Mito do Livre-Arbítrio – Walter J. Chantry

Walter J. Chantry nasceu em 1938 em Norristown, Pensilvânia, foi criado na Igreja Presbiteriana e foi convertido a Cristo quando ainda era um adolescente. Graduou-se em História, no Dickinson College, Carlisle, em 1960, e obteve um B. D. [Bacharel em Divindade/Teologia] do Seminário Teológico de Westminster, em 1963. Neste mesmo ano, ele foi chamado para ser pastor da Igreja Batista da Graça, em Carlisle, Pensilvânia, onde ele serviu ao Senhor pelos próximos 39 anos. Ele é casado e tem três filhos.

Logo após sua aposentadoria, em 2002, ele foi convidado para ser o editor da revista The Banner of Truth e continuou neste ministério por sete anos. Walter e sua esposa Joie residem agora em Waukesha, Wisconsin, EUA (Fontes: ReformedReader.org • BannerOfTruth.org).

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O MITO DO LIVRE-ARBÍTRIO

A maioria das pessoas diz que acredita em “livre-arbítrio”. Você tem alguma ideia do que isso significa? Eu acredito que você encontrará uma grande quantidade de superstição sobre este assunto. A vontade é tida como o grande poder da alma humana que é completamente livre para dirigir as nossas vidas. Mas de que ela é livre? E qual é o seu poder?

O MITO DA LIBERDADE CIRCUNSTANCIAL

Ninguém nega que o homem tem uma vontade, ou seja, a faculdade de escolher o que ele quer dizer, fazer e pensar. Mas você já refletiu sobre a fraqueza lamentável de sua vontade? Embora você tenha a capacidade de tomar uma decisão, você não tem o poder de levar a cabo o seu propósito. A vontade pode elaborar um plano de ação, mas não tem poder para executar sua intenção.

Os irmãos de José o odiavam. Eles o venderam para ser um escravo. Mas Deus usou suas ações para fazer dele um governante sobre eles mesmos. Eles escolheram agir daquela maneira para prejudicar José. Mas Deus, em Seu poder, direcionou os eventos que aconteceram com José para o seu bem. Ele disse: “Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem” (Gênesis 50:20).

E como muitas de suas decisões são miseravelmente frustradas? Você pode optar por ser um milionário, mas a providência de Deus provavelmente o impedirá. Você pode optar por ser um estudioso, mas problemas de saúde, um lar instável ou a falta de recursos financeiros podem frustrar a sua vontade. Você escolhe sair de férias, mas um acidente de automóvel pode mandá-lo para o hospital em vez disso.

Ao dizer que sua vontade é livre, nós certamente não queremos dizer que ela determina o curso da sua vida. Você não escolheu a doença, a tristeza, a guerra e a pobreza que têm estragado a sua felicidade. Você não escolheu ter inimigos. Se a vontade do homem é tão potente, por que não escolhe viver para sempre? Antes, você deve morrer. Os principais fatores que moldam sua vida não se dão por causa de sua vontade. Você não escolheu seu status social, cor, inteligência e etc.

Qualquer reflexão sóbria sobre a sua experiência produzirá a conclusão: “O coração do homem planeja o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos” (Provérbios 16:9). Ao invés de exaltar a vontade humana, deveríamos humildemente louvar ao Senhor cujos propósitos moldam nossas vidas. Como Jeremias confessou: “Eu sei, ó Senhor, que não é do homem o seu caminho; nem do homem que caminha o dirigir os seus passos” (Jeremias 10:23).

Sim, você pode escolher o que você quer, e você pode planejar o que você fará. Mas sua vontade não é livre para realizar nada contrário aos propósitos de Deus. Nem você tem alguma energia para alcançar seus objetivos, senão aqueles que Deus lhe permite. A próxima vez que você estiver tão encantado com a sua própria vontade, lembre-se da parábola de Jesus sobre o homem rico. O homem rico disse: “Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens… Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma” (Lucas 12:18-21). Ele era livre para planejar, mas não era livre para realizar; a mesma coisa acontece com você.

O MITO DA LIBERDADE ÉTICA

Mas a liberdade da vontade é citada como um fator importante na tomada de decisões morais. A vontade do homem é dita ser livre para escolher entre o bem e o mal. Mas devemos perguntar novamente, a partir do que ela é livre? E o que a vontade do homem é livre para escolher?

A vontade do homem é o seu poder de escolha entre alternativas. Sua vontade decide suas ações a partir de uma série de opções. Você tem a faculdade de dirigir seus próprios pensamentos, palavras e ações. Suas decisões não são formadas por uma força externa, mas por uma força que está dentro de você mesmo. Nenhum homem é compelido a agir contra a sua vontade, nem forçado a dizer o que ele não deseja. Sua vontade guia suas ações.

No entanto, isso não significa que o poder de decidir está livre de qualquer influência. Você faz escolhas com base no seu entendimento, seus sentimentos, seus gostos e desgostos, e seus apetites. Em outras palavras, sua vontade não é livre de você mesmo! Suas escolhas são determinadas por seu próprio caráter básico. A sua vontade não é independente de sua natureza, antes é escrava dela. Suas escolhas não moldam o seu caráter, mas o seu caráter é que orienta as suas escolhas. A vontade é bastante parcial para o que você sabe, sente, ama e deseja. Você sempre escolhe com base em sua disposição, de acordo com a condição do seu coração.

É apenas por esta razão que a sua vontade não é livre para fazer o bem. Sua vontade é escrava do seu coração, e seu coração é mau. “E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” (Gênesis 6:5). “Não há quem faça o bem, não há nem um só” (Romanos 3:12). Nenhum poder força o homem a pecar contra a sua vontade, antes os descendentes de Adão são tão maus que sempre escolhem o mal.

Suas decisões são moldadas pelo seu entendimento, e a Bíblia diz o seguinte a respeito de todos os homens: “o seu coração insensato se obscureceu” (Romanos 1:21). O homem só pode ser justo quando ele deseja ter comunhão com Deus, mas, “não há ninguém que busque a Deus” (Romanos 3:11). Seus apetites anseiam o pecado, e assim você não pode escolher o bem. Pois escolher o bem é contrário à natureza humana. Se você escolhe obedecer a Deus, isto é o resultado de uma compulsão externa. Mas você é livre para escolher, e, portanto, sua escolha está escravizada à sua própria natureza maligna.

Se carne fresca e uma salada mista fossem colocados diante de um leão faminto, ele escolheria a carne. Isto porque sua natureza dita a sua escolha. É exatamente assim com o homem. A vontade do homem é livre de força exterior, mas não da inclinação da natureza humana. Essa inclinação é contrária a Deus. Os poderes de decisão do homem são livres para escolher o que o coração humano dita; portanto, não há possibilidade de um homem escolher agradar a Deus sem uma obra prévia da graça Divina.

O que a maioria das pessoas entende por livre-arbítrio é a ideia de que o homem é, por natureza, neutro e, portanto, capaz de escolher o bem ou o mal. Isso simplesmente não é verdade. A vontade humana e de toda a natureza humana é inclinada para o mal continuamente. Jeremias perguntou: “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” (Jeremias 13:23). É impossível. É contrário à natureza. Assim os homens precisam desesperadamente da transformação sobrenatural de suas naturezas, do contrário as suas vontades são escravizadas para escolher o mal.

Apesar do grande louvor que é dado ao “livre-arbítrio”, vimos que a vontade do homem não é livre para escolher agir de forma contrária aos propósitos de Deus, nem livre para agir contra a sua própria natureza moral. Sua vontade não determina os acontecimentos de sua vida, nem as circunstâncias da mesma. Escolhas éticas não são formadas por uma mente neutra, mas sempre ditadas pela sua personalidade.

O MITO DA LIBERDADE ESPIRITUAL

No entanto muitos afirmam que a vontade humana faz a escolha final da vida espiritual ou morte espiritual. Aqui a vontade é totalmente livre para escolher a vida eterna oferecida em Jesus Cristo ou rejeitá-la. Diz-se que Deus dará um novo coração a todos que escolherem receber a Jesus Cristo pelo poder de seu próprio livre-arbítrio.

Não pode haver dúvida de que receber Jesus Cristo é um ato da vontade humana. É muitas vezes chamado de “fé”. Mas como os homens vêm a receber o Senhor de boa vontade? É geralmente respondido: “a partir do poder de seu próprio livre-arbítrio”. Mas como pode ser isso? Jesus é um profeta. Recebê-lO significa crer em tudo o que Ele diz. Em João 8:41-45 Jesus deixou claro que você nasceu de Satanás. Este pai maligno odeia a verdade e transmitiu a mesma inclinação ao seu coração por natureza. Assim disse Jesus: “Mas, porque vos digo a verdade, não me credes” [João 8:45]. Como a vontade humana salta da escolha do homem para crer no que a mente humana odeia e rejeita?

Receber a Jesus também significa abraçá-lO como um sacerdote, ou seja, confiar e depender dEle para pleitear a paz com Deus por meio de Seus sacrifícios e intercessão. Paulo nos diz que a mente com a qual nascemos é hostil a Deus (Romanos 8:7). Como poderei escapar da influência da natureza humana, que nasce com uma violenta inimizade para com Deus? Seria insano para a vontade escolher a paz quando cada osso e gota de sangue clamam por rebelião.

Outrossim, receber a Jesus significa recebê-lO como um rei. Isso significa escolher obedecer Seus comandos, confessar o Seu direito de governar e adorar diante do Seu trono. Mas a mente humana, as emoções e os desejos todos clamam: “Não queremos que este reine sobre nós” (Lucas 19:14).

Se todo o meu ser odeia a Sua verdade, odeia o Seu governo e odeia a paz com Deus, como minha vontade pode ser responsável por receber a Jesus? Como pode um pecador ter fé?

Não é a vontade do homem, mas é por causa da graça de Deus que um pecador alcança um novo coração. A menos que Deus mude o coração, crie um novo espírito de paz, verdade e submissão, o homem não optará por receber a Jesus Cristo e a vida eterna nEle. Um novo coração deve ser dado antes que um homem venha a crer, ou então a vontade humana está irremediavelmente escravizada à maligna natureza humana, mesmo no que diz respeito à conversão. Jesus disse: “Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo” (João 3:7). A menos que você nasça de novo, você jamais verá o Seu reino.

Leia João 1:12 e 13. Ali é dito que aqueles que creem em Jesus têm “nascido, não da vontade do homem, mas de Deus”. Assim como sua vontade não é responsável pela sua própria vinda a este mundo, assim também não é responsável pelo novo nascimento. É o Seu Criador, que deve ser agradecido por sua vida, e se alguém está em Cristo, é uma nova criatura (2 Coríntios 5:17). Quem já escolheu ser criado? Quando Lázaro ressuscitou dos mortos, ele escolheu atender à chamada de Cristo, mas ele não escolheu ressuscitar. Então Paulo disse em Efésios 2:4 e 5: “Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)”. A fé é o primeiro ato de uma vontade renovada pelo Espírito Santo. Receber a Cristo é um ato do homem, assim como a respiração o é, no entanto Deus deve primeiramente dar-lhe a vida.

Não admira que Martinho Lutero escreveu um livro intitulado “A Escravidão da Vontade”, que ele considerava um de seus mais importantes tratados. A vontade está presa nas cadeias da maligna natureza humana. Vocês, que exaltam o livre-arbítrio como uma grande força estão se agarrando a uma raiz de orgulho. O homem, como caído no pecado, está totalmente desamparado e sem esperança. A vontade do homem não oferece nenhuma esperança. Foi a vontade de escolher o fruto proibido que nos trouxe à miséria. A poderosa graça de Deus oferece libertação. Lance-se à misericórdia de Deus para a salvação. Peça ao Espírito da Graça para criar um espírito novo dentro de você.

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♦ Fonte: APuritansMind.com | Título Original: Myth of Free Will
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por William Teixeira │ Revisão por Camila Almeida


Sobre a Nossa Conversão a Deus e Como Esta Doutrina é Totalmente Corrompida Pelos Arminianos – John Owen

[Capítulo 14 do Livro A Display Of Arminianism • Editado]

 Quão pouco ou absolutamente nada os Arminianos atribuem à graça de Deus a realização da grande obra da nossa conversão, isso pode claramente ser evidenciado a partir do que eu já mostrei que eles a atribuem ao nosso próprio livre-arbítrio, de forma que eu devo passar por isso brevemente, o que, de outra forma, é tão copiosamente anunciado nas Sagradas Escrituras, que isso exigiria uma discussão muito maior. A confirmação prolixa da verdade que professamos não atenderá tão bem a minha intenção; que é apenas desvelar os erros deles, por não conhecerem as profundezas em que muitos são enganados e persuadidos.

Duas coisas, nesta grandiosa combinação de graça e natureza, os Arminianos atribuem ao livre-arbítrio: primeiro, um poder de cooperação e colaboração com a graça, para torná-la eficaz de algum modo; em segundo lugar, poder de resistir à operação da graça, tornando-a completamente ineficaz; Deus, entrementes, não concede nenhuma graça, senão a que espera um ato consumado de uma dessas duas habilidades, e tem seu efeito conformemente. Se um homem cooperar, então a graça alcança o seu fim; se ele resistir, ela retorna vazia. Para esta finalidade, eles inventam que toda a graça de Deus derramada sobre nós para a nossa conversão é apenas uma persuasão moral por Sua palavra, e não uma infusão de um novo princípio vital pela poderosa obra do Espírito Santo. E, de fato, admitindo isso, eu concordarei com eles, mui dispostamente, em atribuir ao livre-arbítrio um dos dons antes recitados: um poder de resistir à operação da graça; mas quanto ao outro, deve-se atribuir a toda a nossa natureza corrompida, e todos os que são participantes da mesma, uma deficiência universal de obedecê-lo, ou cooperar nesta obra que Deus tenciona por Sua graça.

Se a graça da nossa conversão não for nada além de uma persuasão moral, não temos mais poder para obedecê-la nesse estado em que estamos, mortos em pecado, do que um homem em seu túmulo, tem em si mesmo, para viver de novo e sair assim que lhe chamarem. As promessas de Deus e as orações dos santos na Sagrada Escritura parecem designar tal tipo de graça que deve conceder-nos uma real capacidade interna para fazermos aquilo que é espiritualmente bom. Mas parece que não existe tal questão; pois se um homem deve convencer-me de saltar sobre o rio Tâmisa, ou voar como pássaro, seja ele tão eloquente quanto puder, sua persuasão em si não me faz mais capaz de fazer isso do que eu era antes de vê-lo. Se o dom graça de Deus não conferir nada além de uma doce persuasão (embora nunca tão poderosa), é algo extrínseco, que consiste na proposta de um objeto desejado, mas não nos dá, em absoluto, uma nova força para fazer algo, que não tínhamos antes poder para fazer. Mas vamos ouvi-los pleiteando, eles mesmos, a cada um desses elementos relativos à graça e à natureza. E,

Primeiro, pela natureza da graça [1]: “Deus destinou salvar os crentes pela graça — ou seja, uma persuasão suave e doce, conveniente e concordante com o livre-arbítrio deles — e não por qualquer ação todo-poderosa”, diz Armínio. Parece algo estranho, que “a mente carnal sendo inimizade contra Deus”, e a vontade dominada pelo pecado, e cheia de miserável oposição a todos os caminhos de Deus, ainda assim Deus não tenha outros meios para conduzi-los Ele, a não ser alguma persuasão que é doce, agradável e congruente a eles nesse estado em que estão. E, é uma pequena exaltação da dignidade e poder da graça, quando o principal motivo pelo qual ela é eficaz, como Alvarez observa, é reduzida a um jantar bem digerido ou um sono tranquilo, em que alguns homens podem ser levados a um melhor temperamento que o normal, para dar cumprimento à presente graça conveniente.

Mas, no momento, vamos aceitar isso, e admitir que Deus chama alguns por uma tal convicção conveniente, em tal data e local que Ele sabe que eles consentirão com ela. Eu pergunto, se Deus chama assim todos os homens, ou apenas alguns? Se todos, porque não são todos convertidos? pois a própria concessão disso, sendo adequada, a torna eficaz. Se apenas alguns, então por que eles, e não outros? Isso é a partir de uma intenção especial para fazê-los obedientes? Mas, deixe-os tomar cuidado, pois isso chegará perto de estabelecer o decreto da eleição; e a partir de que outra intenção disso deve ocorrer, eles nunca serão capazes de determinar. Portanto [2], Corvinus nega que tal adequação seja necessária para a graça pela qual somos convertidos, mas apenas que seja uma persuasão moral; a qual podemos obedecer se quisermos, e assim a tornamos eficaz. Sim, e o próprio Armínio, depois de ter defendido isso, tanto quanto ele foi capaz, coloca-o fora de si mesmo, e falsamente coloca isso como originado por Agostinho. De modo que, como eles juntamente afirmam, [3] “eles confessam que nenhuma graça para a geração de fé seja necessária, mas somente a que é moral”, o que um deles interpreta ser [4] “uma declaração do evangelho a nós”, exatamente como seu antigo mestre, Pelágio, que disse [5]: “Deus opera em nós tanto o querer o que é bom e querer o que é santo, ao passo que Ele nos desperta com a promessa de recompensa e da grandeza da glória futura, aos que antes estavam entregues a desejos terrenos, como animais irracionais, não amando nada além das coisas do presente século, incitando nossas vontades estúpidas a um desejo por Deus, por meio de uma revelação da sabedoria, e por convencer-nos de tudo o que é bom”. Ambos afirmam que a graça de Deus nada é, senão a persuasão moral, operando pela maneira de poderosos argumentos convincentes; mas ainda aqui Pelágio parece atribuir maior eficácia a ela do que os Arminianos, consentindo que ela opera sobre nós quando o nosso estado é como o dos animais irracionais, estando posta somente nas coisas terrenas. Mas estes, como eles confessam que para que a fé seja produzida [6], é necessário que esses argumentos sejam propostos da parte de Deus para que nada provavelmente esteja em oposição pelo que eles não pareçam credíveis. Assim é — dizem eles — necessário da nossa parte uma piedosa docilidade e dignidade de espírito. Assim, [segundo os Arminianos] toda a graça que Deus nos concedeu consiste em argumentos persuasivos a partir da Palavra, e, então, se eles encontram mentes que sejam ensináveis podem operar a sua conversão.

Em segundo lugar, tendo assim atenuado a graça de Deus, eles afirmam [7]: “que a operação da eficácia dela depende do livre-arbítrio”; assim, então os Remonstrantes em sua Apologia [8] dizem: “E, para falar confiantemente”, diz Grevinchovius “eu digo que o efeito da graça, em um curso normal, depende de algum ato de nosso livre-arbítrio”. Suponhamos, então, que dois homens sejam feitos participantes da mesma graça, ou seja, que tenham o evangelho pregado a eles pelos mesmos meios, e um é convertido e outro não, o que pode ser a causa desta tão grande diferença? Houve alguma intenção ou propósito de Deus que um fosse transformado e o outro não? “Não; Ele igualmente deseja e intenciona a conversão de todos e de cada um”. Será que, então, Deus opera pelo Espírito Santo mais fortemente no coração de um do que do outro? “Não; a mesma operação do Espírito sempre acompanha a mesma pregação da palavra”. Mas não foi um, por alguma ação todo-poderosa, feito participante da real graça infundida, a qual o outro não alcançou? “Não; porque isso destruiria a liberdade de sua vontade, e o privaria de todo o louvor pela crença”. Como, então, ocorreu essa diferença extrema de efeitos? Porque, quem fez um diferente do outro? O que tem ele que não tenha recebido? “Ora, tudo isso procede apenas da força de seu próprio e obediente livre-arbítrio, cedendo ao convite da graça de Deus, que, como os outros, ele poderia ter rejeitado. Esta é a causa imediata de sua conversão, de forma que todos os louvores são devidos a ele”, e aqui o velho ídolo pode gloriar-se perante todo o mundo, que se ele pode, apenas obter que seus adoradores prevaleçam nisto, ele tem excluído completamente a graça de Cristo, e fez dela “nomen inane”, um mero título, ao passo que não existe tal coisa no mundo.

Em terceiro lugar, eles ensinam, que, apesar de todo o propósito e intenção de Deus para converter e, assim, salvar um pecador, não obstante a operação mui poderosa e eficaz do bendito Espírito, com a mais atraente e persuasiva pregação da Palavra, ainda assim está no poder de um homem frustrar o efeito, resistir a essa operação e rejeitar aquela pregação do evangelho. Não precisarei provar isso, porque isso é o que, em termos diretos, eles pleiteiam; o que eles também devem fazer, se eles concordarão com seus princípios antigos. Pois, consentindo que todos esses não têm influência sobre qualquer homem, a não ser por meio de persuasão moral, nós não devemos apenas consentir que ela pode ser resistida, mas também negar totalmente que ela pode ser obedecida. Podemos resistir a isso, eu digo, como tendo tanto uma incapacidade para o bem e repugnância contra ele; mas quanto a obedecê-lo, a menos que neguemos toda a corrupção inerente e depravação da natureza, não podemos atribuir tal suficiência a nós mesmos.

Agora, a respeito desta fraqueza da graça, que ela não seja capaz de superar o poder da natureza pecaminosa, um testemunho de Armínio é suficiente [9]: “Sempre permanece no poder do livre-arbítrio rejeitar a graça que é dada e recusar aquilo que a segue; pois a graça não é uma ação onipotente de Deus, de forma que o livre-arbítrio não possa resisti-la”. Não que eu afirmasse, em oposição a isso, como se uma operação da graça devesse, por assim dizer, violentamente superar a vontade do homem, e força-lo à obediência, o que deve necessariamente ser prejudicial à nossa liberdade; mas apenas que consiste em uma obra eficaz tão doce a ponto de promover infalivelmente a nossa conversão, nos tornando dispostos, a quem antes não éramos dispostos e obedientes, a quem não obedecíamos de forma a criar corações puros e renovar espíritos retos dentro de nós.

Isso, então, que nós afirmamos, em oposição a essas heterodoxias Arminianas, é: que a graça eficaz que Deus usa na grandiosa obra da nossa conversão, em razão de sua própria natureza, — sendo também o instrumento e intenção de Deus para este propósito, — certamente produz o efeito pretendido, sem resistência bem sucedida, e sozinha, sem qualquer considerável cooperação de nossas próprias vontades, até que elas sejam preparadas e transformadas por essa mesma graça. A infalibilidade do seu efeito depende principalmente do propósito de Deus. Quando, por qualquer meio que Ele intenciona a conversão de um homem, esses meios devem ter tal eficácia adicionada a elas, a ponto de torná-los instrumentos próprios para a realização desse propósito, de forma que o conselho do Senhor possa prosperar, e a Sua palavra não volte vazia. Mas, o modo de sua operação — o que não requer assistência humana, e é capaz de superar toda repugnância — é própria à essência de tal ato. Esta natureza e eficácia da graça se opõe a uma influência indiferente do Espírito Santo, a um movimento metafórico, a uma obra pela forma de persuasão moral, apenas propondo um objeto desejável, fácil de ser combatida, e não efetiva a menos que seja ajudada por uma capacidade inata de nós mesmos (que é a graça Arminiana), confirmarei brevemente, tendo como premissa essas poucas coisas:

Primeiro, embora Deus não utilize as vontades dos homens, em sua conversão, como espíritos malignos usam os membros dos homens, em êxtases, por um movimento abrupto violento, mas doce e agradavelmente à própria natureza deles; ainda assim, no primeiro ato de nossa conversão a vontade é meramente passiva, como um sujeito capaz de uma tal obra, não concorrendo cooperativamente para a nossa conversão de modo algum. Isso não é, eu digo, a causa da obra, mas o sujeito em que ela é operada, tendo apenas uma capacidade passiva para o recebimento dessa essência sobrenatural, que é introduzida pela graça. O início desta “boa obra” é de Deus somente (Filipenses 1:6). Sim, a fé é atribuída à graça, não por meio de cooperação com a nossa vontade, mas em oposição a ela: “isto não vem de vós, é dom de Deus” (Efésios 2:8). “Não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus” (2 Coríntios 3:5). “Converte-nos a ti, Senhor, e seremos convertidos” (Lamentações 5:21).

Em segundo lugar, embora a vontade do homem não dê qualquer consentimento na ocasião em que a graça é incialmente infundida, contudo há uma recepção subjetiva dela, ainda no primeiro ato, que é feita na e pela vontade, e então, ela coopera mui livremente (a propósito de subordinação) com a graça de Deus; e o mais efetivamente a vontade é movida pela graça, e mui voluntariamente ela opera com a graça. Então, assim, o homem que está sendo convertido pela graça, converte-se voluntariamente.

Em terceiro lugar, nós não afirmamos que a graça seja irresistível, como se ela viesse sobre a vontade com uma violência tal que subjuga e elimina a vontade humana, e a sujeite por compulsão, ao que ela não é de nenhuma maneira inclinável. Mas quando usamos este termo, temos em mente apenas uma eficácia tão invencível da graça que sempre e infalivelmente produz o seu efeito; pois, quem é que pode “resistir a Deus?” (Atos 11:17). Como também, isso pode ser usado quanto à vontade em si, a qual não resistirá à graça, pois, todo aquele que o Pai dá a Cristo virá a Ele (João 6:37). A operação da graça é não resistida por nenhum coração duro, porque ela pacifica o próprio coração. Ela não tanto tira um poder de resistir, como concede uma vontade de obedecer, pelo que a poderosa impotência da resistência é removida.

Em quarto lugar, em relação à graça em si, ou é comum ou especial. A Graça comum ou geral consiste na revelação externa da vontade de Deus através da Sua Palavra, com alguma iluminação da mente para percebê-la, e correção dos afetos, não tanto para desprezá-los; e isso, em algum grau ou outro, para alguns mais, para outros menos, é comum a todos os que são chamados. A Graça especial é a graça da regeneração, compreendendo a primeira, porém, acrescentando mais atos espirituais, porém especialmente pressupondo o propósito de Deus do que a sua eficácia principalmente depende.

Em quinto lugar, esta graça salvadora, pela qual o Senhor converte ou regenera um pecador, transportando-o da morte para a vida, é externa ou interna. A externa consiste na pregação da Palavra e etc., cujo funcionamento é pela forma de persuasão moral, quando por meio dela rogamos aos nossos ouvintes “da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” (2 Coríntios 5:20); e isso em nossa conversão é o agente instrumental da mesma, e pode ser considerada uma causa suficiente da nossa regeneração, na medida em que nenhum outro, de mesmo tipo, é necessário. Ela também pode ser resistida in sensu diviso, abstraindo a partir da consideração em que é vista como o instrumento de Deus para tal fim.

Em sexto lugar, a graça interna é distinguida, por teólogos, da graça inicial ou de prevenção, ou graça cooperante. A primeira é aquele princípio espiritual vital que é infundido em nós pelo Espírito Santo, aquela nova criação e concessão de uma nova força, pelo que somos conduzidos à capacidade para realizar ações espirituais, crer e prestar obediência evangélica: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras” (Efésios 2:10). Por esta graça interna Deus nos dá um coração novo, e põe dentro de nós um espírito novo, ele tira de nós o coração de pedra, e nos dá um coração de carne; ele põe dentro de nós o Seu Espírito, para que andemos nos Seus estatutos (Ezequiel 36:26-27).

Agora, esta primeira graça não é própria e formalmente um ato vital, mas somente causaliter [casualmente], sendo um princípio de movimento para tais atos vitais dentro de nós. O hábito da fé é concedido a um homem, para que ele seja capaz de suscitar e praticar os atos de fé, dando nova luz à compreensão, novas inclinações à vontade, e novas afeições ao coração, pois a eficácia infalível desta graça é o que nós pleiteamos contra os Arminianos. E entre aquelas inúmeras passagens da Sagrada Escritura que confirmam esta verdade, farei uso apenas de um número pequeno, reduzido a estes três tópicos:

Em primeiro lugar, nossa conversão é operada por uma ação Divina onipotente, a que a vontade do homem não irá, e portanto, não poderá resistir. A impotência da mesma não deve se opor a esta graça onipotente, que certamente efetuará a obra para a qual foi ordenada, sendo uma ação não inferior à “sobreexcelente grandeza do Seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus” (Efésios 1:19-20). E, este poder que pode superar o inferno, e desatar os laços da morte, não será eficaz para levantar um pecador da morte no pecado, quando, pela intenção de Deus, ela é designada a esta obra? Deus cumpre a “obra da fé com poder” (2 Tessalonicenses 1:11). É o “seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade” (2 Pedro 1:3). Certamente, a persuasão moral resistível não seria tantas vezes chamada de: o “poder” de Deus, o que denota uma eficácia real, a qual nenhuma criatura é capaz de resistir.

Em segundo lugar, posto que esta graça consiste em uma eficácia real — não pode de modo algum ser considerada assim, senão quando e onde ela realmente opera o que intenciona, e não pode ser resistida a ponto de tornar-se inoperante —, toda a sua natureza constitui uma operação real. Agora, que a própria essência da Divina graça consiste em um ato tão formal pode ser provado por todas as passagens da Escritura que afirmam que Deus, por Sua graça, ou a graça de Deus, na verdade, efetua a nossa conversão, refiro-me a passagens como Deuteronômio 30:6: “E o Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao Senhor teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas”. A circuncisão de nossos corações, para que possamos amar o Senhor com todo o nosso coração, e com toda a nossa alma, é nossa conversão, a qual o Senhor aqui afirma que Ele mesmo fará; não somente nos permite fazê-la, mas Ele mesmo, real e efetivamente o realizará. E, novamente: “Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração” (Jeremias 31:33). “Porei o meu temor nos seus corações, para que nunca se apartem de mim” (Jeremias 32:40). Ele não oferecerá o seu temor para eles, mas, na verdade, o porá dentro deles. E, mais claramente, Ezequiel 36:26-27: “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis”. Estas expressões são apenas uma persuasão moral? Porventura Deus afirma aqui que Ele fará o que Ele intenciona apenas persuadindo-nos, e que podemos recusar esta fazê-lo se quisermos? Está no poder de um coração de pedra o remover a si mesmo? Que pedra ativa é esta que tira a si mesma!? Em que este coração de pedra difere do coração de carne que Deus promete? Podemos dizer que um coração de pedra tem o poder de transformar-se em um coração de carne, de modo a fazer com que andemos nos estatutos de Deus? O fato é que, a menos que os homens fossem deliberadamente cegos, eles necessariamente perceberiam aqui a indicação de tal ação de Deus, de modo a operar a nossa conversão de maneira eficaz, única e infalível; abrindo os nossos corações para que estivéssemos atentos à Palavra (Atos 16:14) e concedendo que nós crêssemos em Cristo (Filipenses 1:29). Agora, estas e outras passagens semelhantes provam que a natureza da graça de Deus consiste em uma real eficácia e, portanto, a sua operação é seguramente eficaz.

Em terceiro lugar, nossa conversão é uma “nova criação”, uma “ressurreição”, um “novo nascimento”. Ora, Aquele que criou um homem não o convence a criar a si mesmo, e mesmo se este fosse o caso o homem não conseguiria, se Ele assim o fizesse. O homem não tem qualquer poder para resistir Àquele que deseja criá-lo, ou seja — como nós agora o consideramos —, transformando-o de algo que ele é em algo que ele não é. Quais argumentos você acha que seriam suficientes para convencer um homem morto a ressuscitar-se? Ou com que grande auxílio ele pode contribuir para a sua própria ressurreição? Nenhum homem gera a si mesmo; nenhuma verdadeira nova criação foi alguma vez introduzida em qualquer questão por meio de argumentos sutis. Estes são os termos que a Escritura tem o prazer de usar a respeito de nossa conversão: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é” (2 Coríntios 5:17). “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” (Efésios 4:24). Este é o nosso novo nascimento: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (João 3:3). “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade” (Tiago 1:18). E, assim, nós somos “de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” (1 Pedro 1:23). Esta é a nossa vivificação e ressurreição: “o Filho vivifica aqueles que quer” (João 5:21), mesmo aqueles “mortos”, que ouvem a Sua voz e vivem (versículo 25). “Estando nós ainda mortos em nossos delitos e pecados”, nós somos vivificados “juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)” (Efésios 2:5); pois, “Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus” (Colossenses 2:12). E “Bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes não tem poder a segunda morte; mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com ele mil anos” [Apocalipse 20:6].

Τῷ Θεῷ ἀριστομεγίστῳ δόξα.

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NOTAS:

Notas:

[1] “Deus statuit salvare credentes per gratiam, id est, lenem ac suavem liberoque ipsorum arbitrio convenientem seu congruam suasionem, non per omnipotentem actionem seu motionem.” — Armin. Antip., p. 211.
[2] Corv. ad Molin. — “His ita expositis ex mente Augustini,” etc. — Armin. Antip. De Elec.
[3] “Fatemur, aliam nobis ad actum fidei eliciendum necessariam gratiam non agnosci quam moralem.” — Rem. Act. Synod. ad Art. 4.
[4] “Annuntiatio doctrinae evangelicae.” — Popp. August. Port. p. 110.
[5] “Operatur in nobis velle quod bonum est, velle quod sanctum est, dum nos terrenis cupiditatibus deditos mutorum more animalium, tantummodo praesentia diligentes, futurae gloriae magnitudine et praemiorum pollicitatione, succendit: alum revelatione sapientiae in desiderium Dei stupentem suscitat voluntatem, dum nobis suadet omne quod bonum est.” — Pelag., ap. Aug. de Grat. Ch. cap. 10.
[6] “Ut autem assensus hic eliciatur in nobis, duo in primis necessaria sunt: — 1. Argumenta talia ex parte Dei, quibus nihil verisimiliter opponi potest cur credibilia non sint. 2. Pia docilitas animique probitas.” — Rem. Declar., cap. 17. sect. 1.
[7] “Ut gratia sit efficax in actu secundo pendet a libera voluntate.” — Rem. Apol., p. 164.
[8] “Imo ut confidentius again, dico effectum gratiae, ordinaria lege, pendere ab actu aliquo arbitrii.” — Grevinch, ad Ames., p. 198.
[9] “Manet semper in potestate Lib. Arbit. gratiam datam rejicere et subsequentem repudiare, quae gratia non est omnipotentis Dei actio, cui resisti a libero hominis arbitrio non possit.” — Armin. Antip., p. 243.

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♦ Fonte: CCEL.orgMonergism.com | Título Original: Display of Arminianism
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


As Elevadas Posições e Privilégios Concedidos aos Cristãos em Virtude da sua União com Cristo – Arthur Walkington Pink

“E da parte de Jesus Cristo, que é a fiel testemunha, o primogênito dentre os mortos e o príncipe dos reis da terra. Àquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados, e nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai; a ele glória e poder para todo o sempre. Amém.” (Apocalipse 1:5-6)

Duas evidências do amor de Cristo por Seu povo são mencionadas nesta oração: Sua purificação de seus pecados por Seu próprio sangue, e o Seu valoriza-los pelas dignidades Ele lhes concede. Mas há também uma terceira expressão e manifestação do Seu amor que, embora não claramente expressa, é necessariamente implícita aqui, ou seja, Sua provisão para eles. Como o resultado da obra que o Seu amor O levou a realizar em lugar deles, Ele meritoriamente garantiu o Espírito Santo para o Seu povo (Atos 2:33). Cristo, portanto, envia o Espírito Santo para regenerá-los, para tomar as coisas de Cristo e revelá-las a eles (João 16:14-15), para comunicar um conhecimento experiencial e salvífico do Senhor Jesus, e produzir fé em seus corações para que eles creiam nEle para a vida eterna. Eu digo que tudo isso está necessariamente implícito, pois somente por estas realidades eles são capacitados a real e sensivelmente exclamar “o qual me amou”, sim, de modo que cada um deles veja que este Cristo, o Filho de Deus “me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gálatas 2:20). Esta é a quintessência da verdadeira bem-aventurança, a saber, ser assegurado pelo Espírito da Palavra que eu sou um objeto de amor infinito e imutável de Cristo. O conhecimento disso torna-O “totalmente desejável” em minha estima (Cantares de Salomão 5:16), regozija a minha alma, e santifica minhas afeições.

Por meio da Fé Salvadora, Alguém Olha para Fora de Si Mesmo, para Cristo

Veja aqui a apropriada natureza da fé salvadora. Ela se apega a Cristo e Seu sacrifício pelos pecadores como feito conhecido pela Palavra da verdade. Ela diz: Aqui está uma carta de amor do céu sobre o glorioso evangelho do Filho de Deus, que relata o amor de Cristo e as mais fortes e maiores provas possíveis do mesmo. Eu vejo que esta carta é para mim, pois ela é dirigida aos pecadores, sim, até ao principal dos pecadores. Ela tanto convida quanto ordena-me a receber este Amável Ser Divino e acreditar sinceramente na suficiência de Seu sangue expiatório pelos meus pecados. Por isso, O tomo como Ele é oferecido gratuitamente pelo Evangelho, e confio em Sua própria palavra: “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (João 6:37). Esta fé não vem por sentimentos de meu amor a Cristo, mas pelo anúncio de Seu amor pelos pecadores (Romanos 5:8; 10:17). É verdade, o Espírito Santo, no dia do Seu poder, faz impressões sobre o coração pela Palavra. No entanto, o fundamento da fé não são essas impressões, mas o Evangelho em si mesmo. O objeto da fé não é Cristo operando no coração e suavizando-o, mas sim Cristo como Ele é apresentado para nossa aceitação na Palavra. O que nós somos chamados a ouvir não é Cristo falando secretamente dentro de nós, mas é Cristo que fala abertamente, objetivamente, sem nós.

Os Benditos Frutos da Fé Salvadora

Uma maldição mui terrível é pronunciada sobre todos os que “não amam ao Senhor Jesus Cristo” (1 Coríntios 16:22). Solene, em verdade, é perceber que essa maldição recai sobre a grande maioria dos nossos companheiros, mesmo nos países que têm a reputação de serem Cristãos. Mas por que algum pecador ama a Cristo? Alguém só pode fazê-lo, porque ele crê no amor de Cristo pelos pecadores. Ele percebe a maravilha e a preciosidade do mesmo; pois “a fé opera pelo amor” (Gálatas 5:6), mesmo pelo amor de Cristo, que se manifesta em nossa direção. Ela recebe ou toma o Seu amor para o coração. Em seguida, opera a paz na consciência, concede acesso consciente a Deus (Efésios 3:12), desperta alegria nEle, e promove a comunhão com e conformidade a Ele. Essa fé, implantada pelo Espírito Santo, que opera pelo amor – o reflexo de nossa apreensão e apropriação do amor de Cristo – mata nossa inimizade contra Deus e leva a nos deleitarmos com a Sua Lei (Romanos 7:22). Tal fé conhece, sob a autoridade da Palavra de Deus, que os nossos pecados – que eram a causa da nossa separação e alienação dEle – foram lavados pelo sangue expiatório de Cristo. Quão inefavelmente bendito é saber que na plenitude dos tempos, Cristo apareceu “para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Hebreus 9:26), e que Deus diz sobre todos os crentes “e jamais me lembrarei de seus pecados e de suas iniquidades” (Hebreus 10:17).

Sobre nossa confiança nos testemunhos Divinos do Evangelho dependem, em grande medida, tanto a nossa santidade prática quanto o nosso consolo. Nosso amor a Cristo e adoração a Ele crescerá ou diminuirá em proporção à nossa fé na Pessoa e obra de Cristo. Onde existe uma garantia pessoal do Seu amor, não pode deixar de haver uma união com os santos no céu em louvor a Cristo por lavar-nos de nossos pecados (Apocalipse 5:9-10). Mas muitos se oporão: “Eu ainda tenho tanto pecado em mim; e tantas vezes obtêm o domínio sobre mim, de modo que eu não me atrevo a acalentar a segurança de que Cristo me lavou dos meus pecados”. Se isso este é o seu caso, eu pergunto: Você se lamenta a respeito de suas corrupções, e sinceramente deseja ser para sempre livrar delas? Se assim for, isso é prova de que você tem o direito de se alegrar no sangue expiatório de Cristo. Deus vê quão apropriado é deixar o pecado em você, para que nesta vida você seja mantido humilde diante dEle e maravilhe-se mais em Sua longanimidade. É Sua designação que o Cordeiro seja agora comido “com ervas amargas” (Êxodo 12:8). Este mundo não é o lugar do seu descanso. Deus permite que você seja assediado por suas concupiscências, para que você olhe adiante mais ansiosamente pela libertação e descanso que esperam por você. Embora Romanos 7:14-25 descreva com precisão a sua experiência presente, Romanos 8:1 também declara: “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus!” (Romanos 8:1).

As Elevadas Posições e Privilégios Concedidos aos Cristãos em Virtude da União com Cristo

“E nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai”. Aqui está o terceiro motivo inspirador para a atribuição que se segue. Tendo reconhecido o endividamento dos santos pelo amor e sacrifício do Salvador, o apóstolo João agora celebra, na linguagem dos “espíritos dos justos aperfeiçoados” (Apocalipse 1:6; Hebreus 12:23), as elevadas dignidades que Ele lhes conferiu. Nós, que somos filhos do Altíssimo, na devida medida, somos feitos participantes das honras dAquele que é o Rei dos reis e nosso grande Sumo Sacerdote; e a apreensão deste fato evoca uma canção de louvor a Deus. Quando percebemos que o Senhor Jesus compartilha Suas próprias honras com Seus remidos, conferindo-lhes tanto dignidade real quanto sacerdotal proximidade de Deus, não podemos deixar de exclamar, com exultação: “a ele glória e poder para todo o sempre. Somos virtualmente feitos reis e sacerdotes quando Ele contraiu o cumprimento dos termos da aliança eterna, por este engajamento, fomos assim constituídos. Por compra fomos feitos reis e sacerdotes quando Ele pagou o preço de nossa redenção, pois foi por Seus méritos que Ele comprou esses privilégios para nós. Federalmente fomos feitos assim, quando Ele subiu às alturas (Efésios 4:8; 2:6) e entrou no interior do véu como nosso Precursor (Hebreus 6:19-20). De fato, nós somos feitos assim em nossa regeneração, quando nos tornamos participantes de Sua unção.

“E nos fez reis e sacerdotes para Deus”. Aqui nós temos o Redentor exaltando e enobrecendo Seus remidos. Isto pressupõe e decorre do nosso perdão, e é o resultado positivo da obediência meritória de Cristo à Lei de Deus (sem a qual Ele não poderia ter morrido no lugar dos pecadores). Aquele que nos amou não somente removeu nossas impurezas, mas também nos tem restaurado ao favor e comunhão Divinos. Além disso, Ele garantiu para nós uma recompensa gloriosa; Ele tomou o nosso lugar para que pudéssemos compartilhar o Seu. A fim de que possamos ser protegidos de certos erros insidiosos, que trouxeram não poucos dos filhos de Deus em cativeiro, é importante perceber que essas designações não pertencem apenas a uma classe muito seleta e elevada de Cristãos, mas também a todos os crentes. Também é necessário, para que não sejamos roubados pelo Dispensacionalismo, que compreendamos que essas dignidades pertencem a nós agora. Elas não estão adiadas até a nossa chegada no céu, e muito menos até ao amanhecer do milênio. Cada santo tem estas duas honrarias conferidas a ele de uma vez: ele é um sacerdote real, e um rei sacerdotal. Aqui vemos a dignidade e nobreza do povo do Senhor. O mundo olha para nós como miseráveis e desprezíveis, mas Ele fala sobre nós como “ilustres em quem está todo o meu prazer” (Salmos 16:3).

Quando Paulo diz em 2 Coríntios 1:21 que Deus “nos confirma convosco em Cristo, e o que nos ungiu, é Deus”, ele está indicando que Deus nos fez reis e sacerdotes; pois a palavra ungido é expressivo de dignidade. Reis e sacerdotes eram ungidos quando inauguravam em seus ofícios. Portanto, quando se diz que Deus ungiu todos os que estão em Cristo Jesus, ele dá a entender que Ele os qualificou e autorizou ao cumprimento desses cargos elevados. Ao elaborar um nítido contraste entre os crentes verdadeiros e falsos irmãos e falsos mestres, o apóstolo João diz: “E vós tendes a unção do Santo… E a unção que vós recebestes dele, fica em vós” (1 João 2: 20, 27). Temos uma participação na unção de Cristo (Atos 10:38), recebendo o mesmo Espírito com que Ele foi ungido (um belo tipo da unção de Cristo é apresentado em Salmos 133:2). A bem-aventurança dos eleitos aparece na medida em que são feitos reis e sacerdotes, em virtude do Nome em que eles são apresentados diante de Deus. Aqueles que “recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo” (Romano 5:17). Embora em todas as coisas Cristo tenha a primazia, sendo “o Rei dos reis”, pois Ele foi “ungido com óleo de alegria mais do que a teus [Seus] companheiros” (Salmos 45:7), ainda assim, os Seus companheiros são investidos com a realeza; e “qual ele é, somos nós também neste mundo” (1 João 4:17). Oh, deve a fé o apropriar-se desse fato, e pela graça conduzir-nos em conformidade com ele!

Aparentemente, há um contraste projetado entre as duas expressões, “os reis da terra” e “nos fez reis e sacerdotes para Deus”. Eles são reis, naturalmente, nós espiritualmente; eles quanto aos homens, nós quanto a Deus. Eles são apenas reis, mas nós somos ambos, reis e sacerdotes. O domínio dos monarcas terrestres é apenas passageiro; sua glória real desaparece rapidamente. Mesmo a glória de Salomão, que superou a de todos os reis da terra foi apenas de curta duração. Mas nós seremos co-regentes com um Rei, cuja fundação do trono (Apocalipse 3:21) é indestrutível, cujo cetro é eterno, e cujo domínio é universal (Mateus 28:18; Apocalipse 21:7). Devemos nos vestir com a imortalidade e ser investidos de uma glória que nunca se esmaecerá. Os crentes são reis, não no sentido de que eles tomam parte no governo do céu sobre a terra, mas como partícipes da vitória de seu Senhor sobre Satanás, o pecado e o mundo. Nisso os Cristãos também são distinguidos dos anjos, pois eles não são reis, nem jamais reinarão, pois eles não são ungidos. Eles não têm união com o Filho de Deus encarnado, e, portanto, eles não são “coerdeiros com Cristo”, como são os redimidos (Romanos 8:17). Assim, longe disso, todos eles são “espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação” (Hebreus 1:14). Dele é um lugar subordinado e uma tarefa subserviente!

Um Domínio Moral Exercido pelo Cristão

Cristo não apenas realizou uma grande obra para o Seu povo, mas Ele efetua uma grande obra neles. Ele não apenas os lava de seus pecados, os quais Ele odeia, mas Ele também transforma pelo Seu poder as pessoas deles, as quais Ele ama. Ele não os deixa como Ele os encontra inicialmente sob o domínio de Satanás, o pecado e o mundo. Não, mas Ele torna os reis. Um rei é aquele que é chamado para governar, que é investido de autoridade, e que exerce o domínio; e assim o fazem os crentes sobre os seus inimigos. É verdade que alguns dos sujeitos a que somos chamados para governar são fortes e turbulentos, ainda assim, somos “mais do que vencedores, por meio daquele que nos amou” (Romanos 8:37). O Cristão é “rei a quem não se pode resistir” (Provérbios 30:31). Embora ele seja muitas vezes superado em sua pessoa, contudo ele nunca deve ser superado em sua causa. Ainda há uma lei em seus membros guerreando contra a lei de seu espírito (Romanos 8:23), mas o pecado não terá domínio sobre ele (Romanos 6:14). Uma vez o mundo o mantinha em cativeiro, presumindo ditar a sua conduta, de modo que ele temia desafiar seus costumes e envergonhava-se de ignorar suas regras de conduta, mas agora “todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé” (1 João 5:4). Por meio do dom da graça Divina da fé, somos capazes de buscar a nossa porção e deleite nas coisas de cima. Observe bem as palavras de Thomas Manton sobre este assunto:

Rei é um nome de honra, poder e ampla possessão. Aqui nós reinamos espiritualmente, enquanto vencemos o diabo, o mundo e a carne, em alguma medida. É algo principesco estar acima dessas coisas inferiores e pisar tudo sob os nossos pés em uma santa e celeste dignidade. Um pagão poderia dizer: “Ele é um rei que não teme nada e não deseja nada”. Aquele que está acima das esperanças e temores do mundo, aquele que tem o coração no céu e está acima das ninharias temporais, dos altos e baixos do mundo, o mundo sob suas afeições; este homem é de um espírito real. O reino de Cristo não é deste mundo, nem o é o de um crente. “E para o nosso Deus nos fizeste reis e sacerdotes; e reinaremos sobre a terra” (Apocalipse 5:10), ou seja, de uma forma espiritual. É algo bestial atender às nossas concupiscências, por outro lado é algo majestoso ter a nossa conversação no céu e vencer o mundo para viver de acordo com a nossa fé e amor com um espírito nobre. Depois, reinaremos visível e gloriosamente quando nos assentarmos no trono com Cristo.

Os santos ainda julgarão o mundo, sim, e também os anjos (1 Coríntios 6:2-3).

A Superioridade do Auto-Governo sobre a Regra Secular

O trabalho que é atribuído ao Cristão como um rei é governar a si mesmo. “Melhor é o que tarda em irar-se do que o poderoso, e o que controla o seu ânimo do que aquele que toma uma cidade” (Provérbios 16:32). Como um rei o Cristão é chamado a mortificar a sua própria carne, resistir ao diabo, disciplinar seu temperamento, subjugar suas paixões e trazer cativo todo pensamento à obediência de Cristo (2 Coríntios 10:5). Essa é uma tarefa que dura por toda a vida. O Cristão não consegue realizá-la em sua própria força. É o seu dever buscar capacitação do alto, e recorrer à plenitude da graça que está disponível para ele em Cristo. O coração é o seu reino (Provérbios 4:23); e é sua responsabilidade fazerem a razão e a consciência, ambos formados pela Palavra de Deus, governarem os seus desejos de modo que a sua vontade seja sujeita a Deus. É exigido dEle ser o mestre de seus apetites e regulador de suas afeições, negar concupiscências ímpias e mundanas, e viver sóbria, justa e piedosamente neste mundo. Ele deve “de tudo se abster” (1 Coríntios 9:25). Ele deve subjugar sua impetuosidade e impaciência, recusar a vingar-se quando os outros o prejudicam, refrear suas paixões, “vencer o mal com o bem” (Romanos 12:21), e ter tal controle de si mesmo que ele se alegre com tremor (Salmos 2:11). Ele deve aprender o contentamento em cada estado ou condição de vida que Deus, em Sua sábia e boa providência tenha o prazer de colocá-lo (Filipenses 4:11).

Alguns monarcas terrenos têm não poucos súditos infiéis e indisciplinados que os invejam e os odeiam, que se irritam com seu cetro, e que querem depô-los. No entanto, eles ainda mantêm seus tronos. Da mesma maneira, o rei Cristão tem muitas e rebeldes concupiscências e traidoras disposições que se opõem e resistem continuamente ao seu governo, no entanto, ele deve buscar graça para contê-las. Em vez de esperar a derrota, é o seu privilégio ter a certeza: “Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece” (Filipenses 4:13). O apóstolo Paulo estava exercendo seu ofício real, quando ele declarou: “Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma” (1 Coríntios 6:12). É nisso ele nos deixou um exemplo (1 Coríntios 11:1). Ele também estava conduzindo-se como um rei quando ele disse: “Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão” (1 Coríntios 9:27). No entanto, como tudo nesta vida, o exercício do nosso ofício real é muito imperfeito. Ainda não temos entrado totalmente em nossas honras reais ou agido em nossa dignidade real. Ainda não recebemos a coroa, ou nos sentamos com Cristo em Seu trono, cujas cerimônias de coroação são essenciais para a manifestação completa de nosso reinado. No entanto, a coroa está guardada para nós, uma mansão (infinitamente superior ao Palácio de Buckingham) está sendo preparado para nós, e essa promessa é nossa: “E o Deus de paz esmagará em breve Satanás debaixo dos vossos pés” (Romanos 16:20).

Os Privilégios Sacerdotais e Deveres do Crente

Seguindo meu costume habitual, tenho me esforçado para fornecer o máximo de auxílio onde comentaristas e outros expositores forneceram o mínimo. Tendo procurado explicar em algum pormenor o ofício real do crente, menos necessita ser dito sobre o ofício sacerdotal. Um sacerdote é aquele a quem é dado um lugar de proximidade de Deus, quem tem acesso a Ele, que tem santo relacionamento com Ele. É o seu privilégio ser admitido à presença do Pai e ser dado sinais especiais de Seu favor. Ele tem um serviço Divino a executar. Seu ofício é um de grande honra e dignidade (Hebreus 5:4-5). No entanto, isso não se refere a nenhuma hierarquia eclesiástica, mas é comum a todos os crentes. “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real”. Os Cristãos são “o sacerdócio real” ordenado a “oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” (1 Pedro 2:5, 9). Eles são adoradores da majestade Divina, e trazem com eles um sacrifício de louvor (Hebreus 13:15). “Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens buscar a lei” (Malaquias 2:7). Como sacerdotes, eles devem ser intercessores por todos os homens, especialmente pelos reis e por todos os que estão em posição de autoridade (1 Timóteo 2:1-2). Mas o exercício pleno e perfeito de nosso sacerdócio está no futuro, quando, livres do pecado e dos temores carnais, veremos a Deus face a face e O adoraremos de forma ininterrupta.

Uma Doxologia Apropriada com Base em Quem Cristo é e no Que Ele fez

“A ele glória e poder para todo o sempre. Amém” [Apocalipse 1:6]. Este é um ato de adoração, uma atribuição de louvor, um suspiro de adoração ao Redentor a partir do coração dos redimidos. Cristãos variam muito em suas capacidades e realizações, e eles diferem em muitos pontos de vista e práticas menores. Mas todos eles se unem com o apóstolo nisso. Todos os Cristãos têm substancialmente as mesmas visões de Cristo e o mesmo amor por Ele. Onde quer que o Evangelho tenha sido salvificamente apreendido, ele não pode deixar de produzir este efeito. Primeiro, há um reconhecimento devoto do que o Senhor Jesus fez por nós, e, em seguida, uma doxologia prestada a Ele. Enquanto contemplarmos quem foi que nos amou – não um companheiro mortal, mas Deus – nós não podemos senão nos prostrar diante dEle em adoração. Ao considerarmos o que Ele fez por nós: derramou Seu sangue precioso, os nossos corações são inclinados em amor a Ele. Na medida em que percebemos como Ele concedeu tais dignidades maravilhosas sobre nós, fazendo-nos reis e sacerdotes, não podemos deixar de lançar nossas coroas aos Seus pés (Apocalipse 4:10). Quando esses sentimentos verdadeiramente dominam a alma, a Cristo será concedido o trono de nossos corações. Nosso desejo mais profundo será o de agradar a Deus e viver para Sua glória.

“A ele glória”. Esta é uma palavra que significa (1) brilho visível ou esplendor, ou (2) uma excelência de caráter que coloca uma pessoa (ou coisa) em uma posição de boa reputação, honra e louvor. A “glória de Deus” denota principalmente a excelência do Seu Ser Divino e as perfeições de Seu caráter. A “glória de Cristo” compreende Sua Divindade essencial, as perfeições morais de Sua humanidade, e o alto valor de todos os Seus ofícios. Secundariamente, as manifestações físicas da glória de Jeová (Êxodo 3:2-6; 13:21-22) e do Seu ungido (Mateus 17:1-9) são derivadas da grande santidade do Deus Triuno (Êxodo 20:18-19; 33:17-23; Juízes 13:22; 1 Timóteo 6:16). Cristo tem uma glória intrínseca como o Filho de Deus (João 17:5). Ele tem uma glória oficial como o Mediador Deus-Homem (Hebreus 2:9). Ele tem uma glória meritória como a recompensa de Seu trabalho, e isso Ele compartilha com Seus remidos (João 17:5). Em nosso texto, glória é atribuída a Ele, por cada uma das seguintes razões. Cristo é aqui magnificado tanto pela excelência não-derivada de sua Pessoa que O exalta infinitamente acima de todas as criaturas e pela Sua glória adquirida que ainda será exibida diante de um universo reunido [...]. Há uma glória que pertence a Ele como Deus encarnado, e isso foi proclamado pelos anjos sobre as planícies de Belém (Lucas 2:14). Há uma glória que pertence a Ele, em consequência de Seu ofício e obra de Mediador, e que pode ser devidamente celebrada apenas pelos remidos.

 

“E poder”. Isto, também, pertence a Ele em primeiro lugar por direito como o Deus eterno. Como tal o domínio de Cristo é não-derivado e supremo. Como tal, Ele tem soberania absoluta sobre todas as criaturas, estando o próprio diabo sob Seu domínio. Além disso, o domínio universal também é Seu por mérito. Deus fez “a esse Jesus”, a quem os homens crucificaram, “Senhor e Cristo” (Atos 2:36). Toda autoridade é dada a Ele, tanto no céu como na terra (Mateus 28:18). Isso foi prometido a Ele na aliança eterna como recompensa de Seu grande empreendimento. O reino mediatório de Cristo está fundamentado sobre a Sua morte sacrificial e ressurreição triunfante. Estas dignidades são Suas “para todo o sempre”, pois “Do aumento deste principado e da paz não haverá fim” (Isaías 9:7, cf. Daniel 7:13-14). Por meio de um fiel “Amém”, estabeleçamos o nosso selo à veracidade da declaração de Deus.

Bem-aventurado é isso, que antes de qualquer anúncio seja feito sobre os terríveis juízos descritos no Apocalipse, antes de uma trombeta da desgraça seja tocada, antes de um cálice da ira de Deus ser derramado sobre a terra, os santos (pela bênção inspirada de João) são primeiramente ouvidos louvando no cântico do Cordeiro:

“Aquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados, E nos fez reis e sacerdotes [não para nós mesmos, mas] para Deus e seu Pai [para a Sua honra]; a ele glória e poder para todo o sempre. Amém”!

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♦ Este texto é o Capítulo 14 do Livro A Guide to Fervent Prayer, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: A Guide to Fervent Prayer
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Senhor, Queríamos Ver a Jesus – Robert Murray M’Cheyne

“Ora, havia alguns gregos, entre os que tinham subido a adorar no dia da festa. Estes, pois, dirigiram-se a Filipe, que era de Betsaida da Galiléia, e rogaram-lhe, dizendo: Senhor, queríamos ver a Jesus. Filipe foi dizê-lo a André, e então André e Filipe o disseram a Jesus. E Jesus lhes respondeu, dizendo: É chegada a hora em que o Filho do homem há de ser glorificado. Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto. Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo odeia a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna. Se alguém me serve, siga-me, e onde eu estiver, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, meu Pai o honrará” (João 12:20-26).

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I. A maneira pela qual esses gregos buscaram ao Senhor Jesus.

1. Eles não vieram diretamente a Cristo, mas de uma indireta: “dirigiram-se a Filipe” (v. 21). Se eles tivessem sentido o peso intolerável do pecado que estava sobre eles, ou se eles tivessem visto a graça e a adequação do Senhor Jesus, eles teriam corrido aos Seus pés; mas sua preocupação era verdadeiramente muito leve. Quando os publicanos e pecadores foram despertados sobre suas almas, diz-se que se chegaram a Jesus. Eles não vão para Filipe, ou André, ou a qualquer homem, mas eles são atraídos para perto de Cristo. Eles viram que ele era a Fonte para as suas almas culpadas, e todo o mundo não poderia mantê-los afastados dEle. Quando a mulher que era uma pecadora soube que Jesus estava à mesa na casa do Fariseu, ela prostrou-se aos Seus pés. Ela não pediu licença, ela não conseguiu permanecer em pé, mas lançou a sua alma culpada aos Seus pés, os lavou com as suas lágrimas e enxugou-os com os cabelos da sua cabeça. Assim ainda é. Se você sentiu o peso do pecado como você deve senti-lo, se você sentiu a graça de Cristo como é devido, você romperia a multidão para chegar a Jesus. Você diria: “Dê-me caminho, para que eu possa ir a Ele. Ele me chama, Ele chama o principal dos pecadores. Eis-aqui, Senhor; lava-me no Teu sangue, senão eu morro”. Se você sentir a cor carmesim de sua alma, e crer na gratuidade e plenitude da Fonte, você não pedirá a licença de ninguém, mas irá direto a Jesus.

2. Eles pediram apenas para ver Jesus: “Senhor, queríamos ver a Jesus”. Isso mostra o quão pouco era a seriedade do desejo que eles tinham de serem salvos por Cristo, pela mesma causa Zaqueu subiu na figueira, para ver Jesus, para saber quem Ele era. Pela mesma causa Herodes desejava há muito tempo ver Jesus; pois ele esperava ver algum sinal feito por Ele; assim como você gostaria de ver algum malabarista ou cartomante, com uma curiosidade terrena, mundana. De alguns é dito: “Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes” (João 6:26). Ah! quão diferente quando os homens são verdadeiramente despertados pelo Espírito. Quando Jó estava sob preocupação de alma, seu clamor foi: “Ah, se eu soubesse onde o poderia achar! Então me chegaria ao seu tribunal” [Jó 23:3]. Quão diferente é o clamor da noiva: “Agarrei-me a ele, e não o larguei; eu sou do meu amado, e o meu amado é meu;” [Cânticos 3:4; 6:3]. Quão diferente é o clamor de Paulo: “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo, e seja achado nele” [Filipenses 3:8-9]. Oh! Irmãos, se vocês estão sob o ensino do Espírito, a mera visão exterior de Cristo não satisfará a vossa alma. É necessário ter uma visão do coração e deleite do coração dEle. Vocês devem provar e ver que o Senhor é bom. Muitos de vocês gostam de ouvir sobre Jesus, vocês gostam de ser entretidos com as refinadas descrições sobre Jesus; mas se vocês estão sob o ensino do Espírito, nada os satisfará, senão sentarem-se à Sua sombra, a serem achados nEle, para serem a pomba escondida por Sua própria mão nas “fendas das penhas, no oculto das ladeiras” [Cânticos 2:14], serem lavados em Seu sangue, e serem feitos novas criaturas por meio de Seu Espírito.

3. Uma razão de sua pequena preocupação era o temor do homem. A fúria dos inimigos de Cristo estava aumentando mais e mais, poucos dias antes eles chegaram à solene resolução de matá-lO. Não, nós é dito que consultaram como eles também poderiam matar a Lázaro, de tão sanguinários que eles haviam se tornado (v. 10). É-nos dito que muitos dos principais creram nEle; mas não O confessavam por causa dos Fariseus (v. 42). Porque amavam a glória dos homens mais do que a glória de Deus. Não pode haver dúvida, então, que o ardor e a raiva dos inimigos de Cristo amorteceram consideravelmente a preocupação destes gregos. Provavelmente foi isso o que fez com que eles solicitassem primeiro a Filipe. Isso os fez cautelosos em suas palavras: “Senhor, queríamos ver a Jesus”. Como realmente é dito: “O temor do homem leva a uma armadilha!”. O rugido do leão tem levado muitas almas para longe de Cristo. Não é este o caso entre vocês? “O que dirá a minha família; o que dirão os meus companheiros; o que o mundo dirá, se eu fosse a Cristo e renunciasse a tudo por Ele?”. Estes três rugidos do leão têm arruinado muitas almas. Quantos de vocês, por vezes, sentiram um desejo real por serem salvos? Talvez vocês caíram de joelhos e oraram sinceramente para serem libertos. Mas algum companheiro veio, algumas folias foram propostas, e vocês não tiveram a coragem de dizer: “Não”. Vocês gostariam de dizer: “eu comecei a buscar o Senhor, eu fui aos meus joelhos, eu tenho orado para que eu possa ser salvo”; mas vocês não conseguiram dizê-lo, a vossa língua ficou presa às suas mandíbulas; e assim, vocês voltaram ao seu vômito, e a chafurdar na lama. Ai! Vocês amaram mais a glória dos homens do que a glória de Deus. “Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?” [João 5:44]. Que coisa tola é temer a carranca de um verme do pó mais do que a carranca do Deus infinito! Temer o riso do escarnecedor mais do que a frase de Cristo: “Apartai-vos de mim, malditos”, “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo” [Mateus 10:28].

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II. A resposta de Cristo.

1. Ele lhes mostra que Ele tem que morrer antes que os homens O busquem em seriedade: “É chegada a hora em que o Filho do homem há de ser glorificado”. (v. 23). Há algo de muito profundo e solene nesta resposta de Cristo. Ele viu que esses gregos não tinham nenhum senso lancinante de sua necessidade dEle; e Ele explica aos discípulos que é apenas um vislumbre dEle como um Cristo crucificado que atrairá os homens a Ele. Como se Ele dissesse, eu sou como um grão de trigo, se este não for cair na terra e morrer, ele ficará sozinho; mas se for semeado, e morrer, dá muito fruto. Então, se Eu não morrer, os homens não serão atraídos a Mim; mas se Eu morrer pelos pecadores, e deitar-Me na sepultura por eles, então eles serão atraídos a Mim.

(1). A morte do Senhor Jesus é a visão mais despertadora no mundo. Por que essa amável Ser que era desde o princípio o resplendor da glória de Seu Pai, e a expressa imagem da Sua pessoa, degrada-Se a tal ponto de tornar-Se como um pequeno grão de trigo, que é escondido sob a terra e morre? Por que Ele se deita no frio sepulcro rochoso? Não foi que havia ira infinita e indescritível repousando sobre os homens? Será que Cristo choraria sobre Jerusalém, se não houvesse o inferno debaixo dela? Ele teria morrido sob a ira de seu Pai se não houvesse a ira vindoura? Oh! Pecadores confiados e levianos quanto ao Evangelho, ouvintes educados que dizem muitas vezes: “Senhor, queríamos ver a Jesus”, mas que nunca O encontram, vão para o Getsêmani, vejam as Suas agonias indizíveis; vão ao Gólgota, vejam o cálice da ira derramado sobre o Seu coração partido; vão ao sepulcro, vejam o grão de trigo morto colocado no chão. Por que todo esse sofrimento do Único impecável, se não houver ira vindoura sobre a desabrigada cabeça incrédula? Oh! O grão de trigo no chão é a visão mais despertadora no universo.

(2) Esta é a mais visão mais atraente: “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim” [João 12:32]. Aqueles pobres gregos não sentiram muito de sua necessidade de Cristo, mas ainda menos eles viram a Sua adequação para a necessidade deles. Se eles tivessem apenas visto que abrigo para os pecadores havia nas suas feridas, se eles tivessem visto quanto espaço havia para o principal dos pecadores, eles teriam rompido todas as dificuldades para chegarem a Jesus. Nada no mundo os teria mantido afastados de Cristo. O temor do homem teria sido como uma palha; eles não teriam clamado: “Senhor, queríamos ver a Jesus”, mas, “Leva-me tu; correremos após ti” [Cânticos 1:4]”, “Esconda-me nas fendas das rochas”, “faze-me assentar à sombra da macieira”. Foi essa visão que atraiu três mil para Jesus no dia de Pentecostes. O grão de trigo morrendo por nós é a verdadeira magnetita para atrair corações de ferro a Ele. Na magnetita natural, o ferro pode ser retirado novamente, mas a alma uma vez atraída a Cristo nunca mais pode ser afastada.

Oh! Orem por um vislumbre atraidor do Senhor Jesus Cristo. Alguns de vocês estão nesta condição. O Senhor Jesus está de um lado, Satanás do outro, e vocês no meio, e ambos estão atraindo vossas almas. Oh! Oremos para que o Senhor Jesus triunfe. Seus braços abertos na cruz estão chamando vocês, o ferimento no lado está convidando vocês. “Em mim tenhais paz” [João 16:33].

2. Que os homens devem se unir a Ele a qualquer custo (V. 25). Aqueles pobres gregos estavam sob o temor do homem. Eles estavam com medo que serem expulsos da sinagoga, ou talvez se serem chamados galileus ou nazarenos, ou talvez eles seriam ridicularizados, e perderiam a glória dos homens; e isso os fez muito cautelosos em sua abordagem ao Salvador. Agora, o Senhor Jesus mostra-lhes que esta não é a maneira que almas despertadas devem procurá-lo. Como se Ele dissesse: Vá e diga-lhes que ao vir a mim, eles estão vindo para a vida eterna, e, portanto, qualquer outra consideração deve ser posta de lado. Eu sou a única coisa necessária, Eu sou a pérola de grande valor. Aqueles que Me procuram deve deixar de lado tudo o que se interpõe no caminho. Mesmo se eles perderem a sua vida ao virem até Mim, eles encontrariam a vida eterna. “Quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á” [Mateus 10:39]. Aqueles que conhecem o valor real de Cristo farão tudo subordinado à sua buscar por Ele. Aqueles que assim não fizerem nunca encontra-lO-ão.

(1) Considerem quão precioso é Cristo: “Nele está a vida eterna”. NEle há perdão para o mais vil dos pecadores. NEle há doce paz de consciência, a Paz com Deus. NEle há descanso para a alma cansada, o Caminho para o Pai, uma Porta aberta para o rebanho de Deus. NEle há um Manancial de águas vivas, insondáveis riquezas, plenos suprimentos de graça e de verdade para as almas fracas e cansadas. NEle há absolvição no Dia do Juízo, e uma gloriosa coroa. Oh! vocês não deveriam deixar tudo por isso? Será que um desejo, ou um prazer, ou um jogo, ou o sorriso de um amigo, o afastará de tudo isso? “As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam” [1 Coríntios 2:9].

(2.) Considere quão triste é o seu caso sem Ele. O número de seus pecados é infinito: “Males sem número me têm rodeado” [Salmos 40:12]. Seu coração está tão cheio como sempre, pronto para brotar pecado por toda a eternidade. Deus está irado com você todos os dias. Não há refúgio, senão Cristo. Se você não estiver nEle, você nunca será salvo. Você estará fora da arca quando o dilúvio vier. Você baterá e clamará: Senhor! Senhor! mas será tarde demais. Deus será seu inimigo. O grande dia da Sua ira virá, e quem subsistirá? Alguns de vocês tem sentido alguma fagulha de preocupação; vocês nunca sentiram a milionésima parte do que é a verdade. Oh! Então, vocês deixarão que alguma miserável luxúria, ou orgulho, ou algo com aparência de amor, alguma Herodias, o mantenha fora de Cristo?

Seja compelido a apegar-se a Ele a qualquer custo. Se algum negócio vier entre, tomar muito tempo, perturbar os seus Sabaths, o impedir de vir a Cristo, abra mão disto. Se algum prazer lhe seve de embaraço, interrompe as suas convicções, o enfraquece em oração e leitura da Bíblia, vivifica o seu desejo pelo mundo e pelo pecado, renuncie a tal coisa. Se algum amigo estiver entre você e Cristo, se a companhia deles indispõe você a buscar a Cristo, retire de sua mente, se a conversa vã e ridícula deles o traz de volta ao mundo, deixe-os ir. Não importa se eles rirem e zombarem, pensarem que você é estranho, ridículo, o chamarem de metodista; não importa, uma coisa é necessária, Cristo é precioso, a eternidade está próxima. Se você não fizer isso, você perderá a sua alma. Como Paulo, eu considero tudo como perda.

3. Se queremos ser Cristãos, devemos nos entregar ao Seu serviço para sempre. Os pobres gregos diziam: “Senhor, queríamos ver a Jesus”. Jesus aqui diz-lhes que uma mera visão dEle não funcionará: “Se alguém me serve, siga-me”. Muitas pessoas estão dispostas a serem salvas do inferno; mas elas não estão dispostas a entregarem-se a Cristo para serem Seus servos e seguidores; mas todo aquele que está sob o ensino do Espírito, entrega-se para ser do Senhor. Assim foi com Mateus. “E disse-lhe: Segue-me. E ele, levantando-se, o seguiu” [Mateus 9:9]. Aquele que é verdadeiramente ensinado por Deus sente o pecado interior como um fardo maior do que o medo do inferno: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum” [Romanos 7:18]. “Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?” [Romanos 7:24]. Assim, aquela alma está disposta a ser serva de Cristo para sempre, disposta a ter a orelha furada à porta da casa de Cristo.

Isso desvelará os hipócritas. Você está disposto a ser um servo de Cristo, a segui-lO em deveres difíceis, a ser trazido sob as regras do Evangelho? Se não, você é um hipócrita. Considerem o custo de vir a Cristo.

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III.
A recompensa.

1. Vocês estarão com Cristo. Vocês podem ser expulsos por homens, pai e mãe; serem tratados como a escória de todas as coisas. “Hoje estarás comigo no Paraíso” [Lucas 23:43]; estarão com o Cordeiro no Monte Sião. Sentem-se coMigo no Meu trono: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste” [João 17:24].

2. O Pai vos honrará. Vocês perderão o louvor dos homens, talvez de alguns que vocês estimam; mas vocês ganharão a honra de Deus.

(1). Neste mundo. Vós sois um tesouro peculiar. Ele vos guiará com Seus olhos, ouvirá a vossa oração, estará com vocês nas tribulações, vos encherá com o Seu Espírito, dará aos Seus anjos ordens ao vosso respeito, estará com vocês na morte.

(2). Na eternidade. Ele vos receberá, mostrar-lhes-á a Sua salvação, enxugará as lágrimas de seus olhos, será o seu Deus e porção. Jesus vos confessará diante de Seu Pai: Essa alma Me seguiu.

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♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título Original: Sir, We Would See Jesus
♦ A
s citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida e Revisada Fiel)

♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


A Vida e o Ministério de Charles Spurgeon – Por John Piper

Palestra Inaugural sobre Spurgeon no Reformed Theological Seminary. Orlando, Flórida, 10 abril de 2013.

Charles Spurgeon era o tipo de Calvinista que teria celebrado a fundação do Instituto Nicole de Estudos Batistas [Nicole Institute of Baptist Studies] neste Seminário Teológico Reformado não-Batista [Reformed Theological Seminary], em Orlando. Uma das razões pelas quais podemos saber disso é que Spurgeon nomeou George Rogers para ser o primeiro diretor de seu Colégio de Pastores. Rogers era um Congregacional pedobatista. Ele não poderia nem mesmo ter sido um membro da igreja pastoreada pelo próprio Spurgeon, o Tabernáculo Metropolitano1.

Spurgeon era Batista, mas como alguns de nós, e talvez como Roger Nicole, ele nem sempre encontrou os seus mais profundos irmãos-de-alma entre sua própria denominação Batista. Ele colocou isto desta forma:

Se eu discordar de um homem em 99 pontos, mas acontecer de eu ser um com ele no batismo, isto nunca poderia fornecer um fundamento para a unidade, semelhantemente, como eu tenho unidade com outra pessoa por acreditarmos nos mesmos 99 pontos, e só acontecer de divergirmos sobre uma ordenança2.

Na verdade, no final de 1880, durante a Grande Controvérsia do Declínio sobre o liberalismo na União Batista, foram os evangélicos Anglicanos que apoiaram Spurgeon, enquanto ele foi difamado pela maioria dos Batistas mais liberais. Havia na vida e pregação de Spurgeon uma robustez, alegria, seriedade, exaltação de Cristo, uma estima da expiação, centralidade de Deus, de forma que ele sentia uma afinidade com quem tinha esses mesmos instintos, independentemente da denominação. Eis como ele descreveu seu Calvinismo:

Para mim, o Calvinismo significa a colocação do Deus eterno na cabeça de todas as coisas. Eu olho para tudo através de sua relação com a glória de Deus. Eu vejo Deus em primeiro lugar, e o homem muito abaixo nesta lista… Irmãos, se vivemos em sintonia com Deus, temos prazer de ouvi-lO dizer: “Eu sou Deus e não há outro”3.

Ele era um completo Calvinista, não pela adesão a algum sistema ou uma tradição ou denominação, mas porque ele pensava que o Calvinismo era simplesmente um pobre nome para o evangelho bíblico puro-sangue.

O Puritanismo, o Protestantismo, o Calvinismo [disse ele, são simplesmente] … nomes pobres que o mundo tem dado à nossa grande e gloriosa fé — a doutrina do apóstolo Paulo, o evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo4.

É por isso que ele estava livre para e não tinha vergonha de pregar todo o conselho de Deus, mesmo se este fosse chamado de Calvinismo, ele era o Evangelho. “As pessoas vêm a mim por uma coisa… Eu prego-lhes um credo Calvinista e uma moralidade Puritana. Isso é o que eles querem e isso é o que eles recebem. Se eles querem alguma outra coisa eles devem ir para outro lugar”5.

Mas ele estava tão focado na expiação por meio da cruz e na supremacia de Jesus Cristo, que ele podia sentir o aroma do novo nascimento em muitos lugares fora de seu círculo Calvinista.

Longe de mim sequer imaginar que entre os muros de Sião haja somente Cristãos Calvinistas ou que, aqueles que não compartilham das nossas ideias não serão salvos6. [...] Alegro-me em confessar que tenho certeza de que há alguns do povo de Deus mesmo na Igreja de Roma7.

No primeiro domingo no recém-construído Tabernáculo Metropolitano com 5.600 lugares, em Londres, Spurgeon definiu essas coisas em perspectiva. Era 1861, e Spurgeon tinha 27 anos de idade. Ele estava em sua igreja desde que ele tinha 19 anos e agora estava se mudando para um enorme edifício novo.

Eu gostaria de propor que o tema do ministério nesta casa, enquanto este púlpito estiver de pé e esta casa for frequentada por adoradores, seja a pessoa de Jesus Cristo. Eu nunca me envergonho de confessar-me um Calvinista; eu não hesito em levar o nome de Batista; mas se me perguntarem qual é o meu credo, eu respondo: “É Jesus Cristo”8.

Então, eu tenho certeza que ele ficaria satisfeito não só com a fundação do Instituto Nicole de Estudos Batista no RTS, mas também porque estamos aqui principalmente para magnificar a Jesus Cristo e Sua palavra, e não o homem, Charles Spurgeon.

Mas deixe-me dar-lhe apenas uma razão bíblica para fazer da vida deste homem a lente para olharmos para Jesus. Você pode pensar que eu iria para Hebreus 11, que é um grande argumento bíblico para amar biografia Cristã. Mas eu citarei em vez disso Filipenses 3:17: “Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes em nós, pelos que assim andam”. Não basta manter os olhos em Cristo. E não apenas manter seus olhos em Paulo, que imita a Cristo (1 Coríntios 11:1). Mas manter os olhos sobre aqueles que “andam de acordo com o exemplo que você tem em [Paulo]”. Então, primeiro há Cristo, depois Paulo, em seguida, aqueles que seguem o exemplo de Paulo, em seguida, os Filipenses, cada um sendo inspirados e guiados por aqueles que vieram primeiro.

E, certamente, não há nenhuma razão para pensar que esse processo de imitação e inspiração apropriada deve parar após a terceira geração que segue Cristo. Então, eu diria, onde quer que você veja uma vida vivida no poder de Cristo, de acordo com a palavra de Cristo, para a glória de Cristo “mantenha seus olhos sobre esta vida”. Spurgeon é uma dessas vidas e é isso que estamos fazendo.

Charles Haddon Spurgeon nasceu em 19 de junho de 1834 em Kelvedon, Essex, na Inglaterra o primeiro de 17 filhos. Ele foi convertido na idade de 16, notadamente em uma tempestade de neve por meio de um pregador leigo, e um ano mais tarde se tornou o pastor da Capela Waterbeach em Cambridge e nunca teve qualquer formação teológica de maneira formal. No entanto, ele foi, talvez, o pastor mais bem lido na Inglaterra. Os 5.103 volumes de Sua biblioteca pessoal foram comprados em 1906 por William Jewell College, em Liberty, Missouri, por $ 2.500, e, em seguida, em 2006, pelo Midwestern Baptist Seminary, em Kansas City, Missouri, por $ 400.000.

Cerca de três anos mais tarde, em 1854, com a idade de 19, ele começou seu ministério em New Park Street Church, Londres, com cerca de 200 pessoas. Dois anos depois, 1856, ele se casou com Susannah Thompson, que lhe deu dois filhos gêmeos, Charles e Thomas (que sucedeu ao pai como pastor após a morte deste). Ele pregou nesta igreja, que mais tarde passou a chamar-se Tabernáculo Metropolitano, por 38 anos e morreu com a idade de 57 anos em 1892 (quatro anos antes no nascimento de minha avó).

Spurgeon é considerado por muitos como um dos maiores pregadores desde os dias dos apóstolos. Ele havia pregado mais de 600 vezes antes que atingisse os 20 anos de idade. Naqueles tempos pré-rádio, pré-televisão e pré-internet, seus sermões vendiam cerca de 20.000 exemplares por semana sendo traduzidos para 20 idiomas. Os sermões em coleção preenchem 63 volumes equivalentes aos 27 volumes da nona edição da Enciclopédia Britânica, e “se destaca como o maior conjunto de livros escritos por um único autor na história do Cristianismo” 9. Não havia microfones e ele projetou sua voz de forma que mais de 5.000 pessoas pudessem ouvi-lo semana após semana.

Você pode pensar que seu filho seria uma testemunha tendenciosa, mas por outro lado, filhos de pastores são muito frequentemente críticos de seus pais. Não é um juízo distorcido quando Charles diz:

Não havia ninguém que pudesse pregar como o meu pai. Na variedade inesgotável, sabedoria graciosa, proclamação vigorosa, súplica amorosa e ensino lúcido, com uma infinidade de outras qualidades, ele deve, pelo menos em minha opinião, ser considerado como o príncipe dos pregadores10.

E certamente este não é um título ruim para alguém com tais dons extraordinários e notáveis ​​qualidades que o acompanharam na capacidade e realização em uma classe quase sozinho. E o que eu gostaria de fazer no tempo que temos é direcionar sua atenção para duas dessas qualidades que me inspiraram e que oro para que sejam instiladas nos pastores que estão sendo treinados aqui no RTS e por meio do Instituto Nicole de Estudos Batistas.

 

1. Spurgeon amava a verdade centralizada em Deus, que exalta a Cristo, saturada da Bíblia, e exultava sobre isso no púlpito.

Spurgeon definiu o trabalho do pregador da seguinte maneira: “Conhecer a verdade como deve ser conhecida, a amá-la como ela deve ser amada, e depois anunciá-la com o espírito certo, e em suas devidas proporções11”. Ele disse aos seus alunos “para serem pregadores eficazes vocês devem ser teólogos autênticos”12. Ele advertiu que “aqueles que rejeitam a doutrina Cristã são, quer estejam conscientes disso ou não, os piores inimigos da vida Cristã… [porque] as brasas da ortodoxia são necessárias para o fogo de piedade”13.

Dois anos antes de morrer, ele deu uma ilustração de como a verdade fundamental está no ministério e revela algum humor que marcou seu ministério de uma forma muito séria.

Alguns excelentes irmãos parecem pensar mais sobre a vida do que sobre a verdade; pois quando eu lhes aviso que o inimigo tem envenenado o pão dos filhos, eles respondem: “Querido irmão, estamos muito tristes por ouvir isso; e, para neutralizar o mal, vamos abrir a janela e deixar as crianças tomarem ar fresco”. Sim, abriremos a janela e lhes daremos o ar fresco, por todos os meios… Mas, ao mesmo tempo, isso deve ser feito sem, no entanto, deixar o outro por fazer. Prendam os envenenadores e abram as janelas também. Enquanto os homens estiverem pregando falsa doutrina, você pode falar o quanto quiser sobre aprofundar a sua vida espiritual, mas você irá falhar nisto14.

E posso testemunhar que, nos últimos dois meses de transição em nossa igreja, como o meu ministério oficial chegou ao fim, a expressão mais comum de gratidão é daquelas pessoas que dizem que as tempestades de sofrimento não viraram o barco de sua fé por causa do lastro centrado na verdade de Deus — da doutrina teocêntrica — fixada no fundo de seus barcos através da pregação da palavra de Deus. Mas é absolutamente crucial que os pregadores levem a sério três advertências: “Conhecer a verdade como ela deve ser conhecida, amá-la como ela deve ser amada, e depois anunciá-la com o espírito certo, e em suas devidas proporções”.

Paulo fala em 2 Tessalonicenses 2:10 daqueles que “perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem”. Quando pregadores percebem, como Spurgeon fez, que as pessoas perecem por não amarem a verdade, então eles se empenharão para conhecê-la, e amá-la, e proclamá-la na beleza das proporções bíblicas.

A fonte da verdade em todas as pregações de Spurgeon foi a Inspiração de Deus e a inerrância das Escrituras Cristãs. Ele levantou a Bíblia e disse:

Estas palavras são de Deus… Tu livro de grande autoridade de Deus, tu és uma proclamação do Imperador do Céu; longe esteja de mim exercitar minha razão em contradizer-te… Este é o livro que está livre de qualquer erro; antes é a pureza sem mistura, perfeita verdade. Por quê? Porque Deus o escreveu15.

Spurgeon não era apenas um pregador alicerçado na Bíblia, mas um pregador saturado da Bíblia. Minha paixão pelos pregadores jovens de hoje é que eles não pregam sermões que pairam um pouco acima do texto constantemente e fazem pontos que as pessoas não veem no texto, mas que eles explicam o que está no texto de forma clara e exultam sobre o que está no texto apaixonadamente, e que o façam de tal forma que as pessoas possam ver exatamente de onde tiraram o que pregam, as próprias frases, a própria lógica. Spurgeon tem uma famosa passagem em que ele implora para que os pregadores se saturem da Bíblia, não somente se baseiem na Bíblia.

Oh, que você e eu pudéssemos entrar no coração da Palavra de Deus, e ter essa Palavra em nós mesmos! Como eu vi um inseto sobre uma folha comendo-a, e consumindo-a, assim devemos fazer com a Palavra do Senhor; não rasteje sobre sua superfície, mas coma-a para até que ela tenha se apossado de nossas partes mais íntimas. É ocioso apenas deixar o olhar cair sobre a palavra… mas é uma coisa abençoada se alimentar na própria alma da Bíblia, até que, finalmente, você chegue a falar na linguagem bíblica, e seu próprio estilo seja formado nos modelos da Escritura e, o que é melhor ainda, o seu espírito seja aromatizado com as Palavras do Senhor.

Gostaria de citar John Bunyan como um exemplo do que quero dizer. Leia algo de sua autoria, e você verá que é quase como ler a própria Bíblia. Ele havia estudado a nossa Versão Autorizada [KJV]… até que todo o seu ser estivesse saturado com as Escrituras; e, embora seus escritos sejam encantadoramente cheios de poesia, contudo ele não pode dar-nos o seu Progresso do Peregrino —que é o mais doce de todos os poemas em prosa —, sem continuamente nos fazer sentir e dizer: “Ora, o homem é uma Bíblia viva!”. Escolha aleatoriamente qualquer passagem; e você descobrirá que o seu sangue é bíblico, a própria essência da Bíblia flui a partir dele16.

Eu oro para que RTS e o Instituto Nicole de Estudos Batistas sejam carinhosamente conhecido como Reformed Theological Seminary e como o Instituto Nicole de Estudos Batistas Saturados da Bíblia. Spurgeon é um grande exemplo de amor a toda a verdade bíblica e exultação sobre ela no púlpito.

 

2. Spurgeon amava as pessoas e trabalhou para ganhá-las e para edifica-las.

Parece que durante o seu ministério não havia uma semana que passasse sem que almas não fossem salvas através da pregação e publicação de seus sermões17. Ele e seus anciãos estavam sempre a “velar pelas almas” na grande congregação. “Um irmão”, disse ele, “ganhou para si o título de meu cão de caça, pois ele está sempre pronto para pegar os pássaros feridos”18.

Spurgeon nos deixou ver o desejo de seu coração pelo eterno bem das pessoas, quando disse:

Lembro-me de quando eu tenho pregado em momentos diferentes no país, e, por vezes, toda a minha alma agoniza pelos homens, todos os nervos do meu corpo se tencionam e eu poderia ter chorado meu próprio ser através dos meus olhos e levado todo o meu corpo para longe em uma torrente de lágrimas, se eu pudesse apenas ganhar almas” 19.

Ele foi consumido pela glória de Deus e pela salvação dos homens. Ele incorpora as palavras de Paulo em 2 Coríntios 12:15. “Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas”. E 1 Coríntios 9:22: “Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns”. Ele nunca foi levado a estar satisfeito com o que já tinha alcançado, mas sempre avançava (como Paulo em Filipenses 3:14) para uma maior santidade e fecundidade. “Satisfação com os resultados será a sentença de [morte] do progresso. Nenhum homem que é bom acha que ele não pode ser melhor. Ele não tem santidade caso pense que ele é santo o suficiente”20.

No ano em que completou 40 anos de idade, ele pregou uma mensagem para a conferência de seus pastores com o título de uma só palavra, “Avante!”, nela, ele disse:

Na vida de cada ministro deve haver vestígios de trabalho árduo. Irmãos, façam alguma coisa; façam alguma coisa; façam alguma coisa. Enquanto Comitês desperdiçam seu tempo sobre resoluções, façam alguma coisa. Enquanto sociedades e sindicatos estão fazendo constituições, vamos ganhar almas. Muitas vezes discutimos, e discutimos, e discutimos, enquanto Satanás só ri de nós… Vamos sair e trabalhar como homens21.

Parte de sua motivação na maneira incansável de perseguir a salvação dos pecadores era a sua crença fervorosa no futuro, a saber, a punição eterna e as glórias eternas do céu.

Medite com profunda solenidade sobre o destino do pecador perdido… evite todos os pontos de vista sobre o castigo futuro que o fazem parecer menos terrível, e assim deixe transbordar a sua ansiedade para salvar [almas] imortais da chama inextinguível… Pense muito também na felicidade do pecador salvo, e como o santo Baxter, derive argumentos ricos do “Descanso Eterno dos Santos”… não haverá nenhum temor de que você continue letárgico se estiver continuamente familiarizado com as realidades eternas22.

Quando o amor de Spurgeon pela verdade centralizada em Deus, saturada da Bíblia, que exalta a Cristo, alimentaram seu zelo por pecadores a perecer, uma avalanche de energia e ministério resultou disto.

Nenhum vivente sabe a labuta e as preocupações que eu tenho que suportar… Eu tenho que cuidar do Orfanato, tenho a carga de uma igreja com quatro mil membros, às vezes há casamentos e enterros para serem realizados, há o sermão semanal a ser revisto, a Espada e a Espátula para ser editada, e além de tudo isso, uma média semanal de cinco centenas de cartas a serem respondidas. Isso, no entanto, é apenas a metade do meu dever, pois existem inúmeras igrejas estabelecidas por amigos, com os assuntos dos quais eu estou intimamente ligado, para não falar dos casos de dificuldade que são constantemente referidos a mim23.

No seu 50º aniversário foi lida uma lista de 66 organizações que ele fundou e conduziu. Lord Shaftesbury estava lá e disse: “Esta lista de associações, instituídas por seu gênio, e supervisionados por seu cuidado, seriam mais do que suficientes para ocupar as mentes e os corações de cinquenta homens comuns”24.

O missionário David Livingstone, perguntou-lhe uma vez: “Como você consegue fazer o trabalho de dois homens em um único dia?”. Spurgeon respondeu: “Você esqueceu há dois em nós”25. Eu acho que ele quis dizer a presença do poder energizante de Cristo que lemos em Colossenses 1:29. Paulo diz: “para isto também trabalho, combatendo segundo a sua eficácia, que opera em mim poderosamente”. Oh, que cada pastor que veio até aqui aprendesse o segredo de laborar no poder em que Cristo poderosamente opera nele.

Spurgeon permanece como um testemunho do que acontece quando o amor pela centralidade de Deus, pela exaltação de Cristo, e por ser saturado pela verdade da Bíblia alimentam a chama do amor por pessoas — pessoas que estão perecendo sem a verdade — por Deus e por Cristo. Uma explosão de zelo, energia e criatividade em prol da igreja. Tudo isso com o objetivo de glorificar a Deus e trazer os pecadores para desfrutar a plenitude da alegria nEle.

Que Deus faça do Reformed Theological Seminary e do Instituto Nicole de Estudos Batistas um terreno fértil para esse tipo de amor pela verdade e pelas pessoas e para tal energia criativa para o ministério.

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Notas:

[1] Geoff Thomas, “O Progresso do Pregador” em Um Ministério Maravilhoso: Como Todo o Ministério de Charles Haddon Spurgeon Nos Fala Hoje, (Ligonier, PA: Soli Deo Gloria Publications, 1993), p. 61. Spurgeon disse: “preferia desistir de seu pastorado do que admitir qualquer homem para a igreja que não fosse obediente ao mandamento de seu Senhor [sobre o batismo].” Ibid. p. 43.
[2] Ibid. p. 61 (cf. Espada e a Espátula, XXIV, 1883, p. 83).
[3] Charles Haddon Spurgeon, Um Ministério Completo, (Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1960), p. 337.
[4] Um Ministério Completo, p. 160.
[5] Um Ministério Maravilhoso, p. 38.
[6] Um Ministério Maravilhoso, p. 65.
[7] C. H. Spurgeon: Autobiografia, vol. 2, (Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1973), p. 21.
[8] Bob L. Ross, Uma Biografia Ilustrada de C.H. Spurgeon, (Pasadena, TX: Pilgrim Publications, 1974), p. 66.
[9] Eric W. Hayden, “Você Sabia?” em História Cristã, Issue 29, Volume X, n º 1, p. 2.
[10] Autobiografia, vol. 2, p. 278.
[11] Charles Haddon Spurgeon, Um Ministério Completo, p. 8.
[12] Ibid.
[13] Um Ministério Maravilhoso, p. 128.
[14] Um Ministério Completo, p. 374.
[15] Um Ministério Maravilhoso, p. 47.
[16] Autobiografia, vol. 3, p. 268.
[17] Arnold Dallimore, Spurgeon, (Chicago: Moody Press, 1984), p. 198.
[18] Autobiografia, vol. 2, p. 76.
[19] Um Ministério Maravilhoso, pp. 49-50.
[20] Um Ministério Completo, p. 352.
[21] Um Ministério Completo, p. 55.
[22] Charles Spurgeon, Lições aos Meus Alunos, p. 315.
[23] Autobiografia, vol. 2, p. 192.
[24] Dallimore, Spurgeon, p. 173.
[25] Eric W. Hayden, “Você Sabia?” em História Cristã, Issue 29, Volume X, n º 1, p. 3.

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♦ Por John Piper. © 2014 Desiring God Foundation.
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Fonte: Website: desiringGod.org | Título Original: The Life and Ministry of Charles Spurgeon
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por William Teixeira | Revisão por Camila Almeida


Como Saber se Sou um Eleito de Deus ou A Manifestação da Eleição – Arthur Walkington Pink

Até agora temos permanecido principalmente no lado doutrinal da eleição; agora nos voltamos mais diretamente ao seu aspecto experimental e prático. Toda a doutrina da Escritura é uma unidade perfeita e harmoniosa, mas para nossa compreensão mais clara da mesma, ela pode ser considerada distintamente em suas partes componentes. Estritamente falando, é inadmissível falar de “doutrinas da graça”, pois há apenas uma grande e divina Doutrina da graça, embora o precioso diamante tenha muitas facetas em si. Nós não somos assegurados pela linguagem da Sagrada Escritura para empregar a expressão de doutrinas da eleição, regeneração, justificação e santificação, pois na realidade elas são apenas partes de uma doutrina; entretanto, não é fácil encontrar um termo alternativo. Quando o plural “doutrinas” é usado na Palavra de Deus, isso faz alusão ao que é falso e errôneo: “doutrinas dos homens” (Colossenses 2:22), “doutrinas de demônios” (1 Timóteo 4:1), “doutrinas várias e estranhas” (Hebreus 13:9) – “diversas”, porque não há acordo entre elas.

Ao contrário das doutrinas falsas e conflitantes dos homens, a verdade de Deus é um grande e consistente todo, e é uniformemente citado como “a doutrina” (1 Timóteo 4:16), “sã doutrina” (Tito 2:1). Sua marca distintiva é descrita como “a doutrina que é segundo a piedade” (1 Timóteo 6: 3) – a doutrina que produz e promove a piedade. Cada parte desta doutrina é intensamente prática e experimental em todos os seus aspectos. Não é mera abstração dirigida ao intelecto, mas, quando devidamente apreendida, exerce uma influência espiritual no coração e na vida. Assim, é com essa fase particular da doutrina de Deus, que está agora diante de nós. A bendita verdade da eleição é revelada não para especulação carnal e controvérsia, mas para produzir os belos frutos da santidade. A escolha é de Deus, mas os efeitos salutares estão em nós. É verdade que a doutrina deve ser aplicada pelo poder do Espírito Santo para a alma antes que esses efeitos sejam produzidos; pois aqui, como em todos os lugares, somos totalmente dependentes de Suas operações graciosas.

O primeiro efeito produzido na alma pela aplicação, pelo Espírito, da verdade da eleição Divina é a promoção da verdadeira humildade. O orgulho e a presunção agora recebem a sua ferida mortal, a auto-complacência é quebrada, e o sujeito desta experiência é abalado em seus próprios fundamentos. Ele pode, por anos passados ter feito uma profissão de fé Cristã, e não ter entretido quaisquer dúvidas sérias sobre a sinceridade e autenticidade da mesma. Ele pode ter tido uma forte e inabalável segurança de que ele estava peregrinando para o céu; e durante esse tempo ele era completamente ignorante da verdade da eleição. Mas que mudança veio sobre ele! Agora que ele aprende que Deus fez uma escolha eterna dentre os filhos dos homens, ele está profundamente preocupado para saber se ele é ou não um dos favoritos do céu. Percebendo algo das enormes questões envolvidas, e dolorosamente consciente de sua própria depravação total, ele fica cheio de temor e tremor. Isso é mais doloroso e inquietante, pois ele ainda não sabe que tais exercícios de alma são um sinal saudável.

É exatamente por causa da pregação da eleição, quando acompanhada pelo poder do Espírito Santo (e que pregação é mais projetada para ter Sua bênção do que a que mais magnifica a Deus e humilha o homem!?) produz tal angústia de coração, que é muitíssimo desagradável para aqueles que desejam estar “à vontade em Sião”. Nada é mais projetado para expor uma profissão vazia, para despertar as adormecidas vítimas de Satanás. Mas, infelizmente, aqueles que não têm nada melhor do que uma segurança carnal não desejam ter sua falsa paz perturbada, e, consequentemente, eles são os mesmos que ficam mais exaltados em seus protestos contra a proclamação da graça distintiva. Mas o uivo e vociferação de cães não é nenhuma razão para que os filhos de Deus sejam privados de seu pão necessário. E não importa o quão desagradável seja os primeiros efeitos produzidos nele pela recepção de coração desta verdade, não demorará muito para que a pessoa humilhada seja verdadeiramente grata por aquilo que faz com que ele cave mais profundamente e se certifique de que sua esperança está fundada sobre a Rocha Eterna.

O castigo Divino é uma coisa dolorosa; no entanto, para os que são exercitados nele, ele depois produz um fruto pacífico de justiça (Hebreus 12:11). Por isso, é uma coisa grave para nossa complacência o sermos rudemente despedaçados, mas se a consequência for que trocamos uma falsa confiança por uma segurança biblicamente fundamentada, temos de fato motivo para fervoroso louvor. Pois, descobrir que o propósito da graça de Deus é restrito a um povo eleito, é alarmante para quem imaginou que Ele ama todos os homens igualmente. Ser levado a pensar seriamente se eu sou um daqueles que Deus escolheu em Cristo antes da fundação do mundo, levanta uma questão que não é fácil de responder de forma satisfatória; e ser levado a investigar diligentemente o meu estado atual, examinar-me solenemente diante de Deus, é uma tarefa na qual nenhum hipócrita prosseguirá; ainda assim, é uma tarefa da qual o regenerado não retrocederá, pelo contrário, a buscará com zelo ardente e fervorosa oração a Deus por ajuda nisso.

Não é (como alguns tolamente supõem) que aquele que está agora tão seriamente preocupado com sua condição espiritual e destino eterno está em tal alarme porque ele duvida da Palavra de Deus. Longe disso, é somente porque ele acredita na Palavra de Deus que ele duvida de si mesmo, duvida da validade de sua profissão de fé Cristã. É porque ele acredita nas Escrituras quando elas declaram que o rebanho do Senhor é um “muito pequeno” (em grego, Lucas 12:32), ele está com medo de que ele não pertença a ele. É porque ele acredita em Deus, quando Ele diz: “Há uma geração que é pura aos seus próprios olhos, mas que nunca foi lavada da sua imundícia” (Provérbios 30:12), e por ele encontrar tanta sujeira em sua própria alma, que ele treme com medo de que isso seja verdade sobre ele. É porque ele acredita em Deus, quando Ele diz: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jeremias 17:9), que ele está profundamente exercitado para não ser fatalmente enganado. Ah, meu leitor, quanto mais firmemente cremos na Palavra de Deus, mais causa temos para duvidarmos de nós mesmos.

Obter a segurança de que eles receberam um chamado sobrenatural de Deus, que os trouxe da morte para a vida, é uma questão de interesse fundamental para aqueles que realmente valorizam suas almas. Aqueles a quem Deus concedeu um coração honesto abominam a hipocrisia, a recusam-se a tomar qualquer coisa como garantido, e muitos temem que eles ponham sobre si mesmos um veredicto mais favorável do que é justo. Outros podem rir de sua preocupação e zombar de seus temores, mas isso não os mobiliza. Muito está em jogo para um tal assunto ser leve e rapidamente descartado. Eles sabem muito bem que esse assunto é aquele que deve ser resolvido na presença de Deus, e se eles estiverem enganados, eles Lhe pedem para fazê-los conscientes disso. É Deus quem os feriu, e somente Ele pode curá-los; é Deus quem tem perturbado a sua complacência carnal, e ninguém senão Ele pode dar descanso espiritual real.

É possível que uma pessoa, nesta vida, realmente conheça a sua eleição eterna de Deus? Os Papistas respondem dogmaticamente que nenhum homem pode certamente conhecer sua própria eleição, a menos que seja autenticada por alguma revelação especial, imediata e pessoal de Deus. Mas isso é manifestamente falso e errôneo. Quando os discípulos de Cristo voltaram de sua viagem de pregação e relataram-lhe as maravilhas que haviam feito e estando animados que até mesmo os demônios se sujeitaram a eles, Ele lhes ordenou: “Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lucas 10:20). Não é perfeitamente claro nestas palavras de nosso Salvador que os homens podem alcançar um conhecimento seguro de sua eleição eterna? Certamente não podemos, nem iremos, nos alegrar com as coisas que são desconhecidas ou nem mesmo nas coisas incertas.

Será que Paulo não ordenou aos Coríntios: Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos” (2 Coríntios 13:5)? Aqui isso é certamente tomado como garantido que aquele que tem fé pode saber que ele a tem e, portanto, também pode conhecer a sua eleição, pois a fé salvadora é uma marca infalível da eleição: “e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48). Quem dera que mais ministros tomassem uma página do livro do apóstolo e exortasse os seus ouvintes ao real autoexame, é verdade, isso não aumentaria a sua atual popularidade, mas isso provavelmente resultaria em ação de graças de alguns dos seus ouvintes em um dia futuro. Outro dos apóstolos não exorta os seus leitores: “Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição” (2 Pedro 1:10)? Mas que força tal injunção possui se a segurança for inatingível nesta vida? Seria completamente inútil usar diligência se o conhecimento da nossa eleição fosse impossível sem que tivéssemos uma revelação extraordinária de Deus.

Mas como pode um homem vir a conhecer a sua eleição? Certamente não é ascendendo como se fosse para o céu, para ali pesquisar nos conselhos de Deus, e depois descer por si mesmo. Nenhum de nós pode obter acesso ao livro da vida do Cordeiro, os decretos de Deus são secretos. No entanto, é possível que os santos saibam que estão entre aquele ajuntamento a quem Deus predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho. Mas como? Não por alguma revelação extraordinária de Deus, pois em nenhum lugar a Escritura promete qualquer coisa para as almas exercitadas. Spurgeon coloca isso francamente quando disse: “Nós sabemos de alguns que imaginam ser eleitos por causa de uma visão que eles viram quando estavam dormindo, ou quando eles estavam acordados – pois os homens têm tido sonhos quando acordados; mas estas são de tanto valor quanto teias de aranha seriam para uma veste, elas serão de tanta utilidade a eles no dia do juízo, quanto as convicções de um ladrão seria para ele se ele estivesse precisando de uma reputação para encomendá-lo à misericórdia “(Sermão em 1 Tessalonicenses 1:4-6).

A fim de verificar a nossa eleição, temos de descer em nossos próprios corações, e, em seguida, subir de nós mesmos como se fosse pela escada de Jacó para o propósito eterno de Deus. É por meio dos sinais e testemunhos descritos nas Escrituras, que devemos procurar dentro de nós mesmos e, a partir deles descobrir o conselho de Deus concernente à nossa salvação. Ao fazer esta afirmação, não estamos esquecidos do comentário satírico com o que é provável encontrar-se em determinados locais. Há uma classe de Cristãos professos que não entretém quaisquer dúvidas sobre a sua salvação, que amariam dizer isso tanto quanto como olhar para um iceberg em busca de calor ou em um túmulo para encontrar sinais de vida, ou como a buscar dentro de nós mesmos as provas do novo nascimento. Mas não é semelhante blasfêmia sugerir que Deus o Espírito pode fazer a Sua residência em uma pessoa e ainda assim que não haja evidências definitivas de Sua presença.

Há dois testificadores para o crente a partir do que ele pode certamente aprender os conselhos eternos de Deus com respeito à sua salvação: o testemunho do Espírito de Deus e o testemunho de seu próprio espírito (Romanos 8:16). Por estes meios é que o Espírito de Deus fornece testemunho de uma consciência Cristã a partir da palavra, senão, antes por Sua aplicação das promessas do Evangelho, na forma de um silogismo: Todo aquele que crê em Cristo é escolhido para a vida eterna. Essa proposição está claramente estabelecida na Palavra de Deus, e é expressamente proposta por Seus ministros do evangelho. O Espírito de Deus acompanha a pregação deles com poder eficaz, para que os corações dos eleitos de Deus sejam abertos para receber a verdade, com os olhos iluminados para perceber a sua bem-aventurança, e suas vontades modificadas para renunciarem a todas as outras dependências e entregarem-se à misericórdia de Deus em Cristo.

Mas, surge a pergunta: como posso distinguir entre o testemunho do Espírito e a imitação ilusória de Satanás disso? Pois, assim como há uma segura persuasão do favor de Deus a partir de Seu Espírito, há também fraudes do Diabo pela qual ele lisonjeia e acalma os homens em seus pecados. Além disso, existe em todos os homens presunção natural, que é muitas vezes confundida com fé, na verdade, há muito mais desta fé-zombadora no mundo do que há da verdadeira fé. É realmente trágico encontrar que há multidões no mundo religioso de hoje, que são conduzidas pelo “fogo estranho” do entusiasmo selvagem, supondo que o entusiasmo de seus espíritos carnais e emoções são prova segura de que eles receberam o “batismo do Espírito” e, assim, estão seguros do céu. No outro extremo, há um grande número de pessoas que desdenha e desacredita de todos os sentimentos religiosos e fixa a sua fé em um: “Estou descansando em João 5:24”, e se vangloria de que eles não tiveram dúvida de sua salvação por muitos anos no passado.

Ora, o verdadeiro testemunho do Espírito pode ser discernido da presunção natural e enganação satânica por seus efeitos e frutos. Primeiro, o Espírito concede aos eleitos de Deus corações orantes. “E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles?” (Lucas 18:7). Observe quão diretamente, após fazer essa declaração, o Senhor Jesus passou a dar uma ilustração da natureza de sua oração. É verdade que os formalistas e hipócritas oram, mas muito diferente é esta oração deles do clamor daqueles que estão conscientes do pecado, sobrecarregados de culpa, que fazem parte do aflito povo de Deus, como se evidencia a partir do vívido contraste entre o fariseu e o publicano. Ah, não faremos esta oração que caracteriza os eleitos de Deus até que sejamos levados a sentir a nossa indignidade absoluta e merecimento do Inferno, nossa ruína e desventura, nossa miséria e dependência absoluta da graça soberana de Deus, então, começamos a “clamar” a Ele e isso, “de dia e de noite”, orar experimentalmente, orar com perseverança, orar com “gemidos inexprimíveis”, e, portanto, orar eficazmente.

Olhemos por um momento, para uma oração de um daqueles que pertencem ao povo de Deus, “Lembra-te de mim, Senhor, segundo a tua boa vontade para com o teu povo; visita-me com a tua salvação” (Salmos 106:4). Agora meu leitor, ou você quer buscar sinceramente este favor pelo qual o Senhor se lembra de Seu povo, ou você não quer. É somente quando somos levados para o lugar onde somos pressionados para baixo com um senso de nossa pecaminosidade e vileza que podemos dizer em nossas almas diante de Deus: “Oh, visita-me com a tua salvação”. Mas o salmista não parou por aí, nem mais nós devemos; ele passou a dizer: “Para que eu veja os bens de teus escolhidos, para que eu me alegre com a alegria da tua nação, para que me glorie com a tua herança” (v. 5). Os eleitos de Deus oram e buscam pelo que nenhum outro homem ora e busca: eles querem ver o bem dos escolhidos de Deus, buscam ser salvos com a sua salvação, e permanecer na condição de Sua aliança e fundamento eternos.

Um segundo efeito do testemunho do Espírito é que ele nos leva a nos submetermos à soberania de Deus. Não somente os eleitos de Deus oram por algo que nenhum outro homem ora, mas o fazem de uma forma diferente de todos os outros. Eles se aproximam do Todo-Poderoso não como iguais, mas como mendigos; eles fazem “pedidos” a Ele, e não exigências; e apresentam as suas petições em estrita subserviência à Sua vontade imperial. Quão completamente diferentes são as suas humildes petições da arrogância e do ditatorialismo de professos vazios. Eles sabem que não têm direitos sobre o Senhor, que eles não merecem misericórdia de Suas mãos, e, portanto, eles não levantam protestos contra a Sua afirmação expressa, “Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Romanos 9:15). Essa pessoa cujo coração é habitado pelo Espírito de Deus toma o seu lugar no pó, e diz com piedoso Eli: “Ele é o Senhor; faça o que bem parecer aos seus olhos” (1 Samuel 3:18).

Lemos em Mateus 20:3 sobre uma série de homens “que estavam ociosos no mercado”, o que entendemos significar que eles não estavam ativamente engajados no serviço do Diabo, mas que ainda não tinha entrado no serviço a Deus. Sua atitude era indicativa de um desejo de serem religiosos. Muito bem, disse o Senhor, vão trabalhar na minha vinha. Mas um pouco mais tarde, o Senhor da vinha exibiu Sua soberania, e eles ficaram muito descontentes. O Senhor deu ao último o mesmo que aos primeiros, e então murmuravam. O Senhor respondeu: “Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?” (v. 15). Isso foi o que os ofendeu; eles não queriam se submeter à Sua soberania, não obstante, Ele a exerceu. “Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?”. Ele perguntou e ainda pergunta a cada um daqueles que, no orgulho e incredulidade de seu próprio coração, se levanta contra a distintiva graça de Deus. Mas não é assim com os eleitos de Deus, eles se curvam diante de Seu trono e entregam-se inteiramente em Suas mãos.

Em terceiro lugar, os eleitos de Deus têm comunicado a eles um espírito filial, de forma que eles têm afeições de filhos obedientes ao seu Pai celestial. Isso inspira-os com um temor de Sua majestade, a fim de que eles estejam conscientes de todo caminho mau. Isso inclina os seus corações ao amor de Deus, de modo que eles desejam o gozo consciente de Seu rosto sorridente, estimando a comunhão com Ele acima de todos os outros privilégios. Esse espírito filial produz confiança para com Deus, de modo que eles suplicam as Suas promessas, contam com a Sua misericórdia, e confiam em Sua bondade. Sua elevada autoridade é respeitada e eles tremem da Sua Palavra. Esse espírito filial produz sujeição a Deus, de forma que eles desejam obedecê-lO em todas as coisas, e sinceramente se esforçam para andar de acordo com os Seus mandamentos e preceitos. É verdade que eles estão ainda muito longe de serem o que eles deveriam ser, e do que eles gostariam de ser, se seus sinceros anseios fossem realizados; no entanto, o seu fervoroso desejo é agradá-lO em todos os seus caminhos.

“O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Romanos 8:16). O ofício de uma “testemunha” é testemunhar ou apresentar evidência com a finalidade de produção de prova, seja de inocência ou culpa. Isso pode ser visto a partir de: “Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” (Romanos 2:15). Embora os Gentios não tinham recebido uma revelação escrita de Deus (como foi o caso com os Judeus), no entanto, eles eram Suas criaturas, responsáveis a Ele, sujeitos à Sua autoridade, e ainda serão julgados por Ele. Os fundamentos em que a sua responsabilidade repousa são: a revelação que Deus fez de Si mesmo na natureza que os torna “inescusáveis” (Romanos 1:19-20) e da obra da lei escrita em seus corações, que é a racionalidade ou “a luz da natureza”. Seus instintos morais os instruem na diferença entre o certo e o errado e alertam para um dia futuro de acerto de contas. Enquanto a sua consciência “testemunha”, fornece evidência de que Deus é o seu governador e juiz.

Agora, o Cristão tem uma consciência renovada, e isso fornece a prova de que ele é uma pessoa renovada e, consequentemente, um dos eleitos de Deus. “Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente” (Hebreus 13:18), a inclinação de seu coração era para Deus e obediência a Ele. Não apenas o Cristão sinceramente deseja honrar a Deus e ser honesto com seus companheiros, mas ele faz um verdadeiro esforço para isso: “E por isso procuro sempre ter uma consciência sem ofensa, tanto para com Deus como para com os homens” (Atos 24:16). E é o ofício de uma boa consciência testemunhar favoravelmente para nós e a nós. A isso o Cristão pode recorrer. Paulo fez isso uma e outra vez, por exemplo, em Romanos 9:1 nós o encontramos declarando: “Em Cristo digo a verdade, não minto (dando-me testemunho a minha consciência no Espírito Santo)”, o que significa que a sua consciência testemunhou a sua sinceridade no assunto. Assim, vemos mais uma vez como a Escritura interpreta a Escritura: Romanos 2:15 e 9:1 definem o significado de “nosso espírito carregando o testemunho” – produzindo evidência, estabelecendo a veracidade de um caso.

Romanos 8:16 declara que o nosso espírito (suprido pelo Espírito Santo) fornece prova que somos “filhos de Deus”, e, como o apóstolo prossegue em mostrar que se somos filhos somos “logo herdeiros” (v. 17) e “escolhidos de Deus” (v. 33). Agora, este testemunho de nosso espírito é o testemunho do nosso coração e consciência, purificados e santificados pelo sangue de Cristo. Isso testifica de duas maneiras, por sinais interiores em si mesmos, e por provas externas. Como isso é tão pouco compreendido atualmente, devemos nos estender sobre este assunto. Esses sinais internos são certas graças especiais implantadas em nosso espírito no novo nascimento, pelo que uma pessoa pode ter, certamente, a certeza de sua adoção Divina, e, portanto, de sua eleição para a salvação. Esses sinais relacionam-se primeiro aos nossos pecados, e, segundo à misericórdia de Deus em Cristo. E por uma questão de clareza, consideraremos o primeiro em conexão com os nossos pecados passados, presentes e futuros.

O testemunho ou sinal em nosso “espírito” ou coração, que diz respeito aos pecados passados é a “tristeza segundo Deus” (2 Coríntios 7:10), que é realmente uma graça mãe de muitos outros dons e graças de Deus. A natureza dela pode ser melhor concebida, se a compararmos com o seu oposto que é a tristeza segundo o mundo que emana do pecado, e nada mais é do que o terror de consciência e de uma apreensão da ira de Deus por causa da consciência do pecado; ao passo que a tristeza segundo Deus, embora seja de fato ocasionada por nossos pecados, nasce de uma dor de consciência causada por uma sensação daquela bondade e graça de Deus. A tristeza do mundo consiste em horror somente em relação ao castigo, ao passo que a tristeza segundo Deus é tristeza pelo pecado como pecado, que é aumentada pela percepção de que não haverá punição pessoal para ele, desde que tal punição foi infligida a Cristo em meu lugar. A fim de que ninguém engane-se em discernir esta “tristeza segundo Deus”, o Espírito Santo em 2 Coríntios 7:11 deu sete marcas pelas quais ela pode ser identificada.

A primeira marca é: “Porque, quanto cuidado não produziu isto mesmo [“tristeza segundo Deus”] em vós”. A palavra para “cuidado” significa em primeiro lugar “pressa” e, em seguida, diligência – é o oposto de negligência e de indiferença. Não existe apenas lamentação, mas prosseguir para o esforço com uma vontade, de modo a corrigir a má conduta. Em segundo lugar, “que apologia”: a palavra Grega significa “desculpar-se”, buscando o perdão – é o inverso da auto-atenuação. Em terceiro lugar, sim, “que indignação” em vez de indiferença, o penitente fica extremamente irado consigo mesmo por cometer tais delitos. Quarto, “que temor”, para que não haja qualquer repetição do mesmo, é uma ansiedade de espírito contra mais uma queda. Em quinto lugar, “que saudades” [ou “que desejos veementes” na KJV – N. do R.], pela Divina ajuda e força contra qualquer recorrência no mesmo. Sexto, “que zelo”, no cumprimento dos deveres sagrados que são o oposto daqueles pecados. Sétimo, “que vingança!”, sobre si mesmo, por diária mortificação de seus membros. Quando um homem encontra esses frutos em si mesmo, ele não precisa duvidar da “piedade” de seu arrependimento.

O testemunho em nosso espírito com respeito aos pecados atuais é a resistência feita pela nova natureza contra a velha, ou o princípio da santidade contra aquele princípio do mal (cf. Gálatas 5:17). É próprio do regenerado na medida em que eles são criaturas duplas: filhos dos homens e filhos de Deus. É muito mais do que os controles de consciência que todos os homens, bons e maus, encontram em si mesmos quantas vezes ofendem a Deus. Não, isso é aquele esforço e luta da mente, afeições e com eles mesmos, sendo que na medida em que são renovados e santificados eles conduzem o homem de uma maneira, e como eles ainda são corruptos, levam-no para o lugar contrário. É esta guerra dolorosa e prolongada que o Cristão descobre estar acontecendo dentro de si, é que evidencia que ele seja uma nova criatura em Cristo. Se ele analisa e recorda o passado, ele nada encontrará como isso antes de sua experiência de regeneração.

Tudo no natural prenuncia realidades espirituais, que nós apenas tivéssemos olhos para ver e entendimentos para interpretá-los corretamente. Existe uma doença chamada ephialtes (pesadelo) que faz com que suas vítimas, quando estão quase dormindo, sintam-se como se algum peso pesado estivesse colocado sobre o seu peito, levando-os para baixo; e eles se esforçam com as mãos e os pés, com todas as suas forças, para remover esse peso, mas não conseguem. Tal é o caso do Cristão genuíno: ele está consciente de algo dentro que o arrasta para baixo, que corta as asas da fé e esperança, que dificulta suas afeições sendo estabelecidas sobre as coisas do alto. Isso o oprime e ele luta contra isso, mas em vão. Isso é a “carne”, suas corrupções inatas, o pecado interior, contra a que todas as graças da nova natureza se esforçam e lutam. É um fardo intolerável que perturba seu descanso, e impede-o de fazer as coisas que ele gostaria.

O sinal em nosso espírito que relaciona-se aos pecados futuros é um grande cuidado para evitá-los. Que isso é uma marca dos filhos de Deus aparece em: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca” (1 João 5:18). Observe cuidadosamente o tempo do verbo, não é “ele não peca”, mas “não peca”, como uma prática regular e curso constante. A partir disso ele “conserva-se a si mesmo”. Este cuidado consiste não apenas na ordenação de nossa conduta exterior, mas se estende aos próprios pensamentos do coração. Foi a isso que o apóstolo se refere quando disse: “Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão” (1 Coríntios 9:27), não o seu corpo físico, mas o corpo do pecado dentro dele. Quanto mais somos conscientes de maus pensamentos e imaginações ilícitas, mais nós estabelecemos um julgamento sobre os nossos motivos, menos provável é que o nosso comportamento externo seja desagradável a Deus.

Passamos agora a considerar os testemunhos ou sinais no espírito do Cristão com relação à misericórdia de Deus, os sinais que evidenciam que ele seja um dos eleitos de Deus. O primeiro é quando um homem sente-se ser muito sobrecarregado e profundamente perturbado com a culpa e contaminação de suas iniquidades, e quando ele apreende o severo desprazer de Deus em sua consciência devido a eles. Isso supera em muito quaisquer males físicos ou calamidades temporais a que ele esteja sujeito. O pecado é agora o seu maior fardo de todos, tornando-o incapaz de desfrutar de prazeres mundanos ou saborear a associação com companheiros mundanos. Agora é que ele sente sua urgente necessidade de Cristo, e anela por Ele como o cervo brama pela corrente das águas. Ambições carnais e esperanças mundanas se desvanecem em insignificância absoluta diante deste anseio irresistível pela reconciliação com Deus através dos méritos do Redentor. “Dá-me a Cristo, senão eu morro”, é agora o seu clamor agonizante.

Agora, para todas essas almas enfermas pelo pecado, com consciências atormentadas, convencidas do pecado pelo Espírito, Cristo fez algumas grandiosíssimas e preciosas promessas, promessas que não se relacionam a ninguém, senão aos eleitos vivificados por Deus. “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” (João 7:37-38). Isso não é exatamente adequado às necessidades profundas de quem sente as chamas do inferno em sua consciência? Ele tem fome e sede de justiça, porque ele sabe que não tem nada de si mesmo. Ele tem sede de paz, pois ele não tem nenhuma, de dia ou de noite. Ele tem sede de perdão e purificação, pois ele vê-se como sendo um leproso criminoso. Então, vinde a Mim, diz Cristo, e eu atenderei a todas as suas necessidades. “A quem quer que tiver sede, de graça lhe darei da fonte da água da vida” (Apocalipse 2 1:6). E observe que se segue, assim, à sua vinda a Cristo: “Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna” (João 4:14).

O segundo sinal é uma nova afeição que é implantada no coração pelo Espírito Santo, pelo que um homem assim estima, valoriza e estabelece um preço tão alto em relação ao sangue e a justiça de Cristo que ele considera as coisas mais preciosas do mundo apenas como escória e esterco em comparação aqueles. Essa afeição foi evidenciada por Paulo (veja Filipenses 3:7-8). Agora, é verdade que quase todos os professos dirão que eles valorizam a Pessoa e a obra de Cristo acima de todas as coisas deste mundo, quando o fato é que a grande maioria deles tem o ânimo Esaú, preferindo um prato de lentilhas à porção de Jacó. Com pouquíssimas exceções aqueles que carregam o nome de Cristãos preferem muito mais as panelas de carne do Egito do que as bênçãos de Deus na terra prometida. Suas ações, suas vidas o demonstram, pois, onde está o tesouro de um homem, ali está o seu coração.

Que nenhum homem possa enganar-se em relação a este sinal particular da regeneração e da eleição, Deus nos deu duas marcas de identificação e comprovação. Em primeiro lugar, quando há uma genuína valorização e deleite em Cristo acima de todos os outros objetos, há um amor sincero pelos Seus membros. “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” (2 João 3:14), ou seja, tais que são membros do corpo místico de Cristo, e porque eles assim o são. Aqueles que são valiosos para Deus devem ser valiosos para o Seu povo. Não importa que diferenças possam haver entre eles, na nacionalidade, posição social, temperamento pessoal, há um vínculo espiritual que os une. Se Cristo estiver habitando em meu coração, então meus afetos serão necessariamente inclinados a todos em quem eu percebo, embora fracamente, os contornos de Sua santa imagem. E na medida em que eu permito que o espírito de animosidade me afaste deles, a evidência de minha eleição será obscurecida.

A segunda marca que evidencia uma verdadeira valorização de Cristo é um amor e anelo por Sua vinda, quer seja pela morte ou por Seu segundo advento. Embora a natureza retroceda da dissolução física, e embora o pecado que habita no Cristão faça-o desconfortável com a ideia de ser levado à presença imediata do Santo de Deus, no entanto, os atos da nova natureza elevam a alma acima desses obstáculos. Um coração renovado não pode ficar satisfeito com a sua comunhão presente, intermitente, e imperfeita com o seu Amado. Ela anseia por comunhão plena e completa com Ele. Este foi claramente o caso com Paulo: “tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor” (Filipenses 1:23). Que isso não era peculiar a si mesmo, mas algo que é comum a toda a eleição da graça, aparece a partir de sua palavra: “Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda” (2 Timóteo 4:8).

Em seguida, voltamos para o sinal externo de nossa adoção. Esta é a obediência evangélica, segundo a qual o crente sinceramente se esforça para obedecer aos mandamentos de Deus em sua vida diária. “E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos” (1 João 2:3). Deus não julga a desobediência pelo rigor da Lei pois, então, isso não seria sinal de graça, mas um meio de condenação. Antes, Deus estima e considera esta obediência de acordo com o teor da nova aliança. Quanto àqueles que O temem o Senhor declara: “poupá-los-ei, como um homem poupa a seu filho, que o serve” (Malaquias 3:17). Deus preza as coisas feitas não por seus efeitos ou por fazê-las de algum modo, mas pela afeição de quem as faz. É para o coração que Deus olha principalmente. E, no entanto, para que ninguém se engane quanto a este ponto, que as seguintes qualificações sejam ponderadas, em oração.

Essa obediência externa, que Deus requer de Seus filhos, e que, por amor a Cristo, Ele aceita deles, não é aquela que tem relação apenas a alguns dos mandamentos Divinos, mas a todos sem exceção. Herodes ouviu o Batista de bom grado, e fez muitas coisas (Marcos 6:20), mas se desviou da observância ao sétimo mandamento que o ordenava a deixar a mulher de seu irmão Filipe. Judas deixou o mundo por Cristo, e tornou-se um pregador do evangelho, mas ele não conseguiu mortificar a concupiscência da cobiça, e pereceu. Pelo contrário Davi exclamou: “Então não ficaria confundido, atentando eu para todos os teus mandamentos” (Salmos 119:6). Aquele que se arrepende de um pecado verdadeiramente, se arrepende de todos os pecados, e aquele que vive em algum pecado conhecido, sem arrependimento, de fato não se arrepende de nenhum pecado em absoluto.

Mais uma vez, para nossa obediência externa ser aceitável a Deus, deve estender-se a todo o curso da vida de um Cristão após a conversão. Nós não devemos julgar a nós mesmos (ou qualquer outra pessoa) por algumas ações ocasionais, mas pelo teor geral de nossas vidas. Como o curso da vida de um homem é, tal é o próprio homem; embora ele, por causa do pecado que ainda habita nele, falhe nesta ou naquela ação particular, ainda assim isso não prejudica sua condição diante de Deus, desde que ele renove seu arrependimento por suas ofensas – não repousando em qualquer pecado. Finalmente, é necessário que esta obediência externa proceda de todo o homem, tudo o que está dentro dele expressa louvor a Deus. No novo nascimento todas as faculdades da alma são renovadas, e, doravante, devem ser empregadas no serviço de Deus, como anteriormente foram no serviço ao pecado.

Seja dito mais uma vez que é mui importante que o Cristão seja bastante claro à exatidão do que o seu espírito testemunha. Isso não é para qualquer melhoria em sua natureza carnal, nem para o pecado ser menos ativo dentro dele; antes, é para o fato de que ele é um filho de Deus, como é evidente a partir de seu coração buscando por Ele, anelando por ter comunhão com Ele, e seu sincero esforço para agradá-lO. Assim como um filho carinhoso e obediente tem dentro de seu próprio peito a prova da relação peculiar que ele representa para o pai, assim, as inclinações filiais e aspirações do crente provam que Deus é o seu Pai celestial. É verdade que ainda há muito nele que constantemente se levanta contra Deus, no entanto, há algo mais que não havia nele por natureza.

Aqui, anteciparemos uma objeção: alguns dizem que é um pecado para o Cristão questionar sua aceitação diante de Deus, porque ele ainda é tão depravado, ou duvidar de sua salvação, porque ele pode perceber pouca ou nenhuma santidade interior. Eles dizem que tal dúvida é colocar a verdade e a fidelidade de Deus em dúvida, pois Ele nos assegurou de Seu amor e Sua prontidão para salvar todos os que creem em Seu Filho. Eles negam que é nosso dever examinar os nossos corações e dizem que nunca obteremos qualquer garantia ao fazê-lo; que devemos olhar para Cristo, e descansar em Sua pura Palavra. Mas este é um erro grave. Nós descansamos em Sua Palavra quando procuramos essas evidências que a própria Palavra descreve como as marcas de um filho de Deus. Disse o apóstolo: “Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência” (2 Coríntios. 1:12). “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade. E nisto conhecemos que somos da verdade, e diante dele asseguraremos nossos corações” (1 João 3:18-19).

Mas, apesar das evidências que o Cristão tem de sua filiação Divina, ele descobre que não é questão fácil ter a certeza de sua sinceridade ou estabelecer conforto sólido em sua alma. Suas disposições são intermitentes, as suas formas variáveis. É neste exato ponto que o bendito Espírito de Deus ajuda as nossas fraquezas. Ele acrescenta Seu testemunho ao testemunho de nossa consciência renovada, de modo que, por vezes, o Cristão tem a garantia de sua salvação, e pode dizer: “Em Cristo digo a verdade, não minto (dando-me testemunho a minha consciência no Espírito Santo)” (Romanos 9:1).

“A única forma designada por Deus pela qual podemos chegar a uma apreensão de um interesse na eleição é pelos frutos desta em nossas próprias almas. Também não é lícito para nós perguntarmos a Ele ou por qualquer outra maneira”. Com estas palavras do criterioso John Owen estamos em pleno acordo. De nossa parte, não nos atreveríamos a colocar qualquer dependência de uma esperança eterna em qualquer sonho ou visão que tenhamos recebido, ou qualquer voz que tenhamos ouvido. Mesmo que um ser celestial aparecesse diante de nós e declarasse que ele havia visto o nosso nome escrito no livro da vida do Cordeiro, não devemos colocar nenhuma credibilidade nisso, pois não teríamos nenhum meio de saber se ele não pode ser o próprio Diabo que “se transfigura em anjo de luz” (2 Coríntios 11:14) vindo para nos enganar. Nossa eleição deve ser certificada para nós pela infalível Palavra de Deus, e ali temos um firme fundamento sobre o qual descansar nossa fé.

A obrigação que o evangelho coloca sobre nós para acreditarmos em qualquer coisa relaciona-se à ordenação delas mesmas e ordenação de nossa obediência. Quando é declarado pelo evangelho que Cristo morreu pelos pecadores, não sou imediatamente obrigado a crer que Cristo morreu por mim em particular – isso seria inverter a ordem Divina do evangelho. A grandiosa e simples mensagem do evangelho da graça de Deus é que Cristo Jesus veio ao mundo para adquirir um caminho de salvação para perdidos, que Ele morreu pelos ímpios, que Ele tão perfeitamente satisfez as reivindicações da justiça Divina que Deus pode retamente justificar cada pecador que verdadeiramente crê em Seu Filho, Jesus Cristo (Romanos 3:26). Consequentemente, uma vez que me encontro como sendo membro dessa classe, desde que eu reconheço que sou um pecador, uma pessoa ímpia, perdida, então eu tenho plena garantia para crer nas boas novas do evangelho. Assim, o evangelho exige de mim a fé e a obediência e tenho a obrigação de obedecê-los completamente.

Até que eu creia e obedeça ao evangelho não estou sob nenhuma obrigação de crer que Cristo morreu por mim em particular; mas tendo feito isso, sou assegurado de desfrutar dessa garantia. Da mesma maneira, eu sou obrigado a crer na doutrina da eleição em minha primeira audição do evangelho, porque está ali claramente declarada. Mas quanto à minha própria eleição pessoal, eu não posso crer biblicamente, nem sou obrigado a crer nela de qualquer outra forma, senão à medida que Deus a revela por seus efeitos. Nenhum homem pode justamente não crer ou negar a sua eleição até que ele esteja em uma condição em que é impossível que os efeitos da eleição sejam operados nele. Enquanto ele é um homem ímpio não pode ter nenhuma evidência de que ele seja eleito; portanto, que ele não tenha nenhuma evidência de que ele não é eleito, enquanto é possível que ele seja santificado. Assim, se os homens são eleitos ou não, não é isso que Deus chama qualquer pessoa a imediatamente estar familiarizado; antes, a fé, a obediência e a santidade são requeridos de nós primeiramente.

Antes de prosseguirmos, que seja salientado que os eleitos são normalmente encontrados onde os ministros de Cristo trabalham muito. Paulo disse: “Portanto, tudo sofro por amor dos escolhidos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus com glória eterna” (2 Timóteo 2:10). Isso ilustra o princípio: o apóstolo sabia que em seus trabalhos evangélicos, ele estava sendo utilizado na execução do propósito de Deus em levar a mensagem de salvação para o Seu povo. Para esse fim o apóstolo foi sustentado pela providência Divina e dirigido pelo Espírito do Senhor. Tome uma breve amostra do método em que ele foi Divinamente guiado. Em sua segunda viagem de anúncio das boas novas em terras pagãs, Paulo tinha passado pela Frígia e região da Galácia e gostaria de pregar a palavra na Ásia, mas foi “impedido pelo Espírito Santo” (Atos 16:6), por que razão? Apenas por que Deus não tinha nenhum dos seus eleitos ali, ou se tivesse, o tempo ainda não havia chegado para a sua libertação espiritual.

O apóstolo então intentou ir para Bitínia, mas novamente nos é dito, “o Espírito não lho permitiu” (Atos 16:7). Isso é muito impressionante de fato, embora parece fazer pouca ou nenhuma impressão sobre as pessoas atualmente. Em seguida, lemos: “E, tendo passado por Mísia [quão solene!], desceram a Trôade”. Ali o Senhor apareceu-lhe numa visão direcionando-o a ir para a Macedônia e, a partir disso, ele certamente entendeu que Ele o chamou para pregar o evangelho ali. Ele então entrou naquele país e proclamou a boa nova e, em consequência, os eleitos de Deus em Tessalônica obtiveram salvação. Mais tarde, ele chegou a Corinto, onde se encontrou com muita oposição, e com pouco sucesso. Ele parece ter estado a ponto de partir, quando o Senhor lhe apareceu, fortaleceu o seu coração, e assegurou-lhe: “tenho muito povo nesta cidade” (Atos 18:10). Como resultado, ele permaneceu ali 18 meses e à Igreja de Corinto foi formada.

Este grande princípio de assim o Senhor direcionar os Seus servos, de modo que Seus eleitos são levados ouvir o Seu evangelho a partir de seus lábios, recebe muitas marcantes ilustrações nas Escrituras. A maneira notável pela qual Filipe foi conduzido com a Palavra de salvação ao eunuco Etíope, e Pedro, com a mesma Palavra para Cornélio e sua companhia, são casos deste ponto. Outro exemplo, talvez mais impressionante ainda, é a maneira pela qual os apóstolos obtiveram acesso ao carcereiro de Filipos com a Palavra da vida, que, por causa de sua vocação, provavelmente descobriria ser impossível ouvir a pregação pública deles. De modo muito bendito esses casos exemplificam as palavras do Salvador que, ao referir-se que ao grupo de pessoas que o Pai lhe dera nas terras dos Gentios, declarou: “Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz” (João 10:16), ouvem a Sua voz através de Seus servos e são vivificados pelo poder do Seu Espírito.

O Senhor Jesus nunca, contudo, enviou os Seus servos para o labor onde Ele não tinha um povo, que sendo dado a Ele pelo Pai, deve ser trazido por Ele ao rebanho. E Ele nunca assim os enviará. Mas onde Ele tem um povo, Ele dirigirá para ali os Seus servos, para chamar as pessoas para Si, e eles dirão como o velho Paulo: “tudo sofro por amor dos escolhidos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus com glória eterna” [2 Timóteo 2:10]. Apenas o Dia vindouro revelará plenamente o quanto – por Sua graça sustentadora – eles tanto suportaram para que os eleitos fossem salvos. Os eleitos, então, devem ser encontrados onde os ministros fiéis de Cristo trabalham muito. Agora, meu leitor, se você tem o privilégio de viver em um lugar assim, então, em seu próprio meio você pode olhar para o povo favorecido de Deus. O dia da oportunidade de ouro agora é seu, e é seu dever sagrado responder e entregar-se ao apelo feito pelos servos de Cristo.

Agora, passemos para algo ainda mais específico. Deus não somente envia Seus servos para aqueles lugares onde Sua providência estabeleceu alguns dos Seus eleitos, mas Ele reveste a Sua palavra com poder e torna Sua obra eficaz. “Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus; porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza, como bem sabeis quais fomos entre vós, por amor de vós” (1 Tessalonicenses 1:4-5). Essa passagem é muito mais direta ao ponto, e cada cláusula nela chama a nossa mais cuidadosa atenção. Ela nos diz como o apóstolo se certificou de que os santos de Tessalônica estavam entre os escolhidos de Deus, e como por paridade de razão, eles também podem conhecer e se alegrar em sua eleição. Esses detalhes foram Registrados para a nossa instrução, e se o Senhor se agradar de nos conceder uma compreensão espiritual deles, estaremos em fundamento seguro e certo. Mas, para isso, temos que ponderar em oração nestes versículos, palavra por palavra.

“Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus”. Como o apóstolo conhecia que a eleição deles era de Deus? Que seja mais particularmente observado que essa segurança dele não foi obtida por qualquer revelação imediata do céu, e nem por uma visão sobrenatural ou mensagem angelical, nem pelo próprio Senhor, informando-o diretamente para este efeito. Não, antes isso foi pelo que ele testemunhou em e a partir deles. Foi pelos frutos visíveis de sua eleição, que ele percebeu que eles eram “irmãos amados”. Em outras palavras, ele rastreou esses efeitos da graça que foram forjados neles em sua conversão até a sua origem no eterno propósito de misericórdia de Deus. Aqueles pequeninos riachos de graça em seus corações oram rastreados pelo apóstolo até o oceano do amor eterno de Deus a partir do qual procediam. Nesse sentido, ele indicou-nos o caminho que devemos seguir, o método que devemos perseguir a fim de verificar a nossa predestinação para a glória.

“Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder”. Todos os que fingem pregar o evangelho, na verdade não o pregam. Admitir que eles o fazem, seria admitir que há muitos evangelhos diferentes, pois há partidos e sentimentos na Cristandade, todos reivindicando ser deles o verdadeiro evangelho, com a exclusão de todos os outros. É, portanto, uma questão da mais alta importância que cada um de nós saiba o que o evangelho de Cristo realmente é, e isso deve ser aprendido com as Sagradas Escrituras, sob a orientação de Deus, o Espírito. Existem numerosas falsificações dele no mundo de hoje, e sua fraudulência só pode ser descoberta através de pesa-los nas “balanças do Santuário”. Igualmente necessário e importante é que nós verifiquemos como o evangelho deve ser recebido por nós se a alma deve ser permanentemente beneficiada por ele, pois de acordo com o apóstolo, há uma dupla recepção do evangelho.

“Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras”. Pois quando o evangelho vem a nós somente em palavras é por que Deus o deixou em sua eficácia natural, ou a força de seus argumentos e persuasão sobre a mente humana. Multidões, em muitos lugares ouviram o evangelho, mas continuam em idolatria e em injustiça, não obstante a profissão que muitos deles fazem. Quando o evangelho vem a nós “somente em palavras” ele atinge o intelecto e a compreensão, mas não faz nenhuma impressão real na consciência e no coração. Consequentemente, ele produz apenas uma fé fingida e presunçosa, uma fé que é inferior até mesmo a que os demônios têm, pois eles “creem, e estremecem” (Tiago 2:19). É apenas quando o evangelho vem a nós “no poder e no Espírito Santo” é que ele é recebido com uma fé verdadeira e salvadora. Quão necessário é, então, testar-nos neste ponto.

Há dois extremos em que os homens caem por falta do correto recebimento da Palavra de Deus. Em um, supõe que possui tanto a vontade e poder de realizar obras de justiça suficientes para recomendar-lhe ao favor de Deus, e por isso se lê que eles têm “zelo… mas não como convém” (Gálatas 4:17). Ele jejua, ora, dá esmola, frequenta a igreja, etc.; e onde ele acha que falha ou fica aquém, ele clama aos méritos de Cristo para suprir a sua deficiência. Isso é apenas tomar um pedaço de veste nova (Expiação de Cristo) e aplicar em seu manto uma justiça legal, esperando assim apaziguar a consciência pesada. Ele continua suas performances religiosas durante todo o ano, mas nunca alcança um conhecimento vital e experimental do evangelho. Todo o seu serviço são obras, porém mortas.

O outro extremo é o inverso disso, mas igualmente perigoso. Em vez de labutar ao ponto de cansar-se, estes não se esforçam de maneira alguma. Estando mais ou menos conscientes, visto que todos os homens naturais estão conscientes, que são pecadores, e ouvindo sobre a salvação gratuita por Jesus Cristo, eles prontamente caem nisso, a saber, O recebem em suas mentes, mas não em suas consciências. Uma fé superficial e presunçosa é gerada, e por um único salto eles chegam a uma suposta garantia do céu. Mas, diz Salomão, “A herança que no princípio é adquirida às pressas, no fim não será abençoada” (Provérbios 20:21). Essas pessoas são grandes oradores, possuem grande parte de sua liberdade a partir da lei, mas são eles mesmos escravos do pecado. Eles estão sempre aprendendo, mas nunca podem chegar ao conhecimento da verdade. Eles riem daqueles que têm dúvidas e medos, mas ele próprios têm a maiores motivos de todas para temer.

Agora, em contraste marcante de ambas essas classes, são os que recebem o evangelho não somente em palavras “mas em poder, e no Espírito Santo”. Este é um caminho do meio entre esses dois extremos, e um que está escondido de todo não-regenerado, pois “ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Coríntios 2:14). Quando Deus começa a “obra da fé com poder” (2 Tessalonicenses 1:11), e leva a alma neste caminho do meio, ela pode, a princípio nem ver nem compreender isso. Como foi com o pai de todos os que creem, assim é com todos os seus filhos: quando Abraão foi eficazmente chamado, ele “saiu, sem saber para onde ia” (Hebreus 11:8). Os nascidos do Espírito são levados adiante por “veredas que não conheceram” (Isaías 42:16), e até que as trevas sejam transformadas em luz perante eles e as coisas tortas sejam endireitadas, eles não conseguem entender o caminho do Espírito; mas quando isso é feito, então, a estrada é “aplainada” para eles (Isaías 62:10).

A pergunta mais importante, então, é: o evangelho veio a mim somente em palavras, ou em poder salvador? Se veio somente em palavras, então, ele foi recebido sem angústia, nem tribulação ou aflição de consciência, pois estas são as marcas comuns do poder Divino operando na alma do pecador. Quando a Palavra de Deus vem até nós “em poder”, ela vem como uma “espada de dois gumes” (Hebreus 4:12), tendo o mesmo efeito sobre o coração como uma espada tem quando é empurrada para dentro do corpo. Se a ferida for profunda, a dor e sofrimentos serão muito intensos. Então, quando a Palavra de Deus penetra “até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração”, produz angústia real e aflição profunda. Disse Jó: “Porque as flechas do Todo Poderoso estão em mim, cujo ardente veneno suga o meu espírito; os terrores de Deus se armam contra mim” (6:4). E assim, também, Davi exclamou: “Porque as tuas flechas se cravaram em mim, e a tua mão sobre mim desceu” (Salmos 38:2).

Foi assim na experiência de Paulo. Antes que o Espírito aplicasse a lei ao seu coração, ele estava vivo aos seus próprios olhos, embora morto aos olhos de Deus; mas quando o mandamento veio a ele no poder Divino, reviveu o pecado, e ele morreu – em sua própria estima (Romanos 7:9). O fato é que ele, como qualquer outro Fariseu, supunha que a lei não ia além do que a letra externa, ao passo que ele se considerava inocente. Mas quando as elevadas demandas da Lei e sua espiritualidade esquadrinhadora foram dadas a conhecer a ele, e que ela alcançava os próprios pensamentos e intenções do coração, e desvelou a ele as profundezas terríveis de depravação nele que antes estavam escondidas. Ele descobriu que a lei era espiritual, mas ele mesmo era carnal, vendido sob o pecado. Ele descobriu – como pouquíssimos o fazem – que o coração dele estava no mesmo estado descrito por Cristo em Marcos 7:21-22. Ele foi obrigado a acreditar no que Cristo declarou ali, porque agora ele via e sentia o mesmo dentro de si mesmo.

O primeiro ato de fé traz um homem a acreditar que ele está no mesmo estado que a Escritura declara que ele está; em inimizade contra Deus (Romanos 8:7), sendo um filho da ira (Efésios 2:3), sob a maldição de uma lei violada (Gálatas 3:10), levado cativo pelo diabo (2 Timóteo 2:26). Um pesado fardo do pecado reside em sua consciência (Salmos 38:4), sendo uma fonte ativa de iniquidade como o mar bravo, lançando a sua lama e lodo (Isaías 57:20), que confunde todos os esforços de um braço de carne, trazendo-o em terrível escravidão: “as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam” (Isaías 64:6). Ele encontra-se de mãos e pés amarrados com as cordas do seu pecado, e ele clama fervorosamente a Deus para ter piedade dele, e segundo a sua grande misericórdia, liberte-o. Ele agora não precisa de nenhumas formas estabelecidas de oração, mas de dia e de noite ele clama: “Deus, tem misericórdia de mim, pecador”.

E como é que o Senhor o liberta? Pelo evangelho vindo até ele “no poder e no Espírito Santo”. Deus expõe a ele em uma nova luz, os sofrimentos e a morte de Seu Filho, por meio de quem Sua justiça foi satisfeita, Sua lei magnificada, Sua ira aplacada, e foi aberto um caminho de reconciliação entre Deus e os pecadores. É o ofício do Espírito operar a fé no coração e aplicar o sangue expiatório e justiça de Cristo à consciência, pelo que o peso do pecado e da morte é removido, o amor de Deus é feito conhecido, a paz é transmitida para a alma e alegria para o coração. Assim, o mesmo instrumento que feriu, traz a cura. Por isso o apóstolo aqui acrescenta: “Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza” – garantia de sua veracidade e autoridade Divina, de sua perfeita adaptabilidade e adequação ao nosso caso, de sua bem-aventurança inefável.

“Lembro-me, também, quando a verdade veio ao meu coração, e me fez saltar de muita alegria, pois ela levou toda o meu fardo para longe; ela me mostrou o poder de Cristo para salvar. Eu conhecia a verdade antes, mas agora eu a sentia. Fui a Jesus, assim como eu estava, eu toquei a orla de Suas vestes, eu fui curado. Encontrei agora que a Palavra não era uma ficção – que era a única realidade. Eu tinha escutado dezenas de vezes, e aquele que falava era como aquele que tocava uma melodia com um instrumento; mas agora Ele parecia estar lidando comigo, colocando Sua mão direita em meu coração. Ele me trouxe primeiro ao trono de juiz de Deus, e ali estava eu e ouvi o barulho dos trovões; então Ele me trouxe para o propiciatório, e eu vi o sangue aspergido sobre ele, e eu fui para casa triunfante porque o pecado foi lavado” (C. H. Spurgeon).

“Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus” (1 Tessalonicenses 1:4). Como o apóstolo sabe que esses Tessalonicenses estavam entre os eleitos de Deus? Os próximos versículos nos dizem: pelos frutos visíveis da mesma que ele percebeu neles. Discernindo em suas vidas esses efeitos da graça que foram operadas neles em sua conversão, ele rastreou até o próprio eterno propósito de misericórdia de Deus relativo a eles. E, meu leitor, a maneira pela qual Paulo sabia que os crentes de Tessalônica eram “eleitos desde o princípio para a salvação” (2 Tessalonicenses 2:13) deve ser o método pelo qual cada Cristão, hoje, deve verificar sua eleição de Deus.

“Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo” (1 Tessalonicenses 1:5). Tudo gira sobre como o (verdadeiro) Evangelho é recebido por nós: se é apenas apreendido pelo intelecto, ou se ele realmente atinge a consciência e o coração para somente então ser recebido com uma fé salvadora. Quando a Palavra de Deus vem até nós “em poder”, se trata de “uma espada de dois gumes” – cortando, ferindo, causando dor e angústia profundas. Quando a Palavra vem a nós em poder não é devido a qualquer aprendizado ou eloquência do pregador, nem a qualquer compaixão que ele possa empregar. O fato de que as emoções dos seus ouvintes são profundamente tocadas de forma que eles sejam levados às lágrimas, não é prova alguma de que o evangelho é chegado a eles em termos de eficácia Divina, as paixões da criatura são frequentemente agitadas por atuações no palco e milhares são comovidos a chorar no teatro. Tal emocionalismo superficial é apenas evanescente, não tendo efeitos duradouros e nem espirituais. O teste é saber se estamos quebrantados e prostrados diante de Deus.

O mesmo pensamento é expresso novamente no versículo seguinte, como sendo através deste detalhe especial que nós mais precisamos nos testar: “recebendo a palavra em muita tribulação, com gozo do Espírito Santo” (v. 6). Como isso expõe a inutilidade do “evangelismo” leve e espumoso dos nossos dias! Quão solene é lembrar que Cristo descreveu o ouvinte representado pela terra pedregosa como “o que ouve a palavra, e logo a recebe com alegria; mas não tem raiz em si mesmo” (Mateus 13:20-21). Muito diferente ocorreu com aqueles que foram convertidos no dia de Pentecostes, pois a primeira coisa registrada sobre eles é que “compungiram-se em seu coração” (Atos 2:37). Dores de parto precedem o nascimento e, então, vem a alegria (veja João 16:21). Estas são as perguntas que devem ser considerados e respondidas diante de Deus: a Palavra repreendeu-me e condenou-me? Ela me retirou de minha auto-complacência e justiça própria? Ela abateu as minhas esperanças, e me levou a permanecer como um criminoso autocondenado diante do propiciatório?

“As pessoas vêm ouvir sermões neste lugar e, então saem e dizem, “você gostou?” – como se isso significasse algo para alguém – “você gostou?” E um diz, “Ah, sim, gostei muito”. E outro diz, “Ah, não tanto”. Você acha que vivemos na respiração de suas narinas? Você acredita que os, se realmente são dEle, se importam com o que pensam deles? Não, na verdade, mas se por acaso você responder, “eu gostei do sermão”, eles estarão inclinados a dizer, “então nós devemos ter sido infiéis, pois de outra maneira você estaria com raiva, nós devemos ter sido levados por alguma coisa, ou então a Palavra teria cortado sua consciência como as bordas afiadas de uma faca! Você teria dito, “eu não penso se gostei ou não – eu estava pensando como eu gostava de mim e sobre o meu estado diante de Deus. “Este era o assunto em que refletia, não se o pregador pregava bem, mas se eu estava aceito em Cristo, ou se era um rejeitado”. Meus queridos ouvintes, vocês estão aprendendo a ouvir desse jeito? Se não estão, se ir à igreja ou à capela para vocês é como ir a um jogo, ou como ouvir um orador que fala sobre assuntos temporais, então vocês não têm a evidência da Eleição – a Palavra não chegou às vossas almas com poder.” (C. H. Spurgeon, Eleição: Defesa e Evidências, Sermão Nº 2920)

Entre as porções citadas acima a partir de 1 Tessalonicenses 1:5-6 há dois outros elementos: em primeiro lugar, “em muita certeza”. Quando a Palavra vem a nós, no poder de conversão para a alma de um homem, todas as suas dúvidas sobre a sua autenticidade e autoridade são removidas, e ele não precisa de argumentos humanos para convencê-lo de que seu autor é Deus. Todo o ceticismo dos racionalistas e críticos mais elevados será dissipado como a névoa diante do sol nascente, se o Espírito tiver o prazer de aplicar eficazmente a Palavra aos seus corações. Aqueles que têm sido levados a sentir a sua extrema necessidade de Cristo e percebido Sua perfeita adequação à sua condição desesperada, tem “muita certeza” do que o evangelho afirma sobre Sua Pessoa e obra. Não importa o que tenha sido o caso com eles anteriormente, agora, eles não têm dúvida sobre a Sua Divindade absoluta, Seu nascimento virginal, Sua morte vicária, Sua dignidade preeminente como profeta, sacerdote e rei. Essas coisas muito importantes são estabelecidas para ele, firmadas para sempre e ele declarará a si mesmo de forma positiva e dogmática que chocará a sensibilidade do arrogante.

Mais uma vez, é dito: “E vós fostes feitos nossos imitadores, e do Senhor” [1 Tessalonicenses 1:6]. Aqui está outra marca de eleição: os que são escolhidos pelo Senhor desejam ser como Ele. “E vós fostes feitos nossos imitadores”, não significa que eles disseram: “Eu sou de Paulo, eu sou de Silas, estou de Timóteo”, mas que eles imitaram esses evangelistas eminentes na medida em que eles seguiam o exemplo que Cristo nos deixou. Ah, este é o teste, meus leitores. Será que somos parecidos com Cristo? Ou nós honestamente desejamos ser assim? Então, isso é uma evidência segura de nossa eleição. Será que vivemos de toda a palavra de Deus (Mateus 4:4)? – Cristo assim o fez. Levamos tudo a Deus em oração? – Cristo assim o fez. Oramos a Deus para abençoar os que nos maldizem? Não é que sejamos sem pecado, perfeitos; mas nós, embora muitas vezes “de longe”, realmente seguimos a Cristo? Se seguimos, não é ostentação orgulhosa reconhecê-lo, nem é auto-justificação derivar daí conforto, contanto que também soframos com nossas muitas deficiências e lamentemos sobre os nossos pecados.

“Com gozo do Espírito Santo”, observe a linguagem qualificadora, não é alegria carnal, mas alegria espiritual. E observe também, que esta conclui a lista, pois é sempre o modo do Senhor reservar o melhor vinho para o final. Infelizmente, como alguns professos nada sabem, experimentalmente, sobre esta alegria profunda e espiritual. A religião da grande maioria consiste em um atendimento servil a formas em que eles não se deleitam. Quantos vão para algum lugar de adoração, simplesmente porque não é respeitável ficar longe, ainda que muitas vezes gostariam que fosse. Não é assim com o Cristão, quando ele está em seu juízo perfeito: ele vai cultuar ao Senhor, para ouvir a voz de seu Amado, procurando um sinal ter seu amor por Ele revigorado, desejando aproveitar o sol de Sua presença. E quando ele é favorecido com a visita de Cristo, ele exclama com Jacó: “Este não é outro lugar senão a casa de Deus”, uma antecipação do céu [Gênesis 28:17].

E agora na elaboração de uma conclusão de nossas observações sobre este aspecto fascinante do assunto, ainda há um outro versículo em que devemos ponderar: “Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição” (2 Pedro 1:10). Essas palavras foram terrivelmente distorcidas por propagadores de erros. Inimigos da verdade perverteram-nas dizem que elas significam que o decreto Divino sobre a salvação é apenas provisório, condicional aos esforços do próprio pecador. Eles negam que a predestinação de qualquer homem para a vida eterna é absoluta e irrevogável, insistindo que é subordinada à nossa própria diligência pessoal. Em outras palavras, o próprio homem deve decidir e determinar se o desejo de Deus em relação a Ele deve ser realizado ou não. Não somente tal conceito é totalmente estranho ao ensinamento da Sagrada Escritura, mas dizer que a ratificação e realização do propósito eterno de Deus é deixado dependente de algo próprio da criatura, é pura blasfêmia; e se fosse verdade, não apenas tornaria nossa eleição incerta, mas totalmente sem esperança.

“Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição”. Estas palavras também têm apresentado um problema real para não poucos do povo de Deus. Eles têm estado dolorosamente perplexos para compreender como alguma diligência da sua parte poderia fazer firme a vocação e eleição de Deus; e mesmo quando essa dificuldade é esclarecida, eles ficam quase perdidos quanto a saber de que forma a sua diligência é proveitosa. Ah, meus amigos, Deus muitas vezes Se expressou nas Escrituras, de tal forma a testar a nossa fé, humilhar os nossos corações e nos levar aos joelhos. Talvez possa proporcionar mais ajuda se nos concentrarmos nos seguintes pontos. Em primeiro lugar, as pessoas em particular aqui abordadas. Em segundo lugar, a ordem incomum de “vocação e eleição. Em terceiro lugar, o que é o “procurar” aqui requerido. Em quarto lugar, em que sentido nós podemos fazer a nossa vocação e eleição “firme”?

Em primeiro lugar, as pessoas abordadas. Se este princípio simples for apenas devidamente compreendido, que massa de exposições erradas seriam evitadas. É a má aplicação da Escritura que é responsável por tanta interpretação defeituosa. Quando o pão dos filhos é lançado aos cachorrinhos, os primeiros são roubados e aos últimos é dado o que o que eles não conseguem digerir. Tome uma exortação dirigida aos crentes e apropriar-se dela, ou melhor, apropriar-se indevidamente dela para os incrédulos, é uma ofensa indesculpável, ainda assim, tal coisa muitas vezes tem sido feita com o versículo diante de nós. Não há dificuldade alguma em determinar os destinatários da presente ordem Divina. O versículo de introdução da epístola nos diz que o apóstolo está aqui escrevendo para aqueles que “conosco alcançaram fé igualmente preciosa”, de modo que eles eram crentes; enquanto no próprio versículo eles são denominados “irmãos” e exortados como tais.

Esta exortação, então, é dirigida a santos vivos e não aos pecadores mortos. Ensinar que o não-regenerado pode fazer algo para garantir a sua vocação e eleição, não é somente uma ignorância colossal, mas isso faz da Palavra de Deus mentira. Quando eles estão pregando uma mensagem Divina, o primeiro dever dos ministros de Deus é traçar definitivamente a linha de demarcação entre a Igreja e o mundo, é a falha neste ponto que faz com que tantos filhos do Diabo reivindiquem o relacionamento com o povo de Deus. Atenção para o contexto sempre deixará claro a quem pertence uma passagem, se aos filhos dos homens, em geral, ou aos filhos de Deus, em particular. A maneira mais simples e mais eficaz de evidenciar isso para seus ouvintes, é que eles delineiem cuidadosamente as características (as marcas de identificação) de um e de outro, observe como o apóstolo seguiu este próprio curso nos primeiros quatro versículos da epístola.

Em segundo lugar, a ordem incomum que se encontra aqui: “vossa vocação e eleição”. Embora à primeira vista isso represente uma dificuldade, contudo um estudo mais aprofundado mostrará o que realmente fornece uma importante chave para a abertura desta exortação. O que intriga o leitor atento é, por que “vocação” vem antes de “eleição”, pois como temos procurado mostrar tão longamente nos capítulos anteriores, o chamado eficaz é a consequência da eleição, como também é a manifestação da mesma. Como Romanos 8:28 declara, os crentes são “chamados segundo o seu propósito”, ou seja, o chamado é o cumprimento do propósito de Deus. Assim também em Romanos 8:30 é dito: “E aos que predestinou a estes também chamou”. Semelhantemente é dito que Deus “nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” (2 Timóteo 1:9). Por que, então, essas duas coisas estão invertidas na passagem que estamos considerando agora?

Deve ser observado atentamente que Romanos 8:28, 30 e 2 Timóteo 1:9 estão tratando dos atos de Deus, ao passo que 2 Pedro 1:10 menciona vocação e eleição, em conexão com a nossa diligência. É somente por devidamente observar tais distinções que nós podemos esperar chegar a um entendimento correto de muitos dos detalhes das Escrituras Sagradas. Em Romanos 8, o apóstolo está propondo doutrina, enquanto que em 2 Pedro 1:10 ele está fazendo uma exortação, e há uma diferença marcante entre essas coisas. Quando os caminhos de Deus estão sendo expostos, eles são apresentados em sua ordem natural ou lógica (como em Romanos 8:30), mas quando a experiência Cristã está sendo tratada, a ordem em que apreendemos a verdade é a que é seguida. Assim, é aqui: devemos ter a certeza de que fomos os destinatários de um chamado eficaz, pois isso, por sua vez, fornecerá a prova da nossa eleição. A ordem dos pensamentos de Deus para conosco foi, eleição e, em seguida, chamado; mas em nossa experiência apreendemos o chamado antes da eleição.

Em terceiro lugar, o que é o “procurar” aqui necessário? Há multidões que imaginam ter recebido um chamado eficaz de Deus, mas isso é apenas fantasia; em vez de em oração e com diligência dedicarem-se ao dever aqui ordenado, eles se dão o benefício da dúvida. Provavelmente, muitos são bastante sinceros em sua suposição, mas eles estão sinceramente enganados, sendo desviados por seus corações enganosos. Está longe de ser o suficiente adotar a doutrina da eleição como um artigo do nosso credo. Como alguém laconicamente o colocou:

Embora a eleição de Deus seja uma verdade,
Pequeno conforto ali eu vejo,
Até que me seja dito pela boca do próprio Deus,
Que Ele me escolheu.

E eu não tenho o direito ou autorização para esperar que Ele alguma vez fará tal coisa, até eu ter cumprido com os seus requisitos do versículo agora diante de nós.

Isso a que sou aqui exortado é a primeiro certificar-me de minha “vocação” de Deus. Isso deve ser feito por meio de acumular e fortalecer a minha prova de que eu sou Seu filho, nascido de novo; e que, por sua vez, é realizado por cultivar o caráter e a conduta de um santo. E como isso deve ser alcançado? Ao utilizar os meios de graça que Deus providenciou como a leitura diária das Escrituras com meditação espiritual das mesmas; pela oração secreta e fervorosa por socorro Divino e graça; cultivando a comunhão com o povo de Deus, conforme a Sua providência o permita; mantendo vigilância fiel sobre nossos corações, desaprovando tudo o que é profano; pela estrita negação do eu e mortificação dos nossos membros. Mas receberemos mais ajuda neste momento, se atendemos a algo ainda mais específico no contexto.

Nos versículos 5-7 somos exortados: “E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, e à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a piedade, e à piedade o amor fraternal, e ao amor fraternal a caridade”. Agora, o versículo 10 expressa o mesmo dever, mas com palavras diferentes. Há um paralelismo marcante neste capítulo, e é observando a repetição (em variação de pensamento) que encontramos a chave principal para o nosso versículo. Nos versículos 5-7 temos uma exortação, e no versículo 8 nos é mostrado o resultado de dar atenção a ele. No versículo 10, também temos uma exortação semelhante, e, em seguida, no verso 11, o resultado de seu cumprimento é mostrado. Assim, o nosso texto deve ser interpretado à luz do seu contexto. Qual é o “procurar” aqui necessário? Do que ele consiste? Os versículos 5-7 nos dizem. É por cultivar as graças espirituais neles mencionadas, de modo que eu possa verificar a minha vocação e eleição.

Em quarto lugar, em que sentido é que devemos fazer a nossa vocação e eleição “firme”? Primeiro, observe que não é “segura”, elas já estão asseguradas para cada santo pela imutabilidade do propósito Divino, pois “os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” (Romanos 11:29). Isso não é fazer a nossa vocação e eleição firme em relação a Deus, mas em relação ao homem. Nem é algo futuro que está aqui em vista, é o gozo presente para nós mesmos de nossa vocação e eleição, e o evidenciar da mesma aos nossos irmãos. Ao prestar atenção à exortação dos versículos 5-7 devo provar a minha vocação e eleição, e demonstrar o mesmo para a Igreja. Um homem pode me dizer que acredita na eleição e está seguro que ele foi chamado por Deus, mas a menos que eu possa ver em seu caráter e conduta as graças espirituais dos versículos 5-7, então eu tenho que dizer a ele (como Paulo disse aos Gálatas). “Estou perplexo a vosso respeito” [Gálatas 4:20]. Aqui, então, está o significado: façam firmes sua vocação e eleição em sua própria consciência, e façam aos outros o bom caráter da sua profissão de fé, caminhando como um filho de Deus.

Finalmente, duas consequências de cumprir essas exortações são apontadas. Em primeiro lugar, “porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis” (v. 10). Aqueles que empregam toda a diligência para cultivar as graças espirituais mencionadas nos versículos 5-7 (tornando assim a sua vocação e eleição firme, tanto para si mesmos e para seus irmãos), nunca deve cair do lugar de comunhão com Deus; nunca cairão da verdade em falsa doutrina e erro; nunca deve cair em pecados graves, e assim desonrar sua profissão Cristã; nunca cairão em um estado de apostasia, de modo que eles percam seu gosto pelas coisas espirituais; nunca cairão sob a dolorosa disciplina de Deus; nunca cairão em um desânimo, de modo a perder toda a segurança; nunca cairão em uma condição de inutilidade espiritual. Mas, em segundo lugar, “Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (v. 11), isso, experimentalmente, aqui, e plena e honrosamente no futuro. Este é o resultado e a recompensa de “procurar”, a palavra Grega para “concedida” no versículo 11 é a mesmo que “acrescentai” no versículo 5!

E agora, em resumo. Como pode um crente verdadeiro saber se ele é um dos eleitos de Deus? Ora, o próprio fato de que ele é um Cristão genuíno o evidencia, pois uma crença em Cristo é a consequência segura de Deus tê-lo ordenado para a vida eterna (Atos 13:48). Porém, para ser mais específico. Como posso conhecer a minha eleição? Em primeiro lugar, pela Palavra de Deus tendo chegado em poder Divino à alma, de forma que a minha auto-complacência é quebrada e minha justiça própria renunciada. Em segundo lugar, pelo Espírito ter me convencido de minha condição lamentável, de culpado e perdido. Em terceiro lugar, por ter me revelado a adequação e suficiência de Cristo para atender o meu caso desesperado, e por uma concessão Divina de fé, levando-me a lançar mão de e descansar sobre Ele como minha única esperança. Em quarto lugar, pelas marcas da nova natureza dentro de mim: o amor a Deus, um apetite pelas coisas espirituais, um anelo por santidade, uma busca por conformidade com Cristo. Em quinto lugar, pela resistência que a nova natureza faz à velha natureza, levando-me a odiar o pecado e abominar-me por isso. Em sexto lugar, por diligentemente evitar tudo o que é condenado pela Palavra de Deus, e por sinceramente arrepender-me e humildemente confessar cada transgressão. A falha neste ponto mui certa e rapidamente trará uma nuvem escura sobre a nossa segurança, fazendo com que o Espírito retenha o Sua testemunho. Em sétimo lugar, empregando toda a diligência para cultivar as graças Cristãs, e usando todos os meios legítimos para essa finalidade. Assim, o conhecimento da eleição é cumulativo.

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♦ Este texto é o capítulo 9 do livro The Doctrine of Election, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: The Doctrine of Election
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Graça e Paz Multiplicadas Pelo Conhecimento de Deus e de Jesus, Nosso Senhor – Arthur Walkington Pink

“Graça e paz vos sejam multiplicadas, pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor; visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude.” (2 Pedro 1:2-3)

Nenhum estudo aprofundado das orações dos apóstolos, ou das orações da Bíblia como um todo, seria completa sem um exame das bênçãos com que os apóstolos (com exceção de Tiago), antecederam as suas epístolas. Essas saudações iniciais eram muito diferentes do mero ato de cortesia, como quando o comandante dos soldados Romanos em Jerusalém escreveu uma carta nestes termos: “Cláudio Lísias, a Félix, potentíssimo presidente, saúde” (Atos 23:26). Os seus discursos introdutórios eram muito mais do que uma formalidade cortês, sim, do que as expressões de um desejo gentil. Sua “Graça a vós e paz” era uma oração, um ato de adoração, em que Cristo era sempre abordada em união com o Pai. Isso significa que um pedido por essas bênçãos foi feito diante do trono. Tais bênçãos evidenciavam a afeição calorosa que os apóstolos tinham por aqueles a quem escreveram, e demonstravam os seus desejos espirituais em nome deles. Ao colocar estas palavras de bênção no início de sua epístola, o apóstolo Pedro manifesta poderosamente como seu próprio coração foi afetado pela bondade de Deus para com seus irmãos.

Aquilo que agora envolve a nossa atenção pode ser considerado sob os seguintes tópicos. Primeiro, olharemos para a essência da oração: “graça e paz”, essas são as bênçãos suplicadas a Deus. Em segundo lugar, devemos ponderar a medida desejada de sua concessão: “vos sejam multiplicadas”. Em terceiro lugar, contemplaremos o meio de sua comunicação: “pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor”. Em quarto lugar, examinaremos o motivo que levou o pedido: “Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade” (v. 3). Antes de preencher esse esboço ou fazer uma exposição desses versículos, apontaremos o que está implícito por meio desta oração (especialmente para o benefício de jovens pregadores, para quem é especialmente vital aprender como um texto deve ser ponderado)

As Implicações Vitais desta Bênção

Na busca do apóstolo por Deus quanto a tais bênçãos como estas para os santos, as seguintes lições vitais são ensinadas por implicação: (1) que ninguém pode merecer qualquer coisa das mãos de Deus, pois a graça e mérito são opostos; (2) que não pode haver paz verdadeira à parte da Divina Graça “Não há paz para os ímpios, diz o meu Deus” (Isaías 57:21). (3) que, mesmo o regenerado permanece em necessidade, constante precisão, da graça de Deus; e (4) o regenerado, portanto, deve ser vil aos seus próprios olhos. Se quisermos receber mais de Deus, então devemos apresentar os nossos corações a Ele como vasos vazios. Quando Abraão estava prestes a fazer súplica ao Senhor, ele humilhou a si mesmo como “pó e cinza” (Gênesis 18:27); e Jacó reconheceu que ele não era digno da menor de Suas misericórdias (Gênesis 32:10). (5) Tal pedido como o que Pedro está fazendo aqui é uma confissão tácita da total dependência dos crentes sobre a bondade de Deus, de forma que somente Ele é capaz de suprir as suas necessidades. (6) Ao pedir que a graça e paz fossem multiplicado a eles, o reconheci-mento é feito que não só o início e continuidade deles, mas também o seu crescimento procede da boa vontade de Deus. (7) Por isso, intimação é dada: “abre bem a tua [nossa] boca” (Salmos 81:10) para Deus. Sim, é um mal sinal o contentar-se com pequena graça. “Nunca foi bom aquele que não deseja crescer mais”, diz Manton.

 O Caráter Especial da Segunda Epístola

Uma palavra também precisa ser dito sobre o caráter do livro em que esta oração particular é encontrada. Como toda segunda Epístola, esta trata de um estado de coisas em que o falso ensino e apostasia tinham um lugar mais ou menos proeminente. Uma das principais diferenças entre as duas epístolas é esta: enquanto que em sua primeira Epístola, o propósito principal de Pedro era fortalecer e confortar os seus irmãos em meio ao sofrimento a que estavam expostos devido ao mundo profano (pagão) (veja o capítulo 4), e ele agora graciosamente os adverte (2 Pedro 2:1; 3:1-4) e confirma (2 Pedro 1:5-11; 3:14) contra um perigo pior do que o mundo professo, a partir daqueles dentro da Cristandade, o qual os ameaçava. Em sua primeira Epístola, Pedro tinha representado o seu grande adversário, o diabo, como um leão que ruge (1 Pedro 5:8). Mas aqui, sem nomeá-lo diretamente, ele retrata Satanás como um anjo de luz (mas, na realidade, a serpente sutil), que já não está perseguindo, mas buscando corrompê-los e envenená-los por meio de falsos ensinamentos. No segundo capítulo, esses falsos mestres são denunciados (1) como os homens que haviam negado o Senhor que os resgatou (v. 1), e (2) como licenciosos (vv. 10-14, 19), que dão liberdade aos seus apetites carnais.

O apóstolo Pedro dirige sua epístola “alcançaram fé igualmente preciosa pela justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” (2 Pedro 1:1, as palavras ordenadas aqui de acordo com o texto grego e VKJ, nota marginal). A palavra fé aqui refere-se a esse ato da alma através do qual a verdade divinamente revelada é salvifícamente apreendida. Sua fé é declarado ser “preciosa”, pois é um dos dons escolhidos de Deus e o fruto imediato do poder regenerador do Seu Espírito. Isto é enfatizado na expressão “alcançaram” (lagchanō, Nº 2975, em Strong e Thayer). É a mesma palavra Grega encontrada em Lucas 1:9: “coube-lhe em sorte entrar no templo do Senhor para oferecer o incenso”. Ela aparece novamente em João 19:24: “Não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ela”. Assim, esses santos foram lembrados de que eles deviam a sua fé salvadora não a qualquer sagacidade superior da parte deles, mas apenas às distribuições da graça. Isso ocorreu com eles, como com o próprio Pedro. A revelação foi feita a eles: não pela carne e sangue, mas pelo Pai celestial (Mateus 16:17). Na distribuição de favores de Deus uma bendita porção havia caído para eles, mesmo “a fé dos eleitos de Deus” (Tito 1:1). Eles a quem Pedro se dirige são os Gentios, e o nós em que ele se inclui são os Judeus. Sua fé tinha por objeto a perfeita justiça de Cristo, seu Fiador, pois as palavras “pela justiça do” são, provavelmente, melhor traduzidas e compreendidas “na justiça do” Divino Salvador.

A Substância da Bênção de Pedro

Tendo assim descrito seus leitores por sua posição espiritual, Pedro acrescenta sua bênção apostólica: “Graça e paz vos sejam multiplicadas”. A combinada bênção apostólica e saudação (que contém os elementos, graça e paz) é essencialmente o mesmo que a empregada por Paulo em dez de suas Epístolas, bem como por Pedro em 1 Pedro. Em 1 e 2 Timóteo e Tito, Paulo acrescentou o elemento misericórdia, como o fez João em João 2. Judas usou os elementos misericórdia, paz e amor. Assim, nós aprendemos que os apóstolos, ao pronunciarem bênçãos ditada pelo Espírito sobre os crentes a quem escreveu, combinaram a graça, a palavra de ordem na era da Nova Aliança (João 1:14,17) com a paz, a distintiva bênção Hebraica. Quem leu o Antigo Testamento com atenção se lembrará com que frequência a saudação “a paz esteja contigo”, ou algo semelhante é encontrada (Gênesis 43:23; Juízes 6:23; 18:6; etc.) “Haja paz dentro de teus muros, e prosperidade dentro dos teus palácios” (Salmos 122:7), clama Davi, enquanto ele contempla com expectativa as bênçãos espirituais e temporais que ele deseja para Jerusalém e, portanto, a favor de Israel (cf. vv. 6, 8, bem como todo o Salmo). Este texto mostra que a palavra paz era um termo genérico para designar o bem-estar. Desde a sua utilização pelo Salvador ressuscitado em João 20:19, concluímos que era um resumo de inclusão de toda bênção. Nas Epístolas e Livro do Apocalipse [...] os termos graça e/ou paz são frequentemente usados ​​em saudações e bênçãos conclusivas. A palavra paz é usada de maneiras diversas por oito vezes (Romanos 16:20; 2 Coríntios 13:11; Efésios 6:23; 1 Tessalonicenses 5:23; 2 Tessalonicenses 3:16; Hebreus 13:20; 1 Pedro 5:14; 3 João 14), seis dessas vezes em maior ou menor proximidade com a palavra graça, que é usada dezoito vezes (Romanos 16:20, 24; 1 Coríntios 16:23; 2 Coríntios 13:14; Gálatas 6:18; Efésios 6:24; Filipenses 4:23; Colossenses 4:18; 1 Tessalonicenses 5:28; 2 Tessalonicenses 3:18; 1 Timóteo 6:21; 2 Timóteo 4:22; Tito 3:15; Filemom 1:24; Hebreus 13:25; 1 Pedro 5:10; 2 Pedro 3:18; Apocalipse 22:21). Obviamente, a cláusula “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja convosco”, ou alguma variação disso, é a mais característica bênção conclusiva empregada pelos apóstolos. À luz da sua compreensão das realidades gloriosas da era do Evangelho (Atos 10, 11, especialmente vv. 1-18), é evidente, por esta bênção, que o apóstolo Pedro vê e abraça tanto Judeus crentes e Gentios crentes, como unidos no compartilhamento da plena bênção de grande salvação de Deus.

Tendo um desejo sincero pelo bem-estar deles, Pedro pediu para os santos as mais preciosas bênçãos que lhes poderiam ser conferidas, para que eles pudessem ser moral e espiritualmente enriquecidos, tanto interna como externamente. “Graça e paz” contém a soma das dádivas do Evangelho e o suprimento de todas as nossas necessidades. Juntas, elas incluem todos os tipos de bênçãos, e, portanto, elas são as coisas mais abrangentes que podem ser solicitadas a Deus. Elas são os mais valiosos favores que podemos desejar para nós mesmos, e para os nossos irmãos! Elas devem ser solicitadas por meio da fé, da parte de Deus nosso Pai, em confiança na mediação e os méritos de nosso Senhor Jesus Cristo. “Graça e paz” são a própria essência, assim como o todo, da verdadeira felicidade de um crente nesta vida, o que explica o desejo do apóstolo de que seus irmãos em Cristo pudessem abundantemente participar delas.

Pedro Ora para que seus Irmãos Cresçam na Graça

A graça não deve ser entendida no sentido do distintivo favor redentor de Deus, pois estes santos já eram objetos desta graça; nem isso deve ser tomado como um princípio espiritual dentro da natureza, pois este foi dado a eles no novo nascimento. Antes, isso se refere a uma maior manifestação da natureza espiritual e semelhança divina que alguém recebeu de Deus e uma dependência maior e mais alegre sobre o Doador (2 Coríntios 12:9). Também se refere aos dons divinos que induzem a esse crescimento. Falando de Cristo, o apóstolo João declara: “E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por [“sobre”, margem da American Standard Version] graça” (João 1:16). Matthew Poole comenta da seguinte forma:

E graça por graça: temos recebido não gotas, mas graça sobre graça; não somente o conhecimento e instrução, mas o amor e a graça de Deus, e os hábitos espirituais, na proporção do favor e da graça que há em Cristo (permitindo nossa pequena capacidades); recebemos a graça livremente e com abundância, tudo a partir de Cristo, e por causa dEle; pelo que vemos o quanto a alma que recebe a graça é obrigada a reconhecer e adorar a Cristo, e pode ser confirmada no recebimento de mais graça, e de esperanças de vida eterna. (itálicos pelo autor)

É evidente a partir de 1 Pedro 4:10 que a graça de Deus é multiforme, sendo dispensada aos Seus santos em várias formas e medidas de acordo com as suas necessidades, mas para a edificação não somente do indivíduo, mas do Corpo de Cristo como um todo (Efésios 4:7-16). No próprio final desta Epístola, Pedro ordena aos seus leitores, dizendo: “Antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo” (2 Pedro 3:18; cf. Efésios 4:15). Assim, vemos a adequação da oração de Pedro, que Deus exerceria ainda mais Sua benignidade para com eles. Vemos também a necessidade da nossa oração, desta mesma forma, para nós mesmos e para os outros.

Assim, vemos que, embora o significado fundamental e referência da graça é o favor redentor de Deus, gratuitamente concedido, ainda assim o termo é frequentemente usado em um sentido mais amplo para incluir todas essas bênçãos que fluem da Sua bondade soberana. Desta forma é que a graça deve ser entendida nas bênçãos apostólicas: a oração para a contínua e crescente manifestação da expressão da boa obra que Ele já começou (Filipenses 1:6). “Graça e paz”. Os dois benefícios são adequadamente unidos, pois um nunca é encontrado sem o outro. Sem graça conciliadora, não pode haver paz sólida e duradoura. A primeira é a boa vontade de Deus para conosco; a última é a Sua grande obra em nós. Na proporção em que a graça é comunicada, a paz é apreciada: a graça santifica o coração; a paz conforta a alma.

Embora a Paz Comece com a Justificação, Ela é Mantida pela Nossa Obediência

A paz é um dos principais frutos do Evangelho, enquanto é recebida em um coração crente, sendo aquela tranquilidade de espírito que advém da sensação de nossa aceitação da parte de Deus. Não é uma objetiva, mas uma paz subjetiva que está aqui em vista. “Paz com Deus” (Romanos 5:1) é fundamentalmente judicial, sendo o que Cristo fez por Seu povo (Colossenses 1:20). Ainda assim, a fé transmite uma resposta à consciência a respeito de nossa reconciliação com Deus. Na proporção em que a nossa fé repousa sobre a paz feita com Deus pelo sangue de Cristo, e de nossa aceitação nEle, será a nossa paz interior. Em e através de Cristo, Deus está em paz com os crentes, e o feliz efeito desta em nossos corações é uma perceptível “justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Romanos 14:17). Mas não estamos em uma capacidade para receber e desfrutar as bênçãos até que nos rendamos ao Senhorio de Cristo e levemos o Seu jugo sobre nós (Mateus 11:29, 30). É necessário, portanto, que Paulo diga: “E a paz de Deus, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine em vossos corações” (Colossenses 3:15). Este é o tipo de paz pelo que apóstolos oraram em favor de seus irmãos. Esta paz é o fruto de uma segurança bíblica do favor de Deus, o qual, por sua vez, vem da manutenção da comunhão com Ele por uma caminhada obediente. É também a paz conosco. Estamos em paz conosco quando a consciência deixa de acusar-nos, e quando nossos afetos e vontades submetem-se a uma mente iluminada. Além disso, inclui a concórdia e amizade com os nossos irmãos em Cristo (Romanos 5:5-6). Que excelente exemplo nos foi deixado pela igreja em Jerusalém: “E era um o coração e a alma da multidão dos que criam” (Atos 4:32).

A Medida de Concessão Desejada: A Multiplicação de Graça e Paz

Graça e paz são a presente herança do povo de Deus, e delas Pedro desejava que eles fruíssem muitíssimo mais do que um simples gole ou prova. Como 1 Pedro 3:18 indica, ele desejava que eles “crescessem na graça”, e que eles fossem cheios de paz (cf. Romanos 15:13); assim, ele fez solicitação nesse sentido. “Graça e paz vos sejam multiplicadas”. Por essas palavras Pedro apela a Deus para visitá-los com ainda maiores e mais abundantes demonstrações de Sua bondade. Ele ora não somente para que Deus possa conceder a eles mais e maiores manifestações da Sua graça e paz, mas também que as fracas capacidades deles compreendessem que o Deus fizera por suas almas poderia ser grandemente ampliado. Ele ora para que uma oferta abundante de graça e de paz seja conferida a eles. Eles já foram os participantes favorecidos desses favores divinos, mas o pedido foi feito por um aumento abundante desses benefícios. As coisas espirituais (ao contrário das materiais) não saciam no gozo delas, e, portanto, não podemos ter em demasia delas. As palavras “paz vos sejam multiplicadas” indicam que há graus de segurança sobre a nossa condição em relação a Deus, e que nós nunca deixaremos de ser dependentes da livre graça. As dimensões deste pedido nos ensinam que é nosso privilégio pedir a Deus, não somente por mais graça e paz, mas por uma ampliação das mesmas, pelo que Deus é mais honrado quando fazemos as maiores solicitações de Sua graça. Se nossos espíritos são estreitados em seu deleite de graça e paz de Deus, é devido à insignificância de nossas orações e nunca por qualquer avareza nEle.

O Meio pelo Qual a Graça e Paz são Transmitidas

“Pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor”. O leitor atento, que não é muito lento em comparar Escritura com Escritura, terá observado uma variação da saudação usada por Pedro em sua primeira epístola (1 Pedro 1:2). Lá, ele orou: “Graça e paz vos sejam multiplicadas”. A adição (“pelo conhecimento de Deus” etc.) feita aqui é significativa, de acordo com a mudança de propósito de Pedro e adequação ao seu objetivo atual. O estudante também pode ter notado que o conhecimento é uma das palavras de destaque desta epístola (veja 2 Pedro 1:2,3,5,6,8; 2:20; 3:18). Devemos considerar também a frequência com que Cristo é designado “nosso Senhor” ou “nosso Salvador” (2 Pedro 1:1,2,8,11,14,16; 3:15,18), pelo que Pedro traça um contraste acentuado entre os verdadeiros discípulos e os falsos professos do Cristianismo, os quais não se submeterão ao cetro de Cristo. Esse “conhecimento de Deus” aqui mencionado não é natural, mas um conhecimento espiritual, não especulativo, mas experiencial. Nem é simplesmente um conhecimento do Deus da criação e da providência, mas de um Deus que está em aliança com os homens através de Jesus Cristo. Isto é evidente a partir de seu ser mencionado em conexão com as palavras “e de Jesus nosso Senhor”. É, portanto, um conhecimento evangélico de Deus que está aqui em vista. Não pode haver conhecimento salvífico, exceto em e através de Cristo, mesmo como o próprio Cristo declarou: “ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mateus 11:27).

Na medida em que esta oração foi para que a graça e paz fossem “multiplicadas” aos santos “pelo [ou no] conhecimento de Deus”, havia uma tácita indicação de que eles tanto manteriam e progrediriam nesse conhecimento. Calvino comenta da seguinte forma:

Através do conhecimento, literalmente, no conhecimento; apenas a preposição en [Nº. 1722, em Strong e Thayer] muitas vezes significa “através de” ou “com”: ainda assim, ambos os sentidos podem se adequar ao contexto. Estou, no entanto, mais disposto a adotar o primeiro. Pois, quanto mais alguém avança no conhecimento de Deus, todo o tipo de bênção aumenta também igualmente, com a percepção do amor Divino.

O conhecimento espiritual e experiencial de Deus é o grande meio pelo qual todas as influências da graça e paz são transmitidas para nós. Deus trabalha em nós, como criaturas racionais de uma forma que está de acordo com a nossa natureza intelectual e moral, com o conhecimento precedendo todo o mais. Assim como não há paz verdadeira à parte da graça, assim não há nenhuma graça ou paz sem um conhecimento salvífico de Deus; e nenhum tal conhecimento de Deus é possível, senão em e através de “Jesus, nosso Senhor”, pois Cristo é o Meio através do qual todas as bênçãos são transmitidas aos membros do Seu Corpo místico. Quanto mais janelas há em uma casa, mais luz solar entra nela; deste modo, quanto maior o nosso conhecimento de Deus, maior é a nossa medida de graça e paz. Todavia, o conhecimento evangélico do santo mais maduro é apenas fragmentário e frágil e, portanto, requer o aumento contínuo pela bênção Divina sobre aqueles meios que foram nomeados para seu aperfeiçoamento e fortalecimento.

A Realização Divina que Moveu Pedro à Oração

“Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude” (v. 3). Nisso o apóstolo encontrou a motivação para fazer a solicitação acima. Foi porque Deus já havia operado tão maravilhosamente nestes santos que ele foi levado a solicitar que Ele continuasse a lidar generosamente com eles. Também podemos considerar este terceiro versículo como sendo trazido para incentivar a fé daqueles Cristãos: uma vez que Deus havia feito tão grandes coisas por eles, eles devem esperar suprimentos mais liberais da parte dEle. Observe que o motivo inspirador foi puramente evangélico, e não legal ou mercenário. Deus havia concedido a eles tudo o que era necessário para a produção e preservação da espiritualidade em suas almas, e o apóstolo desejava vê-los mantidos em uma condição saudável e vigorosa. O poder divino é o fundamento da vida espiritual, a graça é o que a suporta, e a paz é a atmosfera em que ela vive. As palavras “tudo o que diz respeito à vida e piedade” também podem ser entendidas como referindo-se, finalmente, à vida eterna na glória: o direito a ela, uma aptidão para ela, e uma garantia dela, que já haviam sido concedidos a eles.

Finalmente, é essencial para o nosso crescimento Cristão perceber que o conteúdo do versículo 3 deve ser considerado como o fundamento da exortação nos versículos 5 a 7. Assim, o suprimento solicitado no versículo 2 deve ser considerado como a capacitação necessária para toda frutificação espiritual e boas obras. Vamos, então, exercer a maior diligência para permanecer em Cristo (João 15:1-5), tanto em nossas orações e em todos os nossos pensamentos, palavras e ações.

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♦ Este texto é formado pelo Capítulo 10 do Livro A Guide to Fervent Prayer, por A. W. Pink. Editado.
Fonte: Pbministries.org | Título Original: A Guide to Fervent Prayer
As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
Tradução por Amanda Ramalho | Revisão por Camila Almeida


A Vida e os Labores de Patrick Hues Mell – C. Ben Mitchell

[Jornal Founders 76 • Primavera de 2009 • pp. 17-32]

 Como os homens e mulheres de Hebreus onze, existiram Batistas do Sul pouco conheci-dos de nossa geração “dos quais o mundo não era digno” (Hebreus 11:38). Um destes homens era Patrick Hues Mell.

Nascimento e Primeiros Anos

Nascido em 19 de julho de 1814, Patrick era filho do Major Benjamin Mell de Laurel Hill, Georgia, e Cynthia Sumner Mell, da Carolina do Sul. Sabemos pouco sobre os primeiros anos de Patrick, exceto que ele era o segundo de oito filhos. O pai do jovem Patrick era um homem muito rico, “simpático por natureza, e excessivamente generoso” [1]. Ele era tão generoso que que deu a maior parte de sua fortuna, deixando muito pouco à família após a sua morte, em 1828; três anos mais tarde a senhora Mell morreu, deixando Patrick, com dezessete anos, responsável por toda a família.

Sendo ainda um mero jovem inexperiente, ele foi forçado a confiar exclusivamente em seu talento natural para fornecer um meio de sustento para si e para os irmãos e irmãs dependentes. Ele abriu mão do pequeno restante de sua parte da propriedade para o sustento de seus irmãos e irmãs, e começou com a determinação de obter uma boa educação, e, na medida do possível, recuperar a posição social e propriedade que havia sido perdida pela adversidade de seu pai [2].

Neste ponto, Mell começou a sua carreira de acadêmico, que perdurou por toda a sua vida. Aos dezessete anos, ele ensinou em uma escola primária, em uma cabana de madeira com chão de terra em sua cidade natal, Walthourville, Geórgia, (cerca de 50 km ao sudoeste de Savannah).

Embora o pai de Patrick nunca tenha professado o Cristianismo, os primeiros anos de Mell não foram desprovidos de impressões espirituais. Dr. John Jones, um colega de classe, e mais tarde um ministro Presbiteriano, contou sobre a educação de Mell:

Sua mãe era uma mulher de notável individualidade de caráter, intelectual e verdadeiramente uma mulher de Deus, criada no modo estrito do antigo Congregacionalismo, e, sem dúvida, perfeitamente familiarizada com o Breve Catecismo de Westminster [3].

Um Trecho de uma carta da senhora Mell ao seu filho demonstra sua grande preocupação pela alma dele (deve-se notar que por esta altura Mell, evidentemente, tinha aspirações ao ministério do Evangelho):

Meu querido filho:

É tempo de que você e eu devemos nos comunicar com frequência, intimidade e confidencialidade. Se isso não deve ser esperado pelo momento em que você chegou aos quinze anos, quando deve ser procurado? Em uma consideração, eu tenho mais ansiedade, mesmo pavor, em seu nome do que por qualquer um dos meus filhos. Sinceramente, como eu desejo que um filho meu seja ministro, ainda assim tremo com a ideia de educar e dedicar um filho à profissão sagrada sem provas previamente satisfatórias de que a sua alma esteja bem com Deus. Meu coração arde por vê-lo em todos os sentidos da palavra como um verdadeiro Cristão. Você deve exercer um zelo sobre si mesmo, para que as ninharias deste mundo não amorteçam os seus sentimentos sobre as grandes questões; que são: quais são as probabilidades de minha salvação, o que eu fiz ou devo fazer para ser salvo? Lembre-se: os que são de Cristo crucificaram suas paixões e concupiscências, crucifique as suas. [4]

O coração da senhora Mell tanto anelava pela salvação de seu filho, que ela também escreveu a ele no dia seguinte:

Digo isso com ansiedade, e escrevo com temor, mas eu o digo com fervorosas orações pela verdadeira conversão de sua alma a Deus, e com alguma esperança de que Ele ouvirá a petição que tenho me esforçado para oferecer por você há muitos anos. Eu repetirei: Eu nunca poderei consentir que você estude para o ministério até que eu tenha alguma prova satisfatória de que seu coração foi convertido a Deus, em santa coerência e constância de caráter. [5]

A senhora Mell não viveu para ver seu filho convertido, pois em 1831 o Senhor a levou. No entanto, as sementes de suas orações não foram semeadas em vão. No verão de 1832, Mell foi batizado na Igreja Batista do Norte Newport, Liberty County, Georgia, pelo pastor, Josiah Samuel Law. No ano seguinte, devido à beneficência de um cavalheiro rico, George W. Walthour, Mell conseguiu entrar na turma de calouros de Amherst College, em Massachusetts. Vários eventos em Amherst testemunham que, embora batizado, Mell não era convertido.

Em Amherst, as coisas não iam bem entre o menino do Sul e seus mentores do Norte. Um deles, especialmente desagradável para Pat Mell, era um Professor, chamado Fiske. O sangue de Pat ferveu num domingo, quando Fiske estava pregando. Ele fez alguns comentários depreciativos sobre os sulistas. Pat saiu do santuário e foi condenado por conduta desordeira. O problema surgiu novamente quando Pat se recusou a divulgar para o corpo docente os nomes de alguns de seus colegas estudantes que estavam sendo acusados de violar as regras do colégio. Ameaçado de expulsão, ele estava determinado a não se intimidar e se manteve firme até o fim. Embora ele não quisesse ceder, a faculdade decidiu não expulsá-lo [6].

Mas, sem notificar para Mell, Dr. Fiske escreveu ao benfeitor de Pat acusando o jovem Mell de desperdiçar dinheiro, fazendo com que o Sr. Walthour retirasse o seu apoio ao jovem estudante. Assim, Mell não conseguiu mais permanecer em Amherst. Com pouco mais de cinco dólares no bolso, em 1835, Mell andou 25 milhas até Springfield, onde ele foi capaz de garantir uma posição de ensino.

Os próximos quatro anos foram repletos de inquietação para Pat Mell. Mesmo assim, seu espírito dinâmico e senso de humor o guardaram do total desespero. De Springfield ele se mudou para Hartford, Connecticut, onde se tornou diretor associado na Escola East Hartford. Um ano depois, em 1837, Mell voltou para sua casa no Sul e em pouco tempo conseguiu uma diretoria na Escola Perry Mill, em Tatnall County, Geórgia. No ano seguinte, mudou-se para Montgomery County, onde lecionou na escola Ryal até que, em fevereiro de 1839, foi-lhe oferecido o cargo de diretor da Escola Oxford Clássica e de Inglês (que era uma escola preparatória para Emory College).

Conversão e Chamada para o Ministério

Embora incomodado, inquieto e sob pressão por vários anos de trabalho e luta, uma sábia Providência estava assistindo o jovem. Um Deus misericordioso o segurou na palma de Sua soberana mão. Uma carta escrita em fevereiro de 1939, a Josiah Samuel Law, que o batizara oito anos antes, revela que enquanto em Oxford, as orações de sua mãe deram frutos na vida de seu filho.

Reverendo e Prezado Senhor:

Você tem, sem dúvida, estado acautelado por suas próprias observações, e a partir do testemunho de outros, apesar de você não ter recebido nenhuma confissão minha sobre o fato, que tenho sido há alguns anos passados descuidado no que diz respeito aos interesses da eternidade, e um apóstata da fé que eu professei. Quando eu desisti de minha esperança, eu estava ausente do Estado e o informei sobre isso, enquanto eu pensei (erroneamente, desde então fui informado), que havia somente duas maneiras, de acordo com as regras da igreja, pelas quais minha conexão com ela poderia ser dissolvida: uma por uma demissão em situação regular, se eu desejasse unir-me a outro corpo, e outra pela excomunhão. E, eu suponho que a última deve ser administrada somente quando o membro violou quaisquer das regras óbvias de moralidade, ou pelo menos segundo o que a Igreja instituiu para regular sua conduta exterior. Meu objetivo ao escrever-lhe no momento é saber se o meu nome ainda está nos livros da igreja, para que eu possa ser capaz de descobrir qual pode ser o meu dever sob as circunstâncias…

O Senhor lidou misericordiosamente comigo e teve o prazer de trazer-me das distâncias mais terríveis da incredulidade a humilhar-me aos pés da Cruz. E eu acho que posso dizer que tenho a mais firme crença de humildemente descansar em Suas promessas, que Ele, pelo amor de Cristo, perdoou todos os meus pecados. É quase mais do que posso compreender, e quando penso em quem eu sou e o que eu tenho sido e como eu brinquei com este assunto, eu fico cheio de maravilha que eu possa, possivelmente, chegar a um tal estado de espírito a ponto de crer que eu passei da morte para a vida.

Quando eu me uni à igreja, eu ignorava completamente a religião que eu professava. Isso eu digo não para limpar-me da imputação de instabilidade, nem em qualquer medida como uma desculpa, mas como um fato horrível que eu professei crer em um Deus de Quem eu não sabia nada…

Vivendo pela fé em Cristo, lançando mão de Suas promessas e confiando nEle para o seu cumprimento. Embora tenha lido muitas vezes e ouvido mais outras vezes — surpreendente como isso possa parecer-lhe, e não posso surpreendê-lo mais do que a mim mesmo agora —, eu nunca apreendi qualquer ideia como parte do plano do evangelho e, em vez de buscar o testemunho do Espírito de Deus, que pode testemunhar ao meu espírito que eu nasci de novo, eu olhei para os meus próprios sentimentos instintivos para a prova da minha aceitação para com Deus, sentimentos sobre uma história patética, representações teatrais e harmonia de som, desde então produzidos muitas vezes. E eu estava seguro de que tudo estava certo se eu tivesse sucesso em estimular aqueles sentimentos ao levantar de minha cama pela manhã e ao deitar à noite, especialmente se eu pudesse tê-los acompanhado de algumas lágrimas. Essa, Senhor, era a minha religião. Este foi o alicerce de areia em que eu edifiquei, e não foi de se admirar que as ondas do mundo, batendo em minha casa, a derrubassem. Os confortos da religião eram para mim, apenas um nome. Eu buscava a face Deus, e não porque eu O amava, mas porque eu O temia. Eu olhava para Ele não como alguém que podia sorrir para mim e abençoa-me também, mas como um Deus irado que me puniria por meus pecados. Renunciei ao mundo não porque eu vi a sua vaidade em comparação com as coisas eternas, mas porque eu me senti compelido por motivos de segurança; e eu sou obrigado a acreditar — embora eu não consentiria em confessar a mim mesmo na época — que se eu tivesse a garantia de que eu não tinha nada a temer quanto à justa indignação de Deus, eu nunca teria renunciado a eles e me unido ao Seu povo. Assim era o meu estado religioso quando saí de casa para a faculdade. E agora, eu fui colocado em meio a novos cenários e novos associados, a minha atenção e interesse foram absorvidos por outros assuntos. Deus e as coisas da eternidade tornaram-se cada vez menos interessantes para mim, os meus esforços para criar uma boa condição de sentimento tornaram-se cada vez menos árduos, com intervalos frequentes. Da indiferença quanto à salvação de minha alma, eu deslizei por uma corrente imperceptível a um desgosto sobre o assunto, até uma antipatia sobre ele e, finalmente, aberta e alegremente lancei fora as restrições que a minha religião impôs a mim e me enterrei no mundo. A incapacidade de obter aquela mudança de coração que a Bíblia falou, me induziu a questionar sua realidade e a acreditar que a princípio ela teve a sua existência apenas na calorosa imaginação de entusiastas, e então, que era uma fábula engenhosamente inventada por sacerdotes para enganar os símplices e perpetuar o seu poder. E, assim, a Bíblia passou a ser vista como uma impostura e o povo de Deus como enganadores e enganados, e apenas restou para eu consumar a minha incredulidade, o duvidar da existência de um Deus. Sim, com meus olhos virados para o céu, que declaram a Sua glória, e abertos sobre o belo mundo físico em torno de mim, que revela a obra de Sua mão, eu disse em meu coração, e me alegrei por poder dizer que: não há Deus. Mas, meu misericordioso Pai Celestial me perdoou deste pecado.

Quando penso nas terríveis profundezas de incredulidade em que eu lutei, fico cheio de assombro pela longanimidade e misericórdia de Deus, em que Ele, subitamente, não tenha me cortado ou tenha me dado mais dureza de coração e cegueira de espírito para acreditar em uma mentira. E, agora, todo o meu coração estava absorvido nas coisas deste mundo. Deus e a religião não eram cogitados, exceto para serem blasfemados e zombados, mas não abertamente; pois motivos de prudência me levaram a esconder meu estado, para que eu não chocasse as mentes dos homens e, assim, foi posta uma barreira no caminho das minhas perspectivas temporais. A ambição agora tomava posse de toda a minha alma, um desejo de superar meus companheiros em estado mental — não tanto que eu fosse capaz de fazer melhor, a ponto de me poder me destacar para que todos pudessem contemplar. Isso, a saber, um desejo de tornar-me grande no mundo, fora um princípio comigo desde a minha lembrança mais remota, embora eu tivesse o bom senso de esconder isso dos meus conhecidos em geral, e muitas vezes quando eu era um pobre menino destituído até mesmo das necessidades da vida, eu poderia deliciar-me imaginado sobre um futuro de grandeza e triunfo, nas quais eu pudesse ser o ator. Estes eram apenas sonhos, é verdade, mas sonhos que expulsavam de meus pensamentos cada coisa que não ministrava a eles. E no momento em que estou falando sobre a minha mente ter se tornado tão espiritualmente obscurecida, que eu, se pudesse ter conseguido fama, realmente acredito que estaria disposto a renunciar, sem o menor pesar do coração, desde então e para sempre, a todo interesse na expiação de Cristo, cuja existência eu duvidava. Tal era o meu estado, quando há um pouco mais que um ano eu voltei para casa.

Mas, eu estendi isso a um comprimento impróprio. Resta-me relacionar tão brevemente quanto possível, os meios pelos quais os meus pensamentos foram novamente conduzidos para as coisas da eternidade. E aqui eu não tenho nenhum sinal de interposição para relacionar, nenhuma ocorrência para indicar como tendo sido fundamental para despertar-me a um senso de minha terrível condição. Mas aprouve a Deus que eu fosse colocado em uma situação onde eu pude estar frequentemente sozinho; onde, por influência de Seu Espírito Santo, Ele pôde converter meus pensamentos interiores e a voz mansa e delicada da consciência pôde ser ouvida. O mundo, também, anterior a isso, começou a assumir um aspecto mui diferente aos meus olhos. As circunstâncias que aconteciam, as quais me afetaram, e somente elas de fato, e fizeram uma profunda impressão em mim. A experiência me mostrou que o afeto de amigos, mesmo que me desejassem o bem, poderia facilmente ser perdido, e que da parte do mundo, eu tinha a mesma probabilidade de receber censura por aquilo que merecia elogios, como o contrário. Durante a minha ausência da Geórgia, o tempo não dedicado ao exercício das minhas funções fora gasto em diversões ou em companhia daqueles que eu possuía um comando ilimitado, e, assim, os pensamentos sobre a religião não tinham a oportunidade de se introduzirem sobre mim. Mas depois de meu regresso eu me envolvi em negócios, na época, muito contra o meu próprio consentimento, em uma parte do país que está muito mal resolvida, onde não havia um único jovem da minha idade com quem eu poderia me associar; adicionado a isso havia o fato de que eu não estava em condições de ocupar o meu tempo de férias com os livros. Assim, em certas horas, todos os dias, eu estive sozinho, comigo mesmo. Durante estes períodos Deus agradou-Se em estar perto de mim e de induzir uma tal linha de pensamento como a mostrar-me a vaidade das coisas terrenas, e a importância do peso das coisas da eternidade. As objeções que eu sustentava contra a existência de um Deus e sobre a autenticidade das Escrituras, agora que tinha a oportunidade de pensar com calma e sem interrupção, perderam o seu peso. Mais particularmente de modo que eu não tinha oportunidade de assinalar as inconsistências de Cristãos professos, e raramente ouvia o evangelho pregado. Nesta parte de minha experiência não há nada distinto em destaque que eu possa referir como a causa de qualquer resultado do que se seguiu. Comecei dando aulas naquele lugar confessadamente com a crença de que toda a Bíblia era uma fábula e, que mesmo se fosse verdadeira, ela nunca mais receberia a minha atenção. E os meus passos que eram imperceptíveis para mim no momento e não podiam ser rastreados, agora eram levados a renunciar a todas as minhas dúvidas e sentir que, mesmo para mim, a questão tinha um interesse. Porém, não obstante, por mais de um ano eu brinquei com o assunto. Havia aquela dúvida que eu tinha que resolver, aquele mistério para o qual eu tinha que olhar, e eu tentei me satisfazer dizendo que a religião era um assunto que eu não conseguiria entender. Então, talvez cedendo à influência do momento em que me retirava para um lugar privado e tentava orar, um porque eu não recebia uma manifestação milagrosa da presença de Deus no meu coração eu desistiria em desespero e, talvez, no momento seguinte, com um entusiasmo que poderia me surpreender, eu conseguiria unir-me com o insensato ao lançar ridículo sobre a Bíblia e sobra a Religião.

Mas, para não multiplicar as palavras. Eu continuei nesse estado terrível até cerca de três semanas atrás, quando Deus Se agradou em trazer-me como uma criança ao pé da cruz, e fui levado a rogar-Lhe que me salvasse em seu próprio caminho. Eu sei que sou fraco e incapaz de perseverar se eu depender de mim mesmo; mas Cristo é forte e Ele me disse em Sua palavra, que a Sua graça me basta. Permita-me pedir-lhe para fazer parte de suas orações, assim como eu não tenho nenhuma dúvida de que eu já faço. Ore por mim, para que eu não mais me iluda, mas para que eu possa edificar sobre a Rocha Cristo Jesus [7].

E assim, podemos aprender a partir de sua própria pena como a graça redentora alcançou Pat Mell. A prova de que aquela mudança de coração era real veio no desejo de Pat para dar toda as suas forças ao serviço do Rei dos reis e Senhor dos senhores. Certamente as palavras de sua querida mãe ecoavam em sua mente: “Eu nunca poderei consentir que você estude para o ministério até que eu tenha alguma prova satisfatória de que seu coração foi convertido a Deus, em santa coerência e constância de caráter”. O restante da vida de Mell foi uma vívida ilustração de constância e diligência que acompanham um verdadeiro chamado para o ministério. Ao escrever ao Pastor Law sobre as suas aspirações para o ministério da Palavra, Mell reconheceu: “Eu sei que eu não sou apto para o cargo; mas a preparação do coração é com Deus e Ele pode me qualificar para isso” [8]. Esta crença de que só Deus pode qualificar e capacitar um homem para o ministério do Evangelho esteve gravada profundamente no coração de Mell. Em seu primeiro discurso a uma turma de formandos (1843) na Universidade de Mercer, Mell disse:

Seus corações devem ser profundamente imbuídos do espírito do Evangelho. Vocês não devem apenas entender, mas sentir essas verdades; não apenas recomendá-las aos outros, mas amá-las vocês mesmos, e ademais, vocês devem pregá-las e se esforçarem em humilde dependência do auxílio do Todo-Poderoso [9].

Mell também cria que, para alguns homens, ele mesmo, em especial, a formação teológica formal fazia parte dos meios Divinos usados para preparar Seus ministros. Embora mais educação fosse o objetivo de Mell, Deus já estava guiando-o para um ministério e fornecendo-lhe os materiais espirituais e intelectuais necessários para fazer-lhe um homem de Deus e um pregador de grande poder.

No final da primavera de 1840, menos de um ano após o seu chamado, Mell começou a pregar na comunidade Oxford sob a licença de North Newport Church of Liberty County. Durante os dias de semana Mell ensinava na escola preparatória e no Dia do Senhor ele pregava em lugares carentes e em torno de Oxford.

Seu Pastorado e Carreira em Mercer

Em 1840, Mell casou-se com Lurene Howard Cooper, uma de suas ex-alunas da Academia Ryal em Montgomery County, Geórgia. Sua união de 20 anos foi abençoada com oito filhos e um amor que era visto neles tanto na adversidade quanto no sucesso.

Em 17 de fevereiro de 1841, tendo sido fortemente apoiado pelo ex-governador da Geórgia, George M. Troup, P. H. Mell foi eleito para ocupar a cadeira de Línguas Antigas da Universidade de Mercer, então localizada em Penfield, por volta de 35 milhas de Athens. Em outubro do mesmo ano, Mell foi ordenado ao ministério pela North Newport Church, sob a imposição das mãos de B. M. Sanders, W. H. Stokes e Otis Smith (então presidente da Universidade de Mercer). Sua ordenação foi solicitada pela Igreja Batista Greensboro que Mell pastoreou pelos dez anos seguintes. W. H. Stokes pregou o sermão de ordenação a partir do texto de 2 Timóteo 4:2: “Que pregues a palavra”. E, Mell pregou a Palavra. Um contemporâneo disse sobre Mell:

Como pregador Dr. Mell é forte, capaz, argumentativo e doutrinariamente são, mantendo a sua audiência fascinada pela clareza das suas afirmações e a força de seu raciocínio. Seus argumentos, fundamentados em premissas sólidas, chegam a conclusões inevitáveis. Sobre as grandes Doutrinas do Cristianismo e especialmente os (chamados) “cinco pontos” na teologia, ele é especialmente capaz. Sobre as Doutrinas distintivas de sua denominação, ele é particularmente forte e conclusivo, sempre refutando aqueles que colocam-se em oposição a ele [10].

Quando, um ano depois, se dirigiu à turma de graduandos de Mercer, Mell expressou sua avaliação pessoal sobre grande parte da pregação contemporânea:

A demanda pela pregação que animará, de uma vez, todas as faculdades da mente e do coração, é limitada, e lamento confessar que a oferta cai ainda aquém da demanda. As pessoas facilmente se satisfazem, e são conformadas, quando, semana após semana, elas ouvem os mesmos princípios iniciais da doutrina de Cristo exclamados aos seus ouvidos; e o pregador, tomando licença disso, para saciar sua indolência, continua a substituir o som pela substância, e busca criar a mesma inconstância em sua audiência [11].

Mas, para esses jovens pregadores, ele passou a dizer:

Impregnem-se, por si mesmos na mente inesgotável da verdade do Evangelho. Isso é necessário para a sua ampla e permanente utilidade, e, como ministros instruídos, vocês são obrigados a fazê-lo [12].

Os anos do professor Mell em Mercer foram gastos, de modo geral, em utilidade e felicidade. De acordo com o eminente Presidente John Leadley Dagg, sobre Mell, a sua “juventude, saúde e corpo vigoroso o habilitaram a ocupar o cargo de disciplinador com notável sucesso” [13]. Foi enquanto trabalhava como disciplinador da Universidade de Mercer que Mell recebeu dos alunos o apelido de “Velho Pat”. Pode-se pensar que o cargo de disciplinador em uma escola para pastores Batistas seria uma tarefa de relativa facilidade e segurança. Este não foi o caso. Em uma noite o Professor Mell foi despertado pelo barulho de estudantes universitários bêbados na rua de Penfield. Esses alunos, armados com porretes, ameaçaram bater no Professor Mell por expor previamente alguns delitos às autoridades universitárias. Assim que Mell foi capaz de ver seus rostos, ele se anunciou, chamou-os pelo nome, e ordenou-lhes que fossem para os seus quartos e que se dirigissem na manhã seguinte ao escritório do Presidente. Quando ele se virou para ir embora, um dos estudantes lançou o pesado porrete na direção da cabeça de Mell. Passando ao lado de sua cabeça, o porrete atingiu fortemente o seu ombro, paralisando temporariamente o braço de Mell. No dia seguinte, o jovem, sóbrio e percebendo o que fizera, deixou a universidade sem esperar ser expulso.

Em outra ocasião, a vida de Mell foi salva pela pólvora umedecida pela chuva, quando um estudante bêbado colocou uma pistola no peito do “Velho Pat” e puxou o gatilho três vezes. A tarefa de disciplinar não ocorria sem seus perigos. Ainda assim, Mell serviu bem nessa função.

De 1848 até algum momento em 1880, Mell, juntamente com suas responsabilidades de ensino, pastoreou duas, às vezes, três igrejas. Quando em 1857 Mell assumiu o cargo de Professor de Línguas Antigas da Universidade da Geórgia, seu contrato foi feito “com a condição de que seus deveres de professor não interferissem em suas relações com as igrejas que ele pastoreava” [14]. Em 1848, enquanto ainda estava pastoreando a Igreja Greensboro, Mell também assumiu a Bairdstown Church in Green County. Em 1852, ele foi convocado a assumir o comando da Igreja Antioch em Oglethorpe County, também. Percebendo que estas duas últimas igrejas ocupariam todo o seu tempo, ele foi obrigado a desfazer seu pastorado de dez anos em Greensboro.

Mell foi um pastor fiel e capaz, bem como um poderoso pregador. Um dos membros da Igreja Antioch escreve, depois vinte e seis anos de pastorado da Mell ali:

Fiquei impressionado que ao mesmo tempo ele era um pacificador, no melhor e mais pleno sentido do termo. Ele não procurou harmonizar discórdias, deixando alguns pontos do caso despercebidos, outros apenas suavizados ou cobertos para que fermentassem e irrompessem em toda a sua fúria; seu plano era o melhor; cada ponto em disputa era reunido aos seus próprios méritos e sobre princípio, pelo que poderia ser ajustado, e a paz e harmonia asseguradas sobre uma base sólida [15].

Outro disse sobre as suas habilidades pastorais:

Quanto à sua capacidade ministerial e utilidade, o sucesso com que seus esforços foram coroados são respostas suficientes mesmo para as críticas mais exigentes a que o seu ministério pudesse ser sujeito. Como pastor, em minha opinião, eu ainda não encontrei alguém igual. Minha relação amável e respeito por ele, no passado, foram ocasiões para a observação de que eu o admirava, e eu pensei que gostaria ter o mesmo destino que ele após a morte. Em nossos serviços memoriais, eu referia esta declaração, e comentei que meu apego por ele permanecia inabalável, pois os meus amigos consideraram que o meu desejo era ir após ele quando eu morresse, porque eu imaginava que ele estaria muito perto do Salvador, mais próximo em posição, talvez, do que eu esperava que me seria concedido [16].

Mell não era apenas um pastor, disciplinador e professor universitário, mas também um autor. Ele segurava na mão uma pena pronta, cuja tinta fluiu de 1851 até perto de sua morte. O primeiro trabalho escrito de Mell foi o seu tratado sobre a Predestinação e Perseverança dos Santos. Como visto anteriormente, Mell era um expositor capaz e um destemido defensor dos “cinco pontos da teologia”. Sra. D. B. Fitzgerlad, um membro da Igreja Antioch, relembra:

Quando primeiramente convocado a assumir a igreja, Dr. Mell a encontrou em um triste estado de confusão. Ele disse que certo número de membros estava caindo no Arminianismo. Ele amava muito a verdade para soprar quente e frio ao mesmo tempo. Se esta era uma igreja Batista, deveria ter doutrinas peculiares a essa denominação pregadas nela. E com aquela ousadia, clareza e vigor de discurso que o marcava, ele pregou as doutrinas da predestinação, eleição, livre graça, etc. Ele disse que sempre foi o seu empreendimento pregar a verdade como ele a encontrou na Palavra de Deus, e deixar a questão ali, sentindo que Deus tomaria conta dos resultados [17].

Sua razão declarada para escrever Predestinação e Perseverança dos Santos (que apareceu pela primeira vez como uma série de artigos em The Christian Index) era responder a dois sermões impressos, pelo Reverendo Russel Reneau, que fora “amplamente distribuído através de partes da Geórgia e Tennessee, e tinha sido elogiado como uma refutação completa do Calvinismo” [18]. Mell envolveu-se neste debate escrito, porque ele acreditava que o coração do evangelho estava em jogo. Ele não acreditava que ele estava entrando em uma discussão mística sobre alguma controvérsia antiga. Essa era muito mais uma questão de “vida”.

Eu tenho estado pesaroso, por alguns anos passados, por parte de alguns de nossos ministros, em algumas localidades no Sul, com a disposição de renunciar às doutrinas da Graça, em suas ministrações públicas. Enquanto alguns tenham estado totalmente em silêncio sobre elas, e até mesmo as tenham pregado, contudo não ostensivamente, doutrinas não consistentes com elas, outros deram-lhes apenas um assentimento frio e indiferente, e alguns poucos as têm abertamente ridicularizado e denunciado. Isso, em muitos casos, resultou, sem dúvida, em uma carência de informação, e de uma apreensão, por causa disso, que as doutrinas da graça são sinônimas de Antinomianismo [19].

Que Mell não era nenhum formalista frio e que suas doutrinas não o levaram a qualquer tipo de fatalismo é visto em que aprouve ao Senhor enviar avivamento à Igreja Antioch, em 1852-1853. A partir deste avivamento, o segundo tratado de Mell fluíu, Batismo em Seu Modo e Sujeitos.

Esta publicação deve sua existência às seguintes circunstâncias: Durante o mês de agosto do ano passado, o Senhor abençoou a igreja Antioch, da qual eu sou o pastor, com um período de refrigério de Sua presença. Durante seu progresso, tivemos, por quase duas semanas, ocasião diária para administrar a ordenança do batismo. Como é meu costume, eu aproveitei a oportunidade oferecida para abordar as pessoas ao lado da água, sobre o assunto…

Dentro de uma milha de Antioch está situada a Casa de Encontro Metodista, chamada “Centre”. A próxima “Conferência Trimestral”, nomeou o mui estimável senhor Rev. Wm. J. Parks, o Presbítero Presidente, para pregar um sermão sobre o batismo… Isto nunca foi anunciado publicamente, creio eu, mas foi geralmente compreendido, que isto foi uma resposta às minhas observações ao lado da água [20].

 

Além de pregar sobre o assunto do batismo, Rev. Parks também distribuiu, no “Reino de Mell” (como a comunidade passou a ser conhecida), uma série de trabalhos sobre o batismo infantil. Como resultado, as igrejas Antioch e Bairdstown solicitaram, em uma conferência regular de negócios, que Mell publicasse seus “mui instrutivos discursos sobre o assunto do batismo”. Assim, mais uma vez vemos Mell lançado em controvérsia. Dizem-nos que o livro teve uma grande circulação e que foi fundamental para mudar vários Pedobatistas à fé e crença da denominação Batista [21].

Enquanto Mell nunca se desviou um centímetro da defesa da verdade, ele era muito cortês, no entanto, em relação àqueles que divergiam dele. A Escritura diz:

“E ao servo do Senhor não convém contender, mas sim, ser manso para com todos, apto para ensinar, sofredor; instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade” (2 Timóteo 2:24-25).

Que este foi o caso com o Pastor Mell é visto a partir da seguinte descrição, por seu filho:

Entre os que estavam sentados sob o seu ministério por dez, vinte e vinte e cinco anos haviam pessoas de outras denominações que eram tão calorosas e amigáveis como qualquer outro que ele tinha. Alguns irmãos metodistas participavam em todas as reuniões e conferências tão regularmente como aqueles de suas próprias ovelhas, e eram uma fonte de grande deleite para ele. Eles podiam balançar a cabeça com o que chamaram de “doutrina difícil”, mas eles poderiam apertar a mão dele mui cordialmente ao final do sermão e eles solicitavam um compartilhamento de suas visitas, tanto como faziam os membros de seu próprio rebanho [22].

Paulo e Barnabé em Mercer?

Os próximos anos seguintes a 1854 foram tumultuados para Mell, a Universidade Mercer e os Batistas da Geórgia. Em fevereiro de 1854, John Leadly Dagg deixou vir a público que ele pensou que havia chegado o momento em que ele seria liberado da presidência da Mercer. A oposição a este curso surgiu principalmente devido à apreensão sobre a dificuldade que surgiria na escolha de um sucessor [23]. A turbulência surgiu quase profeticamente. Uma declaração proposta sobre a devida razão da resignação de Dagg foi a sua “falta de força”. Dagg imediatamente registradou seu protesto a esta declaração imprecisa [24]. Mell, crendo que o motivo alegado para a demissão de Dagg faria “grande injustiça a um oficial capaz e fiel”, redigiu uma petição assinada por todos os professores (com exceção do Dr. N. M. Crawford, Professor de Teologia) pedindo que Dagg não fosse aposentado por conta de “falta de força”. No entanto, o Conselho de Curadores recebeu a renúncia de Dr. Dagg e logo depois elegeu o Professor Crawford para o cargo de Presidente.

Logo emergiram entre o Professor Mell e o Presidente Crawford uma diferença de opinião a respeito dos deveres pertencentes a cada um, o que resultou em afastamento, e suas resignações foram oferecidas ao Conselho [25].

O fim último desta triste disputa foi semelhante àquela que aconteceu entre Paulo e Barnabé, e resultou na ruptura entre ambos. Dr. Crawford foi reintegrado pela Diretoria; os Professores Mell, Dagg e Hillyer renunciaram; as coisas não começaram a se resolver até que chegou o ano de 1856. Há muito que pode ser dito sobre essa polêmica e muita coisa deve ser considerada conjecturas [26]. É suficiente dizer que o caráter de ninguém foi criticado durante a tempestade, especialmente o de Mell. No calor da batalha, o Professor Mell foi eleito moderador da Associação Batista da Geórgia e foi lhe oferecida a presidência do Mississippi College, a reitoria do Instituto Feminino Alabama, e foi convocado para exercer o pastorado da Primeira Igreja Batista de Savannah; destes, ele aceitou apenas o primeiro.

Depois de sua demissão como professor de Línguas Antigas da Mercer, os estudantes da Universidade ofereceram a seguinte homenagem ao seu amado professor.

Em uma reunião de vinte e nove estudantes da Universidade de Mercer, em Cicernian Hall, na quinta-feira à noite, dia 29 de novembro, as seguintes deliberações foram aprovadas por unanimidade:

CONSIDERANDO a relação agradável que Rev. P. H. Mell tem até agora sustentado com os estudantes da Universidade de Mercer, como professor de Línguas Antigas, sem mais delongas,

Resolvemos, que em sua aposentadoria, ele levará consigo os nossos melhores anelos para a sua felicidade futura e o desejo ardente de que em qualquer esfera que sua porção seja lançada, seu trabalho seja recompensado com o mesmo sucesso eminente que o acompanhou durante o seu vínculo com a Universidade Mercer.

Resolvemos, que, como um testemunho da alta estima e admiração que nós entretemos em relação a ele, tanto como homem quanto Professor laborioso e competente, nós lhe oferecemos um Bastão com a Ponta de Ouro, carregando a inscrição: Prof. P. H. Mell, dos estudantes da Universidade de Mercer.

Resolvemos, que os procedimentos acima devem ser publicados no Temperance Banner, Christian Index, e Tennessee Baptist.

A comoção foi feita, e prevaleceu por unanimidade, de forma que o encontro, no posterior sábado à noite, resolveu-se em uma Comissão como um todo, e en massa, fizeram a apresentação conforme a devida formalidade na residência privada de P. H. Mell [27].

Na Universidade da Geórgia

Enquanto as águas tumultuosas foram acalmadas, um ano se passou. Um pouco ferido pela batalha e certamente mui cansado, Mell foi eleito pelo Conselho de Administração para a cadeira de Línguas Antigas da Universidade da Geórgia, em 11 de dezembro de 1856. Ele ocupou este cargo até 1860, quando ele foi eleito para a cadeira de Ética e Metafísica e feito vice-Reitor da Universidade. Nesse ínterim, Mell foi eleito presidente da Convenção Batista da Geórgia, uma posição que ocupou por um total de 24 anos. Além disso, a Universidade Furman conferiu-lhe o grau de Doutor em Divindade em 1858. Tudo parecia tranquilo neste espaço de três anos, mas em 1860, Mell foi novamente empurrado para a batalha.

A publicação do seu terceiro grande tratado, Disciplina Eclesiástica Corretiva, despertou a ira de um número crescente de Landmarkistas na Convenção Batista do Sul. De acordo com seu filho, Mell foi solicitado por um número de líderes Batistas a “preparar uma obra sobre o tema [da disciplina na igreja] que pudesse dar uma concepção clara da relação existente entre as igrejas e a condição dos membros da igreja” [28]. Primeiramente publicado pela primeira vez como uma série de artigos nos principais jornais Batistas daquela época, Disciplina Eclesiástica Corretiva foi publicado posteriormente em forma de livro pela Southern Baptist Publication Society, em 1860. Embora não haja nada de esplêndido no tratado em si, que poderia levar a pensar que era uma polêmica contra o Landmarkismo e especialmente contra o tratamento recebido por R. B. C. Howell, da Primeira Igreja Batista de Nashville, ainda assim, sendo publicado logo após o problema de Nashville, todos sabiam o alvo em que Mell mirava. A publicação dos artigos de Mell iniciaram um debate jornalístico em quase todos os documentos confessionais do Sul. O Professor A. H. Worrell de Talladega, Alabama, publicou uma série de artigos intitulados “Revisão de Disciplina Eclesiástica Corretiva”, que procurou responder aos argumentos de Mell a partir de uma posição Landmarkista e somente acendeu as chamas da controvérsia. Embora alguns autores, como os homens caídos frequentemente costumam fazer, envolvem-se em assassinato de caráter, Mell permaneceu cortês e tentou sempre dirigir-se à questão, não à personalidade do autor.

Quando um escritor tentou defender a posição Landmarkista tomando verso após verso de seu contexto Bíblico, a única resposta de Mell foi:

Eu vejo que o meu irmão atacou minha última posição e citou certa Escritura para sustentar o seu ponto de vista. Agora pelo curso de raciocínio de meu querido irmão, eu posso provar algo a partir da Bíblia. Posso provar que o irmão deveria se enforcar. A Bíblia não diz “[Judas Iscariotes] retirou-se e foi-se enforcar”? (Mateus 27:5), e ela também não diz: “Vai, e faze da mesma maneira”? (Lucas 10:37); “O que fazes, faze-o depressa” (João 13:27) [29].

Assim, Mell foi um acérrimo defensor dos princípios Batistas e nunca deixou passar a oportunidade de falar a verdade em amor contra o erro. Ele tinha um grande senso do absurdo e ele manteve uma poderosa capacidade de usar a arma de sarcasmo para defender sua posição. A nitidez das armas do sarcasmo e da réplica rápida começaram ainda em seus primeiros anos. Como um jovem garoto, ele conheceu maltrato de seus vizinhos, em um caminho estreito em que um rapaz não permitia que Mell passasse. Ocupando a caminho, o agressor disse: “Eu nunca dei lugar a um tolo”. Mell simplesmente se afastou e respondeu, “eu dei” [30].

No ano seguinte à publicação Disciplina Eclesiástica Corretiva, a Guerra Civil estourou. Sendo um forte simpatizante com o Sul, Mell foi um dos primeiros a oferecer seus serviços para a defesa de sua terra natal. Na abertura da guerra uma companhia de guerreiros foi organizada, chamada de “Voluntários de Mell” (mais tarde, “Fuzileiros de Mell”). Enquanto os preparativos estavam sendo feitos para enviar os fuzileiros para a dianteira da batalha na Virgínia, a esposa de Mell morreu, forçando-o a renunciar a sua comissão. Não somente Mell perdeu sua esposa, mas também em 1862, em Antietam, na batalha mais sangrenta da guerra, Mell perdeu seu filho mais velho, Benjamin. A correspondência entre Mell e a família que assistiu seu filho antes de sua morte é muito comovente.

Mell casou-se em 24 de dezembro de 1861, com Eliza E. Cooper, de Scriven County, Geórgia, e foi pai de seis filhos. Em 1862, Observância do Sabath, foi publicado como um panfleto para ser distribuído entre os soldados.

Em 1863, duas posições muito importantes foram concedidas a Mell. Primeiro, ele foi eleito o coronel de milícias por parte dos cidadãos de Athens, Geórgia, com o objetivo de defender a parte norte do estado da invasão. Uma parte do comitê dos cidadãos de Athens, ao saber que Mell estava sendo considerado para a posição disse: “Ora, ele não sabe nada sobre assuntos militares”. A que outro membro respondeu: “Eu não me importo com isso, eu sou por Mell de qualquer maneira. Pois, um homem que pode administrar quatrocentos Batistas pode fazer qualquer coisa” [31]. O segundo acontecimento na vida de Mell foi sua eleição em 1863 para a presidência de uma denominação que ele ajudou a construir, a Convenção Batista do Sul. Mell, que reuniu-se com outros em Augusta, em 1845, ocupou a presidência da Convenção Batista do Sul por 17 anos. De 1863 a 1886, com exceção de oito anos de ausência por causa de enfermidade, Mell presidiu a convenção [32].

Em janeiro de 1866, com as cicatrizes da guerra gravadas em seu coração, Mell retomou as suas funções na Universidade da Geórgia. Embora não haja espaço aqui para relembrar suas conquistas, tenha certeza, Mell estava convencido de que não poderia haver separação entre o sagrado e o secular para o Cristão. Seus labores na Universidade foram realizados tão diligentemente para o Senhor como o labor que ele assumiu como pastor e líder Batista do Sul.

O Príncipe dos Parlamentares

Na Convenção Batista do Sul de 1867, reunida em Memphis, Tennessee, Mell foi solicitado (por uma resolução feita por J. P. Boyce) para elaborar um manual de prática parlamentar para o uso da denominação. Um ano depois, um Manual de Boas Práticas Parlamentares foi publicado e adotado pela CBS. Tão generalizada foi a aceitação desta obra, que muitos corpos legislativos adotaram o Manual de Mell, inclusive o poder legislativo da Geórgia. Como parlamentar e oficial Presidente do Tribunal, Mell se destacou, tanto que ele assumiu o título de “Príncipe dos Parlamentares”. Em Direito Parlamentar, um texto designado para as classes de autores no Seminário do Sul, F. H. Kerfoot reconhece:

Durante os primeiros dez anos que o autor ensinou esta matéria, usou como seu livro o manual de Práticas Parlamentares, pelo Presidente P. H. Mell. Ele é, em muitos aspectos, um excelente livro. E pode muito bem ser suposto que o uso dele durante tantos anos deve ter deixado sua impressão sobre o professor, e, portanto, sobre as páginas seguintes também [33].

Um visitante na Convenção Batista do Sul de 1866, comentou sobre as habilidades de Mell como parlamentar:

Pensamos que o Dr. Mell é o melhor oficial presidente que já vimos; e ouvimos muitos presentes na Convenção expressarem a mesma opinião. Ele entende perfeitamente os deveres do cargo, e age com aquela deliberação, rapidez e firmeza, mas com gentileza; ele segurava em verificação qualquer um que fosse indisciplinado, e permitia que o membro mais humilde e mais modesto da Convenção ganhasse a atenção do corpo. Nenhuma pressão dos negócios, ou emoção incidia quanto a tais reuniões, quando as perguntas inesperadas surgiam, poderiam, por um momento, desconcertá-lo. Ele impressionou a todos com a sua peculiar aptidão para o cargo que tão graciosamente ocupou [34].

O carisma pessoal de Mell como presidente e oficial ao presidir, foi visto quando:

Em uma certa reunião da Convenção Batista do Sul, Dr. Mell chamou um irmão para presidir o corpo devido a sua ausência temporária. Os negócios prosseguiram corretamente até que alguém fez um movimento que fez muitos levantarem-se, todos clamando pelo reconhecimento da cadeira. O Presidente irremediavelmente bateu na mesa por ordem, ordem, mas não havia nenhuma ordem. Dr. Mell foi enviado por alguém que reconheceu a importância de um homem calmo na cadeira. Ele voltou e tranquilamente assumiu a liderança da cadeira. Ele bateu levemente o martelo na mesa, e de imediato, como que por mágica, a desordem cessou, grupos de membros que formavam toda a casa e estavam conversando animadamente e em voz alta, dispersaram-se e sentaram-se, e o grande corpo se movia de forma suave e ordenada em seu empreendimento, como se fossem alguma grande porção de máquinas sob o controle de seu dono [35].

Talvez tenha sido esta grande popularidade como um parlamentar que tanto ofuscou seus dons e habilidades como pastor e teólogo, o que mais tem impedido de Mell ser conhecido em nossos dias.

O Ataque Nervoso de Mell

Os anos entre 1871 e 1873 foram muito problemáticos para Mell. O peso das igrejas sobre ele, os deveres da Universidade, as responsabilidades denominacionais, sua pena prolífica, tudo isso contribuiu para o que se tornou conhecido como o “ataque nervoso” de Mell. Em agosto de 1871, enquanto pregava em Bairdstown, Mell foi apreendido por um ataque que o deixou prostrado e quase acabou com sua vida. Por mais de um ano, ele foi incapaz de fazer qualquer trabalho ativo. Talvez isso foi um exemplo do que hoje chamamos de burnout ministerial. Muitas vezes Mell foi ouvido dizer: “Deixe-me desgastar, não enferrujar”.

Juntamente com todas as suas responsabilidades e deveres, não foi também seu grande fardo pelas almas dos homens que o levaram ao seu ataque? Vários dias antes de seu ataque debilitante, Mell estava no púlpito da igreja Antioch e pediu:

“Devo eu, deixá-los, como eu vos encontrei, fora de Cristo? Devem todos os meus argumentos, minhas súplicas, minhas orações, serem apenas tantas mós amarradas aos seus pescoços para arrastá-los para baixo rumo à perdição? Minhas palavras são claras. Já vos alertei sobre a justa indignação de Deus. Tenho vos cortejado com a doçura do amor de Cristo”. Levantando os olhos, solenemente, ele disse: “Deus é minha testemunha, não me esquivei de vos anunciar todo o conselho de Deus, mas, oh, como posso deixá-los. Para muitos de vocês, eu sinto, será apenas um pouco de tempo, até que tenhamos uma doce conversa em um mundo melhor, mas para vocês que têm resistido à força do Evangelho por tanto tempo, deverei permanecer em juízo contra vocês?” [36].

Embora impressionado pensando que o momento de sua própria morte estivesse próximo, Mell foi aliviado pela sua utilidade futura. Depois de sofrer por quase um ano, o médico de Mell prescreveu um cruzeiro. Após seu retorno, e com mais um ano de descanso, em 1874, Mell retomou seus labores na Universidade de Geórgia e ambas as igrejas, com ainda mais vigor do que antes.

Talvez essa experiência “atrás do deserto” proporcionou a Mell mais tempo para a oração e meditação, pois em 1876 o sua Doutrina da Oração foi publicada. Dois anos depois, Mell foi eleito Chanceller da Universidade, cargo que ocupou até sua morte em 1888. Sob a sua liderança, os administradores estabeleceram colégios filiais em várias cidades da Geórgia, a fundação de uma escola de tecnologia (agora Georgia Tech) foi aprovada, e uma estação experimental agrícola foi estabelecida. Um contemporâneo disse sobre a obra de Mell na Universidade:

A administração do chanceler Mell foi uma década de prosperidade para a Universidade. Ele trouxe para o ofício a longa experiência como professor universitário, fortes convicções do dever e da política de boa gestão, e a confiança da poderosa denominação a que pertencia [37].

Ao todo, Dr. Mell serviu na Universidade da Geórgia por 22 anos; na presidência da Convenção Batista do Sul por 17 anos, e na Convenção Batista da Geórgia por 24 anos. Seu ministério incluiu muitas igrejas e agências a mencionar, e suas obras escritas circularam amplamente na segunda metade do século XIX.

Doença e Morte

Em 12 de dezembro de 1887, Mell pregou o seu último sermão. Ele falou sobre a doutrina da eleição, a partir de 2 Tessalonicenses 2:13. No décimo quinto dia do mês, ele foi forçado a deixar de lado todos os seus deveres e buscar descanso, na parte sul da Geórgia. Neste dia, ele escreveu ao seu filho:

Minha saúde está ruim. Eu me gastei pelo meu excesso de trabalho. Meu médico me ordena o recesso. Muitos dos curadores exortam-me a descansar durante um mês; mas eu não posso fazê-lo, os meus colegas já estão sobrecarregados, e minhas aulas poderiam ser prejudicadas. Não há descanso para mim, senão na sepultura [38].

No dia vinte e seis de janeiro de 1988, Patrick Hues Mell encontrou seu descanso eterno nos braços de Seu amado Pai Celestial. Três dias antes de sua morte, ele foi ouvido dizer: “Tenho sido um maravilhoso filho da Providência, se não for da graça” [39]. Seu filho lembrou das últimas horas de Dr. Mell:

Em intervalos, ele dizia: “Eu entrego a minha alma para Deus em Cristo Jesus — a Deus seja a Glória”. “Uma vez que eu estive morto, mas agora estou vivo. No outro mundo eu sou totalmente compreendido e plenamente apreciado — totalmente compreendido e plenamente apreciado”. Ele proferiu estas palavras exatamente como escritas — repetindo a última parte da sentença. Parecia que aqueles que o assistiam foram autorizados a penetrar o véu que paira entre este e o outro mundo, e que ele realmente viu o sorriso compreensivo e de aprovação no rosto de seu amado Mestre.

Pouco antes de sua última respiração, ele disse: “Quase em casa?”. E fez um esforço para dizer algo mais, porém não conseguiu. Em seguida, ele tentou cruzar os braços sobre o peito e morreu tranquilamente — adormeceu nos braços de Jesus, por Quem ele havia combatido uma luta valorosa, e no final de longos anos de vida útil foi levado para o seu galardão [40].

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Notas:
[1] P. H. Mell, Jr., A Vida de Patrick Hues Mell (Louisville, KY: Baptist Book Concern, 1895), 8.
[2] Ibid., 10.
[3] Ibid., 12.
[4] Ibid., 13.
[5] Ibid., 15.
[6] Spencer B. King, Jr., “Patrick Hues Mell: Pregador, Pedagogo e Parlamentar”, História e Herança Batista 5 (Outubro de 1970): 187.
[7] P. H. Mell, Jr., A Vida de Mell, 33-39.
[8] Ibid., 41.
[9] P. H. Mell, “Discurso do Professor Mell, Pregado à Classe de Graduação do Último Dia de Formatura,” The Christian Index, 18 de agosto de 1843, 515.
[10] Samuel Boykin, História da Denominação Batista na Geórgia (Atlanta: The Christian Index, 1881), 382.
[11] “Discurso à Classe de Graduação”, 516.
[12] Ibid.
[13] A Vida de Mell, 48.
[14] Robert Preston Brooks, A Universidade da Geórgia (Athens, GA: The University of Georgia Press, 1956), 69.
[15] A Vida de Mell, 55.
[16] Ibid., 56-57.
[17] Ibid., 58-59.
[18] P. H. Mell, Predestinação e Perseverança dos Santos (Charleston, SC: Southern Baptist Publication Society, 1851; ed. reimp. Forth Worth, TX: The Wicket Gate, 1983), III.
[19] Ibid., IV.
[20] P. H. Mell, Batismo em Seu Modo e Sujeitos (Charleston, SC: Southern Baptist Publication Society, 1853), V.
[21] A Vida de Mell, de 56 anos.
[22] Ibid., 59.
[23] John L. Dagg, “Autobiografia” no Manual de Teologia e Ordem da Igreja (Harrisonburg, VA: Gano Books, 1982, ed. reimp.). 49.
[24] B. O. Ragsdale, História dos Batistas da Geórgia, Volume 1 (Atlanta, GA: O Comitê Executivo da Convenção Batista do Estado da Geórgia, 1932), 1:102.
[25] A Vida de Mell, 77.
[26] Para o cenário completo veja Ragsdale, História dos Batistas da Geórgia, 1:101-117 e Mell, A Vida de Mell, 76-102.
[27] The Christian Index, vol. 34, 13 de dezembro de 1855.
[28] A Vida de Mell, 109.
[29] Ibid., 114.
[30] King, “Pregador, Pedagogo e Parlamentar”, 191.
[31] A Vida de Mell, 144.
[32] É interessante notar que nos anos de ausência de Mell como presidente, J. P. Boyce presidiu a denominação, e também,
no ano da morte de Mell, em 1888, Boyce atuou como presidente da CBS.
[33] F. H. Kerfoot, Direito Parlamentar (Nashville, TN: Broadman Press, 1899), VI.
[34] A Vida de Mell, 153-54.
[35] Ibid., 159.
[36] Ibid., 179.
[37] Robert Preston Brooks, A Universidade da Geórgia, 79.
[38] A Vida de Mell, 249.
[39] Ibid., 249.
[40] Ibid., 251.

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♦ Fonte: Founders.org │Título Original: The Life and Labors of Patrick Hues Mell
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Somente as Igrejas Congregacionais se Adequam aos Propósitos de Cristo na Instituição de Sua Igreja – John Owen

Tendo feito um relato sobre a instituição e a ordem das igrejas evangélicas, que são de Instituição Divina, é necessário que nós também declaremos a sua adequação e suficiência a todos os propósitos para os quais o Senhor Jesus Cristo designou tais igrejas; porque, se há qualquer verdadeiro fim próprio dessa natureza que não pode ser alcançado em ou por qualquer instituição de igreja nesta ou naquela forma, deve-se admitir, então, que nenhuma tal forma é designada por Deus. Sim, é necessário não apenas que tal instituição como pretendida àquela origem divina seja não apenas não contraditória ou inconsistente com tal finalidade, mas que efetivamente conduza a ela, e em sua posição necessária a este propósito. Isso, portanto, é o que buscaremos agora investigar, ou seja, se esta instituição e forma de igrejas evangélicas em congregações individuais são adequadas a todos esses fins para os quais tais igrejas foram designadas; o que elas devem ser em consideração à sabedoria de Jesus Cristo, o seu autor e fundador, ou devem ser completamente descartadas de sua pretensão. Nem há qualquer argumento mais convincente contra qualquer pretensa instituição, regra, ou ordem de igreja do que esta que ser obstrutiva às almas dos homens em alcançar os fins apropriados de sua instituição como um todo. Posto que, de forma geral, o que estes propósitos são já foi anteriormente declarado; eu aqui não os repetirei, ou voltarei a abordá-los, mas apenas destacarei a consideração daqueles que são geralmente pleiteados como não possíveis nesta forma de igrejas em congregações locais, apenas, ou daqueles que pelo menos não são apropriadas à sua finalidade.

 

1. O primeiro destes é o amor mútuo entre todos os Cristãos, todos os discípulos de Cristo. Por discípulos de Cristo refiro-me somente àqueles que professam fé em Sua Pessoa e Doutrina, e O ouvem, ou são guiados por Ele somente, em todas as coisas que referem-se ao culto a Deus, e suas vidas nEle. Se houver alguns chamados Cristãos que nestas coisas escolhem outros guias, chamam a outros ministros, os ouvem em seus apontamentos, nós devemos cortá-los de nossa presente consideração; embora existam importantes funções exigidas de nós em relação a eles também. Mas o que se alega é necessário à constituição de um verdadeiro discípulo de Cristo. Para todos o Seu grande comando é o amor mútuo entre eles mesmos. Isso que Ele chama de uma maneira especial “o Seu mandamento” e “um novo mandamento”; como por outras razões, porque Ele havia dado o primeiro grande exemplo disso em Si mesmo, como também desvelou os motivos para isso e as razões para isso, sobre o que a humanidade anteriormente estava obscurecida até então. E tal peso Ele colocou sobre esse comando, que Ele declara que a manifestação da glória de Deus, Sua própria honra, e a evidência a ser dada ao mundo de que somos Seus discípulos, de fato dependem da nossa obediência a isso.

Expressar e exercitar esse amor, em todos os seus atos e deveres, entre os Seus discípulos, foi uma finalidade de Sua nomeação para que eles andassem em relação de igreja uns com os outros, neste amor que é o vínculo da perfeição. E a perda desse amor, como o de seu devido exercício, não é menos uma perniciosa parte da apostasia fatal das igrejas do que o é a perda da fé e adoração: pois, a esse respeito a Cristandade, como normalmente é chamada, se torna o maior palco de ódio, raiva, ira, derramamento de sangue, e desolações mútuas que há no mundo todo; de modo que não temos nenhuma maneira de responder à objeção dos Judeus ao argumentarem contra nós sobre as promessas Divinas de amor e paz no reino do Messias, mas pela admissão de todas essas coisas surge uma rebelião contra Seu governo e reino. Agora, esse amor em seu exercício é eminentemente preservado nesta finalidade de Igrejas particulares; pois,

(1) O princípio do ajuntamento deles em tais sociedades, além da fé em Cristo Jesus, é o amor para com todos os santos; pois a sua união, sendo com alguns deles, como tais, somente, eles devem ter um amor para com todos os que o são assim. E nenhum deles se ajuntaria em tais sociedades se o seu fazê-lo em qualquer coisa prejudicasse o seu amor por todos os discípulos de Cristo, ou o impedisse em qualquer de suas operações. E a comunhão destas igrejas entre si é, e deve ser, como a que todas elas se constituem como que um só corpo e uma igreja comum; como veremos posteriormente. E é um dever principal delas o estimularem-se, em todos os seus membros, a um exercício contínuo de amor para com todos os santos de Cristo, conforme a ocasião exigir; e se eles são defeituosos nesse amor católico, a culpa é deles, [sendo] contrária à regra e ao propósito de sua instituição.

(2) Para a expressão constante e exercício desse amor são necessários, [1] objetos presentes adequados a todos os atos e deveres do mesmo; [2] A descrição e prescrição desses atos e deveres; [3] Regras para os corretos desempenho e exercício deles; [4] O fim a ser alcançado em seu cumprimento. Todas estas coisas o Senhor Jesus providenciou aos Seus discípulos na constituição e regra dessas igrejas. E o devido atendimento a eles, Ele designou como o exemplo, julgamento e experiência do amor deles por todos os Seus discípulos; ao passo que eles podem pretender tal amor, ainda assim alega-se que eles não sabem como e nem onde se expressa-lo e exercê-lo, especialmente quanto aos variados deveres mencionados na Escritura como pertencentes a isso, Ele providenciou este caminho, em que não se pode ignorar os deveres de amor exigido deles, nem os objetos, normas adequadas, e fins para a sua prática. Exigiria muito tempo discorrer sobre essas coisas em particular. Eu apenas adicionarei (o que é facilmente defensável) que o amor evangélico jamais será recuperado e restaurado em sua glória primitiva até que as Igrejas ou congregações particulares sejam reformadas e convertidas ao exercício do amor sem fingimento que é exigido de todos os seus membros entre si; pois enquanto os homens vivem em inveja e malícia, detestarão e odiarão uns aos outros, ou enquanto eles vivem em uma negligência aberta de todos os deveres que o Senhor Jesus Cristo ordenou para que fossem observados em relação aos membros da sociedade a que eles pertencem, como um penhor e prova de seu amor por todos os Seus discípulos, tal coisa não pode ser alcançada. E assim é na maioria das assembleias locais, que, em meio a suas queixas de violação do amor e união, pela retenção da comunhão de alguns homens em algumas partes do culto divino com eles, ainda, além dos deveres comuns da civilidade e da vizinhança, não conhecem nem praticam qualquer coisa deste amor, alegria e comunhão espirituais que devem haver entre eles, como membros da mesma igreja.

Não nos vangloriamos de quaisquer realizações deste tipo, – nós sabemos o quão pouco alcançamos daquele amor ardente que floresceu nas primeiras igrejas; mas isso dizemos, que não há nenhuma maneira de recuperá-lo, senão por essa instituição e ordem de igrejas particulares que propomos, e, κατὰ τὴν δοθεῖσαν δύναμιν, real aderência a elas.

Mas, pretensões quanto ao contrário são pleiteadas com veemência, e os clamores quanto a este fim são altos e muitos: pois, esta forma, diz-se, de estabelecimento de congregações locais é aquilo que tem causado divisões intermináveis​​, e perdido todo o amor e afeição Cristã entre nós, sendo acompanhados de outras consequências perniciosas, como os adversários mais retóricos disso são malmente capazes de declarar; nem o próprio Tértulo poderia fazê-lo, se ele estivesse ainda vivo; pois, por esse meio, os homens não se encontrando, como costumavam fazer, na administração do sacramento e oração comum, todo o amor é perdido entre eles. Eu respondo:

[1] Essa objeção, tanto quanto eu sou capaz de observar, é maioritariamente gerida por aqueles que parecem saber muito pouco sobre a natureza e deveres daquele amor que o nosso Senhor Jesus Cristo ordena no evangelho, nem dão qualquer evidência considerável de seu viver, andar e agir no poder dele. E, quanto a que eles se imaginam sob esse nome, ao passo que é evidente a partir da prática comum que isso não se estende mais longe, senão até a passividade nas coisas civis e indiferentes, com algumas expressões de bondade em seus folguedos e festins, e outras sociedades joviais, em que não estamos interessados.

[2] Essa objeção reside não contra a coisa em si mesmo, absolutamente – a saber, que todas as igrejas de instituição Divina são congregacionais, o que, somente, é agora pleiteado – mas contra o ajuntamento de tais sociedades ou congregações nessa condição das coisas que agora prevalecem entre nós. Mas, enquanto isso depende de princípios ainda não declarados e confirmados, a consideração desta parte da oposição deve ser encaminhada a outro lugar. Direi apenas no momento, que este é o maior e mais potente motor na mão de Satanás, e dos homens de interesse secular corrupto, para reter toda a reforma da igreja fora do mundo.

[...]

[3] Não encontramos que uma participação conjunta nas mesmas ordenanças, ao mesmo tempo, no mesmo ambiente, é em si mesmo ou um efeito, ou evidência, ou dever do amor evangélico, ou qualquer outro meio para a preservação ou promoção do mesmo; pois isso foi diligentemente observado no Papado, quando todo o verdadeiro amor, fé e adoração evangélicos foram perdidos. Sim, esse tipo de comunhão e colaboração, adicionadas a uma dependência implícita na autoridade da igreja, foram substituídos em seu lugar; e multidões estiveram satisfeitas com elas, como aqueles que as estabelecem em sua negligência a todas as outras graças e seu exercício. E, eu gostaria que não fosse assim entre outros que supõem que eles têm todo o amor que lhes é exigido, se eles estiverem livres de tais variações escandalosas com seus próximos, a ponto de torná-los inadequados para a comunhão.

[4] Se este for o único meio de amor, como os homens o mantém em direção a qualquer um que não seja de sua própria comunidade, considerando que eles nunca se encontram no sacramento da Ceia do Senhor? E se eles podem viver em amor com os de outras comunidades, por que eles não o fazem com aqueles que tendo a mesma fé e sacramentos com eles, encontram-se para o exercício do culto Divino, em tais congregações como as que já descrevemos? Portanto –

[5] A divergência que pretensamente seria causada pela criação destas congregações particulares é uma parte daquela variância que Cristo veio trazer ao mundo: “Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; e assim os inimigos do homem serão os seus familiares” (Mateus 10:34-36). Ele foi o Príncipe da Paz; Ele veio para fazer a paz entre Deus e os homens, entre os próprios homens, Judeus e Gentios; Ele não ensinou nada, ordenou nada que em sua própria natureza tivesse a mínima incoerência com a paz, ou oferecesse semblante de desavença: mas Ele declara o que aconteceria e viria, por meio do pecado, das trevas, da incredulidade e inimizade quanto à verdade, o que continuaria em alguns sob a pregação do evangelho; enquanto outros de seus parentes mais próximos abraçariam a verdade e profissão dele. [...]. A mesma verdade evangélica pregada, os mesmos sacramentos administrados; e considerando que tanto os princípios da forma, e as pessoas deles que se reúnem em corporações distintas para a celebração do culto Divino, conduzem ao amor e à prática do mesmo em todas as suas funções conhecidas, todos os males que ocorrem nesta forma congregacional devem ser cobrados da inimizade, ódio, orgulho e interesse secular dos homens; o que não está em nosso poder sarar.

 

2. Outra finalidade do estabelecimento desta instituição é que a igreja seja a “coluna e firmeza da verdade” (1 Timóteo 3:15), ou seja, que ela deve ser o principal meio exterior de apoio, conservação, declaração pública e propagação da doutrina ou verdade do evangelho, especialmente em relação à Pessoa e ofícios de Cristo; que os apóstolos acrescentam à esta afirmação nas próximas palavras. A instituição de igreja que não corresponde a este propósito não é de instituição Divina; todavia, o ministério daquelas igrejas é eminentemente adequado.

Existem três coisas necessárias para cumprir este dever, ou exigidas para esta finalidade, para que a igreja seja a coluna e baluarte da verdade:

(1) Que ela preserve a verdade em si mesma, e na profissão de todos os seus membros, contra todos enganadores, falsos mestres e erros. Isso o apóstolo dá em encargo especial aos anciãos da igreja de Éfeso, acrescentando as razões disso (Atos 20:28-31). Isto é de uma forma especial confiado aos oficiais da igreja (1 Timóteo 5:20; 2 Timóteo 1:13-14). A isso o ministério dessas igrejas é próprio e adequado. A inspeção contínua que eles têm e devem ter quanto a todos os membros da igreja, adicionado àquela circunspecção e julgamento das doutrinas pregadas por eles mesmos a todo o corpo da igreja, adequa-os para este trabalho. Este é o meio fundamental (em questão, o único meio externo), que o Senhor Jesus Cristo determinou para a preservação da verdade do evangelho neste mundo, em que a Igreja é a coluna e firmeza da verdade. Eu desconheço como isso pode ser feito onde as igrejas adotam aquele modo de agir e constituir que os oficiais delas não podem ter inspeção imediata ou jurisdição tanto sobre o conhecimento, opiniões ou práticas dos membros de sua igreja, nem o corpo da igreja conhece, sobre algum fundamento evidente, o que o seu principal oficial crê e ensina. Por este meio a verdade foi preservada nas igrejas dos primeiros dois séculos, as quais não tinham oficiais, senão os que eram estabelecidos em igrejas locais, de modo que nenhum erro considerável foi introduzido dentre elas.

(2) Que cada igreja cuide para que a mesma verdade seja plenamente conservada, bem como a profissão dela, em todas as outras igrejas. Sua comunhão entre si (e sobre isso, posteriormente) é construída sobre a sua ὁμολογία comum, ou a profissão da mesma fé. Este, portanto, é seu dever, e sempre foi a sua prática, cuidar para que a verdade seja plenamente preservada; pois caso houvesse uma mudança na fé de qualquer um deles, eles sabiam que seria a dissolução da sua comunhão. Portanto, quando qualquer coisa dessa natureza ocorria, assim como houve na igreja de Antioquia na pregação sobre a necessidade da circuncisão e observância da lei, por meio de que as almas de muitos dos discípulos foram subvertidas, a igreja em Jerusalém, ao ser notificada e tomar conhecimento sobre isso, ajudou-os com as suas advertências e conselho. E nos diz Eusébio, que, após a primeira promulgação das heresias e frenesis de Montano, os fiéis, ou igrejas na Ásia, reuniram-se com frequência em diversos lugares para examinar suas pretensões e condenar seus erros; pelo que as igrejas na Frígia foram preservadas (Hist. Eclesiástica, livro V. cap. 14). Assim, o mesmo foi feito depois, no caso de Samosatenus em Antioquia, em que a igreja foi libertada da infecção de sua heresia perniciosa (livro VII. cap. 27, 28, 29). E esse cuidado ainda compete a cada Igreja local, caso ela demonstre ser a coluna e firmeza da verdade. E da mesma maneira Epifânio, relatando sobre a origem da heresia do Noetus, um Patripassiano1, afirma que os santos presbíteros da Igreja o chamaram e perguntaram a opinião dele várias vezes; pelo que, sendo convencido antes do presbitério sobre os enormes erros, ele foi expulso da igreja: “Ἀλλὰ μεταξὺ τούτων (when he began to disperse his errors) ἀπὸ τῆς περὶ αὐτὸν ἐνηχήσεως οἱ μακάριοι πρεσβύτεροι τὴς ἐκκλησίας προσκαλεσάμενοι αὐτὸν ἐξητάζον περὶ τούτων ἁπάντων· — ὁ δὲ τὰ πρῶτα ἠρεῖτο ἐπὶ τοῦ πρεσβυτερίου ἀγόμενος, Epiphanius, Hæres. cont. Noet. Hær [Epifânio, Contra as Heresias]. xxxviii. seção 57.

Assim é que a doutrina da igreja, quanto ao seu conteúdo, foi preservada completa durante os dois primeiros séculos, e um pouco depois. Na verdade, como quando os Israelitas saíram do Egito, veio junto com eles uma “muita mistura de gente” (Êxodo 12:38), que caiu por “cobiçar” a carne quando eles chegaram ao deserto (Número 11:4), para o perigo de toda a congregação. semelhantemente, quando o Cristianismo foi primeiramente pregado e recebido no mundo, além daqueles que abraçaram sinceramente, e foram acrescentados à igreja, havia uma grande mistura de Judeus obstinados, como os Ebionitas; de Gregos filosóficos, como os Valentinianos e Marcionitas; de impostores evidentes, como Simão, o Mago e Menandro; os quais, todos eles, fingiram ser Cristãos, mas caíram em concupiscência, e extremamente perturbaram e deixar as igrejas perplexas esforçando-se para seduzi-las às imaginação deles. No entanto, nenhuma das suas abominações poderia forçar uma entrada em suas próprias igrejas, as quais, por manter a sua instituição, foram preservadas. Mas quando esta instituição e ordem da igreja foi alterada, e outra gradualmente introduzida em seu lugar, erros e heresias obtiveram novas vantagens, e entraram nas próprias igrejas, as quais antes embora as atacassem eram frustradas, pois:

[1] Quando a prerrogativa e preeminência de uma única pessoa na igreja começou a estar em estima, não poucos falharam em suas tentativas de igualá-lo, retaliando eles mesmos a igreja, fazendo de seu trabalho o o inventar e propagar heresias perniciosa. Assim fez Thebuthis em Jerusalém (Eusébio, livro IX, cap. 22); e Valentinus, Tertul e Valentine (cap. IV); e Marcion em Roma (Epifânio. Haeres. XIII). Montano caiu em sua velhice na mesma consideração; assim o fez Novaciano em Roma (Eusébio, livro VI. cap. 43, e Ário em Alexandria. Por isso há aquela censura deles, por Lactâncio, livro IV. cap. 30: “Ii quorum fides fuit lubrica, cum Deum nosse se et colere simularent, augendis opibus et honori studentes, sacerdotium máximo affectabant, et uma victi potioribus, secedere cum suffragatoribus maluerunt, quam eos ferre præpositos quibus concupierant ipsi ante præponi”.

[2] Quando qualquer um de seus bispos da nova constituição, seja patriarcal ou diocesana, caía em heresias, o que fizeram com frequência, chegando a incorrer nelas muitas vezes, tinham muitas vantagens para difundir o seu veneno para o corpo inteiro de suas igrejas, e certos interesses políticos para a sua promoção, de modo que as próprias igrejas foram completamente infectadas com estas heresias. É verdade, o corpo das pessoas em muitos lugares se opuseram a eles, retiraram-se e separaram-se deles; mas não se pode negar, contudo, que esta foi a primeira forma e os meios através dos quais as igrejas deixaram de ser a coluna e firmeza da verdade. Tantos erros destrutivos foram recebidos dentro delas, que elas foram atacadas exteriormente somente enquanto elas se firmaram na primeira instituição. E se não tivessem as igrejas, no decorrer do tempo, completamente perdido seu estado e ordem primitivos, por aglomerarem-se em um papado, sob a dissimulação da igreja ser universal, a fé em si nunca poderia ter sido tão completamente corrompida, depravada e perdida entre eles, como ela foi, em consequência disso.

(3) Propagar o evangelho é da mesma maneira necessário a ela. Isso, eu reconheço, mais imediatamente diz respeito ao dever de pessoas em qualquer ordem de igreja do que a própria ordem em si; pois esse deve ser o trabalho de algumas pessoas em particular, que se dedicam aos seus ministérios, como era nas primeiras igrejas, 3 João 5-8.

Semelhantemente pode ser dito de qualquer outra finalidade reconhecidamente pública da instituição de igrejas. Se a forma como defendida não for consistente com todas elas, e os meios adequados para os atingir, se não forem adequadas ao seu cumprimento, que sejam descartadas. Insistirei somente em mais uma.

 

3. Nosso Senhor Jesus Cristo deu essa instituição às Suas igrejas, estabeleceu-as nessa ordem, como que o Seu interesse, reino e religião fossem propagados ao mundo, sem prejuízo ou desvantagem a nenhum dos interesses legítimos dos homens, especialmente, sem qualquer oposição ou até interferência com a autoridade ou o magistrado civil, que é ordenação de Deus; e nenhuma forma de igreja que assim o faz é de Sua instituição. Portanto, devo declarar brevemente quais são os princípios daqueles desta forma, nestas coisas, que são os princípios da forma em si que eles professam:

(1) A primeira asserção geral quanto à essa finalidade é esta: O Senhor Jesus Cristo não ensinou nenhuma doutrina, nem nomeou qualquer ordem em Sua igreja, nem deu-lhe algum poder, que se opõem ou sejam inconsistentes com qualquer governo justo neste mundo, de que espécie for, sobre aqueles a quem o governo é distribuído em razão e prática. Sua doutrina, na verdade, se opõe a toda injustiça em e sobre todos os homens, magistrados e outros; mas não se opõe à regra legal de magistrados que são homens injustos. E esta oposição é apenas doutrinária, confirmada com promessas e ameaças de coisas eternas, recusando-se e desprezando todos os auxílios exteriores de força e contenção. Esta regra nós consentimos ao julgamento de todas as igrejas e sua instituição, se elas estão de acordo com a mente de Cristo.

Mas, enquanto o Senhor Jesus Cristo não ensinou e nem ordenou, nada que seja contrário ou inconsistente com qualquer tipo de governo que seja justo. Se governantes ou magistrados proibirem a observância do que Ele comandou, designou e nomeou, então, pesa sobre Ele ou sobre a Sua forma, de modo que Seus discípulos não podem, não ousam e nem irão cumprir essa proibição, e serão acusados por isso de sedição e de oposição aos governantes, assim, eles tratam de forma negativa o próprio Cristo, pelo que eles prestarão contas; pois, ao passo que “todo o poder lhe é dado no céu e na terra” [Mateus 28:18], todas as nações são a Sua herança, todas as pessoas estão à Sua disposição absoluta, e é o Seu prazer estabelecer o Seu reino na terra, sem o que a própria Terra não teria continuado. Ele não poderia lidar mais gentilmente com os governantes justos deste mundo (e Ele fez isso porque o governo justo é a ordenança de Deus) do que ao ordenar todas as coisas assim, que se eles recebem a Sua lei e doutrina ou não, nada deve ser feito em oposição a eles ou à regra deles.

[...]

(2) Em particular, o Senhor Jesus Cristo não ordenou nenhum poder ou ordem em Sua igreja, nenhum ofício ou dever, que permaneça em necessidade da autoridade, sanção ou força civil para preservá-lo, ou torná-lo eficaz quanto à sua finalidade apropriada. É suficiente retirar qualquer coisa de uma pretensão de ser um desígnio de Cristo em Sua igreja, se isso não for suficiente ao seu próprio fim adequado, sem a ajuda do magistrado civil. Qualquer instituição de igreja que é constituída pela autoridade humana, ou não pode funcionar sem ela, não é pertence a Cristo. Essa ordenança que existe em sua própria natureza Divina, ou melhor, que assim se auto supõe, na medida em que não é eficaz à finalidade sem o auxílio da autoridade humana, não é de Cristo, pois Ele não precisa disso. Ele não pedirá a assistência da autoridade civil para governar sobre as consciências dos homens, no que diz respeito ao seu viver para Deus e ao vir para o gozo dEle mesmo.

A forma de exigir a sanção da autoridade civil quanto às ordens e determinações eclesiásticas começou com a utilização de conselhos gerais nos dias de Constantino; e quando isso era desenvolvido e aprovado, na medida em que era determinado nos sínodos, seja quanto à doutrina ou quanto ao governo da igreja, deveria ser confirmado pela autoridade imperial, com penalidades em tudo o que pudesse contradizer tais determinações. É lamentável considerar que destruição mútua foi feita entre os Cristãos baseados sobre os vários sentimentos de sínodos e imperadores. No entanto, esta forma agradou os dirigentes da igreja tão bem, e – como eles pensavam –, os aliviou de tantos problemas, que até agora foi incrementado entre eles, de forma que finalmente, eles não deixaram nenhum poder sobre a religião ou sobre as pessoas religiosas em relação ao magistrado civil, senão o que deveria ser exercido na execução dos decretos e determinações da igreja.

É necessário, a partir desta instituição de igrejas independentes, que elas tenham a sua subsistência, continuação, ordem e eficácia de tudo o que elas realizam e fazem como igrejas, a partir do próprio Cristo; pois, enquanto tudo o que somos e fazemos é celestial, espiritual, e não é deste mundo, assim, isso não se estende a nenhuma de todas as coisas que estão sob o poder do magistrado (ou seja, a vida e os corpos dos homens, e todos os interesses civis pertencentes a eles), e nada influencia, senão o que nenhum poder de todos os magistrados sob o céu podem alcançar (ou seja, as almas e as consciências dos homens), nenhum problema pode surgir disso a algum dos governantes do mundo, nenhuma contestação sobre o que eles devem e o que não devem confirmar; o que têm causado grandes transtornos entre muitos.

(3) Em especial, também, não há nem pode haver nesta instituição de igreja a menor pretensão de poder ou autoridade a ser desempenhada em direção ou sobre as pessoas de reis ou governantes, o que poderia contestar o seu direito ou impedir o exercício de sua justa autoridade; pois, como Cristo não concedeu tal poder à igreja, assim, é impossível que qualquer pretensão disso seja estabelecida em uma congregação particular, especialmente sendo reunidas sobre este princípio. De forma que não há nenhum poder eclesiástico propriamente dito, senão que é assim estabelecido, e a isso nenhuma concordância, acordo ou associação de muitas igrejas podem adicionar um novo, maior, ou outro poder ou autoridade para elas além do que elas tinham antes isoladamente. [...].

Estes princípios, eu digo, são suficientes para assegurar a religião Cristã, e o estado, ordem e poder das igrejas instituídas nela, a partir de todas as reflexões sobre a inconsistência com o governo civil, ou de homens influentes buscando sua mudança ou ruína.

A soma é: Permita que a estrutura exterior e ordem do governo justo seja de que tipo for, não tenha nada inconsistente com ele, nada estabelecido sobre ele, nada fazendo em oposição a ele, pois isto é designado por Jesus Cristo, ou pertence à instituição de igreja que Ele ordenou e estabeleceu.

Apenas dois aspectos devem ser adicionados a estes princípios: que nós não podemos ver a distinção entre o estado civil e a igreja de forma a torná-los indiferentes um ao outro; pois,

Em primeiro lugar, é o dever inquestionável dos soberanos e governadores do mundo, sobre a pregação do evangelho, receberem a sua verdade e prestarem obediência aos seus mandamentos. E considerando que todo poder e ofícios devem ser indicados por Deus, de quem são todas as normas dos ministros, eles são obrigados, no exercício das suas funções, a aprovar, suprir e proteger a profissão e professores da verdade, ou seja, a Igreja – e isso de acordo com os graus e medidas que julgarem necessárias.

Em segundo lugar, é dever da igreja, materialmente considerada, isto é, de todos aqueles que são membros desta organização, em qualquer reino ou comunidade, ser útil e subserviente, mesmo como Cristãos, a essa regra, que está sobre eles como os homens, em todas as formas e por todos os meios, que as leis, usos e costumes dos países aos quais eles pertencem. Todavia estas coisas são frequentemente faladas.

Há outras diversas considerações pelo que pode ser evidenciado que esta ordem e instituição de igrejas evangélicas não apenas são consistentes com todos os governos justos no mundo (digo, que é assim em sua constituição, embora, como todas as outras formas, ela é suscetível à má administração), porém ela é mui útil e subserviente à sua justa administração, sendo absolutamente incapaz de mistura em si, como tal, em qualquer dessas ocasiões de assuntos do mundo ou estatais que possam criar a menor dificuldade ou problema aos governantes.

Com os demais, não é assim. Sabe-se que a própria constituição da igreja papal, como se afirma nos cânones, é incompatível com os justos direitos dos reis e governantes, e frequentemente, no exercício de seu poder, destrutivo às suas pessoas e domínios. E nisso concordou o prelatício da instituição da igreja da Inglaterra, enquanto ela continuou em comunhão com eles, e apegou-se a sua dependência em relação à Igreja Romana; pois, embora, eles tiveram todo o seu poder original a partir dos reis deste reino – como os registros e as leis disso expressamente afirmam: “que a Igreja da Inglaterra foi fundada em episcopado pelo rei e pelos seus nobres”, ainda assim, eles alegaram essa adição de poder e autoridade, em virtude de seu ofício de onipotência papal, na medida em que eles eram líderes em detrimento do governo desta nação, sob o pretexto de manter o que eles chamavam de “direitos da Igreja”. [...].

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[1] Patripassiano:Um monaquiano. Alguém que nega distinção entre as três Pessoas em um só Deus, e afirma que há apenas uma Pessoa divina, que em sua natureza eterna foi denominado o Pai, mas na sua encarnação o Filho, e que o Pai sofreu na paixão como e no Filho. O termo ocorre pela primeira vez na literatura em um tratado de Tertuliano sobre o assunto 200 d. C. [Fonte: Century Dictionary and Cyclopedia, via Finedictionary.com – N. R.]

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♦ Este texto é o Capítulo 6 do Livro Inquiry into the Original, Nature, Institution, Power, Order, and Communion of Evangelical Churches, por John Owen. Editado.
♦  Fonte: CCEL.org | Título: Inquiry into the Original, Nature, Institution, Power, Order, and Communion of Evangelical Churches
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Graça, Eleição e Glória – Arthur Walkington Pink

“E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória, depois de havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça. A ele seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém.” (1 Pedro 5:10-11)

“E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou”. No último capítulo (utilizan-do a análise de Thomas Goodwin) foi apontado que este título mui abençoado tem relação com o que Deus é em Si mesmo, o que Ele é em Seu propósito eterno, e o que Ele é em Suas atuações em relação ao Seu povo. Aqui, nas palavras que acabamos de citar, vemos as três coisas unidas em uma referência ao chamado eficaz de Deus, pelo que Ele traz uma alma das trevas da natureza para a Sua própria maravilhosa luz (1 Pedro 2:9). Esta especial chamada interior do Espírito Santo, que produz imediata e infalivelmente arrependimento e fé em seu objeto, fornece, assim, a primeira prova evidente ou exterior que o novo crente recebe de que Deus é, em verdade, para ele “o Deus de toda graça”. Embora esta não tenha sido a primeira saída do coração de Deus para ele, no entanto, está é a prova de que o Seu amor fora estabelecido sobre ele desde a eternidade. “E aos que predestinou a estes também chamou” (Romanos 8:30). Deus tem “elegido desde o princípio [o Seu povo] para a salvação” (2 Tessalonicenses 2:13-14). No devido tempo, Ele opera a salvação deles pelas operações invencíveis do Espírito, que capacita e faz com que eles creiam no Evangelho. Eles creem através da graça (Atos 18:27), pois a fé é o dom da graça Divina (Efésios 2:8), e ela é dada a eles, porque eles pertencem à “eleição da graça” (Romanos 11:5). Eles pertencem a essa eleição favorecida porque o Deus de toda a graça, desde a eternidade passada, os escolheu para serem os monumentos eternos da Sua graça.

A Regeneração é o Fruto da Eleição, Não a Sua Causa

Que foi a graça que havia no coração de Deus, que O levou a chamar-nos é evidente a partir de 2 Timóteo 1:9: “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos”. A regeneração (ou chamada eficaz) é a consequência e não a causa, da predestinação Divina. Deus resolveu nos amar com um amor imutável, e este amor designou que fôssemos participantes de Sua glória eterna. Sua boa vontade por nos O moveu de modo infalível a realizar todas as resoluções da Sua livre graça para conosco, de modo que nada pode impedi-lo, embora no exercício de Sua graça Ele sempre aja de uma maneira que seja consistente com as Suas demais perfeições. Ninguém magnifica a graça de Deus mais do que Goodwin; no entanto, quando perguntado: “Será que a prerrogativa Divina da graça significa que Deus salva os homens, mesmo que eles continuem a serem o que quiserem?”, ele respondeu:

Deus me livre. Nós negamos tal soberania assim compreendida, como se ela salvasse qualquer homem sem regra, muito menos contra regra. O próprio versículo que fala de Deus como “o Deus de toda graça” em relação à nossa salvação acrescenta “que nos chamou”, e nosso chamado é um chamado santo (2 Timóteo 1:9). Embora o fundamento do Senhor permaneça, ainda assim é acrescentado: “e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade” (2 Timóteo 2:19), ou ele não pode ser salvo.

Ajuda-nos a obter uma melhor compreensão deste título Divino: “o Deus de toda graça”, se o compararmos com outro encontrado em 2 Coríntios 1:3: “o Deus de toda a consolação”. A principal distinção entre os dois está em sendo este último mais restrito ao aspecto da dispensação da graça de Deus, como as palavras que se seguem mostram: “Que nos consola em toda a nossa tribulação” (2 Coríntios 1:4). Como “o Deus de toda a consolação”, Ele não somente é o Doador de toda a real consolação e o Sustentador em todas as tribulações, mas também o Doador de todos os confortos temporais ou misericórdias. Pois, qualquer refrigério natural ou benefício que nós derivamos de Suas criaturas é devido somente a Sua bênção para nós. Da mesma forma, Ele é o Deus de toda a graça: graça buscadora, graça vivificante, graça perdoadora, graça purificadora, graça da provisão, graça da restauração, graça da preservação, graça da glorificação –graça de todo tipo, e em plena medida. No entanto, embora a expressão “o Deus de toda a consolação” sirva para ilustrar o título que estamos aqui considerando, no entanto, fica aquém daquele. Pois, as dispensações da graça de Deus são mais extensas do que as de Seu conforto. Em certos casos, Deus dá a graça onde Ele não dá conforto. Por exemplo, a Sua graça iluminadora traz consigo as dores da convicção do pecado, o que às vezes duram uma temporada longa antes que qualquer alívio seja concedido. Além disso, sob Sua vara de correção, a graça sustentadora é concedida, onde o conforto é retido.

Deus Dispensa todos os Tipos de Graça Precisamente de Acordo com a Necessidade

Não apenas há em Deus todos os tipos concebíveis de graça disponíveis para nós, mas Ele sempre a concede justamente na hora de nossa necessidade; pois, nessa ocasião, o Seu favor concedido gratuitamente obtém a melhor oportunidade em que mostrar-se. Somos livremente convidados a chegar com confiança ao trono da graça, para que possamos “alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hebreus 4:16), ou como Salomão o expressou, que o Senhor Deus sustentasse a causa de Seu povo Israel “a cada qual no seu dia” (1 Reis 8:59). Esse é o nosso gracioso Deus, ministrando a nós em todos os momentos, assim como em todas as questões. O apóstolo Paulo declara (falando para os crentes): “Não veio sobre vós tentação, senão humana [ou seja, apenas tal que é comum à natureza humana decaída, pois o pecado contra o Espírito Santo só é cometido por tais que têm como que uma afinidade incomum com Satanás e seus maus desígnios para impedir o reinado da graça de Cristo]; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar” (1 Coríntios 10:13). O Senhor Jesus Cristo declarou: “Todo o pecado e blasfêmia [com exceção exatamente da mencionada acima] se perdoará aos homens” (Mateus 12:31). Pois, o Deus de toda graça opera arrependimento e perdoa todos os tipos de pecados, aqueles cometidos após a conversão, bem como aqueles antes, como os casos de Davi e Pedro demonstram. Diz Ele: “Eu sararei a sua infidelidade, eu voluntariamente os amarei” (Oséias 14:4). Plena causa cada um de nós tem para dizer ternamente a partir da experiência: “a graça de nosso Senhor superabundou” (1 Timóteo 1:14).

A Prova Infalível de Sua Abundante Graça em Direção Àqueles que São Seus

“E o Deus de toda a graça… nos chamou à sua eterna glória”. Aqui está a maior e mais grandiosa prova de que Ele é realmente o Deus de toda graça para o Seu povo. Nenhuma evidência mais convincente e bendita é necessária para manifestar a boa vontade que Ele tem por eles. A graça abundante que há em Seu coração em relação a eles e o propósito beneficente que Ele tem para eles são feitas claramente evidentes aqui. Eles são “os [únicos] chamados de acordo com o seu propósito” (Romanos 8:18), a saber, aquele “eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” (Efésios 3:11). O chamado eficaz que traz da morte para a vida é a primeira abertura irrompendo a graça eletiva de Deus, e é a base de todos os atos de Sua graça por eles, posteriormente. É então que Ele começa aquela Sua “boa obra” naqueles em que Ele finalmente completará no “dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1:6). Por meio disso, eles são chamados a uma vida de santidade aqui e a uma vida de glória no porvir. Na cláusula “nos chamou à sua eterna glória”, somos informados sobre aqueles de nós que uma vez já foram “por natureza filhos da ira” (Efésios 2:3), mas agora, pela graça de Deus são “participantes da divina natureza” (2 Pedro 1:4), também serão participantes da glória eterna de Deus. Embora o chamado eficaz de Deus não os traga para a posse real disso, de uma vez, ainda assim, os qualifica totalmente e capacita-os a participar de Sua glória para sempre. Assim, o apóstolo Paulo diz aos Colossenses que está “Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz” (Colossenses 1:12).

Mas, olhemos para além do mais delicioso dos fluxos de graça para a sua Fonte comum. É a infinita graça que há na natureza de Deus, que se compromete a fazer bom o Seu propósito beneficente e que fornece continuamente estes fluxos. Deve ser bem observado que quando Deus proferiu essa grande carta da graça “[Eu] me compadecerei de quem eu me compadecer”, Ele a prefaciou com estas palavras: “Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do Senhor diante de ti” (Êxodo 33:19). Toda esta graça e misericórdia que está no próprio Jeová, e que deve ser feita conhecida de Seu povo, era para atrair a atenção de Moisés antes que a sua mente se voltasse a considerar a soma dos Seus decretos ou graça designada. O verdadeiro oceano de bondade que está em Deus está empenhado em promover o bem de Seu povo. Foi essa bondade que Ele fez passar diante dos olhos de Seu servo. Moisés foi animado pela contemplação de uma riqueza tão ilimitada de benevolência, tanto que ele estava completamente certo de que o Deus de toda graça seria realmente gracioso para aqueles a quem Ele escolheu em Cristo antes da fundação do mundo. E é esta graça essencial enraizada no próprio ser de Deus que deve ser o primeiro objeto da fé; e quanto mais a nossa fé é direcionada para a mesma, mais nossas almas serão sustentadas na hora da tribulação, convencidas de que tal Pessoa não falhará conosco.

O Argumento em que Pedro Baseia Sua Petição

Em quarto lugar, examinemos o fundamento sobre o qual o apóstolo Pedro baseia sua petição: “E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória”. Esta cláusula é, sem dúvida, trazida para engrandecer a Deus e para exemplificar Sua maravilhosa graça. Ainda assim, considerada separadamente, em relação à oração como um todo, é o apelo feito pelo apóstolo em apoio à petição que segue. Ele estava fazendo pedido para que Deus aperfeiçoe, confirme, fortaleça e estabeleça os Seus santos. Isso foi equivalente a dizer: “Desde que Tu já fizeste o maior, conceder-lhes o menor; vendo que eles devem ser participantes da Tua glória eterna em Cristo, dê-lhes o que eles precisam enquanto permanecerem neste mundo passageiro”. Se nossos corações fossem mais engajados com quem nos chamou, e com o que Ele nos designou, não só nossas bocas se abririam mais, mas seríamos mais confiantes de serem cheias de louvores a Deus. Ele não é outro senão Jeová, que está sentado no Seu trono resplandecente, cercado pelas adoradoras hostes celestes, Quem em breve dirá a cada um de nós: “Vinde a Mim e deleite-te em Minhas perfeições”. Você pensa que Ele reterá qualquer coisa que seja verdadeiramente para o seu bem? Se Ele me chamou para o céu, há alguma coisa necessária na terra que Ele me negará?

Que apelo poderosíssimo e predominante é este! Em primeiro lugar, é como se o apóstolo dissesse: “Tu tens atentado para as obras das Tuas mãos. Tu realmente os chamaste das trevas para a luz, mas eles ainda são terrivelmente ignorantes. É Teu gracioso prazer que eles passem a eternidade em Tua presença imediata no alto, mas eles estão aqui no deserto, e estão rodeados de fraquezas. Então, tendo em vista tanto um quanto o outro, continue todas as outras obras da graça em direção a eles e neles, que são necessárias a fim de trazê-los para a glória”. O que Deus já fez por nós, não somente deve ser um motivo de confiante expectativa do que Ele ainda fará (2 Coríntios 1:10), mas isso deve ser usado por nós como um argumento ao fazer nossos pedidos a Deus. “Visto que Tu me regeneraste, faça-me agora crescer na graça. Visto que puseste em meu coração um ódio ao pecado e uma fome de justiça, intensifica os mesmos. Posto que Tu me fizeste um ramo da Videira, faça-me um ramo mui frutífero. Pois que mi uniste ao Teu Filho amado, permita-me manifestar os Seus louvores, para honrá-lO em minha vida diária, e, portanto, para recomenda-lO àqueles que não O conhecem”. Entretanto, estou antecipando um pouco o próximo ponto.

O Nosso Chamado e a Justificação são Motivos de Grande Louvor e Expectativa

Nesta obra única do chamado, Deus Se mostrou ser o Deus de toda graça para você, e isso deve grandemente fortalecer e confirmar a sua fé nEle. “Aos que chamou a estes também justificou” (Romanos 8:30). A justificação é composta de duas coisas: (1) Deus perdoando-nos e declarando-nos ser “inocentes”, como se nunca tivéssemos pecado; e (2) Deus nos declarando ser “justos”, exatamente como se tivéssemos obedecido perfeitamente a todos os Seus mandamentos. Para estimar a plenitude de Sua graça no perdão, você deve calcular o número e a atrocidade de seus pecados. Eles eram mais do que os cabelos da sua cabeça; pois você “nasce como a cria do jumento montês” (Jó 11:12), e desde as primeiras auroras da razão, toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente (Gênesis 6:5). Quanto à criminalidade, a maioria de seus pecados foram cometidos contra a voz da consciência, e consistiam em privilégios desprezados e misericórdias abusadas. No entanto, a Sua Palavra declara que Ele lhe perdoou “todas as ofensas” (Colossenses 2:13). Como isso deve derreter o seu coração e levá-lo a adorar “o Deus de toda graça”. Como isso deve fazê-lo plenamente convencido de que Ele continuará a lidar com você não de acordo com as suas transgressões, mas segundo a Sua própria bondade e benignidade. É verdade, Ele ainda não o livrou da corrupção que habita no teu interior, mas isso concede nova ocasião para Ele mostrar a Sua paciente graça para com você.

Embora maravilhoso como é tal favor, ainda assim o perdão dos pecados é apenas metade do lado legal da nossa salvação, e a parte negativa e inferior dela. Embora, por um lado, tudo que estava registrado contra mim no que diz respeito ao débito tenha sido apagado, contudo, por outro lado, não há um único item em meu crédito. Desde a hora do meu nascimento até o momento da minha conversão nenhuma boa ação foi registrada na minha conta, pois nenhuma das minhas ações ocorreu em um princípio puro, não sendo realizada para glória de Deus. Fluindo de uma fonte suja, os fluxos de minhas melhores obras eram poluídos (Isaías 64:6). Como, então, Deus poderia me justificar, ou declarar-me ter alcançado o padrão exigido? Esse padrão é uma conformidade perfeita e perpétua à Lei Divina, pois nada menos assegura a sua recompensa. Aqui, novamente as riquezas maravilhosas da graça Divina aparecem. Deus não somente apagou todas as minhas iniquidades, mas creditou em minha conta uma justiça plena e sem falhas, tendo imputado a mim a perfeita obediência de Seu Filho encarnado: “Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo [...] Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos [ou seja, legalmente constituídos] justos” (Romanos 5:17, 19). Quando Deus efetivamente lhe chamou, o revestiu “com o manto de justiça [de Cristo]” (Isaías 61:10), e essa veste concede a você um direito inalienável à herança (Romanos 8:17).

A Glorificação, Desde o Princípio, Era o Objetivo Final de Deus Para Nós

“Que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória”. Quando Deus regenera uma alma Ele lhe dá fé. Ao exercer fé em Cristo, aquilo que a desqualificava para a glória eterna (ou seja, a sua contaminação, culpa e amor ao pecado) é removida, e um título seguro para o céu é concedido. O chamado eficaz de Deus é tanto a nossa qualificação para quando um pagamento pela glória eterna. Nossa glorificação era o grande objetivo que Deus tinha em vista desde o princípio, e tudo o que Ele faz por nós e opera em nós aqui, são apenas os meios e os pré-requisitos para esta finalidade. Depois de Sua própria glória nisso, a nossa glorificação é o propósito supremo de Deus ao eleger-nos e chamar-nos. “Por vos ter Deus elegido desde o princípio… para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Tessalonicenses 2:13-14). “E aos que predestinou… também glorificou” (Romanos 8:30). “Não temais, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino” (Lucas 12:32). “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mateus 25:34). Cada um desses textos estabelece o fato de que o povo crente em Cristo deve herdar o reino celestial e eterna glória da parte do Deus Triuno. Nada menos do que isso foi em que o Deus de toda graça estabeleceu o Seu coração como a porção de Seus filhos amados. Assim, quando a nossa eleição é feita manifesta inicialmente por Seu chamado eficaz, Deus é tão decidido quanto a essa glória que Ele imediatamente nos concede um título a ela.

Goodwin deu um exemplo notável do que acabamos de dizer, a partir do relacionamento de Deus com Davi. Enquanto Davi era apenas um simples menino pastor, Deus enviou Samuel para ungi-lo rei abertamente diante de seu pai e irmãos (1 Samuel 16:13). Por esse ato solene Deus o investiu com um direito visível e irrevogável ao reino de Judá e Israel. Deus adiou por muitos anos a sua posse real do trono do reino, no entanto, seu título Divino ao mesmo foi dado em Sua unção, e Deus Se ocupou em fazer isto firme, jurando não Se arrepender. Então Deus suportou Saul (uma figura de Satanás), que ordenou todas as forças militares de seu reino e a maioria de seus súditos, para fazer o seu pior. Deus fez isso para demonstrar que nenhum conselho Seu pode ser frustrado. Embora por um período Davi esteve exposto como uma perdiz nas montanhas e tinha que fugir de um lugar para outro, no entanto, ele foi milagrosamente preservado por Deus e, finalmente, trazido ao trono. Assim, na regeneração, Deus nos unge com o Seu Espírito, nos separa e nos concede um título para a glória eterna. E embora posteriormente, Ele deixe os inimigos ferozes soltos contra nós, deixando-nos a enfrentar as mais difíceis lutas e contendas com eles, ainda assim a Sua poderosa mão está sobre nós, nos socorrendo, fortalecendo e restaurando quando somos temporariamente vencidos e levados cativos.

Não Há Nada de Transitório em Relação à Glória Para a Qual Somos Chamados

Deus não nos chamou para uma [glória] evanescente, mas para uma glória eterna, dando-nos um título a ela no novo nascimento. Naquele momento, uma vida espiritual foi comunicada à alma, uma vida que é indestrutível, incorruptível e, portanto, eterna. Além disso, nessa ocasião recebemos “o Espírito de glória” (1 Pedro 4:14) como “o penhor da nossa herança” (Efésios 1:13-14). Além disso, a imagem de Cristo está sendo progressivamente moldada em nossos corações durante esta vida, o que o apóstolo Paulo chama ser “transformados de glória em glória “(2 Coríntios 3:18). Assim, nós não somente somos feitos “idôneos para participar da herança dos santos na luz” (Colossenses 1:12), mas é-nos, então, concedido um direito eterno de glória. Porque pela regeneração ou chamado eficaz, Deus nos gera para a herança (1 Pedro 1:3-4); um título desta nos é dado nesse momento, o qual é válido para sempre. Esse título é nosso, tanto pela estipulação do pacto de Deus quanto pela herança testamentária do Mediador (Hebreus 9:15). “E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e coerdeiros de Cristo”, diz Paulo (Romanos 8:17). Thomas Goodwin o resume da seguinte forma:

Coloque essas três coisas juntas: em primeiro lugar, que essa glória a que somos chamados é em si mesma eterna; segundo, que a pessoa que é chamada tem um nível de glória que começou nela, a qual nunca morrerá ou perecerá; terceiro, que ela tem o direito à eternidade, e isso a partir do momento de seu chamado, e o argumento está completo.

Essa “glória eterna” são “as abundantes riquezas da sua graça” que Ele derramará sobre o Seu povo nos séculos vindouros (Efésio 2:4-7), e como esses versículos nos dizem, mesmo agora, nós, jurídica e federalmente, nos assentamos “nos lugares celestiais, em Cristo Jesus”.

“Que [em Cristo Jesus] nos chamou à sua eterna glória”. Deus não somente nos chamou para um estado de graça, “esta graça na qual estamos firmes”, mas a um estado de glória, glória eterna, Sua glória eterna, de modo que “nos gloriamos na esperança da glória de Deus” (Romanos 5:2). Essas duas coisas estão inseparavelmente ligadas: “o Senhor dará graça e glória” (Salmos 84:11). Embora sejamos as pessoas que serão glorificadas por isso, é a Sua glória que é colocada em cima de nós. Obviamente assim, pois somos criaturas totalmente miseráveis e vazias, as quais Deus encherá com as riquezas da Sua glória. Na verdade é “o Deus de toda graça” que faz isso por nós. Nem criação nem providência, nem mesmo o Seu lidar com os eleitos nesta vida, mostram plenamente a abundância de Sua graça. Somente no céu sua altura máxima será vista e apreciada. É lá que a manifestação definitiva da glória de Deus será feita, ou seja, a própria honra e glória inefável com o qual Divindade investe a Si mesmo. Não apenas contemplaremos aquela glória para sempre, mas ela será comunicada para nós. “Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai” (Mateus 13:43). A glória de Deus encherá tão completamente e irradiará nossas almas que ela irradiará de nossos corpos. Então, o propósito eterno de Deus será plenamente cumprido. Nessa ocasião, todas as nossas esperanças mais queridas serão perfeitamente realizadas. Então, Deus será “tudo em todos” (1 Coríntios 15:28).

A Glória Eterna é Nossa Por meio de Nossa União com Cristo

“Que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória”. A primeira parte desta cláusula é melhor traduzida “em Cristo Jesus”, o que significa que o nosso chamado para fruir da glória eterna de Deus existe em virtude de nossa união com Cristo Jesus. A glória pertence a Ele, que é a nossa Cabeça, e é comunicada a nós somente porque somos Seus membros. Cristo é o primeiro e grande Proprietário dela, e Ele a compartilha com aqueles a quem o Pai deu a Ele (João 17:5, 22, 24). Cristo Jesus é o centro de todos os conselhos eternos de Deus, os quais são “segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” (Efésios 3:11). Todas as promessas de Deus “são nele [Cristo] sim, e por ele o Amém” (2 Coríntios 1:20). Deus nos abençoou com todas as bênçãos espirituais em Cristo (Efésios 1:3). Somos herdeiros de Deus, porque somos coerdeiros com Cristo (Romanos 8:17). Como todos os propósitos da graça Divina foram formados em Cristo, assim, eles são efetivamente executados e estabelecidos por Ele. Pois, Zacarias, enquanto bendizendo a Deus por ter “levantado uma salvação”, acrescentou, “Para manifestar misericórdia a nossos pais, e lembrar-se da sua santa aliança” (Lucas 1:68-72). Estamos “conservados por Cristo Jesus” (Judas 1). Desde que Deus nos chamou “para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor” (1 Coríntios 1:9), ou seja, para participar (na devida proporção) de tudo o que Ele é participante em Si mesmo, Cristo nosso Coerdeiro e Representante entrou em posse dessa herança gloriosa e em nossos nomes está guardando-a para nós (Hebreus 6:20).

Toda a Nossa Esperança Está Vinculada Somente a Cristo

Parece bom demais para ser verdade que “o Deus de toda graça” é o seu Deus? Há momentos em que você dúvida se Ele, pessoalmente, te chamou? Será que ultrapassa a sua fé, leitor Cristão, que Deus, em verdade, chamou você à Sua glória eterna? Então permita-me deixar este pensamento de encerramento a você. Tudo isso é por e em Cristo Jesus! Sua graça está estesourada em Cristo (João 1:14-18), o chamado eficaz vem por Cristo (Romanos 1:6), e a glória eterna é alcançada por meio dEle. O Seu sangue não foi suficiente para comprar bênçãos eternas para pecadores merecedores do inferno? Então, não olhe para sua indignidade, mas, para a infinita dignidade e méritos dAquele que é o Amigo de publicanos e pecadores. Se a nossa fé compreende ou não, infalivelmente segura é que esta Sua oração será respondida: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória” (João 17:24). Essa contemplação não será transitória, como a que os apóstolos apreciaram no monte da transfiguração, mas eterna. Como muitas vezes tem sido apontado, quando a rainha de Sabá contrastou sua breve visita à corte de Salomão com o privilégio daqueles que residiam ali, ela exclamou: “Bem-aventurados os teus homens, bem-aventurados estes teus servos, que estão sempre diante de ti” (1 Reis 10:8). Essa será a nossa porção feliz ao longo dos séculos sem fim.

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♦ Este texto é formado pelo Capítulo 8 do Livro A Guide to Fervent Prayer, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: A Guide to Fervent Prayer
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


A Natureza da Doutrina da Eleição – Arthur Walkington Pink

Foi bem dito que: “A razão por que qualquer um acredita na eleição é que ele a encontra na Bíblia. Nenhum homem jamais poderia imaginar tal doutrina, pois é, em si mesma, contrária ao pensamento e aos desejos do coração humano. Cada um, a princípio, se opõe a esta doutrina, e é só depois de muitas lutas, sob a ação do Espírito de Deus, é que somos levados a recebê-la. A aquiescência perfeita a esta doutrina, descansar, maravilhar-se em adoração, no estrado da soberania de Deus, é a última realização da alma santificada nesta vida, como é o início do Céu. A razão pela qual qualquer um acredita na eleição é apenas isso, e só isso: que Deus a tornou conhecida. Fosse a Bíblia uma falsificação ela nunca poderia ter contido a doutrina da eleição, pois os homens são muito avessos a tal pensamento para dar-lhe expressão, muito mais para dar-lhe destaque” (G. S. Bishop).

Até agora, em nossa exposição desta bendita verdade, nós mostramos que a fonte de eleição é a vontade de Deus, pois nada existe ou pode existir fora disso. Em seguida, vimos, que a Grande Origem da eleição é o homem Cristo Jesus, que foi ordenado para a união com a segunda Pessoa na Divindade. Então, a fim de abrir o caminho para um exame mais detalhado dessa verdade assim como ela é apresentada a nós, demonstramos a verdade e, em seguida, a justiça dela, visando remover das mentes dos leitores Cristãos a profanação e efeitos perturbadores da principal objeção que é feita contra a eleição Divina por seus inimigos. E agora buscaremos apontar os principais elementos que adentram na eleição.

Em primeiro lugar, a Eleição é um ato de Deus. Verdade é que chega um dia em que cada um dos eleitos escolhe a Deus como seu absoluto e sumo Bem, mas este é o efeito, e em nenhum sentido a causa da escolha de Deus. Nossa escolha dEle é no tempo, mas Seu escolher-nos foi antes dos tempos eternos; e certo é que a menos que Ele nos escolhesse em primeiro lugar, nós jamais O escolheríamos de modo algum. Deus – que é um Ser soberano, faz tudo o que Lhe agrada, tanto no céu e na terra –, tem um direito absoluto de fazer o que quiser com Suas próprias criaturas e, portanto, Ele escolheu um certo número de seres humanos para ser Seu povo, Seus filhos, Seu tesouro peculiar. Tendo feito isso, este ato foi chamado de “eleição de Deus” (1 Tessalonicenses 1:4). Pois Ele é a causa eficaz dela; e as pessoas escolhidas são denominadas “seus escolhidos” (Lucas 18:7; cf. Romanos 8:33).

Esta escolha de Deus é absoluta, sendo inteiramente gratuita, não dependendo de absolutamente nada fora de Si mesmo. Deus elegeu aqueles que Ele quis, simplesmente porque Ele escolheu fazê-lo, não partir de alguma bondade, mérito ou atrativo na criatura, nem a partir de qualquer mérito ou atrativo previsto na criatura. Deus é absolutamente autossuficiente e, portanto, Ele nunca irá para fora de si mesmo para encontrar uma razão para qualquer coisa que Ele faz. Ele não pode ser influenciado pelas obras de Suas próprias mãos. Não, Ele é Aquele que os move, como somente Ele é Aquele que lhes deu existência. “Nele vivemos, e nos movemos, e existimos”. Foi, então, simplesmente a partir da espontânea bondade de Sua própria vontade que Deus destacou, a partir da massa daqueles que Ele se propôs a criar, um povo que deve expressar os Seus louvores por toda a eternidade, para a glória de Sua soberana graça para todo o sempre.

Esta escolha de Deus é uma questão imutável. Necessariamente assim, pois não é fundamentada sobre qualquer coisa na criatura, ou estabelecida sobre qualquer coisa fora de Si mesmo. Ela é antes de tudo, antes mesmo de Sua “presciência”, porque embora Ele conheça de antemão, contudo Ele conhece de antemão porque Ele infalível e irrevogavelmente o fixou, caso contrário, Ele meramente a adivinharia. Mas visto que Ele a conhece de antemão, então Ele não supõe, ela é segura; e sendo segura, então Ele deve tê-la fixado. A eleição, sendo o ato de Deus, é para sempre, pois seja o que for que Ele faça em uma forma de graça especial, é irreversível e inalterável. Os homens podem escolher alguns para serem seus favoritos e amigos por um tempo, e depois mudam de ideia e escolhem outros em seu lugar. Mas Deus não age de tal maneira; Ele é de uma mente, e ninguém pode mudá-lO; Seu propósito, segundo a eleição permanece firme, seguro, inalterável (Romanos 9:11; 2 Timóteo 2:19).

Em segundo lugar, o ato de eleição de Deus é feito em Cristo: “Como também nos elegeu nele” (Efésios 1:4). A eleição não encontra homens em Cristo, mas os enxerta nEle. Ela concede a eles o estar em Cristo e união com Ele, que é o fundamento de sua manifestação como estando nEle por ocasião de conversão. Na mente infinita de Deus, Ele quis amar uma companhia da posteridade de Adão com um amor imutável, e do amor com que Ele os ama, Ele os escolheu em Cristo. Por meio deste ato de Sua mente infinita, Deus lhes concedeu o estar e bem-aventurança em Cristo desde a eternidade. Todavia, ao mesmo tempo, todos caíram em Adão, ainda assim, todos não caíram semelhantemente. Os não-eleitos caíram, de modo a serem condenados, sendo eles deixado a perecer em seus pecados, porque não tinham nenhuma relação com Cristo, Ele não relacionou-se com eles como o Mediador da união com Deus.

Os não-eleitos tiveram seu tudo em Adão, sua cabeça natural. Mas os eleitos tiveram toda sorte de bênçãos espirituais concedida a eles em Cristo, sua graciosa e gloriosa Cabeça (Efésios 1:3). Eles não podiam perder estas, porque eles foram assegurados delas em Cristo. Deus os havia escolhido como Seus próprios: Ele seria o seu Deus, eles o Seu povo; Ele, seu Pai e eles, Seus filhos. Ele deu-lhes a Cristo para serem Seus irmãos, Seus companheiros, Sua noiva, Seus consortes em toda a Sua graça comunicável e glória. Na previsão da sua queda em Adão, e quais seriam os seus efeitos, o Pai propôs erguê-los das ruínas da queda, mediante a consideração do compromisso de Seu Filho realizando toda a justiça por eles, e como seu Fiador, suportando todos os seus pecados em Seu próprio corpo no madeiro, oferecendo Sua alma como oferta pelo pecado. Para executar tudo isso, o amado Filho encarnou.

Foi a isso que o Senhor Jesus se referiu em Sua oração sacerdotal, quando disse ao Pai: “Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste; eram teus, e tu mos deste” (João 17:6). Ele estava se referindo a toda a eleição da graça. Eles eram os objetos de prazer do Pai: Suas joias, Sua porção; e aos olhos de Cristo eles eram o que o Pai viu que eles seriam. Quão grandemente, então, o Pai estima o Mediador, ou Ele nunca teria concedido Seus eleitos a Ele e os entregado todos ao Seu cuidado e governo! E quão altamente Cristo valorizou esta dádiva de amor do Pai, ou Ele não teria realizado a salvação deles em tal enorme custo para Si mesmo! Agora, a entrega dos eleitos a Cristo foi um ato diferente, um ato distinto do ato da eleição deles. Os eleitos foram primeiramente do Pai por meio da eleição, que escolheu as pessoas; e, em seguida, Ele as deu a Cristo, como o Seu amor e dom: “eram teus [por eleição], e tu mos deste”, da mesma forma, esta graça é dita ser dada a nós em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos (2 Timóteo 1:9).

Em terceiro lugar, este ato de Deus foi independentemente de e anterior a qualquer previsão da entrada do pecado. Antecipamos um pouco este ramo de nosso assunto, ainda assim, como é um assunto sobre o qual pouquíssimos hoje são seguros, e algo que consideramos de importância considerável, nos propomos conceder-lhes uma consideração separada. O ponto específico que devemos ponderar agora é, quanto a saber se o Seu povo era visto por Deus, em Seu ato de eleição, como caídos ou não caídos; como na massa corrupta através de sua deserção em Adão, ou na massa pura da criação, como a ser criada. Aqueles que consideram o primeiro ponto de vista são conhecidos como infralapsarianos; aqueles que tomaram o último são conhecidos como supralapsarianos, e no passado esta questão foi debatida consideravelmente entre os altos e baixos Calvinistas. Este escritor sem hesitação (após estudo prolongado) assume a posição Supralapsariana, embora ele saiba muito bem que poucos de fato estarão dispostos a segui-lo.

O pecado, tendo posto um véu sobre o maior de todos os Divinos mistérios da graça – excetuado somente aquele da encarnação Divina – torna a nossa tarefa presente a mais difícil. É muito mais fácil para nós aprendermos sobre a nossa miséria, e sobre a nossa redenção dela – pela encarnação, obediência e sacrifício do Filho de Deus – do que é para nós concebermos a original glória, excelência, pureza e dignidade da Igreja de Cristo, como o eterno objeto dos pensamentos, conselhos e propósito de Deus. No entanto, se nos apegarmos firmemente às Sagradas Escrituras, é evidente (ao escritor, pelo menos) que o povo de Deus tinha uma criação de qualidade superior e união espiritual com Cristo antes mesmo que eles tivessem uma criação e união natural com Adão; de forma que eles foram abençoados com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (Efésios 1:3), antes que eles caíssem em Adão e tornaram-se sujeitos a todos os males da maldição. Em primeiro lugar, vamos resumir as razões dadas por John Gill em apoio a isso.

O decreto eletivo de Deus deve ser dividido em duas partes ou níveis, ou seja, o Seu propósito a respeito da finalidade e Seu propósito sobre os meios. A primeira parte relaciona-se com o propósito de Deus em Si mesmo, no qual Ele determinou ter um povo eleito e isso, para Sua própria glória. A segunda parte tem relação com a execução real da primeira, fixando os meios pelos quais a finalidade será realizada. Estas duas partes do decreto Divino não devem ser nem separadas nem confundidas, mas consideradas distintamente. O propósito de Deus sobre a finalidade significa que Ele ordenou certas pessoas para serem os destinatários de Seu favor especial, para a glorificação de Sua soberana bondade e graça. Seu propósito sobre os meios significa que Ele determinou criar aquelas pessoas, permitir-lhes cair e resgatá-las com base na redenção de Cristo e na santificação do Espírito. Estes não devem ser considerados como decretos separados, mas como partes componentes e níveis de um propósito. Há uma ordem nos conselhos Divinos, como reais e definidos, como Gênesis 1 mostra que houve em conexão com a criação.

Na medida em que o propósito da primeira extremidade está em vista (em ordem de natureza), antes da determinação dos meios, portanto, o que é o primeiro em intenção é último em execução. Agora, como a glória de Deus é última em execução, segue-se necessariamente que ela foi a primeira em intenção. Por isso os homens devem ser considerados no propósito Divino, concernente à finalidade, nem como criados nem caídos, desde que ambos, sua criação e permissão ao pecado, pertencem ao conselho de Deus sobre os meios. Não é óbvio que, se Deus primeiro decretou criar homens e permitir-lhes cair, e, em seguida, a partir da massa caída escolheu alguns para a graça e glória, que Ele se propôs a criar os homens sem qualquer finalidade em vista? E não é esta a acusação de Deus, a saber algo que mesmo um homem sábio nunca faria, pois quando o homem determina fazer uma coisa, ele propõe uma finalidade (como a construção de uma casa) e depois estabelece formas e meios para concluí-la. Pode ser pensado por um momento que o Onisciente agiria de outra forma?

A distinção acima, entre o propósito Divino a respeito da finalidade e indicação de meios para assegurar este propósito de Deus, é claramente confirmada pela Escritura. Por exemplo, “Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles” (Hebreus 2:10). Aqui há primeiro o decreto relacionado à finalidade: Deus ordenou Seus muitos filhos “à glória”; em Seu propósito dos meios Deus ordenou que o príncipe da salvação deles fosse consagrado “pelas aflições”. Da mesma forma foi em conexão com o próprio Cristo. “Disse o SENHOR ao meu Senhor” (Salmos 110:1). Deus decretou que o Mediador tivesse esta alta honra conferida a Ele, mas com este objetivo foi ordenado: que “Beberá do ribeiro no caminho” (v. 7), Deus, então, decretou que o Redentor deve beber da plenitude desses prazeres que estão em sua mão direita eternamente (Salmos 16:11), contudo isto aconteceu antes que Ele devesse tomar o cálice amargo da angústia. Assim é com o Seu povo: Canaã é a sua porção designada, mas o deserto é apontado como aquele através do qual eles passarão a caminho da mesma.

A predestinação de Deus de Seu povo à santidade e glória anterior à Sua presciência da Queda deles em Adão, se adequada muito melhor com os exemplos dados sobre Jacó e Esaú, em Romanos 9:11-12 do que faz o ponto de vista infralapsariano que Seu decreto os contemplou como criaturas pecadoras. Ali, lemos: “Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá ao menor”. O apóstolo está mostrando que a preferência foi dada a Jacó independente de toda o fundamento de mérito, porque foi feito antes de que as crianças nascessem. Se for mantido em mente que o que Deus faz no tempo é apenas uma manifestação do que Ele secretamente decretou na eternidade, o ponto que estamos aqui defendendo será muitíssimo conclusivo. Os atos de Deus, tanto da eleição quanto da preterição – escolha e rejeição – foram totalmente independentes de qualquer “bem ou mal” previstos. Observe também como essa expressão composta “o propósito de Deus, segundo a eleição” apoia a tese da existência de duas partes para o decreto de Deus.

Também deve ser salientado que a predestinação de Deus de Seu povo para a bem-aventurança eterna, antes que Ele os contemplasse como criaturas pecadoras, concorda muito melhor do que a ideia infralapsariana, com o barro sem forma do Oleiro: “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Romanos 9:21). Sobre isso, Beza (co-pastor com Calvino na igreja em Genebra) observou que: “se o apóstolo tivesse considerado a humanidade como corrompida, ele não teria dito que alguns vasos foram feitos para honra e alguns para desonra, mas antes, que todos os vasos eram aptos para desonra, alguns sendo deixados para desonra, e outros transportados da desonra para a honra”.

Mas deixando de inferências e deduções, voltemo-nos agora para algo mais evidente e definitivo. Em Efésios 1:11 lemos: “havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade”. Agora, um estudo cuidadoso do que precede revela uma clara distinção em “todas as coisas” que Deus opera “segundo o conselho da sua vontade”, ou, para indicá-lo de outra maneira, as bênçãos espirituais que Deus concede ao Seu povo são divididas em duas classes distintas, de acordo como Ele os contemplou pela primeira vez em um estado não caído e, em seguida, em um estado caído. A primeira e mais elevada classe de bênçãos são enumerados nos versículos 4 a 6 e relaciona-se com o decreto de Deus sobre a finalidade; a segunda e subordinada classe de bênçãos são descritas nos versos 7 a 9 relaciona-se com o decreto de Deus sobre os meios que Ele designou para a realização desse fim.

Estas duas partes do mistério da vontade de Deus para com o Seu povo desde a eternidade são claramente marcadas pela mudança de tempo que é usada: o passado de “também nos elegeu” (v. 4), “e nos predestinou para a adoção de filhos” (v. 5) e “nos fez agradáveis a si no Amado” (v. 6), torna-se em tempo presente, no versículo 7: “em quem temos a redenção pelo seu sangue”. Os benefícios mencionados nos versículos 4-6 são como em nenhuma forma dependentes de uma consideração sobre a Queda, mas seguem o nosso ser escolhidos em Cristo, sendo dados sobre fundamentos altos e distintos a partir de Seu ser o nosso Redentor. Deus nos escolhe em Cristo, nosso Cabeça, para que sejamos “santos” significa não esta santidade imperfeito que temos nesta vida, mas uma santidade perfeita e imutável, até mesmo como a que os anjos não tinham por natureza; e a nossa predestinação para adoção denota uma comunhão imediata com o próprio Deus, bênçãos que teriam sido nossas mesmo que o pecado jamais houvesse entrado no mundo.

Como Thomas Goodwin destacou em sua inigualável exposição de Efésios 1: “A primeira fonte de bênçãos – santidade perfeita, adoção, etc. – foram ordenadas a nós sem levar em consideração a Queda, embora não antes da consideração da Queda; pois todas as coisas que Deus decreta existem ao mesmo tempo em Sua mente; elas estavam todas, tanto uma quanto a outra, ordenadas às nossas pessoas. Mas Deus, nos decretos sobre esta primeira sorte de bênçãos nos viu como criaturas que Ele poderia e gostaria de fazer assim gloriosos… Mas a segunda sorte de bênçãos foi ordenada a nós apenas em consideração à Queda, e às nossas pessoas consideradas como pecadoras e incrédulas. A primeira sorte foi para “louvor da graça de Deus”, considerando a graça pela gratuidade do amor; enquanto o segundo tipo é para “o louvor da glória da sua graça”, considerando a graça da livre misericórdia”.

As primeiras e maiores bênçãos devem ter a sua plena realização nos céus, sendo adequadas para aquele estado em que estaremos estabelecidos, e como na principal intenção de Deus, elas estão diante da outra e são ditas terem sido “antes da fundação do mundo” (Efésios 1:4), então elas devem ser realizadas após este mundo estar terminado, a “adoção” a que estamos predestinados (Efésios1:5) ainda esperamos (Romanos 8:23); enquanto que as segundas são bênçãos derramadas sobre nós no mundo inferior, pois é aqui e agora que recebemos a “remissão dos pecados” através do sangue de Cristo. Mais uma vez; as primeiras bênçãos são fundadas unicamente sobre a nossa relação com a pessoa de Cristo, como é evidente, “escolhidos nele… no Amado”; mas as bençoas da segunda sorte são baseadas em Sua obra, a redenção que advém do sacrifício de Cristo. Assim, as últimas bênçãos são apenas a remoção daqueles obstáculos que por causa do pecado se interpõem em nosso caminho de glória intencionada.

Mais uma vez; esta distinção das bênçãos que nós recebemos em Cristo, como criaturas, e por meio de Cristo como pecadores, é confirmada pelo duplo ofício que Ele sustenta em nossa direção. Isto é claramente expresso em: “Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo” (Efésios 5:23). Observe cuidadosamente a ordem desses títulos: Cristo é o primeiro como cabeça e marido para nós, o que estabelece as bases dessa relação com Deus na qualidade de Seus filhos adotados, como pelo casamento com Seu Filho. Em segundo lugar, Ele é o nosso “Salvador”, o que necessariamente relaciona-se ao pecado. Efésios 5:23 deve ser comparado com Colossenses 1:18-20, onde a mesma ordem é estabelecida: nos versos 18 e 19 aprendemos que Cristo é absolutamente ordenado e Sua igreja com Ele, através do que Ele é o fundador desse estado que nós entraremos após a ressurreição, e, em seguida, no versículo 20 O vemos como redentor e reconciliador: primeiro a “cabeça” da Sua Igreja, e, em seguida, o seu “Salvador!” A partir desta dupla relação de Cristo com os eleitos surge uma dupla glória para a qual Ele é ordenado: a intrínseca, devida a Ele como o Filho de Deus que habita em natureza humana e sendo aí a cabeça de uma Igreja gloriosa (veja João 17:5); e outra mais extrínseca, como adquirida pela Sua obra de redenção e comprada com a agonia de Sua alma (veja Filipenses 2:8-10)!

Temos chamado a atenção para o fato de que a única razão para que qualquer alma temente a Deus creia na doutrina da eleição é porque ela a encontra revelada em destaque na Palavra de Deus e, portanto, segue-se que a nossa única fonte de informação sobre a mesma é a Palavra em si. No entanto, o que acaba de ser dito é demasiado geral para ser de ajuda específica para o investigador sério. Quando nos voltamos para as Escrituras por luz sobre o mistério da eleição, é mui essencial que tenhamos em mente que Cristo é a chave para todas as partes delas: “no rolo do livro de mim está escrito” [Salmos 40:7], declara Ele, e, portanto, se tentarmos estudar este assunto à parte dEle, certamente erraremos. Em capítulos anteriores nós evidenciamos que Cristo é a grandiosa origem da eleição, e é a partir desse ponto de partida que devemos proceder, se quisermos fazer qualquer avanço correto.

O que acaba de ser sinalizado é válido não apenas no geral, mas em particular: por exemplo, em relação a esse ramo especial de nosso assunto que foi discutido, nós agora seguiremos a partir deste ponto de vista particular. Se formos corretamente de volta para o início propriamente dito, então, aparecerá que Deus Se agradou, e assim resolveu, vir à comunhão com a criatura, o que significa que Ele determinou trazer à existência criaturas que deveriam gozar de comunhão com Ele mesmo. Sua própria glória era unicamente o fim supremo desta determinação, pois “O Senhor fez todas as coisas para atender aos seus próprios desígnios” (Provérbios 16:4). Nós repetimos, que a Sua própria glória foi o motivo único e suficiente que levou Deus a criar a todos: “Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém” (Romanos 11:35-36).

A principal glória que Deus projetou para Si mesmo na eleição foi a manifestação da glória de Sua graça. Isto é irrefutavelmente estabelecido por: “E nos predestinou para filhos de adoção por [através, no Grego] Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça” (Efésios 1:5-6). A graça é uma daquelas perfeições ilustres no caráter Divino, que é gloriosa em si mesma, e sempre teria permanecido assim embora nenhuma criatura fosse formada; mas Deus mostrou este atributo na eleição de tal forma que o Seu povo ainda a louvará e glorificará para todo o sempre. Deus mostrou a Sua santidade ao entregar a Lei, o Seu poder na criação do mundo, a Sua justiça em lançar os ímpios no inferno, mas a Sua graça resplandece especialmente na predestinação e a que Seus eleitos são predestinados. Assim, também, quando se diz que Deus deu a “conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou” (Romanos 9:23), a primeira referência é à Sua graça, como Efésios 1:7 demonstra.

A segunda pessoa da Trindade foi predestinada para ser Deus-homem, sendo primeiro decretado, pois somos “escolhidos nele” (Efésios 1:4), o que pressupõe que Ele seja escolhido em primeiro lugar, como o fundamento em que nós somos estabelecidos. Somos predestinados para a adoção de filhos, no entanto, é “por Jesus Cristo” (Efésios 1:5). Assim lemos: “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” (1 Pedro 1:20); como veremos mais tarde que a expressão “antes da fundação do mundo” não é apenas uma observação de tempo, mas, principalmente, uma indicação de eminência ou preferência, que Deus tinha de Cristo em Sua visão antes de Sua intenção de criar o mundo para Ele e Seu povo. Agora, temos mostrado que Cristo foi ordenado para ser Deus-homem para fins muito mais elevados do que a nossa salvação, a saber, para que o próprio Deus Se deleitasse; para contemplar a imagem perfeita de Si mesmo em uma criatura, e por essa união, comunicar-Se com aquele homem de uma maneira e nível que não é possível a qualquer mera criatura como tal.

Juntamente com o Filho sendo predestinado a ser Deus-homem, ali repousa a Sua gloriosa pessoa, como Sua herança, para ser o fim soberano de todas as outras coisas que Deus faria e a finalidade de quaisquer de suas criaturas racionais que Ele se agradaria em escolher para a glória. Isso fica claro em: “por que tudo é vosso, e vós de Cristo, e Cristo de Deus” (1 Coríntios 3:21-23), que é falado em referência à consumação. Como vocês, os santos, são o fim para o qual todas as coisas foram ordenadas, assim Cristo é o fim de vocês, e Cristo é o propósito de Deus ou o propósito em ação. Nós dizemos que Cristo é “o fim soberano”, e não o fim supremo, pois o próprio Deus está acima e sobre tudo; mas Cristo é o fim soberano de toda a criação, tendo co-autoridade com Deus, abaixo de Deus. Assim, declara-se que “por Ele” e “para ele” foram criadas todas as coisas (Colossenses 1:16), como se diz de Deus em Romanos 11:36. Assim, este fim soberano na criação repousa nEle como a herança do Mediador: “O Pai ama o Filho, e todas as coisas entregou nas suas mãos” (João 3:35).

Na predestinação do Filho do homem quanto à união com o Filho de Deus, e na constituição dEle através dessa união para ser o nosso fim soberano e de todas as coisas, foi conferido ao homem Cristo Jesus, assim, exaltado ao favor mais alto possível, incomensuravelmente transcendendo toda a graça mostrada para os eleitos, de qualquer forma considerada, de modo que se a nossa eleição é para o louvor da glória da graça de Deus, a Sua muito mais. Mais honra foi conferida “ao santo ser” que nasceu da virgem do que a todos os membros do Seu corpo místico juntos; e isso foi a graça pura e simples, graça soberana, que a concedeu. O que havia em Sua humanidade, simplesmente considerada, o que lhe concedeu direito a tal exaltação? nem poderia haver qualquer mérito previsto que o exigia, por isso deve ser dito sobre o homem Jesus Cristo, como sobre todas as outras criaturas: “Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido?” (1 Coríntios 4:7).

Que não seja esquecido que ao decretar o Filho do homem em união com a segunda pessoa da Trindade, com toda a honra e glória envolvidas nisso, Deus era perfeitamente livre, como em todo o restante, para tê-lO decretado ou não, como Ele seria; sim, tivesse Ele se agradado, Ele poderia ter nomeado o arcanjo ao invés da semente da mulher, para tal inestimável privilégio. Foi, portanto, a livre graça de Deus, que fez esse decreto, e quanto mais elevada foi a dignidade conferida a Cristo acima de Seus companheiros, tanto maior foi a graça. A predestinação do homem Jesus, então, é o maior exemplo de graça e, portanto, o maior propósito de Deus na predestinação para manifestar a Sua graça (de onde tem o seu título denominado “a eleição da graça” – Romanos 11:5) foi realizado nEle sobre Seus irmãos, para que Ele seja para o louvor da glória da graça de Deus, muito acima do que nós somos.

Desde que no caso de Cristo nós temos tanto o padrão e exemplo da eleição – a grandiosa origem – é bastante evidente que a graça não deve ser limitada ou entendida apenas como o favor Divino em direção às criaturas que estão caídas e estão entregues à ruína e miséria. A graça não necessariamente supõe pecado nos objetos em que é mostrada, pois a mais alta instância de todas, esta da graça concedida ao homem Cristo Jesus, foi conferida Àquele que não teve pecado e era incapaz disso. Graça é favor mostrado a quem não merece, pois a natureza humana no Deus-homem não mereceu a distinção que lhe foi conferida. Quando estendida às criaturas caídas, é favor demonstrado a merecedores do mal e merecedores do Inferno, mas isso não está implícito no termo em si, como pode ainda ser visto no caso da graça Divina sendo estendida aos anjos não-caídos. Assim, como Cristo é o padrão em quem Deus predestinou Seu povo para ser conforme, Sua eleição deles para a glória eterna estava sob Sua visão deles como criaturas não-caídas e não como criaturas corrompidas.

Deus, tendo, assim, absolutamente escolhido o Filho do homem e com isso dotou-O de tal realeza como a ser o fim soberano de todos a quem Ele criaria ou elegeria para a glória, isso, portanto, segue que aqueles de nós homens que foram escolhidos, foram destinados pela própria ordenação de Deus em nossa escolha de existirmos para a glória de Cristo como a finalidade de nossa eleição, bem como para a própria glória de Deus. Nós não fomos absolutamente ordenados – como Cristo em Sua predestinação única foi no primeiro propósito dEle – senão a partir do primeiro de nós, a intenção de Deus a nosso respeito é que sejamos de Cristo e tenhamos a nossa glória a partir dAquele que é “o Senhor da glória “(1 Coríntios 2:8). Aqui, como em toda parte, Cristo tem a preeminência, pois a pessoa de Cristo, Deus-homem, foi predestinada para a dignidade de Si mesmo, mas nós para a glória de Deus e de Cristo. Embora Deus o Pai, primeiro e unicamente, designou quem os favorecidos seriam, ainda assim, qualquer eleição que houve deveria ser por causa de Cristo, bem como a Sua própria.

Em nossa eleição Deus tinha o Seu Filho em vista como Deus-homem, e em Seu propósito sobre Ele como a nossa finalidade, Ele nos escolheu por amor dEle, para que fôssemos Seus “companheiros” ou companhias (Salmos 45:7), assim como Ele era o deleite de Deus (Isaías 42:1), de modo que nós pudéssemos ser o Seu deleite (Provérbios 8:31). Assim, nós fomos dados a Cristo em primeiro lugar, não como pecadores a serem salvos por Ele, mas como membros sem pecado a uma Cabeça sem pecado, como um dom soberano de Sua pessoa, para Sua honra e deleite, e para participar da glória sobrenatural com Ele e dEle. “E eu dei-lhes a glória que a mim [como Deus-homem] me deste”, em conformidade com Tua eleição deles e Teu entregar-lhes a Mim para serem Meus. Tu os tens amado como Tu Me tens amado a Mim [ou seja, com um amor eterno na eleição], sim, Tu lhes deste a Mim, para a Minha glória como a finalidade deles, e pelo que, principalmente, Tu lhes amaste (João 17:22-23).

E o que se segue imediatamente em João 17? Isto: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo” (v. 24). Cristo foi amado em Sua eleição desde a eternidade, e a partir do amor de Deus por Ele, pessoas foram dadas a Ele – com que propósito? Mesmo para contemplá-lO, admirá-lO e adorá-lO em Sua pessoa e glória, como sendo a própria coisa a que eles foram ordenados, mais do que para a própria glória deles, pois a glória deles surge a partir de contemplar a dEle (2 Coríntios 3:18). E o que é esta glória a que Cristo foi ordenado? A glória de Sua pessoa primeiro absolutamente decretada a Ele é a elevação de Sua glória no céu, onde somos ordenados a contemplá-la. E observe como Ele aqui (João 17:24) revela o principal motivo de Deus nisso: “porque tu me amaste”, Cristo sendo escolhido em primeiro lugar na designação de Deus, os membros foram escolhidos e dados a Ele para que eles redundassem em Sua glória.

Sendo nós escolhidos para a glória de Cristo como nossa finalidade, e por amor a Ele, bem como para a glória da graça de Deus para conosco, Deus ordenou uma dupla relação de Cristo para conosco para a Sua glória, adicional àquela glória absoluta de Sua pessoa. Primeiro, a relação de uma “Cabeça”, onde nós fomos entregues a Ele como membros de Seu corpo, e como uma esposa ao seu marido para ser seu cabeça. Em segundo lugar, a relação de um “Salvador” e Redentor, que é, em adição à sua liderança; e ambos para adicional glória de Cristo, e também para a manifestação da graça de Deus em relação a nós. Estas duas relações são bastante distintas e não devem ser confundidas. “Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo” (Efésios 5:23): cada um desses ofícios foi nomeado a Ele pelo beneplácito da vontade de Deus. Esta mesma dupla relação de Cristo em relação ao Seu povo é apresentada novamente em Colossenses 1:18-20, esta honra oficial dupla conferida a Ele está além e acima das realezas absolutas de Sua pessoa como Deus-homem.

Agora vimos que a dupla relação de Cristo quanto ao Seu povo tem, adequadamente, um duplo e distinto aspecto e consideração quanto a nós e sobre nossa eleição por Deus, que não foi absoluta como a de Cristo foi, mas em relação aos Seus dois ofícios principais. O primeiro diz respeito às nossas pessoas, sem a consideração de nossa queda em Adão, pelo qual fomos contemplados na pura porção da criação como a ser criada, e nesta consideração Deus nos ordenou para a glória final, sob relação com Cristo como “Cabeça”, seja como membros de Seu corpo ou como Sua noiva, ou melhor, tanto como sendo Ele a Cabeça da Igreja; também ou ambas, as nossas pessoas eram plenamente capazes antes ou sem qualquer consideração de nossa queda. Em segundo lugar, as nossas pessoas vistas como caídas, como corruptas e pecaminosas, e, portanto, como objetos a serem salvos e redimidos da escravidão do mesmo, sob a nossa relação com Ele como um “Salvador”.

Cada uma dessas relações foi para a glória da graça de Deus. Primeiro, em Seu desígnio de favorecer-nos, considerados puramente como criaturas, para uma maior glória por seu Cristo do que era atingível pela lei da criação. Ordenar-nos a esta glória foi pura graça, não menos do que para redimir-nos do pecado e da miséria em que caímos; pois isso foi totalmente independente das obras ou mérito, assim como a eleição de Cristo (que é o padrão da nossa) se deu além da consideração de obras de qualquer tipo, como Ele declarou: “a minha bondade não chega à tua presença” (Salmo 16:2). “Embora o trabalho da vida e agonia da morte do Filho refletiu um brilho incomparável sobre cada atributo de Deus, ainda assim o Deus mui bendito e infinitamente feliz não tinha nenhuma necessidade da obediência e da morte de Seu Filho, foi por nossa causa que a obra da redenção foi empreendida” (C. H. Spurgeon). É a esta graça original que 2 Timóteo 1:9 refere-se, foi a graça somente, que levou Deus a nos resgatar e chamar, à parte de obras, mas “segundo” esta graça matriz pela qual fomos ordenados para a glória desde o início.

Nessa graça original repousa o grandioso e último desígnio de Deus, pois ela terá sua realização última em todos, e com a perfeição de todos. Deus poderia imediatamente, sobre a nossa primeira criação, ter nos tomado nesta glória. Mas em segundo lugar, para adicional magnificação de Cristo e demonstração mais ampla de Sua graça, para estendê-la ao seu alcance máximo; como a palavra em Hebraico é “Estende a tua benignidade” (Salmo 36:10). Ele não quis conduzir-nos à plena posse da nossa herança em contemplar a glória pessoal de Cristo, nossa cabeça; mas permissivamente ordenou que cairíamos em pecado, e, portanto, decretou criar-nos em condições mutáveis (como a lei da criação requeria), o que abriu caminho para a abundância de Sua graça (Romanos 5:15). Isto é confirmado por: “Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia [um termo que denota nosso merecimento do mal], pelo seu muito amor com que nos amou” (Efésios 2:4). Primeiro Deus nos amou, vistos como criaturas sem pecado; e isso se tornou a base da “misericórdia” para conosco, quando considerados como pecadores.

Foi sobre esta determinação Divina que os eleitos não entrariam imediatamente após a sua criação na glória a que foram ordenados, antes primeiro seriam permitidos cair em pecado e miséria e, em seguida, seriam libertos do mesmo, de forma que Cristo tivesse Sua grandiosa e maior glória do ofício de Redentor e Salvador acrescentada à Sua eleição de Preeminência. É nosso ser pecador e miserável que ocupa a nossa preocupação presente e imediata, como a que estamos mais solícitos quanto a deixar este mundo, e é por isso que as Escrituras, principalmente, apresentam a Cristo como Redentor e Salvador. Dizemos “principalmente” pois como vimos elas não são, de forma alguma, silenciosas sobre a maior glória advinda do fato dEle ser o Cabeça da Igreja; sim, suficiente é dito nelas para atrair os nossos pensamentos, afeições e esperanças para contemplá-lO em Sua grandiosa glória.

Ao concluir este esboço sobre a ordem Divina da eleição de Cristo, e nossa, como é representada nas Escrituras, que seja destacado que não supomos um intervalo de tempo entre Deus predestinar a Cristo, como Cabeça e O predestinar como Salvador, pois tudo foi simultâneo na mente de Deus; mas a distinção é da ordem de natureza, e para a nossa melhor compreensão dos mesmos. Cristo não poderia ser o “Cabeça”, sem o correlato de Seu “corpo” místico, como Ele não poderia ser o nosso “Salvador”, a menos que houvéssemos caído. “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma” (Isaías 42:1): Cristo foi o primeiro eleito e deleite de Deus e depois Seu servo – sustentado por Ele na obra da redenção. Absoluta e principalmente Cristo como Deus-homem foi ordenado para Ele mesmo, para Sua própria glória; relativa e, secundariamente, Ele foi escolhido para nós e para a nossa salvação.

A glória da pessoa do Deus-homem, absolutamente considerada, foi o desígnio primário de Deus, a que Ele determinou em Seu coração; próximo a isso foi a Sua ordenação de Cristo para ser um Cabeça para nós e de nós para sermos um corpo para Ele, isso por nossa união com Ele como nossa Cabeça; Ele foi o autor suficiente e eficiente de tais bênçãos, à medida que nos tornarmos imutavelmente santos; da filiação a partir de Sua Filiação; da aceitação graciosa de nossas pessoas nEle como o principal Amado, e herdeiros de uma mesma glória com Ele – todas estas benções nos capacitam a sermos considerados por Deus como criaturas puras através da nossa união com Cristo, e não necessitados de Sua morte para comprá-las para nós, sendo bastante distintas da bênção da redenção como Efésios 1:7 (seguido dos versículos 3-6) mostra com suficiente clareza. Como fazer de Cristo a nossa cabeça foi o primeiro no plano de Deus, assim são ó último a ser efetuado, sendo esta a maior de todas as bênçãos da “salvação”, a coroa de tudo, quando nós estaremos “para sempre com o Senhor”.

Descendo a um nível muito mais baixo, que seja sinalizado que certamente os santos anjos não podiam ser considerados na massa corrupta quando eles foram escolhidos, uma vez que nunca caíram; por isso, é mais razoável supor que eram considerados por Deus mesmo quando estavam na mesma pura massa da criação, quando Ele nos elegeu. Assim foi com a natureza humana de Cristo, que é o objeto da eleição, pois nunca caiu em Adão, nem nunca entrou em um estado corrupto, mas foi “escolhido dentre o povo” (Salmos 89:19), e, consequentemente, as pessoas das quais ele foi escolhido devem ser consideradas como ainda não-caídas. Isso por si só concorda com o tipo de Eva (a Igreja) que está sendo dada a Adão (Cristo) antes do pecado entrar no mundo. Assim, a dupla ordenação dos eleitos para a glória e para a salvação (tendo em vista a queda) de Deus concorda com a dupla ordenação dos não-eleitos: preterição como criaturas e condenação como pecadores.

Nota: Por muito do que foi exposto acima, estamos em dívida com Thomas Goodwin. Em alguns lugares temos sido propositadamente repetitivos neste capítulo, pois a maior parte do fundamento examinado é inteiramente nova para a maioria dos nossos leitores.

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♦ O texto deste e-book é capítulo 10 do livro The Doctrine of Election, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: The Doctrine of Election
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Graça, Sofrimento e Glória – Arthur Walkington Pink

“E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória, depois de havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça. A ele seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém.” (1 Pedro 5:10-11).

Tendo considerado nos dois capítulos anteriores, o suplicante, a definição, o Objeto e o apelo desta oração, vamos agora contemplar, em quinto lugar, a sua petição: “E o Deus de toda a graça… ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça”. A força apropriada da gramática Grega faria a petição ser lida assim: “o Deus de toda graça… Ele mesmo vos aperfeiçoe, Ele mesmo vos confirme, Ele mesmo vos fortaleça, Ele mesmo vos estabeleça”. Há muito mais contido nessas palavras do que aparece na sua superfície. A plenitude do seu significado só pode ser descoberta por um exame paciente das Escrituras, assim, determinando como os vários termos são utilizados em outras passagens. Eu considero as palavras “Ele mesmo vos aperfeiçoe” como a principal coisa solicitada. As três palavras que se seguem são, em parte, uma amplificação e, em parte, uma descrição do processo pelo qual o efeito desejado seja alcançado, embora cada uma das quatro palavras requer ser considerada separadamente. Expositores antigos – que adentraram nas coisas de modo muito mais profundo e completo do que os nossos expositores modernos o fazem –, levantaram a questão de saber se esta oração recebe o seu cumprimento na vida presente ou na vida por vir. Depois de pesar cuidadosamente os prós e os contras de seus argumentos, concluí tendo em vista o alcance extraordinário da palavra grega katartizō (Nº 2675, em Strong e Thayer), aqui traduzida por aperfeiçoar, que esta petição é concedida em uma resposta dupla: aqui e no futuro. Considerarei a ambos em meus comentários.

Duas Significações Relevantes

Katartizō significa aperfeiçoar (1) por ajustar ou articular de modo a produzir um objeto impecável; ou (2) por restaurar um objeto que se tornou imperfeito. Para que você seja capacitado a formar seu próprio julgamento, definirei antes as passagens em que a palavra Grega é de forma variada traduzida em outro lugar. Em cada passagem citada a palavra ou palavras colocadas em itálico são a tradução em Português da palavra Grega traduzida como aperfeiçoar em nosso texto. Quando o Salvador diz: “Mas corpo me preparaste [ou “me equipaste”, tolerância admissível] (Hebreus 10:5), devemos entender, como disse Goodwin, que “aquele corpo foi formado ou articulado pelo Espírito Santo, com a alma humana, em todas as suas partes, em um instante de sua união com o Filho de Deus”, e que ele era imaculadamente santo, impecável, e sem mancha ou defeito. Katartizō é usado novamente para expressar a consumação final e perfeita da obra da primeira criação de Deus: “os mundos pela palavra de Deus foram criados” (Hebreus 11:03). Ou seja, eles estavam de tal forma concluídos que nada mais era necessário para a sua perfeição; pois como Gênesis 1:31 nos diz: “E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom”.

Mas essa mesma palavra Grega tem um sentido muito diferente em outras passagens. Em Mateus 4:21 encontra-se na frase “consertando as redes”, em que se denota a reparação do que foi danificado. “Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão” (Gálatas 6:1). Neste texto, isso significa tal como a restauração de um membro que está fora da articulação. Sem dúvida, essa foi uma das significações que o Apóstolo Pedro tinha em mente quando escreveu esta oração, pois aqueles por quem ele orava haviam sido desarticulados ou dispersos por perseguições (1 Pedro 1:1, 6, 7). Paulo também tinha esse tom de significado diante dele quando exortou os Coríntios divididos: “sejais unidos em um mesmo pensamento e em um mesmo parecer” (1 Coríntios 1:10). Mais uma vez, a palavra é usada às vezes para expressar o suprimento de uma deficiência, como acontece em 1 Tessalonicenses 3:10: “para que possamos ver o vosso rosto, e supramos o que falta à vossa fé?”. A palavra falta implica uma deficiência. Mais uma vez, a palavra ocorre em Hebreus 13:21: “Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus” (Hebreus 13:21). Aqui o apóstolo ora para que os santos avancem para maiores níveis de fé e de santidade nesta vida.

Nosso Aperfeiçoamento Tem Relação Com o Processo de Santificação

Desta forma, poderá ver, a partir de seu uso em outras passagens, que a palavra Grega traduzida como aperfeiçoar em 1 Pedro 5:10 pode oferecer um significado de algo como isto: “O Deus de toda graça… Ele mesmo vos perfeito em todos esses níveis sucessivos de graça que são necessários para que vocês alcancem a maturidade espiritual”. Esse significado não necessariamente implica qualquer culpa pessoal ou fracasso naqueles por quem se ora, assim como uma criança não deve ser responsabilizada por não ter ainda atingido a plena estatura de um adulto ou de não ter atingido o conhecimento que vem com a idade madura. É com este princípio em mente que Deus prometeu levar à perfeição a boa obra que Ele começou na alma de seu povo (Filipenses 1:6). Um Cristão pode ir até a medida de graça recebida do alto, sem qualquer divergência intencional em seu curso, e ainda ser imperfeito. Este foi o caso com o apóstolo Paulo, um dos mais favorecidos dos filhos de Deus, que confessou: “Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito” (Filipenses 3:12). Houve, e há, algumas almas privilegiadas que nunca deixaram o seu primeiro amor, que seguiram rapidamente na busca do conhecimento do Senhor, e que (como o teor geral de suas vidas) têm se conduzido de acordo com a luz recebida. No entanto, mesmo estes têm necessidade de mais adições de sabedoria e santidade para torná-los ramos mais fecundos da videira e para movê-los sempre na direção à consumação de sua santidade no céu.

Um exemplo disso aparece no caso dos santos de Tessalônica. Eles não somente haviam experimentado uma conversão notável (1 Tessalonicenses 1:9), mas eles se comportaram da maneira mais exemplar e que mais honrava a Deus, de modo que o apóstolo deu graças a Deus por eles por causa da “obra da vossa fé, do trabalho do amor, e da paciência da esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, diante de nosso Deus e Pai” (vv. 2-3). Não somente as suas graças interiores eram saudáveis e vigorosas, mas em sua conduta exterior eles foram feitos “exemplo [padrão] para todos os fiéis” (v. 7). No entanto, Paulo estava mui ansioso para visitá-los novamente, para que pudesse aperfeiçoar o que faltava em sua fé (1 Tessalonicenses 3:10). Ele desejava que fossem abençoados com outras fontes de conhecimento e graça que promoveria uma caminhada mais íntima com Deus e uma maior resistência e superação de tentações. Pois essa fé que repousa sobre Cristo para perdão e aceitação de Deus, que Ele concede na conversão, é também uma fé consciente se fundamente sobre a nossa aceitação por Deus. Paulo refere-se a isto como a “plenitude da inteligência” (Colossenses 2:2). Com essa bendita segurança, Deus nos dá a rica experiência da “alegria indizível e cheia de glória” (1 Pedro 1:8) e do fazer firme a nossa vocação e eleição, a fim de que uma entrada abundante em Seu reino seja iniciada nesta vida (2 Pedro 1:10-11). No entanto, este aperfeiçoamento também se aplica à recuperação e restauração dos Cristãos que tropeçaram, como é evidente, no próprio caso de Pedro.

Pedro ora pelo Estabelecimento ou Confirmação da Fé Daqueles a Quem se Dirige

Mas suponha que Deus assim conserte e restaure aqueles que foram achados em falta, ainda assim, eles não podem cair novamente? Sim, de fato, e, evidentemente, Pedro teve uma tal contingência em vista. Assim, ele acrescenta a palavra “confirmar”. Pedro anelava que eles fossem tão confirmados na fé que eles não caíssem. Para os inconstantes e vacilantes, esse foi um pedido para que eles não fossem mais lançados para lá e para cá, antes fossem inamovíveis em suas crenças. Para os desanimados que, tendo posto a mão no arado, não olhassem para trás por causa das dificuldades do caminho. Para aqueles que estavam andando de perto com o Senhor, para que pudessem ser confir-mados em santidade diante de Deus (1 Tessalonicenses 3:13); pois os mais espirituais estão diariamente em necessidade de graça sustentadora A palavra grega usada (stērizō, Nº 4.741, em Strong e Thayer) de um modo geral significam firmar ou confirmar. Ela ocorre nas palavras de Cristo em Lucas 16:26: “está posto um grande abismo”. Ela é encontrada novamente em conexão com Cristo e é traduzida assim: “manifestou o firme propósito de ir a Jerusalém” (Lucas 9:51). É a palavra dirigida pelo Senhor ao próprio Pedro: “e tu, quando te converteres, confirma [ou “fixa firmemente”] teus irmãos” (Lucas 22:32). Nosso Senhor estava comissionando Pedro, com antecedência, para restabelecer aqueles de Seus condiscípulos que também poderiam ceder à tentação de negar o Seu Mestre. Da mesma forma, Paulo quis estabelecer e consolar os santos de Tessalônica a respeito de sua fé, e isso em relação à tentação ou tribulação (1 Tessalonicenses 3:1-5).

Pedro Ora para que Deus Se Agrade em Conceder Força Moral a Eles

Mas, ainda que nós sejamos assim confirmados pela graça de Deus, de modo que não podemos cair total e finalmente, ainda assim, somos fracos e podemos estar labutando sob grandes debilidades. Por isso, o apóstolo acrescenta à sua petição a palavra “fortale-cer”. Este verbo grego (sthenoō, Nº 4.599 em Strong e Thayer) não é usado em outras partes do Novo Testamento, mas, a partir de sua posição aqui entre “confirmar” e “estabelecer”, ela parece ter a força revigorante contra fraquezas e corrupções. Lembro-me da oração que Paulo ofereceu, em nome dos Efésios, para que fossem “corroborados com poder pelo seu Espírito no homem interior” (Efésios 3:16). Paulo emprega um substantivo negativo (asthenes, Nº 772 em Strong e Thayer), formado a partir da mesma raiz, em Romanos 5:6: “Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios”. Em nosso estado não-regenerado, estávamos totalmente desprovidos de capacidade e habilitação para fazer aquelas coisas que são agradáveis a Deus. O estado de impotência espiritual de uma alma não-regenerada não é apenas dito ser “fraco”, mas a condição do corpo quando morto é expresso por um substantivo (astheneia, Nº 769) derivado de asthenes (Nº 772). “Semeia-se em fraqueza”, ou seja, é sem vida, totalmente desprovido de qualquer vigor. Mas, por contraste, “ressuscitará com vigor” (1 Coríntios 15:43); ou seja, isso deve ser dotado e capacitado com todas as habilidades das criaturas racionais, mesmo como as que os anjos têm (Lucas 20:36), os quais “excedem em força” (Salmos 103:20). Assim, este pedido pelo fortalecimento dos santos deve ser entendido como por suprimentos de graça que fortalecerão as mãos cansadas e joelhos desconjuntados e os capacitarão a superar todas as forças de oposição.

Pedro Ora para que Eles Possam Ser Estabelecidos em Fé, Amor e Esperança

Apesar de sermos confirmados de modo que nunca seremos perdidos, e embora sejamos fortalecidos para resistirmos contra as tribulações, ainda assim, podemos nos tornar instáveis e inseguros. Portanto, Pedro acrescenta a palavra “estabelecer” à sua petição. Ele está preocupado para que eles sejam incansáveis em sua fé em Cristo, amor por Deus e esperança da glória eterna. O verbo grego (themelioō, Nº 2.311) é traduzido como “edifi-cada” em Mateus 7:25, “fundaste” em Hebreus 1:10, e “fundados” em Efésios 3:17. Em nosso texto, ele parece ser utilizado como o oposto de oscilações de espírito e dúvidas de coração. Pedro está dizendo algo como: Eu oro para que vocês sejam capazes de dizer com confiança: “porque eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia” (2 Timóteo 1:12), e que vocês não se desviem do caminho do dever por causa da oposição que vocês encontram. Não importa o quão boa uma árvore possa ser, se ela não estiver estabelecida na terra, mas sendo movida de lugar para lugar, ela terá pouco ou nenhum fruto. Quantos podem traçar a esterilidade de suas vidas pela condição incerta de seus corações e julgamentos! Davi poderia dizer: “Preparado está o meu coração, ó Deus, preparado está o meu coração”, e portanto, ele adicionou, “cantarei, e darei louvores” (Salmos 57:7). Esta também é uma benção que somente Deus pode dar. “Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar”, diz Paulo (Romanos 16:25). Ainda assim, como Deuteronômio 28:9 e 2 Crônicas 20:20 mostram, devemos utilizar os meios indicados.

“Ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça”. O objetivo último parece ser mencionado em primeiro lugar, e, em seguida, as etapas através do que isso deve ser alcançado. Mas, se considerados em conjunto ou isoladamente, todos eles relacionam-se com a nossa santificação prática. O acúmulo destes termos enfáticos indica a dificuldade da tarefa do Cristão e sua necessidade urgente de suprimentos constantes de Graça Divina. A guerra do santo é uma de dificuldade incomum, e suas necessidades são profundas e muitas; mas ele relaciona-se com “o Deus de toda graça”! Por isso, é tanto o nosso privilégio e dever recorrer a Ele por meio de súplica insistente (2 Timóteo 2:1; Hebreus 4:16). Deus providenciou graça correspondente a todas as nossas necessida-des, ainda assim, esta flui através dos meios que Ele designou. Deus irá nos “aperfeiçoar, confirmar, fortificar, e estabelecer”, em resposta à fervorosa oração, pela instrumentalidade de Sua Palavra, por Sua bênção para nós aos vários ministérios de Seus servos, e santificando-nos a disciplina de Suas providências. Aquele que deu ao Seu povo uma esperança segura também dará todo o necessário para a realização da coisa esperada (2 Pedro 1:3); mas é unicamente a nossa parte buscar a bênção desejada e necessária por meio da oração (Ezequiel 36:37).

Nosso Padecer com Cristo Deve Preceder o Sermos Glorificados com Cristo

Em sexto lugar, passamos a refletir sobre a qualificação desta oração: “depois de have-mos padecido um pouco”. Esta cláusula está intimamente ligada com duas outras: (1) “que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória” e (2) a petição “Ele mesmo vos aperfeiçoe”. O apóstolo não orou para que os crentes fossem removidos deste mundo, assim que fossem regenerados, nem que eles fossem imediatamente aliviados de seus sofrimentos. Ao contrário, ele ora para que os seus sofrimentos deem lugar à glória eterna “depois de um tempo”, ou, como diz o original em Grego: “depois de um pouco de tempo”, pois todo o tempo é curto, em comparação à eternidade. Pela mesma razão, as aflições mais severas devem ser consideradas como “leves” e apenas “momentâneas” quando comparada a um “peso eterno de glória” que nos aguarda (2 Coríntios 4:17). Os sofrimen-tos e a glória estão inseparavelmente ligados, pois “por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus” (Atos 14:22). O apóstolo Paulo ensina claramente que aqueles de nós que somos filhos de Deus deveremos realmente compartilhar da herança de Cristo, “se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” (Romanos 8:17). Se alguém não carrega qualquer cruz, ele não ganhará nenhuma coroa (Lucas 14:27). Todos os que sofreram por amor de Cristo na terra serão glorificados no céu; mas ninguém será glorificado, salvo aqueles que, de alguma forma ou de outra, estão sendo “feito conforme à sua morte” (Filipenses 3:10). Alguns dos sofrimentos do crente provem da mão da providência de Deus, alguns de “falsos irmãos” (2 Coríntios 11:26; Gálatas 2:4), alguns do mundo profano, alguns de Satanás e alguns de pecado interior. Pedro fala de “tentações” ou “tribulações” (1 Pedro 1:6), mas elas são contraba-lançadas pela “multiforme graça” (1 Pedro 4:10). E ambas são dirigidas pela “multiforme sabedoria de Deus” (Efésios 3:10)!

A Nossa Conformidade com Cristo Inclui Necessariamente Nossa Comunhão com Ele em Seus Sofrimentos

A abundante graça de Deus não exclui tribulações e aflições, mas aqueles que são os destinatários da graça Divina têm sido “ordenados para isso” (1 Tessalonicenses 3:3). Então, não nos espantemos ou desfaleçamos por eles, mas busquemos a graça para nos santificarmos. Os sofrimentos são necessários para os santos em várias considerações. Em primeiro lugar, eles são designados para que os membros possam se conformar com a sua Cabeça: “Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles” (Hebreus 2:10). Suficientes, então, para que o discípulo seja como o seu Mestre, para que ele seja aperfeiçoado depois de ter sofrido por algum tempo. O próprio Pedro faz alusão a esta ordem divinamente prescrita no caminho da salvação (ou seja, a humilhação, em seguida, a exaltação, que se aplica não somente à Cabeça, mas aos Seus membros também), quando ele se refere aos “sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir” (1 Pedro 1:11). Foi a vontade Divina que mes-mo o Filho encarnado deveria aprender a “obediência [submissão], por aquilo que padeceu” (Hebreus 5:8). Houve um ponto de viragem no Seu ministério quando Jesus começou “a mostrar aos seus discípulos que convinha ir a Jerusalém, e padecer muitas coisas dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia” (Mateus 16:21). Por que Ele teve que sofrer assim? É porque Deus havia ordenado isso (Atos 4:28). Cristo foi tentado pelo Diabo apenas por causa da malícia de Satanás em relação a Ele? Não, pois foi “conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Mateus 4:1; cf Marcos 1:12-13; Lucas 4:1-2). Lembrem-se durante as tribulações, queridos santos, que o próprio Salvador entrou no reino de Deus “por muitas tribulações” (Atos 14:22), assim como nós devemos fazer. Assim, “naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer [“aliviar” ou “ajudar”] aos que são tentados” (Hebreus 2:18). Portanto, tenhamos “grande gozo quando cairdes [nós cairmos] em várias tentações” (Tiago 1:2), pois, sofrer “como Cristão” é um meio pelo qual podemos glorificar ao nosso Deus redentor (1 Pedro 4:16). O privilégio de experimentar “a comunhão dos Seus sofrimentos” é um dos meios indicado por Deus através do que podemos saber que estamos em Cristo, e não mais identificados com o mundo que agora permanece sob a ira de Deus (Filipenses 3:7-11). Ouça as palavras de nosso Mestre (Mateus 5:10-12):

Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.

A Graça de Deus é Magnificada ao Atender as Nossas Necessidades e Confundir Nossos Inimigos

Em segundo lugar, o Deus de toda graça fez esta designação porque a Sua graça é melhor vista em sustentar-nos e é mais manifesta ao nos trazer refrigério. Assim, encon-tramos o trono da graça magnificado por Deus nos dar “graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hebreus 4:16). Grande parte da glória da graça de Deus aparece em Seu apoiar os fracos, em libertar os tentados e em levantar os caídos. O Senhor não nos isenta do conflito, mas nos sustenta no mesmo. O chamado eficaz garante a nossa perseverança final, ainda assim, isso não torna desnecessárias as fontes contínuas de graça. Como Manton expressou: “Deus não apenas lhes dará glória no final de sua jorna-da, mas sustenta as suas despesas pelo caminho”.

Em terceiro lugar, nosso Pai nos conduz através de provas ardentes, a fim de confundir aqueles que se opõem a nós. A graça reina (Romanos 5:21), e a grandeza de uma monarquia é demonstrada por sua subjugação dos rebeldes e ao derrotar seus inimigos. Deus levantou o poderoso Faraó, a fim de manifestar Seu próprio poder. No contexto (1 Pedro 5:8), como já vimos, ele permite o diabo, como um leão que ruge, a rugir em nosso derredor, se opondo e atacando-nos. Mas Ele faz isso somente para o frustrar, pois é “certo que os presos se tirarão ao poderoso” (Isaías 49:25), e Deus “esmagará em breve Satanás debaixo dos vossos [nossos] pés” (Romanos 16:20).

O Sofrimento Prova Nossas Graças e Faz o Céu Mais Glorioso

Em quarto lugar, o sofrimento é necessário para testar e provar as nossas graças: “a pro-va da vossa fé opera a paciência” (Tiago 1:3). Considere o que Pedro diz sobre nós, que fomos gerados “de novo para uma viva esperança”:

“Em que vós grandemente vos alegrais, ainda que agora importa, sendo necessário, que estejais por um pouco contristados com várias tentações, para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo” (1 Pedro 1:6-7).

É o vento da tribulação que separa o trigo do joio, a fornalha que revela a diferença entre a escória e o ouro. O ouvinte que um “solo pedregoso” se ofende e cai: quando é “chega-da a angústia e a perseguição, por causa da palavra, logo se ofende” (Mateus 13:21). Assim, também, para a purificação e resplendor de nossa esperança, nossos corações têm que ser mais completamente apartados deste mundo antes que eles se tornem estabelecidos sobre as coisas do alto.

Em quinto lugar, a glória de nossa herança eterna é reforçada por nosso suportar a aflição. Ouça as palavras de Thomas Goodwin:

O céu não é simplesmente alegria e felicidade, mas uma glória, e uma glória vitoriosa pela conquista “Ao que vencer” [as promessas são feitas] em cada uma das sete cartas de Apocalipse 2 e 3. Esta é uma coroa conquistada por mestria, e assim por esforço, de acordo com certas leis estabelecidas que devem ser observadas por aqueles que militam (2 Timóteo 2:5). A glória vitoriosa por conquista e mestria é a mais valiosa. A porção que Jacó ganhou “com a minha espada e com o meu arco” foi aquela reservada para seu amado José (Gênesis 48:22). Nós somos mais do que vencedores, por meio dAquele que nos amou.

Graça é Fornecida para Conflitos Internos e Externos

É um erro (cometido por alguns) restringir tanto as aflições do versículo 9 ou o sofrimento do versículo 10 a perseguições exteriores e provações. Antes, todos os assaltos internos (seja a partir de nossas próprias concupiscências ou de Satanás), e bem como todas as tentações, sejam quais forem, devem ser incluídos. O contexto exige isso, as palavras: “Sede sóbrios e vigilantes”, relaciona-se às nossas concupiscências, bem como a todas as outras provocações à prática do mal, assim, o chamado a resistir ao Diabo claramente se relaciona com suas tentações interiores para o pecado. A experiência de todos os santos o exige, pois as suas dores mais agudas são ocasionadas por suas próprias corrupções. Além disso, como Goodwin apontou, a nossa ação de colocar Deus diante dos olhos de nossa fé como “o Deus de toda graça”, argumenta o mesmo; pois a Sua graça está principalmente pronta para auxiliar-nos contra pecados interiores e tentações ao pecado. Além disso, toda a Sua graça se estende não somente a todos os tipos de misérias exteriores, mas a todos os males internos, que são a nossa maior tristeza, o que exige Sua graça abundante sobre todo o mais, e para o que Sua graça é principalmente dirigida (Salmo 19:14; 119:1-16; Provérbios 3:5-7; 4:20-27) Sua graça é o grande remédio para todos os males a que o crente está sujeito. Alguns são culpados de pecados piores após a conversão do que antes, e se não fosse o Deus de toda graça o seu Deus, onde eles estariam?

A Perfeição em Graça é Progressiva e Escatológica

“Depois de havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça”. Isso pode muito bem ser considerado como um pedido de graça para que possamos obedecer a exortação encontrada em 1 Coríntios 15:58: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor”. Devemos estar constantemente em oposição ao pecado e nos esforçando para sermos santos em toda maneira de viver. Este pedido recebe um cumprimento parcial nesta vida, mas uma realização completa e mais transcendente no céu. Os santos avançam para novos graus de fé e de santidade, quando, após temporadas de hesitação e sofrimento, Deus os fortalece e estabelece em uma forma mais estável de espírito. No entanto, apenas em nossa condição permanente após a morte, essas bênçãos serão totalmente nossas. Somente então seremos aperfeiçoados, no sentido de sermos plenamente conformes à imagem do Filho de Deus. Nossos corações serão feitos “irrepreensíveis em santidade diante de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 3:13). Só então toda a nossa debilidade findará e nossos corpos “ressuscitarão com vigor” (1 Coríntios 15:43). Então, de fato, nós seremos eternamente estabelecidos, pois a pro-messa Divina é esta: “A quem vencer, eu o farei coluna no templo do meu Deus, e dele nunca sairá” (Apocalipse 3:12).

A Doxologia da Esperança Infalível

Em sétimo lugar, finalmente, chegamos à grande atribuição desta oração apostólica: “A ele seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém”. “O apóstolo, tendo acrescentado oração à sua doutrina, aqui adicionou louvor à sua oração”, diz Leighton. Isso expressou a confiança do apóstolo de que o Deus de toda graça concederia sua petição. Ele estava certo de que o que ele pedira em nome dos santos seria a “glória” Divina, e que o Divino “poderio” infalivelmente o operaria. Há, portanto, uma dica prática implícita para nós nesta doxologia final. Isso indica onde o alívio deve ser obtido e onde a força deve ser encontrada em meio ao nosso sofrimento: ao olhar para a glória de Deus, que é a grande finalidade que Ele tem em vista em todo o Seu lidar conosco; e pela confiante crença no domínio de Deus em realizar todas as coisas para o nosso bem (Romanos 8:28). Pois, se é Seu o poderio, e Ele nos chamou à Sua glória eterna, então o que temeremos? Assim, certa é a nossa glorificação (Romanos 8:30) de forma que devemos dar graças por isso agora. A graça abundante e infinita de Deus está envolvida para efetivá-la, e Seu poder onipotente garante a sua realização.

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♦ Este texto é formado pelo Capítulo 9 do Livro A Guide to Fervent Prayer, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: A Guide to Fervent Prayer
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


O Senhor Sabe Livrar – Robert Murray M´Cheyne

“Assim, sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar os injustos para o dia do juízo, para serem castigados.” (2 Pedro 2:9)

Há apenas duas grandes classes de pessoas no mundo: os piedosos e os injustos; e a maneira em que Deus lida com essas duas classes configura a história do universo. A uma dessas classes cada um de vocês pertence. (1) Os piedosos são aqueles que nasceram de novo, que são feitos participantes da natureza Divina, e vivem para Deus. (2) Os injustos são aqueles que são ímpios, que nunca nasceram de novo, que vivem para si mesmos e para o mundo. Deus lida de forma muito diferente com essas duas classes.

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I.
Seu tratamento aos piedosos.

1. Ele lhes permite cair em tentações. Toda a Bíblia mostra que é comum para os crentes serem conduzidos através de muitas e grandes tentações. Tentações podem ser compreendidas de duas maneiras. (1) Solicitações para pecar. Todos os crentes podem cair nestas. A velha natureza permanece; embora crucificada, e mortificada, e odiada, contudo ela permanece. Satanás atira seus dardos inflamados, coloca armadilhas para a alma. O mundo espreita por nossa hesitação. Sem dúvida, Noé sentiu estas no mundo antigo, e Ló, enquanto caminhava pelas ruas de Sodoma. (2) Tribulações. Todos os tipos de tribulações tentam a alma para ver se esta permanecerá em Cristo ou não, censuras e perseguições. Muitas vezes, a tribulação é ardente. Toda a Bíblia testifica que é comum que os crentes caiam nestas. O curso normal de um crente passa por meio destas: “Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar” [1 Coríntios 10:13]. Não pense que isso é estranho. Tiago diz “tende grande gozo quando cairdes em várias tentações” [Tiago 1:2]. E Paulo diz que ele serviu ao Senhor “com toda a humildade, e com muitas lágrimas e tentações” [Atos 20:19]. Você pode achar estranho que Deus nos conduza por tal caminho para a glória, a saber, pelas lágrimas e tentações. Por que Ele deixou Noé viver tanto tempo em um mundo de provações? Por que ele deixou Ló permanecer no meio de Sodoma?

Primeiramente, para manifestar a realidade da graça. Diz-se: “E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós” [1 Coríntios 11:19]. Pela mesma razão, deve haver tentações, para que aqueles dentre vós, que são realmente filhos de Deus se manifestem. Em um momento em que não há tribulação ou tentação, é fácil receber a Palavra com alegria, e muitos entre vocês parecem ser Cristãos, mas quando a tentação vem, muitos caem, muitos que, uma vez, pareciam ir bem, estar comovidos, e esperar diligentemente na Palavra. Talvez se você fosse autorizado a prosseguir suavemente ao longo da vida, sem tentações, você teria ficado com um nome de quem vive por todos os seus dias; mas a tentação veio, e você afundou, só para mostrar que você não era dEle. Noé, porém, é preservado em meio ao mundo antigo, não conformado com o mundo, para mostrar que há um poder Divino operando nele, para mostrar que há um Deus eletivo, perdoador, defensor. Ló é preservado de Sodoma para mostrar a mesma coisa. E vocês que são crentes são preservados pelo poder de Deus, através de várias tentações.

Em segundo lugar. Para condenar o mundo. Noé foi movido com temor, pelo que ele condenou o mundo. Quando um miserável companheiro-verme e companheiro-pecador foi habilitado a viver acima do mundo, a ter comunhão com Deus, e entrar e sair dentre eles, vivendo para a eternidade, isso provou-lhes que havia um Salvador, que havia um Deus de graça. Um crente é uma demonstração viva do caminho da salvação. Ló condenou os homens de Sodoma, quando afligia a sua alma dia a dia, quando ele viveu entre eles como um pecador perdoado, confirmado pelo Espírito Santo. E assim, poucos crentes neste lugar estão condenando isso. Oh, se você nunca tivesse visto o que é a conversão, se você não tivesse exemplos de um crente santo, renovado em sua vizinhança, você permaneceria com um rosto mais ousado no julgamento! Mas, ah! cada crente neste lugar condena você. Por que não lavar-se, onde fomos lavados?!

Em terceiro lugar, para que sejamos conformados a Cristo. Não estranheis a ardente prova que vem sobre vós para vos tentar, como se coisa estranha vos acontecesse; mas alegrai-vos no fato de serdes participantes das aflições de Cristo [1 Pedro 4:12-13]. Cristo foi tentado pelo diabo, e odiado pelo mundo; e devemos estar contentes de compartilharmos os Seus sofrimentos. Deus quer que sejamos como o nosso Cabeça em todas as coisas.

2. O Senhor sabe livra-los.

(1) Eles não sabem como livrarem-se. Não tenho dúvidas de que Noé disse muitas vezes: Eu temo que também serei levado com o dilúvio; eu temo que a minha fé me faltará; eu não sei o que fazer. E Ló muitas vezes tremeu em Sodoma; e Davi, quando Saul o perseguia. Muitos de vocês não sabem como livrarem-se. Estão cercados, como com um dilúvio, por antigos companheiros, paixões antigas, um mundo que odeia, um leão que ruge. (2) O homem não sabe como livrá-los. É comum que as almas sob tentação peçam conselho aos ministros, mas eles não podem livra-las. Nada é mais inútil do que a ajuda de homem em uma hora de tentação. (3) O Senhor sabe. Mais se entende do que as meras palavras implicam. O Senhor não apenas sabe como fazê-lo, mas certamente livrará os piedosos da tentação. Ele os ama. Cada um dos piedosos é uma joia à Sua vista; Ele morreu por eles, e Ele não perderá nenhum deles. Quando Ele os coloca na fornalha, Ele se assenta como um refinador. Ele prometeu que eles jamais perecerão: “Eu nunca te deixarei, nem te desampararei” [Josué 1:5]. Ele, com a tentação dará também o caminho de escape: “Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça” [Lucas 22:32].

Não importa que tentação seja. Não importa quão grande a tentação é, e quão fraca a alma crente. Alguns filhos de Deus, por vezes, dizem: Se fosse uma tribulação menor, eu poderia suportá-la; se a fornalha não estivesse tão quente, se a tentação não fosse tão grande, eu poderia suportá-la; ou, se eu tivesse mais força, se eu fosse um crente mais velho e mais experiente. Olhe para as seguintes palavras: “sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos”. Há alguma coisa difícil para o Senhor?

Não importa quão poucos os crentes sejam. Havia apenas um Ló e um Noé. Talvez eles dissessem: “O Senhor se esqueceu de mim, e o meu Deus me abandonou”. Deus é tão capaz de livrar um como mil. Uma alma é preciosa aos Seus olhos: “vos tomarei, a um de uma cidade, e a dois de uma família; e vos levarei a Sião” [Jeremias 3:14]. “Porque eis que darei ordem, e sacudirei a casa de Israel entre todas as nações, assim como se sacode grão no crivo, sem que caia na terra um só grão” [Amós 9:9]. “Tenho guardado aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que a Escritura se cumprisse” [João 17:12].

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II.
O tratamento de Deus para com os injustos: Deus sabe “reservar os injustos para o dia do juízo, para serem castigados”.

1. O fim de todos os ímpios é a punição. Quaisquer que sejam os tratamentos atuais de Deus com os ímpios, o fim deles é ser punidos. Seja quem for encontrado carregado de pecado, seu fim é ser punido. Os anjos pecaram. Eles eram de uma natureza nobre, originalmente à imagem de Deus, contudo, Deus não os poupou, mas lançou-os no inferno. O velho mundo pecou – uma grande multidão – um mundo inteiro e Deus trouxe o dilúvio sobre eles. Uma cidade em particular pecou e Deus a transformou em cinzas, e a tornou um exemplo para todos os que, posteriormente, viveriam impiamente. Este será o fim de todos nesta congregação que vivem em pecado. Ah! Isso será mais tolerável para Sodoma do que para você. O seu fim é ser queimado.

2. Não agora, “Deus sabe como reservar”. O julgamento contra a má obra não é executada instantaneamente. Durante a Revolução Francesa, um jovem se aproximou, e desafiou que o Deus Todo-Poderoso o fulminasse e ele caísse morto. Nenhum mal se seguiu. Muitos de vocês prosseguem no pecado assim. A primeira vez que você pecou, você tremeu que você não fosse rapidamente convocado para julgamento; mas nenhum mal seguiu, e agora seu coração está inteiramente disposto a fazer o mal. Ah! você entende pouco. “O Senhor sabe como reservar”. Os caminhos de Deus não são como os nossos caminhos. Quando um homem rouba, o grito segue imediatamente: “Pare, ladrão!”, senão ele estará fora de alcance. Quando um assassinato é cometido, uma recompensa é oferecida para a apreensão do assassino, de modo que ele não escape das mãos da justiça. Não é assim com Deus. Ele não está com pressa para punir. Você não pode fugir de Seus domínios. Seus pés devem deslizar no tempo devido. Deus está reservando para você o dia do juízo, para que seja castigado. Ele suporta com muita longanimidade os vasos da ira, preparados para a perdição.

(1) Não é que você tenha pecado pouco. Muitos de vocês pecaram mais do que outros que foram ceifados. Eu não tenho nenhuma dúvida que há muitos no inferno, que tinham, de longe, menos pecados do que alguns de vocês.

(2) Não é que Deus ame o seu pecado. Deus o odeia infinitamente. Cada novo pecado que você comete O provoca de forma temerosa. A cada novo Sabbath que você quebra, a cada nova concupiscência que você dá vazão, Deus fica mais e mais irado com você.

(3) Não é porque você está com saúde que não haja meios disponíveis para a sua destruição ao seu redor. Deus poderia golpea-lo em uma hora. Aqui está a explicação: “Deus sabe como reservar os injustos”. Oh, utilize este dia de longanimidade, enquanto Jesus aguarda para salvá-lo, e Deus Se abstém de destruí-lo, oh, Senhor, ajude um verme!

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♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título Original: The Lord Knoweth How To Deliver
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida e Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Tirareis Água com Alegria – Robert Murray M’Cheyne

“E dirás naquele dia: Graças te dou, ó SENHOR, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolas. Eis que Deus é a minha salvação; nele confiarei, e não temerei, porque o SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico, e se tornou a minha salvação. E vós com alegria tirareis águas das fontes da salvação.” (Isaías 12:1-3)

Estas palavras primeiramente se aplicam ao antigo povo de Deus, os Judeus; mas elas não são menos aplicáveis a nós.

1. Observem o tempo falado: “Naquele dia”, o dia mencionado no capítulo anterior: “E há de ser que naquele dia o Senhor tornará a pôr a sua mão para adquirir outra vez o remanescente do seu povo, que for deixado, da Assíria, e do Egito, e de Patros, e da Etiópia, e de Elã, e de Sinar, e de Hamate, e das ilhas do mar. E levantará um estandarte entre as nações, e ajuntará os desterrados de Israel, e os dispersos de Judá congregará desde os quatro confins da terra” (versos 11 e 12). Isso acontece no dia em que Deus restaura os Judeus para a sua terra, e converte as suas almas.

2. Observem o que eles farão: “Graças te dou”. Eles, então, serão um povo de louvor. No presente, eles são um povo melancólico. Não há alegria no seu serviço, eles são como uma companhia de ossos secos; mas naquele dia as suas vozes serão elevadas em louvor a Deus.

3. Observem o fundamento disso: “Porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolas. Eis que Deus é a minha salvação; nele confiarei, e não temerei, porque o SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico, e se tornou a minha salvação. E vós com alegria tirareis águas das fontes da salvação”. O fundamento de sua alegria é que a ira de Deus se apartou deles, eles encontraram um Divino Salvador: “Eis que Deus é a minha salvação”. Eles encontraram um Divino santificador: “O SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico”. Ah! Este é o verdadeiro fundamento de alegria e louvor em todo o mundo.

4. Observem as consequências: “E vós com alegria tirareis águas das fontes da salvação”. (v. 3). As fontes da salvação parecem ser as ordenanças Divinas, a Palavra de Deus e os sacramentos. Os Judeus salvos agora encontrarão todas as suas fontes em Sião, eles serão alegres ouvintes da Palavra de Deus, eles serão alegres participantes na Ceia do Senhor. Com alegria eles tirarão água das fontes da salvação.

Doutrina. Almas salvas tiram água com alegria das fontes da salvação.

Muitos entre nós não encontram nenhuma alegria nas ordenanças. Alguns as desprezam por completo. Eles não veem nada nelas. Eles passam a manhã de Sabath em sua cama, a noite de Sabath nos prazeres da ociosidade. A maioria das pessoas nesta paróquia não tem alegria ao tirar água. Alguns vêm para a casa de Deus; mas, oh! É um cansaço, quando acabará? Se fosse um jogo de cartas, ou uma companhia alegre, vocês não estariam cansados; mas vocês não sabem o que é ter alegria ao retirar água. Multidões vêm à mesa do Senhor por um nome, por costume, por decência, ou para obter o batismo de seus filhos. Ai! Ai! Eles são estranhos ao tirar água com alegria. Algumas almas cansadas, ansiosas sobre sua eternidade vão de sermão a sermão, de sacramento a sacramento, buscando repouso, mas não encontrando nenhum. Eles vão para uma fonte, mas eles a encontram amarga, e a outra, mas ela está seca, vão a outra, mas ela é profunda, e eles não conseguem tirar. Estes estão sempre aprendendo, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade [2 Timóteo 3:7]. Eles nunca tiram água com alegria das fontes da salvação. Aqui está o erro: em todos e cada um destes, eles não vêm como almas salvas, eles não vêm a Cristo para fugir da ira de Deus. Somente almas salvas tiram água com alegria.

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I.
O estado do não-convertido: “Te iraste contra mim”. Toda alma redimida pode olhar para trás para um tempo em que elas estavam sob a ira de Deus. Deus está no presente, irado com cada alma não-convertida. Observem:

1. De quem é a ira: “Te iraste”. É a ira de Deus. Se todos os homens do mundo estivessem irados com uma alma, isto seria uma condição triste. Se cada homem que você conheceu estivesse cheio de raiva e fúria contra você, os ricos e os pobres, os reis e capitães, você pensaria de si mesmo estar em uma má situação. Se todos os animais selvagens da floresta, os leões, lobos e tigres, estivessem enfurecidos contra você, e você estivesse em seu poder, você estaria em um caso desesperado. Mas estes são apenas criaturas. Toda alma não-convertida dentre vós está sob a ira do Criador. Aquele que te criou está irado contigo.

2. Ele está sempre irado: “Deus está irado com o ímpio todos os dias” [Salmo 7]. Seja qual for o dia da semana, dia de semana ou dia de Sabath, Deus está irado com as almas não-convertidas. Seus pecados estão sempre diante dEle, e, portanto, Ele é continuamente provocado por eles. A fumaça de seus pecados está subindo continuamente às Suas narinas. Aquele que não crê no Filho, a ira de Deus sobre ele permanece [João 3:36]. Deus não somente está irado todos os dias, mas a cada momento do dia. Não há um momento da vida de um homem não-convertido em que a ira de Deus não permaneça sobre ele. Quando ele está no seu trabalho ou em seu jogo, dormindo ou acordado, na igreja ou no mercado, a espada da ira de Deus está sobre a sua cabeça. Almas não-convertidas andam e dormem sobre a superfície do inferno.

3. Esta ira é crescente. Homens não-convertidos estão entesourando ira para o dia da ira. Algumas pessoas não-convertidas pensam que limpam muitos de seus pecados ao vir à mesa do Senhor, ao passo que, se conhecessem a verdade, veriam que eles estão acumulando ira. A ira de Deus é como um rio represado. Ele está ficando cada vez mais alto, mais cheio e mais profundo, todos os dias contra cada alma que está fora de Cristo. A cada Sabath o seu cálice está ficando mais cheio; ele em breve estará completo.

4. A ira de Deus é insuportável. Homens não-convertidos, por vezes, dizem que se eles forem para o inferno, eles simplesmente o suportarão; mas este não pode ser suportado. Se vocês vissem uma aranha prestes a ser esmagada sob uma grande rocha, e quisesse engrandecer seu corpo a fim de suportar o choque, isso seria uma miserável tolice. Tal é a insensatez dos homens não-convertidos dizendo que eles suportarão a ira de Deus. Como vocês podem suportar a ira do seu Criador? Como vocês podem suportar o calcanhar da Onipotência? “Porventura estará firme o teu coração? Porventura estarão fortes as tuas mãos, nos dias em que eu tratarei contigo? Eu, o Senhor, o disse, e o farei” [Ezequiel 22:14].

Aprendam a partir disto a fugir da ira vindoura. Oh! Senhores, se vós apenas soubésseis qual é a vossa condição, subiriam e fugiriam. Eu declaro a vocês que às vezes penso de mim mesmo ser um infiel, por causa da maneira fria com que eu falo para as almas não-convertidas. Este é o estado de cada um de vocês que ainda não nascerão de novo. Embora amáveis e gentis, e irrepreensíveis aos olhos humanos; sejam quais forem as experiências que vocês atravessaram; embora vocês tenham participado das ordenanças e sido constantes em oração; ainda assim, se vocês não são convertidos, Deus está irado com vocês todos os dias.

Aprendam que as almas ansiosas deveriam estar dez mil vezes mais ansiosas do que são. Este é o dia da graça, este é o tempo da salvação. Deus tem infinita compaixão por você. Embora Sua ira contra você seja infinita, contudo a Sua compaixão também é infinita. Quanto mais Ele está irado com você, mais Ele tem piedade de você. Apesar de que a Sua justiça clama para que vingança, espada e arco venham sobre a sua alma; apesar de que por Suas exigências de santidade você deve ser lançado fora da Sua vista para a escuridão das trevas; ainda assim, a Sua compaixão clama: “Deixa-a este ano” [Lucas 13:8]. Ainda há espaço para você sob as asas de Cristo: “Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam” [Salmos 2:12].

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II.
O caminho da salvação: “A tua ira se retirou”. (1) Há abundante provisão para o perdão e a paz ao pecador; porque a ira de Deus se desviou caindo sobre a cabeça de Cristo. A única coisa que incomoda a consciência das almas despertas é a ira de Deus. É isso que as faz tremer, de noite e de dia, em público e em secreto. Uma alma despertada sente que ela tem quebrado a Lei de Deus, e está exposta a cada momento à Sua ira. Ela não consegue encontrar nenhum descanso em sua cama, nem paz em suas refeições, nenhuma alegria em seus amigos; os céus são sombrios sobre a sua cabeça, a terra está pronta a abrir e devorá-la. Se Deus é um Deus justo e santo, Ele derramará a Sua ira. Se Ele é um Deus verdadeiro, Ele cumprirá todas as Suas ameaças. Se essa alma tomasse a Cristo como seu fiador, ela encontraria paz abundante. A ira de Deus já teria se desviado dela para a cabeça de Cristo. Todas as nuvens da ira seriam dirigidas, como um bico de água, sobre aquela única Cabeça. Se você está desejando que Cristo seja o seu fiador, você não precisa ter medo. A Lei teve o seu curso, e Deus não exige uma segunda punição. Não há nenhuma razão para que você permaneça tremente, quando há um caminho tão glorioso de perdão. Cristo Se oferece como uma garantia para cada um de vocês; e se vocês O aceitarem, a Sua ira é passada, ela nunca cairá sobre você por toda a eternidade. (2). Isto ainda será mais evidente, se vocês considerarem que Cristo é uma Pessoa Divina: “Eis que Deus é a minha salvação”. Se os trêmulos pecadores apenas conhecessem a Pessoa que Se comprometeu a ser um Salvador, isso dissiparia todos os seus medos. Ele é o resplendor da glória de Deus, e a expressa imagem da Sua pessoa. Ele é o inigualável, incomparável Filho de Deus, que Se comprometeu a suportar [a ira de Deus] por nós. Ele é o criador do mundo, Aquele que vê o fim desde o começo. “Todas as coisas foram feitas por Ele” [João 1:3]. Ele fez o sol, a lua e as estrelas; Ele fez a terra firme; Ele sustenta todas as coisas pela palavra do Seu poder [Hebreus 1:3]. Vocês acham que Ele fracassaria em qualquer empreendimento? Vocês acham que, se Ele se compromete a ser um escudo para os pecadores, que Ele não será suficiente para protegê-los? Oh! Envergonhem-se de sua incredulidade, e venham para debaixo deste Escudo infinito. “Eis que Deus é a minha salvação”, “Eu confiarei e não temerei”. Venha, alma tremente, para debaixo desse Escudo Divino, e você encontrará a paz Divina. Venham ao abrigo desta Rocha, e vocês encontrarão descanso para as vossas almas cansadas. Não importa que pecados vocês tenham; se vierem para debaixo de Cristo, terão paz.

2. Santidade. “Tu me consolas”. “O SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico”. Quando uma alma vem, a princípio, a Cristo, ela não sabe que precisa de mais consolo; ela sente tanta alegria, ela pensa que nunca estará triste novamente. Logo, ela é levada a sentir suas necessidades. Ela sente inúmeros inimigos, no interior e exterior. Ela sente que seu que próprio coração é uma espécie de inferno em seu interior; corrupções cujas faces sombrias nunca viu antes, agora levantam a cabeça; o peito parece cheio de serpentes sibilantes. O homem estremece em si mesmo; ele se sente à beira de um precipício; o menor sopro de tentação, ele sente que o jogará para baixo. Desesperado por ajuda, ele olha acima; para Jesus à mão direita de Deus, capaz de salvar perfeitamente. Aprouve ao Pai que em Jesus habitasse toda a plenitude. Ele envia o Consolador, o Espírito Santo entra no coração da pessoa tremente e tentada. “NEle confiarei, e não temerei, porque o SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico”.

Ah! Vocês conhecem alguma coisa sobre este Consolador, sobre esta força, esta canção? Digam-me, em que vocês descansam para a santidade? Vocês descansam sobre os bons pensamentos sobre si mesmos? Ah! Isto é como Hazael: “Pois, que é teu servo, que não é mais do que um cão, para fazer tão grande coisa?” [2 Reis 8:13]. E ainda assim, ele era o próprio cão que ele tanto negou. “A altivez do espírito precede a queda” [Provérbios 16:18]. Vocês descansam em suas promessas ao homem, ou seus votos a Deus? Ah! isto é como Pedro: “Ainda que todos se escandalizem, nunca, porém, eu” [Marcos 14:29], e ainda assim, a sua promessa foi como um sopro. Não, nada menos do que o Senhor pode ser a força da sua alma, nada menos do que o Senhor Deus. Criaturas não podem preservar criaturas. A mão que sozinha guia as estrelas pode segurar os seus pés de cair. Ele é a sua força? Então, Ele é capaz de guarda-lo de cair. Mesmo que o mundo tivesse dez mil vezes mais tentações do que tem; mesmo que seu coração fosse dez mil vezes mais cheio de paixões; embora Satanás e seus anjos tivessem dez milhões mais força do que você; eles não poderiam derrubar a alma que se inclina sobre Jeová. Espere no Senhor, tenha bom ânimo, e Ele fortalecerá o seu coração. A mesma mão que sustenta o sol em sua jornada, sustenta a alma de Seu povo. Cante, então, discípulo fraco, trêmulo, tentado, cante em voz alta: “nele confiarei, e não temerei”.

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III.
Alegria nas ordenanças: “E vós com alegria tirareis águas das fontes da salvação” (v. 3). Quão modificadas são todas as fontes da salvação para um pobre pecador que veio a Cristo!

1. A Bíblia. Uma vez este era livro enfadonho, cansativo; você olhou para o final do capítulo quando o começou, para ver quando seria finalizado. Mas você veio a Cristo? Agora este livro é uma fonte de salvação, um poço de água viva.

2. Oração. Uma vez a oração foi totalmente negligenciada por você, ou uma forma fria em que você corria; agora como esta é uma doce fonte de deleite! Ah, Não há melhor teste para a alma do que o deleite em oração secreta, sem ser observado e visto pelo homem.

3. A casa de oração. Uma vez você a desprezava, ou veio para o espetáculo, para mostrar suas melhores roupas, ou ver os seus companheiros; agora você pode dizer: “Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor” [Salmos 122:1].

4. A Ceia do Senhor. Uma vez você sentou ali, um outro Judas, com coração de pedra e olhos secos; Agora você encontra ser verdadeiramente uma fonte de salvação. É uma promessa de que Cristo é seu. Quando você vê os elementos, o seu coração começa a queimar; quando você os toca, as suas ataduras são desatadas; quando você os saboreia, os seus olhos são iluminados; quando você os come, toda a sua alma é fortalecida. Tão certo como o pão e o vinho são seus, você sente que Cristo é seu. Oh! venham, então, com fé simples, pecadores que vieram a Cristo, e então vocês tirarão água com alegria desta fonte da salvação. Mas, ah! Você não tem nenhuma mudança salvífica em seu coração, nenhuma fé em Cristo; nenhuma união com Ele; nenhum Consolador? Ah! Então será um dia triste para você. Você sentará à mesa com a ira de Deus habitando sobre você; a fonte da salvação será uma fonte envenenada para você; o pão da vida será o pão da morte para você; o cálice da bênção será o cálice da maldição.

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♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título Original: Draw Water With Joy
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Cristo, Sua Ressurreição e a Nossa Regeneração – Arthur Walkington Pink

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós, que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo.” (1 Pedro 1:3-5:) 

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos”. Vamos começar este capítulo, continuando nossa consideração do reconhecimento desta oração. Deve nos lembrar que esta epístola é dirigida àqueles que são estrangeiros, dispersos (v. 1). Mui apropriada então é esta referência para a geração Divina dos eleitos de Deus, pois é pela geração graciosa do Espírito Santo que os eleitos são constituídos estrangeiros ou peregrinos (ou seja, residentes temporários deste mundo), tanto no coração quanto na conduta. O Senhor Jesus era um estranho aqui (Salmos 69:8), pois Ele era o Filho do Deus do céu; e assim também é o Seu povo, pois eles têm o Seu Espírito dentro deles. Como esse entendimento reforça este milagre da graça! A geração Divina não é apenas uma doutrina, mas a comunicação real para a alma da própria vida de Deus (João 1:13). Anteriormente, o Cristão esteve dentro e [era] do mundo, mas agora a sua “cidade [cidadania, Versão Americana Padrão – King James] está nos céus” (Filipenses 3:20, os parênteses são meus). “Eu sou um peregrino na terra” (Salmos 119:19) é doravante a sua confissão. Para a alma renovada por Deus, este mundo se torna um deserto estéril. Pois sua herança, a sua casa, está no alto e, portanto, ele agora vê as coisas as coisas temporais e naturais sob uma luz muito diferente.

Os Grandes Interesses da Alma Regenerada São Alheios a este Mundo

Os principais interesses de uma alma verdadeiramente nascida de novo não residem nesta esfera mundana. Suas afeições estarão estabelecidas nas coisas de acima; e na proporção em que elas são assim, seu coração é separado deste mundo. Sua estranheza é uma marca essencial que distingue os santos dos ímpios. Aqueles que cordialmente abraçam as promessas de Deus são devidamente afetados por elas (Hebreus 11:13). Um dos efeitos seguros da graça Divina na alma é separar o seu possuidor, tanto no espírito e na prática, do mundo. Seu prazer em coisas celestiais se manifesta em seu ser desapegado das coisas terrenais, assim como a mulher no poço deixou o balde para trás, quando ela obteve de Cristo, a água viva (João 4:28). Tal espírito o constitui um estrangeiro entre os adoradores de Mamom. Ele é moralmente um estrangeiro em uma terra estranha, cercado por aqueles que não o conhecem (1 João 3:1), porque não conhecem seu Pai. Eles também não entendem as suas alegrias ou tristezas, não valorizam os princípios e motivos que o mobilizam; pois as atividades e prazeres deles são radicalmente diferentes das suas. Não, ele se vê no meio de inimigos que o odeiam (João 15:19), e não há ninguém com quem ele tenha comunhão salvo com os poucos que “obtiveram fé igualmente preciosa” (2 Pedro 1:1).

Entretanto, apesar de não haver nada neste deserto mundano para o Cristão, ele tem sido “gerado de novo para uma viva esperança”. Anteriormente ele via a morte com horror, mas agora ele percebe que ela fornecerá uma bendita libertação de todo pecado e tristeza e abrirá a porta para o Paraíso. O princípio da graça recebido no novo nascimento não apenas inclina seu possuidor a amar a Deus e agir com fé em Sua Palavra, mas também o conduz a: “não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem” (2 Coríntios 4:18), inclinando suas aspirações para longe do presente em direção ao seu futuro glorioso. Thomas Manton apropriadamente declara: “A nova natureza foi feita para um outro mundo: ela veio de lá, e isso conduz a alma para lá”. A esperança é uma expectativa certa de bom futuro. Enquanto a fé está em exercício, uma visão de felicidade sem nuvens é estabelecida diante do coração, e a esperança entra no gozo da mesma. Há uma viva esperança exercida dentro de um ambiente moribundo, e ela tanto apoia quanto revigora a todos nós que cremos. Enquanto em atividade saudável, a esperança não somente nos sustenta em meio às provações desta vida, mas também nos eleva acima delas. Oh, que os corações fossem mais engajados nas antecipações alegres do futuro! Pois tais corações esperançosos nos vivificam ao dever e nos estimulam à perseverança. Em proporção ao entendimento e força da nossa esperança, nós seremos libertos do medo da morte.

A União com Cristo em Sua Ressurreição é a Causa da Nossa Regeneração

Agora, mais uma palavra deve ser dita sobre a relação que a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos lança o fundamento para a nossa geração, pelo Pai, para esta viva esperança. A obra de Cristo, horando a Deus e a triunfante saída do túmulo foram a base legal não somente da justificação de Seu povo, mas também da regeneração deles. Misticamente, em virtude de sua união com Cristo na mente e no propósito de Deus, eles foram libertos de sua morte, nas mãos da Lei, quando o Fiador ressuscitou dos mortos. “Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele…” (Efésios 2:4-6). Essas palavras se referem à união corporativa da Igreja com sua Cabeça e sua participação judicial em Sua vitória, e não a uma experiência individual. No entanto, uma vez que todos os eleitos ressuscitaram federalmente quando o seu representante ressuscitou, eles devem, no devido tempo, ser regenerados; uma vez que eles foram vivificados legalmente, eles devem, no devido tempo, ser vivificados espiritualmente. Se Cristo não tivesse ressuscitado, ninguém teria sido vivificado (1 Coríntios 15:17); mas porque Ele vive, eles também viverão.

Jesus vive, e assim eu viverei.
Morte! teu aguilhão se foi para sempre!

Ele que Se dignou morrer por mim,
Vive, para romper as cadeias da morte.
Ele [ressuscitou-me] do pó:
Jesus é a minha Esperança e Confiança.

A Vida que Está na Cabeça Deve ser Comunicada aos Membros do Seu Corpo

A ressurreição de Cristo é a causa eficaz da nossa regeneração. O Espírito Santo não teria sido dado a menos que Cristo houvesse conquistado o último inimigo (1 Coríntios 15:26). E ido para o Pai: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós… Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito” (Gálatas 3:13-14). As Questões da regeneração estão tão verdadeiramente relacionadas com a ressurreição de Cristo, quanto as da nossa justificação, a qual é o resultado daquela fé salvadora em Cristo que só pode emanar a partir de um coração renovado pelo Espírito Santo. Ele obteve para o Seu povo o bendito Espírito para criá-los para a graça e glória. “Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo, que abundantemente ele derramou sobre nós por Jesus Cristo nosso Salvador” (Tito 3:5-6). Deus, o Pai derramou o Espírito Santo sobre nós em poder regenerador por causa dos méritos da vida, morte e ressurreição de Cristo, e em resposta à Sua mediação em nosso nome. O Espírito Santo está aqui para testemunhar de Cristo aos eleitos de Deus, para operar a fé neles em direção a Ele, a fim de que eles “abundem em esperança” (Romanos 15:12-13). Nossa libertação espiritual da sepultura da culpa, poder e contaminação do pecado é tanto devido à eficácia do triunfo de Cristo sobre a morte, quanto será a nossa vivificação física no Seu retorno. Ele é “o primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8:29), sendo a própria vida de Cristo transmitida a eles quando são novamente gerados.

O Poder que Ressuscitou Cristo Fisicamente, Ressuscita Pecadores Espiritualmente

A ressurreição de Cristo é também o protótipo dinâmico de nossa regeneração. O mesmo poder operado ao ressuscitar o corpo de Cristo é empregado no resgate de nossas almas da morte espiritual (Efésios 1:19-20; 2:1). O Senhor Jesus é designado “o primogênito dentre os mortos” (Apocalipse 1:5) porque Sua emersão da sepultura não foi apenas o penhor, mas a semelhança, tanto da regeneração dos espíritos de Seu povo quanto da criação de seus corpos no último dia. A semelhança é óbvia. A geração é o começo de uma nova vida. Quando Cristo nasceu neste mundo isso foi “em semelhança da carne do pecado” (Romanos 8:3). Embora intocado pela mancha do pecado original (Lucas 1:35) e sem mácula pela contaminação das transgressões reais, Ele estava vestido de enfermidade por causa da iniquidade imputada. Mas quando Ele se ergueu do túmulo de José, em poder e glória, isso foi em um corpo apropriado para o céu. Da mesma forma, na regeneração, recebemos uma natureza que nos faz adequados ao céu. Como Deus ressuscitando a Cristo, testemunhou o Seu ser pacificado pelo sacrifício dEle (Hebreus 13:20), assim, gerando-nos outra vez Ele nos garante nosso interesse pessoal nisso. Como a ressurreição de Cristo foi a grande prova de Sua filiação Divina (Romanos 1:4), assim, o novo nascimento é a primeira manifestação aberta de nossa adoção. Como a ressurreição de Cristo foi o primeiro passo para a Sua glória e exaltação, assim, a regeneração é a primeira etapa de nossa entrada em todos os privilégios espirituais.

A Glorificação é o Objetivo da Regeneração

Nossa sétima consideração na análise desta doxologia é a sua substância: “Para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós” (v. 4). A regeneração tem como objetivo a glorificação. Nós somos gerados espiritualmente para duas realidades: uma viva esperança no presente, e uma gloriosa herança no futuro. É pela geração de Deus que nós obtemos nosso título à glorificação. O direto a heranças vem por meio do nascimento: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus” (João 3:5). Se não [somos] filhos, então não podemos ser herdeiros; e temos que ser nascidos de Deus, a fim de nos tornarmos filhos de Deus. Mas “se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo” (Romanos 8:17). A geração não apenas confere o título, mas também garante a herança. O Cristão já recebeu o Espírito, “o qual é o penhor da nossa herança” (Efésios 1:14). Como a parte de Cristo era adquirir a herança, assim a parte do Espírito é torná-la conhecida para os herdeiros; pois, “as coisas que Deus preparou para os que o amam” Ele “no-las revelou pelo seu Espírito” (1 Coríntios. 2:9-10). É a esfera de ação do Espírito Santo a concessão de doces antecipações aos regenerados do que está guardado para eles, traz algo da alegria celestial para o interior de suas almas na terra.

O Novo Nascimento Nos Adequa Imediatamente para o Céu

A geração Divina não somente concede o título e garante a herança celestial, mas também concede uma adequação à mesma. No novo nascimento uma natureza que é adequado para a esfera celestial é concedida, o que qualifica a alma para habitar para sempre com o Deus três vezes santo (como é evidente, a sua comunhão com Ele presente); e, ao fim de sua peregrinação terrena, o pecado que habita interiormente (que agora dificulta a sua comunhão) morre com o corpo. Tudo é muito pouco percebido pelos santos na regeneração, a saber, que eles são imediatamente capacitados para o céu. Muitos deles, para a grave diminuição de sua paz e alegria, supõem que eles ainda devem passar por um processo de disciplina severa e refino antes que eles estejam prontos para entrar nas cortes acima. Isso é apenas mais uma relíquia do Romanismo. O caso do ladrão moribundo, que foi levado imediatamente a partir de seu nascimento espiritual ao Paraíso, deve ensiná-los melhor. Mas isso não ensina. Assim, permanece a tendência legalista do coração, mesmo de um Cristão, de forma que é muito difícil convencê-lo de que na mesma hora que ele nasceu de novo, ele foi habilitado para o céu, como ele sempre seria caso permanecesse na terra mais um século. Como é difícil para nós acreditarmos que nenhum crescimento na graça ou passar por tribulações ardentes é essencial para preparar as nossas almas para a casa do Pai.

Em nenhum lugar as Escrituras dizem que os crentes vão sendo preparados, ou gradualmente capacitados para o céu. O Espírito Santo declara expressamente que Deus Pai “segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo… para uma herança”. O que poderia ser mais claro? Nosso texto, por qualquer meio, sustenta-se sozinho. Os Cristãos já foram feitos “participantes da natureza divina” (2 Pedro 1:4), e o que mais pode ser necessário para prepará-los para a presença Divina? A Escritura declara enfaticamente: “Assim que já não és mais servo [escravo], mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo” (Gálatas 4:7 – os colchetes são meus). A herança é um direito inato ou patrimônio do filho. Falar de herdeiros não sendo elegíveis para uma herança é uma contradição de termos. A nossa aptidão para a herança se baseia somente em sermos filhos de Deus. Assim como é verdade que se alguém não nascer de novo não pode entrar ou ver o reino de Deus, assim, por outro lado, segue-se, necessariamente, que uma vez que ele nasceu de novo ele está qualificado para uma entrada e gozo do reino de Deus. Todo espaço para discussão sobre esse ponto é excluído por estas palavras, que expressam um aspecto das orações de Paulo de agradecimento em nome do Colossenses: “Dando graças ao Pai que nos fez [tempo passado] idôneos para participar da herança dos santos na luz” (Colossenses 1:12 – os colchetes são meus).

Pela Regeneração Nós somos Casados com Cristo

Pela regeneração somos feitos vitalmente um com Cristo e, assim, nos tornamos co-herdeiros com Ele. A porção da Noiva é a sua participação na porção do Noivo. “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste” (João 17:22), diz o Redentor dos Seus remidos. Isto, também, precisa ser enfatizado hoje, quando tanto erro ostenta-se como a verdade. Em suas tentativas fantasiosas de “manejar bem a Palavra”, os homens erroneamente dividiram a família de Deus. Alguns dispensacionalistas sustentam que não somente existe uma distinção de privilégios terrenos, mas que as mesmas distinções serão perpetuadas no mundo vindouro; que os crentes do Novo Testamento olharão para baixo a partir de uma posição superior, a Abraão, Isaque e Jacó; que os santos que viveram e morreram antes de Pentecostes não participarão da glória da Igreja ou entrarão na herança “guardada no céu para vós”. Afirmar que os santos desta era Cristã ocuparão uma posição mais elevada e desfrutarão de privilégios grandiosos, do que irão os de épocas anteriores é um erro grave e imperdoável, pois entra em conflito com os ensinamentos mais fundamentais da Escritura sobre o propósito do Pai, a redenção de Cristo, e a obra do Espírito, e repudia as características essenciais da grande salvação de Deus. Escrevendo às igrejas da Galácia, em grande parte composta de Gentios, o apóstolo Paulo declara: “Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão” (Gálatas 3:7). Este texto por si só é suficiente para provar que o caminho da salvação de Deus nunca mudou essencialmente.

Todos os eleitos de Deus são os compartilhadores comuns das riquezas de Sua graça maravilhosa, vasos que Ele “de antemão preparou para a glória” (Romanos 9:23), a quem Ele predestinou para serem “conformes à imagem de seu Filho” (Romanos 8:29). Cristo agiu como o Fiador de toda a eleição da graça, e o que Sua obra meritória garantiu para um deles, necessariamente garantiu para todos. Os santos de todas as épocas são co-herdeiros. Cada um deles foi predestinado pelo mesmo Pai (João 6:37; 10:16, 27-30; 17:2, 9-12, 20-24); cada um deles foi regenerado pelo mesmo Espírito (Efésios 4:4), cada um deles olhou para e confiou no mesmo Salvador. A Escritura não conhece a salvação que não concerne aos coerdeiros com Cristo. Aqueles a quem Deus dá o Seu Filho, ou seja, toda companhia de Seus escolhidos desde Abel até o fim da história da Terra, Ele também dá livremente todas as coisas (Romanos 8:32). Que tanto Abraão e Davi foram justificados pela fé é evidente a partir de Romanos 4, e não há destino mais elevado ou perspectiva mais gloriosa do que a perspectiva do que aquela à qual a justificação concede título pleno. A obra regeneradora do Espírito Santo é idêntica em todos os membros da família de Deus: gerando-os, qualificando-os para uma herança celestial. Todos aqueles que foram eficazmente chamados por Ele durante a era do Antigo Testamento receberam “a promessa da herança eterna” (Hebreus 9:15). Filhos nascidos do céu devem ter uma porção celestial.

A Natureza de Nossa Herança Eterna

“Para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós”. A porção celestial reservada para o povo de Deus é aquela que está de acordo com a nova vida recebida na regeneração, pois é um estado de perfeita santidade e felicidade adequado para seres espirituais que possuem corpos materiais. Muitas e variadas são as descrições dadas na Escritura sobre a natureza de nossa herança. Em nosso texto (v. 5), é descrito como “a salvação, já prestes para se revelar no último tempo” (cf. Hebreus 9:28), isto é, a salvação em sua plenitude e perfeição que deve ser concedida ao redimido no retorno glorioso de Cristo. Nosso Senhor Jesus a descreve como “casa de meu Pai”, em que “há muitas moradas”, a qual o próprio Cristo prepara agora para o Seu povo (João 14:1-2). O apóstolo Paulo se refere a isso como “a herança dos santos na luz” (Colossenses 1:12). E aos futuros habitantes daquele reino glorioso como “filhos da luz” (1 Tessalonicenses 5:5). Sem dúvida, essas expressões apontam para a perfeição moral dEle à luz resplandecente em cuja presença (Isaías 33:13; 1 Timóteo 6:13-16; Hebreus 12:29, 1 João 1:5) todos os santos habitarão um dia. Além disso, elas ressaltam a pureza imaculada que caracterizará cada um daqueles que devem “habitar na casa do Senhor para sempre” (Salmos 23:6; cf. Daniel 12:3; Apocalipse 21:27). Paulo descreve-a além, como “a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus” (Hebreus 11:10), na qual os olhos esperançosos do crente de Abraão estavam fixados. Ele também a chama de “um reino que não pode ser abalado” ou “estremecido” (Hebreus 12:26-28; cf. Apocalipse 21:10-27).

O apóstolo Pedro refere-se aos Cristãos como aqueles a quem Deus “em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória” (1 Pedro 5:10). Em outro lugar, ele chama a nossa herança “reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pedro 1:11). O Senhor Jesus orou: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste” (João 17:24). O Cristo glorificado, em Sua revelação ao apóstolo João, descreve a herança dos santos como “paraíso de Deus” (Apocalipse 2:7), a partir do qual pode-se inferir que o Éden era apenas uma sombra. Olhando adiante para este paraíso, Davi declara: “Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente” (Salmos 16:11).

O Significado do Termo Herança

Em seu comentário sobre 1 Pedro, John Brown faz as seguintes e pertinentes observações sobre a importância do uso do termo herança:

A bem-aventurança celestial recebe aqui, e em muitas outras passagens da Escritura, a denominação de “herança”, por duas razões: para assinalar a sua natureza gratuita, e para enfatizar a sua posse segura.

Uma herança é algo que não é obtido pelos próprios esforços do indivíduo, antes é o dom gratuito ou legado de outro. A herança terrena do povo visível de Deus não foi dada a eles, porque eles eram mais ou melhores do que as outras nações da terra. Foi por que: “Tão-somente o Senhor se agradou de teus pais para os amar” (Deuteronômio 10:15). “Pois não conquistaram a terra pela sua espada, nem o seu braço os salvou, mas a tua destra e o teu braço, e a luz da tua face, porquanto te agradaste deles” (Salmos 44:3). E a herança celestial do espiritual povo de Deus é totalmente o dom da bondade soberana. “Porque pela graça sois salvos” (Efésios 2:5); “o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 6:23).

A segunda ideia sugerida pela expressão figurativa, “a herança”, quando usada em referência à bem-aventurança celestial, é a segurança da posse pelo que ela é realizada. Nenhum direito é mais inalienável do que o direito de herança. Se o direito do doador ou testador estiver correto, tudo está seguro. A felicidade celestial, deve ser vista como o dom do Divino Pai, ou como o legado do Divino Filho, pois é “firme a toda a posteridade” [Romanos 4:16]. Se o título do requerente for apenas tão válido quanto o direito do titular original, sua posse deve ser tão segura como o trono de Deus e de Seu Filho.

A Excelência da Nossa Herança

A excelência desta herança ou eterna porção dos redimidos é descrita por quatro expressões. Primeiro, é incorruptível, e portanto é como o seu autor “o Deus incorruptível” (Romanos 1:23). Toda corrupção é uma mudança de melhor para pior, mas o céu é sem mudança ou fim. Daí, a palavra incorruptível tem a força de resistente, imperecível. Nem isso corromperá os seus herdeiros, como muitas heranças mundanas têm feito. Em segundo lugar, é incontaminável, e, assim como o seu Comprador, que passou por este mundo depravado tão incontaminado como um raio de sol é imaculado embora brilhe sobre um objeto imundo (Hebreus 7:26). Toda contaminação se dá pelo pecado, mas nenhum germe da corrupção jamais pode entrar no céu. Daí, incontaminável tem a força de beneficente, incapaz de danificar seus possuidores. Em terceiro lugar, não se pode murchar, e, portanto, é como Aquele que nos conduz até lá, “pelo Espírito eterno” (Hebreus 9:14), o Espírito Santo, “o rio puro da água da vida” (Apocalipse 22:1). A palavra incontaminável nos fala deste Rio de perene e perpétuo refrigério; seu esplendor nunca será prejudicado, nem a sua beleza diminuída. Em quarto lugar, a frase guardada nos céus fala da localização e segurança da nossa herança (veja Colossenses 1:5; 2 Timóteo 4:18).

Ao considerarmos as quatro expressões descritivas no versículo 4, várias características da nossa herança são exibidas. Para começar, a nossa herança é indestrutível. Sua substância é totalmente contrária a dos reinos terrenos, cuja grandeza se desgasta. Os impérios mais poderosos da Terra, eventualmente se dissipam em razão da corrupção inerente. Considere a pureza da nossa porção. Nenhuma serpente jamais entrará neste paraíso para o profanar. Contemple a sua beleza imutável. Nem ferrugem deve manchá-la nem a traça estragá-la, nem a eternidade produzirá uma ruga no rosto de qualquer um dos seus habitantes. Pondere a sua segurança: É guardada por Cristo para os Seus remidos; nenhum ladrão jamais a invadirá.

Parece-me que estas quatro expressões são designadas para levar-nos a fazer uma série de contrastes com a herança gloriosa que nos espera. Primeiro, considere a herança de Adão. Quão breve o Éden foi corrompido! Em segundo lugar, pense sobre a herança que “o Altíssimo distribuía… às nações” (Deuteronômio 32:8) e como elas a contaminaram com a ganância e o derramamento de sangue. Em terceiro lugar, contemplem a herança de Israel. Como, infelizmente, a terra que mana leite e mel murchou sob as secas e fomes que o Senhor enviou, a fim de castigar a nação por seus pecados. Em quarto lugar, reflitamos sobre a habitação gloriosa que foi perdida pelos anjos caídos, que “não guardaram o seu principado” (Judas 6). Estes, miseráveis espíritos ignorantes não têm nenhum gracioso Sumo Sacerdote para interceder por eles, antes estão reservados “na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia”. Conheça a nossa própria corrupção remanescente, bem poderíamos tremer e pedir com piedosa auto-desconfiança (veja Mateus 26:20-22): “O que nos impedirá de tal desgraça?”.

A Garantia de que Nós Receberemos a Nossa Herança

Chegamos, finalmente, a refletir sobre a garantia infalível desta doxologia, que graciosamente responde à pergunta dos santos trêmulos, exatamente considerando: “Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo” (1 Pedro 5:1). Aqui está o tônico para o Cristão enfraquecido! Não apenas a herança inestimavelmente gloriosa e preciosa é segura, “reservada no céu” para nós, mas nós também estamos seguros, “guardados na virtude de Deus”. Aqui a doutrina do Apóstolo Pedro coincide perfeitamente com o do Senhor Jesus e dos outros apóstolos. Nosso Senhor ensinou que aqueles nascidos ou gerados de Deus creem no Seu Filho (João 1:11-13; 3:3-5), e que aqueles que creem têm a vida eterna (João 3:15-16). “Aquele que crê no Filho tem [possui presente e continuamente] a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece” (João 3:36 – os colchetes são meus). Ele ainda ensinou que aqueles que não creem, não acreditam porque eles não são Suas ovelhas (João 10:26). Mas, depois, Ele continua:

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai. Eu e o Pai somos um” (João 10:27-30).

O Apóstolo Paulo Declara Também o Fato de que Nenhum dos Irmãos de Cristo Jamais Perecerá

“Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? [...] Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 8:35, 37-39).

No entanto, a questão a ser respondida permanece: “Qual é o principal meio que o poder de Deus exerce em preservar-nos, a fim de que possamos entrar e desfrutar de nossa herança?”.

A Fé é o Meio de Nossa Preservação

“Que mediante a fé estais guardados”. As reflexões de John Brown sobre este ponto são de grande valor:

Eles são “guardados”, preservados seguros, em meio a muitos perigos a que estão expostos, “na virtude de Deus”. A expressão “virtude de Deus”, aqui pode referir-se ao poder Divino tanto como exercido em referência aos inimigos do Cristão, controlando os seus propósitos malignos e, como exercido na forma de influência espiritual na mente do próprio Cristão, guardando-os na fé da verdade, “no amor de Deus e na paciência de [nosso Senhor Jesus] Cristo” [2 Tessalonicenses. 3:5; cf. 2 Timóteo 1:13-14]. É, provavelmente, a última a que o apóstolo alude principalmente, pois ele acrescenta: “mediante a fé”. É através da perseverante fé na verdade que o Cristão é, por influência Divina, preservado de cair, e mantém a posse tanto daquele estado e caráter que são absolutamente necessários para o gozo da herança celestial.

A perseverança, assim assegurada ao verdadeiro Cristão é a perseverança na fé e santidade; e nada pode ser mais grosseiramente absurdo do que uma pessoa que vive na incredulidade e no pecado, supor que ela esteja no caminho para a obtenção da bem-aventurança celestial.

Embora Deus Nos Guarde, Nós Devemos Crer

Pelo poder onipotente do Deus Triuno, nós somos guardados “para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo”. Mas o mesmo Espírito gracioso que nos guarda também inspirou Judas a escrever, “Conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna” (Judas 21). Por meio dEle, o apóstolo Paulo também escreveu: “Revesti-vos de toda a armadura de Deus…Tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno” (Efésios 6:11,16). Portanto deveríamos frequentemente clamar ao Senhor com os apóstolos: “Acrescenta-nos a fé” (Lucas 17:5). Se o nosso clamor é genuíno, então podemos estar certos de que Jesus, que é “o autor e consumador da nossa fé” (Hebreus 12:2) ouvirá e responderá em uma forma mui adequada para a nossa necessidade, embora, talvez, por meio da adversidade.

A referência do apóstolo à herança celestial dos crentes foi adequadíssima. Ele estava escrevendo para aqueles que estavam, tanto natural como espiritualmente, longe de sua terra natal, os estrangeiros em um país estranho. Muitos deles eram Judeus convertidos, e como tais, ferozmente confrontados e cruelmente tratados. Quando um Judeu se tornava um Cristão, ele perdia muito: ele era excomungado da sinagoga, tornando-se um pária em meio ao seu próprio povo. No entanto, havia uma rica compensação para ele. Ele fora Divinamente gerado para uma herança infinitamente superior, tanto em qualidade e duração, do que a terra da Palestina. Assim, os seus ganhos muito mais do que compensavam as suas perdas (veja Mateus 19:23-29, especialmente v. 29). O Espírito Santo, então, desde o início da Epístola, atraiu os corações daqueles santos sofredores a Deus, por estabelecer perante eles a Sua grande misericórdia e abundantes riquezas da Sua graça. Quanto mais eles estivessem ocupados com as mesmas, mais as suas mentes seriam levantadas acima deste cenário, e seus corações seriam cheios de louvor a Deus. Enquanto poucos de nós estão vivenciando qualquer tipo de tribulações semelhantes às deles, ainda assim, a nossa porção está lançada em dias de trevas, e cabe-nos olhar além das coisas que são vistas e mais e mais fixar a nossa atenção sobre a futura bem-aventurança que nos espera. Posto que Deus designou a forma pela qual devemos glorificá-lO em adoração sincera, e apegar-nos às suas promessas por meio da “obediência da fé” (Romanos 16:26) até o fim!

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♦ Este texto é formado pelo Capítulo 6 do Livro A Guide to Fervent Prayer, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: A Guide to Fervent Prayer

♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


A Natureza e a Necessidade da Nova Criatura – John Flavel

“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17)

Você já viu um processo de um interesse em Cristo, em nosso último discurso, ou seja, pela doação do Espírito. Temos aqui outro assunto da mesma matéria, de um dos maiores e mais nobres efeitos do Espírito sobre nossas almas; ou seja, sua obra de regeneração ou nova criação: “Se alguém está em Cristo, nova criatura é”. Âmbito do apóstolo no contexto imediato é dissuadir os Cristãos de uma parcialidade carnal e pecaminosa em seus aspectos para com os homens: Não despreze-os, segundo a maneira do mundo, de acordo com as diferenças externas, mas o valor real interno e excelência que está nos homens. Isto o apóstolo pressiona por dois argumentos; um tirado da finalidade da morte de Cristo, versículo 15, que era para retirar aqueles planos egoístas e fins carnais pelos quais o mundo inteiro está seduzido. Segundo lugar, a partir do novo espírito, pelo qual os crentes são impulsionados: os que estão em Cristo devem julgar e medir todas as coisas por uma nova regra: “se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram”. Outrora nós possuíamos aquele espírito baixo, egoísta do mundo que era totalmente governado pelo interesse carnal; devemos agora julgar por uma nova regra, para sermos impulsionados a partir de um novo princípio, visar a um novo e mais nobre fim; “Eis que tudo se fez novo”. Com estas palavras, temos três partes gerais, a serem consideradas distintamente, a saber:

1. A grande questão a ser determinada, “Se alguém está em Cristo”.

2. A regra através da qual isso pode ser determinado, ou seja, “Ele é uma nova criatura”.

3. Esta regra geral, mais particularmente explicada: “As coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”.

Primeiro, temos aqui a grande questão a ser determinada: Está um homem em Cristo? Uma questão em cuja determinação devemos ficar em pé ou cair para sempre. Por [estar em Cristo], o apóstolo não se refere aqui à profissão geral do Cristianismo, o que dá ao homem a reputação de um interesse nEle; mas por estar em Cristo, significa um interesse por Ele, pela união vital com a Sua Pessoa, e uma participação real em Seus benefícios. Agora, esta é a questão a ser determinada, a questão a ser julgada; de que, nada pode ser mais solene e importante no mundo todo.

Em segundo lugar, a regra pela qual esta grande questão pode ser determinada, ou seja, a nova criação; “Se alguém está em Cristo, nova criatura é”. Por esta regra todos os títulos e reivindicações feitas a Cristo no mundo dos que professam, devem ser examinados. [Se alguém] seja ele o que quiser, alto ou baixo, grande ou pequeno, letrado ou analfabeto, jovem ou velho, se ele intenciona interesse em Cristo, este é o padrão pelo qual ele deve ser julgado: se ele está em Cristo, ele é uma nova criatura; e se ele não é uma nova criatura, ele não está em Cristo, que seus dotes, dons, confiança e reputação sejam o que forem: [Uma nova criatura] não é nova fisicamente, ele é a mesma pessoa que era; mas uma nova criatura, isto é, uma criatura renovada por princípios graciosos, recém-infundidos nele a partir do alto, o que lhe impulsionará e o guiará de outra maneira, e para outro fim que nunca atuou antes; e estes princípios graciosos não sendo induzidos a partir de qualquer coisa que era pré-existente no homem, mas recém infundidos do alto, por isso são chamados, neste lugar, uma nova criatura: Esta é a regra pela qual a nossa confissão de Cristo deve ser determinada.

Em terceiro lugar, esta regra geral é aqui mais particularmente explicada; “As coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”. Ele não se satisfaz em estabelecer esta regra de forma concisa, ou expressá-la em termos gerais, dizendo-nos que o homem em Cristo deve ser uma nova criatura; todavia, mais particularmente, ele nos mostra o que esta nova criatura é, e quais são as suas partes, ou seja, ambas:

1. A parte negativa; “As coisas velhas já passaram”.

2. A parte positiva; “Todas as coisas se fizeram novas”.

Por coisas velhas, Ele quer dizer todos aqueles princípios carnais, fins egoístas e concupiscências carnais que pertencem ao estado carnal, ou o velho homem. Todas esses já passaram; “Não simples e perfeitamente, mas apenas em parte no presente, e totalmente em esperança e expectativa no futuro”. Mui brevemente sobre a parte privativa da nova criatura, “as coisas velhas já passaram”. Uma ou duas palavras devem ser ditas sobre a parte positiva; “Todas as coisas se tornaram novas. Ele não quer dizer que as antigas faculdades da alma são abolidas, e novas criadas em seu lugar; mas como os nossos corpos podem ser chamados de novos corpos, em razão de seus novos dotes e qualidades induzidos de forma excelente, e concedidos a eles em sua ressurreição, assim as nossas almas são agora renovadas pela infusão de novos princípios de graça nelas, na obra da regeneração. Estas duas partes, a saber, a parte negativa, as coisas velhas que se passaram; e a parte positiva, a renovação de todas as coisas, no meio deles, compreende toda a natureza da santificação, o que, em outras partes da Escrituras, é expressa por frases equivalentes; às vezes, despojar-se do velho homem e revestir-se do novo homem (Efésios 4:24). Às vezes, morrer para o pecado e viver para a justiça (Romanos 6:11). Que é a mesma coisa que o apóstolo aqui pretende, pelo passar das coisas velhas e o fazer novas todas as coisas. E porque este é o trabalho mais excelente, glorioso e admirável do Espírito, que é, ou pode ser feito no homem neste mundo; portanto, o apóstolo afirma isso com uma perspectiva, uma nota de observação especial: “Eis que tudo se fez novo”; diariamente contemple e admire esta maravilhosa mudança surpreendente que Deus fez nos homens; eles estão vindo das trevas para a Sua maravilhosa luz (1 Pedro. 2: 9). Fora do velho, por assim dizer, para um mundo novo; “Eis que tudo se fez novo”. Assim, observe,

Doutrina: Que a criação por Deus de uma obra sobrenatural da graça na alma de qualquer homem, é a certa e infalível prova de um interesse salvífico em Jesus Cristo.

Adequadas são as palavras do apóstolo, Efésios 4:20-24: “Mas vós não aprendestes assim a Cristo, Se é que o tendes ouvido, e nele fostes ensinados, como está a verdade em Jesus; Que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano; E vos renoveis no espírito da vossa mente; E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade”. Onde temos, em outras palavras de mesma importância, a mesmíssima descrição do homem que está em Cristo, que o apóstolo nos dá neste texto. Agora, para a introdução e estabelecimento deste ponto, será necessário que eu vos diga,

1. Por que a obra regeneradora do Espírito é chamada de uma nova criação.

2. Em que respeito cada alma que está em Cristo é renovada, ou feita uma nova criatura.

3. Quais são as propriedades e qualidades notáveis desta nova criatura.

4. A necessidade desta nova criação para todos os que estão em Cristo.

5. Como esta nova criação evidencia o nosso interesse em Cristo.

6. E, em seguida, aplico a totalidade nos seus usos adequados. [Este ponto 6 é a segunda parte deste sermão, ou seja, ele sozinho constituí um segundo sermão de aplicação, e não consta no presente texto - N. do R.]

Primeiro, porque a obra regeneradora do Espírito é chamada de uma nova criação. Esta deve ser a nossa primeira pergunta. E, sem dúvida, a razão desta denominação é a analogia, proporção e semelhança que se encontra em meio a obra da regeneração e a obra de Deus na primeira criação. E o seu acordo e proporção serão encontrados nas seguintes indicações.

Em primeiro lugar, o mesmo Autor todo-poderoso que criou o mundo, criou também essa obra da graça na alma do homem, 2 Coríntios 4:6: “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo”. A mesma palavra poderosa que criou a luz natural criou também a espiritual. É igualmente absurdo para qualquer homem dizer: “eu me faço arrepender, ou crer”, como é dizer, “eu me fiz existir e ser”.

Em segundo lugar, a primeira coisa que Deus criou no mundo natural, foi luz (Gênesis 1:3). E a primeira coisa que Deus criou na nova criação, é a luz do conhecimento espiritual, Colossenses 3:10: “E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou”.

Em terceiro lugar. A criação é a partir do nada; não requer nenhuma matéria pré-existente; ela não traz uma coisa de outra, mas algo a partir do nada; dá uma existência ao que antes não existia: Assim é também na nova criação, 1 Pedro 2:9-10: “vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia”. A obra da graça não é induzida a partir do poder e princípios da natureza, mas é uma pura obra da criação. Os filósofos pagãos não podiam nem compreender, nem reconhecer a criação do mundo, porque essa noção era repugnante a esta máxima da razão, en nihilo nihil fit, a partir do nada, nada pode ser feito. Assim eles insanire cum ratione, enganaram-se com seus próprios raciocínios; e da mesma maneira alguns grandes pretendentes à razão entre nós, apontando que seja um absurdo afirmar, que a obra da graça não seja virtual e potencialmente contida na natureza, a nova criação na antiga.

Em quarto lugar, foi a virtude e eficácia do Espírito de Deus, que deu ao mundo natural a sua existência pela criação; Gênesis 1:2 diz que O Espírito de Deus se movia sobre a face das águas; pairava sobre o caos, como as asas de um pássaro faz sobre seus ovos, como a mesma palavra é proferida (Deuteronômio 32:11). Move-se, como que por incubação, aquela massa bruta por uma secreta influência vivificante, pelo qual Ele chamou todas as criaturas em suas diversas formas, e em particulares naturezas: Assim é a nova criação; uma influência vivificante deve vir do Espírito de Deus, ou então a nova criação nunca pode ser formada em nós; João 3: 8: “Assim é todo aquele que é nascido do Espírito”. E versículo 6, “O que é nascido do Espírito é espírito”.

Em quinto lugar, a palavra de Deus foi o instrumento da primeira criação; Salmo 33:6, 9: “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo espírito da sua boca; Porque falou, e foi feito; mandou, e logo apareceu”. A palavra de Deus é também o instrumento da nova criação, ou obra da graça no homem, 1 Pedro 1:23: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre”. Assim, Tiago 1:18: “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas”. Segundo a Sua vontade; o que foi a causa impulsiva; com a Palavra da verdade; que foi a causa instrumental. Grande respeito e honra, amor e prazer, são devidos a Palavra sobre esta consideração, que é o instrumento de nossa regeneração, ou nova criação.

Em sexto lugar, o mesmo poder que criou o mundo, ainda o mantém e o sustenta em seu existir: o mundo deve a sua conservação, bem como a sua existência ao poder de Deus, sem o que não poderia subsistir por um momento. Também assim é com a nova criação, que depende inteiramente do poder de preservação, que primeiro a formou; Judas, versículo 1: “Conservados por Cristo Jesus”, 1 Pedro 1:5: “Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo”. Como de uma forma natural “Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (Atos 17:28), assim de uma forma espiritual, continuamos acreditando, nos arrependendo, amando, e deliciando-nos em Deus; sem cuja influência contínua sobre nossas almas, não poderíamos fazer nenhum destes.

Em sétimo lugar, em uma palavra, Deus avaliou a primeira criação com complacência e grande prazer; Ele viu as obras de Suas mãos, e aprovou-as como muito bom (Gênesis 1:31). Portanto, assim também na segunda criação; nada agrada e encanta a Deus mais do que as obras da graça nas almas de Seu povo. Não é um privilégio exterior da natureza, ou um presente da Providência, que recomenda qualquer homem a Deus; “nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura” (Gálatas 6:15). E assim você vê sobre que fundamentos a obra da regeneração no homem é feita uma nova criatura; o que foi a primeira coisa a ser desvelada.

Em segundo lugar, a seguir, deve-se perguntar, em quais aspectos cada alma que está em Cristo é renovada, ou feita uma nova criatura: e aqui encontraremos uma renovação tríplice de todo aquele que está em Cristo, ou seja:

1. Em seu estado e condição.

2. Em sua estrutura e constituição.

3. Em sua prática e conversação.

Em primeiro lugar, ele é renovado em seu estado e condição, porque ele passa da morte para a vida em sua justificação (1 João 3:14). Ele estava condenado pela lei, ele está agora justificado gratuitamente pela graça, pela redenção que há em Cristo: ele estava sob a maldição da primeira aliança; ele está sob a bênção da nova aliança: ele estava longe, mas agora veio para perto de Deus; alguém separado, uma vez estranho, agora da família de Deus (Efésios 2:12-13). Abençoada mudança, a partir de uma triste condição, para uma doce e confortável condição! “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1).

Em segundo lugar, cada homem em Cristo é renovado em sua estrutura e constituição; todas as faculdades e afeições de sua alma são renovadas pela regeneração: o seu entendimento estava escuro, mas agora é luz no Senhor (Efésios 5:8). Sua consciência estava morta e presa, ou cheia de culpa e horror, mas agora tornar-se afetuosa, atenta e cheio de paz (Hebreus 9:11). Sua vontade era rebelde, teimosa e inflexível; mas agora é obediente e disposta a cumprir a vontade de Deus (Salmos 110:2). Seus desejos uma vez ansiavam e desperdiçavam-se na busca de vaidades, agora eles estão mirados em Deus, Isaías 26:8. Seu amor caducou ternamente iludido sobre objetos terrenos, agora é absorvido pelas excelências infinitas de Deus e de Cristo (Salmos 119:97). Sua alegria esteve uma vez em ninharias e coisas de nada, agora sua alegria está em Cristo Jesus, (Filipenses 3:3). Seus medos estiveram uma vez sobre criaturas nocivas, agora Deus é o objeto de temor e reverência (Atos 9:31), e o pecado o objeto do medo e cautela (2 Coríntios 7:11). Suas esperanças e expectativas eram apenas para o mundo presente, mas agora, pelas que há de vir (Hebreus 6:19). Assim, a alma em suas faculdades e afetos é renovada; o que sendo feito, os membros e sentidos do corpo, precisam ser destinados e utilizados em novos serviços; não mais para serem armas da injustiça, mas instrumentos de serviço a Jesus Cristo (Romanos 6:19). E, assim, todos os que estão em Cristo são renovados em sua estrutura e constituição.

Em terceiro lugar, O homem em Cristo é renovado em sua prática e conversação: o modo de funcionamento segue sempre a natureza dos seres. Agora, os regenerados não são o que eram. Não podem andar e agir como uma vez eles fizeram, Efésios 2:1-3: “E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo…”. Eles eram levados, como a água pela força da maré, pela influência de suas próprias naturezas corruptas, e os costumes e exemplos do mundo; mas o caso está agora alterado. Assim, em 1 Coríntios 6:11, o apóstolo expôs aos crentes os antigos companheiros no pecado, e lhes diz: “E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados” [...], o mundo está agora bem alterado quanto à você, graças à graça de Deus por isto. Esta maravilhosa mudança de prática, que é tão universal e notável em todos os regenerados, e imediatamente após a sua conversão, deixa o mundo surpreso com eles. E acham estranho que você não corra “e acham estranho não correrdes com eles no mesmo desenfreamento de dissolução, blasfemando de vós” (1 Pedro 4:4). Eles acham estranho: A palavra significa ficar de pé e olhar, como a galinha que chocou ovos de perdiz, quando ela vê os pintinhos que ela trouxe à luz, tira as asas e voa para longe deles. Assim fazem os homens do mundo, ficam espantados ao ver seus antigos companheiros de pecado, cuja língua era uma vez vã e terrena, talvez profana e imunda, agora estarem orando, falando sobre Deus, o céu e as coisas espirituais, não tendo mais relação com eles, quanto ao pecado, a não ser por meio de repreensão e advertência: isto espanta o mundo, e os faz olhar com um estranho olhar admirado sobre o povo de Deus.

Em terceiro lugar, a seguir, investigaremos as propriedades e qualidades desta nova criatura, e mostraremos a você, como formos capazes, o que elas são. Mas, leitor, não espere aqui um relato exato e preciso do que é tão grande mistério; pois se perguntas podem ser feitas sobre uma mosca boba, que pode deixar confuso o maior filósofo ao responde-las; quanto mais podemos conceber esta grande e maravilhosa obra de Deus, a mais misteriosa e admirável de todas as suas obras, que supera os entendimentos dos cristãos mais iluminados? Oh, quão pouco sabemos sobre a natureza, propriedades e operações desta nova criatura! Até onde Deus revelou aos nossos fracos entendimentos, podemos falar sobre isso.

Em primeiro lugar, a Escritura fala dela como uma coisa de grande dificuldade a ser entendida pelo homem, João 3:8: “O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito”. A origem dos ventos é uma questão de grande dificuldade na filosofia: Nós ouvimos o ruído do vento, sentimos a sua força poderosa, e observamos os seus efeitos estranhos; mas não sabemos de onde vem, nem para onde vai. Pergunte a um homem “você ouviu o vento soprar? Sim. Você sente ele soprar? Sim, mui evidentemente. Você vê os efeitos dele, rasgando e derrubando as árvores? Sim, muito claramente. Mas você pode descrever a sua natureza, ou declarar a sua origem? Não, isso é um mistério que eu não entendo. Ora, é justamente assim com aquele que é nascido do Espírito. O Espírito Santo de Deus, cuja natureza e operações entendemos bem pouco, vem do céu, vivifica e influencia nossas almas, derrota e mortifica as nossas concupiscência pela sua onipotência: Estes efeitos do Espírito em nós, experimentalmente sentimos, e de forma sensivelmente discernimos: Mas como o Espírito de Deus primeiro entrou, e vivificou as nossas almas, e produziu esta nova criatura em si, entendemos um pouco mais sobre isso do que como se formam os ossos no ventre da mulher que está grávida (Eclesiastes 11:5). Por isso a vida da nova criatura é chamada de uma vida escondida (Colossenses 3:3). A natureza dessa vida não está apenas totalmente escondida de todos os homens carnais, mas em grande medida esta vida está oculta e desconhecida aos homens espirituais, apesar de serem eles próprios os sujeitos dela.

Em segundo lugar, embora esta vida da nova criatura seja um grande mistério e segredo, em alguns aspectos; ainda até onde é conhecida, e aparece sobre nós, a nova criatura é a criatura mais bela e encantadora que já Deus fez; pois a beleza do próprio Senhor está sobre ela: “novo homem, que segundo Deus é criado” (Efésios 4:24). Como um retrato é desenhado a partir do homem, [a nova criatura] é um esboço do próprio Deus, delineado pelo Espírito, esse Artista admirável, na alma do homem. A santidade é a beleza e a glória de Deus; e na santidade a nova criatura é criada à imagem de Deus (Colossenses 3:10). A alma regenerada aqui se torna santa (1 João 3:3). Não essencialmente santa, como Deus é, nem ainda eficientemente santa; pois a alma regenerada não pode fazer-se santa, nem tornar outros santos. Mas a vida da nova criatura pode ser dita que se assemelha a vida de Deus no fato de que, como Deus vive para Si mesmo, então a nova criatura vive totalmente para Deus; como Deus ama a santidade, e odeia o contrário, o mesmo acontece com a nova criatura; é nestas coisas formada à imagem de Deus que a criou. Quando Deus cria essa criatura na alma do homem, somos ditos, então, ser “participantes da natureza divina” (2 Pedro 1:4). De modo que não pode haver nada transmitido aos homens que embeleza e enfeita suas almas como essa nova criação o faz. Os homens não se assemelham a Deus quando eles são nobres e quando eles são ricos, mas quando eles são santos: nenhum dom, nenhum dote natural embeleza a alma como esta nova criatura faz [...]. Sim, essa é a beleza da nova criatura, que Cristo, seu Autor, é também o seu Admirador, Cânticos 4:9: “Enlevaste-me o coração com um dos teus olhares”.

Em terceiro lugar, esta nova criatura é criada no homem, sobre o maior propósito que alguma vez qualquer obra de Deus foi feita: o fim de sua criação e infusão é elevado e nobre: a salvação da alma em que é feito; é tanto o finis operis, e finis operantis: Este é o propósito do trabalho e do trabalhador que a operou. Quando recebemos o fim da nossa fé, nós recebemos a salvação de nossas almas; salvação é o fim da fé, como a morte é o fim do pecado, também a vida eterna é o fim da graça. A nova criatura, pelo instinto e direção constante de sua própria natureza, segue o seu curso como que diretamente a Deus, e para o céu, o lugar de seu pleno exercício, como os rios fazem com o oceano; declara-se ter sido feito para Deus, por seu incansável esforço por Ele; e como a salvação é o fim da nova criatura, também, é o desígnio expresso e finalidade dAquele que a criou. 2 Coríntios 5:5. “Ora, quem para isto mesmo nos preparou foi Deus”; por esta obra dEle em nossas almas, Ele agora está polindo, preparando e “nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz” (Colossenses 1:12).

Em quarto lugar, esta nova criação é a obra mais necessária que Deus já operou na alma do homem: o eterno bem-estar de sua alma depende disso; e sem ela ninguém verá Deus (Hebreus 12:14) e “A não ser que vocês sejam regenerados e nasçam de novo, não podem ver o reino de Deus” (João 1:3, 5). Você pode ser salvo sem Cristo? Você sabe que não pode. Você pode ter interesse em Cristo, sem a nova criação? Meu texto expressamente diz que você nunca o pode ter; pois: “se alguém está em Cristo, nova criatura é”. Oh, leitor, quaisquer que sejam seus pensamentos levianos nesta matéria, e com que olhos negligentes e descuidados você leia estas linhas; ainda sim, saibas que tu deves ser ou uma nova criatura, ou uma criatura miserável e maldita para sempre. Se civilidade sem a nova criatura pudesse te salvar, porque os pagãos morais não são salvos também? Se o rigor da vida sem a nova criação pudesse te salvar, por que isso não salvou os escribas e Fariseus? Se uma elevada profissão [de fé] na religião sem a nova criatura pode te salvar, por que não salvou Judas, Himeneu e Fileto também? Nada é mais evidente do que isso, que nenhum arrependimento, obediência, abnegação, orações, lágrimas, reformas ou ordenanças, sem a nova criação nada aproveitam para a salvação da tua alma: o próprio sangue de Cristo, sem a regeneração nunca salvou e nunca salvará alguém. Oh que obra necessária é a nova criação! “Nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura” [Gálatas 6:15].

Em quinto lugar, a nova criatura é uma criatura admirável e maravilhosa: há muitas maravilhas na primeira criação, “Grandes são as obras do Senhor, procuradas por todos os que nelas tomam prazer” (Salmos 111:2). Mas não há maravilhas na natureza, como aquelas da graça. Não é a maior maravilha que jamais foi vista no mundo, (exceto a encarnação do Filho de Deus) ver a natureza e temperamento do homem tão transformados e modificados como eles o são pela graça? Veem os lascivos Coríntios e os idólatras Efésios tornando-se Cristãos mortificados e celestiais? Veem um feroz e perseguidor cruel, tornar-se um confesso glorioso e sofredor por Cristo? (Gálatas 1:23). Veem a mente carnal do homem, que estava, recentemente, fixada por completo em uma forte inclinação para o mundo, ser totalmente retirado de suas concupiscências, e firmado sobre coisas que são espirituais e celestiais? Certamente não foi um milagre maior ver Lázaro sair do seu sepulcro, do que é ver a mente morta e carnal saindo de suas concupiscências para abraçar a Jesus Cristo; não era uma maravilha maior ver os ossos mortos e secos no vale se moverem e se unirem, do que é ver uma alma morta em movimento em direção Deus, e movendo-se a Cristo no caminho da fé.

Em sexto lugar, a nova criatura é uma criatura imortal, uma criatura que nunca verá a morte (João 4:14). Há na alma do homem, uma fonte de água que jorra para a vida eterna. Eu não vou aventurar dizer que é imortal em sua própria natureza, pois é apenas uma criatura, como o meu texto chama-lhe; e sabemos, que infinitude essencial está na propriedade comunicável de Deus: A nova criatura tem tanto um começo e sucessão; e, portanto, também pode ter um fim, como a qualquer coisa em si, ou sua própria natureza. A experiência também nos mostra, que é capaz tanto de aumento e diminuição, e pode ser aproximada da morte (Apocalipse 3:2). A obra do Espírito nos crentes, pode estar pronta para morrer; mas, apesar de sua perpetuidade não fluir de sua própria natureza, flui da aliança e das promessas de Deus, o que a torna uma criatura imortal: quando todas as outras excelências no homem vão embora, como na morte (Jó 4:21) apenas esta excelência permanece: os nossos dons podem deixar-nos, nossos amigos nos deixam, nossas propriedades nos deixam, mas nossas graças nunca nos deixarão; elas sobem com a alma (em que são inerentes) na glória, quando o golpe da morte a separa do corpo.

Em sétimo lugar, a nova criatura é uma criatura celestial; “Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (João 1:13). Sua descida e origem é celestial, é espírito nascido do espírito, João 3:6. Seu centro é o céu, e lá estão todas as suas tendências, Salmos 63:8. Seu próprio alimento, do que vive, são coisas celestiais (Salmos 4:6 e 7), ele não pode alimentar-se como outras criaturas fazem, sobre as coisas terrenas; o objeto de toda a sua alegria e amor está no céu, Salmos 73:25: “Quem tenho eu no céu senão a ti?” As esperanças e expectativas da nova criatura são todos do céu; ele procura por pouco neste mundo, mas espera pelo refrigério do Senhor. A vida da nova criatura sobre a terra é uma vida de espera paciente por Cristo; seus desejos e anseios são pelo céu (Filipenses 1:23). A carne de fato permanece, e gostaria de adiar, mas a nova criatura se apressa, e de bom grado partiria (2 Coríntios 5:2). Ela não está em casa enquanto está aqui; isso veio do céu, e não pode ficar quieta, nem sofrer a alma em que habita, a será assim, até que vá para lá.

Em oitavo lugar, a nova criatura é uma criatura ativa e laboriosa; tão logo ela nasce, já está agindo na alma. Atos 9:11: “Eis que ele está orando!”. A atividade é sua própria natureza. Gálatas 5:25: “Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito”. Também não deve ser admirado, que deva estar sempre ativo e estimulando a alma, vendo que a atividade em obediência foi a finalidade para o que foi criada. “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras” (Efésios 2:10). E aquele que realiza os deveres da religião, por esse princípio da nova criatura, ou a natureza, vai (na medida em que o princípio atua nele) agradar-se em fazer a vontade de Deus; regozijar-se no caminho de Seu mandamento, e encontrar o prazer mais doce nos caminhos do dever.

Em nono lugar, a nova criatura é uma criatura que se desenvolve, crescendo de força em força (1 Pedro 2:2). E mudando a alma em que ela está submetida, de glória em glória (2 Coríntios 3:18). As tendências vigorosas e busca constante desta nova criatura, é atingir sua exata perfeição e maturidade (Filipenses 3:11). Ele não pode suportar restrição e limites à sua vontade. Aquém da perfeição; cada grau de força que alcança, apenas aguça e aprimora seus desejos por graus mais elevados: Após este relato, ele tem grande prazer nas ordenanças de Deus, deveres da religião, e a comunhão dos santos; pois são auxílios e melhorias à mesma, fim de seu grande propósito.

Em décimo lugar, a nova criatura, é uma criatura de preservações maravilhosas: Há muitas maravilhas da providência divina na preservação de nossas vidas naturais, mas nada como aquelas pelo que a vida da nova criatura é preservada em nossas almas: Há momentos críticos de tentação e deserção, em que ela está pronta para morrer (Apocalipse 3:2). Os graus de sua força e vivacidade são, por vezes, infelizmente, abatidos, e suas operações doces e confortáveis descontinuadas (Apocalipse 2:4). As evidências pelas quais a sua existência em nós era habitualmente encontrada, podem ser, e muitas vezes são, obscurecidas (2 Pedro 1:9). E a alma na qual ela está pode tirar conclusões muito tristes sobre a questão e circunstância; concluindo que sua vida, não apenas está em perigo, mas bastante extinguida (Salmos 51:10-12). Mas apesar de estar pronto para morrer, Deus maravilhosamente preserva-a da morte; ela tem também o seu reavivamento, assim como suas temporadas de fraquezas. E, assim, você vê, quais são as características encantadoras e ilustres da nova criatura. Em seguida,

Em quarto lugar, demonstraremos a necessidade desta nova criação para todos os que estão em Cristo, e que por Ele esperam alcançar a salvação; e a necessidade da nova criatura aparecerá de diversas maneiras.

Em primeiro lugar, a partir da vontade positiva e expressa de Deus, revelada nas Escrituras, no tocante a este assunto: Examinem as Escrituras, e vocês encontrarão que Deus colocou toda a ênfase e peso de sua felicidade eterna, por meio de Jesus Cristo, sobre obra do Espírito nas suas almas. Então, nosso Salvador diz a Nicodemos, João 3:5: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus”. Semelhantes são as palavras do apóstolo, Hebreus 12:14: “Segui… a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”. E, embora alguns pensem que os seus privilégios de nascimento, gozo de ordenanças, e profissões religiosas podem recomendá-los à aceitação de Deus sem esta nova criação, ele prova assim quão irracional e sem fundamento são todas essas esperanças. Gálatas 6:15: “Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura”. Cristo e o céu são os dons de Deus, e Ele tem a liberdade de conferi-los nos termos e condições que Lhe aprouver: e este é o caminho, o único caminho, e método indicado em que Ele trará os homens, por meio de Cristo, para a glória. Os homens podem extirpar as impressões dessas coisas de seus próprios corações, mas eles nunca podem alterar o estabelecido curso e método de salvação. Ou devemos ser novas criaturas, como o preceito da Palavra nos ordena, ou perdidos, e criaturas amaldiçoadas, como as ameaças da Palavra claramente nos dizem.

Em segundo lugar, esta nova criação é a parte inicial dessa grande salvação que esperamos que através de Cristo, e, portanto, sem isso, todas as esperanças e expectativas de salvação devem desaparecer. Salvação e regeneração estão inseparavelmente ligadas. Nossa glória no céu, se entendermos corretamente a sua natureza, consiste em duas coisas; ou seja, assimilação a Deus, e nossa fruição de Deus, e ambos estes tomam seu início e evolução em nossa regeneração neste mundo. Aqui começamos a ser transformados em Sua imagem, em algum grau (2 Coríntios 3:18), pois o novo homem é criado por Deus, como foi falado anteriormente. Na obra de graça é dito que Deus começa uma boa obra, que deve ser concluída, ou consumada, no dia de Cristo, Filipenses 1: 6. Agora nada pode ser mais irracional do que imaginar que um propósito, ou obra deve ser concluída ou aperfeiçoada, sendo que nunca teve um começo.

Em terceiro lugar, tão necessária é a nova criação a todos que esperam salvação por Cristo que sem isso, o céu não seria céu, e a glória dele não seria nenhuma glória para nós, por causa da inadequação e aversão de nossas mentes carnais em relação a isso; “A inclinação da carne é inimizade contra Deus” (Romanos 8:7). E inimizade exclui toda complacência e deleite. Há uma necessidade de um adequado e agradável moldar do coração à Deus, para o descanso complacente de nossas almas nEle: E esse temperamento agradável é operado pela nossa nova criação. 2 Coríntios 5:5: “Ora, quem para isto mesmo nos preparou foi Deus”. Regeneração, veja, é a obra ou moldar do espírito de um homem em um temperamento agradável, ou como está em Colossenses 1:12, nos fazer idôneos para participar da herança dos santos na luz.

A partir de tudo que isso, segue-se, vendo que não pode haver complacência, ou deleitar-se em Deus, sem idoneidade e conformidade com Ele, como é evidente, a partir de 1 João 3:2, bem como a partir da razão e da natureza da coisa em si mesma; ou Deus deve tornar-se semelhante a nós, adequado aos nossos corações pecadores, corruptos e vãos, o que é apenas uma rude blasfêmia alguma vez imaginar; ou então devemos ser feitos agradáveis e adequados a Deus, o que é propriamente o que agora estou provando ser necessário.

Em quarto lugar, há uma necessidade absoluta da nova criação para tudo o que espera interesse em Cristo, e a glória vindoura, uma vez que todas as características, marcas e sinais de tal interesse, são constantemente tomadas a partir da nova criação operada em nós. Olhe para todas as marcas e sinais de interesse em Cristo, ou salvação por meio dEle que se encontram dispersas nas Escrituras, e você ainda deve encontrar a pureza do coração (Mateus 5:8). Santidade, tanto em princípio e em prática (Hebreus 12:14). A mortificação do pecado (Romanos 8:13). Desejo pela aparição de Cristo (2 Timóteo 4:8). Com multidões mais de mesma natureza, sendo feitas constantemente as marcas e sinais da nossa salvação por Cristo. De modo que, ou devemos ter uma nova bíblia, ou um novo coração; pois se essas Escrituras são as verdadeiras e fiéis Palavras de Deus, nenhuma criatura não regenerada pode ver Seu rosto; o que corresponde ao quarto aspecto a ser desvelado.

Em quinto lugar, a última coisa a ser falada é como a nova criação é uma prova infalível e evidência da participação da alma em Cristo; e isso aparecerá de diversas maneiras.

Em primeiro lugar, onde todas as graças salvadoras do Espírito estão, ali o interesse em Cristo deve ser estar certo; e onde há a nova criatura, aí todas as graças salvadoras do Espírito estão: Pois o que é a nova criatura, senão a forma ou sistema de todas as graças especiais de salvação? Não é esta ou aquela graça particular, como a fé, nem esperança, ou amor a Deus, que constitui a nova criatura; pois estes são apenas como tantos membros ou ramos dela; mas a nova criatura abrange todas as graças do Espírito, Gálatas 5:22: “Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança”, e etc. Qualquer uma das graças salvíficas e especiais dá prova de nosso interesse em Cristo, quanto mais, então, a nova criatura, que é a forma complexa ou sistema de todas as graças juntas?

Em segundo lugar, para concluir; Onde são encontradas todas as causas de um interesse em Cristo, e todos os efeitos e frutos desse interesse aparecem, aí, sem dúvida, um interesse em Cristo é encontrado: onde quer que você encontre uma nova criatura, você encontra todas as causas e todas as facetas de um interesse em Cristo: Pois, ali você encontrará,

(1) A causa impulsiva, ou seja, o amor eletivo de Deus, a partir do que a nova criatura é inseparável (1 Pedro 1:2). Com a nova criatura, as causas apreciáveis, eficientes e finais de interesse em Cristo, e união com Ele, também sempre são encontradas (Efésios 2:10, capítulo 1:4-6).

(2) Todo o conjunto e frutos do interesse em Cristo são encontrados na nova criatura; há todos os frutos da obediência, pois somos criados em Cristo Jesus para boas obras (Efésios 2:10, Romanos 7:4). Há verdadeira oposição espiritual ao pecado, 1 João 5:18: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca”. Há amor pelo povo de Deus, 1 João 4:7: “qualquer que ama é nascido de Deus”. Há uma relação de consciência quanto aos deveres [...], pois a nova criatura é criada segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade (Efésios 4:25). Há a perseverança nos caminhos de Deus até o fim, e a vitória sobre todas as tentações; pois todo aquele que é nascido de Deus vence o mundo (1 João 5:4). Seria fácil falar de todos os outros frutos particulares de nossa união com Cristo, e mostrar-lhes cada um deles na nova criatura. E, assim, muito da parte doutrinária foi dita nesse ponto.

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♦ Fonte: CCEL.org | Título Original: Of the Nature and Necessity of the New Creature.
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Amanda Ramalho | Revisão por Camila Almeida


A Visão de Ossos Secos – Robert Murray M’Cheyne

“Veio sobre mim a mão do SENHOR, e ele me fez sair no Espírito do SENHOR, e me pôs no meio de um vale que estava cheio de ossos. E me fez passar em volta deles; e eis que eram mui numerosos sobre a face do vale, e eis que estavam sequíssimos. E me disse: Filho do homem, porventura viverão estes ossos? E eu disse: Senhor DEUS, tu o sabes. Então me disse: Profetiza sobre estes ossos, e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor. Assim diz o Senhor DEUS a estes ossos: Eis que farei entrar em vós o espírito, e vivereis. E porei nervos sobre vós e farei crescer carne sobre vós, e sobre vós estenderei pele, e porei em vós o espírito, e vivereis, e sabereis que eu sou o Senhor. Então profetizei como se me deu ordem. E houve um ruído, enquanto eu profetizava; e eis que se fez um rebuliço, e os ossos se achegaram, cada osso ao seu osso. E olhei, e eis que vieram nervos sobre eles, e cresceu a carne, e estendeu-se a pele sobre eles por cima; mas não havia neles espírito. E ele me disse: Profetiza ao espírito, profetiza, ó filho do homem, e dize ao espírito: Assim diz o Senhor DEUS: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mortos, para que vivam. E profetizei como ele me deu ordem; então o espírito entrou neles, e viveram, e se puseram em pé, um exército grande em extremo. Então me disse: Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel. Eis que dizem: Os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança; nós mesmos estamos cortados. Portanto profetiza, e dize-lhes: Assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu abrirei os vossos sepulcros, e vos farei subir das vossas sepulturas, ó povo meu, e vos trarei à terra de Israel. E sabereis que eu sou o Senhor, quando eu abrir os vossos sepulcros, e vos fizer subir das vossas sepulturas, ó povo meu. E porei em vós o meu Espírito, e vivereis, e vos porei na vossa terra; e sabereis que eu, o SENHOR, disse isto, e o fiz, diz o SENHOR” [Ezequiel 37:1-14].

No início da vida o profeta Ezequiel havia sido testemunha de cercos e campos de batalha; ele próprio experimentara muitos dos horrores e calamidades da guerra; e isso parece ter tingido o seu caráter natural, de tal forma que suas profecias, mais do que quaisquer outras, estão cheias de imagens terríveis e visões de coisas temíveis. Com estas palavras, temos a descrição de uma visão que, por sua grandeza e terrível sublimidade, é, talvez, inigualável em qualquer outra parte da Bíblia.

Ele se descreve como posto por Deus no meio de um vale que estava cheio de ossos. Era como se ele estivesse colocado no meio de algum espaçoso campo de batalha, onde milhares e dezenas de milhares foram mortos, e ninguém deixado para trás para enterrá-los. As águias haviam muitas vezes se reunido sobre os cadáveres, e ninguém as havia repeliu, e os lobos das montanhas tinham comido a carne daqueles homens fortes, e bebido o sangue dos príncipes. As chuvas do céu tinham branqueado tais ossos, e os ventos que sopravam sobre o vale aberto os tinham desnudado; e um intenso sol de verão havia embranquecido e secado os ossos. E enquanto profeta esteve em redor e por perto de modo a ver a triste cena, esses dois pensamentos surgiram em sua mente: “eis que eram mui numerosos sobre a face do vale, e eis que estavam sequíssimos”.

Se o local não fosse um vale aberto, poderia ter parecido ao seu olhar admirado algum vasto sepulcro, como se os túmulos de todos os Faraós fossem desvelados por algum choque da natureza, pelos fortes ventos do céu; como se a mão arbitrária da violência houvesse saqueado os vastos cemitérios do Egito, e lançado os ossos mumificados de outras eras para clarear e branquear à luz do céu. Quão expressivas são as breves palavras do profeta: “eis que eram mui numerosos sobre a face do vale, e eis que estavam sequíssimos”.

Sem dúvida, houve um terrível silêncio propagado sobre esta cena de desolação e morte; mas a voz do seu guia celeste rompe em seu ouvido: “Filho do homem, porventura viverão estes ossos?”.

Que estranha pergunta foi esta feita em relação aos ossos branqueados e secos! Quando Jesus disse da menina: “não está morta, mas dorme” [Lucas 8:52], eles riram dele, com escárnio; mas aqui não eram corpos recém-mortos, mas ossos, ossos descobertos, branqueados; não, eles nem mesmo eram esqueletos, pois osso estava separado de seu osso; no entanto, Deus pergunta: “viverão estes ossos?”. Se Ele tivesse feito esta pergunta ao mundo, eles teriam rido como uma altíssima risada de desprezo; mas Ele perguntou a alguém que, embora uma vez tenha estado morto, havia sido vivificado por Deus; e ele respondeu: “Senhor DEUS, tu o sabes”. Eles não podem viver por si mesmos, pois eles estão mortos e secos; mas se Tu puseres o Teu Espírito de vida neles, eles viverão. Assim, então, só Tu o sabes.

Recebendo esta resposta de fé do profeta, Deus ordena a ele que profetize sobre aqueles ossos, e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor. Assim diz o Senhor DEUS a estes ossos: Eis que farei entrar em vós o espírito, e vivereis. E porei nervos sobre vós e farei crescer carne sobre vós, e sobre vós estenderei pele, e porei em vós o espírito, e vivereis, e sabereis que eu sou o Senhor”. Tivesse o profeta caminhado pela vista, e não pela fé, ele teria duvidado da promessa, por causa da incredulidade. Se ele tivesse sido um adorador da razão, ele teria argumentado: Estes ossos não têm ouvidos para ouvir, por que eu deveria pregar-lhes: “Ouvi a palavra do Senhor?”. Mas não, ele creu em Deus mais do que em si mesmo. Ele havia sido ensinado “a suprema grandeza do seu poder”; e, portanto, ele obedeceu: “Então profetizei como se me deu ordem”.

Se a cena que Ezequiel primeiramente viu era sombria e desolada, a cena que agora aparecia aos seus olhos era mais sombria, ainda mais terrivelmente chocante: “E houve um ruído, enquanto eu profetizava; e eis que se fez um rebuliço, e os ossos se achegaram, cada osso ao seu osso. E olhei, e eis que vieram nervos sobre eles, e cresceu a carne, e estendeu-se a pele sobre eles por cima; mas não havia neles espírito”. Se foi uma visão horrível antes, ver o vale cheio de ossos, todos lavados pelas chuvas e ventos, e clareados nos sóis de verão, quanto mais horrível agora, ver aqueles mortos, osso unido ao seu osso, tendões, e carne e pele sobre eles; mas nenhum fôlego neles! Aqui estava um campo de batalha, de fato, com seus milhares de mortos insepultos, massas de carne sem respiração, frias e imóveis, prontas apenas para apodrecerem, cada mão rígida e imóvel, cada seio, sem um suspiro, todos os olhos lustrosos e sem vida, toda língua fria e silenciosa como um túmulo.

Mas a voz de Deus novamente quebra o silêncio: “Profetiza ao espírito (ou fôlego), profetiza, ó filho do homem, e dize ao espírito: Assim diz o Senhor DEUS: Vem dos quatro ventos, ó Espírito, e assopra sobre estes mortos, para que vivam”.

Antes, Ezequiel se inclinara sobre os ossos secos, mortos, e pregou a eles, uma congregação vasta, porém sem vida, mas agora ele levanta a cabeça e levanta os olhos; porque a sua palavra é ao Espírito de Deus vivo. A incredulidade pode ter sussurrado a ele: “A quem você está indo profetizar agora?”. A razão poderia ter argumentado: “que sentido há em falar com o Espírito invisível, a alguém a quem você não vê”; pois está escrito “O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece” [João 14:17]. Mas ele não duvidou da palavra por incredulidade: “E profetizei como ele me deu ordem; então o espírito entrou neles, e viveram, e se puseram em pé, um exército grande em extremo”.

A primeira aplicação feita sobre esta visão é a restauração dos Judeus.

1. Ele ensina que, neste momento eles são como ossos secos no vale aberto, espalhados por todas as terras, muitos e sequíssimos, destituídos da vida de Deus.

2. Isso ensina que a pregação de Jesus, apesar de ser loucura para o mundo, deve ser o meio de seu despertar, e que a oração ao todo-vivificante Espírito deve ser o meio de sua nova vida.

3. Isso ensina que, quando esses meios são utilizados com eles, o antigo povo de Deus deve levantar-se ainda, e ser um exército grande em extremo, serão como eles costumavam ser quando eles marchavam através do deserto, quando Deus ia adiante deles na coluna de nuvem; de forma que eles serão, então, levados de volta para a sua terra, e plantados em sua própria terra, e não mais arrancados. Mas outra, e para nós mais importante, aplicação desta visão, é para as almas não-convertidas em nosso meio. Sigamos por este ponto de vista.

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I. Almas não-convertidas são como ossos secos: mui numerosas e sequíssimas.

1. Elas são muitas. Quando uma alma é primeiramente trazida a Cristo, ela goza de uma paz na crença que ela nunca conheceu antes; e não somente isso, mas ela é vivificada da morte de delitos e pecados para uma vida que ela nunca conheceu anteriormente; ela conhece a bem-aventurança de viver para Deus. Porém, mesmo com toda essa alegria, há um sentimento terrível de solidão; para quando ele olha em volta do mundo, ela se sente exatamente como Ezequiel, colocada em meio a um vale cheio de ossos secos. Ele mesmo está vivo, mas este mundo, que uma vez foi toda a sua alegria, parece agora com algum antigo campo de batalha, onde os restos dos mortos estão todos lançados expostos em campo aberto; e ele se sente algo solitário em um mundo de mortos. Este mundo agora aparece como um vasto sepulcro, onde gerações inteiras de mortos se encontram, e são misturadas; todos semelhantemente apropriados apenas para a queima; e ele se sente vivo e solitário, movendo-se sobre as pilhas de mortos. Ele se sente como Elias no monte de Deus, quando ele reclamou: “Senhor Deus dos Exércitos… mataram os teus profetas à espada, e só eu fiquei” [1 Reis 19:10]. Ele se sente como nosso bendito Senhor, que era uma luz que brilha nas trevas, e as trevas não O compreenderam. Ele se sente “como astros no mundo; retendo a palavra da vida” [Filipenses 2:15-16], uma lâmpada suspensa na mais densa escuridão, cujo óleo é totalmente fornecido pela graça do alto, e cujos raios parecem apenas fazer a escuridão mais visível. Ele se sente como Paulo em Atenas; pois o seu espírito é comovido por ele ver o mundo inteiro entregue à idolatria. Ele se sente como Paulo em Roma, quando ele reclamou: “Porque a ninguém tenho de igual sentimento, que sinceramente cuide do vosso estado; porque todos buscam o que é seu, e não o que é de Cristo Jesus” [Filipenses 2:20-21]. Ele se sente como João, quando ele disse tão docemente, porém também mui tristemente: “Sabemos que somos de Deus, e que todo o mundo está no maligno” [1 João 5:19].

Para o olho do Sentido, oh, como este mundo é vivo e feliz, com as suas lojas e mercados; seus cumprimentos e empresas; as visitas de cerimônia e visitas de bondade; sua alegria e sua melodia! Quão vivo e realista é o mundo inteiro, desde o raiar da manhã até a meia-noite. Mas, para os olhos da Fé, oh, que deserto solitário é este mundo! Pois, “todo o mundo está no maligno”. Não é assim, irmãos crentes? Ele não é como Egito, naquela noite terrível, quando um grito foi ouvido em cada habitação; porque não havia uma casa onde não havia um morto? Oh! Isso é mais sombrio agora; pois em cada casa há muitas almas mortas, e ainda assim, não há nenhum clamor.

Olhe para a sua própria família; olhe entre as famílias dos seus vizinhos; olhe para a sua cidade natal; não há nestes muitos mortos, almas mortas? A maioria são ossos mortos, secos. Não, olhe para a Igreja Cristã; olhe entre os nossos guardadores do Sabath, e aqueles que se assentam nos sacramentos; oh, irmãos! não é verdade que, como Sardes, a maioria tem um nome que vive, e estão mortos? A maioria de vocês não vive uma vida de deleites? e não está escrito: “Mas a que vive em deleites, vivendo está morta”? [1 Timóteo 5:6] Não é verdade que a maioria de vocês não demonstra amor pelos irmãos? e não está escrito: “Aquele que não ama a seu irmão, permanece na morte?”. Oh, sim, a maioria são ossos secos! Verdadeiramente, então, “eis que eram mui numerosos”.

2. Eles são sequíssimos. Ossos secos estão muito além de toda a possibilidade de viver. (1) Eles são desprovidos de qualquer carne ou beleza. (2) Eles não têm qualquer medula ou espírito. (3) Elas não apresentam qualquer atividade ou poder de se moverem. E, oh! Não é esta a própria imagem das pobres almas não-convertidas, “eis que estavam sequíssimos”?

(1) Elas são desprovidas de qualquer beleza. Elas não veem a beleza em Cristo, e Cristo não vê beleza neles; as suas almas são magras e desfavorecidas. O homem foi feito perfeito em beleza, a princípio; pois ele foi feito à imagem dAquele que é a perfeita beleza; mas uma alma caída, não-convertida não tem beleza; é como um belo edifício em ruínas espalhadas; é como uma bela estátua inteiramente quebrada, nenhuma característica remanescente; é como um corpo bonito ferido pela morte, apodrecendo no túmulo.

(2) Elas não têm qualquer medula ou espírito. O homem foi feito para ser uma habitação de Deus através do Espírito; e é somente quando somos guiados pelo Espírito que somos vivos para Deus. Mas a alma não-convertida é “sensual, não têm o Espírito” [Judas 1:19]. A Bíblia diz: “O mundo não pode receber o Espírito Santo, porque não o vê, nem o conhece”. Eles não têm nenhuma obra do Espírito no seu coração; nenhuma obra de despertamento; nenhum convencimento da justiça; nenhuma obra de santificação; nenhum selo da alma; nenhum andar no Espírito; nenhum amor no Espírito; nenhuma oração no Espírito Santo.

(3) Almas não-convertidas não apresentam qualquer atividade ou poder de se moverem em direção a Deus. Se nós pregamos a Palavra do Senhor para elas, as mesmas não têm coração para atender às coisas que são faladas; ossos secos não têm ouvidos. Se nós lhes dizemos sobre a ira de Deus, que está chegando a elas, elas não são movidas a fugir; ossos secos não podem correr. Se nós lhes dizemos sobre a beleza do Senhor Jesus, como Ele se oferece para ser completo Salvador, ainda assim elas não são movidas para abraçá-lO; pois, ossos secos não podem estender os braços. Ah! estes ossos secos estão sequíssimos.

Irmãos, não é possível fazê-los ansiosos a respeito de suas almas? Vocês podem permanecer e ouvir quão mortos e secos eles são, e ainda irem embora e esquecer tudo isso? Vocês podem suportar carregar convosco uma pedra morta em vosso seio, em vez de um coração? Vocês podem suportar terem tal coração frio, gelado, perverso, que não vê nenhuma desejabilidade no encantador Salvador; nenhuma beleza nAquele que está estendendo as mãos para vocês todo o dia, o “primeiro entre dez mil”, o totalmente desejável”? Oh, irmãos! se vocês vão embora impassíveis; e, sem dúvida, isso pode acontecer com centenas de vocês; que necessidade temos de testemunhas? Vocês mesmos são a única evidência que precisamos de que as almas não-convertidas são “mui numerosas”, e “estavam sequíssimas”.

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II. A segunda lição que aprendemos a partir desta visão é que a pregação é o instrumento de Deus para despertar os não-convertidos.

Todo homem inteligente no meio de vocês ficou intrigado em um momento ou outro por uma aparente contradição que atravessa toda a Bíblia. Está escrito em um lugar: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer” [João 6:44], e ainda assim, toda a Bíblia completamente ordena que todos venham a Cristo. Novamente, está escrito: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” [1 Coríntios 2:14], e ainda assim, o que estamos pedindo continuamente a vocês, senão que recebam as coisas do Espírito de Deus? Mais uma vez, Deus abriu o coração de Lídia para atender às coisas que Paulo dizia, o que deixa claro que nenhum coração natural pode compreender, e ainda assim, não fazemos nada, senão instar essas coisas à vossa atenção. Por natureza, os seus corações são tão duros quanto diamante, e até mesmo a sua demonstração não vos fará fugir do inferno; ainda assim, “sabendo o temor que se deve ao Senhor, persuadimos os homens”. Por natureza, vocês não podem sequer compreender a beleza e graciosidade do Senhor Jesus; e ainda assim, estamos determinados a nada saber entre vocês, a não ser “Cristo e este crucificado”. Oh! que grande contradição há aqui; e ainda assim, com que facilidade isso é resolvido! Aqueles ossos estavam mortos, secos, sem espírito, sem vida, sem carne, sem ouvidos para ouvir; no entanto, Deus diz: “Profetiza sobre estes ossos, e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor”. Exatamente assim, meus amigos não-convertidos, suas almas são como esses ossos secos, mortas, secas, sem espírito, sem vida, sem ouvidos para ouvir, sem coração para atender às coisas que são faladas. Vocês têm suas consciências embotadas, de forma que nenhuma palavra minha pode movê-los a fugirem da ira vindoura; vocês têm esses corações ímpios, duros, de modo que nenhuma palavra minha pode persuadi-los a abraçar o suplicante Salvador, e ainda assim, é pela loucura da pregação que agrada a Deus salvar os que creem; e embora as nossas palavras não tenham poder, contudo Deus pode trabalhar de forma toda-poderosa através delas; e esta é a Sua mensagem para vocês: “Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor”.

Eu sinceramente rogo aqueles de vocês que pouco se importam com a pregação da Palavra, para compreendê-la. Vocês podem dizer, e dizer com verdade, que a pregação parece um instrumento fraco e tolo para tal tipo de obra, o próprio Deus a chamou de “a loucura da pregação” [1 Coríntios 1:21]. Vocês podem dizer, e dizem, de fato, que os ministros são apenas vasos de barro, que são homens, de natureza semelhante a vossa, o próprio Deus os chamou assim antes de vocês. Mas vocês não podem dizer que esta não é a maneira de Deus para converter almas; e é com risco às suas próprias almas que vocês a desprezam. Mantenham-se afastados da casa de Deus e selem a vossa Bíblia, e afastarão de vocês os únicos instrumentos pelos quais Deus pode chegar às vossas almas moribundas.

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III. A terceira e última lição que aprendemos a partir desta visão é que a oração deve ser adicionada à pregação, de outra forma a pregação é vã.

Os efeitos produzidos pela profecia de Ezequiel aos ossos secos foram muito notáveis. Os ossos se achegaram, osso ao seu osso; a carne, os nervos, a pele veio sobre eles, e os cobriu; mas ainda não havia neles o espírito, eles estavam tão mortos como sempre. E, oh! Quão semelhantes são aos efeitos que muitas vezes seguem a pregação da Palavra. Quão frequentemente um povo é aparentemente reformado! Em vez de quebrar o Sabath, há a observância do Sabath; em vez de embriaguez, há sobriedade; existe forma de piedade, mas nenhum do poder; os ossos, tendões, carne e pele de piedade, mas nada do sopro vital de piedade. Ah! Meus amigos, não é exatamente esta a forma de nossas congregações atualmente? há abundância de conhecimento intelectual, mas, ah! onde está o coração humilde que ama o Salvador? Há abundância de ortodoxia e de argumentação, mas, ah! onde está a fé simples no Senhor Jesus e amor por todos os santos? Não diz o Salvador quando Ele olha para baixo, para as nossas Igrejas: “mas não havia neles espírito?”, Oh! então, irmãos, vamos todos e cada um de nós dar atenção ao segundo comando para o profeta: “Profetiza ao espírito, profetiza, ó filho do homem, e dize ao espírito: Assim diz o Senhor DEUS: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mortos, para que vivam. E profetizei como ele me deu ordem; então o espírito entrou neles, e viveram, e se puseram em pé, um exército grande em extremo”. Aprendam duas lições a partir disso.

Primeiro. Amigos não-convertidos, que corações mortos vocês devem ter; toda a pregação do mundo não pode colocar a vida neles. Que corações duros vocês devem ter; o martelo mais pesado que nós possamos erguer não pode quebrá-los. Nós falamos os argumentos mais pesados em vosso ouvido, ainda assim, nem isso tudo vos moverá. Temos que levantar a nossa voz, e profetizar ao Espírito; devemos clamar ao Espírito Todo-Poderoso antes que possamos tocar o vosso coração. Tentamos convencê-los do pecado; demonstramos como vocês quebraram a lei, e que: “Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las” [Gálatas 3:10]; que vocês devem estar sob a maldição, que vocês não serão capazes de suportar essa maldição, que esmagou um Salvador à terra, e vos esmagará até as profundezas do inferno. Vocês estão um pouco impressionados, e esperamos que o vosso coração seja tocado; mas suas impressões são como impressões na areia quando a maré está baixa, e a próxima maré do mundo apaga tudo. Tentamos convencê-los da justiça. Nós lhes falamos sobre o amor do Salvador, como ele excede todo o entendimento; como havia um oceano de amor naquele seio que nenhuma corda poderia sondar, amor por pecadores perdidos como vocês; como Ele esteve no lugar dos pecadores, obedecendo a lei por nós; como Ele sofreu no lugar de pecadores, levando a maldição por nós. Nós dizemos a vocês que creiam nEle, e sejam salvo; vocês são derretidos, e a lágrima fica em seu rosto; mas, ah! Isso é “como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa” [Oséias 6:4].

Ah! Irmãos, que corações duros, de aço, vocês devem ter, quando tudo o que o homem possa fazer não vos derreterá. Seus corações são muito difíceis para nós; e nós temos que voltar lamentando para o nosso Senhor, dizendo: “Quem creu em nossa pregação?”. Em todas as outras coisas vocês poderiam ser persuadidos com argumentos. Se os seus corpos estivessem doentes, poderíamos persuadi-los a envia-los ao médico; se vossa propriedade fosse estorvada, poderíamos convencê-los a ser diligentes para a sua família. Oh! Quão prontamente vocês nos obedeceriam; mas quando mostramos que vocês são os herdeiros, alma e corpo, de um inferno eterno, vocês não despertarão de modo algum. Mesmo se nós pudéssemos mostrar-lhes o próprio Senhor Jesus Cristo, o Salvador sangrante, suplicante, seus corações ímpios não se apegariam a Ele. Vocês precisam dAquele que criou os seus corações, para quebrar e dobrar os seus corações. Então, vocês não irão embora, cada um de vocês, batendo no peito e dizendo: “Deus, tenha misericórdia de mim, pecador?”.

Aprendam, em segundo lugar, irmãos crentes, que necessidade vocês têm de orar.

Quando Deus, no capítulo anterior (36) promete dar um novo coração e um novo espírito a Israel: “tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne” [versículo 26], acrescenta, no versículo 37: “Ainda por isso serei solicitado pela casa de Israel, que lho faça”. E quando Deus promete dar os Gentios a Cristo por Sua herança, Ele apenas promete isso em resposta à oração: “Pede-me, e eu te darei” [Salmos 2:8]. E exatamente assim é aqui, quando Ele quer dar vida àqueles cadáveres que estão repousados no vale aberto, Sua palavra é: “Profetiza ao espírito, profetiza, ó filho do homem”.

Oh, irmãos crentes! Que instrumento é este que Deus tem colocado em suas mãos! A oração move Aquele que move o universo. Oh, homens de fé e oração! Israelitas, que lutam com Deus, e prevalecem! Homens retos, justos, cujas orações podem muito em seus efeitos! Vocês podem ser um pequeno rebanho, porém estejam suplicantes para que não deem descanso ao Senhor. Oh, orem para que o Espírito “assopre sobre estes mortos, para que vivam”. E vós, cristãos egoístas, se tal contradição pode existir; vocês, que se aproximam do trono de Deus apenas por si mesmos; vocês, cujas petições começam e terminam apenas por si mesmos; que não pedem por dons, exceto para a vossa paz e alegria. Vão e aprendam o que significa: “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” [Atos 20:35], “De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” [Filipenses 2:5].

Dundee, 25 de Dezembro de 1836.

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♦ Fonte: Books.Google.com.br │ Título Original: The Vision of Dry Bones
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


Conversão – John Gill

[Um Tratado de Teologia Doutrinária • Livro 6 • Capítulo 13 • Sobre a Conversão]

Conversão, embora possa parecer, em alguns aspectos, estar unida com a regeneração e o chamado eficaz, ainda assim pode ser diferenciada de ambos. A regeneração é o ato único de Deus; a conversão consiste tanto no ato de Deus sobre os homens, transformando-os, e de atos praticados pelos homens sob a influência da conversão de graça; eles se convertem, sendo transformados. A regeneração é o movimento de Deus para e sobre o coração do pecador; a conversão é o movimento de um pecador em direção a Deus, como alguém (Charnock) expressa. Na regeneração, os homens são totalmente passivos, uma vez que também estão no primeiro momento da conversão; mas por ela, se tornam ativos: por isso às vezes ela é expressa passivamente; “tendes voltado”, ou sido convertidos (1 Pedro 2:25), e às vezes ativamente; “grande número creu e se converteu ao Senhor” (Atos 11:21), e “quando” a maioria do povo Judeu “se converterem ao Senhor”, o que diz respeito à conversão deles nos últimos dias (2 Coríntios 3:16). O chamado eficaz é a chamada de homens da escuridão para a luz; e as respostas da conversão a esse chamado, e é a real “viragem” dos homens de um para o outro; de modo que, com propriedade, a conversão pode ser considerada como distinta da regeneração e do chamado eficaz. No que diz respeito ao que pode ser observado,

1. Em primeiro lugar, o que a conversão é, e onde ela se encontra. A conversão a ser tratada NÃO É,

1a. Algo exterior, ou que se encontra apenas em uma reforma exterior de vida e costumes, tais como a dos Ninivitas; pois isso pode existir onde a conversão interna não existe, como nos Escribas e Fariseus; e é a que as pessoas podem se afastar, e voltar ao seu primeiro curso da vida novamente; e onde ela é segura e verdadeira, ela é o fruto e o efeito da verdadeira conversão, mas não ela em si mesma.

1b. Também não é algo meramente doutrinário, ou uma conversão de falsas noções antes assimiladas a um conjunto de doutrinas e verdades que estão de acordo com as Escrituras; assim os homens do passado foram convertidos do Judaísmo e do paganismo ao Cristianismo, mas nem todos os que foram assim convertidos, em um sentido doutrinário, eram verdadeiros e reais convertidos; alguns tinham a forma de piedade sem o poder dela, tinham um nome para viver, e serem chamados de Cristãos, mas estavam mortos, e por isso não convertidos; assim, a recuperação de professos da religião de erros em que caíram, para o reconhecimento da verdade, é chamado de sua conversão (Tiago 5:19-20).

1c. Nem a restauração do povo de Deus desde as rebeliões a que estão sujeitos, quando eles são em uma forma muito comovente e inoportuna chamados a voltarem para o Senhor (Jeremias 3:12, 14, 22; Oséias 14:1-4), de modo que Pedro, quando caiu em tentação, e negou o seu Senhor, e foi recuperado a partir de sua queda por um olhar de Cristo, isso é chamado de sua conversão (Lucas 22:32). Mas,

1d. A conversão em questão é verdadeira, real e internamente uma obra de Deus sobre as almas dos homens; há uma falsificação dela, ou ocorre em alguns homens que não são realmente convertidos, o que é um pouco semelhante ao que sempre se encontra naqueles que são verdadeiramente convertidos; como, o senso do pecado, e um reconhecimento do mesmo; uma apreensão do desagrado Divino em relação a ele; grande angústia sobre o assunto, alguma tristeza por isto, a humilhação por causa disso, e uma abstinência dela; e algo que tem uma semelhança com cada uma destes pode ser encontrado em pessoas não-convertidas; embora a sua preocupação com o pecado seja principalmente quanto ao mal que advém dele, ou pode vir por ele, e não pelo mal que há nele. Assim em pessoas convertidas há mais cedo ou mais tarde a luz do evangelho e das suas doutrinas, particularmente a doutrina da salvação por Cristo, que produzem alívio e conforto para eles sob o senso do pecado, e incentivam a fé e a esperança em Deus. E há algo assim a ser observado em alguns que não são verdadeiramente convertidos, que dizem ser “iluminados”, isto é, de uma forma teórica e doutrinária; e “provam” a boa palavra de Deus, embora isso aconteça somente de uma forma superficial; e “a recebem com alegria”, com um lampejo de afeição natural, que dura por um tempo; e creem nela com uma fé temporária, historicamente, e tornam-se sujeitos às ordenanças; mas ainda em tudo isto não há nenhuma obra no coração, ao passo que a real conversão genuína encontra-se,

1d1. Na conversão do coração a Deus, dos pensamentos do coração; que são não somente maus, mas continuamente maus, e sobre coisas más, não sobre Deus e as coisas de Deus; “Deus não está em todos os seus pensamentos”, nem em qualquer um dos pensamentos dos homens ímpios; mas quando convertidos, seus pensamentos se voltam para o seu estado e condição por natureza, sobre suas almas, e o bem-estar eterno delas; e sobre Deus, e os métodos de Sua graça na salvação dos homens, essa é a conversão dos “desejos” do coração, que antes seguiam após as concupiscências e desejos vãos, carnais, mundanos e pecaminosos; mas agora ele anseia por Deus e a comunhão com Ele, por Cristo e a salvação por Ele, segundo o Espírito e as coisas do Espírito. Esta é a conversão dos “afetos” do coração, que antes eram “desordenados”, e corriam em uma direção errada; antes eles eram carnais, após as coisas do mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, mas agora eles são examinados, e voltados para Deus, seu coração é circuncidado para amá-lO. E eles amam a Deus com todo o coração e alma, porque Ele os amou primeiro; embora antes suas mentes carnais estavam em inimizade para com Ele; e em relação a Cristo, a quem agora eles amam carinhosamente, com fervor, superlativa e sinceramente; e pelos santos, que são agora os notáveis na terra, em cuja conversação está todo o seu deleite, embora antes os odiavam; e em direção à Palavra, adoração e ordenanças de Deus, em que eles têm prazer em participar, embora antes fosse um cansaço para eles.

A conversão é um voltar da “mente” das coisas carnais para as espirituais, e das coisas terrenas para as celestiais; sim, é uma mudança da “vontade”, que antes da conversão está em um estado muito ruim, é obstinada e inflexível, tendenciosa e se inclinava para o que é mau, é contrária a tudo o que é bom; mas na conversão, Deus “opera nos” homens “tanto o querer como o efetuar, segundo a Sua boa vontade”; Ele lhes concede uma outra vontade, ou não obstante, uma mudança da vontade deles, de modo que de um povo indisposto, eles são feitos um povo voluntário no dia do Seu poder sobre eles; de forma que eles não estavam dispostos a vir a Cristo para a salvação, e tomá-lO somente, para ser o seu Salvador; “E não quereis vir a mim para terdes vida”, diz Cristo (João 5:40), ou seja, vós não tens a vontade de vir a Mim de modo algum para terem vida e salvação; eles escolhiam, antes, ir a qualquer lugar em vez de ir até Ele para isso; mas agora eles são dispostos a serem salvos por Ele, e resolvem não ter nenhum outro Salvador, senão Ele; sim, embora Ele os mate, eles confiarão nEle, e dizem: “Ele será a nossa salvação”; e embora antes eles estiveram procurando estabelecer a sua justiça própria, e não iriam nem queriam submeterem-se à justiça de Cristo; agora seus corações robustos, que estavam longe da justiça, são enfraquecidos e tornam-se dispostos a serem encontrados em Cristo, e em Sua justiça somente; e na medida em que antes eles não queriam que Cristo reinasse sobre eles, e optaram por não estarem sujeito às Suas leis e ordenanças, agora eles são dispostos a reconhecê-lO como Seu Rei e Governador, e voltam os seus pés para os Seus testemunhos, e estimem os Seus preceitos acerca de todas as coisas como certos.

1d2. Conversão repousa em um homem ser transportado das trevas para a luz; diz o apóstolo, ele foi enviado por Cristo aos Gentios, como ministro do evangelho “para… das trevas os converteres à luz” (Atos 26:18), ou seja, para ser o instrumento ou meio de sua conversão, por pregar o evangelho para eles. Nisso, a conversão pode parecer coincidir com o chamado eficaz; mas pode-se observar, que a vocação eficaz é um chamado para, enquanto a conversão é um “voltar-se” dos homens das trevas para a luz; Deus não apenas chama para a luz, mas converte-os à luz em todos os sentidos; a Deus, que é a própria luz, e em quem não há treva alguma; a Cristo, que é a luz do mundo; ao evangelho, que é a grande luz que brilha sobre os homens que estão nas trevas; e à luz da graça, que é uma luz resplandecente, que brilha mais e mais até ser dia perfeito.

1d3. A conversão consiste na mudança dos homens “do poder de Satanás a Deus”, como na passagem acima (Atos 26:18). Satanás tem grande poder sobre os homens em um estado não-convertido, o seu lugar está em seus corações e estes são o palácio em que ele governa; ele trabalha efetivamente com grande poder e força nos filhos da desobediência, agitando as suas concupiscências e corrupções, sugerindo coisas más às suas mentes e tentando-os a elas; ele faz tudo o que pode para mantê-los em sua cegueira natural e ignorância, e para aumentá-la, e para impedi-los de ouvir o evangelho e do fato deste ser benéfico para eles, para que a luz dele brilhe em suas mentes. Satanás os prende e os leva cativos segundo a sua vontade; e eles são de bom grado liderados por ele, pelas concupiscências de seu pai que eles satisfarão; mas agora, na conversão, eles são convertidos de seu poder; despojados deles, e sua armadura na qual ele confiava lhe é tirada; a presa é retirada das mãos do poderoso, e o cativo da lei é liberto; homens são transportados do poder das trevas para o reino do Filho amado de Deus; e embora eles não estejam livres de suas tentações, contudo graça suficiente é concedida a eles para que as suportem, sendo o prazer de Deus salvá-los delas, o Qual brevemente o esmagará sob eles; e à medida que eles são, na conversão, retirados dele, eles são convertidos a Deus; os que antes estavam sem Ele e separados da vida de Deus, e estranhos a Ele; mas agora, eles são convertidos para conhecê-lO, amá-lO, para depositarem sua fé nEle, e para a comunhão com Ele.

1d4. Conversão consiste em converter os homens dos ídolos para servirem o Deus vivo; não apenas dos ídolos de prata e ouro, de madeira e pedra, como antigamente, mas a partir dos ídolos do próprio coração de um homem, suas paixões e corrupções; em relação a que a linguagem de um pecador convertido é: “Que mais tenho eu com os ídolos?”, esta é uma bênção derramada na conversão: “Ressuscitando Deus a seu Filho Jesus, primeiro o enviou a vós, para que nisso vos abençoasse”, no “apartar, a cada um de vós, das vossas maldades” (Atos 3:26). Na redenção, Cristo afasta as iniquidades de Seu povo ao suportá-las e fazer satisfação por elas; e na conversão, Ele, pelo Seu Espírito e graça converte-os de suas iniquidades; ele transforma-os do amor por elas a um ódio pelas mesmas, mesmo dos pensamentos vãos, bem como de ações pecaminosas; do serviço e trabalho penoso da iniquidade ao serviço da justiça; do poder e do domínio delas e sujeição a elas, e de um curso de vida nelas para uma vida de santidade; e dos caminhos do pecado para os caminhos da verdade e da retidão.

1d5. Conversão consiste em fazer voltar os homens de sua justiça própria para a justiça de Cristo; não de fazer obras de justiça – embora tais pessoas convertidas são mais aptas para, e mais capacitadas a, e estão sob maiores obrigações de realiza-las – mas a partir da dependência delas para a justificação diante de Deus e aceitação por Ele; de forma que eles são convencidos pelo Espírito de Deus da insuficiência de sua justiça própria para justificá-los, pois são imperfeitos; e da necessidade, perfeição e plenitude da justiça de Cristo, e sendo convertidos a Ele, recebem, abraçam, lançam mão e pleiteiam o Sua justiça justificadora diante de Deus. E isso requer mais do que os ensinamentos dos homens, pois, embora os ministros sejam descritos como “os que a muitos ensinam a justiça”, isto se refere à justiça de Cristo, mas apenas instrumentalmente, e como os meios disso, através da pregação do evangelho, em que há uma revelação dela; pois Deus é a causa eficiente da conversão deles a Ele; pois, embora o evangelho seja a ministração dela, contudo é o Senhor que deve atrair os duros de coração que estão longe da justiça, e torná-los dispostos a submeterem-se a ela, e estarem desejosos de serem encontrados nEle. Pois os homens, naturalmente, não se importam de reter a sua própria justiça; esta é propriamente sua, e o que eles têm tido há muito tempo e com grande esforço a ergueram, e não podem suportar tê-la demolida; eles de bom grado a seguram firmemente, e se inclinam sobre ela, embora ela não subsistirá; é o seu ídolo, no que eles colocam a sua confiança, e tirar isso deles é como tirar o seu deus; como disse Mica, quando seu ídolo foi roubado dele: “Os meus deuses, que eu fiz, me tomastes… que mais me resta agora?”. Por isso a conversão de uma pessoa que se julga justa aos seus próprios olhos é mais rara e difícil do que a conversão de um pecador devasso; daí o nosso Senhor dizer aos escribas e Fariseus, que “os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus”, e que Ele próprio não veio “chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento”.

1d6. Conversão consiste em um “voltar-se” do homem para o Senhor ativamente, sob a influência da graça Divina; e por esta frase é muitas vezes expressa na Escritura, como em Isaías 10:21; Atos 11:21; 2 Coríntios 3:16, os homens são plenamente convencidos de que não há salvação em nenhum outro, senão em Cristo, de forma que é em vão esperar em outro lugar; depois de terem feito muitos questionamentos e pesquisas sem propósito, se voltam para o Senhor Jesus Cristo, e olham para Ele por salvação; sendo alertados do perigo, eles se convertem à medida que são dirigidos, encorajados e habilitados para irem a Cristo, a fortaleza, onde estão a salvo dos perigos e de todos os inimigos. São sensibilizados quanto à insuficiência de sua justiça própria, e da idoneidade da justiça de Cristo para eles, eles se voltam para Ele como o Senhor sua justiça, em Quem toda a semente de Israel é justificada e se gloriará; e estando plenamente satisfeitos com a equidade das leis, regras e ordenanças de Cristo, eles se voltam para Ele como seu Senhor e Legislador, e se submetem às Suas ordens, renunciando a todos os outros senhores e seu domínio sobre eles.

E embora em seu estado natural, eles sejam como ovelhas desgarradas, na conversão eles são devolvidos a Cristo, como o grande Pastor e Bispo das almas. A parábola que representa o buscar, encontrar e trazer para casa a ovelha perdida, é uma representação da forma de conversão de um pecador, o povo de Cristo são as Suas ovelhas antes da conversão, mas são ovelhas perdidas, vagueando no deserto; e, como a ovelha nunca retorna ao rebanho, ao pastor e à pastagem por si mesma, a não ser que seja buscada e seja levada a retornar; assim é com eles, até que eles sejam procurados e encontrados, e trazidos para casa por Cristo, o proprietário deles, com alegria. As parábolas seguintes representam a mesma coisa; como a da moeda de prata [dracma] perdida, pois, ao busca-la a mulher acende uma vela e varre a casa, e procura por todos os cantos até que ela a encontra, o que lhe dá alegria; isso apresenta a alta estima e valor que os eleitos têm para Cristo, que é comparável à prata, sim à ouro fino e pedras preciosas; e a passividade dos homens à princípio na conversão, que não mais contribuem para sua própria conversão do que o pedaço de prata contribuiu para ser encontrado; e os meios e métodos utilizados na conversão, à luz do ministério do evangelho, e a agitação e alvoroço naquela ocasião.

Assim também ocorre na parábola do filho pródigo, e seu retorno ao seu pai, é expressivo do mesmo; sua maneira de viver antes de seu retorno é uma vívida imagem do estado dos homens não-convertidos, vivendo em suas concupiscências, e seguindo os desejos da carne e dos pensamentos. Em seu retorno há todos os sintomas de uma conversão verdadeira e real: como um senso de que ele estava morrendo à míngua, passando fome e que estava, por natureza, perecendo; seu retorno ao seu perfeito juízo, seu senso de pecado, a confissão deste e arrependimento por ele e a sua fé e esperança de encontrar uma recepção favorável da parte de seu pai, o que o incentivou a voltar, e foi isto que ele encontrou; (veja Isaías 55:7).

2. Em segundo lugar, as causas da conversão que são eficientes, móveis e instrumentais.

2a. Em primeiro lugar, a causa eficiente, que não é o homem, mas Deus.

2a1. Não é o homem, não é pelo poder e nem pela vontade do homem.

2a1a. Não é pelo poder do homem; o que se diz sobre a conversão ou saída dos Judeus de seu cativeiro, é válido para a conversão de um pecador, a saber: “Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos” [Zacarias 4:6]. Os homens estão mortos em um sentido moral, enquanto não-convertidos, eles estão mortos em seus delitos e pecados, que são a causa de sua morte; e sua própria vida em si não é outra senão a morte moral; nem podem vivificarem a si mesmos, e, a menos que eles sejam vivificados, eles não podem ser convertidos; e possuem em um senso moral mortificado, de modo que eles estão “fracos” [Romanos 5:6]; eles não estão apenas “enfermos pela carne” [Romanos 8:3], a corrupção da natureza, mas eles estão “sem força”; sem nenhuma força em absoluto para realizar o que é bom, e muito menos uma obra de tão grande importância como a sua própria conversão.

Eles não têm o domínio de si mesmo, nem qualquer poder sobre seus corações, pensamentos, desejos ou afetos; eles não podem vê-los e controlá-los ao seu bel prazer; eles não podem pensar alguma coisa, como de si mesmos, muito menos ter um bom pensamento; eles não podem direcionar os fluxos de seus desejos e afetos aos objetos apropriados; eles não podem mover suas mentes, nem dobrar as suas vontades, mesmo para aquilo que é o seu próprio benefício.

A conversão é uma tal transformação em um homem de modo que não estar em seu poder efetuar, é como um Etíope mudar a sua pele, e um leopardo as suas manchas; de tais coisas nunca se ouviu falar, como um mouro se tornar branco, e um leopardo se tornar limpo de suas manchas; assim é a grande improbabilidade de que um homem converta-se (Jeremias 13:23). Uma árvore primeiramente precisa ser feita boa, de modo a dar frutos bons: “Faça a árvore boa”, diz o Senhor; mas a árvore não pode fazer a si mesma boa; outra mão deve ser empregada neste caso para enxertá-la, cultivá-la e melhorá-la. Um espinheiro não pode transformar-se em uma videira, e assim produzir uvas; nem um cardo em uma figueira, para trazer figos; essas coisas são tão possíveis de acontecer quanto um homem converter-se e produzir bons frutos de justiça (Mateus 12:33; 7:16-18).

A conversão é o movimento da alma em direção a Deus; mas como este não pode existir em um homem morto e, a menos que ele seja vivificado, assim, a não ser que ele seja atraído pela graça eficaz; pelo que Deus, na conversão, atrai os homens com bondade para Si mesmo; e, com cordas de amor, ao Seu Filho; pois “ninguém”, diz Cristo, “pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer” (João 6:44). E até mesmo as pessoas convertidas são tão sensíveis a isso, que oram, como a igreja o fez, “Leva-me tu; correremos após ti” (Cânticos 1:4), a coisa fala por si mesma, e mostra que ela não pode ser feita pelo poder do homem; pois isso não é outra senão uma “criação”, o que exige poder de criação para efetivá-la, e tal poder a criatura não tem; pois a restauração ou conversão de um santo apóstata é uma criação e exige o poder do Criador para fazê-la. Sobre isto Davi, quando desviado, foi sensível e, portanto, orou: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro” [Salmos 51:10], então, muito mais é a primeira conversão de um pecador, e exige semelhante poder; esta é uma ressurreição dentre os mortos, e não é efetuada, senão pela sobreexcelente grandeza do poder de Deus, mesmo como o poder que foi expresso em ressuscitar a Cristo dentre os mortos (Efésios 1:19).

2a1b. Também não é a conversão devida à vontade dos homens; a vontade do homem, antes da conversão, está em um péssimo estado, pois escolhe seus próprios caminhos, e se deleita em suas abominações; ele busca avidamente os desejos da carne e dos pensamentos; ele é determinado a ir atrás de seus amantes e dos desejos que alimentam o seu apetite, e concede a si mesmo coisas agradáveis à mente carnal; a vontade se torna um escravo de desejos e prazeres carnais; embora a liberdade natural da vontade não seja perdida pelo pecado, ela pode livremente desejar as coisas naturais, como o comer ou beber, sentar, ou ficar em pé ou caminhar ao seu bel prazer; mas a sua liberdade moral é perdida, é algemada com as duas cadeias dos desejos pecaminosos, pelo que é vencida e levado ao cativeiro; e não obstante ele se gabe de sua liberdade, ele é um escravo nascido em casa; e, portanto, com razão, Lutero chamou isso de “servum arbitrium” [escravo arbítrio]: o homem não deseja o que é bom até que Deus opere isso nele, e de indisposto o faz voluntário no dia do Seu poder. O homem não-convertido não tem vontade de vir a Cristo e ser salvo por Ele; nem de submeter-se à Sua justiça; nem de estar sujeito às Suas leis e ordenanças, até que a vontade seja operada nele pela graça eficaz. Nega-se que a conversão seja a partir da vontade dos homens; pois como toda a salvação “não depende do que quer”; assim acontece com esta parte da salvação em particular; a regeneração, com a qual a conversão, no seu primeiro momento concorda, não é “nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Romanos 9:16; João 1:13).

Mas, pode-se dizer que se a conversão não está no poder e vontade dos homens, para que finalidade são as exortações como as seguintes; “Tornai-vos, e convertei-vos de todas as vossas transgressões; arrependei-vos, pois, e convertei-vos” (Ezequiel 18:30, 32 e Atos 3:19), ao que pode ser respondido, que estas passagens não relacionam-se à conversão espiritual e interna, mas a uma reforma exterior da vida e costumes. No primeiro caso, os Judeus estavam então em um estado de cativeiro, que era uma espécie de morte, como as aflições dolorida, por vezes, são denominadas (2 Coríntios 1:10), E para a qual eles foram trazidos por seus pecados: agora o Senhor declara, que Ele não tinha prazer neste estado desconfortável e condição deles; era mais desejável para Ele, e assim Ele os exorta a isso, a reforma de suas práticas malignas; em seguida, eles seriam libertos a partir de seu cativeiro, e viveriam confortavelmente em sua própria terra, como viviam anteriormente. Mas o que tem isto a ver com a conversão espiritual e interna de um pecador para a Deus? No que diz respeito àquele último caso, os Judeus foram ameaçados com a destruição de sua cidade e nação, por sua rejeição de Jesus, o Messias, e outros pecados que eles eram culpados; e agora o apóstolo aconselha aqueles a quem ele dirige seu discurso, a abandonarem suas noções erradas sobre Cristo, e se arrependerem de má forma de tratá-lO e aos Seus seguidores, e de seus outros pecados, de forma exterior, para que eles escapassem das calamidades que estavam vindo sobre a sua nação e povo. Mas, supondo que estas, e tais semelhantes exortações, fossem relativas à conversão interna do coração a Deus; tais exortações só podem ser projetadas para mostrar aos homens a necessidade de tal conversão à salvação; como nosso Senhor disse: “se não vos converterdes… de modo algum entrareis no reino dos céus” [Mateus 18:3], e quando os homens são convencidos disto, eles logo serão conscientes de sua impotência para converterem-se, e orarão, como Efraim, “converte-me, e converter-me-ei” [Jeremias 31:18], imediata e eficazmente; pois,

2a2. Somente Deus é o autor e a causa eficiente de conversão. Aquele que fez o coração do homem e formou o espírito do homem dentro dele, somente Ele pode transformar seus corações, e formar e moldar seus espíritos, como Lhe aprouver; o coração de um rei, e assim o de todos os outros homens, está nas mãos do Senhor, e Ele pode direcioná-los como os rios de água são dirigidos. Ele, e somente Ele, pode dar, e esquadrinhar, e converter os pensamentos, desejos e afetos do coração em outra direção e a mente e a vontade para outros objetos. Ele pode remover a obstinação da vontade, e dobrá-la ao Seu deleite, e torná-la flexível e adaptável à Sua própria vontade. Ele pode tirar a dureza do coração, embora seja como pedra de diamante, Ele pode suavizá-lo e deixa-lo suscetível das melhores impressões; Ele pode quebrar o coração de pedra em pedaços; sim, tirar o coração de pedra e dar um coração de carne; como Ele pode ter extrair dele o que quiser, para que Ele possa colocar nele o que quiser, como Ele faz na conversão com as Suas leis, o temor dEle e Seu espírito. Ele pode e os atrai, pela forte influência de Sua graça sobre eles, a Si mesmo e ao Seu Filho; e isso Ele faz sem forçar as Suas vontades; Ele docemente atrai, pela Sua graça, para que venham a Cristo e aos Seus preceitos; ele poderosamente convence Jafé a habitar nas tendas de Sem; Ele faz o Seu povo voluntário no dia de Seu poder, para fazer o que antes eles não tinham nenhuma vontade nem inclinação; e ainda assim eles agem mui livremente. O homicida não sente mais vontade de fugir para uma cidade de refúgio, para abrigar-se contra o vingador de sangue, do que um pecador, sensível ao seu perigo, foge para Cristo em busca de refúgio, e lança mão da esperança proposta diante dele.

O poder da graça Divina, expresso na conversão, é irresistível; isto é, tão irresistível, como que uma parada não pode ser colocada na obra, e esta tornar-se de nenhum efeito, por oposição feita a ela seja interior ou exteriormente. A conversão é de acordo com a vontade de Deus, a Sua vontade proposital, que nunca pode ser frustrada: “Porquanto, quem tem resistido à sua vontade?” [Romanos 9:19]. Seu conselho será firme, e Ele cumprirá todo o Seu prazer; ela é operada por Sua onipotência; a obra da fé, que é a principal parte da obra da conversão, é iniciada, continuada, e executada com poder; nem pode um pecador mais resistir, de modo a torna-la de nenhum efeito, ao poder de Deus na conversão, do que Lázaro conseguiu resistir ao poder de Cristo ao chamá-lo para fora de seu túmulo.

Se estivesse no poder da vontade dos homens dificultar o trabalho de conversão, de modo que ela não ocorresse, quando é o desígnio de Deus que ela ocorra; então Deus poderia se frustrar em Seu propósito, o que não deve ser dito; pois não há conselho, nem força contra Ele; sejam quais forem os dispositivos que estejam no coração de um homem, os conselhos de Deus nunca podem ser frustrados; quando Deus propôs converter um pecador, quem o poderá invalidar? e quando a Sua mão forte da graça está estendida para colocar esse efeito em execução, quem pode encolhê-la? quando Ele opera de alguma forma, e assim nisso, não há ninguém que possa impedir. Além disso, se a conversão ficasse de pé ou caísse de acordo com a vontade dos homens; ou se esse fosse o ponto de viragem na conversão do homem, isso deveria, antes, ser atribuído à vontade de homens do que à vontade de Deus; e não seria verdade o que se diz: “isto não depende do que quer” [Romanos 9:16]: sim, pois então a vontade dos homens teria maior impacto na conversão, em resposta a essa pergunta: “Porque, quem te faz diferente?” [1 Coríntios 4:7], poderia ser dito, como foi citado por um orgulhoso e altivo com livre-arbítrio, Grevinchovius: eu me fiz diferente.

A tudo isso pode-se objetar as palavras de Cristo; “quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!” (Mateus 23:37), mas deve ser observado que este ajuntar não deve ser entendido como conversão; mas sobre a participação no ministério da palavra sob João Batista, o próprio Cristo e Seus apóstolos; de forma que Cristo afetuosa e inoportunamente havia exortado-os; o que, se fosse considerado, os teria preservado da vingança iminente sobre Jerusalém, e também deve ser observado que não são as mesmas pessoas a quem Cristo gostaria de ajuntar, e aquelas sobre quem Ele diz: “e tu não quiseste”; pelo que intencionou-se os legisladores e governadores do povo, que não lhes permitiam participar do ministério do evangelho, mas os ameaçavam expulsá-los da sinagoga se eles o fizessem (Mateus 23:13).

2b. Em segundo lugar, a causa motriz ou que impulsiona a conversão é o amor, graça, misericórdia, favor e boa vontade de Deus; os mesmos são a causa motriz da regeneração e do chamado eficaz, e não os méritos dos homens; pois o que há ali nos homens antes da conversão que mova a Deus para dar esse passo em seu favor? (veja 1 Coríntios 6:9-11; Efésios 2:2-4).

2c. Em terceiro lugar, a causa instrumental, ou meios da conversão, geralmente é o ministério da palavra; às vezes, de fato, é feito sem a palavra, por alguma ou outra notável providência despertadora, e às vezes, lendo as Escrituras; mas, na maioria das vezes, é através da pregação da Palavra; portanto, os ministros são descritos como “os que a muitos ensinam a justiça” [Daniel 12:3]; e o apóstolo Paulo diz que ele foi enviado por Cristo para o mundo Gentio, “para… das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus” [Atos 26:18]; e isso é feito tanto pela pregação da Lei quanto do Evangelho: “A lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma” [Salmos 19:7], embora talvez não a Lei, considerada rigorosamente, mas toda a doutrina da Palavra está ali significada; no entanto, a pregação da lei é utilizada pelo Espírito de Deus para convencer do pecado; pois “porque pela lei vem o conhecimento do pecado” [Romanos 3:20]; e por meio dela, quando ela entra no coração e na consciência, sob Sua influência, o pecado evidencia-se excessivamente maligno, e a alma é cheia de grande angústia por causa disso; “Porque a lei opera a ira” [Romanos 4:15]; embora alguns o consideram sendo antes preparatório para a conversão, em vez de a própria conversão, isso pode ser melhor atribuído ao evangelho; e, de fato, o recebimento do Espírito, e Suas graças, e em particular a fé, são atribuídos à pregação do evangelho, e não à Lei, como o meio dos mesmos: “recebestes o Espírito pelas obras da lei?” [Gálatas 3:2], isto é, pela pregação da doutrina de obediência a ele; “ou pela pregação da fé?”, ou seja, pela doutrina do evangelho, a pregação da fé em Cristo; a qual é, portanto, chamada de “a palavra da fé”, e por ela vem; pois “a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Gálatas 3:2; Romanos 10:8, 17), mas, em seguida, a pregação da Palavra do Evangelho não é suficiente por si só para produzir a obra da conversão no coração; homens podem ouvi-lo, e não serem convertidos por ela; nem receberem qualquer benefício, proveito ou vantagem através dela; se ela vir somente em palavras, e não com a demonstração do Espírito e de poder; e quando é acompanhado com o poder de Deus; ou é feito o poder de Deus para a salvação, mesmo então, é apenas um instrumento, e não uma forma eficiente; pois “quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros [ou instrumentos] pelos quais crestes?” (1 Coríntios 3:5).

3. Em terceiro lugar, os sujeitos da conversão; estes não são todos os homens, porque todos, de fato, não são convertidos; nem parece ser o desígnio e o propósito de Deus converter todos os homens; nem Ele dá suficiente graça para que todos os homens se convertam, se quiserem; pois Ele não faz tanto como dar a todos os homens os meios da graça, o ministério externo da Palavra: esta não foi concedida aos Gentios por centenas de anos antes da vinda de Cristo; e desde então, milhões de pessoas nunca foram favorecidas com ele; nem o são uma multidão no dia de hoje; e quanto àqueles que têm a Escritura para ler, para muitos, é um livro selado, e para todos é assim, a menos que seja aberta pelo Espírito de Deus; e para quem o evangelho é pregado, o mesmo está escondido, a menos que lhes seja dado conhecer os mistérios do reino, que não é o caso de todos; as pessoas convertidas são os “eleitos” de Deus, tanto entre os Judeus quanto entre os Gentios, nos primeiros tempos do Evangelho, muitos entre os Gentios se converteram, e igrejas foram formadas por eles; e desde então tem havido conversões entre eles, e até hoje, e no último dia uma abundância deles serão convertidos; e quando a plenitude dos Gentios for trazida, então, os Judeus, dos quais agora e a seguir apenas alguém é convertido, eles serão todos como uma nação nascida de novo, convertidos e salvos. Aqueles convertidos são os “redimidos”, e a razão pela qual eles são convertidos é porque eles são redimidos: “Eu lhes assobiarei”, pelo ministério da Palavra, “e os ajuntarei”, o que é outro termo para conversão, “porque eu os tenho remido” (Zacarias 10:8), aqueles a quem Deus converte são as mesmas pessoas para as quais Ele forneceu o perdão dos pecados na Aliança da Sua graça, e uma herança eterna no Seu propósito Divino; pois o apóstolo diz que ele foi enviado por Cristo “para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim” (Atos 26:18). Em uma palavra, eles são descritos como “pecadores”; “os pecadores a ti se converterão” (Salmos 51:13). Pecadores por natureza e por prática, e alguns deles os piores e principais dos pecadores; e, portanto, a maravilhosa graça de Deus é mais demonstrada em sua conversão (1 Coríntios 6:11; 1 Timóteo 1:3,14-15).

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♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: A Body of Doctrinal Divinity • Book 6 — Chapter 13 • Of Conversion
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


A Prerrogativa Real – Charles Haddon Spurgeon

Sermão  Nº 1523, Pregado na Manhã do Dia do Senhor, 15 de fevereiro de 1880, por C.H. Spurgeon. No Tabernáculo Metropolitano, Newington.

“O nosso Deus é o Deus da salvação; e a DEUS, o Senhor, pertencem os livramentos da morte. Mas Deus ferirá gravemente a cabeça de seus inimigos e o crânio cabeludo do que anda em suas culpas” (Salmos 68:20-21).

Não o importa o que for dito sobre a dispensação do Antigo Testamento, e embora de forma tênue ela possa ter revelado algumas verdades de Deus, contudo havia uma questão que era clara como o sol, sob a economia do Antigo Testamento, a saber, o Senhor Deus de Israel é sempre muitíssimo notável. Deus está em tudo e sobre tudo, e a partir das páginas dos Profetas, assim como dos lábios dos coros do templo, ouvimos soando alto a nota: “O Senhor reinará eternamente; o teu Deus, ó Sião, de geração em geração. Louvai ao Senhor” (Salmos 146:10). Pelo sacerdote e Profeta, santo e Vidente, o testemunho único é confirmado: “O Senhor reina”. Você não pode ler o Livro de Jó sem tremer na majestosa Presença do Altíssimo. Também não podemos nos voltar para os Salmos sem sermos tomados com solene reverência, à medida que você vê Davi, e Asafe, e Hemã adorando o Senhor que fez o céu, a terra e o mar.

Em todas as passagens, desde Abraão até Malaquias, o homem é tido em pouca consideração e Deus é tudo em todos. Pouquíssima atenção é dada para quaisquer direitos imaginários e reivindicações do homem e o espanto é demonstrado no fato do criador atentar para o homem. Não lemos nenhum discurso sobre a dignidade da natureza humana, ou sobre a beleza do caráter humano, mas Deus, por Si só, é santo e quando Ele olha do céu Ele não vê ninguém que faça o bem, nenhum sequer! O homem é envolvido no pó de onde ele surgiu e ao qual ele retornará. Todo o seu orgulho é extirpado e sua formosura mirrada e, acima de tudo somente Deus é visto e ninguém ao lado dEle.

Será uma grande ofensa se, entrando na luz mais brilhante do Novo Testamento, formos menos vívidos em nossas concepções sobre a glória de Deus. Se Deus for menos claramente visto na Pessoa de nosso Senhor Jesus do que quando Ele estava sob os símbolos da Lei, será culpa de nossos corações cegos. Será prejudicial para nós transformarmos o dia em noite e, como corujas, ver menos porque a luz é aumentada! Que não seja assim entre nós, mas que seja em nossas Igrejas como no antigo Israel, do qual foi dito: “Conhecido é Deus em Judá; grande é o seu nome em Israel” [Salmos 76:1]. “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho” [Hebreus 1:1], e por Ele, como o Verbo Encarnado, Ele se revelou com um esplendo sétuplo, portanto, deve ser o grande deleite de nossa alma perceber Deus em todas as coisas – nos alegrarmos em Sua presença e engrandecê-lO em todas as coisas como Rei dos reis e Senhor dos senhores!

O Salmista, neste caso particular, atribui ao Senhor a ação universal e poder sobre nós, pois ele atribui a Ele as misericórdias da vida e as questões da morte. Ele diz: “Bendito seja o Senhor, que de dia em dia nos carrega de benefícios” [Salmos 68:19]. O Senhor amontoa Seus favores até que seu número se acumula na memória e seu valor sobrecarrega os ombros da gratidão. Ele nos concede tantas misericórdias que a mente é dominada no esforço para calcular o seu valor! Somos sobrecarregados com um senso de Sua bondade e a consciência de que não podemos retornar algum agradecimento adequado para tal abundância de graça diária. Esse é o nosso Deus na vida, Ele será na morte? Ficaremos sem Ele ali?

Não, bendito seja o Seu nome, “a DEUS, o Senhor, pertencem os livramentos da morte” [Salmos 68:20]. Seu reino inclui a terra da sombra da morte e todos os seus termos. Nós não morreremos sem Sua permissão, nem sem a Sua presença! Embora misericórdias temporais encontrarão o seu fim quando a vida terminar, ainda existem misericórdias eternas que ao longo da vida eterna devem manifestar a bondade do Altíssimo. E enquanto isso, por salvamentos, recuperações e fugas, seremos preservados de descer ao túmulo prematuramente. Se qualquer um de vocês, queridos amigos, foram trazidos para perto das portas da morte; se foram derrubados pela doença cansativa; se o seu coração se afundou dentro de você em uma espécie de morte mental, você irá, ao voltar à saúde e à força, mais cordialmente bendizer ao Senhor, que encontra para nós um caminho de voltarmos das proximidades do sepulcro! Ele não só é o Deus da vida, mas o Deus na morte. Ele nos mantém em vida e torna a vida feliz. Ele nos impede da morte e das agências ferozes que esperam arrastar-nos para o túmulo. Há questões fora da sombria terra limítrofe da doença, perigo e desespero, e o Senhor nos conduz pela Sua própria mão direita, para conduzir-nos ao livramento. Será que Ele não diz: Eu os farei voltar de Basã, farei voltar o meu povo das profundezas do mar”? [Salmos 68:22]. Devemos e vamos louvá-lO por isso com um novo cântico! Eu reúno a partir de nosso texto que a morte está na mão de Deus; que os livramentos da morte são manifestações de Seu poder Divino e que Ele é digno de ser louvado por eles.

O esboço do discurso desta manhã, como indicado pelo texto, é apenas isso: em primeiro lugar, a prerrogativa soberana de Deus: “a DEUS, o Senhor, pertencem os livramentos da morte”. Em segundo lugar, o Caráter do Soberano a quem essa prerrogativa pertence: “O nosso Deus é o Deus da salvação”. E, em seguida, em terceiro lugar, a solene advertência que este grande Soberano dá em referência ao exercício de Sua prerrogativa. Severas são as palavras! Que o Espírito Santo nos conduza a sentir o Seu poder: “Mas Deus ferirá gravemente a cabeça de seus inimigos e o crânio cabeludo do que anda em suas culpas”.

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I. Primeiro, então, com profunda reverência, falaremos sobre A SOBERANA PRERROGATIVA DE DEUS – “a DEUS, o Senhor, pertencem os livramentos da morte”. Reis estiveram acostumados a deter o poder da vida e da morte em suas próprias mãos. O grande Rei dos reis, o Governante Soberano e Senhor absoluto de todos os mundos reserva isso mesmo a Si, Ele permitirá que os homens morram ou lhes dará livramento da morte segundo aprouver à Sua própria boa vontade e prazer. Ele pode igualmente criar e destruir. Ele envia o Seu Espírito e eles são criados e em Seu próprio prazer Ele diz: “Voltai, ó filhos dos homens”, e eis que eles caem diante dEle como as folhas caídas no outono!

A prerrogativa da vida ou morte pertence a Deus em uma ampla gama de sentidos. Primeiro de tudo, quanto à vida natural somos todos dependentes de Sua boa vontade. Nós não morreremos até o tempo que Ele indica, pois o tempo de nossa morte, como todo o nosso tempo, está em Suas mãos. Nossas orlas podem roçar nos portais do sepulcro e ainda atravessarmos o portão de ferro ilesos se o Senhor for o nosso Protetor. Os lobos da doença nos caçam em vão até que Deus lhes permite-lhes vencer-nos.

Os inimigos mais desesperados podem nos atacar de surpresa, mas nenhuma bala deve encontrar o seu destino em qualquer coração sem que o Senhor o permita. Nossa vida nem sequer depende do cuidado dos anjos, nem a nossa morte pode ser causada pela malícia dos demônios. Somos imortais até que nosso trabalho esteja concluído! Somos imortais até que o Rei imortal chame-nos de voltar à terra onde seremos imortais em um sentido ainda mais elevado.

Quando estamos muito doentes e mais prontos para desfalecer na sepultura, não precisamos nos desesperar por causa da recuperação, uma vez que as questões da morte estão nas mãos do Todo-Poderoso. “O Senhor é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz tornar a subir dela” [1 Samuel 2:6]. Quando o nosso estado estiver além da habilidade do médico, não passamos além do socorro do nosso Deus, a Quem pertence os livramentos da morte. Espiritualmente, também, essa prerrogativa está em Deus. Estamos, por natureza, sob a condenação da lei por causa dos nossos pecados, e nós somos como criminosos julgados, condenados, sentenciados e enviados para a morte. Pertence a Deus, como o grande Juiz, ver a sentença executada, ou emitir um perdão gratuito, de acordo com o que Lhe agrada! E Ele nos fará saber que é do Seu supremo prazer que este assunto depende.

Sobre a cabeça de um universo de pecadores, eu ouço esta frase retumbante, “Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” [Romanos 9:15]. Presos nos laços da morte, como os homens estão devido os seus pecados, pertence a Deus perdoar quem Ele quer, ninguém tem qualquer pretensão de Seu favor e este deve ser exercido mediante mera prerrogativa, porque Ele é o Senhor Deus, misericordioso e clemente e Ele tem prazer em perdoar a transgressão e o pecado. Assim, também, o Senhor liberta Seu próprio povo crente da “morte, muitas vezes”, que faz parte da experiência deles. Embora, em Cristo Jesus, nós sejamos libertos da morte como penalidade, entretanto muitas vezes sentimos uma morte interior causada pela velha natureza, que exerce uma influência mortal dentro de nós. Sentimos a sentença de morte em nós mesmos que não podemos confiar em nós mesmos, mas em Jesus, em quem a nossa vida está escondida.

Pode ser que por algum tempo as nossas alegrias estejam amortecidas, o nosso vigor espiritual desvaneça, e dificilmente possamos saber se temos alguma vida espiritual remanescente dentro de nós. Tornamo-nos como as árvores de inverno cuja substância existe em si, mas a seiva deixa de fluir e não há nem fruta nem folha para acusar a vida interior secreta. Nós quase não sentimos uma emoção espiritual nestes tempos tristes e não nos atrevemos a nos descrever entre os vivos em Sião! Nesses momentos, o Senhor pode nos devolver a plenitude da vida! Só Ele pode restaurar nossa alma da cova da corrupção e levar-nos não somente para a vida, mas para tê-la mais abundantemente. Os livramentos da morte estão com o Espírito vivificador e quando nossas almas apegam-se ao pó, Ele pode nos revivificar novamente, até que exultemos com alegria indizível!

Como o clímax de tudo, quando realmente viermos a morrer e quando esses nossos corpos descerão ao túmulo sem piedade, como provavelmente eles irão, nas mãos de nosso Senhor Redentor estão os livramentos da morte! O arcanjo está agora mesmo esperando o sinal, uma rajada de sua trombeta será suficiente para reunir os eleitos de todas as terras, do leste ao oeste, do sul ao norte! Então, a morte, em si, deve desaparecer, e os justos se levantarão –

“Dos leitos de pó e barro silencioso,
Para os reinos do dia eterno.”

“Eu sou a ressurreição e a vida” [João 11:25], diz Cristo, e Ele é ambos para todo o Seu povo. Não é Ele a Vida, pois Ele diz: “quem crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá”? Não é Ele a Ressurreição, pois Ele diz: “quem crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá”? Aquele resplandecente dia brilhante em que os santos hão de subir com o seu Senhor mostrará como a Deus, o Senhor, pertencem os livramentos da morte!

A nossa tradução é muito feliz, porque ela traz tantas representações e inclui não apenas o livramento da morte, a libertação da condenação, renascimento da morte espiritual e o levantar-se da mortal depressão mental, mas o resgate de estragos diretos da morte pelo nosso ser ressuscitado novamente do túmulo! Em todos estes aspectos, o Senhor Jesus tem a chave da morte, Ele abre e ninguém fecha, Ele fecha e ninguém abre. Quanto a esta prerrogativa, podemos dizer, primeiro, que a Deus pertence o direito de exercê-la. Este direito advém, em primeiro lugar, dEle ser o nosso Criador. Ele diz: “todas as almas são Minhas” [Ezequiel 18:4]. Ele tem um direito absoluto de fazer conosco o que Lhe agrada, vendo que Ele nos fez e não nós a si próprios. Os homens se esquecem do que eles são e vangloriam-se de grandes coisas, mas, na verdade, eles são apenas como o barro na roda do oleiro e Ele pode formá-los ou pode quebrá-los como Lhe aprouver. Eles não pensam assim, mas Ele sabe que seus pensamentos são vãos.

Oh, a dignidade do homem! Que tema para um discurso sarcástico! Como o sapo da fábula se inchou até que explodiu, o mesmo acontece com o homem, em seu orgulho e despeito contra o seu Criador, que está assentado sobre o círculo da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos” [Isaías 40:22], e as nações são consideradas por Ele como a gota de um balde, e como o pó miúdo das balanças [v. 15]. A prerrogativa do Senhor sobre a Criação é manifestamente ampliada moralmente pela nossa perda de qualquer consideração que possa ter surgido por obediência e retidão se os tivéssemos possuído. Nossa culpa envolveu a perda de reivindicações na qualidade de criatura, qualquer que elas pudessem ter sido. Somos todos culpados de alta traição, e cada um de nós é culpado de rebelião pessoal; portanto, não temos os direitos dos cidadãos, mas jazemos sob sentença de condenação.

O que diz a voz infalível de Deus? “Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las” (Gálatas 3:10). Estamos debaixo dessa maldição; a Justiça nos sentenciou como culpados, e, por natureza, nós permanecemos condenados. Se, então, o Senhor terá o prazer de nos livrar da morte, isto permanece com Ele para fazê-lo; mas não temos direito a tal libertação, nem podemos usar qualquer argumento que seria proveitoso nos tribunais de justiça para a reversão da pena ou suspensão da execução. Antes, no tribunal de justiça no que diz respeito ao nosso caso será difícil fazer qualquer alegação de direito. Seremos expulsos com o desdém do juiz imparcial, se nós apelarmos o nosso processo sobre essa base. Nosso procedimento mais sábio é apelar para a Sua misericórdia e Sua Graça Soberana, pois somente isto é a nossa esperança.

Compreenda-me claramente: Se o Senhor fizer com que todos nós pereçamos, nós apenas receberemos o que merecemos, e nós não temos, nenhum de nós, sequer uma sombra de reivindicação de Sua misericórdia; nós estamos, portanto, absolutamente nas mãos de Deus, e a Ele pertencem as questões da morte. Este direito de Deus para salvar é ainda manifestado pela redenção de Seu povo. Poderia ter sido dito que Deus não tinha direito de salvar, se ao salvar, Ele diminuísse a Sua justiça. Mas agora que Ele colocou o socorro sobre Alguém que é poderoso e Seu Filho unigênito tornou-se uma vítima em nosso lugar – para magnificar a Lei e torná-la gloriosa – o Senhor Deus tem um direito inquestionável de libertar da morte os Seus próprios redimidos por quem o Substituto morreu! Nosso Deus salva o Seu povo, em coerência com a justiça, ninguém pode questionar Seu agir corretamente, mesmo quando Ele justifica o ímpio. Seu direito e poder sobre os livramentos de morte são, no caso de Seus próprios entes comprados por sangue, claros como o sol ao meio-dia e quem discutirá com Ele?

Nosso texto, no entanto, coloca a prerrogativa sobre o único fundamento de senhorio e nós preferimos voltar a isso. “A DEUS, o Senhor, pertencem os livramentos da morte”. Esta é uma doutrina que é muito desagradável nestes dias, mas, no entanto, deve ser sustentada e ensinada: que Deus é um soberano absoluto e age como quer. As palavras de Paulo não podem ser silenciadas: “Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?” [Romanos 9:20]. O Senhor não pode agir errado. Sua natureza perfeita é a lei em si! No caso dele Rex é Lex – o Rei é a Lei! Ele é o Manancial e Fonte de todos os direitos, verdade, regra e ordem. Sendo absolutamente perfeito em Si mesmo e compreendendo todas as coisas, não é possível para Ele fazer o contrário do que é correto. Ele é a Bondade, Verdade e Justiça em Si e, portanto, as prerrogativas do Seu trono não são limitadas e ao Senhor do céu e da terra pertencem os livramentos da morte!

Falamos o suficiente sobre essa questão de direito. Eu prossigo para observar que o Senhor tem o poder dessa prerrogativa. Com Ele está a capacidade de libertar os homens da morte natural. Jeová Rafá é um Médico que nunca fica perplexo. Medicamentos podem falhar, mas não o grande Criador de todas as plantas, ervas e medicamentos úteis! Estudo e experiência podem não ser inovadores, mas Aquele que formou o corpo humano conhece suas partes mais complexas e em breve pode corrigir seus distúrbios! Deus pode restaurar nossa saúde mesmo quando uma centena de doenças nos acometem ao mesmo tempo. Coragem, vocês desfalecidos e olhem para cima! Certamente, quanto à alma, não há nenhum caso de homem tão distante que Deus não possa encontrar um livramento de sua morte. Ele pode expulsar sete demônios e uma legião de pecados diabólicos! Pois a Deus, o Senhor, pertence os livramentos da morte, embora sujo de pecado e desesperadora seja a condição causada pela transgressão. Aquele que ressuscitou Lázaro dentre os mortos depois de quatro dias pode levantar o mais corrupto da sepultura de suas iniquidades. Oh, que pecadores despertados cressem nisso!

Lembro de ter lido sobre um antigo ministro que tinha, há alguns anos, caído em desânimo profundo. Ele desistiu de seu púlpito e manteve-se por muito tempo isolado, sempre escrevendo coisas amargas contra si mesmo. Por fim, quando ele estava em seu leito de enfermidade, um servo de Deus foi enviado a ele, que lidou sabiamente com ele. Este bom homem disse ao desesperançado: “Irmão, você crê nesta passagem: ‘Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus’?”, “Eu creio nisso”, ele disse, “com todo o meu coração, estou convencido”, aqui o outro o deteve: “Eu não perguntei quais são as suas convicções, nem o que seus sentimentos podem ser, mas eu vim para te dizer que o homem que confia nessa promessa vive”. Esta declaração simples do Evangelho foi feita, pelo Consolador Divino, o meio de suprema consolação para o desesperançado!

Que ela possa ser igualmente útil a todos aqueles que a ouvem. Aquele que pode pendurar a esperança de sua alma sobre a capacidade infinita de Cristo para salvar, é um homem salvo! Aquele que crê nEle tem a vida eterna! Que bênção é essa! O Diabo pode me dizer que eu nunca escaparei da morte merecida e que eu estou preso para sempre por causa dos justos resultados das minhas transgressões. Minha própria consciência, conhecendo minha indignidade também pode me condenar milhares de vezes! Mas a Deus, o Senhor, pertencem os escapes da morte e Ele pode e me arrebatará do meio das garras da morte, pois acredito nEle! Ele é capaz de trazer aqueles que Ele ordena, para poupar até mesmo da extrema profundeza do desespero!

O direito absoluto de Deus é apoiado pela onipotência e, portanto, Sua prerrogativa torna-se um fato. E isso não é tudo, o Senhor tem efetivamente exercido essa prerrogativa em abundantes casos. Quanto a esses livramentos de morte, que são vistos na restauração da doença, não preciso lembrar que estes são abundantes o suficiente. Às vezes, estes têm vindo de forma milagrosa, como quando Ezequias teve sua vida prolongada em resposta à oração, e quando muitos outros foram curados pelo Salvador e Seus Apóstolos. A vida tem sido preservada na cova dos leões e na barriga de um peixe; em uma fornalha ardente e no coração do mar. A morte não tem flecha na Sua aljava que possa ferir o homem a quem Deus ordena viver! Fora do perigo iminente, o Senhor ainda liberta em meio ao curso normal da Providência e há pessoas presentes, nesta manhã, que são provas de Seu poder de interposição. Ele levantou alguns de nós a partir de prostração do corpo e da depressão de espírito. Ele salvou outros de naufrágio e incêndio de forma muito singular e aqui estamos nós, vivendo para louvar a Deus, como fazemos neste dia!

Deus tem exercido essa prerrogativa espiritualmente. Em que miríade de casos Ele libertou almas da morte! Pergunte acolá, aos anfitriões vestidos de branco no céu: “Deus não demonstrou a vocês o Seu poder soberano para salvar?”. Pergunte a muitos aqui abaixo que provaram que Ele é misericordioso e eles te dirão: “Ele me salvou”. De acordo com a Sua misericórdia, concedeu um perdão gratuito, assinado por Sua mão real, dizendo: “Livre-o de descer à cova, pois eu encontrei um Resgate”. Por que Sua soberania foi interposta para nos resgatar da morte não sabemos explicar. Nós muitas vezes perguntamos: “Por que eu fui levado a ouvir Sua voz? Como eu fui escolhido para viver?”. Contudo, permanecemos em silêncio, com grata admiração, e não inventamos nenhuma resposta! A vontade Divina, apoiada pelo poder Divino, operou o propósito soberano de amor e aqui estamos, salvos de uma morte tão grande por meio do amor invencível. Sim, de fato, a Deus, o Senhor, pertencem os livramentos da morte!

Venham, então, irmãos e irmãs, que Ele tenha toda a glória por isso! Se vocês estão vivos depois de uma longa doença, bendizei o Senhor, que perdoa todas as nossas iniquidades, quem sara todas as nossas enfermidades! Se vocês estão salvos da condenação nesta manhã e o sabem, bendizei o Senhor que nos aceita no Amado! Se vocês sentem, neste momento, que a morte do pecado não tem domínio sobre vós, pois a vida da Graça reina interiormente, então bendigam ao Senhor, que vos vivificou e nos fez andar em novidade de vida! Glorificai o Seu Nome neste dia, a Quem, em amor por vossa alma, vos libertou do abismo da corrupção e lançou todos os seus pecados atrás de Suas costas! Mais uma vez, se vocês têm uma gloriosa esperança de uma ressurreição abençoada e sentem que vocês podem sorrir na morte porque Deus sorri para vocês, então bendigam ao Senhor, que vos ressuscitará no último dia! Seu Redentor vive e vivereis, porque Ele vive! Portanto batam palmas com santa alegria! Bendigam ao Nome todo-glorioso dAquele a Quem pertencem os livramentos ou libertações da morte.

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II. Assim, eu expus a prerrogativa. E agora, em segundo lugar, sigam-me com os seus pensamentos enquanto eu mostro O CARÁTER DO SOBERANO em quem essa prerrogativa é investida. Não podemos, em cima desta terra, exibir muito amor a príncipes humanos que afirmam domínio absoluto. O imperialismo não é a nossa posição. Entre as piores maldições que já caíram sobre a humanidade estão os monarcas absolutistas, hoje em dia os homens os repelem como Paulo sacudiu a víbora no fogo. Que o Senhor conceda que vejamos o fim da última das dinastias despóticas e que as nações sejam livres. Não podemos suportar um tirano e ainda se pudéssemos ter déspotas absolutamente perfeitos, humanamente falando, essa não poderia ser a melhor forma de governo.

Certamente, o grande e eterno Deus, que é o Rei dos reis e Senhor dos senhores, é absolutamente perfeito e podemos estar muito contentes em deixar todas as prerrogativas e investir todos os poderes em Suas mãos. Ele nunca pisou os direitos do mais vil, nem esqueceu o mais fraco. Seu pé não esmaga um verme desnecessariamente, nem Ele matou uma mosca com injustiça. Ele nunca fez uma maldade, nem operou uma injustiça. Nós oprimimos os outros, mas o Juiz de todos não oprime a ninguém! O Senhor é santo em todos os Seus caminhos e Sua misericórdia dura para sempre e as prerrogativas mais amplas são apresentados de forma segura em tais mãos.

Nosso texto nos diz ainda mais, isto é, nas mãos de Quem os livramentos da vida e da morte são deixados: “O nosso Deus é o Deus da salvação”. Pecador, a sua salvação pertence a Deus, mas, por isso, não fique desencorajado, pois este Deus, em quem o assunto repousa é o Deus da salvação, ou de “salvações”, pois assim está no Hebraico. O que queremos dizer com isso? A Escritura quer dizer, em primeiro lugar, que a salvação é o mais glorioso de todos os desígnios de Deus. Desde que o mundo foi feito, o trabalho de salvação foi executado por meio de Sua história como um fio de prata. O Senhor fez o mundo e iluminou a lua e as estrelas e estabeleceu o céu, a terra e o mar em ordem, com os Seus olhos sobre a salvação em todo o arranjo. Ele regulou todas as coisas pelo Seu supremo governo, com o mesmo fim.

As grandes rodas de Sua Providência estiveram girando esses 6.000 anos diante dos olhos dos homens e entre eles. E em suas costas uma mão sempre esteve se movendo para realizar cada movimento quanto à questão final, que é a salvação dos que estão na Aliança! Este é o objeto mais querido para o coração de Jeová. Ele ama salvar! Deus estava contente com a criação, mas não como Ele está com a Redenção. Quando Ele fez os céus e a terra, foi uma obra comum para Ele. Ele apenas falou e disse: “É bom”. Mas quando Ele deu Seu Filho para morrer, de modo a redimir o Seu povo, e quando os Seus eleitos iam sendo salvos, Ele não falou com de maneira breve como na criação: Ele cantou! Não está escrito: “calar-se-á por seu amor, regozijar-se-á em ti com cânticos” (Sofonias 3:17 – KJV, tradução literal).

A Redenção é uma questão sobre a qual o Senhor canta! Você é capaz de imaginar o que deve acontecer para Deus cantar? Para o Pai, Filho e Espírito Santo irromperem em um hino de júbilo sobre a obra da salvação? Isso ocorre porque a salvação é muitíssimo querida ao coração de Deus, e na qual toda a Sua natureza está mais intensamente envolvida. O juízo é a sua obra estranha, mas Ele Se deleita na misericórdia! Ele tem demonstrado muitos atributos na realização de outras obras, mas nesta, Ele revelou todo o seu Ser. Ele é visto nesta como mui poderoso para salvar. Nisto, Ele desnudou Seu braço. Para isso, Ele tomou o Seu Filho do Seu seio. Para isso, Ele fez com que Seu Unigênito fosse ferido e levado a sofrer. A salvação é o propósito eterno do mais íntimo do coração de Deus e por meio dela Sua maior glória é revelada! Esse, então, é o Deus a quem pertencem os livramentos da morte, o Deus cujo desígnio grandioso é a salvação! Cantai ao Seu nome e exultai que o Senhor reina, o Senhor é a minha força e o meu cântico, quem também se tornou a minha salvação.

Se você perguntar, mais uma vez, o que isso significa: “O nosso Deus é o Deus da salvação”, lembramos que as obras mais encantadoras que o Senhor tem realizado têm sido obras de salvação. Salvar os nossos primeiros pais no portão do Éden e dar-lhes uma promessa de vitória sobre a serpente foi a alegria de Deus. Abrigar Noé na arca também foi Seu prazer. O afogamento de um mundo culpado era necessário, mas a salvação de Noé foi agradável ao Senhor, nosso Deus. Ele destruiu a terra com a mão esquerda, mas com a mão direita Ele guardou os únicos justos que encontrou. Salvar o Seu povo é sempre a Sua alegria, Ele prossegue nisso avidamente! Montou um querubim e voou, sim, voou sobre as asas do vento, quando Ele veio libertar Seus escolhidos! Que proclamação Ele faz sobre a Sua obra salvadora no Mar Vermelho! Toda a Escritura está cheia de alusões à grande salvação da escravidão no Egito e até no Céu eles cantam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro.

O Velho Testamento parece tocar esta nota, “Cantai ao Senhor, porque gloriosamente triunfou; e lançou no mar o cavalo com o seu cavaleiro” [Êxodo 15:21]. O Senhor se alegrou muito ao fazer um caminho através do deserto e um caminho através das profundezas para o Seu próprio povo, para que pudesse operar a salvação para eles no meio da terra. Depois, no Antigo Testamento, como eles mantêm os registros de salvações! A o registro dos reis que oprimiam o povo, mas quão dedicadamente eles gastam tempo descrevendo a maneira em que Deus redimiu Israel de seus adversários. Que nota de alegria há sobre Golias que foi morto e o filho de Jessé trazendo sua cabeça ensanguentada, e Israel liberto da jactância da Filístia! Eles bem disseram: “O nosso Deus é o Deus da salvação”. Ele tem prazer nos atos da Graça, estes são os Seus deleites. Estas são Suas recreações. Ele sai em Suas vestes reais e coloca a Sua coroa com joias quando Ele se levanta para salvar o Seu povo e, portanto, Seus servos, clamam bem alto: “Bendizei, povos, ao nosso Deus, e fazei ouvir a voz do seu louvor, ao que sustenta com vida a nossa alma, e não consente que sejam abalados os nossos pés” [Salmos 66:8-9].

Este, então, é o Deus em quem está investida toda a soberania sobre os livramentos da morte. Ele tem prazer, não na destruição, mas na salvação dos filhos dos homens! Onde a prerrogativa estaria melhor colocada? “O nosso Deus é o Deus da salvação”, também significa que no tempo presente o Deus que é pregado para nós é o Deus da salvação. Vivemos, neste momento, sob a dispensação da misericórdia. A espada é embainhada, a balança da justiça é afastada. Essa balança não está destruída e aquela espada não está quebrada, nem mesmo está anulada, mas, por um tempo, ela repousa em sua bainha. Hoje, sobre todas as nossas cabeças se estende o cetro de prata do amor eterno. Um coro angelical ouvido pela primeira vez pelos pastores em Belém, persiste, ainda, nas regiões celestes, se você tem ouvidos para ouvi-lo: “Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens” [Lucas 2:14].

O reinado mediatório de Cristo é aquele de múltiplas salvações. “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” [Mateus 11:28] é o anúncio salvífico do Deus que reina! O Deus da era Cristã é o Deus da salvação. Ele é apresentado diante de nós como vindo buscar e salvar o perdido! Ele habita entre nós pelo Seu Espírito permanentemente, não como um Juiz punindo criminosos, mas como um Pai recebendo Seus filhos errantes em Seu seio e alegrando-se com eles, uma vez mortos, mas agora vivos! Deus, em Cristo Jesus, nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, é Aquele que vivifica a quem Ele quer e é ordenado a dar a vida eterna a todos quantos o Pai Lhe deu. Onde mais todo o poder poderia ser colocado com mais segurança? Mais uma vez: “O nosso Deus é o Deus da salvação”, ou seja, para àqueles que pertencem à Sua Aliança, aqueles que podem chamá-lo de “nosso Deus”, Ele é especial e enfaticamente o Deus da salvação. Não há destruição para aqueles que O chamam de “nosso Deus”, pois, “agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” [Romanos 8:1]. Jesus não veio para condenar o mundo, mas para que o mundo, por meio dEle, fosse salvo. “Porque este Deus é o nosso Deus para sempre; ele será”, nosso destruidor? Não, “Ele será nosso guia até à morte” [Salmos 48:14]. Este Deus é o nosso Sol e Escudo e Ele dará graça e glória. Agora, observem bem este fato: nós, que com fé invocamos ao Senhor, “nosso Deus”, nesta manhã vos diremos que fomos salvos inteiramente pela Graça Soberana de Deus e não através de qualquer melhoria natural provinda de nós mesmos, nem através de qualquer coisa que nós tenhamos feito para merecer o Seu favor.

Foi porque Ele olhou para nós com consideração piedosa e bondosa, quando estávamos mortos em pecado que, portanto, vivemos! Quando estávamos deitados em nosso sangue e em nossa imundícia, Ele passou no tempo de amor e nos disse: “Vive”. Se Ele tivesse passado e nos deixado para morrer, Ele teria sido infinitamente justo ao fazê-lo, mas Seu coração o inclinou a fazer de outra maneira. Ele olhou para nós e disse: “Vive”, e nós vivemos e nós bendizemos ao Seu nome, de forma que ainda estamos vivendo e louvando a Sua eterna e infinita misericórdia! Aquele que diz: “eu mato, e eu faço viver” [Deuteronômio 32:39] é Aquele que nos vivificou, embora nós estivéssemos mortos em nossos delitos e pecados! Certamente, Aquele que exerceu Sua prerrogativa, tão gentilmente para conosco, pode ser confiável para exercê-la para com todos os que vêm a Ele de acordo com o Seu convite gracioso! Se houver qualquer homem que diz: “Alegro-me com a eleição de Deus, porque, embora Ele tenha me salvado, deixou os outros a morrer”, eu não desejo ter nenhuma simpatia com o seu espírito.

Minha alegria é de um tipo muito diferente, pois eu argumento que Aquele que salvou um tal indigno como eu sou, não lançará fora ninguém que vem a Ele pela fé! Sua eleição não é estreita, pois abrange um número que ninguém pode contar, sim, todos os que hão de crer em Jesus! Ele espera para ser misericordioso e aquele que vem a Ele, Ele de maneira nenhuma o lançará fora. A festa de casamento precisa de inúmeros convidados e todos os assentos devem ser preenchidos. Desejamos que toda a raça humana pudesse vir e aceitar as disposições do Amor infinito e estamos ansiosos para ir para as ruas e valados e compeli-los a entrar! Nós nos alegramos em saber que, se qualquer homem está excluído de Cristo e da esperança, ele trancou a si mesmo do lado de fora, embora, ao mesmo tempo, sentimos que, se alguém está sendo trazido para o lado de dentro, este alguém não levou a si mesmo para dentro, antes a Graça imerecida operou a sua salvação. A Justiça governa na condenação, mas a Graça reina na salvação!

Na salvação devemos atribuir tudo à Graça, absolutamente e sem reservas. Não deve haver nenhuma gagueira sobre esta Verdade de Deus! Alguns começam a dizer Graça, mas eles não terminam com a palavra, eles a gaguejam terminando em “livre-arbítrio”. Isso nunca funcionará! Isso não está de acordo com o ensinamento da Sagrada Escritura, não está de acordo com os fatos. Se há aqui alguém que pensa que foi salvo como o resultado de sua própria vontade, à parte da poderosa graça de Deus, deixe-o jogar o chapéu para cima e engrandecer a si mesmo para sempre: “Glória à minha boa disposição!”. Mas, quanto a mim, cairei aos pés do trono de Deus e direi: “A graça reina pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo. Tivesse Tu, ó Deus, me deixado em minha própria vontade, eu ainda continuaria a desprezar o Teu amor e a rejeitar a Tua misericórdia”.

Certamente, todo o povo de Deus concorda que este é o fato em seu próprio caso, no entanto, embora isso seja diferente, teoricamente, da declaração geral. Sim, a prerrogativa de vida e morte está em boas mãos, está nas mãos dAquele que é o Deus da nossa salvação e rogo a todos aqui presentes que não são salvos, a serem encorajados a se curvarem diante do Trono do grande Rei e clamarem pela misericórdia dAquele que está sempre pronto para salvar! Vá para casa e tente merecer a salvação e você perderá os seus esforços! Prossiga em adequar a si mesmo por misericórdia e forjar algum bem que possa atrair a atenção de Deus e você enganará a si mesmo e insultará a majestade do Céu!

Mas, venha como você está, totalmente culpado, vazio, sem mérito e caído diante do grande Rei que você tão frequentemente provocou e rogue a Ele, que em Sua infinita misericórdia, apague as suas transgressões, mude a sua natureza e faça de você uma propriedade Sua e veja se Ele te rejeitará! Não está escrito: “Mas contigo está o perdão, para que sejas temido” [Salmos 130:4]? E mais uma vez: “o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” [João 6:37]. Seu Trono é um Trono da Graça! A misericórdia está para sempre posta diante dEle! Ele é o Senhor, Deus misericordioso e compassivo, tardio em irar-se e grande em benignidade! Alguma vez, foi rejeitado algum penitente que demandou perdão aos Seus pés soberanos? Nunca! Nem tal caso ocorre enquanto a terra permanece.

Se você tentar comprar o Seu favor, você será recusado. Se você reivindicá-lo como um direito, você será rejeitado. Mas se você vier e aceitar a salvação da caridade Divina e a receber por meio da Expiação de Cristo Jesus, o Senhor, você encontrará um livramento da morte! Ouça o testemunho de Jeremias e seja encorajado a prostrar-se diante do Senhor: “Invoquei o teu nome, Senhor, desde a mais profunda masmorra. Ouviste a minha voz; não escondas o teu ouvido ao meu suspiro, ao meu clamor. Tu te aproximaste no dia em que te invoquei; disseste: Não temas. Pleiteaste, Senhor, as causas da minha alma, remiste a minha vida” [Lamentações 3:55-58].

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III. Nosso último dever é ouvir A SOLENE ADVERTÊNCIA DE NOSSO SOBERANO SENHOR. Um novo deus tem sido ultimamente criado entre os homens, o deus do Cristianismo moderno, o deus do pensamento moderno, um deus feito de mel ou açúcar. Ele é todo clemência, bondade, mansidão e indiferente quanto à questão do pecado. Justiça não há nele e quanto à punição pelo pecado, ele não a conhece. O Antigo Testamento, como você está, sem dúvida, ciente por meio dos sábios deste mundo, tem uma visão muito severa de Deus e, portanto, a sabedoria moderna coloca-O de lado. Na verdade, metade da Palavra de Deus está desatualizada e tornou-se um desperdício de papel!

Embora o nosso Senhor Jesus não veio “destruir a Lei ou os Profetas”, mas para cumpri-los, contudo os avançados pensadores destes tempos iluminados nos dizem que a ideia de Deus no Antigo Testamento é falsa. Temos que acreditar em um novo deus que não se importa se o que fazemos é certo ou errado! “Por sua disposição todos virão para o mesmo fim. Pode haver alguma distorção por algum tempo por alguns que são bastante incorrigíveis, mas, finalmente tudo se endireitará. Viva como você gosta! Vá e blasfeme e beba. Vá e oprima os povos e faça guerras sangrentas e aja como quiser. Por meio do patriotismo, você estará bem quando tudo acabar!”. Este é aproximadamente o credo moderno que envenena toda a nossa literatura.

Mas deixe-me dizer por Jeová: isso não será como os homens sonham! Jeová, o Juiz de toda a terra, tem que cumprir o direito. O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó é o Deus de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, Ele será chamado o Deus de toda a terra. Ele não mudou nem uma partícula na severa integridade de Sua natureza e Ele, de modo algum, poupará o culpado! Leia, a seguir, o último versículo do nosso texto e creia que é tão verdadeiro hoje como quando foi escrito pela primeira vez e que, se o próprio Jesus estivesse aqui, o Ser Manso e Humilde, Ele poderia dizer isso em tom de terna solenidade, mas Ele o proferiria dizer o mesmo, a saber: “Mas Deus ferirá gravemente a cabeça de seus inimigos e o crânio cabeludo do que anda em suas culpas”. É evidente a partir destas palavras que Deus não é indiferente ao caráter humano. Nosso Deus conhece os Seus inimigos. Ele não os confunde com os amigos, nem os trata como tais. Ele considera a iniquidade como uma transgressão e, portanto, Ele não quebrou os limites da Lei, nem as fronteiras do direito, ainda há ofensas e Deus as percebe e as observa, e os tais que continuam em seus pecados estão provocando a Sua longanimidade e provocando a Sua justiça! Deus não dorme, nem dormita diante do pecado humano, mas convoca a todos os homens em todos os lugares que se arrependam! E é claro, também, que Deus tem o poder para ferir aqueles que se rebelam contra Ele.

Não sonhem confiando que leis naturais resguardarão os ímpios: “Deus ferirá gravemente a cabeça de seus inimigos”. Eles podem erguer aquelas cabeças tão alto quanto quiserem, mas não podem estar fora do alcance das Suas mãos! Ele não apenas ferirá seus calcanhares, ou ferirá as costas com golpes que podem ser curados, mas em suas cabeças Ele fará golpes fatais e abatera até o pó. Ele pode fazê-lo e Ele o fará! Eles podem ser muito fortes e seu couro cabeludo coberto de pelos pode indicar força inabalável, mas eles não podem resistir à Onipotência! Pode não haver nenhum sinal até agora da calvície, que advém da fraqueza ou da escassez de cabelo que é um sinal de velhice, mas vãos são aqueles que se vangloriam do vigor, mesmo em seu apogeu Ele pode fazê-los murchar como a erva do campo!

O orgulho pode gloriar-se de sua beleza – seu crânio cabeludo, como o de Absalão, pode ser sua glória –mas como o Senhor fez o cabelo de Absalão ser o instrumento de sua desgraça, assim Ele possa fazer a vanglória do homem ser a sua ruína. O orgulho vem antes da destruição e um espírito altivo, antes da queda. Ninguém está fora do alcance de Deus, e nenhuma nação também! Os grandes estão altivos sobre os seus lugares elevados e eles falam sobre a “multidão vulgar”, e desprezam os piedosos da terra. Quanto às raças estrangeiras, quão levemente eles O estimam, embora o Deus único fez a todos eles! Populações e nações, o que são? Mera comida para o pó quando uma nação orgulhosa é estabelecida sobre o seu próprio engrandecimento. Derrubam seus reinos, abatem seus defensores patrióticos, avermelham a terra com sangue, queimam suas casas, fazem passar fome as suas mulheres e crianças. Deus não os conhece e não há ali julgamentos do Altíssimo?

Nós somos um grande povo, e temos homens, navios e dinheiro. Quem nos convocaria a prestar contas? No entanto, deixem a, ainda, pequena voz, ser ouvida! Assim diz o Senhor para uma grande nação do passado: “Porque confiaste na tua maldade e disseste: Ninguém me pode ver; a tua sabedoria e o teu conhecimento, isso te fez desviar, e disseste no teu coração: Eu sou, e fora de mim não há outra. Portanto sobre ti virá o mal, sem que saibas a sua origem, e tal destruição cairá sobre ti, sem que a possas evitar; e virá sobre ti de repente desolação que não poderás conhecer” [Isaías 47:10-11]. De tais castigos, bom Senhor, livrai-nos! Quando o Senhor coloca as mãos à obra de vingança, Sua matança será terrível, mesmo até uma derrota total, pois fará cair um uma matança sobre a cabeça!

Se Ele não ferir os Seus inimigos até a hora da morte, que golpe eles receberão a seguir! Eles se gabam de sua justiça própria, ou de sua grandeza, mas, oh, o terror os agarrará, no último momento; enquanto eles sonham com o céu, eles são lançados para dentro da insondável profundidade, onde, ali, receberão a recompensa eterna de sua rebelião audaz contra o seu Rei! Guerreiros da antiguidade, quando iam para a batalha, muitas vezes raspavam todo o cabelo, exceto aqueles cachos que estão na parte de trás do couro cabeludo. No entanto, quando se viravam para fugir frequentemente acontecia que eles eram agarrados por seus perseguidores pela sua cabeleira! Deus não costuma pegar os ímpios pelo topete, pois Ele tem muita paciência e tolerância com eles. Em casos especiais, como quando os homens jovens por meio de hábitos dissipados apressam a sua condenação, ele os toma pela frente, mas como regra, Ele espera para ter misericórdia. E mesmo assim Ele os suporta enquanto eles permanecem impunes, pois por fim, Ele agarra o seu crânio cabeludo. Se por oitenta anos a infinita paciência permitiu que um homem continue em sua rebelião, contudo se ele continua em suas culpas, ao fim, Deus deve enfiar a mão em seu crânio cabeludo e o agarrará para a sua própria destruição!

Convertei-vos, sim, vocês que não conhecem a Deus! Convertam-se diante de Sua repreensão, nesta manhã, pois a repreensão significa amor! E se eu usei palavras duras, é porque o meu coração está honestamente ansioso que vocês se arrependam e escapem para Aquele que tem em Seu poder os livramentos da morte! Eu não sou como os bajuladores acolá que lhe dizem que há um pequeno inferno e um pequeno deus, de onde vocês naturalmente inferem que podem viver como quiserem. Ambos você e eles perecerão eternamente, se acreditarem neles! Há um inferno terrível, pois há um Deus justo!

Convertei-vos a Ele, suplico-vos, enquanto ainda, em Cristo Jesus, Ele coloca a misericórdia diante de vocês! Ele é o Deus da salvação e suplica-lhes para que venham e aceitem a Sua grande graça em Cristo Jesus. Que o Senhor abençoe esta palavra de acordo com Sua própria mente e a Ele seja o louvor, para sempre e sempre. Amém.

 

[Adaptado de A coleção de CH Spurgeon, Versão 1.0, Ages Software, 1.800.297.4307]


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♦ Fonte: Spurgeongems.org | Título Original: The Royal Prerogative
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida e Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão por William Teixeira


A Bem-Aventurança da Eleição de Deus – Arthur Walkington Pink

Em primeiro lugar, a doutrina da eleição magnifica o caráter de Deus. Ela exemplifica a Sua graça. A Eleição torna conhecido o fato de que a salvação é dom gratuito de Deus, gratuitamente concedido a quem Ele quer. Isso deve ser assim, pois aqueles que a recebem são eles próprios não diferentes e nem melhores do que aqueles que não a recebem. A eleição permite que alguns vão para o inferno, para mostrar que todos mereciam morrer. Mas a graça vem como um arrastão e atrai de uma humanidade arruinada um pequeno rebanho, para ser por toda a eternidade o monumento de soberana misericórdia de Deus. Ela exibe Sua onipotência. A eleição torna conhecido o fato de que Deus é todo-poderoso, governando e reinando sobre a terra, e declara que ninguém pode resistir com êxito à Sua vontade ou frustrar Seus propósitos secretos. A eleição revela Deus quebrando a oposição do coração humano, subjugando a inimizade da mente carnal, e com poder irresistível atraindo os Seus escolhidos para Cristo. A eleição confessa que “nós O amamos porque Ele nos amou primeiro”, e que nós cremos, porque Ele nos fez mui voluntários no dia do Seu poder (Salmos 110:3).

A doutrina da eleição atribui toda a glória a Deus. Ela não permite qualquer crédito para a criatura. Ela nega que o não-regenerado seja capaz de predizer um pensamento reto, gerar uma afeição correta ou originar uma volição certa. Ela insiste que Deus deve operar em nós tanto o querer como o efetuar. Ela declara que o arrependimento e a fé são eles próprios dons de Deus, e não algo que o pecador contribui para o preço da sua salvação. Sua linguagem é: “Não a nós, SENHOR, não a nós”, mas “Àquele que nos amou e nos lavou de nossos pecados em seu próprio sangue”. Esses parágrafos foram escritos por nós há quase um quarto de século, desde então, e até o dia de hoje nós nem os rescindimos nem os modificamos.

“O Senhor faz distinções entre os homens culpados de acordo com a soberania de Sua graça. “Porque eu não tornarei mais a compadecer-me da casa de Israel, mas tudo lhe tirarei. Mas da casa de Judá me compadecerei”. Judá não havia pecado também? Não poderia o Senhor ter desistido de Judá? Na verdade, Ele poderia justamente tê-lo feito, mas Ele se deleita na benignidade. Muitos pecaram, e justamente trouxeram sobre si mesmos o castigo devido pelo pecado: eles não creem em Cristo, e morrem em seus pecados. Mas Deus tem misericórdia, de acordo com a grandeza do Seu coração, de muitos que não podem ser salvos em qualquer outro fundamento, senão desta misericórdia imerecida. Alegando Seu direito real, Ele diz: ‘Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia’. A prerrogativa de misericórdia é exercida pela soberania de Deus, esta prerrogativa que Ele exerce, Ele concede onde Ele quer, e Ele tem o direito de fazê-lo, já que ninguém tem qualquer direito sobre Ele” (C. H. Spurgeon: “A Salvação do Próprio Senhor”, um Sermão em Oséias 1:7).

O que foi exposto acima torna suficientemente claro que não é coisa leve rejeitar esta parte abençoada da verdade eterna; não, é uma questão mui solene e séria fazer isso. A Palavra de Deus não nos é dada para selecionarmos e escolhermos, para destacarmos as partes que apelam para nós, e desprezar tudo o que em si não elogia a nossa razão e sentimentos. Ela nos é dada como um todo, e por ela cada um de nós ainda será julgado. Rejeitar a grande verdade que estamos aqui tratando é o cúmulo da impiedade, repudiar a eleição de Deus é repudiar o Deus da eleição. É uma recusa a se curvar diante de Sua elevada soberania. É o pregador corrupto opondo-se contra o santo Criador. É o orgulho presunçoso que insiste em ser o determinante de seu próprio destino. É o espírito de Lúcifer, que disse: “Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono… Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo” (Isaías 14:13-14).

Em segundo lugar, a bem-aventurança dessa doutrina aparece em que tudo é importante no plano da salvação. Considere isto, primeiro, do lado Divino. A apresentação Escriturística desta grande verdade é indispensável se os atos distintivos do Deus Triuno em matéria de salvação devem ser reconhecidos, honrados e confessados. A salvação não procede de uma só Pessoa Divina, mas igualmente das três Pessoas Eternas. Jeová, então, ordenou as coisas de forma que cada um na Divindade deve ser magnificado e glorificado igualmente. O Pai é tão real e verdadeiramente o Salvador do Cristão como é o Senhor Jesus, e assim também é o Espírito Santo, note como o Pai é expressamente designado “Deus, nosso Salvador” em Tito 3:4, como distinto de “Jesus Cristo, nosso Salvador” no versículo 5. Mas isso é ignorado e perdido de vista, se esta doutrina preciosa for omitida. A Predestinação pertence ao Pai, a propiciação ao Filho, a regeneração ao Espírito. O Pai originou, o Filho efetuou nossa salvação, e pelo Espírito ela é consumada. Repudiar o primeiro é retirar o próprio fundamento.

Considere isso, agora, do lado humano: a eleição está na própria base da esperança de um pecador. Por natureza, todos são filhos da ira. Na prática, todos se desviaram. O mundo inteiro tornou-se culpado diante de Deus, todos estão expostos à ira, e se deixados a si mesmos estariam envolvidos em uma ruína comum. Eles são “barro da mesma massa”, e continuando sob a mão formadora da natureza seriam todos “vasos para desonra” (Romanos 9:21). Que quaisquer que são salvos, é pela graça de Deus (Romanos 11:4-7). Jesus Cristo, o redentor dos pecadores, Ele mesmo é o Eleito, como descrito pelo profeta (Isaías 42:1). E todos os que alguma vez serão salvos, são eleitos nEle, dados a Ele pelo Pai, escolhidos nEle antes da fundação do mundo. Foi para realizar a salvação que Deus entregou o Seu Filho unigênito, e que Jesus Cristo assumiu a nossa natureza e deu Sua vida em resgate.

É para chamar os eleitos que as Escrituras são dadas, que os ministros são enviados, que o evangelho é pregado, e que o Espírito Santo está aqui. É para realizar a eleição que os homens são ensinados por Deus, atraídos pelo Pai, regenerados pelo Espírito Santo, feitos participantes da fé preciosa, dotados com o espírito de adoção, o espírito de oração e o espírito de santidade. É em consequência de sua eleição que os homens são feitos obedientes ao evangelho, são santificados pelo Espírito, e tornam-se santos e irrepreensíveis diante de Deus. Se não houvesse eleição Divina, não haveria salvação Divina. E isso não é uma afirmação meramente arbitrária de nossa parte: “E como antes disse Isaías: Se o Senhor dos Exércitos nos não deixara descendência, Teríamos nos tornado como Sodoma, e teríamos sido feitos como Gomorra” (Romanos 9:29). Pecadores perdidos não podem se salvar. Deus não tinha nenhuma obrigação de salvá-los. Se Ele Se agradou em salvar, Ele salva a quem quer.

A eleição não apenas está no fundamento da esperança de um pecador, mas também acompanha cada passo do progresso do cristão para o céu. Traz-lhe as boas novas de salvação. Ela abre seu coração para receber o Salvador. Ela é vista em cada ato de fé, em cada dever sagrado, e em cada oração eficaz. Ela o chama. Ela o vivifica em Cristo. Ela adorna a sua alma. Ela o coroa com justiça e vida e glória. Ela contém em si a garantia preciosa que “aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo” (Filipenses 1:6). Não havia nada neles que levou Deus a escolhê-los como Seu povo; e Ele então lida com eles, para não permitir que qualquer coisa neles ou a partir deles leve-os a reverter essa escolha. Como Romanos 8:30 então definitivamente indica, a predestinação envolve glorificação e, portanto, garante o suprimento de todas as necessidades dos escolhidos entre os dois.

Em terceiro lugar, a bem-aventurança dessa doutrina aparece em seus elementos essenciais. Destacaremos três ou quatro dos principais dentre estes. Em primeiro lugar, a honra superlativa de ser escolhido por Deus. Em todas as escolhas que a pessoa faz, coloca um valor sobre o escolhido. Pois, ser selecionado por um rei a um ofício, ou ser chamado para algum emprego pelo Estado, isso dignificará um homem. Assim ocorre nos assuntos espirituais. Foi um elogio especial sobre Tito que ele havia sido “escolhido das igrejas” (2 Coríntios 8:19). Mas que o grande Deus, o potentado bendito e único, escolha essas criaturas miseráveis, desprezíveis, inúteis e vis como nós somos, excede todo o entendimento. Pondere em 1 Coríntios 1:26-29, e veja como isso está ali colocado. Como isso deve nos maravilhar. Como isso deve nos humilhar. Observe como essa ênfase honrosa é colocada sobre o Senhor Jesus: “Eis o meu servo, a quem escolhi” (Mateus 12:18); assim sobre Seus membros também: “por causa dos eleitos que escolheu” (Marcos 13:20).

Mais uma vez; a consequente excelência disso. Eles são os eleitos: os que Deus escolheu, e isso não lhes confere, necessariamente, excelência elevada, valiosa, honrosa? Os escolhidos de Deus, devem ser excelentes; é o ato de Deus que os torna assim. Observe a ordem em 1 Pedro 2:6: “pedra angular, eleita e preciosa”, preciosa porque eleita. Pegue o mais eminente dos santos de Deus, e qual é o seu maior título e honra? Este: “Por amor de Davi, meu servo, a quem escolhi” (1 Reis 11:34). “Enviou Moisés, seu servo, e Arão, a quem escolhera” (Salmos 105:26). Paulo “este é para mim um vaso escolhido” (Atos 9:15). “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido” (1 Pedro 2:9), ou seja, eleitos. Essa expressão é retirada de “sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos” (Êxodo 19:5). Isso implica o que é precioso a Deus: “Visto que foste precioso aos meus olhos, também foste honrado, e eu te amei” (Isaías 43:4).

Mais uma vez, observe a plenitude desse alto privilégio. “Bem-aventurado aquele a quem tu escolhes, e fazes chegar a ti, para que habite em teus átrios” (Salmos 65:4); sim, ele é “abençoado para sempre” (Salmos 21:6), ou como o Hebraico o apresenta: “separado para bênçãos”, isto é, separado ou nomeado para nenhuma outra coisa, senão para bênçãos. Como o Novo Testamento expressa, “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; Como também nos elegeu nele” (Efésios 1:3-4). Eleição, então, é a fonte do tesouro de toda bem-aventurança. Os eleitos são escolhidos para uma maior aproximação e união a Deus que é possível para as criaturas, para a maior comunhão com Ele próprio. Considere também o tempo em que Ele nos escolheu. Paulo o data: “o princípio” (2 Tessalonicenses 2:13). Deus nos amou desde que Ele era Deus, e enquanto Ele for Deus, Ele continuará a fazê-lo. Deus é desde a eternidade e Ele continua sendo Deus pela eternidade (Samos 90:2), e Seu amor por nós é muitíssimo antigo: “Com amor eterno te amei” [Jeremias 31:3]. E o Seu amor é como Ele mesmo: sem causa, imutável, infinito.

A bem-aventurança da eleição aparece novamente na comparativa raridade dos eleitos. A escassez de homens desfrutando algum privilégio o magnifica, como no caso da preservação de Noé e sua família: “a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram” (1 Pedro 3:20). Que contraste foi isso, em relação a todo o mundo “dos ímpios”, pois todos pereceram! O mesmo fato e contraste foram enfatizados por Cristo em Lucas 12: “Porque as nações do mundo buscam todas essas coisas” (v. 30), ou seja, as coisas temporais e carnais, e Deus concede as tais para eles. Mas, em oposição a isso, o Senhor diz: “Não temais, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino” (v. 32). Seu propósito era mostrar a mais grandiosa misericórdia de Deus, que tão poucos são reservados aos favores espirituais e eternos, enquanto todos os outros têm apenas coisas materiais e temporais como a sua porção.

Como esse fato solene deve afetar os nossos corações. Volte seus olhos, caro leitor, sobre o mundo de hoje, e olha para ele, o que você contemplará? Você não é compelido a dizer sobre a atual geração, em todas as nações semelhantemente, que Deus deixou-os a caminhar “em seus próprios caminhos?”. Não devemos concluir tristemente sobre os homens e mulheres desta época que “todo o mundo está no maligno” (1 João 5:19)? O número escasso dos que são de Deus, são, na verdade poucos semeados, um pequeno punhado colhido em comparação com toda a grande safra da humanidade. E que não seja esquecido que o que parece agora diante de nossos olhos, é apenas a realização daquilo que foi preordenado na eternidade. Não há um Deus desapontado e derrotado no trono do universo. Ele tem o Seu caminho “na tormenta e na tempestade” (Naum 1:3).

E mais uma vez nós dizemos o quão profundamente esse contraste surpreendente deve afetar nossos corações. “Pois alguns serem escolhidos e salvos, quando uma multidão, sim, a generalidade dos outros devem padecer a perecer, como isso aumenta a misericórdia e a graça da salvação para nós; pois Deus, em Sua providência ordenou muitos meios exteriores para resgatar alguns, os quais Ele nega aos outros, que perecem. Como isso deve afetar as pessoas que são preservadas? Quanto mais quando essa é “uma tão grande salvação” (Thomas Goodwin). Isso aparece a partir do que eram tipos e meras sombras disso nos tempos do Antigo Testamento, como no caso de somente a única e pequena família de Noé sendo poupada do dilúvio universal. Assim, também, pelo exemplo de Ló, retirado de Sodoma pela mão dos anjos. E por quê? “Sendo-lhe o Senhor misericordioso”, diz Gênesis 19:16. Observe que profundo senso e valorização que Ló teve sobre o mesmo: “Eis que agora o teu servo tem achado graça aos teus olhos, e engrandeceste a tua misericórdia que a mim me fizeste, para guardar a minha alma em vida” (Gênesis 19:19).

Porém, há mais isso a ser considerado: a nossa libertação de uma condição de semelhante miséria e ira, como a que pertence ao não-eleito, que não está mencionada nos casos acima. Noé era “homem justo e perfeito em suas gerações” (Gênesis 6:9), e Ló era “justo” e “enfadado da vida dissoluta dos homens abomináveis” (2 Pedro 2:7-8). Eles não eram culpados daqueles pecados terríveis pelos quais Deus enviou aos seus semelhantes a inundações e incêndios. Mas quando nós somos ordenados para a salvação, estamos diante de Deus em uma condição de semelhante corrupção e culpa como toda a humanidade. Foi apenas o decreto soberano de um Deus soberano que determinou o nosso ser trazido para fora de um estado de pecado e ira, para um estado de graça e justiça. Quão estupenda, então, foi a misericórdia de Deus para conosco, em fazer esta diferença (1 Coríntios 4:7) entre aqueles em que não havia “nenhuma diferença” (Romanos 3:22)! Oh, que amor, que obediência de todo o coração, que louvor é devido a Ele.

Em quarto lugar, a bem-aventurança dessa doutrina aparece em que uma verdadeira apreensão da mesma é um grande promotor da santidade. De acordo com o propósito Divino, os eleitos são destinados a uma santa vocação (2 Timóteo 1:9). Na realização desse propósito, eles são real e efetivamente trazidos à santidade. Deus os separa de um mundo ímpio. Ele escreve no coração deles a Sua Lei e afixa neles o Seu selo. Eles são feitos participantes da natureza Divina, sendo renovados à imagem dAquele que os criou. Eles são uma habitação de Deus, seus corpos se tornam o templo do Espírito Santo, e eles são conduzidos por Ele. Uma mudança gloriosa é, portanto, neles operada, transformando seu caráter e conduta. Eles lavam as suas vestiduras e as branqueiam no sangue do Cordeiro. Para eles, as coisas velhas já passaram e tudo se fez novo. Esquecendo-se das coisas que atrás ficam, eles prosseguem para as coisas que estão diante. Eles são reis e sacerdotes para Deus e, ainda serão adornados com coroas de glória.

Há aqueles que, em sua ignorância, dizem que a doutrina da eleição é uma doutrina licenciosa, que a crença nela é avaliada algo que leva a produzir descuido e uma sensação de segurança no pecado. Essa acusação é uma reflexão blasfema sobre o seu autor Divino. Esta verdade, como nós mostramos longamente, ocupa um lugar de destaque na Palavra de Deus, e esta Palavra é santa, e toda ela útil para a instrução na justiça (2 Timóteo 3:16). Todos e cada um dos apóstolos criam e ensinavam essa doutrina, e eles foram os promotores de piedade e não incentivadores da vida relaxada. É verdade que esta doutrina, como todas as outras Escrituras, pode ser pervertida por homens ímpios e colocada em mau uso, mas até agora, enquanto militando contra a verdade, isso apenas serve para demonstrar a temível extensão da depravação humana. Nós também admitimos que homens não-regenerados podem intelectualmente defender essa doutrina e, em então, fundarem-se em uma inércia fatal. Mas nós enfaticamente negamos que uma recepção dela, de coração, produzirá qualquer efeito tal como este.

Que fé, obediência, santidade são as consequências inseparáveis e frutos da eleição é inequivocamente claro a partir das Escrituras (Atos 13:48; Efésios 1:4; 1 Tessalonicenses 1:4-7, Tito 1:1), e tem sido totalmente estabelecido por nós nos capítulos anteriores. Como pode ser de outra forma? A eleição sempre envolve regeneração e santificação, e quando uma alma regenerada e santificada descobre que ela deve a sua renovação espiritual unicamente à soberana predestinação de Deus, como ela pode ser, senão verdadeiramente agradecida e profundamente grata? E de que outra maneira ela pode expressar sua gratidão, do que em um santo caminhar de obediência frutífera? Uma apreensão do amor eterno de Deus por ela necessariamente despertará nela um amor sensível a Deus, e onde quer que este exista, haverá um esforço sincero para agradá-lO em todas as coisas. O fato é que um sentido espiritual da distintiva graça de Deus é o mais poderoso motivo de constrangimento para a piedade genuína.

Se entrássemos em detalhes sobre os principais elementos da santidade neste capítulo, isso seria prorrogado por tempo indeterminado. Uma devida atenção ao fato de que não havia nada em nós que moveu Deus para fixar Seu coração sobre nós, e que Ele nos previu como criaturas arruinadas e merecedores do inferno, humilhará as nossas almas como nada mais o fará. A compreensão espiritual que todos os nossos interesses estão inteiramente à disposição de Deus, operará em nós uma submissão à Sua vontade soberana como nada mais pode. A percepção crente que Deus colocou Seu coração sobre nós desde a eternidade, nos escolhendo para ser Seu tesouro peculiar, operará em nós um desprezo pelo mundo. O conhecimento de que outros Cristãos são os eleitos e amados de Deus evocará amor e bondade por eles. A garantia de que o propósito eterno de Deus é imutável e assegura o suprimento de todas as nossas necessidades comunicará consolo sólido em cada tribulação.

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♦ Este texto  é capítulo 10 do livro The Doctrine of Election, por A. W. Pink. Editado.
♦ Fonte: Pbministries.org | Título Original: The Doctrine of Election
♦ As citações bíblicas desta tradução são da versão ACF (Almeida Corrigida Revisada Fiel)
♦ Tradução por Camila Almeida │ Revisão e Capa por William Teixeira


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