimigo de sua alma. Seu amor ficará guardado nos limites da justiça e da moderação, do momento em que ele consagrar às necessida-des de seus irmãos tudo aquilo que recusa às suas próprias paixões. É assim que o amor pessoal torna-se um amor fraternal, saindo de dentro pra fora.

24. Mas se, enquanto partilhamos com o próximo, vier a nos faltar o sustento, o que fazer? Nada além de orar com confiança Àquele que nos dá abundantemente, sem jamais nos reprochar os Seus dons (Tiago 1:5), “Abres a tua mão, e fartas os desejos de todos os viventes” (Salmos 145:16); pois não podemos duvidar dAquele que não recusa nem mesmo o supérfluo a maioria dos homens, vindo de bom grado ao socorro daqueles que estão necessitados. Pois disse Ele: “Buscai antes o reino de Deus, e todas estas coisas vos serão acrescentadas (Lucas 12:31), Ele portanto, se comprometeu a dar o necessário àquele que restringe o seu supérfluo e ama seu próximo; de fato, isto é buscar primeiro o Reino de Deus e implorar Seu socorro contra a tirania do pecado de suportar o jugo da pureza e da sobriedade, ao invés de permitir que o pecado reine em nosso corpo perecível. Ora ainda é justo partilhar o que recebemos das bênçãos da natureza com aqueles com quem já dividimos a própria natureza.

25. Mas, para que nosso amor ao próximo seja impecável, é preciso que Deus esteja envolvido; é de fato possível amar o próximo verdadeiramente, se não for em Deus? Ora, qualquer que não tenha sido educado em amor, não saberia amar em Deus; é preciso, portanto começar por amar a Deus, se queremos amar o próximo nEle, de modo que Deus que é o autor de todos as outras bênçãos, o é também de nosso amor por Ele, eis como não somente Ele criou a natureza, mas ainda como Ele a sustenta, pois é tal que, após receber a existência, ainda precisa dAquele que lhe a concedeu e que lhe conserva; se ela pode somente existir nEle, ela não pode subsistir sem Ele. É para que nos convençamos e que não nos atribuamos com orgulho as bênçãos das quais lhes somos devedores, que o Criador, com profunda e salutar intenção, quis que fôssemos sujeitos a tribulações: assim, se enfraquecemos, Deus vem ao nosso socorro e, salvos por Deus, nós Lhe rendemos a honra que Lhe convém. É o que diz Ele mesmo: “E invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás” (Salmos 50: 15). Eis porque o homem animal e carnal, que de início sabia apenas amar a si mesmo, começa em seguida, mas ainda pra ele mesmo, a amar a Deus, vendo, pela sua própria experiência, que todo o seu poder, pelo menos para o bem, vem dEle e que sem Ele, ele não pode absolutamente nada.

CAPÍTULO IX

Segundo e terceiro graus do amor.

26. Agora então, o homem já sente amor por Deus, mas ele o ama ainda para si mesmo e não para Deus. No entanto, existe-lhe alguma sabedoria própria em saber do que é capaz por ele mesmo e o que ele não pode fazer sem a ajuda de Deus, e de se manter impecável aos olhos dAquele que lhe conserva todo poder intacto. Mas que o cortejo das tribulações fundamenta sobre ele e o obriga a recorrer a Deus, se ele recebe a cada vez o socorro que o livra, não deveria ter ele um coração de mármore ou bronze para não ser tocado cada vez que foi socorrido, pela bondade de seu Libertador e de não começar a amá-lO por Ele mesmo e não mais somente pra ele. Pois a frequência das tribulações nos obriga a recorrer frequentemente a Deus, ora é impossível voltar a Ele frequentemente e não experimentar dEle, e é impossível experimentar dEle sem perceber o quanto Ele é doce.

Assim acontece que logo somos levados a amá-lO verdadeiramente, muito mais por causa da doçura que encontramos nele do que por causa do nosso próprio interesse, de modo que, a exemplo dos Samaritanos dizendo à mulher quem lhes havia anunciado a vinda do Messias entre eles, “E diziam à mulher: Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo” (João 4:42). Nós também dizemos à nossa carne agora não é mais por tua causa que amamos o Senhor, mas porque nós mesmos experimentamos e havemos reconhecido o quanto Ele é doce.

As necessidades da carne são uma espécie de linguagem que proclama em movimentos de alegria e felicidade, as bênçãos que, por experiência ela reconheceu a grandeza. Quando chegamos neste ponto, já não é mais difícil de cumprir o preceito de amar ao próximo como a si mesmo: pois, se amamos a Deus verdadeiramente, amamos também o que é dele, nosso amor é casto e conseguimos nos submeter ao preceito que diz: “ele torna puro o nosso coração por obediência e por amor” (1 Pedro 1:22); Ele é justo e nós cumprimos voluntariamente um tão justo mandamento, enfim, cheio de encanto e interesse pois é totalmente desinteressado. É, portanto, um amor cheio de castidade, já que não se manifesta nem por gestos e nem por palavras, mas por obras e pela verdade; é um amor cheio de justiça, pois entrega o tanto quanto recebe. Qualquer um que ama este amor, ama tanto quanto é amado e busca então somente os interesses de Jesus Cristo, e não os seus próprios interesses, da mesma forma que Jesus procurou os nossos, ou melhor nos procurou a nós mesmos.

Eis o amor daquele que diz: “Louvai ao Senhor, porque Ele é bom (Salmos 118:1). Aquele que louva ao Senhor, não somente porque o Senhor é bom pra ele, mas simplesmente porque o Senhor é bom, ama verdadeiramente Deus pelo o que Ele é e não por si mesmo. Não acontece desta forma para aquele que quem está escrito: “Ele vos louvará quando lhe tiveres feito o bem”. O terceiro grau do amor é, portanto de amar a Deus pelo que Ele é.

CAPÍTULO X

O quarto grau do amor é de somente se amar para Deus.

27. Bem-aventurado aquele que pode subir até o quarto grau do amor e que conseguiu se amar apenas para Deus. “Tua justiça é como as grandes montanhas” (Salmos 36:6); é a mesma coisa para este quarto amor, é um monte muito elevado, uma montanha abundante em pasto e fértil, “Quem subirá ao monte do Senhor” (Salmos 24:3)? Quem me dará asas como as da colomba, para que eu possa voar até o topo e ali repousar? Um lugar tranquilo, a morada de Sião. Ah! Quão longo é meu exílio! Quando então se elevará até lá a carne e o sangue, o barro e o pó de que fui feito? Quando então, embriagado pelo amor de Deus, minha alma se anulando e não se estimando mais do que um vaso trincado, lançar-se-á em direção a Deus, se perderá nEle e, sendo um só e mesmo espírito com Ele (2 Coríntios 6:17), quando poderá clamar: “A minha carne e o meu coração desfalecem; mas Deus é a fortaleza do meu coração, e a minha porção para sempre” (Salmos 73:26)? Santo e bem-aventurado clamarei, eu que pude algumas vezes, raramente, uma só vez de fato, experimentar algo parecido durante esta vida mortal, quando na verdade o teria sentido um só minuto, um só instante e como que às escondidas! Pois não é uma felicidade humana, mas já a vida eterna de se perder a si mesmo de certa forma, como se não mais existíssemos, de não ter mais ciência de si mesmo, de estar vazio de si e quase reduzido a nada; se acontecer a um mortal de subir até este nível, mesmo que só de passagem, assim como o dizíamos, por um segundo, e por assim dizer, às escondidas, este século mal parece estar com ciúmes e vem perturbar sua felicidade; este corpo de morte o chama a descer, as preocupações e necessidades da vida pesam sobre ele fortemente, a corrupção da carne recusa sustentá-lo, e, acima de tudo, o amor dos seus semelhantes lhe lembra com grande violência e força, ó pesar! Em voltar, cair em si e clamar. “Senhor, eu que sofro dos males de uma violência extrema, responda por mim”, ou ainda: “Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7: 24)!

28. As Escrituras dizendo que Deus tudo fez para Ele; é preciso que as criaturas se conformem e se coloquem, ao menos algumas vezes, no pensamento do Autor. Devemos, portanto, também entrar neste sentimento e nos render totalmente a Ele, ao Seu bel pra-zer, não ao nosso [...] Encontraremos a nossa felicidade bem menos no nosso sustento de cada dia e nas bênçãos que temos como herança, do que no cumprimento de Sua Vontade em nós; aliás, é justamente o que pedimos todos os dias orando: “seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu (Mateus 6:10)”. Ó puro e santo amor! Ó doce e santa afeição! Ó submissão da alma inteira e desinteressada! Tanto mais inteira e desinteressada que é exemplo de todo retorno a si mesma, tanto mais tenra e doce que tudo o que a alma sente nessa ocasião é divino. Chegar neste ponto é ser exaltado. Da mesma forma que uma gotinha de água junto a uma grande quantidade de vinho parece desaparecer tomando o gosto e a cor deste líquido; da mesma forma ainda que, na fornalha onde é mergulhado, o ferro parece perder a sua natureza e mudar-se em fogo; ou ainda como o ar penetrado pelos raios de sol torna-se em luz e parecer mais alumiar do que ser ele próprio alumiado: assim acontece para os santos em todos os seus sentimentos humanos; parece que se fundem e fluem na vontade de Deus. De outra forma, se ficasse ainda algo do homem no homem, como poderia ser Deus tudo em todos? Sem dúvida, a natureza humana não se dissolveria; mas seria diferentemente bela, gloriosa e poderosa. Quando isto se dará? A quem isto será dado de ver e experimentar? “Quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus?” (Salmos 42:2)? Senhor meu Deus, falou a Ti meu coração, meus olhos Te buscaram; esforçar-me-ei, Senhor, em contemplar a tua Face. Seria-me permitido ver Teu Santo Templo?

29. Em minha opinião, não creio que possamos observar perfeitamente este preceito: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento” (Mateus 22:37), enquanto o coração se vê obrigado a cuidar do corpo, que a alma não é dispensada de velar em conservá-lo cheio de vida e de sensibilidade no estado presente, e que sua energia, liberada de todos os sofrimentos, não se apoia sobre a própria força de Deus, pois, ela não saberia aplicar-se a Deus e contemplar apenas a Sua face divina, enquanto ela tem que velar sobre o corpo frágil e infeliz dando-lhe cuida-dos. Que não espere, portanto atingir este terceiro grau do amor, ou melhor, de ser ela mesma atingida, somente quando estiver revestido de um corpo espiritual e imortal, puro e calmo, obediente e submisso em tudo ao Espírito, o que só pode ser obra do poder de Deus em favor daqueles que Ele escolhe e não obra de um homem. Eu digo, portanto que a nossa alma chegará facilmente a este grau supremo do amor, quando as preocupações ou caprichos da carne não farão mais obstáculo à sua caminhada rápida e apressada em direção à felicidade que ela deve encontrar no Senhor. É preciso crer, no entanto, que os santos mártires, antes mesmo que a alma deles deixasse seus corpos vitoriosos, experi-mentaram ao menos em parte esta felicidade? Em todo caso é certo que um imenso amor fluía em suas almas, para dar-lhes forças para exporem suas vidas e desprezar as tormentas. Como eles o faziam. Não obstante, não podemos duvidar que os terríveis suplícios que sofreram não tenham alterado, ou até destruído, a alegria de suas almas.

a) [...] O que para nós está prescrito para esta vida não é, portanto a perfeição absoluta do amor, mas o desejo desta perfeição. De maneira que, tanto quanto a fraqueza humana o permitir, estejamos constantemente ocupados somente com o pensamento, o amor, a união e a vontade de Deus.

CAPÍTULO XI

O amor perfeito só será partilhado entre os santos após a ressurreição geral.

30. Mas o que pensar das almas que já deixaram seus corpos? Eu creio que estão mergulhadas inteiramente no oceano sem fim da luz eterna e da eternidade luminosa. Mas se ainda aspiram, o que não saberíamos negar, em se juntar ao corpo que outrora animaram, se nutrem o desejo e a esperança, é evidente que não são totalmente diferentes do que eram, e que ainda lhes resta algo que atrai sem dúvida bem pouco, mas que, entretanto atrai a sua atenção. Também, enquanto a morte não for absorvida totalmente em sua vitória, que a luz eterna não tenha sido invadida de toda parte o domínio da noite e que a glória celeste não se expanda também em nossos corpos, as almas não podem se lançar e passar totalmente em Deus, os elos do corpo ainda as retêm aprisionadas, senão pela vida e pelo sentimento, ao menos por uma certa afeição natural que não lhes deixa nem a vontade e nem o poder de atingir a consumação Também, até que seus corpos lhe sejam devolvidos, as almas não experimentarão esta fraqueza em Deus que é para elas a suprema perfeição, não buscariam esta união se, para elas, tudo estivesse consumado, sem tê-la encontrado; mas se for um progresso para a alma de deixar seu corpo, é uma perfeição de reavê-lo. Por fim, “Preciosa é à vista do Senhor a morte dos seus santos” (Salmos 116:15); se podemos falar assim da morte, que diríamos da vida, e principalmente desta vida em questão? [...] Assim, a alma que ama a Deus tira vantagem de seu corpo fraco e enfermo, seja ele morto, vivo ou ressuscitado; durante a vida, ele produz com ela frutos dignos de arrependimento; na morte, ele lhe serve para seu repouso, e após a ressurreição, ele concorre à consumação de sua felicidade. Portanto, ela tem razão de não se achar perfeita sem ele, porque ela o vê contribuir com ela para o bem de cada um destes três estados.

31. O corpo é para a alma um bom e fiel companheiro: se ele for para ela um fardo, ele é ao mesmo tempo uma ajuda; quando cessa de ajudá-la, cessa igualmente de pesar sobre ela; enfim, ele vem ajudar e não é mais um fardo para ela. O primeiro estado é laborioso, mas útil; o segundo desocupado, mas de forma alguma tedioso, e o terceiro é glorioso. Ouçam como o Esposo dos Cânticos convida a alma para esta tripla sucessão: “Amigos meus, comam e bebam, embriaguem-se, meus tão caros amigos” (Cânticos 5:1). As almas que ele convida a comer são aquelas que trabalham em seus corpos; teriam elas os deixado para se repousar na morte, ele as chama para beber, ele se apressa em embriagá-las quando tornam a eles, e se ele as chama de “caros amigos”, indicando que estão cheias de amor; porque às primeiras, ele diz apenas: “Amigos”, esperado que aquelas que gemem, ainda sob o peso de seus corpos [...]. Quanto às que são libertas das entravas do corpo, lhe são tanto mais caras que adquiriram mais independência e facilidade para amá-lO. Mas, comparando as almas colocadas em uma ou outra destas condições, ele as tem como caríssimas, como lhe são de fato para Ele, aquelas que se encobriram com sua segunda veste reavendo seu corpo na glória, e são levadas a amar a Deus com muito mais liberdade e alegria que não lhes sobra mais nada atrás delas para retardar ou impedir o impulso. Ora, não é da mesma forma para nenhum dos dois primeiros casos; de fato, o corpo em um faz sentir seu peso e cansaço à alma e, no outro, é para ela um objeto de uma esperança onde se mescla algum desejo pessoal.

32. A alma fiel começa então por comer seu pão, mas infelizmente! No suor de seu rosto (Gênesis 3:19); de fato, enquanto ela mora no corpo anda tão somente pela fé, que deve operar pelo amor, pois sem obras a fé é morta. Ora, são as obras, o seu alimento segundo o que diz o Senhor: “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” (João 4:34). Quando ela deixou sua carcaça mortal, ela cessa de comer o pão da dor, e, como no fim da refeição, começa a beber em grandes goles o vinho do amor; mas uma bebida não desprovida totalmente de misturas, como diz o Esposo de Cânticos, que diz: “bebi o meu vinho com meu leite” (Cânticos 5:1), porque no vinho do amor de Deus, a alma deseja reunir-se ao seu corpo, mas ao seu corpo que se tornou glorioso, mistura-se o leite cheio de mel de um afeto natural: ela já sente bem a influência da brisa do vinho do amor divino que ela bebe, mas ainda não chega a embriagar-se; o leite misturado ao vinho tempera a força; a embriaguez confunde o espírito até perder as lembranças de si próprio; e a alma que pensa da ressurreição futura do corpo que lhe pertenceu, ainda não perdeu completamente a lembrança de si própria. Mas após ter obtido a única coisa que ainda lhe falta, o que poderia doravante impedi-la de, de alguma forma, deixar-se a si mesma, para mergulhar totalmente em Deus, e de parecer ao menos o que lhe é permitido se tornar mais semelhante a Deus? Podendo então aproximar seus lábios da taça de sabedoria da qual está escrito: “Que meu cálice transborda” (Salmos 23:5)! Não devemos nos espantar se ela se embriaga da abundância que está na casa de Deus; livre de toda preocupação no que lhes diz respeito, ela bebe a grandes goles e tranquilamente, no Reino do Pai, o vinho puro e novo do Filho.

33. Ora é a sabedoria que dá esta tríplice festa onde serve apenas os manjares de amor; ela dá pão de comer aos que ainda trabalham, vinho de beber aos que já estão gozando o repouso e ela serviria embriaguez àqueles que entraram no Reino dos Céus; o que fazemos em mesas comuns, ela o faz a sua mesa, e só serve de beber após os convidados terem se servido de alimento. Enquanto estamos nesta vida, revestidos de um corpo mortal, nós ainda apenas comemos o pão dos nossos esforços, e só o engolimos depois de ter exaustivamente triturado entre os dentes; tão somente tenhamos devolvido o último suspiro, que nós começamos a beber na vida espiritual, onde nos servimos, com um relaxamento cheio de doçura, a bebida que nos é dada; depois, quando recobramos o nosso corpo devolvido à vida, nós bebemos amplamente a embriaguez em uma vida que não deve acabar. Este é o sentido das palavras do Esposo: “comei, amigos, bebei abundantemente, ó amados (Cânticos 5:1)! Comam nesta vida, bebam após vossa morte, embriaguem-se após a ressurreição, vós que então chamo com razão de Meus amados, pois estais embriagados de amor. Como não o seriam quando são aceitos ao noivado no Cordeiro, sentados a sua mesa, bebendo e comendo em Seu reino, enquanto faz aparecer a sua frente a sua Igreja cheia de Glória, sem mácula e sem rugas, nem coisa semelhante (Efésios 5:27)? Então eis que embriaga Seus melhores amigos e os farás beber da corrente de suas delícias (Salmos 36:8); pois, durante os vivos e castos abraços do Esposo e da Esposa, há um rio cujas correntes alegram a cidade de Deus (Salmos 46:4), o que para mim nada mais é do que o Filho mesmo de Deus, que passa como que servindo seus convidados (Lucas 12:37) como prometeu, a fim de que alegrem-se os justos, e se regozijem na presença de Deus, e folguem de alegria (Salmos 68:3). Eis de onde vem esta satisfação, que não é seguida de desgosto; este ardor insaciável, portanto, calmo e tranquilo de ver; este eterno e incomparável desejo de ter, que não tem sua fonte na privação, enfim esta embriaguez sem excesso, que mergulha e se afoga, não no vinho, mas em Deus e na Verdade. A alma chegou, portanto, para sempre ao quarto grau do amor, quando ama somente a Deus e O ama unicamente; pois, neste caso, não nos amamos mais para nós, mas para Ele, de modo que Ele é a recompensa, a recompensa eterna daqueles que O amam e O amam para sempre.

CAPÍTULO XII

Fragmento de uma carta aos Chartreux (religiosos da ordem de São Bruno) sobre o amor.

34. Eu me lembro de ter escrito antigamente aos santos religiosos da Chartreuse, uma carta (a décima primeira), onde eu falava dos graus do amor, e talvez falasse de outras coisas mais, mas era sempre sobre o mesmo assunto, por isso acho interessante trazer aqui algumas passagens desta carta, além do que me é mais fácil recopiar o que já escrevi do que escrever algo novo. Eu digo, portanto que o amor verdadeiro e sincero, que vem realmente de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera, é aquele que nos faz amar o bem alheio como o nosso. Porque aquele que ama apenas o que lhe diz respeito, ou ao menos que ama mais aquilo que lhe diz respeito do que aquilo que diz respeito aos outros, mostra bem que não tem um amor puro e que não ama o bem para o bem e sim como que para ele: portanto, ele não pode obedecer ao profeta que lhe diz: “Louvai ao Senhor, porque Ele é bom” (Salmos 118:1). Talvez ele O louve porque Ele é bom para ele, mas não Lhe dá a devida glória por Ele ser bom em Si [...]. Existem homens que glorificam ao Senhor porque Ele é poderoso; acontece que dão glória porque Ele é bom para ele; enfim, vemos uns que celebram em louvores simples-mente porque Ele é bom. Os primeiros são escravos que tremem para eles; os segundos, mercenários que buscam seus interesses, e os últimos são verdadeiros filhos que pensam somente no Pai. Ora os primeiros e os segundos pensam somente neles, e somente os verdadeiros filhos não são interesseiros em relação ao Seu amor (2 Coríntios 13:5), e é sobre eles, penso eu, que foi escrito: “A lei do Senhor é perfeita e refrigera a alma” (Salmos 19: 7); de fato apenas ela pode mesmo arrancar a alma do amor a si mesma ou ao mundo, para voltá-la em direção ao amor de Deus, o que evidentemente não saberiam fazer nem o medo e nem o amor interesseiro; estes bem podem influenciar na aparência ou na própria conduta, mas não tocam o coração. É certo que uma alma servidora faz de vez em quando a obra de Deus, mas como não age espontaneamente, ela persevera em sua insensibilidade. É a mesma coisa para a alma mercenária; mas, como ela não age com desinteresse, ela evidentemente só cede aos pensamentos de seu próprio interesse. Mais, quando dizemos próprio, dizemos individualmente e por consequência, limitado; ora, nos esconderijos das beiras, dos limites, encontram-se a ferrugem e o lixo. Que a alma servil tenha a sua lei no temor que a domina, até aceito; que a mercenária a tenha no interesse privado que a sufoca, quando as tentações da concupiscência a atraem e a levam para o mal; mas nem o medo e nem o interesse privado é sem tarefa ou, ao me-nos, não pode converter as almas, isto só é possível ao amor, que age sobre a vontade.

35. Ora eis em que eu a considero sem mácula, é que ordinariamente ele não reserva para si nada do que lhe pertence; aquele que não guarda nada para si, dá para Deus, certamente, tudo o que ele tem; ora o que Deus possui não pode estar viciado. Também, esta lei de Deus sem mácula e sem sujeira não é outra que o amor, que não busca seus interesses, mas o interesse dos outros. Nós a encontramos na lei de Deus, talvez porque ela é a própria vida de Deus, ou porque ninguém a possui se não a receber de Deus. Não é nada absurdo dizer que esta lei é a própria vida de Deus, já que eu digo que não é nada além de caridade. De fato, de onde vem, na suprema e bem-aventurada Trindade esta unidade inefável e perfeita que é própria dele? Não seria isto caridade? Portanto, é ela a lei do Senhor, porque é ela que, se eu posso dizer assim, coloca a unidade na Trindade e a liga no elo da paz. No entanto, não se deve crer que faço aqui da caridade uma qualidade ou um “acidente” em Deus; seria dizer, (que Deus me proteja) que nele há algo que não é Ele; ela é a substância de Deus Ele mesmo, não estou dizendo algo novo ou algo inovador, pois, Deus é amor, segundo o próprio São João (1 João 4:8). Podemos, portanto dizer, com razão, que o amor é o próprio Deus e ao mesmo tempo um dom de Deus. O amor concede amor, a substância, o evento. Quando falo daquele que dá, eu falo da substância, e quando eu falo do que é dada, eu falo do evento; ela é a lei eterna, criativa e moderadora do universo; se todas as coisas foram feitas com peso, número e medida, é por ele que o foram. Nada existe sem lei, nem mesmo Aquele que é a lei de tudo; é verdade que Ele tornou-se Ele mesmo a lei que o rege, mas uma lei não criada como Ele.

CAPÍTULO XIII

Da lei da vontade própria e da concupiscência,

que é a dos escravos e dos mercenários.

36. Quanto ao escravo e ao mercenário, são também tanto um quanto o outro uma lei, mas não a receberam do Senhor; eles a fizeram por eles mesmos, um não amando a Deus e o outro não O amando sobre todas as coisas: a lei deles, eu repito, é deles e não a de Deus na qual ao menos a deles é submissa, pois, se eles puderam fazer cada um uma lei, não a puderam subtrair à ordem imutável da lei divina. Aos meus olhos, é fazer uma lei para si mesmo, que de preferir a sua vontade própria à lei eterna e comum, e, por uma imitação do Criador, que eu a chamarei de contrária a ordem, de se reconhecer a si mesmo como mestre, nem outra regra do que a sua própria vontade, a exemplo de Deus, que é sua própria lei e depende apenas dele. Infelizmente! Para todos os filhos de Adão, que esta vontade que inclina e curva nossas testas até nos aproximar do inferno – (“Estou contado com aqueles que descem ao abismo”) (Salmos 88:4), é um fardo pesado e insuportável. “Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?!” (Romanos 7:24)? “Se o Senhor não tivera ido em meu auxílio, a minha alma quase que teria ficado no silêncio (Salmos 94: 17). Era sob o peso deste fardo que gemia aquele que dizia: “Se pequei, que te farei, ó Guarda dos homens? Por que fizeste de mim um alvo para ti, para que a mim mesmo me seja pesado?” (Jó 7:20)? Para estas palavras: “para que a mim mesmo me seja pesado”, queria dizer que ele havia se tornado sua própria lei e até autor desta lei. Mas quando ele começa a dizer a Deus: “Porque fizeste de mim um alvo para ti”, ele mostra que não se subtraiu à ação da lei divina; pois, e ainda próprio desta lei eterna e justa, que todo homem que recusa submeter-se ao seu doce império torna-se seu próprio tirano, e que todos os que rejeitam o jugo suave e o fardo leve do amor são forçados a gemer sob o peso esmagador de sua própria vontade. Assim, a lei divina fez de um modo admirável, daquele que O abandona, ao mesmo tempo um adversário e um assunto; pois, de um lado, ele não pode escapar da lei e da justiça, segundo aquilo que merece, e do outro, ele não se aproxima de Deus, nem de Sua luz, nem em Seu repouso, nem na Sua glória: portanto, ele está ao mesmo tempo prostrado diante do poder de Deus, e excluído da felicidade divina. Senhor meu Deus, porque não apagas o meu pecado e porque não fazes desaparecer a minha iniquidade, afim de que, lançando o peso esmagador de minha vontade própria eu respire sob o fardo leve do amor, e que, não mais estando sujeito às entranhas do medo servil e nem às expectativas da ganância mercenária, eu seja levado apenas pelo Teu sopro do Espírito, Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus esses são filhos de Deus (Romanos 8:14)? Quem dará de mim testemunho e me dará a certeza de que, eu também, faço parte dos Seus filhos, que a tua lei é a minha e que eu estou no mundo assim como estais também? Porque é certo que, quando observamos este preceito do Apóstolo: “A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei (Romanos 8:8), estamos neste mundo como o próprio Deus está, e portanto, não somos nem escravos, nem mercenários, mas filhos de Deus.

CAPÍTULO XIV

Da lei do amor que é para os filhos.

37. Por este caminho, portanto, vemos que os filhos não estão sem lei, a menos que pensemos ao contrário, porque está escrito: “a lei não é feita para o justo” (1 Timóteo 1:9.) Mas precisamos saber que existe uma lei promulgada no espírito de servidão, e esta im-prime apenas medo; e que há outra ditada pelo espírito de liberdade, esta inspirando ape-nas a doçura. Os filhos não são constrangidos a se submeter à primeira, mas estão sem-pre sob o império da segunda. Eis, portanto, em que sentido é dito que a lei não é feita para os justos, conforme estas palavras do Apóstolo: “Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor” (Romanos 8:15); não obstante, como devemos entender, que não estão sem a lei do amor, conforme este outro trecho: “Vocês receberam o espírito de adoção, sendo feitos filhos de Deus”. Enfim, escutem, de que maneira o justo diz ao mesmo tempo, que ele está e não está na lei. “Para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo)” (1 Coríntios 9:21). Não é então certo dizer: não há lei para os justos; mas devemos dizer: “A lei não foi feita para os justos”, isto é, não foi feita para constrangê-los; Mas Aquele que lhes impõe esta lei cheia de doçura, faz amar e experimentar aos justos que a observam sem constrangimento. Eis porque o Senhor diz tão bem: “Tomai sobre vós o meu jugo” (Mateus 11:29), como se Ele dissesse: Eu não vos forço a tomá-lo; tome-o se o quiserem; mas, se não o tomarem, eu vos digo que ao invés do repouso que Eu vos prometo, achareis apenas sofrimento e fatiga para a vossa alma.

38. O amor é, portanto, uma lei doce e boa; não só é ele agradável e leve a se levar, mas ele sabe também deixar leves e doces as duas leis, do escravo e do mercenário; pois, ao invés de destruí-los, ele os faz observar, segundo o que disse o Senhor: “não vim ab-rogar, mas cumprir a lei” (Mateus 5:17). De fato, ele tempera a primeira, regulariza a segunda e adoça a ambas. Jamais o amor irá sem medo, mas este medo é bom; ele não se livrará de todo pensamento interesseiro, mas seus desejos são acertados. A caridade aperfeiçoa portanto, a lei do escravo, inspirando-lhe um generoso abandono, e a do mercenário, dando-lhe uma boa direção aos seus desejos interesseiros; ora, este gene-roso abandono unido ao medo, não amortece esta última; ele a purifica somente e faz desaparecer o que ela tem de penoso. Na verdade, não há mais aquela apreensão da punição, cujo medo servil nunca é isento, mas o amor lhe substitui um casto e uma filial que subsiste sempre; pois, está escrito: “o perfeito amor, lança fora o temor (1 João 4:18), Devemos compreender como se havia banido o medo penoso da punição, do qual dissemos que o medo servil não é jamais isento. É uma figura comum, que consiste em tomar a causa por efeito. Quanto à ganância, ela se encontra também perfeitamente acertada pela caridade que se junta a ela, quando, cessando o desejo do que é mal, ela começa a preferir o que é melhor; ela deseja apenas o bem para chegar ao melhor ângulo. Quando, pela graça de Deus, chegamos a este ponto, amamos o corpo e tudo o que se refere a ele, apenas para a alma, a alma para Deus e Deus pelo que Ele é.

CAPÍTULO XV

Dos quatro graus do amor, e do estado bem-aventurado dos santos no céu.

39. No entanto, como somos carnais e nascemos da concupiscência da carne, a cobiça, isto é, o amor, deve começar em nós pela carne; mas, se for dirigida pelo bom caminho, ela avança por graus, sob a conduta da Graça e não pode deixar de chegar enfim até a perfeição, por influência do Espírito de Deus; pois, o que é espiritual não vem antes do que é carnal, ao contrário, o espiritual vem somente depois; e também, antes de vestir a imagem do homem celeste, nós devemos começar por vestir a do homem terrestre. O homem começa, portanto, por amar a si mesmo, porque ele é carne e só pode gostar daquilo que diz respeito a ele próprio; então, quando percebe que não pode subsistir por ele mesmo, ele começa a buscar, pela fé, a amar a Deus, como um Ser do qual ele pre-cisa. Portanto, é apenas em segundo plano que ele ama a Deus; e O ama ainda somente para si, não por Ele. Mas quando, pressionado pela sua própria miséria, ele começou a servir a Deus e a se aproximar dEle, pela meditação e leitura, pela oração e pela obediência, ele consegue, pouco a pouco, e se acostuma insensivelmente a conhecer a Deus, e consequentemente; a achá-lO doce e bom. Enfim, após experimentar o quanto Ele é amável, ele se eleva ao terceiro grau; então, não é mais para ele que ama a Deus, mas ele ama a Deus pelo que Deus é. Uma vez chegado neste ponto, ele não vai mais alto e eu não sei se nesta vida o homem pode realmente chegar ao quarto grau, que é de se amar a si mesmo somente para Deus. Os que acharam ter conseguido, afirmam que não é impossível; para mim, eu não creio que possamos chegar um dia a esse ponto, mas não duvido nem um pouco que possa acontecer, quando o bom e fiel servidor é convidado a partilhar a felicidade de seu Mestre e a se embriagar das delícias sem fim da casa de seu Deus; pois, estando então em um tipo de embriaguez, ele se esquecerá dele mesmo de alguma forma, perderá o sentimento daquilo que ele é, e, absorvido inteiramente em Deus, ele se agarrará a Ele com todas as suas forças e logo será um só espírito com Ele [...] assim que entrasse em possessão da glória de Deus, ele estaria desprovido de toda enfermidade da carne e não pensaria mais nelas, e, que tendo se tornado totalmente espiritual, só se ocuparia das perfeições de Deus.

40. Então todos os membros do Cristo poderão dizer, falando deles, o que Paulo dizia de nosso Chefe: “ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo” (2 Coríntios 5: 16). De fato, como a carne e o sangue não possuirão o Reino de Deus, não nos importávamos segundo a carne. Não que a nossa carne não deva entrar um dia, mas só será aceita desprovida de todas as suas enfermidades, o amor da carne será absorvido pelo do espírito, e todas as fraquezas das paixões humanas, que existem atualmente, serão transformadas em um poder totalmente divino. Então a rede que o amor agora lança neste grande e vasto mar, para pescar toda sorte de peixes incessantemente, uma vez levados a margem, jogará os ruins para manter apenas os bons. O amor enche aqui embaixo de toda sorte de peixes, as vastas dobras de sua rede, porque em se proporcionando a todos, segundo os tempos, atravessando e partilhando de certa forma tanto a boa como a má fortuna de todos aqueles que ele abraça, ele se acostumou a se alegrar com aqueles que estão no gozo, e também em derramar lágrimas com os que estão em aflição; mas, quando ele puxar a rede para a beira mar eterna, ele rejeitará como peixes ruins, tudo o que ele sofre de defeituoso e conservará apenas o que pode agradar e cortejar. Então não mais veremos Paulo tornando-se fraco com os fracos ou queimar por aqueles que se escandalizam, pois, não haverá mais nem escândalos e nem enfermidades de nenhuma espécie. Também não se deve crer que ele ainda derramará lágrimas nos pescadores que não tiverem se arrependido aqui embaixo: como não haverá mais pescadores, não será mais necessário arrepender-se. Não pensem então que ele gemerá e derramará lágrimas sobre os que queimarão eternamente com o diabo e seus anjos; pois, não haverá mais prantos nem aflições nesta santa cidade, apenas uma torrente de delícias regadas e que o Senhor ama mais que as todas as tendas de Jacó; nestas tendas, se experimentamos às vezes a alegria da vitória, nunca estamos fora de combate e sem perigo de perder a palma com a vida; mas na Pátria não há mais lugar nem para as derrotas nem para gemidos e lágrimas, como o dizemos em hinos da Igreja: “Assim os cantores como os tocadores de instrumentos estarão lá e terão perpétua alegria” (Isaías 61:7). E nem estará em questão a misericórdia de Deus desta estadia onde doravante só reinará a justiça; e não mais sentiremos compaixão, já que a misericórdia será banida e a misericórdia não haverá mais o porquê existir.

NOTAS:

[1] Vemos a mesma coisa em uma carta de Sévère, Bispo de Milève, a santo Agostinho, das quais deste último podemos ler: “Não há medida intimada ao nosso amor por Deus, visto que a medida com a qual devemos amá-Lo é a de amá-Lo sem medida”. Jean de Salisbury imita este trecho escrito por são Bernardo, em seu livro “Polycratique”, liv. VII; capítulo XI. (Polycrate foi um tirano de Samos de 533 ou 532 a 522 a.C) Anátema, portanto, a Bérenger, o impudente apologista de Abélard [Abelardo], que ousa permitir-se censurar esta bela expressão do nosso santo Doutor.
[2] Amor gratuito, isto é que não busca seus próprios interesses como citado acima: Algumas edições diferem um pouco nesta parte em certos manuscritos.
[3] Bernardo reconhecia apenas quatro sentimentos principais: o amor, o medo, a alegria e a tristeza.

.
___________
♦ Fonte: Abbaye-Saint-Benoit.ch | Título Original: Livre Ou Traité de Saint Bernard Sur L’amour De Dieu.
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução e revisão do original em francês por Jocelyne Forrat
♦ Revisão ortográfica e edição por Camila Almeida


A Obra do Espírito Santo na Salvação – Arthur Walkington Pink

[Baixe o e-book desse sermão, em formato PDF, clicando AQUI]

Em Atos 19 aprendemos que quando o apóstolo Paulo chegou a Éfeso, ele perguntou a alguns discípulos de João Batista “Recebestes vós o Espírito Santo quando crestes?” (v. 2) E nos é dito: “Eles disseram-lhe: Nós nem ainda ouvimos que haja Espírito Santo”. É triste dizer: a história se repetiu. Sem dúvida, se fosse perguntado aos membros de centenas das chamadas “igrejas” (nas quais o modernismo e o mundanismo imperam) a mesma pergunta, eles seriam obrigados a retornar uma resposta idêntica. A razão pela qual aqueles discípulos em Éfeso não conheciam o Espírito Santo foi, muito provavelmente, porque eles haviam sido batizados na Judéia pelo precursor de Cristo e, em seguida, voltaram para Éfeso, onde eles permaneceram na ignorância do que havia acontecido no dia de Pentecostes. Mas a razão pela qual os membros da “igreja” comum não sabem nada sobre a terceira Pessoa da Trindade é porque os pregadores deles não falam sobre Ele.

Também não é muito melhor com muitas das igrejas ainda contadas como ortodoxas. Embora a Pessoa do Espírito possa não ser repudiada e embora Seu nome possa, ocasionalmente, ser mencionado, contudo, com apenas raras exceções há qualquer ensino bíblico definitivo dado sobre os ofícios e operações do Consolador Divino. Quanto à sua obra na salvação, isso é muito pouco compreendido até mesmo por cristãos professos. Na maioria dos lugares onde o Senhor Jesus ainda é formalmente reconhecido como o único Salvador para os pecadores, o ensino atual é que Cristo tornou possível que os homens sejam salvos, mas que eles próprios devem decidir se eles serão salvos. A ideia agora tão amplamente predominante é que Cristo é oferecido para aceitação do homem, e que ele deve “aceitar a Cristo como seu Salvador pessoal”, “dar o seu coração para Jesus”, “tomar a sua posição por Cristo”, etc. se você quiser que o sangue da Cruz sirva para remir seus pecados. Assim, de acordo com essa concepção, a obra consumada de Cristo, a maior obra de todos os tempos e em todo o universo é deixada na dependência da vontade inconstante do homem para saber se será um sucesso ou um fracasso!

Entrando agora num círculo mais estreito da Cristandade, em lugares onde ainda é entendido que o Espírito Santo tem uma missão e ministério, em conexão com a pregação do Evangelho, a ideia geral prevalece mesmo onde o Evangelho de Cristo é fielmente pregado, o Espírito Santo convence os homens do pecado e lhes revela a sua necessidade de um Salvador. Mas, além disso, muito poucos estão dispostos a ir. A teoria que prevalece nesses lugares é que o pecador tem que cooperar com o Espírito, que ele mesmo deve ceder ao Espírito “se esforçando” ou ele não vai e não pode ser salvo. Mas esta teoria perniciosa que insulta a Deus nega duas coisas: argumentar que o homem natural é capaz de cooperar com o Espírito é negar que ele está “morto em delitos e pecados”, pois um homem morto é incapaz de fazer qualquer coisa. E, por dizer que as operações do Espírito no coração e na consciência de um homem podem ser resistidas, opostas, é negar Sua onipotência!

Antes prosseguindo adiante, e a fim de abrir o caminho para o que se segue, algumas palavras precisam ser ditas sobre “O meu Espírito não contenderá para sempre com o homem” (Gênesis 6:3) e “vós sempre resistis ao Santo Espírito” (Atos 7:51). Agora, essas passagens se referem ao trabalho externo do Espírito, isto é, o seu testemunho através da Palavra pregada. 1 Pedro 3:18-20 mostra que foi o Espírito de Cristo em Noé, que “se esforçou” com os antediluvianos enquanto o patriarca pregava a eles (2 Pedro 2:5). Assim, Atos 7 explica as palavras v. 51: “A qual dos profetas não perseguiram vossos pais”. Como disse Neemias: “Porém estendeste a tua benignidade sobre eles por muitos anos, e testificaste contra eles pelo teu Espírito, pelo ministério dos teus profetas” (Neemias 9:30).

O trabalho externo do Espírito, seu testemunho através das Escrituras, uma vez que recai sobre o ouvido externo do homem natural, é sempre “resistido” e rejeitado, o que só dá demonstração solene do terrível fato de que “a inclinação da carne é inimizade contra Deus” (Romanos 8:7). Mas o que vamos hoje salientar é que a Escritura revela outra obra do Espírito Santo, uma obra que é interna, imperceptível e invisível. Este trabalho é sempre eficaz. É a obra do Espírito na salvação, começado no coração com o novo nascimento, continuado ou mantido ao longo de todo o curso da vida do cristão na terra, e concluído e consumado no céu. Isto é o que é referido em Filipenses 1:6: “aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará.” Isto é o que está em vista em Salmos 138:8: “O Senhor aperfeiçoará o que me toca”. Este trabalho é feito pelo Espírito em cada um dos “eleitos de Deus”, e neles apenas.

Tem sido dito que “a parte e o oficio do Espírito Santo na salvação dos eleitos de Deus consiste em renová-los. Ele vivifica os herdeiros da glória com a vida espiritual, ilumina a mente para conhecer a Cristo, O revela a eles, forma a Cristo em seus corações e os leva a construir todas as suas esperanças de glória eterna somente nEle. Ele derrama o amor do Pai em seus corações, e dá-lhes um sentido real do mesmo na qual a experiência de Sua obra graciosa e eficaz em suas almas, eles são levados a dizer como o salmista: ‘Bem-aventurado aquele a quem tu escolhes, e fazes chegar a ti, para que habite em teus átrios’ (Salmos 65:4)”.

Um dos enganos do dia é que uma crença evangélica em Cristo repousa sobre o poder do homem não regenerado, de modo que pela realização do que é ingenuamente chamado de “um simples ato de fé”, ele se torna um homem renovado. Em outras palavras, supõe-se que o homem é o iniciante da sua própria salvação. Ele dá o primeiro passo, e Deus faz o resto; ele “acredita” e, em seguida, Deus vem e o salva. Isto não é senão uma negação evidente e obscura da obra do Espírito. Se há um momento mais do que qualquer outro em que o pecador se encontra na necessidade do poder do Espírito é no princípio. “Aquele que nega a necessidade do Espírito, no início, não pode acreditar em Sua obra nas fases seguintes. Não, não pode acreditar na necessidade da obra do Espírito de forma alguma. A maior e mais insuperável dificuldade se encontra no começo. Se o pecador pode superar essa parte sem o Espírito, ele pode facilmente superar o restante. Se ele não precisa do Espírito para capacitá-lo a crer, ele não vai precisar dele para capacitá-lo a amar” (Horatius Bonar).

Erram muito os que pensam que depois que o Espírito fez Seu trabalho na consciência continua a ser o homem quem deve dizer se ele quer ser regenerado ou não, se ele irá crer ou não. O Espírito de Deus não espera o pecador exercer sua vontade para crer; Ele trabalha nos “eleitos” “tanto o querer como o efetuar”. (Filipenses 2:13) Portanto, Jeová declara: “Eu fui achado pelos que não Me buscavam” (Isaías 65:1, citado por Paulo em Romanos 10:20). Pois “crer” em Cristo de forma salvífica é um ato sobrenatural, o efeito da graça sobrenatural. Não há mais poder no homem caído para crer para a salvação de sua alma do que mérito de sua autoria que lhe dá direito ao favor de Deus; assim, ele é tão dependente do Espírito por poder como em Cristo por merecimento. A obra do Espírito é aplicar a redenção que o Senhor Jesus comprou para o Seu povo, e os filhos de Deus devem sua salvação a Um tanto quanto ao Outro.

Em Tito 3:5, a salvação dos remidos é expressamente atribuída a Deus, o Espírito: “Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo”. “Se for perguntado em que sentido os homens podem ser chamados de “salvos” pela renovação do Espírito, a resposta é óbvia: Há uma série de verdades a que nenhuma delas pode ser perdida. Somos salvos pelo propósito divino, pois Deus nos elegeu para a salvação, somos salvos pela expiação como o fundamento meritório do todo, somos salvos pela fé, como o vínculo de união a Cristo, somos salvos pela graça, em contraste com as obras feitas, somos salvos pela verdade enquanto carregamos o testemunho de Deus, e, como aqui é dito: somos salvos pela renovação do Espírito Santo, como a produção de fé no coração”. (Prof. Smeaton)

A REGENERAÇÃO É PELO ESPÍRITO

“E vos vivificou estando vós mortos em delitos e pecados” (Efésios 2:1). A vivificação dos que estão mortos em delitos é a obra da terceira Pessoa da Trindade: “O que é nascido do Espírito é espírito”. (João 3:6) O homem natural está morto espiritualmente. Ele está vivo para o pecado e para o mundo, mas morto para Deus: “separados da vida de Deus” (Efésios 4:18). Se esta verdade solene for realmente crida, haveria um fim à controvérsia sobre o nosso tema presente. Um homem morto não pode “cooperar” com o Espírito, nem pode “aceitar a Cristo”. Em 2 Coríntios 3:5, lemos: “Não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos”. Isto é dito aos cristãos. Se o regenerado não tem capacidade de “pensar” espiritualmente, muito menos capazes ainda são os não-regenerados.

“Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Coríntios 2:14) O que poderia ser mais claro? O “homem natural” está caído em seu estado não-regenerado. A menos que ele nasça de cima, ele é completamente desprovido de discernimento espiritual. Nosso Senhor expressamente declarou: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (João 3:3). O “homem natural” não pode ver a si mesmo, a sua ruína, sua depravação, a imundícia da sua própria justiça. Não importa o quão claramente a Verdade de Deus lhe seja apresentada, sendo cego, ele não pode discernir tanto o seu significado espiritual ou a sua própria necessidade. A compreensão espiritual do Evangelho é verdadeiramente devido à operação do Espírito Santo, assim como Ele é o Autor da Revelação Divina. A vida espiritual deve preceder a visão espiritual, e o próprio Espírito deve entrar no coração antes que haja a “vida”: “porei em vós o meu Espírito, e vivereis” (Ezequiel 37:14).

A obra do Espírito na regeneração é um milagre Divino, que é primeiramente o resultado da Sua introdução de poder sobrenatural. É a vivificação de um cadáver espiritual; é o trazer de uma alma morta à vida. O próprio pecador não mais pode realizá-lo por um ato de sua própria vontade do que ele pode criar um universo. Este milagre da graça é descrito nas Escrituras como: “a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus” (Efésios 1:19-20). “O mesmo poder que foi empregado para levantar Cristo dentre os mortos é exercido na regeneração… A ressurreição de Cristo é o modelo exemplar de nossa ressurreição espiritual, segundo a qual, conforme o Espírito Santo operou nEle, para que Ele operasse em nós uma obra conforme à Sua ressurreição. Assim como a ressurreição de Cristo foi a grande declaração de ser Ele o Filho de Deus, também a regeneração é a declaração de sermos filhos de Deus, sendo a prova da nossa adoção, e também a primeira descoberta de nossa eleição. Como a ressurreição de Cristo é o primeiro passo para o Seu reino eterno e glória, do mesmo modo a regeneração é a primeira introdução aberta para a todas as bênçãos do estado de graça na qual o filho de Deus é agora introduzido”. (S. E. Pierce)

A APTIDÃO PARA O CÉU É POR MEIO ESPÍRITO

Nosso título para a glória reside unicamente na justiça de Cristo; nossa aptidão pessoal para ela reside na nossa regeneração pelo Espírito Santo. Toda a nossa iminência para o estado celeste foi operada em nós na regeneração. Escrevendo aos regenerados de Colossenses o apóstolo disse: “Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz”. E então ele mostra em que esta “idoneidade” consiste: “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” [Colossenses 1:12-13]. Este título não vem deles; sua “idoneidade” os antecede. O Espírito Santo criou neles uma natureza que é capacitada para conhecer e desfrutar de Deus Triuno.

Em nosso estado não-regenerado estávamos completamente sob o poder das trevas, isto é, do pecado e de Satanás, e eram menos que capazes de nos livrar do cativeiro do que Jonas foi capaz de escapar da barriga da baleia. Nós nos “assentávamos na escuridão” e “na região e sombra da morte” (Mateus 4:16). Estávamos “cativos”, “sujeitos” e na “prisão”. (Isaías 61:1) Nós éramos aqueles “não tinham esperança, e estavam sem Deus no mundo” (Efésios 2:12). A partir desse estado terrível cada alma renovada foi “liberta” pelo poder gracioso, soberano e invencível do Espírito Santo, e tem sido “transportado para o reino do Filho amado de Deus”. Então deixe cada leitor igualmente honrar, adorar e louvar a Ele como ao Pai e ao Filho.

A JUSTIFICAÇÃO E SANTIFICAÇÃO SÃO PELO ESPÍRITO

“E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus” (1 Coríntios 6:11). Esta é uma Escritura notável e pouco ponderada. Nos levaria muito longe de nosso tema que estávamos tentando expor completamente. Duas coisas aqui nós claramente destacamos: as três bênçãos de salvação enumeradas neste versículo são referidas: em primeiro lugar, pelo “nome” ou méritos de Cristo como Sua própria causa alcançada; e depois pelo Espírito Santo, que faz dos eleitos participantes dele por Sua própria aplicação eficaz. Ele é quem ilumina a mente e abre o coração para receber e ter certeza de que eles são “lavados, santificados e justificados”

A FÉ É PELO ESPÍRITO

Um servo de Deus profundamente instruído certa vez escreveu a um jovem pregador, “Nunca apresente a fé como sendo um ato tão “simples” que o trabalho do Espírito não se faz necessário para produzi-la”. No entanto, este é o que tem sido comumente feito. Uma grande parte dos evangelistas dos últimos séculos tem mostrado um zelo que não estava de acordo com o conhecimento (Romanos 10:2), e manifestaram uma preocupação muito maior para ver almas salvas do que para pregar a verdade de Deus em sua pureza. Em seus esforços para mostrar a simplicidade do “caminho da salvação”, eles perderam de vista as dificuldades de salvação (Lucas 18:24, 1 Pedro 4:18). Em sua urgente responsabilidade de fazer o homem crer, eles ignoraram o fato de que ninguém pode acreditar até que o Espírito conceda a fé. Pois apresentar Cristo ao pecador e, em seguida, larga-lo de volta a sua própria vontade, é zombar dele em seu desamparo; a obra do Espírito no coração é tão real e urgentemente necessária, como foi o trabalho de Cristo na Cruz. Pois o fato do coração ser realmente levado a acreditar e confiar em Deus é um ato espiritual, um “bom fruto”, e se o homem caído possui poder inerente de fazer o bem, segue-se que apresentar a Expiação para ele é completamente desnecessário.

Não há meio-termo entre a vida e a morte; nenhum estágio intermediário entre a conversão e não- conversão. A outorga da vida eterna é instantânea; somos “criados em Cristo Jesus” (Efésios 2:10) É um erro gravíssimo supor que depois que o Espírito de Deus tem feito a Sua obra no pecador, ainda permanece para ele dizer, a incumbência de ser regenerado ou não, se ele deve crer ou não. Todos os que são recipientes de Suas operações sobrenaturais são regenerados, efetivamente convertidos e realmente acreditam. Não é que o Espírito dá a capacidade de acreditar e aguarda o indivíduo exercer a sua vontade de acreditar: não, Ele opera nos eleitos “tanto o querer como o efetuar” (Filipenses 2:13). Eu posso dizer a um homem que na sala ao lado, existe uma luz acesa, e ele pode não acreditar em mim, mas deixe-me levá-la para a sala onde ele está, e tão logo ele veja a luz por si mesmo, e ele é irresistivelmente persuadido. Assim, um servo de Deus pode dizer a um homem que Cristo é suficiente para o principal dos pecadores, e ele não acreditar; mas quando Cristo é “revelado nele” (Gálatas 1:16), ele não pode deixar de confiar nEle. Veja 2 Coríntios 4:6.

Como o homem perversamente inverte a ordem da verdade de Deus. Eles pedem a pecadores mortos para vir a Cristo, supondo que eles têm o poder ou vontade de fazê-lo. Considerando que Cristo clara e enfaticamente afirmou que “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer” (João 6:44) “Vir a Cristo” é o afeto do coração sendo atraído para Ele, e como pode uma pessoa amar o que ela não conhece? Veja João 4:10. Ah, é o Espírito que deve levar Cristo para mim, revelá-lO em mim antes que eu possa realmente conhecê-lO. “Vir a Cristo” é um ato interior e espiritual, não um ato externo e natural. Verdadeiramente, “o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Coríntios 2:14) Não podemos “olhar para Cristo” até que tenhamos nascido de novo. (João 3:3)

A Graça salvadora é algo mais do que um fato objetivo que nos é apresentado; é uma operação subjetiva forjada dentro de nós. Como não é pelo meu discernimento natural que eu descubro a minha necessidade de Cristo, também não é por minha força natural e vontade que eu “vou” a Ele. Deve haver vida e luz (visão) antes que possa haver movimento. Um bebê tem que nascer, e possuir visão e força, também, antes que seja capaz de “vir” a seu pai. Crer em Cristo é um ato sobrenatural, o produto de um poder sobrenatural. Pode-se, por meio de frases gramaticais e proposições das Escrituras ensinar a verdade espiritual para outro, mas isso não pode iluminar a mente dele a esse respeito. Ele pode dizer a um homem que Deus é santo, mas ele não pode dar a ele uma consciência de que Deus é santo. Ele pode dizer a ele que o pecado é infinitamente hediondo, mas ele não pode gerar nele um sentimento ou fazê-lo compreender de coração que é assim. Para aqueles que estavam bem familiarizados com eles exteriormente, Cristo disse: “Não me conheceis a mim, nem a meu Pai” (João 8:19) Um homem pode “conhecer” o caminho da justiça “ (2 Pedro 2:21), teoricamente, intelectualmente, mas é uma questão muito diferente (embora muito poucos sejam interiormente cientes disso) a partir de um conhecimento experimental e espiritual dEle: “temos portanto o mesmo espírito de fé, como está escrito: Cri, por isso falei; nós cremos também, por isso também falamos” (2 Coríntios 4:13) Aqui, o Espírito de Deus fala de acordo com a obra que ele opera. “O título ‘Espírito de fé’ dá a entender que o Espírito Santo é o autor de fé; para todos os homens não têm fé; isto é, não é dado a todos e não pertence a todos (2 Tessalonicenses 3:2). A designação significa que a causa a aquisição de fé é o Espírito Santo que produz esse efeito por uma chamada invisível, um convite que acompanha, de acordo com o beneplácito de Sua vontade, a proclamação externa do Evangelho. A fé, portanto, da qual Ele é o autor, não é afetada pela própria força do ouvinte, ou pela própria vontade efetiva do ouvinte… A operação especial do Espírito inclina o pecador, anteriormente avesso, para receber os convites do Evangelho; pois é somente Ele, atuando como o Espírito de fé, que remove a inimizade da mente carnal contra as doutrinas da cruz, pois sem tais doutrinas pareceriam desnecessárias, tolas ou ofensivas” (Prof. Smeaton).

Escrevendo aos santos de Filipos, o apóstolo declarou: “A vós é dado… crer nele” (1:29) A fé é “dom” de Deus como Efésios 2:8-9 afirma positivamente. Não é um dom oferecido para a aceitação do homem, mas, na verdade, conferido aos filhos de Deus, soprados neles. Ele a concedeu a cada um dos “eleitos de Deus” no seu tempo determinado pelo Espírito Santo. Não é produzida pela vontade da criatura, mas é “fé no poder de Deus” (Colossenses 2:12) É uma “obra” do Espírito Santo, pela sua atuação sobrenatural. O Espírito Santo é dado por Cristo para este fim, a saber, para que cada um daqueles por quem Ele morreu seja levado ao conhecimento da salvação da verdade, portanto, é-nos dito: “por Ele (não por nossa vontade) credes em Deus” (1 Pedro 1:21). Em 1 Coríntios 3:5 nos é dito que: “crestes… conforme o que o Senhor deu a cada um”; assim em Efésios 6:23 é declarado: “Paz seja com os irmãos, e amor com fé da parte de Deus Pai e da do Senhor Jesus Cristo”. O próprio grau e força da nossa fé é determinado unicamente por Deus: “pense com moderação, conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um” (Romanos 12:3). Se pela graça fez de você verdadeiramente um “crente”, que o leitor dê a Deus, o Espírito, a honra, a glória e o louvor por isso.

A SALVAÇÃO É TOTALMENTE APLICADA PELO ESPÍRITO

“Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade” (2 Tessalonicenses 2:13). A missão do Espírito na terra é aplicar aos eleitos de Deus o resgate proposto por Deus Pai e comprado por Deus, o Filho, para eles. O Espírito Santo está aqui para fazer o bem às almas dos herdeiros da glória pelos frutos das dores de parto da alma de Cristo. Isso Ele faz por meio do Evangelho, pelos escritos e pelo ministério oral da Escritura, pois a Palavra de Deus é o único instrumento que Ele emprega ou utiliza. A Palavra de Deus é “a palavra da vida” (Filipenses 2:16), mas ela só se torna vida na experiência da alma individual pela operação imediata e aplicação do Espírito de Deus. Como Paulo escreveu aos santos de Tessalônica: “Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade” (2 Tessalonicenses 2:13). Isto não é para negar a eficácia da própria Palavra, mas é para insistir que a agência direta do Espírito sobre o coração é absolutamente necessária para a recepção da Palavra. A Palavra é lâmpada para o nosso caminho, mas deve haver uma abertura dos olhos do nosso entendimento pelo Espírito antes de podermos ver a Sua luz.

A salvação dos eleitos de Deus foi proposta, planejada e provida por Deus Pai, antes da fundação do mundo. Foi adquirida e garantida pela encarnação, obediência, morte e ressurreição do Filho de Deus. É revelada, aplicada neles por Deus, o Espírito. Assim, “do Senhor vem a salvação” (Jonas 2:9), e o homem não tem parte ou põe a mão nela em qualquer ponto. O filho de Deus não é o conquistador, mas o recipiente dela. A fé não é uma condição que o pecador eleito deve atingir a fim de obter a salvação, mas é o meio e canal através do qual ele pessoalmente goza a salvação do Trino Jeová.

.
__________
♦ Fonte: EternalLifeMinistries.org | Título Original: The Holy Spirit’s Work in Salvation
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução Amanda Ramalho
♦ Revisão por William Teixeira


Entrevista com o Dr. Gary Crampton (do Pedobatismo ao Credobatismo)

Nota de Apresentação: O Dr. Gary Crampton, anteriormente Presbiteriano e agora Batista Reformado, é uma importante figura da apologética escrituralista, a linha pressuposicio-nalista de Gordon Clark. Como Presbiteriano o seu livro Study Guide to the Westmister Confession [Guia de Estudo para a Confissão de Westminster] é considerado por muitos um bom referencial à confissão Presbiteriana. Agora como credobatista, ele lançou recentemente o livro From Paedobaptism to Credobaptism: A Critique of the Westminter Standards on the Subject of Baptism (RBAP, 2010) [Do Pedobatismo ao Credobatismo: Uma crítica aos Padrões de Westminster sobre a Questão do Batismo], onde defende seu novo ponto de vista e afirma sua divergência com a doutrina do Pedobatismo*


Parte I:


Pergunta 1: Dr. Crampton, você pode nos contar um pouco sobre você, família, educação, experiência ministerial, livros publicados, condição atual?

Resposta 1: Nasci em 1943 em Washington, D.C. Formei-me no ensino médio em 1961 e na faculdade em 1965. Ganhei um MBS da Escola de Atlanta de Estudos Bíblicos, o Th.M. e Th.D. do Seminário Teológico Whitefield, e um Ph.D. pela Escola Central de Religião em Surrey, Inglaterra. Eu moro em Virginia, sou casado e tenho duas filhas casadas e cinco netos. Interesses gerais incluem, principalmente, leitura (eu sou um leitor inveterado, principalmente sobre temas de teologia e filosofia) e escrita, mas também gosto de ter um “labor” físico, a cada dia. Quanto à minha filiação à igreja, eu sou um Batista Reformado, e um defensor dos ensinamentos encontrados na Confissão Batista de Londres de 1689 e Breve Catecismo Batista Reformado. Ao longo dos últimos vinte e cinco anos, tenho pastoreado três igrejas e tive a oportunidade de pregar e ensinar em uma série de outras igrejas. Minha esposa e eu somos atualmente membros da Igreja Batista Reformada de Richmond, Virginia.

Quanto aos Livros que escrevi estão incluídos: O que Calvino Diz, Guia de Estudo para a Confissão de Westminster, O Escrituralismo de Gordon H. Clark1, e Pela Escritura Somente, os quais foram publicados pela Fundação Trindade. Soli Deo Gloria publicou meu O que os Puritanos Ensinaram e Conheça Jonathan Edwards. Meu Ele Me Glorificará foi publicado pela Whitefield Press, e Blue Banner Ministries publicou meu Cristo, o Mediador1, bem como Edificado sobre a Rocha, Em Direção a uma Cosmovisão Cristã1, e Tão Grande Salvação (estes três últimos livros foram em co-autoria com o Dr. Richard E. Bacon). Apologética Press publicou o Calvinismo, Hiper-Calvinismo e Arminianismo, que sou co-autor com o Dr. Kenneth Talbot, e Reformation Heritage Books publicou meu Uma conversa com Jonathan Edwards. Eu também tive uma série de artigos publicados por diferentes revistas Cristãs, jornais, etc (por exemplo, The Blue Banner, The Confessional Presbyterian, The Trinity Review, New Southern Presbyterian Review, Chalcedon Report, The Christian Statesman, and Journey).


Pergunta 2: Por quanto tempo você tem lutado com a questão dos sujeitos do batismo?

Resposta 2: Eu tenho lutado com a questão do Pedobatismo versus Credobatismo por quase vinte anos.


Pergunta 3:
Quais são alguns dos principais problemas com os quais você se deparou com o Pedobatismo, lhe levou a continuar estudando?

Resposta 3: Havia várias questões que me incomodavam sobre a doutrina do pedobatismo. Mencionarei apenas uma, e isso é simplesmente: não há texto no Novo Testamento (NT) em que haja qualquer menção ao batismo de infantes. Isto é admitido por alguns dos melhores teólogos pedobatistas que têm escrito sobre o assunto. Isso significa que, como admitido e ensinado por esses mesmos teólogos pedobatistas, devemos voltar ao Antigo Testamento (AT) para estabelecer a doutrina. Quando se trata de outro sacra-mento do Novo Testamento, a Ceia do Senhor, no entanto, os teólogos pedobatistas não aplicam o mesmo princípio hermenêutico. Ou seja, os destinatários da Ceia do Senhor são determinados pelo ensino do Novo Testamento em vez do ensino do Antigo Testa-mento. A incoerência aqui é gritante. Outro problema aqui é que a Antigo Testamento não menciona o batismo de infantes de modo algum. O que esta hermenêutica assume é que a aliança Abraâmica, na qual os bebês do sexo masculino eram circuncidados, ainda é obrigatória para a igreja do Novo Testamento em praticamente uma base de um-para-um e, portanto, os filhos dos crentes devem ser batizados. Há tantas dificuldades aqui (sobre o que eu escrevi em meu livro), que eles são mui numerosos para lidar em uma entrevista como esta. O erro mais grave cometido aqui é aquele da sobrecarga da continuidade da Antiga e da Nova Aliança, em detrimento da descontinuidade entre as duas. A doutrina Batista Reformada não é em qualquer sentido dispensacional; ao contrário, é totalmente pactual. Ela reconhece que há certamente uma continuidade entre as duas alianças, mas também há uma descontinuidade que deve ser vista (veja Jeremias 31:31-34; compare com Hebreus 8:6-13).

Parte II


Pergunta 4:
Quais são alguns dos livros que o ajudaram ao longo do processo para o Credobatismo e você pode nos contar um pouco sobre alguns ou todos eles?

Resposta 4: Há uma série de livros que tiveram influência em meu estudo sobre este assunto. Listarei alguns dos mais persuasivos: “O Batismo de Discípulos Somente”, de Fred Malone; “Anti-Pedobatismo”, de Mike Renihan sobre o Pensamento de João Tombes, “Um Tratado sobre o Batismo”, de Henry Danvers; “Filhos de Abraão”, de David Kingdon; “Batismo Bíblico: Uma Defesa Reformada do Batismo de Crentes”, de Samuel Waldron; “Pedobatismo ou Credobatismo?”, de Richard Barcellos, e, especialmente, o “Batismo Infantil e o Pacto da Graça”, de Paul K. Jewett. Mas, talvez os estudos que foram mais convincentes do que quaisquer outros, foram duas séries de palestras, uma foi “O Grande Debate sobre o Batismo e a Aliança”, de William Einwechter e a outra foi a série em áudio do Pastor Greg Nichols sobre “Batismo Infantil”. Também é interessante que as tentativas “fracassadas” de vários livros pedobatistas também tiveram um grande efeito sobre o meu pensamento quanto a este assunto. Ou seja, os defensores do batismo infantil simplesmente não respondiam às questões levantadas contra o pedoba-tismo.


Pergunta 5: Você acha que o batismo infantil viola a doutrina do princípio regulador do culto da Confissão de Westminster? Caso sim, como?

Resposta 5: Sim, eu creio que a prática do batismo infantil é uma violação do “princípio regulador” de culto. Eu explico isso em detalhes em meu próximo livro sobre o assunto, mas (como citado em meu livro), basicamente, o problema é o seguinte: Se não há ordem expressa dada nas Escrituras para batizar infantes, e se não há nenhuma evidência direta para a prática do batismo infantil, então, administrar o batismo de bebês no culto de adoração é uma violação do princípio regulador. Gostaria de sugerir que os interessados em saber mais sobre este assunto vejam o que eu disse em meu livro. Fred Malone também lida com essa questão em seu “O Batismo de Discípulos Somente”.


Parte III


Pergunta 6: Qual é a relação entre a circuncisão e o batismo em seu pensamento atual e como Pedobatistas típicos veem esta relação?

Resposta 6: Pedobatistas geralmente veem a relação entre circuncisão e batismo em água em uma base “um para um”. Ou seja, eles veem estes dois “sacramentos” (circuncisão no Antigo Testamento e Batismo em água no Novo Testamento) como com pouca ou nenhuma diferença, exceto na administração do rito em si. Conforme expresso na Confissão de Fé de Westminster: “Os sacramentos do Antigo Testamento, a respeito das coisas espirituais por eles significados e representados, eram em substância [essência], o mesmo com os do Novo”. Há um sentido em que isso é verdade, na medida em que, tanto no Antigo como no Novo Testamento, todas as coisas apontam para Cristo e Sua obra salvífica cruz. Mas, enquanto a circuncisão no Antigo Testamento era para Abraão e sua descendência física (masculina), tendo a ver com a relação entre o povo de Israel e a terra prometida de Canaã, como explicado por Paulo, no Novo Testamento, o batismo em águas representa a circuncisão do coração que já foi regenerado (Colossenses 2:11-12, Filipenses 3:3). Os sacramentos do Novo Testamento são para aqueles que já foram convertidos; aqueles que já tiveram seus corações transformados pela obra salvífica da cruz de Jesus Cristo. Assim, há uma diferença significativa entre a circuncisão da comunidade da Antiga Aliança (que lidava com a semente física de Abraão), e a comunidade da Nova Aliança (que relaciona-se com a semente espiritual de Abraão).


Pergunta 7: Como a Nova Aliança é “não semelhante” à aliança que Deus fez com os Pais?

Resposta 7: Eu já parcialmente lidei com esse problema acima, mas gostaria de acrescentar que, segundo Jeremias 31 e Hebreus 8, a diferença na Antiga Aliança e a Nova Aliança é que a Antiga era quebrável enquanto que a Nova não é. A Antiga estava mais envolvida com a semente física; enquanto a Nova está mais relacionada à semente espiritual. De acordo com as duas passagens citadas acima, a comunidade da Nova Aliança é constituída por aqueles que “conhecem o Senhor”. É para os crentes, e não para crentes e sua descendência infantil.


Parte IV


Pergunta 8: Será que a posição Batista Reformada repudia a Teologia Pactual? Por favor, explique.

Resposta 8: É verdade que alguns Pedobatistas afirmam que a posição Batista Reformada sobre o batismo infantil nega a teologia do pacto. Mas este é um mal-entendido sobre o ensinamento da Igreja Batista Reformada. O sétimo capítulo da Confissão Batista de Londres 1689, cujo título é “Da Aliança de Deus”, refuta essa falsa alegação. Como James Renihan explicou, Batistas Reformados creem que “a estrutura da Escritura é devidamente definida por… teologia do pacto”, e “entender esse fato é compreender a arquitetura central de toda a Bíblia”. Por esta razão, “Batistas Reformados Confessionais são… plenamente adeptos da teologia do pacto”. Além disso, os Batistas Reformados acreditam que uma compreensão adequada da teologia do pacto exige o batismo de discípulo ou confessor, porque ele faz justiça tanto à continuidade e descontinuidade da Aliança.


Pergunta 9: Como você responderia a isso? Inclusão infantil no Pacto da Graça é a essência do Pacto da Graça. (Estou pensando especificamente no fato de que aqueles Padrões de Westminster ensinam que o Pacto da Graça foi revelado pela primeira vez em Gênesis 3)

Resposta 9: Afirmar que a inclusão infantil no Pacto da Graça é a essência do Pacto da Graça é uma afirmação errônea. A razão é que, como alegado pelo Catecismo Maior de Westminster, o Pacto da Graça é com os eleitos. Portanto, para aderir aos infantes sendo incluídos no Pacto da Graça, seria necessário a crença na doutrina da “eleição presumida”, uma presunção que é sem fundamentação bíblica. Eu lido com este assunto em meu livro.

 

* Fonte desta nota: http://pastorclaudionor.blogspot.com.br

[1]  Estes três livros foram publicados em português pela Editora Monergismo, respectivamente sob os títulos: O Escrituralismo de Gordon ClarkCristo o Mediador: um estudo da Cristologia de Westminster e Em Direção a uma Cosmovisão Cristã. [N. do R.]

_______
♦ Fonte: Mctsowensboro.org│ Título Original: Interview with Dr. Crampton (from paedobaptism to credobaptism)
♦ Tradução: Camila Almeida
♦ Revisão: William Teixeira.


Batismo Infantil e o Princípio Regulador do Culto, por Fred Malone

Nossos amigos Presbiterianos muitas vezes afirmam que a autoridade para o batismo infantil vem de “boa e necessária inferência” da circuncisão de recém-nascidos, a partir do Antigo Testamento, não do comando positivo, exemplo, ou instituição no Novo (Warfield, Berkhof, Murray, et al). Na verdade, eles admitem aberta e regularmente que não há nenhum comando ou exemplo de batismo infantil no Novo Testamento, ou de fato, em todas as Escrituras.

Batistas frequentemente rejeitam o batismo infantil Presbiteriano, mostrando que a visão Pedobatista (“Batismo de infante”) sobre a teologia pactual erroneamente autoriza a “boa e necessária inferência” a partir da circuncisão do Antigo Testamento para anular a única instituição positiva do batismo no Novo Testamento, a saber, o batismo de discípulos somente. Este é um argumento adequado. No entanto, poucos reconhecem que esse erro Presbiteriano é uma violação de seu próprio “princípio regulador do culto”. Ainda assim, a prática do batismo infantil faz exatamente isso.

Isso pode não parecer ser uma declaração muito significativa a princípio, mas desde que o princípio regulador é ensinado e defendido por nossos irmãos Presbiterianos, isso real-mente é uma acusação muito séria. Isso significa que eles contradizem o seu mais importante princípio de culto a cada vez que batizam um lactente.

Os Batistas sustentaram historicamente o mesmo princípio regulador do culto, embora muitos tenham esquecido disso hoje. Na verdade, nós, em última análise, praticamos “o batismo dos discípulos somente” por causa disso. Estou convencido de que uma das razões pelas quais alguns Batistas estão se tornando Presbiterianos é porque os Batistas não compreendem mais o princípio regulador.

Obviamente, Batistas e Presbiterianos não podem estar ambos certos sobre a questão do batismo. Com certeza, esta questão não é essencial para a salvação (como é, por exemplo, a justificação pela fé), mas diz respeito a um sacramento da igreja e, portanto, não pode ser descartado como sem importância (embora alguns ministros têm tentado fazer isso de modo a servir no ministério Presbiteriano). Batistas que são tentados a abandonar a teologicamente problemática Batista de Sião para o mais confortável Presbiterianismo podem não perceber que eles devem violar o princípio regulador do culto Presbiteriano (e Batista) para fazer isso.

Para provar minha tese, primeiro definirei “o princípio regulador” a partir de fontes Presbiterianas e depois mostrarei porque eu acredito que o batismo infantil é uma clara violação do referido princípio.

O Que é o Princípio Regulador do Culto?

De acordo com a Presbiteriana Westminster e a Confissão Batista de Londres de 1689 (a confissão matriz de Batistas Americanos e do Sul),

“[...] o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por Ele mesmo e tão limitado por Sua própria vontade revelada, de forma que Ele não pode ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás nem sob qualquer representação visível ou qualquer outro modo não prescrito na santa Escritura” (CFW 21:1).

Este princípio regulador ensina que o culto Cristão aprovado por Deus inclui apenas os elementos e práticas instituídas “por Ele mesmo e tão limitado por Sua própria vontade revelada, [e não]… de qualquer outro modo não prescrito na santa Escritura”. Em outras palavras, especulação, invenção, imaginação, e as práticas não comandadas e etc., não podem ser permitidas alterar ou negligenciar o culto instituído portanto, os únicos elementos de culto aprovados na tradição reguladora, de acordo com a Escritura, são:

Orações: A leitura das Escrituras com temor piedoso; a sã pregação, e consciente atenção à Palavra, em obediência a Deus, com entendimento, fé e reverência; o cantar salmos com graça no coração; como, também, a devida administração e digna recepção dos sacramentos instituídos por Cristo; são todas as partes do ordinário culto religioso a Deus: além dos juramentos religiosos, e votos, jejuns solenes e ações de graças em ocasião especial; devem, em seus vários tempos e estações, ser usados de um modo santo e religioso (CFW 21:4-5).

A oração, a leitura, a pregação da Bíblia, os cânticos, os sacramentos, votos, ações de graças, etc., são os únicos elementos autorizados do culto Reformado. Deve ser notado que os únicos sacramentos que são aprovados como elementos de culto são aqueles que foram “instituídos por Cristo” e não por “boa e necessária inferência”.

Por outro lado, o “princípio normativo de culto” é praticado por Luteranos, Anglicanos, Católicos Romanos, e, aparentemente, por muitos Batistas carismáticos e fundamenta-listas. Eles são unidos a um número crescente de Batistas do Sul que, por vezes, por ignorância, desviaram-se sua herança teológica quanto à regulação.

O princípio normativo ensina que a adoração deve ser constituída por aquilo que é ordenado por Deus e também pode incluir o que não é expressamente proibido pela Escritura. Isso abre a porta para muitas atividades não comandadas que muitas vezes limitam a prática desses elementos comandados. O resultado também muitas vezes é visto no culto público, que tem pouquíssima leitura da Escritura e sermões de vinte minutos.

Obviamente, o princípio normativo convida à invenção, criatividade e novos elementos de culto que nunca são comandados ou mencionados na Escritura. Ele também permite que as práticas que são prescritas no culto do Antigo Testamento sejam usadas no culto Cristão do Novo Testamento por “boa e necessária inferência”, mesmo que estas práticas não sejam prescritas para o culto Cristão. Isto explica as diferenças tradicionais de culto entre a regra normativa versus as bases regulativas. Isso também explica as adições normativas de pompa, altares, sacerdócios, paramentos, livros de oração, mariolatria, orações aos santos, e outras práticas não instituídas pela Escritura ao culto Evangélico. Outros, atualmente, adicionam teatro, dança, fantoches, palhaços, filmes, mágicos, comediantes, levantamento de peso, “chamadas ao altar” de grande pressão, entretenimento e tudo o mais que seus corações desejem. Quando alguém sustenta o princípio normativo, outro deve perguntar: “Onde isso acabará?”

O princípio regulador sempre incluiu “há algumas circunstâncias, quanto ao culto a Deus e ao governo da Igreja, comuns às ações e sociedades humanas, as quais devem ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência Cristã, segundo as regras gerais da Palavra, que devem sempre ser observadas” (CFW 1:6). No entanto, estas circunstâncias de culto são sempre limitadas ao tempo, lugar, ordem de adoração, tempo de adoração, língua, bancos, ar condicionado, etc., questões que são comuns a qualquer sociedade humana (veja A Confissão de Fé de Westminster, por G. I. Williamson, 161). Eles nunca incluíram novas atividades não comandadas, como as mencionadas acima.

Acrescentando à confusão, outros que afirmam manter o princípio regulador redefiniram os elementos mais simples de adoração para incluir “aplicações” criativas desses elementos por “boa e necessária inferência”. Assim, eles justificam novas práticas, como teatro, como uma forma de pregação e dança como uma forma de louvor. Estes são justificados pela “boa e necessária inferência”, mesmo que tais práticas nunca sejam ordenadas em qualquer culto do Antigo Testamento ou do culto Cristão do Novo Testamento. Tais mestres têm, seja involuntária ou propositalmente, voltado para o princípio normativo de culto, acrescentando o que a Escritura não proibiu expressamente. Nenhuma quantidade de protesto em oposição pode mudar esse fato.

Em resumo, o princípio regulador do culto Reformado permite apenas os elementos de culto que foram instaurados de forma positiva e ordenados por Deus na Escritura.

O Que o Princípio Regulador Tem a Ver com a Batismo Infantil?

O batismo infantil viola o princípio regulador do culto. Batismo é um dos sacramentos que foram “instituídos por Cristo”. Assim, ele é regulado por Deus, limitado pela Sua vontade revelada, e prescrito pela Sagrada Escritura. Esta regulação se estende aos sujeitos do batismo. Quem deve ser batizado? Como eles devem ser batizados? Por que eles devem ser batizados? Para responder a essas perguntas, devemos fazer uma pergunta mais básica: O que foi “instituído por Cristo”?

A instituição de Cristo do batismo, em seu modo, significado e sujeitos deve ser regulada pela Palavra de Deus. Ainda assim, como os Batistas e Pedobatistas concordam, os únicos sujeitos do batismo que podem ser conclusivamente determinados pela Escritura são discípulos professos. Os bebês são incluídos apenas por “boa e necessária consequência”, isto é, por uma adição normativa que nunca é ordenada na Bíblia. A prática de batizar bebês viola o princípio regulador.

Por incrível que pareça, o apologista Pedobatista, Pierre Marcel, na verdade afirma que Deus só nos dá instruções gerais sobre a doutrina do batismo e depois deixa-o para que nós determinemos a sua aplicação prática às crianças. Isto é feito, segundo ele, por “princípios normativos”. Ele compara a prática do batismo infantil ao trabalho de aplicação na pregação. Esta é uma comparação totalmente inadequada quando se considera a inclusão dos sacramentos na Confissão de Westminster, sob o princípio regulador do culto. Marcel escreve:

A Igreja nunca se limita apenas ao pé da letra, mas, trabalhando a partir dos dados da Escritura e sob o controle do Espírito Santo, afirma princípios normativos e elabora as consequências e aplicações que tornam a sua vida e desenvolvimento possível e eficaz. Se não fosse assim, o exercício do ministério pastoral, a cura de almas, pregação, disciplina, e assim por diante, seria absolutamente impossível! É assim que a Igreja faz quando ela passa de um batismo de adultos para o infantil. A Escritura dá instruções gerais sobre o batismo, seu significado e valor, e a Igreja o aplica concretamente na vida. Se a Escritura atribui aos filhos de crentes o gozo dos mesmos privilégios que são experimentados por aqueles que estão em idade de confessar sua fé, e uma vez que em nenhum lugar faz menção de um ministério batismal que deveria ter sido aplicadas aos adultos nascidos de pais Cristãos, diz-se o suficiente sobre este ponto, sem a necessidade de ter prescrito literalmente o batismo de infantes.

É surpreendente que Marcel admite que o batismo infantil é praticado sobre “princípios normativos” e, portanto, não precisa ser prescrito literalmente pela Escritura! Esta é claramente uma aplicação do princípio normativo, e não do regulador, ao sacramento “instituído por Cristo”. É ainda mais surpreendente ver como ele usa a falta de instrução bíblica a respeito do batismo de adultos que nasceram de pais Cristãos. Ele faz desses filhos adultos de crentes uma classe especial e, em seguida, cita o silêncio da Bíblia sobre o batismo destes para justificar o batismo de infantes.

Não é verdade que a Escritura não se pronuncia sobre o batismo de “adultos nascidos de pais Cristãos”. Eles, junto com adultos nascidos de pais não-Cristãos, bem como homens e mulheres, meninos e meninas de todas as idades são comandados pelo Senhor, através da Escritura, a se arrependerem e crerem no evangelho. Aqueles que o fazem, independentemente de suas origens, devem, como os crentes do Novo Testamento do primeiro século, ser batizados (Atos 2:41).

Fazer dos filhos adultos de crentes uma classe especial, em seguida, equiparar o silêncio da Escritura a respeito deles com o seu silêncio sobre o batismo infantil é um absurdo. Esse tipo de pensamento pode levar a qualquer lugar, mesmo de volta aos sete sacramentos do Catolicismo Romano. Afinal, a Bíblia não é mais silenciosa sobre o batismo infantil do que sobre a administração da extrema-unção.

Uma questão fundamental permanece: se Cristo não chegou a instituir o batismo infantil, como ele pode ser, na linguagem da confissão, um sacramento “instituído por Cristo”? A explicação de Marcel sobre o batismo infantil em “princípios normativos” constitui uma afirmação Pedobatista do que tem sido mantida neste artigo, que o batismo infantil é uma violação do princípio regulador do culto e baseia-se no princípio normativo.

Quando Deus instituiu a circuncisão, Ele foi muito específico ao identificar seus sujeitos. É por isso que os bebês eram circuncidados. Isto está de acordo com o princípio regulador. Agora, nesta época do Novo Testamento, devemos assumir que o princípio regulador sobre os sujeitos dos sacramentos “instituídos por Cristo” (batismo e a Ceia do Senhor), limitados pela vontade revelada de Deus, e prescritos pela Sagrada Escritura, devem ser deixados à nossa aplicação, como se fossem uma circunstância não comandada de culto? Se as palavras não significam nada, obviamente não. De acordo com o princípio regulador, os únicos sujeitos do batismo “instituído por Cristo” e prescrito na Sagrada Escritura são os discípulos.

Estou convencido de que a “boa e necessária inferência” que estabelece o batismo infantil, abriu as portas a outras dificuldades dentro do mundo Cristão Reformado e Evangélico. A teonomia, a pedocomunhão e, mais recentemente, aplicações estabeleci-das do princípio regulador do culto que na verdade tornaram-no o princípio normativo da época, são três exemplos. Ou pode ser que o batismo infantil sempre foi baseado no princípio normativo, em vez do regulador? Essa é a minha conclusão. Talvez todos nós, Presbiterianos e Batistas, semelhantemente, precisamos nos comprometer com o princípio regulador do culto baseado na Bíblia e segui-lo aonde ele nos conduz.

Nem Batistas nem Pedobatistas tem um recanto na verdade. Ambos precisamos examinar nossas crenças e práticas à luz da Palavra de Deus. A herança que compartilhamos na Reforma Protestante nos lembra que a igreja deve ser “reformada e sempre se reformando de acordo com a Palavra de Deus”. Porque nós fazemos o que fazemos no culto? Como os sacramentos da igreja devem ser observados? O que a Palavra diz especificamente sobre os sujeitos do batismo? Estas perguntas devem ser respondidas a partir da Bíblia. Tal exercício será benéfico para todos os filhos de Deus. Além disso, deverá nos tornar cautelosos para que não violemos o culto biblicamente regulamentado, pela incorporação de práticas não comandadas, não instituídas, não reveladas e não prescritas.

__________
♦ Fonte: GraceSermons.com | Título Original: Infant Baptism and the Regulative Principle of Worship
♦ Tradução: Camila Almeida
♦ Revisão: William Teixeira.


Uma Celebração de Batismo, por John Piper

18 de abril de 1982, por John Piper
Escritura: Atos 2:36-42

“E, depois que João foi entregue à prisão, veio Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho do reino de Deus, E dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos, e crede no evangelho” (Marcos 1:14-15), um outro homem, João Batista, estava preparando o povo de Israel, chamando-os ao arrependimento, a volta-rem-se para Deus em fé e obediência, e serem batizados. O que o batismo de João significa?

A origem do Batismo Cristão

Esta significava que o Messias havia chegado; que Ele estaria reunindo um novo povo para Si mesmo; a marca deste novo povo não é o Judaísmo, mas o arrependimento e a fé. Por isso os Judeus não deveriam responder exigência de João para o arrependimento: “Mas nós temos Abraão por nosso pai, e carregamos as marcas da circuncisão, o sinal do pacto”. O que importa no novo povo não é quem são seus pais, mas para quem você vive; e, portanto, um novo símbolo para o novo povo da aliança é dado, a saber, o batismo; e é dado no ministério de João apenas para aqueles que se arrependem e creem. Em outras palavras, ao chamar todos os Judeus para serem batizados, João declarou poderosa-mente que a descendência física não produz uma participação na família de Deus, e, portanto, a circuncisão que significava um relacionamento físico será agora substituída pelo batismo, que significa a relação espiritual. E assim João Batista estabelece as bases para a compreensão do Novo Testamento sobre o batismo, que a tradição Batista hoje tenta preservar.

O próprio Jesus aceitou o batismo de João, a fim de identificar-Se com o ensino de João e com este novo povo de fé. Os discípulos de Jesus aderiram à prática de João e batizaram como uma parte do ministério de Jesus (João 3:26; 4:2). Então, no fim de Seu ministério terreno, Jesus comissionou a igreja para “fazer discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mateus 28:19).

Várias semanas depois, os apóstolos pregaram o seu primeiro sermão para o povo Judeu, que se reuniam para o Pentecostes em Jerusalém. Pedro concluiu com estas palavras: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo; porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar” [Atos 2:38-39]. Seguindo os passos de João Batista e, em obediência ao mandamento do seu Senhor, os apóstolos chamam a nação de Israel a arrepender-se e significar este arrependimento através do batismo. E a promessa que eles sustentavam não é apenas para esta geração, mas para os seus filhos também, e não só para aqueles próximos, mas para aqueles que estão distantes. É para todos os que ouvem e respondem ao chamado de Deus. O perdão dos pecados e o dom do Espírito Santo é oferecido a todos os que se voltam para seguir a Cristo e seguem a expressar essa transformação no batismo.

Assim, podemos ver como a ordenança do batismo Cristão começou com João Batista, foi aceito por Jesus no início de Seu ministério, foi praticado por Seus discípulos, foi ordenado pelo Senhor depois de Sua ressurreição, e foi oferecido na igreja primitiva para todos os que se arrependem e creem em Jesus Cristo. E podemos ver o significado que ele alcançou. Era um sinal de arrependimento e fé em Cristo como Salvador e Senhor de um novo povo. O batismo simboliza a conversão a Jesus. Ele representa uma conversão da vida antiga e um alinhamento de nós mesmos com Cristo. Como São Paulo disse: “De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” (Romanos 6:4). Ele simboliza a morte para o velho caminho descrente e a vivificação de uma nova pessoa que confia e obedece a Jesus.

Batismo de Crentes versus o Batismo Infantil

Uma das coisas que faz de nossa visão de batismo ser distinta é que não concebemos que as crianças devem ser batizadas. A razão é que, por um lado, as crianças não são capazes de arrependimento ou fé; e, por outro lado, a noção de que uma pessoa deve herdar as bênçãos de um Cristão ou ser considerado um Cristão, em virtude da fé de seus pais é contrária ao ensino do Novo Testamento. A defesa mais crível e respeitável do batismo infantil, diz que, assim como em Israel a circuncisão foi dada às crianças de oito dias de idade, assim, na igreja, o batismo deve ser administrado às crianças de pais Cristãos. Agora, nós argumentamos que existe uma correspondência entre a circuncisão como um sinal da aliança com Israel e batismo como um sinal da nova aliança. Cremos, a saber, que, assim como a circuncisão foi administrada a todos os filhos físicos de Abraão que compunham o Israel físico, assim o batismo deve ser administrado a todos os filhos espirituais de Abraão que compõem o Israel espiritual, a Igreja.

E quem são esses filhos espirituais de Abraão? Gálatas 3:7 diz: “Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão”. Uma vez que a única maneira de entrar no verdadeiro Israel de Deus, a Igreja, é através do arrependimento e da fé em Jesus Cristo, assim o símbolo desta entrada só deve ser administrado àqueles que creem. O Batismo de Crentes testemunha o ensino de João Batista (Mateus 3:9), de Jesus (Mateus 21:43), e dos apóstolos que “Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos… não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” (Romanos 9:7-8). Uma mudança muito importante ocorreu na maneira como Deus compõe o Seu povo. No Antigo Israel, Deus formou o Seu povo através de descendência natural. Mas na Igreja, o verdadeiro Israel, Deus está formando o Seu povo e não por parentesco natural, mas por meio de conversão sobrenatural à fé em Cristo. Sim, há uma correspondência entre a circuncisão para o Antigo Israel e o batismo para a Igreja. Ambos simbolizam a adesão à comunidade de aliança. Mas também há uma diferença crucial. Com a vinda de João Batista, e Jesus e os apóstolos, a ênfase agora é que o estado espiritual de seus pais não determina a sua participação na comunidade da aliança. Os beneficiários das bênçãos de Abraão são aqueles que têm a fé de Abraão. Estes são aqueles que pertencem à comunidade da aliança, e estes são os que (de acordo com a prática do Antigo Testamento) devem receber o sinal da aliança.

Portanto, o que nós celebramos no batismo, hoje, é a poderosa obra de Deus nos corações de crianças e adultos ao trazê-los ao arrependimento e à fé em Cristo. Quando perguntamos se Jesus é o seu Salvador e Senhor, celebramos a verdade eternamente importante que eles receberam dEle, a si mesmos. Quando os batizamos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, nós celebramos o envolvimento de toda a Divindade em sua conversão e sua nova relação com cada pessoa da Trindade. Quando os imergimos em água, nós celebramos a morte e sepultamento de Jesus Cristo pelos nossos pecados. Quando os emergimos da água, nós celebramos a ressurreição de Jesus e a sua participação na mesma. E quando eles saem das águas batismais, celebramos a novidade de vida em amor e alegria que Jesus nos concede.

Minha oração é que todos os próprios candidatos ao batismo, e todos os que testemunham o batismo deles, experimentem um reavivamento do amor a Deus por tudo que Ele fez por nós em fazer-nos parte do novo povo da aliança por meio do arrependimento e da fé.

__________
♦ By John Piper. © 2014 Desiring God Foundation. Website: DesiringGod.org. | Título Original: A Celebration of Baptism 
♦ Tradução: Camila Almeida
♦ Revisão: William Teixeira.


Eu Considero o Batismo de Crianças Como Sendo Uma Mentira e Uma Heresia! – C. H. Spurgeon

(Por C. H. Spurgeon – Excerto do Sermão Nº 172, Examinai as Escrituras)

É muito mais o costume das pessoas dizerem: “Não fui eu nascido na Igreja da Inglaterra? Não deveria, por isso, continuar nela?”. Ou, por outro lado, “não foi a minha avó uma Imersionista? Porventura não convinha que eu, por isso, continue na denominação Batista?” Deus não permita que eu diga alguma coisa contra seus veneráveis ​​e piedosos parentes; ou que vocês retribuam qualquer desrespeito ao seu ensino! Nós sempre respeitamos os seus conselhos, mesmo quando não podemos recebê-los, para o bem da pessoa que o oferece a nós; conhecendo a sua formação, eles devem mesmo ter se enganado, no entanto, foram bem intencionados.

Mas reivindicamos para nós, como homens, que não devemos ser alimentados com doutrinas como fomos alimentados em nossa infância indefesa, com comida escolhida para nós. Afirmamos que temos o direito de julgar se as coisas que temos recebido e ouvido são de acordo com este Livro Sagrado. E se descobrirmos que em algo a nossa formação tem sido errônea, não consideremos que estamos violando qualquer princípio de afeto se ousarmos vir diante de nossas famílias e participarmos de uma denominação que sustenta princípios muito diferentes daqueles que nossos pais haviam defendido!

Lembremos, cada um de nós, de como Deus deu a cada homem uma cabeça sobre seus ombros; todo o homem é obrigado a usar sua própria cabeça e não a de seu pai. Deus deu juízo a seu pai. Bem e bom. Ele julgou por si mesmo. Ele deu-lhe um julgamento: julgue por si mesmo também! Diga sobre tudo o que você recebeu em sua infância: “Bem, eu não comungarei ligeiramente com isso, pois pode ser de ouro esterlino, mas, ao mesmo tempo, eu não vou guardá-lo cegamente, pois pode ser moeda falsa. Vou sentar-me para estudar o Livro Sagrado e eu me esforçarei, tanto quanto eu puder, comigo mesmo para fazê-lo sem preconceitos. Vou ler a Bíblia como se eu nunca tivesse ouvido qualquer pregador falar, ou nunca houvesse sido ensinado por um dos pais. E eu, então, esforçar-me-ei para descobrir o que de Deus se diz e o que Deus diz, seja o que for, eu acreditarei e abraçarei, esperando que por Sua Graça eu também possa sentir o poder disto em minha própria alma”.

Lembre-se, também, de trazer os pregadores do Evangelho a este padrão. Uma grande maioria de vocês conhece apenas muito pouco sobre o que é Evangelho. A noção geral das massas é que somos, cada um de nós, corretos, que, apesar de hoje eu possa contradizer alguém e outra pessoa possa me contradizer, ainda assim todos nós estamos certos! E embora seja traição ao senso comum acreditar em tal coisa, todavia isso é uma ideia comum!

Agora, meus queridos amigos, eu reivindico para mim, quando eu entro neste púlpito, o direito de ser ouvido. Mas eu não reivindico o direito de ser crido, a menos que as palavras que eu vos falar estejam de acordo com este Sagrado Livro. Eu desejo que vocês me ouçam como eu gostaria que vocês ouçam a toda a gente, trazendo cada um “à lei e ao testemunho”. Agradeço a Deus pela minha Bíblia eu não tenho necessidade de estar envergonhado. Eu às vezes me envergonho desta tradução dela, quando vejo como, em alguns pontos importantes, não é fiel à Palavra de Deus. Mas é a própria Palavra de Deus, eu posso dizer que é o homem da minha mão direita, a minha meditação de dia e de noite, e se há algo que eu pregue que seja contrário a esta Palavra, jogue na lama, e, cuspindo, despreze-o!

A verdade de Deus está aqui. Não é o que eu digo, mas o que o meu Deus diz que é exigido que você receba! Ponho-me e coloco todos os meus Irmãos na peneira. Lance-nos cada um no fogo. Coloque-nos no cadinho da verdade. E o que não está de acordo com a Palavra de Deus deve ser consumido como escória!

Gostaria de ter uma Bíblia feita para os dispositivos de seu próprio coração? Se fosse, seria uma coisa inútil! Você deseja ter um Evangelho de acordo com seus desejos? Nesse caso, com alguns de vocês isto seria um Evangelho que permitiria lascívia! Você deseja ter uma Revelação feita que deva mimá-lo em suas concupiscências e satisfaça-o em seu orgulho? Se assim for, sei disso, Deus nunca vai se inclinar para alimentar sua arrogância ou libertinagem! A Bíblia é um livro Divino. Ele exige a sua fé nela. E mesmo que você esperneie contra ela, esta pedra nunca poderá ser quebrada. Mas, preste atenção, você pode ser quebrado sobre dela! Sim, ela poderá cair sobre você e reduzi-lo a pó. Traga, então, peço-vos, seus próprios pensamentos e seus próprios sentimentos para a pedra de toque da verdade de Deus, porque “se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles.”

Além disso, examine as Escrituras e traga tudo que você ouve para este grande teste, porque ao fazê-lo você terá uma rica colheita de bênçãos para sua própria alma. Acho que não há praticamente um texto na Sagrada Escritura, que não tem sido o instrumento da salvação de uma alma. Agora, aquele que caminha entre os sábios será sábio. E aquele que anda no meio dos sábios que escreveram a Sagrada Escritura fica pelo menos com maior probabilidade de ser feito sábio para a salvação!

E agora eu posso apenas sugerir uma ou duas peculiaridades no que eu já vos preguei, peculiaridades estas que eu desejo que você anseie investigar mais. Agora não leve nada de segunda mão de mim, mas experimente tudo isso pela Palavra escrita.

• Eu acredito e eu ensino que todos os homens, por natureza, estão perdidos pela queda de Adão. Veja se isso é verdade ou não.

• Eu sustento que os homens estão tão desgarrados que nenhum homem deseja ou pode vir a Cristo se o Pai não o trouxer. Se eu estiver errado, e

Comentários desativados more...

  • Textos

  • O Estandarte de Cristo.
    Desenvolvido Por Hospedy - Comunicação Virtual | Direitos Reservados O Estandarte De Cristo